eboo E-book Rose O Rosa Rose ou Rosa Zé Gertrudes 1 Índice 03.....Agradecimento 05.....Rose ou Rosa 22.....A Rosa germinando 34.....O aflorar da Rosa 40.....O Circo 91.....O Teatro 153.....Rosa no vaso 169.....Os espinhos da Rosa 2 Agradecimento Por volta dos meus cinco anos, ainda sem ter consciência das atitudes tanto minhas como alheias presenciei simples atos que marcariam meu modo de observar o mundo pra sempre. Foi nesta fase da infância que tive minha primeira experiência com o amor, é evidente que platônico e por uma menina que se chamava Rose. Era tão venerada pela beleza que enxergava nela, mas ao mesmo tempo extremamente distante, pois nunca fui capaz de lhe dirigir uma simples palavra. Minha avó materna, Maria Gertrudes de quem surrupiei o sobrenome tomava conta de mim mais quatro irmãos para que meus pais pudessem trabalhar, pois a situação financeira era complicada para o jovem casal de operários. Lembro-me como se fosse hoje, apesar de ter apenas cinco anos. Morávamos na zona leste, periferia de São Paulo. Segurando-me pela mão, minha avó levou-me a um lixão numa das indústrias Francisco Matarazzo que manufaturava vários produtos. Ainda vem-me a imagem com muita clareza, ela removendo entre detritos as sobras de panos que guardava numa sacola de 3 feira. Já em casa, improvisava um fogão a lenha com tijolos em seu quintal, em uma lata de tinta vazia, destas de dezoito litros colocava os restos de panos para ferver, enxaguava-os e voltava ao fogo com água, mas desta vez colocava corante azul e em outros vermelhos. Depois de secos os retalhos eram cortados em quadrados. E sentava na sua velha maquina de costura, onde era transformado em camisas e bermudas o tecido mais fino de espessura, com o grosso fazia colcha de retalhos que nos aquecia no inverno. Alem desta brilhante dedicação aos netos, minha avó ficou viúva com oito filhos para criar e posso afirmar com orgulho que estes oito filhos tornaram-se pessoas dignas. Por estes motivos agradeço a todas as mulheres que fizeram parte da minha vida mesmo que minusculamente, e por que não dizer das mulheres que farão ao ler este modesto romance que tento embrenhar-me ao universo feminino tão fascinante e rico de detalhes. Sensíveis detalhes, mas que foram determinantes para o melhoramento da espécie como um todo. Gostaria de presenteá-las com flores se fosse possível, evidentemente o numero é assustador porem decidi colocar em meus personagens femininos nome de algumas flores e assim homenageá-las de forma coletiva. 4 Rose ou Rosa Júlio conheceu Rose ainda na infância por volta dos dez anos quando sua família mudou-se para a mesma rua que morava Rose. Na pequena cidade de Esperança do Sul, a primeira vez que Júlio viu Rose brincava de amarelinha na calçada com suas amigas; ela usava um vestido, cor de rosa com manchas brancas. Então Julio entusiasmado com que vira gritou. _Oi Rosa. Mais que rosa Tão linda! A menina se enfurecia pelo que ouvia e retrucava berrando mais alto ainda. _Meu nome não é Rosa, é Rose. Seu moleque imbecil. As amigas riram deliciosamente de Júlio que de agora em diante era simplesmente imbecil. Quando elas o encontravam nas ruas da cidade, na escola, nas festas, na sorveteria, agora gritavam todas em coro. _Oi Júlio. Moleque imbecil! 5 Júlio por sua vez não perdia a oportunidade de dizer o que sentia e também gritava, podia estar onde fosse. _Você é a rosa mais linda que já vi nesse imenso jardim que é mundo! Ela sempre retrucava na mesma altura da voz. _Meu nome não é Rosa. Moleque imbecil. E o Júlio sabia a que caminhos percorrer, salientou docemente. _Para mim sempre será Rosa, pode ate o rio correr para cima. Sempre será uma rosa. Na pequena cidade de Esperança do Sul passa um pequeno rio que corta a cidade ao meio, com o nome de rio dos Amores. Recebeu esse nome por folclore dos moradores que passavam de gerações a gerações. Diziam, que ha muitos e muitos anos atrás um jovem rapaz pobre amarrou-se a uma grande pedra e se jogou dentro do rio, após saber que sua namorada casaria com outro rapaz, filho de um grande fazendeiro da região. 6 Na cidade também havia varias pontes de madeiras. E namorar sobre as pontes era o que mais gostavam de fazer os adolescentes. Debaixo das pontes o rio dos Amores corre lentamente e junto com as águas passam os anos rapidamente. Júlio já estava com dezoito anos no final do colegial. Não gritava mais como antigamente. Talvez por vergonha muito comum nessa idade da voz que começa a engrossar feito homem (que não parece ser sua), e nem as espinhas que insistiam aparecer em seu rosto. Mas, não deixava de dizer o que sentia seu nobre coração, quando encontrava com Rose, no colégio, nas discotecas, no cinema, nos banhos de lagoa que o rio formou por capricho da mãe natureza. Um belo dia Júlio resolveu, estava decidido a falar. Os dois se encontraram sem amigos em companhia na fila do cinema. _Como você está linda hoje Rosa! Será porque está sempre de braços dados com beleza? A jovem realmente estava mais atrativa para ele na sua adolescência. Rose desfilava com um jeans desbotado e justo que denotava sua silhueta, do quadril até o perfeito tornozelo, uma pequena blusa rosa que deixava o umbigo angelical 7 exposto ao martírio de Julio. Respondeu de maneira mais doce do que educada. _Garoto você é mesmo um imbecil muito grande. Estou cansada de falar pra você que o meu nome não é Rosa, é Rose. Neste exato momento inoportuno apareceu como que do nada Margarida, uma amiga da Rose e invadiu o começo daquele que poderia ser o primeiro dialogo entre Julio e Rose. E se explicou à amiga. _Oi Rose. Quase que cheguei atrasada, desculpe-me tive que passar ao banco para retirar dinheiro. A jovem Rose quando cumprimentava a amiga, olhou fixamente por um determinado tempo para Júlio. E jogou uma frase no ar. _Nenhum problema. Eu estava conversando com um mosquito que passou por aqui. Neste momento Júlio abriu um sorriso do tamanho do mundo. E com os braços abertos, bateu como asas parecendo um inseto gigante, e quase saiu voando de verdade quando viu um sutil sorriso, mas, sincero sorriso sair daquela 8 boca bem desenhada de Rose, acompanhada dos seus lábios carnudos e brilhantes do batom rosa. Como o rio dos Amores que passa lentamente sob a ponte, os anos passaram docemente e Julio e Rose namoraram bons anos sobre a ponte, onde todos os jovens da pequena cidade de Nossa Senhora da Esperança do Sul gostavam de se beijarem. A jovem Rose cursava o segundo ano de direito na cidade vizinha de Nossa senhora da Santa Fé do Sul, que era bem maior. Santa Fé ficava quarenta e três quilômetros de distancia e tinha duas universidades. O jovem Júlio cursava o segundo ano de educação física em outra universidade da mesma, Santa Fé do Sul. O Jovem casal de universitários tinha sonhos de felicidade. Faziam planos entusiasmados que quando se formassem, casar-se-iam. Rose era sempre a mais entusiasmada em seus sonhos e comentava com as amigas, com delírio. _Ah! Eu fecho os olhos e posso ver igreja de Nossa Senhora da Esperança do Sul lotada de convidados, todas as fileiras dos bancos enfeitadas com gérberas de varias cores. Intercalado com copos de leite brancos, que é para combinar com o vestido. Nas mãos um 9 buquê de rosas vermelhas para não esquecer que o Julio me chama de Rosa e também foi à primeira palavra que ele me disse quando éramos pequenos e inocentes. Por outro lado Júlio era mais modesto em seus sonhos, somente para Rose dizia do seu objetivo maior e inerente a ele talvez. _A única coisa que desejo neste mundo, é ter uma filha de olhos verdes como os meus, para poder colocar o nome de Rosa e assim parar de te chamar de Rosa. Ouviu minha doce e venerável Rose! Julio estudava no período da noite e durante o dia trabalhava com seu pai na loja de autopeças. Onde cuidava do estoque, das vendas, das compras e apenas a parte financeira ficava de responsabilidade do pai. Senhor Álvaro quem efetuava todos os pagamentos. Seu Álvaro, um homem, magro, alto, honestíssimo de dar inveja, no rosto desenhado de rugas pelo trabalho árduo de trinta anos, no pequeno negocio de autopeças que lhe proporcionava uma vida estável. Pagava a mensalidade da faculdade do filho e comprou-lhe um automóvel popular, mas exigia que o Julio trabalhasse e descontava todo mês as mensalidades do carro e da faculdade. E todo 10 mês na hora de efetuar o pagamento do filho sempre repetia o sermão. _Eu me sinto muito triste em fazer estes descontos, filho. Mas há de chegar um dia que me agradecerá, por ter lhe ensinado como é difícil ganhar para poder gastá-lo com inteligência. Alias se o senhor tivesse fazendo administração não precisaria me preocupar com esses detalhes. A família de seu Álvaro era pequena, constituída apenas pela sua mulher, a dona Hortência e um único filho, o Julio. Família de hábitos simples como toda família de cidade pequena do interior. Quando havia baile social no clube quase todas as famílias estavam lá, iam também todos os sábados a praça da matriz ouvir a banda no coreto. No verão tomavam banho nas praias que nas margens do rio dos amores se formavam. A missa de domingo de manhã era tão sagrada como a homilia do padre Vitório. Homem de muito respeito na cidade por suas sabias palavras. Eis aqui um pequeno trecho de um destes domingos de eucaristia na igreja de Nossa Senhora da Esperança do Sul que ficava no alto de uma pequena colina. _ Meus filhos desta modesta paróquia. Quando olhamos no espelho e algo em nossa 11 face, como espinhas, acnes, rugas que nos entristecem, ou os cabelos, como o corte, a cor, o brilho, que não nos agradam. Transferimos estas insatisfações de maneiras involuntárias e agressivas às pessoas mais próximas e ate aquelas que mais amamos. Os pequenos problemas do cotidiano sofrem uma ligeira mutação. Tornam-se maiores do que realmente aparenta ser. O que talvez neste aspecto seja mais interessante, (caros irmãos) é que o contrario também tudo pode acontecer. Quando há um excesso de problemas no cotidiano ao nos defrontarmos com o espelho, a imagem que pré-concebemos não é aquela que se refletem. Uma imagem holográfica constituída pelo cérebro, irreal e de baixa estima. Ela não condiz com o real. Nesta situação de extrema complexidade entram em ação instintivamente, a fé e a esperança. (Evidentemente só para aqueles que as possui). Nós somos regados pela genuína fé dos homens e a esperança instintiva de que tudo estará bem melhor amanhã. A tempestade irá passar como o vento irá diminuir e fogo a de se apagar. Por outro lado, fica evidente que quem nasce desprovido de fé e esperança padece no paraíso. Indefesos irmãos, irmãos desprovidos acabam cometendo monstruosas insanidades. Agem com 12 brutalidade, começam a roubar, muitos se suicidam, seqüestram pessoas e assassinam os próprios irmãos. Padre Vitório deu gole no cálice de água que estava sobre o altar, respirou profundamente e prosseguiu. _Por este gigantesco motivo, (meus filhos) é que fui estudar teologia. E hoje estou aqui nesta paróquia, como um simples padre. O honroso trabalho dos padres perante a comunidade é de tentar levar a fé e esperança aos irmãos que nasceram sem elas. Quais os motivos, e o porquê que alguns desfavorecidos não os têm? Não sabemos. E acredito profundamente que ninguém aqui nesta igreja ou neste mundo saiba. Por este outro grande motivo. (meus irmãos privilegiados) Vamos agradecer a nossa Senhora Boa Fé em Deus e a sagrada nossa Senhora da Esperança. O trabalho do padre Vitório na comunidade de fato não ficava só na missa dominical, ele de fato fazia pesquisas entre os católicos mais fervorosos e assim descobria as famílias do rebanho que mais necessitavam de ajuda, de conselhos e palavras de esperança. Encontrava trabalhos alternativos para aqueles que estavam 13 desempregados, conseguia alimento para os que passavam por problemas financeiros, com sua influência também conseguia remédios e vagas em hospitais e postos de saúde aos enfermos. Por este trabalho brilhante é que os habitantes de Nossa Senhora da Esperança do Sul o respeitavam. Por onde padre Vitório passasse todos queriam cumprimentá-lo e beijar sua mão querendo sua sagrada benção. Padre Vitório num futuro não muito distante passaria a ser muito mais importante do que já o era, a simples família de seu Álvaro e por não dizer também importante no relacionamento de Julio e Rose. Em certo dia da semana, no meio do expediente na loja de autopeças, Julio trabalhava em sua mesa e relatava ao seu pai sobre a lista de compras. Salientou que algumas peças houve uma saída inesperada e que deveria efetuar uma compra acima do normal. Ainda fez uma observação para que ficasse ciente e a surpresa do excesso não lhe causasse susto na hora da fatura. A mesa de seu Álvaro ficava ao lado da mesa do filho, numa pequena sala com apenas um banheiro minúsculo, um ventilador fixado na parede, um bebedouro. Sobre a mesa de seu Álvaro um calhamaço de notas promissórias e com uma calculadora somava os valores dos 14 cheques que deveria preencher, para cada fornecedor das compras anteriores. Julio depois que informou ao pai todas suas decisões que são de suas responsabilidades no trabalho, informou seu Álvaro para que ele pudesse dar seu parecer sobre outra decisão, agora no campo pessoal. Julio olhava para ventilador que girava quando falou. _ Pai. Pretendo casar-me o ano que vem. Deu uma suave pausa para engolir a saliva e continuou. _O que o senhor acha a respeito? Seu Álvaro olhou para o filho de modo reflexivo por alguns segundos. Levantou e caminhou ate o bebedouro pegou um copo descartável no suporte, encheu-o e deu um pequeno gole. No retorno a sua mesa, deu o seu primeiro parecer. _ Acho que o casamento é uma das decisões mais importantes na vida de um homem. Há muito que pensar antes de decidir. Sentou-se em sua cadeira bem lentamente como se refletisse sobre o assunto, e já sentado 15 deu mais um gole no copo de água. Olhando fixamente para o Julio, continuou. _Casamento é quando decidimos com quem vamos dividir todas as coisas da nossa vida. Seja no campo material ou na atmosfera espiritual. Eu acredito que o relacionamento perfeito é o equilíbrio destes dois fatores. Julio gostava de conversar com seu pai. As suas opiniões sempre lhe deram bons resultados e o dialogo fluía de maneira pacifica, pois havia um entendimento profundo entre eles, com poucos confrontos no decorrer destes anos todos. Talvez porque seu Álvaro não impunha seu idealismo conservador. Mesmo com toda autoridade estava sempre aberto ao debate para que nunca existisse entre eles um abismo, o que ocorre entre a maioria das relações entre pais e filhos. Seu Álvaro pigarreou como tentasse desobstruir as vias aéreas e complementou, desta vez enaltecendo seu filho. _Penso que a decisão final é só sua e da sua futura esposa. O que eu tenho pra lhe dizer não é nenhuma novidade, não é primeira vez que lhe digo sobre seu caráter que tanto me dá orgulho, alem do que você já é um homem, é ate então tem assumido suas responsabilidades, e agiu 16 como deve agir um homem de verdade. No mais, desejo a você e a Rose toda felicidade do mundo. Agora levanta logo daí, e me dá um abraço, rapaz! Pai e filho se abraçaram no centro da pequena sala de trabalho; lugar pequeno que dividiram nos últimos oito anos de trabalho duro. Lugar minúsculo, mas que fizeram ótimos negócios e que lhes deram um padrão de vida razoável. Lugar minúsculo, mas que vai alem do sagrado para esta simples família, mas honesta em todas as situações, gente integra como a muito não se vê por ai. Há poucos meses para ambos terminarem seus respectivos cursos na faculdade, a programação da comissão de formatura para arrecadarem fundos estavam todas em andamentos, também as cerimônias com horas e datas marcadas e o local determinado; seria no clube esportivo de Santa Fé do Sul. Rose por sua vez fazia estagio no departamento jurídico da câmara dos vereadores de Esperança do Sul. Foi justamente numa quarta feira que por compromissos com o estagio, Rose não pode ir à faculdade com Júlio. Rotineiramente Rose pegava uma carona com ele, nos últimos dois anos após 17 ter ganhado seu carro. Julio ate brincou ao telefone quando se falaram, dizendo. _Quer dizer que o nosso motelzinho de final de noite fica pra amanhã? Rose sorria na voz quando respondeu ao apelo de Julio. _Júlio, você é um insaciável. Ate parece que tudo que fizemos ontem foi tão ruim. Ele discorda e com prazer sussurrou ao aparelho eletrônico. _Não! Se o que fizemos ontem foi ruim, o que esta por vir pode me matar de loucura! A jovem mulher se despediu, como se despindo com uma voz extremamente sensual. _Prometo fazer melhor amanhã. Seu louco e insaciável. Beijos, mil beijos. Tchau. Talvez o que de mais puro aconteça no transcorrer da vida, sejam as coincidências. Buscamos inegavelmente explicações, porque elas ocorrem. As coincidências vivem nos perseguindo como sombras escuras e misteriosas de nós mesmos. A única certeza que temos: é que elas unem fatos a outros fatos, unem pessoas a 18 outras pessoas e fatos a pessoas; como um elo divino dentro das regras metafísicas do existir como um todo. Ficamos extasiados e surpresos diante das coincidências que nos afloram como bombas da verdade, neste mundo de pequenos detalhes que se tornam excessivamente importantes em nossas vidas. O acumulo de coincidências no decorrer de nossa existência, nos leva a crer que existam uns mundos transcendentais, onipotentes e onipresentes; que nos direcionam por caminhos sem que percebamos e apenas pressentimos, através das coincidências. Coincidentemente ou não, naquela quartafeira Rose não pode ir à faculdade com Júlio, como normalmente fazia. Por excesso de trabalho no gabinete onde fazia seu estagio, na câmara municipal de Esperança do Sul. Era época de eleição e o furor dos políticos estava a todo vapor para as campanhas partidárias. Júlio participou de todas as suas aulas normalmente naquela noite, que excepcionalmente chovia forte em toda região. Após o termino das aulas, decidiu passar em um bar com alguns amigos, ate que a chuva desce uma trégua e pudesse assim fazer seu caminho 19 com mais segurança pela estrada que liga Santa Fé a Esperança do Sul. Por telefone avisou os familiares e Rose, para que ninguém ficasse preocupado com seu atraso. Já se passavam da meia noite quando viu as horas e notou que a chuva não havia diminuído. Recebeu alguns convites de amigos que moravam em Santa Fé para dormir por lá, mas recusou. Talvez para não demonstrar insegurança e medo diante do machismo comum entre homens dessa faixa de idade. Assim que despediu dos amigos, subiu em seu carro fugindo da chuva que era torrencial, porem quando pegou a estrada por coincidência a chuva diminuiu para uma garoa fina o que deu mais segurança para terminar seu percurso acelerando um pouco mais o veiculo. Quase chagando na entrada de Esperança do Sul. Um lugar com poucas construções. E com aquela chuva que caiu e altas horas da madrugada, o lugar não tinha uma viva alma. Apenas um cachorro que cruzou na frente do automóvel quando Julio se preparava para subir sobre uma das pontes do rio dos amores. Na tentativa de frear para não atropelar o cachorro, o carro derrapou no asfalto molhado. Júlio perdendo a direção do veiculo que caiu dentro rio que estava transbordando, efeito das chuvas fortíssimas. 20 Júlio e seu carro desapareceram em segundos arrastados pelas águas do rio, sem deixar vestígios. Apenas o cachorro presenciou a triste cena. Ate hoje, ninguém em Nossa senhora da Esperança do Sul e Nossa Senhora da Santa Fé do Sul sabem o paradeiro do jovem Júlio e muito menos do seu automóvel, que o Rio dos Amores os tragou. 21 A Rosa germinando Depois do desaparecimento repentino de Júlio a tristeza carregada de mistérios invadiu a cidade de Esperança do sul, como a muito não se via. Como um enorme terremoto emocional que comoveu a todos. Onde quer que fosse o comentário era sempre o mesmo. Entre os mais adultos, os jovens e também as crianças, nos bares, praças, na igreja, o sumiço do jovem Júlio e seu carro. Como não podia deixar de acontecer, Rose ficou excessivamente abalada, ela era uma das pessoas que fazia parte da vida do jovem, e sentia profundamente a falta dele, pois já namoravam há quase cinco anos e pretendiam ficar noivos em breve. Mas, pra piorar o inesperado aconteceu. Rose estava grávida. Os fatos se complicaram porque o suposto pai daquela criança que era gerada em seu ventre materno desaparecera misteriosamente, sem deixar nenhum rastro ou um pequeno bilhete. 22 Não haveria a cerimônia de casamento tão sonhada. Alias tudo fora planejado em sua cabeça e pensar que a igreja não mais seria enfeitada de flores, e que não mais entraria com seu vestido branco de véu e grinalda, e a calda arrastando entre os bancos ocupados por amigos e parentes, gente importante da cidade ao som da marcha nupcial. Tudo caiu como uma bomba em sua cabeça. Primeiramente, Rose tomou a decisão mais acertada, pois era equilibrada nas atitudes e também uma jovem de personalidade invejável. Procurou sua mãe, dona Adália e lhe confidenciou. Pois, algumas amigas sugestionaram que o melhor era abortar a gravidez, deram até endereços e telefones de médicos para esta finalidade em Santa Fé do sul. Rose indiscutivelmente herdou os genes de dona Adália. Uma mulher de muito equilíbrio na hora de tomar decisões importantes. Também era consultada com freqüência pelo marido. Senhor Nestor nem é sombra daqueles homens machistas que se encontram no interior. Rose pretendia contar com o apoio de dona Adália para comunicar a gravidez ao pai. Seu Nestor que sempre sonhou entrando com a filha na igreja, 23 levando a ate o altar. Seria uma imensa decepção. Seu Nestor não era machista. Porem, um homem muito conservador e excessivo nas diretrizes da bíblia. Respeitado em toda cidade porque ocupava o cargo de vereador na câmara municipal de Nossa Senhora de Esperança do Sul. Seu Nestor era descendente de italianos e tinha muitos inimigos, na maioria políticos corruptos ou empresários querendo alguma vantagem nos projetos a ser aprovado na câmara. Os inimigos só surgiam porque seu Nestor sempre foi muito honesto em todos os seus mandatos, mas não sabia o significado da palavra nepotismo. Certa noite após o jantar na casa confortável da família de seu Nestor a televisão ligada o telejornal consumia por inteira sua atenção. Rose conferia o canhoto do talão de cheques quando pela primeira vez sentiu enjôo e saiu correndo para o banheiro. Havia passado setenta dias após o desaparecimento do seu futuro noivo e por nenhum momento parou para pensar nesta hipótese de estar grávida. Quando os enjôos se repetiram, uma de suas amigas indicou o teste de gravidez e assim se confirmou. Contar para sua mãe parecia algo difícil, mas para seu pai era totalmente impossível de imaginar. Mas, teria que 24 enfrentar e precisava do apoio de sua mãe e assim mesmo parecendo intransponível deu um passo de cada vez. Um belo dia Rose convidou sua mãe para um almoço em um dos poucos restaurantes da cidade. Pensou que só assim estando num lugar neutro poderia ter mais sucesso para enfrentar o problema. Era um dia bem diferente e agradável ao mesmo tempo, não muito quente e um leve vento fresco vinha do leste e mantinha a temperatura amena. Depois do almoço a sobremesa foi servida e foi durante a guloseima que Rose resolveu dizer a sua mãe. _Mamãe. Estou grávida. Dona Adália apesar de estar tomando um delicioso sorvete de chocolate engoliu a seco, depois deste depoimento sem rodeios de sua filha. Depois que se refez da surpresa conseguiu fazer uma pergunta, como que não querendo acreditar no que tinha ouvido. _Você deve estar brincando. Não é minha filha? 25 Rose olhou bem nos olhos de sua mãe quando respondeu e dos seus olhos as lagrimas brotaram como cachoeira. _Bem que eu gostaria que fosse uma grande brincadeira, tudo que tenho vivido nestes últimos meses, mamãe... Eu ate pensei em tomar decisões precipitadas em relação ao bebê... Olha o tamanho do meu dilema e o desespero que me encontro... Eu preciso de você mamãe... É um momento muito delicado da minha vida e não conseguirei se você não estiver do meu lado. Sua mãe segurou suas mãos enquanto Rose soluçava com a cabeça abaixada. Mas, ela havia conseguido vencer a primeira barreira e o choro apenas indicava o alivio que tanto te pressionara após o resultado de positivo do exame de gravidez. _Parabéns! Minha linda menina vai ser mãe. Era isto que você gostaria que eu lhe dissesse... Eu sei que vai ser difícil, mas estarei sempre do seu lado... Vamos ter que enfrentar seu pai... Você sabe que ele é duro nestas questões... Mas, água mole em pedra dura tanto bate ate que fura... Vamos à guerra... Primeiramente, temos urgência em procurar um bom medico para ver 26 como anda a saúde desta pobre criança órfã de pai, mas não de avós. _Obrigado. Mamãe. Eu te amo. Como havia previsto dona Adália, seu Nestor para aquela circunstância manteve-se duro e não dirigia a palavra para a filha como antes ate que criança nasceu forte e com saúde. Ao olhar pela primeira vez aqueles pequenos olhos verdes da frágil criança seu coração amoleceu ate demais, como todos os avos que conheço. Rose colocou o nome do bebê de Rosa, pois era este o nome que Júlio desejava que fosse. E assim Rosa cresceu como todas as crianças de Esperança do Sul. Brincava nas praias do rio dos amores no verão, nas praças em cima do coreto, nas ruas jogando amarelinha, é ate nas missas de domingo. Porem, o estigma de ser filha do jovem que desapareceu, o acompanhou por toda sua agitada infância. Rosa gostava muito de ler e ir à biblioteca municipal era quase que um ritual semanal, e por muitas vezes poderia vê-la sentada folheando seus livros nas ruas e praças. Enquanto as outras meninas da mesma idade que Rosa viviam comentando a respeito de namorados, e 27 falavam que esteve sobre a ponte do rio beijando ou no cinema namorando, ela gostava de comentar sobre os livros que havia lido. Seus comentários estiveram sempre acima do nível da idade e nos professores e amigos mais velhos é que encontrava respaldo de intelecto para a sua síntese. Outro fato muito comentado entre os adolescentes era que ninguém ate o presente momento vira Rosa beijando ou de namorinho com alguém. Todos que tentaram tiveram sempre o mesmo não como resposta, de maneira educada. Por estas atitudes, Rosa colecionava muitos amigos e admiradores, mas nenhum jovem o atraia de modo profundo. Quando Rosa estava com mais ou menos cinco anos do seu começo de vida, teve sua primeira decepção. Foi obrigada a dividir toda atenção que recebia da mãe com o namorado com que estava tendo um relacionamento. Em poucos meses ele também se tornaria seu padrasto o que se agravaria. Frederico Soares, mais conhecido como Fred em toda redondeza era vereador e filho de Tobias Soares sobrinho. Foi prefeito de Nossa Esperança do Sul por vários mandatos. Senhor Tobias como todos os políticos experientes sabia 28 de olhos fechados, todos os caminhos para administrar politicamente um município. Em quatro mandatos como prefeito conseguiu multiplicar varias vezes seu patrimônio, graças às trocas de favores políticos. Por muitos anos sua assinatura tinha um valor assustador a ser cobrada, e somada a isso a propina que transbordavam pelos corredores do executivo e legislativo. Fred se diplomara em bacharel como Rose, e recebeu do pai os ensinamentos de como funcionava a política local. A formação acadêmica o colocava a frente de muitos que ocupavam cadeiras na câmara, a grande maioria não terminou se quer o ensino médio. Como quem em terra de cego, quem tem um olho é rei, Fred em pouco tempo tornou-se um líder assumindo a presidência da câmara de vereadores de Esperança do Sul. Fred como filho único cresceu em meio a mordomias, teve babas, todos os brinquedos modernos, bicicletas, depois motos e carros esportivos. Na cidade todos os chamavam de playboy de poucos amigos, devido à insignificância que tratava os demais sem poder aquisitivo. 29 O rio dos amores corria lentamente sob as pontes de Nossa senhora da Boa Esperança do Sul e os anos passaram rapidamente por lá. Rosa já estava com dezoito anos e cursava o primeiro ano de jornalismo na faculdade em Santa Fé do Sul. A sua mãe Rose e os avos por nenhum momento tiveram nenhum tipo de problema com os modos de Rosa. Isto lhes enchiam de orgulho. Eram somente elogios que recebiam dos amigos, professores. Porem, Rosa não gostava como seu padrasto a olhava na ausência de sua mãe. Tinha como objetivo ocular sua silhueta que começava a se modelar. Os seios apareceram de repente e o quadril cresceu nas laterais. Estes olhares se deram inicio por volta dos treze anos de Rosa. Este era um dos motivos para Rosa não ter afinidades com Fred. Quando ele disse que lhe daria um carro quando completasse dezoito anos, Rosa rejeitou o presente. Desconfiada, pensou que o carro seria o queijo da ratoeira. Por nenhum momento abaixou a guarda, pois não acreditava no caráter do marido de sua mãe. Quando criança já havia rejeitado todos os brinquedos que vinha da parte dele. Tinha convicção tratar-se de um adulto querendo comprar a confiança e o carisma de uma criança com bugigangas. Os brinquedos 30 eram depositados num canto da garagem do sobrado onde moravam. E por ela mesmo. O muro do relacionamento realmente ficou alto entre o padrasto e a enteada. Não existia dialogo entre eles. Quantas e quantas vezes, esta complicada situação foi motivo de discussão entre sua mãe e Fred. Uma vez Rosa ouviu uma destas discussões. Fred dizia que Rosa necessitava de uma terapia psicológica. _A perda do pai, sem duvidas nenhuma, afetara seriamente esta menina. Este comentário enfureceu ainda mais Rosa. Por estes motivos quando estava em casa não abandonava seu quarto e seus livros, quando cansava preferia as ruas que a sala de casa. Rosa também tinha como habito andar a pé pelas trilhas que margeavam o rio dos amores, onde a mata preservada de manancial resistia bravamente à especulação imobiliária. Em uma bela manha, Rosa voltava de uma destas caminhadas, tranqüilamente pensando sobre os capítulos lidos do livro. De repente presenciou uma cena que marcaria em definitivo sua repugnância a Fred. Percebeu que Fred estacionou seu carro antes de chegar à parte 31 urbana da cidade, e do seu carro desceu uma das secretarias da câmara de vereadores. Seria simplesmente uma carona. Tudo normal. Pensou ela. Porem na despedida um longo beijo foi dado. Por varias vezes pensou em dizer a sua mãe o fato, mas depois de se lembrar que anos antes dissera a sua mãe que não gostava como Fred olhava para ela na sua ausência. Mas, se surpreendeu, pois sua mãe foi em defesa do marido, dizendo. _Rosa. Minha florzinha! Fred é um bom homem. Ele não quer tomar o lugar do seu pai. Deixa ele te fazer feliz, como vem fazendo-me muito feliz nestes últimos dez anos. Rosa ate tentou mais uma vez ser mais objetiva em sua denuncia, porem foi aniquilada. _Mas... _Mas nada. Rosa. Nós sabemos como você tem sofrido sem saber o destino do seu pai e ponto final. Não falamos mais nisso. A tentativa frustrada de Rosa entristeceu-a por longos meses, mas também teve seu lado positivo, fez com que refletisse sobre a vida dela e a da mãe. 32 Então ela pensou. Como minha pobre mãe sofrera com o desaparecimento do seu grande amor. E se agora estava tão feliz, não seria eu sua filha que estragaria esta felicidade. O fato de muitas pessoas acharem que Rosa era uma pobre coitada, por não ter pai e olhavam para ela sempre com cara de piedade, pois isto a entristecia superficialmente. E assim ela se perguntava. _ Como posso sofrer por alguém que não conheci? Apenas fatos e fotos não dizem ao meu coração para amá-lo. Como posso sentir a falta dele se nunca escutei sua voz? Nunca senti o seu cheiro e nunca o toquei? Por este motivo Rosa deixou de ir à casa dos pais de Julio. Dona Hortência não falava em outra coisa a não ser do filho. Rosa na verdade simplesmente, apenas sentia muita pena da pobre mulher que perdera o filho. E isso não lhe fazia bem e nem o menor sentido, ter dó de alguém. 33 O aflorar da Rosa Qualquer homem honesto se perderia ao se defrontar com a feminilidade abrangente de Rosa. Tentadora no caminhar entre os habitantes de qualquer lugar, mas sucumbia aos menores olhares que por ela atravessavam, tentando sem nenhum pudor devorar alguma parte do seu corpo repleto de privilégios concebidos pela natureza. Porque somente ela naquela parte remota merecia ser modelada com tamanho capricho? As outras moças de Esperança do Sul arremessavam flechas de inveja por ver seus namorados ou maridos burlando na contra mão. Noutras vezes, caídos de quatro ou babando enquanto o queixo caia jogado no vazio e o nariz buscava ao vento ainda vestígios da fragrância do seu perfume que impregnava as ruas e os becos. Como a planta que popularmente é conhecida como dama da noite, a Rosa disputava com a planta as honrarias ou talvez o nome roubado. Mas, não necessitava, pois a planta somente a noite assumiria seu reinado, porem estática em seu trono. A Rosa tinha todas as horas que bem quisesse e poderia reinar em todos os lugares se 34 assim desejasse. E assim pelas ruelas de paralelepípedos ou cruzando as pontes do rio dos amores na cidade de Esperança do Sul, Rosa esplendidamente graciosa com seus belos vestidos floridos, sob seu corpo moreno desfilava ao som do vento, os cabelos castanhos claros pouco abaixo dos ombros bailava ao som do mesmo. Quando Rosa subia a íngreme colina para chegar ao platô onde ficava a igreja e um fantástico mirante na praça da matriz. De onde se avistava todo horizonte, também poderia ver o rio serpenteando os vales ate se tornar um fino traço prata, as plantações floridas e verdes pastos onde o gado tranqüilo ruminava. Se padre Vitório depois de tantos anos precisava do auxilio de uma bengala pra se locomover, se olhasse para Rosa fazia o sinal da cruz em seu próprio corpo como que pedindo perdão pelos seus pensamentos suscitados não teológicos. Rosa se tornou um ícone na pequena cidade, não só pela beleza, mas também pela sua simpatia e por ser filha de Julio. O jovem que desapareceu na noite de tempestade. Na época o fato interessou muitos jornalistas da região e canais de televisão. A policia civil e militar fizeram muitas investigações sem nenhum 35 êxito. Muitas conclusões se falaram sem nenhum embasamento. Ate se cogitou que discos voadores haviam raptado Julio e seu carro. Outro boato muito comentado era que Júlio ficou sabendo da gravidez de Rose e fugiu para não ter que arcar com a responsabilidade de pai. As historias se multiplicavam e cada uma tinha sua própria versão. Mas todas as vertentes, para contar a historia, infelizmente deixou magoado seu Álvaro e principalmente sua esposa dona Hortência. Pobre mulher! Passava a maior parte do tempo olhando pela janela na esperança de ver o filho voltar de algum lugar do passado onde ela havia se fixado para sempre. E não havia, um se quer, morador da cidade de Nossa Senhora da Boa Esperança do sul que não enxergasse o tamanho da tristeza daquela pobre mulher. Ia rezar todos os dias na igreja. Com chuva ou sol, lá estava dona Hortência vestida de preto subindo a colina com seu terço nas mãos. Já seu Álvaro nunca deixou de ir ao trabalho, mesmo aos domingos, feriados e dias santos. A mesa do filho ao lado da sua, intocada, talvez a espera do retorno. Os amigos comentavam que jamais viram as suas estridentes gargalhadas. Pra completar, os sulcos das rugas aumentaram acintosamente nos últimos anos de agonia e 36 espera. Os cabelos pretos embranqueceram rapidamente e o corpo se curvou diante do trágico desaparecimento. Dois anos depois do desaparecimento do jovem. O padre Vitório sentindo a ausência de seu Álvaro nas missas dominicais, passou em sua loja para conversar com ele e tentar amenizar um pouco do sofrimento daquele bom homem. _Bom dia! Seu Álvaro. Gostaria de ter uma palavrinha com o senhor se o tempo lhe sobra, meu filho. Seu Álvaro se esforçou para ser cordial, como age diante de tantos clientes. Isso também o padre pode notar. Essa era sua tarefa diante da comunidade, tentar compreender e amenizar as aflições do seu rebanho. _É evidente que sim padre. Aqui recebo a todos que me procuram. Afinal essa é a minha profissão. Sou um simples comerciante. Padre Vitório passou o lenço sobre a testa, pois o dia era quente e abafado. Seu Álvaro lhe encheu um copo com água, e agradecendo levou sedento à boca. 37 _Bom meu filho, vou direto ao assunto, não sou homem de rodeios, muito bem sabe o senhor disto. É uma conversa muito delicada e nem sei por onde começar. A única coisa que realmente sei é que o casal passa por um momento dificílimo, essa agonia que não tem tamanho, e essa espera pela volta do Julio. Já se passaram quase dois anos. Antes que o padre prosseguisse com a seguinte frase seu Álvaro interrompeu e foi direto nas suas palavras, mas não grosseiro com o missionário. _Se o senhor está preocupado comigo, fique sabendo que tem sido complicado. O senhor não sabe o tamanho da minha dor. Mas tenho que levar a minha cruz ate o calvário. Agora se o senhor padre, está preocupado porque não tenho ido a sua paróquia. Eu perdi toda minha fé e toda minha esperança que transbordava por meus poros. Quero ouvir da sua boca. Padre. Porque Deus jogou sobre a minha família toda sua ira? Eu que sempre acreditei nele! Os olhos de seu Álvaro se lagrimejaram, depois, um choro contido rompeu o revestimento duro daquele ser que sofria contido no seu mundo de destroços. 38 _O nosso bom Deus não foi bom pra minha família. Eu não tenho mais nenhum motivo para freqüentar a casa de Deus. Padre Vitório ficou completamente sem argumentos e por alguns instantes o silencio reinou na pequena loja, apenas o barulho, ritmado do ventilador do teto se ouvia. Depois de algum tempo o vigário se despediu e saiu desanimado, talvez porque para aquela determinada situação seus anos de estudos de teologia foram aniquilados por um simples homem entristecido do interior. Enquanto caminhava lentamente escorado pela bengala sobre as ruas de paralelepípedos, seus pensamentos eram interrompidos pelos cumprimentos que ia recebendo dos fieis por onde passava. Mas, sentiu que sua visita surtiu efeito, pois o homem havia desterrado seu ódio. Agora sua ira estava exposta, enfim o coração estava livre para amar de novo. 39 O circo Como quase toda cidade pequena do interior o que realmente falta para os habitantes é onde se divertirem. No verão as praias do rio dos amores são lugares muito procurados, mas no inverno as águas esfriam e ate para a pesca não é propicia. Enfim, foi num destes invernos que chegou e armou sua lona azul um pequeno circo, sem animais. Porem, o grande letreiro luminoso lá estava. Circo das encenações. A maior parte dos espetáculos era de palhaços, trapezistas, e havia um jovem rapaz que encenava uma simples peça de teatro, num pequeno palco improvisado. Este improvisado cenário tentava demonstrar aos espectadores que se tratava de uma pequena praça. Nela tinha dois balaústres, um banco daqueles de sentar, um jardim artificial, pombas pintadas em uma folha de cartolina branca, ao fundo do cenário uma grande cruz de madeira chamava a atenção pela sua altura. Toda peça não durava mais que vinte minutos, mas conseguia com que a platéia sofresse com sua historia. Sua poesia toda voltada para um amor que terminara 40 de forma trágica do seu ponto de vista e o levou ao extremo da idolatria ao fato e a pessoa. Da maneira como atuava, o jovem ator parecia à própria vitima do infortúnio, e que enlouqueceu. A entonação da voz quando se lamentava ou declamava a leveza do corpo com que se locomovia no minúsculo tablado, e as mãos hábeis completavam a magnífica interpretação daquele jovem de nome Ícaro. Assim anunciava o homem de cartola no meio do picadeiro. _Respeitável publico. Tenho o enorme prazer de apresentar para vocês. Ícaro o algoz. Quando as cortinas se abriam: entrava Ícaro caprichosamente fantasiado de mendigo, completamente sujo, com roupas rasgadas e restos de sapatos forrando seus pés. Empurrava lentamente seu pequeno tablado com aquela cruz alta como se arrastasse o mundo. Sobre quatro rodas de bicicleta rusticamente adaptadas, o pequeno cenário era colocado ao centro do picadeiro. A sonoplastia começava tocando a musica the gates of delirium do yes, uma trovoada e ventos fortes completavam o áudio. Ícaro com os olhos voltados para a cruz, os braços abertos e erguidos da inicio a sua peça. 41 _Mais uma vez serei encharcado pelas suas lagrimas que caem dos seus olhos... Mostre-me sua face outra vez...Há muitos anos fui privado de ver você. Muitas. Muitas noites em minha vida... Que mal eu fiz em querer te amar demais? Ícaro abaixou seu olhar passeando por toda platéia sentada nas arquibancadas de madeira. Sua expressão facial era de consternação e dor e deu seqüência o jovem mambembe. _Estou enlouquecendo sozinho no meio dessa lama deste pobre jardim que me abriga... Mostre-me pelo menos a cor dos seus olhos que já esqueci... Quero ver se deles ainda saem aquele brilho que fazia com que eu entrasse no castelo onde moram os nobres reis Neruda e Rimbaud... As luzes piscavam tentando assimilar alguns relâmpagos que acoitava o pequeno jardim cenográfico. Alguns instantes de silencio enquanto o corpo moreno e esguio, aproximadamente de um metro e setenta e cinco sentava com elegância no modesto banco. Depois de quase um minuto e meio de silencio o jovem ator voltou a declamar com mais intensidade, enquanto the Gates of delirium penetrava na alma com seus acordes agudos. 42 _Não me levarão mais ao fundo do calabouço... Não enterrarão meu coração em nenhum buraco fedorento... Eu não deixarei... Desafiarei Deus se preciso for... Depois destas frases, diante da cruz representando Cristo, Ícaro se ajoelhou, uniu as mãos espalmadas diante do peito. Dos seus olhos as lagrimas brotavam dando um brilho especial, com seu olhar de pedra e desafiante prosseguiu atuando. _Oh pai! Senhor daqueles que aqui nesta terra e se encontram como eu... Penúria, sempre lamuriando pelas dificuldades do dia a dia...Oh poderoso pai! Se me quereres ver sofrer outra vez... Crucifique-me nesta dura cruz que construí com minhas próprias mãos... Crucifique-me pelo amor que tenho em ti... Crucifique-me por qualquer irmão em dificuldades e sofrimento... Mas, pai de todos os pais, não me deixe ficar apaixonado por nenhuma mulher outra vez... O som dos relâmpagos, os trovões, os ventos foram diminuindo lentamente, porem a musica continuava latente. _Por estar apaixonado por alguém me jogaram naquele calabouço... Fiquei anos e anos 43 aprisionado que pareciam não mais ter fim... Se hoje estou aqui gozando de total liberdade... É porque gostaria de vê-la com todo seu glamour... Oh pai! Conceda-me este milagre... Somente o senhor tem este poder... Deixe-me vê-la, nem se for pela ultima vez... Os relâmpagos, os trovões e os ventos cessaram. Um foco de luz acompanhava enquanto subia uma lua cheia pintada numa cartolina branca. E o jovem Ícaro esbravejava no agradecer. _Obrigado pai! Obrigado meu Deus! Quantos e quantos anos sem poder enxergá-la... Como é grande é bela! E assim terminava a participação de Ícaro no circo, ovacionado com aplausos intermináveis. Quando as luzes se acendiam, assim podia se ver novamente a lona azul do circo das encenações. E foi na noite de estréia do circo em Esperança do Sul, que lá estava Rosa sentada nas arquibancadas de madeira, vislumbrada como nunca diante daquela modesta apresentação de Ícaro. Foram alguns dos primeiros contatos com as artes cênicas e a paixão pela arte de representar foi amor à primeira vista. Dizia a si mesma, se 44 não for jornalista vou ser atriz. Enfim, Rosa aplaudiu com extremo frenesi, como se houvesse descoberto sua segunda vocação e assim teve a absoluta convicção que um dia poderia ser uma atriz, subir em um palco e representar, mesmo que fosse uma simples peça. Quando enfim terminaram todos os espetáculos, Rosa dirigiu-se para a parte de trás do circo onde se encontravam alguns trailers na procura do jovem ator. Gostaria de dizer parabéns pela grande atuação também satisfazer sua curiosidade diante da nova descoberta e conhecer mais um amigo para a sua enorme lista. Rosa encontrou um palhaço que removia sua maquiagem numa pequena bacia com água, e este lhe informou que o jovem Ícaro assim que terminou sua apresentação pegou sua moto e partiu para outra cidade não muito distante de Esperança do Sul. Lá na cidade de Nossa Senhora dos Milagres apresentaria outro espetáculo com outra turma. A decepção de Rosa deu lugar a sua enorme curiosidade. Que perguntou, ao simpático palhaço de cara borrado. _Há quanto tempo este jovem ator trabalha no circo? 45 O palhaço olhava muito mais curioso que ela, quando respondeu. _Mais ou menos uns quinze anos. Porque gostaria de saber a respeito do menino Ícaro? Menina dos olhos verdes. Rosa sorrindo estendeu sua mão para o cumprimento. _Meu nome é Rosa. Muito prazer. Desta vez o palhaço sorriu e ergueu as sobrancelhas num caricato, a face sem a maquiagem, percebia-se que não devia ter mais que cinqüenta anos. _O meu é Saulo. E o prazer é todo meu. Senhorita, Rosa. Mas me diga. Porque quer saber do menino Ícaro? _Porque eu amo de paixão o trabalho de vocês. Sei também que é muito mais difícil fazer as pessoas rirem. Fazê-las chorar parece ser mais fácil. Rosa abaixou seu olhar e continuou. _Talvez, porque este lado dramático sensibiliza-me profundamente. Tem muito haver com meu destino. Seu Saulo. 46 O lado sensível e psicológico do palhaço resolveu entrar em cena quando a brecha se abriu no dialogo com aquela bela jovem que só tinha qualidades da cabeça ate as palavras que saiam da sua perfeita boca. _Mas, como uma menina tão jovem, sem experiência de vida pode saber sobre o imprevisível destino? O destino que é tão mutável como as intempéries do tempo. Rosa sentiu-se bem confortável para continuar aquele dialogo e se expôs como nunca e em nenhum momento havia feito em sua vida. _Eu não conheci meu pai. Seu Saulo. Ele desapareceu em companhia do seu carro numa noite de tempestade. E por mais que desejasse esquecer este assunto, as pessoas desta cidade, me faz relembrar. O sorriso da face do palhaço deu lugar à compaixão. E salientou. _Você e o Jovem Ícaro, têm algo em comum. Ambos São órfãos. Você não tem pai, o Ícaro também não conheceu sua mãe. Houve uma pequena pausa, mas o silencio foi quebrado por Rosa e sua ansiedade. 47 _Lá em Nossa Senhora dos Milagres tem outro circo onde Ícaro se apresentará? Saulo estava gostando de como Rosa não desistia de saber tudo que envolvia Ícaro. Ela era persistente e amável ao mesmo tempo. E os instintos começavam a dizer para Saulo, que como seria muito interessante deixar com que a conversa fosse alem. E assim desatou. _Amanha, antes do almoço ele apresentará um pequeno espetáculo para crianças no orfanato. Ele dorme no orfanato, acorda bem cedo e prepara o espetáculo, o figurino, o cenário e faz alguns ensaios antes, pra que tudo saia perfeito. Ele é um grande artista! A jovem Rosa quer por que quer ir alem. Talvez seja uma grande historia. Pensou ela. _Você fala dele com tanto sentimento e orgulho, como se ele você seu filho ou alguém da sua família. Porque que Ícaro é tão importante pra você Saulo? A jovem descobriu que o palhaço também gostava de drama e isso o enfureceu um pouco, porque ele tinha o seu particular. Mas como bom palhaço se saiu com graça. 48 _Ele não é meu filho. Bem que gostaria. Seria uma honra imensa. Agora, minha pequena Rosa. Vai para sua casa, sua mãe deve estar preocupada. Alem do mais, já está muito tarde. Amanha prometo contar o resto da historia, isso se você vier procurar pelo Jovem Ícaro. Boa noite! Como os livros que Rosa os tinha como obsessão de ler ate o fim e saber como terminam as historias. Saulo e Ícaro tinham suas historias unida. Ela ficou desolada, mas entendeu a preocupação do bom homem. E se despediu cordialmente. Enquanto Rosa se distanciava sobre aquele vasto terreno onde estava armado o circo, Saulo acompanhou-a com o olhar ate desaparecer pela noite. E nos pensamentos a boa impressão que Rosa despertou fez Saulo resgatar um pouco do seu passado. Principalmente quando se referiu à palavra filho. Há muitos anos ninguém em tantos lugares que já havia passado, foi capaz de cutucar uma das suas feridas, o pior é que esta ferida ainda sangrava e doía fundo em sua pobre alma. Um homem que se atou ao passado com seus próprios erros era assim que pensava. Representava a mais de vinte cinco anos um palhaço, mas nunca realmente fora totalmente 49 feliz. Mesmo que arrancasse risos de milhares de crianças a sua felicidade não emergia das entranhas do seu infortúnio que o destino se incumbiu de traçar. Saulo vagava pelo mundo quando era jovem, mas nas ultimas décadas não era capaz de sair das cidades dessa região. Se outrora seu circo era grandioso, com leões africanos, tigres de bengala, elefantes, chimpanzés, domadores e enormes caminhões. Aos poucos foi se desfazendo, deixando um circo com poucas despesas sem a necessidade de sair para outros estados e lugares longínquos. Preferia ficar nas proximidades. Como quem procura algo que perdeu. Não sabe onde está, mas, acredita piamente que deve estar por perto. Os anos foram passando e Saulo rodando em círculos como um hamister dentro da gaiola. Um ser preso dentro, do seu território imaginário de perturbações. Rosa por sua vez enquanto caminhava na direção de sua casa pela noite da cidade que tanto conhece, era absorvida pela ansiedade das historias que tinha evidencias de estar entrelaçadas. Uma a outra. O palhaço Saulo demonstrava alem da preocupação, um excessivo carinho pelo jovem ator. E assim pensava alto. 50 _O nome também é lindo! Ícaro! Personagem da mitologia Grega. Um sonhador! Qual seria a altura do vôo que necessitava Ícaro? No mínimo dará um ótimo trabalho de pesquisa pra faculdade. No céu uma grande lua cheia clareava seu caminho. A bela lua imensa seria indicio de que rumos diferentes surgiriam em sua vida? Aquela gigantesca luminosidade do satélite seria um aviso promissor do seu futuro? Já em sua cama antes que o sono a vencesse, Rosa voltou a pensar na inusitada noite, que duas historias inesperadas apareceram de repente como àquela lua cheia magnífica. Também se lembrou de certa vez. A menos de um ano, quando fazia uma caminhada à beira do rio. Após, mais ou menos uma hora andando, se deparou com uma arvore antiga, que quatro homens de mãos dadas não atingiam sua circunferência, alem do mais a copa era algo imensurável e a sombra de tirar o fôlego. Decidiu sentar-se e ler alguns capítulos do livro sobre a fresca sombra. Na entre linhas do livro levantou seu olhar e entre os galhos das arvores, notou fumaça saindo de uma chaminé. Desenhos se formavam na fumaça. Primeiro viu nitidamente 51 um homem de perfil em pé, no segundo uma borboleta perfeita, o terceiro um peixe como o acara. Seguiu ate a chaminé e se deparou com uma casa velha e pequena de madeira, incrustada na mata. Ao se aproximar lentamente da cerca desarrumada que protegia aquela antiga choupana, notou alguns pássaros ciscando sobras de sementes propositalmente deixadas ali para eles. Os pássaros coloridos era do tamanho do sabiá. Ao lado um canteiro bem cuidado de maria sem vergonha, cravos brancos e rosas vermelhas. Sentiu naquele pequeno espaço de terra uma paz interior que jamais sentira em lugar nenhum do mundo. Daquilo que seria o portão, então Rosa berrou. _Tem alguém em casa? O som da sua voz ecoou mata adentro, mas não espantou os pássaros, isso também chamou sua atenção e novamente sentiu a sensação de paz envolver-te. Outra vez voltou a gritar. _Tem alguém em casa? Alguns segundos se passaram enquanto o eco se dissolvia, e lá de dentro da casa uma voz feminina respondeu. 52 _Entre. A porta está aberta. Rosa abriu a porta sem muito esforço, olhou o fogão à lenha, as brasas crepitavam embaixo da panela suja de carvão que saia vapor. Olhou para o outro lado e notou uma cama em ruínas e deitada sobre ela uma mulher de meia idade, com o olhar bem atento. Cumprimentou-a _Entre! Seja bem vinda! Qual o motivo que te trazes a esta modesta morada? Rosa gaguejou quando respondeu. _Eu estava lendo meu livro debaixo daquela grande arvore, quando vi a fumaça que saia da chaminé. A mulher sentou na cama e simpaticamente para Rosa. E indagou. sorriu _Então foi à fumaça que te trouxe ate aqui? A princesinha tem nome? Que belos olhos verdes você tem! Rosa estendeu a mão delicadamente para o cumprimento. _Obrigado! Meu nome é Rosa. É que vi alguns desenhos se formarem na fumaça, então 53 decidi caminhar ate aqui. Quantos pássaros lindos te visitam! _Muito prazer Rosa. Todos me conhecem como Calêndula... Estes pássaros são uns mortos de fome. Todo santo dia, eu os alimento... Mas, me diga Rosa, que desenhos são estes que você viu? _Primeiro enxerguei nitidamente um homem de pé, depois uma borboleta, em seguida surgiu um peixe. _Não seria delírio da sua fértil imaginação? _Pode ate ser. Mas e a perfeição dos contornos? Dona Calêndula. _Sente-se, Rosa. Aqui nesta cadeira. Quando jovens, eu meu falecido marido Estevão éramos ciganos, e aprendi com os mais velhos, ler às mãos e prever fatos do futuro, mas quando mudamos para este lugar, eu e Estevão, aos poucos deixei de lado o esoterismo. _O que aconteceu com seu marido? O Estevão. _Ele gostava muito de pescar neste rio. Quase todos os dias, lá estavam ele com sua 54 varinha de pesca na beira do barranco. Um belo dia de calor insuportável resolveu dar um mergulho para se refrescar e não apareceu mais. _Você deve ter sofrido muito! _Mas, é passado. Vamos as suas imagens que na fumaça da chaminé se formaram. Quando aparece a imagem do homem, tem muitas interpretações. Começa pela fertilidade, passa pelo egoísmo e vai ao altruísmo, também representa a espécie humana como um todo. A borboleta é mais singular, este nobre inseto sempre representou a metamorfose ou mudança. Antes à feia lagarta que se arrasta depois a exuberante borboleta que voa feliz. O peixe representa o alimento, a abundancia, ou algo submerso. Pode ser uma dor ou um dom que nos habita, mas não é possível visualizar naquele determinado momento. Acho que consegui satisfazer um pouco da sua curiosidade. Princesinha! _Não podia ser mais clara! Calêndula. Gostei muito de te conhecer. Mas tenho que ir pra casa. _Volte sempre que desejar. A casa sempre estará de portas aberta pra você. Adeus, Rosa. 55 _Que Deus te proteja! Calêndula. Na manha seguinte Rosa acordou em seu horário de costume, depois do banho desceu para tomar seu café antes de ir para a faculdade. Seu padrasto e sua mãe já haviam saído para trabalhar. Mas, eventualmente naquele dia decidiu não ir à faculdade como o habitual. Já havia decidido na noite anterior antes de dormir que faria uma nova visita à casa de Calêndula. Depois do dia que a conheceu teve uma fase muita atribulada e excitante. Começara seu curso na faculdade. Novos amigos, matérias novas, os professores tão diferentes, outra cidade, ônibus todos os dias para Santa Fé, e acabou por esquecer o fato. Com tantas coincidências entre ela e Ícaro sentiu a necessidade de consultar a velha amiga cigana da beira do rio dos Amores, talvez tivesse novidade pro seu futuro. O palhaço Saulo tinha no seu olhar algo de mistério guardado a sete chaves, Ícaro um jovem ator no qual Rosa ficara encantada com sua atuação naquele modesto palco, a lua cheia e luminosa de ontem convenceram-na a procurar Calêndula na floresta. E assim Rosa desceu margeando o rio em meio à mata restante de manancial. Pelo caminho 56 encontrou as velhas arvores conhecida. Os salgueiros semelhantes à cascata verde, os angicos imponentes, os ipês roxos que arremessavam flores pelo chão, as palmeiras com aparência de chafariz, todas sem exceção iam traçando seu caminho. Quase uma hora de caminhada, avistou finalmente a copa gigantesca da arvore que desconhecia seu nome. Lá estava ela, majestosa. E Rosa diante dela de pé admirando sua colossal largura e também a sua altura. Depois de um tempo, olhou para o suposto lado onde há quase um ano vira a chaminé, porem não conseguiu localizá-la. Teria a mata crescido o bastante de não poder avistá-la? Caminhou na direção onde ficava a velha casa, mas nada encontrou. Por um momento pensou em estar engana sobre a posição. Incrédula rodou em círculos varias vezes a enorme arvore. Não havia nem vestígios de que supostamente teria uma casa velha de madeira naquela redondeza. Pela primeira vez em sua curta vida sentiu-se desamparada, frágil como um cristal. Talvez nem Fred seu padrasto foi capaz de tamanho desapontamento. Sentiu medo como nunca sentira. A floresta, já não era mais o paraíso onde a paz reinava. Teve uma vontade extrema de sair correndo e voltar à cidade. Todos os motivos, que a tornara forte em seu interior, 57 desapareceram num piscar de olhos. De repente ouviu um cavalo relinchar se assustou mais ainda. O som do animal provinha da beira do rio. O pouco de coragem que lhe sobrou arrastou-a ate as margens para verificar. Para o seu alivio havia um belo cavalo negro amarrado a um pequeno tronco de arvore, também não muito distante um homem pescava, com a vara absorto na correnteza do rio. E ao longe conseguiu gritar. _Ola! Posso me aproximar? O homem virou sua cabeça na sua direção, piscou os olhos como que querendo conferir a imagem daquela bela jovem diante dele. E disse. __Claro que sim. Mas o que faz uma moça tão bela perdida nesta mata? Ela caminhou os passos restantes que os separavam. E respondeu. _Eu não estou perdida. Meu senhor. É que alguns meses atrás estive aqui neste mesmo lugar, bem próximo a esta enorme arvore e havia uma casa pequena de madeira. O senhor saberia me dizer em que direção ela está? 58 O homem estava mais para um rapaz de vinte oito anos, isso ficou evidente quando tirou seu chapéu que o protegia do sol. E respondeu. _Acho que você deve estar enganada. Venho a este lugar há quase vinte anos e nunca existiu uma casa perto deste jequitibá de quase dois mil anos, no qual você se refere. Pra ser mais claro é meu lugar favorito. Bem mais calma Rosa conseguiu ser objetiva, dizendo. _Quando estive aqui, sentei-me sobre a sombra deste jequitibá para ler meu livro, depois de um tempo olhei para aquela direção e avistei fumaça saindo de uma chaminé. O mais interessante, é que na fumaça formou desenhos, então decidi ir ate lá pra ver quem morava naquela casa. Lá encontrei uma senhora deitada em sua cama, de nome Calêndula e de olhos atentos, mas sereno. Antes de entrar na casa, vi alguns pássaros coloridos, um canteiro com três tipos de flores. Dentro da casa, o fogão aceso e uma panela preta pelo carvão. Dona Calêndula foi cigana e decifrou os desenhos que eu havia visto na fumaça. 59 De repente sua vara de pescar deu tranco e quase que escapou das mãos fortes do rapaz, a camiseta branca regata salientava seus músculos não sedentários, um velho jeans desbotado e ajustado ao corpo de quase um metro e oitenta de altura e queimado de sol. Quando içou sua vara, um peixe com quase trinta centímetros, estava pendurado na linha transparente. _Olha o que temos aqui. Um bagre! Tirou o peixe do anzol e devolveu-o ao rio depois de flertar um pouco. Quando Rosa terminava sua explicação, o rapaz tinha seu foco no destino do peixe em meio às águas turvas do rio. _A primeira imagem que apareceu era de um homem de corpo inteiro, depois uma borboleta, e por ultimo, coincidência ou não era um peixe. O rapaz tinha uma pequena bolsa próxima a ele e dela tirou uma garrafa e deu um longo gole, mas antes ofereceu a Rosa. _Está servida? É conhaque. Ela rejeitou educadamente, mas o olhar do rapaz não tinha a Rosa como foco. Depois de saborear o destilado ele falou sobre a questão. 60 _Como você se chama? Rosa prontamente respondeu ansiosa. _Bom! Rose. Acho que você pegou no sono enquanto lia seu livro e acabou sonhando. Rosa quase não esperou o rapaz terminar sua dissertação e interrompeu-o. _Meu nome não é Rose e sim Rosa. Eu tenho certeza que não foi sonho. _ Desculpe-me se assim saiu seu nome, não era essa a minha intenção. Sabe qual o melhor lugar onde já dormi? Pro seu leigo entendimento, foi debaixo deste jequitibá do qual você se refere. E digo mais, sonhei profundamente. Rosa virou-se como se fosse partir, mas desistiu quando ele prosseguiu de forma amena. _Mas, os poucos livros que li, a respeito de misticismo e sonhos me da o direito de clarear suas idéias. A arvore e o livro deixaremos de fora desta nossa conversa. Os pássaros representam a liberdade, e o colorido deles é o momento presente e de como você é feliz em ter esta liberdade. As poucas flores no canteiro designam o numero de amigas que você pode confiar, uma 61 vez que seu nome é Rosa, assim sendo as flores representam pessoas. A casa de madeira em decadência representa a família e o convívio dentro dela. Você pode notar que a panela suja de carvão se destacou como o fogo que ardia. Algo dentro da sua família te incomoda de alguma maneira. Em relação ao nome, Calêndula se refere a uma erva muito usada para curar cicatriz, também tonificante e antiinflamatório. Talvez esteja indicando o remédio para as suas feridas. A mulher deitada com olhos atentos, mas serenos, representa o momento de paz de que esta pessoa necessita passar, mesmo com todos os problemas dentro do convívio familiar. Tem algo a ver com você? _Parece bastante convincente. E o que me diz a respeito dos desenhos na fumaça da chaminé? _O homem que você viu, no seu caso sendo mulher. Existem varias possibilidades. Pode ser um namorado, pode ser um amigo novo ou a figura paterna. A borboleta sempre representou mudanças, transformações na vida e para melhor. O peixe representa a soma de tudo que já disse. A incógnita das transformações e as duvidas do ser do sexo masculino representado pelo homem, os 62 amigos que podemos confiar à vida em família, se realmente devemos mexer na serenidade ou paz de alguém que já sofreu. O peixe sempre estará submerso nos rios ou nos mares. Sabemos que existem, mas só cabe a nós querer pescá-lo ou não. Rosa ouviu atentamente as coincidências com sua vida, mas não demonstrou ao rapaz. Pois, pra ela, ele se portara muito arrogante no diagnostico. E com a fisionomia falsa, disse. _Tenho certeza absoluta que não foi sonho. Tinha uma casa aqui por perto. E vou achá-la. Obrigado pelas suas explicações. _Ah! Um momento senhorita. Moro em Santa Fé e tenho uma loja de antiguidades. Aceita um cartãozinho com o endereço? Tirou da bolsa um cartão e entregou a Rosa que se despediu. Ao ler o cartão para verificar o nome quase desmaiou quando leu. Luiz Estevão Navarro fone: 6587-4290 Antiquários Rua dos Canteiros. Nº 22 Santa Fé 63 As pernas de Rosa tremeram quando se distanciava do rapaz, agora sua luta era para conseguir sair do meio da mata. Estava totalmente perplexa diante de tantas coincidências que circundavam sua vida neste pequeno espaço de tempo. Estevão era o nome do marido de Calêndula. Correu o mais rápido que conseguiu para se livrar do medo que penetrou em sua alma, pensou que saindo da mata se livraria de tantas incertezas que reinava sua consciência. Que no meio da multidão, entre pessoas na cidade, com a presença de gente conhecida dispersaria o turbilhão de idéias que lhe causava mal estar. Correu amedrontada como a criança que fora despercebido e cresceu. Correu para a igreja ofegante, muito mais pela íngreme colina. Rezou como nunca havia rezado, talvez só durante o catecismo. Pediu perdão pela falta de fé, também perdoou a todos em voz alta ajoelhada em frente ao altar. Só assim finalmente teve um pouco de tranqüilidade. Do seu quarto só saiu para se alimentar nos dois dias seguintes, alegou cinicamente a sua mãe que cólicas menstruais estavam insuportáveis, para não ir à faculdade. E no passar das horas o 64 tormento foi dissolvendo e a corajosa garota começava dar o ar da sua graça, como antes. Por sensatez e comodidade priorizou seus pensamentos em Ícaro, o circo, o palhaço Saulo. Teria que pensar nas aulas que perdeu na faculdade, seu trabalho de pesquisa teria que ser o melhor. Sempre foi assim nos anos anteriores, buscava o que tinha de melhor do seu intelecto. Uma aluna da qual os professores notavam que valia a pena a dedicação ao ensino e os anos de magistério. Ganhou muitos concursos de redação e os trabalhos em grupos recebiam seu empenho, só eram entregues quando passava pelo seu minucioso aval. No antigo curso do colegial conseguiu o merecido respeito por todos, porem a menos de um ano na faculdade teria que mostrar seu talento para receber no mínimo a atenção dos colegas de classe. Isto era muito claro em seu pensamento. Ela sabia muito bem, que teria que ir alem. Rosa em casa resolveu colocar nas folhas em branco o que sua cabeça maquinava diante dos fatos que surgiam, como uma grande brincadeira. E assim escreveu. Aos (dias) nossas vidas sempre pertenceram, como as paginas numeradas ao livro, como o próprio (dia) que se rende ao poder do rei sol, também as poéticas noites que se ajoelham aos 65 encantos da lua. A chuva que cai silenciosa e fria depois de um vôo cego sobre os céus, volta cantando ao seio materno da mãe terra. Pertence aos pés, que caminham nos dias sem rumo ou com, os inanimados e bem desenhados sapatos que agora não causam calos nem joanetes, nem espalham chulé ao carpete. A luva acolhedora, o anel invejável de brilhantes, as unhas que o verniz colorido protege pertencem às nobres e hábeis mãos. Como a porta que usamos como passagem que deixamos que imagens entrem em nossas vidas, pertencem simplesmente à parede gélida e sem vida que nos protege das intempéries do tempo. O tempo que passa desesperado sem que possamos senti-lo com todos os seus sabores, pertence aos dias, um após o outro. Para nossa filosofia vã. Puro engano! O tempo é a força motriz ou se assim quiser, o núcleo do buraco negro. Ele suga idealismos e sonhos realizados ou não, a esperança não é poupada com sua magnitude, a suavidade do carinho, o divino do amor e a dedicação, o frenesi louco do prazer, os rejeitados tédio e a solidão, as doenças e dores com suas feridas, nada será excluído da magia do tempo. E você me pergunta. Porque o tempo é mágico? E te respondo. 66 _O mesmo tempo que nos atrai é o mesmo tempo do qual fugimos. E será sempre o mesmo tempo que nos impulsiona a progredir na corrida biológica no meio químico que envolve toda questão do universo. Se não fosse contabilizado o nobre tempo, não gastaríamos nossas energias sem necessidade. O tempo nos causa medo, estresse, angústia, ansiedade, depressão, equívocos. O mesmo tempo pode ser completamente real ou infinitamente fictício. Real porque estamos embutidos nele como fogo fátuo, e fictício, porque sonhamos nele e a ele demos esta dimensão. E diante dos nossos olhos o tempo vai passando, verdadeiro ou falso, lento ou rápido demais para alguns, para outros nem tanto. O que importa mesmo é que com ele aprendemos a crescer, a desenvolver, a envelhecer, e nele somos dissolvidos em micro partículas de tempos em tempos. E como brincadeira de quebra-cabeças, o tempo decide unir novamente as partículas e dar forma há algum tipo de vida animal ou não. Sempre somos assolados no interno pelo tempo ido não aproveitando e também não fazendo o que era necessário. E vivemos esperando ansiosos para que o tempo futuro seja promissor e saudável, mas não degustamos o tempo presente com 67 todos os seus sabores e aromas. Que venham os tempos das ampulhetas, dos relógios de sol, de ponteiros, os digitais, porque o tempo é imensurável e impossível de calcular. Tentamos em vão registrar a passagem do tempo em filmadoras, e ate tentamos pará-lo em fotos. Apenas isso, e mais nada afinal. Enfim olhou para o relógio em cima do criado mudo da sua cama, do lado um abajur lilás denotava ainda mais a foto do porta retrato, que nele ela e sua mãe sorriam, e ao fundo o rio dos amores e sua correnteza. Percebeu nos ponteiros do relógio que ainda dava tempo de ir ao circo. Conferiu sua carteira para ver se dinheiro dava para pagar sua entrada, se vestiu e seguiu seu destino. Sentada nas arquibancadas do circo viu os espetáculos encantada como sempre, porem quando as luzes se ascenderam se perguntava sobre a peça encenada por Ícaro. Qual o motivo dele não ter se apresentado esta noite? Como na ultima noite em que estivera no circo foi para o lado de trás onde perguntou por Saulo para outro palhaço que avistou. O mesmo, alegremente indicou o trailer em que se encontrava, e ate o trailer dirigiu-se Rosa. 68 _Seu Saulo! O senhor está ai? Saulo apareceu ansioso a porta, muito pela visita que recebia. O pouco que conversaram fez com que ele se sentisse melhor em relação aos seus problemas internos, e viu nela uma válvula de escape. Por capricho egoísta não havia encontrado alguém com capacidade para depositar confiança e confidenciar o que te importunava há tantos anos. _Como vai Rosa? Por um momento achei que não a veria nunca mais. Desceu os quatros degraus que o levaram ao mesmo nível e cumprimentou-a elegantemente beijando as costas de sua mão suavemente. E Rosa respondeu. Sempre simpática, o sorriso estampado em sua face era sua marca registrada. _Estou bem! Só estive com alguns probleminhas de saúde, mas já me recuperei. _E qual bom motivo que te trazes ate aqui minha jovem? Ou seria para escrever uma historia da decadência de um grande circo? _O motivo real é sobre a ausência do espetáculo do Ícaro. Mas, também gostaria de saber de como era nos tempos áureos, já que o 69 circo foi grandioso deve ter historias fantásticas pra me contar. _Ah! Historias é que não pode faltar. Enquanto ao jovem Ícaro, está tendo uma temporada grandiosa. A peça de teatro que ele escreveu tem feito muito sucesso e tem atraído gente interessada na contratação dos seus dons. Está sendo avaliado por uma comissão julgadora. Talvez ira participar de um festival de teatro em São Paulo. _Você se refere àquela peça que ele apresenta aqui no circo, sobre a paixão pela lua? _Não. Aquela pequena encenação é mais um exercício que faz para ficar perto de mim. No outro, ele recita poemas escritos por ele e também tem um amigo, o Emilio com quem divide o palco. Eu ainda não tive o prazer de ver, apenas vi alguns ensaios quando estive em Nossa Senhora dos Milagres. Alguns cachorros circulavam Saulo e Rosa que sem convite de alguém saíram caminhando em passos lentos pelo grande terreno gramado, enquanto conversavam. 70 _Eu gostaria muito de ver, antes que o sucesso leve-os daqui pra São Paulo. Você não gostaria de ir me acompanhar? Saulo. Saulo sorriu feliz, como um pai sorri para uma filha ao receber o inesperado convite. Há tão pouco tempo que a conhecia e a impressão não poderia ser melhor. Rosa sem que percebesse conquistava a confiança de um homem que passara anos como uma pedra, sem vida parada em um lugar esperando que um dia esse desconhecido alguém passaria ali diante dele. E assim mantinha os olhos sempre bem abertos. Saulo respondeu como uma criança que acabou de ganhar um brinquedo na noite de natal, e sabe que vai ganhar outro. _Será um grande prazer ir com você! Rosa. Poderemos ir amanha, se você desejar. E aqui no circo não haverá espetáculos. _Já que falou sobre o circo. Conta-me como começou sua historia circense. O olhar triste no vazio do homem buscava na memória fatos do seu passado, parecia que via um filme que era rodado diante da sua visão. Mas, conseguiu um começo que no momento achou apropriado. 71 _O grande circo Navarro era comandado por meu pai, tinha vários leões, tigres de bengala, elefantes, chipanzés, domadores, varias carretas para fazer viagens longas. Os espetáculos eram magníficos! Quase sempre todas as arquibancadas lotadas de gente! Eu era apenas um jovem de vinte anos, gostava de fazer alguns truques de mágica e uns números de palhaço que aprendi com meu avo, o fundador do circo. Há quase trinta anos atrás o circo veio fazer uma temporada por estas bandas. Na época namorava a filha do domador. Jasmim, nome de flor igual o seu. Enfim, Jasmim e eu ficamos uns cinco anos namorando escondidos em meio às carretas, jaulas e trailers. Éramos completamente, um apaixonado pelo outro. Eu, nunca consegui sentir o mesmo amor por alguém durante estes trinta anos. Quando pronunciava, no drama da sua expressão tinha-se a impressão que ele estava vendo as pessoas da qual falava. Era mágico como Saulo conseguia viajar no tempo, realmente fora profundo o corte em sua carne. A ferida poderia ser aberta toda vez que tocasse no assunto, porem noutras oportunidades a dor era aguda, mas exclusivamente diante de Rosa estava 72 anestesiado e sentia-se bem confortável na revelação. _Realmente estávamos muito felizes! Viajávamos a vários lugares, conhecíamos cidades pequenas e grandes, sem nos afastar um instante um do outro. Era o paraíso na terra para qualquer casal de namorados! De repente, Bromélia a mulher contorcionista que era casada com o mágico do circo começou a perseguir-me com seu olhar. Seu corpo de mulher madura era de tirar o fôlego de qualquer um. Eu, ainda muito jovem, bonito, forte no auge da virilidade, cai de quatro por ela como touro ao levar uma marretada. Em uma destas visitas no trailer da Bromélia enquanto seu marido não estava Jasmim nos surpreendeu sem roupas em cima da cama. Ainda posso ver o olhar de decepção de Jasmim daquele fatídico dia. Pra minha maior surpresa, Jasmim estava esperando um filho meu. Eu só fui saber depois que a criança tinha nascido. Depois do ocorrido ela se afastou do circo indo morar com sua avó. E que o endereço me foi negado, por ela mesma. Assim o pai dela me disse. No começo achei capaz de esquecer e passar por cima como um rolo compressor. Jovens, sempre se acham super-homens, invencíveis! Mas, o homem forte foi se extinguindo, o amor abrindo 73 meu corpo de dentro pra fora, como se eu estivesse dando a luz a minha burrice... Por alguns instantes reinou um profundo silencio e Saulo continuava com o olhar fixado no vazio. Depois concluiu. _Rosa! Está muita tarde pra você. Amanha às sete da noite sairemos daqui e no caminho pra Nossa Senhora dos Milagres, continuamos nossa conversa. _Boa noite! Seu Saulo. Ate amanha as sete em ponto. Estou muito lisonjeada. Por ter me confidenciado sua historia! Quem sabe, não possa te ajudar de alguma maneira. _Com certeza, já está ajudando e muito. Boa noite! Rosinha! Naquela noite Rosa não foi direto para cama com seu livro como o habitual. Ao contrario disto decidiu fazer anotações das historias que surgiram em sua vida como uma tempestade de verão, turbulenta, sem aviso, mas, refrescante e entusiasmada. Todos os detalhes, os pontos importantes eram anotados para não perder o fio da meada, pra que as historias não ficassem sem teor. Seu trabalho finalmente ganhava formas, 74 tinha consistência e conteúdo, um enredo que do nada apareceu como um presente que ela achava merecedora. Agregado a isso ainda tinha o personagem de Estevão que parecia surreal, mas que fora profundo nas coincidências de sua vida. Para que agregasse Estevão à parte da historia teria que se aprofundar. E diante deste dilema sentia-se amedrontada, apavorada se comprovasse que de fato não existisse o tal do colecionador de antiguidades em Santa Fé. Retirou da sua carteira o cartão de visitas que o rapaz lhe dera e mais uma vez se certificou do endereço que estava escrito. Pensou que depois que saísse da faculdade passaria para confirmar se realmente existia a tal loja de antiguidades. Mais uma vez o frio subiu pela espinha. Mas, não havia outra saída inteligente, teria que enfrentar e pesquisar para por fim a suas duvidas que importunavam. Porem, Saulo era uma historia a parte, totalmente real diante de deus olhos e de seus ouvidos, pois ele lhe confidenciara parte importante da sua vida. Um ser que representava a mais de trinta anos um palhaço que é sinônimo de alegria, mas por trás daquela maquiagem colorida havia um ser humano repleto de tristezas, como todo ser vivente. Assim ela percebeu que no mundo nada era tão perfeito, e 75 que todas as pessoas tinham algo com que principiavam suas neuroses, seus medos, suas encanações. Com todos estes esboços traumáticos das pessoas que te circundavam, construiu sobre seus pés uma consistente plataforma, e a menina começava querer dar lugar à mulher que dali em diante teria que mostrar sua força. Em alguns momentos duvidou sobre sua capacidade de enfrentar estes problemas e dar as pessoas soluções plausíveis para estas dificuldades. Seus pensamentos exigiam dela sem descanso que tomasse medidas cabíveis para solucionar estas duvidas, sem ser intrometida. A flor necessitava desabrochar a qualquer custo, sem que os espinhos arranhassem alguém, pois por elas passou a ter muito carinho e estima. Sentia-se como uma ave que com afinco protege em baixo das asas sua prole. No dia seguinte, Rosa quando saiu da faculdade foi à procura da loja de antiguidades na rua dos canteiros, numero 22. A ansiedade ficava mais evidente a cada passo que dava, pois estava diante da situação mais incrédula de sua vida, mas ao se defrontar com a porta da loja o mal estar desapareceu dando lugar à grata sensação de esperança. Ainda mais que Estevão a recebeu muito feliz, a gentileza e cordialidade se 76 sobressaiu apagando aquele homem arrogante que conhecera na beira do rio. Luis Estevão usava uma camisa pólo bege, a calça um jeans levemente desbotado, nos pés um tênis confortável branco com detalhes em vermelho. Sorriu verdadeiramente com todos os dentes perfeitos daquela bela arcada de invejar muitos artistas, o corpo moreno queimado de sol e os cabelos castanhos escuros não muito compridos, deixavam mais branco seu sorriso. Rosa se surpreendeu com aquela bela expressão que nem de longe parecia aquele rapaz intolerante. Desta vez demonstrava extrema felicidade em estar diante dela, um brilho no olhar que a encantou como nunca. Por alguns instantes ela pensou tratar de estar constatando que era real o tal do Estevão, e por isso estava encantada com a presença dele. Ali, verdadeiro e belo diante dela. Ele estava na porta quando a reconheceu do outro lado da rua e radiante de lá gritou. _Será verdade que os meus olhos vêem? Ou será uma miragem no meio do caos urbano? Ou seria um dos meus delírios? Como vai Rosa? Rosa atravessava a rua de paralelepípedos segurando alguns livros didáticos apoiados aos seios rígidos, o cabelo amarrado tipo rabo de 77 cavalo não escondia a blusa caqui de algodão, uma saia florida em tons de vermelhos ia ate a altura dos joelhos. Quando se aproximava respondeu. _Tudo bem! Eu que pensei que você fosse uma alucinação. Deixou-me amedrontada estes dias Estevão. _Gostaria de desculpar-me por ter sido prepotente lá na beira do rio. _Está desculpado. Mas a primeira impressão é a que fica. Mal sabia ele que a primeira impressão que Rosa tivera fora à imagem de um homem musculoso queimado de sol, que retratara de forma objetiva, seus segredos bem guardados. _Vamos entrar Rosa. Seja bem vinda. Rosa sentiu o gostoso perfume, também os lábios quentes e carnudos tocarem sua face quando a cumprimentou. Seus olhos atentos focavam as peças enquanto cruzava o corredor da loja. Viu mesas, cadeiras, penteadeiras, estofados, poltronas, estantes, biombos, porta chapéus, todos restaurados com muito capricho, alem de toca-discos, rádios, televisores e telefones 78 arcaicos, geladeiras e estatuas de vários materiais bem organizados em ambientes planejados dava um ar nostálgico à loja. _Aquele sonho debaixo do jequitibá me pereceu tão real que achei que você fosse um fantasma. _Como tem tanta certeza que não sou um fantasma? _Estou te vendo pela segunda vez. A sua loja realmente existe de fato. Luis Estevão sorriu, esticou o braço e ironizou. _Você não acha que deve beliscar-me para melhor se certificar? Ela deu leve tapa no seu braço, ele por sua vez apertou delicadamente sua bochecha. Depois a convidou para sentar na poltrona em um dos ambientes do seu antiquário. _Como começou a colecionar tantos objetos? O sorriso deu lugar a uma expressão mais seria quando respondeu. 79 _Quando minha avó morreu, há dez anos, herdei seu mobiliário bem preservado por ela. Daí em diante não parei mais. Virei um aficionado por coisas antigas. Quando olho para algum objeto e sinto aquele aroma de envelhecido fico inebriado, posso sentir ate a energia das pessoas que o utilizaram. Talvez seja uma busca do meu interior, que necessita algo que ficou no passado e que ainda não sei de fato o que é. Mas, vou encontrar custe o que custar. _Não acredito que tenha muitas pessoas interessadas em objetos antigos aqui em Santa Fé. _Aqui na loja, mais compro do que vendo. Trabalho mais com locação para cinema, teatro e televisão. Pra ser franco com você, não gosto de vender meus objetos. Acho que cada objeto tem sua historia, mesmo que eu tenha criado estas historias. Quantas e quantas vezes imagino as famílias reunidas nestes ambientes. É meio insano dizer isso. Mas, tenho muito prazer em observálos! _Eu acho que você é um fantasma que ressuscitou! Rosa brincou deixando o dialogo mais informal, o sorriso voltou às faces de ambos. E 80 assim prosseguiu fazendo um convite, contudo Luis Estevão tinha seus olhos fixados nos dela. _Já que você falou em teatro. Hoje à noite vou a uma peça em Nossa Senhora dos Milagres. Não gostaria de ir? _Claro que gostaria de ir. Porem hoje à noite tenho um encontro com uns produtores de cinema para acertar os detalhes de locação daqueles três conjuntos que estão lá no fundo. Podemos ir outro dia se você não se importar? _Claro que sim. Amanha, quando sair da faculdade passarei por aqui pra ti falar, se realmente vale à pena ir ou não. _Alem de ser a garota mais linda da faculdade. Que curso você faz na faculdade? _Pretendo ser jornalista. Bom Luis Estevão! Tenho que partir, se não minha mãe manda a policia inteira de Esperança do Sul atrás de mim. _Ah! Já ia me esquecendo. Tenho uma pequena lembrança para você. Gostaria que aceitasse como forma de selar nossa amizade e o carinho que tenho por você. 81 Tirou de dentro de uma pequena arca um broche de prata, nele esculpido um buquê de rosas e atrás gravado: Rose ou Rosa. _Claro que aceito! Nossa! É lindo! São rosa. Todas as vezes que eu olhar para ele, sempre lembrarei que tenho um grande amigo, fantasminha solto por ai. _Minha avó ensinou-me. Quando conhecer alguém importante, de algo para que ela sempre pense em você de maneira positiva. _Sua avó era uma pessoa muito especial. _Tudo que sou devo a ela, dona Gardênia! Uma mulher especial. _Porque você não fala dos seus pais? _Meu pai eu não conheci e minha mãe morreu decorrente de problemas pós-parto. Eu tinha quatro meses. Por isso é que fui criado por minha avó. A pouco quando nos encontramos e você chamou-me por Estevão sem o Luis na frente, me fez lembrar ela. Apenas ela chamavame assim. _Quando nos conhecemos, lá na beira do rio confesso que fiquei assustada quando olhei para o 82 seu cartãozinho e li seu nome. Por coincidência você tem o mesmo nome do marido de Calêndula, a mulher dos meus sonhos. _Mas você não me disse que ela era casada? Ou disse eu que não ouvi? _Ela me contou que ele gostava de pescar naquele lugar onde você também tem como preferido. Só que ele, em certo dia de calor mergulhou e não apareceu mais. No mesmo lugar com o mesmo nome. Que coincidência! Foi um susto enorme, que sai daquele lugar com pernas tremendo de medo. Resumindo fui pra casa com uma duvida maior ainda, não sabia se seria um sonho ou se você fosse o fantasma do marido de Calêndula. Neste momento, repentinamente Estevão abraçou Rosa e disse em tom baixo ao pé do ouvido encostando seus lábios no lóbulo da orelha esquerda. _Agora você pode ter certeza que existo. Estou aqui bem próximo de você. Mais uma vez, Rosa pode sentir o bom perfume que entrou em sua alma como uma bomba silenciosa e se alastrou por seu corpo 83 inteiro, sentiu-se bem protegida pelos braços rígidos e por um momento fizeram na levantar e girando ao ar. O prazer foi puro e duradouro, a ponto de Rosa já estar dentro do ônibus a caminho de casa e ainda delirava sob o efeito do calor dos braços de Estevão. A paisagem já exaustiva do caminho entre Santa Fé e Nossa Senhora da Esperança passava despercebida por ela. As plantações de canas, intercaladas com laranjais em flores, noutras os pastos verdes eram pincelados de preto e branco pelo gado misturado de holandês. De vez em quando a estrada se aproxima do rio e assim a paisagem se transformava em mata nativa, só assim seu delírio era momentaneamente interrompido. Quando pegou o broxe que esculpido o buquê de rosas de dentro de sua bolsa admirava-o quão delicado era a pequena jóia que ganhara e mais uma vez leu: Rose ou Rosa, gravado na parte de trás. Quarenta quilômetros separam uma cidade da outra e quase uma hora de ônibus passaram num piscar de olhos, pois o tempo fez questão de envolver Rosa sem que percebesse que o que sentia poderia transformar-se em paixão. Diante de Estevão ela se sentia segura de todos os seus conflitos internos que há anos consumiam muito do seu precioso tempo. A menina queria a 84 companhia de um homem, e agora esta oportunidade parecia se descortinar diante dos seus olhos verdes. Não mais de menina, seu coração vibrava de emoção, podia sentir o cheiro dos hormônios aflorar, e pela primeira vez em sua vida se viu nua e um homem também nu. Beijavam-se freneticamente e rolavam num lençol estendido no meio da mata. O canal vaginal umedeceu, seu clitóris endureceu mesmo sentada em uma das ultimas poltronas do ônibus que vibrava no percurso sinuoso, suas mãos acariciavam seus mamilos que se salientavam de tanto prazer que o dominava. As sensações a dominaram por boa parte do percurso, sendo só interrompidas pelas vibrações dos pneus em contato com os paralelepípedos ao entrar em Nossa Senhora da Esperança. Rosa voltou à realidade do dia quando entrou em casa, sua mãe abordou no meio da sala questionando o atraso para o almoço. Rosa sempre sincera com todos e com a mãe não poderia ser diferente, foi conclusiva ao dizer que passou na loja de antiguidades para visitar um amigo, e que as historias estavam envolventes e a companhia também era muito agradável alem de ser um homem muito lindo. Sua mãe ate brincou com a seguinte frase. 85 _Finalmente a Rosa vai se abrir para o amor! Ou é mais um alarme falso? Rose sempre muito carinhosa com a filha segurava suas mãos e abraçou Rosa afetuosamente quando falava. Deixando de lado o caráter de Fred e suas recaídas sexuais por secretarias. Mãe e filha se identificavam em muitos pontos, havia diálogos sempre francos, mas sem muita exposição de ambas as partes. Por ser uma criança sem pai, Rosa foi preservada em varias verdades importantes, na relação entre mãe e filha. Normalmente quando o pai é vivo, a mãe reclama para as filhas os defeitos do pai e um pouco das suas angustias da relação. Neste caso especialmente sua mãe achou melhor poupar aquela criança desprovida de genitor e que já sofria em demasia sem esta importante referencia. E esta parede imaginaria que limitava o dialogo entre elas de fato foi erguida simplesmente por Rose no intuito de proteger a pequena filha. E Rosa tinha esta percepção do problema, mas pensava que no futuro e mais experiente esta parede poderia ser destruída com certa facilidade e assim ter sua mãe mais próxima de ti. Rosa almoçou, colocou em ordem seu guarda roupas, anotou mais alguns itens ao seu trabalho 86 que ganhava forma cada vez mais. Depois, tomou um banho demorado e relaxante, pensava com qual roupa sairia à noite para ir ao teatro na companhia de Saulo. Teria que ser discreto e não podia ser leve, pois a temperatura caiu bruscamente no final da tarde já quase começo de noite. Voltou a pensar em Saulo e seu drama, como é triste a vida de um ser sabendo que tem um filho em algum lugar deste mundo e que talvez nunca o encontre. Saiu do banho e diante do espelho enxugavase completamente nua, observando como atraente seu corpo se tornara, seus seios firmes e sensuais, seu quadril e as nádegas salientes, cochas roliças sobre pernas bem construídas, talvez pelas caminhadas diárias. E falava sozinha trancada no quarto. _Preciso por este conjunto bem distribuído para funcionar... Somente a você Estevão, será cedido o direito... O primeiro homem a manipular cada centímetro deste conjunto de sensualidade. Primeiro colocou uma calcinha preta, virou de costas para o espelho para acertá-la, em seguida um sultien da mesma cor que deixou os seios mais erguidos, vestiu um jeans justo, uma 87 blusa azul céu e cobriu com uma jaqueta também de jeans e uma bota de couro marrom completou a vestimenta. Carregou na maquiagem principalmente nos olhos. Passou seu perfume francês, pegou sua bolsa de couro gasto com detalhes em miçangas, trancou a porta do quarto e saiu no destino do circo onde encontraria Saulo. A cidade de Nossa Senhora dos Milagres está a quinze quilômetros de distancia de Nossa Senhora da Esperança do Sul. Todo o trajeto é bem pavimentado, sinalizado e conservado, que torna seguro transitar pela rodovia. E dentro do velho jipe com capota, pertencente a Saulo que o dialogo flui de forma investigativa por parte de Rosa que perguntou. _Voltando a aquela nossa conversa, Saulo. Você nunca mais teve noticias de Jasmim? _Como eu já lhe disse, os primeiros cinco anos passou como um trem, pois para aquele jovem sedutor não faltavam mulheres. Fui percebendo que não tinha perdido uma simples mulher e sim o grande amor da minha vida e com ela meu filho. Sangue do meu sangue. _Como você sabe que era filho e não filha, Saulo? 88 _Uma de suas melhores amigas informou-me que ela havia dado a luz durante a noite na maternidade em Santa Fé. No dia seguinte pela manha fui visitá-la, mas fui proibido de entrar em seu quarto, pois estava em observação. Decidi ir ate o berçário e a enfermeira responsável permitiu que entrasse para ver a criança. Lembro-me como se fosse hoje! Ela trocava suas fraldas, ele estava nu em cima da maca forrada com lençóis brancos. Enquanto ela limpava com algodão suas genitálias ele mexia aceleradamente suas perninhas. Como era esperto! Na coxa esquerda, próximo ao joelho, tinha um pequeno angioma, com o formato semelhante ao coração. _O que vem a ser angioma, Saulo? _Angioma. São estas manchas escuras de pele, normalmente hereditárias, meu pai tinha uma no pescoço do tamanho de um morango. No dia seguinte à tarde voltei ao hospital para visitá-los, para minha triste surpresa não os encontrei, pois tiveram alta pela manha. Uma leve garoa caia naquele trecho da rodovia obrigando Saulo a ligar o limpador de pára-brisas e as curvas sinuosas pausaram seus relatos. 89 _Pois bem! Rosa. Os primeiros cinco anos, não percebi que isto me faria tanta falta. Vasculhei todos os cantos deste país procurando por eles. Por seis meses abandonei o circo. Deixei nas mãos de uma pessoa de confiança e fui procurar com mais determinação. Mas, não consegui nada de concreto. Decidi fazer espetáculos em orfanatos procurando pela criança, fui desfazendo dos grandes espetáculos que custavam muito dinheiro. Transformei o circo no que é hoje pra não sair desta redondeza. E aqui estou eu, rodando nestas cidades na esperança de encontrar talvez a criança. Em uma destas apresentações em orfanatos conheci uma criança que despertou em mim o senso paternal e resolvi adotá-lo. Hoje esta criança é um ator brilhante que nós vamos vê-lo representar. E o que é mais perfeito ainda, ele criou seu próprio espetáculo. Viva o Ícaro! O silencio os acompanhou enquanto estacionava o jipe na porta do teatro, só foi interrompido com o deslumbramento sobre o cartaz do espetáculo próximo à bilheteria. A foto de Ícaro e Emilio em close e nome da peça. (Quando as artes se unem). Sentaram bem à frente do palco e depois as cortinas se abriram. 90 O teatro No palco o cenário lembrava um atelier, um grande pano branco figurava as paredes, todo manchado de cores diversas de tinta, o resto do cenário era composto por quatro cavaletes desses de pinturas com telas em branco de um metro e meio de altura por dois de largura e dois suportes de pinceis com roldanas. O primeiro a pisar no tablado foi Ícaro, trajava um macacão manchado de tinta e uma boina na cabeça. Entrou suavemente ao som de musica oriental, enquanto recitava pausadamente cada frase do poema pincelava em uma das telas sobre o suporte. E assim começou Ícaro com todo sentimento. _Um olhar lateral e atento sobre janela da locomotiva lotada, que cortava as planícies pinceladas de cerejeiras floridas, uma jovem poetiza traduz sua saga na fecunda imaginação. Como a fumaça do trem a vapor que se dilui, lhe solta às amarras do medo do muro fragmentado, que esconde as florestas adjacentes do passado carregado de mistérios. No fluir único do trem sobre o destino dos trilhos, este sensível e 91 penetrante olhar que invade as florestas que ocultam as personalidades: ela busca encontrar em cada minúsculo lugar respostas da sublime vida de perguntas. Na mística que forja o talento desta poetiza, que em cada palavra que se une a outra como os trilhos, dando sentido à frase que nunca de fato quer a certeza da real resposta; faz transbordar sobre seus olhos uma cachoeira de vocábulos melodiosos que segue o trem nessa paralela rumo à foz da criação. O barulho da locomotiva que rompe o muro do silencio nas noites, como as águas da cachoeira que nunca param de jorrar suas palavras expelidas das entranhas das florestas: nutrem a poetiza; como o sol que alimenta a vida na terra de Camões, Rimbaud, Neruda e a nobre casta. O trem segue sua viagem analógica ao tempo da criação: como temos que primeiro saborear para aprender a sobreviver. A metáfora do trem que guia sobre os muros da imaginação e as planícies de florestas que transborda criação das cachoeiras, será o eterno nicho da poetiza rumo ao firmamento. Pobres humanos incapazes de compreender o centeio do pão, elaborado da mente que fermenta o alimento dela num raio de eras. O olhar e a menina poetiza segue focada nos trilhos dos sentimentos arcaicos, cravados em seu peito tão 92 fragilizado, sempre a espera incansável do esplendor contemporâneo. Fechou as cortinas sobre fortes palmas, depois abriu novamente e desta vez entrou Emilio, roupas manchadas de tinta e boina na cabeça e com a mesma destreza ao som de um chorinho muito bem escolhido. Emilio que também deu o seu melhor na declamação enquanto pincelava na outra tela. _Numa destas tardes que uma fina garoa insistia em manter em movimento o limpador de pára-brisas do ônibus, que descia certa avenida movimentada de São Paulo. Em seu interior repleto de passageiros com seus olhares vazios, talvez mais preocupados com seus problemas cotidianos do que com o itinerário do coletivo. Pessoas comuns na sua plenitude, operários, mantenedores do momento extrativista da vida, que o funcionalismo nos impõe. Seres humanos que carregam na expressão o eterno empecilho do êxito na vida diante do futuro que não o é permitido vislumbrar. Gente da mais simples competência que o engodo atraiu para a esfera que engloba o total da massa em volume. Pessoas honestas que se sacrificam por conta das contas 93 que nunca acabam de mover o sistema social necessário a sua vida em curso. Homens e mulheres de varias idades e etnias, brancos, negros e pardos frenéticos no caminhar atrás dos recursos da sustentação diária. Almas fadigadas que aguardam com desejo o descanso remunerado próximo aos seus pra comemorar sobre um corpo que queima do animal sem razão, bebem com remorso o que lhes proíbem em excesso de gratidão. Multidão sem rumo, manada atrás do pão nosso de cada dia que nos daí hoje e sempre, enxame sem colméia e perdoai-vos as nossas ofensas assim como perdoamos o covil que nos é dado sempre. A plebe. Fechou novamente as cortinas. Voltou a abrir desta vez retornou Ícaro impecável. Recomeçou sua declamação, e as pinceladas em outra tela em branco. Ao fundo uma musica erudita completa o espetáculo. _Uma simples pedra, ali estática ao sol e a chuva. Estagnada sabe lá há quanto tempo sem mover um se quer centímetro. Nobre pedra de aproximadamente um metro de circunferência, porque não redonda, nem quadrada não sabemos, mas o limbo incrustado nos da a referencia da precocidade. Pedra sem infâmia que ninguém da 94 o real valor, mas que muitos a usam para atravessar o pequeno rio de corredeiras que desce cortando a deslumbrante serra do mar nesta parte ainda intocada da nossa mata atlântica. Insignificante pedra expelida das entranhas de algum vulcão extinto há milhões de anos, ela que não tem vida, porem também não finda com o lento tempo traiçoeiro. Eis a pedra sem visão periférica, mas que presenciou calada: os que ali passaram em curso, talvez corpos nus desfilaram atrás de prazer ao seu redor morfológico. Sentenciou arvores ruindo ao seu leito de destroços enquanto eram arrastadas pela força das águas em estrondos. Pedra que contem quase todos os minérios da natureza em questão, pedra de mistérios difundidos em seu interior, pedra que não ri, mas que também não chora muito menos sabe a hora em que deverá sair do seu cavado lugar. Pedra sem sentimentos, mas que vai quebrando suas facetas para originar outras minúsculas pedrinhas e grãos para ser sedimentos essenciais à vida do planeta agonizante. Alias não existem diferenças, entre uma dura pedra e um ser humano dotado de sentimentos, pois no final faremos parte dos mesmos sedimentos. Que vivam as pedras que nos deram direção deram nomes a localidades, calçaram cidades de chão, 95 delas erguemos nossas moradas de proteção. Pedras sem extinção e coração e quem nunca pecou que atire a segunda pedra porque a primeira pedra nós já atiramos ao fundo do rio e as ondas se formaram. As cortinas mais uma vez se fecharam, depois reabriu e Emilio retornou para declamar e pincelar a ultima tela que sobrara. Outra musica erudita bem apropriada ao poema fez se ouvir. _De que me adianta querer ir tão distante se o que está aqui bem próximo, ainda não observei na sua totalidade. As folhas velhas e secas do fícus caíram pelo chão da varanda, e ainda resta o galho esturricado no vaso de barro com terra seca. No bar as garrafas de licores restam alguns tragos que não foram sorvidos. A lâmpada da sala que espera ansiosa para ser trocada que há anos queimou, talvez numa noite de tempestade. No antigo quarto do casal os livros, os porta-retratos e os relicários de viagens do passado sobre os criados-mudos o pó se sobressai e impera. Na geladeira quase vazia, uma garrafa de água turva abandonada, e sobras de verduras e legumes em estado de putrefação, designavam bem o estado e a situação. Uma enorme pilha, de jornais velhos servia de ninho para uma família incontável de 96 ratos que vagueiam em procissão. As fechaduras oxidadas pela ação do tempo ido e as dobradiças enferrujadas das portas internas rangem estridentes pela deslocação do vento dos corredores que entram pelas venezianas destroçadas e com os vidros quebrados. No piso o brilho se foi, os tacos se soltaram certo que pela dilatação. Do antigo sofá de couro marrom rasgado ate o televisor de transistor uma ponte se estende de teias de aranha. Os fachos de sol transpassavam a cortina puída que já não era mais branca. Acima do sofá também se estendiam mais teias ate um quadro com uma aquarela abstrata pendurado na parede que devia ser azul turquesa. Em outra parede da sala de jantar um relógio que os ponteiros não se mexiam, mas que no passado foi muito olhado quando a vida funcionava ao seu redor. Sobre a mesa esticada uma toalha de linho florida, quatro xícaras e pires e os talheres de prata ao lado denotava que não fizeram seu chá vespertino num destes dias de inverno. Só posso afirmar que tomariam chá, porque lá ainda estavam os saches de ervas corroídos pelos bichos. O bule de prata e cesta de pães vazia talvez, surrupiados pelos roedores. O cheiro de mofo que vinha da umidade do banheiro que ainda gotejava nas torneiras e do velho chuveiro. 97 As escovas de dente sobre o lavatório dentro do copo de plástico encardido, acima do lavatório o espelho quebrado dividiu meu reflexo em partes desiguais. Sai daquela velha casa em passos lentos da mesma forma e pela mesma porta que entrei, sem encontrar o que esperava. O meu passado. As cortinas se fecharam sobre as fortes palmas dos espectadores que ficaram de pé. Quando reabriram os dois atores agradeceram dobrando o corpo como o habitual. Quando as palmas finalmente cessaram, eles se apresentaram e ofereceram as telas se houvesse interessados em adquiri-las pelo preço de duzentos reais cada. E pela ultima vez as cortinas se fecharam. Foram ate o camarim onde a tietagem demorou em se dispersar. Saulo apresentou Rosa a Ícaro e a Emilio. Depois de muitos elogios e com os pés na terra o dialogo voltou ser normal sem aquele frenesi. De repente Saulo pediu licença para ir ao banheiro e se retirou. Logo depois que a porta do camarim se fechou com a saída de Saulo, Ícaro e Emilio deram um longo beijo bem na frente de Rosa que foi pega de surpresa. Em seguida gritaram em coro. _Conseguimos! Vencemos! 98 Depois da cena de paixão e emoção Ícaro confidenciou para Rosa seu romance com Emilio. _Por favor, Rosa! Não conte nada para o Saulo, ele desconhece esta minha opção sexual. Penso que talvez ele não entendesse e teríamos que romper uma linda amizade, quase que de pai para filho. _Jamais faria isso. O amor é lindo em qualquer circunstancia. Gostaria que todo mundo entendesse desta forma. Acho que o mundo seria perfeito demais. _Eu acho que o amor e o espetáculo que falta para o show da vida ser completo. Falando assim Emilio decidiu brincar com as palavras em comum acordo. Depois Ícaro concluiu elogiando o namorado no mesmo tom. _Depois de ser ator, pintor, poeta resolveu ser filosofo? E mais um longo beijo foi dado entre o casal de atores apaixonados. E Rosa deu seu depoimento singelo para o momento. _Ah! O amor está no ar! 99 Eles sorriram profundamente depois do beijo. _Amanha vocês voltam a se apresentar? Tenho um amigo que gostaria de trazer para ver a peça. _Infelizmente não. Só alugamos o teatro para dois dias, foi um acordo com a comissão do festival de São Paulo. Depois, que Saulo retornou do banheiro trocaram mais algumas palavras sem muita importância, pois muito se falaram assim que terminou a peça e se despediram com muito respeito e admiração. O jipe seguia na estrada sinuosa retornando a Nossa Senhora da Esperança do Sul e a lua clara iluminava o caminho. Já era quase madrugada e o frio penetrava pela carroceria do jipe que não é apropriada para a vedação. Em Saulo sua expressão era de preocupação com a breve partida de Ícaro para São Paulo, onde talvez acabasse ficando para sempre. E não tinha duvidas em relação a isto, pois para sua atividade não havia lugar melhor para exercê-la do que a paulicéia desvairada. Alguns carros passaram de encontro ao jipe e seus faróis ofuscavam a visão 100 de Saulo, mais acentuavam os olhos lagrimejados do homem que a solidão era seu maior castigo. Um homem de cinqüenta anos que carregava um corpo de setenta devido ao martírio que vez ou outra cutucava suas feridas que jamais se cicatrizaram. Com esse sentimento Saulo se lamentou ao volante. _Acho que sou fadado a carregar o fardo da solidão, Rosa! O homem nasce, cresce, e ao envelhecer murcha como a flor. Rosa tentou em vão elevar o moral, mas o velho palhaço estava compenetrado em seus lúdicos pensamentos constituído por anos de reflexão. _Não seja tão pessimista Saulo. Alias durante anos você tem feito muitas crianças sorrir. Seu lugar ao lado dos anjos está reservado. Apesar de achar que você ainda tem muita lenha pra queimar! _Gosto do seu otimismo juvenil, Rosa! Bem que podia ser contagiante. _Você tem muitos amigos que gostam de você, do seu trabalho, eu também sou sua amiga, 101 mas sei que também não é lá grandes coisas. Não deixarei de visitá-lo. _Se o mundo fosse repleto de rosas como você, não existiria um homem triste rodando por ai! Depois de Ícaro você tem sido o fato mais interessante da minha vida nos últimos anos! _Obrigado Saulo! _Há muitos anos atrás fizemos uma temporada de seis meses pelo nordeste. Em umas destas paradas armamos o circo em São Luis do Maranhão. Num dia de folga foi visitar a cidade de Alcântara, repleta de casarões coloniais em ruínas. Descobri lá uma rua com o nome de amargura que desembocava no porto do ultimo adeus. Seria nomes comuns de localidades se não fosse o lado triste da historia. Os senhores dos engenhos, homens ricos, da época do império mandavam seus filhos a Portugal para estudar. Destes jovens pouquíssimos retornavam para Alcântara. As pobres mães destes jovens iam ate este lugar que depois passou a se chamar rua da amargura, para dar o ultimo adeus no porto para seus filhos que talvez nunca mais os vissem. _Que historia triste destas mães! 102 _No momento não tive o exato discernimento, ainda estava naquela fase de super herói. Anos depois, pensando profundamente sobre a questão surgiu à estranha suposição que os homens, como os animais nasciam desprovidos destes sentimentos. Como saudade, afeto, esperança, fé e amor. No decorrer do desenvolvimento a fêmea por ser a mais prejudicada e sensível desenvolveu os sentimentos e depois herdamos ainda no ventre materno este precioso fardo. _Este foi um dos elogios mais significantes referentes à mulher que já ouvi Saulo! Setembro estava quase terminando, mas a primavera estava no seu ápice de coloração. As flores exalavam seus aromas inconfundíveis ate mesmo ao mais insensível nariz, as abelhas aproveitavam a abundancia de alimentos e zuniam pelos ares num vai e vem frenético, os beija flores e suas diversas espécies e cores disputavam com os insetos seu direito ao néctar açucarado. Porque, nós seres humanos temos por habito ao encontrar uma flor querer cheirá-la, encostando o nariz em seus polens? Seriamos involuntariamente manipulados pelas cores e odores para sua disseminação? Decididamente, 103 não. Isso seria irracional! As margens do rio dos amores no calor da primavera, as famílias se reúnem nas praias para se refrescarem na água sobre sua atraente energia. Somos gerados por segredos guardados nos elementos das águas e a ela devemos subserviência, fazemos parte como todos os elementos que aqui se encontram prisioneiros nesta imensidão belíssima. São apenas coincidências da natureza que estamos expostos no transcorrer de nossas complexas vidas. Assim a natureza nos concede momentos belos e raríssimos. Como todos os rios que se encontram e acabam desembocando no mar como coincidências da atração de desnível. Como o destino das águas que rumam ao oceano miraculoso que permeia a vida das pessoas que desfrutam das suas margens, casualmente hipnotizados pelas coincidências deste magnetismo. Somos sucumbidos pelos tempos que vão nos dilacerando como ribanceiras e expondo historias que há tempos viviam submersas aos olhos daqueles que procuram vestígios do passado. O passado como peça de quebra cabeças que desapareceram como obra do destino e depois de tantos anos de procura somos obrigado a desistir mais por cansaço do que por descaso, porque no 104 inconsciente ainda nos é cobrado. Peças que foram arrastadas pelas correntezas do destino, porem alguém especial e não muito distante, mas, escolhida pelo tempo terá que resgatá-la. E como por coincidência de repente as peças surgem e se encaixam perfeitamente nos espaços vazios que o próprio tempo criou. E foi justamente nas margens do rio dos amores que Rosa sentada num lençol colorido envolvida com o picnic ao sol daquela agradável tarde primaveril, sobre a sombra do jequitibá, ela preparava sanduíches de atum no pão de forma, enquanto Luis Estevão trocava sua isca do anzol na certa devorada por um peixe muito esperto. Tanto Rosa como Luis usavam jeans surrado e justo ao corpo, Rosa vestia uma camiseta azul, nos pés calçava tênis, já Luis estava sem camisa e também de tênis nos pés e sentado em sua cadeira de pescador totalmente absorto. Desta vez não veio a cavalo como de costume, optou pela moto para atravessar o acidentado terreno ate a beira do rio, já que tinha Rosa a sua garupa. Rosa enquanto espalhava o patê no pão quebrou o silencio dizendo. _Quando terminarmos nosso passeio gostaria de passar na casa de um amigo. Acho interessante 105 que vocês se conheçam. Alias não é bem uma casa e sim um trailer. _Deve ser divertido morar em um trailer. _Ele tem um circo. _Você esta brincando! Um circo de verdade com palhaços, picadeiro, lona e leões? _É verdade. Um circo sem leões, tigres e macacos. Ele desfez dos animais para cortar os gastos. _Ele é seu namorado, Rosa? _Engraçadinho! Saulo tem a idade para ser meu pai. _Quantos namorados você já teve? _Se eu falar você não vai acreditar. _Claro que vou. Acredito em você. _Nunca namorei, apenas beijei uns garotos só por embalo. _Você mente e nem fica vermelha. 106 _É verdade! Os garotos que conhecia não tinham nada que me tirassem do eixo e os que se identificavam era muito velhos. _Então estou descartado? _Você quem está dizendo. E você está namorando? _No momento não, mas já fui casado por cinco anos. No total foram dez anos com Violeta, cinco de namoro. _Porque que terminou depois de tantos anos? Por um momento Luis Estevão ficou com o semblante serio e se afastou da vara de pesca quando explicava. _Violeta tinha uma vida de princesa, os pais eram pessoas ricas. Quando namorávamos seus pais não viam com bons olhos nossa relação. Eu não cursava nenhuma faculdade, não tinha família, muito menos sobrenome de respeito. Mas, mesmo assim ela foi contra eles, e essa atitude me fez admirá-la e respeitá-la durante este longo tempo. Depois que casamos ela não queria trabalhar de maneira nenhuma, porem ficou mais exigente com a qualidade dos materiais que 107 entravam em casa. Queria produtos melhores e mais caros. Se por um lado eu não podia satisfazer suas necessidades, então isto se transformou em rejeição e aos poucos a admiração e o respeito, foram se escoando pelo ralo da rotina. Eu não a culpo. Só acho que a mulher tem que trabalhar fora para que homem sinta ciúme, porque o ciúme equilibrado alimenta a sedução. No final das contas a relação pega fogo, pois ambos tem que mostrar que são melhores que os amigos do trabalho, e acabam exigindo mais de si próprio no dia a dia. Rosa, depois de ouvir atenta Luis Estevão no desabafo sobre sua ex-relação decidiu falar. __Esse não será o meu problema. Depois do quarto semestre pretendo fazer estágios. Quero trabalhar pra valer! _Acho que isso é um convite. Rosa deixou escapar um profundo sorriso de desejo que se estendeu pelo corpo inteiro, como efeito cascata. Luis Estevão foi rápido ao se aproximar. Seu prazer fez explodir seus músculos do tronco e agarrou-a abrupto e beijou-a fervoroso. Ela por sua vez, aceitou a rapidez dos movimentos respondendo ao beijo. Luis mordia 108 suas orelhas e beijava seu pescoço enquanto a pele dela ouriçava inteira devido à sensibilidade. Quando suas mãos cheias de vigor acariciaram seus seios, seu desejo aumentou e indescritivelmente soltava gemidos no ar. Mas, quando Estevão desceu seu zíper e com o dedo a médio penetrou em sua vagina constatou que estava quente e úmida e apenas uma frase foi dita por ela. _Cuidado para não me machucar. Não esqueça que sou virgem. Fizeram sexo no meio daquela mata de pé como loucos, feito os animais no cio, os corpos transpiravam por todos os poros como cachoeira, já não mais se importavam se estavam sendo observados, enquanto os movimentos se aceleravam sem nenhum pudor. A imagem de dois belos corpos nus no auge da virilidade em ação em meio à mata teve um efeito raríssimo de ver. Por mais de uma hora de repetição dos movimentos dos quadris, entre beijos e mordidas, enfim satisfeitos, deitaram no lençol a sombra do jequitibá rosa e adormeceram. Era quase final de tarde quando os dois jovens entraram no espaçoso terreno onde o circo estava armado. Estevão olhava surpreso em 109 todos os detalhes que surgiam no seu raio de visão. Depois se expressou. _É um circo de verdade! _Te enganei. Seu bobo. É uma fabrica de risos! Estacionou a moto, próximo ao trailer de Saulo. Logo, alguns cachorros que perambulavam pelo circo aproximaram chacoalhando suas caldas na espera de um carinho ou algo para comer. Rosa gritou por duas vezes o nome de Saulo e não foi respondida. De outro trailer saiu um homem de meia idade que respondeu de prontidão. _O Saulo não está. Meus jovens. _A que horas ele volta? _Não tem previsão. _Como assim? O que ouve com ele? _Ontem, ele fazia reparo num motor do caminhão e acabou se acidentando. Ele está internado na Santa casa na cidade de Nossa Senhora dos Milagres. _Mas, é tão grava assim? 110 _Saulo tem um problema crônico que se agravou com o acidente. Se quiser mais informações vai ter que ir ao hospital. _Obrigado seu... _Meu nome é Fausto. Senhorita. Quando a moto se afastava do circo Rosa convidou Estevão para ir ao hospital em Nossa Senhora dos Milagres. Ele aceitou sem pestanejar, apenas salientou. Se for seu amigo é meu também. E assim seguiram pela estrada e por parte de Rosa certa preocupação incomodava e assim se perguntava enquanto a moto fazia as curvas sinuosas da estrada. Porque no dia mais feliz da minha vida onde encontrei finalmente um homem que transmita tanta segurança tenho que receber uma noticia triste? Porque, acompanhada de coisas boas sempre aparece algo pra melar tudo? Com essa sensação de desconforto apertou ainda mais seu corpo de encontro ao corpo de Estevão na garupa da moto. Chegaram a Nossa Senhora dos Milagres quando as ultimas luzes do clarão da tarde saudava a chegada da noite estrelada e límpida, 111 como nunca se viu nesta época do ano. A santa casa ficava cravada no centro da cidade, um prédio antigo de tijolos aparentes que no passado fora um convento, e assim a cidade cresceu em seu redor. Entraram pelo corredor que deu no acesso a recepção onde uma moça de uniforme os atendeu educadamente. _Boa noite. Em que posso ajudá-los? Rosa respondeu com a mesma educação depois de também dar uma boa noite. _E sobre o paciente Saulo, que está internado aqui. Gostaríamos de vê-lo _Infelizmente não será possível. O horário de visitas terminou as 16h00min horas. _Tem como agente saber alguma informação sobre seu estado de saúde? _Aguarde um instante, vou chamar a enfermeira responsável. A ansiedade de Rosa, pelo reflexo da cor branca das paredes, e o cheiro característico e inconfundível do lugar contaminou Luis Estevão que nem conhecia Saulo, mas tentava acalmá-la com palavras carregadas de otimismo. Depois de 112 alguns minutos apareceu a enfermeira que se apresentou. _Boa noite. Meu nome é Gardênia. Sou a enfermeira de plantão. Quem de vocês têm algum parentesco com seu Saulo? De prontidão Rosa respondeu. _Não somos parentes dele. Somos apenas amigos. A enfermeira em seguida leu de forma cautelosa um relatório que carregava em suas mãos. _Seu Saulo é nosso paciente há quatro anos. Não sei se vocês sabem disso? _Não sabíamos. _Ele sofre de tipo raro de câncer para a sua idade. Ele tem leucemia. Outro fator agravante. Não estamos conseguindo reverter o quadro de hemorragia ocasionado pelo ferimento. Ele necessita de sangue para continuar vivo os próximos dias. Para sobreviver precisa de um transplante de medula. Só um milagre o salvará. Ele já está a quatro anos na fila de espera e ate 113 então não apareceu nenhum doador compatível. No momento, é isso que tenho para lhes adiantar. O olhar, de ambos era de perplexidade, claro que não podia ser diferente, tratando-se um ser humano e amigo. Antes de sair à enfermeira Gardênia fez uma ultima pergunta. _Posso fazer uma pergunta, já que são amigos do paciente Saulo? Quase que em coro responderam sim, sem ensaio. _Vocês não gostariam de doar sangue? E se quiserem podem fazer o teste para serem doadores de medula também. Garanto que não tem nenhum tipo de complicação, alem de ser indolor. Rosa foi a primeira a confirmar. _Claro que doarei. É pra salvar vidas. Estevão, também movimentos da cabeça. concordou com os _Então me acompanhem ate o setor por gentileza. 114 O caminho de volta para Nossa Senhora da Esperança foi tranqüilo para o casal apaixonado que trocavam caricias sobre duas rodas, já que pra conversar é quase impossível. Porem, para Rosa o que ocorreu a tarde sobre a sombra do jequitibá, ainda fazia com que fugisse da realidade em espaçados momentos. Por dentro sentia algo vibrante, como se sua vida tivesse mudado de uma hora para outra em questão de segundos. Agora se sentia uma verdadeira mulher. Também necessitava compartilhar essa brilhante experiência, (o antes e o depois) com alguém que podia confiar. Pensou em sua mãe com quem tem muito dialogo, alem de tê-la como referencia. A mãe Rose sempre foi muito franca nas questões sexuais, nunca a poupou de assuntos que para outras mães era muito cedo para ter este tipo de dialogo com as filhas. Rose apesar de pouca experiência sexual, porem tinha uma profunda dedicação na teoria, pesquisando em revistas, jornais e livros. Isto fazia dela conhecedora das mais excepcionais, quem a visse explicando sobre o tema diria que ela era sem duvidas sexóloga e não que tivesse o curso de bacharel. Realmente Rose se tornara uma mulher inteligente, uma quarentona muito atraente, com todos os hormônios expostos e o mais 115 interessante sem ser vulgar. Suas roupas, sempre conjuntos muito discretos, pois assim exigia sua profissão, talvez escondesse a verdadeira mulher madura atrás daqueles óculos. Rose e Fred tinham uma vida social muito atribulada. Jantares quase todas as noites, congressos e cursos, viagens, os trabalhos no plenário exigiam deles carga horária absurda. Por este motivo Rosa quase não encontrava sua mãe, apenas nos finais de semana é que sobravam alguns contatos. Estava ansiosa para chegar em casa encontrar sua mãe se lá estivesse e contar como fora tão feliz em seu primeiro contato sexual, queria falar sobre Luis Estevão e como fora gentil, e carinhoso, um homem de verdade com letra maiúscula. Enfim entrou em casa, não viu ninguém na cozinha, na sala, no escritório, nem nos quartos e assim tomou seu banho e dormiu exausta pelo dia longo que fora aos dois extremos, do máximo do prazer, a dor da saúde abalada do amigo Saulo. No dia seguinte, acordou com a mesma ansiedade que só foi quebrada com a frustração pela ausência de sua mãe que saiu cedo para o trabalho, mas deixou um bilhete e dois Paes de mel para comer de lanche na faculdade. Porem achou melhor devorá-los no caminho para Santa Fé ainda no ônibus, também pensava no drama 116 do amigo palhaço que aprendeu admira e como era impossível de ter um final feliz para este espetáculo que o destino o obrigou a encenar. Uma pessoa que conhecera há tão pouco tempo, mas que se tornaram amigos fieis, muito conversaram inclusive assuntos confidenciais, enfim aquele tipo de amizade que parecia durar uma eternidade. Na faculdade os poucos alunos que estavam dentro da sala estavam imbuídos em absorver todo potencial do professor, quem não vem com este mesmo propósito ficam nos bares e lanchonetes ao redor. Talvez por isso resultasse no total silencio dentro das salas. Rosa, mesmo embutida no resumo do pequeno texto de (angustias) de Graciliano Ramos ainda sobravam flashes de memórias da tarde anterior nos braços de Estevão e na sua face o sorriso estampado não era difícil de ser observado. Na sala os ventiladores funcionavam na velocidade máxima para amenizar aquele calor infernal de quase meio dia. As mulheres na sua maioria no interior das salas são as mais prejudicadas, pelo excesso da temperatura, os cabelos longos e os sultiens contribuem para elevar. Por outro lado, algumas moderninhas que vão de shorts ou saias minúsculas quando cruzam as pernas faz a felicidade dos rapazes que são minoria. O silencio 117 só foi quebrado pela presença inesperada de Rose, a mãe de Rosa que chamava pela filha na porta de entrada da sala de aula. Rosa dirigiu-se a ela perguntando qual o motivo, já que apenas uma vez este ano aparecera na faculdade e porque a filha a convidou. Saíram da sala e foram conversar no corredor. Rose tinha expressão tensa e carregada de curiosidade. _Eu tive uma discussão com Fred esta manha, e decidi me separar. Depois deste depoimento a filha aproximou e abraçou-a de modo afetivo. se _Eu já estava desconfiada com suas saídas repentinas, e quando ele saia por coincidência à secretaria, você conhece a Magnólia, também desaparecia da Câmara. Mas, a cobrança dele referente a você estava me sufocando. Dizia para que investigasse você, pois sua conduta era de alguém que estava usando drogas ou coisa parecida. Porque você não parava em casa. Tenho certeza que dizia isto para que não ficasse me preocupando com ele e as suas fugidas. Peço desculpas a você pelo que fiz primeiro por desconfiar da sua índole, segundo por vasculhar suas gavetas e seu armário sem o seu consentimento. E por isto que estou aqui. 118 Meia que descontente com toda razão, mas desculpando a mãe pela transgressão, foi rápida ao dizer. _Enfim encontrou algo nas minhas coisas que me puna como pessoa? Rose abriu uma das mãos e mostrou quando prosseguiu com as palavras. _Sim. Este broche. Onde você o encontrou? Pertencia a seu pai, dei a ele três dias antes de desaparecer. Não seria impossível de existirem dois iguais, mas o que está escrito atrás, eu quem mandei gravar. Foi a sua avó que te deu? A expressão de surpresa era evidente em ambas, porem em Rosa, como não podia ser diferente era exacerbado. Mesmo assim se explicou com a voz meio embargada pela noticia inesperada. _Não. Eu ganhei de um amigo. O nome dele é Estevão e tem um antiquário aqui em Santa Fé. Conhecemo-nos há um mês mais ou menos. Rose puxando a filha pelo braço arrastou em desespero para saber onde aquele desconhecido havia encontrado aquele objeto que lhe pertenceu. 119 _Vamos até lá. Rápido. Preciso saber onde ele encontrou este broche. Como vocês se conheceram? _Esta é uma história longa e cheia de detalhes misteriosos mamãe, que você nem vai acreditar. _Prometa, que vai me contar? _Gostaria de ter ti contado antes, mas não te encontrei. Aconteceu uma infinidade de fatos marcantes em minha vida mamãe. Precisamos sentar e conversar. Luis Estevão assustou-se com as duas mulheres entrando em sua loja feitas reses desgarradas. O primeiro pensamento que veio em mente foi que talvez Rosa estivesse em apuros, depois que seu amigo Saulo não resistira à hemorragia e assim veio trazer a triste noticia. Mas, enfim quando se aproximou tudo se elucidou. _Mamãe, este é Luis Estevão. _É um prazer conhecer um amigo de minha filha senhor Luis Estevão. _O prazer é meu, senhora... 120 _Meu nome é Rose. Vejo que tem muitos objetos interessantes e raros, aqui. _É uma coleção que estimo. As apresentações e elogios foram feitos, talvez Rose deixasse escapar um leve olhar de surpresa quando Rosa foi beijada por Estevão com muito carinho. Depois falaram porque vieram. _Minha mãe gostaria de saber onde você adquiriu este broche que me deu? Vendo o broche Luis Estevão se surpreendeu com a pergunta, mas indagou. __Porque querem saber? É apenas uma pequena lembrança. _Minha mãe deu este broche ao meu pai dias antes dele desaparecer. Isto há quase vinte dois anos atrás e de repente aparece assim em suas mãos. Estamos assustadas e ansiosas pra saber. _Alguns anos atrás arrematei num leilão um lote de objetos de um antigo hotel do circuito das águas. Alguns abjetos que não eram úteis os doei para uma clinica psiquiátrica na cidade de Bom Jesus da Ressurreição, que fica a uns cem 121 quilômetros daqui descendo o rio. A clinica é dirigida por uma freira austríaca que esta no Brasil há muitos anos, o nome dela é Lis Bela flor. Foi à irmã Lis Bela flor quem me deu este broche, alem de dizer que me traria muita sorte. _Você poderia nos levar ate lá? _No final da tarde estarei disponível. Tenho um almoço de negocio com uns produtores de televisão do Rio de Janeiro. _Nós vamos agora ate lá Rosa. Precisamos desvendar este paradoxo. É difícil de encontrar esta clinica em Bom Jesus da Ressurreição? _Não. Qualquer um conhece, é só perguntar. A cidade é pequena e a clinica fica bem no centro. Enfim mãe e filha partiram rumo a Bom Jesus da Ressurreição, com muita fé, esperança que talvez um milagre e assim descobrir o paradeiro de Júlio. A peregrinação por mais de uma hora pelo menos serviria para que elas colocassem um pouco das suas conversas em dia. A estrada, também sinuosa como todas da região, por hora se afastava das margens do rio e em outros momentos aproximava. Descendo com os 122 olhos atentos das mulheres o rio se alargava chegando de uma margem a outra uns trezentos metros de largura, via-se ate alguns barcos com pescadores navegando. Esta região é conhecida pelos povos ribeirinhos como o vale das Provações. Porque quem tivesse muita fé e esperança e acreditasse em milagres se passasse pelo vales das provações chegaria a Bom Jesus da Ressurreição. No caminho sobre o vale das provações a predominância do pasto era imensurável e poucas vezes surgiam plantações de laranjais, canaviais e cafezais. A paisagem bucólica causava sono em Rose que dirigia seu automóvel. Totalmente absorto seus pensamentos sobre a origem do broche foi interrompida por Rosa que desatou sobre seus desejos sucumbidos na tarde anterior. _Eu. Estou namorando Estevão, mamãe. _Não foi difícil de decifrar sobre isso, Rosa. Aliás, aquele beijo me fez causar inveja. _Ele me fez muito feliz, nestes últimos dias. Tem se mostrado um homem inteligente de um caráter que não da para duvidar. Acho que estou apaixonada, mamãe! 123 _Você não acha cedo para este tipo de afirmação? _É evidente que acho. Porem o que sinto neste momento deixa-me muito entusiasmada. Pra mim, o que importa é que neste exato instante da minha vida esta sendo um divisor de águas. O antes e o depois. Será que você me entende? _É o seu momento, filha aproveite-o da melhor forma possível. Eu só não quero que se machuque. Os homens têm o dom natural de nos surpreender, tanto para o bem quanto para o mal. _Agradeço demais sua preocupação, mas acho que só aprenderei vivendo e se tiver que quebrar a cara só espero que esteja do meu lado quando for necessário. Rose foi lacônica e irônica ao falar. _Mãe só serve para as horas difíceis. _Ai que você se engana. Vou te contar uma noticia maravilhosa! _Qual é a grande noticia? 124 _Eu não te falei que quando tivesse a minha primeira experiência sexual você seria a primeira, a saber. Rosa viu o espanto na face da sua mãe causada pelo impacto da notícia, esperou que manifestasse alguma opinião, mas o silêncio se fez e assim ela prosseguiu. _Como poderia dizer. Foi melhor do que esperava. Não tive nenhum tipo de medo. _Acho que esperou o momento certo, apareceu à pessoa adequada e te inspirou conseqüentemente te encheu de confiança. Fico feliz pela sua felicidade e por saber, desta formidável... Vamos assim dizer: primeira vez. Mãe e filha sorriram enquanto se tocavam com certo limite pelo olhar atento na direção do automóvel. Depois de algum tempo de silencio em que ambas delineavam os pensamentos sobre as imagens das paisagens que surgiam de rara beleza, Rosa quebrou se explicando. _Luis Estevão foi casado durante cinco anos. Talvez, por esta experiência tenha me tratado com muito carinho. _Quantos anos ele têm filha? 125 _É bem maduro. Trinta anos de pura gostosura! _Você não está muito entusiasmada? Decididamente, o que você espera desta relação? _Pela primeira vez na minha vida sem entusiasmos. Uma relação sem loucura que vem crescendo lentamente. Confesso que não estou louca de paixão e sim de desejo puro. Quero que esta mulher que está dentro de mim venha viver tudo que tem direito, principalmente de extrair dos homens o que eles têm de melhor. Isso é querer demais, mamãe? _Acho que você saiu melhor do que a encomenda! Como está adulta a minha criança! No relógio de pulso de Rose faltavam dez minutos para as três da tarde quando apareceu a placa informando que restavam apenas três quilômetros para chegar em Bom Jesus da Ressurreição. Aliás, deste ponto da estrada podia se avistar o aglomerado de casas com o largo rio passando lento ao fundo. No pensamento de Rose priorizava a clinica psiquiátrica e também sobre a religiosa de origem austríaca que poderia não mais estar trabalhando por lá. E isso lhe causou um leve mal estar, seria um tempo 126 perdido e uma viagem tão longa a troco de nada. Mas, o pior seria ficar sem saber onde ela teria encontrado o broche que ligava ao seu passado, o que até então durante esses vinte e dois anos nada foi encontrado de concreto para se investigar o desaparecimento misterioso de Júlio. E porque depois de tantos anos um simples objeto, como este broche aparecera de modo impressionante e casual? Os paralelepípedos do piso fizeram o carro trepidar e despertou Rosa que dormira por quase dez minutos no final da viagem. Rose observava atentas as placas, que indicavam o sentido do centro da cidade e a cada quarteirão sua ansiedade acelerava seu coração tão próximo do assunto que há anos decidira esquecer. Envolvida sobre este assombro decidiu parar e perguntar a um transeunte o local exato da clinica. Após alguns quarteirões estava em frente a um casarão antigo em ruínas, pois era evidente o estado de degradação das janelas e portas, porem um enorme jardim conservado onde os internos perambulavam ao leu e outros sentados em bancos de cimento espalhados pelo gramado. O muro alto que circundava o casarão como o jardim alcançava seguramente os quatro metros de altura, tudo só foi possível visualizar através 127 do grande portão principal construído de grades de ferro em cor verde. De uma pequena guarita ao lado do portão saiu um vigia para atendê-las como quem acabava de ser interrompido do seu sossego agiu indiferente, mas foi preciso nas orientações sobre manter fechado o veiculo não olhar nos olhos, nem dar atenção aos internos e indicando onde poderia encontrar a irmã Lis Bela flor. As ultimas palavras do vigia deixou Rose satisfeita talvez a longa viagem não seria totalmente em vão. Li Bela flor recebeu as em uma pequena sala onde apenas uma mesa, algumas cadeiras e um velho arquivo de metal compunham a mobília. Lis, uma jovem senhora com seus cabelos brancos e curtos combinava com seu habito religioso, tirou seus óculos depositando sobre a mesa. As palavras que saiu de sua boca ali estavam, mas seus pensamentos pareciam estar nos problemas que necessitavam serem resolvidos. Esta foi à impressão que deixou quando pronunciou com um português impecável e sem sotaque. _Em que posso ajudá-las? Foi Rose quem explicou o por que. 128 _Pois bem irmã. O que nos trás ate aqui, é sobre este broche que você presenteou Luis Estevão do antiquário lá de Santa Fé. Como ele chegou ate as suas mãos? A freira quando ouviu o nome Estevão mostrou um sincero sorriso e educadamente se explicou. _Foi o Gabriel quem me deu este broche. Lis Bela flor ergueu-se e olhando pela janela, apontou e continuou. _Daqui desta janela da para vê-lo sentado debaixo daquela quaresmeira florida. Rose se frustrou com o nome e também quando viu daquela distancia um homem gordo e cabeludo olhando para os ramos floridos. _Alias, quando a policia o trouxe há quase vinte anos atrás disse que não tinha documentos. Ficou dois anos encarcerado, por invadir uma chácara na beira do rio, próximo à divisa da cidade rio acima. Depois descobriram que ele tinha problemas neurológicos enviaram no para esta clinica. Aqui na clinica fizemos alguns exames e foi constatado que havia sofrido uma 129 grande lesão no cérebro, talvez por agressão danificando sua memória. Gostariam de vê-lo? Rose respondeu mecanicamente por sentir desiludida de quem perdera seu tempo e a viagem. _Acho que não é necessário, irmã. Mas já que estamos aqui, vamos ate lá. Enquanto caminhavam, rumo ao jardim onde o interno estava contemplando a natureza, sentado à sombra daquela arvore, a freira continuou a falar sobre o drama daquele pobre homem que vestia roupas de tecido claro listrado na vertical; e foram se aproximando. _Gabriel repete muitas palavras que ouve, alias não sabemos seu nome verdadeiro, porem tem duas palavras que ele repete com freqüência e quando falamos para ele essas duas palavras ele sorri. São as palavras que estão gravadas no broche, Rose ou Rosa. Rose ficou totalmente pálida. As pernas tremeram como se estivesse vendo um fantasma ao olhar de bem perto e perceber sobre aquele corpo obeso o doce olhar de Julio que respondeu sorrindo como se tivesse reconhecido-a. A 130 surpresa derramou lagrimas de todos os presentes naquela cena única, depois de vinte e dois anos um reencontro inesperado emocionava mesmo aqueles que iam chegando, funcionários e até os internos com certa consciência. Rose eufórica se repetia ao dizer Júlio e o apertava-o fortemente. Já Rosa deixava a lagrima descer em silêncio e mantinha certa distância, estática era espectadora do próprio drama. De agora em diante não seria mais a coitadinha da menina órfã sem pai, porem, de repente apareceu um homem estranho que era seu pai. Alias bem longe daquela figura que projetara nestes anos todo. De inicio foi difícil o contato, mas era apenas mais uma barreira em sua vida que teria que atravessá-la com a mesma obstinação que enfrentara outras. A mulher Rosa teria que assumir o lugar da menina que se desprendia das bonecas, das brincadeiras infantis, do faz de conta, dos contos de fada. Agora a mulher tinha fatos reais ao seu redor todos em erupção que iam do sexual passavam pelo afetivo como a paixão ate companheirismo e não podia fingir que não os enxergava, pois se sentia responsável por eles. Mesmo que pensasse em desagregá-los tudo aquilo era ela, era seu conteúdo, seu movimento, seu interior vivo e 131 intenso muito mais do que nunca. A mulher Rosa assumiria seu real papel com tensão prémenstrual, enxaquecas, discriminação, assédios de todos os jeitos, suas vulnerabilidades, mas teria que se defender como uma verdadeira mulher. Ficou feliz em ver como todos ficaram alegres com Júlio. O homem que reapareceu depois de tantos anos sem dar noticia. Os avós paternos voltaram a sorrir os amigos de Nossa Senhora da Boa Esperança comentavam sobre o fato que se espalhava como se aquilo fosse um grande milagre. Peregrinos das cidades vizinhas primeiro iam à casa de dona Hortência e seu Álvaro depois subiam a colina que dava na igreja de Nossa Senhora da Boa Esperança. Nas missas de domingo uma multidão incontável se aglomerava tanto dentro como fora na praça da matriz. Vários vendedores de pipocas com seus carrinhos, os de algodão doce, os de bexigas coloridas com gás, depois da missa a banda do coreto tocava sem parar suas musicas alegres enquanto as bexigas que escapavam das mãos das crianças subiam pelos céus. Enfim Rosa dividiu uma felicidade que todos achavam que ela era a mais beneficiada de todos. Júlio deu passos importantes nestas ultimas horas, sua memória dava indícios de que não 132 estava tão danificada como disseram os antigos especialistas, talvez este fosse o verdadeiro milagre e disso ninguém comentava com a devida importância. Rose determinada deixou de trabalhar na câmara, abriu um pequeno escritório próximo a sua casa, ficava mais tempo cuidando de Júlio do que no seu escritório. Fazia com ele caminhadas nas longas trilhas à beira do rio, mostrava lhe fotos, presentes, cartas que trocaram quando eram adolescentes. Cada hora que se passava Julio recuperava sua personalidade e o deficiente dava sinais de querer se despedir para sempre. Dois dias depois Luis Estevão ficou sabendo da novidade ao passar por Nossa Senhora da Boa Esperança para visitar Rosa e também se espantou com tamanha coincidência e ouvia atento aos detalhes narrados por ela. Mas ficou extremamente feliz porque seu pai apareceu para tampar uma lacuna que no seu inconsciente estava vago mesmo sem ter noção. Conversaram muito tempo durante o almoço no restaurante da cidade, inclusive sobre o relacionamento que ambos iniciavam com muito prazer e afinidades. Decidiram visitar Saulo na santa casa em Nossa Senhora dos Milagres, o solitário amigo na certa 133 não recebera visitas, muito piores noticias no que se refere a sua saúde tão debilitada. No caminho a tristeza derivada das condições do amigo deixou o casal contemplativo e pouco se falaram porem por nenhum momento deixaram de fazer carinho um no outro, também alguns beijos ardentes não faltaram. Rosa elogiava o gostoso perfume de Estevão, ele por sua vez admirava seus lábios carnudos e seus olhos verdes delineados pela maquiagem. Enfim chegaram ao antigo prédio de tijolos que fora um convento, na recepção indicaram o numero do quarto e seguiram pelos corredores brancos, gelados e o odor de éter que os acompanhavam. Dentro do pequeno quarto onde uma televisão ligada não tinha telespectador, Saulo, Ícaro e Emilio riam talvez por alguma piada ou fato contado. Saulo não tinha a bolsa de sangue sendo injetado em suas veias, nem o soro, isto muito alegrou os recém chegados. Também se viu feliz o enfermo ao ver Rosa, mas deixou o olhar curioso cair sobre Luis Estevão. As apresentações foram feitas e Rosa se desculpou por não trazer nada para ele e se explicou. _Quando estivemos aqui, não conseguimos vê-lo, estava sedado e não conseguiam conter a hemorragia do ferimento. 134 Saulo estava bem disposto e retrucou com ironia. _Eles não me conhecem Rosa, não sabem que me divirto pra viver. _Inclusive trouxe Luis Estevão para te conhecer, mas não foi possível. Saulo, Ícaro e Emilio tinham os olhos focados em Estevão quando entrou no quarto, a enfermeira Acácia, um medico de jaleco branco que tinha nas mãos alguns papeis e interrompeu as apresentações. _Alias, diga-se de passagem, não poderia ter apresentado pessoa melhor neste mundo, senhorita. Rosa curiosa indagou. _Como assim doutor? A enfermeira e o medico sorriam quando ele respondeu após ler os papeis que transportava, primeiramente olhando para o enfermo. _E Você meu amigo! Tirou o bilhete premiado. Fizemos todos os testes possíveis e todos deram positivos. O senhor Luis Estevão Navarro é compatível para ser doador de medula 135 ao senhor Saulo. O que aconteceu neste caso surpreendeu a todos por aqui inclusive no laboratório onde os testes foram realizados. Só necessitamos da autorização do senhor Luis Estevão para agendarmos o transplante em São Paulo. O medico tirou os óculos e voltou a ler os papeis antes de fazer ser ouvido pela ultima vez antes de se retirar. _Alias, uma ultima pergunta. Vocês têm certeza que não são parentes? Pelo menos o sobrenome é igual. O silêncio foi ambíguo, porem, no pensamento todos tinham uma só direção, também na face à expressão se fez em comum acordo diante a evolução das palavras que pronunciava o especialista em oncologia. Saulo foi quem quebrou a falta de palavras depois que o médico e sua auxiliar se retiraram perguntando para Luis Estevão. _De onde você é Rapaz? Estevão estava tranqüilo pausadamente sua origem. 136 e respondeu _Sou de São Paulo, porem a sete anos estou trabalhando e morando em Santa Fé onde minha mãe esta enterrada. Mesmo Rosa estava surpresa, pois desconhecia o fato da mãe de Estevão estar enterrada em Santa Fé. Saulo continuava sua investigação sobre o sobrenome Navarro que era o mesmo que o seu. _De quem você herdou seu sobrenome Estevão? _Dizia minha avó materna que o sobrenome era por parte de meu pai, mas nunca falou seu nome. Quando se referia a ele dizia apenas Navarro. Quando Navarro abandonou sua mãe, você ainda estava no ventre dela. O Navarro não merece ter filho, o Navarro não merecia nem ter nome, alias o sobrenome Navarro não te merece. Quando minha avó estava à beira da morte perguntei a ela o nome do meu pai, então ela me disse que fizera uma promessa para minha mãe, que nunca informaria o nome do meu pai a ninguém. E assim pensei, se este tal do Navarro fez tanto mal para elas não merece ter um filho como eu. Decidi não me preocupar mais com isso. 137 Saulo enfatizou, depois mudou o enfoque para os atores com uma pergunta já elaborada. _Devia ser um crápula! E vocês quando estréia a nova peça? Ou, vão ficar apenas nos ensaios? Desta vez explicações. Emilio se fez ouvir nas _Estamos acertando os últimos detalhes, com alguns patrocinadores. Depois alugaremos um bom teatro, figurino, cenografia, iluminação e aproximadamente seis meses deveremos estrear. Rosa ouvia atenta tudo que era dito dentro daquele pequeno quarto de hospital, onde a televisão continuava ligada a esmo, mas sua cabeça pensava em Saulo. Porque não se aprofundara em sua pesquisa sobre a arvore genealógica de Luis Estevão? Teria ele alguma espécie de medo? Um auxiliar interrompeu seus pensamentos informando o termino do horário de visitas. Todos se despediram desejando uma rápida recuperação ao enfermo, porem Rosa propôs dar uma ultima palavra às sós com Saulo. Quando saíram, ela indagou em voz baixa. 138 _Porque você não perguntou o nome da mãe de Estevão? _Rosa. Vou ser franco com você como nunca fui em toda minha vida. Na verdade fiquei com vergonha de ser este crápula do qual ele se referia. Rosa persistiu em dizer. _E se Estevão for filho da sua Jasmim? Saulo estava desiludido na voz e na face quando falava. _Esperei tantos anos para este encontro acontecer. Agora, estou com medo, agindo como um covarde fugindo da própria verdade. Mas, acho melhor assim, prefiro pensar na possibilidade de ser meu filho do que ser repudiado pela certeza de ser este crápula do seu pai. Saulo durante sua ultima frase apontava seu dedo indicador na sua direção. Porem, Rosa foi cautelosa ao dizer. _Me desculpe pelo que vou dizer Saulo. Você está sendo egoísta agindo desta maneira. Você não está preocupado com ele. Por pior que seja a verdade, é melhor do que a mais linda mentira. 139 _Como gostaria de pensar como você Rosa! Mas não consigo. _Você é única pessoa que lhe resta da família, e pra ele também, só tem você. Meu amigo! No começo vai ser complicado, mas conhecendo vocês dois como conheço sei que vão ser muito felizes depois que poeira abaixar. Saulo estava irredutível e exigiu. _Por enquanto vamos deixar como está, não sei se vou resistir ao transplante, tem a tal da rejeição. Pense bem. O rapaz descobre que tem um pai e dois dias depois o pai apesar de crápula morre. Desta vez não estou pensando, só em mim. Se for ele, vai ganhar um pai em bom estado. Não neste momento que me encontro, acamado sem saber se vou sobreviver. Rosa seguia mais seu coração sensível do que a razão dos seus pensamentos e mais uma vez em sua vida sentiu sua língua atada, não podia dizer o que sabia para não magoar as pessoas que amava demais. Sentia-se feliz com que poderia descobrir porem triste pelo egoísmo dos homens. Pensava ela em seu devaneio. De fato as pessoas não perdoam as outras, a grande maioria prefere sofrer o resto da vida que lhe sobra do que 140 perdoar quem os maltrata. Os homens tão inteligentes se acham superiores às mulheres e são incapazes de perdoar. Ela como mulher não conseguia entender como diante de uma questão tão simples uma inteligência sofisticada não funcionava devidamente. Ela pensava a todo instante como ajudar sem atrapalhar, mas teve coerência em seus pensamentos. Se perguntasse o nome da mãe para Estevão o mistério estava resolvido. Ou era, ou não era filho de Saulo. Se o nome da mãe fosse Jasmim, Rosa teria que guardar segredo. Porem, depois que tudo viesse à tona ela seria mal interpretada por Estevão, ela sabia de tudo e tinha omitido um fato de suma importância em sua vida. Será que ele a perdoaria? A saída então não era perguntar diretamente a ele. Rosa no momento não viu alternativa, a não ser o total silencio sobre esta questão. Para não se comprometer deveria agir da mesma maneira com sua mãe, na relação com Fred. Luis Estevão e Rosa voltaram para Nossa Senhora da Boa Esperança sem tocar no assunto, apenas comentaram sobre a coincidência da sua medula ser compatível. Do resto, muitos beijos e caricias durante todo o percurso e ao se despedirem no portão da casa de Rosa. Para o dia 141 seguinte eles haviam combinado de almoçarem juntos depois da faculdade. Estevão gostaria que Rosa experimentasse um tucunaré em posta assado com alcaparras ao molho de maracujá, acompanhado com arroz temperado com curry. Foram caminhando ate o restaurante que ficava próximo do antiquário. O garçom os atendeu esbanjando simpatia, pois Estevão era freqüentador assíduo e colocou os em uma das melhores mesas do lugar que lembrava uma casa adaptada bem ampla e decorada com bom gosto. Depois de escolher os pratos e as bebidas, Estevão pediu licença para ir ao banheiro, porem quando saiu deixou sua carteira sobre a mesa o que aguçou a curiosidade de Rosa que não hesitou em conferir o nome da mãe em sua identidade. Apesar, que, durante todo almoço se punia pelo ato indelicado, mas tinha plena certeza de ser por uma boa causa. Também ficou bastante feliz com o resultado e isso era evidente em sua expressão, mas quando foi perguntada porque estava radiante, explicou que o peixe estava acima das suas expectativas. Mesmo assim necessitava ter a confirmação e quem ficou feliz desta vez foi Estevão, quando ela disse que passaria o resto tarde com ele em sua loja. Rosa tinha um ótimo plano, e este formidável plano 142 unia o útil ao agradável sem duvidas. Desta vez foi Rosa quem convidou Estevão para um banho relaxante numa antiga banheira instalada em amplo banheiro revestido com mármore. Assim sendo ele fechou a loja antes do previsto, e os dois trancaram-se naquele aposento tão intimo como a intimidade que os dominou ate meio da noite. Estevão delicadamente desabotoou sua blusa branca de seda com estampas floridas de hibiscos vermelhos, onde o sultien branco mostrou sua cor, em seguida abriu-o e suavemente desceu sua boca ate os mamilos protuberantes de prazer. Enquanto a boca afirmada de sensualidade dele sugava os seios, Rosa sentiu as mãos fortes descerem seu jeans justo, e unida a ele também desceu sua calcinha expondo sua vagina que já se encontrava úmida e quente. Estevão pegou-a por trás ela apoiava-se nas bordas da banheira e penetrou-a com todo vigor, ela desta vez sentia como nunca seu pênis demasiadamente enrijecido explorando seu canal vaginal. Talvez sem o medo latente da primeira vez, Rosa viu aflorar à felina que estava dentro dela soltando gemidos estridentes enquanto os corpos morenos bem distribuídos contrastavam com a clara iluminação do banheiro. Duplamente feliz e realizada Rosa constatou que naquela bela 143 perna, esquerda, próximo do joelho tinha, um angioma ou mancha de nascença. E assim feita à constatação chegou ao orgasmo com muitos gritos que ecoavam pelos corredores do antiquário. Já em casa Rosa dormiu por toda noite como um anjo que encontrou a redenção em pleno inferno, sentiu-se que completara todos os objetivos. Que as coincidências estavam ao seu favor pelo bem da vida, a mesma vida que atenta observa o aflorar neste imenso jardim que é o mundo, o mesmo mundo que poderia se acabar, pois para ela naquele momento não existia mais ninguém, apenas ela e Estevão. As peças do quebra cabeças por coincidências surgiram do nada, agora só bastava uni-las ate um determinado momento para que em outras vezes desaparecer inesperadamente, e assim deixar lacunas nas vidas das pessoas que desesperadamente vão a procura. No dia que iriam para São Paulo fazer o transplante, momentos antes de partirem o céu tinha um azul anil que deixava indícios de êxito total. Todos estavam otimistas, era esta a expressão de todos dentro daquele pequeno quarto de hospital em Nossa Senhora dos 144 Milagres. Quando se despediram, Rosa disfarçadamente colocou um pequeno bilhete no bolso do casaco de Saulo dizendo ao pé do ouvido para ler somente quando estivesse sozinho. No pequeno papel estavam escritas apenas três frases, a primeira dizia. (Caro amigo Saulo vá e volte). Na segunda dizia. (Enfim você encontrou seu elo perdido). A terceira era afirmativa. (Ele é sangue do seu sangue. Vi seu angioma). O transplante fora um sucesso. E no dia seguinte Estevão retornou de São Paulo passando em Nossa Senhora da Boa Esperança para ver Rosa e dar noticias a respeito de Saulo que se recuperava ainda internado na unidade de terapia intensiva da Santa Casa, desta vez na grande metrópole. Rosa tinha consciência que a medula de Estevão transplantada teria que ser aceita pelo organismo de Saulo, e devido ser extraída por completa sua medula, Saulo estava muito vulnerável e qualquer vírus de uma simples gripe poderia matá-lo colocando todo o processo por água abaixo. Os primeiros dias seriam cruciais para o verdadeiro êxito do transplante. Mesmo pensando constantemente com carregado otimismo subia a colina ate a igreja de Nossa Senhora da Esperança para rezar, sempre 145 pedindo para que seu pai e Saulo se recuperassem. Nem mesmo os livros, sua eterna paixão era capaz de tirar sua atenção aos dois homens que de repente surgiram em sua pacata vida. Somado a eles Estevão dependia da boa saúde de Saulo para ser mais feliz do que já o era, e não podia ser diferente. Só pensava em um final feliz. Estava sendo egoísta em seus pedidos a Deus? Dentro da igreja ajoelhada, fixava seus olhos verdes na imagem de Nossa Senhora da Boa Esperança quando as lagrimas desceram pela face em comoção. Padre Vitório surgiu inesperadamente e a flagrou ainda enxugando os olhos e questionou com delicadeza. _Vejo que a menina pede por esperança e fé. Acredito que já exista dentro de você. Olha o milagre alcançado Rosa! _Não é por mim que peço padre, e sim para um amigo que se submeteu a um transplante de medula. Padre Vitório foi conclusivo ao falar pausadamente. _Então são dois milagres. Seu pai que surgiu das cinzas e seu amigo que conseguiu um doador 146 compatível. Situações bem raras! Pelo que percebo, deveria agradecer e não pedir. Rosa tentou se redimir perante o clero. _Nós seres humanos temos tendência infinita à insatisfação. Padre Vitório se viu diante de alguém que poderia estender sua doutrina e prosseguiu enquanto colocava em ordem alguns objetos sobre o altar. _Você sabe qual o fundamento básico no estudo de teologia? Rosa balançou a cabeça negativamente, mas tinha os olhos voltados para o padre, e na expressão total interesse aguardando sua explicação. _Apesar de toda teoria da qual nos alimentamos, nos confrontamos com a total comoção. Aprendemos a lidar com todas as dificuldades internas. Refletimos sobre muitos e problemas psicológicos da humanidade sem ser integrado a eles. Alem disso, os prazeres dos quais vocês têm como intuito, nós teólogos temos que nos abster para nos tornarmos homens de Deus. 147 Ouve uma pausa silenciosa. Rosa refletia sobre as palavras enquanto padre Vitório com um lenço branco limpava as lentes dos seus óculos, tão distante em seus pensamentos. Talvez, ainda quando fazia o seminário, onde o sim e o não como resposta teve que ser avaliado por anos. Perante a santa paciência de padre Vitório, Rosa questionou-o com ingênua curiosidade. _Padre Vitório. O que o senhor tem a dizer sobre o pecado e o inferno? Desta vez o religioso foi lacônico em seu parecer. _O pecado é tudo aquilo que cometemos de modo intencional que prejudique alguém. Disse e repito (intencional). E o inferno é o estado de aflição ou o fogo que nos queima internamente após cometermos os pecados. A resposta surpreendeu Rosa que sorriu com tanta admiração ao ancião e este lhe retribuiu de modo gentil e disse. _Sorria muito Rosa! Pois esta cidade vai ter uma festa como a nunca se viu por aqui. _Que grandiosa festa seria esta, padre? 148 _Esta manha. Recebi a visita de uma cidadã ilustre desta cidade. Ela quer se casar no dia de Nossa Senhora da Boa Esperança, no dia vinte cinco de maio. _Quem seria esta ilustre cidadã? _ Depois de vinte dois anos de espera, um sonho vai se realizar. Sua mãe vai finalmente casar com seu pai. Naquela altura sobre o cume da colina, Rosa observa envolvida de eterna paz o horizonte, enquanto descortinava uma tarde alaranjada onde o sol se escondia calmamente. O tempo parecia parar diante do deleite da bela jovem que não cansava de reverenciar principalmente depois do confortante dialogo com o clérigo. Os dias passaram suscetíveis ao anseio do retorno do amigo Saulo. E como eram boas às noticias vindas de São Paulo sobre sua recuperação, e assim Estevão e Rosa só tinha motivos para comemorar. Um dia Rosa pegava o ônibus ia ate Nossa Senhora da Santa Fé encontrar se com Estevão, no outro era Estevão quem pegava a estrada rumo a Nossa Senhora da Boa esperança, pois Rosa entrara em férias na faculdade. Enfim o verão chegara e com ele 149 trouxe as chuvas torrenciais, com relâmpagos, raios e trovões ensurdecedores. Na casa dos pais, Julio se via amedrontado com o temporal e os estrondos, diante da aflição aparente do filho os pais demonstram extrema preocupação, mas foi seu Álvaro quem o questionou. _O que te aflige meu filho? Julio tentando buscar em lapsos de memória algo que o incomodava. Explicava gaguejando sobre efeito do trauma procurando as palavras corretas. _Eu vejo que chove forte... Os pingos batem no pára-brisa do carro que estou dirigindo... Vejo também, uma ponte que se aproxima... De repente um cachorro preto cruza na frente do carro...Tento frear, mas o carro derrapa indo à direção do rio...Vejo-me caindo... Não me lembro de mais nada. Seu Álvaro e dona Hortência entre olharam-se com certa convicção de como se sucedeu o desaparecimento quando lembraram que chovia muito na trágica noite. Mas, segundos depois sorriam e alertando o filho do restabelecimento de sua memória e isto naquele momento era que mais importava para aquela simples família do 150 interior. Enfim sua memória dava sinais de melhora a cada dia, contando com o auxilio da família, Rose sempre incansável nos detalhes ligados no campo afetivo exigindo de Julio lembranças do passado cheio de beijos e carinho. O sorriso sempre presente em cada nome de amigo que conseguia se lembrar, o curso que fazia e onde trabalhava. Assessorados por um especialista em neurologia, a dedicação era árdua. Contudo, cada pequeno passo dado para elucidação tinha que ser comemorado e muito. Dona Hortência abandonou o vai e vem diário para igreja, o vestido preto de luto e quem a abordassem pelas ruas dizia com orgulho que a graça alcançada foi muita fé em Nossa Senhora da Boa esperança. Seu Álvaro voltou a dar suas gargalhadas como há duas décadas e desta vez foi ele quem passou a subir a colina rumo à igreja para agradecer e pedir perdão por haver suspeitado de Deus. Os meses passaram, enfim Julio se recuperou se livrou dos traumas que o acidente ocasionara e era visível em suas atitudes, pois voltou a trabalhar com seu pai na pequena loja de autopeças ou rindo com os amigos diante de assuntos variados. Na cidade quando andava pelas ruas recebia todas as atenções e cumprimentos daqueles que o atribuíam o 151 milagre recebido, como se não bastassem outros viam nele um candidato forte para prefeito de Nossa Senhora da Esperança. Porem, para a grande maioria o que eles queriam era saber como sobrevivera depois de ser arrastado por tantos quilômetros rio abaixo. Rosa aos poucos se adaptava a nova figura do seu pai e a distancia entre eles foi diminuindo lentamente, ela por sua vez ensaiava alguns carinhos tímidos, mas o que deixava divinamente feliz era ver que pessoas que amava dentro da família estavam contentes e deste lado da sua vida estava quase tudo resolvido. Enquanto que Saulo recuperava-se lentamente, Estevão ainda nada sabia sobre sua origem familiar e para Rosa não faltava vontade de dizer tudo que descobrira e acabar de vez com aquele mistério, mas prometera a Saulo que nada falaria. Se, era o silencio que Saulo queria, assim aconteceu. Os meses passaram e ele já não estava mais internado, voltou a trabalhar no circo como antes, porem muito mais feliz em suas apresentações, porque o que passou anos procurando encontrou seu filho Luis Estevão. 152 Rosas no vaso As chuvas foram embora levando com elas o verão, dando lugar ao frio do outono e suas noites estreladas. Dia vinte e dois de maio caiu num sábado sem nuvens no céu, um sol que não aquecia ninguém se despediu dando passagem à tranqüila noite que esfriava ligeira sob o olhar atento da lua nova que clareava bem no alto. Era dia de Nossa Senhora da Boa Esperança, padroeira da cidade que estava em festa. A igreja ficou pequena, para centenas de pessoas que vieram para as festividades, os que não conseguiram entrar tumultuavam do lado de fora na praça da matriz e nas barracas da quermesse. No amplo salão do templo, no corredor um felpudo tapete vermelho estendido, entre os bancos copos de leite e rosas vermelhas enfeitados por os laços de fita lilás. No altar os arranjos florais exaltavam o manto ornamentado de padre Vitório, os padrinhos, os pais, os coroinhas e fotógrafos bem trajados aguardavam ansiosos num burburinho ecoante. Nas paredes, afrescos de anjos e santos e os vitrais coloridos davam um brilho magnífico para ocasião. As 153 vozes silenciaram quando enfim a marcha nupcial deu seu primeiro acorde e todos os olhares se voltaram para o portal de entrada. Seu Nestor trajando um belo fraque preto que realçava a camisa bege de seda, a gravata borboleta marrom e o cravo vermelho na lapela. Sua face redonda e branca sorria de tanta felicidade. Rose usava um vestido branco de tafetá bordado em florais, à gola redonda acompanhava as linhas da grinalda de brilhantes bem lapidados, nas mãos um buquê de rosas vermelhas delicadamente amarradas por fios de prata, tinha nos olhos um brilho enigmático pela maquiagem e brilhante causado pela emoção. Lentamente ritmados pela musica caminhavam no corredor entre os bancos na direção do altar onde o tapete vermelho estendido contrastava divinamente com a cena. Enquanto pai e filha eram alvos dos olhares de todos os presentes percebia que deles emanavam profunda emoção, ate mesmo as crianças estavam hipnotizadas em suas roupas de adultos que mais pareciam miniaturas de pedra no jardim da comoção. Dentro daquele amplo salão onde realizam se atos litúrgicos não havia uma pessoa se quer que não estavam unidos na mesma energia. Talvez por alguns instantes todos tiveram a impressão que as pinturas de anjos e santos se 154 transformaram em imagens em três dimensões ganhando vida, alem dos raios da lua clara que atravessavam os vitrais coloridos que também acentuava o fascínio. Também os homens desprovidos da totalidade das emoções foram envolvidos e deixavam que notassem suas fragilidades mais profundas diante das provações. O imaculado só submerge quando a fé e a esperança se aglutinam e assim deriva o milagre tão contestado e a ressurreição totalmente improvável aos agnósticos. E entre as primeiras fileiras de bancos adornados com flores e fitas, lado a lado encontravam se Luis Estevão, o palhaço Saulo, a freira Lis Bela flor e os atores Ícaro e Emilio que não eram indiferentes à consternação. Enfim seu Nestor chegou ao altar trazendo com ele Rose nos braços e entregou-a para Júlio que estava ansioso e suava na testa no momento. E como manda o rito padre Vitório deu inicio a cerimônia tão aguardada pelos habitantes de Nossa Senhora da Boa Esperança do Sul. A recepção aos convidados foi no salão de festas do clube da cidade, aproximadamente quinhentas pessoas se espalhavam nas duzentas mesas à disposição. Dezenas de garçons se 155 misturavam entre os convidados servindo bebidas, canapés e salgados. A banda de cinco jovens cabeludos tocava rock pop e musica popular brasileira e as luzes dançavam sobre eles no palco. Não era difícil de visualizar Rose ainda vestida de noiva que circulava pelas mesas para os cumprimentos trazendo com ela Júlio que radiava felicidade. Numa destas mesas Ícaro, Emilio, Luis Estevão, Lis Bela flor e Rosa ouviam atentos Saulo e suas historias. _Quando criança, minha avó arrastava-me pelas mãos para ir à igreja nos sábados para ver os casamentos, mesmo sem ser convidada. Eu achava que ela estava ficando ruim da cabeça, porque sempre repetia ao dizer que o casamento era o segundo dia mais importante pra mulher. O dia mais importante era ter um filho. Saulo deu um gole no copo de uísque com gelo que estava revestido por um guardanapo e continuou seu saudoso relato. _Minha avó era cigana quando jovem. Tinha aguçada percepção nos destinos alheios. Muitas pessoas a procuravam para este fim. Lembro-me que brincava no quintal e as pessoas chegavam perguntando. Dona Calêndula está? Não 156 precisava nem responder, pois ela berrava lá de dentro. Quando Saulo pronunciou Calêndula, Rosa e Luis Estevão trocaram olhares incrédulos por mais uma coincidência, porem em seguida deixou o sorriso aparecer naqueles belos rostos morenos. Luis Estevão usava terno de linho branco, camisa rosa e gravata lilás, a jovem Rosa tão bem maquiada deixava os olhos verdes exacerbados, um vestido de crepe mostarda bem cortado com detalhes em vermelhos e nos pés os sapatos de boneca pêssego combinam com a bolsa da mesma cor. E mais uma vez bateram suas taças brindando o destino que os reservara uma infinidade de situações inexplicáveis, mas que se encaixavam perfeitamente. Mais de três horas de festa não era difícil de notar que alguns convidados que ainda permaneciam que o bom uísque, o excelente champgne francês e o vinho português que foi servido fazia seu efeito. As gargalhadas como as conversas eram elevadas a um tom acima do normal acompanhada das descontrações dos movimentos físicos. E por incrível que pareça em todas as festas são iguais, tem sempre alguém que quer falar mais que o outro. O álcool faz com que 157 pessoas aprisionadas se libertem como pássaros presos em gaiolas, ganhando coragem pra agir e falar o que sem ele lhes falte coragem para interagir, e atuando como liquido mágico, um elixir milagroso usado a milhares de anos. E foi sobre o efeito do álcool que Saulo desterrou. _Para que esta festa estivesse completa, faltava apenas, minha adorável Jasmim. Quando Saulo terminava de pronunciar sua frase, direcionou seus olhos em Estevão carregados de esperança de que ele, seu filho, o perdoasse. O que Saulo não sabia ou qualquer outra pessoa dentro daquele salão sabia, é que Luis Estevão procurava pelo pai como um cão que fareja. Assim sendo, Saulo viu lagrimas inundarem os olhos do filho e que o incitou também, e dirigiu-se na direção de Luis Estevão para um longo e apertado abraço que comoveu a todos que estavam próximos e sabiam do drama familiar. 158 Os espinhos da Rosa Meses depois, Saulo havia se recuperado sensivelmente como Júlio, e não podia ser diferente a felicidade de todos na região era algo muito divulgado e sacramentado pelo padre Vitório. Apenas Rosa não estava satisfeita com seus dias. Ela buscava em seus momentos de solidão desvendar o que tanto incomodava. A inquietação era denotada em sua aparência, motivo que influenciou em seu relacionamento com Luis Estevão, que não mais lhe propiciava tanta empolgação. Luis Estevão sempre indagava, ate que se cansou do flagelo de receber a mesma resposta. _Não te entendo, Rosa. Tudo que você gostaria que acontecesse em sua vida, de repente, como uma grande cortina dos antigos cinemas se abriu para seu bel prazer. Terminou sua faculdade, tem seu emprego no jornal, seu pai apareceu, sua mãe se casou. O que você precisa mais? Porem, Rosa era enfática ao dizer. 159 _Não tenho explicações e ter alguma idéia precipitada poderia cometer algum equivoco ou magoar alguém. Mas, posso te afirmar que esta inquietação não surgiu do dia pra noite. Aos poucos foi ganhando força, como um vulcão em seu processo longo ate explodir jogando cinzas e larva em quem está no seu sopé. Rosa entre tantas conversas que teve com padre Vitório durante esta fase de contraditórios lhe orientou a escrever sobre este momento de reflexão e que auxiliaria a ter uma concepção adequada. Rosa entre amigos e pessoas da família não conseguia expor suas angustias por completo, apenas o vigário tinha o poder de pinçar das suas entranhas o que te corroia. Organizando frases em frases, linhas por linhas, paginas sobre paginas, as diferenças entre seus fundamentos, Rosa destinava algumas horas dia em seu intuito seguindo o conselho do padre Vitório. Certo dia pela manhã o sol ainda rompia a neblina sobre o leito do rio dos Amores, quando Rosa subiu a colina na direção da igreja de Nossa Senhora da Boa Esperança. Bateu a porta da casa paroquial, onde padre Vitório recebeu-a quando ainda terminava seu café da manha. _Bom dia Rosa. O que te trás tão cedo, minha menina? 160 Rosa beijou a mão do padre com respeito de adepto, depois respondeu. _Gostaria de trocar algumas palavras com o senhor. Isso é se o tempo lhe sobra? _Entre e sente-se aqui. Arrastou uma cadeira o prosseguiu. velho ancião e _Sempre tenho tempo para uma ovelha em apuros. Esse é o bom pastor! Rosa tinha seus olhos fixados numa pequena imagem de nossa Senhora sobre um suporte colocado no canto da cozinha, quando falou. _Desde que me entendo por gente, quantas e quantas vezes subi esta colina para vir à igreja cobrar destes santos a minha falta de fé e esperança. Perguntava incessantemente porque minha religião tinha me abandonado. Sem respostas aqui procurava na solidão dos meus passeios as margens do rio. E foi lá que encontrei respostas pra tudo que queria. Padre Vitório interrompeu-a com um belo sorriso na face alva de poucas rugas. 161 _A igreja é apenas o templo de orações. Aqui você pede e o milagre acontece no mundo. _Sim padre. Disso não da pra ter duvidas. É que passei minha infância, adolescência e parte da minha juventude nesta confusão. Embutida de corpo e alma na procura de quem poderia auxiliar-me. Depois que tirou algumas folhas de uma pasta Rosa continuou. _Gostaria que o senhor ouvisse este texto que escrevi em relação a isso. _Claro que gostaria. Leia filha. A criança que me habitava Certa noite que a insônia me deu o profundo prazer de deixar distante o sono que é natural das espécies percebi a ausência desta criança que era proprietário deste invólucro de carne e osso que se locomove. Esta criança sofreu uma infinidade de limitações enquanto aqui esteve. Também foi hostilizado com apelidos durante sua formação escolar, foi humilhada e agredida por adultos estúpidos e mesmo assim não se deu por vencida 162 e ria muito depois do choro. Quando não estava sendo exigida a cumprir suas obrigações, pulava, corria, gritava, ria, caia, levantava. Por onde andará esta criança? Não se preocupava se estava ralada, a roupa rasgada ou suja, se os cabelos estavam despenteados, se as unhas estavam grandes, se estava suada. Nem pensava o que aconteceria sua mãe ficasse desempregada. Alias, nem sabia o que era desemprego, necessidade, conta de luz, conta de água, telefone, IPTU, IPVA Aquela criança ficava fascinada com historias de lindas fadas, invisíveis gnomos, heróis magnânimos do cinema, da TV e dos quadrinhos. Ria escancaradamente com a arcada cheia de falhas, dos palhaços do circo e as velhas cenas repetidas dos olhos que espirravam água, do velho calhambeque que explodia no meio do picadeiro. A principio se assustava como todas as criancinhas, mas depois se envolvia de muita alegria. Onde andará esta criança? Lembro que esta pequena criança não resistia a um escorregador, um gira-gira, um escondeesconde, brincadeira de cabra cega, jogar 163 amarelinha na calçada, ver pipas nas férias escolares. Lembro também, como esta criança ficava com os olhinhos brilhantes ao ver as luzes e o colorido dos parques, o carrossel, a roda gigante, o chapéu mexicano que era com adrenalina e destemido por muitos, também ouvia a musica de fundo do realejo enquanto corria de um brinquedo para o outro, bem ofegante na respiração. Esta criança nunca se cansava ao correr em companhia do cachorro no espaçoso pedaço de terra do sitio do tio no interior do Paraná, onde esteve varias vezes nas férias escolares. Com um misto de curiosidade e ilusão ficava horas observando os pássaros sobre as arvores imensas de jacarandás, ipês, araucárias, angicos, e ate construiu uma gangorra no jequitibá. Perdeu as contas de quantas vezes subiu ligeiro na velha goiabeira, ficava um bom tempo no alto da ameixeira quando carregada e só descia de lá quando satisfeita. Num amplo lago onde alguns patos tinham como território, esta criança arremessava repetidas vezes um pedaço de galho de arvore para que o cachorro nadasse no resgate. Gostava de ir ao estábulo para servir milho ao tordilho antes de sair para cavalgar pelo descampado que dava pra um enorme vale que servia de pasto para algumas dezenas de cabeças 164 de gado. À noite no sitio aquela criança se amedrontava com a escuridão, o vôo cego dos morcegos, dos curiangos, das corujas e as historias de fantasmas. Também tinha medo do banheiro, da janela, dos barulhos antes do sono sucumbir, mas se encantava com o pisca-pisca dos vaga-lumes e pirilampos e ao amanhecer despertava feliz com o cantar dos galos no terreiro. Por onde andará esta criança? Aquela criança não era totalmente inserida no mundo, assim pensava eu em determinado momento da vida, porem hoje o que percebo com clareza é realmente o contrario. O mundo penetrava na individualidade indispensável daquela criança. Seja qual for o continente que se visite, em meio a florestas, onde há neve, guerras sangrentas, no centro da miséria e fome, com toda certeza terão crianças brincando ou rindo e que nós adultos jamais saberemos o real motivo, porque a criança que nos habitava não está mais lá. Em determinada época podia sentir o peso da total responsabilidade pelo suposto sumiço repentino dela, mas ao colidir com a famigerada ansiedade, revela agora a seriedade que eu não sou o único nesta confusa questão, muito dos 165 meus pobres amigos sofre do mesmo infortúnio. Estive procurando sobre os escombros adulto do meu interior, vestígios daquela criança esfuziante, que por lá dançava ao som da vida. Pra ser sincero, nada encontrei de concreto, apenas relatos da sua doce e precoce estadia que instintivamente a todos envolveu com sua ingênua infantilidade. Uns poucos incertos que com ela se defrontou por certo se arrependeram e hoje com certeza sofrem do mesmo mal que me assola. Não acredito que esta nobre criança volte do reino encantado do mundo feliz para este invólucro de instabilidade emocional. Hoje tenho uma suposta conclusão de quando esta criança tenha desvencilhado deste adulto estúpido e convencido que mostrou sua precipitada arrogância. Acho que certamente foi no final da adolescência, entre os vinte anos, quando por estupidez os mais velhos exigem um amadurecimento transparente herdado dos seus pais sem nenhuma psicologia. Rosa enquanto relatava as ultimas palavras da frase tinha os olhos voltados pro espaço vazio, mas no completo das suas lembranças. Padre Vitório aproveitou do intervalo e se fez ouvir depois de dar um gole na xícara de café que ainda fumegava. 166 _Seu texto é muito rico de detalhes. Talvez a grande exigência da humanidade seja essa. Que o tempo voltasse a trás. Rosa se postou de pé e prendeu seus belos cabelos como rabo de cavalo e fez seu desterro. _Não deixei de fazer nada que uma criança normal faz, apenas lutei muito pra conquistar minha liberdade em todos os âmbitos. No colégio, na faculdade, no trabalho e entre os amigos consegui o merecido respeito. Era pra estar comemorando tantas vitórias. Um bom exemplo é a restauração da minha fé e não sentir este imenso vazio. Sinto-me como se não houvesse nenhum motivo para lutar. Mais me pareço um pássaro que tem a porta da gaiola aberta, porem não sabe para onde voar. O padre caminhou a passos lentos com o auxilio da bengala ate o fogão onde estava o bule de café e preencheu sua xícara, e interrompendoa. _É apenas um momento de indecisão que você está atravessando, Rosa. Isto é natural. _Não é indecisão, padre Vitório. É de contra quem e o que lutar. Tudo se resolveu simultâneo 167 nestes dois últimos anos da minha vida. Todas as batalhas que criei sai vencedora. Sei que existe uma nova batalha, porem ainda não encontrei os motivos nem os oponentes. Padre Vitório afagou carinhosamente uma das mãos de Rosa, tinha os olhos fixados nos dela e se fez ouvir. _A grande maioria das pessoas que conheço desviam das batalhas pensando que encontrarão a paz eterna. Puro engano! Tenho minhas convicções de que não existam dedicações com tais semelhanças, como padre, jornalista e medico. Vivem no meio de conflitos e quando não a procuram. É o nosso destino gritando lá dentro. Minha filha. Você é jornalista! Vá dizer aos quatro cantos deste país o que está errado. Não seja medíocre como a grande maioria que ficam em cima do muro. A sociedade necessita de fé, de saúde, como precisa de jornalistas berrando por ela. Às vezes penso que a tal da ditadura amansou os homens da palavra escrita, como o peão do campo que amansa o burro a puxar arado pro resto da vida. Tenha coragem e amor pela sua profissão! Não deixe que te façam puxar arado pro resto da vida. 168 Os olhos de Rosa brilhavam de emoção derivada das sabias palavras, mas se fez ouvir mesmo assim. _Sabe, padre. Gostaria de me preocupar com assuntos banais, imagens que meus olhos vêem. Como as águas do rio dos amores descendo lentamente, sem aquelas fortes correntezas dos dias de tempestade, também sem aquelas tragédias que nele se depositou. Ver o sol claro rompendo as copas das arvores, os pássaros pulando de galho em galho, porem, isso apesar de tanta beleza não preenche mais. O ancião do celibato continuou afagando as mãos da jovem quando a interrompeu. _Rosa, minha delicada flor! Você germinou tornou-se um lindo bebê, quando criança também foi um lindo botão, foi desabrochando na sua adolescência, e agora chegou à florescência. Tornou-se uma linda mulher, porem, descobriu que no seu caule existem espinhos só que também servem para te proteger das intempéries do tempo. É apenas liberdade que você procura. Não deixem que te limitem! Padre Vitório levantou e caminhou num vai e vem sem direção no pequeno espaço que sobrava 169 daquela cozinha, como que buscando palavras para a sua síntese. E desatou. _Talvez em sua curta vida conheceu pessoas que buscavam a verdade em algum lugar que no passado deixou. Não porque quisesse esconder, mas por omitir o próprio momento. Também deve ter conhecido pessoas que se faz ouvir com desempenho porque em suas expressões não foi percebido. Tenho absoluta certeza que conheceu pessoas que querem o poder a qualquer custo. Sabe Rosa. Quando ainda cursava teologia procurava resposta no céu pro inferno que é a terra. O único fato que descobri, é que não existe resposta. Quer saber qual o único fato que me aproximei com toda sinceridade? Rosa permitiu com um aceno da cabeça enquanto o padre assoprou seu café e deu um gole antes de continuar. _Descobri que o homem é incapaz de dar a luz. Conseqüentemente a mulher não foi constituída da costela de Adão. Ficou claro pra mim, que o homem é uma criação do desejo desesperado do universo feminino e suas carências. O desejo de ser protegida, de ser tocada, manipulada. A outra parte que lhe faltava. Porem, ela descobriu recentemente que sua 170 criação, o seu rebento, é desprovido do verdadeiro amor, que com ela nasce naturalmente. O rebento, por sua vez nasceu repleto de adoração. Também descobriu que ele é autor de todas as agressões diretamente a ela. E assim descobri o significado do livre arbítrio que todos temos o direito. A incoerência com nosso livre arbítrio vêm nos destruindo há tempos. Rosa tinha no semblante devoção pura pelo que padre Vitório havia exposto, pois jamais, em sua curta vida pensou que saísse da boca de alguém tal conjuntura a respeito deste sexo desfavorecido, principalmente de um representante do sexo oposto. Pensou em Jesus quando veio ao mundo, filho do espírito santo, e como havia enorme coerência e relação nos fatos. Sentia-se privilegiada por ser testemunha de grandioso relato, que mesmo em todos estes anos de estudos não havia lido algo com tanto teor de verdade. A perplexidade deixou-a reflexiva que o silencio reinou no recinto onde o alimento sagrado é exposto sobre a mesa. A imagem da santa no suporte no canto da parede cresceu em sua visão, não de tamanho e sim de importância. O manto, as cores, e outros adereços da pequena imagem continham historias que pela sua cabeça não passava que houvesse tanto poder. Para ela, 171 aquilo era incrível! A sua admiração ao pároco tornava-se maior que já o era diante da revelação que colocava a mulher num altar que não estava nas igrejas, mas nas ruas e avenidas, nas praças e nos campos. O mundo pertencia ao universo feminino tão sucumbido ao machismo catastrófico que assolou pela fragilidade do corpo e músculos. Sentia-se revigorada outra vez, e uma nova batalha se desenhava em seu rumo. Decidiu buscar historias de incoerências, onde quer que elas se encontrem. Padre Vitório em seu dia havia muitas famílias que necessitavam da sua dedicação, do seu trabalho social fora da igreja na cidade de Nossa Senhora de Esperança do Sul, mas antes de dispensar Rosa da casa paroquial com educação abriu uma gaveta e dela retirou um envelope, que a entregou, porem antes salientou. _Leia esta carta que minha sobrinha, Acácia enviou-me recentemente, depois de sofrer um grande drama por efeito das incoerências. Você vai ver que problemas não faltam, onde esteja e onde for. O padre e a jovem saíram caminhando para descer a colina, mas Rosa decidiu sentar-se num dos bancos da praça para ler a carta da sobrinha 172 do reverendo. Buscou na memória o nome, Acácia. Preferiu aproveitar o sol matutino que estava deslumbrante. Os raios do sol atravessavam os galhos e folhas dos angicos, das sibipirunas, das paineiras que derramou suas flores rosa ao chão. Era final do verão e algumas nuvens carregadas surgiam no horizonte. Enxergava-as no final da calda onde o rio dos amores serpenteava as colinas. Rosa abriu o envelope, aproveitando o ermo do lugar leu em voz alta. Espero que esta simples carta encontre o senhor, tio Vitório ofertando o melhor do senhor para com os necessitados. Estava ali estática numa das calçadas de esquina próximo ao MASP em plena avenida Paulista, no sentido da Consolação. Olhei a minha volta num movimento lento de trezentos e sessenta graus, alem dos prédios e placas, ônibus, carros, homens vi também muitas mulheres quase da minha idade que transitavam objetivas rumo as suas pendências diárias. No auge dos meus trinta anos nunca me encontrei nesta situação que percebo nestas mulheres aceleradas em trajes quase semelhantes. O som ruidoso da grande metrópole com buzinas, sirenes, e o amontoado de vozes fez não sentir tanta pena de mim. 173 Da cidade de nossa Senhora do Bom Parto, onde moro ainda ouço os cantos dos pássaros em revoada, o soprar dos ventos nas arvores, nas ruas ainda é possível ouvir às conversas das vizinhas no portão, as crianças voltando da escola numa feliz algazarra, os galos cantando em resposta nos quintas da proximidade. Porem, aqui neste tumulto urbano evidencio a luta constante das pessoas contra o tempo. Aqui no caos o tempo não pode ser perdido, ele não passa em vão. O preço das horas, dos dias, dos meses e dos anos a cotação é alta, somado a isso tem o tempo ido que o espelho exacerba sem dó. O tempo tem que ser completado, no cronômetro, estabelecido, e se possível estendido em horas extras, cirurgião plástico, centro de estética, auxilio de outros profissionais. Já em Nossa Senhora do Bom Parto o tempo passa lento, tanto que se acompanha o sol no zênite. O ano se divide em quatro estações. No outono sobra laranja e limão e determina o fim da colheita do café e o inicio da estiagem. No inverno com frio vem à geada que queima a plantação e o pasto. Sendo assim diminui a quantidade na produção do leite e seus derivados, mesmo assim prepara-se a terra para o plantio. Na primavera começam as chuvas, germinam as sementes, os insetos trabalham na polinização das flores, temos mel em abundancia, os pássaros em acasalamentos. No verão a cidade inteira 174 exala goiaba, caqui, manga, as chuvas no final de tarde deixa os campos mais verdes e ainda sobra tempo nas tardes abafadas pra conversar sentado nos bancos e cadeiras em frente das casas. Ainda me lembro (era por volta dos meus dezoito anos), foi em um destas tardes de conversa no portão que marquei um encontro com André para irmos á praça no sábado à noite. Conhecíamos-nos desde criança (tínhamos quase a mesma idade que teria hoje a pequena Azaléia, oito anos), mas ainda não havíamos nos acertado, como se diz lá no interior. André sempre foi um rapaz muito esforçado, sem vícios, trabalhador, homem rústico e sem vaidades que no interior tem de sobra, mas que tem o caráter e a honra medida em peso de fio de bigode. Ainda lembro e guardo na memória quando lentamente André com suas mãos calejadas segurou pela primeira vez a minha que estava gelada de insegurança convidando-me para ir ao cinema. Ainda lembro feliz do filme, um musical (Moulin rouge) e a canção (Your Song do Elton Jones) interpretada pelo casal de atores passeando pelos telhados de Paris, e também não da para esquecer o primeiro longo beijo. Ainda me lembro quando André sentado às sós com papai na sala pedia para namorar comigo. Eu, minhas irmãs e mamãe atrás da porta do quarto em silencio tentando ouvir se papai autorizava ou não. Também lembro quando pediu minha mão em casamento, todos os presentes que estavam na sala viram a 175 insegurança que me dominou. Talvez tenha sido uma das primeiras vezes que percebi que meus olhos não estavam focados para fora de mim e sim para dentro. Foram reflexões profundas daquela moça, que estava fazendo perguntas e se assustou porque existiam dezenas de respostas sem definição. Passei muitos anos da minha vida só olhando pro meu exterior patético, os cílios e sobrancelhas, os lábios, os cabelos as unhas os brincos das orelhas, os vestidos que cobriam o corpo. Realmente as únicas vezes que olhei pra dentro de mim, foi quando escovava os dentes ou quando eles doíam. Nem quando tive a primeira menstruação refleti sobre o interno, apenas sentia muito incomodo com aquele volume intruso. Naquele momento era uma visão diferente, alem da mulher repleta de volúpia, sedutora, de cabelos castanhos claros havia uma bagagem invisível e que tinha peso (só que não eu sabia que era tão pesado assim). Aos vinte dois anos casei com André na paróquia da pequena cidade de Nossa Senhora do Bom Parto. Ainda me lembro, dos quatro cavalos negros que brilhavam a luz da lua clara, puxando pelas ruas de paralelepípedos uma bela carroça entalhada com enfeites de ramos verdes onde o branco do vestido se destacava. Ainda ouço os gritos do cocheiro dando ordens ao plantel de garanhões, também ouço o ecoar das ferraduras em choque com o piso de pedra firme. Ainda lembro a alegria estampada nos sorrisos que cruzei naquele túnel de gente que testemunhou a reciprocidade 176 daquela mulher. Ainda lembro o aroma do ambiente quando André pegou-me, e carregando-me no colo adentramos em nosso lar repleto de esperança, muitos sonhos, companheirismo e amor. Também lembro tão organizado que André mantinha a geladeira, o armário de mantimentos, seus sapatos, suas ferramentas de uso domestico. Ainda me lembro (parece que foi ontem) quando voltei do medico depois de constatar que estava grávida. Olhava-me totalmente nua de perfil diante do espelho de corpo inteiro, e com as duas mãos alisava uma pequena saliência na barriga que em breve se chamaria: Azaléia. Cheguei a São Paulo faz quatro dias, mas sinto-me como se já estivesse por aqui, umas duas semanas. A todo instante, em qualquer esquina ou cruzamento me defronto com uma cena de estupidez, de ignorância motivada pela falta de paciência. A harmonia se escondeu no cotidiano do sincronismo maquinal. Não parecem pessoas. Assemelham-se as maquinas movida a ódio. Não sabem por que discutem, apenas cumprem ordens do urbanismo. O dia ainda estava claro quando desci no terminal rodoviário do Tietê, mas antes de chegar à rodoviária foi quase uma hora travada na lentidão das marginais e provei um pouco deste péssimo veneno. O mesmo veneno que abastecia almas degeneradas como a do Gabriel. Nome de anjo querubim, mas que transportava tristeza para quem encontrasse no caminho. Gabriel! Terei que 177 levar este nome junto a sua face ate meus últimos dias, porem, será apenas um encontro. André foi resoluto em não querer ver a fisionomia e ouvir a voz de Gabriel. Disse-me de olhos baixos e lagrimejados que seria uma dor a mais que teria que carregar, já que o passado não teria como apagar. Engraçado! Vivemos boa parte de nossas vidas querendo arquivar bons momentos em que nela aconteça. O mais incrível que aqueles momentos indesejáveis não existem a menor possibilidade de bani-los. André não aceitou esta seqüência da terapia, preferiu interrompê-la. A terapeuta ressaltou que deveria ser insistente para seu retorno, porque seria fundamental para o êxito da terapia do casal. Vejo bastante coerência nesta avaliação da doutora Orquídea, ela é especialista em psicologia, disse que ambos necessitavam ter a mesma visão sobre o drama. Espero que quando voltar a Nossa Senhora do Bom Parto consiga ser convincente para André muito mais nas atitudes e gestos do que com as palavras e assim ele volte à terapia. Para ser sincera, estou muito preocupada com André. Para homens como ele carregado de pureza e honestidade, pouca leitura, mas, muito trabalho e dedicação à família fica difícil de aceitar tais erros com camuflada imputação. Para homens honestos não existe desonestidade, para homens puros de alma não existem sujeiras, para homens dotados de bondade não existe maldade, principalmente com crianças. Tenho certeza que para eles o impacto seja mais profundo. Não 178 vejo à hora de chegar a Nossa Senhora do Bom Parto e ficar ao lado dele, tenho medo que tome alguma atitude impensada. Apesar, que em São Paulo existem poucas coisas que me faz lembrar-se de Azaléia, aqui me sinto um pouco mais aliviada sem esta associação indireta. Em Nossa Senhora do Bom Parto, tio Vitório o senhor conhece bem, tudo é muito pequeno o centro da cidade tem apenas duas ruas. Quando vou ao supermercado passo em frente à escola que Azaléia estudava, as suas amiguinhas são todas vizinhas e todo santo dia, as vejo na mesma calçada brincando de amarelinha, pulando corda ou qualquer outra diversão. Apenas ela não está lá. Dentro de casa, na sala, no seu quarto ainda tem seu cheiro, têm seus lugares preferidos, seus pratos prediletos que pedia que fizesse para ela. Na televisão seus programas que diariamente via chamam minha atenção. Pela casa não existem mais seus bichinhos de pelúcia espalhados, não tenho mais suas roupas pra lavar, os longos cabelos pra pentear. Não tenho mais para quem perguntar se tem lição de casa pra fazer. Não levaram apenas a minha pequena Azaléia, mas também sugaram quase tudo ao seu redor. Procuro não pensar muito sobre a agressão, faz parte da terapia, foco meus pensamentos em lembrar-se da sua voz quase rouca cantando as musicas da dupla Sandy e Junior, dos seus passos pelos corredores ou dançando na sala ou sua gargalhada estridente com um pouco de sarcasmo. 179 Depois que sai do encontro com Gabriel na Fundação Casa que abriga menores infratores, pedi ao taxista que me levasse à igreja Nossa Senhora da Consolação. Sentada no banco da igreja vazia aproveitei para apreciar as pinturas, os vitrais, as esculturas, a arquitetura e apenas o pai nosso veio em minha mente. Se fosse em outras épocas teria uma visão mais bela do que vi, talvez rezaria com penitencia de beata. Saindo da igreja subi a avenida da Consolação e descobri que tem um cemitério homônimo. Enquanto subia a extensa avenida veio em minha mente à possibilidade de mudar para São Paulo. Escolher um bairro tranqüilo e arborizado. Uma residência seria o essencial. Acredito que jamais André se adaptaria morar em um apartamento, porem o mais difícil era fazê-lo sair da sitio, do trabalho do campo, os amigos de longos anos, seus cavalos, seus cachorros. Como a vida nos surpreende, tio Vitório! Quando jovens temos a convicção que estamos nos casando com um homem e nada mais. Depois é que enxergamos que alem do homem vem agregados seus defeitos e qualidades, seus hábitos e manias, seus bichos e amigos. Aqui em São Paulo a tragédia è cotidiana, nos defrontamos com ela em cada esquina, nos hospitais, nos cinemas, nas portas das igrejas, debaixo dos viadutos repletos de moradores de ruas. Em Nossa Senhora do Bom Parto a tragédia é fato extraordinário, isolado. Sua casa vira ponto de referencia, local de peregrinação, nas ruas as pessoas te olham com piedade. 180 Não há lugar que ande que não façam lembrar-me do meu fardo. Gostaria de continuar vivendo. Apenas ter uma vida normal, o presente. Não da para esquecer o passado, mas não quero lembrar-se desta mancha de agressão. Do passado quero apenas o perfume da Azaléia e seu belo sorriso. Não quero lembrar que fui punida pela mesma sociedade que faço parte. Esta sociedade egoísta que nós alimentamos todos os dias em todos os seguimentos. Não quero lembrar-se desta sociedade que auxiliei na sua estrutura de produzir subprodutos como tantas outras crianças como o Gabriel. É bem neste ponto onde meu sofrimento se salienta tio Vitório. Eu dei suporte a esta sociedade loquaz e voraz. A mesma sociedade que vai destruindo multidões e forjando milhares de delinqüentes juvenis. Na fundação fiquei frente a frente com Gabriel e perguntei a ele o que fazia quando tinha oito anos, a mesma idade que tinha Azaléia. Respondeu-me sobre o efeito do cárcere e seu vocabulário chulo, também constrangido não pelo que fez, mas muito por estar diante da mãe da sua vitima. Gabriel disse-me que nesta época havia parado de estudar, não tinha o que comer em sua casa. Seus pais estavam desempregados e viviam alcoolizados, alem do que batiam muito nele. Foi para os cruzamentos pedir dinheiro e nos bares e lanchonetes pedia o que comer. Deus me deu uma linda flor tio Vitório, que 181 enriqueceu o meu jardim durante oito anos, de repente uma criança com uma arma em punho podou-a de lá. Rosa terminou de ler a carta estarrecida pelo drama que assolou Acácia, porem uma enorme janela abriu em sua mente faminta de historias forte. Agora tinha certeza onde as encontraria, na grande metrópole. E assim Rosa gritou lá de cima da colina. _São Paulo, lá vou eu! Fim 182