V – CONSTRUIR A CIDADE: OS ESPAÇOS Arquivo Municipal de Lisboa UM ACERVO PARA A HISTÓRIA Controvérsias sobre um teatro efémero na cidade de Lisboa: A Real Ópera do Tejo (1752-1755) Maria Alexandra Trindade Gago da Câmara (UAb; CHAIA/UE) [...]Todas as cortes civilisadas da Europa tem para divertimento publico Cazas de Ópera em que se entretem não só as Famílias Reais se não ainda a nobreza para os livrar de maos pensamentos ou sediçoens occupando-se seriamente no que vem e no que ouvem que no methodo presente não serve para recrear, mas ainda para instruihir. Sua Magestade não so por estes motivos se não também pela grande propensao que tinha às Artes Liberais, estabeleceu huma. Com que magnificiencia e architectura ella fosse edificada, qual fosse a tribuna do rei, qual a decoração quaes os actores, qual a orchestra, ainda hoje haverá muito ou quem se lembre de assemelhante pompa, ou que tenha ouvido a seus pays e Avós. [...]. Daniel da Silva Freire, Elogio Histórico do Magnânimo Rei D. José I, (Biblioteca da Academia das Ciências, Códice 353). 1 - Antecedentes | Fortuna crítica do edifício Entre os vários percursos que se abrem ao estudo dos espaços teatrais construídos na capital anteriores ao terramoto de 1755, um, parece ter-se destacado pelo fascínio e pelas "histórias" que desde sempre se contaram à sua volta. Refiro-me a Real Ópera do Tejo ou Ópera do Tejo1 como ficou conhecida. Este equipamento - infelizmente de duração muito efémera - integrou Lisboa na rede e circuito das grandes capitais europeias pela escolha do autor do seu risco, o arquiteto Giovanni Carlo Sicinio Bibliena, pela sua localização, pelo seu programa funcional e programático e por fim, pela sua decoração. O seu súbito desaparecimento, o relato dos testemunhos coevos, os escassos elementos iconográficos que ainda existem, assim como alguma polémica em redor da sua implementação urbana desencadeiam ainda hoje um processo de reconstituição de um espaço de excelência artística, que tem sido nos últimos anos objeto de investigação pertinente, exaustiva e rigorosa. A recente historiografia sobre a atividade teatral setecentista e os espaços onde esta se desenvolvia tem merecido importantes estudos e trabalhos desenvolvendo-se e materializando-se em diferentes eixos temáticos de investigação que vão desde a encomenda e idealização dos espetáculos, aos meios financeiros, aos espetadores e ao público, às possibilidades de sociabilidades estabelecidas no espaço teatral até aos modelos arquitetónicos e à chegada de artistas, arquitetos-decoradores, maquinistas, músicos entre outros, proporcionando cada vez mais uma leitura interdisciplinar que constitui necessariamente uma campo de As denominações deste espaço de existência efémera apresentam variações ao longo da historiografia do século XX: desde Caza da Ópera a Teatro do Paço da Ribeira ou Teatro Real da Ópera. Pedro Januário recolhe e compila no seu exaustivo trabalho as diversas designações do teatro”, possibilitando deste modo uma pesquisa mais fácil para futuros trabalhos; JANUÁRIO, Pedro Miguel Gomes - Teatro Real da Ópera do Tejo ( 1752-1755). Investigacion sobre un teatro de ópera a la italiana,para una possibile reconstituición conjetural basada en elementos iconográfico y fuentes documentales. Madrid [s.n.], 2008. Tese de Doutoramento apresentada na Universidade Politécnica de Madrid. 2 vols, p. 95 e seguintes. 1 247 intersecção e cruzamento de diferentes disciplinas: história da arte, história do espetáculo, estudos literários, musicologia, antropologia e a sociologia. Neste contexto, e no que diz respeito ao emblemático edifício da Real Ópera do Tejo, o tema foi desde sempre recorrente, despertando atenção juntamente com a tragédia do cataclismo, junto dos seus contemporâneos2. Alguns foram os testemunhos mais diretos, especificamente sobre a sua estrutura espacial interior, bem como sobre seus pormenores decorativos e ornamentais como Chevalier de Courtils (Charles-Christian des Courtils de Bessy)3. Mas foi sobretudo Teófilo Braga (1843-1924)4 que permitiu a primeira historiografia sobre os teatros régios e muito em particular sobre a Ópera do Tejo, baseando-se numa intensa pesquisa documental. Na mesma direção, o olissipógrafo Gustavo de Matos Sequeira (1880-1962)5, na sua obra “Teatro de outros tempos”, refere-se à Ópera do Tejo consultando alguma documentação que hoje, se encontra dispersa, deixando testemunhos um pouco fantasiosos e romanceados6. Em 1933 com a apresentação pública de José de Figueiredo sobre a novidade da descoberta de três desenhos da Academia Nacional de Belas Artes atribuídos à Ópera do Tejo, representou para este edifício um momento muito importante no âmbito da investigação sobre a arquitetura dos espaços teatrais na Lisboa de Setecentos. Uma planta, um corte e uma legenda foram vistos, durante muitos anos, como sendo os realizados por Giovanni Carlo Bibiena para a construção da Ópera de Lisboa. Contudo, estas atribuições foram postas em causa por Augusto Vieira da Silva7, questão não totalmente resolvida pela historiografia que, depois de um longo tempo foi trazida de novo a debate em recentes, renovados e consistentes trabalhos de investigação. Controvérsias sobre um teatro efémero na cidade de Lisboa: A Real Ópera do Tejo (1752-1755) - Maria Alexandra Trindade Gago da Câmara Entre os anos 80 e 90 do século XX deve-se à então diretora do Museu Nacional de Arte Antiga, Maria Alice Beaumont8 a divulgação e estudo das cenografias dos arquitetos-cenógrafos Bibiena que se encontram no museu. O catálogo de 1987 foi um marco, não só pela importância da exposição dos desenhos, nunca antes vistos em Portugal, mas principalmente pelos estudos de fundo aí publicados, tanto de Manuel Carlos de Brito, sobre a corte e a ópera em Portugal na época em questão, como o estudo do arquiteto Sérgio Infante sobre a espacialidade interior do edifício com base na análise da gravura das ruínas9. A investigação10 de Manuel Carlos de Brito constitui um marco fundamental tanto a nível documental, como musicológico e biográfico sobre a ópera régia dos períodos josefino e mariano, reunindo informação inédita muito importante sobre a política cultural de D. José I e a encomenda de um teatro de ópera para a capital. Outros trabalhos se seguem como os da autora deste texto11 sobre os espaços teatrais em Lisboa anteriores ao terramoto publicando alguns dos importantes recibos dos trabalhos realizados por Sicinio Bibiena nos teatros régios, bem como o famoso plano de Medição da Ópera do Tejo, um documento fundamental para o estudo deste edifício. Recordemos nomes como Jacome Ratton (1736-1820) em Recordações de Jacome Rattom…sobre ocurrencias do seu tempo em Portugal... durante o lapso de sessenta e três anos e meio, alias de Maio de 1747 a Setembro de 1810. Londres: H. Bryer, 1813; Thomas Jacomb in MACAULAY, Rose - They went to Portugal. Londres: Penguin Books, 1985) e Gerard de Visme in BURNEY, Charles - The general history of music from the earliest ages to the present period. Londres: G. Robinson, 1789, vol. 4. 2 BOURDON, Albert-Alain - Une description de Lisbonne en Juin de 1755 par le Chevalier de Courtils. In Sep. Bulletin des Études Portugaises, nº 26 (1965), p. 111-180. 3 4 BRAGA, Theófilo - História do Theatro Português.Porto: [s.n.], 1870-1871. 5 SEQUEIRA, Gustavo Matos - Teatro de outros tempos: Elementos para a História do Teatro Português. Lisboa: [s.n.], 1933. CASTELO BRANCO, Camilo - O Paço Real da Ribeira. In Noites de Insomnia offerecido a quem não póde dormir. Porto: Ernesto Chardron, nº 8 (agos. 1874), p. 28. 6 7 SILVA, Augusto Vieira da - Dispersos. Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 1954-1960, vol. III. 8 BEAUMONT, Maria Alice - Desenhos dos Galli Bibiena: Arquitectura e Cenografia. Lisboa: IPPC, 1987. Atualmente um tema posto em questão pelo arquiteto Luis Soares Carneiro. SOARES, Luis Soares - Teatros portugueses de raíz italiana. Porto: [s,n,], 2002. Tese de Doutoramento apresentada na Faculdade de Arquitetura do Porto, 2 vols, p. 52. 9 248 10 BRITO, Manuel Carlos de, Opera. In Portugal in the Eighteenth Century. Cambridge: Cambridge University Press, 1989. 11 CÂMARA, Maria Alexandra Trindade Gago da - Espaços Teatrais Setecentistas. Lisboa: Livros Horizonte, 1996. O grande ponto de viragem sobre o interesse deste espaço emblemático e de excelência artística e do seu enquadramento cultural e urbanístico é dado com os mais recentes trabalhos de investigação tanto de Guiseppina Raggi12, Isabel Mayer Godinho Mendonça13, Aline Gallash Hall14 como dos arquitetos Pedro Januário15 e Luis Soares Carneiro16 que nos trazem e avançam todos, na sua globalidade, leituras e interpretações atualizadas com base em investigação documental exaustiva e inédia. Paralelamente com as comemorações sobre 250 anos do Terramoto de Lisboa em novembro de 2005 e no âmbito de um colóquio realizado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, surgem as primeiras tentativas de projeção tridimensional da Ópera do Tejo17, dando origem a uma leitura revisitada do edifício e do seu contexto urbano com o auxílio de novas tecnologias digitais, assunto que retomaremos mais adiante. Com o terramoto de 1 de novembro de 1755 desaparece do edificado urbanístico este espaço-referência que apenas durou seis meses, mas que permaneceu na memória coletiva e no imaginário da cidade até à contemporaneidade. 2 - Contexto urbano | Ubicação Figura 1 - Museu de Lisboa, TINOCO, João Nunes - Planta da cidade de Lisboa. 1650 (cópia). MC.DES.1084. Especialmente no estudo para os teatros régios setecentistas portugueses e nas atribuições que conseguiu fazer sobre as plantas e os desenhos incompletos em dois fundos – o Museu Nacional de Arte Antiga e a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro – que teriam sido realizados por G.C Bibiena para o teatro de Salvaterra de Magos: RAGGI, Guiseppina - G. Carlo Sicinio Galli Bibiena: Il teatro di Salvaterra a Lisbona. In I Bibiena – una famiglia europea. Bolonha, Marsilio, 2000. 12 Importante sobre a publicação de documentação epistolar inédita entre o arquiteto bolonhês G. C. Bibiena e o seu protector Conde Malvasia: MENDONÇA, Isabel Mayer Godinho - Teatros Régios Portugueses em 1755. Broteria,: cristianismo e cultura. Vol.157 Nº1 (2003), p. 21- 43. 13 Exaustivo estudo sobre a ópera e os teatros régios com muita documentação inédita: HALL, Aline Gallash - A Cenografia e o Ópera em Portugal no século XVIII. Os Teatros Régios 1750-1793. Évora: [s.n.], 2012. Tese de doutoramento apresentada á Universidade de Évora. 14 Apresenta a biografia mais completa e exaustiva de Giovanni Carlo Sicinio Bibiena e da Ópera do Tejo, tentando abordar quase toda a sua obra conhecida, desde Itália, (incluindo a importante Academia Clementina), até Portugal: JANUÁRIO, Pedro - Teatro real de la Ópera del Tajo (17521755), Investigación sobre un teatro de ópera a la italiana, para una posible reconstituición conjectural, basada en elementos iconográficos y fuentes documentales... op.cit.. 15 A obra mais completa e crítica trabalhando com profundidade e numa visão alargada cronologicamente a questão do desenvolvido na arquitetura teatral portuguesa com influências italianas, tanto a nível dos teatros régios, como dos públicos. CARNEIRO, Luis Soares - Teatros portugueses de raíz italiana, op. cit.. 16 CÂMARA, Maria Alexandra Trindade Gago da - A Nostalgia de um Património Desaparecido: Uma obra Emblemática de Encomenda Régia na Lisboa do século XVIII – a Real Ópera do Tejo. In O Grande Terramoto de Lisboa: Ficar Diferente. Lisboa: Edições Colibri, 2006, p. 202-211 e HALL, Aline Gallash - A Ópera do Tejo: uma possível reconstituição espacial e o impacte do Terramoto numa estrutura cultural de imagem. In 1755: Catástrofe, Memória e Arte. Lisboa: Edições Colibri, Centro de Estudos Comparatistas, 2006, p. 229-237. 17 249 Controvérsias sobre um teatro efémero na cidade de Lisboa: A Real Ópera do Tejo (1752-1755) - Maria Alexandra Trindade Gago da Câmara O conhecimento urbano da Lisboa Barroca e a sua respetiva iconografia era, desde modo, pontuado num diálogo intrínseco com o rio Tejo, destacando-se os principais edifícios que faziam parte do complexo palatino entre muitos outros palácios e conventos que se iam organizando e renovando junto ao rio, merecendo uma atenção muito especial as duas principais praças públicas: o Terreiro do Paço e o Rossio. Lisboa ia assim paulatinamente mudando de feição. Nas vésperas do terramoto de 1755, já em pleno reinado de D. José I, construiu-se então esta caza da ópera no extremo ocidental do conjunto do Palácio Real, cujo projeto, foi assinado como já referido pelo arquitetodecorador Giovanni Carlo Galli Bibiena. A fixação deste lugar teatral na cidade, e a escolha do local mais adequado no plano urbanístico da Lisboa dos meados do século XVIII, - seria um edifício que teria de marcar a zona baixa da cidade, junto ao Palácio Real com a frente virada ao rio - representou um processo de autonomização na edificação de um espaço exclusivamente destinado e reservado à receção da ópera como espetáculo ‘total’, na sua essência genuinamente italiana, e como instituição de carácter permanente. Os diferentes estudos18 que referem o âmbito urbano deste teatro são unanimes na condição de ocupação do local junto ao rio a partir de referências coevas. Efetivamente as proximidades junto ao Tejo e ao estaleiro da Ribeira das Naus ou mesmo da Patriarcal são indicadores não só como ubicadores mas também como elementos vinculativos a um determinado contexto urbano19. Controvérsias sobre um teatro efémero na cidade de Lisboa: A Real Ópera do Tejo (1752-1755) - Maria Alexandra Trindade Gago da Câmara Com confirmação documental, e partindo da análise e confronto de plantas da cidade de Lisboa anteriores ao terramoto20, apercebemo-nos que a escolha da localização do edifício da ópera nesta zona foi fundamental e, de certo modo pensada, de modo a ter um impacte urbanístico na zona. Figura 2 - BNP, Planta de Lisboa anterior ao Terramoto. D.106 R. Citem-se o conhecidos estudos de olisipografia entre os quais Camilo Castelo Branco em Noites de Insónia - op. cit.; a obra a Ribeira de Lisboa de Júlio de Castilho, as várias edições das Muralhas de Lisboa de Augusto Vieira da Silva e as diversas publicações de Gustavo Matos Sequeira - onde foi possível compilar um conjunto de mapas e plantas antigas de Lisboa - e os atuais trabalhos de investigação que revisitaram e confirmaram a localização do edifício da Ópera do Tejo. JANUÁRIO, Pedro, op. cit.; HALL, Aline Gallash, op. cit.; e CARNEIRO, Luis Soares, op. cit. 18 Em termos de contextualização da envolvente urbana, os fragmentos de evidências arqueológicas tais como a esquina do edifício do Arsenal da Marinha que aí se construiu posteriormente testemunham esta recordação da proximidade do rio e da Praça do Comércio. JANUÁRIO, Pedro, op. cit., vol I, p. 10. Questão confirmada também pelo autores CARNEIRO, Luis Soares, op. cit., p.65 e HALL, Aline Gallash; op. cit., p.132-135. 19 Os trabalhos e investigações de Pedro Januário e Aline Gallash Hall partindo da análise de dados documentais e iconográficos apontam para uma correlação entre o tecido e a malha urbana antiga e o novo tecido urbano mais recente provando coincidências entre a implantação e localização da Ópera do Tejo e o novo edifício do Arsenal da Marina. JANUÁRIO, Pedro, op. cit., vol. I, p. 477, HALL, Aline Gallash, op. cit., p.115. 20 250 A Real Ópera do Tejo ocuparia o vasto espaço a oeste do Palácio Real e da Casa da Índia, zona onde hoje se encontra o edifício do Arsenal da Marinha, provavelmente abrangendo toda a distância entre o Beco da Fundição (o limite ocidental do espaço do teatro) e o Arco do Ouro ou Arco da Ribeira das Naus, junto ao Terreiro do Paço). Mais especificamente na continuidade de um novo corpo que se teria construído durante o reinado de D. João V e que se designava por Quartinho Novo21, delimitado a norte pela rua do Arco dos Cobertos e a sul pelo estaleiro real, a Ribeira das Naus. Figura 3 - Museu de Lisboa, POPPE, Elias Sebastião – Plano da cidade de Lisboa Baixa, 1756. MC.DES 0976. É Camilo Castelo Branco que nos descreve com base num documento anónimo toda a envolvente em redor da Ópera do Tejo em especial a comunicação deste espaço e o teatro, continuando a ser uma fonte de referência e citação para os trabalhos mais recentes. JANUÁRIO, Pedro - op. cit., vol. I, p. 475. 21 251 Controvérsias sobre um teatro efémero na cidade de Lisboa: A Real Ópera do Tejo (1752-1755) - Maria Alexandra Trindade Gago da Câmara Figura 2 A - BNP, FREITAS, José Valentim - Planta de Lisboa anterior ao Terramoto. Cópia de outra anterior a 1755. D.106 R. Este novo "trecho" do palácio real estendia-se paralelamente ao rio em direção ao imponente Palácio Corte-Real - que teria começado a edificar-se em 1585 por Cristóvão de Moura e Távora Corte-Real edifício de implantação quadrada com jardim aberto ao rio em forma de U22 e que fazia parte do importante complexo palatino23. Figura 4 - Museu Nacional do Azulejo, Grande panorama de Lisboa, pormenor do Palácio Corte Real, c. 1699, MNaz nº INV 1. Controvérsias sobre um teatro efémero na cidade de Lisboa: A Real Ópera do Tejo (1752-1755) Maria Alexandra Trindade Gago da Câmara Prosseguindo com a análise da localização do teatro da ópera, e da caracterização física da Lisboa deste período, a documentação camarária é indicadora e reveladora de dados importantíssimos relacionados com a gestão municipal deste espaço ligada aos aspetos urbanísticos. Um documento preciso de 1755 - "Consulta da Câmara a el-rei” datado de 24 de maio de 175524 confirma-nos que as obras deste teatro não estavam totalmente concluídas nas vésperas do terramoto25 e dá-nos conta da “controvérsia suscitada entre os proprietários e os moradores da Rua dos Cobertos e os tanoeiros representados por seus juízes, foi motivada pela extinção do arruamento deste ofício, consequência forçada da demolição das casas e das officinas que os officiaes do dito offício ocupavam, demolição indispensável ao fim de realizar o alargamento e melhoramento da serventia para o theatro de ópera, que el - rei D. José I mandara construir em dependência do palácio real Ribeira da Cidade26. Esta demolição fora assim justificada pelo alargamento de ruas para uma melhor acesso ao edifício da ópera: ..." Senhor -Vossa Magestade, em remissão de 17 de outubro de 1754, é servido que o senado da camara se veja, e com effeito se lhe consulte com o que parecer, a representação dos juizes do offício de tanoeiro desta cidade que a qual expõem a Vossa Magestade, humilhados profundamente na augusta e real presença de Vossa Magestade Fidelissima, que attendendo o senado da camara, prudente e vivamente, à utilidade publica boa harmonia dos vassallos de Vossa Magestade e formosura da cidade, destinara, de tempos antiquissimos, arruamentos proporcionados a todos os officios, sendo o dos supliccantes desde a Porta da Oura até à Cruz de Cate-que-farás...e conservando-se arruados ha mais de quinhentos annos, se acham ao presente em notavel angustia pela demolição da rua ....e chegando a tanta decadencia os seus privilégios que, mandando Vossa Magestade demolir as casas em que morava o mestre José dos Santos, ordenou ao desembargador João Caetano Thorel o acomodasse em outras...[...] sublinhado nosso27. 22 JANUÁRIO, Pedro - op. cit., vol. I, p. 473. “ ... Ficava nas margens do Tejo, no local onde atualmente se acham as officinas do Arsenal da marinha e parte do Corpo Santo, que também em tempo foi chamado de Corte Real. Comunicava com os paços da Ribeira por um passadiço...”, OLIVEIRA, Eduardo Freire de - Elementos para a História do Município de Lisboa. Lisboa: Câmara Municipal, 1887-1943, vol II, p. 517. 23 Arquivo Municipal de Lisboa (AML), Livro 8º de consultas e decretos de el-rei “D. José I, f. 47, transcrito por Eduardo Freire de OLIVEIRA, op. cit., vol. XVI, p. 63. 24 Pedro Januário, no seu estudo sobre este teatro real, ao analisar a documentação conhecida, conseguiu delimitar a cronologia das obras. JANUÁRIO, Pedro, op. cit., vol. I, p. 515. 25 252 26 OLIVEIRA, Eduardo Freire de - op. cit., vol. XVI, nota 1, p. 64. 27 OLIVEIRA, Eduardo Freire de - op. cit., vol. XVI, p. 63-64. Confirmamos que a presença física deste edifício teve uma importância urbanística evidente, pois para a sua construção foi demolida a Porta da Oura da muralha fernandina, (construída entre 1373 e 1375), que seguia ao longo da rua do Arco dos Cobertos, mais tarde também conhecida como rua dos Tanoeiros. Também se fez a demolição de todos os palácios e casas que existiam entre a Porta da Oura e o Postigo do Carvão, um pouco mais adiante, para oeste, onde se iria abrir, depois aquela a que se passou a dar o nome de Beco da Fundição, onde ficava o topo poente do teatro28. Este significativo processo de renovação da cidade, estendeu-se do centro para oeste através da zona ribeirinha, materializando esta aproximação à ideia de uma cidade moderna. Socorrendo-nos de documentação coeva citada e transcrita por Freire de Oliveira assistimos, como vimos, a importantes transformações urbanas verificadas no período pós-joanino, incluindo a abertura de novas ruas, associadas ao processo de expansão e desenvolvimento de áreas limítrofes. Mas apesar do esforço de modernização intentado pela aberturas de vias principais, o alargamento de artérias, demolição de alguns edifícios e a necessidade de melhorar o acesso a determinados espaços, como este do teatro de Ópera, em resultado da dificuldade de circulação de pessoas na zona baixa da cidade, Lisboa, porém, continuou presa a um traçado urbano de características medievais, sinuoso e estreito, sem conseguir dar resposta a muitos problemas. Este caráter ambivalente de Lisboa em meados do século XVIII transparece claramente neste relato britânico: É quase impossível conceber algo mais magnífico do que a aparência desta nobre cidade vista à distância, resultante, como já referimos, tanto da sua localização na encosta de várias colinas como dos muitos grandes edifícios que a povoavam. Contudo, a parte interior não correspondia de todo à sua magnificiência exterior. As habitações de Lisboa tinham, maioritariamente, quatro e, em alguns casos, cinco andares e eram construídas em pedra. A natureza estreita, íngreme e irregular de algumas das suas ruas, e a sujidade de outras, tornaram a cidade num lugar muito desagradável para pessoas de fora"29. 3 - Catástrofe | Ruína e Recriação Em 1756 escrevia Francisco Pina e Melo30 expressando um sentimento vivido após o cataclismo de 1755 ... Os mais versados na cidade desconheciam muitas vezes o sítio que pisavam, confundida a memória na vista de tanto objecto lamentável”. “Caiu Lisboa sobre Lisboa. E não sei se caiu sobre si mesma. Busca-se Lisboa em Lisboa e não aparece" . “Todo o centro da cidade ficou reduzido a um pavoroso deserto, em que se não viam mais que montes de pedras e cúmulos de cinzas”31. O terramoto provocou como sabemos o desaparecimento de uma parte fundamental de Lisboa, aquela que representava a Capital do Reino (no Terreiro do Paço e envolventes) que reunia o essencial das atividades económicas, alojando os principais palácios, igrejas e conventos. Foram muitas as perdas patrimoniais que, até hoje, não foi possível ainda apurar com segurança. Neste contexto, desaparece parte de uma Lisboa joanina que é divulgada por imagens feita em grande parte 28 SILVA, Augusto Vieira da - As muralhas da Ribeira de Lisboa. Lisboa: Câmara Municipal, 2005, p. 176-178 e CARNEIRO, Luis Soares - op. cit., p. 51. 29 Scots Magazine. Edinburgh, Midlothian, Scotland, November 1755 (tradução nossa). 30 Juízo sobre o Terramoto de 1755. Coimbra: Officina de Antonio Simoens Ferreira, 1756 p. 5 e 6. MENDONÇA, Joaquim J. Moreira de - História Universal dos Terramotos que tem havido no Mundo...com huma narraçam individual Do Terramoto de 1755.... Lisboa: Officina de António Vicente da Silva, 1758, p. 123. 31 253 Controvérsias sobre um teatro efémero na cidade de Lisboa: A Real Ópera do Tejo (1752-1755) Maria Alexandra Trindade Gago da Câmara Esta era ainda a Lisboa de 1755: a falta de um programa globalmente inovador, onde apenas a arquitetura pontuava alguns projetos de qualidade como foi exemplo o edifício da Real Ópera do Tejo. através da edição de gravuras32 que se distribuíam separadamente ou incorporadas em livros, quase sempre publicados no estrangeiro. Foi sempre com base nestas imagens que a Europa e parte do Mundo puderam admirar e conhecer a famosa capital portuguesa, nas suas particularidades e nas suas centralidades com destaque para os principais equipamentos régios, cívicos e funcionais mais emblemáticos da Lisboa, agora muito deles desaparecidos, que era preciso fixar, divulgar e engrandecer. Controvérsias sobre um teatro efémero na cidade de Lisboa: A Real Ópera do Tejo (1752-1755) - Maria Alexandra Trindade Gago da Câmara O conhecido registo da ruína da Ópera do Tejo circulou num espaço geográfico alargado como único contributo da época para a formulação de uma ideia aproximada do que foi, na realidade, aquele edifício. No entanto, no esforço de a fazer quase “renascer”, esta gravura aberta por Le Bas - deixou-nos se quisermos - uma outra visão deste lugar ainda dentro do mesmo século: uma ruína talvez perturbante, levando-nos a interrogar se não é ela própria já uma recriação ou evocação de um lugar desaparecido, centrado de forma evidente na "poética das ruínas" e enfatizando a vertente dramática. Figura 5 - Museu de Lisboa, LE BLAS, Jacques Philipe (gravura); PEDEGUACHE, Manuel Tibério (desenho), Gravura aguarelada das ruínas da Real Casa da Ópera, ou Ópera do Tejo, 1757. MC GRA 0438. A catástrofe representou uma rutura, em termos de memória e identidade urbana, e a escassez de fontes sobre a cidade destruída condicionaram a pesquisa história sobre a Lisboa pré-terramoto e muito em particular sobre o Real Teatro da Ópera do Tejo. A longa historiografia sobre esta temática impunha um olhar de conjunto, capaz de compilar e testar as variadas hipóteses de trabalho num modelo único, se bem que aberto à evolução da própria pesquisa. Esta exigência deu origem a um projeto de recriação virtual, interativo e imersivo, sobre o conjunto urbano que se perdeu e sobre as ruínas do qual se construiu a nova Lisboa. Intitulado City and Spectacle: a vision of PEDEGACHE, Miguel Tibério - Colleção de algumas ruínas de Lisboa causadas pelo terramoto e pelo fogo do primeiro de Novembro do ano de 1755 debuxadas na mesma cidade por MM Paris et Pedegache e abertas ao buril em Paris por Jac. PH le Bas, 1757. 32 254 pre-earthquake Lisbon33 pretende não só uma aproximação à memória da cidade perdida, como dar corpo a um laboratório de pesquisa em história da cidade. Recorrendo-se à tecnologia dos mundos virtuais, este projeto de investigação em desenvolvimento no Centro de História de Arte e Investigação Artística da Universidade da Universidade de Évora desde 2005, pretende recriar Lisboa na primeira metade do século XVIII nas suas dimensões urbanística, social e cultural. A partir de um levantamento e seleção exaustiva de fontes escritas e iconográficas existentes nos acervos nacionais, está a ser construída uma proposta de reconstituição da área sobre a qual incidiu o plano de reconstrução de Lisboa. Abrange o desenho urbano e o tecido arquitetónico do conjunto desaparecido. Figura 6 - Vista aérea do complexo palatino recriado com a localização dos edifícios, Projeto - City and Spectacle: a vision of preearthquake. Versão Opensim, CHAIA – Universidade de Évora, novembro 2011. Este projeto constitui-se assim como um laboratório de aplicação da linguagem virtual à pesquisa histórica, permitindo potenciar e alargar o contexto tradicional da segunda. Em concreto possibilita testar, numa representação tridimensional interativa e imersiva, um longo percurso de investigação em história da cidade. Pretende-se construir um instrumento que permitirá fomentar, a nível nacional e internacional, o debate científico e a partilha de fontes documentais sobre a cidade de Lisboa e a História Urbana. Um projeto como este vem sublinhar a importância fundamental das imagens de uma cidade como fontes documentais para a sua história. Mas também da necessidade de essas imagens serem sujeitas a uma interpretação, a uma arqueologia da iconografia, de modo a que o conhecimento dos motivos e do contexto da sua produção permita descobrir e reabilitar a cidade real preservada sob os estratos das imagens urbanas. CÂMARA, Maria Alexandra Gago da; Murteira, Helena; Rodrigues, Paulo - City and Spectacle: A Vision of Pre-earthquake Lisbon. In 15th International Conference on Virtual Systems and Multimedia (VSMM ’09), Vienna: IEEE, 2009, p. 239–243. Disponível na Internet http://ieeexplore.ieee.org/lpdocs/ epic03/wrapper.htm?arnumber=5306004. CÂMARA Maria Alexandra Gago da; Murteira, Helena; Rodrigues, Pedro -City and Spectacle: A vision of pre-earthquake Lisbon. In Virtual historic cities: reinventing urban research (workshop), Lisboa: CHAIA/Universidade de Évora; Fundação para a Ciência e Tecnologia, 2010, 33 255 Controvérsias sobre um teatro efémero na cidade de Lisboa: A Real Ópera do Tejo (1752-1755) - Maria Alexandra Trindade Gago da Câmara Na fase atual, foi recriado o exterior do Palácio Real, rua da Capela, Torre do Relógio, praça da Patriarcal, Real Ópera do Tejo e Pátio das Arcas e respetivas zonas envolventes. FONTES E BIBLIOGRAFIA FONTES MANUSCRITAS Biblioteca Nacional de Portugal Certidão da medição da obra de ofício de pedreiro pertencente à Casa da Ópera Real que Sua Magestade q. D. g. mandou fazer no sítio da Tanoaria junto aos Paços da Ribeira desta cidade pelos mestres Manuel Antunes Feyo e Manoel Francisco de Sousa e mais sócios, Passada em 28 do mez de Abril de 1759. Tombo da Cidade de Lisboa (cópias manuscritas cujos originais se encontram no Arquivo Nacional Torre do Tombo, códices 875 a 881). Arquivo Municipal de Lisboa Livro 3º de consultas, decretos e avisos de D. José I. Aviso sobre a obra de Tanoaria. Aviso para que o Senado da Câmara não ponha impedimento ao tapume feito na obra de Tanoaria, 1752, f. 93-94. Livro 8º de consultas, decretos e avisos de D. José I. Consulta sobre o arruamento do ofício de Tanoeiro. Consulta do Senado apresentado ao rei a petição dos juízes do ofício de Tanoeiro para que lhes seja concedida uma rua para exercerem o referido ofício, 1755, f. 47-101. Consulta da Câmara de 24 de maio de 1755, f. 47. FONTES ICONOGRÁFICAS Academia Nacional de Belas-Artes de Lisboa Planta do Arsenal, Praça do comércio e Alfandega e Caes de novo Projecto. Anónimo, 1759. Academia Nacional de BelasArtes de Lisboa, Gaveta 5, Pasta 55, n.º 882. Biblioteca Nacional de Portugal FREITAS, José Valentim - Planta de Lisboa anterior ao Terramoto. D.106 R. Controvérsias sobre um teatro efémero na cidade de Lisboa: A Real Ópera do Tejo (1752-1755) - Maria Alexandra Trindade Gago da Câmara Museu de Lisboa Ópera do Tejo - Gravura aguarelada das ruínas da Real Casa da Ópera, ou Ópera do Tejo. Gravura de Jacques Philipe Le Blas, desenho de Manuel Tibério Pedeguache, 1757. MC.GRA 0438. Planta topográfica da cidade de Lisboa arruinada também segundo o novo alinhamento dos architectos Eugénio dos Santos Carvalho e Carlos Mardel. MC.DES. 0976. POPPE, Sebastião Elias; MENEZES, Guilherme Joaquim Paes de; Configurações de partes das fortificações da Cidade de Lisboa. MC.DES.976. TINOCO, João Nunes - Planta da Cidade de Lisboa, Desenho aguarelado, 1850, Dim.: 880 X 620 mm, Nº Inventário: MC.DES.1084. FONTES IMPRESSAS CASTELO BRANCO, Camilo - O Paço Real da Ribeira. Noites de Insomnia: Offerecida a quem não póde dormir:(Excertos de um manuscrito anónimo retratando Lisboa cerca de 1755); p. 1-4. Porto – Braga: Eugénio Chardron, nº 2 (1874), p. 52-57; nº 3, p. 27-33; nº 8, p. 28-34. MELO, Francisco de Pina e - Juízo sobre o Terramoto de 1755. Coimbra: Officina de Antonio Simoens Ferreira, 1756. MENDONÇA, Joaquim J. Moreira de - História Universal dos Terramotos que tem havido no Mundo...com huma narraçam individual Do Terramoto de 1755....Lisboa: Oficina de António Vicente da Silva, 1758. PEDEGACHE, Miguel Tibério - Colleção de algumas ruínas de Lisboa causadas pelo terramoto e pelo fogo do primeiro de Novembro do ano de 1755 debuxadas na mesma cidade por MM Paris et Pedegache e abertas ao buril em Paris por Jac. PH le Ba., 1757. RATTON, Jâcome - Recordações de Jacome Rattom…sobre ocurrencias do seu tempo em Portugal, durante o lapso de sessenta e três anos e meio, alias de Maio de 1747 a Setembro de 1810. Londres: H. Bryer, 1813. Souts Magazine. Edimburgo, Novembro 1755. 256 ESTUDOS E OBRAS DE REFERÊNCIA AA VV - CADERNOS DO ARQUIVO MUNICIPAL, LISBOA JOANINA (1700-1750), COORD. HERDER CARITA, SÉRIE II, Nº 1 (JANEIRO-JUNHO 2014). BEAUMONT, Maria Alice - Desenhos dos Galli Bibiena: Arquitectura e Cenografia. Lisboa: IPPC, 1987. 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MURTEIRA, Helena - Lisboa antes de Pombal: crescimento e ordenamento urbanos no contexto da Europa moderna (1640 - 1755). Monumentos. Lisboa: Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. Nº 21 (setembro 2004), p. 53-54. MURTEIRA, Helena - Da Restauração às Luzes. Lisboa: Presença, 1999. RAGGI, Guiseppina - G. Carlo Sicinio Galli Bibiena: Il teatro di Salvaterra a Lisbona. In I Bibiena – una famiglia europea, Bolonha: Marsilio, 2000. SEQUEIRA, Gustavo Matos - Teatro de outros tempos, Elementos para a História do Teatro Português.Lisboa: [s.n.], 1933. SILVA, Augusto Vieira da - Dispersos. Lisboa: Câmara Municipal, 1954-1960. SILVA, Augusto Vieira da - As muralhas da Ribeira de Lisboa. Lisboa: Câmara Municipal, 1987. 257 Controvérsias sobre um teatro efémero na cidade de Lisboa: A Real Ópera do Tejo (1752-1755) - Maria Alexandra Trindade Gago da Câmara CASTILHO, Júlio de - A Ribeira de Lisboa. Lisboa: Câmara Municipal, 1940-1944, 5 vols. 258 Arquivo Municipal de Lisboa UM ACERVO PARA A HISTÓRIA Uma cidade em mudança: A evolução do comércio de retalho de Lisboa no final da Monarquia Daniel Alves (IHC-FCSH/NOVA) Introdução Uma parte significativa das mudanças sociais e económicas que estavam a ocorrer nas cidades europeias na passagem do século XIX para o século XX foi resultado do crescimento demográfico que as mesmas sofreram nessa época. Estes fatores tiveram influência determinante na reorganização do espaço urbano e implicaram mudanças na geografia económica e social das cidades. Lisboa não foi exceção e o comércio de retalho da cidade, depois de uma fase de crescimento, na década de 1880, atravessou uma crise nos anos finais da centúria. Isto ocorreu enquanto a cidade se transformou, com a expansão urbana para novas áreas de modo a acomodar um afluxo crescente de habitantes. Através de uma análise à distribuição geográfica do comércio de retalho, entre 1878 e 1910, procurar-se-á compreender o impacto destas dinâmicas. O estudo baseia-se, essencialmente, na análise de informação recolhida na série documental Licenças para Estabelecimentos de Comércio e Indústria, depositada no Arquivo Municipal de Lisboa (Arco do Cego). Os dados foram tratados e analisados através de ferramentas de análise e estatística espacial, nomeadamente, sistemas de informação geográfica. Estudar as características e a evolução do comércio de retalho em Lisboa e, em particular, na fase de crise por que este passou na década de 1890, permite revelar elementos representativos do que era o mundo do pequeno comércio lisboeta nas últimas quatro décadas da Monarquia. Em simultâneo, permite destacar a hipótese que da crise terá decorrido, em parte, uma mudança no alinhamento político dos lojistas de Lisboa, sempre conotados com a esquerda monárquica e com o radicalismo, caminhando nessa altura para um posicionamento mais radical, através do qual, em estreita sintonia com a propaganda republicana, começaram a dar importância a outros valores e a ver na Monarquia, nos governos e parlamentos monárquicos a causa dos seus insucessos e angústias e o alvo privilegiado do seu ressentimento político. Deste modo, a possibilidade de analisar com algum detalhe esta dinâmica e o momento particular de crise vivida no final do século XIX, viabilizada pela existência das fontes já mencionadas é uma oportunidade de observar o comércio de retalho, ajudando a revelar a sua estrutura interna, o grau de resistência à crise, bem como a sua localização geográfica, entre outros aspetos. Tão ou mais importante do que estes objetivos será verificar que consequências este tempo de crise teve na perceção de perda de independência, conceito que era a “imagem de marca” da pequena burguesia comercial de finais do século XIX, e em que medida essa perceção terá contribuído para a sua aproximação aos republicanos, anunciadores da boa nova de um Estado mais poupado em termos económicos, menos exigente em matéria fiscal e mais liberal no campo social e político1. Geoffrey Crossick e Heinz-Gerhard Haupt referem, precisamente, a estreita relação entre “independência e crise” e as vantagens de estudar esta última para um conhecimento mais detalhado da pequena burguesia industrial e comercial. CROSSICK, Geoffrey; HAUPT, Heinz-Gerhard (eds.) - Shopkeepers and master artisans in nineteenth-century Europe. London: Methuen, 1984, p. 10, 12 e 14. 1 259 Começando por fazer algumas observações sobre a evolução geral dos quantitativos de estabelecimentos comerciais, destacar-se-á de seguida o período de crise da década de 1890. Serão depois dados mais alguns pormenores sobre a distribuição do pequeno comércio pela cidade, em termos qualitativos e geográficos. No final, uma análise destas duas dimensões, a evolução quantitativa e a distribuição qualitativa, conjugada com a evolução demográfica, entre 1878 e 1911, vai permitir realçar as linhas gerais do que seria o pequeno mundo dos lojistas lisboetas. As chamadas licenças para estabelecimentos de comércio e indústria vão ser fontes decisivas para esta abordagem e caracterização, sendo que listagens semelhantes sobre pagamento de impostos ou taxas municipais foram utilizadas para estudos análogos no estrangeiro, nomeadamente sobre os merceeiros de Paris. Porém, tal como para a capital francesa, no caso de Lisboa colocava-se o problema do excesso de informação, pois a sua quantidade (em média cerca de 15 mil licenças em cada ano) e a falta de outra organização que não seja o número sequencial de registo requerem “uma verdadeira equipa de investigadores” e um tempo de recolha de dados excessivo2. Todavia, as informações arquivadas no Serviço do Imposto de Licença para Estabelecimentos não podem ser negligenciadas, na medida em que permitem uma quantificação geral do número de estabelecimentos “de porta aberta” existentes na cidade em cada ano e a recolha desses valores possibilita verificar a evolução geral do comércio retalhista de Lisboa entre a década de 1870 e 1911. Para além disso, tendo sido alvo de um tratamento estatístico detalhado, levado a cabo pela própria Câmara Municipal, nos anos de 1887 e 1893, estas fontes são essenciais para ficar a conhecer o que representava o pequeno comércio da cidade de Lisboa na fase final da Monarquia. Uma cidade em mudança: A evolução do comércio de retalho de Lisboa no final da Monarquia - Daniel Alves O imposto de licença de comércio e indústria em Lisboa A cobrança de um imposto de licença para a venda de géneros e mantimentos na cidade tinha sido definida em posturas medievais e regulada por várias disposições régias, entre os séculos XIV e XVIII. Em 1736, a Câmara Municipal, aparentemente para fazer face às dívidas que não conseguia amortizar, decidiu ampliar o imposto das licenças, abrangendo um maior número de atividades comerciais e aumentando as taxas respetivas. Porém, tal como seria frequente no final do século XIX, esta alteração aos impostos que afetavam particularmente a atividade comercial sofreu uma forte oposição, tendo chegado a haver manifestações frente ao Senado da Câmara e no Terreiro do Paço e ameaças à integridade física de alguns senadores. A movimentação popular levou a que se adiasse o aumento do imposto, entrando em vigor apenas no ano de 1740. Em 1766 foi definido um formulário para a sua cobrança e regulou-se a taxa a pagar que diferia consoante o tipo de géneros vendidos e a localização, mais ou menos privilegiada, do ponto de venda. Apesar de contestado, por gerar “confusão e vexação na sua cobrança”, este formulário, com ligeiras alterações ao longo do século XIX, ainda se mantinha em vigor em 1869, ano em que foi publicado um novo código de posturas camarárias em Lisboa3. Porém, para os lojistas lisboetas da segunda metade do século XIX esse formulário já não fazia sentido, pois a forma de organização do pequeno comércio tinha-se alterado e as lojas, em boa parte dos casos, não se dedicavam exclusivamente à venda de um único género, ou de um número restrito de géneros, pelo que a aplicação do modelo que vinha do século XVIII não era considerada adequada ao pequeno comércio dos tempos modernos. Perdera-se, entretanto, a característica especialização que tinha, inclusive, levado à definição de ruas específicas para cada tipo de loja, na reestruturação da Baixa levada a cabo pelo Marquês FAURE, Alain - The grocery trade in nineteenth-century Paris: a fragmented corporation. In CROSSICK, Geoffrey; HAUPT, Heinz-Gerhard (eds.) Shopkeepers and master artisans in nineteenth-century Europe. London: Methuen, 1984, p. 161. O autor reconhece que “as listas nominais do pagamento dos impostos constituiriam, é claro, as melhores fontes” para o estudo do número de lojas e da sua evolução. 2 OLIVEIRA, Eduardo Freire de - Elementos para a História do Município de Lisboa. Lisboa: Tipografia Universal, 1882, p. 134-138; CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA - Inspecção ao Serviço do Imposto de Licença para Estabelecimentos em 1887 e 1893. Lisboa: Imprensa de Lucas Evangelista Torres, 1895. (1). vol. I, p. 13-14. 3 260 de Pombal após o Terramoto de 17554. O fenómeno, aliás, era comum a outros países europeus, onde o lojista era cada vez menos um “comerciante especializado” num determinado tipo de produto e sim um fornecedor de um amplo conjunto de produtos e serviços, como começou a acontecer em Inglaterra, por exemplo, a partir de meados do século XIX, na Alemanha, ou na Itália, onde a mudança era sentida, em particular, nas lojas de mercearia que viam aumentar a diversidade de produtos oferecidos à clientela5. Também em Paris os lojistas estavam a adaptar-se a novas formas de comércio, desaparecendo o “camiseiro de ontem para logo emergir a loja de roupas de homem”, na qual às camisas se podiam juntar “as gravatas, as meias, as bengalas e os chapéus”6. Para Lisboa, um dos exemplos que expressa bem esta mudança era o que estava a acontecer com o comércio de produtos de pele, antigamente exclusivo da classe dos peleiros, mas “presentemente generalizado pelas casas de confeções, luveiros, mercadores, etc.”7. Tendo em conta o recuar da especialização, cada vez mais se dava o caso de um lojista ter de pagar várias taxas, tirar várias licenças para poder fazer negócio na sua loja. Isto porque o formulário definia um conjunto de taxas diferentes, de acordo com o produto vendido, consoante a sua venda era por miúdo ou por grosso, em loja, em tenda ou venda ambulante, variando ainda, em alguns casos, com a localização do lugar de venda8. Tal facto, aos olhos dos lojistas, tornava o imposto um “anacronismo”, lembrando “épocas e governos de opressão”, pois impunha restrições à liberdade de comércio e desigualdades fiscais. De acordo com o testemunho de 1872 de um dos indivíduos que mais se empenhou na abolição do antigo formulário, João Marques da Costa, era necessário acabar com a obrigação dos lojistas pagarem “uma taxa por cada género que expõem à venda”, que era especialmente onerosa para as pequenas lojas que vendiam uma grande variedade de produtos, “enquanto que os lojistas de grossas transações, simplesmente porque nos seus estabelecimentos comportam menos artigos, pagam uma taxa” mais reduzida. Dava como exemplo da injustiça precisamente o caso de uma mercearia que, para funcionar, tinha de pagar 15 taxas diferentes, o que nos bairros mais pobres equivalia, na sua perspetiva, a que o imposto de licença acabasse por ser mais elevado do que a própria contribuição industrial9. “O decreto de 5 de Novembro de 1760, que distribuiu os comerciantes por arruamentos, e que muito especificamente determinou que a Rua Nova de El-Rei serviria «para nela se arruarem os mercadores da corporação de capela, ficando as lojas que sobejassem para mercadores de loiça da Índia, de chá e dos mais artigos do seu tráfico», fixou os mesmos princípios para os outros seguintes novos arruamentos: a Rua Augusta, para os mercadores de lã e sedas; a Rua Áurea ou do Ouro, para os ourives do ouro, relojoeiros e volanteiros; a Rua Bela da Rainha ou da Prata, para os ourives da prata e para os diversos livreiros que antes viviam na sua vizinhança; a Rua Nova da Princesa, Bela da Princesa ou dos Fanqueiros, para os mercadores de lençaria ou fancaria, e as lojas que sobejassem, para quinquilharias; a Rua dos Douradores, para os douradores, bate-folhas, latoeiros de lima e ainda para mercearias, tabernas, etc.; a Rua dos Correeiros, da Correaria Nova ou Travessa da Palha, para os ofícios de correeiro, seleiro e torneiro; a Rua dos Sapateiros ou do Arco do Bandeira, de um dos lados para os sapateiros que serviam a plebe, e do outro para acomodação de correeiros, seleiros e torneiros; a Rua de S. Julião ou dos Algibebes, para acomodação destes industriais; a Rua da Conceição ou dos Retroseiros, para capelistas de lojas de retros; a Rua de S. Nicolau como a da Vitória, para lojas de quinquilharias; a Rua da Assunção, para sirgueiros de chapéus e de agulha; e a Rua de Santa Justa, para mercadores de lã e seda, que não tivessem possibilidades de se acomodar na Rua Augusta.”. Cf. COSTA, Mário - Da Rua Nova à Rua dos Capelistas. Lisboa: Tip. Soc. Ind. de Tipografia, 1953, p. 25–26. WINSTANLEY, Michael J. - The shopkeeper’s world, 1830-1914. Manchester: Manchester University Press, 1983, p. 123; DENECKE, Dietrich; SHAW, Gareth - Traditional retail systems in Germany. In BENSON, John; SHAW, Gareth (eds.) - The Evolution of retail systems, c. 1800-1914. Leicester: Leicester University Press, 1992, p. 85; MORRIS, Jonathan - The political economy of shopkeeping in Milan, 1886-1922. Cambridge: Cambridge University Press, 1993, p. 56. 5 6 NORD, Philip G. - Paris shopkeepers and the politics of resentment. Princeton: Princeton University Press, 1986, p. 84. Associação Comercial de lojistas de Lisboa (ACLL) - Relatório e contas de 1888, p. 22–23. A afirmação surge numa representação da classe dos peleiros contra a forma como estavam classificados nas tabelas da contribuição industrial, a qual mereceu o apoio da ACLL. 7 Formulario das novas Licenças em que se acha declarado o que annualmente se deve pagar... Typografia Maigrense, 1823, p. 9. Apesar de terem sido feitas várias pesquisas, este foi o único exemplar do antigo formulário das licenças que foi possível encontrar. Sabe-se contudo, que ele foi sofrendo alterações e acrescentos ao longo do tempo. Cf. OLIVEIRA, Eduardo Freire de - Elementos para a História do Município de Lisboa, p. 138; CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA - Inspecção ao Serviço do Imposto de Licença para Estabelecimentos em 1887 e 1893. vol. I, p. 14. 8 O testemunho foi reproduzido no Diário de Notícias, numa altura em que João Marques da Costa exercia o cargo de 1o secretário da Assembleia-geral da ACLL. O papel deste confeiteiro em toda a questão acabaria por ser reconhecido pela própria ACLL e pela “classe” dos lojistas de Lisboa, com a atribuição da categoria de sócio benemérito, em sessão da assembleia-geral de 13 de março de 1873, e com a oferta de um “tinteiro em prata (…) pelos serviços que aquele cidadão lhe prestou na questão das licenças.” Diário de Notícias, no. 2414, 8 de outubro de 1872; no. 2564, 15 de março de 1873; no. 2566, 17 de março de 1873; COSTA, João Marques da - Questäo ácerca das licenças industriaes ou O arbítrio retorcendo e acalquinhando a Lei de 14 de Maio de 1872 documentos que provam a illegalidade com que a Câmara de Lisboa está cobrando as taxas das licenças municipaes compilados por... Lisboa: Typographia Universal, 1873, p. 49. 9 261 Uma cidade em mudança: A evolução do comércio de retalho de Lisboa no final da Monarquia - Daniel Alves 4 Quadro 1 - Taxas das licenças expedidas pela Câmara Municipal de Lisboa 200$000 réis Renda de 100$000 a exclusive réis 100$000 Renda de 50$000 a 50$000 réis exclusive Renda Posturas inferior a Taxas 4 de novembro de 1872 1$560 2$760 4$560 16 de dezembro de 1886 1$600 2$800 4$600 Renda superior a 200$000 réis $240 réis sobre a última taxa, por cada acréscimo de 10$000 réis na renda $240 réis sobre a última taxa, por cada acréscimo de 10$000 réis na renda Quadro 1 - Taxas das licenças expedidas pela Câmara Municipal de Lisboa. O assunto só acabaria por ser definitivamente resolvido com a postura de 4 de O assunto só acabaria porpublicada ser definitivamente a postura deseguinte, 4 de Novembro de 1872, publicada Novembro de 1872, em Editalresolvido de 13 decom março do ano que regulamentou a em Edital de 13 de março do ano seguinte, que regulamentou a cobrança do “Imposto de licença para cobrança do “Imposto de licença para estabelecimentos”, baseando-se em “taxas graduadas” estabelecimentos”, baseando-se em “taxas graduadas” a cobrar sobre o valor das rendas pagas pelos lojistas10. A partir de 1873, então, todo o “estabelecimento de venda, troca ou aluguer de quaisquer objectos ou valores; para casa de empréstimos sobre penhores; para hospedarias e para casas de guarda de animais ou 9coisas” ficava foi sujeito à cobrança de taxas variáveis quealtura eram ao montante da exercia renda paga O testemunho reproduzido no Diário de Notícias, numa emindexadas que João Marques da Costa o o da Assembleia-geral da ACLL. Oda papel deste confeiteiro em toda a questãocamarário acabaria por cargo de 1 secretário(quadro pelo estabelecimento 1). Até à proclamação República, esta forma de controlo sobre ser reconhecido pela própria ACLLsóe pela “classe” dos alterações lojistas de Lisboa, com apor atribuição categoria sócio o comércio da cidade de Lisboa voltou a sofrer em 1886, portariadade 16 de de dezembro, benemérito, em sessão da assembleia-geral de 13 de março de 1873, e com a oferta de um “tinteiro em prata aumentando os valores das taxas cobradas e reformulando o que a Câmara Municipal agora entendia por (…) pelos serviços que aquele cidadão lhe prestou na questão das licenças.” Diário de Notícias, no. 2414, 8 de comércio aberta”, a ser considerado todode “o 1873; estabelecimento, escritório outubrode de “porta 1872; no. 2564,passando 15 de março de 1873; no. 2566,como 17 detal março COSTA, Joãoloja, Marques da - ou semelhantes, do concelho de industriaes Lisboa, aonde realizem quaisquer transacçõesacomerciais Questäo ácerca das licenças ou Ose arbítrio retorcendo e acalquinhando Lei de 14 desobre Maio objectos de 1872 ou documentos que provam a illegalidade com que aseCâmara deserviços Lisboa está cobrando(quadro as taxas das valores, ou mediante remuneração ou pagamento prestem ao público” 1)11 . licenças municipaes compilados por... Lisboa: Typographia Universal, 1873, p. 49. Uma cidade em mudança: A evolução do comércio de retalho de Lisboa no final da Monarquia - Daniel Alves A evolução geral do comércio “de porta aberta” em Lisboa (1878-1911) 354 A alteração das taxas e a maior abrangência introduzida nos tipos de estabelecimentos que ficavam sujeitos às licenças, associadas à recente reforma administrativa da cidade, levaram a Câmara Municipal de Lisboa, na sequência de um pedido do vereador Augusto Fuschini, a incumbir José Joaquim Gomes de Brito “de levantar o cadastro do comércio e indústria de porta aberta” existente em 1887 em Lisboa. O critério para esse levantamento era o da contagem “de todos os estabelecimentos que na cidade existiam (...) com licença desta Câmara.”12 O cadastro justificava-se, no fundo, porque o “ano de 1887 foi o primeiro em que a anexação dos antigos concelhos de Belém e Olivais à área da capital começou a vigorar definitivamente”, depois da reforma administrativa de 1885/1886, sendo óbvia a necessidade camarária de conhecer convenientemente a nova área e, principalmente, os novos comerciantes que ficariam a partir de agora também sujeitos ao imposto de licença de estabelecimentos13. Em junho de 1887 Gomes de Brito apresentou um relatório preliminar sobre a distribuição desta taxa na área da antiga circunvalação, ou seja, sem contar com as freguesias dos antigos concelhos de Belém e Olivais. O trabalho acabaria por ser alargado a toda a cidade levando à cópia dos “talões das licenças” desse ano, “um a um”, depois ordenados por “freguesias, e, dentro destas, por classes” profissionais ou de negócio. Em A postura foi aprovada em sessão camarária do mesmo dia. Cf. Jornal do Comércio, no. 5707, 8 de novembro de 1872; OLIVEIRA, Eduardo Freire de - Elementos para a História do Município de Lisboa, p. 138–139; CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA - Inspecção ao Serviço do Imposto de Licença para Estabelecimentos em 1887 e 1893. vol. I, p. 14. 10 262 11 CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA - Inspecção ao Serviço do Imposto de Licença para Estabelecimentos em 1887 e 1893. vol. I, p. 23-24. 12 Ibid. p. 6. 13 Ibid. p. 24 e 54. seguida, foram eliminadas as duplicações devidas à periodicidade mensal ou semestral de algumas licenças e apurou-se, por fim, para a área da antiga circunvalação um total de “8514 solicitantes”, a que se juntavam mais 1523 na zona entretanto anexada à cidade, totalizando 10037 estabelecimentos que constituíam o número final do “arrolamento geral dos lojistas e mais comerciantes” de Lisboa em 1887. Seis anos mais tarde, recorrendo à mesma fonte e a igual técnica de contagem, o mesmo Gomes de Brito contaria 1050814. O vereador José Martinho da Silva Guimarães que, em 1895, recebeu e analisou todo o trabalho de Gomes de Brito reforçou a ideia de que não havia certezas sobre a real representatividade destes números. “Obedeceram porém à lei todos os estabelecimentos que se abriram nas 44 freguesias do actual circuito de Lisboa? Não é possível afirmar que sim, nem dizer que não; a repartição não tem meio algum de responder categoricamente à pergunta”16. A própria Associação Comercial de Lojistas de Lisboa (ACLL) apontava para valores superiores que, no entanto, levavam em conta o número de licenças e não o número efetivo de lojas. Em 1891, Gil Carneiro, presidente de uma comissão de protesto entretanto criada pela Associação contra o aumento do gás, falava na existência de cerca de 16000 licenças de estabelecimentos registadas17 e, em 1892, os corpos gerentes afirmavam representarem “uma classe que só em Lisboa compreende mais de 15000 estabelecimentos”18. Porém, é preciso contextualizar estes dois números, pois foram indicados em momentos de protesto e de defesa do orgulho ferido, onde o objetivo era demonstrar a força e a influência da classe dos lojistas e da ACLL, no primeiro caso, frente à poderosa Companhia do Gás de Lisboa e, no segundo, em resposta a um discurso crítico de um deputado Progressista. Para além disso, tudo aponta para que a contabilidade destes valores tenha sido obtida do total de licenças registadas que, como se viu, era maior do que o número dos estabelecimentos efetivos, por causa das “duplicações” de que falava Gomes de Brito e que este acabaria por eliminar no seu trabalho. Apesar destas dúvidas, outros testemunhos da época acabam por não se afastar muito dos números obtidos pela contagem de Gomes de Brito, estimando, em 1891, “a massa total dos comerciantes de Lisboa” em Ibid. p. 55; CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA - Inspecção ao Serviço do Imposto de Licença para Estabelecimentos em 1887 e 1893. Lisboa: Imprensa de Lucas Evangelista Torres, 1895. (1). vol. II, p. 34-39. 14 15 CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA - Inspecção ao Serviço do Imposto de Licença para Estabelecimentos em 1887 e 1893. vol. II, p. 45 e 48. CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA - Inspecção ao Serviço do Imposto de Licença para Estabelecimentos em 1887 e 1893. vol. I, p. 6. O vereador refere-se ainda à totalidade das freguesias que então compunham o concelho de Lisboa pois, nesse mesmo ano, Camarate e Sacavém deixariam de fazer parte do município, passando a capital a contabilizar 42 freguesias até 1910. Cf. ALVES, Daniel - Evolução das freguesias da cidade de Lisboa ao longo do século XIX - SIGMA, SIG e Modelação de Dados Aplicados à História de Portugal. In eSIG2004, VIII Encontro de Utilizadores de Sistemas de Informação Geográfica. Oeiras: USIG, 2004, p. 8. 16 O Século, no. 3484, 14 de outubro de 1891. Este valor é efectivamente verdadeiro, pois a consulta dos livros de registo das licenças de estabelecimentos no Arquivo Municipal, aos quais o lojista deve ter tido acesso, permitiu verificar a existência nesse ano de 16352 licenças. 17 ACLL - Desaggravo do commercio de Lisboa: resposta da Associação Commercial de Lojistas de Lisboa ao discurso pronunciado na Camara dos Senhores Deputados em sessão de 23 de Fevereiro de 1892 pelo Ex. mo Sr. F. J. Machado. Lisboa: Typ. e Stereotypia Moderna, 1892, p. 21. 18 263 Uma cidade em mudança: A evolução do comércio de retalho de Lisboa no final da Monarquia - Daniel Alves Seriam estes 10 mil estabelecimentos o número real do comércio de “porta aberta” então existente em Lisboa? Representa certamente um valor bastante aproximado, que talvez peque por defeito, em especial o de 1887, como parece sugerir o próprio Gomes de Brito, mas sem que o desvio seja tão significativo que impeça a utilização destes números, como se verá pela confrontação com outras fontes da época, para a exposição do quadro genérico da evolução do pequeno comércio lisboeta à época. Contudo, o funcionário camarário não deixou de apresentar os seus cuidados, o que, em certa medida, ainda valoriza mais o seu esforço estatístico e justifica a utilização dos valores neste trabalho. Assim, em novembro de 1889, tendo surgido reclamações “contra o serviço de fiscalização do Imposto de Licença para Estabelecimentos”, críticas que foram levadas, inclusive, para as discussões das sessões camarárias, Gomes de Brito redigiu uma informação ao Administrador da Fazenda Municipal, ainda Augusto Fuschini, datada de 30 desse mês, onde reafirmava “a opinião, aliás bem fundada, de que há um grande número de estabelecimentos, quer em lojas, quer em andares, escapos ao imposto.” Isso devia-se, na sua opinião, a duas ordens de factores: à fuga ao imposto por parte dos lojistas, os quais deveriam ser obrigados “ao cumprimento da Postura”, e à “imperfeição da fiscalização”, resultante da falta de “matrizes” e da necessidade de “completa remodelação” do serviço de Fazenda da Câmara. Gomes de Brito tinha ainda a perceção de que existia “um grande número de lojistas” que não se limitava “nem a um só estabelecimento, nem a um só género de negócio.”15 cerca de 800019, a rondar os 790020 ou em número “superior a 10000”21. Gomes de Brito, aliás, não escondia o orgulho pelo seu trabalho, declarando que ninguém “ainda fora capaz de organizar, antes de 1887, um Recenseamento – um só que fosse! – das lojas e mais estabelecimentos”22. Como se viu, em 1893, acabaria por repetir o feito usando a mesma metodologia, não tendo sido possível encontrar outra fonte que forneça uma informação tão detalhada sobre a distribuição quantitativa, qualitativa e geográfica do pequeno comércio de Lisboa no período estudado23. É possível ainda comparar os dados de Gomes de Brito com a contagem das atividades ou profissões que podem ser classificadas como lojistas nas listas de “indústrias coletadas” com a contribuição industrial publicadas no Anuário Estatístico de Portugal. De acordo com a análise das mesmas, apurou-se para 1890 um total de 7798 lojistas para o concelho de Lisboa, aumentando para 8243 dez anos depois24. Tendo em conta que se trata de listas de cariz fiscal é natural que os montantes indicados pequem por defeito, resultado de algumas isenções e de uma natural fuga ao imposto. Neste ponto, novamente o testemunho de Gomes de Brito é útil pois, em 1892, ao comparar o seu “cadastro” com as classificações de lojistas registadas no Anuário Estatístico da Direcção Geral das Contribuições Directas, acabou por concluir que havia alguns “contribuintes do Estado, que não tiraram licença municipal”, sendo perfeitamente legítimo supor que o mesmo se passaria em sentido oposto25. Uma cidade em mudança: A evolução do comércio de retalho de Lisboa no final da Monarquia - Daniel Alves Tendo em conta o total de “lojistas e mais comerciantes” referido por Gomes de Brito para 1893 (10507) e sabendo através dos livros de registo das licenças de estabelecimentos da CML que no mesmo ano foram requeridas 16155 licenças, então, é possível, num cálculo simplificado, elaborar uma série sobre a evolução do número de lojistas para os restantes anos, sabendo à partida o número total de licenças. No fundo, através de uma regra de equivalências aplicou-se a todos os valores recolhidos a eliminação de duplicações referida por Gomes de Brito. É óbvio que este tipo de cálculo não leva em conta fatores que talvez pudessem distorcer a estimativa feita, como sejam um menor ou maior nível de fuga à fiscalização camarária ou a existência de várias lojas para um mesmo lojista, porém, conta com um elemento muito importante para assegurar que o resultado seja bastante fiável: o facto de o formulário e as regras para a obtenção de licença de estabelecimentos se terem mantido estáveis ao longo de todo este período, como já foi destacado. Utilizaramse os valores de lojistas para 1893 pois, como se observou ao descrever o trabalho de Gomes de Brito, eles parecem ser mais fiáveis que os de 1887, em especial, pela proximidade entre o primeiro “cadastro” e as alterações administrativas de Lisboa, de 1885, que poderão ter influenciado uma subavaliação desses totais. As datas limite usadas para a elaboração da série apresentada no gráfico 1 foram escolhidas tendo em conta a comparação que mais à frente será feita com os dados populacionais disponibilizados pelos censos. A tendência geral que é possível verificar numa primeira observação é a de um aumento do número de lojistas na cidade de Lisboa, entre 1878 e 1911. Contudo, apesar de na aparência ser muito simples, o gráfico pode levar a alguns equívocos e deve ser explicado com algum detalhe. Primeiro que tudo, é necessário referir que 1878-1885 e 1886-1911 correspondem a realidades distintas pois, apesar de se falar sempre do concelho de Lisboa, este é bastante diferente nos dois períodos em causa, abarcando 34 freguesias no primeiro período e 44/42 no segundo. Um outro aspeto a ter em conta é que a alteração das licenças levada O Lojista, no. 45, 22 de agosto de 1892. Este valor, aliás, seguia de perto o que era indicado no parecer da Comissão Revisora de Contas da ACLL que, em Maio de 1892, considerava “que o número de comerciantes em Lisboa não é inferior a 8000”. ACLL - Relatório e contas de 1891, p. 25. 19 Valor publicado pelo Diário Popular, no. 8793, 27 de outubro de 1891, correspondente a uma estatística, que o jornal tinha “por verdadeira”, dos métodos de iluminação das lojas em Lisboa, muito provavelmente, resultante dos trabalhos das subcomissões paroquiais que na altura a ACLL activou para controlar a chamada “greve do gás”. Havia, então, “1546 estabelecimentos iluminados a gás e 6313 iluminados a outra luz.” 20 21 ACLL - Boletim da Associação Comercial de Lojistas de Lisboa, no. 48, novembro de 1891, p. 4. 22 CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA - Inspecção ao Serviço do Imposto de Licença para Estabelecimentos em 1887 e 1893. vol. I, p. 17. No Arquivo Municipal de Lisboa (Arco do Cego) estão depositados os originais dos “talões” de licenças de estabelecimentos que os lojistas eram obrigados a solicitar todos os anos à CML. É uma série documental impressionante, pela riqueza e volume de informação, que começa em 1866 e termina já no Estado Novo, em 1937, mas cujo tratamento exigiria um esforço não compatível com as restantes tarefas de investigação para este texto. Para cada ano existem, em média, cerca de 15 mil talões, encadernados de forma completamente aleatória que dificultam qualquer tarefa de contagem mais simples, como seja, o número de licenças por freguesia ou por tipo de loja, sem uma recolha integral de dados. Não é por acaso que o “cadastro” dos lojistas só foi elaborado nestes dois anos! Apesar disso, como se apresentará de seguida, foi possível elaborar uma contagem anual do número total de licenças para um período bastante alargado. Neste ponto cabe um agradecimento aos técnicos do Arquivo pelas facilidades e boa vontade que demonstraram no processo de recolha destes dados, tendo em conta que cada ano da série era composto, em média, por 12 a 16 volumes de talões encadernados. 23 264 24 Anuário Estatístico de Portugal, 1892 e 1900. 25 Comércio de Portugal, no. 3783, 28 de fevereiro de 1892. a cabo em Dezembro de 1886, com uma mudança no que a partir daquela data passou a ser entendido por “estabelecimento” de comércio e indústria pelos serviços camarários, veio por certo colocar sob a alçada da fiscalização um maior número de pequenos negócios que, muito provavelmente, ainda eram “escapos” a este imposto antes da reforma, para usar uma expressão de Gomes de Brito. O resultado das novas disposições era visto pela ACLL da mesma maneira, ao referir que “só lograrão escapar a este imposto três classes: os grandes proprietários, [os] capitalistas e os vadios”26. Os dois fatores conjugados explicam o salto dado pelo número de lojistas entre 1885 e 1888. A diferença não terá ocorrido logo em 1886-1887, muito provavelmente, porque nesses anos os limites dos antigos concelhos eram ainda “imperfeitamente conhecidos na sua topografia, imperfeitamente conhecidos também na sua divisão municipal e administrativa”, para além de 1887 ser o primeiro ano da aplicação do imposto nas novas freguesias, o que pela “própria novidade do regímen então aplicado a esses dois concelhos contribuiu para minguar a efetividade de solicitações deste ramo por parte dos contribuintes a ele sujeitos.”27 Depois desta data a postura municipal que regulava as licenças não voltou a sofrer modificações e mesmo a saída das freguesias de Sacavém e Camarate do concelho de Lisboa, em setembro de 1895, não terá representado uma diferença significativa pois, ainda segundo o trabalho de Gomes de Brito relativo ao segundo inquérito que produziu para 1893, o número de lojas nestas duas circunscrições representava somente cerca de 0,5% do total existente na capital no mesmo ano. Gráfico 1 - Evolução do n.º de lojistas no concelho de Lisboa (1878-1911)29. 26 ACLL - Relatório e contas de 1887, p. 49. 27 CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA - Inspecção ao Serviço do Imposto de Licença para Estabelecimentos em 1887 e 1893. vol. I, p. 54-55. A comparação é feita apenas entre aqueles dois anos, não levando em conta 1886 e 1887, pelos motivos acima expostos. Deste modo fica-se com a certeza de estar a comparar duas realidades iguais, ou seja, o mesmo concelho de Lisboa, com a mesma área geográfica, em dois momentos. O valor exacto da taxa de variação calculada é de 11,75%. 28 29 Arquivo Municipl de Lisboa (AML) - Licenças para Estabelecimentos de Comércio e Indústria, 1878-1911. 265 Uma cidade em mudança: A evolução do comércio de retalho de Lisboa no final da Monarquia - Daniel Alves Tendo em conta estes cuidados na observação dos valores representados, é possível distinguir três momentos diferentes na evolução do pequeno comércio de Lisboa ao longo das últimas quatro décadas da Monarquia. Um primeiro corresponde a uma expansão do comércio de retalho na cidade, notória entre 1878 e 1885, com o número de lojistas a aumentar quase 12%, num ritmo de crescimento anual médio de cerca de 1,6%, o mais elevado dos três momentos analisados28. Após a transição de 1886/1887, o número terá atingido um primeiro pico em 1890, com quase 10690 lojistas estimados a partir das licenças para estabelecimentos registadas nos livros camarários. Contudo, toda a década seguinte vai ser de crise, primeiro com uma estagnação, depois, entre 1895 e 1900, com uma queda efetiva do total de lojistas. No cômputo geral, este segundo momento (1890-1900) registou um crescimento negativo, sejam quais forem os anos que se escolham para a comparação entre a primeira metade da década e a segunda metade. Entre os dois anos extremos, a quebra equivale a quase 5%, registando um crescimento anual médio negativo de cerca de meio ponto percentual30. A escolha de 1890 como limite entre os dois primeiros momentos justifica-se pela instabilidade gerada na política, na economia e nas finanças portuguesas, fruto do Ultimatum, dos sucessivos governos e da crise financeira, tudo apontando para que este ano não fosse “apenas mais um acidente financeiro, mas que efectivamente” tenha marcado “uma viragem na vida portuguesa”31. Viragem que vai ser muito visível no caso dos lojistas de Lisboa, representando a última década do século XIX, efetivamente, uma época de crise ou, pelo menos, de interregno do crescimento para a classe dos lojistas de Lisboa. O terceiro momento corresponde à primeira década do século XX, identificando-se um novo período de expansão dos quantitativos do comércio retalhista da capital, com um relevo particular para a passagem de 1908 para 1909. O número total de lojistas cresceu de pouco mais de 10400, em 1901, para quase 11400, em 1911, um crescimento de 9,1%, aumentando em média quase 0,9% ao ano32. O panorama geral apresentado tem, como é óbvio, algumas matizes a explorar, mas desde já introduz, como ideia central, a constatação de que a evolução do pequeno comércio na cidade de Lisboa não se afastou do que foi, em linhas gerais, a evolução económica e financeira do país na mesma época, antes pode contribuir para reforçar e melhorar a perceção da mesma que foi traçada na historiografia portuguesa mais recente33. Mesmo que a dinâmica não seja exatamente coincidente, ano com ano, as tendências são as mesmas que foram destacadas por vários autores: expansão na década de 1880, retração ou crise nos últimos dez anos do século e novamente expansão, mas mais moderada, no primeiro decénio da nova centúria. Uma cidade em mudança: A evolução do comércio de retalho de Lisboa no final da Monarquia - Daniel Alves Rui Ramos, apesar de falar em “mitologia da crise”, no que em parte é acompanhado por Pedro Lains, refere que a seguir “a anos de grande prosperidade”, como teriam sido os de 1886 a 1889, se assistiu a um quadro de depressão económica e de crise financeira, entre 1892 e 1896, “com sinais de quebra em quase todos os sectores da economia.” A mudança parece ter chegado na viragem do século pois, a partir desta altura, com a ajuda da recuperação do câmbio da moeda brasileira, “Portugal revigorou-se.” As exportações animaram-se e o mesmo parece ter ocorrido nos sectores financeiro, da construção habitacional e dos transportes, levando, em 1904, o governo a declarar “que «o estado económico do país é próspero»” e, em 1909, a Associação Comercial de Lisboa a reconhecer “a prosperidade dos últimos cinco anos”, com vários sinais de recuperação na economia, entre eles, a “multiplicação das casas de comércio por grosso e a retalho”34. No fundo, o realce dado atrás ao aumento do número de lojistas, entre 1908 e 1909, justifica-se uma vez que o mesmo não passou sequer despercebido aos contemporâneos, reforçando ainda mais a validade da série coligida. As duas últimas décadas da Monarquia em Portugal foram mais recentemente alvo de um conjunto de outras análises que, confirmando na sua maior parte as tendências expressas anteriormente, lhe introduziram algumas cambiantes. Conceição Andrade Martins, com base em trabalhos anteriores de outros autores, refere a presença de “uma nítida desaceleração a partir de finais da década de 1880 e uma recessão nos anos 1890”35. Pedro Lains parece mais cético quanto aos efeitos da crise financeira apontado para a hipótese do período que se lhe seguiu “não ter sido marcado por um abrandamento do crescimento económico”36. Em sentido contrário vai a caracterização que Eugénia da Mata e Nuno Valério fizeram do período entre 30 O valor efetivo da taxa de variação é de -4,67%, a taxa de crescimento anual médio regista -0,48%. 31 RAMOS, Rui - A crise. In REIS, António (ed.) - Portugal Contemporâneo. Lisboa: Alfa, 1996. vol. I, p. 550. 32 A taxa de crescimento anual médio é de 0,88%, para 10423 lojistas (16024 licenças) em 1901 e 11373 (17485 licenças) em 1911. A ajudar na confirmação do que ficou expresso, veja-se a observação de Conceição Martins de que “o crescimento do sector comercial deve ter sido à medida do próprio crescimento económico nacional.” MARTINS, Conceição Andrade - Trabalho e condições de vida em Portugal (1850-1913). Análise Social. Vol. XXXII, n.o 142 (1997), p. 497. 33 RAMOS, Rui - A Segunda Fundação (1890-1926). Lisboa: Círculo de Leitores, 1994. (História de Portugal, VI), p. 154, 169 e 230-232; RAMOS, Rui - A crise. vol. I, p. 549 e 565; RAMOS, Rui - D. Carlos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2006, p. 233. 34 35 MARTINS, Conceição Andrade - Trabalho e condições de vida em Portugal (1850-1913), p. 484. LAINS, Pedro - A crise financeira de 1891 em seus aspectos políticos. In MATOS, Sérgio Campos (ed.) - Crises em Portugal nos séculos XIX e XX: actas. Lisboa: Centro de História da Universidade de Lisboa, 2002, p. 59. 36 266 1891 e 1914, descrito como “uma nova época de estagnação” na economia portuguesa37. De notar, por fim, que a crise da década de 1890 e os seus efeitos foram destacados num estudo sobre a Associação Comercial de Lisboa, falando-se em “estagnação do crescimento económico em Portugal durante toda a década de noventa do século XIX”, apontada como uma conjuntura importante na “politização” do sector do grande comércio, normalmente mais conservador38. Esta observação, no fundo, vem reforçar a importância da análise do período para a compreensão das mudanças políticas ocorridas no seio do pequeno comércio que foram além de uma simples politização, em parte, devido à conjugação da crise com a maior tendência para o radicalismo que caracterizava os lojistas. População e lojistas: uma cidade, dois ritmos Como se viu atrás, o número total de estabelecimentos calculado por Gomes de Brito terá passado de pouco mais de 10000 em 1887 para um valor ligeiramente acima dos 10500 em 1893 (quadro 2). Estes números indicam uma quase estagnação do pequeno comércio para o conjunto da cidade, coerente com o que foi possível verificar no gráfico 1 e pela comparação entre os ritmos de crescimento das décadas de 1880 e 1890. Mas os dados de Gomes de Brito permitem ainda fazer a destrinça entre a zona da “antiga circunvalação”, ou seja, o antigo concelho de Lisboa até 1885, e a “zona anexada”, composta pelas freguesias dos extintos concelhos de Belém e Olivais, áreas onde estava ainda presente uma forte componente rural. Na primeira, a zona mais urbana, onde se concentrava a maioria esmagadora do comércio e, também, onde a ACLL sempre recrutou a quase totalidade dos seus sócios, o ritmo de crescimento do número de estabelecimentos, que no geral já é fraco, é ainda menor, ficando por uma taxa de crescimento anual médio de cerca de 0,5%. Pelo contrário, na zona anexada o ritmo era 5 vezes superior ao registado nas freguesias verdadeiramente citadinas e mantinha-se mesmo mais elevado do que o que tinha sido a evolução geral entre 1878 e 1885, detetada através dos totais de lojistas, quando estes cresceram a uma taxa de 1,6% ao ano. Anos Antiga circunvalação40 Zona anexada41Total 1887 8514 1523 10037 1893 8757 1751 10508 Dif. + 243 + 228 + 471 Dif. (%) +2,85 +14,97 +4,69 TCAM (%)42 +0,47 +2,35 +0,77 A evolução do conjunto da cidade não surpreende se se tiver em conta o que foi o comportamento demográfico da capital ao longo do último terço do século XIX e no início do século XX (quadro 3). Ao observar-se o crescimento da população na totalidade das freguesias ressalta uma similaridade com a série dos lojistas, MATA, Maria Eugénia; VALÉRIO, Nuno - História económica de Portugal: uma perspectiva global. Lisboa: Editorial Presença, 2003, p. 162-178. De notar, contudo, que consoante se muda o arco temporal de análise assim mudam as conclusões sobre a economia portuguesa na transição dos séculos XIX e XX. Acrescentando ao que já foi referido, veja-se o que afirma Conceição Martins, por exemplo, tendo por base um estudo não publicado de Pedro Lains. “Apesar de em 1913 Portugal continuar «afundado no atraso económico» e se encontrar em pior situação do que cinquenta anos antes, não só porque tinha o rendimento per capita mais baixo da Europa ocidental, mas também porque, a preços constantes, o mesmo baixara nesse período relativamente à média dos países desenvolvidos, Pedro Lains atribuiu à economia portuguesa dos anos 1850-1913 uma «nota de bom comportamento».” Cf. MARTINS, Conceição Andrade - Trabalho e condições de vida em Portugal (1850-1913), p. 483. 37 SANTOS, Luís Aguiar - Comércio e política na crise do liberalismo: a Associação Comercial de Lisboa e o reajustamento do regime proteccionista português, 1885-1894. Lisboa: Edições Colibri, 2004, p. 124 e 180. 38 CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA - Inspecção ao Serviço do Imposto de Licença para Estabelecimentos em 1887 e 1893. vol. I, p. 55. A fonte apresentava somente os valores absolutos para os dois anos, nas duas zonas; as diferenças e percentagens foram calculadas com base nos mesmos. 39 40 Concelho de Lisboa até 1885. 41 Área acrescentada ao concelho de Lisboa depois de 1885/1886. 42 Taxa de Crescimento Anual Médio. 267 Uma cidade em mudança: A evolução do comércio de retalho de Lisboa no final da Monarquia - Daniel Alves Quadro 2 - “Arrolamento geral dos lojistas e mais comerciantes” de Lisboa (1887-1893)39. o que já tinha sido também observado quando se comparou esta última com a evolução económica da mesma época. No caso da população é notório um crescimento significativo entre 1878 e 1890 (recorde-se que a série relativa ao pequeno comércio tem também o seu melhor desempenho precisamente até ao final da década de 1880). O ritmo de crescimento diminuiu entre 1890 e o censo seguinte, como se verifica pela percentagem de crescimento anual médio, para acelerar novamente, na primeira década do século XX, mas a uma taxa mais moderada do que a registada nos primeiros 12 anos analisados (quadro 3). LisboaLisboa Lisboa (concelho de 1911) (freguesias urbanas) (freguesias dos antigos concelhos de Belém e Olivais) AnosPopulaçãoÍndiceTCAM PopulaçãoÍndiceTCAM População ÍndiceTCAM 1878 228624 100 198552 100 30072 100 1890 298903 131 2,3 257922 130 2,2 40981 136 2,6 1900 356009 156 1,8 302639 152 1,6 53370 177 2,7 1911 435359 190 2,0 365081 184 1,9 70278 234 2,8 Quadro 3 - População de Lisboa entre 1878 e 191143. Uma cidade em mudança: A evolução do comércio de retalho de Lisboa no final da Monarquia - Daniel Alves Além disso, tanto na população, como no comércio (quadro 2), havia claramente duas cidades, dois ritmos distintos: um, mais lento, para a parte urbanisticamente mais consolidada, para as freguesias que correspondiam ao concelho de Lisboa de 1852-1885; outro, bastante mais rápido, para a nova área, para as freguesias que tinham vindo dos antigos concelhos de Belém e Olivais. Neste período, Lisboa cresceu, essencialmente, em “dois eixos (…): Olivais, a Oriente, Campo Grande e Lumiar, para norte.” Ao mesmo tempo, observa-se o progressivo “esvaziamento” populacional da Baixa e um “inferior (…) ritmo de crescimento do número de fogos”, nas freguesias centrais44. A diferença entre “um «centro histórico» progressivamente esvaziado da sua população residente” e uma periferia “com índices de crescimento populacional extremamente elevados”, onde “se processará (…) uma progressiva ocupação residencial”, é um aspeto essencial da evolução demográfica da cidade45, o qual, como parece óbvio, teve influência na própria distribuição do pequeno comércio e nas alterações que este vai sofrer a partir da década de 1890. Uma dessas alterações passa por uma redução ou um ritmo mais lento de crescimento do número de estabelecimentos comerciais no “centro” da cidade, em parte, influenciado pelo facto da antiga cidade “comercial” estar a perder peso demográfico em relação às outras áreas e, em especial, às novas zonas de expansão urbanística46. Ou seja, nos últimos anos da Monarquia, Lisboa não estava só a ver diminuir, ou a ver crescer mais lentamente a população no antigo “centro comercial”, como essa zona estava também a contrair-se em termos do número total de lojas existentes e a mudar significativamente algumas das suas características (quadros 2 e 3). Fonte: Censos da População de 1878, 1890, 1900 e 1911. Os dados demográficos correspondem ao total da população de facto. Foram recolhidos ao nível da freguesia de modo a possibilitar somas agregadas que correspondessem sempre a áreas geográficas iguais. Optou-se por comparar os dados dos vários censos tendo por base a área do concelho de 1911, por um lado, por ser esta a configuração mais próxima do que é o atual concelho de Lisboa e, por outro lado, porque assim se obtinha uma base verdadeiramente comparável ao longo dos quatro censos populacionais, tendo em conta que a área do concelho foi mudando nestes anos, só adquirindo uma certa estabilização no início do século XX. Para o ano de 1890 não foram incluídas as freguesias de Sacavém e Camarate, que integraram o concelho apenas entre os anos de 1886 e 1895, permitindo deste modo comparar a evolução populacional em áreas efetivamente equivalentes. No ano de 1878, a coluna “Lisboa (freguesias urbanas)” inclui a parte extramuros das freguesias de S. Isabel, S. Pedro em Alcântara, S. Sebastião da Pedreira e S. Jorge de Arroios que nessa data faziam parte dos concelhos depois extintos. Uma vez mais, o critério foi gerar áreas geográficas idênticas e comparáveis ao longo do tempo. 43 44 RODRIGUES, Teresa - Nascer e morrer na Lisboa oitocentista: migrações, mortalidade e desenvolvimento. Lisboa: Edições Cosmos, 1995, p. 73 e 77. FERREIRA, Vítor Matias - A cidade de Lisboa: de capital do império a centro da metrópole. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1987, p. 95 (itálico no original). 45 Ibid. p. 95–96; RODRIGUES, Teresa - Nascer e morrer na Lisboa oitocentista: migrações, mortalidade e desenvolvimento, p. 69. De destacar ainda que a própria urbanização da cidade, medida através do índice de construção residencial, segue de muito perto as evoluções aqui traçadas. Cf. SILVA, Álvaro Ferreira da - A construção residencial em Lisboa: evolução e estrutura empresarial (1860-1930). Análise Social. Vol. XXXI, n.o 136-137 (1996), p. 602-605. 46 268 Mapa 1 - Número de estabelecimentos por freguesias em 1887. Mapa 2 - Número de estabelecimentos por freguesias em 1893. 269 Uma cidade em mudança: A evolução do comércio de retalho de Lisboa no final da Monarquia - Daniel Alves A imagem dada pelo quadro 2 pode ainda ser melhorada pois, na análise ao licenciamento de lojas entre 1887 e 1893, foi possível desagregar os dados ao nível da freguesia. Deste modo, não só se fica com uma noção da distribuição geral do pequeno comércio pela cidade, destacando as zonas de maior densidade de lojas (mapas 1 e 2), como também é viável uma observação mais detalhada dos diferentes ritmos “comerciais” de Lisboa, ou seja, é possível verificar, em concreto, que freguesias é que estavam a perder lojas e aquelas que ganhavam novos estabelecimentos, relacionando depois essa informação com o próprio ritmo de crescimento populacional da capital (mapa 3). Nos dois momentos observados, a distribuição geral do comércio de porta aberta, aparentemente, não parece ter sofrido grandes alterações. A maior concentração de lojas na zona da Baixa-Chiado, nas freguesias adjacentes e zona ribeirinha, em especial, na parte ocidental de Lisboa, nos dois anos, contrasta com uma zona ainda essencialmente em desenvolvimento urbanístico e, em alguns casos, mesmo predominantemente rural, na qual a densidade de lojas é pouco significativa, em particular, na zona norte (mapas 1 e 2). Esta primeira observação não parece trazer grande novidade em relação ao que tradicionalmente se observa em relação à distribuição do pequeno comércio pela cidade. Contudo, mesmo nesses mapas, é visível que o padrão estava a sofrer algumas alterações, na entrada da década de 1890. Uma cidade em mudança: A evolução do comércio de retalho de Lisboa no final da Monarquia - Daniel Alves Mapa 3 - Evolução do número de estabelecimentos entre 1887 e 1893 (%). É possível verificar então que, em termos relativos, as freguesias centrais estavam a perder dinamismo pois, com a exceção das da Ameixoeira e do Lumiar, que tinham poucas lojas e onde qualquer alteração se refletia numa percentagem de variação elevada, as quebras no número de licenças verificavam-se precisamente na parte central da cidade, na zona da Baixa, no eixo S. Mamede – S. Paulo e em Santos. Pelo contrário, as freguesias envolventes estavam a crescer em número de lojas e esse fenómeno era particularmente evidente na zona oriental da cidade (mapa 3). Esta verificação é reforçada pela observação de alguns casos particulares, como, por exemplo, da freguesia dos Olivais, a que se poderiam juntar ainda as de S. Jorge de Arroios, Anjos, S. Bartolomeu e S. Vicente, onde é possível verificar um significativo aumento, tanto do número de licenças, como dos valores pagos por elas47. Ou seja, se, por um lado, o relativo “esvaziamento” populacional da zona central da cidade parecia estar a afetar o pequeno comércio tradicionalmente aí existente, por outro lado, o maior dinamismo demográfico das novas freguesias de Lisboa estava a contribuir para um aumento do número de lojas, para um ritmo mais elevado de expansão do comércio retalhista. No fundo, as mudanças populacionais da cidade levavam a que os lojistas, muito provavelmente, sentissem necessidade de acompanhar a clientela, de acompanhar o que era o crescimento urbanístico e demográfico da cidade. Conclusão A análise feita sobre a evolução do pequeno comércio de Lisboa, leva à elaboração de uma hipótese que pode ajudar na explicação do que se considera ter sido um peculiar posicionamento político dos lojistas Os casos da Charneca e de Camarate não podem ser destacados por representarem valores absolutos muito pouco representativos, em 1887, para os quais qualquer pequena variação representa imediatamente uma percentagem de crescimento muito elevada. 47 270 de Lisboa, no final da Monarquia, por comparação com o estrangeiro. Parecendo, como efetivamente terá ficado demonstrado, que o quadro evolutivo do pequeno comércio de Lisboa é aquele que ficou expresso acima, então, o crescimento observado depois de 1900 vem contrariar, em parte, o que Vasco Pulido Valente supõe ter sido a chave para a compreensão da “súbita ressurreição do PRP” (Partido Republicano Português) depois de 1903: o facto de, “entre o fim dos anos 90 e 1910, as condições económicas das pequenas empresas – tanto industriais, como comerciais – [terem] sofrido uma certa deterioração”, sendo esta suposta crise a explicação para a “militância política”, entre outros, dos lojistas48. Ora, não só a suposição de Pulido Valente parece assentar em pressupostos que não se verificam, pelo menos no que às “pequenas empresas” comerciais diz respeito, como a cronologia fundamental para a explicação dessa “militância” parece estar desfasada, devendo recuar cerca de 10 anos e ser procurada numa certa ideia de “crise” que se desenvolveu entre os lojistas de Lisboa, com maior persistência, na década final de oitocentos. Foi nesta década, como se observou, que o comércio de "porta aberta" sofreu com a crise económica e viu diminuir o número de lojas existentes, provavelmente, muitas devido a falências. Contudo, essa noção que tendia a ver nos políticos e, em última análise, na Monarquia a causa das dificuldades que afetavam os lojistas não derivava somente das condições concretas da economia, era igualmente afetada por um outro conjunto de fatores, uns ausentes ou com pouca influência na elaboração da perceção de crise que os lojistas estavam a construir, outros mais determinantes nesse processo, mas todos importantes para se perceber a ligação privilegiada que os homens do pequeno comércio vão desenvolver, a partir desta altura, ao republicanismo e a evolução diferenciada que essa associação vai apresentar em relação ao que pela mesma altura estava a ser a tendência de alinhamento político maioritária entre os lojistas europeus. Esses fatores passavam pela ausência de um verdadeiro perigo socialista, fruto do fraco desenvolvimento industrial e, consequentemente, de um operariado ainda pouco numeroso e pouco reivindicativo. Passavam igualmente pela ausência de fenómenos de concentração económica no sector comercial que trouxessem aos lojistas uma concorrência desmedida. Passavam ainda por uma vida associativa e por um discurso político que paulatinamente os foi subtraindo da esfera de influência dos tradicionais partidos monárquicos e foi-lhes apresentando o republicanismo como uma "panaceia" para a crise que sentiam nesta altura. Contudo, uma análise detalhada sobre esses fatores não cabe no âmbito deste texto e foi já explorada num trabalho anterior49. FONTES MANUSCRITAS Arquivo Municipal de Lisboa Licenças para Estabelecimentos de Comércio e Indústria, 1878-1911. FONTES IMPRESSAS ACLL - Boletim da Associação Comercial de Lojistas de Lisboa. ACLL - Desaggravo do commercio de Lisboa: resposta da Associação Commercial de Lojistas de Lisboa ao discurso pronunciado na Camara dos Senhores Deputados em sessão de 23 de Fevereiro de 1892 pelo Ex. mo Sr. F. J. Machado. Lisboa: Typ. e Stereotypia Moderna, 1892. ACLL - Relatório e contas de 1887. ACLL - Relatório e contas de 1888. 48 VALENTE, Vasco Pulido - O Poder e o Povo. Lisboa: Círculo de Leitores, 1999, p. 52. 49 ALVES, Daniel - A República atrás do balcão: os Lojistas de Lisboa e o fim da Monarquia (1870-1910). Chamusca: Edições Cosmos, 2012. 271 Uma cidade em mudança: A evolução do comércio de retalho de Lisboa no final da Monarquia - Daniel Alves FONTES E BIBLIOGRAFIA ACLL - Relatório e contas de 1891. Anuário Estatístico de Portugal. CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA - Inspecção ao Serviço do Imposto de Licença para Estabelecimentos em 1887 e 1893. Lisboa: Imprensa de Lucas Evangelista Torres, 1895. (1). vol. I. CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA - Inspecção ao Serviço do Imposto de Licença para Estabelecimentos em 1887 e 1893. Lisboa: Imprensa de Lucas Evangelista Torres, 1895. (1). vol. II. 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Da análise destes diferentes elementos cartográficos, não foi possível até à data identificar a legenda do Levantamento da Planta de Lisboa. O conhecimento dessa legenda contribuiria, certamente, para um melhor entendimento do levantamento de Lisboa realizado no início do século XX, e neste sentido para um aprofundamento da sua História Urbana. No âmbito do projeto de investigação MEMO - Evolução do Metabolismo Urbano da Área Metropolitana de Lisboa. Lições para um futuro urbano sustentável, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (PTDC/EMS-ENE/2197/2012), este artigo expõe os resultados de uma análise realizada ao Levantamento da Planta de Lisboa, de onde foi possível extrair uma proposta de legenda parcial para o mesmo. Sendo que o objetivo principal do Projeto MEMO é o de caracterizar o comportamento metabólico do território da área metropolitana de Lisboa em diferentes momentos históricos, a análise cartográfica constituiu uma ferramenta determinante para o desenvolvimento do projeto. Incidindo no primeiro período temporal do projecto MEMO (c. 1900), foi identificada a Carta dos Arredores de Lisboa realizada pelo Corpo do Estado-Maior entre 1893-1932 (escala 1/20.000), que constituiu a primeira carta topográfica militar da região de Lisboa. A Carta dos Arredores de Lisboa possui legenda detalhada o que possibilitou o desenvolvimento de um levantamento de elementos de água e de cultivos, existentes no território da área metropolitana de Lisboa em cerca de 1900, após a georreferenciação de 63 cartas e análise das mesmas. Este artigo foi realizado no âmbito do Projeto MEMO – PTDC/EMS-ENE/2197/2012, financiado pela FCT, acessível em https://sites.google.com/site/ memoamlmetabolism/. Os autores agradecem a concessão de autorização do uso de imagens às seguintes entidades: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional de Portugal e Direção Geral do Território. 1 2 O estado geral da Historiografia Portuguesa não nos permite ter conhecimento acerca da data de falecimento de Júlio António Vieira da Silva Pinto. 3 VIEGAS, Inês Morais; TOJAL, Alexandre Arménio Maia (dir.) - Levantamento da Planta de Lisboa. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 2005. PINTO, Júlio António Vieira da Silva; CORREIA, Alberto Sá - Levantamento da Planta de Lisboa. [Em linha]. Lisboa: AML, [s.d.]. PT/AMLSB/CMLSB/ UROB-PU/05/03/002 a PT/AMLSB/CMLSB/UROB-PU/05/03/294. [Consult. 12.11.2014]. Disponível na internet: http://arquivomunicipal2.cm-lisboa.pt/sala/ online/ui/SearchBasic.aspx. 4 275 Incidindo em Lisboa, o detalhe oferecido pelo Levantamento da Planta de Lisboa suscitou a oportunidade da comparação entre estas cartas e outras fontes cartográficas. Este artigo expõe o resultado dessa análise cartográfica comparativa, que se traduziu numa proposta de legenda para cinco cultivos (árvores, hortas, olivais, terras lavradas e vinhas) para o Levantamento da Planta de Lisboa, bem como a metodologia que a orientou. O presente artigo estrutura-se em seis partes. Segue-se à introdução a identificação das fontes cartográficas que sustentaram a análise comparativa proporcionando a identificação da proposta de legenda parcial aqui apresentada. Cabe à terceira parte providenciar o enquadramento histórico da elaboração do Levantamento da Planta de Lisboa. A quarta parte expõe a análise comparativa das fontes cartográficas identificadas, bem como uma visualização dos resultados obtidos dessa análise. A quinta parte expõe uma proposta de legenda parcial para o Levantamento da Planta de Lisboa, designadamente para cinco cultivos específicos e finalmente, na sexta parte, apresentam-se as principais conclusões. 1 - Fontes cartográficas Foram três os principais documentos cartográficos que informaram o presente trabalho, designadamente a Carta dos Arredores de Lisboa5, o Levantamento da Planta de Lisboa6 e as Plantas das Minas e Encanamentos d’Água7. A legenda do levantamento da Planta de Lisboa do Engenheiro Silva Pinto - Teresa Marat-Mendes | Patrícia Bento D`Almeida | Joana Mourão A Carta dos Arredores de Lisboa corresponde a um levantamento cartográfico, realizado pelo Corpo do Estado-Maior no início da década de noventa do século XIX, e que tinha por objetivo produzir a primeira carta topográfica militar. A Carta dos Arredores de Lisboa foi iniciada em 1893 e concluída em 1932, e englobou um conjunto total de 225 cartas produzidas à escala 1/20.000. Algumas destas cartas foram sujeitas a sucessivas atualizações, permitindo a visualização da evolução de um mesmo território, em diferentes datas de levantamento. Destas 225 cartas o Projeto MEMO selecionou 63 para análise detalhada, de acordo com os seguintes critérios: i) uma leitura visual do território de Lisboa o mais recuado possível e próximo de 1900; e ii) o uso de cartografia com a introdução do elemento cor para uma melhor identificação dos diferentes elementos em análise. Destas 63 cartas seis correspondem ao território do município de Lisboa, nomeadamente, as cartas nº1 (1902), nº2 (1901), nº6 (1899), nº7 (1898), nº11 (1901) e nº12 (1901). A relevância destas cartas para o presente artigo refere-se ao facto de permitirem identificar, através da sua legenda e representação, os cultivos e os elementos de água construídos pelo homem, no território em análise. A identificação destes elementos permitiu a construção de duas bases de dados elaboradas pelo Projeto MEMO8. O segundo documento cartográfico utilizado pela presente investigação foi o Levantamento da Planta de Lisboa. Este documento foi elaborado por Júlio António Vieira da Silva Pinto e Alberto Sá Correia, entre 1904 e 1911, como resultado de uma encomenda municipal após concurso que visou proceder ao levantamento topográfico da cidade de Lisboa, que havia conhecido em 1903 novos limites administrativos. Elaborado à escala 1/1.000, o Levantamento da Planta de Lisboa compreende um total de 249 cartas. A relevância destas cartas para a presente análise baseia-se no detalhe pormenorizado que propiciam, apesar da ausência de uma legenda. No entanto, a cor, o traço e a repetição de pormenores possibilitam per si, uma leitura intuitiva desta cartografia, sugerindo eventuais leituras comparativas com as restantes fontes cartográficas em análise. 5 PORTUGAL. Corpo do Estado-Maior - Carta dos Arredores de Lisboa. [s.l.]: [s.n.], 1893-1932. 6 VIEGAS, Inês Morais; TOJAL, Alexandre Arménio Maia (dir.) - Levantamento da Planta de Lisboa. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 2005. PORTUGAL. Casa da Fazenda Real - Noticia acerca das águas que abastecem os almoxarifados das reaes propriedades, quer proprias quer nacionaes no usufructo da coroa: 1904. Lisboa: Typographia da "A Editora", 1905. 7 8 276 Base de dados de Elementos Água e Base de dados de Cultivos do Projeto MEMO. O terceiro elemento cartográfico que suportou a presente investigação refere-se ao conjunto das Plantas das Minas e Encanamentos d’Água, elaboradas em 1901, que ilustram a publicação Notícia acerca das Aguas que abastecem os Almoxarifados das Reaes Propriedades quer Proprias quer Nacionaes no usufructo da Corôa9. Estes elementos cartográficos correspondem às plantas de dez propriedades reais, designadamente Ajuda, Alfeite, Belém, Caxias, Mafra, Necessidades, Pena, Queluz, Sintra e Tapada da Ajuda. Estas plantas foram elaboradas à escala 1/5.000, com exceção da Planta das Minas e Encanamentos d’Água da Real Tapada de Mafra, elaborada à escala 1/10.000. Auxiliadas por uma legenda, estas plantas indicam-nos a localização dos principais elementos de condução de água às Reaes Propriedades do Reino. Ausentes de qualquer elementos de cor, presentes nos dois primeiros elementos cartográficos atrás referidos, estas plantas não se encontram auxiliadas por curvas de nível. No entanto, o seu desenho permite-nos identificar: i) linhas de água naturais (ribeiras e rios); ii) elementos de água construídos pelo homem (aquedutos e respetivos tipos de encanamentos, chafarizes, fontes, minas, poços e tanques); iii) linhas de comunicação (calçadas, estradas, ruas, travessas, etc.); iv) elementos de cultivo (pinhais, pomares, vinhas, hortas); v) elementos construídos (casais, casas, largos, praças, portas, etc.) e, vi) pontos notáveis do território (cabeços, etc.). A relevância destas plantas para a presente investigação resulta do detalhe oferecido sobre os elementos de água nas quatro quintas reais de Lisboa (Ajuda, Belém, Necessidades e Tapada da Ajuda). 2 - Enquadramento histórico do Levantamento da Planta de Lisboa A abertura de ruas, praças e avenidas levada a cabo por Frederico Ressano Garcia (1847-1911), engenheiro da Câmara Municipal de Lisboa admitido em concurso após a morte do seu antecessor, Pedro José Pezarat (1801-1872), oferecia à cidade não só a proposta de um boullevard a norte do passeio público, que ligaria o Rossio ao Campo Grande, mas também “Novas Avenidas” entre outros projetos de expansão da cidade, como o plano do bairro de Campo de Ourique. Para o desenvolvimento destes planos urbanos, a 3ª Repartição Técnica, chefiada pelo também diretor geral dos Serviços de Obras Públicas, Frederico Ressano Garcia, regia-se pela cartografia existente, o Atlas da Carta Topográfica de Lisboa. Naturalmente, esta cartografia era agora desadequada por se encontrar desatualizada, dificultando os trabalhos de planeamento e crescimento da cidade. Assim, com vista a apoiar topograficamente o Plano Geral de Melhoramentos da cidade (regido pelo decreto de lei nº 10 de 19 de janeiro de 1865), o decreto de 2 de setembro de 1901 (aprovado em 1904) prevê o Levantamento da Planta de Lisboa12. Com vista a substituir o anterior levantamento – Atlas da Carta Topográfica de Lisboa (escala 1/5.000) – elaborado entre 1856 e 185813 pelos topógrafos Carlos Pezarat, Francisco Goullard e César Goullard sob coordenação do general Filipe Folque (1800-1874), diretor da Direcção-Geral dos Trabalhos Geodésicos e Topográficos do Reino, e a dar continuidade aos trabalhos de levantamento da planta da cidade que haviam sido iniciados (em 1892) pelo engenheiro J. Renato Baptista (m. 1900), mas que se revelavam demasiado morosos e dispendiosos14, Frederico Ressano Garcia define em 1904 as condições a constar no programa PORTUGAL. Casa da Fazenda Real – Noticia acerca das águas que abastecem os almoxarifados das reaes propriedades, quer proprias quer nacionaes no usufructo da coroa: 1904. Lisboa: Typographia da "A Editora", 1905. Algumas destas plantas encontram-se disponíveis também na Biblioteca Nacional de Portugal em formato digital. 9 10 Lisboa e a sua expansão: As “Plantas” da Cidade. Revista Municipal. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa. Ano I Nº 3 (1940), p. 47-58. SILVA, Raquel Henriques da - Lisboa de Frederico Ressano Garcia, 1847-1909. In SILVA, Raquel Henriques da (dir.) - Lisboa de Frederico Ressano Garcia 1874-1909. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1989, p. 17-37. 11 Arquivo Municipal de Lisboa (AML), Livro numero quatroze de contratos de obras da câmara Municipal de Lisboa a folhas 164, 19 de novembro de 1904, PT/AMLSB/AL/CMLSB/UROB-E/23, Caixa 34. 12 O Atlas da Carta Topográfica de Lisboa foi publicado pela primeira vez em 1878 e depois de corrigido foi novamente publicado com o título de Carta Topográfica da Cidade de Lisboa e Seus Arredores (1884). 13 AML, Livro numero quatroze de contratos de obras da câmara Municipal de Lisboa a folhas 164, 19 de novembro de 1904, PT/AMLSB/AL/CMLSB/ UROB-E/23, Caixa 34, f. 1. 14 277 A legenda do levantamento da Planta de Lisboa do Engenheiro Silva Pinto - Teresa Marat-Mendes | Patrícia Bento D`Almeida | Joana Mourão Nas últimas décadas do século XIX, os limites administrativos da cidade de Lisboa estiveram sujeitos a diversas alterações. Apesar da carta de lei de 18 de julho de 1885 ter integrado os concelhos de Belém e Olivais, e do decreto de 22 de Julho de 1886 ter regulado o alargamento dos limites da cidade com a reintegração de áreas pertencentes aos concelhos dos Olivais e de Oeiras, o Município de Lisboa em 1895 passa a ter novas fronteiras, apresentando 8.245 hectares de superfície10. do concurso público para o Levantamento da Planta de Lisboa. O concurso abre a 31 de agosto de 1904 e cerca de um mês depois, o Diário do Governo (1904) adverte para a apresentação de somente duas propostas: 1) Firma Almeida Santos, Lino & Comp.a (engenheiros); e 2) Júlio António Vieira da Silva Pinto (n. 1860), engenheiro industrial de formação e condutor de 1ª classe da 3ª Repartição da Câmara Municipal de Lisboa, e Alberto de Sá Correia (1874-1937), diplomado em Construção Civil e Obras Públicas pelo Instituto Industrial e Comercio de Lisboa e condutor de obras da Câmara Municipal de Lisboa15. A proposta elaborada por Vieira da Silva Pinto e Sá Correia foi a selecionada por ter apresentado menor preço médio por hectare. Curiosamente, Sá Correia havia iniciado funções na Câmara em 1894, precisamente na tarefa do levantamento da planta da cidade16. Os trabalhos de campo deram início em janeiro de 1905 e havia que, em quatro anos, cartografar aproximadamente 8.245 hectares e apresentar em “bom papel de linho colado em pano”17, o resultado do levantamento, desenhado à escala 1/1.000 e aguarelado. Para otimizar o desenvolvimento da planta topográfica, a Câmara Municipal de Lisboa forneceu uma planta “Minuta indicando a divisão e numeração das folhas da Planta de Lisboa”18, à escala 1/25.000. O contrato comtemplava a elaboração das seguintes tarefas: i) elaborar o levantamento da área anexada pelo decreto de 1886 (cerca de 3.483 hectares); ii) acabar o levantamento iniciado por Renato Baptista (cerca 3.440 hectares), que havia deixado 17 folhas (dimensões 0,8 m x 0,5 m) aguareladas e 59 folhas apenas com planimetria desenhada a lápis; e iii) atualizar e corrigir o levantamento coordenado por Filipe Folque (cerca de 1.322 hectares), nomeadamente no que diz respeito a planimetria, cotas, curvas de nível e quaisquer modificações que se tenham verificado nas edificações existentes19. A legenda do levantamento da Planta de Lisboa do Engenheiro Silva Pinto - Teresa Marat-Mendes | Patrícia Bento D`Almeida | Joana Mourão Embora fosse da responsabilidade da Câmara Municipal de Lisboa obter licenças para que fosse possível “proceder às medições dentro das propriedades particulares”20 e apesar de em janeiro de 1906 terem sido apresentadas as primeiras folhas do levantamento, Silva Pinto e Sá Correia pedem prorrogação do prazo de entrega em novembro de 190721, devido a dificuldades na obtenção de autorização para entrada em certas propriedades privadas, cujos proprietários alegavam que o levantamento poderia causar danos nas culturas e searas. De acordo com o descrito no Livro numero quatroze de contratos de obras da câmara Municipal de Lisboa, sabe-se que a 3ª Repartição Técnica forneceu a Silva Pinto e Sá Correia o modelo de convenções adotados em trabalhos desta natureza22. No entanto, até ao momento não nos foi possível localizar a respetiva documentação23. Conforme indicado neste contrato de empreitada, o levantamento deveria indicar “todas as praças, largos, avenidas, ruas e mais vias públicas, bem como todas as construções e edifícios públicos ou particulares, os terrenos cultivados ou não, o relevo do terreno por secções horizontais de metro, ou por planos cotados, conforme convier, e todos os mais detalhes compatíveis com a escala”24. 15 VIEGAS, Inês Morais; TOJAL, Alexandre Arménio Maia (dir.) – Levantamento da Planta de Lisboa. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 2005. 16 LISBOA. Câmara Municipal de – Actas da Câmara Municipal de Lisboa, Sessão de 3 de Novembro 1904. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 1905, p. 322. AML, Livro numero quatroze de contratos de obras da câmara Municipal de Lisboa a folhas 164, 19 de novembro de 1904, PT/AMLSB/AL/CMLSB/ UROB-E/23, Caixa 34, f. 2. 17 18 AML, Minuta indicando a divisão e numeração das folhas da Planta de Lisboa, 29 de dezembro de 1903, PT/AMLSB/CMLSB/UROB-PU/11/393. AML, Livro numero quatroze de contratos de obras da câmara Municipal de Lisboa a folhas 164, 19 de novembro de 1904, PT/AMLSB/AL/CMLSB/ UROB-E/23, Caixa 34. 19 20 Idem. f. 7. LISBOA. Câmara Municipal de – Actas da Câmara Municipal de Lisboa, Sessão de 28 de Novembro de 1907. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 1908. 21 AML, Livro numero quatroze de contratos de obras da câmara Municipal de Lisboa a folhas 164, 19 de novembro de 1904, PT/AMLSB/AL/CMLSB/ UROB-E/23, Caixa 34, f. 2. 22 23 Provavelmente esta documentação encontra-se ainda por tratar no Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa. AML, Livro numero quatroze de contratos de obras da câmara Municipal de Lisboa a folhas 164, 19 de novembro de 1904, PT/AMLSB/AL/CMLSB/ UROB-E/23, Caixa 34. 24 278 No entanto, a liberdade de decisão atribuída aos contratados deu origem a que, posteriormente, Silva Pinto tivesse travado uma longa batalha com a Câmara, devido, em parte, à “falta de clareza e precisão dos artigos e a falta dum bem elaborado caderno de encargos”25. Esta imprecisão levou igualmente a diferentes graus de exigência por parte dos examinadores da Câmara, nomeadamente por parte do fiscal Heitor de Macedo que, segundo Silva Pinto, “exigiu detalhes incompatíveis com a escala adotada, tais como representação de degraus, pias de rega, etc”26. Mas, que grau de detalhe é exigível para um levantamento topográfico à escala 1/1.000? A publicação intitulada Apontamentos para facilitar a leitura de Cartas Chorographicas e Topográficas27 informa-nos acerca dos “signaes convencionaes empregados na direcção geral dos trabalhos geodésicos”28 (publicados em 1864). Qualificando-os como “o alfabeto da topografia”29, o autor salvaguarda para a necessidade de se adotar “um systema uniforme de signaies para evitar enganos na leitura e facilitar a prática d’este serviço”30. Da análise do Levantamento da Planta de Lisboa, verifica-se que Silva Pinto e Sá Correia não recorreram a “signaes convencionaes”, mas elaboraram o retrato fiel do espaço edificado, dos jardins e de outros elementos. A inexistência de uma legenda que auxilie a leitura desta cartografia dificulta a interpretação do espaço retratado. No que diz respeito à identificação dos diferentes cultivos, por exemplo, poderá ter-se dado o caso de Silva Pinto e Sá Correia terem adotado o estipulado pelas instruções para o levantamento da carta agrícola do país, publicadas pelo decreto de 18 de novembro de 1886. Art. 3º O estado cultural ou inculto do solo será designado na carta por convenções especiais, marcando-se os limites da culturas e designando-as com clareza, tendo em vista a classificação seguinte: Culturas arvenses, ou lavradas. Sob esta rúbrica se incluirão: de cereais, de legumes, de tubérculos, ou outras que entrem na rotação de um afolhamento em campo lavrado31. Art. 12º Com a côr convencional de hortas e pomares serão indicadas as hortas propriamente ditas, Apesar das dificuldades, em julho de 1911, já sem a colaboração de Alberto de Sá Correia33, Silva Pinto entrega as últimas folhas do Levantamento da Planta de Lisboa, finalizando assim o mosaico constituído por 249 plantas (folhas com 93 cm por 64 cm) à escala 1/1.000. Depois de fotografadas, estas plantas tiveram reproduções posteriores para as escalas 1/5.000 e 1/10.00034. Por ter sido estipulado no contrato, coloca-se a possibilidade dos estudos preparatórios, particularmente apontamentos do trabalho de campo e de gabinete, cálculos e medições, terem sido entregues à guarda da Câmara Municipal de Lisboa35. Apesar do esforço, esta documentação não foi localizada36. Um artigo datado de 1940 indica a existência de uma nova planta à escala 1/5.000, levantada pelos Serviços de Agrimensura em 1935, como sendo a planta que viria a corrigir o Levantamento da Planta de Lisboa37 e a substituir o seu uso. AML, Parecer do Advogado Ribeiro sobre as reclamações apresentadas à Câmara Municipal de Lisboa pelo empreiteiro do levantamento da planta da cidade, Júlio António Vieira da Silva Pinto, 5 de agosto de 1913, PT/AMLSB/AL/CMLSB/UROB-E/23, Caixa 34, f. 1. 25 26 Idem. f. 7. 27 LIMPO, Francisco António de Brito - Apontamentos para facilitar a leitura de Cartas Chorographicas e Topográficas. Lisboa: Imprensa Nacional, 1877. 28 Idem. p. 6. 29 Idem. p. 20. 30 Idem. p. 6. PORTUGAL. Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria - Carta Agrícola e Estatística Agrícola Geral. Organização e Instruções. Lisboa: Imprensa Nacional, 1894, p. 9-10. 31 32 Idem, p. 11. Em dezembro de 1908, Alberto de Sá Correia declara que, por motivos de saúde, deverá abandonar o trabalho de levantamento da planta de Lisboa, transferindo todos os seus direitos para Silva Pinto. 33 34 Lisboa e a sua expansão: As “Plantas” da Cidade. Revista Municipal. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa. Ano I Nº 3 (1940), p. 53. VIEGAS, Inês Morais; TOJAL, Alexandre Arménio Maia (dir.) – Levantamento da Planta de Lisboa. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 2005, p. 33, nota de rodapé nº 13. 35 36 Ver nota de rodapé nº 16. 37 Lisboa e a sua expansão: As “Plantas” da Cidade. Revista Municipal. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa. Ano I Nº 3 (1940), p. 54. 279 A legenda do levantamento da Planta de Lisboa do Engenheiro Silva Pinto - Teresa Marat-Mendes | Patrícia Bento D`Almeida | Joana Mourão os pomares de laranja e outras espécies pomíferas, e as culturas hortícolas32. 3 - Análise comparativa de três fontes cartográficas Em 1900, o município de Lisboa incluía diversos tipos de elementos relacionados com a agricultura e a água, identificáveis nas fontes cartográficas referidas, designadamente: terras cultivadas, quintas e elementos de abastecimento de água. O solo cultivado cobria em 1900 pelo menos mais de 40% do território do município38. No total, na Carta dos Arredores de Lisboa, identificaram-se 172 quintas em Lisboa, quatro das quais correspondiam a quintas ou propriedades reais (Belém, Ajuda, Tapada da Ajuda e Necessidades) e sete das quais eram quintas muradas com mais de dez hectares. Os poços, tanques, canais de irrigação e aquedutos, representavam os principais elementos de abastecimento de água destas quintas, quer para consumo, quer para rega. As três fontes cartográficas analisadas neste artigo apresentam escalas diversas e distintos graus de pormenor quanto a estes diversos tipos de elementos relacionados com a agricultura e a água. Referem-se em seguida os aspetos complementares possíveis de serem extraídos da análise destas três fontes cartográficas. Enquanto o Levantamento da Planta de Lisboa oferece um elevado detalhe gráfico quanto aos usos do solo, arborização, jardins, edificado e elementos de água, a ausência de uma legenda, conforme referido, impede a identificação e diferenciação dos cultivos agrícolas bem como dos elementos de água. Assim, certas fontes, chafarizes, tanques são por vezes difíceis de distinguir. Por outro lado, a Carta dos Arredores de Lisboa, embora não ofereça um detalhe gráfico comparável ao do Levantamento da Planta de Lisboa, disponibiliza uma legenda completa que permite identificar vários cultivos e tipificar os elementos de água. Por último, as Plantas de Minas e Encanamentos d’Água, elaboradas a uma escala intermédia (1/5.000), permitem completar a informação sobre a infraestrutura de água, pois são muito detalhadas quanto à localização dos elementos de captação, condução e distribuição (incluindo aquedutos, encanamentos, fontes, tanques, minas, chafarizes, etc.). A legenda do levantamento da Planta de Lisboa do Engenheiro Silva Pinto - Teresa Marat-Mendes | Patrícia Bento D`Almeida | Joana Mourão Este artigo oferece uma visualização comparativa do Levantamento da Planta de Lisboa com as outras duas fontes cartográficas adicionais (a Carta dos Arredores de Lisboa e as Plantas de Minas e Encanamentos das Reais Quintas) visando enriquecer a interpretação do Levantamento da Planta de Lisboa e propor uma legenda para alguns cultivos agrícolas (registados neste levantamento através de manchas aguareladas), bem como identificar o tipo de elementos de abastecimento de água, aí desenhados com grande pormenor. Apresenta-se em seguida uma ilustração de cada tipo de cultivo identificado no município de Lisboa a partir da Carta dos Arredores de Lisboa (sobre a qual estes cultivos foram delimitados em sistemas de informação geográfica) comparando o registo de cada tipo de cultivo em localizações coincidentes em duas fontes cartográficas (na Carta dos Arredores de Lisboa e no Levantamento da Planta de Lisboa). Apresentamse ainda determinados elementos de água identificados, quer na Carta dos Arredores de Lisboa e no Levantamento da Planta de Lisboa, quer ainda numa terceira fonte cartográfica: as Plantas de Minas e Encanamentos d’Água, datadas de 1901, que integram uma notícia sobre os almoxarifados das propriedades reais, para a região de Lisboa39. Cultivos No que se refere aos cultivos, a partir da análise do território e da Carta dos Arredores de Lisboa para o município de Lisboa, foram selecionadas doze cartas do Levantamento da Planta de Lisboa tendo em conta a correspondência entre os cultivos representados nestas duas fontes cartográficas (ver figura 1). MARAT-MENDES, Teresa; MOURÃO, Joana; D'ALMEIDA, Patrícia Bento – Mapping Urban Agriculture. In Ata do 12th International Conference on Urban History – EAUH-2014. Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2014. 38 PORTUGAL. Casa da Fazenda Real – Noticia acerca das águas que abastecem os almoxarifados das reaes propriedades, quer proprias quer nacionaes no usufructo da coroa: 1904. Lisboa: Typographia da "A Editora", 1905. 39 280 Figura 1 - Cartas do Levantamento da Planta de Lisboa sobre Carta dos Arredores de Lisboa. Elaboração própria sobre PORTUGAL. Corpo do Estado-Maior – Carta dos Arredores de Lisboa (1893-1932). Para a comparação do registo dos cultivos agrícolas, de cada uma destas cartas do Levantamento da Planta de Lisboa foram destacados extratos e comparados com extratos correspondentes da Carta dos Arredores de Lisboa (ver figura 2). Na observação desta comparação, deverá ser tido em consideração que estas duas fontes cartográficas diferem em termos de escala, bem como em termos do seu propósito e datas de elaboração, conforme referido na segunda parte deste artigo. Deste modo, na comparação visual destas cartas, a correspondência dos cultivos agrícolas nem sempre é verificável. Contudo, nos casos em que essa correspondência acontece repetidamente é possível utilizar a legenda da Carta dos Arredores de Lisboa (ver figura 6), que consta em cada uma das cartas, para identificar determinados cultivos agrícolas no Levantamento da Planta de Lisboa e sugerir uma legenda parcial que, como referimos, não foi possível localizar ate à data. Assim, a Carta dos Arredores de Lisboa permite propor uma legenda para determinados tipos de cultivos registados no Levantamento da Planta de Lisboa, designadamente: olivais, terras lavradas, árvores, hortas e vinhas (ver figura 7). A figura 2 apresenta uma seleção de pares de extratos por cada cultivo comparado, cuja localização é correspondente nas duas fontes, conduzindo à proposta da referida legenda. Elementos de Água No que se refere aos elementos de água, a comparação do Levantamento da Planta de Lisboa e da Carta dos Arredores de Lisboa evidencia que não é possível determinar uma legenda para a primeira fonte cartográfica, uma vez que estes elementos são aí representados com o seu detalhe real (ver figura 5) e não por um símbolo como acontece na segunda fonte cartográfica (ver figura 8). Contudo, a comparação com as restantes fontes cartográficas referidas permite enriquecer a interpretação dos elementos de água menos visíveis no Levantamento da Planta de Lisboa, tais como os aquedutos, aquedutos subterrâneos, mães de água e respetivos respiradouros, elementos que surgem de forma mais completa na Carta dos Arredores de Lisboa e nas Plantas de Minas e Encanamentos d’Água. 281 A legenda do levantamento da Planta de Lisboa do Engenheiro Silva Pinto - Teresa Marat-Mendes | Patrícia Bento D`Almeida | Joana Mourão Encontram-se contornadas a vermelho as cartas do Levantamento da Planta de Lisboa utilizadas para análise de cultivos e a azul as cartas utilizadas para análise de elementos de água em quintas específicas. A legenda do levantamento da Planta de Lisboa do Engenheiro Silva Pinto - Teresa Marat-Mendes | Patrícia Bento D`Almeida | Joana Mourão Figura 2 - Comparação do registo de cinco cultivos no Levantamento da Planta de Lisboa sobre Carta dos Arredores de Lisboa. PORTUGAL. Corpo do Estado-Maior - Carta dos Arredores de Lisboa (1893-1932) - 1 (carta 2), 3 (carta 2), 5 (carta 2), 7 (carta 7), 9 (carta 6). PINTO, Júlio António Vieira da Silva; CORREIA, Alberto Sá - Levantamento da Planta de Lisboa (1904-1911) (cartas: 3D PT/AMLSB/CMLSB/UROB-PU/05/03/015, 8F - PT/AMLSB/CMLSB/UROB-PU/05/03/040), 6G - PT/AMLSB/CMLSB/UROB-PU/05/03/050, 5P - PT/ AMLSB/CMLSB/UROB-PU/05/03/162) e 10O - PT/AMLSB/CMLSB/UROB-PU/05/03/154). 282 Por outro lado, existem elementos que estão em falta na Carta dos Arredores de Lisboa que surgem no Levantamento da Planta de Lisboa com maior detalhe, tais como: i) os canais de irrigação por gravidade, que surgem em grande quantidade nas quintas de maior dimensão adoptando, ao longo dos campos cultivados, formas regulares ou irregulares; ii) as linhas de água, de onde em geral partem estes canais de irrigação, completando a rede hidrográfica de maior escala e menor pormenor que a Carta dos Arredores de Lisboa oferece. Assim, depois de se conhecer a distribuição geral dos cultivos em Lisboa no princípio do seculo XX40, com base na Carta dos Arredores de Lisboa, e após comparar estes cultivos com os indicados no Levantamento da Planta de Lisboa, uma nova comparação cartográfica, suportada por uma terceira fonte, foi desenvolvida para se obter maior detalhe sobre a representação dos elementos de água neste território. Figura 3 - A quinta real da Ajuda representada na Planta de Minas e Encanamentos d’Água, no Levantamento da Planta de Lisboa e na Carta dos Arredores de Lisboa. PORTUGAL. Biblioteca Nacional de – Planta de Minas e Encanamentos d’Água do Almoxarifado da Ajuda (1901), cota: cc-98-v_0001_1_p24-C-R0150. PORTUGAL. Corpo do Estado-Maior – Carta dos Arredores de Lisboa (1893-1932) (carta 2). PINTO, Júlio António Vieira da Silva; CORREIA, Alberto Sá – Levantamento da Planta de Lisboa (1904-1911) (cartas: 4E - PT/AMLSB/CMLSB/UROB-PU/05/03/025, 5E - PT/AMLSB/CMLSB/UROB-PU/05/03/026, 4F - PT/AMLSB/CMLSB/UROB-PU/05/03/036, 5F - PT/AMLSB/CMLSB/UROB-PU/05/03/037, 4G - PT/AMLSB/CMLSB/UROB-PU/05/03/048, 5G - PT/AMLSB/CMLSB/UROB-PU/05/03/049, 4H - PT/AMLSB/CMLSB/UROB-PU/05/03/060 e 5H - PT/AMLSB/CMLSB/UROB-PU/05/03/061). Nestas diferentes fontes cartográficas, os aquedutos adquirem diferentes representações, tendo pouco relevo no Levantamento da Planta de Lisboa. Se a Carta dos Arredores de Lisboa (ver figura 3 – direita) nos indica o traçado dos aquedutos na sua totalidade, incluindo os troços subterrâneos, as Plantas de Minas e Encanamentos d’Água (ver figura 3 – esquerda) identificam ainda os seus diferentes materiais, designadamente manilhas, ferro e chumbo. Estas duas últimas fontes cartográficas permitem confirmar que os pontos cinzentos que surgem no Levantamento da Planta de Lisboa (figura 3 – centro), ao longo das terras lavradas da quinta, representam os respiradouros das mães de água dos aquedutos subterrâneos. Para completar a informação sobre elementos de água foi também analisada a quinta murada de Lisboa de maior dimensão, a quinta do Pimenta (42 hectares), que corresponde ao atual Museu da Cidade, e que MARAT-MENDES, Teresa; MOURÃO, Joana; D'ALMEIDA, Patrícia Bento – Mapping Urban Agriculture. In Ata do 12th International Conference on Urban History – EAUH-2014. Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2014. 40 283 A legenda do levantamento da Planta de Lisboa do Engenheiro Silva Pinto Teresa Marat-Mendes | Patrícia Bento D`Almeida | Joana Mourão Os elementos de abastecimento e distribuição de água do Almoxarifado da Ajuda, que corresponde à quinta real de maior dimensão em Lisboa (103 hectares), foram localizados no Levantamento da Planta de Lisboa, comparando a notação que adquirem nas duas fontes cartográficas complementares (ver figura 3). Esta quinta encontra-se levantada em: i) oito cartas do Levantamento da Planta de Lisboa (escala 1:1.000); ii) uma carta da Planta de Minas e Encanamentos d'Agua do Almoxarifado da Ajuda (escala 1/5.000) e iii) em parte da carta número 2 de 1901 da Carta dos Arredores de Lisboa (escala 1/20.000). Figura 4 - A quinta do Pimenta representada no Levantamento da Planta de Lisboa e na Carta dos Arredores de Lisboa. PORTUGAL. Corpo do Estado-Maior – Carta dos Arredores de Lisboa (1893-1932) (carta 6). PINTO, Júlio António Vieira da Silva; CORREIA, Alberto Sá – Levantamento da Planta de Lisboa (1904-1911) (cartas: 8O - PT/AMLSB/CMLSB/UROB-PU/05/03/152, 9O - PT/AMLSB/CMLSB/ UROB-PU/05/03/153, 8P - PT/AMLSB/CMLSB/UROB-PU/05/03/165, 9P - PT/AMLSB/CMLSB/UROB-PU/05/03/166, 8Q - PT/AMLSB/ CMLSB/UROB-PU/05/03/178 e 9Q - PT/AMLSB/CMLSB/UROB-PU/05/03/179. se encontra documentada pelas duas primeiras fontes cartográficas analisadas. Esta quinta encontra-se levantada em: i) seis cartas do Levantamento da Planta de Lisboa (escala 1/1.000) e ii) em parte da carta número 6 de 1899 da Carta dos Arredores de Lisboa (escala 1/20.000). A legenda do levantamento da Planta de Lisboa do Engenheiro Silva Pinto - Teresa Marat-Mendes | Patrícia Bento D`Almeida | Joana Mourão Enquanto na Carta dos Arredores de Lisboa a rede hidrográfica destes terrenos é apresentada como correspondendo apenas ao curso natural das duas ribeiras que ali se juntam, descendo para o Campo Grande (figura 4 - esquerda), no Levantamento da Planta de Lisboa a rede hídrica é representada na sua vertente construída pelo homem, apresentando com pormenor os canais de irrigação que atravessavam os olivais e terras lavradas (figura 4 - direita). Ainda quanto aos elementos água, a figura 5 permite identificar as localizações de tanques e poços no Levantamento da Planta de Lisboa que aparecem em maior detalhe e em maior número do que Carta dos Arredores de Lisboa. Figura 5 – Elementos de água no Levantamento da Planta de Lisboa. PINTO, Júlio António Vieira da Silva; CORREIA, Alberto Sá – Levantamento da Planta de Lisboa (1904-1911) (cartas: 8F - PT/AMLSB/CMLSB/UROB-PU/05/03/040 e 6G - PT/AMLSB/CMLSB/ UROB-PU/05/03/050). Tipos de Edifícios No que refere aos edifícios, a análise comparativa das fontes cartográficas estudadas permite-nos acrescentar algumas conclusões sobre a representação de elementos construídos no Levantamento da Planta de Lisboa representados com diferentes cores: a) os edifícios institucionais e os edifícios reais surgem preenchidos a preto; b) os edifícios de habitação aparecem coloridos a cinza escuro (ou cinza texturado quando em ruínas ou em construção); e c) os edifícios precários ou instalações industriais aparecem identificados a laranja. Os 284 telheiros, anexos aos edifícios, surgem coloridos a azul, diferenciados dos tanques por serem representados com linhas diagonais cruzadas. Os edifícios das quintas em si não apresentam nenhuma cor distinta, surgindo a cinza tal como a generalidade dos edifícios. Na Carta dos Arredores de Lisboa, pelo contrário, as quintas aparecem na sua maior parte identificadas a vermelho. 4 - Proposta de legenda parcial para o Levantamento da Planta de Lisboa A comparação do registo de cinco cultivos nas duas fontes cartográficas em análise (ver figura 2) permitiu clarificar parte da legenda do Levantamento da Planta de Lisboa, até à data desconhecida, para cinco cultivos agrícolas, a partir da sua coincidência espacial com os cultivos agrícolas registados e legendados na Carta dos Arredores de Lisboa (ver figura 6). Olival Terras Lavradas Árvores Vinhas Hortas Figura 6 - Legenda de cultivos da Carta dos Arredores de Lisboa. PORTUGAL. Corpo do Estado-Maior – Carta dos Arredores de Lisboa (1893-1932). No caso das vinhas, árvores e hortas aferiu-se a representação gráfica correspondente no Levantamento da Planta de Lisboa (ver figura 2 – imagem 1 e 2 e imagens 5 a 10). Contudo, no caso das terras lavradas, a confirmação da sua representação gráfica é mais incerta, pois o tom aguarelado, entre o amarelo e o verde claro, tanto aparece em zonas de terras lavradas, como em zonas não cultivadas identificadas na Carta dos Arredores de Lisboa (ver figura 2 – imagem 3 e 4). Terras Lavradas Árvores Vinhas Hortas Figura 7 - Proposta de legenda parcial para o Levantamento da Planta de Lisboa. PINTO, Júlio António Vieira da Silva; CORREIA, Alberto Sá – Levantamento da Planta de Lisboa (1904-1911). Esta proposta de legenda (ver figura 7) disponibiliza pistas para investigações futuras que recorram ao Levantamento da Planta de Lisboa e que se debrucem sobre os usos do solo nela registados. A correspondência entre as diferentes fontes cartográficas no que respeita aos elementos de água, contudo, não permitiu a proposta de uma legenda equivalente à apresentada para os cultivos, uma vez que estes elementos são representados no Levantamento da Planta de Lisboa com o seu real detalhe e não por um sinal convencionado. Aquedutos Aquedutos subterrâneos Mães de água Fontes Chafarizes Tanques Poços Nascentes Figura 8 - Legenda de elementos de água da Carta dos Arredores de Lisboa. PORTUGAL. Corpo do Estado-Maior – Carta dos Arredores de Lisboa (1893-1932). 285 A legenda do levantamento da Planta de Lisboa do Engenheiro Silva Pinto - Teresa Marat-Mendes | Patrícia Bento D`Almeida | Joana Mourão Olivais Conclusões Uma proposta de identificação de uma legenda parcial para o Levantamento da Planta de Lisboa foi possível de ser aqui apresentada após uma análise comparativa de três fontes cartográficas distintas. Esta análise, efectuada ao território da área metropolitana de Lisboa, em cerca de 1900, no âmbito do projecto MEMO, foi possível através do apoio de sistemas de informação geográfica. Combinando a legenda oferecida pela Carta dos Arredores de Lisboa com o elevado detalhe do Levantamento da Planta de Lisboa foi possível alcançar uma proposta de legenda parcial de cultivos. Esta comparação de cultivos entre as fontes referidas, para além de permitir propor uma legenda para o Levantamento da Planta de Lisboa, permitiu ainda verificar que em Lisboa em 1900 havia sinais de uma produção agrícola significativa, embora insuficiente para as necessidades da população41. Permitiu ainda identificar um elevado número de elementos de captação, de condução e de distribuição de água em Lisboa, que facultavam água para a rega de campos agrícolas e para consumo humano e animal. Quanto aos elementos de água, este artigo evidenciou que a sua representação é muito rica e detalhada no Levantamento da Planta de Lisboa, contudo uma eventual inventariação total destes elementos requererá sempre a consulta de fontes cartográficas complementares. Relativamente aos tipos de edifícios, a presente análise identificou a utilização de cores no Levantamento da Planta de Lisboa para a sua diferenciação, porém, uma futura categorização requer a consulta de fontes complementares. O Levantamento da Planta de Lisboa que se encontra integralmente disponível on-line no website Arquivo Municipal de Lisboa permitiu a pesquisa digital comparativa promovida pela presente investigação. A legenda do levantamento da Planta de Lisboa do Engenheiro Silva Pinto Teresa Marat-Mendes | Patrícia Bento D`Almeida | Joana Mourão Finalmente, conclui-se a validação da proposta metodológica de comparação cartográfica, seguida pela presente investigação, para um melhor conhecimento do Levantamento da Planta de Lisboa realizada por Júlio António Vieira da Silva Pinto e Alberto Sá Correia. FONTES E BIBLIOGRAFIA FONTES MANUSCRITAS Arquivo Municipal de Lisboa Parecer do Advogado Ribeiro sobre as reclamações apresentadas à Câmara Municipal de Lisboa pelo empreiteiro do levantamento da planta da cidade, Júlio António Vieira da Silva Pinto, 5 de agosto de 1913, PT/AMLSB/AL/CMLSB/ UROB-E/23, Caixa 34. Livro numero quatroze de contratos de obras da câmara Municipal de Lisboa a folhas 164, 19 de novembro de 1904, PT/ AMLSB/AL/CMLSB/UROB-E/23, Caixa 34. Minuta indicando a divisão e numeração das folhas da Planta de Lisboa, 29 de dezembro de 1903, PT/AMLSB/CMLSB/ UROB-PU/11/393. FONTES IMPRESSAS LISBOA. Câmara Municipal de – Actas da Câmara Municipal de Lisboa, Sessão de 28 de Novembro de 1907. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 1908. MARAT-MENDES, Teresa; MOURÃO, Joana; D'ALMEIDA, Patrícia Bento – Mapping Urban Agriculture. In Ata do 12th International Conference on Urban History – EAUH-2014. Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2014. 41 286 LISBOA. Câmara Municipal de – Actas da Câmara Municipal de Lisboa, Sessão de 3 de Novembro 1904. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 1905. PORTUGAL. Casa da Fazenda Real – Noticia acerca das águas que abastecem os almoxarifados das reaes propriedades, quer proprias quer nacionaes no usufructo da coroa: 1904. Lisboa: Typographia da "A Editora", 1905. Diário do Governo. Portugal: Imprensa Nacional, 3 de setembro de 1904. Nº 196. FONTES GRÁFICAS PORTUGAL. Biblioteca Nacional de – Planta de Minas e Encanamentos d’Água do Almoxarifado da Ajuda (1901), cota: cc-98-v_0001_1_p24-C-R0150. PORTUGAL. Corpo do Estado-Maior – Carta dos Arredores de Lisboa. [s.l.]: [s.n.], 1893-1932. PORTUGAL. Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria – Carta Agrícola e Estatística Agrícola Geral. Organização e Instruções. Lisboa: Imprensa Nacional, 1894. PINTO, Júlio António Vieira da Silva; CORREIA, Alberto Sá - Levantamento da Planta de Lisboa [Em linha]. Lisboa: AML, [s.d.]. PT/AMLSB/CMLSB/UROB-PU/05/03/002 a PT/AMLSB/CMLSB/UROB-PU/05/03/294. [Consult. 12.11.2014]. Disponível na internet: http://arquivomunicipal2.cm-lisboa.pt/sala/online/ui/SearchBasic.aspx. ESTUDOS LIMPO, Francisco António de Brito – Apontamentos para facilitar a leitura de Cartas Chorographicas e Topográficas. Lisboa: Imprensa Nacional, 1877. Lisboa e a sua expansão: As “Plantas” da Cidade. Revista Municipal. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa. Ano I Nº 3 (1940), p. 47-58. 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Arquivo Municipal de Lisboa UM ACERVO PARA A HISTÓRIA A evolução da ocupação arquitectónica do quarteirão com os n.os 222 a 240 da avenida da Liberdade Pedro Miguel Teixeira Fidalgo (IHC-FCSH/NOVA) Introdução A avenida da Liberdade apresenta-se, desde a sua inauguração em 1886, como a mais importante e prestigiante artéria da cidade de Lisboa, traduzindo-se esse estatuto no uso corrente do termo Avenida para abreviar a sua nomeação (fig. 1). Assim, falar-se em avenida da Liberdade ou em Avenida são alocuções com o mesmo significado, mas em que o recurso apenas ao termo que expressa a função, utilizado no segundo caso, traduz na sua essência a primazia e relevância deste espaço no imaginário nacional. Figura 1 - A Avenida em 19051. 1 - Objetivo A reconstituição da evolução da ocupação arquitetónica do quarteirão com os n.os 222 a 240 da avenida da Liberdade integra-se dentro do projeto do investigação “Dos Restauradores ao Marquês - Evolução de uma paisagem” que pretende contribuir para o conhecimento da evolução urbanística, arquitetónica e morfológica da avenida da Liberdade, num estudo transversal que considera diferentes vertentes temáticas de análise, de modo a determinar as alterações porque têm passado esta referência urbanística da cidade de Lisboa, desde a sua conceção até à atualidade. 2 - Metodologia Este estudo recorre às fontes correntes de investigação, com especial incidência na análise dos processos de obras e do acervo fotográfico do Arquivo Municipal de Lisboa, e levantamentos in loco, associados e referenciados numa base de dados. 1 Litografia “Avenida da Liberdade” por SILVA, João Ribeiro Cristino – Avenida da Liberdade. [Lisboa]: A Editora, [1905]. 289 A análise desta base de dados permite reconstituir o processo evolutivo deste quarteirão, estabelecendose para o efeito um conjunto de datas consideradas como relevantes, tendo em consideração a cartografia disponível e a história da cidade e do país. Os resultados da análise são transpostos graficamente em plantas, cortes e esquemas temáticos. 3 - Aproximação genérica Num primeiro momento, de modo a aprofundar o conhecimento sobre a evolução espacial da área em estudo e a estabelecer bases de trabalho, que servissem de suporte ao desenvolvimento e à apresentação do trabalho, foi feita uma sobreposição evolutiva de registos cartográficos efetuados em momentos diferentes (fig. 2). A evolução da ocupação arquitectónica do quarteirão com os n.os 222 e 240 da avenida da Liberdade - Pedro Miguel Teixeira Fidalgo Figura 2 - Análise evolutiva e comparativa de diferentes registos cartográficos relativos à área de implantação da Avenida. 4 - Análise focalizada O quarteirão correspondente aos n.os 222 a 240, que se apresenta como o penúltimo do lado direito, para quem sobe a Avenida, encontra-se delimitado a norte pela avenida Alexandre Herculano e a sul para rua Barata Salgueiro (figuras 3 e 4). Figura 3 - Vista do quarteirão com os n.os 222 a 240, a partir do cruzamento da avenida da Liberdade com a avenida Alexandre Herculano, em 19056. 2 Extrato de VIEIRA DA SILVA, Augusto – Planta Topográfica de Lisboa feita em 1812. Plantas Topográficas de Lisboa. Lisboa: [s.n.], 1947. 3 Extrato de FOLQUE, Filipe (dir.) – Atlas da Carta Topográfica de Lisboa: 1856-1858. Lisboa: CML/Arquivo Municipal de Lisboa, [s.d.]. 4 Extrato de VIEGAS, Inês Morais; TOJAL, Alexandre (coor.) – Levantamento da Planta de Lisboa: 1904-1911. Lisboa: DMC/Arquivo Municipal de Lisboa, 2005. 5 Extrato de PORTUGAL. Câmara Municipal de Lisboa – Planta digital da cidade de Lisboa. Lisboa: [s.n.], 2014. 6 Extrato da litografia “Avenida da Liberdade” por SILVA, João Ribeiro Cristino – op. cit. 290 Figura 4 - Planta do quarteirão com os nos. 222 a 240 da avenida da Liberdade, em 20147. A geometria deste quarteirão resulta da solução adotada pelo engenheiro Ressano Garcia na conceção do projeto de construção da Avenida e dos arruamentos envolventes. A implantação do perfil da Avenida levou, neste local utilizado então como terreno de cultivo, à execução de aterros com cerca de 3,5 metros, relativamente à cota pré-existente. Quando a Avenida foi inaugurada a área correspondente ao quarteirão encontrava-se desocupada de construções, tendo-se seguido o processo de venda e construção dos diferentes lotes em que este foi repartido. Figura 5 - Evolução da ocupação do quarteirão, entre 1886 e 1894. Apresenta a tracejado curto as delimitações dos imóveis pré-existentes e a tracejado longo o perímetro acima do solo. Base construída a partir de PORTUGAL. Câmara Municipal de Lisboa – Planta digital da cidade de Lisboa. 7 291 A evolução da ocupação arquitectónica do quarteirão com os n.os 222 e 240 da avenida da Liberdade - Pedro Miguel Teixeira Fidalgo A partir da análise dos processos de obra, e de um conjunto de fotografias pertencentes ao Arquivo Municipal de Lisboa, foi possível reconstituir a evolução da sua ocupação entre 1886 e 1894 (fig. 5), assim como a evolução da ocupação e dos alçados para os anos de 1910, 1940, 1974, 2000, e 2014 (figuras 6 e 7). A evolução da ocupação arquitectónica do quarteirão com os n.os 222 e 240 da avenida da Liberdade - Pedro Miguel Teixeira Fidalgo Figura 6 - Evolução da ocupação e dos alçados do quarteirão, entre 1910 e 2014. Figura 7 - Comparação entre os alçados existentes em 1910 e 2014. 292 Este estudo comparou também a evolução das áreas brutas de construção de cada imóvel deste quarteirão, entre 1910 e 2014, mostrando que estas passaram, no total do seu conjunto, de 25.010m2 para 44.721m2 respetivamente, correspondendo a um aumento de 78,8% (fig. 8). Figura 8 - Distribuição comparativa das áreas de construção dos diferentes imóveis, entre 1910 e 2014. Figura 9 - Ocupação funcional dos diferentes imóveis em 201410. 8 Por exemplo, o nº. 222 apresenta o seu rés-do-chão ocupado com um consultório médico, integrado no grupo “escritórios”, e o piso -2 com “comércio”. 9 Nos. 222, 224, 230 e 240. A 6 de novembro de 2014. Para os imóveis que se encontram em obras de remodelação total foi considerado o seu estado e nº. de pisos antes destas intervenções. 10 293 A evolução da ocupação arquitectónica do quarteirão com os n.os 222 e 240 da avenida da Liberdade - Pedro Miguel Teixeira Fidalgo Originalmente, todos os imóveis foram destinados a habitação. No entanto, ao longo dos anos, muitos das frações viram o seu uso funcional alterado8 e os edificios que vieram ocupar o lugar dos imóveis demolidos9 foram priojetados para usos diferentes. De modo a avaliar a grandeza destas alterações, foi feito um levantamento à distribuição das principais utilizações, para este quarteirão (fig. 9). A confrontação dos valores dados pelos gráficos das figuras 8 e 9, relativamente a 2014, permite estimar as áreas brutas de ocupação para as principais utilizações, sintetisadas na seguinte tabela: Utilização Área % (sobre 44.721m2) Sem ocupação Estacionamento 8.40418.79 Habitação 2.126 4.75 Comércio 885 1.98 Escritórios 9.78721.88 Banca 7.98317.85 15.53634.74 Conclusões A análise a este quarteirão permite destacar que dos 9 imóveis existentes em 1910: • 2 foram totalmente demolidos11; • 4 foram parcialmente demolidos, subsistindo apenas os seus alçados12; • 2 encontram-se em obras de renovação total13; • Existe 1 devoluto que se encontra classificado como Imóvel de Interesse Público14; • 2 encontram-se habitados, vivendo neles cerca de 12 pessoas15. A evolução da ocupação arquitectónica do quarteirão com os n.os 222 e 240 da avenida da Liberdade - Pedro Miguel Teixeira Fidalgo De referir ainda que ao imóvel que substituiu o edifício que ocupou originalmente o lote com o nº 222, foi atribuído em 1988, por unanimidade, o Prémio Valmor. Em continuidade, foi possível determinar que: • A evolução da área bruta de construção deste quarteirão, entre 1910 e 2014, teve um incremento de 78,8%. • Quase 35% da área de contrução existente não tem uso definido, encontrando-se em obras reconstrução ou simplesmente devoluta. • A área de estacionamento ocupa quase 19% do espaço total construido, localizando-se quase na sua totalidade ao nivel do sub-solo16. • A área utilizada com habitação, limita-se atualmente a menos de 5% da área construida. • O setor terciário ocupa quase 40% da área de construção existente. 11 Nos. 222 e 230. 12 Nos. 224, 236 (em fase final de obra), 238 (em fase inicial de obra) e 240. 13 Nos. 236 (em fase final de obra) e 238 (em fase inicial de obra). 14 Nos. 226-228, conhecido por palacete Conceição Silva. Contagem efetuada pelo autor em 6 de novembro de 2014. No no. 222 - Cave Direita: 1 residente; no 2º Andar Direito: 2 residentes. No nº. 234 - Cave: 1 residente; no 1º Piso: 2 residentes; no 2º Piso: 1 residente; no 3º Piso: 2 residentes; no 5º Piso: 1 residente; e no 6º Piso: 2 residentes. 15 16 As exceções referem-se às áreas das acessibilidades, necessárias à transição do nível da rua para os níveis inferiores. 294 FONTES E BIBLIOGRAFIA FONTES Arquivo Municipal de Lisboa Estudos de Conjunto da Avenida da Liberdade e Imediações - Relatório, 3ª. Repartição - Arquitectura, 28-11-1958, PT/ AMLSB/CMLSB/UROB-PU/10/439. Obra nº 6880. Obra nº 12362. Obra nº 17817. Obra nº 18896. Obra nº 23321. Obra nº 58881. Obra no 61276. Obra nº 62957. FONTES ICONOGRÁFICAS Alberto Carlos Lima, Avenida da Liberdade, início séc. XX, PT/AMLSB/LIM/000933. Alberto Carlos Lima, Carnaval, carro alegórico à negociata dos tabacos, 1906, PT/AMLSB/LIM/001881. António Novais, Efeitos de uma granada num edifício na avenida da Liberdade, que acabou por se incendiar, [s.d. (1910)], PT/AMLSB/ANV/000840. 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Lisboa: Typographia Universal, 1886. 295 A evolução da ocupação arquitectónica do quarteirão com os n.os 222 e 240 da avenida da Liberdade - Pedro Miguel Teixeira Fidalgo José Chaves Cruz, Coreto, inaugurado em 15 de Agosto de 1894, risco de José Luís Monteiro, [19--], PT/AMLSB/ PAES, Miguel Carlos Correia – Melhoramentos de Lisboa: Engrandecimento da Avenida da Liberdade. Lisboa: Typographia Universal, 1885. PINHEIRO, Magda – Biografia de Lisboa. Lisboa: Esfera dos livros, 2011. PORTUGAL. Arquivo Municipal de Lisboa – Do Passeio à Avenida: os Originais do Arquivo Municipal de Lisboa (Catálogo). Lisboa: CML/Divisão de Arquivos, 1988. PORTUGAL. Associação dos Arquitectos Portugueses – Guia Urbanístico e Arquitectónico de Lisboa. Lisboa: [s.n.], 1987. PORTUGAL. Câmara Municipal de Lisboa – Planta digital da cidade de Lisboa. Lisboa: [s.n.], 2014. PORTUGAL. Câmara Municipal de Lisboa (ed.) – Do passeio à Avenida: os originais do Arquivo Municipal de Lisboa. Lisboa: CML, 1998. PORTUGAL. 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