ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 POR UMA EDUCAÇÃO ESTÉTICA CORPONECTIVA Odailso Berté, Irene Tourinho (UFG) Odailso Berté, Coreógrafo, dançarino e professor de dança contemporânea. É Doutorando em Arte e Cultura Visual / UFG, Mestre em Dança / UFBA, Especialista em Dança / FAP e Licenciado em Filosofia / UPF. Pesquisador com interesse em corpo, imagem, educação estética e dança. Foi professor no Curso de Educação Profissionalizante da Escola de Dança da Fundação Cultural do Estado da Bahia. E-mail: [email protected] Irene Tourinho, Professora Titular da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás, docente e coordenadora (2009/2013) do Programa de Pós-Graduação em Arte e Cultura Visual – Mestrado/Doutorado, doutora pela Universidade de Wisconsin – Madison (EUA) e pós-doutora pela Universidade de Barcelona, Espanha. Foi professora visitante nas Universidades de Barcelona, Espanha, e Ambedkar, Nova Delhi, Índia. E-mail: [email protected] Resumo: Este artigo entrecruza elementos da cultura visual e da dança enfocando relações entre corpo e imagem para refletir acerca de uma educação estética que, diferentemente de padrões educativos modernos, considera a estesia, a capacidade do corpo sentir e articular sentidos nas relações com o ambiente. Ao considerar esses elementos no ensino de arte, esta reflexão também questiona a compreensão de fenômenos, eventos e imagens apenas como visuais, pois eles envolvem todos os sentidos corporais que agem indissociadamente. Palavras chave: Corpo, Dança, Imagem, Educação Estética. FOR AN AESTHETIC EDUCATION BODYCONNECTIVE. Abstract: This article crosses elements of visual culture and dance focusing on relations between body and image to reflect on an aesthetic education that unlike modern educational standards considers aesthesia, the body’s ability to feel and articulate meanings in relations with the environment. When considering these elements in the teaching of art this reflection also questions the understanding of phenomena, events and image just as visual because they involve all the body senses that act jointly. Keywords: Body, Image, Dance, Aesthetic Education. http://portalanda.org.br/index.php/anais 1 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 Ao tecer entrecruzamentos entre cultura visual e dança, se vislumbra a proposição de uma educação estética que, por meio da consideração do corpo, dos sentidos corporais, da construção de sentidos e da relação corpo – ambiente, questiona e busca desestabilizar determinadas concepções modernistas que ainda predominam na arte-educação. Enfocando a relação corpo e imagem, esta reflexão aponta para possíveis modos de incluirmos nas aulas de arte outros artefatos culturais que, junto com obras reconhecidas como arte, desafiam educadores, educandos e sua estesia para a construção de sentidos. A própria imagem pode ser compreendida para além do visual, na relação com os demais sentidos, como ideia, como forma do corpo pensar. Existem fenômenos e eventos visuais? É possível que nos primeiros contatos com arte, na escola, a maioria de nós teve experiências através das artes plásticas ou visuais: desenhos, colagens, montagens, etc. O próprio campo de estudo que se intitula história da arte, geralmente estuda conteúdos relativos às artes visuais e não ao conjunto da arte ou das artes. Desse modo, aqui se compreende que também o currículo do ensino de arte, ainda hoje e com frequência, é organizado tendo como primazia as artes visuais. A música também ganha proeminência, porém, o teatro e a dança quase sempre ficam marginalizados no tempo escolar. Nesta conjuntura, posturas como contemplar, ver, olhar e apreciar, sem poder tocar nas obras de arte, foram disseminando entendimentos dualistas que não reconhecem o engajamento de todos os sentidos corporais na percepção, interpretação, significação e produção da arte. Essas concepções, muitas delas pautadas em padrões modernos que separam o inteligível do sensível, também priorizam o estudo apenas de artefatos classificados como obras de arte, não permitindo que façam parte do currículo um universo de imagens, informações, visualidades e artefatos com os quais o corpo se relaciona cotidianamente no ambiente engajando sempre a integralidade dos sentidos. Conforme expõem Illeris e Arvedsen (2011), “os fenômenos visuais abarcam tudo aquilo com que decidimos nos relacionar por meio da visão, como imagens, objetos, paisagens, espaços públicos e privados” (p.02). Os fenômenos visuais abarcam, por exemplo, uma queima de fogos de artifício, um jardim, uma exposição oral, uma coreografia, a decoração de um ambiente, eventos sociais, festas, http://portalanda.org.br/index.php/anais 2 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 campanhas publicitárias, programas televisivos, etc. A imagem, enquanto representação bidimensional de algo, na visão desses autores, é uma subcategoria dos fenômenos visuais. Os eventos visuais “referem-se às interações complexas que se estabelecem entre o observador e o observado” (ILLERIS; ARVEDSEN, 2011, p. 03), incluindo todas as possíveis interconexões entre o corpo que observa, o fenômeno visual, o contexto de observação e o ato de olhar. Os autores complementam dizendo que tais eventos são sempre situados geográfica, histórica, social e culturalmente. O ato de assistir um programa televisivo, sozinho ou acompanhado, nos diversos modos que isso possibilita de interação, repúdio, influência, prazer, emoções, tensões, reflexões, é um dos exemplos usados por Illeris e Arvedsen para exemplificar como os eventos visuais podem abranger a postura corporal, os pensamentos, associações, memórias, sons, etc. Ao destacar a complexidade e a relacionalidade concernente aos eventos visuais, o estudo de Illeris e Arvedsen (2011) possibilita os seguintes questionamentos: Os fenômenos e eventos com e nos quais nos relacionamos seriam puramente visuais? Como nos envolvemos, além de observadores ou participantes – contaminados e contaminadores – nesses fenômenos e eventos? Como o corpo e a integralidade dos sentidos participam na relação com os chamados fenômenos e eventos visuais? Em seu estudo “Não existem mídias visuais”, Mitchell (2009a) fornece aportes e reflexões que instigam relações críticas com o estudo de Illeris e Arvedsen (2011) e permitem tecer interpelações perante o modo como esses autores conceituam os fenômenos e eventos enquanto visuais. Entendemos que as mídias, assim como as imagens, são subcategorias dentro da complexidade do que aqui vem sendo chamado de fenômenos visuais. Já na abertura do seu texto, Mitchell é categórico em afirmar que a expressão “mídias visuais” é inexata e enganosa, pois todas as chamadas mídias visuais envolvem outros sentidos e, sendo assim, a partir “da modalidade sensorial, todas as mídias são mistas” (MITCHELL, 2009a, p. 167). Ao entender mídias como práticas sociais, o autor diz que elas são mistas, mas não misturadas da mesma forma, nem nas mesmas proporções ou com os mesmos elementos. Diferentes materiais, tecnologias, habilidades, hábitos, espaços sociais, instituições, mercados, interesses, e http://portalanda.org.br/index.php/anais 3 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 relações de poder se articulam na experiência social que construímos com as mídias e na própria produção midiática. Em referência aos estudos de McLuhan (1994), de Lindberg (1976) e da semiose Peirceana (signo – objeto – interpretante), Mitchell (2009a) evidencia que as mídias também são “operadores semióticos e simbólicos, complexos de funções-sinais” (p. 172) com proporções sensórias que afetam e envolvem os sentidos corporais como extensões do toque. O ver é um processo articulado por impressões ópticas, táteis, audíveis, olfativas e gustativas. Desse modo, o autor afirma que “não há mídias puramente visuais porque em primeiro lugar não existe a percepção visual pura em si” (MITCHELL, 2009a, p. 175). Nesse sentido é possível compreender e enfatizar que também os fenômenos e eventos, dos quais o corpo faz parte e com os quais se relaciona, não são só visuais, mas táteis, olfativos, audíveis e gustativos. Corpo e educação estética A escola, enquanto ambiente formal da educação, pode ser vista como um lugar aonde o corpo-criança chega cheio de sonhos, imaginação, vontades, e vai sendo, aos poucos, tolhido, adestrado, regulado pela campainha, pelo currículo, pelos mais variados dispositivos de comando, poder e saber (FOUCAULT, 2004) que cerceiam a espontaneidade e o movimento. Tais dispositivos, conforme a reflexão de Alves (2005), objetivam preparar os corpos para o mercado de trabalho. Os corpos entram na escola diferentes e saem todos iguais: “profissionais” (p. 44). Fomos e somos educados por concepções modernas que não só compreendem separadamente corpo e mente (natureza e cultura, emoção e razão, subjetividade e objetividade, sentimento e pensamento, prática e teoria, sensibilidade e inteligibilidade, qualidade e quantidade, etc.), como legitimam que o verdadeiro conhecimento é aquele provado e quantificado cientificamente. O conhecimento inteligível, equivocadamente, é entendido enquanto separado do sensível, como fruto de abstrações e elucubrações incorpóreas. Esses modos dicotômicos de compreender a cognição e a pessoa não só têm servido para fundamentar modos instrumentalistas de pesquisa como para justificar injustiças, preconceitos e violências. Ao se compreender que a pessoa não é corpo, mas um “espírito”, um “eu” que apenas tem um corpo, como qualquer outro bem material, então, ao corpo, todo tipo de agressão, desconsideração e exclusão pode ser feito. Nessa perspectiva de negação do corpo, também são estruturados modos de http://portalanda.org.br/index.php/anais 4 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 organização escolar, arranjos curriculares e modelos de educação baseados na transmissão/recepção de conteúdos que não consideram a experiência, a afetividade e a história dos alunos (a-lunos = sem luz). Na arte-educação também é possível observar certa preferência pelo inteligível em detrimento do sensível, herança da modernidade com seu discurso racionalista/cientificista/cartesiano. A educação estética, nesses moldes, privilegia discursos elucubrativos sobre arte, fundamentados na filosofia, na história, entre outras áreas. Com isso, se reveste de rigor e seriedade a organização curricular e o ensino/transmissão de determinados conteúdos e linguagens artísticas universalizados em detrimento de outros/as que, coincidentemente, dão mais notoriedade ao corpo. A ideia aqui não é fazer apologia ou desmerecimento de nenhuma linguagem artística, mas sim, evidenciar a estesia, que, antes de qualquer especificidade da arte, integra o sentido original da estética. Ou seja, evidenciar o corpo, os sentidos, o lúdico, a experiência, a percepção, o mundo e seus artefatos culturais (entre eles a imagem e a arte) e a criação de sentidos, enquanto elementos que, por vezes, são marginalizados nos currículos de arte. Duarte Jr. (2010) aponta que em escolas brasileiras atuais é possível encontrar modos de educação em arte baseados na transmissão de conhecimentos formais, explicações acerca da estética, da história da arte, da interpretação de obras famosas. Esses elementos são importantes na aprendizagem da arte, no entanto, se desenvolvidos como meros exercícios racionalistas que não se preocupam com a sensibilidade, a percepção e as relações do corpo com o mundo, tornam-se conhecimentos com sentidos restritos. Para este autor, “[...] tais elucubrações ganhariam muitos mais significação se se dessem baseadas em experiências sensíveis efetivamente vividas pelos educandos” (DUARTE Jr., 2010, p. 30). Duarte Junior complementa dizendo que não se trata apenas de experiências de contemplação de obras de arte, mas da relação dos sentidos corporais com o “mundo natural e cultural” que é constituído por estímulos visuais, táteis, auditivos, olfativos e gustativos. Essas reflexões se referenciam em situações concretas, pedaços da realidade na qual temos nos inserido enquanto educadores e artistas, que nos sensibilizam e movem diante da necessidade de pesquisar, propor e criar modos de educar que possam suscitar alternativas e mudanças nesse quadro. Possam, ainda, articular propostas, pesquisas e ações educativas dialógicas que, por meio da experiência e da interação entre os corpos, possam construir (auto)conhecimentos tácteis, visuais, http://portalanda.org.br/index.php/anais 5 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 olfativos, gustativos e audíveis. São gestos, imagens, sabores, artefatos e discursos com propósitos de (re)significar nossos modos de ver e ser visto e de se relacionar com o corpo, a arte, a imagem, o mundo, os/as outro/as. Nessa perspectiva, buscamos ventilar e investigar proposições para uma educação que nos sensibilize nos modos como nos vemos, ou não, enquanto corpos que vivem em constante troca com o ambiente e a cultura. Uma educação sensível para ver os apelos dos corpos nela envolvidos, as suas experiências, histórias, expressões, alegrias, desejos, afetos, prazeres e desconfortos (DUARTE Jr., 2010). Uma educação estética que não seja anestésica, ou seja, que não nos tire a capacidade de sentir e dar sentido ao mundo, à imagem, à arte e demais artefatos. Uma educação estésica atenta à percepção, aos sentidos, ao movimento e à experiência, com os quais emergem nossos raciocínios, sentimentos, pensamentos, conceitos, significados, interpretações, imaginações. Aguirre (2011), no contexto da reflexão sobre divisão do sensível, política e estética, diz que a cultura visual, enquanto campo de estudos, está em condições de mudança e “deve avançar de uma posição fundamentada na valoração crítica da cultura a outra que deixe espaço à diversidade dos usos e experiências, incluindo os relacionados ao afetivo e ao sensível” (p. 72). As proposições deste autor se dão em torno da recuperação das questões emotivas e afetivas para a educação da cultura visual. Um desafio educativo que, segundo ele, pode provocar rupturas nas configurações dos espaços e tempos do ver e do dizer, bem como, gerar dissensos nas políticas da estética hegemônica. No contexto reflexivo da chamada virada imagética, com base em Benjamim, Aguirre (2011) discute acerca da relação entre estética e política, multiplicação das imagens e suas consequências na vida pública, apontando os efeitos deste regime de visualidade na estetização da vida cultural como um desafio à educação da cultura visual. Se a estética consegue impor significados aos objetos e os transformar em conceito a ponto de exercer influência sobre corpos e seus modos de vida, ela pode, então, se tornar, também, um procedimento para criar estratégias de ativação do desejo, o que pode ser visto como um ponto crítico e desafiador para a educação, a arte, a cultura visual (AGUIRRE, 2011). Esse desafio instiga propostas, pesquisas e ações educativas pautadas nas possibilidades que a cultura visual apresenta para a formação de corpos-sujeitos sensíveis, críticos, éticos e ousados para “romper com os http://portalanda.org.br/index.php/anais 6 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 regimes do sensível imposto pela política estética herdada da modernidade” (AGUIRRE, 2011, p. 92). (Re)flexões, (in)tensões e (re)ações que a dança pode instaurar Dimenstein (2011) relata acerca de uma experiência denominada “Currículo em Movimento”, desenvolvida em Massachusetts, em uma escola de dança instalada na fazenda “Jacob’s Pillow”. Essa escola, que desenvolve experimentações artísticas desde o início do século passado, acostumada a receber dançarinos de várias partes do mundo para cursos de verão, decidiu desenvolver um trabalho na comunidade local com estudantes de escolas públicas. O projeto “Currículo em Movimento”, que em 2011 completava dois anos, entre seus objetivos, visava ajudar os estudantes a ter mais interesse pela aprendizagem por meio da dança, “fazer do corpo um jeito de ajudar a compreender problemas complexos nos mais diferentes assuntos, como matemática, biologia, física, história ou geologia” (p. 01). Dos conceitos surgiam movimentos e gestos criados em conjunto com os estudantes. A relação espacial, o modo de trabalhar o corpo, expressa inteligência. [...] Os alunos submetidos ao aprendizado pela dança revelaram, nas provas de suas matérias, maior facilidade de apreensão dos conceitos. Nesta época, em que se valoriza tanto a tela do computador e a "cabeça", é uma brisa num dia quente ver uma experiência que faz do movimento do corpo um jeito de aprender pela emoção e pela beleza. (DIMENSTEIN, 2011, p. 01) A experiência relatada levanta possibilidades educativas instigantes onde o corpo é considerado e evidenciado. Desenvolver processos de aprendizagem onde se evidencia a integralidade e a correlação existente entre os procedimentos conceitualabstratos e sensório-motores do corpo, qualifica a educação e desestabiliza compreensões dicotômicas que ainda se fazem presente no ambiente escolar. Ao dizer que o corpo e o movimento são um jeito de aprender pela emoção e pela beleza, o autor, que conheceu o projeto in loco, possibilita questionarmos entendimentos que ainda consideram o corpo apenas no plano dos sentimentos, do sensível, da estética, como se isso fosse oposto à razão, à cabeça, ao inteligível. O corpo é um “contínuo entre o mental, o neuronal, o carnal e o ambiental” (GREINER; KATZ, 2001, p. 70). O corpo se constrói e é construído nas trocas, interações e relações estabelecidas com o ambiente, com a cultura. As autoras dizem http://portalanda.org.br/index.php/anais 7 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 ainda que “no corpo humano estão as evidências da inevitabilidade de ser contaminado e contaminador” (2001, p. 72). O corpo é biológico e cultural ao mesmo tempo, de modo que é possível – e necessário – entende-lo como trânsito entre natureza e cultura. Na tentativa de abandonar as dicotomias derivadas do dualismo corpo x mente e como tradução/reflexão para os termos embodied (VARELA; THOMPSON; ROSCH, 1993) e embodiment (LAKOFF; JOHNSON, 1999), Rengel (2007) propõe a palavraconceito “corponectividade” (p. 36), no sentido de que corpo e mente não têm de ser integrados, pois já o são. Ao nos entendermos como seres corponectivos, podemos repensar os modos como falamos “meu corpo” quase como se fossemos um “eu” descorponectivo que possui/habita “um corpo” separado de si. Lakoff e Johnson (1999) entrecruzam ciência cognitiva e filosofia e afirmam que a razão não se dá separada da experiência e do movimento corporal como a tradição tem afirmado. Os mesmos procedimentos corporais que nos permitem ver, perceber, sentir e nos mover, criam nossos modos de raciocinar, pensar, interpretar, categorizar e significar. Embora certas concepções modernas afirmem que o conhecimento verdadeiro independe dos sentidos, supervalorizando o saber inteligível em detrimento do saber sensível, todo conhecimento é sensível e inteligível ao mesmo tempo. O conhecimento é constituído na indissociabilidade que há entre natureza e cultura e entre os procedimentos sensório-motores e conceitual-abstratos do corpo – aqui entendido como “corpomídia”: O corpo não é um meio por onde a informação simplesmente passa, pois toda informação que chega entra em negociação com as que já estão. O corpo é o resultado desses cruzamentos, e não um lugar onde as informações são apenas abrigadas. É com esta noção de mídia de si mesmo que o corpomídia lida, e não com a ideia de mídia pensada como veículo de transmissão. A mídia à qual o corpomídia se refere diz respeito ao processo evolutivo de selecionar informações que vão constituindo o corpo. (KATZ; GREINER, 2005, p. 130-131). Ao perceber-se desafiado pelas informações e imagens, eventos e fenômenos do ambiente, por meio das relações que estabelece e das quais faz parte, o corpo questiona o que já sabe, interpela a novidade, seleciona, agrega, processa, transforma em corpo a informação. Nesse processo o corpo se constrói, interfere no seu meio e também se faz imagem/informação através da qual se pode ver traços da sociedade, da história, da cultura. Ao invés de corpo recipiente, como tradicionalmente se tem dito, http://portalanda.org.br/index.php/anais 8 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 pode ser entendido como corpomídia, contaminado e contaminador, mídia de seu tempo e de sua cultura. Com este entendimento de corpo como corpomídia, que capta e reconstrói informações e imagens, contamina e é contaminado, se evoca a compreensão de Hernández (2007) que, em referência a Vidiella (2005), tece uma proposição educativa crítica e performativa, a qual consiste em: [...] desvelar um posicionamento corporificado a partir do entrecruzamento de “espaços físicos, geográficos, mentais, culturais, sociais, teóricos, corporais, vitais [...], rompendo-se com a concepção tradicional que tinha por base as classificações binárias: centro/periferia; vertical/horizontal; acima/abaixo, norte-sul, leste-oeste [...] o político entrecruzando-se e condicionando o subjetivo, para gerar reflexões e a tomada de consciência sobre a identidade, que não se constrói apenas a partir do gênero, da classe social, da etnia, mas também geograficamente. (HERNÁNDEZ, 2007, p. 65) O corpo é resultado desse entrecruzamento que não é algo a ser feito, pois já existe. Corpo e ambiente se relacionam e tecem a existência por meio desse contínuo e transitório entrelaçamento. A questão está em romper com as concepções dicotômicas que não compreendem e negam essas correlações, e, para isso, promover ações e proposições educativas que evidenciem esse entrecruzamento entre corpo, espaço, cultura, informações, imagens, ou seja, a relacionalidade, a codependência, a corponectividade que constitui a vida. Possibilitar que os corpos percebam como se dá a sua constituição e como agem os seus procedimentos cognitivos, por meio de ações educativas, processuais, criativas e relacionais, pode ser um modo de contribuir com a sua constituição. Tais proposições, do mesmo modo que o corpo, não são especificidade ou exclusividade da dança. Pois, se entendemos que não temos um corpo, mas somos corpo, e que, enquanto corpos, construímos nossa existência na relação com o ambiente e neste, com os demais corpos humanos ou não, então todas as áreas de conhecimento e todas as artes lidam com corpos, são instauradas por corpos. A contribuição da dança, enquanto arte e área de conhecimento, pode estar em sistematizar estudos e pesquisas, produzir um corpus teórico e prático de proposições que ampliem e questionem os modos de se compreender as relações entre corpo, ambiente, movimento, cognição, conhecimento, arte, educação, entre outras que pesquisadores vierem a instaurar. http://portalanda.org.br/index.php/anais 9 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 O projeto “Currículo em Movimento” tem sintonia com as reflexões em dança que enfocam a relação corpo-ambiente e que vem sendo feitas, especialmente no Brasil, conforme discutem Rengel (2007), Greiner e Katz (2005). No entanto, tais pesquisas possibilitam refletir que, bem antes de se propor ações pedagógicas de dança que enfatizam o corpo para o estudo e aprendizado de conteúdos de história, matemática, português, etc., tais conteúdos, conhecimentos e campos de estudo, já são instaurados com corpo. Já são informações, imagens, repertório de compreensões e interpretações articulados com, no, e pelo corpo. Os educandos, enquanto corposmídia – não corpos recipientes – podem se relacionar com os conteúdos e disciplinas e os reconstruir por meio de procedimentos de dança ou por meio dos procedimentos pedagógicos convencionais. A proposição do projeto “Currículo em Movimento” é desafiadora para se pensar na educação estética, mas ganha mais força e impacto quando evidencia a corponectividade que já existe na construção de conhecimento e em todas as relações que estabelecemos, com ou sem dança. A centralidade, aqui, é o corpo, que, seja na dança ou em qualquer outra área ou arte, é quem se relaciona com o ambiente, com outros corpos, com os conteúdos e assim constrói conhecimentos. Refletindo com os termos empregados por Dimenstein (2011), o corpo não pertence somente à esfera do movimento, emoção, beleza em oposição à cabeça, razão, pensamento. Todos esses são elementos inter-relacionados nos procedimentos sensório-motores e conceitual-abstratos do corpo, sem qualquer hierarquia. Sentir e pensar são ações do corpo, são modos do corpo operar que não se dão apartados. Nessa perspectiva podem surgir contribuições da dança para a educação estética. E projetos como o “Currículo em Movimento” se mostram como importantes e desafiadoras iniciativas para des-disciplinarmos (TOURINHO, 2009) e/ou indisciplinarmos (GREINER, 2005) certos modos como o currículo, a educação, o conhecimento, a arte, o corpo, são pensados e organizados. Pensando uma educação estética como relações entre corpo e imagem De uma diversidade de possibilidades de cruzamentos, proposições, procedimentos e caminhos de pesquisa que a reflexão feita até aqui possibilita, fazemos um recorte para sublinhar relações entre corpo e imagem. Com elementos da cultura visual e da dança, em diálogo com outras áreas, seguimos tecendo entrecruzamentos reflexivos na perspectiva de uma educação estética. http://portalanda.org.br/index.php/anais 10 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 Num estudo acerca das imagens, Mitchell (2009b), a partir de dois termos do idioma inglês, faz uma distinção entre pictures, as imagens materiais (artefatos) que podem ser vistas em suportes, penduradas, impressas, e images, as imagens imateriais ou mentais, sonhos, memórias, pensamentos. Todavia, esclarece ele, a diferenciação ‘material’ e ‘imaterial’ é apenas uma conveniência para ajudar na compreensão, pois ambas, em última instância, são materiais, ou seja, tem a mentecorpo como seu suporte/sujeito de criação e observação. O que vemos na picture – imagem e o que pensamos com ela é image – imagem. Conforme destaca Martins (2011), "somos capazes de produzir imagens mentais. [...] a mente opera através de imagens" (p. 09). Os estudos neurocientíficos de Damásio corroboram a importância desta afirmação, pois a imagem se apresenta, também, como ideia. Para ele (apud BINTTENCOURT, 2007), as ideias tecem a mente e são análogas às imagens. Damásio (2010) diz que a mente é uma combinação de imagens presentes e recordadas. Essas imagens baseiam-se em alterações que acontecem no corpo e no cérebro enquanto o corpo interage com objetos. Sinais enviados por sensores distribuídos por todo o corpo criam padrões neurais que mapeiam a interação do corpo com o objeto. A interação recruta um conjunto de circuitos neurais que reúnem os padrões neurais e constroem uma imagem. E ainda, com Damásio (1996), podemos dizer que, independente da modalidade sensorial em que são geradas (coisas, processos, palavras, símbolos, etc.), as imagens são o principal conteúdo de nossos pensamentos. O corpo pensa por meio de imagens e também se relaciona com elas no ambiente. Contextualizando estes entendimentos nas proposições de uma educação estética, de acordo o propósito da educação da cultura visual, ao invés da substituição de conceitos, abordagens curriculares ou práticas do ensino de arte, buscamos “inserir e incorporar no fazer artístico a discussão do lugar/espaço das imagens [...] e seu potencial educativo na experiência humana” (TOURINHO; MARTINS, 2011, p. 57). As imagens, enquanto artefatos culturais não catalogados como belas artes, com seu poder de sedução, alusão, ilusão, suscitam interações onde o corpo pode se aventurar na tessitura de sentidos/significados e se questionar acerca de seus modos de ver e ser visto. Nessa perspectiva, Tourinho (2009) destaca a importância e a necessidade da educação estética encarar as imagens como provocações e, nesse sentido, buscar “des-disciplinar a educação: modos diversos e meios variados para tratar temas, http://portalanda.org.br/index.php/anais 11 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 experiências, demandas e posicionamentos dos sujeitos consigo mesmo, com os outros e com o mundo” (p. 155). Os entendimentos da imagem como forma do corpo pensar e como artefato com o qual ele se relaciona, contribuem com uma educação estética que, para além dos conteúdos, regras, práticas e obras sacralizadas como arte, reconheça a relacionalidade dos sentidos corporais com o mundo para a criação de sentidos, compreensões, conhecimento. Nesta perspectiva está a concepção de uma “estética relacional” (BOURRIAUD, 2009, p. 25), na qual a arte, ao invés de ser um espaço simbólico autônomo e privado, está imbricada com as interações humanas, o diálogo, a intersubjetividade e o encontro que se dão no contexto histórico e sociocultural. Aqui retomamos o sentido grego do termo aisthesis que, conforme o estudo de Duarte Jr. (2010), diz respeito à capacidade humana de sentir o mundo, conhecer e construir sentido para a realidade. Em português – estesia – segue com o mesmo significado sendo que o seu antônimo é anestesia, a incapacidade de sentir. Baseado na palavra estesia, no século XVIII, o alemão Alexander G. Baumgarten, com intuito de criar um campo de estudo acerca de como as coisas são conhecidas pelos sentidos, uma ciência da cognição sensível, elaborou o termo estética (DUARTE Jr., 2010). Embora seja empregado com relação às questões artísticas, o termo estética se refere ao envolvimento dos sentidos corporais com o mundo e à construção de sentidos. Johnson (2008) interpela os entendimentos modernos acerca da estética e critica os equívocos provindos de uma compreensão subjetivista da estética que tem ocasionado infelizes consequências, tais como os entendimentos de que: a mente é descorponectiva; o pensamento transcende o sentimento; os sentimentos não fazem parte do significado e do conhecimento; a estética se refere a questões de mero gosto subjetivo; as artes são uma luxúria. Refletindo com Dewey, Johnson (2008) propõe que a “estética deve se tornar a base para todo entendimento do significado e do pensamento. A estética é, prioritariamente, uma investigação acerca de tudo o que integra a construção humana de significado” (p. xi, tradução nossa). O autor complementa dizendo que uma estética da cognição, do entendimento humano, deve ir além das artes para explorar como o significado é construído nas relações que envolvem corpos, ambientes, cultura e práticas. A construção de significados não se restringe à mera conceitualização, mas diz respeito à nossa conexão visceral com o mundo, que é constituída por imagens, corpo, sistema sensório-motor, qualidades, sentimentos, emoções. http://portalanda.org.br/index.php/anais 12 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 Considerações finais Considerar, nas aulas de arte, os usos e sentidos que educandos e educadores fazem das imagens e informações com as quais se relacionam é uma forma de aprender e ensinar evidenciando a corponectividade, a relação corpo – ambiente. Mesclar elementos não curriculares (músicas, roupas, propagandas, vídeo clipes, danças, filmes, etc.) com os demais artefatos e conteúdos listados no currículo como arte, entendendo todos como componentes das relações nas quais estamos inseridos, pode suscitar reflexões que extravasam as paredes da sala de aula e os limites do currículo, da escola, da educação. Com isso, se pode abranger e mexer com as posturas dos corposmídia – educandos e educadores – e com os modos como eles podem receber e reconstruir imagens e informações em suas proporções sensórias, sensitivas, afetivas, que implicam a integralidade dos sentidos corporais. Assumir a corponectividade e nela os sentidos, a imagem, a estesia, enquanto questões, situações e condições que já fazem parte da aula, do currículo, do processo educacional, e promover ações pedagógicas que enfatizem o aprendizado por meio do movimento corporal, nessa perspectiva, é de suma importância. São modos de questionar e desestabilizar as concepções dualistas, clássicas ou modernistas, que insistem em, erroneamente, educar apenas nossa cabeça, calando e invisibilizando o que está para baixo dela. Se faz um compromisso ecológico, com o ambiente, com o outro, revermos nossos modos de educar, para não seguirmos tolhendo e, de certa forma, reduzindo as possibilidades criativas, imaginativas, cognitivas dos nossos educandos. Entendamos ou não, quem vem para a aula é corpo, quem dá aula é corpo. Mesmo os dualismos, as dicotomias, as concepções clássicas e modernistas que separam corpo e mente e que souberam nos educar com eficácia, foram inventados por corpos. Pensamos, sentimos, pesquisamos e agimos em prol de uma educação estética que, articulada por essas (pré)ocupações e (situ)ações, possa (re)inventar passos, movimentos, imagens, textos, gestos e jeitos de educar onde o corpo ocupe, de modo mais emancipado, o lugar que já é seu. Corpo você, corpo eu, corpo nós. http://portalanda.org.br/index.php/anais 13 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 Referências ALVES, R. Pinóquio às avessas: uma estória sobre crianças e escolas para pais e professores. Campinas: Verus, 2005. BITTENCOURT, A. M. O papel das Imagens nos Processos de Comunicação: ações do corpo, ações no corpo, São Paulo: PUC, 2007. Tese (Doutorado em Comunicação e Semiótica), Pontifícia Universidade Católica. 2007. AGUIRRE, I. Cultura visual, política da estética e educação emancipadora. In: MARTINS, R.; TOURINHO, I. (Org.). Educação da cultura visual: conceitos e contextos. Santa Maria: UFSM, 2011. BORRIAUD, N. Estética relacional. São Paulo: Martins, 2009. DAMÁSIO, A. R. O livro da consciência: a construção do cérebro consciente, Lisboa, Temas e Debates: 2010. DIMENSTEIN. G. Chão de estrelas. Folha de São Paulo, São Paulo, 31 jul. 2011. DUARTE Jr., J. 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