O RESGATE DE UMA MANIFESTAÇÃO CULTURAL:
AS FESTAS DA VILA CANAÃ
Darlan de Souza Marquezola
Acadêmico do curso de Licenciatura em Geografia
UFMT/CUR/ICHS/DEGEO
[email protected]
Maria Regina Ritter Moreira
Acadêmica do curso de Licenciatura em Geografia
UFMT/CUR/ICHS/DEGEO
[email protected]
Jorge Luiz Gomes Monteiro
Professor da Universidade Federal de Mato Grosso
UFMT/CUR/ICHS/DEGEO
[email protected]
RESUMO
Este artigo dá um enfoque à Geografia Cultural, evidenciando de uma maneira
objetiva a atuação de pessoas envolvidas nos atos religiosos, como as festas de
São João e a do Divino Pai Eterno em um dos bairros mais antigos da cidade de
Rondonópolis-MT, relatando por meio da história oral fatos guardados na memória e
relembrados pelos antigos moradores do lugar.
Palavras-chave: Atos religiosos; história oral; festas; manifestação cultural.
INTRODUÇÃO
Esse artigo coloca em discussão a manifestação cultural dos moradores da
Vila Canaã, um dos bairros mais antigos da cidade de Rondonópolis-MT, visando
com isso trazer a público as memórias, identidades e cultura dos festejos
tradicionais que aconteceram neste bairro, utilizando como metodologia “a história
oral de vida, que prioriza a individualização do informante. Cada pessoa é tratada
como caso específico, visando captar o sentido da experiência vivida pelo
informante” (DOURADO, 2007, p. 42).
As memórias podem ser definidas como histórias que ficaram esquecidas
pelo tempo, guardadas como tesouros e que no meio de uma conversa
desabrocham e aos poucos as informações vão surgindo, quase como um suspiro
desenterrando as histórias do passado. Por outro lado, as identidades são valores
adquiridos com o tempo que cada um mostra à sua maneira.
Assim “cada indivíduo é portador de um sistema cultural em transformação
constante, sendo estruturado pelos valores adquiridos no decorrer de uma trajetória,
pelos ensinamentos que recebem e pelas experiências vividas” (ROSSETO, 2006, p.
15).
Ao se analisar a cultura dos lugares, deparamos com as diversas
manifestações características do local, onde os indivíduos traçam a sua trajetória
histórica mantendo relações íntimas e homogêneas com os seus habitantes. Assim,
a cultura pode ser definida conforme relata Silva e Martins:
A cultura é a soma dos comportamentos, dos saberes, das técnicas,
dos conhecimentos e dos valores acumulados pelos indivíduos
durante suas vidas e, em uma outra escala, pelo conjunto dos grupos
de que fazem parte. A cultura é herança transmitida de uma geração
a outra. [...] Os membros de uma civilização compartilham códigos de
comunicação. Seus hábitos cotidianos são similares. Eles têm em
comum um estoque de técnicas de produção e de procedimentos de
regulação social que asseguram a sobrevivência e a reprodução do
grupo. Eles aderem aos mesmos valores, justificados por uma
filosofia, uma ideologia ou uma religião compartilhada (CLAVAL
2001 apud SILVA e MARTINS, s.d.).
Para a geografia cultural as manifestações culturais de um local possuem
como atributos característicos elementos como temáticas religiosas, percepção
ambiental, identidade espacial e, interpretação de textos. Para geógrafos deste ramo
o espaço urbano também é objeto de seu interesse, pois essas manifestações
envolvem o espaço geográfico como um todo.
Segundo Claval (1995) apud Corrêa e Rosendahl (1999), por ter passado por
um período de desprestígio, a Geografia Cultural, a partir de 1970, revigora-se como
Nova Geografia Cultural, caracterizando-se por estudar a dimensão não-material da
cultura, abordar temas como a religião e o significado das diversas manifestações
culturais.
Os festejos realizados na Vila Canaã caracterizados principalmente pelo seu
vínculo religioso particularizam o bairro como sendo o lugar destas festas, uma vez
que no período em que se realizavam, promoviam a movimentação dos moradores e
seus promotores e a partir do momento que não mais se realizaram deixaram na
memória do bairro a sua história.
No decorrer do trabalho foi necessário recorrer à pesquisa bibliográfica em
livros e artigos de autores que abordam assuntos sobre a Geografia Cultural, sendo
também desenvolvida uma pesquisa de campo, para a coleta de dados com as
pessoas envolvidas nas festas religiosas, com o devido registro de áudio e
fotografias.
Também foi efetuado no bairro um levantamento prévio para identificar
algumas manifestações, quando estabeleceram-se contatos com pessoas que
pudessem fornecer informações e também para servir de elementos de ligação.
Depois de definida a pessoa chave para a coleta de informações foram programadas
visitas e a coleta de dados e informações.
A metodologia deste trabalho baseou-se nos preceitos da história oral
discutida no trabalho de Silva e Martins (s.d.). Neste trabalho os autores
caracterizam a chamada história oral que em outras palavras, trata-se das
entrevistas realizadas em pesquisas, mas neste caso a mesma requer uma
preparação para a valorização do colaborador, ou seja, do entrevistado.
Significa que a história oral não é uma simples entrevista, ela precisa de um
projeto, de uma reflexão, e de uma preparação para a sua realização. A pesquisa é
o encontro com o novo, e a história oral busca preparar o pesquisador para esse
encontro (SILVA e MARTINS, s.d.).
É interessante observar que este relacionamento que se estabelece, entre o
oralista e o entrevistado ou “colaborador”, gera uma afinidade que vai permitir que
muitas coisas que não seriam ditas numa entrevista formal, sejam ditas (SILVA e
MARTINS, s. d.).
Para a realização do trabalho de campo, foi estruturado um roteiro para a
entrevista que seguiu em caráter informal sendo armazenada em um gravador, para
assim chegar à caracterização das duas festas de interesse deste trabalho.
A GEOGRAFIA CULTURAL
No trabalho de Zanatta (2007) que teve como objetivo a elaboração de
considerações acerca da abordagem cultural da geografia, a autora fez uso das
palavras de McDowel (1996, p. 159) para caracterizar a geografia cultural, onde diz
ser a mesma uma das áreas de pesquisa e estudo da ciência geográfica mais
excitante, abrangendo numerosas questões, como a construção social de
identidades baseadas em lugares e, possuindo como ápice de investigação a cultura
material, costumes sociais e significados simbólicos, das quais ganham abordagem
por meio de uma série de perspectivas teóricas. Assim, segundo Claval (2011, p.
12):
A geografia cultural analisa os mecanismos de comunicação que são
responsáveis pela transmissão da cultura. Ela evidencia as fases da
construção do indivíduo através da cultura e enfatiza o papel da
reprodução e este da invenção. Ela mostra como as identidades
individuais e coletivas resultam dessa construção. Nesse processo,
um aspecto fundamental é a criação duma dimensão normativa na
existência individual e coletiva. As normas nascem da capacidade da
mente humana de imaginar alhures, que servem de modelo: o tempo
imemorial das religiões tradicionais, o céu das religiões reveladas, a
esfera da razão das metafísicas, a utopia das ideologias do
progresso social, as forças inconscientes profundas nas ideologias
contemporâneas.
Assim podemos entender que a geografia cultural mostra de uma forma
aberta mais ampla as fases de construção de um indivíduo seja por meio da religião,
da metafísica ou de ideologias utópicas.
O ramo da cultura na ciência geográfica passou a ganhar popularidade a
partir dos trabalhos de Carl Sauer e seus discípulos, que possuíam na Escola de
Berkeley o habitat da força inicial da geografia cultural que se espalha a partir daí
por diversas universidades conforme análise de Silva e Martins (s.d.) apud Correia e
Rosendahl (2003, p. 10):
Assim, a perspectiva cultural na geografia abre um leque de diversas
possibilidades de estudo sobre o ser humano. Possibilidades estas,
antes negligenciadas pela visão exclusiva da racionalidade rígida, da
lógica instrumental, ou dizendo de outra maneira, das correntes
positivistas dentro da geografia. Contudo o ser humano não se
constitui somente pelo racional, pelo cartesiano. No ser humano
também residem as emoções, as subjetividades (SILVA e MARTINS,
s.d.).
Burke (2008) em sua obra “O que é história cultural” ao tratar da história
cultural e seus vizinhos, nomeia a geografia cultural como sendo um desses:
Outro vizinho é a geografia, especialmente a cultural (embora parte
da geografia histórica não seja cultural, e parte da geografia cultural
não seja histórica, os dois campos se sobrepõem). Uma geografia
cultural mais antiga foi associada ao norte americano Carl Sauer.
Este rejeitou a abordagem científica que tentava estabelecer leis
gerais da geografia, interessando-se pela singularidade de lugares
ou áreas culturais (como o antropólogo Franz Boas, ele próprio exgeógrafo). Opôs-se também ao determinismo ambiental, preferindo
explicar as características dos lugares em termos de cultura e
história (BURKE, 2008, p. 173).
Ainda na obra de Burke (2008) são tratados os preceitos da nova geografia
cultural, fruto de um hiato entre a geografia cultural norte-americana e a social
britânica, dos quais seguem os novos geógrafos culturais:
Como os novos historiadores culturais, os novos geógrafos culturais
como Jim Duncan e Felix Driver, fizeram uso da teoria
cultural(sobretudo a de Foucault). Como os historiadores, eles se
interessam tanto por práticas espaciais quanto por representações.
Estudam práticas espaciais, desde a modificação da paisagem pela
ocupação humana até os usos de ruas urbanas por diferentes grupos
sociais. Analisam também a imaginação geográfica tal como ela se
expressa em mapas, filmes sobre viagens, pinturas de paisagem,
ficção(o Wessex de Hardy, por exemplo) e assim por diante – o
paralelo com estudos recentes sobre história da imaginação cultural
é bastante óbvio (BURKE, 2008, p. 174).
Assim, o interesse direcionou-se para as práticas espaciais e sobre as
representações que as tradições e crenças do campo se manifestam no espaço.
DA VILA CANAÃ AO JARDIM DAS PAINEIRAS: DA DIVERSIDADE ESPACIAL
AO CALOR DA PARTICIPAÇÃO
A Vila Canaã é originária de um processo de ocupação espontâneo, sendo
constituída por uma parcela significativa de pescadores, foi palco nas últimas
décadas, de algumas manifestações. Das festas realizadas na Vila Canaã, a festa
do Divino Pai Eterno, persistiu por aproximadamente 38 anos. De acordo com Dona
Margarida Maria de Campos, as festas da Vila Canaã eram bem receptivas, havia a
participação do povo que acompanhava a procissão que saía de sua casa e
percorria a rua até aproximadamente a Rua Tiradentes, depois retornava ao seu
local de partida, sempre acompanhada de foliões que carregavam a bandeira,
cantavam e rezavam, agradecendo as graças recebidas pelo Divino Pai Eterno.
O bairro Jardins das Paineiras está sendo citado nesse artigo, por ser hoje o
atual bairro de Dona Margarida que depois de ter se desentendido com alguns
moradores, achou melhor mudar de bairro, por esse motivo, a mudança de local
para a realização da festa ocorreu pelos conflitos desencadeados entre ela e alguns
moradores. Conforme relatos da divulgadora das festividades, a participação nos
festejos no Jardim das Paineiras, atualmente não apresenta o mesmo impacto
manifestado pelos moradores da Vila Canaã. Segundo Corrêa (2008, p. 305):
O processo de difusão espacial, tanto no passado como no
presente, implica a ressignificação de diversos aspectos da
vida, particularmente quando a adoção tiver sido feita
massivamente. Os novos objetos, idéias e valores recriam
significados para coisas que, no passado, tinham outro sentido.
Algumas dessas ressignificações podem ser vistas como
positivas no sentido de melhoria e aperfeiçoamento da
humanidade, enquanto outras geram ou ampliam traços
negativos.
A participação menos acalorada por parte dos moradores do Jardim das
Paineiras pode ser interpretada como uma manifestação inerente à própria estrutura
espacial do bairro. O espaço da Vila Canaã foi produzido a partir das ações dos
grupos sociais e a sua forma de organização partiu de uma colônia de pescadores o
que levou a uma proximidade e interação dos seus moradores, uma vez que este
espaço é de pequena dimensão em função da dinâmica e composição formadora do
bairro, com ruas e lotes estreitos, dando assim maior proximidade. A estrutura do
bairro, desde o arruamento e o parcelamento da terra inicial acompanha os limites
estabelecidos pelo curso da água, no caso o rio Vermelho, onde os meandros do rio
são acompanhados pela principal rua estruturante do bairro, e daí o conjunto das
demais ruas a ela foi direcionado.
Este fato atribuiu outra dimensão à Vila Canaã onde a co-presença dos
moradores da rua, e o relacionamento entre os diversos indivíduos se distingue
levando a um maior relacionamento social entre os moradores. Enquanto isso o
Jardim das Paineiras é fruto do processo imobiliário da cidade onde o espaço
configura-se de acordo com o Código de Obras e Postura do município, onde os
espaçamentos viários e unitários das residências não favorecem tanto a
aproximação e o estabelecimento da vizinhança entre seus moradores.
Nesse ponto vale salientar que, conforme Corrêa (2008, p. 303):
a espacialidade inclui também os trajetos percorridos pelo homem,
trajetos que não têm como lógicas aquelas das relações envolvendo
distância-tempo-custo, mas lógicas estabelecidas no âmbito de
valores simbólicos, impregnados de significados específicos.
É nesses espaços que ocorrem diversas manifestações religiosas, para
atender às crenças estabelecidas no seio das pequenas comunidades.
FESTA DE SÃO JOÃO: DA ORIGEM RURAL A UM ACONTECIMENTO URBANO
A festa de São João é uma festividade tradicional realizada no mês de junho,
com fogueiras, quadrilha, casamento na roça, forró e muita comida típica, onde as
pessoas mostram sua devoção e suas crendices. De acordo com historiadores, a
festa junina tem suas origens na cultura europeia da época da Idade Média. Foi
trazida para o Brasil pelos colonizadores portugueses para ser incorporada às
tradições brasileiras. Canclini (1982 apud PAIVA, 2008, p. 51) ao discutir sobre a
festa na cultura popular afirma que:
A festa mostra o papel do econômico, do político, do religioso e do
estético no processo de transformação-continuidade da cultura
popular [...] a continuidade que verificamos existir entre o tempo de
trabalho e o da festa, entre os elementos cotidianos e os cerimoniais,
o fato de que a organização da produção é mantida na reparação
dos festejos, desqualificam toda oposição absoluta entre a festa e a
existência diária.
Na Vila Canaã encontramos uma família que durante anos organizava a festa
de São João. Todo o processo de levantamento no bairro foi conduzido pela senhora
Maria Aparecida da Silva, conhecida como Cida, moradora da Vila Canaã, a qual
indicou os moradores mais antigos para a devida entrevista. Segundo Cida,
existiram algumas festas antigamente no bairro, exclusivamente dos moradores,
sem qualquer ajuda da igreja. Esses festejos foram acabando por falta de
segurança, pois ocorriam muitas brigas por não ter policiamento.
A senhora Erotides Pereira dos Santos, uma das moradoras mais antigas do
bairro informou que seu pai, Sr. José Pereira dos Santos, era responsável pela
realização da festa de São João. Conforme seu relato, o mesmo fazia tudo sozinho,
“preparava os pratos como bolo, pipoca, batata-doce, arroz doce, etc. as comidas
tradicionais da festa, tudo feito com muito capricho”. Para tanto, o senhor José
começava três meses antes suprindo a dispensa com os produtos para a festa, pois
não pedia ajuda a ninguém. E como não tinha muitos recursos precisava comprar
aos poucos e após tudo organizado chamava os vizinhos para a festa. A comida
assim se convertia em um dos principais atrativos da festa.
Como parte integrante da festa, a comida, a alimentação dos
convidados merece um olhar mais detido. Distribuída de graça, ponto
alto da festa, adquire uma importância simbólica significativa, tanto
se estabelecermos relação com os ritos religiosos, a comunhão dos
católicos, quanto no que se refere àquela sociedade, com sua
hierarquia e respectivas diferenças sociais. Os mais ricos bancavam
as despesas sozinhos, enquanto os pobres faziam coletas para
conseguir oferecer a comida e cumprir sua promessa, o que gerava
espaços de solidariedade (SOUZA, 2004, p. 336).
A festa começava com todos rezando o terço depois saíam com a bandeira
de São João em procissão pelo bairro soltando foguetes e bombinhas. Quando a
procissão acabava ao lado da atual creche municipal do bairro, onde era sua
residência, a bandeira era colocada em uma vara de bambu que servia de haste e
ali ficava durante oito dias.
Segundo a entrevista concedida pela Dona Vera, moradora do bairro Vila
Canaã, de 57 anos de idade, e filha do senhor José Pereira dos Santos, a festa de
São João teve suas origens com o seu pai, que era devoto do santo junino e muito
religioso.
Conforme a senhora Erotides informou, às vezes a festa durava a noite
inteira, em outras, acabava à meia noite, e não era só os moradores que
participavam, chegavam pessoas de todo canto. Disse também que após a morte de
seu pai há seis anos, o irmão tentou dar continuidade à festa, mas desistiu.
As primeiras festas de São João realizadas pelo senhor José Pereira dos
Santos aconteceram na cidade de Alto Garças-MT, primeira localidade que a família
se fixou após chegar de São Paulo-SP. Algum tempo depois, que a entrevistada não
soube precisar, a família se deslocou para a Fazenda Rio Vermelho para a abertura
da mesma, localizada próxima à cidade de Rondonópolis, onde a família se fixou por
alguns anos até a mudança para Rondonópolis.
Quando a família veio para Rondonópolis se apossou de um terreno próximo
ao local atual da Vila Canaã, já que a situação financeira da época não era fácil para
a mesma. A partir desse local passou a continuar a fazer a festa em devoção a São
João.
Após a morte do senhor José, a festa foi realizada apenas mais duas vezes,
promovida pelo irmão da entrevistada, segundo ela, de uma maneira bem mais
simplória do que as que o senhor José realizava. A partir de então, a Festa de São
João não foi mais realizada no bairro, uma vez que as condições financeiras dos
filhos não proporcionava a promoção da festa por conta dos próprios.
Outra manifestação religiosa de grande importância na Vila Canaã, foi a Festa
do Divino Pai Eterno.
FESTA DO DIVINO PAI ETERNO: UMA CRENÇA POPULAR E UMA PROMESSA
As festas populares são manifestações muitas vezes religiosas onde as
pessoas através de suas crenças e devoção a algum santo demonstram
sentimentos de fé, e onde muitas vezes por meio de procissão, romarias e
caminhadas, pagam promessas por bênçãos recebidas. Por isso entende-se as
festas populares como: “um momento significativo de sociabilidade, integração de
culturas e tensões entre algumas de suas facetas, de expressões autônomas e de
resistências aos novos comportamentos requeridos pela ideologia da modernidade”
(SOUZA, 2004, p. 332).
A festa do Divino Pai Eterno começou no ano de 1840, quando um casal de
lavradores preparava a terra para o plantio. Enquanto carpia a terra bruta com sua
esposa Ana Rosa, o senhor Constantino bateu com a enxada em algo que ele achou
ser uma pedra, e ao pegar, observou tratar-se de um belo medalhão de barro. Ao
retirá-lo da terra e depois de lavado, constatou ser uma medalha da Santíssima
Trindade num ato de coroação de Nossa Senhora. Num gesto de amor, fé e
devoção de agradecimento a Deus pelo achado levou o medalhão para casa.
Desde então começaram as orações, as novenas, os milagres, primeiro pela
família do senhor Constantino e depois pelas pessoas do povoado que faziam
romarias até a casa dele, onde se encontrava a medalha, e logo, a casa ficou
pequena para receber tantos fiéis. Então foi construída a primeira capela feita de
folhas do buriti, mas em pouco tempo essa também não comportava a quantidade
de fiéis que a cada ano aumentava. Então, o senhor Constantino e a senhora Ana
Rosa doaram o terreno, que margeava o córrego Barro Preto, em Trindade-GO, e
com a ajuda dos moradores da redondeza, construíram a nova capela.
O artista plástico Veiga Valle, morador de Pirenópolis-GO, foi quem esculpiu a
primeira imagem em madeira igual a do medalhão do Divino Pai Eterno a pedido de
Constantino. Essa imagem conserva-se até hoje no “Santuário Velho”, ou “Igreja
Matriz de Trindade.” Até os dias atuais a devoção e os milagres do Divino Pai Eterno
são bem recebidos em Trindade-GO, sendo um dos importantes acontecimentos
religiosos do país, tanto que em 2006, foi o templo elevado a santuário da Basílica
Menor pelo Papa Bento XVI.
Segundo Paiva (2008), as festas costumam ter uma oscilação de dois polos
definidos pela cerimônia, pelo ritual e pela festividade, distinguindo-se dos ritos
cotidianos e rotineiros por dois motivos: sua amplitude e seu mero divertimento da
valorização de costumes.
Paiva (2008) discorrendo sobre a caracterização das festas usa uma citação
de Callois (1950 p. 166 apud AMARAL, 1998) onde comenta que a festa:
É o instante da circulação de riquezas, o das trocas mais
consideráveis, o da distribuição prestigiosa das riquezas
acumuladas. Ela aparece como o fenômeno total que manifesta a
glória da coletividade e a revigoração do ser: o grupo se rejubila
pelos nascimentos ocorridos, que provam sua prosperidade e
asseguram o seu porvir. [...] É ao mesmo tempo a ocasião em que,
nas sociedades hierarquizadas, se aproximam e confraternizam as
diferentes classes sociais e onde, nas sociedades de fratrias, os
grupos complementares e antagonistas se confundem, atestam sua
solidariedade e fazem colaborar com a obra da criação os princípios
místicos que eles encarnam.
Em entrevista concedida pela senhora Margarida Maria de Campos, de 65
anos, da cidade de Rondonópolis, antiga moradora da Vila Canaã e atualmente
morando no bairro Jardim das Paineiras, a festa do Divino Pai Eterno promovida por
ela, começou por volta de 1968, quando a entrevistada tinha 20 anos, período em
que ficou doente e não mais caminhava, pois se deslocava se arrastando.
Desenganada pelos médicos que não sabiam o que ela tinha, segundo a mesma “só
chorava”, um dia viu em sua frente o Divino que lhe disse: “filha, médico não vai te
curar, quem vai curar você sou eu, mas você terá que fazer uma promessa: todos os
anos fazer a festa do Divino”. Assim, a senhora Margarida prometeu atender ao
pedido, afirmando: “enquanto vida eu tiver farei a festa” e garantiu que se curou só
com “remédios do mato”. Só que depois de curada, segundo o seu relato, resolveu
não cumprir a promessa, então se viu entre a vida e a morte. Isso ocorreu quando
estava em Pedra Preta-MT, ocasião em que levou um tiro, sem motivo aparente e,
então, se deu por conta que teria que cumprir a promessa que havia feito.
O primeiro local da festa foi na localidade denominada de “Menina Moça” na
zona urbana de Rondonópolis, onde alugava a casa de um japonês. Só que no dia
da procissão, com tudo pronto para sair, o referido homem a expulsou da casa e,
mesmo assim, fez a festa. Foi quando se mudou para a Vila Canaã, onde os festejos
passaram a ser realizados. A dinâmica das festas começava com as pessoas
rezando o terço, saindo depois em procissão pelas ruas com a bandeira do Divino e
os foliões (segundo denominação da entrevistada) cantavam os cantos e dançavam
o cururu, dança típica pantaneira de origem religiosa e que segue as mesmas
tradições do século XIX:
Ao rever os documentos referentes à segunda metade do século XIX,
o historiador Cléber Alves Pereira Junior pôde contar um pouco sobre
como era o cururu da época. Apesar de os documentos (a maioria de
cunho policial) não abandonarem a prática cultural de modo detalhado,
constatou que já na época se tratava de uma dança de roda de
louvores aos santos. Os contos entoados pelos participantes se
davam na forma de versos e desafios, tudo embalado ao som de
instrumentos musicais. Os palcos eram, geralmente, as festas
religiosas em comemoração aos Santos da Igreja Católica, além das
festas profanas (LANHI, 2011, p. 26-27).
Vale lembrar também que o local de nascimento da entrevistada, foi a região
pantaneira, visto que a mesma nasceu na localidade conhecida como Mimoso no
Município de Santo Antônio de Leverger-MT. Dona Margarida revelou que saiu da
Vila Canaã por ter se desentendido com um morador, por conta de ter ganhado um
terreno para construir uma capela para o Divino Pai Eterno e esse morador se
apossou do terreno, levando a entrevistada a sair da vila com medo de represálias,
embora as pessoas da vila gostassem da festa, pois eram bem receptivas,
colaboravam e interagiam.
Dona Margarida mora atualmente no bairro Jardim das Paineiras, onde possui
uma casa pequena, e um salão onde tem um altar com muitas imagens e objetos
deixados por fiéis que participam da festa por graças ou milagres recebidos. É
importante salientar que a Igreja Católica tem uma boa participação na festa do
Divino Pai Eterno e que Dona Margarida disse receber muitas coisas vindas de
Trindade e que mesmo não sendo aceita pelos vizinhos no novo bairro ela continua
a fazer a festa.
As camadas populares revelam uma maneira própria de viver o
espaço urbano de moradia, trabalho e lazer, bem como sua
religiosidade. Burlam a vigilância dos espaços institucionalizados,
quer os ligados à Igreja Católica, quer aqueles sob as autoridades
políticas civis, pois também vivem, em parte, as tentativas de
imposição da disciplina de trabalho, quanto ao emprego fixo, à
assiduidade e aos horários estabelecidos, aspectos associados à
ampliação da mão-de-obra livre naquele período. O desejo de impor
controle aos trabalhadores era manifesto sob essas diversas formas
(SOUZA, 2004, p. 332).
As pessoas de uma maneira geral procuram usar o seu tempo em busca de
lazer que satisfaça as suas expectativas, para isso utilizam também os espaços
institucionalizados, quebrando assim o rigor do uso imposto por tais, seja a igreja, o
trabalho ou sua própria moradia.
A Igreja Católica, desde meados do século XIX, manifestava
preocupação com um maior enquadramento disciplinar e doutrinário,
tanto dos clérigos como de seus fiéis, e tinha por referência os
padrões europeus, processo que ficou conhecido por romanização.
Assim se explica a decisão de trazer os padres salesianos para
Corumbá, o que ocorreu em 1899, e mesmo a criação de sua
diocese em 1910. Nesse contexto, várias práticas populares de
religiosidade, em razão das superstições que as envolviam, ou não
eram reconhecidas, ou eram vistas com suspeitas pela Igreja; entre
elas, as festas que possuíam maior autonomia popular (SOUZA,
2004, p. 333).
Segundo as tradições da Igreja Católica as manifestações folclóricas e
danças típicas foram excluídas das suas festividades. Foi o que aconteceu com o
cururu que nasceu nas festas religiosas e depois com o tempo foi expulso se
tornando mal visto pelo clero por sua semelhança com outras seitas como o
candomblé e, por ganhar novos significados, marcas e práticas que fugiam do
controle da Igreja Católica.
Tal situação em relação ao cururu também acontecia na vila do início do
século XIX, onde era considerado, por grande parte da classe que dominava a
cidade na época, como uma manifestação insípida, burlesca e desagradável
(LANHI, 2011).
Nolasco (2010), ao discorrer sobre os festejos da Vila de Bom Jesus de
Cuiabá também relata que, apesar da Igreja Católica não impedir a “expressão da
religiosidade popular”, tinha uma preocupação em manter sob vigilância tais
comemorações, a fim de evitar abusos que eram vistos como objeto de pecado.
OS ESPAÇOS DAS MANIFESTAÇÕES
A relação dos moradores no passado era muito diferente da situação
encontrada hoje. No passado havia maior envolvimento com o rio, em função de
uma série de fatores como melhor qualidade da água, do pescado, na quantidade de
peixe e também na carência dos moradores, que quase sempre emigrados do meio
rural, ao chegarem à zona urbana e morar nas proximidades dos rios, tinham com
isso uma relação de subsistência quando a necessidade assim requeria e ainda
utilizavam a água para dali tirar o seu sustento, devido à comercialização do
pescado nos bairros próximos e na zona central na cidade de Rondonópolis.
Com o passar dos anos o bairro sofreu uma grande metamorfose no que diz
respeito à situação e às relações que aconteciam entre seus moradores e o rio
Vermelho, pois esse com o crescimento da área urbana de Rondonópolis sofreu as
consequências de tal progresso.
As culturas se transformam e as cidades criam novos estratagemas
para “animer les territoires”, assegurar uma visibilidade e criar um
conjunto de práticas a valorizar os lugares. Junto com as
transformações do território urbano, são renovados os espetáculos e
as participações variadas; uma nova tendência de apropriação do
espaço estabelece-se nas cidades, por parte dos residentes e
forasteiros (COSTA, 2010, p. 87).
Para os moradores da Vila Canaã os espaços utilizados para as
manifestações que marcaram a história do bairro e a memória dos moradores tinham
e têm uma grande importância no que se refere à identidade dos próprios
moradores. Quando se fala em espaço criado segundo Carlos (2008, p. 52-53):
O aprofundamento da divisão social e espacial do trabalho busca
nova racionalidade, na qual a supremacia do poder político tende a
homogeneizar o espaço por meio do controle e da vigilância,
derrubando fronteiras administrativas, pondo em xeque os limites
definidos entre espaços, subjugando formas culturais, transformando
valores e comportamentos. A medida que todas as pessoas entram
ou têm possibilidades de entrar em contato com o mundo todo,
geram-se profundas mudanças apoiadas na constituição de uma
nova identidade que escapa cada vez mais ao nacional para criar a
idéia de um “mundo novo” onde tudo se comunica, uma vez que o
processo apesar de realizar-se no plano local e da vida cotidiana, é
cada vez mais determinado por uma lógica que lhe escapa e destrói
os referenciais criados pela história e sedimentados em
particularidades próprias do lugar.
Assim as mudanças observadas na vida e no cotidiano do povo da Vila
Canaã, tiveram implicações no espaço e possuem uma relação com os moradores
bem diferenciada do que as transformações do início da formação do bairro,
sobretudo, porque o rio perdeu quase que totalmente a sua função de suprir as
necessidades dos moradores. No passado as festas realizavam-se na casa de seus
promotores e as procissões acompanhavam o traçado das ruas do bairro, tendo
como ponto de partida a residência do realizador.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nesse trabalho teve grande destaque as informações guardadas na memória
dos entrevistados sobre as manifestações culturais de cunho religioso das festas do
Divino Pai Eterno e da Festa de São João, mostrando um pouco da dedicação de
uma senhora em consolidar todos os anos uma festa e de pessoas de poucos
recursos comprometidas com a fé.
Foi verificado, também, após a análise das diversas informações da festa do
Divino Pai Eterno, que algumas características da realização da festa foram trazidas
de alguns costumes pantaneiros, como no caso da presença da dança do cururu
durante a procissão que se realizava em tal festividade, como mencionado, tratandose de uma dança típica da região pantaneira.
Uma das características semelhantes das festas mencionadas se fixa na
relação íntima que as mesmas possuem com a Igreja Católica, seja por causa dos
santos, seja pelas raízes religiosas de seus promotores: a promessa e a devoção.
Outra importante constatação durante a pesquisa bibliográfica em relação à
Igreja Católica e as manifestações que aconteciam na festa do Divino Pai Eterno
promovida na Vila Canaã, foi o fato de que, na Cuiabá colonial do início do século
XIX, a dança do cururu já fazia parte das manifestações religiosas e era também
objeto de certa preocupação por parte da Igreja Católica por causa de alguns
excessos promovidos pela dança que eram considerados uma forma de pecado.
Apesar das festas abordadas serem realizadas por um longo período na área
urbana de Rondonópolis, concluiu-se que as mesmas tiveram mobilidade nos locais
de realização em virtude da migração dos diferentes promotores.
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ANEXO A
Mapa do trajeto das procissões das festas da Vila Canaã em Rondópolis - MT
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Darlan de Souza Marquezola