EFEITOS DO HERBICIDA AMETRINA E DE SEU PRODUTO FORMULADO GESAPAX EM PARÂMETROS BIOQUÍMICOS RENAIS E BRANQUIAIS DO PEIXE Prochilodus lineatus Bruna Lunardelli (Fundação Araucária), Cláudia B. R. Martinez (Orientadora), e-mail: [email protected] Universidade Estadual de Londrina / Departamento de Ciências Fisiológicas Londrina / Paraná. Área: Fisiologia; Sub-área: Fisiologia Comparada Palavras-chave: Biotransformação, Defesas antioxidantes, Ecotoxicologia. Resumo: A ametrina é um herbicida que tem sido utilizado em larga escala no controle de plantas infestantes em diversos tipos de culturas agrícolas. A desenfreada expansão da cultura de cana-de-açúcar no Brasil e a ampla utilização de agrotóxicos favorecem a contaminação dos ambientes aquáticos entretanto, pouco se sabe sobre os efeitos deste herbicida para peixes neotropicais. O objetivo deste trabalho foi avaliar e comparar os efeitos da ametrina e de seu produto formulado Gesapax 500 em parâmetros bioquímicos no tecido renal e branquial do peixe Prochilodus lineatus. Para tanto, peixes jovens foram expostos por 96 h apenas água (controle) ou à água contendo ametrina ou Gesapax, ambos na concentração de 2,5 mg.L-1. Os peixes expostos a ametrina apresentaram aumento significativo na atividade da glutationa-S-transferase (GST) e glutationa peroxidase nas brânquias e da glutationa redutase no rim. Entretanto, ocorreu um decréscimo significativo na atividade da GST branquial nos peixes expostos ao gesapax, em relação ao controle. A atividade da catalase no rim apresentou aumento significativo nos peixes expostos ao Gesapax em comparação com os demais grupos. Esses resultados mostram que tanto a ametrina quanto o Gesapax causam alterações bioquímicas no tecido renal e branquial de P. lineatus, porém de formas diferentes: enquanto o princípio ativo promoveu ativação da biotransformação nas brânquias e das defesas antioxidantes no rim e nas brânquias, o produto formulado inibiu a biotranformação e seu efeito nas defesas antioxidantes foi mais discreto. Introdução Os recursos hídricos no meio rural têm sofrido constante degradação em conseqüência da poluição agrícola. O herbicida ametrina está dentre os mais utilizados no controle de plantas infestantes nas lavouras de cana-deaçúcar. A ametrina faz parte do grupo químico triazinas, agindo como inibidor da fotossíntese e é considerado moderadamente tóxico. Assim, Anais do XIX EAIC – 28 a 30 de outubro de 2010, UNICENTRO, Guarapuava –PR. diante da expansão da cultura canavieira e da grande utilização desse herbicida, informações mais precisas sobre os efeitos deste composto para a biota aquática também são necessários. As alterações biológicas que expressam a exposição e os efeitos tóxicos dos poluentes presentes no ambiente podem ser usadas para identificar sinais iniciais de danos à saúde dos peixes atuando, portanto como biomarcadores da contaminação aquática. Vários parâmetros bioquímicos de peixes têm sido utilizados como biomarcadores devido às suas respostas a substâncias tóxicas. Os mais utilizados são as enzimas envolvidas na detoxificação de xenobióticos e de seus metabólitos e as enzimas antioxidantes. Devido à sua importância para o peixe e grande superfície de contato com a água, as brânquias representam o primeiro órgão afetado após exposição a contaminantes servindo como bom indicador de contaminação aquática (Fanta et al., 2003; Thophon et al., 2003). Já o rim, produzindo urina, atua fornecendo uma rota excretória para metabólitos de diversos xenobióticos aos quais os peixes são frequentemente expostos. Tendo em vista que um grande volume de sangue flui através do rim, alterações encontradas nesse órgão podem ser úteis como indicadores de poluição (SILVA e MARTINEZ, 2007). A espécie P. lineatus, conhecida como curimba, foi escolhida para este trabalho por se tratar de uma espécie de peixe neotropical, presente nas regiões Sudeste e Sul do Brasil, sensível a diversos tipos de poluente e por isso apropriada para testes de toxicidade (MARTINEZ et al. 2004). Materiais e métodos Exemplares jovens de Prochilodus lineatus, fornecidos pela Estação de Piscicultura da UEL, foram aclimatados por sete dias e então submetidos a testes de toxicidade do tipo estático agudo em aquários de vidro de 100L, contendo 8 peixes cada. Os peixes foram expostos aos seguintes tratamentos: somente água desclorada (controle), água desclorada contendo ametrina (AMET) e água desclorada contendo Gesapax (GESA) ambos na concentração de 2,5 mg.L-1 durante o tempo de exposição de 96h. Após a exposição, os peixes foram anestesiados com benzocaína, sacrificados por secção medular, pesados e medidos, e com material de dissecção, retirou-se o rim posterior e as brânquias, que foram mantidos em ultra-freezer (-80°C) até o momento das análises. As amostras de rim e brânquia foram homogeneizadas em tampão fosfato de potássio 0,1M, pH 7,0 e centrifugadas (13000 g, 20 min, 4oC). O sobrenadante foi retirado e utilizado para a determinação da atividade da enzima de biotransformação (GST) e atividade das enzimas antioxidantes. A concentração de proteína foi determinada pelo método de Lowry et al. (1951), em espectrofotômetro a 700 nm, utilizando-se como padrão albumina sérica bovina. A atividade da catalase (CAT) foi determinada seguindo-se a velocidade de decomposição do peróxido de hidrogênio, através do decréscimo de absorbância a 240 nm e expressa em μmol H2O2 Anais do XIX EAIC – 28 a 30 de outubro de 2010, UNICENTRO, Guarapuava –PR. metabolizado.min-1.mg ptn-1. A atividade da glutationa peroxidase (GPx) foi determinada pela oxidação do NADPH + H+ em presença de peróxido de hidrogênio em espectrofotômetro a 340 nm e 25 oC, e expressa em µmol NADPH oxidado.min-1.mg ptn-1. A atividade da glutationa redutase (GR) foi determinada registrando-se a redução de NADPH na presença da glutationa oxidada, em espectrofotômetro a 340 nm e expressa em µmol NADPH oxidado.min-1.mg ptn-1. A atividade da glutationa-S-transferase (GST) foi determinada seguindo-se a complexação da glutationa reduzida (GSH) com o 1-cloro-2,4-dinitrobenzeno CDNB, em espectrofotômetro a 340 nm e expressa em nmol CDNB conjugado .min-1.mg ptn-1. Os resultados estão expressos como média ± EP para N = 6. Os resultados obtidos para os grupos experimentais AMET e GESA foram comparados entre si e com o grupo controle por meio de análise de variância (ANOVA) e as diferenças foram localizadas pelo testes de Tukey. Foram considerados significativos P<0,05. Resultados e Discussão A atividade da GST nas brânquias apresentou aumento significativo nos peixes do grupo AMET (48,95 ± 4,23) e decréscimo significativo nos peixes do grupo GESA (20,06 ± 1,36) em relação ao grupo controle (32,09 ± 3,55). A GST renal não apresentou variação significativa entre os grupos. A GST metaboliza grande variedade de xenobióticos orgânicos, por meio da conjugação destes com a glutationa reduzida, aumentando a solubilidade do xenobiótico na água, reduzindo assim sua toxicidade. Essa atividade aumentada da GST nas brânquias no grupo AMET, pode estar associada a um processo adaptativo do organismo dos peixes à presença da ametrina, para torná-la mais solúvel e menos tóxica para o animal. A diminuição da atividade da GST nas brânquias do grupo GESA, pode ter ocorrido pela presença de outras substâncias no composto formulado, como surfactantes. A atividade da CAT nas brânquias foi muito baixa e não apresentou variações significativas entre os grupos. Já no rim a CAT apresentou aumento significativo no grupo GESA (33,78 ± 2,00), quando comparado com os grupos controle (18,96 ± 1,58) e AMET (15,47 ± 2,07). A ativação da CAT pode ser considerada como indicadora do aumento da produção de espécies reativas de oxigênio (ERO) e sua ativação representa uma resposta do tecido para remover estas ERO, no caso o H2O2. A atividade da GPx branquial mostrou aumento significativo no grupo AMET (191,66 ± 20,23) em relação ao controle (133,90 ± 8,51) e ao grupo GESA (171,37 ± 9,66). No rim não foram verificadas variações significativas na atividade da GPx (CTR: 121,12 ± 12,86; AMET: 156,96 ± 15,19; GESA: 134,72 ± 9,20) . Essa enzima catalisa o metabolismo de um grande número de hidroperóxidos orgânicos (ROOH) além do H2O2. O aumento significativo da atividade da GPx nas brânquias no grupo AMET indica um aumento na geração de ERO, que deve ter resultado do processo de biotransformação, como indicado pelo aumento da GST. Além disso, devido a baixa atividade Anais do XIX EAIC – 28 a 30 de outubro de 2010, UNICENTRO, Guarapuava –PR. da catalase nas brânquias, a função da GPx pode ter compensada a CAT na remoção de H2O2. A atividade da GR renal apresentou aumento significativo no grupo AMET (7,65 ± 2,36) em relação aos outros grupos (CTR: 5,71 ± 0,93; GESA: 6,84 ± 0,39). Nas brânquias as variações observadas na GR não foram significativas. A alta atividade GR renal do grupo AMET, deve ter ocorrido para evitar o acúmulo de GSSG intracelular, originada principalmente através da atividade GPx, que não apresentou aumento significativo, porém apresentou uma tendência de aumento. Conclusões Os resultados deste trabalho mostram que tanto a ametrina quanto seu produto formulado o Gesapax causam alterações bioquímicas no tecido renal e branquial de P. lineatus, porém de formas diferentes: enquanto o princípio ativo promoveu ativação da biotransformação nas brânquias e das defesas antioxidantes no rim e nas brânquias, o produto formulado inibiu a biotranformação e seu efeito nas defesas antioxidantes foi mais discreto. Agradecimentos Os autores agradecem à Estação de Piscicultura da UEL pelo fornecimento de peixes, à Fundação Araucária pela concessão de bolsa de iniciação científica para B. Lunardelli, ao CNPq pelo apoio ficanceiro (INCT-TA) e pela concessão de bolsa pesquisador para C.B.R.Martinez. Referências Fanta, E.; Rios, F.S.; Romão, S.; Vianna, A.C.C.; Freiberger, S. Histopathology of the fish Corydoras paleatus contaminated with sublethal levels of organophosphorus in water and food. Ecotoxicol. Environ. Safe.. 2003, 54, 119. Lowry, O.H; Rosebrough, N.J; Farr, A.L; Randall, R.J. Protein measurement with the folin phenol reagent. J. Biol. Chem. 1951, 193,265. Martinez, C.B.R., Nagae, M.Y., Zaia, C.T.B.V., Zaia, D.A.M. Morphological and physiological acute effects of lead in the neotropical fish Prochilodus lineatus. Braz. J. Biol. 2004, 64, 797. Silva, A.G.; Martinez, C.B.R. Morphological changes in the kidney of a fish living in an urban stream. Environ. Toxicol. Pharmacol. 2007, 23, 85. Thophon, S.; Kruatrachue, M.; Upatham, E.S.; Pokethitiyook, P.; Sahaphong, S.; Jaritkhuan, S. Histopathological alterations of white seabass, Lates calcarifer, in acute and subchronic cadmium exposure. Environ. Pollut. 2003, 121, 307. Anais do XIX EAIC – 28 a 30 de outubro de 2010, UNICENTRO, Guarapuava –PR.