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E-book
Rose O Rosa
Rose ou Rosa
Zé Gertrudes
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Índice
03.....Agradecimento
05.....Rose ou Rosa
22.....A Rosa germinando
34.....O aflorar da Rosa
40.....O Circo
91.....O Teatro
153.....Rosa no vaso
169.....Os espinhos da Rosa
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Agradecimento
Por volta dos meus cinco anos, ainda sem ter
consciência das atitudes tanto minhas como
alheias presenciei simples atos que marcariam
meu modo de observar o mundo pra sempre. Foi
nesta fase da infância que tive minha primeira
experiência com o amor, é evidente que platônico
e por uma menina que se chamava Rose. Era tão
venerada pela beleza que enxergava nela, mas ao
mesmo tempo extremamente distante, pois nunca
fui capaz de lhe dirigir uma simples palavra.
Minha avó materna, Maria Gertrudes de quem
surrupiei o sobrenome tomava conta de mim
mais quatro irmãos para que meus pais pudessem
trabalhar, pois a situação financeira era
complicada para o jovem casal de operários.
Lembro-me como se fosse hoje, apesar de ter
apenas cinco anos. Morávamos na zona leste,
periferia de São Paulo. Segurando-me pela mão,
minha avó levou-me a um lixão numa das
indústrias Francisco Matarazzo que manufaturava
vários produtos. Ainda vem-me a imagem com
muita clareza, ela removendo entre detritos as
sobras de panos que guardava numa sacola de
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feira. Já em casa, improvisava um fogão a lenha
com tijolos em seu quintal, em uma lata de tinta
vazia, destas de dezoito litros colocava os restos
de panos para ferver, enxaguava-os e voltava ao
fogo com água, mas desta vez colocava corante
azul e em outros vermelhos. Depois de secos os
retalhos eram cortados em quadrados. E sentava
na sua velha maquina de costura, onde era
transformado em camisas e bermudas o tecido
mais fino de espessura, com o grosso fazia colcha
de retalhos que nos aquecia no inverno. Alem
desta brilhante dedicação aos netos, minha avó
ficou viúva com oito filhos para criar e posso
afirmar com orgulho que estes oito filhos
tornaram-se pessoas dignas. Por estes motivos
agradeço a todas as mulheres que fizeram parte
da minha vida mesmo que minusculamente, e por
que não dizer das mulheres que farão ao ler este
modesto romance que tento embrenhar-me ao
universo feminino tão fascinante e rico de
detalhes. Sensíveis detalhes, mas que foram
determinantes para o melhoramento da espécie
como um todo. Gostaria de presenteá-las com
flores se fosse possível, evidentemente o numero
é assustador porem decidi colocar em meus
personagens femininos nome de algumas flores e
assim homenageá-las de forma coletiva.
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Rose ou Rosa
Júlio conheceu Rose ainda na infância por
volta dos dez anos quando sua família mudou-se
para a mesma rua que morava Rose. Na pequena
cidade de Esperança do Sul, a primeira vez que
Júlio viu Rose brincava de amarelinha na calçada
com suas amigas; ela usava um vestido, cor de
rosa com manchas brancas. Então Julio
entusiasmado com que vira gritou.
_Oi Rosa. Mais que rosa Tão linda!
A menina se enfurecia pelo que ouvia e
retrucava berrando mais alto ainda.
_Meu nome não é Rosa, é Rose. Seu moleque
imbecil.
As amigas riram deliciosamente de Júlio que
de agora em diante era simplesmente imbecil.
Quando elas o encontravam nas ruas da cidade,
na escola, nas festas, na sorveteria, agora gritavam
todas em coro.
_Oi Júlio. Moleque imbecil!
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Júlio por sua vez não perdia a oportunidade
de dizer o que sentia e também gritava, podia
estar onde fosse.
_Você é a rosa mais linda que já vi nesse
imenso jardim que é mundo!
Ela sempre retrucava na mesma altura da
voz.
_Meu nome não é Rosa. Moleque imbecil.
E o Júlio sabia a que caminhos percorrer,
salientou docemente.
_Para mim sempre será Rosa, pode ate o
rio correr para cima. Sempre será uma rosa.
Na pequena cidade de Esperança do Sul
passa um pequeno rio que corta a cidade ao meio,
com o nome de rio dos Amores. Recebeu esse
nome por folclore dos moradores que passavam
de gerações a gerações. Diziam, que ha muitos e
muitos anos atrás um jovem rapaz pobre
amarrou-se a uma grande pedra e se jogou dentro
do rio, após saber que sua namorada casaria com
outro rapaz, filho de um grande fazendeiro da
região.
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Na cidade também havia varias pontes de
madeiras. E namorar sobre as pontes era o que
mais gostavam de fazer os adolescentes. Debaixo
das pontes o rio dos Amores corre lentamente e
junto com as águas passam os anos rapidamente.
Júlio já estava com dezoito anos no final do
colegial. Não gritava mais como antigamente.
Talvez por vergonha muito comum nessa idade
da voz que começa a engrossar feito homem (que
não parece ser sua), e nem as espinhas que
insistiam aparecer em seu rosto. Mas, não deixava
de dizer o que sentia seu nobre coração, quando
encontrava com Rose, no colégio, nas discotecas,
no cinema, nos banhos de lagoa que o rio formou
por capricho da mãe natureza.
Um belo dia Júlio resolveu, estava decidido a
falar. Os dois se encontraram sem amigos em
companhia na fila do cinema.
_Como você está linda hoje Rosa! Será
porque está sempre de braços dados com beleza?
A jovem realmente estava mais atrativa para
ele na sua adolescência. Rose desfilava com um
jeans desbotado e justo que denotava sua silhueta,
do quadril até o perfeito tornozelo, uma pequena
blusa rosa que deixava o umbigo angelical
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exposto ao martírio de Julio. Respondeu de
maneira mais doce do que educada.
_Garoto você é mesmo um imbecil muito
grande. Estou cansada de falar pra você que o
meu nome não é Rosa, é Rose.
Neste exato momento inoportuno apareceu
como que do nada Margarida, uma amiga da Rose
e invadiu o começo daquele que poderia ser o
primeiro dialogo entre Julio e Rose. E se explicou
à amiga.
_Oi Rose. Quase que cheguei atrasada,
desculpe-me tive que passar ao banco para retirar
dinheiro.
A jovem Rose quando cumprimentava a
amiga, olhou fixamente por um determinado
tempo para Júlio. E jogou uma frase no ar.
_Nenhum problema. Eu estava conversando
com um mosquito que passou por aqui.
Neste momento Júlio abriu um sorriso do
tamanho do mundo. E com os braços abertos,
bateu como asas parecendo um inseto gigante, e
quase saiu voando de verdade quando viu um
sutil sorriso, mas, sincero sorriso sair daquela
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boca bem desenhada de Rose, acompanhada dos
seus lábios carnudos e brilhantes do batom rosa.
Como o rio dos Amores que passa
lentamente sob a ponte, os anos passaram
docemente e Julio e Rose namoraram bons anos
sobre a ponte, onde todos os jovens da pequena
cidade de Nossa Senhora da Esperança do Sul
gostavam de se beijarem. A jovem Rose cursava o
segundo ano de direito na cidade vizinha de
Nossa senhora da Santa Fé do Sul, que era bem
maior. Santa Fé ficava quarenta e três
quilômetros de distancia e tinha duas
universidades. O jovem Júlio cursava o segundo
ano de educação física em outra universidade da
mesma, Santa Fé do Sul. O Jovem casal de
universitários tinha sonhos de felicidade. Faziam
planos entusiasmados que quando se formassem,
casar-se-iam. Rose era sempre a mais
entusiasmada em seus sonhos e comentava com
as amigas, com delírio.
_Ah! Eu fecho os olhos e posso ver igreja de
Nossa Senhora da Esperança do Sul lotada de
convidados, todas as fileiras dos bancos
enfeitadas com gérberas de varias cores.
Intercalado com copos de leite brancos, que é
para combinar com o vestido. Nas mãos um
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buquê de rosas vermelhas para não esquecer que
o Julio me chama de Rosa e também foi à
primeira palavra que ele me disse quando éramos
pequenos e inocentes.
Por outro lado Júlio era mais modesto em
seus sonhos, somente para Rose dizia do seu
objetivo maior e inerente a ele talvez.
_A única coisa que desejo neste mundo, é ter
uma filha de olhos verdes como os meus, para
poder colocar o nome de Rosa e assim parar de te
chamar de Rosa. Ouviu minha doce e venerável
Rose!
Julio estudava no período da noite e durante
o dia trabalhava com seu pai na loja de autopeças.
Onde cuidava do estoque, das vendas, das
compras e apenas a parte financeira ficava de
responsabilidade do pai. Senhor Álvaro quem
efetuava todos os pagamentos. Seu Álvaro, um
homem, magro, alto, honestíssimo de dar inveja,
no rosto desenhado de rugas pelo trabalho árduo
de trinta anos, no pequeno negocio de autopeças
que lhe proporcionava uma vida estável. Pagava a
mensalidade da faculdade do filho e comprou-lhe
um automóvel popular, mas exigia que o Julio
trabalhasse e descontava todo mês as
mensalidades do carro e da faculdade. E todo
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mês na hora de efetuar o pagamento do filho
sempre repetia o sermão.
_Eu me sinto muito triste em fazer estes
descontos, filho. Mas há de chegar um dia que me
agradecerá, por ter lhe ensinado como é difícil
ganhar para poder gastá-lo com inteligência. Alias
se o senhor tivesse fazendo administração não
precisaria me preocupar com esses detalhes.
A família de seu Álvaro era pequena,
constituída apenas pela sua mulher, a dona
Hortência e um único filho, o Julio. Família de
hábitos simples como toda família de cidade
pequena do interior. Quando havia baile social no
clube quase todas as famílias estavam lá, iam
também todos os sábados a praça da matriz ouvir
a banda no coreto. No verão tomavam banho nas
praias que nas margens do rio dos amores se
formavam. A missa de domingo de manhã era tão
sagrada como a homilia do padre Vitório.
Homem de muito respeito na cidade por suas
sabias palavras. Eis aqui um pequeno trecho de
um destes domingos de eucaristia na igreja de
Nossa Senhora da Esperança do Sul que ficava
no alto de uma pequena colina.
_ Meus filhos desta modesta paróquia.
Quando olhamos no espelho e algo em nossa
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face, como espinhas, acnes, rugas que nos
entristecem, ou os cabelos, como o corte, a cor, o
brilho, que não nos agradam. Transferimos estas
insatisfações de maneiras involuntárias e
agressivas às pessoas mais próximas e ate aquelas
que mais amamos. Os pequenos problemas do
cotidiano sofrem uma ligeira mutação. Tornam-se
maiores do que realmente aparenta ser. O que
talvez neste aspecto seja mais interessante, (caros
irmãos) é que o contrario também tudo pode
acontecer. Quando há um excesso de problemas
no cotidiano ao nos defrontarmos com o
espelho, a imagem que pré-concebemos não é
aquela que se refletem. Uma imagem holográfica
constituída pelo cérebro, irreal e de baixa estima.
Ela não condiz com o real. Nesta situação de
extrema complexidade entram em ação
instintivamente, a fé e a esperança.
(Evidentemente só para aqueles que as possui).
Nós somos regados pela genuína fé dos homens
e a esperança instintiva de que tudo estará bem
melhor amanhã. A tempestade irá passar como o
vento irá diminuir e fogo a de se apagar. Por
outro lado, fica evidente que quem nasce
desprovido de fé e esperança padece no paraíso.
Indefesos irmãos, irmãos desprovidos acabam
cometendo monstruosas insanidades. Agem com
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brutalidade, começam a roubar, muitos se
suicidam, seqüestram pessoas e assassinam os
próprios irmãos.
Padre Vitório deu gole no cálice de água que
estava sobre o altar, respirou profundamente e
prosseguiu.
_Por este gigantesco motivo, (meus filhos) é
que fui estudar teologia. E hoje estou aqui nesta
paróquia, como um simples padre. O honroso
trabalho dos padres perante a comunidade é de
tentar levar a fé e esperança aos irmãos que
nasceram sem elas. Quais os motivos, e o porquê
que alguns desfavorecidos não os têm? Não
sabemos. E acredito profundamente que
ninguém aqui nesta igreja ou neste mundo saiba.
Por este outro grande motivo. (meus irmãos
privilegiados) Vamos agradecer a nossa Senhora
Boa Fé em Deus e a sagrada nossa Senhora da
Esperança.
O trabalho do padre Vitório na comunidade
de fato não ficava só na missa dominical, ele de
fato fazia pesquisas entre os católicos mais
fervorosos e assim descobria as famílias do
rebanho que mais necessitavam de ajuda, de
conselhos e palavras de esperança. Encontrava
trabalhos alternativos para aqueles que estavam
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desempregados, conseguia alimento para os que
passavam por problemas financeiros, com sua
influência também conseguia remédios e vagas
em hospitais e postos de saúde aos enfermos. Por
este trabalho brilhante é que os habitantes de
Nossa Senhora da Esperança do Sul o
respeitavam. Por onde padre Vitório passasse
todos queriam cumprimentá-lo e beijar sua mão
querendo sua sagrada benção. Padre Vitório num
futuro não muito distante passaria a ser muito
mais importante do que já o era, a simples família
de seu Álvaro e por não dizer também
importante no relacionamento de Julio e Rose.
Em certo dia da semana, no meio do
expediente na loja de autopeças, Julio trabalhava
em sua mesa e relatava ao seu pai sobre a lista de
compras. Salientou que algumas peças houve uma
saída inesperada e que deveria efetuar uma
compra acima do normal. Ainda fez uma
observação para que ficasse ciente e a surpresa do
excesso não lhe causasse susto na hora da fatura.
A mesa de seu Álvaro ficava ao lado da mesa do
filho, numa pequena sala com apenas um
banheiro minúsculo, um ventilador fixado na
parede, um bebedouro. Sobre a mesa de seu
Álvaro um calhamaço de notas promissórias e
com uma calculadora somava os valores dos
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cheques que deveria preencher, para cada
fornecedor das compras anteriores. Julio depois
que informou ao pai todas suas decisões que são
de suas responsabilidades no trabalho, informou
seu Álvaro para que ele pudesse dar seu parecer
sobre outra decisão, agora no campo pessoal.
Julio olhava para ventilador que girava quando
falou.
_ Pai. Pretendo casar-me o ano que vem.
Deu uma suave pausa para engolir a saliva e
continuou.
_O que o senhor acha a respeito?
Seu Álvaro olhou para o filho de modo
reflexivo por alguns segundos. Levantou e
caminhou ate o bebedouro pegou um copo
descartável no suporte, encheu-o e deu um
pequeno gole. No retorno a sua mesa, deu o seu
primeiro parecer.
_ Acho que o casamento é uma das decisões
mais importantes na vida de um homem. Há
muito que pensar antes de decidir.
Sentou-se em sua cadeira bem lentamente
como se refletisse sobre o assunto, e já sentado
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deu mais um gole no copo de água. Olhando
fixamente para o Julio, continuou.
_Casamento é quando decidimos com quem
vamos dividir todas as coisas da nossa vida. Seja
no campo material ou na atmosfera espiritual. Eu
acredito que o relacionamento perfeito é o
equilíbrio destes dois fatores.
Julio gostava de conversar com seu pai. As
suas opiniões sempre lhe deram bons resultados e
o dialogo fluía de maneira pacifica, pois havia um
entendimento profundo entre eles, com poucos
confrontos no decorrer destes anos todos. Talvez
porque seu Álvaro não impunha seu idealismo
conservador. Mesmo com toda autoridade estava
sempre aberto ao debate para que nunca existisse
entre eles um abismo, o que ocorre entre a
maioria das relações entre pais e filhos. Seu
Álvaro pigarreou como tentasse desobstruir as
vias aéreas e complementou, desta vez
enaltecendo seu filho.
_Penso que a decisão final é só sua e da sua
futura esposa. O que eu tenho pra lhe dizer não é
nenhuma novidade, não é primeira vez que lhe
digo sobre seu caráter que tanto me dá orgulho,
alem do que você já é um homem, é ate então
tem assumido suas responsabilidades, e agiu
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como deve agir um homem de verdade. No mais,
desejo a você e a Rose toda felicidade do mundo.
Agora levanta logo daí, e me dá um abraço, rapaz!
Pai e filho se abraçaram no centro da
pequena sala de trabalho; lugar pequeno que
dividiram nos últimos oito anos de trabalho duro.
Lugar minúsculo, mas que fizeram ótimos
negócios e que lhes deram um padrão de vida
razoável. Lugar minúsculo, mas que vai alem do
sagrado para esta simples família, mas honesta em
todas as situações, gente integra como a muito
não se vê por ai.
Há poucos meses para ambos terminarem
seus respectivos cursos na faculdade, a
programação da comissão de formatura para
arrecadarem fundos estavam todas em
andamentos, também as cerimônias com horas e
datas marcadas e o local determinado; seria no
clube esportivo de Santa Fé do Sul. Rose por sua
vez fazia estagio no departamento jurídico da
câmara dos vereadores de Esperança do Sul. Foi
justamente numa quarta feira que por
compromissos com o estagio, Rose não pode ir à
faculdade com Júlio. Rotineiramente Rose pegava
uma carona com ele, nos últimos dois anos após
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ter ganhado seu carro. Julio ate brincou ao
telefone quando se falaram, dizendo.
_Quer dizer que o nosso motelzinho de final
de noite fica pra amanhã?
Rose sorria na voz quando respondeu ao
apelo de Julio.
_Júlio, você é um insaciável. Ate parece que
tudo que fizemos ontem foi tão ruim.
Ele discorda e com prazer sussurrou ao
aparelho eletrônico.
_Não! Se o que fizemos ontem foi ruim, o
que esta por vir pode me matar de loucura!
A jovem mulher se despediu, como se
despindo com uma voz extremamente sensual.
_Prometo fazer melhor amanhã. Seu louco e
insaciável. Beijos, mil beijos. Tchau.
Talvez o que de mais puro aconteça no
transcorrer da vida, sejam as coincidências.
Buscamos inegavelmente explicações, porque elas
ocorrem. As coincidências vivem nos
perseguindo como sombras escuras e misteriosas
de nós mesmos. A única certeza que temos: é que
elas unem fatos a outros fatos, unem pessoas a
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outras pessoas e fatos a pessoas; como um elo
divino dentro das regras metafísicas do existir
como um todo. Ficamos extasiados e surpresos
diante das coincidências que nos afloram como
bombas da verdade, neste mundo de pequenos
detalhes que se tornam excessivamente
importantes em nossas vidas. O acumulo de
coincidências no decorrer de nossa existência,
nos leva a crer que existam uns mundos
transcendentais, onipotentes e onipresentes; que
nos direcionam por caminhos sem que
percebamos e apenas pressentimos, através das
coincidências.
Coincidentemente ou não, naquela quartafeira Rose não pode ir à faculdade com Júlio,
como normalmente fazia. Por excesso de
trabalho no gabinete onde fazia seu estagio, na
câmara municipal de Esperança do Sul. Era época
de eleição e o furor dos políticos estava a todo
vapor para as campanhas partidárias.
Júlio participou de todas as suas aulas
normalmente
naquela
noite,
que
excepcionalmente chovia forte em toda região.
Após o termino das aulas, decidiu passar em um
bar com alguns amigos, ate que a chuva desce
uma trégua e pudesse assim fazer seu caminho
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com mais segurança pela estrada que liga Santa Fé
a Esperança do Sul. Por telefone avisou os
familiares e Rose, para que ninguém ficasse
preocupado com seu atraso. Já se passavam da
meia noite quando viu as horas e notou que a
chuva não havia diminuído. Recebeu alguns
convites de amigos que moravam em Santa Fé
para dormir por lá, mas recusou. Talvez para não
demonstrar insegurança e medo diante do
machismo comum entre homens dessa faixa de
idade. Assim que despediu dos amigos, subiu em
seu carro fugindo da chuva que era torrencial,
porem quando pegou a estrada por coincidência a
chuva diminuiu para uma garoa fina o que deu
mais segurança para terminar seu percurso
acelerando um pouco mais o veiculo.
Quase chagando na entrada de Esperança do
Sul. Um lugar com poucas construções. E com
aquela chuva que caiu e altas horas da madrugada,
o lugar não tinha uma viva alma. Apenas um
cachorro que cruzou na frente do automóvel
quando Julio se preparava para subir sobre uma
das pontes do rio dos amores. Na tentativa de
frear para não atropelar o cachorro, o carro
derrapou no asfalto molhado. Júlio perdendo a
direção do veiculo que caiu dentro rio que estava
transbordando, efeito das chuvas fortíssimas.
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Júlio e seu carro desapareceram em segundos
arrastados pelas águas do rio, sem deixar
vestígios. Apenas o cachorro presenciou a triste
cena.
Ate hoje, ninguém em Nossa senhora da
Esperança do Sul e Nossa Senhora da Santa Fé
do Sul sabem o paradeiro do jovem Júlio e muito
menos do seu automóvel, que o Rio dos Amores
os tragou.
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A Rosa germinando
Depois do desaparecimento repentino de
Júlio a tristeza carregada de mistérios invadiu a
cidade de Esperança do sul, como a muito não se
via. Como um enorme terremoto emocional que
comoveu a todos. Onde quer que fosse o
comentário era sempre o mesmo. Entre os mais
adultos, os jovens e também as crianças, nos
bares, praças, na igreja, o sumiço do jovem Júlio e
seu carro.
Como não podia deixar de acontecer, Rose
ficou excessivamente abalada, ela era uma das
pessoas que fazia parte da vida do jovem, e sentia
profundamente a falta dele, pois já namoravam
há quase cinco anos e pretendiam ficar noivos em
breve. Mas, pra piorar o inesperado aconteceu.
Rose estava grávida.
Os fatos se complicaram porque o suposto
pai daquela criança que era gerada em seu ventre
materno desaparecera misteriosamente, sem
deixar nenhum rastro ou um pequeno bilhete.
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Não haveria a cerimônia de casamento tão
sonhada. Alias tudo fora planejado em sua cabeça
e pensar que a igreja não mais seria enfeitada de
flores, e que não mais entraria com seu vestido
branco de véu e grinalda, e a calda arrastando
entre os bancos ocupados por amigos e parentes,
gente importante da cidade ao som da marcha
nupcial. Tudo caiu como uma bomba em sua
cabeça.
Primeiramente, Rose tomou a decisão mais
acertada, pois era equilibrada nas atitudes e
também uma jovem de personalidade invejável.
Procurou sua mãe, dona Adália e lhe
confidenciou.
Pois,
algumas
amigas
sugestionaram que o melhor era abortar a
gravidez, deram até endereços e telefones de
médicos para esta finalidade em Santa Fé do sul.
Rose indiscutivelmente herdou os genes de
dona Adália. Uma mulher de muito equilíbrio na
hora de tomar decisões importantes. Também era
consultada com freqüência pelo marido. Senhor
Nestor nem é sombra daqueles homens
machistas que se encontram no interior. Rose
pretendia contar com o apoio de dona Adália
para comunicar a gravidez ao pai. Seu Nestor que
sempre sonhou entrando com a filha na igreja,
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levando a ate o altar. Seria uma imensa decepção.
Seu Nestor não era machista. Porem, um homem
muito conservador e excessivo nas diretrizes da
bíblia. Respeitado em toda cidade porque
ocupava o cargo de vereador na câmara
municipal de Nossa Senhora de Esperança do
Sul. Seu Nestor era descendente de italianos e
tinha muitos inimigos, na maioria políticos
corruptos ou empresários querendo alguma
vantagem nos projetos a ser aprovado na câmara.
Os inimigos só surgiam porque seu Nestor
sempre foi muito honesto em todos os seus
mandatos, mas não sabia o significado da palavra
nepotismo.
Certa noite após o jantar na casa confortável
da família de seu Nestor a televisão ligada o
telejornal consumia por inteira sua atenção. Rose
conferia o canhoto do talão de cheques quando
pela primeira vez sentiu enjôo e saiu correndo
para o banheiro. Havia passado setenta dias após
o desaparecimento do seu futuro noivo e por
nenhum momento parou para pensar nesta
hipótese de estar grávida. Quando os enjôos se
repetiram, uma de suas amigas indicou o teste de
gravidez e assim se confirmou. Contar para sua
mãe parecia algo difícil, mas para seu pai era
totalmente impossível de imaginar. Mas, teria que
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enfrentar e precisava do apoio de sua mãe e assim
mesmo parecendo intransponível deu um passo
de cada vez.
Um belo dia Rose convidou sua mãe para um
almoço em um dos poucos restaurantes da
cidade. Pensou que só assim estando num lugar
neutro poderia ter mais sucesso para enfrentar o
problema. Era um dia bem diferente e agradável
ao mesmo tempo, não muito quente e um leve
vento fresco vinha do leste e mantinha a
temperatura amena. Depois do almoço a
sobremesa foi servida e foi durante a guloseima
que Rose resolveu dizer a sua mãe.
_Mamãe. Estou grávida.
Dona Adália apesar de estar tomando um
delicioso sorvete de chocolate engoliu a seco,
depois deste depoimento sem rodeios de sua
filha. Depois que se refez da surpresa conseguiu
fazer uma pergunta, como que não querendo
acreditar no que tinha ouvido.
_Você deve estar brincando. Não é minha
filha?
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Rose olhou bem nos olhos de sua mãe
quando respondeu e dos seus olhos as lagrimas
brotaram como cachoeira.
_Bem que eu gostaria que fosse uma grande
brincadeira, tudo que tenho vivido nestes últimos
meses, mamãe... Eu ate pensei em tomar decisões
precipitadas em relação ao bebê... Olha o
tamanho do meu dilema e o desespero que me
encontro... Eu preciso de você mamãe... É um
momento muito delicado da minha vida e não
conseguirei se você não estiver do meu lado.
Sua mãe segurou suas mãos enquanto Rose
soluçava com a cabeça abaixada. Mas, ela havia
conseguido vencer a primeira barreira e o choro
apenas indicava o alivio que tanto te pressionara
após o resultado de positivo do exame de
gravidez.
_Parabéns! Minha linda menina vai ser mãe.
Era isto que você gostaria que eu lhe dissesse...
Eu sei que vai ser difícil, mas estarei sempre do
seu lado... Vamos ter que enfrentar seu pai...
Você sabe que ele é duro nestas questões... Mas,
água mole em pedra dura tanto bate ate que
fura... Vamos à guerra... Primeiramente, temos
urgência em procurar um bom medico para ver
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como anda a saúde desta pobre criança órfã de
pai, mas não de avós.
_Obrigado. Mamãe. Eu te amo.
Como havia previsto dona Adália, seu Nestor
para aquela circunstância manteve-se duro e não
dirigia a palavra para a filha como antes ate que
criança nasceu forte e com saúde. Ao olhar pela
primeira vez aqueles pequenos olhos verdes da
frágil criança seu coração amoleceu ate demais,
como todos os avos que conheço.
Rose colocou o nome do bebê de Rosa, pois
era este o nome que Júlio desejava que fosse. E
assim Rosa cresceu como todas as crianças de
Esperança do Sul. Brincava nas praias do rio dos
amores no verão, nas praças em cima do coreto,
nas ruas jogando amarelinha, é ate nas missas de
domingo.
Porem, o estigma de ser filha do jovem que
desapareceu, o acompanhou por toda sua agitada
infância. Rosa gostava muito de ler e ir à
biblioteca municipal era quase que um ritual
semanal, e por muitas vezes poderia vê-la sentada
folheando seus livros nas ruas e praças. Enquanto
as outras meninas da mesma idade que Rosa
viviam comentando a respeito de namorados, e
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falavam que esteve sobre a ponte do rio beijando
ou no cinema namorando, ela gostava de
comentar sobre os livros que havia lido. Seus
comentários estiveram sempre acima do nível da
idade e nos professores e amigos mais velhos é
que encontrava respaldo de intelecto para a sua
síntese. Outro fato muito comentado entre os
adolescentes era que ninguém ate o presente
momento vira Rosa beijando ou de namorinho
com alguém. Todos que tentaram tiveram sempre
o mesmo não como resposta, de maneira
educada. Por estas atitudes, Rosa colecionava
muitos amigos e admiradores, mas nenhum
jovem o atraia de modo profundo.
Quando Rosa estava com mais ou menos
cinco anos do seu começo de vida, teve sua
primeira decepção. Foi obrigada a dividir toda
atenção que recebia da mãe com o namorado
com que estava tendo um relacionamento. Em
poucos meses ele também se tornaria seu
padrasto o que se agravaria.
Frederico Soares, mais conhecido como Fred em
toda redondeza era vereador e filho de Tobias
Soares sobrinho. Foi prefeito de Nossa
Esperança do Sul por vários mandatos. Senhor
Tobias como todos os políticos experientes sabia
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de olhos fechados, todos os caminhos para
administrar politicamente um município. Em
quatro mandatos como prefeito conseguiu
multiplicar varias vezes seu patrimônio, graças às
trocas de favores políticos. Por muitos anos sua
assinatura tinha um valor assustador a ser
cobrada, e somada a isso a propina que
transbordavam pelos corredores do executivo e
legislativo.
Fred se diplomara em bacharel como Rose, e
recebeu do pai os ensinamentos de como
funcionava a política local. A formação
acadêmica o colocava a frente de muitos que
ocupavam cadeiras na câmara, a grande maioria
não terminou se quer o ensino médio. Como
quem em terra de cego, quem tem um olho é rei,
Fred em pouco tempo tornou-se um líder
assumindo a presidência da câmara de vereadores
de Esperança do Sul. Fred como filho único
cresceu em meio a mordomias, teve babas, todos
os brinquedos modernos, bicicletas, depois motos
e carros esportivos. Na cidade todos os
chamavam de playboy de poucos amigos, devido
à insignificância que tratava os demais sem poder
aquisitivo.
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O rio dos amores corria lentamente sob as
pontes de Nossa senhora da Boa Esperança do
Sul e os anos passaram rapidamente por lá.
Rosa já estava com dezoito anos e cursava o
primeiro ano de jornalismo na faculdade em
Santa Fé do Sul. A sua mãe Rose e os avos por
nenhum momento tiveram nenhum tipo de
problema com os modos de Rosa. Isto lhes
enchiam de orgulho. Eram somente elogios que
recebiam dos amigos, professores. Porem, Rosa
não gostava como seu padrasto a olhava na
ausência de sua mãe. Tinha como objetivo ocular
sua silhueta que começava a se modelar. Os seios
apareceram de repente e o quadril cresceu nas
laterais. Estes olhares se deram inicio por volta
dos treze anos de Rosa. Este era um dos motivos
para Rosa não ter afinidades com Fred. Quando
ele disse que lhe daria um carro quando
completasse dezoito anos, Rosa rejeitou o
presente. Desconfiada, pensou que o carro seria o
queijo da ratoeira. Por nenhum momento abaixou
a guarda, pois não acreditava no caráter do
marido de sua mãe. Quando criança já havia
rejeitado todos os brinquedos que vinha da parte
dele. Tinha convicção tratar-se de um adulto
querendo comprar a confiança e o carisma de
uma criança com bugigangas. Os brinquedos
30
eram depositados num canto da garagem do
sobrado onde moravam. E por ela mesmo.
O muro do relacionamento realmente ficou
alto entre o padrasto e a enteada. Não existia
dialogo entre eles. Quantas e quantas vezes, esta
complicada situação foi motivo de discussão
entre sua mãe e Fred. Uma vez Rosa ouviu uma
destas discussões. Fred dizia que Rosa necessitava
de uma terapia psicológica.
_A perda do pai, sem duvidas nenhuma,
afetara seriamente esta menina.
Este comentário enfureceu ainda mais Rosa.
Por estes motivos quando estava em casa não
abandonava seu quarto e seus livros, quando
cansava preferia as ruas que a sala de casa.
Rosa também tinha como habito andar a pé
pelas trilhas que margeavam o rio dos amores,
onde a mata preservada de manancial resistia
bravamente à especulação imobiliária. Em uma
bela manha, Rosa voltava de uma destas
caminhadas, tranqüilamente pensando sobre os
capítulos lidos do livro. De repente presenciou
uma cena que marcaria em definitivo sua
repugnância a Fred. Percebeu que Fred
estacionou seu carro antes de chegar à parte
31
urbana da cidade, e do seu carro desceu uma das
secretarias da câmara de vereadores. Seria
simplesmente uma carona. Tudo normal. Pensou
ela. Porem na despedida um longo beijo foi dado.
Por varias vezes pensou em dizer a sua mãe o
fato, mas depois de se lembrar que anos antes
dissera a sua mãe que não gostava como Fred
olhava para ela na sua ausência. Mas, se
surpreendeu, pois sua mãe foi em defesa do
marido, dizendo.
_Rosa. Minha florzinha! Fred é um bom
homem. Ele não quer tomar o lugar do seu pai.
Deixa ele te fazer feliz, como vem fazendo-me
muito feliz nestes últimos dez anos.
Rosa ate tentou mais uma vez ser mais
objetiva em sua denuncia, porem foi aniquilada.
_Mas...
_Mas nada. Rosa. Nós sabemos como você
tem sofrido sem saber o destino do seu pai e
ponto final. Não falamos mais nisso.
A tentativa frustrada de Rosa entristeceu-a
por longos meses, mas também teve seu lado
positivo, fez com que refletisse sobre a vida dela
e a da mãe.
32
Então ela pensou. Como minha pobre mãe
sofrera com o desaparecimento do seu grande
amor. E se agora estava tão feliz, não seria eu sua
filha que estragaria esta felicidade.
O fato de muitas pessoas acharem que Rosa
era uma pobre coitada, por não ter pai e olhavam
para ela sempre com cara de piedade, pois isto a
entristecia superficialmente. E assim ela se
perguntava.
_ Como posso sofrer por alguém que não
conheci? Apenas fatos e fotos não dizem ao meu
coração para amá-lo. Como posso sentir a falta
dele se nunca escutei sua voz? Nunca senti o seu
cheiro e nunca o toquei?
Por este motivo Rosa deixou de ir à casa dos
pais de Julio. Dona Hortência não falava em
outra coisa a não ser do filho. Rosa na verdade
simplesmente, apenas sentia muita pena da pobre
mulher que perdera o filho. E isso não lhe fazia
bem e nem o menor sentido, ter dó de alguém.
33
O aflorar da Rosa
Qualquer homem honesto se perderia ao se
defrontar com a feminilidade abrangente de Rosa.
Tentadora no caminhar entre os habitantes de
qualquer lugar, mas sucumbia aos menores
olhares que por ela atravessavam, tentando sem
nenhum pudor devorar alguma parte do seu
corpo repleto de privilégios concebidos pela
natureza. Porque somente ela naquela parte
remota merecia ser modelada com tamanho
capricho? As outras moças de Esperança do Sul
arremessavam flechas de inveja por ver seus
namorados ou maridos burlando na contra mão.
Noutras vezes, caídos de quatro ou babando
enquanto o queixo caia jogado no vazio e o nariz
buscava ao vento ainda vestígios da fragrância do
seu perfume que impregnava as ruas e os becos.
Como a planta que popularmente é conhecida
como dama da noite, a Rosa disputava com a
planta as honrarias ou talvez o nome roubado.
Mas, não necessitava, pois a planta somente a
noite assumiria seu reinado, porem estática em
seu trono. A Rosa tinha todas as horas que bem
quisesse e poderia reinar em todos os lugares se
34
assim desejasse. E assim pelas ruelas de
paralelepípedos ou cruzando as pontes do rio dos
amores na cidade de Esperança do Sul, Rosa
esplendidamente graciosa com seus belos
vestidos floridos, sob seu corpo moreno desfilava
ao som do vento, os cabelos castanhos claros
pouco abaixo dos ombros bailava ao som do
mesmo. Quando Rosa subia a íngreme colina
para chegar ao platô onde ficava a igreja e um
fantástico mirante na praça da matriz. De onde se
avistava todo horizonte, também poderia ver o
rio serpenteando os vales ate se tornar um fino
traço prata, as plantações floridas e verdes pastos
onde o gado tranqüilo ruminava.
Se padre Vitório depois de tantos anos
precisava do auxilio de uma bengala pra se
locomover, se olhasse para Rosa fazia o sinal da
cruz em seu próprio corpo como que pedindo
perdão pelos seus pensamentos suscitados não
teológicos. Rosa se tornou um ícone na pequena
cidade, não só pela beleza, mas também pela sua
simpatia e por ser filha de Julio. O jovem que
desapareceu na noite de tempestade.
Na época o fato interessou muitos jornalistas
da região e canais de televisão. A policia civil e
militar fizeram muitas investigações sem nenhum
35
êxito. Muitas conclusões se falaram sem nenhum
embasamento. Ate se cogitou que discos
voadores haviam raptado Julio e seu carro. Outro
boato muito comentado era que Júlio ficou
sabendo da gravidez de Rose e fugiu para não ter
que arcar com a responsabilidade de pai. As
historias se multiplicavam e cada uma tinha sua
própria versão. Mas todas as vertentes, para
contar a historia, infelizmente deixou magoado
seu Álvaro e principalmente sua esposa dona
Hortência. Pobre mulher! Passava a maior parte
do tempo olhando pela janela na esperança de ver
o filho voltar de algum lugar do passado onde ela
havia se fixado para sempre. E não havia, um se
quer, morador da cidade de Nossa Senhora da
Boa Esperança do sul que não enxergasse o
tamanho da tristeza daquela pobre mulher. Ia
rezar todos os dias na igreja. Com chuva ou sol,
lá estava dona Hortência vestida de preto subindo
a colina com seu terço nas mãos. Já seu Álvaro
nunca deixou de ir ao trabalho, mesmo aos
domingos, feriados e dias santos. A mesa do filho
ao lado da sua, intocada, talvez a espera do
retorno. Os amigos comentavam que jamais
viram as suas estridentes gargalhadas. Pra
completar, os sulcos das rugas aumentaram
acintosamente nos últimos anos de agonia e
36
espera. Os cabelos pretos embranqueceram
rapidamente e o corpo se curvou diante do
trágico desaparecimento.
Dois anos depois do desaparecimento do
jovem. O padre Vitório sentindo a ausência de
seu Álvaro nas missas dominicais, passou em sua
loja para conversar com ele e tentar amenizar um
pouco do sofrimento daquele bom homem.
_Bom dia! Seu Álvaro. Gostaria de ter uma
palavrinha com o senhor se o tempo lhe sobra,
meu filho.
Seu Álvaro se esforçou para ser cordial,
como age diante de tantos clientes. Isso também
o padre pode notar. Essa era sua tarefa diante da
comunidade, tentar compreender e amenizar as
aflições do seu rebanho.
_É evidente que sim padre. Aqui recebo a
todos que me procuram. Afinal essa é a minha
profissão. Sou um simples comerciante.
Padre Vitório passou o lenço sobre a testa,
pois o dia era quente e abafado. Seu Álvaro lhe
encheu um copo com água, e agradecendo levou
sedento à boca.
37
_Bom meu filho, vou direto ao assunto, não
sou homem de rodeios, muito bem sabe o senhor
disto. É uma conversa muito delicada e nem sei
por onde começar. A única coisa que realmente
sei é que o casal passa por um momento
dificílimo, essa agonia que não tem tamanho, e
essa espera pela volta do Julio. Já se passaram
quase dois anos.
Antes que o padre prosseguisse com a
seguinte frase seu Álvaro interrompeu e foi direto
nas suas palavras, mas não grosseiro com o
missionário.
_Se o senhor está preocupado comigo, fique
sabendo que tem sido complicado. O senhor não
sabe o tamanho da minha dor. Mas tenho que
levar a minha cruz ate o calvário. Agora se o
senhor padre, está preocupado porque não tenho
ido a sua paróquia. Eu perdi toda minha fé e toda
minha esperança que transbordava por meus
poros. Quero ouvir da sua boca. Padre. Porque
Deus jogou sobre a minha família toda sua ira?
Eu que sempre acreditei nele!
Os olhos de seu Álvaro se lagrimejaram,
depois, um choro contido rompeu o revestimento
duro daquele ser que sofria contido no seu
mundo de destroços.
38
_O nosso bom Deus não foi bom pra minha
família. Eu não tenho mais nenhum motivo para
freqüentar a casa de Deus.
Padre Vitório ficou completamente sem
argumentos e por alguns instantes o silencio
reinou na pequena loja, apenas o barulho,
ritmado do ventilador do teto se ouvia. Depois de
algum tempo o vigário se despediu e saiu
desanimado, talvez porque para aquela
determinada situação seus anos de estudos de
teologia foram aniquilados por um simples
homem entristecido do interior. Enquanto
caminhava lentamente escorado pela bengala
sobre as ruas de paralelepípedos, seus
pensamentos
eram
interrompidos
pelos
cumprimentos que ia recebendo dos fieis por
onde passava. Mas, sentiu que sua visita surtiu
efeito, pois o homem havia desterrado seu ódio.
Agora sua ira estava exposta, enfim o coração
estava livre para amar de novo.
39
O circo
Como quase toda cidade pequena do interior
o que realmente falta para os habitantes é onde se
divertirem. No verão as praias do rio dos amores
são lugares muito procurados, mas no inverno as
águas esfriam e ate para a pesca não é propicia.
Enfim, foi num destes invernos que chegou e
armou sua lona azul um pequeno circo, sem
animais. Porem, o grande letreiro luminoso lá
estava. Circo das encenações. A maior parte dos
espetáculos era de palhaços, trapezistas, e havia
um jovem rapaz que encenava uma simples peça
de teatro, num pequeno palco improvisado.
Este improvisado cenário tentava demonstrar
aos espectadores que se tratava de uma pequena
praça. Nela tinha dois balaústres, um banco
daqueles de sentar, um jardim artificial, pombas
pintadas em uma folha de cartolina branca, ao
fundo do cenário uma grande cruz de madeira
chamava a atenção pela sua altura. Toda peça não
durava mais que vinte minutos, mas conseguia
com que a platéia sofresse com sua historia. Sua
poesia toda voltada para um amor que terminara
40
de forma trágica do seu ponto de vista e o levou
ao extremo da idolatria ao fato e a pessoa. Da
maneira como atuava, o jovem ator parecia à
própria vitima do infortúnio, e que enlouqueceu.
A entonação da voz quando se lamentava ou
declamava a leveza do corpo com que se
locomovia no minúsculo tablado, e as mãos
hábeis completavam a magnífica interpretação
daquele jovem de nome Ícaro. Assim anunciava o
homem de cartola no meio do picadeiro.
_Respeitável publico. Tenho o enorme prazer
de apresentar para vocês. Ícaro o algoz.
Quando as cortinas se abriam: entrava Ícaro
caprichosamente fantasiado de mendigo,
completamente sujo, com roupas rasgadas e
restos de sapatos forrando seus pés. Empurrava
lentamente seu pequeno tablado com aquela cruz
alta como se arrastasse o mundo. Sobre quatro
rodas de bicicleta rusticamente adaptadas, o
pequeno cenário era colocado ao centro do
picadeiro. A sonoplastia começava tocando a
musica the gates of delirium do yes, uma
trovoada e ventos fortes completavam o áudio.
Ícaro com os olhos voltados para a cruz, os
braços abertos e erguidos da inicio a sua peça.
41
_Mais uma vez serei encharcado pelas suas
lagrimas que caem dos seus olhos... Mostre-me
sua face outra vez...Há muitos anos fui privado
de ver você. Muitas. Muitas noites em minha
vida... Que mal eu fiz em querer te amar demais?
Ícaro abaixou seu olhar passeando por toda
platéia sentada nas arquibancadas de madeira. Sua
expressão facial era de consternação e dor e deu
seqüência o jovem mambembe.
_Estou enlouquecendo sozinho no meio
dessa lama deste pobre jardim que me abriga...
Mostre-me pelo menos a cor dos seus olhos que
já esqueci... Quero ver se deles ainda saem aquele
brilho que fazia com que eu entrasse no castelo
onde moram os nobres reis Neruda e Rimbaud...
As luzes piscavam tentando assimilar alguns
relâmpagos que acoitava o pequeno jardim
cenográfico. Alguns instantes de silencio
enquanto o corpo moreno e esguio,
aproximadamente de um metro e setenta e cinco
sentava com elegância no modesto banco. Depois
de quase um minuto e meio de silencio o jovem
ator voltou a declamar com mais intensidade,
enquanto the Gates of delirium penetrava na
alma com seus acordes agudos.
42
_Não me levarão mais ao fundo do
calabouço... Não enterrarão meu coração em
nenhum buraco fedorento... Eu não deixarei...
Desafiarei Deus se preciso for...
Depois destas frases, diante da cruz
representando Cristo, Ícaro se ajoelhou, uniu as
mãos espalmadas diante do peito. Dos seus olhos
as lagrimas brotavam dando um brilho especial,
com seu olhar de pedra e desafiante prosseguiu
atuando.
_Oh pai! Senhor daqueles que aqui nesta
terra e se encontram como eu... Penúria, sempre
lamuriando pelas dificuldades do dia a dia...Oh
poderoso pai! Se me quereres ver sofrer outra
vez... Crucifique-me nesta dura cruz que construí
com minhas próprias mãos... Crucifique-me pelo
amor que tenho em ti... Crucifique-me por
qualquer irmão em dificuldades e sofrimento...
Mas, pai de todos os pais, não me deixe ficar
apaixonado por nenhuma mulher outra vez...
O som dos relâmpagos, os trovões, os ventos
foram diminuindo lentamente, porem a musica
continuava latente.
_Por estar apaixonado por alguém me
jogaram naquele calabouço... Fiquei anos e anos
43
aprisionado que pareciam não mais ter fim... Se
hoje estou aqui gozando de total liberdade... É
porque gostaria de vê-la com todo seu glamour...
Oh pai! Conceda-me este milagre... Somente o
senhor tem este poder... Deixe-me vê-la, nem se
for pela ultima vez...
Os relâmpagos, os trovões e os ventos
cessaram. Um foco de luz acompanhava
enquanto subia uma lua cheia pintada numa
cartolina branca. E o jovem Ícaro esbravejava no
agradecer.
_Obrigado pai! Obrigado meu Deus!
Quantos e quantos anos sem poder enxergá-la...
Como é grande é bela!
E assim terminava a participação de Ícaro no
circo, ovacionado com aplausos intermináveis.
Quando as luzes se acendiam, assim podia se ver
novamente a lona azul do circo das encenações.
E foi na noite de estréia do circo em
Esperança do Sul, que lá estava Rosa sentada nas
arquibancadas de madeira, vislumbrada como
nunca diante daquela modesta apresentação de
Ícaro. Foram alguns dos primeiros contatos com
as artes cênicas e a paixão pela arte de representar
foi amor à primeira vista. Dizia a si mesma, se
44
não for jornalista vou ser atriz. Enfim, Rosa
aplaudiu com extremo frenesi, como se houvesse
descoberto sua segunda vocação e assim teve a
absoluta convicção que um dia poderia ser uma
atriz, subir em um palco e representar, mesmo
que fosse uma simples peça.
Quando enfim terminaram todos os
espetáculos, Rosa dirigiu-se para a parte de trás
do circo onde se encontravam alguns trailers na
procura do jovem ator. Gostaria de dizer
parabéns pela grande atuação também satisfazer
sua curiosidade diante da nova descoberta e
conhecer mais um amigo para a sua enorme lista.
Rosa encontrou um palhaço que removia sua
maquiagem numa pequena bacia com água, e este
lhe informou que o jovem Ícaro assim que
terminou sua apresentação pegou sua moto e
partiu para outra cidade não muito distante de
Esperança do Sul. Lá na cidade de Nossa Senhora
dos Milagres apresentaria outro espetáculo com
outra turma. A decepção de Rosa deu lugar a sua
enorme curiosidade. Que perguntou, ao
simpático palhaço de cara borrado.
_Há quanto tempo este jovem ator trabalha
no circo?
45
O palhaço olhava muito mais curioso que ela,
quando respondeu.
_Mais ou menos uns quinze anos. Porque
gostaria de saber a respeito do menino Ícaro?
Menina dos olhos verdes.
Rosa sorrindo estendeu sua mão para o
cumprimento.
_Meu nome é Rosa. Muito prazer.
Desta vez o palhaço sorriu e ergueu as
sobrancelhas num caricato, a face sem a
maquiagem, percebia-se que não devia ter mais
que cinqüenta anos.
_O meu é Saulo. E o prazer é todo meu.
Senhorita, Rosa. Mas me diga. Porque quer saber
do menino Ícaro?
_Porque eu amo de paixão o trabalho de
vocês. Sei também que é muito mais difícil fazer
as pessoas rirem. Fazê-las chorar parece ser mais
fácil.
Rosa abaixou seu olhar e continuou.
_Talvez, porque este lado dramático
sensibiliza-me profundamente. Tem muito haver
com meu destino. Seu Saulo.
46
O lado sensível e psicológico do palhaço
resolveu entrar em cena quando a brecha se abriu
no dialogo com aquela bela jovem que só tinha
qualidades da cabeça ate as palavras que saiam da
sua perfeita boca.
_Mas, como uma menina tão jovem, sem
experiência de vida pode saber sobre o
imprevisível destino? O destino que é tão mutável
como as intempéries do tempo.
Rosa sentiu-se bem confortável para
continuar aquele dialogo e se expôs como nunca
e em nenhum momento havia feito em sua vida.
_Eu não conheci meu pai. Seu Saulo. Ele
desapareceu em companhia do seu carro numa
noite de tempestade. E por mais que desejasse
esquecer este assunto, as pessoas desta cidade, me
faz relembrar.
O sorriso da face do palhaço deu lugar à
compaixão. E salientou.
_Você e o Jovem Ícaro, têm algo em comum.
Ambos São órfãos. Você não tem pai, o Ícaro
também não conheceu sua mãe.
Houve uma pequena pausa, mas o silencio foi
quebrado por Rosa e sua ansiedade.
47
_Lá em Nossa Senhora dos Milagres tem
outro circo onde Ícaro se apresentará?
Saulo estava gostando de como Rosa não
desistia de saber tudo que envolvia Ícaro. Ela era
persistente e amável ao mesmo tempo. E os
instintos começavam a dizer para Saulo, que
como seria muito interessante deixar com que a
conversa fosse alem. E assim desatou.
_Amanha, antes do almoço ele apresentará
um pequeno espetáculo para crianças no
orfanato. Ele dorme no orfanato, acorda bem
cedo e prepara o espetáculo, o figurino, o cenário
e faz alguns ensaios antes, pra que tudo saia
perfeito. Ele é um grande artista!
A jovem Rosa quer por que quer ir alem.
Talvez seja uma grande historia. Pensou ela.
_Você fala dele com tanto sentimento e
orgulho, como se ele você seu filho ou alguém da
sua família. Porque que Ícaro é tão importante
pra você Saulo?
A jovem descobriu que o palhaço também
gostava de drama e isso o enfureceu um pouco,
porque ele tinha o seu particular. Mas como bom
palhaço se saiu com graça.
48
_Ele não é meu filho. Bem que gostaria. Seria
uma honra imensa. Agora, minha pequena Rosa.
Vai para sua casa, sua mãe deve estar preocupada.
Alem do mais, já está muito tarde. Amanha
prometo contar o resto da historia, isso se você
vier procurar pelo Jovem Ícaro. Boa noite!
Como os livros que Rosa os tinha como
obsessão de ler ate o fim e saber como terminam
as historias. Saulo e Ícaro tinham suas historias
unida. Ela ficou desolada, mas entendeu a
preocupação do bom homem. E se despediu
cordialmente.
Enquanto Rosa se distanciava sobre aquele
vasto terreno onde estava armado o circo, Saulo
acompanhou-a com o olhar ate desaparecer pela
noite. E nos pensamentos a boa impressão que
Rosa despertou fez Saulo resgatar um pouco do
seu passado. Principalmente quando se referiu à
palavra filho. Há muitos anos ninguém em tantos
lugares que já havia passado, foi capaz de cutucar
uma das suas feridas, o pior é que esta ferida
ainda sangrava e doía fundo em sua pobre alma.
Um homem que se atou ao passado com seus
próprios erros era assim que pensava.
Representava a mais de vinte cinco anos um
palhaço, mas nunca realmente fora totalmente
49
feliz. Mesmo que arrancasse risos de milhares de
crianças a sua felicidade não emergia das
entranhas do seu infortúnio que o destino se
incumbiu de traçar. Saulo vagava pelo mundo
quando era jovem, mas nas ultimas décadas não
era capaz de sair das cidades dessa região. Se
outrora seu circo era grandioso, com leões
africanos, tigres de bengala, elefantes,
chimpanzés, domadores e enormes caminhões.
Aos poucos foi se desfazendo, deixando um circo
com poucas despesas sem a necessidade de sair
para outros estados e lugares longínquos. Preferia
ficar nas proximidades. Como quem procura algo
que perdeu. Não sabe onde está, mas, acredita
piamente que deve estar por perto. Os anos
foram passando e Saulo rodando em círculos
como um hamister dentro da gaiola. Um ser
preso dentro, do seu território imaginário de
perturbações.
Rosa por sua vez enquanto caminhava na
direção de sua casa pela noite da cidade que tanto
conhece, era absorvida pela ansiedade das
historias que tinha evidencias de estar
entrelaçadas. Uma a outra. O palhaço Saulo
demonstrava alem da preocupação, um excessivo
carinho pelo jovem ator. E assim pensava alto.
50
_O nome também é lindo! Ícaro!
Personagem da mitologia Grega. Um sonhador!
Qual seria a altura do vôo que necessitava Ícaro?
No mínimo dará um ótimo trabalho de pesquisa
pra faculdade.
No céu uma grande lua cheia clareava seu
caminho. A bela lua imensa seria indicio de que
rumos diferentes surgiriam em sua vida? Aquela
gigantesca luminosidade do satélite seria um aviso
promissor do seu futuro?
Já em sua cama antes que o sono a vencesse,
Rosa voltou a pensar na inusitada noite, que duas
historias inesperadas apareceram de repente
como àquela lua cheia magnífica. Também se
lembrou de certa vez. A menos de um ano,
quando fazia uma caminhada à beira do rio.
Após, mais ou menos uma hora andando, se
deparou com uma arvore antiga, que quatro
homens de mãos dadas não atingiam sua
circunferência, alem do mais a copa era algo
imensurável e a sombra de tirar o fôlego. Decidiu
sentar-se e ler alguns capítulos do livro sobre a
fresca sombra. Na entre linhas do livro levantou
seu olhar e entre os galhos das arvores, notou
fumaça saindo de uma chaminé. Desenhos se
formavam na fumaça. Primeiro viu nitidamente
51
um homem de perfil em pé, no segundo uma
borboleta perfeita, o terceiro um peixe como o
acara. Seguiu ate a chaminé e se deparou com
uma casa velha e pequena de madeira, incrustada
na mata. Ao se aproximar lentamente da cerca
desarrumada que protegia aquela antiga
choupana, notou alguns pássaros ciscando sobras
de sementes propositalmente deixadas ali para
eles. Os pássaros coloridos era do tamanho do
sabiá. Ao lado um canteiro bem cuidado de maria
sem vergonha, cravos brancos e rosas vermelhas.
Sentiu naquele pequeno espaço de terra uma paz
interior que jamais sentira em lugar nenhum do
mundo. Daquilo que seria o portão, então Rosa
berrou.
_Tem alguém em casa?
O som da sua voz ecoou mata adentro, mas
não espantou os pássaros, isso também chamou
sua atenção e novamente sentiu a sensação de paz
envolver-te. Outra vez voltou a gritar.
_Tem alguém em casa?
Alguns segundos se passaram enquanto o eco
se dissolvia, e lá de dentro da casa uma voz
feminina respondeu.
52
_Entre. A porta está aberta.
Rosa abriu a porta sem muito esforço, olhou
o fogão à lenha, as brasas crepitavam embaixo da
panela suja de carvão que saia vapor. Olhou para
o outro lado e notou uma cama em ruínas e
deitada sobre ela uma mulher de meia idade, com
o olhar bem atento. Cumprimentou-a
_Entre! Seja bem vinda! Qual o motivo que
te trazes a esta modesta morada?
Rosa gaguejou quando respondeu.
_Eu estava lendo meu livro debaixo daquela
grande arvore, quando vi a fumaça que saia da
chaminé.
A mulher sentou na cama e
simpaticamente para Rosa. E indagou.
sorriu
_Então foi à fumaça que te trouxe ate aqui?
A princesinha tem nome? Que belos olhos verdes
você tem!
Rosa estendeu a mão delicadamente para o
cumprimento.
_Obrigado! Meu nome é Rosa. É que vi
alguns desenhos se formarem na fumaça, então
53
decidi caminhar ate aqui. Quantos pássaros lindos
te visitam!
_Muito prazer Rosa. Todos me conhecem
como Calêndula... Estes pássaros são uns mortos
de fome. Todo santo dia, eu os alimento... Mas,
me diga Rosa, que desenhos são estes que você
viu?
_Primeiro enxerguei nitidamente um homem
de pé, depois uma borboleta, em seguida surgiu
um peixe.
_Não seria delírio da sua fértil imaginação?
_Pode ate ser. Mas e a perfeição dos
contornos? Dona Calêndula.
_Sente-se, Rosa. Aqui nesta cadeira. Quando
jovens, eu meu falecido marido Estevão éramos
ciganos, e aprendi com os mais velhos, ler às
mãos e prever fatos do futuro, mas quando
mudamos para este lugar, eu e Estevão, aos
poucos deixei de lado o esoterismo.
_O que aconteceu com seu marido? O
Estevão.
_Ele gostava muito de pescar neste rio.
Quase todos os dias, lá estavam ele com sua
54
varinha de pesca na beira do barranco. Um belo
dia de calor insuportável resolveu dar um
mergulho para se refrescar e não apareceu mais.
_Você deve ter sofrido muito!
_Mas, é passado. Vamos as suas imagens que
na fumaça da chaminé se formaram. Quando
aparece a imagem do homem, tem muitas
interpretações. Começa pela fertilidade, passa
pelo egoísmo e vai ao altruísmo, também
representa a espécie humana como um todo. A
borboleta é mais singular, este nobre inseto
sempre representou a metamorfose ou mudança.
Antes à feia lagarta que se arrasta depois a
exuberante borboleta que voa feliz. O peixe
representa o alimento, a abundancia, ou algo
submerso. Pode ser uma dor ou um dom que nos
habita, mas não é possível visualizar naquele
determinado momento. Acho que consegui
satisfazer um pouco da sua curiosidade.
Princesinha!
_Não podia ser mais clara! Calêndula. Gostei
muito de te conhecer. Mas tenho que ir pra casa.
_Volte sempre que desejar. A casa sempre
estará de portas aberta pra você. Adeus, Rosa.
55
_Que Deus te proteja! Calêndula.
Na manha seguinte Rosa acordou em seu
horário de costume, depois do banho desceu para
tomar seu café antes de ir para a faculdade. Seu
padrasto e sua mãe já haviam saído para
trabalhar. Mas, eventualmente naquele dia decidiu
não ir à faculdade como o habitual. Já havia
decidido na noite anterior antes de dormir que
faria uma nova visita à casa de Calêndula. Depois
do dia que a conheceu teve uma fase muita
atribulada e excitante. Começara seu curso na
faculdade. Novos amigos, matérias novas, os
professores tão diferentes, outra cidade, ônibus
todos os dias para Santa Fé, e acabou por
esquecer o fato. Com tantas coincidências entre
ela e Ícaro sentiu a necessidade de consultar a
velha amiga cigana da beira do rio dos Amores,
talvez tivesse novidade pro seu futuro. O palhaço
Saulo tinha no seu olhar algo de mistério
guardado a sete chaves, Ícaro um jovem ator no
qual Rosa ficara encantada com sua atuação
naquele modesto palco, a lua cheia e luminosa de
ontem convenceram-na a procurar Calêndula na
floresta.
E assim Rosa desceu margeando o rio em
meio à mata restante de manancial. Pelo caminho
56
encontrou as velhas arvores conhecida. Os
salgueiros semelhantes à cascata verde, os angicos
imponentes, os ipês roxos que arremessavam
flores pelo chão, as palmeiras com aparência de
chafariz, todas sem exceção iam traçando seu
caminho. Quase uma hora de caminhada, avistou
finalmente a copa gigantesca da arvore que
desconhecia seu nome. Lá estava ela, majestosa.
E Rosa diante dela de pé admirando sua colossal
largura e também a sua altura. Depois de um
tempo, olhou para o suposto lado onde há quase
um ano vira a chaminé, porem não conseguiu
localizá-la. Teria a mata crescido o bastante de
não poder avistá-la? Caminhou na direção onde
ficava a velha casa, mas nada encontrou. Por um
momento pensou em estar engana sobre a
posição. Incrédula rodou em círculos varias vezes
a enorme arvore. Não havia nem vestígios de que
supostamente teria uma casa velha de madeira
naquela redondeza. Pela primeira vez em sua
curta vida sentiu-se desamparada, frágil como um
cristal. Talvez nem Fred seu padrasto foi capaz de
tamanho desapontamento. Sentiu medo como
nunca sentira. A floresta, já não era mais o
paraíso onde a paz reinava. Teve uma vontade
extrema de sair correndo e voltar à cidade. Todos
os motivos, que a tornara forte em seu interior,
57
desapareceram num piscar de olhos. De repente
ouviu um cavalo relinchar se assustou mais ainda.
O som do animal provinha da beira do rio. O
pouco de coragem que lhe sobrou arrastou-a ate
as margens para verificar. Para o seu alivio havia
um belo cavalo negro amarrado a um pequeno
tronco de arvore, também não muito distante um
homem pescava, com a vara absorto na
correnteza do rio. E ao longe conseguiu gritar.
_Ola! Posso me aproximar?
O homem virou sua cabeça na sua direção,
piscou os olhos como que querendo conferir a
imagem daquela bela jovem diante dele. E disse.
__Claro que sim. Mas o que faz uma moça
tão bela perdida nesta mata?
Ela caminhou os passos restantes que os
separavam. E respondeu.
_Eu não estou perdida. Meu senhor. É que
alguns meses atrás estive aqui neste mesmo lugar,
bem próximo a esta enorme arvore e havia uma
casa pequena de madeira. O senhor saberia me
dizer em que direção ela está?
58
O homem estava mais para um rapaz de vinte
oito anos, isso ficou evidente quando tirou seu
chapéu que o protegia do sol. E respondeu.
_Acho que você deve estar enganada. Venho
a este lugar há quase vinte anos e nunca existiu
uma casa perto deste jequitibá de quase dois mil
anos, no qual você se refere. Pra ser mais claro é
meu lugar favorito.
Bem mais calma Rosa conseguiu ser objetiva,
dizendo.
_Quando estive aqui, sentei-me sobre a
sombra deste jequitibá para ler meu livro, depois
de um tempo olhei para aquela direção e avistei
fumaça saindo de uma chaminé. O mais
interessante, é que na fumaça formou desenhos,
então decidi ir ate lá pra ver quem morava
naquela casa. Lá encontrei uma senhora deitada
em sua cama, de nome Calêndula e de olhos
atentos, mas sereno. Antes de entrar na casa, vi
alguns pássaros coloridos, um canteiro com três
tipos de flores. Dentro da casa, o fogão aceso e
uma panela preta pelo carvão. Dona Calêndula
foi cigana e decifrou os desenhos que eu havia
visto na fumaça.
59
De repente sua vara de pescar deu tranco e
quase que escapou das mãos fortes do rapaz, a
camiseta branca regata salientava seus músculos
não sedentários, um velho jeans desbotado e
ajustado ao corpo de quase um metro e oitenta de
altura e queimado de sol. Quando içou sua vara,
um peixe com quase trinta centímetros, estava
pendurado na linha transparente.
_Olha o que temos aqui. Um bagre!
Tirou o peixe do anzol e devolveu-o ao rio
depois de flertar um pouco. Quando Rosa
terminava sua explicação, o rapaz tinha seu foco
no destino do peixe em meio às águas turvas do
rio.
_A primeira imagem que apareceu era de um
homem de corpo inteiro, depois uma borboleta, e
por ultimo, coincidência ou não era um peixe.
O rapaz tinha uma pequena bolsa próxima a
ele e dela tirou uma garrafa e deu um longo gole,
mas antes ofereceu a Rosa.
_Está servida? É conhaque.
Ela rejeitou educadamente, mas o olhar do
rapaz não tinha a Rosa como foco. Depois de
saborear o destilado ele falou sobre a questão.
60
_Como você se chama?
Rosa prontamente respondeu ansiosa.
_Bom! Rose. Acho que você pegou no sono
enquanto lia seu livro e acabou sonhando.
Rosa quase não esperou o rapaz terminar sua
dissertação e interrompeu-o.
_Meu nome não é Rose e sim Rosa. Eu
tenho certeza que não foi sonho.
_ Desculpe-me se assim saiu seu nome, não
era essa a minha intenção. Sabe qual o melhor
lugar onde já dormi? Pro seu leigo entendimento,
foi debaixo deste jequitibá do qual você se refere.
E digo mais, sonhei profundamente.
Rosa virou-se como se fosse partir, mas
desistiu quando ele prosseguiu de forma amena.
_Mas, os poucos livros que li, a respeito de
misticismo e sonhos me da o direito de clarear
suas idéias. A arvore e o livro deixaremos de fora
desta nossa conversa. Os pássaros representam a
liberdade, e o colorido deles é o momento
presente e de como você é feliz em ter esta
liberdade. As poucas flores no canteiro designam
o numero de amigas que você pode confiar, uma
61
vez que seu nome é Rosa, assim sendo as flores
representam pessoas. A casa de madeira em
decadência representa a família e o convívio
dentro dela. Você pode notar que a panela suja de
carvão se destacou como o fogo que ardia. Algo
dentro da sua família te incomoda de alguma
maneira. Em relação ao nome, Calêndula se
refere a uma erva muito usada para curar cicatriz,
também tonificante e antiinflamatório. Talvez
esteja indicando o remédio para as suas feridas. A
mulher deitada com olhos atentos, mas serenos,
representa o momento de paz de que esta pessoa
necessita passar, mesmo com todos os problemas
dentro do convívio familiar. Tem algo a ver com
você?
_Parece bastante convincente. E o que me
diz a respeito dos desenhos na fumaça da
chaminé?
_O homem que você viu, no seu caso sendo
mulher. Existem varias possibilidades. Pode ser
um namorado, pode ser um amigo novo ou a
figura paterna. A borboleta sempre representou
mudanças, transformações na vida e para melhor.
O peixe representa a soma de tudo que já disse. A
incógnita das transformações e as duvidas do ser
do sexo masculino representado pelo homem, os
62
amigos que podemos confiar à vida em família, se
realmente devemos mexer na serenidade ou paz
de alguém que já sofreu. O peixe sempre estará
submerso nos rios ou nos mares. Sabemos que
existem, mas só cabe a nós querer pescá-lo ou
não.
Rosa ouviu atentamente as coincidências com
sua vida, mas não demonstrou ao rapaz. Pois, pra
ela, ele se portara muito arrogante no diagnostico.
E com a fisionomia falsa, disse.
_Tenho certeza absoluta que não foi sonho.
Tinha uma casa aqui por perto. E vou achá-la.
Obrigado pelas suas explicações.
_Ah! Um momento senhorita. Moro em
Santa Fé e tenho uma loja de antiguidades. Aceita
um cartãozinho com o endereço?
Tirou da bolsa um cartão e entregou a Rosa
que se despediu. Ao ler o cartão para verificar o
nome quase desmaiou quando leu.
Luiz Estevão Navarro fone: 6587-4290
Antiquários
Rua dos Canteiros. Nº 22 Santa Fé
63
As pernas de Rosa tremeram quando se
distanciava do rapaz, agora sua luta era para
conseguir sair do meio da mata. Estava
totalmente
perplexa
diante
de
tantas
coincidências que circundavam sua vida neste
pequeno espaço de tempo. Estevão era o nome
do marido de Calêndula. Correu o mais rápido
que conseguiu para se livrar do medo que
penetrou em sua alma, pensou que saindo da
mata se livraria de tantas incertezas que reinava
sua consciência. Que no meio da multidão, entre
pessoas na cidade, com a presença de gente
conhecida dispersaria o turbilhão de idéias que
lhe causava mal estar.
Correu amedrontada como a criança que fora
despercebido e cresceu. Correu para a igreja
ofegante, muito mais pela íngreme colina. Rezou
como nunca havia rezado, talvez só durante o
catecismo. Pediu perdão pela falta de fé, também
perdoou a todos em voz alta ajoelhada em frente
ao altar. Só assim finalmente teve um pouco de
tranqüilidade.
Do seu quarto só saiu para se alimentar nos
dois dias seguintes, alegou cinicamente a sua mãe
que cólicas menstruais estavam insuportáveis,
para não ir à faculdade. E no passar das horas o
64
tormento foi dissolvendo e a corajosa garota
começava dar o ar da sua graça, como antes. Por
sensatez e comodidade priorizou seus
pensamentos em Ícaro, o circo, o palhaço Saulo.
Teria que pensar nas aulas que perdeu na
faculdade, seu trabalho de pesquisa teria que ser o
melhor. Sempre foi assim nos anos anteriores,
buscava o que tinha de melhor do seu intelecto.
Uma aluna da qual os professores notavam que
valia a pena a dedicação ao ensino e os anos de
magistério. Ganhou muitos concursos de redação
e os trabalhos em grupos recebiam seu empenho,
só eram entregues quando passava pelo seu
minucioso aval. No antigo curso do colegial
conseguiu o merecido respeito por todos, porem
a menos de um ano na faculdade teria que
mostrar seu talento para receber no mínimo a
atenção dos colegas de classe. Isto era muito claro
em seu pensamento. Ela sabia muito bem, que
teria que ir alem. Rosa em casa resolveu colocar
nas folhas em branco o que sua cabeça
maquinava diante dos fatos que surgiam, como
uma grande brincadeira. E assim escreveu.
Aos (dias) nossas vidas sempre pertenceram,
como as paginas numeradas ao livro, como o
próprio (dia) que se rende ao poder do rei sol,
também as poéticas noites que se ajoelham aos
65
encantos da lua. A chuva que cai silenciosa e fria
depois de um vôo cego sobre os céus, volta
cantando ao seio materno da mãe terra. Pertence
aos pés, que caminham nos dias sem rumo ou
com, os inanimados e bem desenhados sapatos
que agora não causam calos nem joanetes, nem
espalham chulé ao carpete. A luva acolhedora, o
anel invejável de brilhantes, as unhas que o verniz
colorido protege pertencem às nobres e hábeis
mãos. Como a porta que usamos como passagem
que deixamos que imagens entrem em nossas
vidas, pertencem simplesmente à parede gélida e
sem vida que nos protege das intempéries do
tempo. O tempo que passa desesperado sem que
possamos senti-lo com todos os seus sabores,
pertence aos dias, um após o outro. Para nossa
filosofia vã.
Puro engano! O tempo é a força motriz ou se
assim quiser, o núcleo do buraco negro. Ele suga
idealismos e sonhos realizados ou não, a
esperança não é poupada com sua magnitude, a
suavidade do carinho, o divino do amor e a
dedicação, o frenesi louco do prazer, os rejeitados
tédio e a solidão, as doenças e dores com suas
feridas, nada será excluído da magia do tempo. E
você me pergunta. Porque o tempo é mágico? E
te respondo.
66
_O mesmo tempo que nos atrai é o mesmo
tempo do qual fugimos. E será sempre o mesmo
tempo que nos impulsiona a progredir na corrida
biológica no meio químico que envolve toda
questão do universo. Se não fosse contabilizado o
nobre tempo, não gastaríamos nossas energias
sem necessidade. O tempo nos causa medo,
estresse,
angústia,
ansiedade,
depressão,
equívocos. O mesmo tempo pode ser
completamente real ou infinitamente fictício. Real
porque estamos embutidos nele como fogo fátuo,
e fictício, porque sonhamos nele e a ele demos
esta dimensão. E diante dos nossos olhos o
tempo vai passando, verdadeiro ou falso, lento ou
rápido demais para alguns, para outros nem
tanto. O que importa mesmo é que com ele
aprendemos a crescer, a desenvolver, a
envelhecer, e nele somos dissolvidos em micro
partículas de tempos em tempos. E como
brincadeira de quebra-cabeças, o tempo decide
unir novamente as partículas e dar forma há
algum tipo de vida animal ou não. Sempre somos
assolados no interno pelo tempo ido não
aproveitando e também não fazendo o que era
necessário. E vivemos esperando ansiosos para
que o tempo futuro seja promissor e saudável,
mas não degustamos o tempo presente com
67
todos os seus sabores e aromas. Que venham os
tempos das ampulhetas, dos relógios de sol, de
ponteiros, os digitais, porque o tempo é
imensurável e impossível de calcular. Tentamos
em vão registrar a passagem do tempo em
filmadoras, e ate tentamos pará-lo em fotos.
Apenas isso, e mais nada afinal.
Enfim olhou para o relógio em cima do
criado mudo da sua cama, do lado um abajur lilás
denotava ainda mais a foto do porta retrato, que
nele ela e sua mãe sorriam, e ao fundo o rio dos
amores e sua correnteza. Percebeu nos ponteiros
do relógio que ainda dava tempo de ir ao circo.
Conferiu sua carteira para ver se dinheiro dava
para pagar sua entrada, se vestiu e seguiu seu
destino.
Sentada nas arquibancadas do circo viu os
espetáculos encantada como sempre, porem
quando as luzes se ascenderam se perguntava
sobre a peça encenada por Ícaro. Qual o motivo
dele não ter se apresentado esta noite? Como na
ultima noite em que estivera no circo foi para o
lado de trás onde perguntou por Saulo para outro
palhaço que avistou. O mesmo, alegremente
indicou o trailer em que se encontrava, e ate o
trailer dirigiu-se Rosa.
68
_Seu Saulo! O senhor está ai?
Saulo apareceu ansioso a porta, muito pela
visita que recebia. O pouco que conversaram fez
com que ele se sentisse melhor em relação aos
seus problemas internos, e viu nela uma válvula
de escape. Por capricho egoísta não havia
encontrado alguém com capacidade para
depositar confiança e confidenciar o que te
importunava há tantos anos.
_Como vai Rosa? Por um momento achei
que não a veria nunca mais.
Desceu os quatros degraus que o levaram ao
mesmo nível e cumprimentou-a elegantemente
beijando as costas de sua mão suavemente. E
Rosa respondeu. Sempre simpática, o sorriso
estampado em sua face era sua marca registrada.
_Estou bem! Só estive com alguns
probleminhas de saúde, mas já me recuperei.
_E qual bom motivo que te trazes ate aqui
minha jovem? Ou seria para escrever uma historia
da decadência de um grande circo?
_O motivo real é sobre a ausência do
espetáculo do Ícaro. Mas, também gostaria de
saber de como era nos tempos áureos, já que o
69
circo foi grandioso deve ter historias fantásticas
pra me contar.
_Ah! Historias é que não pode faltar.
Enquanto ao jovem Ícaro, está tendo uma
temporada grandiosa. A peça de teatro que ele
escreveu tem feito muito sucesso e tem atraído
gente interessada na contratação dos seus dons.
Está sendo avaliado por uma comissão julgadora.
Talvez ira participar de um festival de teatro em
São Paulo.
_Você se refere àquela peça que ele apresenta
aqui no circo, sobre a paixão pela lua?
_Não. Aquela pequena encenação é mais um
exercício que faz para ficar perto de mim. No
outro, ele recita poemas escritos por ele e
também tem um amigo, o Emilio com quem
divide o palco. Eu ainda não tive o prazer de ver,
apenas vi alguns ensaios quando estive em Nossa
Senhora dos Milagres.
Alguns cachorros circulavam Saulo e Rosa
que sem convite de alguém saíram caminhando
em passos lentos pelo grande terreno gramado,
enquanto conversavam.
70
_Eu gostaria muito de ver, antes que o
sucesso leve-os daqui pra São Paulo. Você não
gostaria de ir me acompanhar? Saulo.
Saulo sorriu feliz, como um pai sorri para
uma filha ao receber o inesperado convite. Há tão
pouco tempo que a conhecia e a impressão não
poderia ser melhor. Rosa sem que percebesse
conquistava a confiança de um homem que
passara anos como uma pedra, sem vida parada
em um lugar esperando que um dia esse
desconhecido alguém passaria ali diante dele. E
assim mantinha os olhos sempre bem abertos.
Saulo respondeu como uma criança que acabou
de ganhar um brinquedo na noite de natal, e sabe
que vai ganhar outro.
_Será um grande prazer ir com você! Rosa.
Poderemos ir amanha, se você desejar. E aqui no
circo não haverá espetáculos.
_Já que falou sobre o circo. Conta-me como
começou sua historia circense.
O olhar triste no vazio do homem buscava
na memória fatos do seu passado, parecia que via
um filme que era rodado diante da sua visão.
Mas, conseguiu um começo que no momento
achou apropriado.
71
_O grande circo Navarro era comandado por
meu pai, tinha vários leões, tigres de bengala,
elefantes, chipanzés, domadores, varias carretas
para fazer viagens longas. Os espetáculos eram
magníficos! Quase sempre todas as arquibancadas
lotadas de gente! Eu era apenas um jovem de
vinte anos, gostava de fazer alguns truques de
mágica e uns números de palhaço que aprendi
com meu avo, o fundador do circo. Há quase
trinta anos atrás o circo veio fazer uma
temporada por estas bandas. Na época namorava
a filha do domador. Jasmim, nome de flor igual o
seu. Enfim, Jasmim e eu ficamos uns cinco anos
namorando escondidos em meio às carretas,
jaulas e trailers. Éramos completamente, um
apaixonado pelo outro. Eu, nunca consegui sentir
o mesmo amor por alguém durante estes trinta
anos.
Quando pronunciava, no drama da sua
expressão tinha-se a impressão que ele estava
vendo as pessoas da qual falava. Era mágico
como Saulo conseguia viajar no tempo, realmente
fora profundo o corte em sua carne. A ferida
poderia ser aberta toda vez que tocasse no
assunto, porem noutras oportunidades a dor era
aguda, mas exclusivamente diante de Rosa estava
72
anestesiado e sentia-se bem confortável na
revelação.
_Realmente estávamos muito felizes!
Viajávamos a vários lugares, conhecíamos cidades
pequenas e grandes, sem nos afastar um instante
um do outro. Era o paraíso na terra para qualquer
casal de namorados! De repente, Bromélia a
mulher contorcionista que era casada com o
mágico do circo começou a perseguir-me com
seu olhar. Seu corpo de mulher madura era de
tirar o fôlego de qualquer um. Eu, ainda muito
jovem, bonito, forte no auge da virilidade, cai de
quatro por ela como touro ao levar uma
marretada. Em uma destas visitas no trailer da
Bromélia enquanto seu marido não estava Jasmim
nos surpreendeu sem roupas em cima da cama.
Ainda posso ver o olhar de decepção de Jasmim
daquele fatídico dia. Pra minha maior surpresa,
Jasmim estava esperando um filho meu. Eu só fui
saber depois que a criança tinha nascido. Depois
do ocorrido ela se afastou do circo indo morar
com sua avó. E que o endereço me foi negado,
por ela mesma. Assim o pai dela me disse. No
começo achei capaz de esquecer e passar por
cima como um rolo compressor. Jovens, sempre
se acham super-homens, invencíveis! Mas, o
homem forte foi se extinguindo, o amor abrindo
73
meu corpo de dentro pra fora, como se eu
estivesse dando a luz a minha burrice...
Por alguns instantes reinou um profundo
silencio e Saulo continuava com o olhar fixado no
vazio. Depois concluiu.
_Rosa! Está muita tarde pra você. Amanha às
sete da noite sairemos daqui e no caminho pra
Nossa Senhora dos Milagres, continuamos nossa
conversa.
_Boa noite! Seu Saulo. Ate amanha as sete
em ponto. Estou muito lisonjeada. Por ter me
confidenciado sua historia! Quem sabe, não possa
te ajudar de alguma maneira.
_Com certeza, já está ajudando e muito. Boa
noite! Rosinha!
Naquela noite Rosa não foi direto para cama
com seu livro como o habitual. Ao contrario
disto decidiu fazer anotações das historias que
surgiram em sua vida como uma tempestade de
verão, turbulenta, sem aviso, mas, refrescante e
entusiasmada. Todos os detalhes, os pontos
importantes eram anotados para não perder o fio
da meada, pra que as historias não ficassem sem
teor. Seu trabalho finalmente ganhava formas,
74
tinha consistência e conteúdo, um enredo que do
nada apareceu como um presente que ela achava
merecedora. Agregado a isso ainda tinha o
personagem de Estevão que parecia surreal, mas
que fora profundo nas coincidências de sua vida.
Para que agregasse Estevão à parte da historia
teria que se aprofundar. E diante deste dilema
sentia-se
amedrontada,
apavorada
se
comprovasse que de fato não existisse o tal do
colecionador de antiguidades em Santa Fé.
Retirou da sua carteira o cartão de visitas que o
rapaz lhe dera e mais uma vez se certificou do
endereço que estava escrito. Pensou que depois
que saísse da faculdade passaria para confirmar se
realmente existia a tal loja de antiguidades. Mais
uma vez o frio subiu pela espinha. Mas, não havia
outra saída inteligente, teria que enfrentar e
pesquisar para por fim a suas duvidas que
importunavam. Porem, Saulo era uma historia a
parte, totalmente real diante de deus olhos e de
seus ouvidos, pois ele lhe confidenciara parte
importante da sua vida. Um ser que representava
a mais de trinta anos um palhaço que é sinônimo
de alegria, mas por trás daquela maquiagem
colorida havia um ser humano repleto de
tristezas, como todo ser vivente. Assim ela
percebeu que no mundo nada era tão perfeito, e
75
que todas as pessoas tinham algo com que
principiavam suas neuroses, seus medos, suas
encanações. Com todos estes esboços
traumáticos das pessoas que te circundavam,
construiu sobre seus pés uma consistente
plataforma, e a menina começava querer dar lugar
à mulher que dali em diante teria que mostrar sua
força. Em alguns momentos duvidou sobre sua
capacidade de enfrentar estes problemas e dar as
pessoas soluções plausíveis para estas
dificuldades. Seus pensamentos exigiam dela sem
descanso que tomasse medidas cabíveis para
solucionar estas duvidas, sem ser intrometida. A
flor necessitava desabrochar a qualquer custo,
sem que os espinhos arranhassem alguém, pois
por elas passou a ter muito carinho e estima.
Sentia-se como uma ave que com afinco protege
em baixo das asas sua prole.
No dia seguinte, Rosa quando saiu da
faculdade foi à procura da loja de antiguidades na
rua dos canteiros, numero 22. A ansiedade ficava
mais evidente a cada passo que dava, pois estava
diante da situação mais incrédula de sua vida, mas
ao se defrontar com a porta da loja o mal estar
desapareceu dando lugar à grata sensação de
esperança. Ainda mais que Estevão a recebeu
muito feliz, a gentileza e cordialidade se
76
sobressaiu apagando aquele homem arrogante
que conhecera na beira do rio. Luis Estevão
usava uma camisa pólo bege, a calça um jeans
levemente desbotado, nos pés um tênis
confortável branco com detalhes em vermelho.
Sorriu verdadeiramente com todos os dentes
perfeitos daquela bela arcada de invejar muitos
artistas, o corpo moreno queimado de sol e os
cabelos castanhos escuros não muito compridos,
deixavam mais branco seu sorriso. Rosa se
surpreendeu com aquela bela expressão que nem
de longe parecia aquele rapaz intolerante. Desta
vez demonstrava extrema felicidade em estar
diante dela, um brilho no olhar que a encantou
como nunca. Por alguns instantes ela pensou
tratar de estar constatando que era real o tal do
Estevão, e por isso estava encantada com a
presença dele. Ali, verdadeiro e belo diante dela.
Ele estava na porta quando a reconheceu do
outro lado da rua e radiante de lá gritou.
_Será verdade que os meus olhos vêem? Ou
será uma miragem no meio do caos urbano? Ou
seria um dos meus delírios? Como vai Rosa?
Rosa atravessava a rua de paralelepípedos
segurando alguns livros didáticos apoiados aos
seios rígidos, o cabelo amarrado tipo rabo de
77
cavalo não escondia a blusa caqui de algodão,
uma saia florida em tons de vermelhos ia ate a
altura dos joelhos. Quando se aproximava
respondeu.
_Tudo bem! Eu que pensei que você fosse
uma alucinação. Deixou-me amedrontada estes
dias Estevão.
_Gostaria de desculpar-me por ter sido
prepotente lá na beira do rio.
_Está desculpado. Mas a primeira impressão
é a que fica.
Mal sabia ele que a primeira impressão que
Rosa tivera fora à imagem de um homem
musculoso queimado de sol, que retratara de
forma objetiva, seus segredos bem guardados.
_Vamos entrar Rosa. Seja bem vinda.
Rosa sentiu o gostoso perfume, também os
lábios quentes e carnudos tocarem sua face
quando a cumprimentou. Seus olhos atentos
focavam as peças enquanto cruzava o corredor da
loja. Viu mesas, cadeiras, penteadeiras, estofados,
poltronas, estantes, biombos, porta chapéus,
todos restaurados com muito capricho, alem de
toca-discos, rádios, televisores e telefones
78
arcaicos, geladeiras e estatuas de vários materiais
bem organizados em ambientes planejados dava
um ar nostálgico à loja.
_Aquele sonho debaixo do jequitibá me
pereceu tão real que achei que você fosse um
fantasma.
_Como tem tanta certeza que não sou um
fantasma?
_Estou te vendo pela segunda vez. A sua loja
realmente existe de fato.
Luis Estevão sorriu, esticou o braço e
ironizou.
_Você não acha que deve beliscar-me para
melhor se certificar?
Ela deu leve tapa no seu braço, ele por sua
vez apertou delicadamente sua bochecha. Depois
a convidou para sentar na poltrona em um dos
ambientes do seu antiquário.
_Como começou a colecionar tantos objetos?
O sorriso deu lugar a uma expressão mais
seria quando respondeu.
79
_Quando minha avó morreu, há dez anos,
herdei seu mobiliário bem preservado por ela.
Daí em diante não parei mais. Virei um
aficionado por coisas antigas. Quando olho para
algum objeto e sinto aquele aroma de envelhecido
fico inebriado, posso sentir ate a energia das
pessoas que o utilizaram. Talvez seja uma busca
do meu interior, que necessita algo que ficou no
passado e que ainda não sei de fato o que é. Mas,
vou encontrar custe o que custar.
_Não acredito que tenha muitas pessoas
interessadas em objetos antigos aqui em Santa Fé.
_Aqui na loja, mais compro do que vendo.
Trabalho mais com locação para cinema, teatro e
televisão. Pra ser franco com você, não gosto de
vender meus objetos. Acho que cada objeto tem
sua historia, mesmo que eu tenha criado estas
historias. Quantas e quantas vezes imagino as
famílias reunidas nestes ambientes. É meio insano
dizer isso. Mas, tenho muito prazer em observálos!
_Eu acho que você é um fantasma que
ressuscitou!
Rosa brincou deixando o dialogo mais
informal, o sorriso voltou às faces de ambos. E
80
assim prosseguiu fazendo um convite, contudo
Luis Estevão tinha seus olhos fixados nos dela.
_Já que você falou em teatro. Hoje à noite
vou a uma peça em Nossa Senhora dos Milagres.
Não gostaria de ir?
_Claro que gostaria de ir. Porem hoje à noite
tenho um encontro com uns produtores de
cinema para acertar os detalhes de locação
daqueles três conjuntos que estão lá no fundo.
Podemos ir outro dia se você não se importar?
_Claro que sim. Amanha, quando sair da
faculdade passarei por aqui pra ti falar, se
realmente vale à pena ir ou não.
_Alem de ser a garota mais linda da
faculdade. Que curso você faz na faculdade?
_Pretendo ser jornalista. Bom Luis Estevão!
Tenho que partir, se não minha mãe manda a
policia inteira de Esperança do Sul atrás de mim.
_Ah! Já ia me esquecendo. Tenho uma
pequena lembrança para você. Gostaria que
aceitasse como forma de selar nossa amizade e o
carinho que tenho por você.
81
Tirou de dentro de uma pequena arca um
broche de prata, nele esculpido um buquê de
rosas e atrás gravado: Rose ou Rosa.
_Claro que aceito! Nossa! É lindo! São rosa.
Todas as vezes que eu olhar para ele, sempre
lembrarei que tenho um grande amigo,
fantasminha solto por ai.
_Minha avó ensinou-me. Quando conhecer
alguém importante, de algo para que ela sempre
pense em você de maneira positiva.
_Sua avó era uma pessoa muito especial.
_Tudo que sou devo a ela, dona Gardênia!
Uma mulher especial.
_Porque você não fala dos seus pais?
_Meu pai eu não conheci e minha mãe
morreu decorrente de problemas pós-parto. Eu
tinha quatro meses. Por isso é que fui criado por
minha avó. A pouco quando nos encontramos e
você chamou-me por Estevão sem o Luis na
frente, me fez lembrar ela. Apenas ela chamavame assim.
_Quando nos conhecemos, lá na beira do rio
confesso que fiquei assustada quando olhei para o
82
seu cartãozinho e li seu nome. Por coincidência
você tem o mesmo nome do marido de
Calêndula, a mulher dos meus sonhos.
_Mas você não me disse que ela era casada?
Ou disse eu que não ouvi?
_Ela me contou que ele gostava de pescar
naquele lugar onde você também tem como
preferido. Só que ele, em certo dia de calor
mergulhou e não apareceu mais. No mesmo lugar
com o mesmo nome. Que coincidência! Foi um
susto enorme, que sai daquele lugar com pernas
tremendo de medo. Resumindo fui pra casa com
uma duvida maior ainda, não sabia se seria um
sonho ou se você fosse o fantasma do marido de
Calêndula.
Neste momento, repentinamente Estevão
abraçou Rosa e disse em tom baixo ao pé do
ouvido encostando seus lábios no lóbulo da
orelha esquerda.
_Agora você pode ter certeza que existo.
Estou aqui bem próximo de você.
Mais uma vez, Rosa pode sentir o bom
perfume que entrou em sua alma como uma
bomba silenciosa e se alastrou por seu corpo
83
inteiro, sentiu-se bem protegida pelos braços
rígidos e por um momento fizeram na levantar e
girando ao ar. O prazer foi puro e duradouro, a
ponto de Rosa já estar dentro do ônibus a
caminho de casa e ainda delirava sob o efeito do
calor dos braços de Estevão. A paisagem já
exaustiva do caminho entre Santa Fé e Nossa
Senhora da Esperança passava despercebida por
ela. As plantações de canas, intercaladas com
laranjais em flores, noutras os pastos verdes eram
pincelados de preto e branco pelo gado
misturado de holandês. De vez em quando a
estrada se aproxima do rio e assim a paisagem se
transformava em mata nativa, só assim seu delírio
era momentaneamente interrompido. Quando
pegou o broxe que esculpido o buquê de rosas de
dentro de sua bolsa admirava-o quão delicado era
a pequena jóia que ganhara e mais uma vez leu:
Rose ou Rosa, gravado na parte de trás.
Quarenta quilômetros separam uma cidade
da outra e quase uma hora de ônibus passaram
num piscar de olhos, pois o tempo fez questão de
envolver Rosa sem que percebesse que o que
sentia poderia transformar-se em paixão. Diante
de Estevão ela se sentia segura de todos os seus
conflitos internos que há anos consumiam muito
do seu precioso tempo. A menina queria a
84
companhia de um homem, e agora esta
oportunidade parecia se descortinar diante dos
seus olhos verdes. Não mais de menina, seu
coração vibrava de emoção, podia sentir o cheiro
dos hormônios aflorar, e pela primeira vez em
sua vida se viu nua e um homem também nu.
Beijavam-se freneticamente e rolavam num lençol
estendido no meio da mata. O canal vaginal
umedeceu, seu clitóris endureceu mesmo sentada
em uma das ultimas poltronas do ônibus que
vibrava no percurso sinuoso, suas mãos
acariciavam seus mamilos que se salientavam de
tanto prazer que o dominava. As sensações a
dominaram por boa parte do percurso, sendo só
interrompidas pelas vibrações dos pneus em
contato com os paralelepípedos ao entrar em
Nossa Senhora da Esperança. Rosa voltou à
realidade do dia quando entrou em casa, sua mãe
abordou no meio da sala questionando o atraso
para o almoço. Rosa sempre sincera com todos e
com a mãe não poderia ser diferente, foi
conclusiva ao dizer que passou na loja de
antiguidades para visitar um amigo, e que as
historias estavam envolventes e a companhia
também era muito agradável alem de ser um
homem muito lindo. Sua mãe ate brincou com a
seguinte frase.
85
_Finalmente a Rosa vai se abrir para o amor!
Ou é mais um alarme falso?
Rose sempre muito carinhosa com a filha
segurava suas mãos e abraçou Rosa
afetuosamente quando falava. Deixando de lado
o caráter de Fred e suas recaídas sexuais por
secretarias. Mãe e filha se identificavam em
muitos pontos, havia diálogos sempre francos,
mas sem muita exposição de ambas as partes. Por
ser uma criança sem pai, Rosa foi preservada em
varias verdades importantes, na relação entre mãe
e filha. Normalmente quando o pai é vivo, a mãe
reclama para as filhas os defeitos do pai e um
pouco das suas angustias da relação. Neste caso
especialmente sua mãe achou melhor poupar
aquela criança desprovida de genitor e que já
sofria em demasia sem esta importante referencia.
E esta parede imaginaria que limitava o dialogo
entre elas de fato foi erguida simplesmente por
Rose no intuito de proteger a pequena filha. E
Rosa tinha esta percepção do problema, mas
pensava que no futuro e mais experiente esta
parede poderia ser destruída com certa facilidade
e assim ter sua mãe mais próxima de ti.
Rosa almoçou, colocou em ordem seu guarda
roupas, anotou mais alguns itens ao seu trabalho
86
que ganhava forma cada vez mais. Depois, tomou
um banho demorado e relaxante, pensava com
qual roupa sairia à noite para ir ao teatro na
companhia de Saulo. Teria que ser discreto e não
podia ser leve, pois a temperatura caiu
bruscamente no final da tarde já quase começo de
noite. Voltou a pensar em Saulo e seu drama,
como é triste a vida de um ser sabendo que tem
um filho em algum lugar deste mundo e que
talvez nunca o encontre.
Saiu do banho e diante do espelho enxugavase completamente nua, observando como
atraente seu corpo se tornara, seus seios firmes e
sensuais, seu quadril e as nádegas salientes,
cochas roliças sobre pernas bem construídas,
talvez pelas caminhadas diárias. E falava sozinha
trancada no quarto.
_Preciso por este conjunto bem distribuído
para funcionar... Somente a você Estevão, será
cedido o direito... O primeiro homem a
manipular cada centímetro deste conjunto de
sensualidade.
Primeiro colocou uma calcinha preta, virou
de costas para o espelho para acertá-la, em
seguida um sultien da mesma cor que deixou os
seios mais erguidos, vestiu um jeans justo, uma
87
blusa azul céu e cobriu com uma jaqueta também
de jeans e uma bota de couro marrom completou
a vestimenta. Carregou na maquiagem
principalmente nos olhos. Passou seu perfume
francês, pegou sua bolsa de couro gasto com
detalhes em miçangas, trancou a porta do quarto
e saiu no destino do circo onde encontraria Saulo.
A cidade de Nossa Senhora dos Milagres está
a quinze quilômetros de distancia de Nossa
Senhora da Esperança do Sul. Todo o trajeto é
bem pavimentado, sinalizado e conservado, que
torna seguro transitar pela rodovia. E dentro do
velho jipe com capota, pertencente a Saulo que o
dialogo flui de forma investigativa por parte de
Rosa que perguntou.
_Voltando a aquela nossa conversa, Saulo.
Você nunca mais teve noticias de Jasmim?
_Como eu já lhe disse, os primeiros cinco
anos passou como um trem, pois para aquele
jovem sedutor não faltavam mulheres. Fui
percebendo que não tinha perdido uma simples
mulher e sim o grande amor da minha vida e com
ela meu filho. Sangue do meu sangue.
_Como você sabe que era filho e não filha,
Saulo?
88
_Uma de suas melhores amigas informou-me
que ela havia dado a luz durante a noite na
maternidade em Santa Fé. No dia seguinte pela
manha fui visitá-la, mas fui proibido de entrar em
seu quarto, pois estava em observação. Decidi ir
ate o berçário e a enfermeira responsável permitiu
que entrasse para ver a criança. Lembro-me como
se fosse hoje! Ela trocava suas fraldas, ele estava
nu em cima da maca forrada com lençóis
brancos. Enquanto ela limpava com algodão suas
genitálias ele mexia aceleradamente suas
perninhas. Como era esperto! Na coxa esquerda,
próximo ao joelho, tinha um pequeno angioma,
com o formato semelhante ao coração.
_O que vem a ser angioma, Saulo?
_Angioma. São estas manchas escuras de
pele, normalmente hereditárias, meu pai tinha
uma no pescoço do tamanho de um morango.
No dia seguinte à tarde voltei ao hospital para
visitá-los, para minha triste surpresa não os
encontrei, pois tiveram alta pela manha.
Uma leve garoa caia naquele trecho da
rodovia obrigando Saulo a ligar o limpador de
pára-brisas e as curvas sinuosas pausaram seus
relatos.
89
_Pois bem! Rosa. Os primeiros cinco anos,
não percebi que isto me faria tanta falta.
Vasculhei todos os cantos deste país procurando
por eles. Por seis meses abandonei o circo. Deixei
nas mãos de uma pessoa de confiança e fui
procurar com mais determinação. Mas, não
consegui nada de concreto. Decidi fazer
espetáculos em orfanatos procurando pela
criança, fui desfazendo dos grandes espetáculos
que custavam muito dinheiro. Transformei o
circo no que é hoje pra não sair desta redondeza.
E aqui estou eu, rodando nestas cidades na
esperança de encontrar talvez a criança. Em uma
destas apresentações em orfanatos conheci uma
criança que despertou em mim o senso paternal e
resolvi adotá-lo. Hoje esta criança é um ator
brilhante que nós vamos vê-lo representar. E o
que é mais perfeito ainda, ele criou seu próprio
espetáculo. Viva o Ícaro!
O silencio os acompanhou enquanto
estacionava o jipe na porta do teatro, só foi
interrompido com o deslumbramento sobre o
cartaz do espetáculo próximo à bilheteria. A foto
de Ícaro e Emilio em close e nome da peça.
(Quando as artes se unem). Sentaram bem à
frente do palco e depois as cortinas se abriram.
90
O teatro
No palco o cenário lembrava um atelier, um
grande pano branco figurava as paredes, todo
manchado de cores diversas de tinta, o resto do
cenário era composto por quatro cavaletes desses
de pinturas com telas em branco de um metro e
meio de altura por dois de largura e dois suportes
de pinceis com roldanas. O primeiro a pisar no
tablado foi Ícaro, trajava um macacão manchado
de tinta e uma boina na cabeça. Entrou
suavemente ao som de musica oriental, enquanto
recitava pausadamente cada frase do poema
pincelava em uma das telas sobre o suporte. E
assim começou Ícaro com todo sentimento.
_Um olhar lateral e atento sobre janela da
locomotiva lotada, que cortava as planícies
pinceladas de cerejeiras floridas, uma jovem
poetiza traduz sua saga na fecunda imaginação.
Como a fumaça do trem a vapor que se dilui, lhe
solta às amarras do medo do muro fragmentado,
que esconde as florestas adjacentes do passado
carregado de mistérios. No fluir único do trem
sobre o destino dos trilhos, este sensível e
91
penetrante olhar que invade as florestas que
ocultam as personalidades: ela busca encontrar
em cada minúsculo lugar respostas da sublime
vida de perguntas. Na mística que forja o talento
desta poetiza, que em cada palavra que se une a
outra como os trilhos, dando sentido à frase que
nunca de fato quer a certeza da real resposta; faz
transbordar sobre seus olhos uma cachoeira de
vocábulos melodiosos que segue o trem nessa
paralela rumo à foz da criação. O barulho da
locomotiva que rompe o muro do silencio nas
noites, como as águas da cachoeira que nunca
param de jorrar suas palavras expelidas das
entranhas das florestas: nutrem a poetiza; como o
sol que alimenta a vida na terra de Camões,
Rimbaud, Neruda e a nobre casta. O trem segue
sua viagem analógica ao tempo da criação: como
temos que primeiro saborear para aprender a
sobreviver. A metáfora do trem que guia sobre os
muros da imaginação e as planícies de florestas
que transborda criação das cachoeiras, será o
eterno nicho da poetiza rumo ao firmamento.
Pobres humanos incapazes de compreender o
centeio do pão, elaborado da mente que fermenta
o alimento dela num raio de eras. O olhar e a
menina poetiza segue focada nos trilhos dos
sentimentos arcaicos, cravados em seu peito tão
92
fragilizado, sempre a espera incansável do
esplendor contemporâneo.
Fechou as cortinas sobre fortes palmas,
depois abriu novamente e desta vez entrou
Emilio, roupas manchadas de tinta e boina na
cabeça e com a mesma destreza ao som de um
chorinho muito bem escolhido. Emilio que
também deu o seu melhor na declamação
enquanto pincelava na outra tela.
_Numa destas tardes que uma fina garoa
insistia em manter em movimento o limpador de
pára-brisas do ônibus, que descia certa avenida
movimentada de São Paulo. Em seu interior
repleto de passageiros com seus olhares vazios,
talvez mais preocupados com seus problemas
cotidianos do que com o itinerário do coletivo.
Pessoas comuns na sua plenitude, operários,
mantenedores do momento extrativista da vida,
que o funcionalismo nos impõe. Seres humanos
que carregam na expressão o eterno empecilho
do êxito na vida diante do futuro que não o é
permitido vislumbrar. Gente da mais simples
competência que o engodo atraiu para a esfera
que engloba o total da massa em volume. Pessoas
honestas que se sacrificam por conta das contas
93
que nunca acabam de mover o sistema social
necessário a sua vida em curso. Homens e
mulheres de varias idades e etnias, brancos,
negros e pardos frenéticos no caminhar atrás dos
recursos da sustentação diária. Almas fadigadas
que aguardam com desejo o descanso
remunerado próximo aos seus pra comemorar
sobre um corpo que queima do animal sem razão,
bebem com remorso o que lhes proíbem em
excesso de gratidão. Multidão sem rumo, manada
atrás do pão nosso de cada dia que nos daí hoje e
sempre, enxame sem colméia e perdoai-vos as
nossas ofensas assim como perdoamos o covil
que nos é dado sempre. A plebe.
Fechou novamente as cortinas. Voltou a abrir
desta vez retornou Ícaro impecável. Recomeçou
sua declamação, e as pinceladas em outra tela em
branco. Ao fundo uma musica erudita completa o
espetáculo.
_Uma simples pedra, ali estática ao sol e a
chuva. Estagnada sabe lá há quanto tempo sem
mover um se quer centímetro. Nobre pedra de
aproximadamente um metro de circunferência,
porque não redonda, nem quadrada não sabemos,
mas o limbo incrustado nos da a referencia da
precocidade. Pedra sem infâmia que ninguém da
94
o real valor, mas que muitos a usam para
atravessar o pequeno rio de corredeiras que desce
cortando a deslumbrante serra do mar nesta parte
ainda intocada da nossa mata atlântica.
Insignificante pedra expelida das entranhas de
algum vulcão extinto há milhões de anos, ela que
não tem vida, porem também não finda com o
lento tempo traiçoeiro. Eis a pedra sem visão
periférica, mas que presenciou calada: os que ali
passaram em curso, talvez corpos nus desfilaram
atrás de prazer ao seu redor morfológico.
Sentenciou arvores ruindo ao seu leito de
destroços enquanto eram arrastadas pela força
das águas em estrondos. Pedra que contem quase
todos os minérios da natureza em questão, pedra
de mistérios difundidos em seu interior, pedra
que não ri, mas que também não chora muito
menos sabe a hora em que deverá sair do seu
cavado lugar. Pedra sem sentimentos, mas que vai
quebrando suas facetas para originar outras
minúsculas pedrinhas e grãos para ser sedimentos
essenciais à vida do planeta agonizante. Alias não
existem diferenças, entre uma dura pedra e um
ser humano dotado de sentimentos, pois no final
faremos parte dos mesmos sedimentos. Que
vivam as pedras que nos deram direção deram
nomes a localidades, calçaram cidades de chão,
95
delas erguemos nossas moradas de proteção.
Pedras sem extinção e coração e quem nunca
pecou que atire a segunda pedra porque a
primeira pedra nós já atiramos ao fundo do rio e
as ondas se formaram.
As cortinas mais uma vez se fecharam, depois
reabriu e Emilio retornou para declamar e
pincelar a ultima tela que sobrara. Outra musica
erudita bem apropriada ao poema fez se ouvir.
_De que me adianta querer ir tão distante se
o que está aqui bem próximo, ainda não observei
na sua totalidade. As folhas velhas e secas do
fícus caíram pelo chão da varanda, e ainda resta o
galho esturricado no vaso de barro com terra
seca. No bar as garrafas de licores restam alguns
tragos que não foram sorvidos. A lâmpada da sala
que espera ansiosa para ser trocada que há anos
queimou, talvez numa noite de tempestade. No
antigo quarto do casal os livros, os porta-retratos
e os relicários de viagens do passado sobre os
criados-mudos o pó se sobressai e impera. Na
geladeira quase vazia, uma garrafa de água turva
abandonada, e sobras de verduras e legumes em
estado de putrefação, designavam bem o estado e
a situação. Uma enorme pilha, de jornais velhos
servia de ninho para uma família incontável de
96
ratos que vagueiam em procissão. As fechaduras
oxidadas pela ação do tempo ido e as dobradiças
enferrujadas das portas internas rangem
estridentes pela deslocação do vento dos
corredores que entram pelas venezianas
destroçadas e com os vidros quebrados. No piso
o brilho se foi, os tacos se soltaram certo que pela
dilatação. Do antigo sofá de couro marrom
rasgado ate o televisor de transistor uma ponte se
estende de teias de aranha. Os fachos de sol
transpassavam a cortina puída que já não era mais
branca. Acima do sofá também se estendiam mais
teias ate um quadro com uma aquarela abstrata
pendurado na parede que devia ser azul turquesa.
Em outra parede da sala de jantar um relógio que
os ponteiros não se mexiam, mas que no passado
foi muito olhado quando a vida funcionava ao
seu redor. Sobre a mesa esticada uma toalha de
linho florida, quatro xícaras e pires e os talheres
de prata ao lado denotava que não fizeram seu
chá vespertino num destes dias de inverno. Só
posso afirmar que tomariam chá, porque lá ainda
estavam os saches de ervas corroídos pelos
bichos. O bule de prata e cesta de pães vazia
talvez, surrupiados pelos roedores. O cheiro de
mofo que vinha da umidade do banheiro que
ainda gotejava nas torneiras e do velho chuveiro.
97
As escovas de dente sobre o lavatório dentro do
copo de plástico encardido, acima do lavatório o
espelho quebrado dividiu meu reflexo em partes
desiguais. Sai daquela velha casa em passos lentos
da mesma forma e pela mesma porta que entrei,
sem encontrar o que esperava. O meu passado.
As cortinas se fecharam sobre as fortes
palmas dos espectadores que ficaram de pé.
Quando reabriram os dois atores agradeceram
dobrando o corpo como o habitual. Quando as
palmas finalmente cessaram, eles se apresentaram
e ofereceram as telas se houvesse interessados em
adquiri-las pelo preço de duzentos reais cada. E
pela ultima vez as cortinas se fecharam.
Foram ate o camarim onde a tietagem
demorou em se dispersar. Saulo apresentou Rosa
a Ícaro e a Emilio. Depois de muitos elogios e
com os pés na terra o dialogo voltou ser normal
sem aquele frenesi. De repente Saulo pediu
licença para ir ao banheiro e se retirou. Logo
depois que a porta do camarim se fechou com a
saída de Saulo, Ícaro e Emilio deram um longo
beijo bem na frente de Rosa que foi pega de
surpresa. Em seguida gritaram em coro.
_Conseguimos! Vencemos!
98
Depois da cena de paixão e emoção Ícaro
confidenciou para Rosa seu romance com Emilio.
_Por favor, Rosa! Não conte nada para o
Saulo, ele desconhece esta minha opção sexual.
Penso que talvez ele não entendesse e teríamos
que romper uma linda amizade, quase que de pai
para filho.
_Jamais faria isso. O amor é lindo em
qualquer circunstancia. Gostaria que todo mundo
entendesse desta forma. Acho que o mundo seria
perfeito demais.
_Eu acho que o amor e o espetáculo que falta
para o show da vida ser completo.
Falando assim Emilio decidiu brincar com as
palavras em comum acordo. Depois Ícaro
concluiu elogiando o namorado no mesmo tom.
_Depois de ser ator, pintor, poeta resolveu
ser filosofo?
E mais um longo beijo foi dado entre o casal
de atores apaixonados. E Rosa deu seu
depoimento singelo para o momento.
_Ah! O amor está no ar!
99
Eles sorriram profundamente depois do
beijo.
_Amanha vocês voltam a se apresentar?
Tenho um amigo que gostaria de trazer para ver a
peça.
_Infelizmente não. Só alugamos o teatro para
dois dias, foi um acordo com a comissão do
festival de São Paulo.
Depois, que Saulo retornou do banheiro
trocaram mais algumas palavras sem muita
importância, pois muito se falaram assim que
terminou a peça e se despediram com muito
respeito e admiração.
O jipe seguia na estrada sinuosa retornando a
Nossa Senhora da Esperança do Sul e a lua clara
iluminava o caminho. Já era quase madrugada e o
frio penetrava pela carroceria do jipe que não é
apropriada para a vedação. Em Saulo sua
expressão era de preocupação com a breve
partida de Ícaro para São Paulo, onde talvez
acabasse ficando para sempre. E não tinha
duvidas em relação a isto, pois para sua atividade
não havia lugar melhor para exercê-la do que a
paulicéia desvairada. Alguns carros passaram de
encontro ao jipe e seus faróis ofuscavam a visão
100
de Saulo, mais acentuavam os olhos lagrimejados
do homem que a solidão era seu maior castigo.
Um homem de cinqüenta anos que carregava um
corpo de setenta devido ao martírio que vez ou
outra cutucava suas feridas que jamais se
cicatrizaram. Com esse sentimento Saulo se
lamentou ao volante.
_Acho que sou fadado a carregar o fardo da
solidão, Rosa! O homem nasce, cresce, e ao
envelhecer murcha como a flor.
Rosa tentou em vão elevar o moral, mas o
velho palhaço estava compenetrado em seus
lúdicos pensamentos constituído por anos de
reflexão.
_Não seja tão pessimista Saulo. Alias durante
anos você tem feito muitas crianças sorrir. Seu
lugar ao lado dos anjos está reservado. Apesar de
achar que você ainda tem muita lenha pra
queimar!
_Gosto do seu otimismo juvenil, Rosa! Bem
que podia ser contagiante.
_Você tem muitos amigos que gostam de
você, do seu trabalho, eu também sou sua amiga,
101
mas sei que também não é lá grandes coisas. Não
deixarei de visitá-lo.
_Se o mundo fosse repleto de rosas como
você, não existiria um homem triste rodando por
ai! Depois de Ícaro você tem sido o fato mais
interessante da minha vida nos últimos anos!
_Obrigado Saulo!
_Há muitos anos atrás fizemos uma
temporada de seis meses pelo nordeste. Em umas
destas paradas armamos o circo em São Luis do
Maranhão. Num dia de folga foi visitar a cidade
de Alcântara, repleta de casarões coloniais em
ruínas. Descobri lá uma rua com o nome de
amargura que desembocava no porto do ultimo
adeus. Seria nomes comuns de localidades se não
fosse o lado triste da historia. Os senhores dos
engenhos, homens ricos, da época do império
mandavam seus filhos a Portugal para estudar.
Destes jovens pouquíssimos retornavam para
Alcântara. As pobres mães destes jovens iam ate
este lugar que depois passou a se chamar rua da
amargura, para dar o ultimo adeus no porto para
seus filhos que talvez nunca mais os vissem.
_Que historia triste destas mães!
102
_No momento não tive o exato
discernimento, ainda estava naquela fase de super
herói. Anos depois, pensando profundamente
sobre a questão surgiu à estranha suposição que
os homens, como os animais nasciam
desprovidos destes sentimentos. Como saudade,
afeto, esperança, fé e amor. No decorrer do
desenvolvimento a fêmea por ser a mais
prejudicada e sensível desenvolveu os
sentimentos e depois herdamos ainda no ventre
materno este precioso fardo.
_Este foi um dos elogios mais significantes
referentes à mulher que já ouvi Saulo!
Setembro estava quase terminando, mas a
primavera estava no seu ápice de coloração. As
flores exalavam seus aromas inconfundíveis ate
mesmo ao mais insensível nariz, as abelhas
aproveitavam a abundancia de alimentos e
zuniam pelos ares num vai e vem frenético, os
beija flores e suas diversas espécies e cores
disputavam com os insetos seu direito ao néctar
açucarado. Porque, nós seres humanos temos por
habito ao encontrar uma flor querer cheirá-la,
encostando o nariz em seus polens? Seriamos
involuntariamente manipulados pelas cores e
odores para sua disseminação? Decididamente,
103
não. Isso seria irracional! As margens do rio dos
amores no calor da primavera, as famílias se
reúnem nas praias para se refrescarem na água
sobre sua atraente energia. Somos gerados por
segredos guardados nos elementos das águas e a
ela devemos subserviência, fazemos parte como
todos os elementos que aqui se encontram
prisioneiros nesta imensidão belíssima. São
apenas coincidências da natureza que estamos
expostos no transcorrer de nossas complexas
vidas. Assim a natureza nos concede momentos
belos e raríssimos. Como todos os rios que se
encontram e acabam desembocando no mar
como coincidências da atração de desnível.
Como o destino das águas que rumam ao
oceano miraculoso que permeia a vida das
pessoas que desfrutam das suas margens,
casualmente hipnotizados pelas coincidências
deste magnetismo. Somos sucumbidos pelos
tempos que vão nos dilacerando como
ribanceiras e expondo historias que há tempos
viviam submersas aos olhos daqueles que
procuram vestígios do passado. O passado como
peça de quebra cabeças que desapareceram como
obra do destino e depois de tantos anos de
procura somos obrigado a desistir mais por
cansaço do que por descaso, porque no
104
inconsciente ainda nos é cobrado. Peças que
foram arrastadas pelas correntezas do destino,
porem alguém especial e não muito distante, mas,
escolhida pelo tempo terá que resgatá-la. E como
por coincidência de repente as peças surgem e se
encaixam perfeitamente nos espaços vazios que o
próprio tempo criou.
E foi justamente nas margens do rio dos
amores que Rosa sentada num lençol colorido
envolvida com o picnic ao sol daquela agradável
tarde primaveril, sobre a sombra do jequitibá, ela
preparava sanduíches de atum no pão de forma,
enquanto Luis Estevão trocava sua isca do anzol
na certa devorada por um peixe muito esperto.
Tanto Rosa como Luis usavam jeans surrado e
justo ao corpo, Rosa vestia uma camiseta azul,
nos pés calçava tênis, já Luis estava sem camisa e
também de tênis nos pés e sentado em sua
cadeira de pescador totalmente absorto. Desta
vez não veio a cavalo como de costume, optou
pela moto para atravessar o acidentado terreno
ate a beira do rio, já que tinha Rosa a sua garupa.
Rosa enquanto espalhava o patê no pão quebrou
o silencio dizendo.
_Quando terminarmos nosso passeio gostaria
de passar na casa de um amigo. Acho interessante
105
que vocês se conheçam. Alias não é bem uma
casa e sim um trailer.
_Deve ser divertido morar em um trailer.
_Ele tem um circo.
_Você esta brincando! Um circo de verdade
com palhaços, picadeiro, lona e leões?
_É verdade. Um circo sem leões, tigres e
macacos. Ele desfez dos animais para cortar os
gastos.
_Ele é seu namorado, Rosa?
_Engraçadinho! Saulo tem a idade para ser
meu pai.
_Quantos namorados você já teve?
_Se eu falar você não vai acreditar.
_Claro que vou. Acredito em você.
_Nunca namorei, apenas beijei uns garotos
só por embalo.
_Você mente e nem fica vermelha.
106
_É verdade! Os garotos que conhecia não
tinham nada que me tirassem do eixo e os que se
identificavam era muito velhos.
_Então estou descartado?
_Você quem está dizendo. E você está
namorando?
_No momento não, mas já fui casado por
cinco anos. No total foram dez anos com Violeta,
cinco de namoro.
_Porque que terminou depois de tantos
anos?
Por um momento Luis Estevão ficou com o
semblante serio e se afastou da vara de pesca
quando explicava.
_Violeta tinha uma vida de princesa, os pais
eram pessoas ricas. Quando namorávamos seus
pais não viam com bons olhos nossa relação. Eu
não cursava nenhuma faculdade, não tinha
família, muito menos sobrenome de respeito.
Mas, mesmo assim ela foi contra eles, e essa
atitude me fez admirá-la e respeitá-la durante este
longo tempo. Depois que casamos ela não queria
trabalhar de maneira nenhuma, porem ficou mais
exigente com a qualidade dos materiais que
107
entravam em casa. Queria produtos melhores e
mais caros. Se por um lado eu não podia
satisfazer suas necessidades, então isto se
transformou em rejeição e aos poucos a
admiração e o respeito, foram se escoando pelo
ralo da rotina. Eu não a culpo. Só acho que a
mulher tem que trabalhar fora para que homem
sinta ciúme, porque o ciúme equilibrado alimenta
a sedução. No final das contas a relação pega
fogo, pois ambos tem que mostrar que são
melhores que os amigos do trabalho, e acabam
exigindo mais de si próprio no dia a dia.
Rosa, depois de ouvir atenta Luis Estevão no
desabafo sobre sua ex-relação decidiu falar.
__Esse não será o meu problema. Depois do
quarto semestre pretendo fazer estágios. Quero
trabalhar pra valer!
_Acho que isso é um convite.
Rosa deixou escapar um profundo sorriso de
desejo que se estendeu pelo corpo inteiro, como
efeito cascata. Luis Estevão foi rápido ao se
aproximar. Seu prazer fez explodir seus músculos
do tronco e agarrou-a abrupto e beijou-a
fervoroso. Ela por sua vez, aceitou a rapidez dos
movimentos respondendo ao beijo. Luis mordia
108
suas orelhas e beijava seu pescoço enquanto a
pele dela ouriçava inteira devido à sensibilidade.
Quando suas mãos cheias de vigor acariciaram
seus
seios, seu
desejo
aumentou
e
indescritivelmente soltava gemidos no ar. Mas,
quando Estevão desceu seu zíper e com o dedo a
médio penetrou em sua vagina constatou que
estava quente e úmida e apenas uma frase foi dita
por ela.
_Cuidado para não me machucar. Não
esqueça que sou virgem.
Fizeram sexo no meio daquela mata de pé
como loucos, feito os animais no cio, os corpos
transpiravam por todos os poros como cachoeira,
já não mais se importavam se estavam sendo
observados, enquanto os movimentos se
aceleravam sem nenhum pudor. A imagem de
dois belos corpos nus no auge da virilidade em
ação em meio à mata teve um efeito raríssimo de
ver. Por mais de uma hora de repetição dos
movimentos dos quadris, entre beijos e mordidas,
enfim satisfeitos, deitaram no lençol a sombra do
jequitibá rosa e adormeceram.
Era quase final de tarde quando os dois
jovens entraram no espaçoso terreno onde o
circo estava armado. Estevão olhava surpreso em
109
todos os detalhes que surgiam no seu raio de
visão. Depois se expressou.
_É um circo de verdade!
_Te enganei. Seu bobo. É uma fabrica de
risos!
Estacionou a moto, próximo ao trailer de
Saulo. Logo, alguns cachorros que perambulavam
pelo circo aproximaram chacoalhando suas caldas
na espera de um carinho ou algo para comer.
Rosa gritou por duas vezes o nome de Saulo e
não foi respondida. De outro trailer saiu um
homem de meia idade que respondeu de
prontidão.
_O Saulo não está. Meus jovens.
_A que horas ele volta?
_Não tem previsão.
_Como assim? O que ouve com ele?
_Ontem, ele fazia reparo num motor do
caminhão e acabou se acidentando. Ele está
internado na Santa casa na cidade de Nossa
Senhora dos Milagres.
_Mas, é tão grava assim?
110
_Saulo tem um problema crônico que se
agravou com o acidente. Se quiser mais
informações vai ter que ir ao hospital.
_Obrigado seu...
_Meu nome é Fausto. Senhorita.
Quando a moto se afastava do circo Rosa
convidou Estevão para ir ao hospital em Nossa
Senhora dos Milagres. Ele aceitou sem pestanejar,
apenas salientou. Se for seu amigo é meu
também. E assim seguiram pela estrada e por
parte de Rosa certa preocupação incomodava e
assim se perguntava enquanto a moto fazia as
curvas sinuosas da estrada. Porque no dia mais
feliz da minha vida onde encontrei finalmente um
homem que transmita tanta segurança tenho que
receber uma noticia triste? Porque, acompanhada
de coisas boas sempre aparece algo pra melar
tudo?
Com essa sensação de desconforto apertou ainda
mais seu corpo de encontro ao corpo de Estevão
na garupa da moto.
Chegaram a Nossa Senhora dos Milagres
quando as ultimas luzes do clarão da tarde
saudava a chegada da noite estrelada e límpida,
111
como nunca se viu nesta época do ano. A santa
casa ficava cravada no centro da cidade, um
prédio antigo de tijolos aparentes que no passado
fora um convento, e assim a cidade cresceu em
seu redor. Entraram pelo corredor que deu no
acesso a recepção onde uma moça de uniforme
os atendeu educadamente.
_Boa noite. Em que posso ajudá-los?
Rosa respondeu com a mesma educação
depois de também dar uma boa noite.
_E sobre o paciente Saulo, que está internado
aqui. Gostaríamos de vê-lo
_Infelizmente não será possível. O horário de
visitas terminou as 16h00min horas.
_Tem como agente saber alguma informação
sobre seu estado de saúde?
_Aguarde um instante, vou chamar a
enfermeira responsável.
A ansiedade de Rosa, pelo reflexo da cor
branca das paredes, e o cheiro característico e
inconfundível do lugar contaminou Luis Estevão
que nem conhecia Saulo, mas tentava acalmá-la
com palavras carregadas de otimismo. Depois de
112
alguns minutos apareceu a enfermeira que se
apresentou.
_Boa noite. Meu nome é Gardênia. Sou a
enfermeira de plantão. Quem de vocês têm algum
parentesco com seu Saulo?
De prontidão Rosa respondeu.
_Não somos parentes dele. Somos apenas
amigos.
A enfermeira em seguida leu de forma
cautelosa um relatório que carregava em suas
mãos.
_Seu Saulo é nosso paciente há quatro anos.
Não sei se vocês sabem disso?
_Não sabíamos.
_Ele sofre de tipo raro de câncer para a sua
idade. Ele tem leucemia. Outro fator agravante.
Não estamos conseguindo reverter o quadro de
hemorragia ocasionado pelo ferimento. Ele
necessita de sangue para continuar vivo os
próximos dias. Para sobreviver precisa de um
transplante de medula. Só um milagre o salvará.
Ele já está a quatro anos na fila de espera e ate
113
então não apareceu nenhum doador compatível.
No momento, é isso que tenho para lhes adiantar.
O olhar, de ambos era de perplexidade, claro
que não podia ser diferente, tratando-se um ser
humano e amigo. Antes de sair à enfermeira
Gardênia fez uma ultima pergunta.
_Posso fazer uma pergunta, já que são
amigos do paciente Saulo?
Quase que em coro responderam sim, sem
ensaio.
_Vocês não gostariam de doar sangue? E se
quiserem podem fazer o teste para serem
doadores de medula também. Garanto que não
tem nenhum tipo de complicação, alem de ser
indolor.
Rosa foi a primeira a confirmar.
_Claro que doarei. É pra salvar vidas.
Estevão, também
movimentos da cabeça.
concordou
com
os
_Então me acompanhem ate o setor por
gentileza.
114
O caminho de volta para Nossa Senhora da
Esperança foi tranqüilo para o casal apaixonado
que trocavam caricias sobre duas rodas, já que pra
conversar é quase impossível. Porem, para Rosa o
que ocorreu a tarde sobre a sombra do jequitibá,
ainda fazia com que fugisse da realidade em
espaçados momentos. Por dentro sentia algo
vibrante, como se sua vida tivesse mudado de
uma hora para outra em questão de segundos.
Agora se sentia uma verdadeira mulher. Também
necessitava
compartilhar
essa
brilhante
experiência, (o antes e o depois) com alguém que
podia confiar. Pensou em sua mãe com quem
tem muito dialogo, alem de tê-la como referencia.
A mãe Rose sempre foi muito franca nas
questões sexuais, nunca a poupou de assuntos
que para outras mães era muito cedo para ter este
tipo de dialogo com as filhas. Rose apesar de
pouca experiência sexual, porem tinha uma
profunda dedicação na teoria, pesquisando em
revistas, jornais e livros. Isto fazia dela
conhecedora das mais excepcionais, quem a visse
explicando sobre o tema diria que ela era sem
duvidas sexóloga e não que tivesse o curso de
bacharel. Realmente Rose se tornara uma mulher
inteligente, uma quarentona muito atraente, com
todos os hormônios expostos e o mais
115
interessante sem ser vulgar. Suas roupas, sempre
conjuntos muito discretos, pois assim exigia sua
profissão, talvez escondesse a verdadeira mulher
madura atrás daqueles óculos. Rose e Fred
tinham uma vida social muito atribulada. Jantares
quase todas as noites, congressos e cursos,
viagens, os trabalhos no plenário exigiam deles
carga horária absurda. Por este motivo Rosa
quase não encontrava sua mãe, apenas nos finais
de semana é que sobravam alguns contatos.
Estava ansiosa para chegar em casa encontrar sua
mãe se lá estivesse e contar como fora tão feliz
em seu primeiro contato sexual, queria falar sobre
Luis Estevão e como fora gentil, e carinhoso, um
homem de verdade com letra maiúscula. Enfim
entrou em casa, não viu ninguém na cozinha, na
sala, no escritório, nem nos quartos e assim
tomou seu banho e dormiu exausta pelo dia
longo que fora aos dois extremos, do máximo do
prazer, a dor da saúde abalada do amigo Saulo.
No dia seguinte, acordou com a mesma ansiedade
que só foi quebrada com a frustração pela
ausência de sua mãe que saiu cedo para o
trabalho, mas deixou um bilhete e dois Paes de
mel para comer de lanche na faculdade. Porem
achou melhor devorá-los no caminho para Santa
Fé ainda no ônibus, também pensava no drama
116
do amigo palhaço que aprendeu admira e como
era impossível de ter um final feliz para este
espetáculo que o destino o obrigou a encenar.
Uma pessoa que conhecera há tão pouco tempo,
mas que se tornaram amigos fieis, muito
conversaram inclusive assuntos confidenciais,
enfim aquele tipo de amizade que parecia durar
uma eternidade. Na faculdade os poucos alunos
que estavam dentro da sala estavam imbuídos em
absorver todo potencial do professor, quem não
vem com este mesmo propósito ficam nos bares
e lanchonetes ao redor. Talvez por isso resultasse
no total silencio dentro das salas. Rosa, mesmo
embutida no resumo do pequeno texto de
(angustias) de Graciliano Ramos ainda sobravam
flashes de memórias da tarde anterior nos braços
de Estevão e na sua face o sorriso estampado não
era difícil de ser observado. Na sala os
ventiladores funcionavam na velocidade máxima
para amenizar aquele calor infernal de quase meio
dia. As mulheres na sua maioria no interior das
salas são as mais prejudicadas, pelo excesso da
temperatura, os cabelos longos e os sultiens
contribuem para elevar. Por outro lado, algumas
moderninhas que vão de shorts ou saias
minúsculas quando cruzam as pernas faz a
felicidade dos rapazes que são minoria. O silencio
117
só foi quebrado pela presença inesperada de
Rose, a mãe de Rosa que chamava pela filha na
porta de entrada da sala de aula. Rosa dirigiu-se a
ela perguntando qual o motivo, já que apenas
uma vez este ano aparecera na faculdade e porque
a filha a convidou. Saíram da sala e foram
conversar no corredor. Rose tinha expressão
tensa e carregada de curiosidade.
_Eu tive uma discussão com Fred esta
manha, e decidi me separar.
Depois deste depoimento a filha
aproximou e abraçou-a de modo afetivo.
se
_Eu já estava desconfiada com suas saídas
repentinas, e quando ele saia por coincidência à
secretaria, você conhece a Magnólia, também
desaparecia da Câmara. Mas, a cobrança dele
referente a você estava me sufocando. Dizia para
que investigasse você, pois sua conduta era de
alguém que estava usando drogas ou coisa
parecida. Porque você não parava em casa. Tenho
certeza que dizia isto para que não ficasse me
preocupando com ele e as suas fugidas. Peço
desculpas a você pelo que fiz primeiro por
desconfiar da sua índole, segundo por vasculhar
suas gavetas e seu armário sem o seu
consentimento. E por isto que estou aqui.
118
Meia que descontente com toda razão, mas
desculpando a mãe pela transgressão, foi rápida
ao dizer.
_Enfim encontrou algo nas minhas coisas
que me puna como pessoa?
Rose abriu uma das mãos e mostrou quando
prosseguiu com as palavras.
_Sim. Este broche. Onde você o encontrou?
Pertencia a seu pai, dei a ele três dias antes de
desaparecer. Não seria impossível de existirem
dois iguais, mas o que está escrito atrás, eu quem
mandei gravar. Foi a sua avó que te deu?
A expressão de surpresa era evidente em
ambas, porem em Rosa, como não podia ser
diferente era exacerbado. Mesmo assim se
explicou com a voz meio embargada pela noticia
inesperada.
_Não. Eu ganhei de um amigo. O nome dele
é Estevão e tem um antiquário aqui em Santa Fé.
Conhecemo-nos há um mês mais ou menos.
Rose puxando a filha pelo braço arrastou em
desespero para saber onde aquele desconhecido
havia encontrado aquele objeto que lhe
pertenceu.
119
_Vamos até lá. Rápido. Preciso saber onde
ele encontrou este broche. Como vocês se
conheceram?
_Esta é uma história longa e cheia de
detalhes misteriosos mamãe, que você nem vai
acreditar.
_Prometa, que vai me contar?
_Gostaria de ter ti contado antes, mas não te
encontrei. Aconteceu uma infinidade de fatos
marcantes em minha vida mamãe. Precisamos
sentar e conversar.
Luis Estevão assustou-se com as duas
mulheres entrando em sua loja feitas reses
desgarradas. O primeiro pensamento que veio em
mente foi que talvez Rosa estivesse em apuros,
depois que seu amigo Saulo não resistira à
hemorragia e assim veio trazer a triste noticia.
Mas, enfim quando se aproximou tudo se
elucidou.
_Mamãe, este é Luis Estevão.
_É um prazer conhecer um amigo de minha
filha senhor Luis Estevão.
_O prazer é meu, senhora...
120
_Meu nome é Rose. Vejo que tem muitos
objetos interessantes e raros, aqui.
_É uma coleção que estimo.
As apresentações e elogios foram feitos,
talvez Rose deixasse escapar um leve olhar de
surpresa quando Rosa foi beijada por Estevão
com muito carinho. Depois falaram porque
vieram.
_Minha mãe gostaria de saber onde você
adquiriu este broche que me deu?
Vendo o broche Luis Estevão se surpreendeu
com a pergunta, mas indagou.
__Porque querem saber? É apenas uma
pequena lembrança.
_Minha mãe deu este broche ao meu pai dias
antes dele desaparecer. Isto há quase vinte dois
anos atrás e de repente aparece assim em suas
mãos. Estamos assustadas e ansiosas pra saber.
_Alguns anos atrás arrematei num leilão um
lote de objetos de um antigo hotel do circuito das
águas. Alguns abjetos que não eram úteis os doei
para uma clinica psiquiátrica na cidade de Bom
Jesus da Ressurreição, que fica a uns cem
121
quilômetros daqui descendo o rio. A clinica é
dirigida por uma freira austríaca que esta no
Brasil há muitos anos, o nome dela é Lis Bela
flor. Foi à irmã Lis Bela flor quem me deu este
broche, alem de dizer que me traria muita sorte.
_Você poderia nos levar ate lá?
_No final da tarde estarei disponível. Tenho
um almoço de negocio com uns produtores de
televisão do Rio de Janeiro.
_Nós vamos agora ate lá Rosa. Precisamos
desvendar este paradoxo. É difícil de encontrar
esta clinica em Bom Jesus da Ressurreição?
_Não. Qualquer um conhece, é só perguntar.
A cidade é pequena e a clinica fica bem no
centro.
Enfim mãe e filha partiram rumo a Bom
Jesus da Ressurreição, com muita fé, esperança
que talvez um milagre e assim descobrir o
paradeiro de Júlio. A peregrinação por mais de
uma hora pelo menos serviria para que elas
colocassem um pouco das suas conversas em dia.
A estrada, também sinuosa como todas da região,
por hora se afastava das margens do rio e em
outros momentos aproximava. Descendo com os
122
olhos atentos das mulheres o rio se alargava
chegando de uma margem a outra uns trezentos
metros de largura, via-se ate alguns barcos com
pescadores navegando. Esta região é conhecida
pelos povos ribeirinhos como o vale das
Provações. Porque quem tivesse muita fé e
esperança e acreditasse em milagres se passasse
pelo vales das provações chegaria a Bom Jesus da
Ressurreição. No caminho sobre o vale das
provações a predominância do pasto era
imensurável e poucas vezes surgiam plantações
de laranjais, canaviais e cafezais. A paisagem
bucólica causava sono em Rose que dirigia seu
automóvel.
Totalmente
absorto
seus
pensamentos sobre a origem do broche foi
interrompida por Rosa que desatou sobre seus
desejos sucumbidos na tarde anterior.
_Eu. Estou namorando Estevão, mamãe.
_Não foi difícil de decifrar sobre isso, Rosa.
Aliás, aquele beijo me fez causar inveja.
_Ele me fez muito feliz, nestes últimos dias.
Tem se mostrado um homem inteligente de um
caráter que não da para duvidar. Acho que estou
apaixonada, mamãe!
123
_Você não acha cedo para este tipo de
afirmação?
_É evidente que acho. Porem o que sinto
neste momento deixa-me muito entusiasmada.
Pra mim, o que importa é que neste exato
instante da minha vida esta sendo um divisor de
águas. O antes e o depois. Será que você me
entende?
_É o seu momento, filha aproveite-o da
melhor forma possível. Eu só não quero que se
machuque. Os homens têm o dom natural de nos
surpreender, tanto para o bem quanto para o mal.
_Agradeço demais sua preocupação, mas
acho que só aprenderei vivendo e se tiver que
quebrar a cara só espero que esteja do meu lado
quando for necessário.
Rose foi lacônica e irônica ao falar.
_Mãe só serve para as horas difíceis.
_Ai que você se engana. Vou te contar uma
noticia maravilhosa!
_Qual é a grande noticia?
124
_Eu não te falei que quando tivesse a minha
primeira experiência sexual você seria a primeira,
a saber.
Rosa viu o espanto na face da sua mãe
causada pelo impacto da notícia, esperou que
manifestasse alguma opinião, mas o silêncio se
fez e assim ela prosseguiu.
_Como poderia dizer. Foi melhor do que
esperava. Não tive nenhum tipo de medo.
_Acho que esperou o momento certo,
apareceu à pessoa adequada e te inspirou
conseqüentemente te encheu de confiança. Fico
feliz pela sua felicidade e por saber, desta
formidável... Vamos assim dizer: primeira vez.
Mãe e filha sorriram enquanto se tocavam
com certo limite pelo olhar atento na direção do
automóvel. Depois de algum tempo de silencio
em que ambas delineavam os pensamentos sobre
as imagens das paisagens que surgiam de rara
beleza, Rosa quebrou se explicando.
_Luis Estevão foi casado durante cinco anos.
Talvez, por esta experiência tenha me tratado
com muito carinho.
_Quantos anos ele têm filha?
125
_É bem maduro. Trinta anos de pura
gostosura!
_Você não está muito entusiasmada?
Decididamente, o que você espera desta relação?
_Pela primeira vez na minha vida sem
entusiasmos. Uma relação sem loucura que vem
crescendo lentamente. Confesso que não estou
louca de paixão e sim de desejo puro. Quero que
esta mulher que está dentro de mim venha viver
tudo que tem direito, principalmente de extrair
dos homens o que eles têm de melhor. Isso é
querer demais, mamãe?
_Acho que você saiu melhor do que a
encomenda! Como está adulta a minha criança!
No relógio de pulso de Rose faltavam dez
minutos para as três da tarde quando apareceu a
placa informando que restavam apenas três
quilômetros para chegar em Bom Jesus da
Ressurreição. Aliás, deste ponto da estrada podia
se avistar o aglomerado de casas com o largo rio
passando lento ao fundo. No pensamento de
Rose priorizava a clinica psiquiátrica e também
sobre a religiosa de origem austríaca que poderia
não mais estar trabalhando por lá. E isso lhe
causou um leve mal estar, seria um tempo
126
perdido e uma viagem tão longa a troco de nada.
Mas, o pior seria ficar sem saber onde ela teria
encontrado o broche que ligava ao seu passado, o
que até então durante esses vinte e dois anos nada
foi encontrado de concreto para se investigar o
desaparecimento misterioso de Júlio. E porque
depois de tantos anos um simples objeto, como
este broche aparecera de modo impressionante e
casual?
Os paralelepípedos do piso fizeram o carro
trepidar e despertou Rosa que dormira por quase
dez minutos no final da viagem. Rose observava
atentas as placas, que indicavam o sentido do
centro da cidade e a cada quarteirão sua ansiedade
acelerava seu coração tão próximo do assunto
que há anos decidira esquecer. Envolvida sobre
este assombro decidiu parar e perguntar a um
transeunte o local exato da clinica. Após alguns
quarteirões estava em frente a um casarão antigo
em ruínas, pois era evidente o estado de
degradação das janelas e portas, porem um
enorme jardim conservado onde os internos
perambulavam ao leu e outros sentados em
bancos de cimento espalhados pelo gramado. O
muro alto que circundava o casarão como o
jardim alcançava seguramente os quatro metros
de altura, tudo só foi possível visualizar através
127
do grande portão principal construído de grades
de ferro em cor verde. De uma pequena guarita
ao lado do portão saiu um vigia para atendê-las
como quem acabava de ser interrompido do seu
sossego agiu indiferente, mas foi preciso nas
orientações sobre manter fechado o veiculo não
olhar nos olhos, nem dar atenção aos internos e
indicando onde poderia encontrar a irmã Lis Bela
flor. As ultimas palavras do vigia deixou Rose
satisfeita talvez a longa viagem não seria
totalmente em vão.
Li Bela flor recebeu as em uma pequena sala
onde apenas uma mesa, algumas cadeiras e um
velho arquivo de metal compunham a mobília.
Lis, uma jovem senhora com seus cabelos
brancos e curtos combinava com seu habito
religioso, tirou seus óculos depositando sobre a
mesa. As palavras que saiu de sua boca ali
estavam, mas seus pensamentos pareciam estar
nos problemas que necessitavam serem
resolvidos. Esta foi à impressão que deixou
quando pronunciou com um português
impecável e sem sotaque.
_Em que posso ajudá-las?
Foi Rose quem explicou o por que.
128
_Pois bem irmã. O que nos trás ate aqui, é
sobre este broche que você presenteou Luis
Estevão do antiquário lá de Santa Fé. Como ele
chegou ate as suas mãos?
A freira quando ouviu o nome Estevão
mostrou um sincero sorriso e educadamente se
explicou.
_Foi o Gabriel quem me deu este broche.
Lis Bela flor ergueu-se e olhando pela janela,
apontou e continuou.
_Daqui desta janela da para vê-lo sentado
debaixo daquela quaresmeira florida.
Rose se frustrou com o nome e também
quando viu daquela distancia um homem gordo e
cabeludo olhando para os ramos floridos.
_Alias, quando a policia o trouxe há quase
vinte anos atrás disse que não tinha documentos.
Ficou dois anos encarcerado, por invadir uma
chácara na beira do rio, próximo à divisa da
cidade rio acima. Depois descobriram que ele
tinha problemas neurológicos enviaram no para
esta clinica. Aqui na clinica fizemos alguns
exames e foi constatado que havia sofrido uma
129
grande lesão no cérebro, talvez por agressão
danificando sua memória. Gostariam de vê-lo?
Rose respondeu mecanicamente por sentir
desiludida de quem perdera seu tempo e a
viagem.
_Acho que não é necessário, irmã. Mas já que
estamos aqui, vamos ate lá.
Enquanto caminhavam, rumo ao jardim onde
o interno estava contemplando a natureza,
sentado à sombra daquela arvore, a freira
continuou a falar sobre o drama daquele pobre
homem que vestia roupas de tecido claro listrado
na vertical; e foram se aproximando.
_Gabriel repete muitas palavras que ouve,
alias não sabemos seu nome verdadeiro, porem
tem duas palavras que ele repete com freqüência
e quando falamos para ele essas duas palavras ele
sorri. São as palavras que estão gravadas no
broche, Rose ou Rosa.
Rose ficou totalmente pálida. As pernas
tremeram como se estivesse vendo um fantasma
ao olhar de bem perto e perceber sobre aquele
corpo obeso o doce olhar de Julio que respondeu
sorrindo como se tivesse reconhecido-a. A
130
surpresa derramou lagrimas de todos os presentes
naquela cena única, depois de vinte e dois anos
um reencontro inesperado emocionava mesmo
aqueles que iam chegando, funcionários e até os
internos com certa consciência. Rose eufórica se
repetia ao dizer Júlio e o apertava-o fortemente.
Já Rosa deixava a lagrima descer em silêncio e
mantinha certa distância, estática era espectadora
do próprio drama.
De agora em diante não seria mais a
coitadinha da menina órfã sem pai, porem, de
repente apareceu um homem estranho que era
seu pai. Alias bem longe daquela figura que
projetara nestes anos todo. De inicio foi difícil o
contato, mas era apenas mais uma barreira em sua
vida que teria que atravessá-la com a mesma
obstinação que enfrentara outras. A mulher Rosa
teria que assumir o lugar da menina que se
desprendia das bonecas, das brincadeiras infantis,
do faz de conta, dos contos de fada. Agora a
mulher tinha fatos reais ao seu redor todos em
erupção que iam do sexual passavam pelo afetivo
como a paixão ate companheirismo e não podia
fingir que não os enxergava, pois se sentia
responsável por eles. Mesmo que pensasse em
desagregá-los tudo aquilo era ela, era seu
conteúdo, seu movimento, seu interior vivo e
131
intenso muito mais do que nunca. A mulher
Rosa assumiria seu real papel com tensão prémenstrual, enxaquecas, discriminação, assédios de
todos os jeitos, suas vulnerabilidades, mas teria
que se defender como uma verdadeira mulher.
Ficou feliz em ver como todos ficaram alegres
com Júlio. O homem que reapareceu depois de
tantos anos sem dar noticia. Os avós paternos
voltaram a sorrir os amigos de Nossa Senhora da
Boa Esperança comentavam sobre o fato que se
espalhava como se aquilo fosse um grande
milagre. Peregrinos das cidades vizinhas primeiro
iam à casa de dona Hortência e seu Álvaro depois
subiam a colina que dava na igreja de Nossa
Senhora da Boa Esperança. Nas missas de
domingo uma multidão incontável se aglomerava
tanto dentro como fora na praça da matriz.
Vários vendedores de pipocas com seus
carrinhos, os de algodão doce, os de bexigas
coloridas com gás, depois da missa a banda do
coreto tocava sem parar suas musicas alegres
enquanto as bexigas que escapavam das mãos das
crianças subiam pelos céus.
Enfim Rosa dividiu uma felicidade que todos
achavam que ela era a mais beneficiada de todos.
Júlio deu passos importantes nestas ultimas
horas, sua memória dava indícios de que não
132
estava tão danificada como disseram os antigos
especialistas, talvez este fosse o verdadeiro
milagre e disso ninguém comentava com a devida
importância.
Rose determinada deixou de trabalhar na
câmara, abriu um pequeno escritório próximo a
sua casa, ficava mais tempo cuidando de Júlio do
que no seu escritório. Fazia com ele caminhadas
nas longas trilhas à beira do rio, mostrava lhe
fotos, presentes, cartas que trocaram quando
eram adolescentes. Cada hora que se passava
Julio recuperava sua personalidade e o deficiente
dava sinais de querer se despedir para sempre.
Dois dias depois Luis Estevão ficou sabendo
da novidade ao passar por Nossa Senhora da Boa
Esperança para visitar Rosa e também se
espantou com tamanha coincidência e ouvia
atento aos detalhes narrados por ela. Mas ficou
extremamente feliz porque seu pai apareceu para
tampar uma lacuna que no seu inconsciente
estava vago mesmo sem ter noção. Conversaram
muito tempo durante o almoço no restaurante da
cidade, inclusive sobre o relacionamento que
ambos iniciavam com muito prazer e afinidades.
Decidiram visitar Saulo na santa casa em Nossa
Senhora dos Milagres, o solitário amigo na certa
133
não recebera visitas, muito piores noticias no que
se refere a sua saúde tão debilitada. No caminho a
tristeza derivada das condições do amigo deixou
o casal contemplativo e pouco se falaram porem
por nenhum momento deixaram de fazer carinho
um no outro, também alguns beijos ardentes não
faltaram. Rosa elogiava o gostoso perfume de
Estevão, ele por sua vez admirava seus lábios
carnudos e seus olhos verdes delineados pela
maquiagem. Enfim chegaram ao antigo prédio de
tijolos que fora um convento, na recepção
indicaram o numero do quarto e seguiram pelos
corredores brancos, gelados e o odor de éter que
os acompanhavam. Dentro do pequeno quarto
onde uma televisão ligada não tinha
telespectador, Saulo, Ícaro e Emilio riam talvez
por alguma piada ou fato contado. Saulo não
tinha a bolsa de sangue sendo injetado em suas
veias, nem o soro, isto muito alegrou os recém
chegados. Também se viu feliz o enfermo ao ver
Rosa, mas deixou o olhar curioso cair sobre Luis
Estevão. As apresentações foram feitas e Rosa se
desculpou por não trazer nada para ele e se
explicou.
_Quando estivemos aqui, não conseguimos
vê-lo, estava sedado e não conseguiam conter a
hemorragia do ferimento.
134
Saulo estava bem disposto e retrucou com
ironia.
_Eles não me conhecem Rosa, não sabem
que me divirto pra viver.
_Inclusive trouxe Luis Estevão para te
conhecer, mas não foi possível.
Saulo, Ícaro e Emilio tinham os olhos
focados em Estevão quando entrou no quarto, a
enfermeira Acácia, um medico de jaleco branco
que tinha nas mãos alguns papeis e interrompeu
as apresentações.
_Alias, diga-se de passagem, não poderia ter
apresentado pessoa melhor neste mundo,
senhorita.
Rosa curiosa indagou.
_Como assim doutor?
A enfermeira e o medico sorriam quando ele
respondeu após ler os papeis que transportava,
primeiramente olhando para o enfermo.
_E Você meu amigo! Tirou o bilhete
premiado. Fizemos todos os testes possíveis e
todos deram positivos. O senhor Luis Estevão
Navarro é compatível para ser doador de medula
135
ao senhor Saulo. O que aconteceu neste caso
surpreendeu a todos por aqui inclusive no
laboratório onde os testes foram realizados. Só
necessitamos da autorização do senhor Luis
Estevão para agendarmos o transplante em São
Paulo.
O medico tirou os óculos e voltou a ler os
papeis antes de fazer ser ouvido pela ultima vez
antes de se retirar.
_Alias, uma ultima pergunta. Vocês têm
certeza que não são parentes? Pelo menos o
sobrenome é igual.
O silêncio foi ambíguo, porem, no
pensamento todos tinham uma só direção,
também na face à expressão se fez em comum
acordo diante a evolução das palavras que
pronunciava o especialista em oncologia. Saulo
foi quem quebrou a falta de palavras depois que o
médico e sua auxiliar se retiraram perguntando
para Luis Estevão.
_De onde você é Rapaz?
Estevão estava tranqüilo
pausadamente sua origem.
136
e
respondeu
_Sou de São Paulo, porem a sete anos estou
trabalhando e morando em Santa Fé onde minha
mãe esta enterrada.
Mesmo Rosa estava surpresa, pois
desconhecia o fato da mãe de Estevão estar
enterrada em Santa Fé. Saulo continuava sua
investigação sobre o sobrenome Navarro que era
o mesmo que o seu.
_De quem você herdou seu sobrenome
Estevão?
_Dizia minha avó materna que o sobrenome
era por parte de meu pai, mas nunca falou seu
nome. Quando se referia a ele dizia apenas
Navarro. Quando Navarro abandonou sua mãe,
você ainda estava no ventre dela. O Navarro não
merece ter filho, o Navarro não merecia nem ter
nome, alias o sobrenome Navarro não te merece.
Quando minha avó estava à beira da morte
perguntei a ela o nome do meu pai, então ela me
disse que fizera uma promessa para minha mãe,
que nunca informaria o nome do meu pai a
ninguém. E assim pensei, se este tal do Navarro
fez tanto mal para elas não merece ter um filho
como eu. Decidi não me preocupar mais com
isso.
137
Saulo enfatizou, depois mudou o enfoque
para os atores com uma pergunta já elaborada.
_Devia ser um crápula! E vocês quando
estréia a nova peça? Ou, vão ficar apenas nos
ensaios?
Desta vez
explicações.
Emilio
se
fez
ouvir
nas
_Estamos acertando os últimos detalhes, com
alguns patrocinadores. Depois alugaremos um
bom teatro, figurino, cenografia, iluminação e
aproximadamente seis meses deveremos estrear.
Rosa ouvia atenta tudo que era dito dentro
daquele pequeno quarto de hospital, onde a
televisão continuava ligada a esmo, mas sua
cabeça pensava em Saulo. Porque não se
aprofundara em sua pesquisa sobre a arvore
genealógica de Luis Estevão? Teria ele alguma
espécie de medo? Um auxiliar interrompeu seus
pensamentos informando o termino do horário
de visitas. Todos se despediram desejando uma
rápida recuperação ao enfermo, porem Rosa
propôs dar uma ultima palavra às sós com Saulo.
Quando saíram, ela indagou em voz baixa.
138
_Porque você não perguntou o nome da mãe
de Estevão?
_Rosa. Vou ser franco com você como nunca
fui em toda minha vida. Na verdade fiquei com
vergonha de ser este crápula do qual ele se referia.
Rosa persistiu em dizer.
_E se Estevão for filho da sua Jasmim?
Saulo estava desiludido na voz e na face
quando falava.
_Esperei tantos anos para este encontro
acontecer. Agora, estou com medo, agindo como
um covarde fugindo da própria verdade. Mas,
acho melhor assim, prefiro pensar na
possibilidade de ser meu filho do que ser
repudiado pela certeza de ser este crápula do seu
pai.
Saulo durante sua ultima frase apontava seu
dedo indicador na sua direção. Porem, Rosa foi
cautelosa ao dizer.
_Me desculpe pelo que vou dizer Saulo. Você
está sendo egoísta agindo desta maneira. Você
não está preocupado com ele. Por pior que seja a
verdade, é melhor do que a mais linda mentira.
139
_Como gostaria de pensar como você Rosa!
Mas não consigo.
_Você é única pessoa que lhe resta da família,
e pra ele também, só tem você. Meu amigo! No
começo vai ser complicado, mas conhecendo
vocês dois como conheço sei que vão ser muito
felizes depois que poeira abaixar.
Saulo estava irredutível e exigiu.
_Por enquanto vamos deixar como está, não
sei se vou resistir ao transplante, tem a tal da
rejeição. Pense bem. O rapaz descobre que tem
um pai e dois dias depois o pai apesar de crápula
morre. Desta vez não estou pensando, só em
mim. Se for ele, vai ganhar um pai em bom
estado. Não neste momento que me encontro,
acamado sem saber se vou sobreviver.
Rosa seguia mais seu coração sensível do que
a razão dos seus pensamentos e mais uma vez em
sua vida sentiu sua língua atada, não podia dizer o
que sabia para não magoar as pessoas que amava
demais. Sentia-se feliz com que poderia descobrir
porem triste pelo egoísmo dos homens. Pensava
ela em seu devaneio. De fato as pessoas não
perdoam as outras, a grande maioria prefere
sofrer o resto da vida que lhe sobra do que
140
perdoar quem os maltrata. Os homens tão
inteligentes se acham superiores às mulheres e
são incapazes de perdoar. Ela como mulher não
conseguia entender como diante de uma questão
tão simples uma inteligência sofisticada não
funcionava devidamente. Ela pensava a todo
instante como ajudar sem atrapalhar, mas teve
coerência em seus pensamentos. Se perguntasse o
nome da mãe para Estevão o mistério estava
resolvido. Ou era, ou não era filho de Saulo. Se o
nome da mãe fosse Jasmim, Rosa teria que
guardar segredo. Porem, depois que tudo viesse à
tona ela seria mal interpretada por Estevão, ela
sabia de tudo e tinha omitido um fato de suma
importância em sua vida. Será que ele a
perdoaria? A saída então não era perguntar
diretamente a ele. Rosa no momento não viu
alternativa, a não ser o total silencio sobre esta
questão. Para não se comprometer deveria agir da
mesma maneira com sua mãe, na relação com
Fred.
Luis Estevão e Rosa voltaram para Nossa
Senhora da Boa Esperança sem tocar no assunto,
apenas comentaram sobre a coincidência da sua
medula ser compatível. Do resto, muitos beijos e
caricias durante todo o percurso e ao se
despedirem no portão da casa de Rosa. Para o dia
141
seguinte eles haviam combinado de almoçarem
juntos depois da faculdade. Estevão gostaria que
Rosa experimentasse um tucunaré em posta
assado com alcaparras ao molho de maracujá,
acompanhado com arroz temperado com curry.
Foram caminhando ate o restaurante que ficava
próximo do antiquário. O garçom os atendeu
esbanjando simpatia, pois Estevão era
freqüentador assíduo e colocou os em uma das
melhores mesas do lugar que lembrava uma casa
adaptada bem ampla e decorada com bom gosto.
Depois de escolher os pratos e as bebidas,
Estevão pediu licença para ir ao banheiro, porem
quando saiu deixou sua carteira sobre a mesa o
que aguçou a curiosidade de Rosa que não
hesitou em conferir o nome da mãe em sua
identidade. Apesar, que, durante todo almoço se
punia pelo ato indelicado, mas tinha plena certeza
de ser por uma boa causa. Também ficou
bastante feliz com o resultado e isso era evidente
em sua expressão, mas quando foi perguntada
porque estava radiante, explicou que o peixe
estava acima das suas expectativas. Mesmo assim
necessitava ter a confirmação e quem ficou feliz
desta vez foi Estevão, quando ela disse que
passaria o resto tarde com ele em sua loja. Rosa
tinha um ótimo plano, e este formidável plano
142
unia o útil ao agradável sem duvidas. Desta vez
foi Rosa quem convidou Estevão para um banho
relaxante numa antiga banheira instalada em
amplo banheiro revestido com mármore. Assim
sendo ele fechou a loja antes do previsto, e os
dois trancaram-se naquele aposento tão intimo
como a intimidade que os dominou ate meio da
noite. Estevão delicadamente desabotoou sua
blusa branca de seda com estampas floridas de
hibiscos vermelhos, onde o sultien branco
mostrou sua cor, em seguida abriu-o e
suavemente desceu sua boca ate os mamilos
protuberantes de prazer. Enquanto a boca
afirmada de sensualidade dele sugava os seios,
Rosa sentiu as mãos fortes descerem seu jeans
justo, e unida a ele também desceu sua calcinha
expondo sua vagina que já se encontrava úmida e
quente. Estevão pegou-a por trás ela apoiava-se
nas bordas da banheira e penetrou-a com todo
vigor, ela desta vez sentia como nunca seu pênis
demasiadamente enrijecido explorando seu canal
vaginal. Talvez sem o medo latente da primeira
vez, Rosa viu aflorar à felina que estava dentro
dela soltando gemidos estridentes enquanto os
corpos morenos bem distribuídos contrastavam
com a clara iluminação do banheiro. Duplamente
feliz e realizada Rosa constatou que naquela bela
143
perna, esquerda, próximo do joelho tinha, um
angioma ou mancha de nascença. E assim feita à
constatação chegou ao orgasmo com muitos
gritos que ecoavam pelos corredores do
antiquário.
Já em casa Rosa dormiu por toda noite como
um anjo que encontrou a redenção em pleno
inferno, sentiu-se que completara todos os
objetivos. Que as coincidências estavam ao seu
favor pelo bem da vida, a mesma vida que atenta
observa o aflorar neste imenso jardim que é o
mundo, o mesmo mundo que poderia se acabar,
pois para ela naquele momento não existia mais
ninguém, apenas ela e Estevão. As peças do
quebra cabeças por coincidências surgiram do
nada, agora só bastava uni-las ate um
determinado momento para que em outras vezes
desaparecer inesperadamente, e assim deixar
lacunas
nas
vidas
das
pessoas
que
desesperadamente vão a procura.
No dia que iriam para São Paulo fazer o
transplante, momentos antes de partirem o céu
tinha um azul anil que deixava indícios de êxito
total. Todos estavam otimistas, era esta a
expressão de todos dentro daquele pequeno
quarto de hospital em Nossa Senhora dos
144
Milagres. Quando se despediram, Rosa
disfarçadamente colocou um pequeno bilhete no
bolso do casaco de Saulo dizendo ao pé do
ouvido para ler somente quando estivesse
sozinho. No pequeno papel estavam escritas
apenas três frases, a primeira dizia. (Caro amigo
Saulo vá e volte). Na segunda dizia. (Enfim você
encontrou seu elo perdido). A terceira era
afirmativa. (Ele é sangue do seu sangue. Vi seu
angioma).
O transplante fora um sucesso. E no dia
seguinte Estevão retornou de São Paulo passando
em Nossa Senhora da Boa Esperança para ver
Rosa e dar noticias a respeito de Saulo que se
recuperava ainda internado na unidade de terapia
intensiva da Santa Casa, desta vez na grande
metrópole. Rosa tinha consciência que a medula
de Estevão transplantada teria que ser aceita pelo
organismo de Saulo, e devido ser extraída por
completa sua medula, Saulo estava muito
vulnerável e qualquer vírus de uma simples gripe
poderia matá-lo colocando todo o processo por
água abaixo. Os primeiros dias seriam cruciais
para o verdadeiro êxito do transplante. Mesmo
pensando constantemente com carregado
otimismo subia a colina ate a igreja de Nossa
Senhora da Esperança para rezar, sempre
145
pedindo para que seu pai e Saulo se
recuperassem. Nem mesmo os livros, sua eterna
paixão era capaz de tirar sua atenção aos dois
homens que de repente surgiram em sua pacata
vida. Somado a eles Estevão dependia da boa
saúde de Saulo para ser mais feliz do que já o era,
e não podia ser diferente. Só pensava em um final
feliz. Estava sendo egoísta em seus pedidos a
Deus? Dentro da igreja ajoelhada, fixava seus
olhos verdes na imagem de Nossa Senhora da
Boa Esperança quando as lagrimas desceram pela
face em comoção. Padre Vitório surgiu
inesperadamente e a flagrou ainda enxugando os
olhos e questionou com delicadeza.
_Vejo que a menina pede por esperança e fé.
Acredito que já exista dentro de você. Olha o
milagre alcançado Rosa!
_Não é por mim que peço padre, e sim para
um amigo que se submeteu a um transplante de
medula.
Padre Vitório foi conclusivo ao falar
pausadamente.
_Então são dois milagres. Seu pai que surgiu
das cinzas e seu amigo que conseguiu um doador
146
compatível. Situações bem raras! Pelo que
percebo, deveria agradecer e não pedir.
Rosa tentou se redimir perante o clero.
_Nós seres humanos temos tendência infinita
à insatisfação.
Padre Vitório se viu diante de alguém que
poderia estender sua doutrina e prosseguiu
enquanto colocava em ordem alguns objetos
sobre o altar.
_Você sabe qual o fundamento básico no
estudo de teologia?
Rosa balançou a cabeça negativamente, mas
tinha os olhos voltados para o padre, e na
expressão total interesse aguardando sua
explicação.
_Apesar de toda teoria da qual nos
alimentamos, nos confrontamos com a total
comoção. Aprendemos a lidar com todas as
dificuldades internas. Refletimos sobre muitos e
problemas psicológicos da humanidade sem ser
integrado a eles. Alem disso, os prazeres dos
quais vocês têm como intuito, nós teólogos
temos que nos abster para nos tornarmos
homens de Deus.
147
Ouve uma pausa silenciosa. Rosa refletia
sobre as palavras enquanto padre Vitório com um
lenço branco limpava as lentes dos seus óculos,
tão distante em seus pensamentos. Talvez, ainda
quando fazia o seminário, onde o sim e o não
como resposta teve que ser avaliado por anos.
Perante a santa paciência de padre Vitório, Rosa
questionou-o com ingênua curiosidade.
_Padre Vitório. O que o senhor tem a dizer
sobre o pecado e o inferno?
Desta vez o religioso foi lacônico em seu
parecer.
_O pecado é tudo aquilo que cometemos de
modo intencional que prejudique alguém. Disse e
repito (intencional). E o inferno é o estado de
aflição ou o fogo que nos queima internamente
após cometermos os pecados.
A resposta surpreendeu Rosa que sorriu com
tanta admiração ao ancião e este lhe retribuiu de
modo gentil e disse.
_Sorria muito Rosa! Pois esta cidade vai ter
uma festa como a nunca se viu por aqui.
_Que grandiosa festa seria esta, padre?
148
_Esta manha. Recebi a visita de uma cidadã
ilustre desta cidade. Ela quer se casar no dia de
Nossa Senhora da Boa Esperança, no dia vinte
cinco de maio.
_Quem seria esta ilustre cidadã?
_ Depois de vinte dois anos de espera, um
sonho vai se realizar. Sua mãe vai finalmente
casar com seu pai.
Naquela altura sobre o cume da colina, Rosa
observa envolvida de eterna paz o horizonte,
enquanto descortinava uma tarde alaranjada onde
o sol se escondia calmamente. O tempo parecia
parar diante do deleite da bela jovem que não
cansava de reverenciar principalmente depois do
confortante dialogo com o clérigo.
Os dias passaram suscetíveis ao anseio do
retorno do amigo Saulo. E como eram boas às
noticias vindas de São Paulo sobre sua
recuperação, e assim Estevão e Rosa só tinha
motivos para comemorar. Um dia Rosa pegava o
ônibus ia ate Nossa Senhora da Santa Fé
encontrar se com Estevão, no outro era Estevão
quem pegava a estrada rumo a Nossa Senhora da
Boa esperança, pois Rosa entrara em férias na
faculdade. Enfim o verão chegara e com ele
149
trouxe as chuvas torrenciais, com relâmpagos,
raios e trovões ensurdecedores. Na casa dos pais,
Julio se via amedrontado com o temporal e os
estrondos, diante da aflição aparente do filho os
pais demonstram extrema preocupação, mas foi
seu Álvaro quem o questionou.
_O que te aflige meu filho?
Julio tentando buscar em lapsos de memória
algo que o incomodava. Explicava gaguejando
sobre efeito do trauma procurando as palavras
corretas.
_Eu vejo que chove forte... Os pingos batem
no pára-brisa do carro que estou dirigindo... Vejo
também, uma ponte que se aproxima... De
repente um cachorro preto cruza na frente do
carro...Tento frear, mas o carro derrapa indo à
direção do rio...Vejo-me caindo... Não me lembro
de mais nada.
Seu Álvaro e dona Hortência entre olharam-se
com certa convicção de como se sucedeu o
desaparecimento quando lembraram que chovia
muito na trágica noite. Mas, segundos depois
sorriam e alertando o filho do restabelecimento
de sua memória e isto naquele momento era que
mais importava para aquela simples família do
150
interior. Enfim sua memória dava sinais de
melhora a cada dia, contando com o auxilio da
família, Rose sempre incansável nos detalhes
ligados no campo afetivo exigindo de Julio
lembranças do passado cheio de beijos e carinho.
O sorriso sempre presente em cada nome de
amigo que conseguia se lembrar, o curso que
fazia e onde trabalhava. Assessorados por um
especialista em neurologia, a dedicação era árdua.
Contudo, cada pequeno passo dado para
elucidação tinha que ser comemorado e muito.
Dona Hortência abandonou o vai e vem diário
para igreja, o vestido preto de luto e quem a
abordassem pelas ruas dizia com orgulho que a
graça alcançada foi muita fé em Nossa Senhora
da Boa esperança. Seu Álvaro voltou a dar suas
gargalhadas como há duas décadas e desta vez foi
ele quem passou a subir a colina rumo à igreja
para agradecer e pedir perdão por haver
suspeitado de Deus. Os meses passaram, enfim
Julio se recuperou se livrou dos traumas que o
acidente ocasionara e era visível em suas atitudes,
pois voltou a trabalhar com seu pai na pequena
loja de autopeças ou rindo com os amigos diante
de assuntos variados. Na cidade quando andava
pelas ruas recebia todas as atenções e
cumprimentos daqueles que o atribuíam o
151
milagre recebido, como se não bastassem outros
viam nele um candidato forte para prefeito de
Nossa Senhora da Esperança. Porem, para a
grande maioria o que eles queriam era saber
como sobrevivera depois de ser arrastado por
tantos quilômetros rio abaixo.
Rosa aos poucos se adaptava a nova figura do
seu pai e a distancia entre eles foi diminuindo
lentamente, ela por sua vez ensaiava alguns
carinhos tímidos, mas o que deixava divinamente
feliz era ver que pessoas que amava dentro da
família estavam contentes e deste lado da sua vida
estava quase tudo resolvido. Enquanto que Saulo
recuperava-se lentamente, Estevão ainda nada
sabia sobre sua origem familiar e para Rosa não
faltava vontade de dizer tudo que descobrira e
acabar de vez com aquele mistério, mas
prometera a Saulo que nada falaria. Se, era o
silencio que Saulo queria, assim aconteceu. Os
meses passaram e ele já não estava mais
internado, voltou a trabalhar no circo como
antes, porem muito mais feliz em suas
apresentações, porque o que passou anos
procurando encontrou seu filho Luis Estevão.
152
Rosas no vaso
As chuvas foram embora levando com elas o
verão, dando lugar ao frio do outono e suas
noites estreladas. Dia vinte e dois de maio caiu
num sábado sem nuvens no céu, um sol que não
aquecia ninguém se despediu dando passagem à
tranqüila noite que esfriava ligeira sob o olhar
atento da lua nova que clareava bem no alto. Era
dia de Nossa Senhora da Boa Esperança,
padroeira da cidade que estava em festa. A igreja
ficou pequena, para centenas de pessoas que
vieram para as festividades, os que não
conseguiram entrar tumultuavam do lado de fora
na praça da matriz e nas barracas da quermesse.
No amplo salão do templo, no corredor um
felpudo tapete vermelho estendido, entre os
bancos copos de leite e rosas vermelhas
enfeitados por os laços de fita lilás. No altar os
arranjos florais exaltavam o manto ornamentado
de padre Vitório, os padrinhos, os pais, os
coroinhas e fotógrafos bem trajados aguardavam
ansiosos num burburinho ecoante. Nas paredes,
afrescos de anjos e santos e os vitrais coloridos
davam um brilho magnífico para ocasião. As
153
vozes silenciaram quando enfim a marcha nupcial
deu seu primeiro acorde e todos os olhares se
voltaram para o portal de entrada. Seu Nestor
trajando um belo fraque preto que realçava a
camisa bege de seda, a gravata borboleta marrom
e o cravo vermelho na lapela. Sua face redonda e
branca sorria de tanta felicidade. Rose usava um
vestido branco de tafetá bordado em florais, à
gola redonda acompanhava as linhas da grinalda
de brilhantes bem lapidados, nas mãos um buquê
de rosas vermelhas delicadamente amarradas por
fios de prata, tinha nos olhos um brilho
enigmático pela maquiagem e brilhante causado
pela emoção. Lentamente ritmados pela musica
caminhavam no corredor entre os bancos na
direção do altar onde o tapete vermelho
estendido contrastava divinamente com a cena.
Enquanto pai e filha eram alvos dos olhares de
todos os presentes percebia que deles emanavam
profunda emoção, ate mesmo as crianças estavam
hipnotizadas em suas roupas de adultos que mais
pareciam miniaturas de pedra no jardim da
comoção. Dentro daquele amplo salão onde
realizam se atos litúrgicos não havia uma pessoa
se quer que não estavam unidos na mesma
energia. Talvez por alguns instantes todos tiveram
a impressão que as pinturas de anjos e santos se
154
transformaram em imagens em três dimensões
ganhando vida, alem dos raios da lua clara que
atravessavam os vitrais coloridos que também
acentuava o fascínio. Também os homens
desprovidos da totalidade das emoções foram
envolvidos e deixavam que notassem suas
fragilidades mais profundas diante das provações.
O imaculado só submerge quando a fé e a
esperança se aglutinam e assim deriva o milagre
tão contestado e a ressurreição totalmente
improvável aos agnósticos.
E entre as primeiras fileiras de bancos
adornados com flores e fitas, lado a lado
encontravam se Luis Estevão, o palhaço Saulo, a
freira Lis Bela flor e os atores Ícaro e Emilio que
não eram indiferentes à consternação. Enfim seu
Nestor chegou ao altar trazendo com ele Rose
nos braços e entregou-a para Júlio que estava
ansioso e suava na testa no momento. E como
manda o rito padre Vitório deu inicio a cerimônia
tão aguardada pelos habitantes de Nossa Senhora
da Boa Esperança do Sul.
A recepção aos convidados foi no salão de
festas do clube da cidade, aproximadamente
quinhentas pessoas se espalhavam nas duzentas
mesas à disposição. Dezenas de garçons se
155
misturavam entre os convidados servindo
bebidas, canapés e salgados. A banda de cinco
jovens cabeludos tocava rock pop e musica
popular brasileira e as luzes dançavam sobre eles
no palco. Não era difícil de visualizar Rose ainda
vestida de noiva que circulava pelas mesas para os
cumprimentos trazendo com ela Júlio que radiava
felicidade. Numa destas mesas Ícaro, Emilio, Luis
Estevão, Lis Bela flor e Rosa ouviam atentos
Saulo e suas historias.
_Quando criança, minha avó arrastava-me
pelas mãos para ir à igreja nos sábados para ver
os casamentos, mesmo sem ser convidada. Eu
achava que ela estava ficando ruim da cabeça,
porque sempre repetia ao dizer que o casamento
era o segundo dia mais importante pra mulher.
O dia mais importante era ter um filho.
Saulo deu um gole no copo de uísque com
gelo que estava revestido por um guardanapo e
continuou seu saudoso relato.
_Minha avó era cigana quando jovem. Tinha
aguçada percepção nos destinos alheios. Muitas
pessoas a procuravam para este fim. Lembro-me
que brincava no quintal e as pessoas chegavam
perguntando. Dona Calêndula está? Não
156
precisava nem responder, pois ela berrava lá de
dentro.
Quando Saulo pronunciou Calêndula, Rosa e
Luis Estevão trocaram olhares incrédulos por
mais uma coincidência, porem em seguida deixou
o sorriso aparecer naqueles belos rostos morenos.
Luis Estevão usava terno de linho branco, camisa
rosa e gravata lilás, a jovem Rosa tão bem
maquiada deixava os olhos verdes exacerbados,
um vestido de crepe mostarda bem cortado com
detalhes em vermelhos e nos pés os sapatos de
boneca pêssego combinam com a bolsa da
mesma cor. E mais uma vez bateram suas taças
brindando o destino que os reservara uma
infinidade de situações inexplicáveis, mas que se
encaixavam perfeitamente.
Mais de três horas de festa não era difícil de
notar que alguns convidados que ainda
permaneciam que o bom uísque, o excelente
champgne francês e o vinho português que foi
servido fazia seu efeito. As gargalhadas como as
conversas eram elevadas a um tom acima do
normal acompanhada das descontrações dos
movimentos físicos. E por incrível que pareça em
todas as festas são iguais, tem sempre alguém que
quer falar mais que o outro. O álcool faz com que
157
pessoas aprisionadas se libertem como pássaros
presos em gaiolas, ganhando coragem pra agir e
falar o que sem ele lhes falte coragem para
interagir, e atuando como liquido mágico, um
elixir milagroso usado a milhares de anos. E foi
sobre o efeito do álcool que Saulo desterrou.
_Para que esta festa estivesse completa,
faltava apenas, minha adorável Jasmim.
Quando Saulo terminava de pronunciar sua
frase, direcionou seus olhos em Estevão
carregados de esperança de que ele, seu filho, o
perdoasse. O que Saulo não sabia ou qualquer
outra pessoa dentro daquele salão sabia, é que
Luis Estevão procurava pelo pai como um cão
que fareja. Assim sendo, Saulo viu lagrimas
inundarem os olhos do filho e que o incitou
também, e dirigiu-se na direção de Luis Estevão
para um longo e apertado abraço que comoveu a
todos que estavam próximos e sabiam do drama
familiar.
158
Os espinhos da Rosa
Meses depois, Saulo havia se recuperado
sensivelmente como Júlio, e não podia ser
diferente a felicidade de todos na região era algo
muito divulgado e sacramentado pelo padre
Vitório. Apenas Rosa não estava satisfeita com
seus dias. Ela buscava em seus momentos de
solidão desvendar o que tanto incomodava. A
inquietação era denotada em sua aparência,
motivo que influenciou em seu relacionamento
com Luis Estevão, que não mais lhe propiciava
tanta empolgação. Luis Estevão sempre indagava,
ate que se cansou do flagelo de receber a mesma
resposta.
_Não te entendo, Rosa. Tudo que você
gostaria que acontecesse em sua vida, de repente,
como uma grande cortina dos antigos cinemas se
abriu para seu bel prazer. Terminou sua
faculdade, tem seu emprego no jornal, seu pai
apareceu, sua mãe se casou. O que você precisa
mais?
Porem, Rosa era enfática ao dizer.
159
_Não tenho explicações e ter alguma idéia
precipitada poderia cometer algum equivoco ou
magoar alguém. Mas, posso te afirmar que esta
inquietação não surgiu do dia pra noite. Aos
poucos foi ganhando força, como um vulcão em
seu processo longo ate explodir jogando cinzas e
larva em quem está no seu sopé. Rosa entre
tantas conversas que teve com padre Vitório
durante esta fase de contraditórios lhe orientou a
escrever sobre este momento de reflexão e que
auxiliaria a ter uma concepção adequada. Rosa
entre amigos e pessoas da família não conseguia
expor suas angustias por completo, apenas o
vigário tinha o poder de pinçar das suas entranhas
o que te corroia. Organizando frases em frases,
linhas por linhas, paginas sobre paginas, as
diferenças entre seus fundamentos, Rosa
destinava algumas horas dia em seu intuito
seguindo o conselho do padre Vitório. Certo dia
pela manhã o sol ainda rompia a neblina sobre o
leito do rio dos Amores, quando Rosa subiu a
colina na direção da igreja de Nossa Senhora da
Boa Esperança. Bateu a porta da casa paroquial,
onde padre Vitório recebeu-a quando ainda
terminava seu café da manha.
_Bom dia Rosa. O que te trás tão cedo,
minha menina?
160
Rosa beijou a mão do padre com respeito de
adepto, depois respondeu.
_Gostaria de trocar algumas palavras com o
senhor. Isso é se o tempo lhe sobra?
_Entre e sente-se aqui.
Arrastou uma cadeira o
prosseguiu.
velho
ancião
e
_Sempre tenho tempo para uma ovelha em
apuros. Esse é o bom pastor!
Rosa tinha seus olhos fixados numa pequena
imagem de nossa Senhora sobre um suporte
colocado no canto da cozinha, quando falou.
_Desde que me entendo por gente, quantas e
quantas vezes subi esta colina para vir à igreja
cobrar destes santos a minha falta de fé e
esperança. Perguntava incessantemente porque
minha religião tinha me abandonado. Sem
respostas aqui procurava na solidão dos meus
passeios as margens do rio. E foi lá que encontrei
respostas pra tudo que queria.
Padre Vitório interrompeu-a com um belo
sorriso na face alva de poucas rugas.
161
_A igreja é apenas o templo de orações. Aqui
você pede e o milagre acontece no mundo.
_Sim padre. Disso não da pra ter duvidas. É
que passei minha infância, adolescência e parte da
minha juventude nesta confusão. Embutida de
corpo e alma na procura de quem poderia
auxiliar-me.
Depois que tirou algumas folhas de uma
pasta Rosa continuou.
_Gostaria que o senhor ouvisse este texto
que escrevi em relação a isso.
_Claro que gostaria. Leia filha.
A criança que me habitava
Certa noite que a insônia me deu o profundo
prazer de deixar distante o sono que é natural das
espécies percebi a ausência desta criança que era
proprietário deste invólucro de carne e osso que
se locomove. Esta criança sofreu uma infinidade
de limitações enquanto aqui esteve. Também foi
hostilizado com apelidos durante sua formação
escolar, foi humilhada e agredida por adultos
estúpidos e mesmo assim não se deu por vencida
162
e ria muito depois do choro. Quando não estava
sendo exigida a cumprir suas obrigações, pulava,
corria, gritava, ria, caia, levantava.
Por onde andará esta criança?
Não se preocupava se estava ralada, a roupa
rasgada ou suja, se os cabelos estavam
despenteados, se as unhas estavam grandes, se
estava suada. Nem pensava o que aconteceria sua
mãe ficasse desempregada. Alias, nem sabia o que
era desemprego, necessidade, conta de luz, conta
de água, telefone, IPTU, IPVA Aquela criança
ficava fascinada com historias de lindas fadas,
invisíveis gnomos, heróis magnânimos do
cinema, da TV e dos quadrinhos. Ria
escancaradamente com a arcada cheia de falhas,
dos palhaços do circo e as velhas cenas repetidas
dos olhos que espirravam água, do velho
calhambeque que explodia no meio do picadeiro.
A principio se assustava como todas as
criancinhas, mas depois se envolvia de muita
alegria.
Onde andará esta criança?
Lembro que esta pequena criança não resistia
a um escorregador, um gira-gira, um escondeesconde, brincadeira de cabra cega, jogar
163
amarelinha na calçada, ver pipas nas férias
escolares. Lembro também, como esta criança
ficava com os olhinhos brilhantes ao ver as luzes
e o colorido dos parques, o carrossel, a roda
gigante, o chapéu mexicano que era com
adrenalina e destemido por muitos, também
ouvia a musica de fundo do realejo enquanto
corria de um brinquedo para o outro, bem
ofegante na respiração. Esta criança nunca se
cansava ao correr em companhia do cachorro no
espaçoso pedaço de terra do sitio do tio no
interior do Paraná, onde esteve varias vezes nas
férias escolares. Com um misto de curiosidade e
ilusão ficava horas observando os pássaros sobre
as arvores imensas de jacarandás, ipês, araucárias,
angicos, e ate construiu uma gangorra no
jequitibá. Perdeu as contas de quantas vezes subiu
ligeiro na velha goiabeira, ficava um bom tempo
no alto da ameixeira quando carregada e só descia
de lá quando satisfeita. Num amplo lago onde
alguns patos tinham como território, esta criança
arremessava repetidas vezes um pedaço de galho
de arvore para que o cachorro nadasse no resgate.
Gostava de ir ao estábulo para servir milho ao
tordilho antes de sair para cavalgar pelo
descampado que dava pra um enorme vale que
servia de pasto para algumas dezenas de cabeças
164
de gado. À noite no sitio aquela criança se
amedrontava com a escuridão, o vôo cego dos
morcegos, dos curiangos, das corujas e as
historias de fantasmas. Também tinha medo do
banheiro, da janela, dos barulhos antes do sono
sucumbir, mas se encantava com o pisca-pisca
dos vaga-lumes e pirilampos e ao amanhecer
despertava feliz com o cantar dos galos no
terreiro.
Por onde andará esta criança?
Aquela criança não era totalmente inserida no
mundo, assim pensava eu em determinado
momento da vida, porem hoje o que percebo
com clareza é realmente o contrario. O mundo
penetrava na individualidade indispensável
daquela criança. Seja qual for o continente que se
visite, em meio a florestas, onde há neve, guerras
sangrentas, no centro da miséria e fome, com
toda certeza terão crianças brincando ou rindo e
que nós adultos jamais saberemos o real motivo,
porque a criança que nos habitava não está mais
lá. Em determinada época podia sentir o peso da
total responsabilidade pelo suposto sumiço
repentino dela, mas ao colidir com a famigerada
ansiedade, revela agora a seriedade que eu não
sou o único nesta confusa questão, muito dos
165
meus pobres amigos sofre do mesmo infortúnio.
Estive procurando sobre os escombros adulto do
meu interior, vestígios daquela criança esfuziante,
que por lá dançava ao som da vida. Pra ser
sincero, nada encontrei de concreto, apenas
relatos da sua doce e precoce estadia que
instintivamente a todos envolveu com sua
ingênua infantilidade. Uns poucos incertos que
com ela se defrontou por certo se arrependeram e
hoje com certeza sofrem do mesmo mal que me
assola. Não acredito que esta nobre criança volte
do reino encantado do mundo feliz para este
invólucro de instabilidade emocional. Hoje tenho
uma suposta conclusão de quando esta criança
tenha desvencilhado deste adulto estúpido e
convencido que mostrou sua precipitada
arrogância. Acho que certamente foi no final da
adolescência, entre os vinte anos, quando por
estupidez os mais velhos exigem um
amadurecimento transparente herdado dos seus
pais sem nenhuma psicologia.
Rosa enquanto relatava as ultimas palavras da
frase tinha os olhos voltados pro espaço vazio,
mas no completo das suas lembranças. Padre
Vitório aproveitou do intervalo e se fez ouvir
depois de dar um gole na xícara de café que ainda
fumegava.
166
_Seu texto é muito rico de detalhes. Talvez a
grande exigência da humanidade seja essa. Que o
tempo voltasse a trás.
Rosa se postou de pé e prendeu seus belos
cabelos como rabo de cavalo e fez seu desterro.
_Não deixei de fazer nada que uma criança
normal faz, apenas lutei muito pra conquistar
minha liberdade em todos os âmbitos. No
colégio, na faculdade, no trabalho e entre os
amigos consegui o merecido respeito. Era pra
estar comemorando tantas vitórias. Um bom
exemplo é a restauração da minha fé e não sentir
este imenso vazio. Sinto-me como se não
houvesse nenhum motivo para lutar. Mais me
pareço um pássaro que tem a porta da gaiola
aberta, porem não sabe para onde voar.
O padre caminhou a passos lentos com o
auxilio da bengala ate o fogão onde estava o bule
de café e preencheu sua xícara, e interrompendoa.
_É apenas um momento de indecisão que
você está atravessando, Rosa. Isto é natural.
_Não é indecisão, padre Vitório. É de contra
quem e o que lutar. Tudo se resolveu simultâneo
167
nestes dois últimos anos da minha vida. Todas as
batalhas que criei sai vencedora. Sei que existe
uma nova batalha, porem ainda não encontrei os
motivos nem os oponentes.
Padre Vitório afagou carinhosamente uma
das mãos de Rosa, tinha os olhos fixados nos dela
e se fez ouvir.
_A grande maioria das pessoas que conheço
desviam das batalhas pensando que encontrarão a
paz eterna. Puro engano! Tenho minhas
convicções de que não existam dedicações com
tais semelhanças, como padre, jornalista e
medico. Vivem no meio de conflitos e quando
não a procuram. É o nosso destino gritando lá
dentro. Minha filha. Você é jornalista! Vá dizer
aos quatro cantos deste país o que está errado.
Não seja medíocre como a grande maioria que
ficam em cima do muro. A sociedade necessita de
fé, de saúde, como precisa de jornalistas berrando
por ela. Às vezes penso que a tal da ditadura
amansou os homens da palavra escrita, como o
peão do campo que amansa o burro a puxar
arado pro resto da vida. Tenha coragem e amor
pela sua profissão! Não deixe que te façam puxar
arado pro resto da vida.
168
Os olhos de Rosa brilhavam de emoção
derivada das sabias palavras, mas se fez ouvir
mesmo assim.
_Sabe, padre. Gostaria de me preocupar com
assuntos banais, imagens que meus olhos vêem.
Como as águas do rio dos amores descendo
lentamente, sem aquelas fortes correntezas dos
dias de tempestade, também sem aquelas
tragédias que nele se depositou. Ver o sol claro
rompendo as copas das arvores, os pássaros
pulando de galho em galho, porem, isso apesar de
tanta beleza não preenche mais.
O ancião do celibato continuou afagando as
mãos da jovem quando a interrompeu.
_Rosa, minha delicada flor! Você germinou
tornou-se um lindo bebê, quando criança
também foi um lindo botão, foi desabrochando
na sua adolescência, e agora chegou à
florescência. Tornou-se uma linda mulher,
porem, descobriu que no seu caule existem
espinhos só que também servem para te proteger
das intempéries do tempo. É apenas liberdade
que você procura. Não deixem que te limitem!
Padre Vitório levantou e caminhou num vai e
vem sem direção no pequeno espaço que sobrava
169
daquela cozinha, como que buscando palavras
para a sua síntese. E desatou.
_Talvez em sua curta vida conheceu pessoas
que buscavam a verdade em algum lugar que no
passado deixou. Não porque quisesse esconder,
mas por omitir o próprio momento. Também
deve ter conhecido pessoas que se faz ouvir com
desempenho porque em suas expressões não foi
percebido. Tenho absoluta certeza que conheceu
pessoas que querem o poder a qualquer custo.
Sabe Rosa. Quando ainda cursava teologia
procurava resposta no céu pro inferno que é a
terra. O único fato que descobri, é que não existe
resposta. Quer saber qual o único fato que me
aproximei com toda sinceridade?
Rosa permitiu com um aceno da cabeça
enquanto o padre assoprou seu café e deu um
gole antes de continuar.
_Descobri que o homem é incapaz de dar a
luz. Conseqüentemente a mulher não foi
constituída da costela de Adão. Ficou claro pra
mim, que o homem é uma criação do desejo
desesperado do universo feminino e suas
carências. O desejo de ser protegida, de ser
tocada, manipulada. A outra parte que lhe faltava.
Porem, ela descobriu recentemente que sua
170
criação, o seu rebento, é desprovido do
verdadeiro amor, que com ela nasce
naturalmente. O rebento, por sua vez nasceu
repleto de adoração. Também descobriu que ele é
autor de todas as agressões diretamente a ela. E
assim descobri o significado do livre arbítrio que
todos temos o direito. A incoerência com nosso
livre arbítrio vêm nos destruindo há tempos.
Rosa tinha no semblante devoção pura pelo
que padre Vitório havia exposto, pois jamais, em
sua curta vida pensou que saísse da boca de
alguém tal conjuntura a respeito deste sexo
desfavorecido,
principalmente
de
um
representante do sexo oposto. Pensou em Jesus
quando veio ao mundo, filho do espírito santo, e
como havia enorme coerência e relação nos fatos.
Sentia-se privilegiada por ser testemunha de
grandioso relato, que mesmo em todos estes anos
de estudos não havia lido algo com tanto teor de
verdade. A perplexidade deixou-a reflexiva que o
silencio reinou no recinto onde o alimento
sagrado é exposto sobre a mesa. A imagem da
santa no suporte no canto da parede cresceu em
sua visão, não de tamanho e sim de importância.
O manto, as cores, e outros adereços da pequena
imagem continham historias que pela sua cabeça
não passava que houvesse tanto poder. Para ela,
171
aquilo era incrível! A sua admiração ao pároco
tornava-se maior que já o era diante da revelação
que colocava a mulher num altar que não estava
nas igrejas, mas nas ruas e avenidas, nas praças e
nos campos. O mundo pertencia ao universo
feminino tão sucumbido ao machismo
catastrófico que assolou pela fragilidade do corpo
e músculos. Sentia-se revigorada outra vez, e uma
nova batalha se desenhava em seu rumo. Decidiu
buscar historias de incoerências, onde quer que
elas se encontrem.
Padre Vitório em seu dia havia muitas
famílias que necessitavam da sua dedicação, do
seu trabalho social fora da igreja na cidade de
Nossa Senhora de Esperança do Sul, mas antes
de dispensar Rosa da casa paroquial com
educação abriu uma gaveta e dela retirou um
envelope, que a entregou, porem antes salientou.
_Leia esta carta que minha sobrinha, Acácia
enviou-me recentemente, depois de sofrer um
grande drama por efeito das incoerências. Você
vai ver que problemas não faltam, onde esteja e
onde for.
O padre e a jovem saíram caminhando para
descer a colina, mas Rosa decidiu sentar-se num
dos bancos da praça para ler a carta da sobrinha
172
do reverendo. Buscou na memória o nome,
Acácia. Preferiu aproveitar o sol matutino que
estava deslumbrante. Os raios do sol
atravessavam os galhos e folhas dos angicos, das
sibipirunas, das paineiras que derramou suas
flores rosa ao chão. Era final do verão e algumas
nuvens carregadas surgiam no horizonte.
Enxergava-as no final da calda onde o rio dos
amores serpenteava as colinas. Rosa abriu o
envelope, aproveitando o ermo do lugar leu em
voz alta.
Espero que esta simples carta encontre o senhor, tio
Vitório ofertando o melhor do senhor para com os
necessitados.
Estava ali estática numa das calçadas de esquina
próximo ao MASP em plena avenida Paulista, no
sentido da Consolação. Olhei a minha volta num
movimento lento de trezentos e sessenta graus, alem dos
prédios e placas, ônibus, carros, homens vi também muitas
mulheres quase da minha idade que transitavam objetivas
rumo as suas pendências diárias. No auge dos meus trinta
anos nunca me encontrei nesta situação que percebo nestas
mulheres aceleradas em trajes quase semelhantes. O som
ruidoso da grande metrópole com buzinas, sirenes, e o
amontoado de vozes fez não sentir tanta pena de mim.
173
Da cidade de nossa Senhora do Bom Parto, onde
moro ainda ouço os cantos dos pássaros em revoada, o
soprar dos ventos nas arvores, nas ruas ainda é possível
ouvir às conversas das vizinhas no portão, as crianças
voltando da escola numa feliz algazarra, os galos cantando
em resposta nos quintas da proximidade.
Porem, aqui neste tumulto urbano evidencio a luta
constante das pessoas contra o tempo. Aqui no caos o
tempo não pode ser perdido, ele não passa em vão. O preço
das horas, dos dias, dos meses e dos anos a cotação é alta,
somado a isso tem o tempo ido que o espelho exacerba sem
dó. O tempo tem que ser completado, no cronômetro,
estabelecido, e se possível estendido em horas extras,
cirurgião plástico, centro de estética, auxilio de outros
profissionais.
Já em Nossa Senhora do Bom Parto o tempo passa
lento, tanto que se acompanha o sol no zênite. O ano se
divide em quatro estações. No outono sobra laranja e
limão e determina o fim da colheita do café e o inicio da
estiagem. No inverno com frio vem à geada que queima a
plantação e o pasto. Sendo assim diminui a quantidade na
produção do leite e seus derivados, mesmo assim prepara-se
a terra para o plantio. Na primavera começam as chuvas,
germinam as sementes, os insetos trabalham na
polinização das flores, temos mel em abundancia, os
pássaros em acasalamentos. No verão a cidade inteira
174
exala goiaba, caqui, manga, as chuvas no final de tarde
deixa os campos mais verdes e ainda sobra tempo nas
tardes abafadas pra conversar sentado nos bancos e
cadeiras em frente das casas.
Ainda me lembro (era por volta dos meus dezoito
anos), foi em um destas tardes de conversa no portão que
marquei um encontro com André para irmos á praça no
sábado à noite. Conhecíamos-nos desde criança (tínhamos
quase a mesma idade que teria hoje a pequena Azaléia,
oito anos), mas ainda não havíamos nos acertado, como se
diz lá no interior. André sempre foi um rapaz muito
esforçado, sem vícios, trabalhador, homem rústico e sem
vaidades que no interior tem de sobra, mas que tem o
caráter e a honra medida em peso de fio de bigode. Ainda
lembro e guardo na memória quando lentamente André
com suas mãos calejadas segurou pela primeira vez a
minha que estava gelada de insegurança convidando-me
para ir ao cinema. Ainda lembro feliz do filme, um
musical (Moulin rouge) e a canção (Your Song do Elton
Jones) interpretada pelo casal de atores passeando pelos
telhados de Paris, e também não da para esquecer o
primeiro longo beijo. Ainda me lembro quando André
sentado às sós com papai na sala pedia para namorar
comigo. Eu, minhas irmãs e mamãe atrás da porta do
quarto em silencio tentando ouvir se papai autorizava ou
não. Também lembro quando pediu minha mão em
casamento, todos os presentes que estavam na sala viram a
175
insegurança que me dominou. Talvez tenha sido uma das
primeiras vezes que percebi que meus olhos não estavam
focados para fora de mim e sim para dentro. Foram
reflexões profundas daquela moça, que estava fazendo
perguntas e se assustou porque existiam dezenas de
respostas sem definição. Passei muitos anos da minha vida
só olhando pro meu exterior patético, os cílios e
sobrancelhas, os lábios, os cabelos as unhas os brincos das
orelhas, os vestidos que cobriam o corpo. Realmente as
únicas vezes que olhei pra dentro de mim, foi quando
escovava os dentes ou quando eles doíam. Nem quando
tive a primeira menstruação refleti sobre o interno, apenas
sentia muito incomodo com aquele volume intruso.
Naquele momento era uma visão diferente, alem da
mulher repleta de volúpia, sedutora, de cabelos castanhos
claros havia uma bagagem invisível e que tinha peso (só
que não eu sabia que era tão pesado assim). Aos vinte
dois anos casei com André na paróquia da pequena cidade
de Nossa Senhora do Bom Parto. Ainda me lembro, dos
quatro cavalos negros que brilhavam a luz da lua clara,
puxando pelas ruas de paralelepípedos uma bela carroça
entalhada com enfeites de ramos verdes onde o branco do
vestido se destacava. Ainda ouço os gritos do cocheiro
dando ordens ao plantel de garanhões, também ouço o
ecoar das ferraduras em choque com o piso de pedra firme.
Ainda lembro a alegria estampada nos sorrisos que cruzei
naquele túnel de gente que testemunhou a reciprocidade
176
daquela mulher. Ainda lembro o aroma do ambiente
quando André pegou-me, e carregando-me no colo
adentramos em nosso lar repleto de esperança, muitos
sonhos, companheirismo e amor. Também lembro tão
organizado que André mantinha a geladeira, o armário de
mantimentos, seus sapatos, suas ferramentas de uso
domestico. Ainda me lembro (parece que foi ontem)
quando voltei do medico depois de constatar que estava
grávida. Olhava-me totalmente nua de perfil diante do
espelho de corpo inteiro, e com as duas mãos alisava uma
pequena saliência na barriga que em breve se chamaria:
Azaléia.
Cheguei a São Paulo faz quatro dias, mas sinto-me
como se já estivesse por aqui, umas duas semanas. A todo
instante, em qualquer esquina ou cruzamento me defronto
com uma cena de estupidez, de ignorância motivada pela
falta de paciência. A harmonia se escondeu no cotidiano
do sincronismo maquinal. Não parecem pessoas.
Assemelham-se as maquinas movida a ódio. Não sabem
por que discutem, apenas cumprem ordens do urbanismo.
O dia ainda estava claro quando desci no terminal
rodoviário do Tietê, mas antes de chegar à rodoviária foi
quase uma hora travada na lentidão das marginais e
provei um pouco deste péssimo veneno. O mesmo veneno
que abastecia almas degeneradas como a do Gabriel.
Nome de anjo querubim, mas que transportava tristeza
para quem encontrasse no caminho. Gabriel! Terei que
177
levar este nome junto a sua face ate meus últimos dias,
porem, será apenas um encontro. André foi resoluto em
não querer ver a fisionomia e ouvir a voz de Gabriel.
Disse-me de olhos baixos e lagrimejados que seria uma dor
a mais que teria que carregar, já que o passado não teria
como apagar. Engraçado! Vivemos boa parte de nossas
vidas querendo arquivar bons momentos em que nela
aconteça. O mais incrível que aqueles momentos
indesejáveis não existem a menor possibilidade de bani-los.
André não aceitou esta seqüência da terapia, preferiu
interrompê-la. A terapeuta ressaltou que deveria ser
insistente para seu retorno, porque seria fundamental para
o êxito da terapia do casal. Vejo bastante coerência nesta
avaliação da doutora Orquídea, ela é especialista em
psicologia, disse que ambos necessitavam ter a mesma visão
sobre o drama. Espero que quando voltar a Nossa
Senhora do Bom Parto consiga ser convincente para André
muito mais nas atitudes e gestos do que com as palavras e
assim ele volte à terapia. Para ser sincera, estou muito
preocupada com André. Para homens como ele carregado
de pureza e honestidade, pouca leitura, mas, muito
trabalho e dedicação à família fica difícil de aceitar tais
erros com camuflada imputação. Para homens honestos
não existe desonestidade, para homens puros de alma não
existem sujeiras, para homens dotados de bondade não
existe maldade, principalmente com crianças. Tenho
certeza que para eles o impacto seja mais profundo. Não
178
vejo à hora de chegar a Nossa Senhora do Bom Parto e
ficar ao lado dele, tenho medo que tome alguma atitude
impensada. Apesar, que em São Paulo existem poucas
coisas que me faz lembrar-se de Azaléia, aqui me sinto
um pouco mais aliviada sem esta associação indireta. Em
Nossa Senhora do Bom Parto, tio Vitório o senhor
conhece bem, tudo é muito pequeno o centro da cidade tem
apenas duas ruas. Quando vou ao supermercado passo em
frente à escola que Azaléia estudava, as suas amiguinhas
são todas vizinhas e todo santo dia, as vejo na mesma
calçada brincando de amarelinha, pulando corda ou
qualquer outra diversão. Apenas ela não está lá. Dentro
de casa, na sala, no seu quarto ainda tem seu cheiro, têm
seus lugares preferidos, seus pratos prediletos que pedia que
fizesse para ela. Na televisão seus programas que
diariamente via chamam minha atenção. Pela casa não
existem mais seus bichinhos de pelúcia espalhados, não
tenho mais suas roupas pra lavar, os longos cabelos pra
pentear. Não tenho mais para quem perguntar se tem
lição de casa pra fazer. Não levaram apenas a minha
pequena Azaléia, mas também sugaram quase tudo ao
seu redor. Procuro não pensar muito sobre a agressão, faz
parte da terapia, foco meus pensamentos em lembrar-se da
sua voz quase rouca cantando as musicas da dupla Sandy
e Junior, dos seus passos pelos corredores ou dançando na
sala ou sua gargalhada estridente com um pouco de
sarcasmo.
179
Depois que sai do encontro com Gabriel na
Fundação Casa que abriga menores infratores, pedi ao
taxista que me levasse à igreja Nossa Senhora da
Consolação. Sentada no banco da igreja vazia aproveitei
para apreciar as pinturas, os vitrais, as esculturas, a
arquitetura e apenas o pai nosso veio em minha mente. Se
fosse em outras épocas teria uma visão mais bela do que vi,
talvez rezaria com penitencia de beata. Saindo da igreja
subi a avenida da Consolação e descobri que tem um
cemitério homônimo. Enquanto subia a extensa avenida
veio em minha mente à possibilidade de mudar para São
Paulo. Escolher um bairro tranqüilo e arborizado. Uma
residência seria o essencial. Acredito que jamais André se
adaptaria morar em um apartamento, porem o mais difícil
era fazê-lo sair da sitio, do trabalho do campo, os amigos
de longos anos, seus cavalos, seus cachorros. Como a vida
nos surpreende, tio Vitório! Quando jovens temos a
convicção que estamos nos casando com um homem e nada
mais. Depois é que enxergamos que alem do homem vem
agregados seus defeitos e qualidades, seus hábitos e manias,
seus bichos e amigos. Aqui em São Paulo a tragédia è
cotidiana, nos defrontamos com ela em cada esquina, nos
hospitais, nos cinemas, nas portas das igrejas, debaixo dos
viadutos repletos de moradores de ruas. Em Nossa
Senhora do Bom Parto a tragédia é fato extraordinário,
isolado. Sua casa vira ponto de referencia, local de
peregrinação, nas ruas as pessoas te olham com piedade.
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Não há lugar que ande que não façam lembrar-me do meu
fardo. Gostaria de continuar vivendo. Apenas ter uma
vida normal, o presente. Não da para esquecer o passado,
mas não quero lembrar-se desta mancha de agressão. Do
passado quero apenas o perfume da Azaléia e seu belo
sorriso. Não quero lembrar que fui punida pela mesma
sociedade que faço parte. Esta sociedade egoísta que nós
alimentamos todos os dias em todos os seguimentos. Não
quero lembrar-se desta sociedade que auxiliei na sua
estrutura de produzir subprodutos como tantas outras
crianças como o Gabriel. É bem neste ponto onde meu
sofrimento se salienta tio Vitório. Eu dei suporte a esta
sociedade loquaz e voraz. A mesma sociedade que vai
destruindo multidões e forjando milhares de delinqüentes
juvenis.
Na fundação fiquei frente a frente com Gabriel e
perguntei a ele o que fazia quando tinha oito anos, a
mesma idade que tinha Azaléia. Respondeu-me sobre o
efeito do cárcere e seu vocabulário chulo, também
constrangido não pelo que fez, mas muito por estar diante
da mãe da sua vitima. Gabriel disse-me que nesta época
havia parado de estudar, não tinha o que comer em sua
casa. Seus pais estavam desempregados e viviam
alcoolizados, alem do que batiam muito nele. Foi para os
cruzamentos pedir dinheiro e nos bares e lanchonetes pedia
o que comer. Deus me deu uma linda flor tio Vitório, que
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enriqueceu o meu jardim durante oito anos, de repente uma
criança com uma arma em punho podou-a de lá.
Rosa terminou de ler a carta estarrecida pelo
drama que assolou Acácia, porem uma enorme
janela abriu em sua mente faminta de historias
forte. Agora tinha certeza onde as encontraria, na
grande metrópole. E assim Rosa gritou lá de cima
da colina.
_São Paulo, lá vou eu!
Fim
182
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Rose ou Rosa colha de retalhos novo