Versão online: http://www.lneg.pt/iedt/unidades/16/paginas/26/30/125 Comunicações Geológicas (2012) 99, 1, 5-10 ISSN: 0873-948X; e-ISSN: 1647-581X Geotermómetro de Ga/Ge em Esfalerite - Aplicação ao Jazigo do Braçal Ga/Ge in Sphalerite Geothermometer - Aplication to Braçal Deposit C. Marques de Sá1*& F. Noronha1 Artigo original Original article Recebido em 7/06/2011 / Aceite em 28/10/2011 Disponível online em Janeiro de 2012 / Publicado em Junho de 2012 © 2012 LNEG – Laboratório Nacional de Geologia e Energia IP Resumo: A determinação das temperaturas dos fluidos mineralizantes dos jazigos hidrotermais filonianos de Pb-Zn do Complexo Mineiro do Braçal foi efectuado com base em estudos de inclusões fluidas, principalmente nos minerais da ganga que acompanham a mineralização. Para complementar e comparar com os resultados obtidos para temperaturas de homogeneização em inclusões fluidas foi utilizado o geotermómetro do Ga/Ge em esfalerites destes jazigos. Este método descrito por Möller (1985, 1987) relaciona as razões Ga/Ge da esfalerite com os fluidos que estiveram na sua origem. Este método, conjuntamente com o estudo de inclusões fluidas, é útil na determinação das temperaturas dos fluidos mineralizantes e permite igualmente comparar ou validar os resultados entre si. Os resultados obtidos para os intervalos de valores das temperaturas de mineralização, evidenciam uma grande semelhança em ambos os métodos, sendo a razão Ga/Ge útil na confirmação e constrição das temperaturas mais elevadas. Palavras-chave: geotermómetro Ga/Ge, inclusões fluidas, jazigos de PbZn, Complexo Mineiro do Braçal. Abstract: Fluid inclusion studies were conducted on gangue minerals and sphalerite in the Pb-Zn hydrothermal vein deposits of the Complexo Mineiro do Braçal, in order to determine temperatures of mineralizing fluids. In order to complement and compare the data obtained for homogenisation temperatures in fluid inclusions, we applied the Ga/Ge geothermometer in sphalerites of the same deposits. This method described by Möller (1985, 1987) relates the Ga/Ge ratios to the temperature of the initial fluids from which the sphalerite crystallized. It is a useful method together with fluid inclusion analysis for ascertaining the mineralizing fluids temperatures, and comparing or validating the results of both methods. Results obtained from both methods give very similar ranges of temperatures for the mineralizing fluids. Ga/Ge ratios helped constraining the higher temperatures of the mineralizing process. Keywords: Ga/Ge geothermometer, fluid inclusions, Pb-Zn deposits, Braçal Mining Complex. 1 Centro de Geologia da Universidade do Porto, Rua do Campo Alegre, 4169-007, Porto. *Autor correspondente / Corresponding author: [email protected] 1. Introdução A presente contribuição reporta-se a estudos realizados no Complexo Mineiro do Braçal (CMB), constituído por um conjunto de três jazigos hidrotermais filonianos de chumbo e zinco (Marques de Sá, 2008). Com vista à descrição da sua génese procedeu-se a uma caracterização mineralógica e geoquímica destes jazigos. Uma das questões importantes nos estudos metalogénicos é a determinação da temperatura dos fluidos mineralizantes no momento de deposição dos minerais. Utilizaram-se neste estudo vários métodos analíticos diferentes, com particular destaque para a microtermometria de inclusões fluidas em dolomites e esfalerites e o geotermómetro Ga/Ge em esfalerites, este último descrito por Möller (1985, 1987). De acordo com Möller (1985, 1987), o geotermómetro de Ga/Ge em esfalerite, é um método que pode complementar os dados termométricos obtidos a partir de estudos de IF. Este geotermómetro baseia-se na relação geoquímica existente entre os pares de elementos Al-Ga e Si-Ge, nas rochas e soluções mineralizadoras. A dependência da temperatura da razão Al/Si e por consequência da razão Ga/Ge permite obter uma estimativa da temperatura das soluções hidrotermais. Existe uma proporção atómica constante entre estes pares de elementos, nos mais diversos tipos de ambientes (Möller, 1985, 1987; Wood & Samson, 2006). Este facto aponta para que, durante as interacções fluido-rocha, as proporções atómicas Ga/Al e Ge/Si dos fluidos não se alterem significativamente, o que significa que abaixo dos 300ºC o conteúdo em elementos menores é controlado pelos elementos maiores aos quais estão quimicamente associados (Möller, 1987; Wood & Samson, 2006). As razões Ga/Ge nas esfalerites são assim um reflexo das que existiam nas soluções parentais (Möller, 1985). Esta relação, no caso do Ge, prende-se com o facto de que em condições de baixo potencial redox e elevada concentração do S, o Ge é bivalente, substituindo isomorficamente o Zn e Fe nos sulfuretos, como a esfalerite (Grigoriev et al., 1964; Höll et al., 2007). Estas propriedades calcófilas do Ge manifestam-se em jazigos do tipo hidrotermal. Assim como o Ge, que ocorre nos silicatos camuflado pelo Si, também o Ga se liberta dos silicatos, onde substitui o Al, integrando a composição das esfalerites (Papish et al., 1930; Brewer et al., 1955; Wood & Samson, 2006). 2. O Caso em Estudo O Complexo Mineiro do Braçal situa-se no distrito de Aveiro, a cerca de 60 Km do Porto. É constituído por três minas (Braçal, Malhada e Coval da Mó) onde foram explorados filões hidrotermais ricos em chumbo, zinco e prata. A exploração destes jazigos teve início em 1836, e cessou completamente em 1972 (Marques de Sá, 2008). O sistema de filões encontra-se encaixado em terrenos metassedimentares pertencentes ao Complexo Xisto-Grauváquico do Grupo das Beiras de idade ante-Ordovícica (Fig. 1). Os filões apresentam-se geralmente brechificados e multi-ramificados raramente atingindo uma possança superior a um metro. A Oeste 6 destes jazigos situa-se a falha Porto-Tomar, grande acidente tectónico, que nesta região tem uma direcção quase N-S e que se tem mantido activa desde a primeira fase da orogenia Varisca. Em tempos tardi-Variscos os campos de tensões actuantes geraram falhas e fracturas abundantes de direcções E-W, WNWESE e WSW-ENE. Por estas fracturas ascenderam as soluções mineralizadoras que deram origem aos jazigos em estudo. A associação mineral presente é bastante simples e consiste em galena, esfalerite, pirite, calcopirite, marcassite, dolomite, quartzo, siderite, ankerite, calcite e minerais de alteração supergénica como a anglesite. A galena, por vezes argentífera, era o principal mineral explorado nestes jazigos. A sequência paragenética (Marques de Sá, 2008; Marques de Sá & Noronha, 2011) resultou de três fases de deposição: na 1ª fase depositou-se quartzo I, pirrotite, pirite I, esfalerite I, calcopirite I e siderite; na 2ª fase depositou-se o essencial da mineralização sendo os minerais presentes ankerite, Fe-dolomite, dolomite, galena, pirite II, esfalerite II, quartzo II; e por último a 3ª fase que se caracteriza pela ocorrência de melnicovite, marcassite, anglesite, calcopirite II, massicot (PbO), calcite, aragonite e hidróxidos de Fe. A dolomite, principal mineral da ganga, é contemporânea da galena na fase principal de mineralização (fase 2), sendo geralmente esparítica e com zonamentos de crescimento dispostos desde o centro dos cristais, que apresentam composição ankerítica (Mg/Fe<4), até às zonas mais exteriores de composição dolomítica (Marques de Sá, 2008; Marques de Sá & Noronha, 2011). C. Marques de Sá et al. / Comunicações Geológicas (2012) 99, 1, 5-10 3. Métodos e técnicas analíticas de investigação Para além dos métodos de microscopia óptica de transmissão e reflexão utilizaram-se os seguintes métodos analíticos: Difracção de Raios-X A análise por difracção de raios-X (DRX) foi efectuada em amostras de esfalerite I da mina do Braçal conforme apresentado em Marques de Sá & Noronha (2007). Foi para o efeito utilizado o difractómetro Rigaku Miniflex do laboratório do CGUP (Centro de Geologia da Universidade do Porto) e o difractómetro Panalytical X’Pert Pro do laboratório do LNEG (Laboratório Nacional de Energia e Geologia – polo de São Mamede de Infesta, Porto). O difractómetro do CGUP está equipado com um feixe automático de divergência, com radiação de incidência do tipo CuKα (λ = 1,5405Å) (15mA, 30 kV), filtro de Ni e com monocromatização não completa. O registo dos difractogramas foi obtido numa faixa de 4 – 70º (2θ) e um tempo de contagem de 1s para cada 0.01º (2θ). Inclusões Fluidas O estudo das inclusões fluidas (IF) tem como objectivo identificar os parâmetros p-V-T-x (pressão de aprisionamento, volume, temperatura de aprisionamento, composição química) dos fluidos aprisionados em defeitos estruturais dos cristais, cavidades e fracturas do mineral hospedeiro. As IF são um meio directo de análise das soluções que estiveram na génese dos minerais hospedeiros, bem como de processos posteriores. Podem classificar-se geneticamente, segundo os critérios de Roedder (1984) em três tipos: P – primárias; S – Secundárias; PS – Pseudosecundárias. Adopta-se também no presente estudo, uma classificação que discrimina em função de características texturais petrográficas, o modo de ocorrência das inclusões (Van den Kerkhof & Hein, 2001). As IF podem ocorrer isoladas, em grupos (enxames ou clusters), ou definindo alinhamentos rectilíneos ou planares (trails). Para determinação das condições p-V-T-x, podem realizar-se análises por métodos destrutivos ou por métodos não destrutivos. No presente estudo foi utilizado um método não destrutivo: o estudo microtermométrico. A microtermometria consiste na determinação da temperatura a que ocorrem mudanças de fases nas IF, através do seu arrefecimento e aquecimento. Este método contempla duas operações a criometria e a termometria. No Centro de Geologia da Universidade do Porto (CGUP) utiliza-se para a criometria um microscópio Olympus com objectiva máxima de 80x e oculares de 12x, equipado com uma platina de arrefecimento Chaixmeca, que funciona através da circulação de azoto líquido no circuito do porta-amostras da platina. A termometria consiste em fazer o aquecimento da amostra que contém a IF. No laboratório do C.G.U.P. utiliza-se um microscópio Nikon OPTIPHOT-POL equipado com uma platina de aquecimento Linkam TH600, com sistema de refrigeração a água. A calibração dos aparelhos é feita mensalmente utilizando o set de padrões SynFlinc. Análise por Microssonda Electrónica Fig.1. Mapa geológico da região onde se localiza o Complexo Mineiro do Braçal baseado em Oliveira et al. (1992) e Chaminé (2000). Fig.1. Simplified geological map of the region where the Braçal Mining Complex is located based on Oliveira et al. (1992) and Chaminé (2000). As análises por microssonda electrónica (EPMA - WDS) foram realizadas nos laboratórios do LNEG do Porto. Foi utilizada a microssonda electrónica JEOL JXA 8500-F. As análises foram realizadas nas seguintes condições: voltagem de aceleração de 20 kV e intensidade de corrente do feixe de 20 nA, sendo utilizados padrões naturais para cada elemento, tendo sido utilizado o método de correcção ZAF. Geotermómetro de Ga/Ge Com este método foi possível identificar e quantificar as concentrações dos elementos químicos nos minerais analisados. Apenas foram utilizados resultados de análises cujos totais eram de 100 % (±1,5%), excepto nos casos dos hidróxidos, carbonatos e sulfatos. 4. Resultados e Discussão 4.1. Análise por DRX e Microssonda Electrónica de Amostras de Esfalerite Existem dois tipos de esfalerite, uma que ocorre geralmente sob a forma de agregados fibrosos esferoidais de cor castanho-escuro (esfalerite I); outra que ocorre em cristais de tom vermelho escuro (esfalerite II) no seio de dolomite branca com textura sacaróide. Estas duas gerações distintas de esfalerite, classificadas como I e II em estudos anteriores (Marques de Sá, 2004, 2008) foram objecto de estudo detalhado. A esfalerite I ocorre sob a forma de agregados e massas esferoidais de estrutura acicular, tendo sido inicialmente classificada como wurtzite (Neves Cabral, 1859, 1889; Jesus, 1930; Palache et al., 1944), um polimorfo do sulfureto de zinco, de estrutura cristaloquímica dihexagonal-piramidal. Estudos por DRX permitiram confirmar que se trata de facto de esfalerite (Marques de Sá & Noronha, 2007). A esfalerite II apresenta diferenças macroscópicas, microscópicas e químicas relativamente à esfalerite I. Ocorre geralmente no seio de dolomite sacaróide em pequenos cristais euédricos a subédricos de cor castanha alaranjada a avermelhada. É contemporânea da dolomite e da galena, correspondendo a uma geração posterior à esfalerite I (Figura 2). Com recurso à microssonda electrónica realizaram-se 16 análises de esfalerite I e 22 análises à esfalerite II. Os resultados encontram-se nas Tabelas 1 e 2, sendo de assinalar os teores de ferro da esfalerite I sempre superiores a 5 % em peso. A fórmula estrutural da esfalerite I é (Zn0,9Fe0,1) S1,00. 7 4.2. Inclusões Fluidas O estudo petrográfico das inclusões fluidas (IF) permitiu a identificação de IF primárias, pseudosecundárias e secundárias em dolomite e esfalerite I (Marques de Sá, 2008). O estudo microtermométrico de IF foi realizado em inclusões primárias aquosas bifásicas (Lw) pequenas (1 a 10µm) e secundárias um pouco maiores (>10µm) igualmente aquosas e bifásicas (Lw). De acordo com as observações petrográficas foram analisadas por microtermometria IF primárias em esfalerite II (B) (Fig. 3), primárias isoladas (PI) em ankerite-dolomite Fe, primárias em zonas de crescimento (Z1 e Z2) em dolomite e secundárias (S) em dolomite (Marques de Sá, 2008; Marques de Sá & Noronha, 2011). O estudo microtermométrico (Marques de Sá, 2008) permitiu definir três estádios de circulação de fluidos (Tabela 3): o primeiro fluido (F1) é um fluido “quente” (Th > 250°C) e salino (em média 22 % eq. em massa de NaCl) rico em CaCl 2, estando relacionado com a primeira fase paragenética rica em Fe e Zn (Tabela 3); o segundo fluido (F2) circulou a temperaturas entre os 250° C e os 100° C sendo também bastante salino (19% a 5,5% eq. em massa de NaCl). O terceiro fluido (F3) tem temperaturas de homogeneização baixas (70° a 100° C) e baixa salinidade (0,5 % eq. em massa de NaCl – Tabela 3). O estudo microtermométrico permite inferir que os fluidos presentes nas IF representam soluções de diferentes salinidades, F1 e F2 e F3 e que este último corresponde a um fluido mais diluído contribuindo para tal, muito provavelmente, a entrada de uma água superficial ou meteórica no sistema. A precipitação dos minerais da principal fase de mineralização, a 2ª fase, deu-se a temperaturas que variaram entre os 250º e os 100º C e foi catalisada pela imiscibilidade derivada da interacção de diferentes fluidos e abaixamento da temperatura dos mesmos. A presença de carbonatos em equilíbrio com sulfuretos (Fig. 2b-d) indica que o processo ocorreu a um pH próximo do neutro. Após esta fase ocorreu diluição e contínuo abaixamento da temperatura dos fluidos devido à entrada no sistema de fluidos de mais baixa temperatura que assumimos serem meteóricos e/ou superficiais. Fig.2. A) Amostras de esfalerite I em bruto e preparadas e polidas para observação microscópica; B) Amostra de mão do filão do Braçal com galena e esfalerite II em ganga dolomítica; C) Amostra observada à lupa em que se observa cristal de galena e esfalerite II em dolomite; D) Observação por microscopia de reflexão de galena, esfalerite II e dolomite cogenéticos, nicóis paralelos obj. 5x, escala 200 μm. Fig.2. A) Hand samples of sphalerite I and prepared and polished samples for microscopic observation; B) Hand sample of Braçal vein with galena and sphalerite II in dolomite gangue; C) Sample observed under the binocular microscope of a galena crystal and sphalerite II in dolomite; D) Sample observed by reflection microscopy of cogenetic galena, sphalerite and dolomite II, parallel polars obj. 5x, scale 200 microns. Fig.3. Inclusão Fluida primária em esfalerite I. Fig.3. Primary fluid inclusion in sphalerite I. 8 C. Marques de Sá et al. / Comunicações Geológicas (2012) 99, 1, 5-10 Tabela 1. Resultados de 16 análises em 6 amostras de esfalerite I. W –Braçal (“wurtzite”); M – Malhada; CM – Coval da Mó. Table 1. Results for 16 analysis in six samples of sphalerite I. W –Braçal (“wurtzite”); M – Malhada; CM – Coval da Mó. Tabela 2. Resultados de 22 análises em 4 amostras de esfalerite II. M – Malhada; CM – Coval da Mó. Table 2. Results of 22 analysis in four samples of sphalerite II, M – Malhada; CM – Coval da Mó. Tabela 3. Resumo dos resultados do estudo microtermométrico de IF. Flw – grau de preenchimento fase aquosa; Te – temperatura do eutéctico; Tfg – temperatura fusão do gelo; Tfhh – temperatura de fusão da hidrohalite; Th – temperatura de homogeneização. Tipo de IF: B – em esfalerite; PI – primárias isoladas; PZ1 – primárias em zonamentos 1; PZ2 – primárias em zonamentos 2; S – secundárias (Marques de Sá, 2008). Table 3. Summary of microthermometric results for studied FI. Flw - degree of filling of the aqueous phase; Te - eutectic temperature; Tfg - melting temperature of ice; Tfhh hidrohalite melting temperature, Th - temperature of homogenization. Type of FI: B – in sphalerite; PI – isolated primary; PZ1 – primary in zonings 1; PZ2 – primary in zonings 2; S – secondary (Marques de Sá, 2008). Geotermómetro de Ga/Ge 4.3. Geotermómetro Ga/Ge Para efeito deste estudo geotermométrico procurámos nas análises realizadas, obter valores para teores em Ga e Ge nas esfalerites dos jazigos estudados. Apenas em três das amostras estudadas (W1.3, W2.3 e W2.4) foram detectados simultaneamente teores para estes dois elementos. Estas três amostras, W1.3, W2.3 e W2.4, são de esfalerite I. Nas esfalerites, principalmente do tipo I, onde apenas se detecta a presença de um destes elementos (Ga ou Ge), as concentrações determinadas são comparáveis e da mesma ordem de grandeza, daquelas obtidas nas três análises em que ambos os elementos foram quantificados (Tabela 1). A aplicação deste geotermómetro resulta do cálculo do seguinte logaritmo: log [(Ga/Ge)f] ≡ log [(Ga/Ge)sph] Note-se que: f - fluido mineralizador; sph - esfalerite. Determinando os valores de log(Ga/Ge) para as análises W1.3, W2.3 e W2.4, obtemos: W1.3 = 1,70; W2.3 = 0,23; W2.4 = 0,025. Estes valores aplicados ao gráfico do geotermómetro de Ga/Ge, baseado nos geotermómetros de Al/Si, e neste caso ao da muscoviteclorite-quartzo, dado o grau de metamorfismo na formação em que o jazigo se encontra, resultam nos seguintes valores de temperaturas: W1.3 = 256ºC; W2.3 = 206ºC; W2.4 = 197ºC. Na figura 4 apresentamos a projecção das análises no respectivo gráfico que correlaciona a razão Ga/Ge com a temperatura. Este gráfico baseia-se nos geotermómetros já conhecidos para sistemas de Al/Si e em dados já publicados de razões de Ga/Ge em diversos sistemas geológicos (Möller, 1985, 1987). Os resultados para as razões Ga/Ge em esfalerite I dos jazigos estudados, vão de encontro aos valores obtidos para as temperaturas de homogeneização nos estudos de inclusões fluidas em minerais da ganga (e em três casos de IF em esfalerite II). 9 como sendo wurtzite), são as mais ricas em Ge. As diferenças de temperaturas observadas entre os dois geotermómetros estarão relacionadas com a mistura e circulação de fluidos tardios e/ou fluidos peri-superficiais (Möller, 1985, 1987). 4. Conclusões Através da determinação dos teores de gálio e germânio na esfalerite pode-se fazer uso do geotermómetro de Ga/Ge para determinação das temperaturas de deposição da esfalerite (Möller, 1985, 1987). O presente estudo demonstra a utilidade e vantagens da utilização do geotermómetro de Ga/Ge em esfalerites, na determinação das temperaturas a que se formam os jazigos filonianos hidrotermais de baixa temperatura e a sua conjugação com outros geotermómetros. Os valores das temperaturas de formação das esfalerites do CMB obtidos pelo geotermómetro de Ga/Ge situam-se entre 256° C e 197° C e são compatíveis com os resultados obtidos no estudo microtermométrico de inclusões fluidas em dolomite em que os valores encontrados indicam temperaturas mínimas que se situam entre os 220º e os 70ºC e uma análise de IF em esfalerite II que tem uma Th de 250ºC. O jazigo estudado apresenta semelhanças com outros jazigos hidrotermais filonianos de Pb-Zn como Freiberg na Alemanha ou Coeur d’Aléne nos E.U.A (Beaudoin & Sangster, 1992; Seifert & Sandman, 2006). A génese deste jazigo envolveu a abertura de fracturas de direcção E-W, WNW-ESE e WSW-ENE associados a episódios de deformação tardi-Variscos a eo-Alpinos, facilitando a posterior circulação dos fluidos mineralizantes através destas fracturas. A formação e deposição da paragénese mineral ocorreu na dependência da circulação de fluidos mineralizantes com distintas composições e temperaturas. Importa ainda referir a circulação tardia de um fluido, que assumimos como meteórico ou superficial. A fase principal de mineralização ocorreu então num intervalo de temperaturas que varia entre aproximadamente 250° C a 100° C. As condições de pH seriam próximas do neutro, como atesta a ocorrência de carbonatos e sulfuretos em estabilidade e cogenéticos (Anderson, 1973). Os resultados obtidos pelo método do geotermómetro de Ga/Ge foram utilizados na estimativa de uma pressão de aprisionamento Agradecimentos Os autores agradecem a utilização da microssonda e DRX ao LNEG do Porto e aos dois revisores anónimos; C. Marques de Sá agradece ainda à FCT que lhe concedeu a bolsa de doutoramento SFRH/BD/41035/2007. Referências Fig.4. Gráfico da dependência entre os teores de Ga/Ge em esfalerites e a temperatura. Pontos assinalam os valores obtidos para as análises W1.3, W2.3 e W2.4. Este gráfico resulta da conversão dos geotermómetros de Al/Si. A recta musc-clo-qtz é a do geotermómetro da clorite no sistema Si/Al (ver Möller, 1985, 1987). Fig.4. Graph of the dependence between Ga/Ge ratios in sphalerite and formation temperature. Dots are the results obtained from analysis W1.3, W2.3 and W2.4. This graph is based on existing Al/Si geothermometers. The musc-clo-qtz line is the chlorite geotermomether in the Si/Al system (see Möller, 1985, 1987). Os resultados obtidos apontam para temperaturas baixas de formação do jazigo, situando-se os valores extremos obtidos pelo método do Ga/Ge entre 197ºC e 256ºC. Cotelo Neiva (1956) considera que a presença de Ge é mais elevada em esfalerites e wurtzites de baixa temperatura, o que nos faz pensar no caso em estudo, em que as amostras de esfalerite I (classificada no passado Anderson, G.M., 1973. The Hydrothermal Transport and Deposition of Galena and Sphalerite Near 100ºC. Economic Geology, 68, 480-492. Beaudoin, G., Sangster, D.F., 1992. 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