Ao terminar o Catálogo temático das
obras do padre José Maurício, publicado
pelo Conselho Federal de Cultura em
1970, Cleofe Person de Mattos
dedicou-se ao estudo da vida do
compositor setecentista e sua atuação
no Rio de Janeiro. Através de exaustiva
pesquisa em fontes primárias, e com o
apoio da Bolsa Vitae de Artes, ela nos
oferece agora um retrato abrangente e
inédito não apenas da vida do
compositor, mas também da época em
que viveu, distribuindo a matéria em
três períodos. 0 primeiro, de 1767 a
1807, retrocede às avós paterna e
materna e deixa entrever "a parcela da
raça branca em José Maurício...
contraste de luz e sombra que vai
acompanhá-lo por toda a vida".
A infância e a juventude, a atuação
dos jesuítas, os escravos-músicos,
os teatros no Rio de Janeiro,
tudo vai refletir na formação
do jovem compositor.
A mineirice das suas primeiras obras
e a escolha da carreira eclesiástica
como recurso para alcançar status no
campo da música. As dificuldades
decorrentes do "defeito de cor" e,
enfim, a desejada nomeação para
mestre-de-capela numa fase de grande
produtividade. Uma discreta presença
de música seresteira em suas
composições religiosas, diz a autora,
pode ser vista como primeira
manisfestação do nosso
nacionalismo musical.
José
Maurício
Nunes
Garcia
Biografia
Cleofe Person de Mattos
Presidente da República
Fernando Henrique Cardoso
Ministro da Cultura
Francisco Weffort
Fundação Biblioteca Nacional
Presidente
Eduardo Portella
Departamento Nacional do Livro
Diretor
Élmer Corrêa Barbosa
José
Maurício
Nunes
Garcia
Biografia
•
Cleofe Person de Mattos
Rio de Janeiro
1997
MINISTÉRIO DA CULTURA
Fundação BIBLIOTECA NACIONAL
Departamento Nacional do Livro
Ministério da Cultura
Fundação Biblioteca Nacional
Departamento Nacional do Livro
Av. Rio Branco 219 Centro 20040-008 Rio de Janeiro RJ
tel.-.(021)2628255ramal247
Jax-.(021)2628255ramal336
Copyright ©Fundação Biblioteca Nacional
1996
Edição de texto
Suzana Martins
Projeto Gráfico
Denise Coelho
Capa
Daniella Maceno
Mauro Britto
Pesquisa iconográfica
Marcus Venicio Toledo Ribeiro
Revisão
José Bernardino C. Magalhães Vieira
Osmar de Barros Teixeira
Editoração eletrônica
Valdir José
Reproduções fotográficas
Raul Lima
Rio de Janeiro, 1997
Impresso no Brasil
Ilustração da capa
Litograjia com o retrato do pe. José Mauricio
Nunes Garcia, de autoria de seu filho, Dr.José Mauricio.
Coleção Rodrigo Goulart
Mattos, Cleofe Person de.
José Maurício Nunes Garcia: biografia / Cleofe Person de Mattos.
— Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, Dep. Nacional do Livro,
1996.
373 , XX ,p. : U..; 25cm
ISBN 85-333-0068-9
1. Garcia, José Maurício Nunes, 1767-1830. 2.Compositores —
Brasil. Biografia. I. Biblioteca Nacional (Brasil). Departamento Nacional
do Livro. II. Título.
CDD 927.83
Apresentação
Todos os que se interessam pela música brasileira há muito
esperavam este trabalho de Cleofe Person de Mattos; sabiam que um dia
as pesquisas históricas e os estudos da musicóloga se transformariam
em livro. Nos últimos anos, a autora se dedicou, graças a uma bolsa da
Fundação Vitae, a pôr ordem às inúmeras anotações recolhidas em anos
de pesquisa, com o propósito de dar forma ao seu trabalho. Durante
anos, percorreu bibliotecas, arquivos históricos e religiosos, conheceu
os arquivos centenários das orquestras de Minas e se tomou conhecida
de músicos e pesquisadores em todo o país como a musicóloga
especialista no período colonial, mais particulannente no mestre José
Maurício Nunes Garcia.
Quando encaminhou o seu texto datilografado para que o
avaliássemos no Departamento Nacional do Livro da Fundação Biblioteca
Nacional, percebemos que nos oferecia para leitura, sob o título de José
Maurício
Nunes Garcia—Biografia,
obra definitiva sobre aquele que
foi o músico brasileiro mais importante do século XIX. Chegava às nossas
mãos um trabalho que ia preencher enorme lacuna em nossa bibliografia.
É impossível dissociar a obra de José Maurício d o trabalho da
pesquisadora, musicóloga e maestrina Cleofe Person de Mattos. A todos
que buscam informações sobre a vasta e surpreendente obra do padre
José Maurício é obrigatória a leitura do presente livro. Em 1970, Cleofe
nos ofereceu o Catálogo Temático do padre compositor que agora se
completa com a Biografia— dois livros de leitura obrigatória.
Os apreciadores da música em nosso país têm um débito particular
com Cleofe Person de Mattos, esta mulher fantástica, que dedicou sua
vida ao estudo e à pesquisa musicais. Em decorrência de seu infatigável
trabalho de campo, não só nos apresentou a obra do padre José Maurício,
autor que ganhou relevo com seus estudos, como também deu destaque
e projeção internacional aos compositores mineiros do século XIX .Em
1941, Cleofe fundou a Associação de Canto Coral, iniciativa que ganhou
autonomia e maturidade e que, hoje, se identifica com a sua idealizadora.
Embora o trabalho da Associação tenha se imposto e concorrido para
que se multiplicassem os corais, e por ser a Associação de Canto Coral
reconhecida pelo seu amplo e variado repertório, também a projeção no
tempo desta instituição se funde com a obra do padre José Maurício,
por mérito exclusivo de Cleofe Person de Mattos.
A obra d o padre José Maurício não é só importante por ter sido
ele mestre-de-capela da Catedral do Rio. Ela expressa também a
sensibilidade e o estado da cultura brasileira, no rápido período de
transição histórica, quando o Brasil deixou a secundária condição de
colónia, para se tomar sede da Coroa portuguesa foragida,e logo depois
se destacar como centro de decisão do Reino Unido de Portugal e
Algarves. Cleofe traça criteriosamente a trajetória biográfica do padre
compositor, sempre associando cada episódio — e foram muitos — da
sua tumultuada vida à sua produção artística. Texto escrito em estilo
elegante e atraente, fundamentado em vasta documentação, gradualmente
vai revelando, com muita competência, a génese de cada obra. Trata-se,
sem dúvida, de uma obra de referência definitiva, leitura e estudo
obrigatórios de todos os que desejam conhecer os primórdios da música
erudita brasileira.
Somem-se a este trabalho a discografia gravada pela Associação
de Canto Coral e as partituras levantadas para as muitas apresentações
em concertos da Associação e teremos o resultado de uma vida - ou diria
melhor, de duas existências, que, em muitos e inspirados momentos,
eram como se fossem uma só: a de Cleofe e a da Associação de Canto e
Coral, da qual, além de fundadora, ela foi durante 44 anos a iluminada
regente.
Élmer C. Corrêa Barbosa
Diretor
Departamento Nacional do Livro
Prefácio
Física e e c o n o m i a nortearam minha formação. Na primeira,
c u i d a n d o da d i n â m i c a d e m a c r o s s i s t e m a s e p a r t í c u l a s
elementares. Na segunda, dos e f e i t o s d e interesses humanos,
alguns mesquinhos, diante d e recursos ditos limitados, escassos.
Portanto, para mim, é p r a z e r o s o d e s a f i o prefaciar l i v r o escrito
por C l e o f e Person d e Mattos.
Filha d e José Rodrigues d e Mattos e A n n e t t e Person d e
Mattos, C l e o f e t e v e e m seus pais os alicerces de sua f o r m a ç ã o
musical, iniciada e m sua própria casa, então na rua Mariz e Barros,
na Tijuca, onde nasceu e m 17 d e d e z e m b r o de 1913- Consolidoua na antiga Escola Nacional d e Música (atual Escola de Música
da U n i v e r s i d a d e F e d e r a l d o R i o d e J a n e i r o ) o n d e e r a m
professores, entre outros, Francisco Braga, Francisco M i g n o n e ,
José Paulo da Silva, A n t ô n i o de Sá Pereira, Luiz Heitor Corrêa de
A z e v e d o . Nessa escola tornou-se, por concurso, professora titular.
Já f o r m a d a , C l e o f e não hesitou e m ser aluna d o maestro
Villa Lobos, n o Curso de Formação d e Professores, na antiga
Universidade d o Distrito Federal, o que p r o v o c o u a m p l i a ç ã o de
seus h o r i z o n t e s profissionais. E m p o l g o u - s e c o m o canto e m
conjunto e ascendeu à c o n d i ç ã o — que iria marcar sua vida d e
artista — d e r e g e n t e d o c o r o de v o z e s femininas, o r g a n i z a d o a o
final d a q u e l e curso, e m b r i ã o d o q u e v e i o a ser a consagrada
A s s o c i a ç ã o d e Canto Coral, e s p é c i e d e referencial d o s corais
brasileiros a partir dos anos 40, da qual f o i diretora artística até
1993José Maurício Nunes Garcia, carioca c o m o sua biógrafa,
n a s c i d o e m 22 d e d e z e m b r o d e 1767, na Freguesia da Sé, rua da
Vala (atual Uruguaiana), à época "nos confins da c i d a d e " , na
c o n d i ç ã o d e neto d e escravos, não d e v e ter tido a v e l e i d a d e de
pensar que sua obra e sua vida, n o s é c u l o XX, seriam o b j e t o d e
pesquisa diária, por consagrada professora d e música.
C o m o f e z C l e o f e , r e v i v e m o s os q u e nos legaram v a l o r e s
q u e p o d e m influenciar na (re)construção da s o c i a b i l i d a d e desta
m e t r ó p o l e que, mais d o que cartão postal d o Brasil, é sua síntese,
n o sentido h e g e l i a n o d o termo. O u s o d i z e r que as mulheres
cariocas d e v e m ter papel destacado nessa ( r e ) c o n s t r u ç ã o , pois
são elas que, mais d o q u e enfeitar, d ã o graça e vida a esta cidade,
feminina e m sua natureza, a d e s p e i t o d e seu n o m e masculino.
L e m b r o - m e de Helena Meireles, a violeira d o r a s q u e a d o
mato-grossense que, recentemente, nas areias de Copacabana,
p e r g u n t o u : " A f i n a l , esta c i d a d e é r i o o u mar d e janeiro?".
Sabedoria d e perguntar, arte e s q u e c i d a . O Rio d e Janeiro é mar
d e v i d a , de janeiro a d e z e m b r o , apesar da mortal v i o l e n t a ç ã o
que v e m sofrendo.
C l e o f e , e m sua e u r o p é i a elegância, é d e uma s i m p l i c i d a d e
carioca singular, à Paulinho da V i o l a . A o s 82 anos, d e s p r o v i d a
d e vaidades, ainda se surpreende diante da vida, c o m o a menina
p e r s o n a g e m d e Jostein Gaarder e m O mundo de Sofia.
Q u a n d o da primeira visita e m sua casa, um apartamento
na rua d o Russel, na Glória, e s p e r a m o s alguns minutos até q u e
f o s s e m d e s o c u p a d a s poltronas e cadeiras, cobertas d e partituras
e textos. Pensei: "Casa d e q u e m está mas n ã o v i v e neste m u n d o ,
e m q u e lugares e vidas estão e c o n ó m i c a e p o l i t i c a m e n t e predeterminados."
C o m o se e n f r e n t a n d o o t e m p o , esse d é s p o t a , C l e o f e d i z
s e m p r e b o m dia!, rejeitando a tirania dos turnos. A p r e c i a o b o m
v i n h o d o Vale d o Rhur e essa instituição carioca, o c h o p e b e m
tirado, saudáveis i n g r e d i e n t e s d e um b o m p a p o .
Q u a n d o a c o n h e c i tive dificuldades e m seguir seu discurso,
dada a r a p i d e z c o m q u e expressa seus raciocínios, muitos d o s
quais d i s s o n a n t e s para a q u e l e s a c o s t u m a d o s em outros
c o n h e c i m e n t o s . L o g o aprendi e era d o c e m e n t e p r o v o c a d o p e l o
q u e gosta d e conversar: artes e humanidades, Florença, Paris,
Rio d e Janeiro, José Maurício, Mozart, Villa Lobos. Estava diante
da mulher cartesiana e m sua d e d i c a ç ã o intelectual, dionisíaca
a o manifestar t e n s ã o entre suas naturezas.
Trato mais da biógrafa d o q u e d o b i o g r a f a d o . D e l e tratou
C l e o f e , o leitor tem a palavra final.
A autora resgata, a um só t e m p o , vida e obra d e José
Maurício e a sofrida inserção d o s n e g r o s n o m u n d o d o trabalho
n o B r a s i l , s o b uma cultura o r g a n i z a c i o n a l m a r c a d a p e l o
escravismo.
Regente, professora, musicóloga, escritora, mulher
independente, C l e o f e nos o f e r e c e agora a biografia de um h o m e m
q u e , na música e n o s a c e r d ó c i o , p a r e c e ter a c h a d o o c a m i n h o
das p e d r a s para ter mínima cidadania. Foi um ser m a r c a d o pela
tensão entre sua veia popular e a necessidade d e s o b r e v i v e r c o m o
artista n o m u n d o da aristocracia. " O contraste d e luz e sombra
vai a c o m p a n h á - l o p o r toda a v i d a " , s e g u n d o sua b i ó g r a f a .
C o m o é p r ó p r i o da história brasileira, o f e c u n d o compositor
José M a u r í c i o N u n e s Garcia teria f i c a d o e n c o b e r t o p o r espessas
cortinas, n ã o f o s s e C l e o f e Person d e Mattos.
Paulo
Roberto Franco
Andrade
Rio d e Janeiro, 1995
" O h ! n o c h e q u e guiaste,
oh n o c h e amable más q u e el alborada;
oh n o c h e q u e juntaste
A m a d o c o n amada
amada en el A m a d o transformada."
San Juan d e la Cruz
Noche oscura, 5
Sumário
P r i m e i r a parte (1767-1807)
15
Raízes
17
A criança
O Rio d e Janeiro no século d e z o i t o
A criança e o j o v e m
A ordenação
O mestrado
O fim d o século: o orador sacro e a manifestação
profana
O início d o século d e z e n o v e
22
23
30
38
46
49
54
Segunda parte (1808-1821)
59
1808 - Severiana Rosa d e Castro
A-chegada d e D. João V I
1808-1811 - O s três anos vividos na Capela Real
A travessia
1812 - A doença e a tensão no trabalho marcam
o f i m d e um p e r í o d o
1813 - O lento ressurgir d o compositor
1816 - A morte d e D. Maria I e da mãe d e José
Maurício
A chegada da Missão Artística Francesa
Sigismund Neukomm
1817 - O casamento d e D. Pedro com D. Leopoldina
1818 - A aclamação d e D. João V I
O Requiem d e Mozart é apresentado no Brasil
1821 - O retorno d e D. João V I a Portugal e suas
consequências
61
62
65
93
102
108
118
125
127
129
133
142
147
Terceira parte (1822-1830)
155
1822 - A carta d o c u m e n t o d e José Maurício a D.
Pedro I
1823-1825 - A n o s d e dificuldades financeiras n o país
O incêndio d o Real Teatro São João
157
l6l
163
1826 - A Missa de Santa Cecília
Os últimos anos
O requerimento dos músicos da Capela Imperial
A renúncia ao Hábito de Cristo
1829 - O casamento de D. Pedro com D. Maria
Amélia de Leuchtenberg
1830 - A "legitimação" do Dr. Nunes Garcia
Morre José Maurício Nunes Garcia em extrema
miséria
165
169
170
172
Post-mortem
185
O destino de uma obra
187
Século vinte
197
Notas
2
Cadastramento das obras
265
Discografia
òòò
Bibliografia
343
índice onomástico
353
Caderno de ilustrações
174
176
179
1 a
°3
^
Primeira parte
(1767-1807)
Raízes
"... entrar sem reserva alguma na história
humilde de toda a minha genealogia."
N ã o s ã o p a l a v r a s d o p a d r e J o s é M a u r í c i o N u n e s G a r c i a as
q u e se l ê e m na e p í g r a f e , e s i m d e s e u f i l h o Dr. N u n e s G a r c i a , '
mas d e f i n e m a linha d o s antepassados d o c o m p o s i t o r . Duas
c r i a t u r a s d e c o r e s c u r a — as d u a s a v ó s n a s c e r a m e s c r a v a s —
e n c o n t r a m - s e na a s c e n d ê n c i a direta d o p a d r e J o s é M a u r í c i o N u n e s
Garcia.
O pai — A p o l i n á r i o N u n e s Garcia2 — " p a r d o f o r r o " , é o
q u e i n f o r m a a c e r t i d ã o d e c a s a m e n t o transcrita n o p r o c e s s o de
genere, nasceu na Ilha d o G o v e r n a d o r , b i s p a d o d o R i o d e Janeiro,
e aí f o i b a t i z a d o ( i g r e j a d e N o s s a S e n h o r a d a A j u d a ) . A m ã e —
V i t ó r i a Maria da C r u z — natural d e M i n a s G e r a i s , f o i b a t i z a d a na
c a p e l a d e S ã o G o n ç a l o d o M o n t e , b i s p a d o d e M a r i a n a , nas
proximidades de Cachoeira d o Campo.
O c a s a m e n t o d e V i t ó r i a Maria c o m A p o l i n á r i o r e a l i z o u - s e
n o R i o d e J a n e i r o , i g r e j a d a F r e g u e s i a d e Santa Rita, e m 14 d e
a g o s t o d e 1762, c e r i m ó n i a c e l e b r a d a às s e t e h o r a s d a n o i t e . F o i
registrada às p á g i n a s 150v. d o " L i v r o d e A s s e n t a m e n t o s d e
M a t r i m ó n i o s d a I g r e j a S. Rita", l i v r o a t u a l m e n t e d e s a p a r e c i d o ,
r a z ã o d e c i t a r - s e o p r o c e s s o de genere
( h a b i l i t a ç ã o à carreira
s a c e r d o t a l ) d e o n d e f o i c o p i a d o o d o c u m e n t o , às p á g i n a s 31
v e r s o , c o m o f o n t e primária. S e g u e transcrição:3
" P á g . 32: O V i g á r i o d e Santa Rita - A n t o n i o J o s é C o r r e a ,
informa:
Certifico, q u e n o Livro de assentamentos de casamentos
d e s t a f r e g u e s i a , às p p 150v d e c l a r o o a s s e n t o q u e da = A o s
c a t o r z e d i a s d o m e s d e A g o s t o d e 1762 a n n o s , na c a p e l a
d e N . S a d a C o e . cita n o C a m p o d a s D r c " p 1 " s e t t e h o r a s da
n o u t e c o m P r o v i s ã o d e S. Ex m d i g m e d o R e v B A d j a D r Juiz
d o s c a s a m e n t o s José d o s Reis per" claustro, e m p r e s e n ç a
das tes' a b a i x o n o m e a d a s e d o Rdo p c C a e t a n o Freire e d o
Rdo pe (
) c o m p a l a v r a s da p r e z d na f o r m a d o S a g r a d o
C o n s . T r i d . d n 1 d o B i s p a d o , o Rdo p ° A n t ° P e d r o d e L a e t d e
licença minha, r e c e b e o e m matrimonio a A p o l i n á r i o Nunes
G r a c i a , p a r d o f o r r o f° n al d e A n n a Correa d o D e s t e r r o Crioula
17
Cleofe Person de Mattos
d e G u i n é e d e P a i i n c o g n i t o , natural d a Ilha d o G o v d e s t e
B i s p a d o : C o m V i c t o r i a M a da Crus, p a r d a f o r r a , f a n"1 d e
J o a n a G i z , c r i o u l l a e d e p a y i n c o g n i t o , n al e b a t i z a d a na
C a p e l l a d e S. G ç o d o M o n t e , f e g a d e N . S a d e N a z a r e t h da
C a c h o e y r a d o O u r o P r e t o B i s p a d o d e M n a e l h e s d e o as
B ê n ç ã o s na fr a d o A c t u a l R i t o e ( h u m a n o ? ) c o m ( c o m o ? )
t u d o m e c o n s t o u p o r hua c e r t i d ã o p a s s a d a .
R d o p c A n t ° P e d r o Laet:
S a c e r d o t e d o H á b i t o d e S. P e d r o , o q u a l v i n h a j u r a d o e m
c o m o — s e tinha r e c e b i d o o s C o n t r a t " a c i m a na fr a q u e
neste assento d e c l a r o d o q u e t u d o f e z este assento o c o a d j u t o r J o z é d e A l m e i d a S a . H é o q u e c o n t h e m o d° a s s e n t o , a
q u e m e r e p o r t o na v e r d c in v e r b o
A o s 25 d e J u n h o d e
1791 A n t o n i o J o z é C o r r e a . "
O p r o c e s s o de genere
f o i instaurado e m 5 d e janeiro de
1791 p o r u m j o v e m m ú s i c o , J o s é M a u r í c i o N u n e s G a r c i a , q u e
assim c o n c r e t i z a v a o d e s e j o d e "entrar e m o r d e n s " . O p r o c e s s o
— c u j o o b j e t i v o era c o l h e r i n f o r m a ç õ e s a c e r c a d o s h á b i t o s
r e l i g i o s o s d e s e u s a s c e n d e n t e s , e s p e c i a l m e n t e s e b a t i z a d o s , se
haviam s o f r i d o "pena vil" ou acusação de heresia — fazia-se
através d e d o c u m e n t o s e d e p o i m e n t o s de testemunhas chamadas
a p r e s t a r , s o b j u r a m e n t o , as i n f o r m a ç õ e s n e c e s s á r i a s .
D e s e n v o l v e u - s e o processo de José Maurício Nunes Garcia em
d o i s p o n t o s g e o g r á f i c o s : Minas G e r a i s e R i o d e J a n e i r o . E m M i n a s
G e r a i s — S ã o G o n ç a l o d o M o n t e , distrito d e C a c h o e i r a d o C a m p o ,
e e m M a r i a n a , s e d e d o b i s p a d o — p a r a as i n q u i r i ç õ e s s o b r e a
a s c e n d ê n c i a m a t e r n a . N a c i d a d e d o R i o d e J a n e i r o — Ilha d o
G o v e r n a d o r ( i g r e j a d e N o s s a S e n h o r a d a A j u d a ) e na f r e g u e s i a
d e I r a j á ( i g r e j a d e N o s s a S e n h o r a d a A p r e s e n t a ç ã o ) — p a r a as
inquirições sobre a ascendência paterna.
E m S ã o G o n ç a l o d o M o n t e , d i s t r i t o o n d e V i t ó r i a M a r i a da
C r u z p a s s o u p a r t e da m e n i n i c e , f o r a m o u v i d a s p e s s o a s " h u m i l d e s
m a s t e m e n t e s a D e o s e da v e r d a d e " q u e a h a v i a m c o n h e c i d o e
d e l a ainda se l e m b r a v a m . Vitória Maria da C r u z era filha d e Joanna
G o n ç a l v e s , " c r i o u l a da G u i n é " , i n f o r m a m as t e s t e m u n h a s . J o a n a
"mina", escrava d e Simão G o n ç a l v e s , é o q u e adianta o v i g á r i o
da m a t r i z d e C a c h o e i r a d o C a m p o — M a n u e l J o s é d e O l i v e i r a —
c o m b a s e n o s l i v r o s d e r e g i s t r o da f r e g u e s i a d e N a z a r é , e m
Cachoeira d o C a m p o . Pai incógnito. A vinda d e Vitória para o
R i o d e J a n e i r o a o s d e z a n o s , m a i s o u m e n o s , estaria v i n c u l a d a à
f a m í l i a d o s e n h o r d e sua m ã e . N a i n f o r m a ç ã o d e u m a d a s
t e s t e m u n h a s , V i t ó r i a M a r i a teria v i a j a d o " e m p o d e r d e " B a r b o s a
18
José Maurício Nunes Garcia biografia
G o n ç a l v e s — n o m e citado n o registro d e Vitória —
parente ou descendente de Simão Gonçalves.
provável
A o r d e m e m a n a d a d o b i s p a d o d o R i o d e Janeiro para q u e
s e p r o c e d e s s e à i n q u i r i ç ã o de genere
de José Maurício Nunes
G a r c i a nas p e s s o a s d e V i t ó r i a Maria da C r u z , sua m ã e , e d e Joana
G o n ç a l v e s , sua a v ó , c h e g o u a o v i g á r i o d a i g r e j a m a t r i z d e
Cachoeira d o C a m p o — Nossa Senhora d e Nazaré — através da
C â m a r a E p i s c o p a l da c i d a d e d e Mariana. 4 A i n f o r m a ç ã o d o v i g á r i o
é o d a d o c o n c r e t o m a i s a n t i g o s o b r e o s a n c e s t r a i s d o já e n t ã o
j o v e m c o m p o s i t o r , e afasta d ú v i d a s q u a n t o a o b a t i s m o d e J o a n a
G o n ç a l v e s . D i z o p á r o c o da freguesia d e Nossa Senhora d e
Nazaré, de Cachoeira d o Campo:
" R e v e n d o o L i v r o d o s b a p t i z a d o s desta m e s m a Freguesia
d e N o s s a Senhora d e N a z a r e t h da C a c h o e i r a a c h o hua
J o a n n a Mina Escrava d e S i m ã o G o n ç a l v e s , h u a V i t o r i a f i l h a
d e J o a n n a M i n a d i g o f i l h a d e J o a n n a Escrava d e B a r b o s a
G o n ç a l v e s a m b a s ( M i n a s ? ) : a filha b a p t i z a d a na m e n c i o n a d a
c a p e l l a d e S ã o G o n ç a l o d o M o n t e filial d e s t a F r e g u e s i a e
q u e m e d i z e m ser o s p r o p r i o s d e q u e s e f a z m e n ç ã o n o
d i t o M a n d a d o . H e o q u e p o s s o certificar, e juro i n v e r b o
S a c e r d o t e s . C a c h o e i r a , M a r ç o , d e z e Sette d e 1791, O V i g á r i o
M a n o e l J o s é d e O l i v e i r a . A s p e s s o a s q u e p o d e m jurar s e r
vizinhos adois d i g o o Vigário Manoel José de Oliveira,
R e c o n h e ç o P o r v e r d a d e i r a Santa A n n a / A s p e s s o a s q u e
p o d e m jurar p o r ser v i z i n h a s e d a q u a l i d a d e r e q u i s i t a S ã o
os seguintes...."
Se n ã o d e i x a v a d ú v i d a s q u a n t o a o b a t i s m o da m ã e , c o m o
d a f i l h a , a o e s p e c i f i c a r q u e o d e V i t ó r i a f o r a r e a l i z a d o na c a p e l a
d e São G o n ç a l o d o Monte, o vigário permite dizer q u e o batismo
d e Joana G o n ç a l v e s f o r a f e i t o na p r ó p r i a matriz d e N o s s a S e n h o r a
d e N a z a r é , e m C a c h o e i r a . D e q u a l q u e r m o d o , a r e s p o s t a n ã o era
satisfatoriamente informativa, o q u e determinou n o v o p e d i d o c o m
o u t r o s e s c l a r e c i m e n t o s . Em 23 d e m a r ç o d e 1791 a C â m a r a E p i s c o p a l d e Mariana dirigiu-se n o v a m e n t e a o vigário:
" M a n d o a o R e v e r e n d o P á r o c o d a F r e g u e s i a d e N . Sra. d e
N a z a r e t h d e s t e B i s p a d o , q u e v i s t o este m e u m a n d a d o h i n d o
p o r m i m a s s i n a d o e m seu c u m p r i m e n t o passe p o r c e r t i d ã o
a b a i x o d e s t e o d e a s s e n t o d e B a p t i s m o d e V i t o r i a M a r i a da
C r u z , p a r d a L i b e r t a , b a p t i z a d a na c a p e l a d e S ã o G o n ç a l o
d o M o n t e d a dita F r e g u e s i a , f i l h a n a t u r a l d e J o a n n a
G o n ç a l v e s , c r i o u l a da G u i n é e i g u a l m e n t e q u e f o r a t a m b é m
19
Cleofe Person de Mattos
p o r c e r t i d ã o a c h a d a n o assento d o c a z a m e n t o da dita Vitoria
Maria da C r u z c o m A p o l l i n a r i o N u n e s p a r d o L i b e r t o c a z o
f o s s e c e l e b r a d o na dita F r e g u e s i a e q u e a s s i m c u m p r i r a
r e m e t e n d o a esta C a m a r a E c l e s i á s t i c a ... D a d o e p a s s a d o
nesta c i d a d e M a r i a n a s o b o m e u s i g n a l s o m e n t e , a o s 23 d e
m a r ç o d e 1791. — S e g u e m assinaturas: F e r r ã o , B o t e l h o . . . "
A resposta d o vigário Manuel José d e Oliveira n ã o tardou.
T e m data d e 2 d e abril:
" E m v i r t u d e d o M a n d a d o Supra d o m u i t o R e v e r e n d í s s i m o
S e n h o r D o u t o r P r o v i z o r r e v i o s L i v r o s d o s B a p t i z a d o s desta
F r e g u e z i a d e Nossa Senhora d e N a z a r é da Cachoeira d o
C a m p o ( i l e g í v e l ) d e l a s a f o l h a s c e n t o trinta se acha h u m
assento c u j o teor dis o Siguinte " A o s d e z dias d o m e z d i g o
a o s d e z d e M a y o d e m i l s e t e c e n t o s trinta e n o v e , na C a p e l a
d e São G o n ç a l o d o M o n t e filial desta Matriz o R e v e r e n d o
Padre José G o m e s c o m Licença minha baptizou e p o s os
S a n t o s o l i o s a V i t o r i a f i l h a d e J o a n n a Escrava d e B a r b o s a
G o n ç a l v e s : f o r a m P a d r i n h o s J o ã o M e n d e s e M a n o e l Ferreira
C h a v e s d a Itabira f o i b a p t i z a d a p o r f o r s a d e q u e f i z e s t e
a s s e n t o q u e a s s i n e i ut supra e n ã o se c o n t i n h a m a i s n o d i t o
assento a q u e me r e p o r t o e juro o r e f e r i d o i n v e r b o
S a c e r d o t e s C a c h o e i r a d o C a m p o e m Abril d o i s d e mil e
sete centos enoventa hum annos" o Vigário M a n o e l Jose d e
Oliveira."
N o m e s m o d o c u m e n t o o vigário de Cachoeira d o
Campo
a t e n d e u à s e g u n d a parte d o m a n d a d o e n v i a d o d e Mariana, q u a n d o
dá outra i n f o r m a ç ã o :
" E m v i r t u d e d o m e s m o M a n d a d o Supra r e v i o s L i v r o s d o s
C a z a m e n t o s desta F r e g u e z i a c o m t o d a a d i l i g e n c i a . C e r t i f i c o
q u e n e l e s s e n ã o acha o a s s e n t o d o c a z a m e n t o d a dita
V i t o r i a Maria d a C r u z c o m A p o l i n á r i o N u n e s I s s o Se acha
n o s L i v r o s d o s b a p t i z a d o s desta F r e g u e z i a a o f i m d o a s s e n t o
d o b a p t i s m o d o A v o d o habilitando José Mauricio N u n e s
G a r c i a , q u e s e n d o m a n d a d o a p e s s o a a q u e t u d o p o s s a na
v e r d a d e o q u e juro i n v e r b o S a c e r d o t e s C a c h o e i r a A b r i l d o i s
d e mil e sete centos e noventa e hum annos O Vigário
M a n o e l J o s é d e O l i v e i r a . . . R e c o n h e ç o p o r v e r d a d e i r a a letra
assima da c e r t i d ã o Supra p o r p l e n o c o n h e c i m e n t o q u e d e l a
t e n h o Santa A n n a . . . "
20
José Maurício Nunes Garcia biografia
F o r a m a j u n t a d a s as c e r t i d õ e s a o s a u t o s , e m 4 d e a b r i l . E
assim, c u m p r i n d o o r d e n s d o b i s p a d o d o R i o d e Janeiro para
p r o c e d e r à inquirição sobre a a v ó d e José Maurício, confirma-se
seu b a t i z a d o , d a d o i m p o r t a n t e n o p r o c e s s a m e n t o d e h a b i l i t a ç ã o .
A s b u s c a s r e a l i z a d a s n o R i o d e J a n e i r o e m t o r n o da
a s c e n d ê n c i a p a t e r n a d i v i d i r a m - s e , c o m o já f o i d i t o , e n t r e a Ilha
d o G o v e r n a d o r — freguesia d e Nossa Senhora da A j u d a , o n d e
A p o l i n á r i o n a s c e u e f o i b a t i z a d o — e a i g r e j a da A p r e s e n t a ç ã o ,
na f r e g u e s i a d e I r a j á , o n d e f o i b a t i z a d a sua m ã e , a t a m b é m
" c r i o u l a da G u i n é " A n a C o r r e a d o D e s t e r r o .
Para e s s e f i m f o r a m a c i o n a d o s o s r e s p e c t i v o s v i g á r i o s , m a s
seus r e s u l t a d o s f o r a m nulos. O p á r o c o d e N o s s a S e n h o r a da A j u d a
i n f o r m o u e m 20 d e j a n e i r o ter i n d a g a d o p e s s o a s a n t i g a s , q u e
d i s s e r a m n ã o c o n h e c e r " p e s s o a a l g u m a desta g e r a ç ã o , n e m nunca
o u v i r ã o n o m i a r " . Da m e s m a forma o v i g á r i o da igreja d e Nossa
S e n h o r a da A p r e s e n t a ç ã o c e r t i f i c o u e m 9 d e j u n h o n ã o ter
e n c o n t r a d o "algum d e seus a s c e n d e n t e s p o r mais q u e m e tenha
c a n z a d o de pesquizallas".
E s g o t a m - s e , p o r t a n t o , e m duas escravas, as i n q u i r i ç õ e s s o b r e
a ascendência de José Maurício. O d e s c o n h e c i m e n t o d o n o m e e
da q u a l i f i c a ç ã o d o a v ô — d o l a d o m a t e r n o c o m o d o p a t e r n o —
reforça e s p o n t a n e a m e n t e a suposição d e q u e repetia-se, n o caso
d a s a v ô s d o f u t u r o m e s t r e - d e - c a p e l a , a rotina da v i d a das escravas.
A pergunta sem resposta deixa entrever o c a m i n h o estreito p o r
o n d e t r a n s i t o u a p a r c e l a d e raça b r a n c a e m J o s é M a u r í c i o .
O s d e p o i m e n t o s das o i t o testemunhas d e São G o n ç a l o d o
M o n t e , quase t o d o s v i z i n h o s d o local o n d e v i v e r a Vitória Maria,
m a s l e m b r a d o s , e m 1791, da m e n i n a q u e d e lá saíra a o s d e z
a n o s , n ã o s ã o c o n f l i t a n t e s nas r e s p o s t a s d a d a s a u m f o r m u l á r i o
p r e v i a m e n t e e s t a b e l e c i d o . C o n f i r m a m q u e V i t ó r i a Maria era f i l h a
d e Joana G o n ç a l v e s , crioula da Guiné, escrava d e Simão
Gonçalves,5 nascida e batizada naquela freguesia.
A i d e n t i f i c a ç ã o d e n o m e s e circunstâncias da v i d a das
p e s s o a s l i g a d a s p o r s a n g u e a J o s é M a u r í c i o — s e u s p a i s e suas
a v ó s — n o s d e p o i m e n t o s das testemunhas citadas n o p r o c e s s o
de genere e c o n f i r m a d o s n o d o c u m e n t á r i o t r a n s c r i t o , d e i x a s e m
a p o i o a c e r t i d ã o d e b a t i s m o d e V i t ó r i a Maria v e i c u l a d a p o r Franc i s c o Curt L a n g e na r e v i s t a Barroco,
e m 1981. 6
D e n t r e o s p e r s o n a g e n s e n v o l v i d o s nessas inquirições, o
v u l t o d e Vitória Maria persiste mais l o n g a m e n t e a o olhar da
h i s t ó r i a . A f a s t a d a a i n d a m e n i n a da f r e g u e s i a d e S ã o G o n ç a l o d o
M o n t e , V i t ó r i a é r e e n c o n t r a d a n o R i o d e J a n e i r o a o s 23 a n o s
q u a n d o d o seu c a s a m e n t o c o m A p o l i n á r i o N u n e s G a r c i a e m 1762.
C a s a v a - s e já v i ú v a d e R a i m u n d o P e r e i r a d e A b r e u . 7 S o b r e o
21
Cleofe Person de Mattos
c a s a m e n t o d e Vitória Maria e A p o l i n á r i o é possível ajuizar d o
a m b i e n t e familiar d o casal através de i n f o r m a ç õ e s prestadas e m
1791 n o p r o c e s s o degenere,
p o r testemunhas q u e os c o n h e c e r a m
d e s d e os p r i m e i r o s a n o s d e casados, ou m e s m o antes. É o caso
d e S a l v a d o r J o s é d e A l m e i d a e Faria, m ú s i c o d e p r o f i s s ã o , m i n e i r o
d e o r i g e m , c o n t e r r â n e o d e V i t ó r i a Maria, q u e e s c l a r e c e a r e s p e i t o
d e A p o l i n á r i o : " v i v e u o s o b r e d i t o d e seu o f í c i o d e alfaiate".
M a n u e l G a r c i a R o d r i g u e s , t a m b é m m i n e i r o e natural d o b i s p a d o
d e Mariana — e q u e c o n h e c e u Joana G o n ç a l v e s — diz q u e
" s e m p r e f o r a m b o n s c a t ó l i c o s , v i v e n d o c o m muita d e c ê n c i a " .
Outra t e s t e m u n h a , A n t ô n i o Francisco Barbosa, p o r t e i r o da
F a z e n d a , t a m b é m os c o n h e c e u antes d e casados e acrescenta
q u e A p o l i n á r i o vivia " c o m b o m crédito de seu o f í c i o d e alfaiate".
C i n c o a n o s e u m m ê s a g u a r d a r a m V i t ó r i a Maria e A p o l i n á r i o
a c h e g a d a d o f i l h o . O R i o d e J a n e i r o já se t r a n s f o r m a r a na c a p i tal d a c o l ó n i a p o r t u g u e s a q u a n d o l h e s v e m essa c r i a n ç a a q u e m
o d e s t i n o não reservara certamente uma vida marcada pela
felicidade. Mas dotara-o d e um c o n d i c i o n a m e n t o d e inteligência
e d e s e n s i b i l i d a d e q u e f a r i a m d e l a u m n o m e b r i l h a n t e na história
artística d e s e u país. T i n h a V i t ó r i a Maria 26 a n o s e q u a t r o m e s e s .
A
criança
N a s c e u J o s é M a u r í c i o n o dia d e S ã o M a u r í c i o , n o R i o d e
J a n e i r o , e m 22 d e s e t e m b r o d e 1767. V e i o a o m u n d o na f r e g u e s i a
d a Sé — rua da Vala, a t u a l m e n t e rua U r u g u a i a n a — e b a t i z o u - s e
na C a t e d r a l e Sé, n o dia 20 d e o u t u b r o d o m e s m o a n o . O r e g i s t r o
d o batismo f o i lançado n o Livro d e Batizados d e pessoas Livres
d a C a t h e d r a l ( L ° 11, f o l h a 1 1 6 ) , h o j e e x t r a v i a d o , m a s q u e a t é
1914 a l i n h a v a - s e e n t r e as f o n t e s d o c u m e n t a i s d o a r q u i v o da
C a t e d r a l . A m a i s a n t i g a c ó p i a d e s s e r e g i s t r o , s o l i c i t a d a e m 1791
p o r J o s é M a u r í c i o para instruir o p r o c e s s o d e sua h a b i l i t a ç ã o a
s a c e r d o t e e n c o n t r a - s e à p á g i n a 3 0 v . d o p r o c e s s o de genere
no
a r q u i v o da Catedral ( A r q u i v o M e t r o p o l i t a n o d o Rio d e Janeiro).8
D o c u m e n t o q u e se t r a n s c r e v e a s e g u i r :
" O P a d r e M a n o e l d o s Santos e Souza Escrivão da Camara
Ecleziastica e Reverendíssimo Senhor D o m J o z é Joaquim
Justiniano Mazcarenhaz Castellobranco por merce d e D e o s
e da Santa Se A p o s t o l i c a B i s p o d o R i o d e J a n e i r o d o
22
José Maurício Nunes Garcia biografia
Conselho de Sua Magestade Fidelíssima etc.etc. Certifico
que revendo o Livro undécimo dos assentos dos baptizados
da Freguezia da Sé nella a folhas cento e dezasseis versa
Seacha o assento da forma seguinte ...Aos vinte diaz d o
mez de Outubro de mil Sette Centos e cessenta e sette annos
nezta Cathedral baptizou epos os Santos Óleos o Reverendo
coadjutor Manoel Fernandes de Castro a Joze filho Legitimo
de Appolinario Nunez baptizado na Ilha d o Governador e
de sua mulher Victoria Maria da Cruz baptizada em Minaz:
neto paterno incognito e Anna Correa d o Desterro baptizada
em Iraja e pela materna de Joanna da Sylva e Pay incognito: f o i Padrinho Manoel Jaques Frixe (?) nasceu acriança
a vinte dous de Setembro proximo... Antonio Joze Malheiro
c o n i g o Cura = E não Se continha mais coiza alguma em
odito assento a que me reporto em f é d o que fis passar
apresente por mim Subzcrita e assinada. Rio de Janeiro aos
vinte e Sinco de Junho de mil Sette Centos e noventa e
hum. Eu o p°. Manoel dos Santos e Souza a subscrevi e
assinei."
Predestinada a grandes feitos era essa criança que vinha
ao mundo modestamente no lar de Apolinário e de Vitória Maria.
N e t o d e duas escravas, o contraste d e luz e s o m b r a vai
acompanhá-lo por toda a vida. Será visível esse conflito entre a
c o n d i ç ã o natural de mestiço, que é a sua, e a força latente e
luminosa que decorre dos múltiplos talentos de que é dotado.
Nascido em ambiente simplório, passará a conviver na corte entre
os p o d e r o s o s da terra, carregando na p e l e a marca d e sua
ancestralidade africana. Sua inteligência apurada e a musicalidade
que o distingue entre os brasileiros farão com que José Maurício
viva oprimido em hostil preconceito diante de sua condição de
brasileiro nato. O f e r o z c o n f r o n t o social ao l o n g o de sua
existência não impediria contudo a essa criança, por força e ironia
dos caminhos da vida, cumprir a missão de enriquecer a cultura
musical de sua gente.
O Rio de Janeiro
no século
dezoito
Vinha à luz José Maurício numa cidade de surpreendente
beleza que desde 1763, ao tornar-se a sede d o vice-reinado da
23
Cleofe Person de Mattos
c o l ó n i a portuguesa, vivia e m p l e n o surto d e d e s e n v o l v i m e n t o e
r e n o v a ç ã o . U m lançar d e o l h o s n o s sucessivos m e l h o r a m e n t o s
da c i d a d e q u e p a s s a v a a ter o p r i v i l é g i o da p r e s e n ç a d e u m v i c e rei p e r m i t e a v a l i a r as c o n d i ç õ e s o f e r e c i d a s p e l o R i o d e J a n e i r o
q u e será a m o l d u r a da i n f â n c i a e d a j u v e n t u d e d e J o s é M a u r í c i o .
D e t o d a a sua v i d a , e n f i m .
O R i o d e J a n e i r o já a l c a n ç a r a a l g u m a s i n o v a ç õ e s , 9 m a s
encontrou n o marquês d o Lavradio, vice-rei, o administrador que,
t r a n s f e r i d o d e g e s t ã o a l t a m e n t e p r o f í c u a e m S a l v a d o r , na B a h i a ,
p r o c u r o u e m b e l e z á - l o : abriu n o v a s ruas, c o n s t r u i u c h a f a r i z e s
n o v o s , e restituiu à c i d a d e l a z e r e s c o n d i z e n t e s c o m a sua p r ó p r i a
p e r s o n a l i d a d e f e s t e i r a . P a s s a n d o a v i v e r e m a m b i e n t e o n d e as
celebrações religiosas eram particularmente importantes no
c o n t e x t o social, não esquecia o marquês das realizações profanas
a q u e se habituara e m Salvador.
N a v e r d a d e , o R i o d e J a n e i r o era u m a c i d a d e v o l t a d a
s o b r e t u d o p a r a as c o m e m o r a ç õ e s d o c a l e n d á r i o h a g i o l ó g i c o e
mantinha uma p e r i o d i c i d a d e bastante estreita, c u j o p a t r o c í n i o
d i v i d i a - s e entr<e a p r ó p r i a c o r o a e o S e n a d o d a C â m a r a .
A c r e s c e n t a v a m - s e às h a b i t u a i s c o m e m o r a ç õ e s o e c o d o s
a c o n t e c i m e n t o s q u e diziam respeito à vida da própria cidade,
c o m o f a t o s o c o r r i d o s na f a m í l i a r e i n a n t e , e m P o r t u g a l , o q u e se
d e v i a c o m u n i c a r à c o l ó n i a , e, mais d o q u e isto, f e s t e j á - l o s
c o n d i g n a m e n t e : casamentos, nascimentos e mortes, assinalados
c o m T e D e u m , missas e outras c e l e b r a ç õ e s religiosas. A l g u m a s
c o m e m o r a ç õ e s mais festivas d e r a m o r i g e m a festas mais
i m p o r t a n t e s e v a r i a d a s , q u e se p r o l o n g a v a m p o r v á r i o s d i a s : as
c h a m a d a s f e s t a s reais. 1 0 Estas r e p r e s e n t a m , h i s t o r i c a m e n t e , a
o p o r t u n i d a d e d e avaliar-se a infra-estrutura musical da c i d a d e ,
suas d i s p o n i b i l i d a d e s artísticas, e as c o n d i ç õ e s d e o f e r e c e r a o
p o v o o e n t r e t e n i m e n t o q u e os fazia participar c o m alegria das
r a z õ e s da festa e n ã o a p e n a s assistir a o s a t o s r e l i g i o s o s . Em outras
p a l a v r a s , as f e s t a s r e a i s d a v a m a m e d i d a d o d e s e n v o l v i m e n t o
musical d e q u e se dispunha para abrilhantá-las. Várias dessas
f e s t a s r e a i s m a r c a r a m a história d o R i o d e J a n e i r o a o t e m p o d o s
vice-reis, e m e s m o antes.
A o chegar o marquês d o Lavradio, entre os mais
s i g n i f i c a t i v o s e m p r e e n d i m e n t o s d e sua g e s t ã o v a l e citar a c r i a ç ã o
da n o v a sala d e e s p e t á c u l o , a t o a g u a r d a d o c o m a n s i e d a d e p e l o
público d o Rio d e Janeiro desde que desaparecera num incêndio
o antigo Teatro d o Padre Ventura." A o contrário deste, q u e se
instalara a l é m da rua d a V a l a , n o l i m i t e e x t r e m o d a c i d a d e , o
n o v o teatro — l o g o c h a m a d o N o v a Ópera — plantou-se e m p o n t o
n o b r e , j u n t o a o p a l á c i o d o v i c e - r e i , i n e q u í v o c o sinal da d e s t a c a d a
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José Maurício Nunes Garcia biografia
p o s i ç ã o q u e l h e c a b e r i a n o m a i s a p u r a d o a m b i e n t e d e l a z e r da
c i d a d e . 1 2 E n r i q u e c i a - s e a v i d a m u s i c a l d o R i o d e J a n e i r o c o m as
perspectivas d e n o v o s e v e n t o s q u e v i n h a m satisfazer o g o s t o de
u m p ú b l i c o c e r t o e a garantia d e t r a b a l h o d o s n u m e r o s o s a t o r e s ,
m ú s i c o s e d a n ç a r i n o s q u e a c o r r i a m d e v á r i o s p o n t o s d o p a í s para
participar d e p e ç a s dramáticas, das zarzuelas ou das c h a m a d a s
"óperas".
A o i n s t a l a r - s e n o R i o d e J a n e i r o e m 1763 o m a r q u ê s d o
Lavradio, a c o m p a n h a v a - o a curiosa figura d e um e x - s o l d a d o
português, a um t e m p o músico, fagotista, bailarino, c a b e l e i r e i r o
e e m p r e s á r i o : M a n u e l Luís F e r r e i r a , q u e já s e r v i a a o v i c e - r e i na
Bahia. O m a r q u ê s c o n f i r m o u sua p r o t e ç ã o a M a n u e l Luís, f a z e n d o o diretor d o n o v o teatro a o m e s m o t e m p o que lhe c o n c e d i a
f a c i l i d a d e s necessárias para a r e a l i z a ç ã o d e f u n ç õ e s recreativas
na c i d a d e . T a m b é m n i s t o M a n u e l Luís m o s t r a v a - s e e f i c i e n t e :
f a v o r e c i a o c o n v í v i o social, o q u e resultava e m m a i o r p a r t i c i p a ç ã o
das p e s s o a s n o s salões da aristocracia local, e s t i m u l a n d o assim
a p r e s e n ç a das senhoras n o s teatros e m c o m p a n h i a d o s m a r i d o s
— e s p é c i e d e tabu v e n c i d o — e t a m b é m n o s saraus n o p r ó p r i o
palácio do governador.
M a n u e l L u í s F e r r e i r a n ã o se l i m i t o u a c u i d a r d o p r ó p r i o
t e a t r o . Seu a g u ç a d o e s p í r i t o c o m e r c i a l f a z i a - o a l u g a r o e s p a ç o
para diversas f i n a l i d a d e s , inclusive p o s s e d e v i c e - r e i s . N e s s e
m o m e n t o v a m o s encontrar o n o m e d e José Maurício vinculado a
s o l e n i d a d e d e p o s s e d o s d o i s ú l t i m o s v i c e - r e i s , e m 1801 e 1806.
A s s u m i a t a m b é m M a n u e l Luís o s p r e p a r a t i v o s d a s " ó p e r a s
f r a n c a s " , o u seja, a b e r t a s a o p ú b l i c o , e a i n d a e n c a r r e g a v a - s e d o s
e s p e t á c u l o s q u e se r e a l i z a v a m na p r a ç a " d o
Curro",
p o s t e r i o r m e n t e C a m p o da A c l a m a ç ã o , C a m p o d e S a n f A n a , h o j e
praça da R e p ú b l i c a . Eram e s p e t á c u l o s
cuidadosamente
preparados, anunciados em "bandos" de publicação que
percorriam a cidade a cavalo, soltando foguetes, c o m roupas
v i s t o s a s p a r a m ú s i c o s e m á s c a r a s q u e a n u n c i a v a m o s m o t i v o s da
a p r e s e n t a ç ã o . Ficava e m festa toda a c i d a d e para apreciar o s
"toiros" tanto q u a n t o o desfile d e carros a l e g ó r i c o s transportando
g r u p o s c a n t a n t e s e d a n ç a n t e s d e m ú s i c o s p r o f i s s i o n a i s , q u e se
a p e a v a m a o c h e g a r à f r e n t e das a u t o r i d a d e s para e x e c u t a r as
e v o l u ç õ e s c a b í v e i s aos r e s p e c t i v o s o f í c i o s : ourives, alfaiates etc.
A t u a v a m n o T e a t r o d e M a n u e l Luís artistas b r a s i l e i r o s e
p o r t u g u e s e s , e n t r e e l e s a l g u n s n o m e s c o n h e c i d o s nas r o d a s d e
t e a t r o — L o b a t o , M a n u e l R o d r i g u e s , J o s é I n á c i o da C o s t a , M a r i a
Jacinta, a Marucas o u a Rosinha, e x í m i a n o s o r o n g o — m a s
t a m b é m n o m e s q u e a p a r e c e r ã o mais tarde militando junto d e
J o s é M a u r í c i o , i n t é r p r e t e s o u a l u n o s d o c u r s o d e m ú s i c a d a rua
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Cleofe Person de Mattos
das Marrecas: Luís Inácio, Geraldo Inácio, e não será com pouca
surpresa que se vai encontrar o nome de Joaquina Maria da
Conceição, a Lapinha, brilhando no palco d o Teatro de Manuel
Luís n o século dezoito, antes de a cantora viajar para Portugal e
encantar as platéias portuguesas no Porto e em Lisboa, no Teatro
São Carlos, com sua v o z magnífica, da qual "fazia o que queria",
nos anos de 1794 e 1795.13
Antes de retornar a Portugal, Lavradio terá tido tempo para
dar estímulo à área cultural incentivando os estudos de história
natural, filosofia e agricultura na Academia Científica d o Rio de
Janeiro (1777-1779). Segundo Hipólito da Costa, u o poeta Silva
Alvarenga esteve ligado a esta Academia, c o m o o será mais tarde,
e c o m maior impulso, à Sociedade Literária, já no fim d o século
dezoito.
Informações mais detalhadas em torno da vida d o Teatro
de Manuel Luís serão abordadas na nota 12, onde será melhor
avaliada a contribuição d o atilado empresário empenhado em
alegrar a vida da cidade, aliando-se ao esforço e à inteligência
de artistas voltados para a música e para a arte dramática no Rio
d e Janeiro no fim d o setecentos e início d o século d e z e n o v e .
Manuel Luís Ferreira, a q u e m p o s t e r i o r m e n t e f o r a m
atribuídos títulos militares de coronel e brigadeiro, bem c o m o
de comendador e " m o ç o da Câmara", permaneceu no Rio de
Janeiro ao retornar para Portugal o seu protetor. Continuou à
frente d o seu teatro, que será frequentado a partir d e 1808 —
após a chegada d e D. João ao Brasil — pela corte portuguesa,
ministros e c o r p o diplomático. Iniciava o Rio de Janeiro sua
v o c a ç ã o de cidade cosmopolita, que a presença da cúpula
administrativa da coroa portuguesa l o g o principiou a atrair.
Sempre à frente d o Teatro que se chamara N o v a Ópera e
tivera o seu nome, obrigou-se Manuel Luís a torná-lo digno d o
n o v o público. O edifício, reformado, passou a ter duas ordens
de camarotes, bela iluminação e, por fim, seu nome é substituído
p e l o de Teatro Régio.
Assistido pela corte, o Teatro de Manuel Luís alcançou, sem
d ú v i d a , um m o m e n t o d e a p o g e u . Mas em razão das suas
condições — o teatro já carregava três décadas de atividades —
houve o inevitável confronto com os teatros europeus, o de
Lisboa, s o b r e t u d o : d i f i c i l m e n t e conseguiria adaptar-se aos
ambiciosos projetos de seus frequentadores. Situação que forçou
a alta administração da coroa e encarar a necessidade da
construção de um teatro de ópera para substituí-lo. Era o princípio
d o fim d o v e l h o teatro setecentista que fora o de Manuel Luís.
Cumprira a sua missão.
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José Maurício Nunes Garcia biografia
U m r e c u o a o fim d o século anterior não deixará e s q u e c i d o
u m p e q u e n o t e a t r o d e " a m a d o r e s " q u e f u n c i o n o u p o r essa é p o c a
e m f r e n t e à rua d o P a s s e i o . A n t ô n i o N a s c e n t e s P i n t o , a f i g u r a
p r i n c i p a l d o m e s m o teatro, 1 5 era f i l h o d o c o r o n e l d e m i l í c i a s d e
n o m e i d ê n t i c o , p r o p r i e t á r i o d e u m t e r r e n o v i z i n h o d a c a s a na
rua d a s M a r r e c a s , o n d e f u n c i o n o u o c u r s o d e m ú s i c a d o p a d r e
José Maurício.
Entre o s artistas e m ú s i c o s atuantes n o t e a t r o d e " a m a d o r e s " ,
mais uma v e z serão encontrados os a m i g o s de José Maurício,
a l g u n s d o s q u a i s já f o r a m v i s t o s a t u a n d o n o T e a t r o d e M a n u e l
Luís: Luís I n á c i o P e r e i r a , G e r a l d o I n á c i o P e r e i r a , a L a p i n h a , e a
v o z e x c e p c i o n a l d e J o ã o d o s Reis P e r e i r a , s o b r e o q u a l t e r e m o s
ainda d e falar.
Coincidências iniludíveis, reforçadas pela participação de
Silva A l v a r e n g a — q u e e n s a i a v a , n e s t e t e a t r o , p e ç a s " t r á g i c a s e
c ó m i c a s " d e a m i g o s seus — f a z e m acreditar n o e n v o l v i m e n t o d o
j o v e m músico, então e m torno dos vinte anos de idade, c o m o
i n s t r u m e n t i s t a o u c a n t o r d e v o z adulta, n o f u n c i o n a m e n t o d o
p e q u e n o teatro o n d e se ouvia Cimarosa, Paesiello e outros
c o m p o s i t o r e s q u e N a s c e n t e s P i n t o t i v e r a o c a s i ã o d e o u v i r na
Itália.
N ã o terá s i d o e m v ã o o e n v o l v i m e n t o d e J o s é M a u r í c i o c o m
a m ú s i c a l i g e i r a q u e se o u v i a n o t e a t r i n h o da rua d o P a s s e i o . 1 6 O
r e p e r t ó r i o , s u b s t a n c i a l m e n t e c o n s t i t u í d o d e p e ç a s e m v o g a na
Itália, é p o n t o q u e interessa abordar. A l é m d e Cimarosa ( 1 7 4 9 1 8 0 1 ) , d e : 1'Italiana
inLondra,
II matrimonio
segreto,
ouviam-se
o u t r o s c o m p o s i t o r e s i t a l i a n o s : M i l l i c o ( 1 7 3 9 - 1802), J o m m e l l i
( 1 7 1 4 - 1774). N ã o será i m a g i n o s o centrar n e s s e r e p e r t ó r i o , o n d e
c o n v i v i a m e l e m e n t o s da e s c o l a n a p o l i t a n a , a c e n t o s i t a l i a n i z a n t e s
na m ú s i c a d e J o s é M a u r í c i o a n t e s d e 1808, q u a n d o c h e g o u a o
Brasil D . J o ã o e s e u s c a n t o r e s i t a l i a n o s .
N ã o foi m e n o s significativa, nos primeiros anos d e vicer e i n a d o , a t r a n s f o r m a ç ã o q u e se v i n h a o p e r a n d o n o s i s t e m a
e d u c a c i o n a l . A t i n g i d a q u e f o r a e m 1759, p e l a e x p u l s ã o d a o r d e m
j e s u í t i c a ( C o m p a n h i a d e Jesus), 1 7 a c o r o a p o r t u g u e s a instituíra
na c i d a d e , e m s u b s t i t u i ç ã o a o e n s i n o p r a t i c a d o n o s c o l é g i o s " d a
C o m p a n h i a " , o sistema d e aulas régias à f r e n t e das quais
t r a b a l h a v a m p r o f e s s o r e s c r e d e n c i a d o s e i n o v a d o r e s na e d u c a ç ã o
da j u v e n t u d e . O a p o i o e c o n ó m i c o p a r a e n f r e n t a r o s g a s t o s c o m
e s s e e n s i n o , q u e era l e i g o e gratuito, o r i g i n a v a - s e d e u m i m p o s t o
— o s u b s í d i o l i t e r á r i o — q u e já c i r c u l a v a e m 1772. A s c r i a n ç a s e
o s j o v e n s f o r a m b a f e j a d o s p o r essa d e c i s ã o da c o r o a , q u e l h e s
o f e r e c i a a u l a s r é g i a s — i n c l u s i v e d e p r i m e i r a s letras — o q u e
significava ensino não limitado a preparar "padres e
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Cleofe Person de Mattos
jurisconsultos", c o m o e n t ã o se criticava. P r o f e s s o r e s c r e d e n c i a d o s
p a r a a u l a s r é g i a s h a v i a n o R i o d e J a n e i r o , e n t r e e l e s latinistas e
t e ó l o g o s que viviam e m conventos o n d e eram mantidos cursos
d e a l t o n í v e l . A estes j u n t a v a m - s e b r a s i l e i r o s ilustres, a l g u n s c o m
c u r s o s f e i t o s na E u r o p a — e m C o i m b r a o u e m M o n t p e l l i e r —
c a b e ç a s b e m f o r m a d a s c o m o o m a r q u ê s d e Maricá ( M a r i a n o J o s é
P e r e i r a d a F o n s e c a — R i o d e J a n e i r o , 18.5.1773 - 16.9 1 8 4 8 ) ,
f i g u r a n o t á v e l d e f i l ó s o f o e c i e n t i s t a , autor d e c é l e b r e s
Máximas
epensamentos,
e M a n u e l I n á c i o da Silva A l v a r e n g a , p o e t a , m ú s i c o
e f i l h o d e músico, professor de retórica, a m b o s ligados a José
M a u r í c i o , c o m o se v e r á a d i a n t e . N a r e a l i d a d e , d e s e n v o l v e r a - s e
n o R i o d e J a n e i r o u m a s o c i e d a d e e m q u e a m i n o r i a culta p a i r a v a
m u i t o a c i m a d a p o p u l a ç ã o q u e m a l c o m e ç a v a a ter a c e s s o r e g u lar a o s p r i m e i r o s d e g r a u s da a p r e n d i z a g e m l i t e r á r i a .
O s professores portugueses c o m o s quais procurava-se
a f a s t a r a m e m ó r i a e o s m é t o d o s d e e n s i n o j e s u í t i c o n o Brasil
a m p l i a r a m n o R i o d e J a n e i r o , n ã o s ó o e n s i n o das p r i m e i r a s letras
para a p o p u l a ç ã o , mas t a m b é m classes d e gramática latina,
r e t ó r i c a , g r e g o . A m e d i d a a l c a n ç a r á J o s é M a u r í c i o na
a d o l e s c ê n c i a , d a n d o - l h e o p o r t u n i d a d e d e d e s e n v o l v e r a alta
c a p a c i d a d e intelectual q u e o distinguia d e s d e criança, e a
f o r m a ç ã o c o n d i g n a q u e seus c o n t e m p o r â n e o s lhe r e c o n h e c i a m .
O e n s i n o m u s i c a l r e p o u s a v a na iniciativa d o p r o f e s s o r p a r ticular; é o c a s o d e J o s é M a u r í c i o , e n c a m i n h a d o p a r a a c l a s s e d e
Salvador José, " o p a r d o " . Valiam-se esses mestres, entre outros
processos, d e "artinhas" manuscritas q u e eram passadas d e um a
o u t r o a l u n o . Em c a s o s m a i s raros, as c ó p i a s t i n h a m o r i g e m e m
volumes impressos e m Portugal. Num caso e noutro, eram
t r a b a l h o s q u e r e u n i a m , e m p o u c a s p á g i n a s , as n o ç õ e s
i n d i s p e n s á v e i s para ler e e s c r e v e r m ú s i c a . S e r v e d e e x e m p l o para
a v a l i a ç ã o d o n í v e l dessas artinhas u m v o l u m e p r o v e n i e n t e de
Mariana, ora n o A r q u i v o P ú b l i c o Mineiro. N o c a p í t u l o N o ç õ e s d e
Contraponto, abre-se o c a m i n h o à participação d o estudante d e
música, o r i e n t a n d o - o n o servir-se d e instrumento a o seu alcance,
o u u t i l i z a n d o a p r ó p r i a v o z . D e s s e m o d o estaria f a z e n d o a
imediata aplicação d o s ensinamentos teóricos e m p r e g a d o s c o m o
técnica para o s futuros c o m p o s i t o r e s . O talento multiplicava os
resultados.
A c i d a d e c r e s c e r a a o t r a n s f o r m a r - s e na c a p i t a l da c o l ó n i a ,
atraindo músicos oriundos d e outras províncias. Importante,
s o b r e t u d o , a c o n t r i b u i ç ã o d e Minas G e r a i s ; o d e c l í n i o da
p r o d u t i v i d a d e na m i n e r a ç ã o p r o v o c o u o d e s l o c a m e n t o d e m u i t o s
m ú s i c o s p a r a o R i o d e J a n e i r o . C l a s s e ativa — i n s t r u m e n t i s t a s ,
c a n t o r e s , p r o f e s s o r e s , c o p i s t a s — , i n t e g r o u - s e na s o c i e d a d e c a -
28
José Maurício Nunes Garcia biografia
r i o c a r e f o r ç a n d o a infra-estrutura e s p e c i a l i z a d a , a b s o r v i d a q u e
f o i p e l o s teatros e pelas numerosas irmandades. Músicos mineiros
a t u a v a m n o T e a t r o d e M a n u e l Luís, mas era nas i r m a n d a d e s — a
m a i s n u m e r o s a c a t e g o r i a m u s i c a l na c i d a d e d o R i o d e J a n e i r o —
q u e e l e s se c o n c e n t r a v a m . 1 8
Confrarias o u associações d e leigos c o m objetivos religiosos,
as i r m a n d a d e s p r o m o v i a m c e r i m ó n i a s c o m a p a r t i c i p a ç ã o d e
irmãos para o r a ç õ e s , ladainhas e n o v e n a s , ou procissões.
C o m p r o m i s s a d a s c o m d e v o ç õ e s particulares — São P e d r o d o s
Clérigos, Nossa Senhora d o Rosário e São B e n e d i t o d o s H o m e n s
P r e t o s , o u " d a M i s e r i c ó r d i a " — n ã o d e i x a v a m d e r e f o r ç c a r as
g r a n d e s f e s t i v i d a d e s d o c a l e n d á r i o da I g r e j a .
O s m ú s i c o s f o r m a v a m uma categoria p r o f i s s i o n a l bastante
f o r t e , e m p e n h a d a n u m a r o t i n a d e t r a b a l h o q u e r e s u l t a r á , na
d é c a d a d e 1780, na c r i a ç ã o da I r m a n d a d e d e Santa Cecília, v o l t a d a
p a r a o s p r o f e s s o r e s d e m ú s i c a . Seu o b j e t i v o era o r d e n a r a v i d a
d o s i r m ã o s e zelar p e l a sua v i d a p r o f i s s i o n a l ; dela n o s o c u p a r e m o s
oportunamente.
As confrarias d e Nossa Senhora d o Rosário e a d e São
B e n e d i t o dos H o m e n s Pretos, duas irmandades erectas
separadamente no século dezessete, juntaram-se numa só
e n t i d a d e , r e u n i n d o o n o m e d o s d o i s o r a g o s , a i n d a na v e l h a Sé
d e S ã o S e b a s t i ã o , para f o r t a l e c e r - s e d i a n t e d o s d e s e n t e n d i m e n t o s
c o m o c a b i d o . N o s é c u l o s e g u i n t e , e m t e r r e n o d o a d o , na rua da
V a l a , a I r m a n d a d e l e v a n t o u u m a c a p e l i n h a o n d e , e m 1739, v e m
a b r i g a r - s e a C a t e d r a l q u e t ã o m a l a a c o l h e r a q u a n d o na S ã o
Sebastião.
N u n c a h o u v e b o m e n t e n d i m e n t o e n t r e as duas partes, apesar
d e o c a b i d o p e r m a n e c e r s e t e n t a a n o s na i g r e j a d o s I r m ã o s " d o
R o s á r i o " q u e e l e s d e i x a r a m e m 1808. D e s t a c a - s e esta i r m a n d a d e
p e l a p o s i ç ã o a l t a n e i r a q u e t o m o u , e m 1746, d e f e n d e n d o p a r a o s
s e u s m ú s i c o s o d i r e i t o d e c a n t a r na i g r e j a — q u e era d e l e s — as
músicas p o r e l e s e s c o l h i d a s , contra a v o n t a d e d o m e s t r e - d e - c a p e l a
da Sé.
O a m b i e n t e musical d o Rio d e Janeiro, a o findar o s é c u l o
d e z o i t o , n ã o e r a p r o p r i a m e n t e i n e x p r e s s i v o , na m e d i d a c a b í v e l
a uma c i d a d e c o l o n i a l distante centenas d e q u i l ó m e t r o s d o s
g r a n d e s c e n t r o s d e cultura d a E u r o p a , e a i n d a s e p a r a d o s p o r u m
o c e a n o . O r q u e s t r a s f u n c i o n a v a m — a da C a t e d r a l e Sé — e o
i n c o n t á v e l n ú m e r o d e p e s s o a s f i l i a d a s às i r m a n d a d e s a s s u m i a m
c o m o r g u l h o e d i g n i d a d e a r e a l i z a ç ã o m u s i c a l , r e l e v a n t e na v i d a
dessas confrarias.
S u r p r e e n d e , p o r isso, a c o n s t a t a ç ã o d e n ã o ter s o b r e v i v i d o
q u a l q u e r v e s t í g i o d o q u e f o i p r o d u z i d o p e l o s p a r t i c i p a n t e s dessa
29
Cleofe Person de Mattos
r e a l i d a d e . ' 9 O e x t r a v i o da d o c u m e n t a ç ã o p e r t i n e n t e n ã o p e r m i t e
a v a l i a r o n í v e l d a m ú s i c a q u e se f a z i a na C a t e d r a l , n e m sua
c a t e g o r i a , n e m o s m e i o s s o n o r o s utilizados. Sabe-se, p o r e x e m p l o ,
q u e a " m u z i c a " f a z i a - s e e n t ã o c o m q u a t r o m e n i n o s e u m organista.
A p a r t i c i p a ç ã o d e t e n o r e s e b a i x o s seria e x c e p c i o n a l , e m o c a s i õ e s
s o l e n e s . D e s a c o m p a n h a d a s da d o c u m e n t a ç ã o musical teria f i c a d o
p e r d i d a a o p o r t u n i d a d e d e traçar u m a l i n h a d e c o n t i n u i d a d e na
p r o d u ç ã o — n ã o se ousa dizer l i n g u a g e m — d o s c o m p o s i t o r e s
q u e atuaram n o p e r í o d o , b e m c o m o n o r e p e r t ó r i o u t i l i z a d o p e l o s
m e s t r e s - d e - c a p e l a , as r a í z e s m u s i c a i s d o q u e r e p r e s e n t a r i a m o s
e l e m e n t o s tradicionais d e nossa música religiosa. José M a u r í c i o
t e r i a e n c o n t r a d o n o a r q u i v o da C a t e d r a l essas r a í z e s e e s s a s
t r a d i ç õ e s musicais, para c o n h e c ê - l a s e d e s e n v o l v ê - l a s . E n ã o u m a
página e m branco.
A criança
e o
jovem
P o u c o se s a b e a r e s p e i t o d o s p r i m e i r o s a n o s d e v i d a d e
J o s é M a u r í c i o . A rua da Vala, o n d e nasceu, situava-se " n o s c o n f i n s
da c i d a d e " n o c a m i n h o para o V a l o n g o , o tristemente c é l e b r e
m e r c a d o d e escravos. O canto d o s escravos o u v i d o p o r José
M a u r í c i o na i n f â n c i a n ã o m a r c o u sua m ú s i c a , p r o c e d i m e n t o
i n c o n c e b í v e l n o s p a d r õ e s s o c i a i s d a é p o c a . V i v e u até 1791 na
f r e g u e s i a da Sé.
U m a irmã d e Vitória Maria — d e n o m e i g n o r a d o —
c o m p l e t a v a o q u a d r o f a m i l i a r na m o d e s t a casa d e A p o l i n á r i o . A
partir d e 1773, q u a n d o d e s a p a r e c e u o c h e f e da f a m í l i a , a c r i a n ç a
f i c o u e n t r e g u e a o s c u i d a d o s d a s d u a s f i l h a s da e s c r a v a J o a n a
Gonçalves, que demonstram suficiente intuição ao encaminhál o na d i r e ç ã o certa: p r o p o r c i o n a r - l h e aulas d e música e f a v o r e c e r l h e o d e s e n v o l v i m e n t o i n t e l e c t u a l . A tia d e s a p a r e c e u e m 1790. 20
A m ã e a c o m p a n h o u - o e c o m e l e m o r o u a t é m o r r e r , e m 1816.
Se f a l t a m d a d o s e s s e n c i a i s a c e r c a d o p r i m e i r o p e r í o d o d e
sua v i d a , o s c o n t e m p o r â n e o s d e J o s é M a u r í c i o q u e e s c r e v e r a m a
sua b i o g r a f i a — J a n u á r i o da C u n h a B a r b o s a e M a n u e l d e A r a ú j o
P o r t o - A l e g r e — d ã o a c o n h e c e r traços q u e lhe são peculiares.
P o r t o - A l e g r e , q u e d e f i n e as q u a l i d a d e s musicais c o m o u m a " f o r ç a
da n a t u r e z a " , e s c l a r e c e : " t i n h a b e l í s s i m a v o z e p r o d i g i o s a
memória musical"; "reproduzia tudo o que ouvia"; "improvisava
m e l o d i a s e t o c a v a c r a v o e v i o l a s e m n u n c a ter a p r e n d i d o " . 2 1
30
José Maurício Nunes Garcia biografia
" M e n i n o f r a n z i n o " , e s c r e v e J a n u á r i o da C u n h a B a r b o s a , 2 2 q u e
c o n f i r m a a p r e c o c i d a d e n a s d e m o n s t r a ç õ e s da e x c e p c i o n a l
m u s i c a l i d a d e d e José Maurício, e n ã o e s c o n d e o seu entusiasmo
p e l o s "múltiplos talentos" d o futuro compositor, q u e avultam
" m u i t o mais p o r o u t r o s m e r e c i m e n t o s q u e e l e s o u b e r a a d q u i r i r " .
Seria b e m criança q u a n d o c o m e ç o u a estudar música,
" o u v i n d o l i ç õ e s " d e Salvador José, " o p a r d o " . O n o m e d o profess o r é o d o m ú s i c o m i n e i r o S a l v a d o r J o s é d e A l m e i d a e Faria, 2 3
c o n t e r r â n e o d e V i t ó r i a M a r i a e v e l h o a m i g o da f a m í l i a .
D e s c o n h e c i d a e m b o r a a sua f o r m a ç ã o m u s i c a l e n ã o c o n f i r m a d o
fosse compositor ele próprio, não se p o d e deixar de levar e m
c o n t a o ser natural d e c i d a d e v i z i n h a d e V i l a Rica, a v e l h a c a p i tal da p r o v í n c i a o n d e a c r i a ç ã o m u s i c a l a l c a n ç a r a n í v e l b a s t a n t e
alto. C a m i n h a m juntos na v i d a musical d o R i o d e J a n e i r o o m e s t r e
e o a l u n o : e m 1784 e s t ã o r e u n i d o s na f u n d a ç ã o da I r m a n d a d e d e
Santa C e c í l i a . Em 1791 S a l v a d o r J o s é é t e s t e m u n h a — e o f a z
c o m indiscutível c o n s i d e r a ç ã o — a r e s p e i t o das q u a l i d a d e s
m o r a i s , intelectuais e a c o n d i ç ã o familiar d o a n t i g o a l u n o , q u a n d o
e s t e d e c i d e entrar " e m o r d e n s " . S e m m e n o s p r e z a r a r e s e r v a d e
c o n h e c i m e n t o s d o prestigiado p r o f e s s o r q u e Januário da Cunha
B a r b o s a r e c o n h e c e e m 1830 p e s s o a " d e q u e m a i n d a h o j e t a n t o s
d i s c í p u l o s b e m a p r o v e i t a d o s se c o n t a m e n t r e o s n o s s o s m e l h o r e s
m ú s i c o s " , p o d e - s e a v a l i a r q u e as d i s p o s i ç õ e s m u s i c a i s d o a l u n o
n ã o t e r i a m t a r d a d o a e s g o t a r a c a p a c i d a d e d e ter a l g o d e n o v o
para ensinar-lhe. P o r t o - A l e g r e a isso faz r e f e r ê n c i a , a o e s c r e v e r
q u e e m b r e v e o p r o f e s s o r a c h o u - o e m c o n d i ç õ e s d e " p o r si s ó
p o d e r c o n t i n u a r o s e s t u d o s d e u m a arte q u e r e q u e r , a l é m d o s
d o n s naturais, u m a p r á t i c a n ã o i n t e r r o m p i d a " . 2 4
S a l v a d o r J o s é n ã o terá r e p r e s e n t a d o , p a r a J o s é M a u r í c i o ,
a p e n a s o p r o f e s s o r de "primeiras notas". Foi o m ú s i c o
f a m i l i a r i z a d o c o m as t r a d i ç õ e s m u s i c a i s n o p e r í o d o á u r e o d a
criação setecentista e m Minas Gerais, cujas bases teóricas e
práticas transferiu a o aluno b e m d o t a d o . A resposta a o s seus
e n s i n a m e n t o s e a e x p e r i ê n c i a d o dia-a-dia d e sua v i d a p r o f i s s i o n a l
t r a n s p a r e c e m c o m o o r i g e m da m i n e i r i d a d e — n o f u n d o , na f o r m a ,
n o c o n t e x t o — p r o j e t a d a nas m a i s antigas o b r a s d o j o v e m m ú s i c o .
Este n ã o tardará a e x t r a p o l a r o s e n s i n a m e n t o s r e c e b i d o s e m
termos de estrutura, de harmonias, instrumentação no
delineamento vocal tanto quanto nos elementos técnicos
p r e s e n t e s e m o b r a s da d é c a d a d e 1790: Sinfonia fúnebre
(1790),
o u n a s Matinas
do Natal ( 1 7 9 9 ) , q u e r e v e l a m a s p e c t o s n o v o s , e
a i m a g e m d e outra p e r s o n a l i d a d e artística.
I n d e p e n d e n t e das aulas d e S a l v a d o r José, e e v e n t u a i s
mentores, José Maurício não abdicaria de outros m e i o s de
31
Cleofe Person de Mattos
d e s e n v o l v e r suas q u a l i d a d e s m u s i c a i s na p a r t i c i p a ç ã o — q u e se
p o d e julgar óbvia — e m um conjunto coral, e m b o r a n ã o f i q u e
c l a r o f o s s e e s s e c o r o o da Catedral e Sé o n d e c a n t a v a m o s a l u n o s
d o S e m i n á r i o S ã o J o a q u i m . 2 5 F u n c i o n a n d o nas v i z i n h a n ç a s d e
sua c a s a , e f o r m a d o p o r v o z e s i n f a n t i s — m e n i n o s c a n t o r e s —
para s o p r a n o s e contraltos, c o m p l e m e n t a d a s p o r v o z e s adultas
d e t e n o r e s e b a i x o s , o c o r o da Sé n ã o d e i x a r i a d e e s t i m u l a r n o
m e n i n o p o b r e q u e nascera músico o d e s e j o d e participar desse
m u n d o encantado.
O s alunos d o seminário aprendiam "solfa", canto gregoriano
e l a t i m , d o n d e se v ê q u e n ã o s o m e n t e as q u a l i d a d e s m u s i c a i s
eram beneficiadas nesses estudos. A f o r m a ç ã o intelectual
d e s e n v o l v i a - s e c o m os estudos que o futuro mostrará
c o m p e n s a d o r e s p a r a sua v i d a , e s t i m u l a n d o n o i n t e l e c t u a l q u e
era p o r í n d o l e o j o v e m m ú s i c o , a c a p a c i t a ç ã o m a i o r p a r a s e n t i r e
c o m p r e e n d e r a beleza d o canto litúrgico e o sentido p r o f u n d o
d o texto, d e s e n v o l v e n d o n o futuro mestre-de-capela o interesse
p e l a m ú s i c a r e l i g i o s a a partir da f a m i l i a r i d a d e c o m o
c o n h e c i m e n t o d o latim.
A p a r t i c i p a ç ã o d e J o s é M a u r í c i o na estrutura d a C a t e d r a l e
Sé d o R i o d e J a n e i r o , n ã o c o m p r o v a d a até e n t ã o , n ã o tardará a
confirmar-se.
É f o r ç o s o r e c o n h e c e r , p o r é m , q u e se a l i n g u a g e m d o a l u n o
de Salvador José p ô d e expressar-se além d o que caracterizava a
m ú s i c a d o s m i n e i r o s , e s s e r e s u l t a d o n ã o teria s i d o a l c a n ç a d o
a p e n a s c o m o passar d o t e m p o , n e m d o e s p o n t â n e o d e s a b r o c h a r
d e sua s u p e r i o r p e r s o n a l i d a d e m u s i c a l . N o v a s c o n d i ç õ e s d e
t r a b a l h o p r o p i c i a n d o v i v ê n c i a c o m literatura musical mais
atualizada, mas s o b r e t u d o a transformação d o m e i o musical a p ó s
a chegada d o príncipe regente de Portugal a o Rio d e Janeiro, e m
1808, c o n t r i b u í r a m p a r a i s s o . S e m d e i x a r d e l e v a r e m c o n t a , e m
p r i m e i r o lugar, o s e u t a l e n t o m u s i c a l .
Chegou José Maurício à juventude c o m novas aptidões
d e s e n v o l v i d a s na p r á t i c a m u s i c a l , q u e l h e s e r v i r a m d e
p e r s p e c t i v a s para o futuro. I n f o r m a m os c o n t e m p o r â n e o s q u e
e l e jamais possuiu p i a n o o u c r a v o ; seu a d e s t r a m e n t o nesses
i n s t r u m e n t o s teria s i d o a l c a n ç a d o n o d i a - a - d i a d e p r o f e s s o r .
E n s i n a n d o m ú s i c a e c r a v o a s e n h o r a s d a s o c i e d a d e , e m suas
residências, José Maurício encontraria o p o r t u n i d a d e d e exercitarse n e s s e s i n s t r u m e n t o s , a o e s t u d a r " c o m a f i n c o ó r g ã o , c r a v o e
v i o l a " , i n s t r u m e n t o s q u e l h e s e r i a m ú t e i s na p a r t i c i p a ç ã o e m
grupos d e igreja, e, q u e m sabe, t a m b é m e m teatros da c i d a d e . O
p o n t o d e p a r t i d a seria s e m p r e a sua e x t r a o r d i n á r i a i n t u i ç ã o m u -
32
José Maurício Nunes Garcia biografia
sical, p o r q u a n t o e l e s f o r a m d o m i n a d o s s e m o a u x í l i o d e q u a l q u e r
professor.
N o a p r e n d i z a d o d o ó r g ã o , instrumento d e e x e c u ç ã o mais
c o m p l e x a e i n i c i a ç ã o m a i s tardia, n ã o teria e n c o n t r a d o J o s é
M a u r í c i o d i f i c u l d a d e s para v a l e r - s e d o e x e m p l o — t a l v e z ainda
m a i s : a s s i s t ê n c i a — d o s b o n s i n s t r u m e n t i s t a s da c i d a d e . 2 6 Estes
e r a m n u m e r o s o s e a t u a v a m n ã o s ó nas i r m a n d a d e s e o r d e n s
terceiras; havia n o s c o n v e n t o s m ú s i c o s g a b a r i t a d o s q u e p o d e r i a m
assistir a o j o v e m m ú s i c o na i n i c i a ç ã o a o i n s t r u m e n t o para o q u a l
J o s é M a u r í c i o era i m p e l i d o p o r u m a a t r a ç ã o c o m p r e e n s í v e l e
e s s e n c i a l à p r á t i c a da m ú s i c a r e l i g i o s a . N a v e r d a d e , n ã o l h e
faltaria c o n d i c i o n a m e n t o q u e s ó p o d e r i a f a v o r e c e r , e m a ç ã o
r e c í p r o c a , o d e s e n v o l v i m e n t o d e sua p e r s o n a l i d a d e d e c o m p o s i tor.
Se J o s é M a u r í c i o t o r n o u - s e o r g a n i s t a r e s p e i t a d o , v a l e m o s
l o u v o r e s a o s s e u s d o n s d e i m p r o v i s a d o r — r e f l e x o d e sua
imaginação criadora — que muito impressionaram
os
c o n t e m p o r â n e o s nos m o m e n t o s , q u e n ã o seriam raros, de
e x p a n d i - l a . N e n h u m a o b r a escrita p a r a ó r g ã o f o i c o n s e r v a d a . O s
t r e c h o s q u e s o b r e v i v e r a m l i m i t a m - s e às p a r t e s e m b a i x o c i f r a d o ,
p a r c i a l m e n t e r e a l i z a d a s nas c o m p o s i ç õ e s e m q u e era i n s t r u m e n t o
obbligato.
A f o r m a ç ã o intelectual de José Maurício a c o m p a n h o u ,
p a r a l e l a m e n t e , sua f o r m a ç ã o m u s i c a l , c o m p r o f e s s o r e s q u e
m a n t i n h a m i n c l u s i v e aulas r é g i a s d e história e g e o g r a f i a . M a i s
para o f i m d o século, a entrada e m cena d e d o i s p r o f e s s o r e s —
A g o s t i n h o C o r r ê a da Silva G o u l ã o , 2 7 p r o f e s s o r d e f i l o s o f i a r a c i o n a l
e m o r a l , e p a d r e Elias, m e s t r e p ú b l i c o d e g r a m á t i c a latina —
viriam trazer a José Maurício a o p o r t u n i d a d e d e c o m p l e m e n t a r
sua integral f o r m a ç ã o humanística. Estudos q u e atrairiam o j o v e m
m ú s i c o c o m o u m a n e c e s s i d a d e d e sua b r i l h a n t e i n t e l i g ê n c i a o u ,
t a l v e z , c o m o e s t u d o s i n d i s p e n s á v e i s à carreira já e n t r e v i s t a . A p ó s
três a n o s d e e n s i n o , a m b o s m a n i f e s t a m a d m i r a ç ã o p e l o d i s c í p u l o
m a l s a í d o d a a d o l e s c ê n c i a . P a d r e Elias c o n s i d e r o u - o a p t o a
ensinar a disciplina. A mesma atitude é adotada p e l o p r o f e s s o r
d e f i l o s o f i a , m e s t r e G o u l ã o , q u e o c o n v i d o u para ser seu
s u b s t i t u t o . E m a m b o s o s c a s o s v i u - s e J o s é M a u r í c i o na
c o n t i n g ê n c i a d e resignar a o c o n v i t e , p o r ter a v i d a p r o f i s s i o n a l
v o l t a d a para as a t i v i d a d e s musicais.
N o m e s m o p e r í o d o aplicava-se José Maurício a estudos de
retórica, o q u e Salvador José t a m b é m confirma. Explica-se,
p o r t a n t o , f o s s e a p o n t a d o c o m o " O r a d o r " p e l o d e ã o d a Sé, n o
p r o c e s s o de genere.
Estudo q u e se verifica de insuspeitada
s i g n i f i c a ç ã o na p e r s o n a l i d a d e d o m ú s i c o , q u e v o l t a r á a estudá-la
33
Cleofe Person de Mattos
a o s 35 a n o s , e n t r e 1802 e 1804, já m e s t r e - d e - c a p e l a d a Sé, c o m o
m e s m o p r o f e s s o r : o m i n e i r o Silva A l v a r e n g a .
A m p l i a d a sua c a p a c i d a d e p r o f i s s i o n a l na e x e c u ç ã o d e v á r i o s
i n s t r u m e n t o s a l é m d e u t i l i z á - l a , c o m o c a n t o r já d e v o z a d u l t a
para garantir as d e s p e s a s c o m a família, c e r t a m e n t e n ã o se
l i m i t a r i a às a u l a s p a r t i c u l a r e s , às i g r e j a s e a o s s a l õ e s a a t u a ç ã o
d o j o v e m m ú s i c o na c i d a d e . N ã o d e v e s e r a f a s t a d a a sua
p a r t i c i p a ç ã o nas orquestras d o R i o d e Janeiro, s e m e x c l u i r o T e a t r o
d e M a n u e l Luís. N e m se p o d e d e i x a r d e admitir nessa p e r s p e c t i v a
o v í n c u l o c o m o " t e a t r i n h o d e a m a d o r e s " da rua d o P a s s e i o .
E m 1779 — a o s d o z e a n o s , p o r t a n t o — é s i g n i f i c a t i v o saber q u e José Maurício assume c o m o professor d e música. A
i n f o r m a ç ã o parte d o p r ó p r i o aluno — B o n i f á c i o G o n ç a l v e s — e
v e m transcrita n o p r o c e s s o de genere:
"a r a z ã o d e c o n h e c e r o
h a b i l i t a n d o h è p o r p r i n c i p i a r há d o z e a n o s a a p r e n d e r M u z i c a ,
d e o n d e h o u v e d e l e c o n h e c i m e n t o " . A s s i m f i c a m e x p l i c a d a s as
p a l a v r a s d e Januário da Cunha Barbosa, n o N e c r o l ó g i o , a o r e f e r i r s e à " d e c i d i d a e x c e l ê n c i a da p r o f i s s ã o q u e d e s d e m e n i n o
abraçara".
Personalidade b e m dotada e tecnicamente b e m apoiada nos
e s t u d o s e na prática da m ú s i c a , c o m p r o v a - s e d e s d e o s p r i m e i r o s
a n o s da d é c a d a d e 1780 q u e J o s é M a u r í c i o e s t a v a p r e p a r a d o para
c o m p o r . N a v e r d a d e , s e u s 16 a n o s c o i n c i d e m c o m a p r i m e i r a
m a n i f e s t a ç ã o n o t e r r e n o d a c r i a ç ã o m u s i c a l . Era o s i n a l
s i g n i f i c a t i v o d e sua o p ç ã o p a r a a v i d a : ser m ú s i c o . Sua p r i m e i r a
obra f o i c o m p o s t a o i t o anos antes d e tornar-se padre: a antífona
Tota pulchra
es Maria,
e m 1783- 28
O u t r o s i n a l d e c i s i v o n ã o t a r d a : e m 1784, a c r i a ç ã o da
I r m a n d a d e d e Santa C e c í l i a e n r i q u e c e u a v i d a musical da c i d a d e ,
c o n f e r i n d o categoria à numerosa classe musical. José Maurício
a s s i n o u , c o m o f u n d a d o r , a ata da c o n f r a r i a d o s p r o f e s s o r e s d e
m ú s i c a . 2 9 Estava c o n s a g r a d o o f i c i a l m e n t e p r o f e s s o r d e m ú s i c a .
T i n h a 17 a n o s .
Ó r g ã o regulador da vida profissional d o s músicos s o b a
i n v o c a ç ã o d a P a d r o e i r a da M ú s i c a , sua c r i a ç ã o r e p r e s e n t a o
r e c o n h e c i m e n t o s o c i a l da i m p o r t â n c i a d e u m a c l a s s e n u m e r o s a
q u e abrangia cantores, instrumentistas, d i r e t o r e s d e música,
copistas e c o m p o s i t o r e s numa c i d a d e o n d e a música fazia-se
s e m p r e p r e s e n t e nas c o m e m o r a ç õ e s o f i c i a i s . C a b e r á à I r m a n d a d e
d e Santa C e c í l i a , a partir d e 1784, z e l a r p e l a i n f r a - e s t r u t u r a m u sical da c i d a d e , o s p r o f e s s o r e s d e m ú s i c a , s e u p r e p a r o
profissional, e controlá-los.
A I r m a n d a d e p r o m o v i a e x a m e s para o s q u e d e s e j a v a m
h a b i l i t a r - s e na p r o f i s s ã o . " E x a m e s d i f í c e i s " , e s c r e v e r á m a i s t a r d e
34
José Maurício Nunes Garcia biografia
m o n s e n h o r Pizarro (José d e Souza A z e v e d o Pizarro e Araújo —
1753/1830 — a u t o r d a s Memórias
históricas
do Rio de
Janeiro),
h i s t o r i a d o r e c ó n e g o da Catedral e Sé. E x i g i a - s e d e seus m e m b r o s
fossem pessoas "de bons costumes". A filiação de José Maurício
à I r m a n d a d e é c o e r e n t e c o m o p e r f i l d e sua p e s s o a : p r o f e s s o r
d e s d e 1779, c o m p o s i t o r d e s d e 1783, o s " b o n s c o s t u m e s " d o j o v e m
m ú s i c o s e r ã o c o n f i r m a d o s e m 1791 nas d e c l a r a ç õ e s d a s
t e s t e m u n h a s d o p r o c e s s o de
genere.
O c o m p r o m i s s o d a I r m a n d a d e d e Santa C e c í l i a a l c a n ç o u
c o n f i r m a ç ã o d a rainha D . M a r i a I e m 1786. I m p u n h a d i r e t r i z e s
de trabalho, de ganho, deveres e direitos. O s irmãos eram
p r o f e s s o r e s d e m ú s i c a e e n t r e as o b r i g a ç õ e s q u e l h e s e r a m
i m p o s t a s f i g u r a v a m a a n u i d a d e e o r e s p e i t o às d e t e r m i n a ç õ e s d o
s e u e s t a t u t o . O s 33 p r o f e s s o r e s q u e a s s i n a m o c o m p r o m i s s o n ã o
e s g o t a r i a m , p o r c e r t o , o n ú m e r o d e m ú s i c o s e m e x e r c í c i o na
cidade, m e s m o excluída a categoria d e religiosos seculares, ou
das o r d e n s terceiras. Vários dentre eles estarão l i g a d o s à v i d a
particular d e José Maurício c o m o pessoas q u e mais tarde a e l e
estarão reunidas nos conjuntos d e igreja, c o p i a n d o a música ou
e x e c u t a n d o a o b r a d o m a i s j o v e m d o s s i g n a t á r i o s d e 1784.
T a m b é m os futuros padrinhos d o s filhos de que José Maurício
será p a i a partir d e 1806 aí se e n c o n t r a m : J o s é Batista L i s b o a , 3 0
José d o Carmo Torres Vedras e ( p o s s i v e l m e n t e ) Francisco A n t ô n i o
d a S i l v a . A i n d a a s s i n a m o c o m p r o m i s s o o Dr. V i t ó r i o M a r i a
G e r a l d o , Luís d e Souza Rangel e J o s é d e Faria Barros, p r o p r i e t á r i o s
d e manuscritos e copistas d e obras mauricianas mais recuadas.
O ter d e s t i n a d o à C a t e d r a l e Sé a sua p r i m e i r a c o m p o s i ç ã o
r e v e l a t r â n s i t o f á c i l e p o r c e r t o útil c o m o m e s t r e - d e - c a p e l a d a
Sé, c ó n e g o J o ã o L o p e s Ferreira, 3 1 já i d o s o e c a r r e g a n d o m u i t o s
a n o s d e s a c e r d ó c i o . O j o v e m m ú s i c o , c o m p o s i t o r d e s d e 1783,
a g o r a c o n s a g r a d o p r o f e s s o r p e l a I r m a n d a d e d e Santa C e c í l i a , t e m
aS c o n d i ç õ e s d e p r e s t a r a s s i s t ê n c i a c o n t í n u a e s e m d ú v i d a
p r o v e i t o s a a o m e s t r e - d e - c a p e l a a q u e m iria s u c e d e r n o m e s t r a d o .
A o assinar a ata da c r i a ç ã o da I r m a n d a d e d e Santa C e c í l i a ,
José M a u r í c i o reunia o seu n o m e a o d o seu p r o f e s s o r Salvador
J o s é d e A l m e i d a e Faria e a o d e s e u a l u n o B o n i f á c i o G o n ç a l v e s .
( V i d e , à f a l t a d e f o t o g r a f i a , a assinatura d o s e u m e s t r e . ) 3 2
35
Cleofe Person de Mattos
J o s é M a u r í c i o atingiu m o m e n t o d e c i s i v o na d é c a d a d e 1780.
M e s m o p r e p a r a n d o - s e para a v i d a r e l i g i o s a , e e s t u d a n d o c o m
a f i n c o as disciplinas necessárias para o s e x a m e s q u e d e v e r i a
prestar, a criação musical n ã o f o i interrompida. A s u p o s i ç ã o de
q u e s e r i a m o b r a s c o m p o s t a s para a Sé — o r e g i s t r o n o c a t á l o g o
d e J. J. M a c i e l n ã o d e i x a d ú v i d a a r e s p e i t o — a l i m e n t a o u t r a :
estaria c o l a b o r a n d o c o m o c ó n e g o L o p e s F e r r e i r a n ã o s ó n o
p r e p a r o d o repertório ( e n o curso d e música), c o m o estimula a
i d é i a d a p a r t i c i p a ç ã o d e J o s é M a u r í c i o na r o t i n a d a s m ú s i c a s
c a n t a d a s na C a t e d r a l e Sé c o m o b r a s d e sua a u t o r i a . O c a t á l o g o
d e J o a q u i m José Maciel registra algumas p o u c a s músicas
c o m p o s t a s d e p o i s d e 1783, data da Tota
pulchra.
Ladainha d e Nossa Senhora a 4 v o z e s e ó r g ã o , c o m p o s t a
n o a n o 1788
Dois hinos a
cappella:
"O Redemptor
Sume Carmen,
H i n o p a r a a P r o c i s s ã o da
S a g r a ç ã o d o s S a n t o s Ó l e o s , a 4 v o z e s s o m e n t e . " 1789
"Pange
Língua - p a r a a P r o c i s ã o d o SSm° S a c r a m e n t o d e 5 a
feira maior". ( 1 7 8 9 )
N ã o seria m u i t o , n e m as m a i s i m p o r t a n t e s r e a l i z a ç õ e s d o s
a n o s 80. S ã o a p e n a s a q u e l a s c u j o r e g i s t r o s o b r e v i v e u , e c o m
data assinalada. A n t e s d e terminar a d é c a d a , J o s é M a u r í c i o
c o n s e g u i u m a r c a r u m p o n t o a l t o e m sua b a g a g e m d e c o m p o s i t o r
c o m a p r o d u ç ã o d e o b r a s a cappella
p a r a S e m a n a Santa.
P e ç a s q u e c h e g a r a m aos nossos dias e m c ó p i a s precárias,
q u a s e t o d a s s e m n o m e d e a u t o r e s e m d a t a , é l o n g a a h i s t ó r i a da
36
José Maurício Nunes Garcia biografia
i d e n t i f i c a ç ã o d e s s a s p e ç a s — o q u e será c o m p l e t a d o e m nota 3 5
— p e r m i t i n d o a s s e g u r a r a autoria d e J o s é M a u r í c i o , e a data
aplicada a essas obras.
O a n o n i m a t o afeta, entre outros, os manuscritos d o s
Bradados
de 6a fr° maior,
d o c u m e n t o q u e , a l é m da " P a i x ã o "
( B r a d a d o s ) q u e dá t í t u l o a t o d o o c o n j u n t o d e o b r a s , i n c l u i o s
m o t e t o s d o d i a : Popule
meus, Crux fidelis,
Vexilla regis, Heú, e
Sepulto
Domino.
O anonimato do documento desfez-se ao
e n c o n t r o d a c ó p i a a v u l s a d o Popule
meus e d o Domine
Deus e
d o Vexilla
regis c o m a autoria d e v i d a , m e d i d a s u f i c i e n t e p a r a
i d e n t i f i c a r t o d a a s é r i e , l i g a d a e n t r e si p e l o e s t i l o , p e l a l i t u r g i a e
p e l a s e q u ê n c i a d o t e x t o . S e m data, p o r é m . Esta v e m l a n ç a d a e m
o u t r o d o c u m e n t o s e m n o m e d e autor, f o l h a a v u l s a , p a r t i t u r a d a ,
c o m as q u a t r o v o z e s n o s d o i s ú l t i m o s m o t e t o s d o s Bradados
.
P r o d u ç ã o v a l i o s a , f o i d i t o . M a s n ã o se d e v e e s p e r a r d e s s a s
p e ç a s a cappella
uma réplica dos p a d r õ e s d o m o t e t o p o l i f ô n i c o
q u e um c o m p o s i t o r d o s é c u l o d e z o i t o utilizaria d e n t r o da
l i n g u a g e m p a d r ã o d e sua é p o c a . O e s t i l o é h a r m ó n i c o : a c o r d e s
o u h a r m o n i a s q u e d e f i n e m a t o n a l i d a d e , n ã o mais a m o d a l i d a d e .
S ã o o b r a s q u e , u t i l i z a n d o o s t e x t o s da S e m a n a Santa, i n t e r p r e t a o s c o m s i m p l i c i d a d e , mas v i v e - o s à l u z d o d r a m a t i s m o d e sua
p e r s o n a l i d a d e m u s i c a l . O c o n t r a p o n t o c o m o d i s c i p l i n a teria
f a l t a d o na f o r m a ç ã o d o s c o m p o s i t o r e s b r a s i l e i r o s . A s s i m c o m o
f a l t a r i a , t a m b é m , a r e a l i d a d e prática, o g r u p o v o c a l d e a l t o n í v e l
q u e a g r a n d e vida musical p r o p o r c i o n a .
A última d é c a d a d o século, auspiciosamente inaugurada,
r e p r e s e n t a i g u a l m e n t e o f u t u r o m e s t r e - d e - c a p e l a às v é s p e r a s d e
g r a n d e s a c o n t e c i m e n t o s e m sua v i d a . A o s 22 a n o s , a c r i a ç ã o d a s
p e ç a s a cappella
a q u e acabamos d e dar atenção, impressionam
talvez m e n o s a cidade colonial d o q u e a c o m p o s i ç ã o d e uma
o b r a p u r a m e n t e i n s t r u m e n t a l : a Sinfonia
fúnebre*
O interesse
d a p e ç a , r e u n i n d o n a i p e s i n s t r u m e n t a i s o r g a n i z a d o s na
c o m p o s i ç ã o d e uma obra d e caráter e s p e c í f i c o , a m p l i o u m u i t o
seu p r e s t í g i o d e c o m p o s i t o r . N e s t e m o m e n t o a d i v e r s i f i c a ç ã o d o
r e p e r t ó r i o n ã o seria m u i t o g r a n d e , e a i m p o r t â n c i a e m t o r n o d o
q u e se f a z i a na C a t e d r a l o u a o s e u r e d o r era o p a d r ã o m a i o r ,
m a i s s i g n i f i c a t i v o da m ú s i c a na c o l ó n i a .
37
Cleofe Person de Mattos
A
ordenação
D e s p o n t a , a o i n i c i a r - s e o a n o 1791 — 5 d e j a n e i r o — o
p r i m e i r o sinal e m d i r e ç ã o a o m a r c o d e c i s i v o e m sua b i o g r a f i a : a
e s c o l h a da carreira. O j o v e m c o m p o s i t o r , d e c i d i d o a fazer-se
s a c e r d o t e , d i r i g e - s e a o j u i z de genere s o l i c i t a n d o seja f e i t a a sua
h a b i l i t a ç ã o . C o n f i r m a d a esta — a p ó s i n q u i r i ç õ e s r e a l i z a d a s e m
M i n a s G e r a i s e n o R i o d e J a n e i r o — estará J o s é M a u r í c i o e m
c o n d i ç õ e s d e p r e s t a r o s e x a m e s s i n o d a i s , n o s três a t o s f i n a i s d e
sua p r e p a r a ç ã o a o s a c e r d ó c i o .
É i n d i s p e n s á v e l c o n s i d e r a r as c i r c u n s t â n c i a s v i t a i s da
p e r s o n a l i d a d e d e José Maurício para ajuizar das r a z õ e s q u e o
t e r i a m l e v a d o , c o m tanta a n t e c e d ê n c i a , a p r e p a r a r - s e nas
disciplinas e m q u e d e v e r i a prestar esses e x a m e s antes d e tomar
a decisão. N o m o m e n t o d e manifestar oficialmente o d e s e j o de
" t o m a r estado", o u "entrar e m o r d e n s " , José Maurício — de
a c e n t u a d a f o r m a ç ã o r e l i g i o s a — já se r e v e l a r a c o m p o s i t o r , a l é m
d e p r o f e s s o r d e m ú s i c a . Já era u m p r o f i s s i o n a l . A e s c o l h a da
carreira, a p o n t a d a c o m o r e f ú g i o para alcançar status c o m p e n s a d o r
à sua c o n d i ç ã o d e m e s t i ç o , e p o b r e , p a r e c e refletir, na r e a l i d a d e ,
atitude bastante positiva a o revelar o e m p e n h o q u e o movia:
r e a l i z a r sua p e r s o n a l i d a d e n o c a m p o da música. 3 5
Para J o s é M a u r í c i o , e x - m e n i n o d e c o r o , f a m i l i a r i z a d o e m
latim tanto q u a n t o n o r e p e r t ó r i o e n o s ritos das c e r i m ó n i a s
r e l i g i o s a s , e q u e d e s d e 16 a n o s c o m p u n h a , o i n g r e s s o a o s 25
a n o s na c a r r e i r a q u e s a t i s f a z i a v á r i o s a s p e c t o s d e sua rica
p e r s o n a l i d a d e , a m p l i a n d o sua mui l o u v a d a i n s t r u ç ã o , f a c i l i t a v a
suas a s p i r a ç õ e s mais p r o f u n d a s . Essa e s c o l h a tem s e n t i d o bastante
c l a r o : era a p o r t a aberta p a r a o c o m p o s i t o r , a o p o r t u n i d a d e q u e
se o f e r e c i a a o r e g e n t e ; e r a , e n f i m , o p r i m e i r o p a s s o e m d i r e ç ã o
a o m e s t r a d o na C a t e d r a l e Sé, à q u a l e s t a v a t ã o p r o f u n d a m e n t e
l i g a d o a o m ú s i c o e, também, a o o r a d o r sacro.
N o r e q u e r i m e n t o a o j u i z de genere,
José Maurício e x p õ e
c o m c l a r e z a as r a z õ e s d e sua e s c o l h a : o d e s e j o d e i n g r e s s a r na
v i d a r e l i g i o s a a c o m p a n h o u - o s e m p r e , e para i s s o o r i e n t o u s e u s
e s t u d o s . S i g n i f i c a , e m s u m a , q u e a i n t e n ç ã o d e entrar e m o r d e n s
fora l o n g a m e n t e preparada:36
" D i z J o z ê M a u r i c i o N u n e s G a r c i a , natural e b a t i z a d o na
C a t h e d r a l desta C i d a d e , f i l h o L e g i t i m o d e A p p o l i n a r i o N u n e s
G a r c i a , P a r d o L i b e r t o , natural, e b a t i z a d o na F r e g u e z i a d e
N . S ra . d a A j u d a da Ilha d o G o v e r n a d o r ; e d e sua m o l h e r
V i c t o r i a Maria da C r u z , p a r d a Liberta, b a p t i z a d a na C a p e l l a
38
José Maurício Nunes Garcia biografia
d e S. G o n s a l o d o M o n t e f i l i a l da F r e g u a . d e N . S ra . d e
Nazareth d o Bispado d e Marianna; que elle tem s u m m o
d e s e j o d e s e g u i r a v i d a e c l e s i á s t i c a ; e p a e s s e f i m se t e m
a p p l i c a d o á A r t e d a M u z i c a , à L i n g o a Latina e á R h e t o r i c a ,
c o m o intento deservir a D e o s no m e s m o estado: e p o r q u e
p a r a o c o n s e g u i r l h e h é n e c e s s á r i o f a z e r a sua h a b i l i t a ç ã o =
d e g e n e r e = e s ó e s p e r a ser a d m i t t i d o p o r V . E x a . R ma .
P e d e a V . E x a R ma . seja s e r v i d o a d m i t t i r o S u p p ° .
a f a z e r sua i n q u i r i ç ã o , nas o r i g e n s d e s e o s
a s c e n d e n t e s , para p o d e r c o n s e g u i r o e s t a d o , q u e
pertende.
E.R.M."
Entre o p e d i d o d e h a b i l i t a ç ã o e a r e a l i z a ç ã o d o s e x a m e s
i n t e r p u n h a - s e a c o m p r o v a ç ã o d o s s e n t i m e n t o s c a t ó l i c o s d o s seus
a s c e n d e n t e s . N o c a s o d e J o s é M a u r í c i o f o i l o n g o o p e r í o d o — 25
d e j a n e i r o a 25 d e j u n h o d e 1791 — m a s p e r m i t i u r e c o n h e c e r ,
tanto d o lado paterno c o m o d o materno, a f é católica q u e havia
l e v a d o a o batismo duas a v ó s escravas.
Já f o i v e n t i l a d o n o c a p í t u l o R a í z e s , o l o n g o p r o c e s s o de
genere
d e s e n v o l v i d o e m Minas Gerais e n o Rio d e Janeiro, de
a c o r d o c o m a naturalidade d e cada uma das a v ó s d e José
M a u r í c i o . A s i n q u i r i ç õ e s na c i d a d e natal d o h a b i l i t a n d o centrarams e , n a t u r a l m e n t e , nas p e s s o a s m a i s p r ó x i m a s : s e u s p a i s . M a s é
s o b r e t u d o o p r ó p r i o J o s é M a u r í c i o — sua f o r m a ç ã o , s u a s
tendências, seus estudos — o assunto mais e m f o c o . A o l o n g o
d o p r o c e s s o ressalta c o m n i t i d e z a f i g u r a da c r i a n ç a q u e s e m p r e
viveu e m "bons costumes", d o adolescente "morigerado" que
e n s i n a v a música. E v i d e n c i o u - s e a estima d e q u a n t o s o c o n h e c i a m
e sobre ele prestaram d e p o i m e n t o . Inclusive autoridades
eclesiásticas.
A o contrário das testemunhas de São G o n ç a l o d o Monte,
as q u e f o r a m c o n v o c a d a s n o R i o d e J a n e i r o p a r a p r e s t a r
i n f o r m a ç õ e s s o b r e José Maurício e seus pais eram p e s s o a s
q u a l i f i c a d a s : 3 7 u m o f i c i a l da A l f â n d e g a , u m c a p e l ã o c a n t o r , o
p o r t e i r o real da F a z e n d a , v á r i o s s a c e r d o t e s , e a i n d a s e u p r i m e i r o
p r o f e s s o r d e música — S a l v a d o r J o s é d e A l m e i d a e Faria — assim
c o m o B o n i f á c i o G o n ç a l v e s , a l u n o s e u a o f i n d a r o s a n o s 70. M a i s
tocante é o testemunho d e A n t ô n i o Francisco Barbosa. C o n h e c e u
A p o l i n á r i o e t a m b é m V i t ó r i a Maria " d e s d e q u e c h e g o u d e sua
Pátria". I n d a g a d o d e possível "infâmia ou p e n a vil", r e s p o n d e u :
" n ã o seria c a p a z d i s s o , p o r ser d e b o a c o n d u t a e b o n s c o s t u m e s " .
E r a m p e s s o a s q u e o c o n h e c i a m " d e s d e s e m p r e " , o u "há m a i s d e
d e z anos", ou vinte, ou a seus pais "ainda s e n d o solteiros" c o m o
39
Cleofe Person de Mattos
Salvador José, antes d o nascimento d o f i l h o . São a c o r d e s todas
as r e f e r ê n c i a s à p e r s o n a l i d a d e d o j o v e m e à sua " b o a i n c l i n a ç ã o " ,
v i v e n d o e m c o m p a n h i a d a m ã e e " s u j e i t o à sua d o u t r i n a e
o b e d i ê n c i a " . Tal é o retrato traçado p e l a s p e s s o a s q u e c o m e l e
c o n v i v e r a m — e c o m seus pais — e m palavras q u e d i z e m r e s p e i t o ,
n ã o à sua i n t e l i g ê n c i a o u m u s i c a l i d a d e , m a s à p e s s o a d o f u t u r o
s a c e r d o t e . Mais d o q u e i n f o r m a ç õ e s b i o g r á f i c a s , s ã o d e p o i m e n t o s
q u e caracterizam a f o r m a ç ã o moral d o adolescente estudioso que
v i v i a n o R i o d e J a n e i r o e o j o v e m d e 24 a n o s às v é s p e r a s d e
v e s t i r a batina d e s a c e r d o t e .
B o n i f á c i o G o n ç a l v e s adianta q u e J o s é M a u r í c i o " s e m p r e
m o s t r o u m u i t a r e l i g i o s i d a d e , a i n d a na i d a d e da p u e r í c i a " . S a l v a d o r José, mais l i g a d o à família, e n t r e a b r e u m p o u c o mais a cortina
a l u d i n d o aos estudos d e "Música, Filosofia e Retórica" e informa
q u e A p o l i n á r i o N u n e s G a r c i a v i v i a d o s e u o f í c i o d e alfaiate. " C o m
b o m c r é d i t o " , acrescenta a testemunha A n t ô n i o Francisco Barbosa.
O d e p o i m e n t o das testemunhas não alcançava, p o r é m , o
l i m i t e das e x i g ê n c i a s d o p r o c e s s o d e h a b i l i t a ç ã o . Erguia-se d i a n t e
d e J o s é M a u r í c i o outra d i f i c u l d a d e a ser v e n c i d a , o u j u s t i f i c a d a :
o p r o b l e m a da r a ç a , o l h a d o c o m o d e f e i t o p a r a o s f u t u r o s
sacerdotes. Razão por que, ao m e s m o t e m p o q u e formaliza em
o f í c i o o s e u d e s e j o d e i n g r e s s a r na v i d a r e l i g i o s a , J o s é M a u r í c i o
q u e qualifica d e " i r r e g u l a r i d a d e " o d e f e i t o d e cor, d i r i g e - s e a o
bispo, solicitando a indispensável licença "justificativa" desse
" d e f e i t o " , s e m a qual n ã o lograria habilitar-se.
O a s s u n t o dá m a r g e m a i m p r e s s i o n a n t e e p i s ó d i o d e sua
b i o g r a f i a , a p a r t i r da p e t i ç ã o d i r i g i d a a o b i s p o . N o d o c u m e n t o ,
J o s é M a u r í c i o c h e g a a assumir uma atitude d e d e s a f i o ,
desencadeada num m o m e n t o d e altivez p e l o "filho d e pretos",
r e p r e s e n t a n t e d e raça s o c i a l m e n t e m e n o s p r e z a d a , q u e e l e
c o n t r a p õ e à sua c o n d i ç ã o i n t e l e c t u a l a l c a n ç a d a e m e s t u d o s
p e r s e v e r a n t e s e d e a l t o n í v e l , à sua p r e p a r a ç ã o e m m ú s i c a e a o s
" b o n s c o s t u m e s " q u e t o d a s as t e s t e m u n h a s l h e r e c o n h e c e m . É
q u a s e uma palavra d e negritude e x p o s t a e m i n q u e s t i o n á v e l t o m
d e oratória, palavra apoiada e m lógica irretorquível q u e deixa
entrever, no aspirante ao sacerdócio, a personalidade forte de
q u e m d e f e n d e u m d i r e i t o q u e julga c a b e r - l h e . A o m e s m o t e m p o ,
e l e e s p e r a da " b e n i g n a p i e d a d e " d o b i s p o a a u t o r i z a ç ã o p a r a
f a z e r as m a i s d i l i g ê n c i a s d e e s t i l o q u e l h e p e r m i t i r ã o p r e s t a r a
Deus b o n s serviços n o estado d e sacerdote. Neste sentido José
M a u r í c i o m a n t e r á sua p a l a v r a n o e m b a t e q u e terá d e s o f r e r c o m
o s p o r t u g u e s e s , na h u m i l d a d e c o m q u e r e c e b e o s a t a q u e s d e
m ú s i c o s e m i n i s t r o s da I g r e j a . 3 8
40
José Maurício Nunes Garcia biografia
A r e s p o s t a à sua p e t i ç ã o — a s e n t e n ç a — c o u b e , p o r
i n d i c a ç ã o d o b i s p o , a o d e ã o da Sé, d o u t o r F r a n c i s c o d e G o m e s
V i l l a s - B o a s . A o julgá-la, o d e ã o traz à l u z o p e n s a m e n t o da I g r e j a
s o b r e o p r o b l e m a d o j o v e m q u e d e s e j a v a ser s a c e r d o t e . V a l e
acompanhar a sequência iniciada c o m a petição; a magna
i m p o r t â n c i a d e s s e d o c u m e n t o justifica a t r a n s c r i ç ã o , e m b o r a
parcial, q u e segue:
" D i z J o s é M a u r i c i o N u n e s G a r c i a natural e b a p t i z a d o na
Cathedral desta c i d a d e , f i l h o l e g i t i m o d e A p o l i n á r i o N u n e s
G a r c i a e d e V i t ó r i a Maria d a C r u z , p a r d o s L i b e r t o s , q u e e l e
para... ser d i s p e n ç a d o da c o r e m e r e c e r d e Vossa E x c e l e n c i a
a d i s p e n ç a q u e r justificar o s itens seguintes: Q u e e l l e é
( . . . ) f i l h o l e g i t i m o d o s Pays assima d e c l a r a d o s , p a r d o s , f i l h o s
d e pretos, o s quais d e r ã o boa e d u c a ç ã o a o Justificante.
P r o v a r á q u e e s t e m e s m o d e s d e a sua i n f a n c i a t e v e v o c a ç ã o
p a r a o e s t a d o S a c e r d o t a l , e para m e l h o r p o d e r c o n s e g u i r
se tem aplicado aos estudos de Gramatica, Retórica e
F i l o s o f i a r a c i o n a l e m o r a l , e arte d a M u z i c a . P r o v a r á q u e o
Justificante t e m v i v i d o c o m r e g u l a r i d a d e n o s s e u s c o s t u m e s
s e m n o t a a l g u m a , e e s p e r a S e l l o a t h e o f i m d e sua v i d a ,
( . . . ) s e r t e m e n t e a D e o s , e o b e d i e n t e as L e y s . P r o v a r á q u e
o J u s t i f i c a n t e n ã o d e s m e r e c e esta g r a ç a n ã o s ó p o r n ã o
estar i n c u r s o e m a l g u m a i r r e g u l a r i d a d e q u e a d o
de/feito
da cor...
digo suspenção e excomunhão, c o m o porque
e s p e r a da b e n i g n a p i e d a d e d e Vossa E x c e l e n c i a esta g r a n d e
e s m o l l a c o m a q u a l p o d e r á f a z e r as m a i s d e l i g e n c i a s d o
e s t i l l o . P e d e a Vossa E x c e l e n c i a q u e i r a d i g n a r - s e a d m i t i r o
J u s t i f i c a n t e a j u s t i f i c a r as p r e m i s s a s e j u s t i f i c a d a s d e (
)
c o m o S u p l i c a n t e d o d e f e i t o da c o r p o r s e r e m s e u s P a y s
p a r d o s f i l h o s d e p r e t o s , v i s t o q u e Vossa E x c e l e n c i a t e m
esta f a c u l d a d d e , a q u a l e s p e r a o S u p l i c a n t e na m i s e r i c ó r d i a
d o Senhor possa b e m aproveitar lhe f a z e n d o a D e o s bons
S e r v i ç o s n o e s t a d o Sacerdotal, r e m e t e n d o para esse f i m a o
M u i t o R e v e r e n d o Dr. P r o v i z o r na f o r m a d o e s t i l l o . "
A p e t i ç ã o é p e ç a f u n d a m e n t a l n o j u l g a m e n t o da
p e r s o n a l i d a d e d e J o s é M a u r í c i o . A altanaria c o m q u e e l e c h a m a
d e " i r r e g u l a r i d a d e " o d e f e i t o d e cor, a insistência e m d i z e r q u e
" p r o v a r á " ser c a p a z d e p r e s t a r " b o n s s e r v i ç o s " a D e u s n o e s t a d o
d e sacerdote, apesar d o "defeito d e cor", revela, no t o m oratório
e m q u e se e x p r e s s a , as q u a l i d a d e s d e u m o r a d o r , título q u e l h e é
a p l i c a d o p e l o d e ã o d a Sé na s e n t e n ç a e m q u e julgará a p e t i ç ã o .
D e i x a t a m b é m entrever o h o m e m d e f o r m a ç ã o humanística e a
41
Cleofe Person de Mattos
barreira q u e significava, para os seus s o n h o s d e músico, o
p r e c o n c e i t o d a c o r . A l t a n a r i a v e n c i d a m a i s t a r d e , p o r f o r ç a da
h u m i l h a ç ã o c o n s t a n t e q u e s o f r i a na c o r t e e d o m e n o s p r e z o p e l o
q u e e l e tinha d e m e l h o r , a sua arte, e m r a z ã o d e ser " f i l h o d e
p a r d o s " e sua m ã e " f i l h a d e p r e t o s " .
A sentença d o deão, que se segue n o processo, à petição,
f a l a c o m p l e n o c o n h e c i m e n t o d e causa e r e s u m e as f a s e s d o
mesmo:
"Vistos estes autos Suplica d o Orador Justificante,
D o c u m e n t o s juntos, t e s t e m u n h a s . . . M o s t r a - s e q u e o O r a d o r
he h o m e m pardo, filho Legitimo de Apolinário Nunes e
V i t o r i a Maria da Crus, t a m b é m p a r d o s ainda q u e
d e s c e n d e n t e s d e p r e t o s e q u e tantos o s P a y s d o Justificante
O r a d o r c o m o e s t e t e m v i v i d o c o m muita c h r i s t a n d a d e e o
m e s m o O r a d o r é b e m m o r i g e r a d o , e c o m muita v o c a ç ã o
d e s d e seus tenros anos, para o Estado Ecclesiastico e c o m
muita a p l i c a ç ã o aos Estudos d e latinidade, Retórica e
F i l o s o f i a , q u e p o r t o d a s estas b o a s q u a l i d a d e s v i r á a Ser
m u i t o util á I g r e j a . C o m o p o r e m p e l a C o n s t i t u i ç ã o da B a hia, q u e f o i a d o p t a d a n e s t e B i s p a d o n ã o s ã o a d m i t t i d o s o s
d e s c e n d e n t e s d e pretos, p o r isso necessita o O r a d o r de
d e s p e n ç a p a r a p o d e r h a b i l i t a r s e para o d i t o E s t a d o e a s s i m
r e c o r r e o a Sua E x c e l e n c i a R e v e r e n d í s s i m a para o d e s p e n ç a r
d o d e f f e i t o da cor, que p a d e c e , e p e l o
mesmo
E x c e l e n t í s s i m o S e n h o r d i g n a m e n t e 3 9 f o i a d m i t t i d o a justificar
o s o b r e d i t o e r e m e t e r - m e a m e s m a suplica folha duas para
o f i m p e r t e n d i d o , n o s q u a e s t e r m o s está o O r a d o r n o d e
m e r e c e r a graça implorada: p o r q u e o S u p p o s t o d e Direito
Canonico
sejão repelidos
os Neophitos
de pouco tempo
c o n v e r t i d o s a f é c a t ó l i c a , ainda estes m e s m o s s ã o a d m i t t i d o s
p e l o m e s m o d i r e i t o a o S a c e r d o c i o se d e r e m b o a s p r o v a s
d e sua p e r s e v e r a n ç a e c o m o o O r a d o r n ã o h e N e o p h i t o
n e m f i l h o d e a l g u m , ainda q u e Seus P a y s d e l l e s d e s c e n d ã o ,
n ã o p o d e c o m p r e h e n d e r s e nessa p r o i b i ç ã o e m u i t o m a i s
s e n d o C o n s t a n t e a sua b o a c o n d u t a na o b s e r v a n c i a da L e y
e P r e c e i t o s d e Sua M a g e s t a d e , d i g o , e P r e c e i t o s da Santa
M a d r e Igreja sem q u e obste a o r e f e r i d o a d e s p o s i ç ã o d o
C o n c i l i o T r i d e n t i n o Sess. v i n t e e t r ê s d e r e f . C a p . S é t i m o ,
e m q u a n t o o r d e n a q u e o s q u e h o u v e r e m d e Ser p r o m o v i d o s
a O r d e n s a l e m d e c o n s t a r da sua b o a i n d o l e , v i d a e c o s t u m e s , d e v ã o ser d e b o a g e r a ç ã o , p o r q u e esta d e t e r m i n a ç ã o
p r o c e d e e m c o n f o r m i d a d e d o s S a g r a d o s C â n o n e s , isto h e
q u e s e j ã o taes, q u a e s n ã o s e j ã o r e p e l i d o s p e l o s S a g r a d o s
42
José Maurício Nunes Garcia biografia
C â n o n e s e p o r isso não obsta a o O r a d o r Justificante assim
c o m o n ã o p o d e obstarlhe a Constituição da Bahia, p o r q u e
ella neste B i s p a d o n ã o h e p r a e c e p t i v a , h e s o m e n t e directiva,
e p o r isso ainda q u e p o d e s s e entenderse c o m o boa n ã o
i m p e d e a d e s p e n ç a . P o r t a n t o , p e l a s F a c u l d a d e s a Sua
Excelencia Reverendíssima competentes e a mim comettidas
j u l g o a o O r a d o r J u s t i f i c a n t e h á b i l p a r a ser a d m i t t i d o , s e m
embargo do deffeito declarado, o dispenço, ohei por
d i s p e n ç a d o d e l l e p a r a o r e f e r i d o f i m e m a n d o se l h e d ê
Sentença pagos os Autos. Rio quatorze de junho de
m i l s e t e c e n t o s n o v e n t a e hum, Francisco G o m e s Villas B o a s . "
A b r i l h a n t e s e n t e n ç a d o d e ã o da Sé, d e c l a r a n d o h a b i l i t a d o
José M a u r í c i o N u n e s Garcia à carreira sacerdotal f o i ajuntada
a o s a u t o s e m 16 d e j u n h o . Suas p a l a v r a s , q u e nas p r ó p r i a s
e n t r e l i n h a s d o s p r e c e i t o s da I g r e j a e n c o n t r a m o m e i o d e a c o l h e r
o p e d i d o d e J o s é M a u r í c i o , e v i d e n c i a m q u e as a u t o r i d a d e s
e c l e s i á s t i c a s já t i n h a m p e n s a m e n t o f o r m a d o e m t o r n o da p e s s o a
d o h a b i l i t a n d o , e q u e e s s e p e n s a m e n t o era p o s i t i v o , na m e d i d a
em que à condição religiosa é acrescentada a avaliação
intelectual.
A o s 29 d i a s d e j u n h o e r a m e n t r e g u e s o s a u t o s c o m o s s e u s
despachos e certidões e dados c o m o publicados pela mão d o
e s c r i v ã o da C â m a r a E c l e s i á s t i c a . Estava J o s é M a u r í c i o h a b i l i t a d o
a f a z e r p r o v a p e r a n t e e x a m i n a d o r e s sinodais, o q u e será r e a l i z a d o
e m três e t a p a s , a p a r t i r d e s e t e m b r o d o m e s m o a n o . O s " l i v r o s
d e m a t r í c u l a d e o r d i n a n d o s " — L Q 5 Q , f l . 1, n Q 7 — i n f o r m a c o m
p r e c i s ã o e s s e s a c o n t e c i m e n t o s : o p r i m e i r o é a matrícula e m 7 d e
s e t e m b r o d e 1791 p a r a o s e x a m e s , q u e s e r i a m " p r e s t a d o s n o
Seminário Teológico":'10
'José M a u r i c i o N u n e s G a r c i a , natural d e s t a c i d a d e , f i l h o
l e g i t i m o d e A p o l i n á r i o N u n e s e d e V i c t o r i a Maria da Crus.
D i s p e n s a d o e m interstícios e d e f e i t o d e cor."
J o s é M a u r í c i o c o n f i r m a e s s e p a s s o na c a r r e i r a s a c e r d o t a l
c o m a e n t r a d a , na m e s m a d a t a , na I r m a n d a d e d e S ã o P e d r o d o s
Clérigos.
N o dia 17 d e d e z e m b r o d o m e s m o a n o o já t o n s u r a d o
d i á c o n o i n s c r e v e - s e para n o v o s e x a m e s . F i n a l m e n t e , e m 3 d e
m a r ç o d e 1792, v e n c i d o s o s e x a m e s da última e t a p a , J o s é M a u r í c i o
é " p r o m o v i d o a o r d e n s " e está p r e p a r a d o para c e l e b r a r a p r i m e i r a
m i s s a , r e a l i z a d a n o p a l á c i o d o b i s p o , p a l á c i o da C o n c e i ç ã o ,
p r o v a v e l m e n t e d i a n t e da b e l a i m a g e m da p a d r o e i r a — h o j e n o
43
Cleofe Person de Mattos
m u s e u d e A r t e Sacra d e S ã o P a u l o . T i n h a o n o v e l s a c e r d o t e 25
anos.
U m a e x i g ê n c i a da I g r e j a p a r a o s q u e se h a b i l i t a s s e m
sacerdote — possuir patrimônio — fazia-se necessário. O
p r o b l e m a d e José Maurício, d e família p o b r e , f o i r e s o l v i d o p e l o
c o m e n d a d o r T h o m á s G o n ç a l v e s , a b a s t a d o c o m e r c i a n t e na rua
d o M e r c a d o , pai d e u m seu " c o n d i s c í p u l o " q u e lhe f a z d o a ç ã o
d e u m a casa na rua d a s M a r r e c a s , e n t ã o c h a m a d a " d a s B e l l a s
N o u t e s " . 4 1 N e s s a c a s a , a l g u n s a n o s m a i s t a r d e será i n s t a l a d o o
c u r s o d e m ú s i c a d o q u a l o p a d r e J o s é M a u r í c i o será p r o f e s s o r
d u r a n t e q u a s e 28 a n o s . 4 2
É v á l i d o questionar, neste m o m e n t o , a v o c a ç ã o d e José
M a u r í c i o p a r a o s a c e r d ó c i o . S e m d ú v i d a , o f u n d o r e l i g i o s o era
a u t ê n t i c o n o j o v e m s a c e r d o t e e d i s s o dará s e m p r e p r o v a s . N ã o
seria, p o r é m , a p e n a s o u e x a t a m e n t e e s t e o m o t i v o q u e o i m p e l i u
p a r a o s a c e r d ó c i o . A f i r m a r - s e na p r o f i s s ã o d e m ú s i c o —
c o m p o n d o , t o c a n d o ó r g ã o , e n s i n a n d o m ú s i c a , r e g e n d o — era o
c a m i n h o para o n d e c o n v e r g i a m seus mais altos s o n h o s . É p o s s í v e l
q u e a já e n t r e v i s t a a t r a ç ã o para a o r a t ó r i a t i v e s s e a sua p a r c e l a
na d e c i s ã o . P o r é m , s e m d e i x a r d ú v i d a s , era a o p ç ã o d e n a t u r e z a
m u s i c a l a q u e o l e v a v a p o r e s s e c a m i n h o , e J o s é M a u r í c i o ass u m e i n t e g r a l m e n t e essa o p ç ã o .
A s o b r e c a r g a d e e s t u d o p a r a o s e x a m e s s i n o d a i s q u e tinha
p e l a f r e n t e n ã o l h e teria d e i x a d o , e m 1791, t e m p o s u f i c i e n t e
para d e d i c a r - s e à c o m p o s i ç ã o , n e s s e c a s o uma única o b r a é
assinalada — o Te Deum
p e l a " f e l i z c h e g a d a " d e D . Luís d e
V a s c o n c e l o s a Portugal, a o n d e f o r a entregar o p o s t o a o seu
s u c e s s o r 4 5 — e será c o m p e n s a d a n o s a n o s q u e s e s e g u e m à sua
o r d e n a ç ã o , até 1798.
A g r a n d e c o n q u i s t a d o j o v e m s a c e r d o t e , a l é m das f a c i l i d a d e s
s o c i a i s , e l e a s e n c o n t r a r i a na p r ó p r i a S é : a m p l i a v a m - s e as
c o n d i ç õ e s d e m e l h o r s e r v i - l a , ali c o l a b o r a n d o m a i s i n t e n s a m e n t e
a n t e s m e s m o d e ser m e s t r e - d e - c a p e l a . N ã o s e l i m i t a v a a c o m p o r ,
t o c a r e v e n t u a l m e n t e a o ó r g ã o , o u na o r q u e s t r a , r e g e r e dar
assistência a o m e s t r e - d e - c a p e l a . Isto fica e v i d e n t e , p o r volta d e
1795, a o ser e n c a r r e g a d o d e e n s i n a r n o C u r s o P ú b l i c o d e M ú s i c a
i n s t a l a d o na rua d a s M a r r e c a s . C o l o c a d o o s e u p r e p a r o m u s i c a l a
s e r v i ç o d o q u e , na é p o c a , p o d i a substituir a f o r m a ç ã o p r o f e s s o r a l ,
J o s é M a u r í c i o , m ú s i c o p o r v o c a ç ã o , p r o f e s s o r d e s d e 1779 e a g o r a
professor d o curso o n d e cumpria atribuição d o mestre-de-capela,
g a n h a v a i m p o r t â n c i a e e s t a b e l e c i a o sinal m a i s p o s i t i v o d e s e u
v í n c u l o c o m a C a t e d r a l e Sé. 44
G r a n d e s e r v i ç o prestou à vida musical d o Rio d e Janeiro
e s s e c u r s o , a p e s a r da p r e c a r i e d a d e d o s e u a p a r e l h a m e n t o . N ã o
44
José Maurício Nunes Garcia biografia
d i s p u n h a d e i n s t r u m e n t o a d e q u a d o às n e c e s s i d a d e s d i d á t i c a s d a s
aulas: p i a n o o u c r a v o ; o p r o f e s s o r tinha c o m o ú n i c o a p o i o u m a
" v i o l a d e a r a m e " , q u e p a s s a v a d e m ã o e m mão. 4 5 M u i t o i m p o r t o u
para o b o m resultado desse curso a c o m p l e m e n t a ç ã o prática
s e g u n d o o s i s t e m a v i g e n t e d e e n s i n o : h a b i t u a r o a l u n o à prática
musical simultânea, incentivando-o ao estudo de alguns
i n s t r u m e n t o s , o u f a z e n d o - o cantor e m c o r o . Fato c o n f i r m a d o p e l o
i n s p e t o r da c a p e l a e m 1822, q u e J o s é M a u r í c i o " a u m e n t o u c o m
o s s e u s a l u n o s o n ú m e r o d e c a n t o r e s da S é " . T o d a u m a g e r a ç ã o
d e m ú s i c o s irá s e n t a r - s e n o s s e u s b a n c o s : f u t u r o s p r o f e s s o r e s ,
cantores, músicos d e orquestras, compositores, importantes
p e r s o n a l i d a d e s da a d m i n i s t r a ç ã o da v i d a m u s i c a l d a c i d a d e q u e
ao longo d o século dezenove vão ocupar posição de relevo no
Rio d e Janeiro.46
O p e r í o d o d e sua v i d a n o " a p ó s 1791" e n c o n t r a r á o r e c é m o r d e n a d o s a c e r d o t e p r o n t o para o c u p a r o p o s t o m á x i m o na v i d a
d e u m m ú s i c o d o s é c u l o d e z o i t o : o d e m e s t r e - d e - c a p e l a . Fase d e
g r a n d e p r o d u t i v i d a d e n o t e r r e n o da c r i a ç ã o m u s i c a l , i n t e r e s s a
o b s e r v a r q u e n e s s e m o m e n t o c o m e ç a a ser o r g a n i z a d o o a r q u i v o
da C a t e d r a l . T r i n t a e d u a s partituras, a p r o x i m a d a m e n t e , s ã o
d e s t i n a d a s à rotina d a i g r e j a , e m q u e s e p r o c u r a a t e n d e r c o m
obras diversificadas a o f u n c i o n a m e n t o da Catedral: uma série de
g r a d u a i s , a n t í f o n a s , Vésperas das Dores — t o d a s c o m o r q u e s t r a
— e a i n d a o u t r a s c o m a c o m p a n h a m e n t o d e ó r g ã o : Vésperas de
Nossa Senhora,
Vésperas dos Apóstolos, s a l m o s a v u l s o s ,
Magnificai
a q u a t r o v o z e s s o m e n t e , e o b r a s para a S e m a n a Santa: d o i s
M i s e r e r e ( p a r a quarta e q u i n t a - f e i r a ) e outras p e ç a s para o m e s m o
tempore
e n r i q u e c e m sua b a g a g e m a t é 1798. N ã o s o b r e v i v e u a
Missa r e g i s t r a d a p o r J. J. M a c i e l : Missa para as pontificais
da Sé,
e m 1797, a p r i m e i r a d e q u e se t e m n o t í c i a .
A e n u m e r a ç ã o tomou por base manuscritos localizados,
o b r a s datadas e c i t a ç õ e s t a m b é m datadas. A f o n t e — s a l v o m e n ç ã o
e s p e c i a l — é o c a t á l o g o d e J. J. M a c i e l , o q u e as c o l o c a n o â m b i t o
da C a t e d r a l .
O e s t i l o dessas o b r a s f a z r e c o n h e c e r q u e , transitório e m b o r a ,
é s i g n i f i c a t i v o na a p r e c i a ç ã o g l o b a l d o c o m p o s i t o r , e m c o n f r o n t o
c o m o b r a s d e escrita m a i s t a r d i a . N u m a v i s ã o a posteriori
podese d i z e r q u e elas representam o estilo setecentista mauriciano.
N a s h a r m o n i a s e s c o l h i d a s a escrita é discreta. N u m a v i s ã o
incipiente, sem dúvida, evoluirá pelos caminhos d o préc l a s s i c i s m o i t a l i a n o p a r a o b r a s mais a f i r m a t i v a s , a i n d a n o s é c u l o
d e z o i t o . A m e d i d a d a s q u a l i d a d e s d o c o m p o s i t o r p o d e r á ser
avaliada n o século d e z e n o v e .
45
Cleofe Person de Mattos
Q u e assim p r o c e d e s s e c o m a autorização, ou por
i n c u m b ê n c i a , das autoridades eclesiásticas, nessas o b r a s q u e
o b v i a m e n t e v i n h a m p r e e n c h e r u m v a z i o na C a t e d r a l p r e d o m i n a
o p r o p ó s i t o d e c o m p o r p a r a o r e p e r t ó r i o da Sé, e n q u a n t o
mantinha-se n o p o s t o o c ó n e g o L o p e s Ferreira, q u e o o c u p o u
a t é 1798. A s o b r a s q u e J o s é M a u r í c i o c o m p ô s p a r a a S e m a n a
Santa d e 1798 f o r a m a última c o n t r i b u i ç ã o p a r a o r e p e r t ó r i o da
Sé a n t e s d e ser e x p e d i d a a p o r t a r i a q u e o t o r n a v a m e s t r e - d e capela.
O
mestrado
A p r o x i m a v a - s e d o f i m , a esta altura, a v i d a d o m e s t r e - d e c a p e l a c ó n e g o L o p e s Ferreira. C o m 28 a n o s d e m e s t r a d o , p e s a r i a
nos seus o m b r o s t o d o o t e m p o q u e ensaiou, tocou órgão, dirigiu
a m ú s i c a nas c e r i m ó n i a s da C a p e l a , c o m p ô s ? D i f í c i l a r e s p o s t a a
r e s p e i t o d e u m m e s t r e - d e - c a p e l a d e q u e m n ã o se e n c o n t r o u
n e n h u m a p á g i n a p o s i t i v a d e m ú s i c a d e sua a u t o r i a , p e l o m e n o s
até agora. Ter-se-iam p e r d i d o , c o m o o c o r r e u c o m a d o s seus
predecessores. A suposição d e q u e tivesse q u e m eventualmente
o s u b s t i t u í s s e n ã o d e v e ser a f a s t a d a . O c ó n e g o L o p e s F e r r e i r a
tinha às m ã o s o p a d r e J o s é M a u r í c i o , c u j a c a p a c i d a d e d e v e r i a
c o n h e c e r d e s d e m u i t o t e m p o , t a l v e z m e n i n o , q u e atuava na Sé,
d i r i g i a o c u r s o da Sé e e m 1798 já c a r r e g a v a u m a b a g a g e m d e
p e l o m e n o s três d e z e n a s d e c o m p o s i ç õ e s , s u p o s t a m e n t e p a r a a
Sé C a t e d r a l , a l g u m a s b a s t a n t e i m p o r t a n t e s .
O c ó n e g o L o p e s Ferreira
j u l h o d o m e s m o a n o , na rua da
ó b i t o s da C a t e d r a l r e g i s t r a o
Sacramento, e a Irmandade de
p e q u e n a d i f e r e n ç a d e data.
d e s a p a r e c e u n o dia 4 ( o u 5 ) d e
Vala, o n d e m o r a v a . 4 7 O l i v r o d e
a c o n t e c i m e n t o , assim c o m o o
São P e d r o , o q u e dá m a r g e m a
D o i s dias antes, em portaria d o b i s p o José J o a q u i m
Justiniano, f o r a i n d i c a d o para o p o s t o o p a d r e J o s é M a u r í c i o N u n e s
Garcia. O C a b i d o M e t r o p o l i t a n o d o Rio d e Janeiro (Catedral)
registrou o f a t o n o s s e g u i n t e s termos:48
A o s d o i s d e j u l h o d e mil s e t e c e n t o s e n o v e n t a e o i t o se
p a s s o u p o r t a r i a d e M e . d e C a p e l a d a Sé a o P a d r e J o s é
M a u r i c i o N u n e s G a r c ê s na f a q u e se acha r e g i s t r a d a n o L°
46
José Maurício Nunes Garcia biografia
2 Q , f. 155. D e q u e se f e z e s t e r e g i s t r o . Eu o p c . M a n o e l d o s
S a n t o s e S o u z a Escri iim - da C a m a r a o s u b s c r e v i e a s s i n e i .
N ã o d e i x a d e ser e s t r a n h o o " G a r c ê s " g r a f a d o p e l o m e s m o
escrivão q u e sete anos acompanhara d e perto a tramitação d o
p r o c e s s o de genere
e m q u e se habilitara o s a c e r d o t e . O f a t o
i n s ó l i t o d e a n t e c i p a r - s e a p o r t a r i a a o f a l e c i m e n t o d o titular —
p r o v a v e l m e n t e p o r d o e n ç a g r a v e e s e m s o l u ç ã o à vista — p o d e
ter s i d o d e c i d i d o p e l a s a u t o r i d a d e s e c l e s i á s t i c a s p a r a o f i c i a l i z a r
p o s i ç ã o q u e já e x e r c i a na I g r e j a , e m c a r á t e r o f i c i o s o , o j o v e m
c o m p o s i t o r n o s t r a b a l h o s da Sé. C r e d e n c i a i s s u f i c i e n t e s t i n h a - a s
José M a u r í c i o para justificar a indicação. N ã o s ó p e l o p r e p a r o
t é c n i c o , m a s a v i n c u l a ç ã o à v e l h a Sé, j u n t o a o v e l h o m e s t r e , o u
n o s e u lugar, s u b s t i t u i n d o - o q u a n d o n e c e s s á r i o c o m o c o m p o s i tor o u c o m o r e g e n t e , t o r n a v a m - n o a p e s s o a a ser e s c o l h i d a , s e m
h e s i t a ç ã o , n o c a s o d e d e s a p a r e c i m e n t o d o c ó n e g o L o p e s Ferreira.
Assumia o padre José Maurício N u n e s Garcia o mestrado
na Sé, q u e o c u p a r á até o f i m da v i d a e n t r e m o m e n t o s d e g r a n d e
alegria e p r o f u n d a d e c e p ç ã o . N a q u e l e m o m e n t o , realizava o seu
s o n h o , q u e r e u n i a o m ú s i c o q u e iria c o m p o r p a r a a C a t e d r a l e aí
d i r i g i r as suas o b r a s , e o o r a d o r na m e s m a p e s s o a .
C o m o mestre-de-capela cabia-lhe também responder
p e r a n t e o S e n a d o d a C â m a r a p e l a " m ú s i c a " q u e a c o m p a n h a v a as
f u n ç õ e s anuais d e a c o r d o c o m o calendário litúrgico pree s t a b e l e c i d o . O e l o , c o m o ato administrativo, entre José Maurício
e as a u t o r i d a d e s d o S e n a d o f a z i a - s e através d e " a r r e m a t a ç õ e s "
q u e d i z i a m r e s p e i t o a determinadas festas: São Sebastião, Corp u s Christi, V i s i t a ç ã o d e N o s s a S e n h o r a , S ã o F r a n c i s c o d e B o r j a .
A l é m d e s s a s c e r i m ó n i a s , era i g u a l m e n t e d o S e n a d o a
r e s p o n s a b i l i d a d e p o r e v e n t u a i s o c o r r ê n c i a s na f a m í l i a real —
c a s a m e n t o s , b a t i z a d o s , m o r t e s — o u na p r ó p r i a c o l ó n i a , i n c l u s i v e p o s s e d e v i c e - r e i s , f a l e c i m e n t o d e p e s s o a s gradas. 4 9 U m a
d a s p r i m e i r a s a r r e m a t a ç õ e s f o r a da r o t i n a c o u b e a o Te Deum e m
a ç ã o d e g r a ç a s p e l o n a s c i m e n t o d e D . P e d r o I, n o s s o p r i m e i r o
i m p e r a d o r , e m 29 d e n o v e m b r o d e 1798. J o s é M a u r í c i o r e c e b e u
33$280 p e l a " f u n ç ã o " . 5 0 T u d o a s s i n a l a d o e m c e r i m ó n i a s r e l i g i o s a s ,
d o q u e r e s u l t a v a m p e r s p e c t i v a s artísticas b a s t a n t e r a z o á v e i s e m
cada a n o , nas q u a i s o m e s t r e - d e - c a p e l a n ã o era a p e n a s o
a r r e g i m e n t a d o r e ensaiador, mas o r e g e n t e e, e v e n t u a l m e n t e , o
compositor.
O s assentamentos administrativos genéricos e abrangentes
d e s s e s a t o s l i m i t a v a m - s e , na m a i o r i a d o s c a s o s , a s i m p l e s
r e f e r ê n c i a à " M ú s i c a para as Festas d o S e n a d o " , o q u e n ã o p e r m i t e
i d e n t i f i c a r as o b r a s q u e l h e s c o r r e s p o n d e r i a c o m o g r a d u a i s ,
47
Cleofe Person de Mattos
matinas o u vésperas, e m manuscritos q u e porventura hajam
sobrevivido.
E m 1799 J o s é M a u r í c i o i n g r e s s o u na I r m a n d a d e d e N o s s a
Senhora d o Rosário e São Benedito dos H o m e n s Pretos. Até e n t ã o
concentrara e m duas irmandades o sentido profissional q u e o
c o n d u z i a : a I r m a n d a d e d e Santa Cecília " c o n f r a r i a d o s p r o f e s s o r e s
d e música", e a Irmandade d e São P e d r o d o s Clérigos, d e s d e 7
d e s e t e m b r o d e 1791- N ã o o f i z e r a a n t e s , c e r t a m e n t e p e l a
o p o s i ç ã o entre o Cabido e a Irmandade d e Nossa Senhora d o
R o s á r i o e S ã o B e n e d i t o d o s H o m e n s P r e t o s . Em 1799, já m e s t r e d e - c a p e l a , a f a s t a d a s as r a z õ e s d e o p o s i ç ã o , J o s é M a u r í c i o p ô d e
filiar-se à I r m a n d a d e o n d e o C a b i d o se abrigara s e m p r e , até e n t ã o .
Estranha-se, p o r é m , n ã o h a j a c o m p o s t o a l g u m a o b r a d e d i c a d a
aos o r a g o s da Irmandade.
A f u n c i o n a l i d a d e — n o sentido d e a d e q u a ç ã o da obra à
l i t u r g i a — será u m t r a ç o p e r s e v e r a n t e na sua m ú s i c a , n e s s e
p e r í o d o . C h e g a a ser, e m m u i t o s casos, o b s t á c u l o à sua p r e s e n ç a
artística — c o m o a m ú s i c a d e M o z a r t o u d e H a y d n .
São obras construídas num e s q u e m a e m q u e a alternância
d o canto g r e g o r i a n o e o c o r o — ou a orquestra — n ã o têm a
necessária a g i l i d a d e q u e se p r e s s u p õ e existir entre partes
c o n c e b i d a s para o f u n c i o n a m e n t o h a r m ó n i c o d o s g r u p o s
estabilizados.
D u a s o b r a s b a s t a n t e s i g n i f i c a t i v a s c o m p o s t a s e m 1799
r e f l e t e m a s p e c t o s a n t a g ó n i c o s — a a u s t e r i d a d e e a g r a ç a — da
c r i a ç ã o d o m e s t r e - d e - c a p e l a a o f i n d a r o a n o d e 1799: o
Ofício
para defuntos,
a Missa de requiem
e as Matinas
do Natal.
O
p r i m e i r o traz n o t í t u l o a h o m e n a g e m a o s m e m b r o s d o C a b i d o ,
m a s p o d e ter s i d o c o m p o s t o e m m e m ó r i a d e seu p r e d e c e s s o r n o
m e s t r a d o d a Sé, c ó n e g o L o p e s Ferreira. 5 1
A s Matinas
do Natal v i v e m a a t m o s f e r a a l e g r e , f e s t i v a , na
s i m p l i c i d a d e da c o m e m o r a ç ã o natalina. Os t e x t o s e v o c a d o s n o s
o i t o responsórios são m o m e n t o s d e louvação, d e alegria p e l o
N a t a l q u e c h e g a . O andante
d o 3 a r e s p o n s ó r i o — "dicite,
annunciate"—
r e p r e s e n t a u m m o m e n t o d e f e l i c i d a d e para a música
b r a s i l e i r a , n o s o l o d e s o p r a n o q u e se e x p a n d e na t r a n s p o s i ç ã o
espiritualizada d e uma m o d i n h a : "dizei, anunciai o q u e vistes".
A realização desse trecho faz pensar nos limites e nos
compromissos entre a f o r m a ç ã o européia que o compositor
assimilou, e o sentimento nacionalista q u e ele v i v e n c i o u . O q u e
n ã o p o d e ser o l h a d o c o m i n d i f e r e n ç a n o c o n t e x t o artístico e
t e m p o r a l d e uma obra c o m p o s t a para o ú l t i m o Natal d o s é c u l o
d e z o i t o , n o Brasil c o l ó n i a .
48
José Maurício Nunes Garcia biografia
O fim
do século: o orador
a manifestação
sacro e
profana
D o i s c a m i n h o s c o n t r a s t a n t e s p a r t i n d o d a m e s m a rica
p e r s o n a l i d a d e d ã o sinais p o s i t i v o s a n t e s d e f i n d a r o s é c u l o
d e z o i t o : a manifestação profana e a i m a g e m d o o r a d o r sacro. A
d e f i c i ê n c i a d e d o c u m e n t a ç ã o p e r t i n e n t e i m p e d e seja d e v i d a m e n t e
a q u i l a t a d o o s e u v a l o r n o c o n t e x t o d a m u l t i f a c e t a d a estrutura
intelectual d o padre José Maurício. O impulso interior q u e o
i m p e l i a p a r a u m a d i r e ç ã o — o u para outra — tinha o m o m e n t o
e x a t o d e e x e r c e r - s e , na m e d i d a e m q u e c a d a u m a d e l a s e x i g i a
da s o c i e d a d e a p o i o e s p e c í f i c o e o p o r t u n o para sustentar-se e
d e s e n v o l v e r - s e : a c a p a c i d a d e oratória e a liberdade de e x p a n d i r
s e u s s e n t i m e n t o s n a t i v i s t a s a t r a v é s da m ú s i c a r e l i g i o s a .
N o f i m d o s é c u l o d e z o i t o , o m o v i m e n t o da i n t e l e c t u a l i d a d e
n o R i o d e J a n e i r o s o f r e u n o v o i m p u l s o c o m o s t r a b a l h o s da
S o c i e d a d e Literária, q u e n o s d o i s s e n t i d o s t e v e a ç ã o s o b r e J o s é
M a u r í c i o . A t i v a e m d u a s f a s e s ( 1 7 8 6 e 1790 c o m o s o c i e d a d e
c i e n t í f i c a ) r e n a s c i d a e m 1794 c o m o literária, d e l a f a z i a m p a r t e
i n t e l e c t u a i s l i g a d o s a o b i s p o , e n t r e e l e s M a n u e l I n á c i o d a Silva
A l v a r e n g a , s e u p r o f e s s o r d e r e t ó r i c a a n t e s d e o ser n o i n í c i o d o
s é c u l o d e z e n o v e . A p a r t i c i p a ç ã o d o p a d r e J o s é M a u r í c i o nas
t e r t ú l i a s da S o c i e d a d e Literária é d i s c u t í v e l e s ó e n c o n t r a e c o
nos n o m e s das pessoas a q u e e s t e v e realmente ligado.52 Acusada
d e e n v o l v i m e n t o p o l í t i c o n ã o f a v o r á v e l aos interesses da coroa
p o r t u g u e s a , a S o c i e d a d e f o i d i s s o l v i d a e m 1794 p o r o r d e m d o
v i c e - r e i , c o n d e d e R e s e n d e . Seus integrantes ficaram p r e s o s até
o i n d u l t o d e D . Maria I, e m 1797.
O c o n v í v i o c o m o s m e m b r o s da S o c i e d a d e Literária f o i
m a r c a n t e , na d é c a d a d e 1790, p a r a a f o r m a ç ã o d e J o s é M a u r í c i o .
O n a t i v i s m o e m sua p e r s o n a l i d a d e teria t i d o p o r c e r t o o e s t í m u l o
d o s i d e a i s d o p o e t a Silva A l v a r e n g a . 5 3 M i n e i r o d e O u r o P r e t o ,
e m q u e m n ã o f a l t a r i a m v í n c u l o s c o m o s i n t e l e c t u a i s da
I n c o n f i d ê n c i a , n e m a tristeza c o m q u e c o n s i d e r a v a a " i n c u l t a
Pátria m i n h a " , seria s u r p r e e n d e n t e , p a r a a é p o c a , a f l o r a s s e na
m ú s i c a d o c o m p o s i t o r c a r i o c a e s s e t o q u e d e b r a s i l i d a d e e m sua
música religiosa.
N ã o s e r ã o a s p e c t o s m u i t o v e n t i l a d o s na f i s i o n o m i a cultural
d o padre-mestre a d o o r a d o r sacro q u e e f e t i v a m e n t e o foi, tanto
q u a n t o a d o m ú s i c o a n i m a d o p o r p r o f u n d o s e n t i m e n t o nativista.
A p a l a v r a e n t r e t o d a s ilustre d e u m g r a n d e o r a d o r b r a s i l e i r o
— f r e i F r a n c i s c o d e M o n t e A l v e r n e — d e v e s e r c i t a d a na
r e f e r ê n c i a e m q u e a p r e c i a o n í v e l d o s o r a d o r e s s a c r o s q u e se
49
Cleofe Person de Mattos
faziam ouvir n o Rio de Janeiro. Lembra q u e D. João costumava
d i z e r : "... p o s s u í a n o R i o d e J a n e i r o u m a s e l e ç ã o d e p r e g a d o r e s
q u e n ã o lhe permitiam lembrar os q u e deixara e m Portugal".
A c r e s c e n t a M o n t e A l v e r n e , d e f i n i n d o o v a l o r da c o n t r i b u i ç ã o
b r a s i l e i r a d e m o d o a b r a n g e n t e , m a s c o m a f o r ç a d e sua
a u t o r i d a d e : " N ó s p o d e m o s afirmar c o m t o d o o o r g u l h o da
v e r d a d e , q u e nenhum p r e g a d o r transatlântico e x c e d e u os
o r a d o r e s b r a s i l e i r o s " . 5 4 N a luta a b e r t a e n t r e b r a s i l e i r o s e
p o r t u g u e s e s , o a m b i e n t e m u s i c a l d a R e a l C a p e l a seria p r o p í c i o à
f e r o c i d a d e desencadeada pelas incontidas vaidades entre
i n t é r p r e t e s . Seria e s s e o a g r e s s i v o a m b i e n t e q u e c e r c a v a o o r a d o r
e m e s t r e - d e - c a p e l a . S o b esse a s p e c t o — o musical — mais uma
v e z a v o z d e M o n t e A l v e r n e d e v e ser l e m b r a d a q u a n d o se r e f e r e
à C a p e l a : "... s e r v i u d e a r e n a o n d e se m o s t r o u e m t o d a a sua
p o m p a o g é n i o b r a s i l e i r o " . A a b r a n g ê n c i a da p a l a v r a d e M o n t e
A l v e r n e , e m b o r a não cite diretamente o n o m e d o c o m p o s i t o r
b r a s i l e i r o — aliás, n e n h u m n o m e é c i t a d o — n ã o e x c l u i a f i g u r a
d e José Maurício dentre os o r a d o r e s sacros, músico d e cabeça
b e m estruturada, c o m estudos d e retórica a p r e c i a d o s p o r seu
m e s t r e , Silva A l v a r e n g a , e l o u v a d o s " t a l e n t o s f o r a d a m ú s i c a " ,
c o m o e s c r e v e u C u n h a B a r b o s a . É b o m r e c o r d a r q u e e m 1791 o
d e ã o da Sé já r e c o n h e c e r a e s s a s q u a l i d a d e s e m J o s é M a u r í c i o e
o a p o n t a n o p r o c e s s o de genere como
"Orador".
N a m e s m a linha i n t e r v é m J a n u á r i o d a C u n h a B a r b o s a , q u e
n ã o e s c o n d e , e m sua a d m i r a ç ã o p e l o p a d r e - m e s t r e , a p r e f e r ê n c i a
p e l o o r a d o r s a c r o , e l o u v a o i n t e l e c t u a l " q u e se f e z c u l t i v a n d o
c o m z e l o e p e r s e v e r a n ç a o s talentos c o m q u e o dotara a natureza."
Escreve, n o N e c r o l ó g i o , o grande tribuno:
"Mas a sua g l o r i a , p a r e c e n d o b e m f i r m a d a nesta b a s e [da
música] que faz a admiração
dos nacionais e dos
e s t r a n g e i r o s , avulta m u i t o m a i s p o r o u t r o s m e r e c i m e n t o s
q u e e l e soubera adquirir, e q u e n ã o h e justo e n t r e g a r a o
s i l e n c i o d o s m o r t o s , m o r m e n t e q u a n d o da sua r e c o r d a ç ã o
se p o d e c o n h e c e r q u e o g r a n d e M u s i c o , q u e ora p a r e c e
deixar v a g o e p o r l o n g o s tempos, o lugar que tão
d i g n a m e n t e o c u p a v a e n t r e o s m a i s c e l e b r e s , sabia a j u n t a r
a o s c o n h e c i m e n t o s da sua P r o f i s s ã o f a v o r i t a , o u t r o s n ã o
menos respeitáveis."
M a i s a d i a n t e , J a n u á r i o da C u n h a B a r b o s a r e a f i r m a o s e u
pensamento:
50
José Maurício Nunes Garcia biografia
" E s t u d o u R h e t o r i c a c o m i g u a l a p r o v e i t a m e n t o , o u v i n d o as
l i ç õ e s d o D o u t o r M a n o e l I g n a c i o d a Silva A l v a r e n g a , e d e u
p r o v a s d e p o i s d e q u e estava senhor dos preceitos de
e l o q u e n c i a e d e q u e s a b i a usar d e l e s na e x p o s i ç ã o d e
a r g u m e n t o s d e T h e o l o g i a , a q u e t a m b é m se a p l i c o u , em
muitos
e excelentes
Sermoens
que pregou,
depois de se
o r d e n a r d e P r e s b y t e r o n o a n n o d e 1792". ( g r i f o d a a u t o r a )
S ã o d e p o i m e n t o s , sim, m a s q u e v a l e m p e l o v a l o r d a f i g u r a
q u e d e p õ e . O q u e resta da sua o r a t ó r i a , se n ã o f o r a m p r e t e r i d o s
a o s a b o r da i m a g i n a ç ã o e da i n t e l i g ê n c i a e m v e z d e g r a f a d o s ,
l i m i t a - s e h o j e s i m p l e s m e n t e a o s t e m a s d e c i n c o s e r m õ e s . Seus
t í t u l o s e s t ã o i n s c r i t o s na a l e g o r i a i m p r e s s a na f o l h a d e r o s t o d a s
Mauricinas55
d o Dr. N u n e s G a r c i a : S e r m ã o d a s D o r e s , S e r m ã o
d a s L á g r i m a s , S e r m ã o d e Santa C e c í l i a , S e r m ã o d o s S a n t o s
Inocentes e Sermão de Pentecostes.
N ã o s ó a f i g u r a d o o r a d o r s a c r o é d e f i c i e n t e na
d o c u m e n t a ç ã o mauriciana. T a m b é m o é a manifestação profana,
n ã o o b s t a n t e o c o n h e c i m e n t o q u e se t e m d o c a n t a d o r d e
m o d i n h a s e xácaras a c o m p a n h a n d o - s e a o violão. Impressas no
s é c u l o d e z e n o v e , elas representam um d o s aspectos sabidamente
m a r c a n t e s da p e r s o n a l i d a d e d o m ú s i c o d e f o r t e v e i a m o d i n h e i r a .
O h á b i t o d o s a c e r d o t e n ã o l h e a b a f a r á essa v e i a , q u e t e m o s e u
l a d o d e s e n s u a l i d a d e e n ã o o a b a n d o n a r á até t a r d e d a v i d a . 5 6
A o findar o século, o padre José Maurício fixa residência
na z o n a f e s t i v a da c i d a d e . E s c r e v e T a u n a y s o b r e o s c é l e b r e s
" s a r a u s m u s i c a i s " da rua d a s M a r r e c a s , e n t ã o c h a m a d a rua d a s
B e l l a s N o u t e s . A s n o v a s c o n d i ç õ e s p r o p o r c i o n a d a s p o r essa
m o r a d i a a b r e m e s p a ç o s n o v o s e m sua o b r a e e m sua v i d a . O s
m o r a d o r e s r e u n i a m - s e nas calçadas c a n t a n d o m o d i n h a s e f a z e n d o
serenatas, f o r m a n d o nas v i z i n h a n ç a s d o P a s s e i o P ú b l i c o o
a m b i e n t e e s t i m u l a n t e p a r a o s c o m p o s i t o r e s na e x p a n s ã o d o
género.
A f a s e d e v e c o r r e s p o n d e r n ã o s ó às três m o d i n h a s
p o s t e r i o r m e n t e impressas c o m o admitir q u e o p a d r e J o s é M a u r í c i o
h a j a c o m p o s t o n ú m e r o b e m m a i o r d o q u e as três c u j o s t í t u l o s se
c o n h e c e m . Ter-se-ia p e r d i d o o material d e s a b r o c h a d o nas
c a l ç a d a s da rua d a s M a r r e c a s , s e j a p o r q u e f o s s e m o b r a s d e v i d a
e f é m e r a , n a s c i d a s para v i v e r a q u e l e m o m e n t o , seja p o r q u e , c o m o
e x p a n s ã o a m e i o c a m i n h o da música p o p u l a r , n e m t o d a s
houvessem sido grafadas.
Três m o d i n h a s f o r a m impressas p e l o editor Pierre Laforge57
nas d a t a s s e g u i n t e s e a n u n c i a d a s n o Jornal
do
Commercio:
51
Cleofe Person de Mattos
Beijo a mão que me condena
(1837)
No momento
da partida
meu coração
t'entreguei
Marilia,
se me não amas, não me digas a verdade
(1837)
(1840)
A p r i m e i r a d i v u l g o u - s e c o m letra da a u t o r i a d o Dr. N u n e s
G a r c i a , s e g u n d o a n u n c i a O Trovador*
e m 1876, f a z e n d o c r e r
q u e o texto original, anterior a o q u e foi p u b l i c a d o por Laforge,
haja d e s a p a r e c i d o .
A segunda talvez represente parceria c o m o marquês d e
M a r i c á . 5 9 C o l a b o r a ç ã o n ã o a s s i n a l a d a na f o n t e :
"No momento
da partida,
meu coração
t 'entreguei,
modinha
brazileira, c o m a c o m p a n h a m e n t o d e piano, composta p e l o
i n s i g n e R. S. P. M . J o s é M a u r i c i o N u n e s G a r c i a , p r e ç o 160."
A p r o p ó s i t o desta m o d i n h a cabe r e f e r ê n c i a a u m álbum
impresso, de q u e foi encontrado e x e m p l a r incompleto. Das
m o d i n h a s q u e f a r i a m p a r t e d o v o l u m e 10 o u 12 — o q u e era
f r e q u e n t e e m Portugal e n o Brasil — a p e n a s c i n c o f o r a m
c o n s e r v a d a s : as d e n ú m e r o 1, 2, 6, 8, 10. N o e x e m p l a r ú n i c o até
agora l o c a l i z a d o (Escola d e Música, reg. 4132-4137) a folha d e
r o s t o i n e x i s t e n t e , d o q u e resulta faltar o título, o l o c a l e a data
da i m p r e s s ã o . T a m b é m n ã o e s t ã o l a n ç a d o s nas p á g i n a s o s n o m e s
dos respectivos compositores. Apenas o número. Algumas foram
i d e n t i f i c a d a s p o r s e r e m c o n h e c i d a s . Seus a u t o r e s s ã o t o d o s
c o n t e m p o r â n e o s d e J o s é M a u r í c i o , i n c l u s i v e a l u n o s seus. 6 0 N a
m o d i n h a d e n ú m e r o 8 o texto utilizado é, p r e c i s a m e n t e , o q u e
v e m a n u n c i a d o n o Jornal
do Commercio
d e 23.11.1837.
S ã o e l e m e n t o s q u e p e r m i t e m seja atribuída a J o s é M a u r í c i o
N u n e s G a r c i a a autoria dessa m o d i n h a c o m p o s t a s o b r e t e x t o duas
vezes impresso.
A s o u t r a s m o d i n h a s i m p r e s s a s e r a m p e ç a s já c o n h e c i d a s
e m u n i d a d e s a v u l s a s . L e v e - s e e m c o n t a a m é t r i c a e as s o l u ç õ e s
d a d a s à estrutura da m o d i n h a , a a u d á c i a na m o v i m e n t a ç ã o e o
c a r á t e r u m t a n t o e r u d i t o da p e ç a , q u e t r a e m o c o m p o s i t o r
h a b i t u a d o a lidar c o m v o z e s t e c n i c a m e n t e t r a b a l h a d a s . A l é m da
s i m i l i t u d e estrutural c o m o u t r a s m o d i n h a s d e J o s é M a u r í c i o .
A t e r c e i r a m o d i n h a p r i n c i p i a a ser c o n h e c i d a n o a n ú n c i o
d o Jornal
do Commercio
d e 14.2.1840:
MISICA.
Na imprensa de I' L a f o n e , rua d a C a i ú A ^ j T f l J l d í a n . 89, a c a b a d o se i m p r i m i r a s e g u i n t e
^ « ^ ^ • m o d i n h a , composta pelo celebre c o m p o s i t o r flumiuensc o p a d r e m o s t r e José . M a u r i c i o .Nunes
G a r c i a , preço 160:
Marilia, se me não amas,
' .Yão me digas a verdade, etc.
52
José Maurício Nunes Garcia biografia
O Trovador61
o f e r e c e a t r a n s c r i ç ã o i n t e g r a l d o t e x t o da
m o d i n h a , e s c l a r e c e n d o : "Poesia e Música d o f a l l e c i d o Padre
M e s t r e J o s é M a u r í c i o N u n e s G a r c i a " . N ã o d e i x a d e ser c u r i o s o o
s u s p i r a r a r c á d i c o d o p a d r e - m e s t r e na v e r s ã o d e O
Trovador.
"Marília,
se me não amas /Não me digas a
verdade
Finge amor, tem compaixão
/ Mente, ingrata, por
piedade.
Dize que longe de mim / Sentes penosa
saudade,
Dá-me
esta doce ilusão / Mente, ingrata,
por piedade.
"
U m e x e m p l a r da e d i ç ã o d e P i e r r e L a f o r g e , d e 1840, r e ú n e
esta a o u t r a s m o d i n h a s b r a s i l e i r a s e f o i l o c a l i z a d o na A l e m a n h a ,
na B i b l i o t e k d e r R o b e r t Bosch: 6 2 Colleção de modinhas
brazileiras
com acompanhamento
de piano
/ de vários
autores.
Rio de
J a n e i r o ; I m p r e n s a d e m ú s i c a d e P. L a f o r g e , rua da C a d ê a , n. 89.
A r e s p e i t o desta terceira e deliciosa m o d i n h a , e à autoria
d o t e x t o , q u e traz n o v a m e n t e à b a i l a o m a r q u ê s d e M a r i c á , é
b o m recordar J o a q u i m Manuel d e Macedo.63 Refere-se o autor a
uma moça Chiquinha, chegada d e Minas Gerais, d e costumes
f á c e i s , q u e t o c a v a s o f r i v e l m e n t e guitarra e cantava c o m e x c e l e n t e
v o z m o d i n h a s e l u n d u s . E n ã o h a v i a n i n g u é m , c o m o essa m o ç a
mineira, q u e cantasse c o m doçura, e x p r e s s ã o e r e q u i n t a d o g o s t o
a m o d i n h a e n t ã o e m v o g a (1822), e m v e r s o s d o ilustrado f i l ó s o f o
d e p o i s m a r q u ê s d e M a r i c á : " M a r í l i a , se m e n ã o a m a s , n ã o m e
digas a verdade".
D i f i c i l m e n t e se admitiria, na c o n d i ç ã o s o c i a l d o Brasil, outra
m a n i f e s t a ç ã o q u e p u d e s s e integrar o sincretismo d e brasilidade
na m ú s i c a b r a s i l e i r a , f o r a d o s e n t i m e n t o s e r e s t e i r o . A m o d i n h a ,
feita d e e l e m e n t o s c o m u n s à música e u r o p é i a — o t e x t o , a
m e l o d i a c h e g a d a a p a d r õ e s c o n h e c i d o s , nascida e d e s e n v o l v i d a
s o b o s i g n o d e u m c r u z a m e n t o d e raças — tinha q u a l i d a d e s p a r a
ocupar, culturalmente, o e s p a ç o q u e lhe cabia nessa
m i s c i g e n a ç ã o . E c r e s c e r c o m ela. S ã o c a n t o s s e r e s t e i r o s q u e t r a e m
na o b r a d e J o s é M a u r í c i o o c a n t a d o r d e m o d i n h a s e x á c a r a s , e
r e v e l a m o m ú s i c o q u e traz u m v u l c ã o d e n t r o d e si e s e r e n d e a
esse g é n e r o m e i o popular, m e i o erudito, f a z e n d o - o aflorar e m
v á r i a s c o m p o s i ç õ e s r e l i g i o s a s . O s e c o s d e s s e g é n e r o na m ú s i c a
d e J o s é M a u r í c i o p o d e m ser v i s t o s c o m as p r i m e i r a s m a n i f e s t a ç õ e s
d o nosso nacionalismo musical.
53
Cleofe Person de Mattos
O início
do século
dezenove
A o despontar o século dezenove, a personalidade d o neto
das escravas Joana G o n ç a l v e s e Ana Corrêa d o Desterro afirmas e c o m o u m a estrutura s ó l i d a . Sua f i g u r a d e p r o f e s s o r , r e g e n t e ,
c o m p o s i t o r e o r a d o r s a c r o p r o j e t a - s e c o m p r e s t í g i o c r e s c e n t e na
s o c i e d a d e carioca.
C o n d i c i o n a d a e m b o r a às n e c e s s i d a d e s d o c u l t o , a p r o d u ç ã o
d o mestre-de-capela abre-se a g é n e r o s mais diversificados, s e m
c o n t a r as p r o v á v e i s m a n i f e s t a ç õ e s na área p r o f a n a . O i n t e r e s s e
p e l a r e a l i z a ç ã o p u r a m e n t e i n s t r u m e n t a l t r a n s p a r e c e , na v i r a d a
d o s é c u l o , nas i n t r o d u ç õ e s d e p e ç a s r e l i g i o s a s — v e í c u l o s a b e r t o s
à sua fantasia d e m ú s i c o , e m contraste c o m a austera s i m p l i c i d a d e
d a c o n c e p ç ã o c o r a l — e a f i r m a - s e na c o m p o s i ç ã o d e d u a s
a b e r t u r a s : a c h a m a d a "da T e m p e s t a d e " , cuja data n ã o se c o n h e c e
e x a t a m e n t e , mas q u e f o i a p r e s e n t a d a p o r o c a s i ã o d e u m
Elogio
dramático
n o aniversário d o vice-rei D. F e r n a n d o de Portugal,
q u e e x e r c e u o m a n d a t o d e 1801 a 1806; 64 e a Zemira,
composta
e m 1803A o fixar a a t e n ç ã o para o m o m e n t o d e transição q u e se
a p r o x i m a , a i m p o r t â n c i a da p r o d u ç ã o s e t e c e n t i s t a a v u l t a — e n o
seu c o n c e i t o estilístico p o d e - s e e s t e n d ê - l a a t é 1807 — p o r i n c i d i r
numa linguagem e m e v o l u ç ã o livre d e influências q u e pudessem
d e s c a r a c t e r i z á - l a , a n t e s q u e se t r a n s f o r m e t o d o u m c o n c e i t o d e
música religiosa.
Quarenta obras representam, aproximadamente, a b a g a g e m
d e J o s é M a u r í c i o d e s d e sua p r i m e i r a c o m p o s i ç ã o e m 1783- O
q u e c a b e aos sete anos f o c a l i z a d o s neste capítulo limita-se a
s e i s o b r a s d a t a d a s : d o i s g r a d u a i s — para a f e s t a d e R e i s e d e
P e n t e c o s t e s — o m o t e t o "a s o l o " , d e 1800, u m Te Deum
para
v o z e s e ó r g ã o e m 1801, a Missa em Si bemol, t a m b é m d e 1801, a
Zemira
e m 1803 e a a n t í f o n a In honorem
beatissimae
Maria
Virginis,
c o m orquestra, c o m p o s t a e m 1807.Duas dessas obras
s ã o c o n h e c i d a s e m v e r s ã o n ã o a u t ê n t i c a : a Missa em Si bemol e a
Zemira.
O s o r i g i n a i s q u e s e r v i r a m à r e c o n s t i t u i ç ã o dessas duas o b r a s
foram entregues a Alberto N e p o m u c e n o e a Leopoldo Miguez e
n u n c a m a i s e n c o n t r a d o s . N o c a s o da Missa,65 o t í t u l o n ã o f o i
transcrito por n e n h u m d o s q u e cuidaram d o s manuscritos e de
sua p r o b l e m á t i c a , a s s u n t o t r a t a d o e m n o t a : a i n d i s c u t í v e l
i n c o m p l e t a ç ã o da o b r a — falta a p a r t e d e b a i x o v o c a l — e o
a c o m p a n h a m e n t o , se p o r ó r g ã o o u o r q u e s t r a . A Zemira66
é
c o n h e c i d a a t r a v é s da o r q u e s t r a ç ã o f e i t a n o f i m d o s é c u l o
d e z e n o v e p o r L e o p o l d o M i g u e z e a p r e s e n t a d a e m 1898 e m c o n -
54
José Maurício Nunes Garcia biografia
certo d o Centro Artístico c o m o "Protofonia" de ópera
d e s a p a r e c i d a , o q u e nada c o n f i r m a .
E m 1800 J o s é M a u r í c i o c o m p ô s o m o t e t o "a s o l o " p a r a s o p r a n o e a c o m p a n h a m e n t o d e orquestra (flautas, trompas, cordas
s e m v i o l a ) . 6 7 P e ç a d e estrutura binária, o m o t e t o é a obra
e s t i l i s t i c a m e n t e m a i s r o c o c ó n o p a n o r a m a da m ú s i c a d o p a d r e
J o s é M a u r í c i o . S e u p r e c i o s i s m o d i n â m i c o v e m e x p o s t o na
o s c i l a ç ã o f r e q u e n t e e n t r e o p i a n o e o p i a n í s s i m o , o u na o p ç ã o
e m tornar o p r i m e i r o t e m p o d o c o m p a s s o o m o m e n t o p r o p í c i o
aos p i a n o s súbitos, e v i t a n d o atribuir-lhe um p e s o q u e o
s o b r e s s a l t o na p r o s ó d i a latina n ã o c o m p e n s a .
A a n t í f o n a d e 1807, última o b r a l o c a l i z a d a c o m data, a n t e s
d e 1808, e q u e p o r essa r a z ã o p o d e ser c o n s i d e r a d a o
e n c e r r a m e n t o d e t o d o um p e r í o d o d e criação musical — o
s e t e c e n t i s t a — m o s t r a q u e J o s é M a u r í c i o às v é s p e r a s da c h e g a d a
d e D. J o ã o mantinha-se fiel aos princípios d o Classicismo, c o m
e l e g â n c i a e p r o p r i e d a d e . I s s o l h e atribui u m a p o s i ç ã o q u e será
tratada n o f i m d e s t e c a p í t u l o .
O e m p e n h o e m preparar-se para a f u n ç ã o d e o r a d o r sacro
e o b t e r a necessária licença para pregar, l e v o u José M a u r í c j o a
r e t o m a r o s e s t u d o s d e r e t ó r i c a d e 1802 a 1804 c o m o p r o f e s s o r
Silva A l v a r e n g a . Este n ã o p o u p o u o s e l o g i o s a o a l u n o , d e q u e m
d i s s e ter f r e q u e n t a d o .suas aulas f a z e n d o " r á p i d o s p r o g r e s s o s q u e
raras v e z e s s e e n c o n t r a m " .
O b r i g a ç õ e s assumidas e m outras fontes de trabalho —
c o m p o r para a I r m a n d a d e d e S ã o P e d r o e p a r a a O r d e m T e r c e i r a
d o C a r m o — a c r e s c e n t a m - s e nessa f a s e da v i d a d e J o s é M a u r í c i o
a l é m d e s e u s d e v e r e s d e m e s t r e - d e - c a p e l a d a Sé e d o S e n a d o da
Câmara.
É e s t r a n h o c o n s t a t a r - s e seja escassa a p r o d u ç ã o l o c a l i z a d a
n o p e r í o d o , n ã o só e m manuscritos tanto q u a n t o e m registros
n o s catálogos antigos. O s compromissos c o m o Senado eram
a r r e m a t a ç õ e s r o t i n e i r a s p a r a as m e s m a s f e s t a s . N ã o se d e v e
a d m i t i r a e s c a s s e z d e o b r a s c o m o d e c r é s c i m o na p r o d u ç ã o ; o
e x t r a v i o d e o b r a s e x p l i c a r á o f a t o , c o i n c i d e n t e nas d e m a i s f o n t e s
de trabalho.
A d m i t i d o na I r m a n d a d e d e São P e d r o c o m o i r m ã o , e m 1791,
o v í n c u l o c o m o c o m p o s i t o r n o p r e p a r o da m ú s i c a p r i n c i p i o u ,
c o m o na Sé, a p ó s o d e s a p a r e c i m e n t o d o c ó n e g o L o p e s F e r r e i r a ,
q u e r e s p o n d i a i g u a l m e n t e p e l a m ú s i c a na I r m a n d a d e d e S ã o
P e d r o 6 8 . O p r i m e i r o c o m p r o m i s s o c o m a " m ú s i c a p a r a as f e s t a s
d o dia d o S a n t o Patriarca" e v o l u i u n o s a n o s s e g u i n t e s para outras
c o m e m o r a ç õ e s : registram-se v é s p e r a s , n o v e n a s , T e D e u m , música
p a r a as d o m i n g a s e p a r a a S e m a n a Santa, e a i n d a m i s s a d e
55
Cleofe Person de Mattos
c a n t o c h ã o na q u i n t a - f e i r a Santa. N o v a s d e v o ç õ e s e s t ã o
a s s i n a l a d a s n o s a n o s d e 1807 e m d i a n t e , a l c a n ç a n d o u m total d e
mais d e trinta o b r a s o q u e representa a l g o d e p o n d e r á v e l , l a n ç a d o
n o l i v r o 3 a d a R e c e i t a e D e s p e s a da I r m a n d a d e . O a s s u n t o será
o b j e t o d e r e f e r ê n c i a n o c a p í t u l o d e d i c a d o a 1811, q u a n d o s e
interrompeu o vínculo entre José Maurício e a Irmandade d e São
Pedro.
A outra f o n t e de trabalho — a Venerável O r d e m Terceira
d o Carmo — que desde o século dezoito realizava cerimónias
r e l i g i o s a s p e l a S e m a n a Santa e festas d e N o s s a S e n h o r a d o C a r m o
( j u l h o ) e Santa T e r e s a ( o u t u b r o ) , r e v e l o u - s e o d e s t i n o d e m u i t a s
e importantes obras d o p a d r e José Maurício. D e v e - s e admitir
a p e n a s q u e o s e n t e n d i m e n t o s p r o f i s s i o n a i s entre a O r d e m Terceira
e o c o m p o s i t o r e r a m m a i s c o m p l i c a d o s 6 9 . P a r t i n d o da p r e m i s s a
q u e Batista L i s b o a n ã o era c o m p o s i t o r — p o d e r i a s e r r e g e n t e ,
c o m o " p r o f e s s o r " q u e era d e s d e 1784 p e l a I r m a n d a d e d e Santa
C e c í l i a , e d i r e t o r d e m ú s i c a , p o s t o q u e l h e é a d j u d i c a d o e m 1802
— conclui-se q u e n o caso d e José Maurício o i r m ã o andador
f u n c i o n a v a c o m o u m a e s p é c i e d e e m p r e s á r i o : era o r e s p o n s á v e l
p e l a o b r a e n c o m e n d a d a e p o r sua e x e c u ç ã o . O n o m e d o a u t o r
da m ú s i c a n ã o era c i t a d o n o s l i v r o s d e d e s p e s a s ; c i r c u n s c r e v i a se a o s m a n u s c r i t o s musicais, 7 0 c o n s e r v a d o s , n ã o n o a r q u i v o da
O r d e m T e r c e i r a , m a s n o a r q u i v o d e Batista L i s b o a .
C o n q u a n t o seja i m p o s s í v e l a c o m p r o v a ç ã o , p o r ausência
d e r e c i b o s o u q u a i s q u e r o u t r o s sinais m a i s e x p r e s s i v o s n o s
manuscritos localizados, todos os casos prováveis d e obras
c o m p o s t a s para o s e v e n t o s d a O r d e m T e r c e i r a f o r a m c o n s e r v a d o s
p o r Batista L i s b o a e m s e u a r q u i v o p a r t i c u l a r . É o q u e p e r m i t e
o l h a r c o m o q u e u m c í r c u l o f e c h a d o , a c o m p o s i ç ã o e o seu d e s t i n o .
A e v i d ê n c i a d e s s e s f a t o s ressalta e m c o i n c i d ê n c i a s v á r i a s :
o r e g i s t r o d o e v e n t o n o s l i v r o s da O r d e m , a c o m p o s i ç ã o d o p a d r e - m e s t r e para a c e r i m ó n i a , n o m e s m o a n o , e o manuscrito
c o r r e s p o n d e n t e , s e m p r e rubricado p e l o diretor d e música. O s
m a n u s c r i t o s q u e t r a z e m essa rubrica — e m 1790, c o m o e m 1798,
1807, c o m o o c o r r e r á e m 1813, 1814, 1815, 1816 e 1818 — sinal
d e p a s s a g e m p e l o a r q u i v o d e Batista L i s b o a , l e v a n t o u o v é u d o s
a c o n t e c i m e n t o s . 7 1 É essa a e n g r e n a g e m q u e se e n c o n t r a e m
m a n u s c r i t o s d a é p o c a , e se r e p e t e e m 1807, última d a t a a n t e s da
c h e g a d a d e D . J o ã o , na a n t í f o n a p a r a N o s s a S e n h o r a d o C a r m o :
In honorem
beatissimce
Maria
Virginis.
São p e r t i n e n t e s essas o b s e r v a ç õ e s , t e n d e n t e s a esclarecer
a p r o d u ç ã o mauriciana nos primeiros anos d o século d e z e n o v e .
O t r a b a l h o c o n c e n t r a d o d e J o s é M a u r í c i o nas f u n ç õ e s q u e assumiu
56
José Maurício Nunes Garcia biografia
na R e a l C a p e l a , a partir d e 1808, i m p e d i u d u r a n t e a l g u n s a n o s a
c o l a b o r a ç ã o c o m a O r d e m Terceira d o Carmo.72
A rubrica d e Batista L i s b o a n ã o f r e q u e n t a r á m a n u s c r i t o s d e
J o s é M a u r í c i o d a t a d o s até 1813, q u a n d o n o v a s e i m p o r t a n t e s o b r a s
s e r ã o c o m p o s t a s p e l o p a d r e - m e s t r e , já e m outra f a s e . I g u a l m e n t e
transferidas para a c o l e ç ã o d e B e n t o das Mercês.73
É s o b r e t u d o a data da c o m p o s i ç ã o q u e f a z recair na p e q u e n a
a n t í f o n a d e 1807 In honorem
beatissimae
Maria
Virginis,
última
o b r a c o m d a t a a n t e r i o r a 1808, a o m e s m o t e m p o q u e e n c e r r a
t o d o u m p e r í o d o d e criação musical, o p o n t o d e referência
e s c o l h i d o p a r a o c o n f r o n t o e n t r e as d u a s f a s e s d i s t i n t a s da
l i n g u a g e m m a u r i c i a n a : a s e t e c e n t i s t a e a q u e está p r e s t e s a
m a n i f e s t a r - s e . O q u e justifica suas c a r a c t e r í s t i c a s m u s i c a i s .
P e ç a d e curtas p r o p o r ç õ e s — 26 c o m p a s s o s — as l i n h a s
g e r a i s da a n t í f o n a e v i d e n c i a m q u e às v é s p e r a s da c h e g a d a d e
D . J o ã o , e m 1808, o c o m p o s i t o r m a n t i n h a - s e f i e l à s i m p l i c i d a d e
e e l e g â n c i a , a p a n á g i o s d o Classicismo, numa c o m p o s i ç ã o b e m
m a i s m o d e s t a d o q u e muitas o b r a s a n t e r i o r e s d o s é c u l o d e z o i t o .
E q u i l i b r a d a c o m o estrutura, d i v i d e - s e e m v á r i o s s e g m e n t o s :
introdução, s o l o d e soprano, coro, interlúdio de orquestra e coda
final.
A melodia desenvolve-se com simplicidade, com leve
tendência ao cromatismo.
O c u r t o s o l o d e s o p r a n o e o â m b i t o e m q u e se m o v e —
i n t e r v a l o d e 6a m a i o r — n ã o d e i x a d ú v i d a d e s t i n a r - s e a u m t i p l e .
T o d a a g a m a d a s h a r m o n i a s naturais d e d o m i n a n t e s ã o
e m p r e g a d a s nesta p e q u e n a p e ç a : a e l a s a c r e s c e n t a m - s e a c o r d e s
d e sétima p o r p r o l o n g a ç ã o , a 6a napolitana e, num c a s o ú n i c o
q u e alia t r a ç o s d o p a s s a d o e u m p o u c o d e o u s a d i a , u m a c o r d e
d e 6 a a u m e n t a d a dá u m t o q u e m a i s v i v o . O b a i x o c i f r a d o é
p r e s e n ç a c o n s t a n t e d e s d e as p r i m e i r a s o b r a s d e J o s é M a u r í c i o .
O s instrumentos d e s o p r o são tratados c o m discrição: os metais
c o m a f u n ç ã o harmónica peculiar à obra o c o m p o s i t o r c o n s e r v o u
m e s m o e m f a s e m a i s tardia. A f l a u t a n ã o s e l i m i t a a d u p l i c a r a
v o z ou instrumento agudo. T e m movimentação própria, b e m
escrita, graciosa. Partes q u e t ê m a e n v o l v ê - l a s o m o v i m e n t o
s i m p l e s o n d e n ã o falta o interesse, quer n o d i á l o g o e
m o v i m e n t a ç ã o das frases, q u e r nas a r t i c u l a ç õ e s instrumentais c o m
n o t a s r e p e t i d a s , a c o r d e s , n o t a s e m staccati
que enriquecem a
escrita das cordas.
A a n t í f o n a d e 1807 é a ú l t i m a o b r a c o m d a t a c o n h e c i d a
c o m p o s t a p o r José Maurício n o início d o século d e z e n o v e . Alguns
m e s e s a p ó s a c o m p o s i ç ã o desta p e ç a , o a v i s o da p r ó x i m a c h e g a d a
d o príncipe regente de Portugal sobressalta a cidade,
57
Cleofe Person de Mattos
p r e n u n c i a n d o para o R i o d e Janeiro o e n c e r r a m e n t o d e uma fase
histórica: o f i m d o p e r í o d o c o l o n i a l para a c i d a d e q u e d e s d e
1763 era a c a p i t a l d a c o l ó n i a p o r t u g u e s a na A m é r i c a . O R i o d e
J a n e i r o p a s s a v a a ser a s e d e da a d m i n i s t r a ç ã o da c o r o a
portuguesa.
58
Segunda parte
(1808-1821)
Severiana
Rosa de
1808
Castro
A n t e s d e abrir e s p a ç o para o a n o d e 1808, q u a n d o
importante a c o n t e c i m e n t o sacode a história d o Rio d e Janeiro,
i m p õ e - s e b r e v e digressão não musical para assinalar a presença
d e uma criatura na vida d o p a d r e - m e s t r e . C h a m a v a - s e ela
Severiana Rosa d e Castro, 74 era vinte e dois anos mais j o v e m d o
q u e José Maurício e a mãe dos filhos que pesam e m sua bagagem
sentimental. P r o l e proibida pela Igreja, não seria c ó m o d a na
consciência d o sacerdote.
A r e s p e i t o da d e s c e n d ê n c i a d o p a d r e José M a u r í c i o
e s c l a r e c e o Dr. N u n e s Garcia, e m 1860, q u e a o t e m p o d o
r e c o n h e c i m e n t o p a t e r n o eram "quatro os meus irmãos v i v o s d e
pai e m ã e " . Palavras q u e v ê m confirmar, n ã o só a pluralidade
da d e s c e n d ê n c i a d o padre, filhos d e uma única mulher, c o m o o
f a t o d e os f i l h o s d e Severiana registrados nos livros d e batismo
da freguesia d e São José serem, realmente, filhos d o mestre-decapela. O Dr. Nunes Garcia acrescenta dados mais precisos c o m
r e f e r ê n c i a a esses irmãos, o q u e n ã o exclui a idéia d e algum
o u t r o já f a l e c i d o , ou d e outra o r i g e m q u e n ã o a Severiana. 7 5
A alusão aos filhos " v i v o s " e x i g e referência a o m e n i n o
n a s c i d o d e Severiana e m 1806 ( b a t i z a d o e m 3 d e j u n h o ) que
t o m o u o n o m e d e José. Teria sido batizado às pressas, p o i s não
t e v e madrinha d e batismo, apenas padrinho; desapareceu antes
d e 10 d e d e z e m b r o d e 1808, q u a n d o o seu n o m e é d a d o a outra
criança, q u e será o futuro Dr. Nunes Garcia.
Os livros 4° e 5° d e batismo da freguesia de São José d ã o
consistência às i n f o r m a ç õ e s d o Dr. Nunes Garcia a respeito d e
seus irmãos, citando nomes. Segue registro abreviado: 7 6
1806 - José; p a d r i n h o : Manuel D e l f i m Silva. B a t i z a d o a
3.6, L° 4°, p. 332 v.
1807 - A p o l i n á r i o José; padrinhos: José Batista Lisboa e
Victoria Maria da Cruz. Batizado a 29-8, idem, p. 372.
1808 - José; padrinhos: Francisco Joaquim da Silva e Victoria
Maria da Cruz p o r seu procurador José Batista Lisboa. Batizado
e m 21.12, L° 5°, página lóv. 7 7
1810 - Josefina; padrinho: José d o Carmo Torres Vedras.
Batizada e m 3 3, L° 5°, fl. 86v.
61
Cleofe Person de Mattos
1811 - P a n f í l i a ; p a d r i n h o : t e n e n t e M a n u e l R o d r i g u e s Silva;
B a t i z a d a e m 16.9, L a 5 Q , f l . l 6 3 v .
1813 - A n t ô n i o ; p a d r i n h o : A n t ô n i o B e r n a r d i n o d o s S a n t o s
F e r r e i r a . B a t i z a d o e m 27.3, L a 5 a , f l . 267v.
O Dr. N u n e s Garcia acrescenta particularidades dessa
d e s c e n d ê n c i a . Inclui entre o s "quatro irmãos v i v o s à é p o c a d o
f a l e c i m e n t o d o pai", duas irmãs e m estado d e "meia loucura".
S e r i a m as m e n i n a s n a s c i d a s e m 1810 — J o s e f i n a 7 8 — e 1811 —
P a n f í l i a , e a l u d e a o i r m ã o A p o l i n á r i o , n a s c i d o e m 1807, c o m o
"hábil músico e organista". O n o m e d e Apolinário, juntamente
c o m o d o D r . N u n e s G a r c i a , p a r t i c i p a da d e d i c a t ó r i a d o
Compêndio
elementar
de música e s c r i t o e m 1821, q u a n d o o p a dre-mestre passou a ensinar música aos d o i s filhos.
A esses irmãos juntava-se outro, cujo n o m e o doutor n ã o
cita p o r f o r ç a da i n d i s p o s i ç ã o e n t r e a m b o s c o m r a z õ e s a c u m u l a d a s
d e s d e a m o r t e d o p a i : A n t ô n i o J o s é N u n e s Garcia. 7 9 Q u a n t o a
S e v e r i a n a , o q u e p e n s a r d e s s a c r i a t u r a c a p a z d e atrair u m
intelectual da estatura d o p a d r e J o s é Maurício, s e n ã o admitir f o s s e
d o t a d a d e v i v a c i d a d e , a l é m d o natural d e s l u m b r a m e n t o p e l o
c o m p o s i t o r e p o s s i v e l m e n t e t a m b é m p e l o o r a d o r . D e n t r e o s seus
f i l h o s , q u a t r o e v i d e n c i a r a m a l g u m talento: letras, música e
m e d i c i n a . C a s a d a p o s t e r i o r m e n t e c o m u m c o m e r c i a n t e — Franc i s c o R o d r i g u e s Martins — S e v e r i a n a t e v e o u t r o f i l h o , S e v e r i a n o
R o d r i g u e s Martins, n a s c i d o e m 1820. M é d i c o d e n o m e a d a , c u i d o u
d e Gottschalk q u a n d o este pianista e c o m p o s i t o r a m e r i c a n o
c o n t r a i u f e b r e a m a r e l a n o R i o d e J a n e i r o , e m 1879- O D r .
S e v e r i a n o m o r r e u e m Paris, n o a n o 1897. S e v e r i a n a , já v i ú v a ,
m o r r e u e m 28 d e m a i o d e 1878 e f o i e n t e r r a d a n o c e m i t é r i o d a
O r d e m 3a d o s M í n i m o s d e S ã o F r a n c i s c o d e P a u l a , n o C a t u m b i ,
da q u a l era i r m ã .
A chegada
de D.João
VI
A o i n i c i a r o a n o d e 1808, o p a d r e J o s é M a u r í c i o tinha 41
a n o s d e i d a d e e d e z d e m e s t r a d o na Sé. Era c o m p o s i t o r p r e s t i g i a d o
e p r o f e s s o r r e s p e i t a d o na c i d a d e . Estava e m c u r s o o m ê s d e
janeiro q u a n d o a cidade f o i sacudida p o r inesperada notícia: a
62
José Maurício Nunes Garcia biografia
próxima chegada d o príncipe regente d e Portugal, o futuro
D . J o ã o V I . A c o m p a n h a - o a rainha D. Maria I, a r e a l f a m í l i a ,
g r a n d e p a r t e da c o r t e e a alta a d m i n i s t r a ç ã o da c o r o a p o r t u g u e s a .
T o d o s a c a m i n h o d o Rio de Janeiro.
O s p r e p a r a t i v o s para a c h e g a d a s ã o d e c i d i d o s p e l o S e n a d o
da Câmara, 8 0 c o m a p r e v i s ã o d e uma c e r i m ó n i a r e l i g i o s a na m a i s
b e l a i g r e j a d a c i d a d e — a da V e n e r á v e l O r d e m T e r c e i r a d e N o s s a
S e n h o r a d o M o n t e d o C a r m o — situada n o T e r r e i r o d o P a ç o ,
p r ó x i m o a o p a l á c i o d o s v i c e - r e i s . N ã o f o i e s c o l h i d a a Sé Catedral,
a f a s t a d a d o c e n t r o n o b r e da c i d a d e , instalada e m t e m p l o mal
c o n s e r v a d o , c o m o c h ã o e m terra batida, o n d e o s i r m ã o s d o
Rosário viviam e m m e i o a turbulências e constante litígio c o m
os membros d o Cabido.
S e m a n a s m a i s tarde, outra n o t í c i a m a i s p r ó x i m a i n f o r m a v a
a data da c h e g a d a — dia 7 d e m a r ç o — e c o m u n i c a v a o d e s e j o
d o p r í n c i p e , l o g o a p ó s o d e s e m b a r q u e : d i r i g i r - s e à Catedral para
assistir a u m T e D e u m e m a ç ã o d e g r a ç a s p e l a v i a g e m b e m
s u c e d i d a . O s p r e p a r a t i v o s já iniciados na igreja da O r d e m Terceira
d o Carmo — armação, paramentos, panaria —
foram
i m e d i a t a m e n t e transferidos para a igreja d o Rosário. 8 1 A c e r i m ó n i a
seria r e a l i z a d a c o m a m a i o r p o m p a p o s s í v e l , numa igreja m o d e s t a .
R e s p o n d e r i a p e l a m ú s i c a o g r u p o da Sé: o s c a p e l ã e s c a n t o r e s
para o g r e g o r i a n o , o s m e n i n o s d o Seminário d e São J o a q u i m
p a r a as v o z e s d e s o p r a n o s e c o n t r a l t o s , o s t e n o r e s e b a i x o s e o
o r g a n i s t a e e v e n t u a i s instrumentistas. O p a d r e J o s é M a u r í c i o ,
m e s t r e - d e - c a p e l a d a Sé C a t e d r a l , d i r i g i r i a , o b v i a m e n t e , o
conjunto.
N o d i a m a r c a d o a p o n t o u na barra d o R i o d e J a n e i r o a
e s q u a d r a a n s i o s a m e n t e e s p e r a d a . O d e s e m b a r q u e f e z - s e n o dia
s e g u i n t e , 8 d e m a r ç o , mas a rainha — d o e n t e — d e s e m b a r c a r i a
mais tarde. D . J o ã o , o príncipe regente, a c o m p a n h a d o pela corte
e m g r a n d e gala, r e c e b i d o c o m a deferência possível, f e z a p é o
p e r c u r s o d o c a i s à C a t e d r a l e Sé a o s o m d e " t a m b o r e s e
instrumentos músicos" localizados e m pontos vários. F o g o s d e
a r t i f í c i o e o r e p i q u e d o s s i n o s das i g r e j a s d o R i o d e J a n e i r o
saudavam o cortejo, q u e caminhava sobre um chão c o b e r t o de
areia e ervas odoríferas.
U m c o r e t o j u n t o à rua d o R o s á r i o f a z i a o u v i r , nas p a l a v r a s
d o p a d r e Perereca,82 " m e l o d i o s a s v o z e s instrumentais c o m o
v o c a i s " , e n t o a n d o h i n o s d e j ú b i l o e l o u v o r a Sua A l t e z a R e a l . E
assim, c e r c a d o d e música a o l o n g o d o caminho, o p r í n c i p e r e g e n t e
e n t r o u na C a t e d r a l a o s o m d e u m a " g r a n d e o r q u e s t r a " . E é na
p e q u e n a e h u m i l d e igreja levantada p e l o s irmãos d e Nossa
Senhora d o Rosário e São Benedito d o s H o m e n s Pretos, que o
63
Cleofe Person de Mattos
p r í n c i p e r e g e n t e d e P o r t u g a l e d o s A l g a r v e s a j o e l h a - s e na t a r d e
d e 8 d e m a r ç o d e 1808 p a r a assistir a o T e D e u m e " a g r a d e c e r a
Deus a graça de havê-lo feito chegar a salvo".
A c e r i m ó n i a na Sé c o r o o u as d e m o n s t r a ç õ e s p ú b l i c a s d e
a f e t o e calor h u m a n o d o p o v o d o Rio d e Janeiro, sentimentos
q u e c e r c a r a m D . J o ã o n o s a n o s e m q u e p e r m a n e c e u na c a p i t a l
da c o l ó n i a p o r t u g u e s a . F o i t a m b é m a p r i m e i r a o p o r t u n i d a d e d e
tomar c o n h e c i m e n t o c o m a realização musical da Catedral o n d e
iria p e r m a n e c e r 13 a n o s . A a l u s ã o d i r e t a à m ú s i c a d e v e - s e , m a i s
u m a v e z , a o p a d r e P e r e r e c a : "... u m a g r a n d e o r q u e s t r a r o m p e u
e m m e l o d i o s o s c â n t i c o s l o g o q u e e n t r o u S.A.R. c o m sua augusta
família, e a o s o m dos instrumentos e v o z e s , q u e caminhavam
p e l o santuário, c a m i n h o u o Príncipe Regente...".
Mais p r e c i s a m e n t e n o tocante à música e n t ã o o u v i d a ,
i n f o r m a o h i s t o r i a d o r : " C o n c l u í d o o h i n o d e g r a ç a s e c a n t a d a s as
a n t í f o n a s Sub tuumpraesidium
e O Beate
Sebastiane...".83
C o m e n t a n d o a posteriori
d o S e n a d o acrescenta:84
esses a c o n t e c i m e n t o s , o e s c r i v ã o
"Jamais se v i u nesta c i d a d e t ã o l u z i d a f u n ç ã o : a I g r e j a
Catedral ricamente ornada e t a m b é m p r e p a r a d a para q u e
se n ã o visse hum b o c a d o d e seu interior q u e n ã o estivesse
c o b e r t o da m a i s f i n a t a p e ç a r i a ; d o u s c o r e t o s d o s m e l h o r e s
m ú s i c o s e da m a i s e s c o l h i d a m ú s i c a . . . " e f i n a l i z a : " h u m
l u z i d o a j u n t a m e n t o d e militares, n o b r e s , eclesiásticos, e
s o b r e t u d o d o S e n a d o da C a m a r a . . . c o m p u n h a m u m c o r p o
tão respeitável q u e parecia o Rio d e Janeiro uma nova
cidade."
Se D . J o ã o d e u d e i m e d i a t o a t e n ç ã o a o m é r i t o s d o m e s t r e d e - c a p e l a é d i f í c i l saber. T e r i a essa o p o r t u n i d a d e , d i a s a p ó s —
12 d e m a r ç o , s á b a d o — na missa s o l e n e e m l o u v o r d e N o s s a
S e n h o r a d a C o n c e i ç ã o , p a d r o e i r a d a Casa R e a l e D o m í n i o s q u e
e l e p r ó p r i o m a n d o u c e l e b r a r " p e l a sua s a l v a ç ã o e f e l i z c h e g a d a
a o B r a s i l " . R e a l i z o u - s e a c e r i m ó n i a , n ã o m a i s na C a t e d r a l e Sé
m a s na i g r e j a d o s T e r c e i r o s , v i z i n h a à c a p e l a d o s r e l i g i o s o s da
O r d e m C a r m e l i t a n a , q u e D . J o ã o já havia d a d o sinal d e q u e n ã o
tardaria a ser erigida e m Capela Real.
S u c e d e r a m - s e as c e r i m ó n i a s r e l i g i o s a s p e l o m e s m o
a u s p i c i o s o m o t i v o . A I r m a n d a d e d e Santa C e c í l i a c o m s e u s
m ú s i c o s e c a n t o r e s p r e s t o u h o m e n a g e m a o p r í n c i p e na i g r e j a d o
P a r t o . A f u n ç ã o e m n o m e da c i d a d e p r o m o v i d a p e l o S e n a d o ,
p r e v i s t a p e l o e s c r i v ã o , r e a l i z o u - s e n o dia 15 d o m e s m o m ê s , na
C a t e d r a l . C a n t o u - s e na o c a s i ã o , "missa s o l e n e " e T e D e u m " c o m
64
José Maurício Nunes Garcia biografia
g r a n d e m a g n i f i c ê n c i a , q u e r n o o r n a t o d a i g r e j a , q u e r na
e x c e l ê n c i a da música". 8 5
A s s i m c o m o s e o b s e r v a r a nas c e r i m ó n i a s a n t e r i o r e s , n ã o
há r e f e r ê n c i a a o r e s p o n s á v e l p é l a m ú s i c a o u v i d a n e s s e d i a , s e m
e s q u e c e r q u e , a l é m das o b r i g a ç õ e s na Sé, c o m a r e s p o n s a b i l i d a d e
das p r o m o ç õ e s d o Senado, o p a d r e José Maurício atuava c o m o
r e g e n t e d e o r q u e s t r a e d o c o r o da I r m a n d a d e d e Santa C e c í l i a , e
provavelmente c o m o compositor.
A o completar um mês d o desembarque n o Rio de Janeiro,
D . J o ã o m a n d o u r e a l i z a r outra "festa d e a ç ã o d e g r a ç a s p e l a sua
f e l i z c h e g a d a " , na c a p e l a d o c o n v e n t o d o C a r m o . O f e r e c i a m - s e
a o príncipe regente, desse m o d o , diversificadas oportunidades
d e a v a l i a r a q u a l i f i c a ç ã o m u s i c a l d o c o n j u n t o da Sé e o n í v e l d e
c r i a ç ã o e s p e c í f i c a , n o g é n e r o , d e seu m e s t r e - d e - c a p e l a , o p a d r e
José Maurício.
1808-1811
Os três anos vividos
na Capela Real
Em p o u c o s d i a s D . J o ã o p u d e r a c o n h e c e r as i g r e j a s m a i s
i m p o r t a n t e s da c i d a d e e t o m a r c o n h e c i m e n t o d o q u a d r o d e
d i f i c u l d a d e s h u m a n a s q u e c e r c a v a m o f u n c i o n a m e n t o da Catedral
e Sé. N ã o a p e n a s o e s t a d o d e c a d e n t e d o e d i f í c i o , p o u c o a d e q u a d o
à p o m p a q u e l h e q u e r i a atribuir, c o m o C a p e l a Real, m a i s as
d i s s e n ç õ e s entre o s i r m ã o s d o Rosário, d o n o s da igreja, e o C a b i d o
n e l a i n s t a l a d o . O s u f i c i e n t e para f a z e r n a s c e r a i d é i a , l o g o p o s t a
e m prática, d e transferir o C a b i d o para outra igreja nas i m e d i a ç õ e s
d o v e l h o p a l á c i o d o s v i c e - r e i s : serviria d e c a p e l a p a r t i c u l a r à
f a m í l i a real, t r a d i ç ã o entre o s seus antepassados. A e s c o l h a recaiu
na c a p e l a d o s r e l i g i o s o s da O r d e m d o C a r m o , situada e n t r e a
igreja d o s T e r c e i r o s e, d e o u t r o lado, o c o n v e n t o da m e s m a o r d e m ,
já r e q u i s i t a d o p e l a c o r o a p a r a a b r i g a r a rainha.
N a d o c u m e n t a ç ã o o f i c i a l q u e r e g i s t r a v a as m e d i d a s da
o r g a n i z a ç ã o s o c i a l d a c o r t e p o r t u g u e s a n o Brasil, a e s c o l h a l o g o
a p o n t a . N o dia 6 d e abril l ê - s e n o L i v r o d e R e g i s t r o s d e A v i s o s
IJJ'155, p á g i n a 18, q u e Sua A l t e z a R e a l " b a i x a à Sua C a p e l a "
s á b a d o , d i a 9 d o c o r r e n t e , às d e z h o r a s da m a n h ã e à t a r d e , às
c i n c o , o n d e " s e há d e c e l e b r a r uma Festa e m a ç ã o d e g r a ç a s p e l a
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Cleofe Person de Mattos
f e l i z c h e g a d a d o m e s m o S e n h o r a esta C a p i t a l " . D. J o ã o
d e s e n v o l v e u i m e d i a t a m e n t e a i d é i a da c r i a ç ã o da C a p e l a R e a l
q u e i m p l i c a v a e m uni-la à C a t e d r a l , d i s t r i b u i n d o - a p a r a e s t u d o
a o s q u e a d m i n i s t r a t i v a m e n t e r e s p o n d i a m p e l o assunto. 8 6
N o d e c o r r e r d o m ê s d e a b r i l , a o c u p a ç ã o da n o v a c a p e l a
d e D. J o ã o vai p r o g r e d i n d o a o sabor de d o c u m e n t o s e consultas
às a u t o r i d a d e s r e l i g i o s a s v i n c u l a d a s a o assunto. O p e r í o d o q u e
a n t e c e d e a c r i a ç ã o o f i c i a l da Real C a p e l a n ã o s i g n i f i c a a
p a r a l i s a ç ã o d o s c o n j u n t o s q u e i n t e g r a v a m a música da a n t i g a Sé.
A S e m a n a Santa é r e a l i z a d a na c a p e l a d o s p a d r e s c a r m e l i t a s e ,
n o d i z e r d o p a d r e P e r e r e c a , as c e r i m ó n i a s t i v e r a m a s o l e n i d a d e
c o s t u m e i r a a c r e s c i d a p e l o " e s p l e n d o r d e três M o n s e n h o r e s , d o i s
c ó n e g o s e c i n c o b e n e f i c i a d o s d a Patriarcal v i n d o s c o m a Família
R e a l , a u x i l i a d o s p o r o u t r o s s a c e r d o t e s da c i d a d e e a l u n o s d o
S e m i n á r i o S ã o J o a q u i m , p a r a isso c o n v i d a d o s p o r Sua A l t e z a
R e a l " . F o i m u i t o a p r e c i a d a , n o s a t o s d a S e m a n a Santa, a a t i t u d e
de d e v o ç ã o d o príncipe regente, especialmente o "respeito à
p a l a v r a d e D e u s e a o s c â n t i c o s da i g r e j a " . 8 7
A d e c i s ã o d e criar uma c a p e l a junto a o seu p a l á c i o , e
s o b r e t u d o , d e uni-la à C a t e d r a l d e v e r i a a g u a r d a r a c h e g a d a d o
b i s p o , o q u e s o m e n t e e m 25 d e abril o c o r r e u . A e n t r a d a s o l e n e
d o b i s p o D . J o s é C a e t a n o da Silva C o u t i n h o na c i d a d e r e a l i z o u se n o d i a 13 d e m a i o , a n i v e r s á r i o d e D . J o ã o , e m c e r i m ó n i a na
Catedral.
Inteirado dos projetos d o príncipe regente, que desejava
para a Real Capela d o Rio d e Janeiro, f o s s e m r e p r o d u z i d o s q u a n t o
p o s s í v e l o s r i t o s e o c e r i m o n i a l da Patriarcal d e L i s b o a , l o g o
p r e p a r o u - s e o b i s p o para v i a b i l i z a r a e x e c u ç ã o da d e l i c a d a tarefa
q u e l h e c a b i a : i n t e g r a r n o C a b i d o d a C a t e d r a l e Sé d o R i o d e
J a n e i r o o s m i n i s t r o s da patriarcal d e L i s b o a . Já f o r a i n c u m b i d o o
t e s o u r e i r o — p a d r e E l ó i — d e estruturar f i n a n c e i r a m e n t e a n o v a
C a p e l a , p r e p a r a n d o a " r e l a ç ã o d a s d e s p e s a s q u e se p o d e r i a m
f a z e r " c o m a q u e seria a C a p e l a R e a l , i n c l u i n d o o l e v a n t a m e n t o
d o s o r d e n a d o s d a q u e l e s q u e dela d e v e r i a m f a z e r parte.
Cita o s m ú s i c o s v i n d o s c o m D . J o ã o : p a d r e A n t ô n i o P e d r o ,
e o organista José d o Rosário Nunes. Mas é s o b r e t u d o o padre
F r a n c i s c o d e Paula Pereira q u e m e r e c e d e s t a q u e p e l a c o m p e t ê n c i a
e qualidades musicais evidenciadas.
O trabalho e a responsabilidade
m a n t i n h a - s e n o r m a l m e n t e , mas n ã o se
n e s s e m o m e n t o , u m sinal l a n ç a d o n o
q u e p o d e p a r e c e r natural — o u m e r a
a o p a d r e F r a n c i s c o d e Paula ( P e r e i r a )
e instruir o s c a n t o c h o n i s t a s " . 8 8 Se o
66
d o m e s t r e - d e - c a p e l a da Sé
p o d e deixar d e considerar,
d o c u m e n t o d o p a d r e Elói,
insinuação — referindo-se
"que p o d e dirigir a Música
padre Francisco de Paula
José Maurício Nunes Garcia biografia
p a r t i c i p o u da o r g a n i z a ç ã o musical da C a p e l a o u l h e f o i atribuída
qualquer f u n ç ã o de "dirigir a música" nesse m o m e n t o de
a d a p t a ç ã o a o s m o l d e s d e Lisboa, n ã o se e n c o n t r o u c o m p r o v a ç ã o .
A admissão d o s ministros brasileiros que c o m p u n h a m o
C a b i d o da Sé d o R i o d e J a n e i r o " e n t r e o s m a i s q u e se h o u v e r e m
d e a d m e t i r " é encarada p e l o p a d r e Elói c o m t r a n q u i l i d a d e ,
r e c o n h e c e n d o " q u e n ã o p o d e r i a m ser i g n o r a d o s n e m e s q u e c i d o s "
na r e f o r m u l a ç ã o da C a t e d r a l e c r i a ç ã o da R e a l C a p e l a . O u t r o
d o c u m e n t o s e m assinatura, p o r q u e s e c r e t o , mas q u e o b v i a m e n t e
e x p r e s s a v a o p e n s a m e n t o c o l e t i v o d o s m i n i s t r o s da P a t r i a r c a l é
e n c a m i n h a d o juntamente c o m o e s t u d o d o p a d r e Elói. D i z r e s p e i t o
mais de perto à posição d o mestre-de-capela e representa a
resposta à consulta formulada p o r D. J o ã o s o b r e a f u s ã o da
Catedral à n o v a Capela Real. O o b j e t i v o principal da resposta
era f a z e r v e r a D. J o ã o o s i n c o n v e n i e n t e s d e unir n u m o r g a n i s m o
ú n i c o a Sé à C a p e l a R e a l . E m a l i c i o s a m e n t e era s u g e r i d o a D .
J o ã o , u m a v e z q u e as c i r c u n s t â n c i a s e c o n ó m i c a s n ã o p e r m i t i a m
erigir a Capela c o m a magnitude q u e D. João pretendia, q u e o
príncipe p o d e r i a f a z ê - l o c o m m e n o r n ú m e r o d e ministros, de
m a n e i r a a d i m i n u i r as d e s p e s a s . E i n s i n u a v a q u e se l i m i t a s s e m
os ministros àqueles que haviam a c o m p a n h a d o o príncipe
r e g e n t e . O C a b i d o d o Rio d e Janeiro ficava fora, portanto.89
Prossegue o d o c u m e n t o acrescentando a t o d o esse
m a q u i a v e l i s m o ditado pela insegurança e m manter os respectivos
p o s t o s , u m g e s t o d e i n t o l e r â n c i a e falta d e r e s p e i t o h u m a n o ,
c o m o qual a a r g u m e n t a ç ã o conclui n o caso d e unir-se a Capela
Real à Catedral: " a c o m o d a ç õ e s d e v e r i a m ser feitas d e maneira a
evitar o c o n v í v i o entre os ministros de Lisboa e os d o Rio d e
J a n e i r o " . E, m u i t o r e s p e i t o s a m e n t e , f a z i a m v e r a D . J o ã o : "É
p r e c i s o r e f l e t i r q u e Sua A l t e z a e c o n o m i s a m u i t o p o u c o na u n i ã o
d a s d u a s i g r e j a s p o r q u e fica c o m o p e s o d a s d e s p e s a s da Fabrica,
a q u e a Sé n ã o p o d e suprir, e da s u s t e n t a ç ã o d o s m i n i s t r o s q u e
n ã o p o d e m ser e m p r e g a d o s ; e a p e q u e n a v a n t a g e m q u e n i s s o se
lucra é c o n t r a p e s a d a c o m o s a c r i f í c i o da l i b e r d a d e d e sua c a p e l a ,
e c o m o d e s g o s t o d e entrar nela a l g u m a p e s s o a c o m d e f e i t o f í s i c o
visível".90
R a z ã o i m p e r i o s a para e s s e s ministros, a p e s s o a " c o m d e f e i t o
f í s i c o v i s í v e l " , o p a d r e J o s é M a u r í c i o N u n e s G a r c i a , tinha d o i s
g r a v e s d e f e i t o s : era b r a s i l e i r o e n ã o era b r a n c o d e p e l e .
F o i essa a resposta q u e J o s é M a u r í c i o r e c e b e u d o s m i n i s t r o s
d e s u a i g r e j a , à c h e g a d a da c o r t e , q u a n d o p ô d e sentir, m a i s
a c i d a m e n t e , a h o s t i l i d a d e e o d e s p r e z o p e l a sua p e s s o a e a
i n d i f e r e n ç a p e l o seu talento, d e s t i l a d o s p o r criaturas
67
Cleofe Person de Mattos
hierarquicamente superiores a ele, mas d e qualidade humana
certamente discutível, embora fossem brancos.
N ã o era a p r i m e i r a v e z , b e m se s a b e e m sua c a r r e i r a d e
m ú s i c o e s a c e r d o t e , q u e J o s é M a u r í c i o se v i a p r e s s i o n a d o p e l o
p r o b l e m a d e cor. I m p o s s í v e l e s q u e c e r a v e e m e n t e p e t i ç ã o q u e
dirigira a o b i s p o e m 1791 d e f e n d e n d o seus direitos — c o m o p a r d o
liberto — d e "servir a Deus n o estado d e sacerdote". O g o l p e
a g o r a era m a i s f u n d o . Era u m a b a r r e i r a q u e se o p u n h a a o s s e u s
s o n h o s d e m ú s i c o e à alegria d e c o m p o r para a Real C a p e l a .
M a i s f u n d o a i n d a p o r q u e essa r e a ç ã o n ã o partia d e h o m e n s
i l e t r a d o s e s i m d e p e s s o a s q u e r e p r e s e n t a v a m a c ú p u l a d e sua
igreja e j u l g a v a m o p r o b l e m a q u e o atingia c o m o uma
inferioridade humana.
F o i v e n c i d a , p o r é m , a r e a ç ã o d o s m o n s e n h o r e s da Patriarcal
d e Lisboa, q u e tão asperamente haviam manifestado repulsa à
p r e s e n ç a d e J o s é M a u r í c i o na r e c é m - c r i a d a C a p e l a . A v o n t a d e
d e D . J o ã o s o u b e e v i t a r a injustiça q u e se p r e t e n d i a praticar c o m
o repúdio ao mestre-de-capela com superior formação e
m u s i c a l i d a d e i n d i s c u t í v e l . M e s m o p o r q u e , na c o l ó n i a , n e n h u m
o u t r o m ú s i c o d e i g u a l e n v e r g a d u r a tinha c o n d i ç õ e s d e o c u p a r o
p o s t o na C a p e l a q u e , a partir d e j u n h o , r e u n i u d u a s e n t i d a d e s : a
C a t e d r a l e a C a p e l a R e a l . O p a d r e J o s é M a u r í c i o será t r a n s f e r i d o ,
c o m o C a b i d o , para a igreja d o s r e l i g i o s o s d o C a r m o .
N ã o f o i a m e n a a e x i s t ê n c i a d e J o s é M a u r í c i o na C a p e l a
criada p o r D . J o ã o . A p o s i ç ã o d e tranquilo p r e s t í g i o q u e desfrutava
a t é e n t ã o na c i d a d e e m q u e nascera f o i a b a l a d a c o m a a t i t u d e d e
r e j e i ç ã o d o s ministros portugueses. A hostilidade, c o n f i a d a a o
s i g i l o d e u m d o c u m e n t o o f i c i a l , f o r a a p e n a s o p r e n ú n c i o da
a g r e s s i v i d a d e q u e o c e r c o u a o l o n g o d o s a n o s na m e s m a C a p e l a .
N o d i a 15 d e j u n h o , v é s p e r a da festa d e C o r p u s Christi,
r e a l i z o u - s e na i g r e j a da I r m a n d a d e d o R o s á r i o o p r i m e i r o a t o da
t r a n s f e r ê n c i a da C a t e d r a l p a r a a C a p e l a o n d e s e i n s t a l o u a n o v a
s e d e da Catedral d o R i o d e Janeiro. A s v é s p e r a s s o l e n e s d o C o r p o
d e Deus,91 c e l e b r a d a s c o m música d o padre José Maurício,
s i g n i f i c a v a m para o C a b i d o a última f u n ç ã o na igreja o n d e estivera
s e d i a d a a Sé C a t e d r a l a o l o n g o d e s e t e d é c a d a s . N o â m b i t o da
f e s t a e s c o l h i d a p a r a s o l e n i z a r a i n a u g u r a ç ã o da R e a l C a p e l a ,
p r o s s e g u i r a m o s a t o s s e g u i n t e s C o m p r o c i s s ã o e missa s o l e n e . 9 2
Assim entrava e m f u n c i o n a m e n t o a entidade q u e e m futuro n ã o
m u i t o d i s t a n t e será o c e n á r i o d a s m a i o r e s r e a l i z a ç õ e s m u s i c a i s
da c o l ó n i a p o r t u g u e s a na A m é r i c a : a Real C a p e l a .
N o dia s e g u i n t e ( 1 6 d e j u n h o ) era e x p e d i d o o a l v a r á c o m
f o r ç a d e l e i q u e c o n c r e t i z o u as m e d i d a s n e c e s s á r i a s a o
f u n c i o n a m e n t o da nova Capela. L o n g o , e bastante d i v u l g a d o , o
68
José Maurício Nunes Garcia biografia
alvará da c r i a ç ã o da C a p e l a Real será p a r c i a l m e n t e t r a n s c r i t o e m
n o t a , o n d e se p o d e v e r i f i c a r d a s i n t e n ç õ e s d e r e l i g i o s i d a d e e
z e l o p e l a d i g n i d a d e da f a m í l i a real d e t e r m i n a n t e s d e sua c r i a ç ã o ,
tanto quanto o c u i d a d o e m d e f e n d e r a p o s i ç ã o d o p o v o português
e s e u s d i r e i t o s d e p a d r o e i r o s d e t o d a s as i g r e j a s d o Brasil. 9 3
O a l v a r á a l o n g a - s e e m t o r n o da n o v a h i e r a r q u i a d o s
p r e l a d o s da Capela, mas alcança um c o n j u n t o n o r m a t i v o q u e
tinha a v e r c o m o s d e v e r e s d o m e s t r e - d e - c a p e l a .
N ã o se l i m i t o u à t r a n s f e r ê n c i a g l o b a l e x p r e s s a n o alvará d e
16 d e j u n h o d e 1808 a i n d i c a ç ã o d o p a d r e J o s é M a u r í c i o p a r a a
C a p e l a R e a l . N o dia 26 d e n o v e m b r o d o m e s m o a n o uma portaria
e s p e c i f i c a v a seus deveres:94
"... A t e n d e n d o a achar-se José M a u r i c i o N u n e s Garcia
Presbítero secular servindo os Empregos de Mestre de
Muzica d e minha Real Capella, organista delia e d a n d o
g r a t u i t a m e n t e l i ç õ e n s à m o c i d a d e q u e se destina a a p r e n d e r
a q u e l l a arte: Sou s e r v i d o q u e p e l a F o l h a d o s o r d e n a d o s da
m e s m a Real C a p e l l a v e n ç a o s o b r e d i t o J o s é M a u r i c i o N u n e s
G a r c i a , p o r t o d o s o s r e f e r i d o s e m p r e g o s a q u a n t i a anual
d e s e i s c e n t o s mil reis p a g o s a o s q u a r t é i s na f o r m a d o c o s t u m e . O p r e s i d e n t e d e M e u Real Erário o tenha assim
e n t e n d i d o , e o faça e x e c u t a r c o m o s d e s p a c h o s n e c e s s á r i o s .
P a l a c i o d o R i o d e J a n e i r o , e m 26 d e N o v e m b r o d e m i l
o i t o c e n t o s e o i t o ( c o m a rubrica d o P r í n c i p e R e g e n t e ) . "
A o a d m i t i - l o na C a p e l a Real, a c o r o a p o r t u g u e s a atribuía a
José M a u r í c i o f u n ç õ e s múltiplas nos t e r m o s da portaria. O
o r d e n a d o era ú n i c o : a m e s m a q u a n t i a q u e r e c e b i a na Sé d e s d e
1798, o q u e o s t e r m o s da p o r t a r i a c o n f i r m a m . A aula d e m ú s i c a
é m e n c i o n a d a e t a m b é m a f u n ç ã o d e o r g a n i s t a . Mas o s t r a b a l h o s
b u r o c r á t i c o s e o s d e v e r e s d e c o m p o r para a Sé, a mais i m p o r t a n t e
f u n ç ã o d o m e s t r e - d e - c a p e l a p o r q u e c o m p u n h a o seu p e r f i l d e
m ú s i c o p e r a n t e a h i s t ó r i a , esta n ã o v i n h a assinalada na p o r t a r i a .
N ã o sem razão. Sem previsão financeira, José Maurício exerceua e x a u s t i v a m e n t e d e s d e a i n s t a l a ç ã o da R e a l C a p e l a até 1811, e
jamais teve pagamento.95
A c o n t e c i m e n t o s d e s s a f a s e na C a p e l a c o n f i r m a m q u e o
c o n j u n t o m u s i c a l da a n t i g a Sé n ã o teria m e r e c i d o o e n t u s i a s m o
d e D. J o ã o . N e m o seu r e p e r t ó r i o . O p r i m e i r o p r o b l e m a f o i
r e s o l v i d o l o g o , c o m a d e l i b e r a ç ã o prevista n o p r o j e t o d e padre
E l ó i m a n d a n d o v i r d e L i s b o a o s m ú s i c o s da C a p e l a R e a l p a r a o
Rio d e Janeiro. O príncipe regente, sempre interessado e m obras
o r i g i n a i s e a o s a b o r d a s q u e se a d e q u a v a m a o s e u g o s t o m u s i c a l ,
69
Cleofe Person de Mattos
decidiu organizar o arquivo, c o m a c o m p o s i ç ã o d e obras novas.
D e s s e m o d o atendia-se à o r g a n i z a ç ã o d o arquivo musical e d o
r e p e r t ó r i o para esse a r q u i v o , atribuindo a o p a d r e José M a u r í c i o
a c o m p o s i ç ã o d e s s a s obras. 9 6
C o m p e l i d o a atender à extensa série d e solenidades de
v a r i a d a i m p o r t â n c i a , cerca d e setenta o b r a s s ã o assinaladas e n t r e
1808 e 1811. J o s é M a u r í c i o c o m p õ e s e m d e s c a n s o , p o r q u a n t o o
r e p e r t ó r i o básico d e v e r i a estar e m c o n d i ç õ e s de ser
i m e d i a t a m e n t e o u v i d o nas festas previstas d o c a l e n d á r i o r e l i g i o s o
da C a p e l a . 9 7 A s o b r a s c o m p o s t a s a t é o f i m d e 1808 c o n s t a m d o
c a t á l o g o d e J. J. M a c i e l . 9 8
N ã o i m a g i n a v a s e q u e r J o s é M a u r í c i o a o a s s u m i r na R e a l
Capela, q u e ao m e s m o t e m p o que alcançava grandes satisfações
artísticas — as m a i o r e s , t a l v e z , e m sua v i d a — essa f u n ç ã o seria
a raiz d o s s o f r i m e n t o s s e m f i m e m t o r n o d e sua v i d a p r o f i s s i o n a l .
A trilha q u e v a i s e g u i r será p o n t i l h a d a p o r d e s c o n s i d e r a ç õ e s à
sua p e s s o a , d e s d e o s a g r a v o s d e n a t u r e z a e c o n ó m i c a , a q u e já se
a l u d i u , a o p r o b l e m a da c o r e às d i f i c u l d a d e s d e n a t u r e z a vária
q u e a rotina administrativa n ã o registrou.
F o n t e s d e i n f o r m a ç ã o s o b r e a v i d a da c i d a d e m e n c i o n a m
c e r i m ó n i a s r e l i g i o s a s r e a l i z a d a s a t é o f i m d e 1808 d a s q u a i s o
p a d r e J o s é M a u r í c i o teria s i d o o c o m p o s i t o r . O c a t á l o g o d e M a c i e l
c o n f i r m a e m 1808: a Missa da Natividade
e p o s s i v e l m e n t e a Missa
da rainha
Santa Isabel, a m b a s a q u a t r o v o z e s e ó r g ã o , a l é m d e
o b r a s q u e , f e l i z m e n t e , s o b r e v i v e r a m : a Missa de São Pedro
de
Alcântara
( C T 1 0 4 ) , o f e r e c i d a a D . P e d r o , 9 9 as Matinas
da
Assunção
( C T 172) p r i m e i r a v e r s ã o , Missa e Credo para a
catedral
do bispado ( C T 1 1 9 ) , a s s i m c o m o a Missa pastoril
( C T 108) para
s e i s v o z e s e ó r g ã o . E outras c o n h e c i d a s p o r r e f e r ê n c i a h i s t ó r i c a :
Vésperas do Corpo de Deus — na t r a n s f e r ê n c i a d o C a b i d o p a r a a
i g r e j a q u e seria a C a p e l a R e a l — s a l m o s a v u l s o s , Missa em Fá
Maior
( P u r i f i c a ç ã o - C T 1 1 9 ) e u m Qui sedes o r q u e s t r a d o ( C T
162). A i n d a e m 1808 J o s é M a u r í c i o c o m p õ e a Missa da
Conceição
q u e M a c i e l registra c o m o " r e f o r m u l a d a para o dia d e S ã o P e d r o
d e A l c â n t a r a " . C o m o se v e r i f i c a n e s t e b r e v e e n u n c i a d o , n ã o f o i
escassa a p r o d u ç ã o d e José Maurício n o s e g u n d o semestre d e
1808, f a s e d e a d a p t a ç ã o d a C a p e l a a u m m o d e l o n o v o .
As últimas c e r i m ó n i a s solenes d o a n o f i c a m p o r conta de
vitórias militares, algumas sem f u n d a m e n t o . Um tríduo foi
m a n d a d o celebrar por D. J o ã o e m solenes f u n ç õ e s pela
r e s t a u r a ç ã o d e L i s b o a , a l é m d e missas s o l e n e s n o s d i a s 19, 20 e
21 d e d e z e m b r o , T e D e u m e " p o m p o s a p r o c i s s ã o " p e l a s ruas d a
c i d a d e . O u t r a c e r i m ó n i a — na c a p e l a d o s T e r c e i r o s — o c o r r i d a
n o d i a 23 d o m e s m o m ê s m e r e c e c o m e n t á r i o s , e m nota. 1 0 0
70
José Maurício Nunes Garcia biografia
O s c o m p r o m i s s o s c o m o S e n a d o da C â m a r a p r o s s e g u i a m
n o r m a l m e n t e e m 1808, a c r e s c i d o s d e e v e n t o s o b v i a m e n t e n ã o
p r e v i s t o s nas a r r e m a t a ç õ e s r e a l i z a d a s e m 1807. D o q u e resultarão
cerimónias multiplicadas tanto q u a n t o a c o m p o s i ç ã o d e obras
d e m a i o r e s p r o p o r ç õ e s — v é s p e r a s , matinas, missas, p e ç a s n ã o
i n c l u í d a s na rotina c o m o S e n a d o , até e n t ã o , i n c l u s i v e as Vésperas
do Corpo de Deus, c a n t a d a s na t r a n s f e r ê n c i a d o C a b i d o p a r a a
C a p e l a Real.
V i u - s e o b r i g a d a a C a p e l a R e a l , l o g o a p ó s sua c r i a ç ã o , a
t o m a r d e c i s õ e s p a r a sua p r o g r a m a ç ã o c o m o s m ú s i c o s da v e l h a
S é d o R o s á r i o . Estes c o n t i n u a r ã o a t u a n d o e n q u a n t o n ã o c h e g a m
a o R i o d e J a n e i r o o s m ú s i c o s da C a p e l a d e L i s b o a c h a m a d o s p o r
D . J o ã o , e n t r e e l e s o s castrati101
q u e g o z a v a m da p r e f e r ê n c i a d o
príncipe regente. Os cantores principiarão a chegar no início de
1809; o s i n s t r u m e n t i s t a s s o m e n t e e m 1810 a t u a r ã o n o Brasil. O
q u e q u e r d i z e r : s ã o o s recursos musicais da c i d a d e q u e r e s p o n d e m
p e l o f u n c i o n a m e n t o da Real Capela n o s e g u n d o s e m e s t r e d e 1808.
P o u c o mais l o n g í n q u a , a c h e g a d a d o s instrumentistas q u a l i f i c a d o s
f o r ç o u uma d e c i s ã o q u e atingiu o p r ó p r i o repertório da Capela,
r e s t r i n g i n d o a u t i l i z a ç ã o da o r q u e s t r a . A m e d i d a , d e c a r á t e r
p r o v i s ó r i o , r e f l e t e - s e na o b r a d e J o s é M a u r í c i o n e s s e p e r í o d o e m
q u e p r e d o m i n a m as c o m p o s i ç õ e s c o m a c o m p a n h a m e n t o d e
órgão, frequentemente reforçadas por violoncelos, fagotes e
c o n t r a b a i x o s . O a n o d e 1808 r e p r e s e n t a , s o b e s s e a s p e c t o , u m
c o m p a s s o d e e s p e r a na v i d a d a C a p e l a R e a l .
A l é m da c r i a ç ã o da Real C a p e l a , u m b a l a n ç o nas r e a l i z a ç õ e s
d o p r í n c i p e D . J o ã o n o s p r i m e i r o s m e s e s a p ó s sua c h e g a d a e x i b e
o gigantesco esforço no aparelhamento
administrativo
e m p r e e n d i d o na d e t e r m i n a ç ã o d e t r a n s f o r m a r a c o l ó n i a n o p a í s
q u e anos mais tarde e l e reconhecerá c o m o R e i n o - U n i d o a Portugal e Algarves. A o dotá-lo de c o n d i ç õ e s adequadas, D. João
a r m a - o c o m t o d o o aparato d e uma burocracia e m m o l d e s
p o r t u g u e s e s , o r g a n i z a n d o o m u n d o q u e se m o v e e m t o r n o d e
sua p e s s o a c o m o a r é p l i c a d o q u e o c e r c a v a e m P o r t u g a l .
Em p o u c o s meses instalou-se de fato, n o Brasil, o
D e s e m b a r g o d o P a ç o ou a Mesa d e Consciência e O r d e n s , mas
t a m b é m a Casa d a S u p l i c a ç ã o , o Real Erário, o B a n c o d o Brasil e
a T i p o g r a f i a R é g i a . A o s p o u c o s se v ã o e s v a i n d o d i f i c u l d a d e s
inerentes ao funcionamento d o regime colonial.
E s c o l h e n d o o s titulares para d i r i g i r essas instituições, v a l i a se D . J o ã o d e s e u s v e l h o s a m i g o s , a l g u n s c o m e x p e r i ê n c i a
administrativa, c o m o o c o n d e d e Linhares, ou o m a r q u ê s d e
A g u i a r , q u e já f o r a v i c e - r e i , Vila N o v a da R a i n h a e A n t ô n i o d e
71
Cleofe Person de Mattos
V i l l a N o v a P o r t u g a l . A c a b e ç a m a i s l ú c i d a seria, p o r é m , a d o
c o n d e da Barca.
A i n d a e m 1808 D . J o ã o c u m u l a v a d e m e r c ê s o s t i t u l a r e s
dessas instituições, c r i a n d o u m a e s p é c i e d e aristocracia v i n c u l a d a
à e x e c u ç ã o d e i d é i a s p o s i t i v a s p a r a o Brasil. Em j u l h o c o n c e d e u
a o seu m e s t r e - d e - c a p e l a tratamento e q u i v a l e n t e a o d e muitos
o u t r o s s e r v i d o r e s da c o r o a : a " r a ç ã o d e c r e a d o particular". 1 0 2
N ã o ficaria limitada ao Rio d e Janeiro, c o m a o r g a n i z a ç ã o
da v i d a administrativa e a criação de ó r g ã o s indispensáveis à
estrutura da c o r o a , o c u i d a d o d i s p e n s a d o p o r D . J o ã o a o p a í s e m
q u e v e i o v i v e r . A Real F a z e n d a d e Santa Cruz passará a ser o b j e t o
i m e d i a t o d a s a t e n ç õ e s d o p r í n c i p e r e g e n t e . A partir d e s e t e m b r o
d o m e s m o ano são expedidas ordens de serviço e providências
s ã o t o m a d a s v i s a n d o s o b r e t u d o a d e s e n v o l v e r o p o t e n c i a l agrícola
e p e c u á r i o d a s a n t i g a s terras da o r d e m j e s u í t i c a p a r a e v i t a r
p r o b l e m a s d e abastecimento criados pela chegada inesperada
d e m i l h a r e s d e f o r a s t e i r o s . A r i q u e z a natural da f a z e n d a atrairia,
s e m d ú v i d a , o i n t e r e s s e d e D . J o ã o , m a s n ã o teria p a s s a d o
d e s p e r c e b i d o ao m e l ô m a n o príncipe a potencialidade musical
d o s e s c r a v o s - m ú s i c o s q u e a t u a v a m nas c e r i m ó n i a s r e l i g i o s a s da
f a z e n d a . N e s t e s e n t i d o , t o m o u as m e d i d a s i n d i s p e n s á v e i s a o
d e s e n v o l v i m e n t o desses escravos, d o q u e resultou a imediata
d e c i s ã o d e f a z e r r e v i v e r o e n s i n o d e música i m p l a n t a d o p e l o s
j e s u í t a s até 1759. D e s t a c o u d o i s p r o f e s s o r e s d e m ú s i c a p a r a a
fazenda.103
D. J o ã o terá c o m p e n s a ç ã o p a r a e s s e g e s t o : o s e s c r a v o s m ú s i c o s s e r ã o i n t é r p r e t e s d e o b r a s e s p e c i a l m e n t e c o m p o s t a s para
e l e s p e l o s m e s t r e s - d e - c a p e l a e c a n t a d a s na R e a l F a z e n d a e R e a l
Quinta. Na b a g a g e m d e José Maurício a p o n t a m os resultados
c o n c r e t o s a partir d e 1810, q u a n d o c o m p õ e o m o t e t o
Praecursor
Domini.
O u t r a s o b r a s — e s p e c i a l m e n t e m o t e t o s — s e g u i r ã o essa
c o m p o s i ç ã o , a l g u m a s d e i m p o r t â n c i a n o c o n j u n t o da o b r a d o
mestre da Real C a p e l a .
A partir d e j a n e i r o d e 1809 c o m e ç a m a ser e x p e d i d a s a o s
c a n t o r e s da R e a l C a p e l a d e L i s b o a as p o r t a r i a s d e a d m i s s ã o à
C a p e l a d o R i o d e Janeiro. 1 0 4 A p a r t i c i p a ç ã o d e s s e s m ú s i c o s ,
i n t e g r a n t e s d e u m c o n j u n t o l o u v a d o entre as c a p e l a s p r i n c i p e s c a s
da E u r o p a , será a p e d r a a n g u l a r d o c o n j u n t o q u e se v a i f o r m a r
na c a p i t a l d a c o l ó n i a p o r t u g u e s a , c o n f e r i n d o - l h e a n o t a b i l i d a d e
r e c o n h e c i d a p e l o s viajantes estrangeiros e m artigos e livros
publicados contemporaneamente.
I n i c i a d o n o s p r i m e i r o s d i a s d o a n o 1809, o i n g r e s s o d o s
músicos f o i gradual e continuou p e l o s meses seguintes. O f l u x o
d e c h e g a d a p r o s s e g u i u e m 1810 e intensificou-se e m 1811, q u a n d o
72
José Maurício Nunes Garcia biografia
c h e g o u M a r c o s P o r t u g a l . Em 1817 v i r á o m a i s c é l e b r e
castrato
q u e a t u o u n o Brasil: G i a n f r a n c e s c o F a s c i o t t i .
V o z e s d e t i m b r e e s p e c i a l í s s i m o , t r a b a l h a d a s na c o n q u i s t a
d e g r a n d e t é c n i c a e alta v i r t u o s i d a d e , e m f u n ç ã o d o r e p e r t ó r i o
da C a p e l a d e L i s b o a , a l é m da c o n o t a ç ã o estilística e s t a b e l e c i d a
numa r e l a ç ã o d e causa e e f e i t o , esses cantores atuavam e m
t e a t r o s e i g r e j a s da E u r o p a , i n c l u s i v e e m P o r t u g a l . P r e z a d í s s i m o s
p o r D. João, eles d e s e n v o l v i a m uma sonoridade q u e pela primeira
v e z era o u v i d a na h i s t ó r i a d a C a t e d r a l d o R i o d e J a n e i r o . Sua
a t u a ç ã o m e r e c e ser c o n s i d e r a d a s o b o â n g u l o da i n f l u ê n c i a na
obra d o padre-mestre José Maurício, p r o f u n d a m e n t e afetada pela
q u a l i d a d e e p e l a s características d a s v o z e s para as q u a i s p a s s a v a
a c o m p o r . N ã o s ó castrati
vieram d e Portugal. Outros n o m e s
passaram a figurar nos manuscritos q u e José Maurício e s c r e v e u
p a r a a R e a l C a p e l a : o Sr. C a p r â n i c a o u o Sr. C i c c o n i ( s o p r a n o s ) ,
o Sr. G o r i f ( c o n t r a l t o ) , o Sr. J o s é Maria da Vila V i ç o s a e o Sr. J o ã o
M a z z i o t t i ( t e n o r e s ) , p a d r e A n t ô n i o P o r t o ( c a p e l ã o ) e p a d r e Paula
( b a i x o s ) . E x c e l e n t e s c a n t o r e s n ã o castrati s o m a m - s e , na r e l a ç ã o
c i t a d a na n o t a 104, p a r a f o r m a r o i m p r e s s i o n a n t e e l e n c o v o c a l ,
inclusive brasileiros q u e anteriormente participavam n o conjunto
da Sé C a t e d r a l , a m i g o s e a n t i g o s a l u n o s d o p a d r e J o s é M a u r í c i o :
J o ã o d o s R e i s P e r e i r a , M a n u e l R o i z da Silva, G e r a l d o I n á c i o
P e r e i r a , Luís G a b r i e l Ferreira L e m o s e o u t r o s c u j o s n o m e s n ã o
f o r a m c o n s e r v a d o s pela burocracia dos primeiros t e m p o s da
Capela Real, q u e r e s p o n d e r a m p e l o f u n c i o n a m e n t o da música
n e l a r e a l i z a d a n o d e c o r r e r d o a n o d e 1808.
A convivência d o padre José Maurício c o m os músicos
v i n d o s da Capela Real de Lisboa f o i muito p e n o s a . Sofrerá d e l e s
a g r e s s õ e s q u e l h e c a u s a r ã o muita a m a r g u r a p o r q u e d i r i g i d a s à
sua p e s s o a n o t e r r e n o artístico. H a b i t u a d o s a o u t r o e s t i l o m u s i cal, e insatisfeitos p o r s e r e m dirigidos p o r u m brasileiro, e de
raça p o r e l e s c o n s i d e r a d a i n f e r i o r , n ã o h e s i t a r ã o e m r e p u d i á - l o .
A g e m c o m o o mais f e r o z g r u p o de pressão contra o c o m p o s i t o r ,
a q u e m c e n s u r a v a m p o r " n ã o ter f r e q u e n t a d o o s c o n s e r v a t ó r i o s "
o u p o r " n ã o ter s a í d o d o Brasil". 1 0 5
A o ser c r i a d a , a C a p e l a R e a l n ã o d i s p u n h a d e e s t a t u t o
p r ó p r i o . Seu f u n c i o n a m e n t o o b e d e c i a a o q u e f o r a f e i t o e m 1733
p o r D . J o ã o V. A e l a b o r a ç ã o d e u m d o c u m e n t o c a p a z d e a c u d i r
às c o n d i ç õ e s p r ó p r i a s da n o v a C a p e l a n o s t e r m o s d o alvará q u e
a criara — " s e m se d e r r o g a r e m c o n t u d o o s Estatutos q u e r e g i a m
a Catedral nas partes e m q u e f o r e m c o m p a t í v e i s c o m o d i t o estilo,
e n q u a n t o se n ã o f o r m a m n o v o s estatutos i n t e i r a m e n t e c o n f o r m e s
e a d a p t a d o s a o n o v o e s t i l o da c a p e l a " — f o i o r d e n a d o p o r D.
J o ã o a o b i s p o , p o r e s t e c u m p r i d o n o d e c o r r e r d o s a n o s 1808 e
73
Cleofe Person de Mattos
1809 e e n t r e g u e s e m 4 d e a g o s t o d e 1809. 106 Em data d e 17 d e
a g o s t o d e 1810, e m n o v o o f í c i o , D . J o ã o e n c a m i n h o u a o b i s p o
a l g u m a s o b s e r v a ç õ e s a o m e s m o p r o j e t o , às q u a i s o b i s p o d e v e r i a ,
c o m c o n h e c i m e n t o d e causa, i n t e r p o r o s e u p a r e c e r e assim
a p r o v a r o s e s t a t u t o s e m sua f o r m a d e f i n i t i v a . E n t r e o u t r o s
assuntos, as tardias o b s e r v a ç õ e s o b j e t i v a v a m as f u n ç õ e s e regalias
d o s m o n s e n h o r e s da C a p e l a e o s d i r e i t o s d o C a b i d o n o c a s o d e
Sé v a g a . O b i s p o r e s p o n d e e m 22 d e a g o s t o d e 1810 e o s estatutos
s ã o f i n a l m e n t e a p r o v a d o s e m 27 d e s e t e m b r o d e s s e ano. 1 0 7
Os deveres dos músicos e d o mestre-de-capela estão
p r e v i s t o s n o p r o j e t o d e 1809 q u e se d e t é m l o n g a m e n t e n u m
p e r í o d o d e a d a p t a ç ã o a u m a estrutura n o v a , c r i a d a n o R i o d e
J a n e i r o p a r a a t e n d e r à f o r m a ç ã o da n o v a h i e r a r q u i a , a d o s
m o n s e n h o r e s , q u e i n c l u í a m e m b r o s da Patriarcal d e L i s b o a e d o
C a b i d o d o Rio d e Janeiro. As obrigações d e toda a categoria
l i g a d a à m ú s i c a e r a m e s p e c i f i c a d a s : o c a l e n d á r i o a ser c u m p r i d o
cada ano c o m maior ou m e n o r solenidade, fosse o e v e n t o de
m a i o r o u m e n o r i m p o r t â n c i a , c o n f o r m e o r i t o q u e as c l a s s i f i c a v a
e m festas d e primeira, segunda ou terceira o r d e m .
D o p o n t o d e vista estritamente musical, o estatuto
s i n t e t i z a v a p r e c e i t o s já r e c o m e n d a d o s n o A l v a r á q u e criara a Real
Capela, repetido nos vários documentos q u e a ele conduziam.
T o d o um c o m p o r t a m e n t o abrangente, d o cerimonial a o estilo d e
m ú s i c a q u e n e l a se f a r i a o u v i r , era i n s p i r a d o p e l o c o n c e i t o d e
q u e à Capela d o Rio de Janeiro caberia reviver, e m t o d o s os
a s p e c t o s possíveis, " o estilo da Real Capela de L i s b o a " . N e s s e
e s q u e m a , a criação musical o b e d e c e r i a a u m p a d r ã o . P o r outro
l a d o , o s d e v e r e s a t r i b u í d o s a o s seus d i f e r e n t e s n í v e i s f u n c i o n a i s
n ã o v i r i a m facilitar o r e l a c i o n a m e n t o e n t r e o m e s t r e - d e - c a p e l a e
o q u a d r o d e m ú s i c o s q u e a i n t e g r a v a . Para o m e s t r e - d e - c a p e l a , o
estatuto previa encargos estranhos à f u n ç ã o d e um
Kapellmeister,
nada fáceis d e serem c u m p r i d o s p e l o padre José Maurício f a c e à
s i t u a ç ã o p r e c o n c e i t u o s a criada e m t o r n o d e sua p e s s o a .
O b s e r v e m - s e o s i t e n s I e II d o T í t u l o I:
"I - Será o M e s t r e d e C a p e l a e nas suas faltas o M u z i c o m a i s
antigo, ou o organista, o b r i g a d o a vigiar sobre a residência
d e t o d o s o s o u t r o s e a dar p a r t e c a d a d i a a o A p o n t a d o r d a s
f a l t a s d e c a d a h u m d e l e s , para s e r e m a p o n t a d o s s e g u n d o
o s dias, e f u n ç õ e s a q u e f a l t a r e m d o m o d o q u e se a c a b a d e
dizer a respeito d o s "tesoureiros".
II - P o d e r ã o e d e v e r ã o a l e m disso ser a n o t a d o s p e l o s
mestres-de-capela segundo a qualidade d o erro que
c o m e t e r e m , n ã o p a s s a n d o a multa nas p r i m e i r a s 3 v e z e s
da m e t a d e da q u a n t i a c o r r e s p o n d e n t e a h u m d i a d o s e u
74
José Maurício Nunes Garcia biografia
o r d e n a d o , e d e v e n d o p a s s a r - s e a o d o b r o , e a três d o b r o s
desta pena aos casos de reincidência e contumacia,
a p l i c a n d o - s e s e m p r e para a Fabrica da I g r e j a " .
Para u m m e s t r e - d e - c a p e l a a d m i t i d o a c o n t r a g o s t o , a situação
n ã o p o d i a s e r mais e m b a r a ç o s a . A s o b r i g a ç õ e s e s s e n c i a l m e n t e
m u s i c a i s n ã o f a l t a v a m — as aulas — n e m as q u e se r e l a c i o n a v a m
c o m o p r e p a r o d a s c e r i m ó n i a s r e l i g i o s a s na C a t e d r a l . E r a m
o b r i g a ç õ e s às q u a i s o p a d r e J o s é M a u r í c i o a t e n d i a a l é m d e ser
c o m p o s i t o r , r e g e n t e e preparador das músicas escolhidas ou
c o m p o s t a s , a t u a n d o t a m b é m c o m o o r g a n i s t a , n o s t e r m o s da
p o r t a r i a d e 26 d e n o v e m b r o d e 1808.
A g u a r d a n d o embora os cantores q u e viriam d e Lisboa, f o r a m n u m e r o s a s as c e r i m ó n i a s r e l i g i o s a s r e a l i z a d a s n o a n o d e
1809 o n d e a p r e s e n ç a da m ú s i c a é assinalada. A c o m e m o r a ç ã o
d o d i a d o p a d r o e i r o da c i d a d e , e m j a n e i r o , a p r i m e i r a assistida
p o r D . J o ã o n o R i o d e J a n e i r o r e v e s t i u - s e d e muita s o l e n i d a d e :
"... a l é m d a s s o l e n e s V é s p e r a s q u e f o r a m o f i c i a d a s p e l o
Excelentíssimo e Reverendíssimo Bispo Capelão-mor, cabido e
c a p e l ã e s da R e a l C a p e l a , e c a n t a d a s p e l o s m ú s i c o s da m e s m a ,
h o u v e M a t i n a s i g u a l m e n t e o f i c i a d a s e cantadas." 1 0 8 Esta é a
informação de Perereca sobre a cerimónia.
N o m ê s d e m a r ç o a c r e s c e n t o u - s e u m a rotina à v i d a musical
d a c i d a d e : a c o m e m o r a ç ã o — m a n t i d a a n u a l m e n t e d e 1809 até
1822 — e m a ç ã o d e g r a ç a s p e l o "dia 7 d e m a r ç o " , dia da c h e g a d a
d o p r í n c i p e r e g e n t e a o Rio d e Janeiro. D. João m a n d o u celebrar
m i s s a e T e D e u m na C a p e l a Real e m " g r a n d e p o m p a " , c o m a
c o r t e " e m t r a g e d e g a l a " . N o d i a s e g u i n t e o S e n a d o da C â m a r a
r e p e t i u a c o m e m o r a ç ã o p e l a m e s m a d a t a na C a p e l a " d o s
T e r c e i r o s " . T u d o f a z c r e r q u e o p a d r e J o s é M a u r í c i o f o s s e o autor
da música o u v i d a nessas cerimónias.109
T r ê s outras missas s ã o assinaladas p o r J. J. M a c i e l c o m data
d e 1809: a Missa de São Miguel
Arcanjo,
a d e São Pedro
de
Alcântara,
já c i t a d a , e a da Visitação
de Nossa Senhora
e Anjo
Custódio
do
Reino.
N o m ê s d e abril r e a l i z o u - s e c o m g r a n d e s o l e n i d a d e a
S e m a n a Santa. D e c i d i u - s e q u e D . J o ã o " d e s c e à sua R e a l C a p e l l a
n o s d i a s d e D o m i n g o d e R a m o s , Quinta-feira d e E n d o e n ç a s , Sextaf e i r a da P a i x ã o e D o m i n g o d e P a s c o a " para assistir a o s " o f f i c i o s
d i v i n o s " . P a r t i c i p a m o s m i n i s t r o s da Real C a p e l a , o s d o C a b i d o
d o R i o d e J a n e i r o e m g r a n d e a p a r a t o ; p e l a música r e s p o n d e r i a o
padre José Maurício, mestre-de-capela, c o m a evidente
p a r t i c i p a ç ã o d o s cantores r e c é m - c h e g a d o s d e Portugal.110 Pela
p r i m e i r a v e z o c a t á l o g o d e J. J. M a c i e l registra o b r a s d e J o s é
75
Cleofe Person de Mattos
M a u r í c i o , c o m p r o v a n d o q u e essa p a r t i c i p a ç ã o c o m e ç a v a a i n f l u i r
n o p e n s a m e n t o artístico:
Credo a 8 vozes somente, para 5a feira
santa
Moteto
de Nossa Sra., para Procissões,
a 6 vozes
somente;
Moteto para a Procissão
da Aclamação
do Rei D. João IV, a
9 vozes
somente.
D u a s o b r a s s o b r e v i v e m da S e m a n a Santa d e 1809: Judas
mercator
(.CT 1 9 5 ) e Matinas da ressurreição
( C T 200), esta última
na v e r s ã o o r q u e s t r a d a . Entre o s a u t ó g r a f o s e n c o n t r a d o s d e 1809
v a l e assinalar a s e q u ê n c i a " L a u d a S i o n " p a r a a f e s t a d o C o r p o d e
Deus.
Coincidiu o imediato aproveitamento dos cantores vindos
da Capela Real d e Lisboa c o m o d e s a p a r e c i m e n t o das v o z e s
i n f a n t i s na C a p e l a R e a l d o R i o d e J a n e i r o . N ã o p r e v i s t a n o p l a n o
e l a b o r a d o i n i c i a l m e n t e p e l o t e s o u r e i r o da C a p e l a , a a t u a ç ã o d o s
m e n i n o s d o Seminário d e São Joaquim d e s a p a r e c e u a p ó s a
S e m a n a Santa d e 1809.
Nessa fase movimentada aventurou-se o padre-mestre e m
g é n e r o p o u c o f a m i l i a r à sua p e r s o n a l i d a d e : c o m p o r a m ú s i c a d e
c e n a p a r a d u a s p e ç a s d r a m á t i c a s da autoria d e D . G a s t ã o F a u s t o
da C â m a r a C o u t i n h o : Ulisséa, drama eroico, posto em musica
por
José Mauricio
Nunes Garcia
em 1809, para o dia 24 de junho.
A
obra representa, sem dúvida, h o m e n a g e m a o aniversário de
D . J o ã o , c o m o s e v ê na data a c r e s c e n t a d a a o t í t u l o , m a s e v o c a
a luta v i v i d a e m P o r t u g a l . A o u t r a o b r a , O triunfo
da
America,
t a m b é m destinada a a ç ã o cénica p e l o m e s m o autor d o texto, é
animada de espírito igualmente laudatório."1
A c a n t o r a b r a s i l e i r a J o a q u i n a Maria d a C o n c e i ç ã o d a Lapa
f o i a solista p r e v i s t a p a r a a m b a s as p e ç a s . Se as o b r a s f o r a m
o u v i d a s n o m o m e n t o i m a g i n a d o n ã o se t e m notícia, mas O
triunfo
da America,
c o m o p e ç a d r a m á t i c a , f o i " r e c i t a d a " , na e x p r e s s ã o
d o p a d r e P e r e r e c a , n o dia 13 d e m a i o d e 1810, a n i v e r s á r i o d o
p r í n c i p e r e g e n t e e c a s a m e n t o d e sua f i l h a D . Maria T e r e s a .
Outro grande gesto de consideração d o príncipe regente
p e l o seu m e s t r e - d e - c a p e l a — a c o n c e s s ã o d o H á b i t o d e Cristo,
o r d e m militar — e m p o l g o u o p a d r e J o s é M a u r í c i o n o d e c o r r e r
d e s s e a n o . 1 , 2 N o m ê s d e f e v e r e i r o d e 1809, d u r a n t e u m sarau
m u s i c a l r e a l i z a d o na Q u i n t a da B o a Vista, d e s e n r o l o u - s e a c e n a
espetacular q u e T a u n a y r e p r o d u z i u : D. João retirou d o p e i t o d o
v i s c o n d e d e V i l a N o v a da R a i n h a a c o n d e c o r a ç ã o da O r d e m e a
c o l o c o u na batina d o p a d r e . O b e d e c i a D . J o ã o a u m i m p u l s o d e
entusiasmo pela atuação d e José Maurício, q u e acabara d e p ô r
e m e v i d ê n c i a sua q u a l i f i c a ç ã o d e cravista e d e c a n t o r , f a z e n d o
ouvir Mozart e Cimarosa."3
76
José Maurício Nunes Garcia biografia
A t r a m i t a ç ã o b u r o c r á t i c a d o p r o c e s s o f o i l o n g a — d u r o u 12
m e s e s ! — e n ã o se p o d e d u v i d a r q u e as d i f i c u l d a d e s e r a m criadas
por intermediários de categoria, provavelmente inconformados
c o m a p e r s p e c t i v a d e v e r u s u f r u i n d o tal h o n r a r i a u m c o m p o s i t o r
brasileiro d e p e l e escura. O impasse decorria d e c o n d i ç õ e s
p e c u l i a r e s a o c o n d e c o r a d o : ser d i s p e n s a d o e m d e f e i t o s d e c o r e
r e a l i z a r - s e , o u n ã o , na C a t e d r a l , a c e r i m ó n i a d e i n v e s t i m e n t o d o
hábito. A 5 d e abril, d o i s m e s e s a p ó s a cena d e s e n r o l a d a n o
Paço, o padre José Maurício iniciou o processo, e m termos que
r e v e l a m o e m a r a n h a d o a o r e d o r d o assunto, e d e o n d e partiam
as d i f i c u l d a d e s :
" D i z o P a d r e J o s e M a u r i c i o N u n e s G a r c i a M e da M u z i c a da
Capella d e V.A.R. q u e tendo-se d i v u l g a d o q u e V.A. fazia a o
Sup c . a m e r c ê d o H a b i t o d e Christo, e t e n d o V.A.R. m a n d a d o
q u e o Sup°. f o s s e a o I l l m ° e Exc" 10 D F e r n a n d o J o z é d e P o r t u g a l p " e s t e m a n d a r passar a o Sup c . a P r o v i s ã o p* e l e p o r o
H a b i t o , c o m o V . A . R . d i s s e a o Sup e . r e s p o n d e u o m e s m o
Exc. 1 " 0 D. F e r n a n d o q u e ainda V.A.R. l h e n ã o tinha m a n d a d o ;
p o r t a n t o / P e d e o S u p c . a V . A . R . q u e i r a p e l a sua g r a n d e
B o n d a d e c o n c e d e r - l h e a G r a ç a e a M e r c e d o H a b i t o da
O r d e m d e Christo."
O despacho foi lançado no mesmo documento e trouxe a
rubrica d e D . João:
" A t t e n d e n d o a o q u e o Supplicante representa: H e i p o r b e m
f a z e r - l h e M e r c e d o H a b i t o da O r d e m d e C h r i s t o c o m d o z e
m i l reis d e T e n ç a e f f e c t i v a . P a l a c i o d o R i o d e J a n e i r o , e m 5
d e a b r i l d e 1809."
Na mesma data, o c o n d e de Aguiar c o m u n i c o u o f a t o à
M e s a d e C o n s c i ê n c i a e O r d e n s e r e p e t i u p a l a v r a s d e D . J o ã o : "E
m a n d a q u e p a r a o r e c e b e r e p r o f e s s a r se l h e f a ç a m as P r o v a n ç a s
e H a b i l i t a ç õ e s na sua p e s s o a , na f o r m a d o s Estatutos e D e f i n i ç õ e s
da mesma O r d e m . "
O p a d r e r e q u e r e u i m e d i a t a m e n t e c ó p i a da c e r t i d ã o d e
batismo e f e z ver a necessidade d e "correr folha"1'4 p e l o s escrivães
d o Juízo Eclesiástico.
As duas certidões foram concedidas. Apesar disso, quatro
d i a s a p ó s ter r e q u e r i d o as c e r t i d õ e s , o p a d r e J o s é M a u r í c i o e n v i o u
o u t r o o f í c i o p e d i n d o , " p o r justos m o t i v o s " , a dispensa das
c e r t i d õ e s . " 5 M a i s u m a v e z D . J o ã o d e s p a c h o u , n o m e s m o dia e
77
Cleofe Person de Mattos
n o m e s m o d o c u m e n t o , i s e n t a n d o - o da a p r e s e n t a ç ã o
c e r t i d õ e s . " 6 E s c r e v e , in extensis, o p r í n c i p e r e g e n t e :
dessas
" A t e n d e n d o a o que o Suplicante representa H e y p o r b e m
d i s p e n s a r d a s P r o v a n ç a s e H a b i l i t a ç õ e s d e sua p e s s o a e
h a v e l o p o r h a b i l i t a d o , p a r a r e c e b e r o H a b i t o da O r d e m d e
C h r i s t o , d e q u e l h e f i z M e r c e D i s p e n s a n d o - o o u t r o s i m da
apresentação d e quaes quer certidões, Folhas Corridas, q u e
d e v e r i a ajuntar; e para q u e na Santa I g r e j a C a t h e d r a l d e s t a
c i d a d e possa qualquer pessoa constituída e m D i g n i d a d e
Eclesiástica l a n ç a r - l h e o m e s m o H a b i t o e a d m i t i - l o l o g o à
P r o f i s s ã o d e l l e , s e m e m b a r g o d o s Estatutos e D e f i n i ç õ e s
da dita O r d e m e m contrario. A Mesa d e C o n s c i ê n c i a o tenha
e n t e n d i d o e lhe m a n d e passar o s d e s p a c h o s necessários.
R i o d e J a n e i r o , e m 26 d e j u n h o d e 1809 "
A s e n t e n ç a d o T r i b u n a l da M e s a d e C o n s c i ê n c i a e O r d e n s ,
proferida e m 7 de julho, foi registrada em d o c u m e n t o
o r n a m e n t a d o c o m o i t o rubricas e a r e c o m e n d a ç ã o : " G u a r d e - s e
n o A r q u i v o " . V i n t e e u m d i a s mais t a r d e , F r a n c i s c o J o s é R o f i n o
d e Souza L o b a t o assinou e m outro d o c u m e n t o a sentença q u e
julgou José Maurício N u n e s Garcia habilitado a tomar o hábito e
p r o f e s s a r na O r d e m d e Cristo. N ã o e s t a v a m p o r é m c o n c l u í d a s as
f o r m a l i d a d e s da h a b i l i t a ç ã o . A p e s a r da c o n t i n u a d a i n t e r f e r ê n c i a
d o p r í n c i p e r e g e n t e n o p r o c e s s o , s e m p r e a f a v o r d o seu mestred e - c a p e l a , mais sete m e s e s se passarão até q u e s e j a m e n c o n t r a d o s
n o v o s sinais d e a n d a m e n t o . N o dia 15 d e f e v e r e i r o d e 1810, n o
d o c u m e n t o d e investidura i g u a l m e n t e a s s i n a d o p o r Sousa L o b a t o ,
a r e f e r ê n c i a a o s " d o z e mil reis d e T e n ç a " é c o m p l e t a d a p e l a
d e c l a r a ç ã o d e q u e " p a p a g a r o s tres q u a r t o s r e s p e c t i v o s se p a s s o u
o p r e s e n t e " . Assunto d e f i n i d o e m a d e n d o , o n d e o "Fiel P a g a d o r
da T e s o u r a r i a m o r d o Real Erário F r a n c i s c o D u a r t e N u n e s "
registrou o s 9$000 " q u e r e c e b e o p e l o s tres q u a r t o s da T e n ç a a c i m a
mencionada"."7
A p a l a v r a f i n a l d e D . J o ã o , e m data d e 15 d e
c o m p l e t o u as i n f o r m a ç õ e s : " 8
fevereiro,
" D o m João p o r Graça d e D e o s Príncipe Regente d e Portugal e dos A l g a r v e s
e da índia. E d o Mestrado,
C a v a l l a r i a e O r d e m d e N o s s o S e n h o r Jesus C h r i s t o : F a ç o
Saber a vós, Monsenhor Almeida d o M e o Conselho, q u e
e s t a e s e n c a r r e g a d o d e l a n ç a r o s H á b i t o s da ditta O r d e m ,
q u e J o z e Mauricio Nunes Garcia, mostrando d e s e j o s e
d e v o ç ã o d e s e r v i r a N o s s o S e n h o r , e a M i m na m e s m a
78
José Maurício Nunes Garcia biografia
Ordem, Me p e d i o por Mercê. Houvesse por bem Recebello
e M a n d a r - l h e l a n ç a r o H a b i t o d e l i a : e t e n d o - l h e tu f e i t o
essa M e r c ê a Graça d e o D i s p e n s a r das P r o v a n ç a s e
H a b i l i t a ç õ e s d e sua p e s s o a , H a v e n d o - o p o r h a b i l i t a d o para
o R e c e b e r : p o r esta v ê s M a n d o , D o u p o d e r e C o m i s s ã o ,
q u e l h e l a n c e i s o H a b i t o d o s N o v i ç o s d e l i a na M i n h a R e a l
Capella d e Nossa Senhora d o Carmo, que serve d e cabeça
da O r d e m nesta C o r t e , na f o r m a d a s d e f i n i ç õ e s , e d e q u e
assim l h e f o i lançado, fareis assentamento n o l i v r o da
Matricula d o s C a v a l l e i r o s N o v i ç o s e Esta Carta f a r e i s g u a r d a r
n o C a r t o r i o da A r c a d e p u t a d a p a r a as Cartas d o s H á b i t o s ,
q u e na ditta M i n h a R e a l C a p e l l a M a n d o l a n ç a r e l h e
p a s s a r e i s v o s s a C e r t i d ã o c o m o t r a b a l h o d e s t a , p a r a sua
g u a r d a ...Esta se cumprirá s e n d o registrada n o Registro G e r a l
d a s M e r c ê s e p a s s a d a p e l a C h a n c e l l a r i a da O r d e m . R i o d e
J a n e i r o , Q u i n z e d e F e v e r e i r o d e 1810.
O P r í n c i p e c o m g u a r d a , e t c . ..."
R e a l i z o u - s e , f i n a l m e n t e , a investidura c o m o u s e m a p o m p a
d e v i d a a um mestre-de-capela. Manuel de Araújo Porto-Alegre
i n f o r m a a data — 17 d e m a r ç o — e o s n o m e s d o s p a d r i n h o s : " 9
frei José Marcelino Gonçalves, Francisco José R o f i n o d e Souza
L o b a t o , e o v i s c o n d e d e Vila N o v a da R a i n h a , e n t ã o b a r ã o .
Estava c o n f i r m a d o c o m o n o v i ç o na O r d e m d e C r i s t o o p a dre brasileiro José Maurício N u n e s Garcia. P o u c o r e t o r n o a l é m
d a s c r i s p a ç õ e s d e t e c t a d a s n o p r o c e s s a m e n t o dessa h o n r a r i a terá
r e s u l t a d o p a r a a f i g u r a ilustre d o m ú s i c o : r e c o r d a r o g e s t o d e
e n t u s i a s m o d e D . J o ã o p e l o talento d e seu m e s t r e - d e - c a p e l a
c a n t a n d o n o P a ç o ; o u s i m p l e s m e n t e ornamentar, para o s o l h o s
da p o s t e r i d a d e , a sua batina c o m a c o n d e c o r a ç ã o n o r e t r a t o a
ó l e o q u e m a i s t a r d e será p i n t a d o p o r s e u f i l h o .
D i f i c u l t o s o , c o m o se p o d e ver, o p r o c e s s a m e n t o da
c o n c e s s ã o d o H á b i t o d e C r i s t o a o p a d r e J o s é M a u r í c i o , n ã o será
m e n o s e l o q u e n t e n o f a z e r sentir o d e s e q u i l í b r i o e n t r e a v o n t a d e
d e D. J o ã o , as m a n o b r a s d e seus ministros, e a d e s c o n s i d e r a ç ã o
d o s m ú s i c o s da C a p e l a , o q u e r e v e l a u m a v i s o d e 3 d e d e z e m b r o
d e 1809 e n v i a d o da F a z e n d a d e Santa C r u z , o n d e se e n c o n t r a v a
o p r í n c i p e r e g e n t e , a o c o n d e d e A g u i a r . O t r a t a m e n t o d e q u e era
a l v o o c o m p o s i t o r grita, nesse d o c u m e n t o oficial
—
c o r r e s p o n d ê n c i a e n t r e o c o n d e d e L i n h a r e s , m i n i s t r o da G u e r r a
e d o s E s t r a n g e i r o s , e o c o n d e d e A g u i a r — para ser c o m u n i c a d o
a o juiz de fora inspetor d o s Teatros, a q u e m cabia tomar
p r o v i d ê n c i a s . T e o r parcial d o aviso:
79
Cleofe Person de Mattos
" H a v e n d o s i d o p r e s e n t e a S.A.R. o P r í n c i p e R e g e n t e N o s s o
S e n h o r q u e a b e l a pessa e m m u s i c a c o m p o s t a p e l o p a d r e J.
M a u r i c i o para ser p o s t a e m c e n a n o a u g u s t o d i a d o s a n o s
d e S.M. a R a i n h a N o s s a S e n h o r a , t e m s i d o t ã o p o u c o
e n s a i a d a p e l o s m ú s i c o s e c o m tal n e g l i g e n c i a , q u e s e f a z
m u i t o d i f í c i l o p o d e r ser a m e s m a b e m e d i g n a m e n t e
e z e c u t a d a , c o m o S.A.R. d e s e j a q u e i n f a l i v e l m e n t e s e j a : é
S.A.R. s e r v i d o q u e V. Ex a , m a n d a n d o c h a m a r o Juiz d e Fora
inspetor d o teatro, lhe o r d e n e q u e d a q u i e m diante, d e
m a n h a e d e t a r d e , se f a ç a m o s e n s a i o s da s o b r e d i t a p e s s a ,
q u e n e n h u m a outra seja e n s a i a d a n e s t e i n t e r v a l o e q u e d e
t o d o m o d o se p r o c u r e q u e a m e s m a v á a o s o b r e d i t o d i a e m
cena e vá d i g n a m e n t e . "
N ã o se p o d e c o n f i r m a r se a " b e l a p e s s a " f o i o u n ã o ouvida. 1 2 0
Sem dúvida o p a d r e José Maurício c o n t a v a c o m a estima e a
c o n s i d e r a ç ã o d o príncipe regente. As sucessivas p r o v a s q u e lhe
f o r a m d a d a s a o l o n g o d o p r o c e s s o da O r d e m d e C r i s t o n ã o
permitem esquecer.
A i n d a assim, n o m e s m o a n o , mais u m a v e z D . J o ã o v e i o a o
e n c o n t r o das d i f i c u l d a d e s f i n a n c e i r a s q u e a f l i g i a m o s e u m e s t r e de-capela.
O s a c o n t e c i m e n t o s q u e c o r r i a m p a r a l e l a m e n t e a o s d a Real
C a p e l a m o s t r a m q u e a c o n v i v ê n c i a era d i f í c i l n o S e n a d o . A p e n a s ,
eram de outro género, e diziam respeito ao p a g a m e n t o dos
s e r v i ç o s q u e lhe e r a m prestados. Cabia a o mestre-de-capela
o r d e n a d o a n u a l , f i x o ( 1 0 2 $ 4 0 0 , e m 1809). A i n s u f i c i ê n c i a d o
o r d e n a d o n o s e n t i d o d e p o d e r c u m p r i r as a r r e m a t a ç õ e s s e g u n d o
as n e c e s s i d a d e s d e c o n t r a t a ç ã o d e m ú s i c o s c h e g a r a m a o
c o n h e c i m e n t o de D. João, que sugeriu ao presidente
d e s e m b a r g a d o r d o S e n a d o a u m e n t á - l o p a r a 200$000.
N ã o lhe adiantará o aumento d e o r d e n a d o sugerido por D. João,
p o r q u a n t o o S e n a d o não levará e m conta o p a g a m e n t o d o s
músicos c o n v o c a d o s para cada e v e n t o , p a g o s p o r a n t e c i p a ç ã o
p e l o mestre-de-capela, a q u e m o Senado ressarciria. A
impontualidade deste no pagamento criava situações
intransponíveis ao mestre-de-capela porque foi sempre ignorada
a o b r i g a ç ã o d e i n d e n i z á - l o . Seu s a l á r i o n ã o p o d e r i a s e q u e r
c o m p e t i r n o m o m e n t o e m q u e as c e r i m ó n i a s i m p o r t a n t e s
t o r n a v a m - s e m a i s f r e q u e n t e s e e s s e s m ú s i c o s p a s s a m a ser o s da
C a p e l a Real c o m o r d e n a d o s m a i o r e s . N e s s a c i r a n d a , o
budgetdo
p a d r e J o s é M a u r í c i o n ã o se s u s t e n t o u .
Para c o m p r e e n d e r m e l h o r a d e s c o n f i a n ç a e m q u e se
d e s e n r o l a v a m os c o m p r o m i s s o s entre o S e n a d o e o mestre-de-
80
José Maurício Nunes Garcia biografia
c a p e l a , n ã o será inútil e v o c a r os fatos. O assunto será
p a r c i a l m e n t e t r a t a d o e m nota, 1 2 1 assim e v i t a n d o a m o n o t o n i a d e
um desfilar contínuo d e p e d i d o s e mandados de p a g a m e n t o , ou
a l u s õ e s às q u i t a ç õ e s e e v a s i v a s d a s a u t o r i d a d e s .
Em o u t u b r o d e 1809, s e g u i n d o - s e a l o n g o p e r í o d o d e atraso
nos pagamentos, o Senado liberou o referente a um ano de
o r d e n a d o . N ã o eram p a g o s os eventos extraordinários, apenas
o s q u a r t é i s já e s t a b e l e c i d o s e m a r r e m a t a ç ã o , d e o u t u b r o d e 1808
a o u t u b r o d e 1809. N e n h u m a a l u s ã o a o p a g a m e n t o p r é v i o a o s
m ú s i c o s participantes e m b o r a a festa d e São Sebastião,
p a t r o c i n a d a p e l o S e n a d o , h o u v e s s e s i d o e n r i q u e c i d a , c o m o se lê
n o t e s t e m u n h o d o p a d r e P e r e r e c a , c o m v é s p e r a s s o l e n e s e matinas
o f i c i a d a s e cantadas. 1 2 2 Era e s s e o t r a t a m e n t o q u e l h e d a v a o
ó r g ã o e n c a r r e g a d o d e p r o m o v e r c e r i m ó n i a s o f i c i a i s e m n o m e da
cidade.
Uma iniciativa p o u c o f e l i z tomada p e l o padre-mestre e m
1809, q u a n d o o f a v o r e c i m e n t o p e l a sua p e s s o a era p o s i t i v o , n ã o
t r o u x e p a r a a sua v i d a s e n ã o d e s g o s t o e d e s i l u s ã o : J o s é M a u r í c i o
r e c o r r e u à Justiça p a r a r e a v e r terras e m O b a t i b a , d i s t r i t o d e
M a r i c á , h e r d a d a s p o r sua m ã e d o c a s a m e n t o a n t e r i o r c o m
R a i m u n d o P e r e i r a d e A b r e u , a s s u n t o já t r a t a d o na n o t a 9E q u i v o c o u - s e V i t ó r i a Maria q u a n t o à l o c a l i z a ç ã o d a s terras, o u o
p a d r e J o s é M a u r í c i o n ã o a v a l i o u as a r t i m a n h a s q u e s e f a z i a m
p o r trás d a Justiça: o r e s u l t a d o d o p r o c e s s o f o i d e s f a v o r á v e l para
o compositor.123
A d e s a f i a d o r a a t i t u d e d o s m ú s i c o s da C a p e l a , i n s a t i s f e i t o s
p o r t e r e m d e c o n v i v e r c o m o c o m p o s i t o r b r a s i l e i r o , ilustra
s u f i c i e n t e m e n t e o a m b i e n t e da Capela Real e m d e z e m b r o d e 1809O d i a d e S ã o S e b a s t i ã o d e 1810 f o i c o m e m o r a d o c o m "a
mesma pompa d o ano antecedente", diz Perereca, e com
"Matinas". O b r a c o m orquestra q u e Maciel registra.
A n t e s da f e s t a , J o s é M a u r í c i o — n u m a clara r e f e r ê n c i a a o
a d i a n t a m e n t o q u e se d e v i a a o s m ú s i c o s — s o l i c i t o u a o S e n a d o o
p a g a m e n t o d o ú l t i m o q u a r t e l d o a n o d e 1809 " p a r a s e r v i r d e
adjutório aos pagamentos que tem de fazer". N ã o foi atendido o
mestre-de-capela. O Senado expediu mandado de pagamento de
25$400, c o r r e s p o n d e n t e a u m q u a r t e l d e o r d e n a d o e m data d e
14 d e f e v e r e i r o , a p ó s o dia da festa, s e m q u a l q u e r r e f e r ê n c i a a o s
músicos q u e ficaram sem o p a g a m e n t o antecipado.124 A g r a v o u se a s i t u a ç ã o d o p a d r e J o s é M a u r í c i o , q u e a s s i n o u a " q u i t a ç ã o " .
D i a s m a i s t a r d e r e a l i z o u - s e , na C a p e l a d o s T e r c e i r o s d o
C a r m o , a c o m e m o r a ç ã o d o dia da c h e g a d a d e D . J o ã o a o R i o d e
J a n e i r o , " d i a 7 d e m a r ç o " . N o dia 31 d e m a r ç o o p a d r e J o s é
81
Cleofe Person de Mattos
M a u r í c i o r e q u e r e u o p a g a m e n t o da f e s t a , p a g o p e l o S e n a d o e m
4 d e abril.' 2 5
Transcrição d o requerimento:
"Senhores d o Senado — Diz o pc. José Mauricio N u n e s
G a r c i a , M e s t r e da C a p e l a Real, q u e e l e , p o r a v i s o d o I l l m °
P r e s i d e n t e d o S e n a d o — O Dr. Juiz d e F o r a - a p r e s e n t o u ,
n o dia 16 d o c o r r e n t e m e s a M u z i c a d a Festa e T e D e u m
q u e o m e s m o S e n a d o f e z e m a ç ã o d e graças p e l o a n i v e r s a r i o
d a c h e g a d a d e S A R nesta c i d a d e na O r d e m 3 a d o C a r m o ,
e c o m o d e v e p a g a r o s m ú s i c o s q u e assistiram a essa f e s t a ,
p o r t a n t o , p. a V . S " . s e j a m s e r v i d a s m a n d a r a m e s m a quantia
d o a n o p a s s a d o , q u e f o r a m 153$600."
E m 12 d e m a i o o p a d r e J o s é M a u r í c i o , e m n o v o
requerimento, solicitou a o Senado o p a g a m e n t o d o o r d e n a d o —
a g o r a r e a j u s t a d o para 200$000 anuais, d e a c o r d o c o m a s u g e s t ã o
d o p r í n c i p e r e g e n t e — para " s a t i s f a z e r a o s m ú s i c o s o q u e se está
d e v e n d o d e s d e o início d o ano". Comprova-se que não fora feito
o pagamento. Rendera-se o mestre-de-capela à evidência d e q u e
n ã o dispunha d e recursos para continuar h o n r a n d o c o m
a n t e c e d ê n c i a o q u e era d e v i d o a o s m ú s i c o s . S e g u e a í n t e g r a d o
requerimento:126
" D i z o P a d r e J o s é M a u r i c i o N u n e s ( M e s t r e de Muzica
da
Real C a p e l a desta c i d a d e ) q u e está e n c a r r e g a d o d e
p r o n t i f i c a r as m u z i c a s d e v o z e s e i n s t r u m e n t o s p a t o d a s as
Festividades q u e este S e n a d o h é o b r i g a d o a fazer, e para
as q u a i s r e c e b e a quantia d e 200$000 q u e se
distribuem
proporcionalmente
pelos
Muzicos,
se f a z p r e c i s o a o
S u p l i c a n t e q u e V. Sas l h e m a n d e m a g o r a s a t i s f a z e r t o d a a
r e f e r i d a q u a n t i a d e 200$000, n ã o s ó para p a g a r o que se
está devendo aos Muzicos
desde o princípio
do corrente
ano
c o m o para ajustar p o r p r e ç o s m a i s c o m o d o s a d i a n t a n d o
a l g u m a p a r c e l a a o s m e s m o s m u z i c o s q u e h ã o d e s e r v i r na
p r ó x i m a f e s t i v i d a d e d e C o r p o d e D e o s ; e m c u j o s t e r m o s //
P. a V.Sas s e j a m s e r v i d a s a t e n d e r à justa r e p r e s e n t a ç ã o d o
s u p l i c a n t e m a n d a n d o - l h e p a g a r o s 200$000 c o m o r e q u e r ;
s e n d o nesta p a r t e o interesse do suplicante
somente
servir
bem ao Senado, d e q u e m e s p e r a // R . M . " ( g r i f o s d a a u t o r a )
O o f í c i o deixa claro que algo mudara no tratamento
p r o f i s s i o n a l e n t r e m ú s i c o s e o m e s t r e - d e - c a p e l a : o s 200$000
seriam distribuídos p r o p o r c i o n a l m e n t e p e l o s músicos.
82
José Maurício Nunes Garcia biografia
A r e s p o s t a d o S e n a d o a o o f í c i o d e J o s é M a u r í c i o t e m data
d e 26 d e m a i o . É o m a n d a d o d e p a g a m e n t o d o s 200$000 " d e u m
ano de o r d e n a d o " , esclarecendo que fora arbitrado esse
p a g a m e n t o e m " a c o r d o d e V e r e a ç ã o " r e a l i z a d o n o d i a 10 d e
j a n e i r o d e 1810. 127
A ordem de pagamento, expedida em novembro, foi
q u i t a d a . A d e m o r a e m assiná-la — s e i s m e s e s ! — c o n f i g u r a a
n ã o c o n c o r d â n c i a d o mestre-de-capela c o m o seu c o n t e ú d o .
Resistência afinal v e n c i d a .
A t r a n s c r i ç ã o , m e s m o p a r c i a l da c o r r e s p o n d ê n c i a e n t r e o
S e n a d o — e sua p o s i ç ã o i r r e d u t í v e l — e o m e s t r e - d e - c a p e l a —
v i v e n d o uma situação i n s o l ú v e l — representa, na v e r d a d e , o i n í c i o
d e u m d i á l o g o a l u c i n a d o q u e se p r o l o n g a r á até 1812. O a u m e n t o
da a n u i d a d e p a r a 200$000 n ã o é i n t e r p r e t a d o c o m o a u m e n t o d e
o r d e n a d o para o c o m p o s i t o r , e sim, c o m o e l e p r ó p r i o o r e c o n h e c e
n o o f í c i o d e 12 d e m a i o , u m a q u a n t i a q u e s e r i a d i v i d i d a
p r o p o r c i o n a l m e n t e p e l o s m ú s i c o s . A o c o m p o s i t o r , e r e g e n t e da
o b r a , restará a p e n a s a s a t i s f a ç ã o d e o u v i r a sua o b r a na C a p e l a
Real, c u m p r i n d o a o b r i g a ç ã o d e " s o m e n t e servir b e m a o S e n a d o " .
N a d a m a i s . S e m d e s e j a r insistir d e m a s i a d a m e n t e na e x a u s t i v a
sequência de mandados, de despachos, de um reajuste de
o r d e n a d o q u e o p a d r e - m e s t r e n u n c a u s u f r u i u , n ã o se p o d e
a b a n d o n a r o assunto, p o r q u e o s a c r i f í c i o i m p o s t o a J o s é M a u r í c i o
n ã o havia terminado.
Tal s i t u a ç ã o , c h e i a d e t e n s õ e s , está l a n ç a d a n o s l i v r o s d o
A r q u i v o Geral d o Estado d o Rio de Janeiro, testemunhas
s i l e n c i o s a s d e a c o n t e c i m e n t o s i n s o l ú v e i s e e x p l i c a m as r a z õ e s
da d e c i s ã o q u e o p a d r e J o s é M a u r í c i o v ê - s e o b r i g a d o a t o m a r e m
a g o s t o d e 1810: c o n t r a i r u m a d í v i d a d e 400$000 ( q u a t r o c e n t o s
m i l r é i s ) p a r a l i v r a r - s e da c o n j u n t u r a d i f í c i l . G e s t o d e s e s p e r a d o
e e m n a d a f a v o r á v e l a o seu e q u i l í b r i o e m o c i o n a l , c u j o s resultados
n ã o t e r i a m r e p e r c u t i d o b e m na p r o j e ç ã o d e sua i m a g e m p e s s o a l .
A s c o n d i ç õ e s d o e m p r é s t i m o s ã o duras. A "Escritura d e
divida e obrigação que faz o Reverendo José Mauricio Nunes
G a r c i a a M a t e u s F r a n c i s c o G o m e s e m 18 d e a g o s t o d e 1810" será
transcrita i n t e g r a l m e n t e e m nota, 1 2 8 r e s s a l v a n d o e s p a ç o a s e g u i r
p a r a u m p o n t o i m p o r t a n t e : a f o r m a d e ser s a l d a d a a d í v i d a :
"
e m p a g a m e n t o s i g u a i s , d e três e m três m e s e s , q u e
c o m e ç a r ã o a correr de hoje, e hão d e findar daqui a hum
ano p r e f i x o satisfazendo-lhe juntamente os competentes
juros q u e f o r v e n c e n d o à p r o p o r ç ã o d o q u e f o r p a g a n d o ; e
q u e a t u d o isto se o b r i g a p o r s e u s b e n s p r e s e n t e s e f u t u r o s
e e s p e c i a l m e n t e p o r húa m o r a d a d e casas t e r r e a s q u e t e m
83
Cleofe Person de Mattos
na rua d a s M a r r e c a s , q u e p a r t e m c o m o C o r o n e l A n t o n i o
Nascentes Pinto por hum lado, e de outro c o m q u e m direito
for, as q u a i s s ã o livres d e f o r o , p e n s ã o , p e n h o r a o u h i p o t e c a
a l g u m a , e e l e o u t o r g a n t e a g o r a as h i p o t e c a para s e g u r a n ç a
m e l h o r d e s t a d i v i d a a l e m da q u a l o f e r e c e p o r s e u f i a d o r e
p r i n c i p a l p a g a d o r o C a p i t ã o A n t o n i o C a r l o s da S i l v a
R a m a l h o m o r a d o r na sua chacara d o Bairro d e S ã o C r i s t o v ã o
da F r e g u e s i a d o E n g e n h o V e l h o , o q u a l c o m p a r e c e u e f o i
p o r m i m r e c o n h e c i d o e d i c e q u e d e f a c t o se o b r i g a a s o l u ç ã o
desta divida c o m o f i a d o r principal p a g a d o r d e l a p o r seus
bens presentes e futuros."
O o u t o r g a d o Mateus Francisco G o m e s declarou aceitar a
escritura, q u e f o i lida e assinada e m 18 d e a g o s t o d e 1810 p o r
t o d o s o s m e n c i o n a d o s e m a i s as t e s t e m u n h a s : Luís I n á c i o P e r e i r a
Sarmento, J o ã o d o s Reis Pereira e no i m p e d i m e n t o d e A n t ô n i o
T e i x e i r a d e C a r v a l h o , a s s i n o u J o a q u i m Costa da R o c h a Pita.
M e r e c e a t e n ç ã o o n o m e d o v i z i n h o na rua d a s M a r r e c a s ,
c o r o n e l A n t o n i o Nascentes Pinto, p o s s i v e l m e n t e pai d o q u e
m a n t i n h a u m t e a t r o d e a m a d o r e s na rua " d o P a s s e i o " — e o d a s
t e s t e m u n h a s Luís I n á c i o Pereira S a r m e n t o e J o ã o d o s Reis Pereira
— v e l h o s a m i g o s , q u e o a s s i s t e m nessa h o r a d i f í c i l .
O padre José Maurício não encontrou, n o ano seguinte,
m e i o s d e s a t i s f a z e r o seu c r e d o r n o p r a z o p r e v i s t o . O s p r o b l e m a s
c o m o Senado continuaram irremovíveis, e o compositor teve
q u e carregá-los, p a g a n d o aos músicos, e ainda arcando c o m a
d í v i d a . S o m e n t e e m 1812 a d í v i d a será p a g a , e m c o n d i ç õ e s q u e
adiante serão comentadas.
A i n d a n e s s e a n o , d e intensa a t i v i d a d e na C a p e l a , n o v a tarefa
f o i a c r e s c e n t a d a à t r a b a l h o s a v i d a d o p a d r e J o s é M a u r í c i o . Esta
l h e c h e g a c o m o a r q u i v o d e música d o P a l á c i o d e Q u e l u z ; p a r a
e l e o mestre-de-capela é i n d i c a d o arquivista. A esse trabalho
r e f e r i u - s e o c o m p o s i t o r n o d o c u m e n t o q u e e m j u l h o d e 1822
e n v i o u a D . P e d r o , já p r í n c i p e r e g e n t e , e p e r m i t e a v a l i a r o q u e
r e p r e s e n t o u c o m o s o b r e c a r g a n o q u a d r o d e sua v i d a . São palavras
d e José Maurício n o citado d o c u m e n t o :
"Servia e ainda serve d e Archivista. S é r v i o quasi trez anos
d e Organista." Mais adiante especifica: "trabalhou s e m p r e
c o m e x a c t i d ã o nas c o m p o s i ç õ e s q u e S.M. l h e m a n d a v a f a z e r
p a r a as F u n ç õ e n s da R. C a p e l a a n t e s e d e p o i s d e c h e g a r o
A r c h i v o de Musica de Q u e l u z , d o q u e lhe resultou ficar
d e t e r i o r a d o na sua s a ú d e ate o p r e s e n t e . "
84
José Maurício Nunes Garcia biografia
A p e s a r d e e x c e s s i v a a r e s p o n s a b i l i d a d e d e sua n o v a f u n ç ã o
— n ã o prevista na portaria e t a l v e z m a n h o s a m e n t e d e c i d i d a para
distanciá-lo d o e x e r c í c i o de c o m p o r e reger, f u n ç õ e s mais
c o n d i z e n t e s c o m a sua p e r s o n a l i d a d e m u s i c a l — n ã o se p o d e
deixar d e r e c o n h e c e r q u e o trabalho d e arquivista f o i p o s i t i v o
n o p r o c e s s a m e n t o d e sua r e n o v a ç ã o artística. Sua l i n g u a g e m v a i
e n r i q u e c e r - s e c o m as n o v a s t é c n i c a s q u e l h e s ã o o f e r e c i d a s p e l a
v i v ê n c i a c o m r e p e r t ó r i o e c l é t i c o e m a i s a t u a l i z a d o . A s partituras
trarão a o seu c o n h e c i m e n t o n o v o s p r o c e s s o s d e criação, f o n t e
d o s r e n o v a d o s r e c u r s o s i n c o r p o r a d o s à sua escritura a partir dessa
é p o c a . Alguns p o u c o desejáveis, sem dúvida: outros, p o r é m ,
r e p r e s e n t a m c o n t r i b u i ç ã o d e f i n i t i v a p a r a a sua p e r s o n a l i d a d e
m u s i c a l , o q u e será e x a m i n a d o m a i s a d i a n t e .
A p r o p ó s i t o d e s s a " l i v r a r i a " , v a l e l e m b r a r as n ã o p o u c a s
a l u s õ e s à " f a m o s a b i b l i o t e c a " da q u a l e l e seria " p r o p r i e t á r i o " . A
i n f o r m a ç ã o , partida d e A d r i e n Balbi, 1 2 9 c r i o u o m i t o da b i b l i o t e c a
q u e supostamente lhe pertencia. O mito desfez-se n o d o c u m e n t o
d e 1822, c o m a p a l a v r a d o p r ó p r i o c o m p o s i t o r . N ã o f o i l o c a l i z a d o
o a t o o f i c i a l p a r a essa i n c u m b ê n c i a — n ã o p r e v i s t a na p o r t a r i a
d e sua i n d i c a ç ã o p a r a a Real C a p e l a , e m 1808 — t a l v e z p o r q u e
n ã o i m p l i c a s s e e m c o m p r o m i s s o f i n a n c e i r o da c o r o a .
M e r g u l h a d o e m o c u p a ç õ e s várias n o e x e r c í c i o d o m e s t r a d o ,
as p r e o c u p a ç õ e s f i n a n c e i r a s d o p a d r e a g r a v a v a m - s e . A
impontualidade d o Senado inviabilizara desde o início d o a n o a
c a p a c i d a d e d e satisfazer p o r a n t e c i p a ç ã o seus c o m p r o m i s s o s c o m
os músicos. O ano inteiro f o i marcado p o r desentendimentos d e
o r d e m f i n a n c e i r a e assim f o i até o d e s e n l a c e , c h e i o d e traumas,
e m 1811.
A d e s p e i t o d e t o d o o e n v o l v i m e n t o n e g a t i v o e m sua v i d a ,
a obra de criação d o mestre-de-capela continuou crescendo.
M a c i e l registra Matinas
de São Sebastião a 4 vozes com
orquestra
( v i o l i n o s , v i o l e t a s , flautas, clarinetas, f a g o t e s , clarins, t r o m p a s e
c o n t r a b a i x o ) . R e p e t i n d o ato d o a n o anterior, José Maurício
c o m p ô s " p a r a o d i a 7 d e m a r ç o " a Missa e o Te Deum
na
c o m e m o r a ç ã o d o dia da c h e g a d a d e D . J o ã o a o R i o d e J a n e i r o . O
e v e n t o o c o r r e u e m 16 d e m a r ç o na I g r e j a d o s T e r c e i r o s d o
Carmo. 1 3 0
U m Ecce sacerdos
a oito v o z e s com acompanhamento de
ó r g ã o , v i o l o n c e l o s e f a g o t e s ( C T 5 ) e o Magnificai
das v é s p e r a s
d e S ã o J o s é s o b r e v i v e m na b i b l i o t e c a da E s c o l a d e M ú s i c a . A
p a r t i c i p a ç ã o d o s n o v o s instrumentistas c h e g a d o s d e Lisboa
e n c o n t r o u m o m e n t o i m p o r t a n t e p a r a f a z e r - s e o u v i r na f e s t a d o
C o r p o d e D e u s , para a qual José Maurício c o m p ô s u m salmo:
Beati
omnes.131
85
Cleofe Person de Mattos
N e m s ó e m o b r a s o r i g i n a i s trabalharia o c o m p o s i t o r . T é n u e
c o m p e n s a ç ã o nesse ano traumatizante r e c e b e u o p a d r e José
M a u r í c i o c o m a i n c u m b ê n c i a d e transpor para a v o z d e t e n o r —
original para contralto — e f a z e r o arranjo n o s o l o " T u d e v i c t o " ,
d o Te Deum d e M a r c o s P o r t u g a l , a ser e x e c u t a d o n o c a s a m e n t o
d e D . Maria T e r e s a , r e a l i z a d o n o dia 13 d e m a i o d e s s e a n o .
Em j u l h o d e 1810 o R i o d e J a n e i r o t e v e a o p o r t u n i d a d e d e
o u v i r u m a o b r a d e M a r c o s P o r t u g a l e m g r a n d e e s t i l o . A missa
f e s t i v a é e x e c u t a d a na C a p e l a Real na festa d e N o s s a S e n h o r a d o
C a r m o . N ã o há c o m o i l u d i r - s e q u a n t o a o s i g n i f i c a d o d a e s c o l h a
dessa missa e n t r e as p r i m e i r a s g r a n d e s o b r a s c o m o r q u e s t r a l o g o
a p ó s a a d m i s s ã o d o s instrumentistas p o r t u g u e s e s na C a p e l a d o
Rio d e Janeiro. Se o u t r o s a r g u m e n t o s faltassem, a o b r a f a z i a sentir
q u e a q u e l e era o p a d r ã o a ser i m p l a n t a d o na C a p e l a Real. Criava
r a í z e s o " e s t i l o da C a p e l a Real d e L i s b o a " , i m p o n d o o s e u m o d e l o
n o R i o d e J a n e i r o e e s t i m u l a n d o , q u e m s a b e , o d e s e j o d e atrair o
c o m p o s i t o r p o r t u g u ê s p a r a o Brasil. A Gazeta do Rio de
Janeiro,
que noticiou o evento, não informa o que parece óbvio: a direção
m u s i c a l da festa. 1 3 2
U m a d i v e r s i f i c a ç ã o e m t e r m o s d e intérpretes d e sua música,
e c o n s e q u e n t e m e n t e , à m a r g e m d e sua p e r s o n a l i d a d e artística é
o q u e r e p r e s e n t a a c o m p o s i ç ã o d o m o t e t o Praecursor
Domini,
o
p r i m e i r o d e uma série de m o t e t o s destinados a o c o n j u n t o musical d o s e s c r a v o s - m ú s i c o s da F a z e n d a d e Santa Cruz. 133 H e r d e i r o s
d e u m a t r a d i ç ã o musical q u e o s f i z e r a p a r t i c i p a n t e s h a b i t u a i s d e
c e r i m ó n i a s r e l i g i o s a s p r o m o v i d a s p e l o s jesuítas n o s s é c u l o s
a n t e r i o r e s , o s e s c r a v o s , q u e d e s d e 1808 c o n t a v a m c o m o e n s i n o
d e música, p r i n c i p i a v a m a dar n o v o s sinais d e suas p o s s i b i l i d a d e s
musicais. C o n q u a n t o o Praecursor
Domini
represente o primeiro
passo técnico n o l o n g o caminho q u e terão pela frente — desde
o t o m d e D ó Maior aos reduzidos recursos harmónicos c o m que
é c o n s t r u í d o o m o t e t o — n ã o d e i x a r á d e ser u m a c o n c e s s ã o para
q u e m já tinha u m a b a g a g e m v a l i o s a d e c o m p o s i t o r b e m a l e n t a d a .
N ã o f o i o m o t e t o a última o b r a c o m p o s t a p o r J o s é M a u r í c i o
e m 1810. N e s s e a n o e n t r e c o r t a d o d e lutas, o c o m p o s i t o r e n c o n t r a
f ô l e g o p a r a e s c r e v e r a Missa de Nossa Senhora
a 8 de
dezembro
a p r e s e n t a d a n o dia da festa da p a d r o e i r a d o r e i n o , N o s s a S e n h o r a
da C o n c e i ç ã o . O a c o n t e c i m e n t o , m a r c a n t e na v i d a p r o f i s s i o n a l
d o m e s t r e - d e - c a p e l a , está r e g i s t r a d o n o l i v r o d a s " F u n ç õ e s da
Corte"134 c o m a i n f o r m a ç ã o d e q u e o príncipe r e g e n t e desceria à
sua R e a l C a p e l a n o s á b a d o , dia 8 d e d e z e m b r o " p e l a s d e s h o r a s
d a m a n h ã para assistir à f u n ç ã o d e N o s s a S e n h o r a da C o n c e i ç ã o " .
N ã o d e i x a d e ser g r a t i f i c a n t e constatar q u e n e s s e m o m e n t o
d i f í c i l v i v i d o p e l o c o m p o s i t o r , u m e s f o r ç o d e r e n o v a ç ã o artística
86
José Maurício Nunes Garcia biografia
a g i t a v a o p e n s a m e n t o musical d o p a d r e J o s é M a u r í c i o , e e l e teria
c o m p o s t o u m a d a s suas mais i m p o r t a n t e s missas para abrilhantar
u m a c e r i m ó n i a r e a l i z a d a e m g r a n d e g a l a , na p r e s e n ç a d e t o d a a
c o r t e , d o s m i n i s t r o s , d o c o r p o d i p l o m á t i c o e d o s f i g u r õ e s da
n o b r e z a criada p e l o príncipe regente. Foi e x e c u t a d a p e l o s
c a n t o r e s e i n s t r u m e n t i s t a s da Real C a p e l a s o b a d i r e ç ã o d e s e u
m e s t r e - d e - c a p e l a , já p r o f e s s o na O r d e m d e Cristo.
Assumia José Maurício posição definitivamente consagrada
na música brasileira c o m a c o m p o s i ç ã o dessa missa. C o n f i r m a v a se q u e o c o n c e i t o d e música para o c u l t o havia m u d a d o , o s m e i o s
s o n o r o s e r a m o u t r o s . O p a d r e J o s é M a u r í c i o , q u e d e s d e 1809
deixara d e c o m p o r para tiples e contraltos, encetava u m v ô o d e
virtuosidade e d e técnica e m b a l a d o numa orquestra numerosa.
M a r c o r e p r e s e n t a t i v o da c r i a ç ã o mauriciana, c o n v i v e m nessa
missa a s p e c t o s v á r i o s d e r e n o v a ç ã o estilística a b r i n d o n o v a s
perspectivas à música brasileira c o m o tratamento v o c a l
i n s u s p e i t a d o a o s o u v i d o s e aos o l h o s d o p o v o da c o l ó n i a .
A s p e c t o s q u e serão o b j e t o d e c o n f r o n t o n o capítulo A Travessia,
a c o n s i d e r a r o c o n f l i t o entre a p e r m a n e n t e g r a v i d a d e e n v o l v e n d o
o Kyrie o p o n d o - s e a o e s t i l o o r n a m e n t a d o d a s á r e a s d e s t i n a d a s
a o s cantores da Capela Real.
Era a f a c e da p r o f a n i d a d e a b r i n d o c a m i n h o n o
Laudamus,
s o l o d e s o p r a n o , o u n o Qui tollis, c o n c e r t a n t e para t e n o r e c o r o ,
ou nos processos visíveis d e acompanhamento realizado p e l o
c o r o e m d e t e r m i n a d o s trechos, p r o c e d i m e n t o s q u e se
j u s t a p u n h a m à a u s t e r i d a d e d e d u a s f u g a s : Christe eleison e o
Cum sartcto
spiritu.
O c o n t e x t o n ã o n e g a r á a extraordinária q u a l i f i c a ç ã o da o b r a
c o n c e b i d a na e s t r u t u r a d a m i s s a - c a n t a d a q u e v a i d o m i n a r ,
d o r a v a n t e , a c o m p o s i ç ã o das missas d o p a d r e J o s é M a u r í c i o , uma
d e suas c o l u n a s mestras.
O a n o d e 1811 marca, na v i d a d o p a d r e J o s é M a u r í c i o N u n e s
Garcia, o e n c o n t r o c o m o c o m p o s i t o r p o r t u g u ê s q u e viria
e n s o m b r e c ê - l a : M a r c o s A n t ô n i o da F o n s e c a P o r t u g a l . O s f a t o r e s
q u e c o n c o r r i a m para o f r e n t e - a - f r e n t e i n d e s e j a d o u l t r a p a s s a v a m
o natural c h o q u e e n t r e p e r s o n a l i d a d e s artísticas distintas: u m a
v o l t a d a para a música d e teatro, apesar d o l o n g o p a s s a d o
c o m p o n d o para as c a p e l a s reais p o r t u g u e s a s ; outra, c o e r e n t e c o m
a f u n ç ã o q u e e x e r c i a na C a p e l a , c o n c e n t r a v a na m ú s i c a r e l i g i o s a
a f o r ç a d e sua criação. N a v e r d a d e , o c o n f r o n t o d e c o r r i a s o b r e t u d o
da p o s i ç ã o social q u e distinguia cada um d o s protagonistas: o
português, altaneiro, prestigiado pela corte, p e l o s ministros e
p e l o s m ú s i c o s v i n d o s da C a p e l a d e L i s b o a — p e s s o a s m o v i d a s
p o r vaidades e preconceitos — e o brasileiro, submisso,
87
Cleofe Person de Mattos
i m o b i l i z a d o e m suas a s p i r a ç õ e s p o r e s s e s m e s m o s p r e c o n c e i t o s
e d e s p r e s t i g i a d o e n t r e o s q u e o c e r c a v a m f a c e à m o d é s t i a d e sua
o r i g e m . A admiração d o príncipe regente a m b o s a tinham; foi
p o r é m insuficiente n o c a s o d e José Maurício para d e f e n d ê - l o d o
contexto adverso que o envolvia.
N ã o é fantasioso vincular à chegada d e Marcos Portugal
u m a s é r i e d e d e s c a m i n h o s na v i d a p r o f i s s i o n a l d o p a d r e c o m p o s i t o r , e m b o r a , c o m o se t e m c o n s t a t a d o , as h o s t i l i d a d e s v i e s s e m
d e l o n g e . N ã o f i q u e m e s q u e c i d a s as t e r r í v e i s p a l a v r a s d o s
m o n s e n h o r e s da C a p e l a R e a l , e m 1808, r e s i s t e n t e s à a d m i s s ã o
d e alguém c o m "defeito físico visível". Nenhuma razão conhecida,
a l é m da c h e g a d a d o c o m p o s i t o r p o r t u g u ê s e x p l i c a r i a t a m b é m a
q u a s e s i m u l t a n e i d a d e d e d o i s fatos o c o r r i d o s a o l o n g o da s e g u n d a
m e t a d e d e 1811: a " R e l a ç ã o d a s o b r a s c o m p o s t a s p o r J o s é
M a u r í c i o N u n e s G a r c i a para a R e a l C a p e l a d o R i o d e J a n e i r o até
o dia 6 d e s e t e m b r o d e 1811" e a i n t e r r u p ç ã o d a s a r r e m a t a ç õ e s
d e m ú s i c a p a r a as c e r i m ó n i a s p a t r o c i n a d a s p e l o S e n a d o . A
" R e l a ç ã o d e obras" 1 3 5 trazia à l u z a luta q u e se e s t a v a t r a v a n d o
na C a p e l a R e a l . N ã o há c o m o i l u d i r - s e q u a n t o a o s e n t i d o d e s s e
d o c u m e n t o , c u j a s r a z õ e s t e r ã o s i d o f u l m i n a n t e s na v i d a d e J o s é
M a u r í c i o . Era a c o n f i r m a ç ã o d o n o v o status q u e d e l e a f a s t a v a a
m i s s ã o d e c o m p o r para a C a p e l a . T i n h a o s e n t i d o i n q u e s t i o n á v e l
d e u m m a r c o triste, d e u m g e s t o d e d e s p e d i d a .
Na listagem numericante imprecisa dessa " R e l a ç ã o " , c o m
títulos n ã o transcritos n e m f i x a d a s as datas d a s c o m p o s i ç õ e s , e m
t u d o t r a n s p a r e c e o s e u e s t a d o d e e s p í r i t o , sua d e s i l u s ã o p o r mais
essa d e r r o t a q u e s e a c u m u l a r a às q u e s o f r e r a a o l o n g o d e s s e s
dois anos terríveis. N ã o mais dirigirá aquela "orquestra
p r o d i g i o s a " , n e m terá à sua d i s p o s i ç ã o cantores q u e n ã o o p u n h a m
e n t r a v e s t é c n i c o s à sua c r i a ç ã o e d a v a m asas à sua i m a g i n a ç ã o .
Em s u m a , o d o c u m e n t o s i g n i f i c a v a o q u e era p r e s u m í v e l
d e s d e a c h e g a d a d e M a r c o s P o r t u g a l : na C a p e l a Real p o d e r i a
h a v e r l u g a r para d o i s m e s t r e s - d e - c a p e l a , mas n ã o h a v i a e s p a ç o
p a r a d u a s p e r s o n a l i d a d e s distintas. U m a d e l a s d e v e r i a a p a g a r se; e f o i esta p a r t e q u e c o u b e a J o s é M a u r í c i o . D e s d e 6 d e
s e t e m b r o d e 1811 f i n d a r a sua m i s s ã o d e c o m p o r para a C a p e l a .
N ã o f o i encontrado o ato administrativo que silenciou o padre
J o s é M a u r í c i o n o m o m e n t o e m q u e era a l i j a d o da m a i s cara d a s
suas f u n ç õ e s . N a d a o e x p l i c a r i a , p o r q u a n t o as r a z õ e s e s t a v a m
m u i t o p r ó x i m a s d o p o d e r , mas a o f i x a r e m 6 d e s e t e m b r o o l i m i t e
c r o n o l ó g i c o d e s e u t r a b a l h o d e c o m p o r para a C a p e l a , J o s é
M a u r í c i o c u m p r i a um a t o d e o b e d i ê n c i a a d e t e r m i n a ç õ e s
s u p e r i o r e s , m e d i d a drástica q u e tinha t u d o a v e r c o m a c h e g a d a
d e M a r c o s Portugal.136 O a c o n t e c i m e n t o f o i i m e d i a t a m e n t e
88
José Maurício Nunes Garcia biografia
m a r c a d o p o r m e d i d a s administrativas. N o dia
"avisos" d o marquês de Aguiar comunicavam
direito o r e c é m - c h e g a d o . Outras b e n e s s e s
g e n e r o s i d a d e d o "real bolsinho". S e g u e m o s
23 d e j u n h o q u a t r o
r e g a l i a s a q u e teria
estariam ligadas à
quatro "avisos":137
" A v i s o d o m i n i s t r o C o n d e d e A g u i a r a o t e s o u r e i r o da R e a l
C a p e l a : Meta e m f o l h a a M a r c o s P o r t u g a l , m e s t r e d e musica
d e Suas A l t e z a s Reais, c o m a q u a n t i a d e s e i s c e n t o s mil réis
e m cada ano, q u e ele vencia e m Lisboa c o m o mestre d o
s e m i n á r i o e c o m p o s i t o r da P a t r i a r c a l . "
" A v i s o d o m e s m o a o V i s c o n d e d e Vila N o v a d a R a i n h a :
H a v e n d o o Príncipe Regente N o s s o Senhor n o m e a d o Marcos
P o r t u g a l para m e s t r e d e m u s i c a d e Suas A l t e z a s R e a i s , é
s e r v i d o q u e p o r este s e r v i ç o v e n ç a o o r d e n a d o d e q u a r e n t a
m i l réis p o r m ê s e d u z e n t o s e q u a r e n t a m i l réis a n u a l m e n t e
p a r a p a g a m e n t o d a s casas d e sua h a b i t a ç ã o . O q u e t u d o
l h e d e v e ser s a t i s f e i t o p e l o Seu R e a l B o l s i n h o , assim c o m o
a t e n ç a d e d u z e n t o s mil réis q u e f o i c o n c e d i d a e m Lisboa a
sua m u l h e r c o m o s o b r e v i v ê n c i a p a r a e l e , d e q u e l h e f a z
m e r c ê c o n t i n u a r nesta c o r t e . "
"Aviso d o m e s m o ao Conde de Redondo: o Príncipe Regente
N o s s o S e n h o r é s e r v i d o q u e V . Ex a p a s s e a s o r d e n s
necessarias para q u e p e l a Real Ucharia se d ê a r a ç ã o
competente diariamente a Marcos Portugal, mestre de
m u s i c a d e Suas A l t e z a s R e a i s . "
"Aviso d o m e s m o ao Marquês d e Vagos: O Príncipe Regente
N o s s o S e n h o r é s e r v i d o q u e V . Ex a m a n d e p o r , e m t o d o s o s
dias d e lição, uma s e g e das Reais Cavalariças à porta de
M a r c o s P o r t u g a l , m e s t r e d e musica d e Suas A l t e z a s Reais, a
f i m d e o c o n d u z i r para o P a ç o e d a í para a sua casa, d e p o i s
d e acabada a lição."
O d e s d o b r a m e n t o d o m e s t r a d o na C a p e l a R e a l e m d u a s
p e s s o a s , se n ã o i m p l i c a v a n o a f a s t a m e n t o d o p a d r e J o s é M a u r í c i o ,
n ã o subentendia d e m o d o algum igualdade d e p o s i ç ã o entre os
d o i s m ú s i c o s . A l é m d o ó b v i o d e s n í v e l d e c o r r e n t e da n a t u r a l i d a d e
e da c a t e g o r i a social, a d e s i g u a l d a d e tinha o r i g e m — p r e m e d i t a d a
o u n ã o — na d i f e r e n ç a d e título a t r i b u í d o a u m e a o u t r o q u a n d o
a d m i t i d o s n o real s e r v i ç o . O t í t u l o d e M a r c o s P o r t u g a l — m e s t r e
c o m p o s i t o r — n ã o era o m e s m o q u e e m n o v e m b r o d e 1808 f o r a
a t r i b u í d o a o p a d r e J o s é M a u r í c i o : m e s t r e d e música. N e m o d e s t e
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Cleofe Person de Mattos
c o r r e s p o n d i a a o d e m e s t r e - d e - c a p e l a q u e r e c e b e r a e m 1798. O
q u e n ã o i m p e d i u q u e as f u n ç õ e s e x e r c i d a s p o r J o s é M a u r í c i o
f o s s e m p r e c i s a m e n t e as d e m e s t r e - d e - c a p e l a : c o m p o r e r e g e r .
T a l a sua q u a l i f i c a ç ã o e m f o l h a s d e p a g a m e n t o e o u t r o s p a p é i s
o f i c i a i s a t é 1830. É p r e c i s a m e n t e n o t r a b a l h o d e c o m p o s i t o r q u e
o t í t u l o c o n d i z c o m o s e u l a b o r na C a p e l a , f a c e à i n t e n s a
c a p a c i d a d e d e c r i a ç ã o d e s e n v o l v i d a e n t r e 1808 e 1811,
p r e p a r a n d o , s e m p r e p o r o r d e m d e D. J o ã o , o r e p e r t ó r i o da C a p e l a .
O q u e lhe valeu a o p o r t u n i d a d e d e c o m p o r para importantes
e v e n t o s , e m p r o p o r ç õ e s q u e p o d e m ser a v a l i a d a s n o
l e v a n t a m e n t o d a s o b r a s d o a r q u i v o da C a p e l a I m p e r i a l , o n d e
f o r a m r e c o l h i d a s as o b r a s c o m p o s t a s p a r a a Sé, c o m o p a r a a
Real C a p e l a .
Em 1811, a r e c o m p e n s a d o p a d r e J o s é M a u r í c i o será suportar
as m e d i d a s q u e l h e s ã o i m p o s t a s p e l a n o v a s i t u a ç ã o . O e s t i l o d a
Capela Real d e Lisboa, q u e , s e g u n d o o d e s e j o d o p r í n c i p e r e g e n t e ,
i m p l a n t a v a - s e na C a p e l a d o R i o d e J a n e i r o , tinha a g o r a à sua
f r e n t e o c o m p o s i t o r q u e d e f a t o e d e d i r e i t o era o s í m b o l o d e s s e
estilo. Sem reação possível.
A t r a n s f e r ê n c i a d e M a r c o s P o r t u g a l para a c i d a d e d o R i o d e
J a n e i r o t r o u x e u m a a g r a v a n t e na v i d a d o p a d r e J o s é M a u r í c i o r
outra l e v a d e m ú s i c o s da C a p e l a d e L i s b o a a c o m p a n h o u o c o m positor português, p r e c e d e n d o - o ou seguindo-o de p o u c o ; do
q u e resultou f a z e r crescer o n ú m e r o de pessoas p o u c o afeitas a
p r e s t i g i a r o c o m p o s i t o r b r a s i l e i r o . D e t e r m i n a ç ã o q u e v a i marcar,
d e f i n i t i v a m e n t e , o c l i m a m u s i c a l da C a p e l a c r i a d a p o r D . J o ã o e
p o d e l o c a l i z a r , t a l v e z , a f r a s e q u e se atribui a J o s é M a u r í c i o ,
n u m d e s a b a f o t a r d i o e triste: " O q u e t e n h o s o f r i d o d a q u e l a g e n t e ,
s ó D e u s sabe".138
A presença d o c o m p o s i t o r português f o i notória s o b r e t u d o
n o c u m p r i m e n t o das prerrogativas c o r r e s p o n d e n t e s a o título de
mestre compositor que lhe fora outorgado. N ã o só a
r e s p o n s a b i l i d a d e d e c o m p o r para as c e r i m ó n i a s q u e se r e a l i z a v a m
na R e a l C a p e l a , q u e p a s s a v a às suas m ã o s , c o m o se adianta q u e
D . J o ã o " d e s c i a à R e a l C a p e l a q u a n d o o r e g e n t e era M a r c o s P o r tugal".
O e n c o n t r o entre o s d o i s c o m p o s i t o r e s , p r o m o v i d o n o P a ç o
da B o a Vista " p o r i n s p i r a ç ã o d e D o n a Carlota Joaquina 1 3 9 f o i p e l o
menos enganador n o tocante à cordialidade exibida por Marcos
P o r t u g a l q u a n t o à r e a l i d a d e f u t u r a . Se n ã o é e x a t o atribuir à sua
vinda t o d o s os males q u e atingiram o c o m p o s i t o r brasileiro, a
a n i m o s i d a d e d o s rtiúsicos e d o s m i n i s t r o s q u e o c e r c a v a m era
e s t i m u l a d a p o r sua s i m p l e s p r e s e n ç a .
90
José Maurício Nunes Garcia biografia
O d i a - a - d i a p r o f i s s i o n a l d o p a d r e J o s é M a u r í c i o n ã o acusa
q u a l q u e r a b r a n d a m e n t o a o t e n s o a m b i e n t e d e 1810, a o i n i c i a r s e 1811. A s p r e o c u p a ç õ e s f i n a n c e i r a s o p e r t u r b a m t a n t o q u a n t o
o s a g r a v o s à sua p e r s o n a l i d a d e artística. S o b r e v i v e n o s l i v r o s d o
S e n a d o d a C â m a r a , f o n t e d a s i n f o r m a ç õ e s q u e s e g u e m e m nota
a respeito dos últimos lances desses acontecimentos, o registro
administrativo dos sucessivos passos desse m o m e n t o histórico,
q u e l e v a r á o c o m p o s i t o r a o i m p a s s e f i n a l , na v i d a d a C a p e l a .
O c a t á l o g o d e M a c i e l registra a o b r a c o m p o s t a p o r J o s é
M a u r í c i o para a f e s t i v i d a d e d o p a d r o e i r o da c i d a d e : Hic est vere,
Moteto para a Procissão
de São Sebastião,
a 9 vozes
somente,
composto
no ano de 1811.
N o m ê s d e m a r ç o , c o m o d e r o t i n a d e s d e 1809, o p a d r e
J o s é M a u r í c i o c o m p ô s a Missa e o Te Deum para as c e r i m ó n i a s
c o m e m o r a t i v a s da c h e g a d a d e D . João. 1 4 0
A missa r e a l i z o u - s e na C a p e l a R e a l . A C a t e d r a l c o n s e r v a
n o a r q u i v o a partitura a u t ó g r a f a da p r i m e i r a v e r s ã o d o Te Deum
p a r a o e v e n t o ; nas p a r t e s a v u l s a s , t a m b é m a u t ó g r a f a s , v e m o
e s c l a r e c i m e n t o : "pa o dia 7 d e m a r ç o " . C o m p o s t o para v o z e s
com acompanhamento de órgão, fagotes, violoncelos e
c a n t r a b a i x o , e s e m l o g r a r a l i n h a r - s e e n t r e as o b r a s m a i s
r e p r e s e n t a t i v a s d o p a d r e J o s é M a u r í c i o , o Te Deum a l c a n ç o u o
a p r e ç o d e D. João, q u e o r d e n o u sucessivos acréscimos
instrumentais à v e r s ã o original.
Se a missa q u e a c o m p a n h o u este Te Deum n o e v e n t o f e s t i v o
c o r r e s p o n d e a a l g u m a das m i s s a s q u e s o b r e v i v e r a m n o a r q u i v o
— o q u e p a r e c e p o s s í v e l — n ã o há c o m p r o v a ç ã o d e f i n i t i v a . O
c e r t o , p o r é m , é q u e as d u a s partituras t e r ã o s i d o as ú l t i m a s
g r a n d e s o b r a s c o m p o s t a s p o r José Maurício para a Capela Real
antes d e chegar Marcos Portugal.
N o final d o ano, o padre José Maurício acrescentou aos
títulos já c o n h e c i d o s , o r q u e s t r a ç ã o da Missa pastoril para a noite
do Natal,
c o m p o s t a e m 1808. O a c e n t o b u c ó l i c o dessa
c o m p o s i ç ã o , e n v o l v i d o c o m o u m leitmotiv
por um solo de
91
Cleofe Person de Mattos
c l a r i n e t a f a z p e n s a r e m c o m o c o n s e g u i r i a c o n c i l i a r a sua v i d a
d i f í c i l c o m tanta a m e n i d a d e . 1 4 1
Por outro lado, a i n t r o d u ç ã o da " v i o l a concertata" d o
Laudamus
p õ e e m e v i d ê n c i a a v i r t u o s i d a d e d o instrumentista,
p r o v a v e l m e n t e c h e g a d o n o a n o a n t e r i o r , da C a p e l a d e L i s b o a .
A o c o n s i d e r a r a p r o d u ç ã o d e J o s é M a u r í c i o e m 1811, n ã o
s u r p r e e n d e , p e l a s r a z õ e s já a p o n t a d a s , v ê - l a m a i s p o b r e d o q u e
nos anos anteriores. Interrompera-se n o s e g u n d o semestre o seu
mais a b s o r v e n t e trabalho — a Capela Real — e o s p r o b l e m a s
q u e c e r c a v a m as c o n t r a t a ç õ e s c o m o S e n a d o d a C â m a r a d a v a m
sinais d e q u e t a m b é m c h e g a v a m a o f i m . O q u e se o b s e r v a e m
nota. 1 4 2
Encerrava-se assim, c o m f o r t e a c e n t o m e l a n c ó l i c o , nesse
a n o n e g a t i v o , essa f a s e p r o f i s s i o n a l d o p a d r e J o s é M a u r í c i o , a
q u e d e r a o m e l h o r d e sua v i d a e d e suas f o r ç a s , e o s m a i s f o r t e s
sinais d e d o m í n i o s o b r e si m e s m o , d e s d e 1808. M u d a r a , s e m
dúvida, a posição d o mestre-de-capela brasileiro c o m a chegada
d e M a r c o s P o r t u g a l . À d e r r o t a na C a p e l a Real e às a r r e m a t a ç õ e s
interrompidas c o m o S e n a d o n ã o tardariam outros i n e q u í v o c o s
sinais d e r e j e i ç ã o , c o m o se v a i v e r c o m a I r m a n d a d e d e S ã o
Pedro dos Clérigos.
V i n t e a n o s d e c o n v í v i o , i n i c i a d o c o m o i r m ã o d e s d e o dia
e m q u e s e l a v a s e u d e s t i n o d e m ú s i c o a o d e s a c e r d o t e — dia 7 d e
s e t e m b r o d e 1791 — v i n t e a n o s l i g a d o s a o q u e e l e c h a m o u e m
1814, "a m i n h a I r m a n d a d e " , e para a q u a l e s c r e v e r a d e z e n a s d e
obras, h o j e desaparecidas, eram postos d e lado, ao cessarem os
c o m p r o m i s s o s d o padre José Maurício c o m a Irmandade d e São
P e d r o d o s C l é r i g o s , m a n t i d o s d e s d e 1799. O n z e a n o s f o r a e l e o
c o m p o s i t o r d a m ú s i c a p a r a o dia e v é s p e r a d o " S a n t o P a t r i a r c a " ,
d e v o ç ã o q u e se f o i a c r e s c e n d o e d i v e r s i f i c a n d o a t é alcançar, e m
1810, c e r c a d e q u a r e n t a o b r a s . É o q u e se l ê n o l i v r o 3 a ( 1 7 9 3 1 8 2 0 ) da I r m a n d a d e , 1 4 3 e r e p r e s e n t a a l g o d e p o n d e r á v e l c o m o
p r o d u ç ã o musical. Impressionante, p o r é m , é o desaparecimento
d e q u a s e tudo. A e x c e ç ã o p o s s í v e l dirige-se a u m o f í c i o para
Domingo
de Ramos, s e m n o m e d e a u t o r ( C T 2 1 8 ) , m a n u s c r i t o
c o n s e r v a d o n o a r q u i v o d a i g r e j a da I r m a n d a d e e q u e se p o d e
c r e r f a ç a p a r t e d o r e g i s t r o d e o b r a s "Para a S e m a n a Santa" e
a s s i m a t r i b u i r u m a data, q u e o m a n u s c r i t o n ã o t e m : 1806.
Em 1811 d e s a p a r e c e u d e f i n i t i v a m e n t e d o s l i v r o s d e d e s p e s a
da I r m a n d a d e o n o m e d o compositor. A deficiência d e saúde
p ô d e e x p l i c a r n a q u e l e m o m e n t o m e d i d a t ã o drástica. N ã o f i c a r á
e x p l i c a d a , p o r é m , tal a t i t u d e d u r a n t e a n o s , m e s m o q u a n d o J o s é
M a u r í c i o c o m p ô s , e m 1814, a Novena
do apóstolo
São Pedro
e
92
José Maurício Nunes Garcia biografia
e m 1815 as Matinas
do apóstolo
São Pedro,
obras obviamente
destinadas à igreja " d o s clérigos".
N ã o t e r m i n a r i a m n e s t e p o n t o as r a z õ e s d e i n q u i e t a ç ã o na
v i d a d o p a d r e - m e s t r e : a d í v i d a c o n t r a í d a e m 1810 c o m o m a j o r
M a t e u s d e i x a d e ser p a g a n o p r a z o l i m i t e , 11 d e j u n h o . A i n d a e m
1811, e m c o n d i ç õ e s n ã o s u f i c i e n t e m e n t e e s c l a r e c i d a s , J o s é
M a u r í c i o f a z o p a g a m e n t o da q u a r t a p a r t e da i m p o r t â n c i a
devida." 1 '' Tal é o c o n t r a p o n t o q u e o e n v o l v e neste a n o t o r m e n t o s o
q u e é 1811.
A
travessia
A o f i n d a r 1811, e n v o l v i d o e m u m a luta d e s i g u a l d e s d e a
c h e g a d a da corte, a desesperança cerca a vida d o p a d r e José
Maurício Nunes Garcia. T u d o lhe escapa a o m e s m o t e m p o :
i m p e d i d o d e c o m p o r p a r a a R e a l C a p e l a , as c o n t r a t a ç õ e s c o m o
S e n a d o da C â m a r a n ã o m a i s f i c a r ã o a o s s e u s c u i d a d o s ; sua
c r e d i b i l i d a d e é atingida e a sombra projetada p o r Marcos Portugal afeta-o. C o m p l e t a n d o o q u a d r o desses infortúnios, o c o m positor tem a infelicidade de pôr n o m u n d o duas filhas doentes:
J o s e f i n a , n a s c i d a e m 1810, e P a n f í l i a , e m 1811. P o r f i m , o p a d r e
José Maurício adoeceu.
É a h o r a d e i n d a g a r o q u e estaria a c o n t e c e n d o c o m a o b r a
d e criação produzida s o b tensão tão violenta. A pergunta explica
a r a z ã o d e s t e c a p í t u l o e a a v a l i a ç ã o d o q u e está p o r v i r . O a n o
d e 1808 será, o b v i a m e n t e , o p o n t o d e partida p a r a c o n s i d e r a r as
transformações a que é submetida a linguagem d o compositor
na t u m u l t u a d a travessia p o r e s t i l o s d i v e r s o s . N o t é r m i n o d o
p e r í o d o , o p a d r e J o s é M a u r í c i o n ã o m a i s será o c o m p o s i t o r c u j o
estilo identifica-se c o m algumas obras capitais d o Setecentos.
O s a n o s d e 1790, 1794, 1798 e 1799 s e r ã o d a t a s d e o b r a s
marcantes, mas a o m e s m o t e m p o expressões estabilizadas de
u m c o n t e x t o já u l t r a p a s s a d o c o m o e s t i l o e c o n d i ç õ e s t é c n i c a s .
O c o n c e i t o de estilo, c o n s i d e r a d o c o m o o m o d o peculiar
na u t i l i z a ç ã o d e e l e m e n t o s e s p e c í f i c o s da l i n g u a g e m m u s i c a l ,
s u b e n t e n d e a a c e i t a ç ã o d e estruturas r í t m i c a s , f o r m a i s , u m a
c o n c e p ç ã o m e l ó d i c a c o m características p r ó p r i a s . P o r o u t r o l a d o ,
José Maurício não recebeu dos compositores que o precederam
n o R i o d e Janeiro, o l e g a d o d e uma c r i a ç ã o nascida e d e s e n v o l v i d a
93
Cleofe Person de Mattos
c o m características próprias, e l e m e n t o s d e uma l i n g u a g e m q u e
r e p r e s e n t a s s e o e l o d e u m a c o r r e n t e m u s i c a l q u e se t r a n s m i t e ,
q u e se a p r e n d e , q u e s e assimila. E n f i m , d e u m e s t i l o p r ó p r i o .
A inexistência —
ou o d e s c o n h e c i m e n t o —
de
d o c u m e n t a ç ã o v i v a , c a p a z d e ilustrar u m p a s s a d o h i s t ó r i c o c o m
c a r a c t e r í s t i c a s p e c u l i a r e s para d e f i n i r a v i d a m u s i c a l na c i d a d e é
f a t o d r a m á t i c o na sua história. O R i o d e J a n e i r o n ã o f o i r é p l i c a
da i m a g e m musical d e Minas Gerais, n o s é c u l o X V I I I , n e m r e p e t i u
a e x p e r i ê n c i a histórica d e outras r e g i õ e s culturais — a e s p a n h o l a ,
p o r e x e m p l o — e m c o n d i ç õ e s d e conduzir a um estilo, c o m o é o
c a s o da A m é r i c a Latina.
J o s é M a u r í c i o c o n s t r u i u a o s p o u c o s até 1807 u m e s t i l o
p r ó p r i o , p a r t i n d o e m r a í z e s d e M i n a s G e r a i s , haja vista a Tota
pulchra.
A i n d a n o s é c u l o X V I I I r e f o r m u l o u seu e s t i l o e n ã o t a r d o u a
transformar-se n o m ú s i c o c o m uma l i n g u a g e m q u e o dintinguiu
n o p a n o r a m a da c o l ó n i a .
C o m a c h e g a d a d e D . J o ã o , a o i n g r e s s a r e m j u n h o d e 1808
na C a p e l a Real, o p a d r e J o s é M a u r í c i o iniciara f e c u n d o p e r í o d o
c r i a d o r . I m p u l s i o n a d o p o r outra c o n c e p ç ã o d e e s t i l o na m ú s i c a
religiosa, familiarizou-se c o m novos processos de composição,
d e s c o n h e c i d o s a t é a q u e l e m o m e n t o na m ú s i c a e s c r i t a , o u
p r a t i c a d a , na c o l ó n i a p o r t u g u e s a .
O a l v a r á , a o criar a C a p e l a , d e i x a v a c l a r o q u e as r a í z e s
h i s t ó r i c a s da C a p e l a Real d e Lisboa d e v e r i a m s e r v i r d e m o d e l o à
C a p e l a d o R i o d e Janeiro; o q u e c o n v i n h a a o c e r i m o n i a l a p l i c a v a se n e c e s s a r i a m e n t e à música destinada a abrilhantar as c e r i m ó n i a s
r e a l i z a d a s na capital da c o l ó n i a . A p a l a v r a n o v a q u e resulta dessa
t r a n s f o r m a ç ã o c a b e r á a u m a arte mais b r i l h a n t e e m o v i m e n t a d a ,
o n d e a b u s c a d o e f e i t o t e m o s s e u s m o m e n t o s d e se f a z e r v a l e r .
O s e s q u e m a s d e f i n i d o r e s da n o v a l i n g u a g e m p a r t e m , e m
p r i n c í p i o , da a s s i m i l a ç ã o d e p r o c e d i m e n t o s t é c n i c o s — q u e a o
m e s m o t e m p o p o d e r ã o ser q u a l i f i c a d o s c o m o e x p r e s s i o n a i s —
c o n j u g a d o s n o sentido de aderir à virtuosidade admitindo novas
estruturas. Em c o n j u n t o , r e p r e s e n t a m p r o c e d i m e n t o s até e n t ã o
a u s e n t e s d a m ú s i c a d o p a d r e - m e s t r e a o l o n g o d e sua e v o l u ç ã o
natural, m a s q u e se i n c o r p o r a m à sua l i n g u a g e m d e m a n e i r a a
constituir-se, d e n t r o e m p o u c o , o n o v o estilo d o c o m p o s i t o r :
o recitativo
a v i r t u o s i d a d e n o c a n t o e na m e l o d i a i n s t r u m e n t a l
permeabilidade a elementos de profanização
excessiva ornamentação melódica
recurso a clichés musicais
a d e s ã o positiva ao concertante
94
José Maurício Nunes Garcia biografia
a p r o l i x i d a d e d o d i s c u r s o musical: t e x t o s q u e s e r e p e t e m e
progressões
a presença polifônica; a forma fuga
o sinfonismo
a missa-cantata
O e n r i q u e c i m e n t o d o d i s c u r s o musical resultante da
a s s i m i l a ç ã o d e s s e s e l e m e n t o s estilísticos marcará d e f i n i t i v a m e n t e
a o b r a d e J o s é M a u r í c i o a partir desta f a s e , d e c i s i v a e m sua
c a r r e i r a d e c o m p o s i t o r . I m p u l s i o n a d o na b u s c a d e n o v o s m e i o s
de expressar-se e a o m e s m o t e m p o acionado pela urgência no
a t e n d i m e n t o da m ú s i c a para a C a p e l a , é f o r ç o s o r e c o n h e c e r q u e
a p r o d u ç ã o d o p a d r e - m e s t r e , durante esses três anos, n e m s e m p r e
c o r r e s p o n d e u a o m e l h o r d e sua o b r a . C o n s t a t a ç ã o q u e n ã o
s u b e n t e n d e e s t i g m a t i z á - l a c o m o f a s e m e n o s b o a q u a n d o se
considera o inquestionável valor de determinadas obras então
v i n d a s a l u m e , algumas definitivas n o c ô m p u t o geral d o seu
l e g a d o . O c o n d i c i o n a m e n t o t é c n i c o e n t ã o d e s e n v o l v i d o marcará
s u b s t a n c i a l m e n t e a p r o d u ç ã o futura, e v a i p r o p o r c i o n a r a o s e u
d i s c u r s o a d i g n i d a d e d o s m o l d e s c l á s s i c o s e m q u e se i n s p i r o u .
A a c e i t a ç ã o dos n o v o s m o d e l o s não vai i m p e d i r a
assimilação — concomitante e inevitável — d e traços m e n o s
f e l i z e s p o r q u e sintomas d e inadequada p r o f a n i z a ç ã o da música
r e l i g i o s a : o a b u s i v o r e c u r s o à o r n a m e n t a ç ã o , a o r e c i t a t i v o , assim
c o m o a u t i l i z a ç ã o d e f ó r m u l a s g a l a n t e s n o c o n t e x t o da o b r a ,
sobretudo nos acompanhamentos.
A a ç ã o i n o v a d o r a g e n e r a l i z o u - s e , m a s t e m s e n t i d o mais
p r o f u n d o nas missas, o q u e se c o m p r e e n d e d i a n t e da
c o m p l e x i d a d e c o m q u e se d e s e n r o l a m o s p e q u e n o s d r a m a s q u e
s e s u c e d e m na c o m p o s i ç ã o d e u m a missa — p i e d a d e n o Kyrie,
exaltação n o Glória, afirmação de fé n o Credo e o grande mistério
d o "Et i n c a r n a t u s " — a s p e c t o s p a s s í v e i s d e s e r e m t r a t a d o s c o m
o u t r o s r e c u r s o s q u e n ã o o s d a s duas missas c o m p o s t a s a t é 1808.
O recitativo, irremediavelmente ligado à obra religiosa d o
c o m p o s i t o r a p a r t i r d e 1808, i n t e r c a l a - s e c o m f r e q u ê n c i a nas
missas, n o g e r a l e m t r e c h o s d e s t i n a d o s a s o l o s : Qui tollis,
Qui
sedes, Quoniam,
p o r v e z e s o "Et in t e r r a " . U 5 N u n c a o r e c i t a t i v o
s e c o ; o accompagnato
é a f o r m a q u e se g e n e r a l i z o u na o b r a d o
p a d r e - m e s t r e . M e s m o e m o b r a s p r o f a n a s — n o Drama
Ulisséa
o u e m O triunfo
da América
— evidenciou-se o p o u c o estímulo
na u t i l i z a ç ã o d o c r a v o c o m o m e s m o o b j e t i v o e r e c o r r e a o
accompagnato,
assim r e v e l a n d o n o v a s f o n t e s d e c o n v í v i o m u s i cal.
se
A o c e n t r o d o s f a t o r e s s i g n i f i c a t i v o s na t r a n s f o r m a ç ã o q u e
p r o c e s s a v a , i m p o r t a citar c o m o e l e m e n t o d e c i s i v o a
95
Cleofe Person de Mattos
qualificação d o s n o v o s intérpretes. O recurso à riqueza sonora
c o l o c a d a à sua d i s p o s i ç ã o e s t a b e l e c e o u t r o s p a r â m e t r o s , b e m
d i s t a n t e s a esta altura d a s c o n d i ç õ e s v o c a i s e i n s t r u m e n t a i s d o s
m ú s i c o s da v e l h a Sé. N ã o mais t i p l e s o u c o n t r a l t o s infantis, n e m
instrumentistas d e meia f o r ç a . O n o v o r e p e r t ó r i o é c o n c e b i d o
c o m vistas a intérpretes d e categoria, habituados a outros v ô o s
f a z e n d o jus a t r a t a m e n t o a d e q u a d o . Sua escrita v o c a l d e s e n v o l v e se na b a s e da a g i l i d a d e d o s n o v o s i n t é r p r e t e s p o n d o e m r e l e v o ,
n ã o s ó a s o n o r i d a d e e s p e c í f i c a , mas o s e u b r i l h a n t i s m o e o s e u
estilo próprio.
P r i o r i t á r i o s o s c a n t o r e s na c h e g a d a a o R i o d e J a n e i r o , é
p r e c i s a m e n t e n o e n f o q u e das v o z e s q u e surgem os primeiros
sinais d e r e n o v a ç ã o na m ú s i c a d e J o s é M a u r í c i o . N ã o a p e n a s nas
96
José Maurício Nunes Garcia biografia
m e l o d i a s d e s t i n a d a s a o s s o p r a n o s e c o n t r a l t o s — castrati—
mas
d e t o d o o q u a r t e t o v o c a l e t a m b é m na escrita c o r a l , s e m p r e
q u a l i f i c a d a , d o c o m p o s i t o r . I n e g á v e l é o seu e n c a n t a m e n t o pela
v i r t u o s i d a d e v o c a l , o q u e r e s p o n d e p e l o caráter m e n o s o r t o d o x o ,
ou a l i g e i r a d o , q u e afeta d e t e r m i n a d o s trechos de suas
c o m p o s i ç õ e s , a l i n h a n d o - s e e n t r e o s f a t o r e s d e sua n o v a m a n e i r a
d e c o m p o r : a e x c e s s i v a o r n a m e n t a ç ã o a p l i c a d a às v o z e s e a o s
i n s t r u m e n t o s , s o l i s t a s o u n ã o . C o n v i v e m e m sua o b r a
p r o c e d i m e n t o s d e m a i o r a u s t e r i d a d e estilística: a f o r m a f u g a e
os concertantes e m g r a n d e estilo.
O a n o d e 1810 f o i o g r a n d e m o m e n t o da t r a n s f o r m a ç ã o e m
marcha. N e s s e a n o o p a d r e José Maurício c o m p ô s para g r a n d e
o r q u e s t r a a Missa de Nossa Senhora
a 8 de dezembro
(Missa
da
Conceição,
C T 1 0 6 ) . O Laudamus,
para s o p r a n o , é tratado c o m
t o d o s os requisitos d e agilidade e de estilo q u e lhe são próprios,
na tessitura a d e q u a d a a q u e se c o n d i c i o n a , e n f i m , a g r a n d e ária
para coloratura.
97
Cleofe Person de Mattos
A a d e s ã o a p r i n c í p i o s q u e se o p u n h a m às o b r a s d e s t i n a d a s
a o c u l t o r e l i g i o s o p o d e ter c r i a d o e m t o r n o d e d e t e r m i n a d o s
t r e c h o s a i m a g e m da c o n c e s s ã o a o g o s t o d o p r í n c i p e r e g e n t e o u
ã p r e s s ã o o r g a n i z a d a d o s m ú s i c o s da C a p e l a . F o r ç a s p o n d e r á v e i s
d e v o n t a d e s q u e se s o b r e p u n h a m às d e l e , c o m p o s i t o r , s e m d ú v i d a
e x i s t i a m , m a s a c o n c l u s ã o a tirar n ã o v a i a l é m da m e i a v e r d a d e .
D e f a t o , o p a d r e J o s é M a u r í c i o c a p i t u l o u d i a n t e da t é c n i c a e da
q u a l i f i c a ç ã o d a s v o z e s c o m as q u a i s p e l a p r i m e i r a v e z p a s s a v a a
trabalhar, n ã o s ó o s s o p r a n o s e c o n t r a l t o s castrati, m a s as v o z e s
m a s c u l i n a s , t o d a s c o m muita c a t e g o r i a . O s o l o d e b a i x o — Qui
sedes e Quoniam
— da m e s m a missa da Conceição,
é trecho
b r i l h a n t e o n d e o c o m p o s i t o r e x p l o r a a técnica e a p o t e n c i a l i d a d e
d o solista, p r o v a v e l m e n t e o b r a s i l e i r o J o ã o d o s Reis.
A r e v e l a ç ã o da c a p a c i d a d e d e r e n o v a r e m t ã o p o u c o a sua
l i n g u a g e m d i a n t e da c a t e g o r i a v o c a l d o s c a n t o r e s da R e a l C a p e l a
brilha p o r é m n o Quoniam
— s e x t e t o de solistas — c o m d o i s
baixos, tenor, contralto e dois sopranos, expressão máxima de
c o n c e r t a n t e e m sua o b r a . N o incipit,
f r a g m e n t o d o s e x t e t o para
solistas.
98
José Maurício Nunes Garcia biografia
A p a r t i r da c o m p o s i ç ã o d e s s a missa e m 1810, c o m d u a s
f u g a s , o s e x t e t o , o c o n c e r t a n t e n o Domine
Deus,
pode-se
c o n s i d e r a r c o n s o l i d a d a na l i n g u a g e m d e J o s é M a u r í c i o u m a f a s e
d e t r a n s i ç ã o estilística, m a r c o i m p o r t a n t e na e v o l u ç ã o da música
b r a s i l e i r a , m u i t o v a l o r i z a d a c o m a i n t e g r a ç ã o da f o r m a f u g a .
A u s e n t e dessa estrutura até 1808, a a s s i m i l a ç ã o da f o r m a f o i
i m e d i a t a , a i n d a q u e a r i g o r n ã o se p o s s a classificar c o m o f u g a —
n e m m e s m o c o m o fugato
— um trecho b e m caracterizado
tematicamente mas n o qual d e i x a m d e aparecer os e l e m e n t o s
estruturais. É o q u e o c o r r e c o m o stretto, p o u c o p r e s e n t e nas
fugas de José Maurício (Missa
mimosa').
E v i d e n t e m e n t e f a l t o u a J o s é M a u r í c i o , e m sua f o r m a ç ã o , o
e s t u d o da f o r m a e m p r o f u n d i d a d e . A t é c n i c a c o n t r a p o n t í s t i c a ,
q u e b e n e f i c i o u o s c o m p o s i t o r e s q u e s e s u b m e t e r a m à sua
d i s c i p l i n a — q u e já d e i x a r a d e ser a l i n g u a g e m da é p o c a — n ã o
a l c a n ç o u o m ú s i c o n a s c i d o e v i v i d o l o n g e d o s c e n t r o s d e cultura
o n d e s e h a v i a m d e s e n v o l v i d o as r a í z e s d e s s a t é c n i c a .
A i d é i a d e p r e c i a t i v a q u e estas p a l a v r a s p o s s a m suscitar n ã o
significa a inexistência d e fugas d e boa construção e d e b o m
e s t i l o na o b r a d o p a d r e - m e s t r e . H á v a l i d a d e , n o c o n t e ú d o e
t r a t a m e n t o d e sua temática q u a n d o e m p r e g o u a f o r m a p o l i f ô n i c a
num contexto cujo arcabouço é construído e m termos d e criação
harmónica. Há, sobretudo, o s e n t i d o d e f o r m a , o q u e se p o d e
vislumbrar n o
incipit:
Data d e 1808 a p r i m e i r a f u g a c o m p o s t a p o r J o s é M a u r í c i o e
l o g o passa a o c u p a r p o n t o f i x o na a r q u i t e t u r a d e suas missas: o
99
Cleofe Person de Mattos
final d o Glória, c o m o H a y d n e Mozart. A p e s a r d e e x p e r i ê n c i a
recente n o c a m i n h o das i n o v a ç õ e s , é e x p r e s s i v o o n ú m e r o d e
s e g m e n t o s da f o r m a q u e a i n t e g r a m : e x p o s i ç ã o , d i v e r t i m e n t o s ,
p e d a l da d o m i n a n t e e d a t ó n i c a , b e m c o m o u m a c e n o d e stretto.
Em d o i s c a s o s — Missa " d a C o n c e i ç ã o " e Missa
em Mi
bemol
de 1811 — t a m b é m o Christe eleison f o i t r a t a d o c o m o f u g a .
Virá c e d o , e m 1810, n o i m p u l s o da t r a n s i ç ã o v i v e n c i a d a
p e l o c o m p o s i t o r , o m o m e n t o d e c o m p o r suas m e l h o r e s f u g a s ,
seja e m t e r m o s estruturais c o m o da a d e q u a ç ã o d e i n v e n t i v i d a d e
m e l ó d i c a às c a r a c t e r í s t i c a s da f o r m a . O ter c h e g a d o c e d o i m p e d e d i z e r - s e q u e o m o d e l o haja e v o l u í d o nas m ã o s d o p a d r e
J o s é M a u r í c i o . A s f u g a s da Missa da Conceição
oferecem a
t e m á t i c a e m b o m e s t i l o , c o m o t e c i d o p o l i f ô n i c o e x t r a í d o da
t e m á t i c a da obra: 1 4 6
O s e l e m e n t o s r e s p o n s á v e i s p e l a n o v a i m a g e m da missa d e
J o s é M a u r í c i o n ã o s e l i m i t a r a m , a p e s a r d e sua i m p o r t â n c i a , à
f o r m a f u g a . A estrutura geral — d e s d o b r a d a e m vários
m o v i m e n t o s — e as p r o p o r ç õ e s — q u e n o p e r í o d o e m f o c o
a c u s a m u m a v a r i a ç ã o d o s 579 c o m p a s s o s d a Missa de São
Pedro
de Alcântara
( 1 8 0 8 ) a o s 1.339 c o m p a s s o s da Missa da
Conceição
(1810) — são estimulados por outro fator que invade, por
c a m i n h o s diversos, a música d o padre-mestre: o sinfonismo.
A g i n d o p a r a l e l a m e n t e à e v o l u ç ã o da f o r m a , o s i n f o n i s m o alimenta
as l o n g a s i n t r o d u ç õ e s q u e p a s s a m a f r e q u e n t á - l a , t a n t o q u a n t o
as r e p e t i ç õ e s e p r o g r e s s õ e s . São p r o c e d i m e n t o s c o n j u g a d o s q u e
s e p o d e m a p r e c i a r e a t é m e d i r e m p a r t i c u l a r i d a d e s da sua
estrutura n o s c o m p a s s o s e m m o v i m e n t o l e n t o q u e a n t e c e d e m o
trecho final d o Glória. A e x p a n s ã o desses c o m p a s s o s — quatro
na missa d e 1808, 24 e m 1810, 4 2 e m 1818 ( M i s s a do
Carmo),
a m p l i a n d o - s e p a r a 60 c o m p a s s o s na Missa de Santa
Cecília
( 1 8 2 6 ) — , m o s t r a q u e a missa c r e s c e r a p r o p o r c i o n a l m e n t e , e m
todos os sentidos.
100
José Maurício Nunes Garcia biografia
N ã o s ó c r e s c e r a c o m o se d i v e r s i f i c a r a . O G l ó r i a e o C r e d o
são particularmente atingidos pela renovação, n o m o m e n t o e m
q u e sua arquitetura se d e s d o b r a e m t r e c h o s a l t e r n a d a m e n t e corais
e o s q u e se d e s t i n a m a o s s o l o s : árias, d u o s , t e r c e t o s e q u a r t e t o s
v o c a i s , t r e c h o s c a r r e g a d o s d e i n o v a ç õ e s estilísticas.
A b r i r a - s e à i n f l u ê n c i a o p e r í s t i c a a missa p r é - c l á s s i c a d o
p a d r e - m e s t r e . C o m n o v a estrutura, árias, c o n c e r t a n t e s e c o n j u n t o s
solísticos n o G l ó r i a , J o s é M a u r í c i o a d e r e a o s p r i n c í p i o s estilísticos
d a missa c a n t a t a . M u d a t a m b é m o s o m da o r q u e s t r a . Fica m a i s
d e n s o e abre lugar para o u t r o s instrumentos, um d o s quais — o
clarinete — passará a ser o intérprete d o s p e n s a m e n t o s seresteiros
q u e p e r p a s s a m e m sua o b r a r e l i g i o s a , c o m o nas g r a n d e s f r a s e s
d e a g i l i d a d e . Sua f u n ç ã o m a i s i m p o r t a n t e , a d e solista, b r i l h a
nas i n t r o d u ç õ e s d e g r a n d e s obras, n o s m o m e n t o s d e i n t e r v e n ç õ e s
s i n f ó n i c a s q u e s e r ã o a p r e c i a d a s e m o b r a s m a i s tardias.
O h a v e r c e n t r a d o o e s t u d o das m a n i f e s t a ç õ e s r e n o v a d o r a s
e m t o r n o d a s m i s s a s p o d e p a r e c e r e x a g e r a d o . Suas r a z õ e s
e n c o n t r a m i m p o r t â n c i a na c o l u n a mestra q u e r e p r e s e n t a a sua
c r i a ç ã o , n o s d o i s a n o s — o u p o u c o m a i s — e m q u e e l a se
processa. Outras e x p r e s s õ e s importantes — matinas, v é s p e r a s ,
m o t e t o s — s e r ã o b e n e f i c i a d a s p e l o e x e m p l o dessa t r a n s f o r m a ç ã o .
M o t e t o s — o u responsórios, d e n o m i n a ç ã o q u e identifica a forma,
q u a n d o d e s t i n a d o s a o O f e r t ó r i o das missas — f o r a m l a r g a m e n t e
u s a d o s p e l o c o m p o s i t o r , c o m o e x e m p l o d e f o r m a tripartite,
i n s p i r a d a na estrutura d o s a l m o r e l i g i o s o .
F o r a c u m p r i d a e n t r e 1808 e 1811 a t r a n s f o r m a ç ã o estilística
d e t e r m i n a d a p e l a d e c i s ã o d e f a z e r - s e da C a p e l a Real d o R i o d e
J a n e i r o a r é p l i c a da Real C a p e l a d e L i s b o a . A l i n g u a g e m d e J o s é
Maurício, q u e até 1807 conservara ressaibos setecentistas, escolhera
o u t r o s c a m i n h o s , c o m n o v a s perspectivas, n o v o s q u e s t i o n a m e n t o s
s o b r e sua arte, a s e r v i ç o da n o v a p e r s o n a l i d a d e m u s i c a l .
O r e l a c i o n a m e n t o h u m a n o m a n t i n h a i n f e l i z m e n t e as
m e s m a s lutas p e s s o a i s , as m e s m a s d e c e p ç õ e s a o l o n g o d e s s e s
a n o s q u e h a v i a m m a r c a d o s e u c o n v í v i o na C a p e l a . O d e s a p r e ç o
d o s m ú s i c o s , a luta c o m o S e n a d o c o n t i n u a r ã o a ser o
c o n d i c i o n a m e n t o d e s g a s t a n t e , i m p o s s í v e l d e ser m i n i m i z a d o
diante d o s distúrbios definitivos d e saúde, que o p r ó p r i o c o m p o s i t o r r e c o n h e c e a o e s c r e v e r a D. P e d r o I, já i m p e r a d o r , o
d o c u m e n t o d e 1822, q u e será transcrito a d i a n t e .
Exausto, sofrido, doente, silencia o c o m p o s i t o r José
M a u r í c i o d u r a n t e a l g u m t e m p o . A drástica d i m i n u i ç ã o d o n ú m e r o
d e o b r a s e m 1812 é s i n t o m a d o s m a l e s q u e o a f l i g e m . N u n c a
mais José Maurício voltará a p r o d u z i r c o m a frequência q u e
marcou o s primeiros anos da Capela Real.
101
Cleofe Person de Mattos
O r e e n c o n t r o d e José Maurício c o m outra f o r m a de
e x p r e s s ã o mais depurada e expressiva chegará e m t e m p o s
p o s t e r i o r e s . Será p o s s í v e l e n t ã o r e c o n h e c e r q u e n ã o f o r a e m v ã o ,
a p e s a r d e t u d o , o seu t r a b a l h o à f r e n t e d e i n t é r p r e t e s f e r o z e s o u
m e r g u l h a d o e m partituras n o s a r q u i v o s d e m ú s i c a . O r e s u l t a d o
será a p r e c i a d o q u a n d o outras o b r a s - p r i m a s — o Ofício e a Missa
dos defuntos,
d e 1816, as Matinas
de Finados — a l i n h a m - s e e n t r e
as p r o d u ç õ e s m e l h o r e s d e sua b a g a g e m , o b r a s d e e n v e r g a d u r a e
d e f i n i t i v a s c o m o p e n s a m e n t o d e u m artista a m a d u r e c i d o .
C o m p l e t a r a - s e n e s s e s três a n o s a t r a n s f o r m a ç ã o q u e o p a d r e J o s é M a u r í c i o julgara necessária à sua s o b r e v i v ê n c i a artística.
A r a z ã o m a i s p r o f u n d a , p o r é m , da a n i m o s i d a d e d o s m ú s i c o s d a
C a p e l a c o n t r a o p a d r e c o m p o s i t o r n ã o se e s g o t a r a p o r q u e essa
luta tinha r a í z e s m a i s f u n d a s : a o p o s i ç ã o e n t r e p o r t u g u e s e s e
b r a s i l e i r o s . N e s s a luta o p a d r e J o s é M a u r í c i o f o i , n o f i m , o
p e r d e d o r . Apesar da caminhada em direção aos n o v o s padrões,
as p o r t a s d a R e a l C a p e l a f i c a r ã o f e c h a d a s às suas o b r a s .
A doença e a tensão no
marcam o fim de um
1812
trabalho
período
C i e n t i f i c a d o d e s d e o a n o a n t e r i o r d e q u e n ã o se r e n o v a r i a
seu t r a b a l h o c o m o S e n a d o , s u r p r e e n d e a i n c u m b ê n c i a q u e l h e é
d a d a n o i n í c i o d e 1812: r e s p o n d e r p e l a m ú s i c a d o o i t a v á r i o da
f e s t a d e S ã o S e b a s t i ã o na v e l h a Sé d o m o r r o d e S ã o J a n u á r i o . ' 4 7
N ã o é p r o v á v e l — n e n h u m c a t á l o g o acusa c o m p o s i ç ã o c o m
essa data — q u e o p a d r e J o s é M a u r í c i o haja c o m p o s t o o b r a n o v a
e x p r e s s a m e n t e para essa e f e m é r i d e tantas v e z e s p o r e l e a t e n d i d a .
O e n c a r g o significava mais d o que a simples c o m u n i c a ç ã o de
u m a t a r e f a . N a v e r d a d e , era o a t o final d e s s a f a s e e m sua v i d a
nas r e l a ç õ e s c o m o S e n a d o .
R e a l i z o u - s e a festa d o o i t a v á r i o n o dia 27 d e j a n e i r o , s e m
a t e n t a r - s e na c r u e l d a d e d o a t o : o b r i g a r o c o m p o s i t o r — d o e n t e ,
d e r r o t a d o física e m o r a l m e n t e — a subir o m o r r o d e S ã o Januário,
t e n d o p a g o a n t e c i p a d a m e n t e o s a l á r i o d o s m ú s i c o s da C a p e l a ,
c i r c u n s t â n c i a p o r e l e assinalada e m o f í c i o a o S e n a d o da Câmara,
d a t a d o d e I a d e j u l h o d o m e s m o a n o . C i n c o d i a s antes da f e s t a ,
102
José Maurício Nunes Garcia biografia
o u s e j a , a 22 d e j a n e i r o d e
m a n d a d o d e pagamento:148
1812, o S e n a d o e n c a m i n h o u
um
" O S e n a d o da C a m a r a d e s t a C o r t e .... M a n d a m o s a o actual
T e s o u r e i r o d o Senado, Cap. Joaquim Ant. A l v e s q u e , e m
c u m p r i m e n t o deste, h i n d o por nós assinado, pague-se a o
p c M c da C a p e l l a R e a l J o s é M a u r i c i o N u n e s G a r c i a a quantia
d e 72$000, r e s t o d e s e u o r d e n a d o d e d u z e n t o s m i l r e i s q u e
v e n c e a n u a l m e n t e p o r o r d e m d o P r í n c i p e R e g e n t e N . Sr. e
p r o c e d e d a s m u s i c a s q u e f e z nas f e s t a s d o m e s m o S e n a d o ;
e p o r n o s r e q u e r e r o s e u p a g a m e n t o se l h e m a n d o u
s a t i s f a z e r p o r d e s p a c h o d e l6.7bro
1811 e c o m q u i t a ç ã o
a b a i x o l a v r a d a , se l e v a r á e m c o n t a nas q u e d e r d e sua
receita e despesa; o q u e cumpra. D a d o e m o S e n a d o da
C a m a r a a 22 de janeiro
de 1812.
E eu José q u e n o
i m p e d i m e n t o d o S e n a d o da C a m a r a o s u b s c r e v i . " ( S e g u e
"Quitação").
A l g o d e i r r e g u l a r e s t a r i a p o r trás d e s s e d o c u m e n t o ,
subscrito, n o i m p e d i m e n t o d o Senado, por alguém q u e não é o
t a b e l i ã o J o s é Pires Garcia, n e m é sua a assinatura. A p a r e n t e m e n t e ,
t u d o e s t a v a c o n f o r m e a s u g e s t ã o d e D . J o ã o e m 1809, s a l v o o
assunto referente a o p a g a m e n t o aos músicos — n ã o a b o r d a d o
— q u e continuava fora das p r e o c u p a ç õ e s d o Senado.
José M a u r í c i o reagiu t a r d i a m e n t e a este o f í c i o . Na
r e p r e s e n t a ç ã o d e I a d e julho 1 4 9 f e z r e f e r ê n c i a a c o m p r o m i s s o s já
r e a l i z a d o s e ainda n ã o p a g o s p e l o Senado: a festa d e São
S e b a s t i ã o , d e 1812, na q u a l já assumira a d e s p e s a d o s m ú s i c o s .
P e l a última v e z — v i s t o q u e n ã o mais c a b e r i a a o S e n a d o as
d e s p e s a s c o m a música — J o s é M a u r í c i o l e m b r a as duas v é s p e r a s
d e 1808 p o r o c a s i ã o da c h e g a d a d e D . J o ã o , e s o l i c i t a o s e u
p a g a m e n t o , j u n t a m e n t e c o m o da f e s t a d o p a d r o e i r o . 1 5 0 S e g u e o
t e o r da r e p r e s e n t a ç ã o :
" S e n h o r e s d o S e n a d o / o p c J o s é M a u r i c i o N u n e s , actual M c
d a R e a l C a p e l a r e p r e s e n t a q u e e l e p a g o u já a o s M ú s i c o s a
f e s t a d o o i t a v á r i o d e S. S e b a s t i ã o lá em cima na Sé Velha
n o dia 27 d e janr a a q u e o m e s m o S e n a d o assistiu; e g a s t o u
duas doblas e meia; e também representa q u e n o p r i m e i r o
a n n o q u e o S e n a d o a p r e s e n t o u e m p r e s e n ç a d e S A R n'suas
festas anuais, e l l e s u p p l i c a n t e gastou d o seu d i n h e i r o q u a t r o
doblas de acréscimo d o numero e preço dos Muzicos e
c o m o o S e n a d o n ã o p a g o u , o q u e d e u c a u z a a SAR m a n d a r
d e s s e d i n h e i r o s u f i c i e n t e , d e o a o d e p o i s o S e n a d o 200$000
103
Cleofe Person de Mattos
mais o s 51$200 d o p r i m e i r o a n n o ainda n ã o p a g o u , e C o m o
o m e s m o S e n a d o já n ã o t e m q ' f a z e r d e s p e s a s c o m a m u z i c a
q u e se f a z e m na R e a l C a p e l a , p o r q u a n t o S A R as t o m o u a
si; portanto,/ P e d e q u e o m e s m o S e n a d o seja s e r v i d o m a n d a r
p a g a r a o s u p p l i c a n t e 8 3 $ 2 0 0 q u e se l h e d e v e c o n f o r m e
e x p o s t o acima/ E.R.M."
S o m e n t e n o dia 7 d e n o v e m b r o r e s p o n d e u o S e n a d o à
r e p r e s e n t a ç ã o d e I a d e j u l h o e d e s p a c h o u a importância d e 32$000
— e não os
83$000 — p a g a m e n t o s o l i c i t a d o p e l o m e s t r e da
C a p e l a R e a l . T a m b é m p e l a última v e z , e m 25 d o m e s m o m ê s , o
p a d r e J o s é M a u r í c i o v i u - s e o b r i g a d o a assinar q u i t a ç ã o d e quantia
inferior à q u e fora solicitada. D e z meses haviam d e c o r r i d o d e s d e
a festa d o p a d r o e i r o . T e r m i n a v a tristemente o d i á l o g o p r o f i s s i o n a l
e m torno das festividades patrocinadas p e l o Senado, e m mãos
d o p a d r e J o s é M a u r í c i o d e s d e 1798.
É preciso dimensionar o desespero financeiro d o compositor, o b r i g a d o a enfrentar p a g a m e n t o s s u p e r i o r e s a o s seus p r ó p r i o s
g a n h o s , p a r a c o m p r e e n d e r as r a z õ e s q u e o l e v a r a m a e s c r e v e r o
o f í c i o , d e f e n d e n d o a sua p o s i ç ã o na C a p e l a .
A data d e s t a r e p r e s e n t a ç ã o a o S e n a d o — I a d e j u l h o —
p r e c e d e d e alguns dias a s o l u ç ã o d o c o m p r o m i s s o assumido e m
1810 c o m M a t e u s F r a n c i s c o G o m e s . Em 6 d e j u l h o a p r e s e n t o u - s e
e s t e e m j u í z o para assinar a "escritura d e distrate" d e outra d í v i d a
e o b r i g a ç ã o que f a z Mateus Francisco G o m e s ao p a d r e José
M a u r í c i o N u n e s Garcia": 1 5 1
" S a i b a m q u a n t o s e s t e p u b l i c o I n s t r u m e n t o d e Escriptura d e
D i s t r a t e d e outra v i r e m q u e n o a n n o d o N a s c i m e n t o d e
N o s s o S e n h o r Jesus C h r i s t o d e m i l e o i t o c e n t o s e d o z e ,
a o s s e i s d e j u l h o nesta c i d a d e d o R i o d e J a n e i r o n o m e u
Escriptorio perante mim Tabeliam appareceo c o m o
Outorgante Credor Matheus Francisco G o m e s q u e v i v e d e
L a v o u r a e m o r a d o r na Ilha da S a p u c a i a , F r e g u e z i a d e
Inhaúma, e c o m o outorgado d e v e d o r o Padre Joze Mauricio
N u n e s G a r c i a p r o f e s s o na O r d e m d e C h r i s t o e M e s t r e da
Capella Real r e c o n h e c i d o este de m i m T a b e l i a m , e a q u e l l e
d e duas testemunhas adiante nomeadas, e assignadas, e
p o r e l l e s m e f o i a p p r e s e n t a d o o B i l h e t e da D i s t r i b u i ç ã o d o
teor seguinte = D. a Carvalho Matheus Francisco G o m e s
f e z e s c r i p t u r a d e Distrate d e outra a o P a d r e J o s é M a u r i c i o
N u n e s G a r c i a e m s e i s d e J u l h o d e mil e o i t o c e n t o s e d o z e
B r a t e s = D i z e n d o - m e o O u t o r g a n t e p e r a n t e as d i t a s
t e s t e m u n h a s q u e o O u t o r g a n t e lhe hera d e v e d o r d a quantia
104
José Maurício Nunes Garcia biografia
d e q u a t r o c e n t o s mil reis q u e lhe p e d i o e m p r e s t a d o , e
p o r q u e já r e c e b e o a q u a n t i a d e c e m m i l r e i s e a o f a z e r
desta a d e trezentos mil reis perante m i m d o q u e d o u f é
d i s s e q u e l h e dá q u i t a ç ã o d o total d e q u a t r o c e n t o s m i l reis,
e s e u s c o m p e t e n t e s j u r o s até a data d e s t a , e q u e p r o m e t i a
n a m mais e x i g i r d e l l e cousa alguma, e haver o seu f i a d o r
p o r d e s o b r i g a d o da f i a n ç a , e a h y p o t h e c a
por
desembaraçada. E l o g o p e l o Outorgado foi dito que
a c c e i t a r i a esta Q u i t a ç ã o na f o r m a d e l i a . Em f é d o q u e m e
p e d i r a m l h e s f i z e s s e este I n s t r o m e n t o q u e lhes li acceitaram
e a s s i g n a r a m as t e s t e m u n h a s p r e z e n t e s : P a d r e F i r m i n o
R o d r i g u e s Silva e J o z e L u i z G a r c ê z E eu J o s é A n t o n i o d o s
S a n t o s A r m e n o q u e e s c r e v i , ass.: M a t e u s Fran. c o G o m e s , P. c
J o s é M a u r i c i o N u n e s G a r c i a e as d u a s t e s t e m u n h a s . "
O u v i r a m t o d o s a leitura d o d o c u m e n t o , q u e f o i a s s i n a d o
p e l a s t e s t e m u n h a s : p a d r e F i r m i n o R o i z da Silva, 1 5 2 e J o s é L u i z
G a r c e z , p e l o padre José Maurício N u n e s Garcia e p e l o major
Mateus Francisco G o m e s .
E n c e r r a v a - s e o p r o b l e m a da d í v i d a c o n t r a í d a e m 1810 p e l o
p a d r e J o s é M a u r í c i o . L i v r a r a da h i p o t e c a a casa da rua d a s
M a r r e c a s c o m o a u x í l i o p r o v á v e l d o s seus a m i g o s . S e m e x p l i c a ç ã o
f i c a v a m as r a z õ e s q u e o l e v a r a m a p e r d ê - l a , m a i s t a r d e .
A o transferir-se para o Brasil, M a r c o s Portugal — c o n s a g r a d o
c o m p o s i t o r d e ó p e r a s — f i c a v a o b r i g a d o a a d e q u a r - s e às
l i m i t a ç õ e s d o m e i o , p a s s a n d o a c o m p o r música r e l i g i o s a . F i z e r a o a b u n d a n t e m e n t e n o p a s s a d o p a r a as c a p e l a s r e a i s
portuguesas.153 A o chegar a o R i o d e Janeiro, encontrava-se ainda
e m c o n s t r u ç ã o o Real T e a t r o . O c o m p o s i t o r p o r t u g u ê s n ã o p o d e r i a
ficar distante d o mais importante c e n t r o musical da c i d a d e — a
C a p e l a R e a l — m e s m o q u e as o b r a s c a r r e g a s s e m o s s i n a i s
r e v e l a d o r e s da i n f l u ê n c i a d o g é n e r o q u e l h e p r o p o r c i o n a r a
l o u v o r e s n o s p a l c o s e u r o p e u s . Em casos e s p e c í f i c o s e r a m s i m p l e s
a d a p t a ç õ e s d e o b r a s r e l i g i o s a s a n t e r i o r m e n t e c o m p o s t a s para
M a f r a , B e m p o s t a o u Vila Viçosa. 1 5 4 P a s s a r ã o a ser d e sua autoria
as c o m p o s i ç õ e s q u e f o r m a m o r e p e r t ó r i o da C a p e l a R e a l n o R i o
d e Janeiro, s o b r e t u d o n o s dias q u e significavam u m
happening
s o c i a l , q u a n d o a p r e s e n ç a d e D . J o ã o era o sinal d e sua m a i o r
importância.
A nova distribuição d e trabalho que desaba sobre a Capela
d e i x o u s u f i c i e n t e m e n t e c l a r o q u e seria esta a s i t u a ç ã o d e f i n i t i v a
na C a p e l a R e a l . M a s suas m e d i d a s restritivas n ã o t a r d a r a m a
g e n e r a l i z a r - s e . N o P a ç o da B o a V i s t a , r e s i d ê n c i a o f i c i a l d o
p r í n c i p e r e g e n t e , o n d e se f a z i a m ú s i c a p r o f a n a , s e r i a m o u v i d a s
105
Cleofe Person de Mattos
obras de Marcos Portugal, inclusive c o m a participação de
m e m b r o s d a f a m í l i a r e a l , s e u s a l u n o s . Em 1812, i n a u g u r a n d o ,
t a l v e z , o i n t e r c â m b i o c o m o s e s c r a v o s m ú s i c o s da F a z e n d a d e
Santa C r u z , o u v i u - s e u m a f a r s a d e sua a u t o r i a — A
saloia
enamorada
— c o m texto d o poeta D o m i n g o s Caldas Barbosa.
N ã o era o b r a o r i g i n a l .
Em j u n h o d e 1812 m o r r e u o s o b r i n h o d e D . J o ã o , o p r í n c i p e
P e d r o C a r l o s d e B o u r b o n e B r a g a n ç a , m a r i d o d e D. Maria T e r e s a .
M a r c o s P o r t u g a l c o m p ô s a m ú s i c a p a r a as e x é q u i a s : Matinas
de
defuntos}''"'
A missa, n o d i a s e g u i n t e , era da autoria d e Z a n e t t i .
A s a b s o l v i ç õ e s , a seguir, e r a m d a autoria d e M a r c o s P o r t u g a l ,
s a l v o a primeira, composta por Fortunato Mazziotti.
N o v o m o t i v o d e m á g o a para José Maurício — se é q u e e l e
estaria e m c o n d i ç õ e s d e a v a l i á - l o — m e s t r e - d e - c a p e l a d e s d e 1798,
v e r - s e p r e t e r i d o e m sua p o s i ç ã o p r o f i s s i o n a l p o r u m c o m p o s i t o r
m e n o r na o p o r t u n i d a d e d e atuar a o l a d o d e M a r c o s P o r t u g a l na
Real C a p e l a .
José Maurício continuou, sem apelação, à m a r g e m das
r e a l i z a ç õ e s i m p o r t a n t e s da C a p e l a . O n o m e d e M a z z i o t t i
partilhará, doravante, c o m o c o m p o s i t o r português, e m e v e n t o s
na C a p e l a Real, na d i r e ç ã o d e o b r a s suas. Em 1816 será n o m e a d o
mestre-de-capela.
D i f i c u l d a d e s p r o v a v e l m e n t e d e v i d a s à sua s a ú d e f o r ç a r a m ,
e m 1812, a a d m i n i s t r a ç ã o d a C a p e l a a t o m a r p r o v i d ê n c i a s
tendentes a o afastamento d e José Maurício d o p o s t o d e organista
q u e d e s d e 1808 — c u m u l a t i v a m e n t e e s e m r e m u n e r a ç ã o —
e x e r c i a na C a p e l a R e a l . Em f e v e r e i r o d e s s e a n o d o i s o r g a n i s t a s
eram n o m e a d o s : o padre J o ã o Jacques e Simão Vitorino Portugal, 156 e m substituição a J o s é M a u r í c i o e a J o a q u i m Felix Baxixa. 1 5 7
O m e s t r e - d e - c a p e l a era c o m p e l i d o a a b a n d o n a r u m a f u n ç ã o q u e ,
t r a b a l h o s a e m b o r a , e a b s o r v e n t e , e s t a v a a r r a i g a d a à sua
p e r s o n a l i d a d e g l o b a l d e m ú s i c o . N ã o p o u c o s artistas e v i a j a n t e s ,
sobretudo o compositor N e u k o m m , ao dizer q u e "ninguém lembra
tanto o mestre c o m o este mulato genial", tiveram a o p o r t u n i d a d e
de o u v i - l o e deixaram d e p o i m e n t o sobre o organista que
i m p r o v i s a v a magistralmente. 1 5 8 Para o m ú s i c o s o f r i d o q u e n o a n o
a n t e r i o r f o r a a f a s t a d o da r e g ê n c i a e da c o m p o s i ç ã o para as
g r a n d e s s o l e n i d a d e s d a C a p e l a , era uma v i o l ê n c i a a m a i s c o r t a r l h e as o p o r t u n i d a d e s d e e x p a n d i r o t a l e n t o n o t e c l a d o , n o s
impulsos de grande improvisador que lhe reconheciam.
O d e c r é s c i m o da c r i a ç ã o m u s i c a l n o s ú l t i m o s a n o s d e v e
ser r e c o r d a d o d i a n t e da p r o d u ç ã o d o a n o 1812, r e d u z i d a a d u a s
o b r a s . M a i s u m a v e z e s c r e v i a J o s é M a u r í c i o para o s " e s c r a v o s m ú s i c o s " d a F a z e n d a d e Santa C r u z , o u p a r a a R e a l Q u i n t a da
106
José Maurício Nunes Garcia biografia
Boa Vista. A circunstância d e ambas s e r e m " p a ç o s reais" n ã o
a m e n i z a r i a n o p a d r e c o m p o s i t o r , mestre da Capela Real, o
possível sentimento de desterro decorrente da limitação nos
r e c u r s o s m u s i c a i s i m p o s t a à sua i m a g i n a ç ã o c r i a d o r a . D e i x a v a
d e e s c r e v e r para cantores q u e n ã o o p u n h a m entraves t é c n i c o s à
sua c r i a ç ã o , p a r a solistas q u e d a v a m asas à sua i m a g i n a ç ã o , e
passará a a d e q u a r - s e às c o n d i ç õ e s d e c a p a c i t a ç ã o artística m a i s
r e d u z i d a d o s q u e p a s s a r ã o a ser, m a i s f r e q u e n t e m e n t e , o s
i n t é r p r e t e s d e suas obras. 1 5 9
A s perspectivas d e José Maurício continuam mais modestas
d o q u e n o p a s s a d o , n o p a n o r a m a d e sua c r i a ç ã o , c o n q u a n t o se
d e v a r e c o n h e c e r q u e , c o m p o s t o para o m e s m o c o n j u n t o d o
m o t e t o d e 1810, o Tamquam
auram d e 1812 mostrava o p r o g r e s s o
t é c n i c o d o s e s c r a v o s - m ú s i c o s da F a z e n d a , o n d e c o n t i n u a v a m e m
a ç ã o o s p r o f e s s o r e s d e m ú s i c a , a m p l i a n d o as p o s s i b i l i d a d e s d e
e x e c u ç ã o . O q u e s e r e f l e t e na c o m p o s i ç ã o da o b r a : r e a p a r e c e o
s o l o d e s o p r a n o h a b i t u a l n o m o t e t o tripartite, assim c o m o a
o r n a m e n t a ç ã o m e l ó d i c a e v i t a d a n o m o t e t o d e 1810.
A r e s p e i t o da e x i b i ç ã o p e l o c o n j u n t o a p ó s uma a p r e s e n t a ç ã o
na R e a l Q u i n t a , u m c o m e n t á r i o e s c a p o u , à é p o c a : " A n t e s d e
h o n t e m o v e festa na Chacara d e Sua A l t e z a . O v e missa g r a n d e
d e M a r c o s c o m e s t r o m e n t a l e t u d o p e l o s p r e t o s d e Santa Cruz, q .
d e r a m e x c e l e n t e c o n t a d e si." 1 6 0 O s m e s m o s i n t é r p r e t e s t e r i a m
c a n t a d o a i n d a a farsa d e M a r c o s P o r t u g a l : A saloia
enamorada,
p e ç a q u e será o u v i d a na i g r e j a d e N o s s a S e n h o r a d o R o s á r i o e m
te m po s posteriores.
M a i s u m a v e z M a r c o s P o r t u g a l e n c e r r o u as a t i v i d a d e s
musicais d o a n o apresentando n o Teatro Régio, p o r ocasião d o
a n i v e r s á r i o d a r a i n h a , sua ó p e r a Artaxerxes.
Q u e n ã o era, c o m o
n o a n o a n t e r i o r , o b r a i n é d i t a . O r e s u l t a d o a r t í s t i c o n ã o terá s i d o
d e m o l d e a e n t u s i a s m a r o c o m p o s i t o r na a p r e s e n t a ç ã o d e o b r a s
suas e m teatro n o Rio d e Janeiro. O e s p e t á c u l o f o i c o m p l e m e n t a d o
p o r u m b a i l a d o s é r i o d e Luís L a c o m b e : Apolo e Dafne,
com
" e n r e d o " e m três a t o s , e " g r a n d e e s t i l o " .
107
Cleofe Person de Mattos
O lento ressurgir
do
1813
compositor
Em 1813 o s f a d o s p a r e c e m sorrir p a r a J o s é M a u r í c i o . D o i s
s a l m o s c o m p o s t o s nesse a n o i n f o r m a m c o m p r e c i s ã o a é p o c a d o
r e t o r n o a o c o n v í v i o da O r d e m T e r c e i r a d o C a r m o , o m a i s
constante c a m p o de trabalho após a Catedral. A retomada d o
t r a b a l h o , a partir d e 1813, f e z - s e l e n t a m e n t e , e m o b r a s s u c e s s i v a s
c o m p o s t a s para o c o m p a d r e Batista L i s b o a , c o m vistas à O r d e m
T e r c e i r a d o C a r m o . A julgar p e l a s e x p r e s s õ e s d e a l e g r i a q u e o
c o m p o s i t o r c o l o c a na d e d i c a t ó r i a , p o d e - s e d i z e r q u e é o ú n i c o
m o m e n t o d e e x p a n s ã o q u e se c o n h e c e , a o dirigir-se a u m " S e n h o r
B i d o l o r e t e s " , p r o v a v e l m e n t e , o p r ó p r i o J o s é Batista L i s b o a .
" I l m ° Sr. B i d o l o r e t e s R e m e t t o o
o m n e s g e n t e s . Estimarei q u e saia
b e m ganhadeiro, é muito p e q u e n o
v i v a , v i v a , Sr. B i d o l o r e t e s : Sua casa,
seu Laudate D o m i n u m
a s e u g o s t o ; e q u e seja
e de pouca gente. Viva,
a o 11 d e j u l h o d e 1813 "
N ã o é menos prazenteiro o oferecimento d o outro salmo:
" I l l m ° Snr. B i d o l o r e t e s ; v a i o L a u d a t e Pueri; e f i c a V.S. C o m
2 Psalmos de Anjinhos bem xibantes; ambos c o m m o t i v o
d e R o n d ó ; e p e q u e n o s ; e P r o p r i o s p a r a as v o z e s q ' q u e r . "
C o m o se v ê , a j o v i a l i d a d e t r a n s p a r e c e n e s s a s d u a s p e ç a s
( C T 76 e 7 7 ) q u e u t i l i z a v a m , p o r t r a d i ç ã o , t e x t o s d o s s a l m o s
Laudate pueri e Laudate Dominum
nas e x é q u i a s d e i n f a n t e s .
A r e f e r ê n c i a a o r e s u l t a d o " g a n h a d e i r o " das duas o b r a s "para
p o u c a s v o z e s " e " p e q u e n a s " , c o m o v e m na d e d i c a t ó r i a , p a r e c e
c o n v e r g i r , na r e a l i d a d e , p a r a a p e s s o a d o c o m p a d r e , q u e a l é m
d e "diretor d e música" preocupava-se em ganhar dinheiro. A o
m e s m o t e m p o , r e v e l a a i n t e n ç ã o d e r e d u z i r para t e r m o s mais
m o d e s t o s as e x i g ê n c i a s d e e x e c u ç ã o na e n t i d a d e q u e v o l t a v a a
ser o d e s t i n o m u s i c a l d a s o b r a s d e J o s é M a u r í c i o .
D u a s outras c o m p o s i ç õ e s t r a z e m a m e s m a data. A m b a s c o m
o n o m e o u a rubrica d e Batista L i s b o a :
Matinas
da Assumpção
de N. Sra/Para
a festa de N. Sra. da
Boa Morte na Igreja do Hospício
a 15 de agosto/ Compostas
pelo
p" José Maurício
em 1813
Missa Pequena
de pequena
orquestra
A data a p l i c a d a à partitura a u t ó g r a f a d a s Matinas
significa
na r e a l i d a d e a d a o r q u e s t r a ç ã o d a o b r a . A f e i t u r a , o e s t i l o já
108
José Maurício Nunes Garcia biografia
u l t r a p a s s a d o da c o m p o s i ç ã o a p r o x i m a m - n a d o r e g i s t r o da m e s m a
o b r a n o c a t á l o g o d e M a c i e l : Matinas
d'Assunção
—para
4 vozes
com acompanhamento
de orgão; composta em 1808. O r q u e s t r a d a
c o m discrição (flautas, clarinetes, trompas e cordas), a obra
c o n s e r v a a p a r t e v o c a l s e m p e r d e r as c a r a c t e r í s t i c a s d e
s i m p l i c i d a d e q u e e n v o l v i a a p r i m e i r a v e r s ã o da o b r a , e m 1808.
N a p r i m e i r a p á g i n a da Missa pequena
f o i acrescentada uma
i n d i c a ç ã o : " P r i m e i r a M i s s a " , o q u e s u g e r e haja s i d o c a n t a d a , na
O r d e m T e r c e i r a , na festa d e Santa T e r e s a , q u e se r e a l i z a v a e m
d o i s dias sucessivos.
Essas o b r a s c o m p o s t a s e m 1813 m e r e c e m a t e n ç ã o p e l o f a t o
d e s e r e m d a s p r i m e i r a s a partir d o m o m e n t o e m q u e d e i x a r a d e
c o m p o r p a r a a R e a l C a p e l a . E m b o r a p o d e r o s a s , as i r m a n d a d e s e
o r d e n s t e r c e i r a s n ã o t i n h a m as m e s m a s d i s p o n i b i l i d a d e s q u e
p r o p o r c i o n a v a m b r i l h o às c e r i m ó n i a s da C a p e l a . J o s é M a u r í c i o
passará a e s c r e v e r o b r a s mais s ó b r i a s d e feitura, e d e p r o p o r ç õ e s
m a i s m o d e s t a s . Em c o m p l e x i d a d e t é c n i c a —
orquestra,
p r o p o r ç õ e s , escrita v o c a l — a Missa pequena
difere muito das
missas q u e marcaram a v i v ê n c i a d o c o m p o s i t o r n o p e r í o d o
1808-1811. O t r a t a m e n t o v o c a l da Missa pequena
l o g o demonstra
q u e , a p e s a r da d i g n i d a d e v o c a l d o s o l o d e b a i x o — Qui sedes —
Quoniam
— os demais solos não exigiam necessariamente a
p a r t i c i p a ç ã o d o s g r a n d e s c a n t o r e s da R e a l C a p e l a p a r a v e n c e r a
v i r t u o s i d a d e d a s árias q u e e m 1810 e 1811 e r a m c a n t a d a s p e l o s
castrati.
A instalação da c o r t e portuguesa n o R i o d e Janeiro acentuara
a d e s i g u a l d a d e já e x i s t e n t e e n t r e b r a s i l e i r o s e p o r t u g u e s e s . Estes
se a t r i b u í a m p r i v i l é g i o s s o b r e o s naturais d o país. O s o r d e n a d o s
d o s músicos n ã o variavam apenas s e g u n d o a categoria de cada
u m : e r a m " c o n f u s o s " , dirá mais tarde m o n s e n h o r F i d a l g o , inspetor
da C a p e l a . Circunstâncias v á r i a s c o n c o r r i a m para e s s e r e s u l t a d o :
p e d i d o d o interessado, assomo de entusiasmo d o príncipe
regente, a especial deferência por determinada pessoa,
e n c a m i n h a n d o para o "real b o l s i n h o " a s o l u ç ã o desses c a s o s mais
chegados. Os pedidos de equiparação de ordenado perseguiam
D . J o ã o . T o d o s se q u e i x a v a m , as r e c l a m a ç õ e s e r a m g e n e r a l i z a d a s
n o tentar justificar o m o t i v o d o p e d i d o : e m p r e g o , e s m o l a ,
c o m e n d a , u m a g a l i n h a p o r dia, c o n e z i a na c a p e l a , ajuda d e c u s t o
e outros favores.
Caso típico é o d e Pedro Colonna, professor de balé, v i n d o
d e L i s b o a c o m D . J o ã o . Em 1813 r e c l a m a v a l h e f o s s e m t a m b é m
c o n c e d i d a s as " 5 0 m o e d a s " p a g a s p e l o " r e a l b o l s i n h o " a M a r c o s
P o r t u g a l , e m v e z d a s 13 q u e e l e r e c e b i a . O b a r ã o d o R i o S e c o ,
q u e informava o p e d i d o , confirma o fato mas acrescenta: " H é
109
Cleofe Person de Mattos
v e r d a d e q u e hum e o u t r o são Mestres d o Real Serviço, mas q u e
d i f e r e n ç a v a y d e h u m a outro"... 1 6 1 C o m p r e e n d e - s e q u e o p a d r e
José M a u r í c i o não era p e s s o a talhada para s o b r e v i v e r
v a n t a j o s a m e n t e e m tal m e i o .
O a c o n t e c i m e n t o d o a n o é a inauguração d o grande teatro
" d e ó p e r a " q u e t o m a r á o n o m e d e Real T e a t r o São J o ã o .
Sua l o c a l i z a ç ã o f o i d e c i d i d a a f a v o r d o C a m p o d o s C i g a n o s ,
e m terreno d o a d o p o r Fernando José d e A l m e i d a , o Fernandinho,
p o r t u g u ê s d e n a s c i m e n t o , c a b e l e i r e i r o c o m o M a n u e l Luís, v i n d o
d e P o r t u g a l c o m o m a r q u ê s d e A g u i a r . Será o a d m i n i s t r a d o r e
empresário.
N ã o seria ideal sua l o c a l i z a ç ã o e m antigas terras pantanosas,
q u e já f o r a r o c i o e f e i r a d e c a v a l o s . N ã o t a r d o u a d e s e n v o l v e r - s e
em torno do edifício um comércio variado e numeroso que, com
o p a s s a r d o t e m p o , a g l u t i n a v a casas d e m ú s i c a e até u m l i c e u
musical, a j u d a n d o a c o m p o r a f i s i o n o m i a q u e a c a r a c t e r i z o u c o m o
a p r a ç a d o R o c i o , f u t u r a m e n t e da C o n s t i t u i ç ã o , h o j e T i r a d e n t e s .
N o dia da i n a u g u r a ç ã o , a Gazeta do Rio de Janeiro
d i z i a ser "a
mais b e l a praça desta corte".
Decidiu-se a construção sobre risco f e i t o p o r J o ã o Manuel
da Silva, c o n c e b i d o c o m i n d i s f a r ç á v e l d e s e j o d e a p r o x i m a r - s e
d o T e a t r o S ã o C a r l o s , d e L i s b o a , c o m l u g a r p a r a 1.200 p e s s o a s
na p l a t é i a " s e m v e x a m e " e 112 c a m a r o t e s e m q u a t r o o r d e n s .
C o m p l e m e n t a v a - o a Tribuna Real e uma varanda externa q u e
o c u p a v a t o d a a largura d o p r é d i o , na f a c e v o l t a d a para a praça. 1 6 2
D . J o ã o a u t o r i z o u m e d i d a s d e a p o i o a o F e r n a n d i n h o : utilizar
a c a n t a r i a q u e s u s t e n t a v a as c o l u n a s i n a c a b a d a s da Sé V e l h a ,
assim c o m o isentar o t e a t r o da taxa a l f a n d e g á r i a até q u e entrasse
e m funcionamento.163
A p e s a r d o e m p e n h o d o príncipe, a c o n s t r u ç ã o n ã o estava
t o t a l m e n t e c o n c l u í d a na data p r e v i s t a p a r a a i n a u g u r a ç ã o — 12
d e o u t u b r o d e 1813 — , d i a e m q u e o p r í n c i p e D . P e d r o
c o m p l e t a v a 15 a n o s . N e m f o r a r e s o l v i d o o c o m p l i c a d o
a p a r e l h a m e n t o d e u m teatro q u e se p r o p u n h a a cumprir c o m p l e x a
v i d a artística: a p r e s e n t a ç õ e s dramáticas, ó p e r a s , b a i l a d o s , farsas,
burletas.
N o q u e respeita a o q u a d r o q u e d e p e r t o interessa a este
trabalho, o d e cantores, v a l e lembrar q u e , à e x c e ç ã o de Mariana
Scaramelli —
chegada ao Rio de Janeiro em
1811,
presumivelmente alimentando perspectivas ligadas com
e x c l u s i v i d a d e a o g é n e r o o p e r í s t i c o — o n ú m e r o d e artistas
q u a l i f i c a d o s e a f e i t o s a o g é n e r o era i n s u f i c i e n t e n o R i o d e J a n e i r o
para o s p r o j e t o s l i g a d o s a o teatro.
110
José Maurício Nunes Garcia biografia
A l g u n s músicos mais b e m dotados, c o m o J o ã o d o s Reis
Pereira, e outros c o m prévia atuação n o Teatro Régio, alcançaram
i m e d i a t o a p r o v e i t a m e n t o . Faltaria o r g a n i z a r g r u p o d r a m á t i c o d e
c a t e g o r i a ; a p e s a r da inata d i s p o s i ç ã o d o s p o r t u g u e s e s p a r a o
t e a t r o e a d a n ç a , o c a m p o d e a ç ã o d e s t e s n o R i o d e J a n e i r o era
m a i s f é r t i l e m farsas e d a n ç a s l i g e i r a s . B a i l a r i n o s t r a b a l h a v a m ,
e m p r i n c í p i o , e m p e q u e n a s p e ç a s o u a t u a ç õ e s solísticas, mas
n ã o c o m o artistas " a p r e n d i d o s " n o e s p í r i t o d e " c o r p o d e b a i l e " ,
e m f u n ç ã o d e u m r e p e r t ó r i o . A c h e g a d a a o Brasil d e s d e 1811 d e
Luís L a c o m b e e s e u s i r m ã o s , e sua a t u a ç ã o n o T e a t r o R é g i o d e r a
m e l h o r e s p e r s p e c t i v a s a o g é n e r o b a l é s é r i o q u e será d e s e n v o l v i d o
n o R e a l Teatro. 1 6 4
Da cenografia ocupava-se José d e Carvalho Leandro, q u e
t e v e a u x i l i a r e s e c o n t i n u a d o r e s : J o ã o M a n u e l , M a n u e l da Costa
( a r q u i t e t o , p i n t o r e m a q u i n i s t a ) . A esses n o m e s irá juntar-se, c o m o
c e n ó g r a f o , e m 1816, o d e D e b r e t .
N o q u a d r o d o s p r o f i s s i o n a i s d e q u e era c a r e n t e a c i d a d e ,
m u i t o s p r o p u n h a m - s e para f u n ç õ e s d i v e r s a s , d e s e j o s o s d e atuar
neste ou naquele instrumento, ou v i v e r determinados papéis e m
dramas ou óperas, procurando um vínculo estável c o m a coroa
p o r t u g u e s a através d o teatro. Simão Portugal, i r m ã o d e Marcos,
um desses pretendentes a o p o s t o de organista, informa em
r e q u e r i m e n t o q u e até o mês de junho o q u a d r o dos músicos n ã o
se o r g a n i z a r a . 1 6 5 N e m o estaria e m 12 d e o u t u b r o é o q u e p o d e
e x p l i c a r — s e m muita c o n v i c ç ã o , aliás — a a u s ê n c i a d e M a r c o s
P o r t u g a l n o e s p e t á c u l o d e i n a u g u r a ç ã o d o Real T e a t r o S ã o J o ã o ,
e m 12 d e o u t u b r o . Estranhável, s o b r e t u d o , p o r q u e o c o m p o s i t o r
p r e f e r i d o d o p r í n c i p e r e g e n t e teria v i n d o para o Brasil e m 1811
c o m v i s t a s a o R e a l T e a t r o , já e m a n d a m e n t o , e o c u p a r p o s t o
c o n d i z e n t e c o m a n o t á v e l q u a l i f i c a ç ã o q u e o distinguia. Em 1813,
as c o n d i ç õ e s reais d o T e a t r o n ã o t e r i a m e n t u s i a s m a d o o c o m p o s i t o r a p a r t i c i p a r d e e s p e t á c u l o e m q u e a i m p r o v i s a ç ã o era
p r e v i s í v e l : a c o n s t r u ç ã o n ã o t e r m i n a r i a , n e m se e s t a b i l i z a r i a o
q u a d r o d o s artistas. Sua o b r a f i c a r i a , a s s i m , e x p o s t a a u m
tratamento deficiente, incompatível c o m a posição d o "inspetor
d e t o d o s o s t e a t r o s da c o r t e " . 1 6 6
Foi inaugurado o teatro c o m o "drama e m música" O
juramento
dos Numes. A m ú s i c a , i n c i d e n t a l , era da autoria d e
B e r n a r d o José d e Souza Queirós167 e o autor d o texto, Gastão
F a u s t o da C â m a r a C o u t i n h o . Este, da M a r i n h a d e Sua M a j e s t a d e ,
a u t o r d e p e ç a s " p o s t a s e m m ú s i c a " e m 1809 p e l o p a d r e J o s é
M a u r í c i o , já e x i b i r a s u a l i n g u a g e m r e b u s c a d a , p o r o n d e
desfilavam personagens mitológicas, ou simbólicas. A peça, e m
um ato, parecia r e f l e x o d o estado p r o v i s ó r i o d o Real Teatro, e
Hl
Cleofe Person de Mattos
estaria m u i t o a q u é m d o r e p e r t ó r i o q u e será e x i b i d o e m seu p a l c o
a l g u n s a n o s m a i s t a r d e . O a t o f o i c o m p l e m e n t a d o , na data da
i n a u g u r a ç ã o , c o m o b a i l a d o O combate
do vimieiro
e "dansas
e n g r a ç a d a s " ( c o m p r e e n d i d a essa e x p r e s s ã o n o s e n t i d o p o r t u g u ê s
d e "bonitas").168
Assim caminhava a o r g a n i z a ç ã o geral d o T e a t r o Real, d e
m o d o a d e f i n i r a estrutura q u e n e l e v a i f u n c i o n a r : a C o m p a n h i a
N a c i o n a l — para o s d r a m a s e c o m é d i a s — a C o m p a n h i a Lírica —
p a r a as ó p e r a s — o C o r p o d e B a i l e p a r a o s g r a n d e s e s p e t á c u l o s
d e b a l é , e o g r u p o d o s " b u r l e s c o s " para o s b a i l e s m a i s l i g e i r o s ,
d a n ç a s i n d i v i d u a i s . N ã o d e m o r a r á m u i t o a c h e g a r o casal d e
d a n ç a r i n o s A u g u s t o T o u s s a i n t e sua m u l h e r , e l e m e s t r e d e d a n ç a
e c o r e ó g r a f o , ela c a n t o r a , e assim reunirá o R e a l T e a t r o São J o ã o
u m c o n j u n t o q u a l i f i c a d o para a d a n ç a , q u e c o m p l e m e n t a v a t o d o s
os espetáculos nele realizados.
E m d e z e m b r o , o a n i v e r s á r i o da rainha n ã o d e i x a v a
e s c a p a r u m a r o t i n a d o c e r i m o n i a l da f a m í l i a r e i n a n t e , t r a z e n d o
d e v o l t a u m e s p e t á c u l o d e ó p e r a , esta d a a u t o r i a d e A n t o n i o
S a l i e r i ( 1 7 5 0 - 1 8 2 5 ) : Axur,
rei de Ormuz
(1787).
Em 1813 u m g e s t o s u r p r e e n d e n t e d e D . J o ã o n o s e n t i d o d e
m e l h o r a r as c o n d i ç õ e s musicais na C a p e l a Real: p r o p õ e a o b i s p o
a e x t i n ç ã o d o S e m i n á r i o São J o s é para " n o s e u e d i f í c i o e c o m as
suas r e n d a s s e e s t a b e l e c e r h u m S e m i n á r i o d e M u s i c a p a r a o s
S o p r a n o s da Capela Real". A resposta d o b i s p o é, naturalmente,
n ã o c o n c o r d a n t e . ( V e r Bulário,
c o m data d e 23 d e j u n h o d e 1813,
s o b título " S o b r e a e x t i n ç ã o , o u c o n s e r v a ç ã o d o S e m i n á r i o E p i s c o p a l d e São José desta C o r t e " . )
O bispo alega não ver a necessidade d e "fundar um n o v o
C o l é g i o d e Musica para 12 rapazes, s ó c o m o f i m d e o b t e r a l g u m a s
v o z e s d e s o p r a n o " . . . p o r q u e p a r a e s s e f i m já D . J o ã o t e m
"estabelecido hum suficiente ordenado a hum Professor de
M u s i c a , q u e h è i g u a l m e n t e M e s t r e d e sua C a p e l a Real, e q u e
p o d e m u i t o b e m d e s c o b r i r e a p r o v e i t a r a l g u m a s d e s s a s tais e
q u a i s v o z e s d e s o p r a n o q u e h o u v e r n o R.J.". E o b s e r v a q u e tais
v o z e s e m u m r a p a z d u r a m a p e n a s até o s 13 o u 14 a n o s , a p ó s o s
quais o s alunos seriam d e s p e d i d o s . E isso numa i d a d e e m q u e
ainda n ã o está totalmente a p t o para dela v i v e r e m , mas
s u f i c i e n t e m e n t e " i n d i s p o s t o s para s e g u i r e m o u t r o m o d o d e v i d a " .
P o n d e r a a i n d a o b i s p o q u e n ã o se p o d e r e c e a r a falta d e
m e l h o r e s m ú s i c o s para a R e a l C a p e l a , " c o m o r e a l m e n t e n ã o
f a l t a m , v i s t o q u e n e l a se p o d e m achar o s m e l h o r e s o r d e n a d o s e
p r é m i o s d e seus talentos; e até se p o d e r ã o e s c o l h e r , n ã o 12 a l u n o s
d e 1 c o l é g i o ( . . . ) m a s i n ú m e r o s i n d i v í d u o s t a n t o d o Brasil c o m o
de Portugal e d o estrangeiro".
112
José Maurício Nunes Garcia biografia
Julga o b i s p o mais c o n v e n i e n t e deixar para o u t r o t e m p o o
p r o j e t o d e u m s e m i n á r i o d e s o p r a n o s . Mas p o n d e r a q u e , f i r m a n d o s e a i d é i a , n ã o se d e v e e x t i n g u i r o S e m i n á r i o S ã o J o s é . E l e m b r a
o u t r o s f a v o r e s q u e a igreja prestou à c o r o a : o t e r r e n o da antiga
S ó , o A l j u b e , o S e m i n á r i o da Lapa ( . . . ) , o R e c o l h i m e n t o d a s
" c o n v e r t i d a s " d e N o s s a Senhora d o Parto. E a l u d e a o s s e n t i m e n t o s
r e l i g i o s o s d e D . J o ã o , q u e seria m e l h o r s e r v i d o c o m a v e r d a d e .
O S e m i n á r i o São José é uma s e m e n t e para a e d u c a ç ã o d o s
r e l i g i o s o s . R e s p o n d e u c o m o b i s p o . C o m o v a s s a l o , fará o q u e o
r e i d e t e r m i n a r . E assim f i c o u a s a l v o o S e m i n á r i o S ã o J o s é .
D u a s o b r a s — a m b a s c o m orquestra — s ã o c o n h e c i d a s c o m
data d e 1814: a Novena do apóstolo São Pedro ( C T 6 6 ) e o
Bendito
e Louvado
seja o SSm° Sacramento
( C T 1 2 ) . Será p o u c o , q u a n d o
se c o n s i d e r a q u e d e s d e o a n o a n t e r i o r — q u a s e t o d o v o l t a d o
para o O r d e m Terceira d o C a r m o — o p a d r e José Maurício
n o r m a l i z a r a , o u q u a s e , suas f u n ç õ e s d e c o m p o s i t o r . O m a n u s c r i t o
da Novena
— p o s s i v e l m e n t e c o m p o s t o para expressar alegria
c o m o r e t o r n o d o p a p a P i o V I I à cátedra d e São P e d r o , e m R o m a
— c o n s i g n a o o f e r e c i m e n t o a o i r m ã o a n d a d o r da O r d e m T e r c e i r a ,
m a s ressalta, e m nota a u t ó g r a f a na partitura q u e o e m p r é s t i m o
d o manuscrito " n ã o d e v e ser recusado à I r m a n d a d e d e São
Pedro".109
O fato subentende uma questão financeira c o m o fator
d e c i s ó r i o e n t r e as d u a s e n t i d a d e s . A i n s t i t u c i o n a l p o b r e z a da
I r m a n d a d e d o s C l é r i g o s n ã o teria c o n d i ç õ e s d e assumir a
e x e c u ç ã o , talvez n e m m e s m o a e n c o m e n d a d e grandes obras. A
Novena
t r a i , s e m d ú v i d a , u m p r o p ó s i t o d e e c o n o m i a na
o r q u e s t r a ç ã o : cordas — s e m viola — , um clarinete, uma t r o m p a
e o baixo cifrado, tudo condizente c o m a escassez d e recursos
da I r m a n d a d e d e S ã o P e d r o , d e s t i n o p r e v i s t o p e l o c o m p o s i t o r
para a o b r a .
O Bendito
( C T 12), o b r a f e s t i v a e c i r c u n s t a n c i a l , é m a i s
r i c o na o r q u e s t r a ç ã o : c o r d a s c o m v i o l a e c o n t r a b a i x o , f l a u t a s ,
c l a r i n e t e s , f a g o t e s , t r o m p a s e clarins. Instrumental n u m e r o s o q u e
f a z c o m p r e e n d e r a e n c o m e n d a d e D. J o ã o para o u t r o B e n d i t o
"mais p e q u e n o e abreviado", que José Maurício escreverá no
a n o s e g u i n t e p a r a o c o n j u n t o musical da F a z e n d a d e Santa C r u z .
O texto e m vernáculo e de cunho menos severo, c o m o
e x p r e s s ã o r e l i g i o s a , p o d e estar a s s o c i a d o a d e t e r m i n a d o t i p o d e
c e r i m ó n i a r e a l i z a d a c o m f r e q u ê n c i a n o P a ç o d a B o a Vista e n t r e
1809 e 1815: o s c h a m a d o s " o r a t ó r i o s d o P a ç o " . N ã o e r a m " f u n ç õ e s
d e c o r t e " c o m c e r i m o n i a l e c o n v i t e s , c o m o as f e s t a s d o C o r p o d e
Deus, d e São Francisco d e Borja ou a f u n ç ã o d e São J o ã o
3
Cleofe Person de Mattos
D e g o l a d o , p o r é m a t o s c i r c u n s c r i t o s a o a m b i e n t e da f a m í l i a real,
ligados que eram à residência oficial.
O a s s u n t o o r a t ó r i o s d o P a ç o f o i a b o r d a d o e m 1809 q u a n d o
o bispo D. José Caetano opôs-se à dramatização d e temas
religiosos n o teatro. O limitado e s p a ç o f í s i c o r e s e r v a d o a esses
a t o s n o p a l á c i o da B o a Vista teria d e s p e r t a d o a a m b i ç ã o p o r u m
e s p a ç o m a i o r d o q u e o "estreito c o r r e d o r " e m q u e se f a z i a música
na R e a l Q u i n t a . O p e d i d o a o b i s p o teria s i d o a p r i m e i r a tentativa
— t a l v e z ú n i c a — d e d r a m a t i z a r e s s e s atos, i d é i a e s t i m u l a d a
p r o v a v e l m e n t e pela chegada d o s músicos d e Lisboa, afeitos a o
género.
N ã o f o i l o c a l i z a d o n e n h u m m a n u s c r i t o musical e x p l i c i t a n d o
destinar-se a estas c e r i m ó n i a s . N e m o s B e n d i t o s d o p a d r e - m e s t r e ,
e m q u e p e s e à natural a p r o x i m a ç ã o c o m o c a r á t e r p o p u l a r d o s
villancicos
— d e f o r t e tradição ibérica — suportaria c o n o t a ç ã o
d r a m á t i c a v i n c u l a d a às r e a l i z a ç õ e s d o P a ç o da B o a V i s t a . O s
pagamentos lançados diretamente nos livros de despesa
testemunham concretamente a realização de oratórios que
f a v o r e c i a m n ã o s ó a c a p e l a da Q u i n t a da B o a Vista, m a s a d e
Santa C r u z , e até a C a p e l a Real. 1 7 0
B u s c a n d o uma v e r d a d e entre c o i n c i d ê n c i a s várias, nada
m a i s se p r e t e n d e a l é m d e e n t r e v e r a o r i g e m p r o v á v e l , o u
p r e s u m í v e l , d e u m r e p e r t ó r i o p r a t i c a d o nessas Capelas. S e m a p o i o
d o c u m e n t a l s u f i c i e n t e para a p o n t a r o b r a s citadas, c o n c l u i - s e q u e
lhes caberiam — inclusive por exigir número menor de
participantes — p e ç a s d e caráter d e v o c i o n a l : ladainhas, n o v e nas, s e t e n á r i o s , t r e z e n a s .
O instigante, n o caso, é q u e a esta s u p o s i ç ã o c o r r e s p o n d e m
v á r i a s o b r a s d o p a d r e J o s é M a u r í c i o , assim c o m o o s r e g i s t r o s e m
catálogos, q u e o f e r e c e m respaldo a uma aproximação q u e vai
a l é m da s i m p l e s c o i n c i d ê n c i a e n t r e títulos c o n h e c i d o s e r e g i s t r o s
b u r o c r á t i c o s : r e f e r ê n c i a às datas.
A Novena
de Santa Bárbara
( C T 6 5 ) é o e x e m p l o mais
e x p r e s s i v o d e o b r a m a u r i c i a n a e n t r e as q u e t ê m r e g i s t r o n o s
catálogos e nos Livros sobre Fazenda d o A r q u i v o Nacional, c o m
a m e s m a data d o manuscrito, 1 7 1 o q u e v e m c o n s i g n a d o n o L i v r o
3a d e A v i s o s e O f í c i o s ( p . 1 7 6 ) ; i n f o r m a a i m p o r t â n c i a p a g a
( 1 3 9 $ 1 0 0 ) e a data d o p a g a m e n t o ( 2 4 . 1 2 . 1 8 1 0 ) , a n o c o n f i r m a d o
n o m a n u s c r i t o a u t ó g r a f o . O u t r a s o b r a s m e r e c e m ser c i t a d a s ,
e m b o r a o m a n u s c r i t o e a data n ã o o f e r e ç a m tanta c o i n c i d ê n c i a .
A p e s a r d o s numerosos registros a b r a n g e n d o vários anos,
p o u c o s d a d o s p o s i t i v o s p o d e m ser a d i a n t a d o s a r e s p e i t o d e s s e s
oratórios e da música aí habitualmente ouvida. D e v e admitir-se
q u e h a v e r i a p a r t i c i p a ç ã o d e p e s s o a s m a i s p r ó x i m a s da f a m í l i a
114
José Maurício Nunes Garcia biografia
r e a l e m c o n d i ç õ e s d e dar, na i n t i m i d a d e , e x p a n s ã o a o s s e u s
s e n t i m e n t o s r e l i g i o s o s tanto q u a n t o às suas q u a l i d a d e s musicais. 1 7 2
Em 1814, d a n d o c o n t i n u i d a d e a u m a s i t u a ç ã o q u e d u r a v a
d e s d e 1808 na F a z e n d a d e Santa C r u z , u m a p o r t a r i a c o n f i r m a a
i n d i c a ç ã o d o s d o i s p r o f e s s o r e s d e m ú s i c a , i n c l u i n d o - o s na f o l h a
da R e a l Câmara. 1 7 3 M e d i d a sábia, t o m a d a d i a n t e d o p r o g r e s s i v o
a p e r f e i ç o a m e n t o dos escravos-músicos, que, além d e permitir
m a i s f r e q u e n t e s a t u a ç õ e s n o P a ç o da B o a Vista, c o n v i v i a m c o m
o u t r o r e p e r t ó r i o , assim o f e r e c e n d o outras p e r s p e c t i v a s m u s i c a i s
n o P a ç o d e S ã o C r i s t ó v ã o . O p a d r e J o s é M a u r í c i o tinha na
b a g a g e m v á r i a s o b r a s p a r a e l e s e x p r e s s a m e n t e c o m p o s t a s , na
s u c e s s ã o d a s q u a i s se p o d e a c o m p a n h a r o d e s e n v o l v i m e n t o
m u s i c a l d o g r u p o , até a l c a n ç a r a o p o r t u n i d a d e d e f a z e r o u v i r
u m a d a s suas m a i s f a m o s a s o b r a s .
Em 1814 a b r i a - s e à v i s i t a ç ã o p ú b l i c a a R e a l B i b l i o t e c a
c h e g a d a a o R i o d e J a n e i r o e m 1810. I n s t a l a d a n o s v a s t o s s a l õ e s
d o H o s p i t a l da O r d e m T e r c e i r a d o C a r m o , a f a m o s a c o l e ç ã o —
e s t i m a d a e m 60 mil v o l u m e s — j u n t a m e n t e c o m a Real B i b l i o t e c a
da C o r o a e a d o I n f a n t a d o , incluía m a n u s c r i t o s d e g r a n d e v a l o r ,
m a p a s , e s t a m p a s raras, m ú s i c a , a l é m d o g a b i n e t e d e f í s i c a . P o r
o r d e m d e D . J o ã o f o i c o l o c a d o o p a d r e J o a q u i m D â m a s o , da
C o n g r e g a ç ã o d o O r a t ó r i o d e L i s b o a , para dirigi-la; para a j u d á - l o ,
o b i b l i o t e c á r i o Luís d o s Santos M a r r o c o s . O p a d r e J o s é M a u r í c i o ,
l i g a d o d e s d e 1810 à o r g a n i z a ç ã o da p a r t e m u s i c a l d o a c e r v o ,
o c u p a v a o p o s t o de arquivista.
I n s t a l a d o e m Santa C r u z d e s d e f e v e r e i r o , D . J o ã o — q u e
n ã o v i e r a a o R i o d e J a n e i r o p a r a a S e m a n a Santa — r e t o r n o u à
c i d a d e p a r a as c o m e m o r a ç õ e s d o dia 7 d e m a r ç o , f e s t e j a d o na
C a p e l a d o s T e r c e i r o s c o m a c o s t u m e i r a s o l e n i d a d e . S e a missa
da f e s t a era da autoria d e M a r c o s P o r t u g a l — o q u e é p r o v á v e l
— o Te Deum era o b r a c o m p o s t a p o r J o s é M a u r í c i o e m 1811 e m
p r i m e i r a v e r s ã o p a r a o m e s m o evento; 1 7 4 f o i r e p e t i d o e m 1814, já
reorquestrado p o r o r d e m d e D. João, o q u e v e m assinalado p e l o
compositor:
"Este T e D e u m t a m b é m t e m h u m a Flauta, 2 c l a r i n e t e s ,
T r o m p a s e Clarins, t u d o ad L i b i t u m : e S o m c o s V i o l o n c e l los e Fagotes he q ' são o b r i g a d o s ; e o u t r o a c r é s c i m o d e
s o p r o s e V i o l e t a s f o i m a n d a d o f a z e r - s e p a r a o dia 7 d e
m a r ç o d e 1814."
C e r c o u - s e o a n o 1814 d e a c o n t e c i m e n t o s g r a t o s a o p r í n c i p e
r e g e n t e e a t o d o s a q u e l e s q u e se h a v i a m t r a n s l a d a d o para o Brasil
e m 1807 p o r f o r ç a d o s t u m u l t o s n o V e l h o M u n d o . A q u e d a d e
115
Cleofe Person de Mattos
N a p o l e ã o s i g n i f i c a v a o f i m da guerra na E u r o p a e o f i m d o e x í l i o
d o p a p a P i o V I I e m A v i g n o n . A a l e g r i a q u e se d e r r a m o u s o b r e a
c i d a d e e x p l o d i u na f o r m a c o s t u m e i r a , e m c e r i m ó n i a s r e l i g i o s a s
q u e se r e a l i z a r a m n o f i n a l d o a n o , a c o m e ç a r p e l a missa s o l e n e
e m p o n t i f i c a l , na Real C a p e l a . F o i o r a d o r o f r a n c i s c a n o f r e i Franc i s c o d e Santa T e r e s a S a m p a i o , p r e g a d o r r é g i o . N o dia s e g u i n t e ,
manifestava-se o Mosteiro d e São Bento, que também teve a
p r e s e n ç a d e D . J o ã o , o c o r p o d i p l o m á t i c o e p e s s o a s g r a d a s da
cidade. A Irmandade d o s Clérigos n ã o podia ficar à parte d o
c o n g r a ç a m e n t o g e r a l q u e f e s t e j a v a a l i b e r d a d e d o p a p a e sua
entrada na capital d o m u n d o c a t ó l i c o e m 27 d e m a i o , e f e z cantar,
n o dia 6 d e n o v e m b r o , Missa s o l e n e e T e D e u m p o m p o s o , a t o s
q u e f o r a m presididos p e l o bispo diocesano, capelão-mor. Foi
o r a d o r o p a d r e Januário da Cunha Barbosa.
N o dia 22 d e n o v e m b r o desse a n o o p a d r e José M a u r í c i o
r e c e b e u d e D . J o ã o , " p o r justos m o t i v o s " , p e n s ã o anual d e 25$000
p a r a c o n s t i t u i r o s e u " p a t r i m ô n i o clerical". 1 7 5 í n t e g r a d o d e c r e t o :
" P o r justos m o t i v o s q u e M e f o r a m p r e s e n t e s e se f i z e r a m
d i g n o s d e M i n h a Real B e n e f i c i e n c i a : H e i p o r b e m F a z e r
M e r c ê a José Mauricio N u n e s Garcia Mestre d e Minha Real
C a p e l l a d e h u m a P e n s ã o d e v i n t e e c i n c o m i l r e i s anuais,
p a g a p e l o Real Erário para nella se constituir o seu
Patrimonio Clerical. O Marques d e Aguiar d o C o n s e l h o d e
E s t a d o e P r e s i d e n t e d o M e o Real Erário o t e n h a assim
e n t e n d i d o e o f a ç a e x e c u t a r c o m as d e s p e s a s n e c e s s á r i a s ,
s e m e m b a r g o d e q u a i s q u e r Leis o u D i s p o s i ç õ e s e m
contrario. Palacio d o Rio d e Janeiro, e m vinte e dois d e
N o v ° d e 1814." ( C o m a rubrica d o P R N S ) .
S e m d ú v i d a , era u m g e s t o d e b e n e m e r ê n c i a d e D . J o ã o
pelos diversificados serviços prestados pelo padre-mestre.
C u m p r i a r e c e n t e d e c i s ã o instituída e s s e a n o . C o m o d e c r e t o d e
D . J o ã o , era r e c o n h e c i d a a p o b r e z a d e J o s é M a u r í c i o .
O s e n t i m e n t o d e j ú b i l o q u e e m 1814 tomara conta da c i d a d e
p e l o r e t o r n o d o p a p a à cátedra d e São Pedro, e x p l o d i n d o e m
c e r i m ó n i a s s o l e n e s , c o n t i n u o u a dar d e m o n s t r a ç õ e s e m 1815. O
p a d r e J o s é M a u r í c i o , q u e e m 1814 e s c r e v e r a a Novena do
apóstolo
São Pedro, c o m p ô s outra o b r a i m p o r t a n t e d e d e v o ç ã o a o p a t r o n o
d e sua i g r e j a : as Matinas
do apóstolo São
Pedro."6
O t o m quase heróico q u e percorre a obra, particularmente
o 7a R e s p o n s ó r i o , o n d e o b a i x o solista a s s u m e a r e s p o n s a b i l i d a d e
d e ser o f u n d a d o r d a I g r e j a : "et super hanc petram
cedificabo
116
José Maurício Nunes Garcia biografia
Ecclesiam
tuam"
impressiona c o m o afirmação de fé e obriga a
p e n s a r na v e n e r a ç ã o d o p a d r e J o s é M a u r í c i o p e l a sua I r m a n d a d e .
N ã o a d i a n t a r á a i m p o r t â n c i a e a g r a n d e z a da o b r a . A
I r m a n d a d e d e S ã o P e d r o d o s C l é r i g o s , q u e d e s d e 1811 afastara
J o s é M a u r í c i o , c o m o c o m p o s i t o r d a s suas festas, n ã o p a r e c e ter
f i c a d o c o m o v i d a c o m a obra, destinada a o seu p a t r o n o , n e m
e s t i m u l a d o a sua e x e c u ç ã o . A partitura a u t ó g r a f a e n c o n t r a - s e ,
hoje, n o C a b i d o M e t r o p o l i t a n o d o Rio de Janeiro.
U m a i n d a g a ç ã o i m p õ e - s e , m e i o a n g u s t i a n t e : teria o c o m p o s i t o r o u v i d o a sua o b r a q u e n ã o p ô d e dirigir? É d i f í c i l responder.177
A c o n t e c i m e n t o político d e magna importância, sugerido
pela extrema clarividência de Tayllerand, marcou indelevelmente
o a n o . Para m e l h o r a r a i m a g e m d e P o r t u g a l p e r a n t e as n a ç õ e s
e u r o p é i a s da Santa A l i a n ç a , a d e c i s ã o b e n e f i c i a r i a as r e l a ç õ e s
e n t r e b r a s i l e i r o s e p o r t u g u e s e s . C o n c r e t i z o u - s e o a t o n o d i a 15
d e d e z e m b r o , q u a n d o D . J o ã o assinou o d e c r e t o e l e v a n d o o Brasil
a R e i n o U n i d o a P o r t u g a l e Algarves. 1 7 8 A Carta d e Lei, d a t a d a n o
d i a 16, f o i p u b l i c a d a n o dia s e g u i n t e , a n i v e r s á r i o da r a i n h a :
"... D a d a n o P a l á c i o d o RJ a o s d e z a s e i s d e D e z e m b r o d e
1815... O P r í n c i p e c o m guarda... - M a r q u ê s d e A g u i a r . Carta
d e L e i p e l a q u a l Vossa A l t e z a R e a l Ha p o r b e m e l e v a r e s t e
E s t a d o d o Brasil à g r a d u a ç ã o e c a t h e g o r i a d e R e i n o e u n i lo aos Seus R e i n o s d e Portugal e d o s A l g a r v e s d e maneira
q u e f o r m e m h u m só C o r p o P o l í t i c o d e b a i x o d o título d e R e i n o U n i d o d e P o r t u g a l e d o Brasil e A l g a r v e s . . . t u d o na
f o r m a acima d e c l a r a d a - Para Vossa A l t e z a Real ver... M a n o e l
Rodrigues Gameiro Pessoa a fez..."
D . J o ã o , " r e c o n h e c e n d o q u a n t o seja v a n t a j o s o a o s m e u s
vassalos e m geral uma perfeita união entre os reinos d e Portug a l , d o A l g a r v e s e d o Brasil e r i g i n d o e s t e à q u e l l a g r a d u a ç ã o e
cathegoria que lhe d e v e m competir, é s e r v i d o ordenar":
(transcrição parcial)
" 1 ° - Q u e d e s d e a p u b l i c a ç ã o d e s t a Carta d e L e i o E s t a d o
d o Brasil seja e l e v a d o à d i g n i d a d e , p r e e m i n ê n c i a e
d e n o m i n a ç ã o d e R e i n o d o Brasil.
2 a - Q u e o s m e u s R e i n o s d e P o r t u g a l , A l g a r v e s , e Brasil
f o r m e m d'ora e m diante hum só, e ú n i c o Reino, d e b a i x o
d o T i t u l o d e R e i n o U n i d o d e Portugal, e d o Brasil e
Algarves."
117
Cleofe Person de Mattos
O Brasil d e i x a v a d e ser c o l ó n i a . A d e c i s ã o , r e c e b i d a c o m
d e m o n s t r a ç õ e s de alegria f o i bastante d i v u l g a d a , c o m o n ã o p o dia d e i x a r d e ser n o m o m e n t o e m q u e b r a s i l e i r o s se t o r n a v a m
i g u a i s , p e r a n t e a l e i , a o s p o r t u g u e s e s v i v e n d o n o Brasil. O
r e c o n h e c i m e n t o aludia a o s p o r t u g u e s e s e f i l h o s d e p o r t u g u e s e s
" f a l a n d o a mesma linguagem e a d o t a n d o os m e s m o s hábitos",
c o m o diz o padre Perereca. Decidiu-se festejar o a c o n t e c i d o c o m
a t o s p ú b l i c o s e m j a n e i r o d e 1816, q u a n d o r e a l i z a r a m - s e as
f e s t i v i d a d e s r e l i g i o s a s . A Gazeta
do Rio de Janeiro
saudou o
acontecimento e m termos calorosos o n d e não faltavam alusões
à aproximação humana.
A e l e v a ç ã o d o Brasil a R e i n o U n i d o f o i c o m e m o r a d a
o f i c i a l m e n t e m ê s s e g u i n t e — 23 d e j a n e i r o — e m c e r i m ó n i a
p r o m o v i d a p e l o S e n a d o c o m missa s o l e n e e T e D e u m na i g r e j a
d e São Francisco de Paula. D e p r o n t o e v i d e n c i o u - s e q u e a
igualdade entre brasileiros e portugueses d o decreto de D. João
n ã o p a s s a v a d e letra m o r t a e q u e a a n o m a l i a p o l í t i c a e i r r e g u l a r
d o a n t i g o sistema c o l o n i a l n ã o havia s i d o desfeita c o m esse
decreto.
1816
A morte de D. Maria I
e da mãe de José
Maurício
A o s 49 a n o s , s u p o r t a n d o c o m e s t o i c i s m o a p e r m a n e n t e
d i s c r i m i n a ç ã o racial tanto q u a n t o a artística, o p a d r e J o s é M a u r í c i o
v i v e u , e m 1816 — a n o i n q u i e t o , a g i t a d o , c o n t r a d i t ó r i o —
i m p o r t a n t e s m o m e n t o s d e sua e x i s t ê n c i a .
Despontava
auspiciosamente o ano: impulsionado talvez pela ressonância
da e l e v a ç ã o d o Brasil a R e i n o U n i d o a P o r t u g a l e A l g a r v e s , c o u b e Ihe d i r i g i r a missa e m a ç ã o d e g r a ç a s p e l o a c o n t e c i m e n t o . 1 7 9 O
c a r á t e r a l t a m e n t e n a c i o n a l i s t a da c o m e m o r a ç ã o — p r o m o v i d a
p e l o S e n a d o da Câmara — bastaria para e x p l i c a r q u e r e c a í s s e n o
p a d r e - m e s t r e , brasileiro nato, a l é m da r e g ê n c i a , t a m b é m a autoria
da obra e x e c u t a d a . O q u e até a g o r a ainda n ã o p a s s o u d e
especulação.
A cerimónia — p r e v i a m e n t e anunciada aos habitantes da
c i d a d e p e l o s habituais bandos, n u m e r o s o s e b e m o r g a n i z a d o s —
118
José Maurício Nunes Garcia biografia
r e a l i z o u - s e n o d i a 21 d e j a n e i r o na i g r e j a da O r d e m T e r c e i r a d o s
M í n i m o s d e São F r a n c i s c o d e Paula, n o e n t ã o c h a m a d o L a r g o da
Sé V e l h a . O a t o c e r c o u - s e d e muita p o m p a c o m a c o r t e e m g r a n d e
g a l a , a p r e s e n ç a d o p r í n c i p e r e g e n t e e seus d o i s f i l h o s , o c o r p o
d i p l o m á t i c o , m i n i s t r o s da C a p e l a Real e , nas p a l a v r a s da Gazeta,
" g r a n d e n ú m e r o d a s p e s s o a s mais distintas p o r sua n o b r e z a e
d i g n i d a d e " . P a r t i c i p a r a m da e x e c u ç ã o o s m ú s i c o s da C a p e l a Real
e C â m a r a . S e g u i u - s e à missa o Te Deum Laudamus
" que foi
c a n t a d o , c o m o tinha s i d o t a m b é m a Missa, p e l a m e l h o r e
e s c o l h i d a música, tanto v o c a l q u a n t o instrumental, r e g i d a p e l o
M e s t r e da C a p e l a Real, o r. p . J o s é M a u r i c i o N u n e s . ' " 8 0 O cronista
d a s Memórias
para servir à História
do Reino do Brasil, q u e dá
esta i n f o r m a ç ã o , n ã o a c r e s c e n t a o n o m e d o a u t o r da m ú s i c a ,
e m b o r a desça a minúcias a o descrever a p o m p a d o cerimonial: a
e s m e r a d a i n d u m e n t á r i a d a s p e s s o a s p r e s e n t e s e as b e l a s
c a r r u a g e n s p u x a d a s p o r seis parelhas d e cavalos. A atitude
o b s t i n a d a da Gazeta
do Rio de Janeiro
— periódico oficial —
silenciando c o m o s e m p r e o n o m e d o c o m p o s i t o r brasileiro, não
teria a b r a n d a d o c o m a e l e v a ç ã o d o Brasil a R e i n o U n i d o .
Em outra e s f e r a d a s o c i e d a d e o g e s t o d o p r í n c i p e r e g e n t e
t e v e r e a ç ã o s u r p r e e n d e n t e : o c o m é r c i o da c i d a d e o f e r e c e u , c o m o
r e s u l t a d o d e s u b s c r i ç ã o v o l u n t á r i a , u m a q u a n t i a q u e tinha e m
vista b e n e f i c i a r a e d u c a ç ã o p ú b l i c a . A r e s p o s t a d e D . J o ã o a e s s e
o f e r e c i m e n t o t e v e alcance incalculável. O q u e r e p r e s e n t o u para
a cultura n o Brasil será a v a l i a d o na c o n t i n u i d a d e desta b i o g r a f i a :
D . J o ã o p r o p õ e seja e n t r e g u e a o B a n c o d o Brasil a q u a n t i a
a r r e c a d a d a e " o u t r a s q u e se l h e p o d e m a c r e s c e n t a r " , e c o m o
s e u r e n d i m e n t o unir às c a d e i r a s d e c i ê n c i a s e m f u n c i o n a m e n t o
na c i d a d e o e s t u d o d a s b e l a s - a r t e s , assim p r o p i c i a n d o
d e s e n v o l v i m e n t o e p r o s p e r i d a d e e m sua a p l i c a ç ã o à i n d ú s t r i a .
O resultado concreto chegará a o Rio d e Janeiro materializado n o
g r u p o d e artistas q u e p o s t e r i o r m e n t e t o m a r á o n o m e d e M i s s ã o
Artística Francesa.
U m r e g i s t r o n o c a t á l o g o d e J. J. M a c i e l dá n o t í c i a d e uma
obra c o m p o s t a nesse ínterim p o r José Maurício:
Moteto para a Missa da Eleição ou Sagração
do
Illustrissimo
Senhor Bispo, Prelado
atual da Real Capela do Rio de
Janeiro,
em 15 de
março
O b r a d e s a p a r e c i d a . A s o l e n i d a d e da i m p o s i ç ã o d o b a r r e t e
cardinalício e m D. Lourenço Caleppi, por indicação d o papa Pio
V I I — a t o m a g n í f i c o , e a u g u s t o , p e l a p r i m e i r a v e z p r a t i c a d o na
A m é r i c a — r e a l i z o u - s e na C a p e l a Real da Q u i n t a da B o a Vista, e
v e m m i n u c i o s a m e n t e descrita e m d o c u m e n t o n o A r q u i v o
Nacional.181
119
Cleofe Person de Mattos
N ã o tardará m u i t o o dia 20, e , c o m e l e , u m p a s s o d o l o r o s o
na v i d a d o p a d r e J o s é M a u r í c i o : o d e s a p a r e c i m e n t o d e sua m ã e ,
Vitória Maria. P o r c o i n c i d ê n c i a , n o m e s m o dia da m o r t e da rainha
D . Maria I. Esta m o r r e u n o c o n v e n t o d o C a r m o , o n d e s e m p r e
h a b i t o u d e s d e a c h e g a d a a o Brasil. Prevista d e s d e a v é s p e r a , sua
m o r t e p r o v o c o u c o m o ç ã o g e n e r a l i z a d a na c i d a d e . O c l e r o d a s
q u a t r o f r e g u e s i a s s a i u às ruas f a z e n d o o r a ç õ e s e e n t o a n d o
l a d a i n h a s até s o a r o d o b r e d o g r a n d e s i n o da R e a l C a p e l a , l o g o
r e s p o n d i d o p e l o s o u t r o s s i n o s da c i d a d e . B a n d e i r a s a m e i o p a u ,
s a l v a s i n t e r m i t e n t e s d u r a n t e três dias, p e s s o a s c a m i n h a n d o p e l a s
ruas e m v e s t e s d e l u t o p e s a d o , o R i o d e J a n e i r o t r a n s f o r m o u - s e
n u m a c i d a d e d i f e r e n t e , na i m a g e m e n o s o m .
A s c o r e s e r a m s o m b r i a s e tristes, e r a m o s s o n s e n q u a n t o
n o c o n v e n t o d o C a r m o o c o r p o da rainha era p r e p a r a d o p a r a o
ú l t i m o b e i j a - m ã o . D e p o s i t a d o numa g r a n d e sala o r n a m e n t a d a c o m
d o u r a d o s e p r a t e a d o s , as p a r e d e s c o b e r t a s d e v e l u d o n e g r o , a
população participou d o desfile p i e d o s o acompanhando a ação
d o s c ó n e g o s da R e a l C a p e l a q u e se s u c e d i a m na r e c i t a ç ã o d o
o f í c i o d o s m o r t o s . A s m a t i n a s s e r ã o c a n t a d a s n o dia 22 p e l o s
m ú s i c o s da m e s m a C a p e l a , c o m o as laudes e a missa e m p o n t i f i cal, c o n c l u i n d o p o r v o l t a da m e i a - n o i t e a l o n g a c e r i m ó n i a . V á r i o s
dias haviam d e c o r r i d o entre cerimónias religiosas q u a n d o
c h e g a r a m as i r m a n d a d e s e o s p a d r e s d o s c o n v e n t o s p a r a as
encomendações.182
Já era n o i t e q u a n d o o c o r p o f o i c o l o c a d o n o c a r r o f ú n e b r e ;
m o v i m e n t o u - s e o c o r t e j o , q u e atravessará v á r i a s ruas d a c i d a d e
a t é o c o n v e n t o da A j u d a p a r a o s e p u l t a m e n t o . F o i g r a n d e a
a f l u ê n c i a d e p e s s o a s d e t o d a s as classes s o c i a i s q u e a o l o n g o d o
c a m i n h o , d e p é e e m p r o f u n d o s i l ê n c i o , assistiram, à l u z d a s
tochas e a o s o m d o s tambores cobertos de baeta negra, a
p a s s a g e m d o c o r t e j o f ú n e b r e . T r ê s essas já a r m a d a s n o c o n v e n t o
s e r ã o o c u p a d a s s u c e s s i v a m e n t e , e m três d i f e r e n t e s m o m e n t o s
da c e r i m ó n i a p a r a a e n c o m e n d a ç ã o última p o r t o d o o C a b i d o
p r e s i d i d o p e l o b i s p o . O c a i x ã o c o m o c o r p o da rainha f o i , e n t ã o ,
entregue à abadessa.
P a r a l e l a m e n t e n o t e m p o , e m c e n á r i o q u e p o d e r i a ser d e
o u t r o m u n d o , m a s era na m e s m a c i d a d e , d e s e n r o l o u - s e o u t r o
d r a m a i n i c i a d o n o m e s m o dia da m o r t e da r a i n h a : f o r a r e a l i z a d o
o e n t e r r a m e n t o d e V i t ó r i a Maria da C r u z . Seus ú l t i m o s m o m e n t o s
d e vida f o r a m assistidos apenas p e l o neto, então c o m o i t o anos.
A p e s a r d a i d a d e , e s t a v a e s c a l a d o e n t r e as p e s s o a s q u e f a r i a m o
" q u a r t o " à a v ó d o e n t e . E l e p r ó p r i o relata o a c o n t e c i m e n t o e m
1860 a o e s c r e v e r o s " A p o n t a m e n t o s b i o g r á f i c o s " . Q u a n d o o p a d r e J o s é M a u r í c i o v o l t o u à casa, o f i l h o f o i a o s e u e n c o n t r o p a r a
120
José Maurício Nunes Garcia biografia
d i z e r - l h e q u e a " D i n d i n h a " estava " f a z e n d o caretas". Palavras
terríveis aos o u v i d o s d e José Maurício, q u e sempre lhe agradeceu
p o r estar a o l a d o da a v ó n e s s e instante d e c i s i v o .
O q u e se s e g u e a o ú l t i m o s o p r o d e V i t ó r i a Maria é s o m e n t e
i n t e r r o g a ç ã o e tristeza. Vitória d e s a p a r e c e u s i l e n c i o s a m e n t e . N ã o
t e v e t o d o o c l e r o para rezar-lhe o o f í c i o d o s mortos, n e m é certo
s e o f i l h o , às v o l t a s c o m as c e r i m ó n i a s e m t o r n o da r a i n h a p ô d e
p e r m a n e c e r t o d o o t e m p o j u n t o a o c o r p o , para v e l á - l o . O l o c a l
o n d e f o i e n t e r r a d a t a m b é m n ã o se c o n s e r v o u na m e m ó r i a d a s
p e s s o a s q u e f i z e r a m a história d e s s e s dias. D e s a p a r e c i a V i t ó r i a
M a r i a d a C r u z a o s 77 a n o s , e n c e r r a n d o u m a e x i s t ê n c i a v o l t a d a
p a r a o s f e i t o s d o f i l h o ilustre q u e e l a p u s e r a n o m u n d o , s o m b r a
d o s m o m e n t o s d e brilho ao v ê - l o pregar, n o púlpito, ou q u a n d o
o u v i a as m ú s i c a s q u e c a l a v a m f u n d o n o c o r a ç ã o dessa m i n e i r a
q u e v i v e r a s ó para p o d e r ouvi-las.
A s e x é q u i a s o f i c i a i s p o r D . Maria I r e a l i z a r a m - s e na C a p e l a
R e a l e s p l e n d o r o s a m e n t e o r n a m e n t a d a ; o o f í c i o n o dia 23 d e abril
às 7:30 da n o i t e , a missa d e r é q u i e m n o dia s e g u i n t e , às 10:30 da
m a n h ã . O f i c i o u o b i s p o ; atuaram na m ú s i c a , a l é m d o s c a p e l ã e s
c a n t o r e s , o s m ú s i c o s da Real Câmara e Real C a p e l a . N o t r a n s e p t o
f o r a m c o l o c a d o s o cetro e a coroa. Toda a corte e pessoas gradas
da s o c i e d a d e e s t a v a m p r e s e n t e s à c e r i m ó n i a q u e f o i
a c o m p a n h a d a , c o n f o r m e r e g i s t r o na Gazeta do Rio de
Janeiro
( 2 7 . I V ) , p o r " e x c e l e n t e música, c o m p o s t a e d i r i g i d a p e l o i n s i g n e
M a r c o s A n t ô n i o Portugal". 1 8 3
N e n h u m a i n f o r m a ç ã o c h e g o u aos nossos dias sobre a
c e r i m ó n i a f ú n e b r e p o r Vitória Maria; n e m a data, n e m a igreja
e m q u e f o i e n t e r r a d a . M a s a tristeza d o f i l h o s o a v a e m c a d a
n o t a , e m c a d a f r a s e d o Ofício e da Missa dos defuntos
d e 1816.
Música q u e e l e vivera intensamente nos m o m e n t o s em q u e a
c o m p u n h a para ser cantada na c e r i m ó n i a p r o m o v i d a p e l a O r d e m
T e r c e i r a d o C a r m o , e m m e m ó r i a da rainha D . Maria I. A d e d i c a ç ã o
m a i s f u n d a da m a i s f a m o s a o b r a d o p a d r e J o s é M a u r í c i o f i c a r i a
n o r e c ô n d i t o d e seu p e n s a m e n t o , p o r q u e f o r a c o n c e b i d a e
c o m p o s t a n o lastro d e s s e s e n t i m e n t o p r o f u n d o . É e s s e o s e n t i d o
das palavras escritas p e l o v i s c o n d e d e Taunay (1843-1899): " O
R é q u i e m f o i c o m p o s t o e n t r e lágrimas". 1 8 4
E x p r e s s a n d o - s e na l i n g u a g e m d e u m c l á s s i c o , c o m
ressonâncias barrocas, a obra tem e x p a n s õ e s quase românticas
c o n t r a s t a n d o o s o m b r i o Introito
c o m a e c l o s ã o d r a m á t i c a d o Dies
irae e s e u e n v o l v i m e n t o d e terror. U m s e n t i m e n t o d e p a c i f i c a ç ã o
p a i r a s o b r e a Missa à m e d i d a q u e s e a p r o x i m a d o f i m , q u a n d o a
lux aeterna,
já c h e g a d a , d e s c e c o m o u m a e s p e r a n ç a .
121
Cleofe Person de Mattos
O Ofício
e a Missa dos defuntos
c o l o c a m - s e , na v e r d a d e ,
e n t r e as m a i s b e l a s p á g i n a s da m ú s i c a b r a s i l e i r a , n o g é n e r o . A
natureza dramática e introspectiva d o seu autor r e v e l a - s e e m
toda a linha diante d o texto d o O f í c i o d o s Mortos, assim
e x p a n d i n d o sua f é e sua tristeza c o m a f o r ç a criativa d e q u e l h e
dotara a natureza.
O s i g n i f i c a d o das duas obras n o c o n t e x t o da c r i a ç ã o
m a u r i c i a n a justifica l h e s e j a m r e s e r v a d a s a l g u m a s p a l a v r a s . A
b e l e z a d o Ofício f o i s e m p r e o f u s c a d a p e l a aura d e s e n t i m e n t o
q u e b a f e j a v a a c a t e g o r i a artística d e sua irmã g é m e a , a Missa,
m a s t a m b é m p e l a sua m a i o r d i v u l g a ç ã o . 1 8 5 N a d a p e r d e e m b e l e z a .
A q u a l i d a d e m u s i c a l d o s s o l o s q u e se m u l t i p l i c a m n o Ofício
—
c o m o o Comissa mea, c o m t e x t o a e x p r i m i r o t e m o r d o s p e c a d o s
— o u a f r e m e n t e p e r t u r b a ç ã o e s p i r i t u a l v i v i d a e m o u t r a ária —
Anima
mea turbata est— c o l o c a m o Ofício a par d o s m o m e n t o s
m a i s e x p r e s s i v o s da o b r a n o s " l o n g o s e i n s p i r a d í s s i m o s
r e s p o n s ó r i o s " a q u e se r e f e r e o v i s c o n d e d e T a u n a y , a p r i m e i r a
v o z a f a z e r a l u s ã o à o b r a e à sua q u a l i f i c a ç ã o m u s i c a l .
D o i s a s s u n t o s p o l é m i c o s e n v o l v e m a Missa: a i n f l u ê n c i a
d o Requiem
d e M o z a r t e o f a t o r c i r c u n s t a n c i a l d e ter s i d o , o u
n ã o , obra e n c o m e n d a d a p o r D. J o ã o VI para as e x é q u i a s da rainha.
É indiscutível a similitude — temática, inclusive — d e
d e t e r m i n a d o s t r e c h o s da missa d o c o m p o s i t o r b r a s i l e i r o c o m a
obra-prima de W o l f g a n g Amadeus Mozart. Similitudes
perfeitamente reconhecíveis e identificáveis que se encontram
nas sucessivas g e r a ç õ e s d e compositores q u e p r e c e d e r a m os
caminhos d e Mozart ou foram por ele iluminados.
São coincidências alimentadas pela identidade tonal e
estilística, c o m o n o Introito
("Requiem
aeternum")
nas d u a s
p e ç a s . N ã o se c o n f i r m a a i d e n t i d a d e d o b a i x o d i a n t e d o f a t o r
e s t i l o c o n t r a s t a n t e e n t r e as d u a s o b r a s . O d e M o z a r t é u m t e m a ,
u m m o t i v o , u m s u j e i t o , a c o m p a n h a d o e m escrita p o l i f ô n i c a nas
o u t r a s v o z e s . Em r e s u m o , é u m a f u g a , e n i s s o a t e n d e s e g u n d o a
f o r m a ç ã o c o n t r a p o n t í s t i c a d o autor. F o r m a ç ã o q u e J o s é M a u r í c i o
n ã o t e v e . Esse e s t i l o n ã o é o seu, e é t r a t a d o h a r m o n i c a m e n t e .
C o m i s t o o c a r á t e r t e m á t i c o d o b a i x o d e s a p a r e c e , i n t e g r a d o na
h a r m o n i a da p r i m e i r a f r a s e , da qual é c o m p l e m e n t o h a r m ó n i c o .
N o c o n f r o n t o e n t r e o Kyrie d e J o s é M a u r í c i o c o m o Requiem d e M o z a r t , l i g a d o s m a i s d e p e r t o p e l a s e m e l h a n ç a e p e l o
e s t i l o , d e v e - s e l e v a r e m c o n t a o m o t i v o cuja c a r a c t e r í s t i c a p r i n cipal r e p o u s a n o i n t e r v a l o m e l ó d i c o d e 7a diminuta. A l g u n s
e x e m p l o s v ê m d e l o n g e , n o t e m p o : 150 a n o s d e e v o l u ç ã o m u s i cal t r a n s f o r m a r a m - n o , a g r e g a r a m e l e m e n t o s n o v o s , mas o
i n t e r v a l o d e 7 a d i m i n u t a a s s u m e c o m o q u e u m m o v i m e n t o natu-
122
José Maurício Nunes Garcia biografia
ral n e s s e s m o t i v o s , p r e n u n c i a n d o o q u e se d e f i n e c o m o f u n ç ã o
t ô n i c a - d o m i n a n t e . S ã o p a l a v r a s d e M o n i q u e V a c h o n e m La fugue
dans la musique
réligieuse
de W.A. Mozart:186
"Cette
longue
génealogie,
comme
les précedentes,
manifeste
de
façon
convaincante
que le type (de motif) avec saut de 7ème
diminuée
est authentiquement
un thème
voyageur,
qui
a
nourrit
l'inspiration
d' un grande
nombre
de
maitres."
M o n i q u e V a c h o n ilustra m u s i c a l m e n t e suas p a l a v r a s c o m
o s e x e m p l o s d e B e n e d e t t o M a r c e l l o , J. S. B a c h e o u t r o s . É o q u e
se constata n o s m o t i v o s d e B a c h CA oferenda
musical)
e Haendel
(And
with bis stripes)
q u e e s t ã o e n t r e as g r a n d e s f i g u r a s q u e
precederam Mozart e permitem acompanhar a génese desse
motivo.
O que Monique Vachon escreve, conquanto não marque o
f i m d a e s c a l a d a d e s s e m o t i v o "voyageut",
a p l i c a - s e a o Kyrie d e
M o z a r t , r e l a t i v a m e n t e a o Kyrie d e J o s é M a u r í c i o .
A p r o x i m a ç õ e s m e l ó d i c a s e temáticas unem, sem dúvida
a l g u m a , o Requiem
d e M o z a r t e o d e J o s é M a u r í c i o . 1 8 7 Seria
i m p o s s í v e l , p o r é m , d e i x a r d e sentir a c r i a ç ã o mauriciana n o t e c i d o
d e q u e é f e i t a a Missa d e 1816, o s e u e s t i l o , a sua e s t r u t u r a ç ã o
melódica e harmónica sem levar e m conta a personalidade d o
autor, r e c o n h e c í v e l nos a c e n t o s d e r e s i g n a ç ã o e d e h u m i l d a d e
q u e a e n v o l v e m c o m o um todo e lhe d ã o o tom pessoal. O
"Ingemisco"
para s o l o d e s o p r a n o c o n t r i b u i para e s s e s e n t i m e n t o
c o m a m a n i f e s t a ç ã o d o ser h u m a n o q u e s e n t e q u e "culpa
rubet
vultus meus" e d i s s o s e a r r e p e n d e .
E e s s a l i n g u a g e m n ã o é a da a d m i r á v e l o b r a - p r i m a d e
M o z a r t , na m e d i d a e m q u e o s e f e i t o s p s i c o l ó g i c o s q u e e l a
transmite e s t ã o mais p r ó x i m o s da atitude d o c o m p o s i t o r b r a s i l e i r o
d i a n t e da v i d a .
O s e n t i m e n t o nativista q u e d i z a última p a l a v r a d o
Requiem
d e J o s é M a u r í c i o s ó a u m b r a s i l e i r o c a b e r i a e s c r e v ê - l a . Essa
palavra v e m exposta nos violinos, no contracanto grave e nobre
q u e a c o m p a n h a o m u r m ú r i o d a s v o z e s , n o Communio,
em
p i a n í s s i m o , f a z e n d o o u v i r o " L u x aeterna
luceat eis Domine".
E
c o m essa p a l a v r a a Missa c h e g a a o f i m , para o r e p o u s o d e f i n i t i v o ,
c o n f o r m a d o , s u b l i m a d o , n u m r e t o r n o i r r e s i s t í v e l às r a í z e s d o
autor, n ã o isento d e u m t o q u e seresteiro, q u e n ã o caberia a
Mozart, q u e f a z desse t r e c h o uma a d m i r á v e l fuga.
A o r q u e s t r a ç ã o d o Ofício — p a r a c o r d a s c o m d u a s v i o l a s ,
dois clarinetes e duas trompas — é basicamente idêntica à da
Missa de requiem.
N e s t a , p o r é m , uma nota a u t o g r a f a p r e v ê o u t r o s
instrumentos: " c o n o b o i , clarins e t i m b a l e s " . O s o b o é s e o s clarins
n ã o f o r a m e n c o n t r a d o s , e sim partes avulsas e autógrafas d e
123
Cleofe Person de Mattos
f l a u t a s e f a g o t e s . U m a p a r t e d e t i m b a l e s , e m c ó p i a d e B e n t o das
M e r c ê s , t e m c o n d i ç õ e s d e ser c ó p i a d o o r i g i n a l m a u r i c i a n o , e
a n e x a r - s e l e g i t i m a m e n t e à o r q u e s t r a ç ã o d a Missa de
requiem,188
A t r a d i ç ã o q u e a c o m p a n h a a Missa de requiem
c o m o obra
e n c o m e n d a d a p o r D. J o ã o a o p a d r e J o s é M a u r í c i o para as e x é q u i a s
d e D. Maria I p e r d e c o n s i s t ê n c i a d i a n t e da autoria assinalada e m
f o n t e s c o n t e m p o r â n e a s : a Gazeta do Rio de Janeiro
e o padre
P e r e r e c a . A s e x é q u i a s o f i c i a i s r e a l i z a r a m - s e na R e a l C a p e l a a 23
d e a b r i l , c o m m ú s i c a d e M a r c o s P o r t u g a l , assistidas p o r t o d a a
r e p r e s e n t a ç ã o s o c i a l a d e q u a d a a u m a rainha.
A c r e s c e n t e - s e ainda o manuscrito d e Marcos Portugal, d e
q u e existe cópia n o Rio de Janeiro, n o Museu Histórico Nacional,
c o n f i r m a n d o a a u t o r i a e a data. 1 8 9 A i n s i s t ê n c i a e m n e g a r a
e n c o m e n d a , q u e representaria u m g e s t o d e e x t r e m a c o n s i d e r a ç ã o
d e D . J o ã o , n ã o d e s m e n t e a i n f o r m a ç ã o histórica d e h a v e r s i d o a
Missa d e J o s é M a u r í c i o c a n t a d a e m u m a d a s e x é q u i a s da rainha.
N ã o a q u e t e v e a p r e s e n ç a d o p r í n c i p e r e g e n t e mas e m c e r i m ó n i a
realizada pela O r d e m Terceira d o Carmo. Na palavra d o barão
d e T a u n a y , q u e a transmitiu a o f i l h o , a c e r i m ó n i a teria s i d o " n a
C a p e l a R e a l , e m j u l h o d a q u e l e a n o " . A s partituras n ã o f i c a r a m
n o a r q u i v o da C a p e l a Real, o q u e seria n o r m a l se f o r a
e n c o m e n d a d a pela coroa.
F i c a r a m , isto sim, n o a r q u i v o p a r t i c u l a r d e Batista L i s b o a
até sua m o r t e , e s ã o a s s i n a l a d o s na r e l a ç ã o d o a c e r v o d o d i r e t o r
d e m ú s i c a da O r d e m , n o i n v e n t á r i o d e s e u s bens. 1 9 0 L a n ç a d o s
s e m data e s e m n o m e d e autor, c o m o g r a n d e p a r t e d o s r e g i s t r o s
d a m e s m a c o l e ç ã o , c o n s e r v a o s títulos q u e l h e atribuiu J o s é
Maurício, 1 9 1 a c o m p a n h a d o p e l a a v a l i a ç ã o e a e v i d e n t e s e p a r a ç ã o
em dois volumes:
Officio
dos deffuntos
Missa dos deffuntos
16$000
10$000
C o m p r o v a - s e , dessa m a n e i r a , o v í n c u l o da O r d e m T e r c e i r a
c o m o s m a n u s c r i t o s . É i m p o r t a n t e assinalar a s e p a r a ç ã o e m d o i s
v o l u m e s : a primeira página d e cada obra, q u e i m a d a pela
e x p o s i ç ã o à l u z , f i c o u c o m o p a p e l m a i s e s c u r e c i d o d o q u e as
páginas internas. A e n c a d e r n a ç ã o das duas obras e m u m só v o l u m e — p r o v i d ê n c i a d e B e n t o d a s M e r c ê s — n ã o a p a g o u essa
i n f o r m a ç ã o , v i s í v e l até h o j e .
N ã o m e n o s i m p o r t a n t e s ã o o s sinais d e p o s s e d o a u t ó g r a f o .
A s partituras f o r a m respeitadas, mas duas partes avulsas — flautas
e f a g o t e s , t a m b é m autógrafas — t r a z e m o s n o m e s d e Baptista e
B e n t o , assim c o n f i r m a n d o os sucessivos proprietários.192
124
José Maurício Nunes Garcia biografia
D e s a p a r e c i d o Batista L i s b o a , a c o l e ç ã o d e música d e s t e , já a g o r a
pertencia a B e n t o das Mercês.
V a l o r i z a v a - s e a m a u r i c i a n a d e s t e , para s a l v a g u a r d a d a mais
i m p o r t a n t e p a r c e l a da o b r a d e J o s é M a u r í c i o , h o j e e n c a m i n h a d a
à Escola d e Música da Universidade Federal d o Rio de Janeiro,
g r a n d e m e n t e enriquecida c o m esses manuscritos preciosos.
A 4 d e j u l h o d o m e s m o a n o , o u t r o m e s t r e - d e - c a p e l a era
i n d i c a d o : F o r t u n a t o Mazziotti. 1 9 3 Para u m artista d e s e n s i b i l i d a d e
a p u r a d a , e m q u e m a s a ú d e reagira à c o n t i n u a d a t e n s ã o , a e s c o l h a
d e u m t e r c e i r o n o m e para o c u p a r lugar i d ê n t i c o a o seu f o i m o t i v o
d e p r o f u n d o d e s g o s t o . V i a - s e c a d a v e z m a i s d i s t a n t e d e suas
a s p i r a ç õ e s e i r r e m e d i a v e l m e n t e r e d u z i d a sua p o s i ç ã o c o m o
m e s t r e - d e - c a p e l a . F o r t u n a t o M a z z i o t t i era c o m o u m a s o m b r a d o
c o m p o s i t o r português e c o m ele partilhou algumas v e z e s a
r e g ê n c i a , i n c l u s i v e d e o b r a s suas.
C o m a n o m e a ç ã o d e mais um mestre-de-capela, via José
M a u r í c i o restringir-se à F a z e n d a d e Santa C r u z o s e u t r a b a l h o d e
c r i a ç ã o p a r a e n t i d a d e d a c o r o a . Seria a g o t a d ' á g u a na a m a r g u r a
q u e c e r c a v a a sua v i d a . N e s s e a n o , p e d e a o b i s p o l i c e n ç a p a r a
d i z e r missa e m casa, a l e g a n d o m o t i v o s d e s a ú d e .
A chegada da Missão
Artística
Francesa
A p r e o c u p a ç ã o d e D . J o ã o e m dotar o país d e instituições
capazes de atender à crescente necessidade de informações
culturais despertara n o p r í n c i p e r e g e n t e a idéia de criar-se n o
R i o d e Janeiro uma A c a d e m i a d e Ciências, o u Escola Real das
Ciências, Artes e O f í c i o s . C o u b e o a g e n c i a m e n t o d o assunto ao
c o n d e da Barca — A n t ô n i o d e A z e v e d o A r a ú j o , h o m e m d e g r a n d e
cultura, f r a n c ó f i l o c o n v i c t o e ministro d o s N e g ó c i o s d o r e i n o —
q u e p r o v i d e n c i o u a v i n d a p a r a o Brasil d e artistas f r a n c e s e s
v o l t a d o s para d i v e r s a s áreas: pintura, p a i s a g e m , pintura histórica,
escultura, arquitetura, m e c â n i c a , serralheria e outras áreas
menores.
Esses artistas c h e g a r a m a o R i o d e J a n e i r o n o dia 26 d e m a r ç o
d e 1816, p o u c o s d i a s a p ó s a m o r t e da rainha D . Maria I. C o m o
n o m e d e M i s s ã o Artística Francesa, 1 9 4 m a i s t a r d e a s s u m i d o , a
atuação e m c o n j u n t o d o g r u p o f o i e x t r e m a m e n t e valiosa para o
125
Cleofe Person de Mattos
d e s e n v o l v i m e n t o d o país. C o n s t i t u í d o p o r artistas c o m c a p a c i d a d e
r e c o n h e c i d a — m e m b r o s d o Instituto d e França, L e b r e t o n , u m
P r é m i o de Roma (Taunay), chefiados por Henry Lebreton, exs e c r e t á r i o d o I n s t i t u t o — essas p e s s o a s t i n h a m p r o f i c i ê n c i a
c o m p r o v a d a e m m e i o da alta r e p r e s e n t a t i v i d a d e i n t e l e c t u a l e
artística na E u r o p a , e i n t e g r a r a m - s e na v i d a d o p a í s e m q u e
passaram a viver. R e p r e s e n t a v a m a força viva d e uma i m i g r a ç ã o
cultural q u e s e a m p l i o u c o m o passar d o t e m p o e v a l o r i z o u e s s e
m e s m o país em realizações categorizadas. O espírito d o
C l a s s i c i s m o q u e d e f e n d i a m e q u e r e s u l t o u , c o m o passar d o s
a n o s , na a l t e r a ç ã o d a s c a r a c t e r í s t i c a s b a r r o c a s da v e l h a c i d a d e
c o l o n i a l , n ã o retira o v a l o r da c o n t r i b u i ç ã o d a M i s s ã o Artística
F r a n c e s a . Se a f i s i o n o m i a d o R i o d e J a n e i r o d e s s e s d i a s p ô d e
c h e g a r até h o j e através da i m a g e m antiga da c i d a d e , a r e p r o d u ç ã o
d e casas, c a n t o s d e rua, e d i f í c i o s , t i p o s p o p u l a r e s , p e r s o n a l i d a d e s
d e nossa história e paisagens q u e d e s a p a r e c e r a m , o s n o m e s de
D e b r e t , d e M o n t i g n y , d e T a u n a y e o u t r o s m a i s d e v e m ser
lembrados.
C h e g a d o s a u m a c i d a d e a b a l a d a p e l a m o r t e d e sua r a i n h a ,
o s f r a n c e s e s assistiram, c o m e s p a n t o , à r e a ç ã o , n ã o s ó d o m u n d o
o f i c i a l c o m o das c a m a d a s p o p u l a r e s . A s i n f i n d á v e i s e n u m e r o s a s
cerimónias fúnebres desenrolavam-se c o m uma p o m p a n ã o
c o n d i z e n t e c o m o e s p e t á c u l o h u m a n o q u e se a g i t a v a nas ruas.
A s s i m p u d e r a m e l e s sentir d e p e r t o o q u e representava,
s o c i a l m e n t e , a p o p u l a ç ã o instalada d o o u t r o l a d o d o A t l â n t i c o ,
o s a s p e c t o s c o n f l i t a n t e s d e u m p o v o e m f o r m a ç ã o o n d e as f o r ç a s
q u e o c o m p u n h a m mal iniciavam c o m p r o m i s s o s d e direitos e
deveres.
I m p o r t a n t e c o m o u m t o d o , para a nossa cultura, n ã o f o i
m e n o r o q u e s i g n i f i c o u para o p a d r e J o s é M a u r í c i o a v i n d a da
M i s s ã o Artística F r a n c e s a para o Brasil. Em p r i m e i r o lugar, p e l a
i m p o r t â n c i a d e p e s s o a s cultas e m c o n d i ç õ e s d e avaliar e a p r e c i a r
a sua o b r a d e c r i a ç ã o , f i r m a n d o t e s t e m u n h o s v á l i d o s até o s d i a s
atuais. Entre e l e s , e s o b r e t u d o , o s m e m b r o s da f a m í l i a T a u n a y
demonstram d e s d e c e d o a o compositor uma admiração q u e
c h e g o u a ser q u a l i f i c a d a c o m o "atávica" p o r um d o s seus
d e s c e n d e n t e s . 1 9 5 N ã o o s s e p a r a v a o p r e c o n c e i t o da d i f e r e n ç a na
c o r da p e l e , atitude restritiva q u e r e c e b i a d o s m ú s i c o s e ministros
da C a p e l a . P a r t i n d o d e artistas e u r o p e u s , essa c o n s t a t a ç ã o
c u m u l a v a d e c o n f o r t o o d e s c e n d e n t e d e e s c r a v o s q u e atingira
u m a p o s i ç ã o a q u e f a z i a jus sua c a t e g o r i a i n t e l e c t u a l : a f i r m a r na
m ú s i c a sua rica p e r s o n a l i d a d e .
O patriarca da f a m í l i a — N i c o l a u A n t ô n i o T a u n a y — q u e
c e d o r e t o r n o u à França, n ã o e s q u e c i a a figura d o m ú s i c o brasileiro
126
José Maurício Nunes Garcia biografia
— "le grand
mulâtré"
— de q u e m ele pedia notícias q u a n d o
e s c r e v i a para o s filhos. U m desses filhos, A d r i a n o T a u n a y , t a m b é m
p i n t o r , e c o m t a l e n t o , q u e v i a j o u c o m a M i s s ã o L a n g s d o r f para o
i n t e r i o r d o Brasil, e n c o n t r o u e m C u i a b á , a n t e s d e a f o g a r - s e nas
á g u a s d o G u a p o r é , e m 1828, partituras d e J o s é M a u r í c i o q u e e l e
t e v e o c u i d a d o d e m a n d a r copiar. 1 9 6 O u t r o d e s c e n d e n t e d o s
T a u n a y — o v i s c o n d e — já n a s c i d o b r a s i l e i r o , e l e i t o d e p u t a d o
e m 1881, será a p r i m e i r a v o z a t u a n t e n o Brasil e m d e f e s a da
memória d o padre José Maurício. Cabe-lhe o mérito e a primazia
d e ter f i r m a d o a p o s i ç ã o d o c o m p o s i t o r b r a s i l e i r o n o p a n o r a m a
artístico nacional. A s i n f o r m a ç õ e s transmitidas p e l o v i s c o n d e
r e c e b e u - a s d o pai, o barão d e Taunay, c o n t e m p o r â n e o d o pad r e , a q u e m v i u c o n v i v e r na c o r t e . S ã o suas as i n f o r m a ç õ e s q u e
dão c o n t e ú d o e maior validade ao livro publicado pela
C o m p a n h i a d e M e l h o r a m e n t o s d e São P a u l o e m 1930, q u a n d o
d o p r i m e i r o centenário de morte de José Maurício.197 É
p r e c i s a m e n t e a o v i s c o n d e d e T a u n a y , já e l e i t o d e p u t a d o f e d e r a l
q u e se d e v e , a l é m d o l i v r o , a c a m p a n h a i n i c i a d a p o r v o l t a d e
1875 e m d e f e s a da o b r a d o c o m p o s i t o r . M o v i m e n t o d e s e n c a d e a d o
a p a r t i r d e u m e n c o n t r o m e m o r á v e l c o m u m m ú s i c o da C a p e l a
I m p e r i a l , e m 1872, e q u e c u l m i n o u c o m a a q u i s i ç ã o , p e l o
g o v e r n o , da c o l e ç ã o m a u r i c i a n a d e B e n t o d a s Mercês. 1 9 8
Sigismund
Neukomm
Outra f i g u r a d e v a l o r c h e g a r i a a o R i o d e J a n e i r o a l g u m a s
s e m a n a s a p ó s a M i s s ã o Artística Francesa: o c o m p o s i t o r austríaco
S i g i s m u n d N e u k o m m ( S a l z b u r g 1778 — Paris 1858), c o m p o s i t o r
de categoria e de fecundidade privilegiada, fruto dos
e n s i n a m e n t o s d e M i c h a e l e F r a n z J o s e f H a y d n , e n t ã o c o m 38
anos. 1 9 9 I n t e g r a v a a c o m i t i v a d o d u q u e d e L u x e m b u r g , q u e v i n h a
a o Brasil r e p r e s e n t a n d o o s e n t i m e n t o d e c o n c i l i a ç ã o de
N a p o l e ã o III junto à c o r o a portuguesa.
Em 16 d e s e t e m b r o d e 1816, N e u k o m m era d e s i g n a d o e m
portaria p o r D. J o ã o para o " e n s i n o p ú b l i c o " , c o m direito a um
tratamento financeiro.
"Tendo consideração ao reconhecido merecimento de
S i g i s m u n d N e u k o m m na arte da m u s i c a q u e d i s t i n t a m e n t e
p r o f e s s a e q u e r e n d o q u e o M e u S e r v i ç o se utilize d e l e t a n t o
127
Cleofe Person de Mattos
p a r a o e n s i n o p u b l i c o da r e f e r i d a arte c o m o p a r a t o d a s
aquelas c o m p o s i ç õ e s d e que hei por servido encarregalo:
H e i p o r b e m f a z e r - l h e M e r c e d e u m a p e n s ã o d e 800$000
anuais p a g o s a quartéis p e l o m e u Real Erário, s e n d o t a m b é m
o b r i g a d o a t o c a r t o d a s as v e z e s q u e para i s s o f o r a v i s a d o .
O M a r q u e s d e Aguiar, d o C o n s e l h o d o Estado, Ministro
assistente a o D e s p a c h o d o G a b i n e t e , e presidente d o M e u
R e a l E r á r i o o t e n h a assim e n t e n d i d o e o f a ç a e x e c u t a r .
P a l a c i o d o R.J., l 6 . I X . 1 8 l 6
( c o m a rubrica d e S. M a g e s t a d e ) .
A s o b r i g a ç õ e s e r a m claras, m a s n e m t o d a s f o r a m c o b r a d a s :
t o c a r e c o m p o r q u a n d o p a r a i s s o f o s s e c o n v i d a d o . L o g o se v ê
q u e o b l o q u e i o tinha o r i g e m nas i m e d i a ç õ e s da cúpula
administrativa. A i n d a assim, N e u k o m m prestou h o m e n a g e m a
D . J o ã o , c o m a Missa para o Dia das Chagas de Nosso
Senhor
Jesus Cristo,
c o m p o s t a para a A c l a m a ç ã o , e m 1818, q u e
p r o v a v e l m e n t e n ã o terá s i d o o u v i d a . 2 0 0
N e u k o m m d e u l i ç õ e s d e música a Suas A l t e z a s Reais. D e n t r e
o s f i l h o s d e D. J o ã o , é d e justiça c h a m a r a a t e n ç ã o para o p r í n c i p e
D. Pedro, personalidade que p o d e configurar o músico nato que
n ã o tardará a d e m o n s t r a r essas q u a l i d a d e s . I n f e l i z m e n t e , o espírito
p o u c o a f e i t o à d i s c i p l i n a n ã o terá a j u d a d o o a l u n o na
o p o r t u n i d a d e d e a c r e s c e n t a r à sua m u s i c a l i d a d e o s b e n e f í c i o s
d e f o r m a ç ã o mais categorizada.
D. P e d r o n ã o terá c o r r e s p o n d i d o c o m o n e c e s s á r i o interesse
às l i ç õ e s d e c o n t r a p o n t o d e N e u k o m m , q u e t a m b é m se q u e i x a v a
d a p o u c a a s s i d u i d a d e d o p r í n c i p e às a u l a s . O u t r o m ú s i c o
b e n e f i c i a d o p o r s e u s e n s i n a m e n t o s : F r a n c i s c o M a n u e l da Silva,
e n t ã o c o m p o u c o m a i s d e 21 a n o s e q u e p ô d e a b o r d a r o m u n d o
musical que N e u k o m m representava.
N ã o se p o d e minimizar os resultados da permanência d o
m ú s i c o a u s t r í a c o n o R i o d e J a n e i r o q u e na o c a s i ã o r e u n i a três
c o m p o s i t o r e s d e c a t e g o r i a . Figuras q u e , se r e u n i d a s n u m o b j e t i v o
c o m u m , p o d e r i a m ter r e a l i z a d o a l g o d u r a d o u r o na e d u c a ç ã o
m u s i c a l , o u m e s m o t r a ç a d o d i r e t r i z e s p a r a a cultura da m ú s i c a
na c i d a d e . O q u e n ã o f o i f e i t o . S e p a r a v a - o s o p r e c o n c e i t o , a
v a i d a d e , a d e s c o n f i a n ç a , o d e s n í v e l na d i f e r e n c i a d a p o s i ç ã o
perante o poder, que somente o prestigiado Marcos Portugal
estaria e m c o n d i ç õ e s d e p r o m o v e r .
N e u k o m m e n c o n t r o u , p o r é m , n o Rio d e Janeiro u m interl o c u t o r q u a l i f i c a d o para o s d e b a t e s m u s i c a i s na p e s s o a d o p a d r e
J o s é M a u r í c i o . A r e c í p r o c a terá s i d o a i n d a mais v e r d a d e i r a p a r a
o m ú s i c o b r a s i l e i r o , l i m i t a d o n o i n í c i o da carreira à i n s u f i c i ê n c i a
q u e l h e o f e r e c i a o m e i o musical p o b r e . J o s é M a u r í c i o d e f r o n t a v a
128
José Maurício Nunes Garcia biografia
pela primeira v e z um músico e v o l u í d o e m longa preparação,
v i v i d o e m m e i o t r a n s b o r d a n t e d e v i d a musical para p o d e r , e n f i m ,
ter a satisfação d e alimentar discussões s o b r e a criação musical,
s e u s p r o b l e m a s , sua história e s e u s c a m i n h o s .
1817
O casamento de D. Pedro
com D.
Leopoldina
T e r m i n a d o o l u t o o f i c i a l p e l a m o r t e da rainha, p r i n c i p i o u o
m o v i m e n t o d a s a u t o r i d a d e s d i a n t e da p e r s p e c t i v a da a c l a m a ç ã o
d o p r í n c i p e r e g e n t e — o q u e acontecerá um a n o mais tarde — e
o n o i v a d o d o príncipe D. Pedro. Os acontecimentos, sucessivos,
e x i g i a m m e d i d a s p r é v i a s para o futuro d o p r í n c i p e D. P e d r o , o
q u e d á o r i g e m a o alvará c o m f o r ç a d e lei, 2 0 1 d e 9 d e j a n e i r o d e
1817.
" D a d o n o P a l a c i o d o RJ e m 9 d e j a n e i r o d e 1817 — R e y —
C o n d e da B a r c a — A l v a r á c o m f o r ç a d e L e i p o r q u e V o s s a
M a g e s t a d e H a p o r b e m q u e o P r í n c i p e D . P e d r o , Seu m u i t o
a m a d o e p r e s a d o F i l h o P r i m o g é n i t o e o s mais P r í n c i p e s
Filhos P r i m o g é n i t o s desta C o r o a q u e d e p o i s d'Elle v i e r e m
tenham o titulo d e = Príncipe Real d o R e i n o U n i d o de P o r t u g a l e d o Brasil e A l g a r v e s e D u q u e s d e B r a g a n ç a = e m
lugar d o T i t u l o d e P r í n c i p e d o B r a z i l q u e lhes f o i c o n f e r i d o
p e l a Carta d e d o a ç ã o d e v i n t e e s e t e d e o u t u b r o d e m i l
s e i s c e n t o s e quarenta e c i n c o t u d o na f o r m a acima declarada
= Para V o s s a M a g e s t a d e V e r . "
A importância d o acontecimento faz c o m q u e Marcos Portugal seja f i n a l m e n t e o u v i d o n o Real Teatro. Duas v e z e s , e m
1817. N a c o m e m o r a ç ã o d o n o i v a d o , e m j u l h o , a o b r a — n ã o
c o m p o s t a e s p e c i a l m e n t e para o e v e n t o — m o s t r a v a q u e o a p r e ç o
p e l a sala d e e s p e t á c u l o s d o R i o d e J a n e i r o , o u p e l o s e u
f u n c i o n a m e n t o , n ã o o e s t i m u l a v a b a s t a n t e para l e v á - l o a e s s e
g e s t o . 2 0 2 R e p e t i u - s e L'oro non compra amore, p e ç a já o u v i d a n o
T e a t r o R é g i o e m 1811. E m b o r a s i m p l e s r é p l i c a d e e s p e t á c u l o , o
ato revestia-se d e importância social, c o m a corte e m g r a n d e
g a l a : o m o t i v o era a r e a l i z a ç ã o d o c a s a m e n t o d o p r í n c i p e D .
129
Cleofe Person de Mattos
P e d r o c o m a arquiduquesa D. Josefa Carolina L e o p o l d i n a , uma
H a b s b u r g , f i l h a d o i m p e r a d o r da Áustria 2 0 3 e irmã d e Maria L u i z a ,
ex-imperatriz dos franceses q u a n d o casada c o m N a p o l e ã o . A
s o l e n i d a d e r e a l i z o u - s e p o r p r o c u r a ç ã o na c i d a d e d e V i e n a , n o
dia 13 d e m a i o d e 1817. T i n h a D . P e d r o 19 anos. A
Gazeta
c o m e n t a o e s p e t á c u l o , a r e g ê n c i a d e M a r c o s Portugal, a s s i n a l a n d o
o " d a n ç a d o n o v o " arranjado e e x e c u t a d o p e l o primeiro bailarino
Augusto Toussaint.
A p e s a r d e t e r p a r t i d o d e V i e n a p a r a o Brasil l o g o a p ó s o
b a n q u e t e c o m que o marquês de Marialva c o m e m o r o u o
casamento, D. Leopoldina tardou alguns meses a tomar
c o n h e c i m e n t o c o m o p r í n c i p e D. P e d r o , s e u m a r i d o , e o p a í s
o n d e viria a ser a p r i n c e s a r e a l . A pausa q u e f e z na Itália — e m
Livorno, particularmente, onde ficou aguardando o navio que
iria b u s c á - l a — d e m o r o u - s e a l é m d o p r e v i s t o . A s p e r t u r b a ç õ e s
p o l í t i c a s n o Brasil, às v o l t a s c o m a i n s u r r e i ç ã o p e r n a m b u c a n a ,
r e t a r d a r a m até n o v e m b r o a c h e g a d a da futura i m p e r a t r i z a o R i o
de Janeiro.
N o s p r e p a r a t i v o s para a l o n g a v i a g e m q u e iria e m p r e e n d e r
a p r i n c e s a , n ã o se e s q u e c e r a m o s p o r t u g u e s e s d e o r g a n i z a r u m
c o n j u n t o instrumental para a c o m p a n h á - l a e tornar mais a g r a d á v e l
a travessia m a r í t i m a . V o l t a r e m o s m a i s a d i a n t e a f a l a r s o b r e essa
banda.
O m o m e n t o h i s t ó r i c o d e sua c h e g a d a , a 5 d e n o v e m b r o ,
f o i c o m e m o r a d o na R e a l C a p e l a l o g o a p ó s o d e s e m b a r q u e , c o m
a c e r i m ó n i a r e l i g i o s a da b ê n ç ã o n u p c i a l . O f i c i o u - a o b i s p o D .
J o s é C a e t a n o a o s o m d o Te Deum d e M a r c o s P o r t u g a l c a n t a d o
p e l o s m ú s i c o s da R e a l C a p e l a .
D o i s dias a p ó s a c h e g a d a d e D. L e o p o l d i n a , realizou-se
u m a r e c e p ç ã o na Q u i n t a da B o a Vista. A p ó s a abertura d e I n á c i o
d e Freitas, cantou-se uma serenata d e Marcos Portugal —
L'augurio
difelicita
— c o m o s c a n t o r e s da C a p e l a Real. N a m e s m a
n o i t e o p r í n c i p e D . P e d r o , e suas i r m ã s D . Maria T e r e s a e D .
I s a b e l M a r i a c a n t a r a m a l g u m a s árias.
A s d e m o n s t r a ç õ e s d e alegria p e l a c h e g a d a da princesa, todas
realizadas c o m música, ainda n ã o haviam t e r m i n a d o . N o dia 8
d e n o v e m b r o , n o R e a l T e a t r o São J o ã o era a p r e s e n t a d a a ó p e r a
Merope,
d e M a r c o s P o r t u g a l . U m a v e z mais, n ã o era i n é d i t a , m a s
s i m e m p r i m e i r a a u d i ç ã o n o R i o d e J a n e i r o . Entre o s i n t é r p r e t e s
i n c l u í a - s e G i a n f r a n c e s c o Fasciotti, r e c e n t e m e n t e c h e g a d o a o R i o
d e Janeiro.
N a b i o g r a f i a d o p a d r e J o s é M a u r í c i o a p o n t a m e m 1817 sinais
d e q u e e r a m a l a r m a n t e s suas d i f i c u l d a d e s f i n a n c e i r a s : o m e s t r e d e - c a p e l a e s t a v a s e m casa para dar as aulas d o c u r s o d e m ú s i c a ,
130
José Maurício Nunes Garcia biografia
o q u e q u e r d i z e r t a m b é m para m o r a r . O p e d i d o q u e f e z p a r a
a l c a n ç a r a s o l u ç ã o d o p r o b l e m a c o n f i r m a q u e o c u r s o d e música
d o p a d r e J o s é M a u r í c i o n ã o mais f u n c i o n a v a na rua das Marrecas.
U m a v i s o d o c o n d e da Barca — m i n i s t r o d o s N e g ó c i o s d o r e i n o ,
D . F r a n c i s c o d e A l m e i d a M e l o e Castro — dá c i ê n c i a d o f a t o e
t r a n s m i t e a o r d e m d e D . João: 2 0 4
"El R e i N o s s o S e n h o r a t t e n d e n d o a o q u e l h e r e p r e s e n t o u o
Padre José Mauricio Nunes Garcia, Mestre d e Musica d e
sua R e a l C a p e l l a H e s e r v i d o o r d e n a r q u e V.S a l h e d e Casas
d e A p o s e n t a d o r i a para sua h a b i t a ç ã o , as q u a i s d e v e m ter o
e s p a ç o n e c e s s á r i o para ahi dar a sua A u l a d e M ú s i c a o q u e
p a r t i c i p o a VS a para sua i n t e l l i g e n c i a e e x e c u ç ã o . D e o s
g u a r d e V.S a P a ç o , 17 d e F e v e r e i r o d e 1817 ... C o n d e da
Barca."
N o m e s m o a n o José Maurício passou a morar, s e g u n d o o
Almanaque
Histórico
e Comercial
da Cidade do Rio de
Janeiro,
na rua d e S ã o Jorge. 2 0 5 A rua traz à l e m b r a n ç a o c o n j u n t o q u e
a c o m p a n h a r a D . L e o p o l d i n a na fragata q u e a t r o u x e a o Brasil,
f o r m a d o p o r 16 músicos: 2 0 6 d o i s c l a r i n e t e s , d o i s flautins, duas
t r o m p a s , d o i s clarins, d o i s f a g o t e s , u m t r o m b ã o , u m b u m b o , uma
c a i x a d e r u f o , d o i s p r a i e i r o s . Eram d i r i g i d o s p o r E r d m a n n
N e u p a r t h . 2 0 7 P r o v o c o u e n t u s i a s m o na c i d a d e a s o n o r i d a d e
brilhante e a p r e c i s ã o rítmica d e s e n v o l v i d a p e l o c o n j u n t o . O p o v o
a g l o m e r a v a - s e n o l a r g o d e S ã o J o r g e — p r ó x i m o a o R o c i o e da
casa o n d e m o r a v a J o s é M a u r í c i o — para o u v i r o s e n s a i o s .
S e m p r e a b e r t o a i n o v a ç õ e s , José M a u r í c i o c o m p ô s para e s s e
c o n j u n t o d o z e Divertimentos
para orquestra d e s o p r o s e
p e r c u s s ã o . O b r a única n o g é n e r o e m sua n u m e r o s a b a g a g e m ,
e x t r a v i a r a m - s e i n f e l i z m e n t e o s manuscritos. 2 0 8
D o interesse d o padre José Maurício pela música
camerística, n ã o f o i l o c a l i z a d o e m nossos dias n e n h u m d o c u m e n t o
v i v o . A p r o d u ç ã o existiria, n o e n t a n t o . O Dr. N u n e s G a r c i a d i s s o
dá t e s t e m u n h o a o e s c r e v e r , na a l e g o r i a q u e o r n a m e n t a as suas
Mauricinas
( f o t o ) o s p r i n c i p a i s trabalhos d o pai. A l é m d o s títulos
d o s s e r m õ e s q u e p r o f e r i u , u m i t e m s u r p r e e n d e : Quartetos
de
rabecas. N o plural. N e n h u m a i n f o r m a ç ã o f o i e n c o n t r a d a , p o r é m ,
s o b r e essas c o m p o s i ç õ e s , — r e p e r t ó r i o s u p o s t a m e n t e d e s t i n a d o
às r e u n i õ e s d a R e a l Q u i n t a — d e n t r o d o s p a r â m e t r o s m u s i c a i s
da c o r t e . Seriam p r o v a v e l m e n t e p e ç a s m e n o r e s , n ã o a q u e l a s cuja
f o r m a e e s p í r i t o s ã o a e x p r e s s ã o m á x i m a da c r i a ç ã o c l á s s i c a . A s
a t i v i d a d e s d a R e a l Câmara n ã o s ã o m u i t o c o n h e c i d a s , e m q u e
p e s e a q u a l i f i c a ç ã o d o s m ú s i c o s i n d i c a d o s para i n t e g r á - l a .
131
Cleofe Person de Mattos
C o i n c i d e a é p o c a da c o m p o s i ç ã o d o s Divertimentos
—
" P o u c o t e m p o d e p o i s , e p o r o r d e m d'El R e i " , s e g u n d o M a n u e l
d e A r a ú j o P o r t o - A l e g r e 2 0 9 — c o m a d e outra o b r a p r o f a n a q u e
n ã o t r a n s p ô s o s l i m i t e s d o r e g i s t r o h i s t ó r i c o : Le due
Gemelle,
ú n i c a ó p e r a na b a g a g e m d o p a d r e J o s é M a u r í c i o . 2 1 0 D i s c u t í v e l
f o s s e e n c o m e n d a d e D . J o ã o . A p e s a r da a u t o r i d a d e d a q u e l e s q u e
a v e i c u l a r a m , e a t é a c r e s c e n t a m ter s i d o a o b r a l e v a d a n o R e a l
T e a t r o , n ã o se p o d e d e i x a r d e c o n s i d e r a r p o u c o reais e s s a s
i n f o r m a ç õ e s . A comissão d o teatro q u e decidia sobre o repertório
l e v a d o à c e n a e o p i n a v a a r e s p e i t o d e sua q u a l i d a d e artística —
Marcos Portugal, Fortunato Mazziotti e Simão Portugal — não
s e r i a m p e s s o a s interessadas e m prestigiar o c o m p o s i t o r brasileiro.
I n d e p e n d e n t e d o m é r i t o d o s e u t r a b a l h o , J o s é M a u r í c i o n ã o teria
chance de vê-lo posto e m cena.
Se essas c o n s i d e r a ç õ e s s ã o d i s c u t í v e i s , n ã o o s ã o o s d a d o s
i n e q u í v o c o s d o extravio d o s manuscritos. S e g u n d o i n f o r m a ç ã o
d e T a u n a y 2 " , o c o m p o s i t o r l a n ç o u , e m 1821, n o I n v e n t á r i o d a
M ú s i c a d o R e a l T e s o u r o , a nota q u e se t r a n s c r e v e :
"Le due Gemelle, d r a m a e m musica p o r J o s e M a u r i c i o : c o m
instrumental e partes cantantes. A partitura se acha e m casa
d o Snr. M a r c o s P o r t u g a l . "
É p o s i t i v a a i n c l u s ã o da nota n o I n v e n t á r i o M u s i c a l d o Real
T e s o u r o a f a v o r da e n c o m e n d a d e D . J o ã o e a o d e s t i n o q u e l h e
estaria r e s e r v a d o n o Real T e a t r o . D o c o n t r á r i o , n ã o h a v e r i a r a z ã o
d e e n c o n t r a r - s e a partitura e m casa d e M a r c o s P o r t u g a l . Q u a n t o
a o m a t e r i a l da m e s m a o b r a — p a r t e s i n s t r u m e n t a i s e c a n t a n t e s
— q u e e s t a v a m n o Real T e a t r o São João, o f o g o o s terá c o n s u m i d o
n o i n c ê n d i o o c o r r i d o n o t e a t r o e m 25 d e m a r ç o d e 1824. 212
N ã o s ó na C a p e l a e n o s o u t r o s p a ç o s reais — S a n t o I n á c i o
e S ã o C r i s t ó v ã o — a t u a v a m o s m ú s i c o s da Real C a p e l a ; t a m b é m
o f a z i a m nas i g r e j a s e o r d e n s t e r c e i r a s , e m s o l e n i d a d e s
e v e n t u a l m e n t e dirigidas por José Maurício. N ã o f o i encontrada
c o m p r o v a ç ã o d e q u e alguma obra d o padre-mestre haja s i d o
c a n t a d a p o r Fasciotti, e s t r e l a na sua c a t e g o r i a , o c a n t o r d e m a i s
a l t o o r d e n a d o na C a p e l a Real, s u p e r i o r a o d e M a r c o s P o r t u g a l .
M a s as r e l a ç õ e s e n t r e o c o m p o s i t o r e o c a n t o r s ã o o b j e t o d e uma
i n f o r m a ç ã o q u e se d e v e a N e u k o m m , a o r e f e r i r - s e à n o i t a d a e m
q u e o s d o i s músicos f o r a m protagonistas: "Em uma d ' a q u e l a s
r e u n i õ e s q u e se f a z i a m e m casa d o m a r q u ê s d e S a n t o A m a r o ,
f i z e m o s p r o v a d e a l g u m a s m ú s i c a s q u e m e c h e g a r a m da E u r o p a .
T o d a s as v e z e s q u e se tratava d e cantar, c e d i a o p i a n o a o p a d r e m e s t r e , p o r q u e m e l h o r d o q u e e l e n u n c a v i a c o m p a n h a r . Entre
132
José Maurício Nunes Garcia biografia
v á r i a s fantasias, Fasciotti c a n t o u uma B a r c a r o l a q u e f o i
f r e n e t i c a m e n t e aplaudida e repetida. José Maurício, q u e estava
a o p i a n o c o m o q u e para descansar, c o m e ç o u a variar s o b r e o
m o t i v o e c o m os nossos aplausos a crescer e multiplicar-se e m
f o r m o s a s n o v i d a d e s . Suspensos, e i n t e r r o m p e n d o a nossa
a d m i r a ç ã o c o m o v a ç õ e s c o n t í n u a s , ali f i c a m o s até q u e o t o q u e
da a l v o r a d a n o s v i e s s e s u r p r e e n d e r . A h ! o s b r a s i l e i r o s nunca
s o u b e r a m o valor d o h o m e m q u e tinham, valor tanto mais
p r e c i o s o p o i s q u e era t o d o f r u t o d e seus p r ó p r i o s recursos." 2 1 3
E x c l u í d a s as o b r a s c o m p o s t a s e m 1817, mas d e s a p a r e c i d a s :
a ó p e r a Le due Gemelle, o s Divertimentos,
e dois salmos (Beatus
omnes e Laudate
puerí),
apenas uma obra d e José M a u r í c i o
s o b r e v i v e u , e m partitura a u t ó g r a f a : a Trezena
de São
Francisco
de Paula,
h o j e c o n s e r v a d a na b i b l i o t e c a da Escola d e Música da
UFRJ. A Trezena f o i escrita para quatro v o z e s e p e q u e n a orquestra
( 2 v i s , v l c , c b , cl e c o r ) , c o m i n t e r v e n ç õ e s g r e g o r i a n a s , p e q u e n o s
s o l o s d e c o n t r a l t o e s o p r a n o e três jaculatórias. 2 1 4
A o c o n s i d e r a r as o b r a s a p r e s e n t a d a s na i g r e j a d e São Franc i s c o d e Paula e m três a n o s c o n s e c u t i v o s : 1816 (.Missa e Te Deum
p e l o R e i n o U n i d o ) , 1 8 1 7 ( a Trezena)
e 1 8 1 9 ( M i s s a pelo
nascimento
de D. Maria da Glória'), n ã o se p o d e separar a f i g u r a
d o p a d r e J a n u á r i o da C u n h a B a r b o s a , s e c r e t á r i o da I r m a n d a d e
d o s M í n i m o s d e S ã o F r a n c i s c o d e Paula, à é p o c a . I n t e l e c t u a l d e
v a l o r i n q u e s t i o n á v e l , p o l í t i c o ativo, era a p e s s o a capacitada, c o m o
h i s t o r i a d o r , p a r a a v a l i a r a i m p o r t â n c i a artística e h i s t ó r i c a d a
c o n t r i b u i ç ã o d o p a d r e - m e s t r e n o p a n o r a m a da cultura m u s i c a l
d e s s a é p o c a . O q u e terá f e i t o n e s s e m o m e n t o , e o fará n o
Necrológio,
e m 1830.
A aclamação
1818
de D.João VI
O Rio d e Janeiro viveu m o m e n t o s de grande movimentação
s o c i a l d e s d e o i n í c i o d e s t e a n o . O dia d o a n i v e r s á r i o da p r i n c e s a
r e a l , e m 22 d e j a n e i r o , f e s t e j a d o na Real C a p e l a c o m m ú s i c a d e
M a r c o s P o r t u g a l , d e u a m e d i d a da simpatia q u e c e r c o u a j o v e m
e s p o s a d e D . P e d r o . O g r a n d e m o m e n t o d o a n o viria l o g o a seguir,
c o m as f e s t a s da a c l a m a ç ã o d e D. J o ã o V I , r e a l i z a d a s n o s d i a s 5
e 6 de fevereiro.
133
Cleofe Person de Mattos
O espetáculo da aclamação emocionou a população que
dez anos antes assistira, intimidada e curiosa, à chegada desse
mesmo príncipe regente. Emoção agora somada ao consenso
afetivo em torno do rei. A o lado deste, a corte c o m p õ e o quadro,
não mais um grupo de figuras desconhecidas para o p o v o , que
crescera com a cidade.
A pompa da realeza é indescritível no cerimonial da Real
Capela onde se vai realizar a missa votiva das Chagas de Cristo,
especial devoção de D. João VI. A cidade transformara-se com o
palacete levantado em frente ao paço, embelezaram-se as ruas
ornadas de arcos construídos sobre risco dos artistas franceses.
A grande massa popular concentrava-se, porém, na praça
da Aclamação — hoje da República, onde eram aguardadas
manifestações populares e carros alegóricos com músicos e
dançarinos —- para assistir às danças, aos cortejos e à corrida de
touros.
A Missa da Aclamação e o Te Deum cantados na Real Capela
também eram composições de Marcos Portugal. As autoridades
portuguesas não deixariam fosse esquecido que o acontecimento
pertencia à história d o reino. O padre José Maurício amargava
mais uma frustração, sem oportunidade de prestar a homenagem
de sua admiração àquele que considerava seu protetor e amigo
no momento máximo que o fazia rei de portugueses e brasileiros.
Na ocasião, Marcos Portugal compôs um Hino para a feliz
aclamação
de S. M. F. o Senhor D. João VI, que por ordem do
mesmo Augusto Senhor compôs Marcos Portugal.
A obra era
adaptação de um hino de 1809, escrito para concluir a cantata
La Speranza ossia l'augurio di felicità, homenagem a D. João no
dia d o seu aniversário. O Brasil ganhou um hino nacional que
não tinha, adotando o hino português, que foi cantado durante
várias décadas no Rio de Janeiro.
Serenado o movimento festivo levantado pela aclamação,
retirou-se D. João para a Fazenda de Santa Cruz, onde ficou
grande parte d o ano; a enfermidade da perna obrigou-o a essa
permanência. Não participará em 1818 das comemorações anuais
d o aniversário de sua chegada, nem virá à cidade na Semana
Santa.
Em Santa Cruz, onde se detém até fins de junho, D. João
acompanhou os trabalhos de restauração do antigo convento dos
jesuítas.215 Empenhado em torná-lo mais atraente para as futuras
vilegiaturas de sua nora, D. João decidira reformá-lo e fazê-lo
digno da qualificação de palácio real de Santa Cruz, adequandoo aos requintes de uma princesa da casa d'Áustria. O palácio
não ficará pronto em 1818, mas não tardará a transformar-se no
134
José Maurício Nunes Garcia biografia
l o c a l d e m a n i f e s t a p r e f e r ê n c i a d o rei e d e s e u s f i l h o s para as
h a b i t u a i s r e u n i õ e s s o c i a i s da v i d a da f a m í l i a real.
N ã o seria e x c e p c i o n a l q u e José Maurício tivesse
a c o m p a n h a d o D . J o ã o V I a Santa Cruz, " n u m a vilegiatura d e v i n t e
dias", s e g u n d o assegura T a u n a y e P o r t o - A l e g r e , e aí c o m p o s t o
a l g u m a s o b r a s . Em a m b i e n t e d e m a i o r s e r e n i d a d e h a v e r i a t e m p o
p a r a a c o m p o s i ç ã o d a s várias o b r a s d e s s e a n o f e c u n d o .
Em t e r m o s d e c r i a ç ã o m u s i c a l , o a n o d e 1818 é
i n e s p e r a d a m e n t e r i c o para J o s é M a u r í c i o . U m a e n f e r m i d a d e d e
M a r c o s P o r t u g a l , e m 1817, p a r e c e t e r d a d o a o c o m p o s i t o r
b r a s i l e i r o a o p o r t u n i d a d e d e o c u p a r - s e c o m o b r a s importantes. 2 1 6
A O r d e m T e r c e i r a d o C a r m o a s s o c i o u - s e às c o m p o s i ç õ e s
d o p a d r e - m e s t r e c o m a Novena e a Missa para a festa de Nossa
Senhora
do Carmo
( C T n ú m e r o s 67 e 110), f e s t i v i d a d e para a
q u a l J o s é M a u r í c i o t e v e e n t r e seus i n t é r p r e t e s c a n t o r e s da C a p e l a
Real.
U m d u e t o p a r a t e n o r e s ((Qui
sedes e Quoniam,
C T 163),
o b r a v i g o r o s a e d e g r a n d e a g i l i d a d e , terá s i d o c o m p o s t o " p o r
e n c o m e n d a " ; o p r ó p r i o c o m p o s i t o r lançou n o autógrafo o custo
d o t r a b a l h o : 12$800. M e r e c e r e f e r ê n c i a o n o m e d o s solistas:
C â n d i d o I n á c i o da Silva e F e l i c i a n o G o n ç a l v e s . O p r i m e i r o , a l u n o
d e J o s é M a u r í c i o , c a n t o r c a t e g o r i z a d o , f a z i a - s e o u v i r na R e a l
C a p e l a e n o Real Teatro. Era c o m p o s i t o r ; a m o d i n h a d e sua autoria
Lá no largo da Sé Velha f o i impressa p o r P i e r r e L a f o r g e . F e l i c i a n o
G o n ç a l v e s era c a p e l ã o - c a n t o r m a s p a r t i c i p o u c o m o solista e m
várias obras d e José Maurício.
T r ê s m o t e t o s p a r a Santa C r u z a m p l i a m a v a r i a d a b a g a g e m
m a u r i c i a n a n e s s e a n o . D o i s s ã o d a t a d o s : Moteto dos apóstolos
e
Moteto das Virgens, este c o m o d e s t i n o assinalado: "para a música
da R e a l C a p e l a d e Santa C r u z " ( C T 5 8 ) . M u i t o i n c o m p l e t o n o s
t r e c h o s n ã o s o l í s t i c o s , d e s t e m o t e t o c o n s e r v o u - s e na í n t e g r a o
v e r s o , u m l i n d o s o l o d e s o p r a n o . O t e r c e i r o m o t e t o n ã o traz
d a t a , m a s sua i n c l u s ã o e n t r e a s o b r a s d e 1818 n ã o p a r e c e
d i s c u t í v e l d i a n t e da importância q u e terá na p o s s í v e l i d e n t i f i c a ç ã o
d a missa c o m o m e s m o n o m e : o Moteto para a Festa da
Degolação
de São João
Batista.2"
Um grande e v e n t o e m perspectiva representou o laço musical e n t r e a F a z e n d a d e Santa C r u z e a Real Quinta da B o a Vista
nas r e a l i z a ç õ e s d e 1818. P r e p a r a v a - s e para o dia 29 d e a g o s t o —
dia d e S ã o J o ã o D e g o l a d o — e p r i n c i p i o u c o m a p o r t a r i a d e
c o n v o c a ç ã o d e e s c r a v o s , e m Santa C r u z , n o dia 27 d e m a r ç o ,
a s s i n a d a p e l o v i s c o n d e d o R i o Seco: 2 1 8
135
Cleofe Person de Mattos
" S e g u n d o as Reais O r d e n s d e El Rei N o s s o S e n h o r e x p e d i d a s
p e l o seu A u g u s t o f i l h o o Sereníssimo Senhor P r í n c i p e Real
v e m a h a v e r as s e g u i n t e s altas e b a i x a s na e s c r a v a r i a d e s t a
RI F a z e n d a a s a b e r :
D a b a n d a d e musica d o s e s c r a v o s desta F a z e n d a o s e s c r a v o s
s e g u i n t e s : M a n o e l C o n c e i ç ã o , J o s é Pestana, S i m ã o M a r q u e s ,
Z e f e r i n o A n t o n i o , Maria da Exaltação, Sebastiana, Mathildes.
D o s e m p r e g a d o s q u e e x i s t e m a o p r e s e n t e n o s e r v i ç o da
Real O b r a d o P a ç o , v ã o e n t r e g a r a o mestre d e musica I n á c i o
P i n h e i r o os rapazes e raparigas seguintes: J o ã o Mariano,
A l b e r t o J o a q u i m , A n a da C r u z , J o a q u i n a R o s a , L i b a n i a
Francisca, P r o p i c i a F r a n c i s c o , Z e f e r i n a d e R a m o s , V i c e n c i a
F e r r e i r a , Francisca d e S o u z a .
D o s q u e a i n d a n ã o f o r a m c h a m a d o s para o s e r v i ç o da o b r a
da F a z e n d a a o e n t r e g a r a o M e s t r e d e Musica I n á c i o P i n h e i r o
são os seguintes: Targini José, José Joaquim d e Morais,
J o a q u i m Francisco, Manoel Joaquim, José Inácio, Francisco
A l v e s , A n t o n i o Ferreira, G o n ç a l o , A n t o n i o , Vitorio.
Santa C r u z e m v i n t e e s e t e d e m a r ç o d e mil o i t o c e n t o s e
d e z o i t o . V i s c o n d e d o Rio Seco."
N ã o d e i x a d e ser g r a t i f i c a n t e v e r o p r í n c i p e D . P e d r o c u i d a r
d e a t i v i d a d e s m u s i c a i s na F a z e n d a , e s c o l h e n d o o s e s c r a v o s p a r a
as f e s t a s e m p e r s p e c t i v a e q u e e n v o l v i a , n ã o s ó M a r c o s P o r t u g a l ,
mas o padre José Maurício.
É p o n t o pacífico a realização de cerimónias religiosas c o m
b o a m ú s i c a na c a p e l a d e S a n t o I n á c i o c o m o na c a p e l a d e S ã o
C r i s t ó v ã o . A m b a s e r a m p a ç o s reais, a m b a s t i n h a m c a p e l a d e
m ú s i c a . A a t u a ç ã o d o p r o f e s s o r I n á c i o P i n h e i r o , p r e v i s t a na
portaria d e 27 d e m a r ç o , facilitava o p r e p a r o da o b r a , se destinada
à Real Quinta.
I n f o r m a o v i s c o n d e d e T a u n a y 2 1 9 q u e a Missa f o i " e s c r i t a
e m vinte dias d e u m p a s s e i o q u e o autor fazia pela Fazenda d e
Santa C r u z " , o q u e p o d e c o r r e s p o n d e r a o p e r í o d o d e c o m p o s i ç ã o
da o b r a . P o r t o - A l e g r e adianta: 2 2 0
" N a f a z e n d a d e Santa C r u z , o n d e h a v i a m a i s e s p a ç o , se
e x e c u t a r a m m a g n í f i c a s c o m p o s i ç õ e s e s c r i t a s lá m e s m o ,
quase s e m p r e improvisadas p e l o s seus mestres-de-capela.
N u m a dessas j o r n a d a s e s c r e v e u J o s é M a u r í c i o a sua f a m o s a
Missa da D e g o l a ç ã o d e S. J o ã o Baptista e outras o b r a s d e
q u e e l e m e s m o se e s q u e c e u . Foi esta missa a q u e p ô s t e r m o
a t o d a s as i n v e s t i d a s d o s m ú s i c o s da r e a l c â m a r a , p o r q u e
136
José Maurício Nunes Garcia biografia
esta o b r a a g r a n d e instrumental f o i t o d a escrita n o e s p a ç o
d e v i n t e dias..."
São f u n d a m e n t a i s o s t e s t e m u n h o s d e d o i s c o n t e m p o r â n e o s
c o m o título da o b r a . Luís d o s Santos M a r r o c o s l o c a l i z o u a data
d a f e s t a da D e g o l a ç ã o ; u m a t e r c e i r a e mais p r ó x i m a t e s t e m u n h a ,
Villa N o v a Portugal, em o f í c i o ao marquês de Loulé c o m
i m p o r t a n t e d e c i s ã o d o rei, t r a n s m i t i u - l h e o c o n v i t e d e D. J o ã o
p a r a q u e o m a r q u ê s e s t i v e s s e p r e s e n t e à festa q u e se r e a l i z a r i a
n o m e s m o dia. N o o f í c i o , d a t a d o d e 29 d e a g o s t o , dia d e S a o
J o ã o D e g o l a d o , v e m i n d i c a d o p r e c i s a m e n t e o l o c a l o n d e se var
c e l e b r a r a f u n ç ã o ; a C a p e l a da R e a l Q u i n t a da B o a V i s t a . ' " N ã o
h a v i a m a i s d ú v i d a s q u a n t o à data e l o c a l e m q u e seria e x e c u t a d a
a Missa da
Degolação.
V á r i a s c o n c l u s õ e s p o d e m ser e x t r a í d a s d e s t e o f i c i o : a
o r q u e s t r a seria a da Real Câmara, c o m b o n s instrumentistas,
a c r e s c i d a d e m ú s i c o s da F a z e n d a , i n c l u s i v e o s d o i s p r o f e s s o r e s
d e Santa C r u z . O c o r o seria o d o s e s c r a v o s - m ú s i c o s q u e t e r i a m
p r e p a r a d o a Missa na p r ó p r i a F a z e n d a para cantá-la na Q u i n t a .
N ã o seria a primeira v e z q u e o f a z i a m , seus n o m e s s ã o a p o n t a d o s
na p o r t a r i a d o v i s c o n d e d o R i o S e c o , e m 27 d e m a r ç o .
C a p i t u l o ã p a r t e e b e m mais i m p o r t a n t e é, p o r é m , a
i d e n t i f i c a ç ã o da o b r a e n t r e as missas q u e s o b r e v i v e r a m , p o r q u e
dá u m n o m e a u m m a n u s c r i t o q u e d u r a n t e m u i t o s a n o s p e r d e u a
i d e n t i d a d e . A c o n f i r m a ç ã o passa p o r outra o b r a d e titulo
i n q u e s t i o n a v e l m e n t e a p r o x i m a t i v o : o Moteto para a Festa da
Degolação
de São João Batista C C T 6 3 ) .
A s a l u s õ e s à Missa, citada e m t o d a s as f o n t e s c o m o Missa
da Degolação,
n ã o facilitaria jamais a i d e n t i f i c a ç ã o p o r n a o
c o r r e s p o n d e r a o título d o m a n u s c r i t o : Missa a grande
orchestra.
T í t u l o mais c h e g a d o aos hábitos d e José Maurício, q u e tem duas
o u três missas assim intituladas, inclusive a Missa de Santa
Cectlta,
q u e 6 p r e c i s a m e n t e Missa com grande
orquestra.
A p r o c u r a d e p o n t o s d e c o n v e r g ê n c i a e n t r e partituras f o i
p r o v e i t o s a . O Moteto c o n f i r m o u seu título a p r o x i m a t i v o e a f o r m a
ternária — estrutura d e r e s p o n s ó r i o — adotada p o r J o s é M a u r i c i o
p a r a o s o f e r t ó r i o s d a s missas. H a v i a a l g o d e c o n c r e t o p o r o n d e
i n i c i a r as p e s q u i s a s .
O s r e s u l t a d o s n ã o t a r d a r ã o , e x p r e s s o s nas c o i n c i d ê n c i a s
m e l ó d i c a s e n t r e as d u a s o b r a s : O Moteto,
r e g i s t r o 31 335, d e
c o p i s t a n ã o i d e n t i f i c a d o , e a Missa a grande
orchestra,
registro
4155-3112, e m c ó p i a d e J o ã o d o s Reis P e r e i r a . O s c o m p a s s o s 10
a 15 e 25 a 35 d o Allegro
spiritoso,
primeiro tempo d o
Moteto,
e n c o n t r a r a m a r é p l i c a n o Qui tollis da Missa 1'grande
orquestra,
137
Cleofe Person de Mattos
c o m p a s s o s 35 e 40, o n d e r e a p a r e c e , m a i s e l a b o r a d o d e fatura.
Confirmou-se a similitude q u e l e v o u à aceitação d o m o t e t o c o m o
o o f e r t ó r i o da Missa.
A l é m d o título i d ê n t i c o , outras a p r o x i m a ç õ e s e x i s t e m e n t r e
as d u a s o b r a s : a l i n g u a g e m , a o r q u e s t r a ç ã o , o d e s e n v o l v i m e n t o
h a r m ó n i c o da escrita m u s i c a l c a r a c t e r i z a n d o - a s c o m o o b r a s
complementares. P o d e haver ou não confirmação e m posteriores
achados, mas n o m o m e n t o é a resposta e m q u e a autora deste
trabalho acredita.
A r q u i v a d a na Escola d e Música da U n i v e r s i d a d e F e d e r a l d o
R i o d e J a n e i r o , a Missa a grande orquestra f a z jus a d o i s registros:
o d e n ú m e r o 4155-3112, e m partes avulsas, e 30.118, e m
partituras. Esta — i n c o m p l e t a , c o m muitas p a r t e s e m b r a n c o —
t e m o u t r o t í t u l o : Missa do P" JM N G.
U m t e r c e i r o r e g i s t r o — 4155 A -3111; s o b t í t u l o Messa a
Quattro
voei dei S* P. M. J M N G, e m p a r t e s a v u l s a s , i n c l u i
i g u a l m e n t e a Missa a grande
orquestra,
que v e m copiada com
t r e c h o s da missa a c i m a : Gloria in excelsis e m d ó ; Laudamus
em
Fá; Domine
Deus e m Fá; Qui sedes e Quoniam
e m Mib;
Cum
Sancto Spiritu.
É n e s s e p o n t o q u e o s t r e c h o s da partitura t ê m o
v a l o r d e c o n f i r m a r a s e q u ê n c i a d o s t r e c h o s da Missa a
grande
orchestra.
O c o n t e x t o e m q u e está e n v o l v i d a a Missa
será
c o l o c a d o num q u a d r o o n d e o assunto ficará mais claro:
138
José Maurício Nunes Garcia biografia
Missa a Grande Orquestra
41V? - 3112
M
Ré M
Kyrie
Fá
Gloria
Laudamus
Gratias
Domine
Qui
tollis
Qui
sedes
Deus
Mi b M
ré m
Mi b/Si b
dó m
Quoniam
dó m
Lá b M
Cum Sane to
Spiritu
Si b M
Missa do P*- J M Messa e
N G
Quattro Voei
(Partitura)
30.118
4155a - 3111
Fá M
Ré M
Mi b M
Fá M
Dó M
ré m
ré m
ré m
Mi b M
dó m
dó m
Lá b M
Fá M
dó m
Mi b M
Mi b M
A n t e s d e e n c e r r a r o s c o m e n t á r i o s e m t o r n o das missas
c o m p o s t a s e m 1818, v e m a p r o p ó s i t o l e m b r a r uma nota escrita
p e l o b a r ã o d e T a u n a y a u m d e seus f i l h o s , e m 17 d e j a n e i r o :
" O u v i h o j e uma missa d o p a d r e José Maurício. P a r e c e u - m e
b e l í s s i m a . O A d r i a n o f i c o u e n t u s i a s m a d o . " 2 2 2 A p r o x i m i d a d e da
a c l a m a ç ã o q u e a c e r c a e p o d e r i a c a b e r i g u a l m e n t e a esta o b r a é
uma h i p ó t e s e para q u e f o i o u v i d a p e l o s T a u n a y pai e f i l h o , e
q u e d e i x a e s p a ç o a b e r t o à e x i s t ê n c i a d e outra missa.
A o emergir c o m brilhantismo d o relativo silêncio d e anos
a n t e r i o r e s assistindo a o c r e s c i m e n t o e r e c o n h e c i m e n t o da
i m p o r t â n c i a d e sua p r o d u ç ã o d e c o m p o s i t o r , n ã o d e i x a d e causar
s u r p r e s a e m 1818 o r e g i s t r o da a t u a ç ã o d e J o s é M a u r í c i o n o s
l i v r o s d e R e c e i t a e D e s p e s a da O r d e m T e r c e i r a d o C a r m o c o m o
regente.223 O f a t o s u r p r e e n d e p o r ser a primeira v e z , a p ó s
tantos anos de colaboração com a O r d e m Terceira, sem
q u a l q u e r sinal, m a s s o b r e t u d o p o r r e c e b e r c a c h ê c o m o r e g e n t e
— o ú n i c o d e q u e s e t e m n o t í c i a e m sua l o n g a c a r r e i r a d e
c o m p o s i t o r . A o registrar o n o m e d e J o s é M a u r í c i o nas duas festas
da O r d e m ( j u l h o e outubro), em ambos os casos ele recebeu
139
Cleofe Person de Mattos
25$400 s e m q u a l q u e r a l u s ã o à c i r c u n s t â n c i a d e ser, t a m b é m , o
autor da c o m p o s i ç ã o .
O ter f i g u r a d o n o s L i v r o s d e R e c e i t a e D e s p e s a da O r d e m
Terceira c o m o r e g e n t e deixa uma dúvida q u e diz r e s p e i t o à
r e g ê n c i a d e suas o b r a s . N ã o seria o c o m p o s i t o r , e m t o d o s o s
c a s o s , o r e g e n t e d e suas p r ó p r i a s o b r a s , e s p e c i a l m e n t e nas d u a s
g r a n d e s d a t a s da O r d e m T e r c e i r a ?
Será a p r i m e i r a e a ú l t i m a v e z q u e o s e u n o m e v e m c i t a d o
n o L i v r o da O r d e m . N o a n o s e g u i n t e — e m 1819 — o u t r o c o m p o s i t o r e r e g e n t e , m ú s i c o da R e a l C â m a r a , P e d r o T e i x e i r a d e
Seixas, 2 2 4 passará a ser r e s p o n s á v e l p o r essas f u n ç õ e s . C o m o
c r é d i t o d e v i d o n o s l i v r o s da O r d e m .
A d o c u m e n t a ç ã o b u r o c r á t i c a d e 1818 d e i x a e n t r e v e r certa
d e s c o n f i a n ç a entre o s d o i s mestres-de-capela. A g i n d o n o e x e r c í c i o
d a s f u n ç õ e s q u e l h e e r a m a f e i t a s , c a d a u m d e v i a dar p a r e c e r
s o b r e o s p r e t e n d e n t e s às f u n ç õ e s m u s i c a i s na m e s m a c a p e l a . Em
1818, d o i s c a n d i d a t o s i n t e r e s s a d o s n o s t r a b a l h o s d e c ó p i a p a r a
as três c a p e l a s reais: J o ã o A n t ô n i o Silva, c a n d i d a t o d e M a r c o s
P o r t u g a l , e F r a n c i s c o M a n u e l C h a v e s , já e m e x e r c í c i o , a m i g o d e
José Maurício, q u e parece querer d e f e n d e r - s e e m assunto d e
f i d e l i d a d e c o m copistas. 2 2 5
É natural tenha cada c o m p o s i t o r ou m e s t r e - d e - c a p e l a
preferências, o q u e no f u n d o corresponde a uma p o s i ç ã o de
c o n f i a n ç a d o copista. N o q u e respeita ao trabalho d o e x c e l e n t e
c o p i s t a J o ã o A n t ô n i o , d o i s manuscritos musicais p o r e l e c o p i a d o s
acusam, posteriormente, problemas que dificilmente serão
e l u c i d a d o s : a Missa mimosa ( C T 1 2 0 ) , e a g r a n d e Missa em Mi
bemol ( C T 117).
A indicação de Francisco Manuel Chaves f o i oficializada
e m 4 d e j u n h o d e 1818, m a s o a s s u n t o n ã o f i c a e n c e r r a d o . U m
a n o mais tarde, V i l l a n o v a Portugal e n c a m i n h o u para J o s é M a u r í c i o
o r e q u e r i m e n t o d e J o ã o A n t ô n i o para este informar. E c o m u n i c o u
q u e D . J o ã o " h è s e r v i d o s e j a e m p r e g a d o nas c ó p i a s d e t o d a s as
c o m p o s i ç õ e s d e m u s i c a " p a r a as m e s m a s capelas. 2 2 6 S e g u e m o s
t e r m o s da r e s p o s t a d o p a d r e J o s é M a u r í c i o :
" N ã o se p r e c i s a m a i s d e o u t r o c o p i s t a ; t a n t o p o r q u e o
C o p i s t a a c t u a l F r a n c i s c o M a n o e l X a v e s , a q u e m Sua
M a g e s t a d e d e o p o r o r d e n a d o 4 0 $ 0 0 0 p o r m e z p a r a se
e n c a r r e g a r d e t o d a s as c o p i a s da R e a l C a m a r a , da R e a l
C a p e l l a e da Real Quinta h e m 1 0 hábil, m'° e x p e d i t o , e l i g e i r o
t e n d o d a d o s e m p r e boa conta d o q u e se lhe encarrega.
C o m o p o r q u e Sua M a g c p o u p a e s t e g a s t o d e s n e c e s s á r i o
[ p r e s e n ] t e m e n ' c p o r q u a n t o n ã o ha n e c e s s i d a d e d e d o u s
140
José Maurício Nunes Garcia biografia
Copistas c o m o r d e n a d o , s e n d o s u f i c i e n t e e bastante s ó hum,
q u e h e o actual: h e o q u e p o s s o e d e v o i n f o r m a r a V . E x a ,
q u e fará o q u e f o r s e r v i d o . D e V.Ex 4 a t t e n t o e h u m i l d e
S e r v o / o P a d r e J o s e M a u r i c i o N u n e s G a r c i a M e s t r e da
Capella Real."
Em 14 d e n o v e m b r o d e 1820 J o ã o A n t ô n i o f o i n o m e a d o
para a Real C a p e l a , f i c a n d o o b r i g a d o a o m e s m o s e r v i ç o nas outras
c a p e l a s . U m a d e r r o t a a mais para o c o m p o s i t o r , q u e f i c a r á à
m e r c ê d e copista d e f e n d i d o p o r Marcos Portugal.
F i n d a v a u m g r a n d e a n o para J o s é M a u r í c i o . Sua o b r a f o r a
a d m i r a d a e e s s e r e c o n h e c i m e n t o d e r a i m p u l s o à sua p r o d u ç ã o
musical e alegria à sua vida. A s c o m p e n s a ç õ e s n o t e r r e n o artístico
a i n d a o g r a t i f i c a v a m c o m as g r a n d e s obras p r o d u z i d a s nesse a n o ,
e q u e aos p o u c o s eram conhecidas.
Em 1819 nasceu a p r i m o g é n i t a d e D . P e d r o e D . L e o p o l d i n a .
D . Maria da G l ó r i a , p r i n c e s a d a Beira, futura rainha d e P o r t u g a l .
R e c e b i d a c o m a l e g r i a , c o m missa e T e D e u m . O n a s c i m e n t o da
p r i n c e s a p r o p o r c i o n o u a José M a u r í c i o uma a t u a ç ã o c o m o
r e g e n t e : o S e n a d o da Câmara c o n f i o u - l h e a d i r e ç ã o da missa e m
a ç ã o d e graças p e l a c h e g a d a a o m u n d o d e uma criança da estirpe
d o s B r a g a n ç a n a s c i d a n o Brasil.
D a s o l e n e c e r i m ó n i a r e a l i z a d a na I g r e j a d e S ã o F r a n c i s c o
d e P a u l a , p r e s e n t e s o rei e s e u s f i l h o s , da c o r t e e d o c o r p o
d i p l o m á t i c o dá n o t í c i a o p a d r e P e r e r e c a . 2 2 7 I n f e l i z m e n t e , o
c r o n i s t a p r o l i x o n o ressaltar a m a g n i f i c ê n c i a s o c i a l e v i s u a l q u e
c a r a c t e r i z o u o ato, é m u i t o sucinto c o m r e l a ç ã o à música
executada. Escreve o historiador:
"... e l o g o s e d e u p r i n c i p i o a g r a n d e missa, q u e c e l e b r o u
e m pontifical o illustrissimo m o n s e n h o r a r c e d i a g o R o q u e
d a Silva M o r e i r a , s e n d o P r e s b í t e r o assistente d i á c o n o e
s u b d i á c o n o três c ó n e g o s da R e a l C a p e l a e da m e s m a e r a m
o d o s c a n t o r e s e a c ó l i t o s . T o d a a m ú s i c a era t a m b é m da
Real Capela, dirigida p e l o mestre dela o p. José Mauricio."
O a u t o r da m ú s i c a n ã o é m e n c i o n a d o . A Gazeta do Rio de
Janeiro
( 1 9 d e m a i o ) n ã o c o n f i r m a q u e a missa f o i r e g i d a p o r
J o s é M a u r í c i o e adianta q u e o autor da música era M a r c o s P o r t u gal. O q u e é p e l o m e n o s discutível, não só p e l o q u e significava
para a vaidade d o c o m p o s i t o r português, quanto, d o p o n t o de
vista d e J o s é M a u r í c i o , u m a d e s a t e n ç ã o d e s c a b i d a . O e n f o q u e
da autoria fica r e l e g a d o a o rol das p r o b a l i d a d e s diante d o s i l ê n c i o
q u e j a m a i s d e i x a r a d e f a z e r p a r t e da rotina d o p e r i ó d i c o o f i c i a l ,
a p e s a r da " i g u a l d a d e " entre p o r t u g u e s e s e brasileiros p r e c o n i z a d a
141
Cleofe Person de Mattos
p e l o d e c r e t o d e e l e v a ç ã o d o Brasil a r e i n o u n i d o . A h i p ó t e s e
m a i s a c e i t á v e l será a d e n ã o ser e x a t a a i n f o r m a ç ã o d a
Gazeta,
m e s m o p o r q u e n ã o há m e n ç ã o dessa missa e n t r e as o b r a s d e
Marcos Portugal.
N e s s e a n o d e 1819 o R i o d e J a n e i r o r e c e b e u a visita d e
d o i s p r u s s i a n o s , T. v o n L e i t h o l d e E. v o n R a n g e . D e v o l t a a o
p a í s , p u b l i c a r a m e m l i v r o o r e s u l t a d o d e suas o b s e r v a ç õ e s : 2 2 8 o
R i o d e J a n e i r o , seus a s p e c t o s f í s i c o s , a p o p u l a ç ã o q u e se a g i t a v a
nas ruas ou f r e q u e n t a v a os l u gar e s p ú b l i c o s , i n c l u s i v e os
estrangeiros de p a s s a g e m pela c i d a d e ou aqui instalados. É o
c a s o d e v o n L a n g s d o r f , d i p l o m a t a r u s s o , c h e f e da m i s s ã o q u e
t e v e o s e u n o m e . T i n h a u m a casa d e c a m p o e o f e r e c e u u m b a i l e
a o s o f i c i a i s d e u m n a v i o russo. A m ú s i c a — u m q u a r t e t o d e
i n t e g r a n t e s da o r q u e s t r a d o T e a t r o S ã o J o ã o — t o c o u p a r a o s
presentes e deu-lhes a oportunidade d e dançar pela necessidade
d e "afastar o s mosquitos".
A orquestra d o Real T e a t r o f o i vítima das investidas d o s
d o i s p r u s s i a n o s . A r e f e r ê n c i a a I Tancredi,
d e Rossini, mal
reconhecida d e tão "estropiada" pela péssima orquestra, chama
a a t e n ç ã o p e l a má q u a l i d a d e d o s o m ; m u i t o r e d u z i d a e m n ú m e r o ,
" n u m a p a l a v r a , m i s e r á v e l " . F a z e m a r e s s a l v a p a r a o flautista,
francês, e o violoncelista.229 Assistiram eles aos ensaios d o s
b a i l a d o s , c o n v e n c i d o s d e q u e s e u s d i r i g e n t e s , o casal A u g u s t e
T o u s s a i n t 2 3 0 e Luís L a c o m b e e s e u s q u a t r o i r m ã o s — t o d o s
e m p e n h a d o s c o m s e r i e d a d e e m u m a arte b e m - v i n d a , o s g r a n d e s
b a i l a d o s , o u nas d a n ç a s l i g e i r a s q u e p a r t i c i p a v a m d o s i n t e r v a l o s
d e espetáculos q u e duravam horas — fariam honra aos mais
e x i g e n t e s p a l c o s da Europa.
O Requiem de Mozart é
apresentado
no Brasil
R e a l i z a ç ã o s u r p r e e n d e n t e na v i d a da c i d a d e , o dia 19 d e
d e z e m b r o d o m e s m o a n o d e i x a u m sinal d e suma i m p o r t â n c i a
m u s i c a l : o Requiem
de Mozart é o u v i d o no Rio de Janeiro sob a
d i r e ç ã o d o p a d r e J o s é M a u r í c i o . Se a a p r e s e n t a ç ã o da o b r a , e m
si, já é f a t o n o t á v e l , o a c e s s o d o p ú b l i c o b r a s i l e i r o a o g r a n d e
repertório internacional pelas mãos de um regente brasileiro tem
u m s i g n i f i c a d o cultural e n o r m e para o p o v o , q u e o u v i u u m a o b r a
142
José Maurício Nunes Garcia biografia
a d m i r á v e l , c o m o para o s músicos q u e a executaram. Foi o u v i d a
na i g r e j a d e N o s s a S e n h o r a d o P a r t o c o m o s p r o f e s s o r e s da
I r m a n d a d e d e Santa Cecília, na missa e m h o m e n a g e m a o s i r m ã o s
falecidos naquele ano.
N ã o se p o d e d i s s o c i a r a a u d i ç ã o d o Requiem
d e M o z a r t da
p e s s o a d e S i g i s m u n d N e u k o m m , d e s d e 1816 n o Brasil. A partitura
p o d e ter c h e g a d o a o p a í s p e l a s suas m ã o s ; d e q u a l q u e r m o d o ,
n ã o terá p e r d i d o a o p o r t u n i d a d e d e e s t i m u l a r o c o m p o s i t o r
b r a s i l e i r o para a a p r e s e n t a ç ã o da o b r a . E t a m b é m para c o m e n t a r
a e x e c u ç ã o , q u e foi publicada num jornal v i e n e n s e n o a n o
s e g u i n t e , e m j u l h o d e 1820.
Se e m a l g u m m o m e n t o d e sua v i d a a t u a n d o c o m o r e g e n t e ,
José Maurício alcançou notoriedade interpretando obra de outro
a u t o r , e s s e m o m e n t o terá s i d o o dia 19 d e d e z e m b r o d e 1819O s comentaristas habituais — p a d r e Perereca e a
Gazeta
do Rio de Janeiro
— n a d a i n f o r m a m s o b r e o a c o n t e c i m e n t o , mas
a r e a l i z a ç ã o d o Requiem
n o R i o d e J a n e i r o r e p e r c u t i u na E u r o p a
p o r q u e u m m ú s i c o n a s c i d o na c i d a d e natal d e M o z a r t , S a l z b u r g ,
escreveu um comentário e o fez publicar no
Allgemeine
Musikalische
Zeitung,
p e r i ó d i c o d e V i e n a . Seria a p r i m e i r a crítica
na história d a s a t i v i d a d e s musicais n o R i o d e Janeiro. N e u k o m m ,
q u e e s c r e v e o a r t i g o , ressalta as q u a l i d a d e s d e J o s é M a u r í c i o
c o m o r e g e n t e . Sua r e a ç ã o , e m t e r m o s d e indiscutível a p r e ç o p e l o
c o m p o s i t o r , v e m transcrita e m t r a d u ç ã o :
"Rio d e Janeiro. A c o r p o r a ç ã o dos músicos (da Irmandade
portuguesa, uma e s p e c i e de c o r p o r a ç ã o r e l i g i o s a ) celebra,
a n u a l m e n t e , a f e s t a d e Santa C e c í l i a a q u e se s e g u e . . . a
missa em,memoria
dos músicos falecidos n o correr d o ano.
Para e s s e p r o p o s i t o alguns m e m b r o s dessa c o r p o r a ç ã o , q u e
p o s s u e m s e n s i b i l i d a d e para m e l h o r musica, r e c o m e n d a r a m ,
p o r o c a s i ã o d o u l t i m o f e s t e j o , o Requiem
de Mozart,
e x e c u t a d o p o r uma grande orquestra n o último D e z e m b r o ,
na I g r e j a d o P a r t o . A r e g e n c i a d e t o d o o c o n j u n t o c o u b e a o
m a e s t r o da C a p e l a Real, P a d r e J o s é M a u r i c i o N u n e s G a r c i a .
O e n t u s i a s m o c o m q u e o P a d r e G a r c i a t r a b a l h o u t o d a s as
d i f i c u l d a d e s a fim de, t a m b é m aqui, executar, ao m e n o s
u m a v e z , a o b r a - p r i m a d e n o s s o imortal M o z a r t m e r e c e o s
a g r a d e c i m e n t o s mais c a l o r o s o s d o s a m i g o s da arte q u e aqui
se e n c o n t r a m . D e m i n h a parte, s i n t o - m e na o b r i g a ç ã o d e
a p r o v e i t a r essa oportunidade//EIe p r o v o c a , justificadamente,
a m a i s q u a l i f i c a d a a t e n ç ã o e surpresa u m a v e z q u e sua
f o r m a ç ã o é sua p r ó p r i a o b r a . N a s c i d o n o R i o d e J a n e i r o ,
e n t r o u p a r a o s e m i n á r i o e p i s c o p a l dessa c i d a d e o n d e se
143
Cleofe Person de Mattos
f e z finalmente mestre capela, após a conclusão dos estudos
e a sua o r d e n a ç ã o . C o m a c h e g a d a da c o r t e n o Brasil, o b t e v e
o l u g a r d e m e s t r e c a p e l a d a C a p e l a Real, q u e c o n t i n u a
assumindo, n ã o obstante n e g l i g e n c i a n d o seu estado
delicado d e saúde.
A n t e s d o Requiem,
c a n t a r a m - s e o s Nocturnen,
extraídos d o
Officio Defunctorum
de David Perez (nascido em Nápoles,
v e i o e m 1752 p a r a L i s b o a o n d e f i c o u a s e r v i ç o d o r e i ) ,
o b r a q u e c o m p r e e n d e v á r i a s árias, d u e t o s , c o r o s e t c . A
m a i o r parte dessa musica f o i escrita c o m a d i g n i d a d e
a d e q u a d a a o estilo da igreja. Em m u i t o s c o r o s , o m o v i m e n t o
t o m a d o f o i se t o r n a n d o d e m a s i a d o r á p i d o , o q u e , a d e m a i s ,
p u d e o b s e r v a r c o m o r e c o r r e n t e na e x e c u ç ã o d e muitas o b r a s
d e s s e m e s t r e . P a r e c e q u e se p e r d e u a t r a d i ç ã o d e s s a o b r a .
Particularmente d e s a g r a d a v e l s o o u - m e u m c o r o e m ré maior,
e m q u e a trivialidade dos passos dos trompetes e trompas
l e m b r a r a m - m e , e m seu m o v i m e n t o r á p i d o , certas p e ç a s para
t r o m p e t e q u e s a ú d a m , da t o r r e e m K a r l s b a d , o s h ó s p e d e s
q u e c h e g a m para o b a n h o .
A e x e c u ç ã o da o b r a - p r i m a d e M o z a r t nada d e i x o u a d e s e j a r ;
t o d o s os talentos a m b i c i o n a v a m recepcionar, c o m
d i g n i d a d e , o e s t r a n g e i r o M o z a r t n e s s e n o v o m u n d o . Essa
p r i m e i r a t e n t a t i v a f o i , e m t o d a s as p e r s p e c t i v a s , t ã o
s a t i s f a t ó r i a q u e se e s p e r a n ã o ser a última d e s s a e s p e c i e .
1820.
J u n h o . N Q 29."
Estas p a l a v r a s s o b r e o i n t é r p r e t e v a l e m c o m o a p r e c i a ç ã o
d o artista. N ã o s o m e n t e a o c o m p o s i t o r o s c o m e n t á r i o s e r a m
dirigidos, mas a apreciação dignifica-o, partindo d e um músico
q u e soubera apreciar a apresentação da obra d e Mozart por um
músico brasileiro.
S e g u e e m nota 2 3 1 a transcrição d o original a l e m ã o , p u b l i c a d o
n o a n o s e g u i n t e n o AllgemeineMuzikalische
Zeitung
(20 de julho
d e 1820, n. 2 9 ) .
A m ú s i c a s i n f ó n i c a n ã o tinha v o z i n d i v i d u a l i z a d a n u m a
c i d a d e q u e dispunha d e outras orquestras, todas f u n c i o n a n d o a
s e r v i ç o da c o r o a : a da R e a l C a p e l a e a da R e a l C â m a r a . E a d o
Real T e a t r o S ã o J o ã o . L e v e - s e esta e m c o n t a para tentar
compreender
por que
Marcos
Portugal
—
que
tão
e x u b e r a n t e m e n t e usou d e seu talento para o g é n e r o f a z e n d o o u v i r
suas o b r a s n o s p a í s e s e u r o p e u s — f o i t ã o p a r c i m o n i o s o na
a p r e s e n t a ç ã o d e o b r a s suas n o Real T e a t r o . S o m e n t e d u a s ó p e r a s
d e M a r c o s P o r t u g a l f o r a m à c e n a na c i d a d e e m q u e p a s s o u o s
144
José Maurício Nunes Garcia biografia
últimos d e z e n o v e anos de vida. A e x p l i c a ç ã o mais p r o v á v e l
p a r e c e ser a p o u c a c o n f i a n ç a n o s r e c u r s o s artísticos d o T e a t r o .
A a v a l i a ç ã o da o r q u e s t r a n ã o p o d e p r e s c i n d i r d e d u a s
i n f o r m a ç õ e s : Simão Portugal, c a n d i d a t o a organista n o T e a t r o ,
i n f o r m a e m m a r ç o d e 1813 q u e a o r q u e s t r a n ã o e s t a v a a i n d a
organizada. Os anos de funcionamento não permitem supor que
se tivesse f o r m a d o u m c o n j u n t o n o t á v e l — c o m o o da Real Câmara
— e x c l u s i v o e e s t á v e l para u m t e a t r o d e ó p e r a c u j o r e p e r t ó r i o ,
a l é m d e ó p e r a , a p r e s e n t a v a b a i l a d o s , farsas e as i n d e f e c t í v e i s
ouvertures.
A outra f o i d a d a p o r d o i s p r u s s i a n o s e m visita a o R i o
d e J a n e i r o e m 1819, já transcrita e m c a p í t u l o a n t e r i o r .
S u r p r e e n d e a a t u a l i z a ç â o d o r e p e r t ó r i o o p e r í s t i c o n o Real
T e a t r o , n ã o o b s t a n t e as d i f i c u l d a d e s a p o n t a d a s . O s i t a l i a n o s
c o n t i n u a v a m e m c e n a : Puccitta, F e r d i n a n d o Paèr, P i e t r o G e n e r a l i .
T a m b é m M o z a r t é o u v i d o e m 1820. N e c e s s á r i o s a b e r d e q u e
m a n e i r a s e r i a m a p r e s e n t a d a s , uma v e z q u e essas ó p e r a s e x i g i a m
o r q u e s t r a e c a n t o r e s d e q u a l i d a d e , c o m o a d o c o m p o s i t o r italiano
q u e representava, n o m o m e n t o , o mais estrondoso sucesso d o
g é n e r o o p e r í s t i c o : G i o a c c h i n o R o s s i n i ( P e s a r o , 1792 — Paris,
1868).
P o d e - s e dizer que o p ú b l i c o d o Rio d e Janeiro rendeu-se
d e i m e d i a t o à arte d o c o m p o s i t o r q u e a Gazeta c h a m o u u m dia
d e " i m o r t a l R o s s i n i " . R e p r o d u z i a - s e n o Brasil o e n c a n t a m e n t o
c o m a a l e g r i a s a u d á v e l e a graça m e i o f á c i l da arte d o i t a l i a n o
q u e d e i x a r a m a r c a s s e n s í v e i s na o b r a d e g r a n d e s c o m p o s i t o r e s
e u r o p e u s . Aureliano
in Palmira
é a primeira obra rossiniana
o u v i d a n o R i o d e J a n e i r o e m 1820, n o dia 13 d e m a i o , a n i v e r s á r i o
d e D. João, e m espetáculo d e gala. O sucesso alcançado explica
s u c e d e r e m - s e ó p e r a s d e Rossini n o p a l c o d o Real T e a t r o São
J o ã o até 1823- Em 1821 La Cenerentola,
ITancredi,
II barbieri
di
Siviglia, A italiana em Argel. O entusiasmo p e l a música d e Rossini
continuará v i v í s s i m o n o Brasil imperial c o m a e n c e n a ç ã o d e n o v a s
ó p e r a s -.Elisabeth,
rainha da Inglaterra,
e Adelaide
de
Borgonha.
N ã o f o i imediata e m José Maurício a reação positiva à
música d e Rossini, informa Porto-Alegre.232 Posteriormente
d e i x o u - s e v e n c e r — p o r u m a q u e s t ã o d e s o b r e v i v ê n c i a artística,
talvez — pela euforia contagiante, que n ã o atinge o f u n d o e a
f o r m a d e sua c r i a ç ã o c o m o a d e H a y d n o u d e M o z a r t , i n f l u ê n c i a s
d e natureza estrutural. A d o t o u o s p r o c e s s o s d e c o m p o r d e Rossini,
d e c o n d u z i r o t e m a , sua m o v i m e n t a ç ã o o r q u e s t r a l . M a s e r a m
procedimentos esporádicos.
A i n d i s c u t í v e l a ç ã o d o r o s s i n i a n i s m o na m ú s i c a d o p a d r e m e s t r e , r e l a t i v a m e n t e e p i s ó d i c a , c o m o um t o d o , c i r c u n s c r e v e - s e
e n t r e 1820 e 1823, a p r o x i m a d a m e n t e : Matinas da Conceição
(s.d.,
145
Cleofe Person de Mattos
c. 1820), C T 174; Missa mimosa ( 1 8 2 0 ) , C T 111; Laudamus,
para
s o p r a n o e c o n t r a l t o ( 1 8 2 1 ) ; Matinas
de Nossa Senhora
do
Carmo
( 1 8 2 2 ) , C T 176 e a Missa abreviada
( 1 8 2 3 ) , C T 112. Estas a c u s a m
e m grau m a i o r o u m e n o r a influência d o c o m p o s i t o r italiano.
A temática rossiniana utilizada p e l o
a p r o x i m a - s e mais d e uma citação d o
S u r p r e e n d e o q u e o c o r r e c o m as Matinas
se d e u m d o s m a i s c o n h e c i d o s m o t i v o s d e
litteris e m d e z c o m p a s s o s .
compositor brasileiro
que d e um p l á g i o .
do Carmo,
p o r tratarRossini, 2 3 3 c i t a d o ipsis
A s o b r a s d a t a d a s d e 1820, r e g i s t r a d a s n o s c a t á l o g o s d e
Maciel e Vasco mostram q u e a p r o d u ç ã o d o mestre-de-capela
n ã o era m u i t o v o l u m o s a . T r ê s o b r a s se c o n h e c e m : Credo em Ré
Maior,
3/4, p a r a v o z e s e ó r g ã o ( C T 127), o s a l m o
Laudatepueri
p a r a as v é s p e r a s d o E s p í r i t o S a n t o ( o r q u e s t r a ç ã o d e o b r a
c o m p o s t a e m 1815), e a já c i t a d a Missa
mimosa.2*
N e s s e m e s m o a n o , u m a nota i n é d i t a m a s já u l t r a p a s s a d a
n o t e m p o e m t o r n o d o c o m p o s i t o r d e u m país l o n g í n q u o , o Brasil,
d e v e t e r c a u s a d o e s p a n t o a o s q u e a l e r a m , na c i d a d e d e V i e n a ,
n o jornal Allgemeine
Muzikalische
Zeitung:
o artigo q u e um
c o r r e s p o n d e n t e publicava s o b r e José Maurício N u n e s Garcia, q u e
dirigira, e m 19 d e d e z e m b r o d e 1819, o g e n i a l Requiem d e M o z a r t .
A Gazeta
do Rio de Janeiro
encarregou-se de trazer
n o v i d a d e s para os habitantes da cidade, c o m o o a p a r e c i m e n t o
da pianola, anunciando a v e n d a de um " e x c e l e n t e p i a n o q u e
t o c a p o r si d i f e r e n t e s m ú s i c a s " .
I n d í c i o d e p r e o c u p a ç ã o cultural c o m o q u e s e p a s s a v a n o
Brasil é a n o t í c i a e m 15 d e j u n h o d e 1820 s o b r e a i m p r e s s ã o da
" N o t í c i a histórica da v i d a d e H a y d n , d o u t o r e m M ú s i c a " . O t e x t o ,
da a u t o r i a d e H e n r y L e b r e t o n , o r i g i n a - s e d e u m a c o n f e r ê n c i a
f e i t a p e l o c h e f e da M i s s ã o F r a n c e s a e m 6 d e o u t u b r o d e 1810 na
E u r o p a ; f o i t r a d u z i d a p a r a o p o r t u g u ê s p o r B a l t a z a r d a Silva
Lisboa, q u e o f e r e c e u o seu trabalho a Sigismund N e u k o m m . O
v o l u m e , c o m d a t a d e 1820 na I m p r e s s ã o R é g i a , t e m a d i s t i n g u i l o o f a t o d e ter s i d o o p r i m e i r o l i v r o s o b r e a s s u n t o m u s i c a l
p u b l i c a d o n o Brasil.
A Gazeta a n u n c i a v a a i n d a , m a n t i d a c o n t i n u a d a m e n t e e m
c o n s e c u t i v o s n ú m e r o s d o m e s m o p e r i ó d i c o , a Viola de
Lereno,
o u Coleção
de diversas modinhas
d o padre Caldas Barbosa.
Em j u l h o d e 1820 d e s a p a r e c e u o d u q u e d e B e r r y , f i l h o
d e C a r l o s X, da França. P o r o r d e m d e Maier, c ô n s u l - g e r a l da
F r a n ç a n o B r a s i l , as e x é q u i a s r e a l i z a m - s e na C a p e l a R e a l , e m
c e r i m ó n i a s o l e n e . C o m p r o v o u - s e mais uma v e z o p r e s t í g i o d e
J o s é M a u r í c i o j u n t o a o s f r a n c e s e s : as m ú s i c a s e s c o l h i d a s f o r a m o Ofício
de defuntos,
d e T e o d o r o C i r o , e a Missa d o p a d r e
146
José Maurício Nunes Garcia biografia
J o s é M a u r í c i o . A i n f o r m a ç ã o da Gazeta n ã o d i z q u a l a missa
n e m se f o i c o m p o s t a p a r a o a t o .
O 7 d e m a r ç o , a n u a l m e n t e f e s t e j a d o na R e a l C a p e l a d e s d e
1809, f o i a i n d a c o m e m o r a d o e m 1820. C u m p r i a , p o r é m , u m a
rotina prestes a extinguir-se.
A c i d a d e n ã o estava tranquila. A a c l a m a ç ã o d o rei e
s u b s e q u e n t e c o r o a ç ã o , r e a l i z a d a e m terras d i s t a n t e s d o v e l h o
P o r t u g a l , e m p a í s q u e já e r a R e i n o U n i d o , i n q u i e t a v a o s
portugueses q u e p e r m a n e c i a m n o reino. A c o n c e n t r a ç ã o das
figuras máximas da administração d o país e m outro continente,
da n o b r e z a , da f a m í l i a r e a l , i n c l u s i v e o h e r d e i r o da c o r o a , t u d o
e s t i m u l a v a a p r e o c u p a ç ã o d o s p o r t u g u e s e s na E u r o p a c o n t r a a
p e r m a n ê n c i a da c o r t e n o Brasil. P r i n c i p i a v a a a g i t a ç ã o d a s c o r t e s
p e l a v o l t a da f a m í l i a real p a r a L i s b o a . O a p e g o d o r e i à terra
o n d e d e s d e 1808 p u d e r a d e s f r u t a r o s d i a s m a i s s o s s e g a d o s d e
sua v i d a r e t a r d a v a e s s e m o m e n t o . N ã o o c o n s e g u i r i a p o r m u i t o
tempo.
N o m u n d o n o v o a que a presença de D. João dera impulso
inconteste, a população explodira não só de portugueses c o m o
de filhos d o s portugueses, e súditos das " n a ç õ e s amigas".
T r a n s f o r m a r a - s e t a m b é m c o m as n o v a s c o n s t r u ç õ e s l e v a n t a d a s à
l u z d e u m a e s t é t i c a n o v a o a s p e c t o f í s i c o da c i d a d e . Já n ã o era a
mesma cidade colonial q u e o príncipe encontrara a o aportar n o
Rio d e Janeiro. T a m b é m o brasileiro, c o m p r i m i d o pelas forças
da n a ç ã o p o r t u g u e s a q u e e x e r c i a m o p o d e r c o m a i m p e r t i n ê n c i a
e o s p r i v i l é g i o s e m d e s f a v o r d a q u e l e s q u e nesta terra h a v i a m
nascido, também esse h o m e m havia mudado. Tornara-se
c o n s c i e n t e da luta q u e o s d i v i d i a .
O retorno
de D.João
e suas
1821
VI a
Portugal
consequências
A t e n s ã o p o l í t i c a q u e há m u i t o se v i n h a m a n i f e s t a n d o
r e l a ç õ e s e n t r e o Brasil e P o r t u g a l a p ó s a a c l a m a ç ã o r e s u l t o u
d e c i s ã o q u e v i r á , n o f u t u r o , t r a n s f o r m a r a estrutura p o l í t i c a
p a í s . C e d e n d o às p r e s s õ e s d a s c o r t e s q u e e x i g e m a p r e s e n ç a
rei o u d e s e u f i l h o D . P e d r o , d e c i d i u - s e e m abril d e 1821,
nas
em
do
do
em
147
Cleofe Person de Mattos
m e i o a uma a g i t a ç ã o g e n e r a l i z a d a , o r e t o r n o d e D. J o ã o VI para
Portugal.
A m a n e i r a c o m o se t r a n s f o r m a r a t ã o r a p i d a m e n t e o q u a d r o
a f e t i v o e p o l í t i c o d e c o n s i d e r a r - s e a f i g u r a d o rei, a l é m das
p r e s s õ e s p o r t u g u e s a s n o r e i n o , tinha m u i t o a v e r c o m o c o n f r o n t o
d e p e r s o n a l i d a d e s . D . P e d r o , j o v e m , i m p e t u o s o , d e s t e m i d o , tinha
t o d a s as q u a l i d a d e s p a r a d e s p e r t a r a a d m i r a ç ã o e t r a n s f o r m a r - s e
e m ídolo popular; dentro em pouco, e por vontade d o povo,
d e c i d i r á f i c a r n o Brasil.
Para D . J o ã o V I , q u e a m a v a o Brasil, a terra a q u e se d e d i c a r a
para c o n s t r u i r u m n o v o país, a d e c i s ã o n ã o p o d e r i a d e i x a r d e ser
m a r c a d a p o r muita tristeza. A luta q u e s e m p r e d i v i d i u b r a s i l e i r o s
e portugueses agravara-se. Apesar de tudo quanto havia
p r o p o r c i o n a d o , D . J o ã o passou a ser visto c o m o i n i m i g o d o Brasil.
A figura d e D. P e d r o , a o contrário, crescia e m p r o g r e s s ã o oposta
à d o p a i . I n d i c a d o p r í n c i p e r e g e n t e , p e r m a n e c e u n o Brasil.
Em abril d e 1821, partia D . J o ã o V I p a r a P o r t u g a l , p e s a r o s o
p o r deixar o país convulsionado e entregue ao filho, q u e ele
sabia u m p o u c o l e v a d o p e l o s a c o n t e c i m e n t o s d o m o m e n t o .
O m u n d o afetivo do padre José Maurício
ficou
p r o f u n d a m e n t e a b a l a d o c o m essa partida. Ia-se e m b o r a o a m i g o ,
o p r o t e t o r , o rei q u e l h e d a v a v a l o r . Se f o r a d i f í c i l c o n v i v e r na
C a p e l a e na c o r t e e n q u a n t o o rei p e r m a n e c e r a n o p a í s , mais
tristes t o r n a r a m - s e o s s e u s d i a s a p ó s a p a r t i d a d a q u e l e a q u e m
a p e s a r d e t u d o q u a n t o s o f r e r a , s i l e n c i o s a m e n t e , à sua s o m b r a ,
n e l e v i a a p e n a s o rei q u e a p r e c i a v a sua música. " N a q u e l e t e m p o ,
tinha à f r e n t e El Rei, e n o s o u v i d o s o s o m d e u m a o r q u e s t r a
i m e n s a e p r o d i g i o s a " , terá d i t o o c o m p o s i t o r . 2 3 5 O f i l h o c o n f i r m a :
" O s tristes d i a s d e abril d e 1821 ( . . . ) t i v e r e m e c o b e m triste n o
c o r a ç ã o d e m e u Pai". 2 3 6
Será t a l v e z o m o m e n t o d e a v a l i a r o a l c a n c e da p r o t e ç ã o
d i s p e n s a d a p e l o rei a o s e u m e s t r e - d e - c a p e l a . S e m d ú v i d a , D .
J o ã o e s t i m a v a - o e a p r e c i a v a sua o b r a . P r o p o r c i o n o u - l h e
b e n e f í c i o s : d e f e n d e r a s e u i n g r e s s o na C a p e l a Real, r e c o m e n d a r a
a o S e n a d o o a u m e n t o d o v a l o r d e suas a r r e m a t a ç õ e s , c o n c e d e r a
p e n s ã o d e c r i a d o particular — q u e c a b i a a o s c a p e l ã e s — e , n u m
i m p u l s o d e e n t u s i a s m o , c o n d e c o r a r a - o c o m a O r d e m d e Cristo.
Mas t a m b é m e s m a g a v a - o c o m os trabalhos d e c o m p o s i ç ã o
para a Capela, s e m p r e o c u p a r - s e e m r e m u n e r á - l o p o r esse
trabalho sem medida, n e m incluí-lo nos aumentos p e r i ó d i c o s
a t r i b u í d o s a o s s e u s músicos. 2 3 7
N o s trabalhos que lhe eram atribuídos c o m obras
i m p o r t a n t e s n o p e r í o d o 1808-1811, e mais t a r d e p a r a a F a z e n d a
d e Santa C r u z , D . J o ã o , " a c o s t u m a d o a o s m i l a g r e s d a m u s a d o
148
José Maurício Nunes Garcia biografia
n o s s o artista, já n ã o m e d i a o t e m p o , s ó m a r c a v a o t é r m i n o " . 2 3 8
J o s é M a u r í c i o n ã o a s s o c i a v a à f i g u r a d o rei a da a u t o r i d a d e q u e
l h e havia d i t o , t a l v e z c o m estranheza: " O P a d r e n ã o p e d e nada...",
a q u e e s t e r e s p o n d e r a , c u r v a n d o - s e e b e i j a n d o - l h e as m ã o s :
" Q u a n d o V o s s a M a j e s t a d e e n t e n d e r q u e e u m e r e ç o , m e dará". 2 3 9
N ã o se d a v a c o n t a J o s é M a u r í c i o q u e e l e era u m g r a n d e m ú s i c o ,
v i v e n d o h u m i l h a d o na C a p e l a R e a l a o a l c a n c e d e s e u s o l h o s ,
m a s d e s l i g a d o d e sua b e n e m e r ê n c i a .
S i t u a ç õ e s i m p i e d o s a s c r i a d a s e m t o r n o d e sua v i d a c o m o s
músicos, facilmente evitáveis a um gesto mais atento d e D. J o ã o
n ã o i m p e d i r a m a J o s é M a u r í c i o c o n s i d e r a r o rei " a q u e l e q u e m e
e s t i m a v a d e v e r a s e d a v a v a l o r à m i n h a o b r a " . Essa d e v o ç ã o p o r
q u e m n ã o o livrara da sanha d o s c a n t o r e s e m i n i s t r o s b e m c o m o
d o s " S e n h o r e s " d o S e n a d o da Câmara era, na v e r d a d e , u m a
demonstração de humildade afetiva.
Se a v i n d a d a c o r t e p o r t u g u e s a p r o v o c o u p r o b l e m a s
e c o n ó m i c o s para a v i d a d o s h a b i t a n t e s d o R i o d e J a n e i r o , a saída
f o i mais desastrosa ainda, e m c o n s e q u ê n c i a da retirada d o capital.
O estado calamitoso das finanças d o país, à beira d e um c o l a p s o
na v i d a musical, p r e j u d i c o u e n o r m e m e n t e o e s p l e n d o r da C a p e l a .
C o m a saída d o rei, da c o r t e , da alta a d m i n i s t r a ç ã o da c o r o a ,
f i c a v a m v a z i o s o s c o f r e s d o B a n c o d o Brasil.
A Capela Real f o i a g r a n d e vítima desse r e t o r n o c o l e t i v o .
N ã o s ó o brilho das cerimónias f o i atingido c o m o a própria
r e a l i z a ç ã o musical s o f r e u e m r a z ã o das d i f i c u l d a d e s q u e n ã o mais
p e r m i t i a m a e n c o m e n d a d e obras n o v a s para a r e n o v a ç ã o d o
repertório.
Ficara d i f í c i l a o p a í s m a n t e r a p o m p a q u e c a r a c t e r i z a v a as
f e s t a s na C a p e l a R e a l . P a r a m e n t o s p r e c i o s o s r e t o r n a r a m a
P o r t u g a l , assim c o m o p e ç a s d e o r n a m e n t o da C a p e l a — o
a p o s t o l á r i o d e prata — t i r a n d o a m a j e s t a d e da sua a p a r ê n c i a .
D e s a p a r e c e u , p o r f i m , u m d o s mais i m p o r t a n t e s a s p e c t o s s o c i a i s
d a s c e r i m ó n i a s : c a n t a r para o r e i . P r i n c i p i a v a a d e c a d ê n c i a da
C a p e l a R e a l . Durara 13 a n o s . T o r n o u - s e s o m b r i o o a m b i e n t e q u e
fora cenário, o p a l c o — ou a arena, c o m o dizia M o n t e A l v e r n e
— o n d e visitantes estrangeiros se e s p a n t a v a m c o m o n í v e l artístico
das r e a l i z a ç õ e s musicais e sobre elas e s c r e v i a m e x p r i m i n d o o
seu entusiasmo. U m a n o mais tarde, e m p r o v i s ã o , lamentará o
b i s p o " n ã o ser m a i s p o s s í v e l c e l e b r a r e m - s e o s o f í c i o s d i v i n o s
c o m o m e s m o r i g o r d e f o r m a e r e s i d ê n c i a e s o l e n i d a d e d e cantoria
c o m o f o r a d e sua p r i m e i r a i n s t i t u i ç ã o " .
A o p a r t i r para P o r t u g a l , D . J o ã o p r e s e n t e a r a o p a d r e J o s é
M a u r í c i o c o m u m a t a b a q u e i r a q u e tinha o s e u r e t r a t o c e r c a d o d e
brilhantes. 2 4 0 U m p o u c o a n t e s , i m p u l s i o n a d o t a l v e z p e l o s e u
149
Cleofe Person de Mattos
i n s t i n t o d e d i p l o m a t a q u e l h e f i z e r a sentir a h o r a d a r e t i r a d a ,
S i g i s m u n d N e u k o m m d e i x o u o Brasil. T i n h a f i m o d i á l o g o d e
quase cinco anos entre pessoas q u e falavam a mesma linguagem,
q u e n ã o d e i x a r a passar a o p o r t u n i d a d e d e f i r m a r u m t e s t e m u n h o
d e a d m i r a ç ã o p e l a sua p e s s o a e p e l a sua o b r a . U m a i n f o r m a ç ã o
d e N e u k o m m a P o r t o A l e g r e , e m Paris, n o a n o d e 1853, d i z
r e s p e i t o a u m e v e n t o q u e se p r e p a r a v a n o R i o d e J a n e i r o a o q u a l
estava l i g a d o o p a d r e J o s é Maurício: a a p r e s e n t a ç ã o d e A
Criação,
d e H a y d n . N ã o s e p o d e a f i r m a r haja s i d o l e v a d o a t e r m o tal
a p r e s e n t a ç ã o — c o m o já f o i d i t o — e m vista d a s d i f i c u l d a d e s e m
q u e v i v i a o país. O e n t u s i a s m o p e l a o b r a d e H a y d n terá
d e s p e r t a d o e m José Maurício, porém, a idéia de c o m p o r d o i s
s a l m o s " a r r a n j a d o s s o b r e a l g u n s m o t i v o s da g r a n d e o b r a d a
C r i a ç ã o d o M u n d o d o I m m o r t a l H a y d n e o f f e r e c i d o a o Sr. J o ã o
d o s R e i s p e l o s e u a u t o r " . É o q u e e s c l a r e c e o título, q u e p a r e c e
uma f o r m a d e c o m p e n s a ç ã o a o i m p e d i m e n t o d e levar a obra d e
Haydn.
A l é m d o s salmos sobre m o t i v o s d e Haydn, José Maurício
c o m p ô s u m Laudamus
avulso e m dueto d e soprano e contralto.
A o r q u e s t r a é p e q u e n a ( d u a s clarinetas, d u a s t r o m p a s , c o r d a s ) , a
l i n g u a g e m é v i v a z , b a s t a n t e d e s e n v o l t a . A p e ç a , u m Larghetto
o
sia Andante
sostenuto
— s e g u i d o d e um Allegro
moderato
e
Maestoso — é p á g i n a b r i l h a n t e , m a s traz r e s q u í c i o s da i n f l u ê n c i a
q u e ainda cercava a música européia.
U m m o t i v o q u e d e s d e 1810 f r e q u e n t a a o b r a d e J o s é
M a u r í c i o , e e m 1826 será o m o t i v o p r i n c i p a l d e u m a d a s m a i s
i m p o r t a n t e s árias d a Missa de Santa Cecília,
c o n t r a c e n a c o m as
r e m i n i s c ê n c i a s rossinianas q u e nesta se o u v e m . D o n d e se v ê q u e ,
a o utilizar um m o t i v o alheio, o c o m p o s i t o r n ã o abria m ã o d o
q u e r e p r e s e n t a v a u m a p a l a v r a sua, u m tema, u m a constância.Este
150
José Maurício Nunes Garcia biografia
Laudamus
p o d e ter s i g n i f i c a d o u m g e s t o d e s o l i d a r i e d a d e a o
m ú s i c o , a t i n g i d o , c o m o t o d o s os o u t r o s da C a p e l a , p e l a s
d i f i c u l d a d e s d e c o r r e n t e s da falta d e m e i o s e c o n ó m i c o s para f a z ê lo.
O f i l h o , Dr. N u n e s Garcia, c o m e n t a p o s t e r i o r m e n t e a r e a ç ã o
d o p a i , e m f a c e da s i t u a ç ã o g e r a l . O m e s t r e - d e - c a p e l a n ã o f i c o u
a p é n a s mais triste, f i c o u " m a i s c a s e i r o e s o s s e g a d o " . S e m trabalho,
c o m a cabeça p o v o a d a por lembranças d o passado, marcado pela
tristeza da partida d e D . J o ã o e p e l a s d i f i c u l d a d e s f i n a n c e i r a s , o
p a d r e José Maurício dispôs-se a e s c r e v e r uma o b r a teórica para
o e s t u d o d e música d o s seus f i l h o s : A p o l i n á r i o José, c o m 14 a n o s ,
e o f u t u r o Dr. N u n e s G a r c i a , c o m 13. O Compêndio
de
música
c h e g o u a o s n o s s o s d i a s e m c ó p i a d a t a d a 1864 e o s e g u i n t e
título: 2 4 1
Compendio
de Musica
- e Methodo
de Pianoforte
- do ST P°
M" Joze Mauricio
Nunes Garcia.
Expressam."
escripto Para o Dr.
Nunes Garcia
e seu irmão Appolinario
- em - 1821.
O v o l u m e , c o m p á g i n a s n u m e r a d a s d e 2 e m 2, a t i n g e 56
p á g i n a s . O Compêndio
e o Método
de pianoforte
o c u p a m as
p r i m e i r a s 35 p á g i n a s . A s d e n ú m e r o 36 até 56 e s t ã o o c u p a d a s
c o m obra d e outro autor:
Estudos de Harmonia
do Dr. Nunes Garcia—
dirigidos
—
pelo Sr. Romualdo
Pagani
sobre o Método
dei Maestro
Asioli.
12.1.1864.
L i m i t a d o a g u i a r o e s t u d o d o s f i l h o s , o Compêndio
tem
p r e t e n s õ e s modestas. Embora o Dr. N u n e s Garcia a f i r m e n o s
Apontamentos
biográficos
q u e o p a i n ã o o teria e s t i m u l a d o a
seguir a carreira de músico, o s dois filhos tiveram atividade
m u s i c a l . A p o l i n á r i o era o r g a n i s t a ; e m 1824 t o c a v a na i g r e j a d a
L a m p a d o s a . O Dr. N u n e s G a r c i a , d e q u e m já f o i d i t o ter d e i x a d o
u m v o l u m e d e c o m p o s i ç õ e s intitulado Mauricinas—
t r e c h o s para
p i a n o , p i a n o e canto, valsas, c a n ç õ e s , r o m a n c e s — até u m a missa,
ensinava música e p i a n o e tocava ó r g ã o e m várias igrejas d o Rio
d e Janeiro: Sacramento, São Francisco d e Paula, para ajudar o
pai q u a n d o este f i c o u s e m recursos.
O Compêndio
de Música busca p r o p o r c i o n a r o i n d i s p e n s á v e l
a p o i o à prática musical. A s E n t o a ç õ e s s ã o e x e r c í c i o s i n t r o d u t ó r i o s
a o e s t u d o d o s o l f e j o , c o m a c o m p a n h a m e n t o d e p i a n o . Insiste na
d i v i s ã o r í t m i c a da m ú s i c a . A i n i c i a ç ã o a o i n s t r u m e n t o —
Método
de pianoforte
— l e v a as m ã o s d o s a l u n o s a o t e c l a d o , e é
c o m p l e t a d o c o m o d e d i l h a d o nas e s c a l a s m a i o r e s e m e n o r e s .
Em t o d o s o s p o n t o s , a p r á t i c a a c o m p a n h a d e p e r t o a t e o r i a .
J o s é M a u r í c i o v a l o r i z a sua o b r a t e ó r i c a c o m p e q u e n o s
trechos v i s a n d o familiarizar os f i l h o s c o m a p r o g r e s s i v a
151
Cleofe Person de Mattos
d i f i c u l d a d e pianística. São t r e c h o s e x t r a í d o s d e o b r a s suas
c o l h i d a s a q u i e acolá a o s a b o r d e suas p r e f e r ê n c i a s , o u r e c o r r e n d o
a o u t r o s c o m p o s i t o r e s : H a y d n , Rossini, Mozart. É c h e g a d o o
m o m e n t o d o c o m p o s i t o r , c r i a n d o l i v r e m e n t e as Lições ( 1 2 ) . as
Fantasias
( 6 ) e três
Variações.
U m c o n f r o n t o entre a " a l e g o r i a " criada p e l o Dr. N u n e s
G a r c i a e i m p r e s s a n a s Mauricinas
( 1 8 5 1 ) , e a data da c ó p i a d o
Compêndio
( 1 8 6 4 ) f a z c r e r n ã o seja o r i g i n a l o t í t u l o d a d o a o
Compêndio
de música.
O f i l h o registra:
Elementos
d'Arte da
Música
Compêndio
de
Harmonia
Método Prático
para
Piano
Regras de
Acompanhamento
O Tratado
de harmonia,
assim c o m o o d e
Contraponto,
a m b o s escritos nos últimos t e m p o s de vida, desapareceram d e
sua casa n o dia d o s e u f a l e c i m e n t o , s e g u n d o e s c r e v e M a n u e l d e
Araújo Porto-Alegre. Junto c o m esses v o l u m e s , acrescenta o
m e s m o a u t o r , d e s a p a r e c e u i g u a l m e n t e u m a f o l h a d e p a p e l na
qual estava traçado "um círculo m o v e d i ç o n o qual estavam
m a r c a d o s t o d o s os tons q u e , m o v i d o e m qualquer sentido q u e
f o s s e , apresentava e m roda um sistema c o m p l e t o d e h a r m o n i a " .
Esses t e s t e m u n h o s a u m e n t a m a p o s s i b i l i d a d e d e n ã o ser o
Compêndio
de música
e o Método
de pianoforte
os únicos
t r a b a l h o s t e ó r i c o s d o p a d r e J o s é Maurício. 2 4 2
N ã o t e r m i n a r á o a n o 1821 s e m q u e a f r a c a e c o n o m i a d o
p a d r e - m e s t r e s o f r a o p r i m e i r o e m b a t e d e n t r e o s v á r i o s q u e terá
d e s u p o r t a r a t é o f i m da v i d a . F a c e às d i f i c u l d a d e s q u e e s t a v a
a t r a v e s s a n d o , c o m vistas à c o n t e n ç ã o d e d e s p e s a s , D . P e d r o
d e t e r m i n o u q u e o s b e n e f í c i o s c o n c e d i d o s p e l o g e s t o liberal d e
D. João VI fossem diminuídos.
A m e d i d a , d e c i d i d a abruptamente, causou i m p a c t o : D . P e d r o
e l a b o r o u uma r e l a ç ã o d e n o m e s d e p e s s o a s q u e g o z a v a m desse
b e n e f í c i o . P ô s a o l a d o a importância q u e lhes caberia para o
f u t u r o . E s c l a r e c e , p o r é m , q u e teriam p e r d i d o o b e n e f í c i o a q u e l a s
p e s s o a s c u j o s n o m e s n ã o e s t i v e s s e m i n c l u í d o s na dita r e l a ç ã o .
Seguir-se-iam outras relações, c o m outros n o m e s .
A p r i m e i r a r e l a ç ã o incluía, e n t r e o u t r o s n o m e s , o d e M a r c o s
P o r t u g a l , q u e f i c o u c o m 305$000; o c ó n e g o E l e u t é r i o J o s é F e r r ã o ,
c o m 100$000, e A n a s t á c i o da M a d r e d e D e u s ( e n c r e s p a d o r d a
C a p e l a ) c o m 200$000.
O n o m e d e José Maurício n ã o constou dessa primeira
r e l a ç ã o , n e m d a s s e g u i n t e s . Era o sinal d e q u e l h e f o r a retirada a
152
José Maurício Nunes Garcia biografia
r a ç ã o d e c r i a d o p a r t i c u l a r q u e l h e era d a d a para a l i m e n t a ç ã o ,
c o n c e d i d a e m 1809 p o r D . J o ã o V I , r a ç ã o c o n v e r t i d a e m 32$000
m e n s a i s p o r n ã o s u p o r t a r a i n s o l ê n c i a c o m q u e era s e r v i d o na
U c h a r i a . Para o m e s t r e - d e - c a p e l a s i g n i f i c a v a ter d e v i v e r c o m
m a i o r d i f i c u l d a d e , s i t u a ç ã o d e q u e n ã o sairá j a m a i s .
A s medidas administrativas q u e D. P e d r o tomou, posteriormente,
demonstram q u e nada era d e c i d i d o a o acaso. A d e c i s ã o ú n i c a tinha
p o r o b j e t i v o d i m i n u i r o s g a s t o s p ú b l i c o s , m a s f a z i a - o s arbitrária
e i n c o n s e q u e n t e m e n t e , s e g u n d o seu p r ó p r i o f e i t i o . P r e m i a v a o u
d e f e n d i a p e s s o a s às q u a i s o p a í s n a d a d e v i a , o u n ã o t i n h a m u m
passado d e serviços prestados à música, à Capela, a o rei. Nesse
p o n t o , D . P e d r o d e m o n s t r a total d e s a p r e ç o p e l o v e l h o p a d r e m e s t r e . Trinta a n o s m a i s tarde, o Dr. N u n e s Garcia m o s t r a v a q u ã o
v i v o era o s e u r e s s e n t i m e n t o d i a n t e dessa injustiça, e e s c r e v i a
a o e n s e j o d a i n a u g u r a ç ã o da estátua d e D. P e d r o n o R o c i o : " O h !
essa estátua e q u e s t r e n ã o m e fará c o m e m o r a r o r e i n a d o d e u m
p r í n c i p e q u e tão surdo f o i aos g e m i d o s d e um v e l h o servidor d e
s e u pai." 2 4 5
Carregando dificuldades políticas e económicas, o país
c u m p r i a m a r c h a direta p a r a t o r n a r - s e i n d e p e n d e n t e d e P o r t u g a l .
A v o l u m a v a m - s e o s atritos e n t r e b r a s i l e i r o s e p o r t u g u e s e s , q u e
e m 1822 se t o r n a r ã o i n t r a n s p o n í v e i s .
153
Terceira
parte
(1822-1830)
1822
A carta documento de
José Maurício
a D. Pedro I
A a g i t a ç ã o p o l í t i c a tomara conta da c i d a d e e n ã o se
aquietara c o m o retorno d o rei para Portugual. A luta entre
brasileiros e portugueses ainda não havia terminado. N o m e a d o
príncipe regente, D. P e d r o transformou-se n o í d o l o que as suas
qualidades políticas souberam explorar até nova crise, n o v e anos
mais tarde, que determinará o seu afastamento d e f i n i t i v o d o
Brasil.
A o m e s m o t e m p o que esses acontecimentos o e n v o l v e m , o
príncipe encontrava a oportunidade d e dar forma concreta à sua
p a i x ã o pela música, sempre manifestada. 2 4 4 C o i n c i d e o p e r í o d o
intenso de sua criação musical com o í m p e t o e o destemor de
suas atitudes.
Continuavam as expansões de nacionalismo entre brasileiros
e portugueses. A agitação nas ruas entrara nos teatros. O Real
Teatro transformara-se em tribuna para manifestações partidárias
d e r e g o z i j o ou de o p o s i ç ã o . O s acontecimentos se precipitavam.
Multiplicava-se a produção de hinos com títulos sugestivos: A
pátria desoprimida
I, Portugueses venturosos. T e x t o s e m q u e os
c o m p o s i t o r e s n ã o deixam nenhuma dúvida sobre o d e s e j o de
independência, c o m o será o hino d e Evaristo da Veiga: fá podeis,
filhos da pátria, cantado em São Paulo à época da Independência
por d o i s c o m p o s i t o r e s q u e utilizaram o m e s m o texto: Marcos
Portugal e o p r ó p r i o D. P e d r o . O h i n o d o futuro imperador terá
a c o n s a g r a ç ã o grata d o s b r a s i l e i r o s e m t e m p o s n ã o m u i t o
longínquos.
D. P e d r o não via, aliás, outra alternativa: sua obstinação
n o c a m i n h o que determinara para si passava pela independência
d o Brasil.
A situação financeira desencadeada d e s d e os primeiros
m e s e s d e seu g o v e r n o e x i g i a m m e d i d a s d e c o n t e n ç ã o d e
despesas. Em certos casos estas eram impiedosas porque atingiam
classes e m p o b r e c i d a s . O m e i o musical, prejudicado c o m a saída
d o s músicos q u e acompanharam D. J o ã o para Portugal, t e v e as
atividades da Real Capela reduzidas por outro alvará, de 17 d e
m a i o de 1822, q u e lhes diminuiu a importância, limitando à
m e t a d e os o r d e n a d o s dos seus músicos.
D. P e d r o , c o n q u a n t o entranhadamente músico, possuía
t e m p e r a m e n t o impetuoso. Suas c o m p o s i ç õ e s , o n d e p r e d o m i n a m
os hinos, refletem, aliás, esse a s p e c t o de sua natureza, p o u c o
157
Cleofe Person de Mattos
s e n s í v e l à i n t i m i d a d e e a o r e c o l h i m e n t o . N ã o se c o m p r e e n d e ,
p o r isso, t o m a s s e m e d i d a s contrárias a o q u e f o r a o m a i s b r i l h a n t e
c e n t r o d e r e a l i z a ç õ e s musicais d o Brasil até essa é p o c a , r e d u z i n d o
à m e t a d e o s v e n c i m e n t o s d e seus músicos, e ainda assim d e i x a n d o
d e p a g a r essa m e t a d e . A s d i f i c u l d a d e s a t i n g e m a t o d o s .
N e s s a o c a s i ã o r e u n i r a m - s e o s m ú s i c o s da C a p e l a R e a l e
solicitaram a D . P e d r o q u e lhes f o s s e m saldados os atrasados
p a r a se l i v r a r d e tal c o n s t r a n g i m e n t o . O s s a l á r i o s d o s m ú s i c o s da
Real Câmara, i g u a l m e n t e atingidos, r e v e l a m - s e n o p e d i d o a D.
P e d r o p a r a q u e p a s s e m a ser p a g o s p e l a f o l h a da R e a l C a p e l a ,
q u e e l e s a l e g a m ser " i n t e i r a m e n t e p a g o s " . 2 4 5
O t e s o u r e i r o da R e a l C â m a r a p r e o c u p a d o c o m a s i t u a ç ã o
e m q u e f i c a r i a m a q u e l e s q u e s ã o a o m e s m o t e m p o da C â m a r a e
d a C a p e l a — J o s é F e r n a n d e s da T r i n d a d e , A l e x a n d r e B a r e t , J o s é
M o s m a n n , L e o n a r d o da M o t a e o o r g a n e i r o A n t ô n i o J o s é d e A r a ú j o
— requerem a D. Pedro que despachou a 3 d e outubro: " C o b r e m
o o r d e n a d o d a C â m a r a e a g r a t i f i c a ç ã o da C a p e l a p e l a f o l h a d a
dita." 2 4 6
O p a d r e J o s é M a u r í c i o e n v e l h e c i a . Estava m a i s c a n s a d o e
mais d o e n t e . N ã o m u i t o distante d o dia e m q u e n ã o mais
r e c o n h e c e r á suas p r ó p r i a s c o m p o s i ç õ e s . 2 4 7 É n e s s e m o m e n t o q u e
o mestre-de-capela, em grande penúria, s e m receber, c o m o os
o u t r o s m ú s i c o s , o s u f i c i e n t e para v i v e r , d i r i g e - s e a D . P e d r o , e
n u m a c o m o v e n t e e x p o s i ç ã o , c o m s i m p l i c i d a d e m a s c o m tristeza,
c o n t a a história d o s e u tributo d e t r a b a l h o à c i d a d e , à Sé, à C a p e l a
R e a l . S o l i c i t a , p o r f i m , a t í t u l o d e r e m u n e r a ç ã o p e l a aula d e
m ú s i c a , há q u a s e 28 a n o s e m f u n c i o n a m e n t o , l h e seja c o n c e d i d o
o e q u i v a l e n t e da r a ç ã o q u e l h e d e r a D . J o ã o e m 1809, r e t i r a d a
e m f i n s d e 1821.
N e s s e d o c u m e n t o , d o l o r o s o , p u n g e n t e m e s m o , mas
v e r d a d e i r o , historia t o d a a sua v i d a f u n c i o n a l , t o d a e l a v o l t a d a
p a r a o s i n t e r e s s e s da m ú s i c a e d a C a p e l a R e a l na carreira d e
servidão q u e escolhera — o curso d e música e a f u n ç ã o d e
arquivista — e alude à d o e n ç a que, p o r e x c e s s o d e trabalho,
d e i x o u - o " d e t e r i o r a d o " até o p r e s e n t e .
N o d e s e n v o l v i m e n t o da carta p e r c e b e - s e q u e D . P e d r o já
e m p e n h a r a sua p a l a v r a d e q u e daria o e q u i v a l e n t e da r a ç ã o " p o r
o u t r o título". A transcrição d e s s e lancinante d o c u m e n t o v a l e c o m o
um depoimento biográfico:
" O P e . M e s t r e J o s é M a u r i c i o N u n e s G a r c i a actual M c da R.
C a p e l a s e r v e n e s t e l u g a r q u a s i a v i n t e e o i t o a n n o s , a saber,
m a i s d e t r e z e na Sé; a m a i s d e q u a t o r z e na R. C a p e l a : o
O r d e n a d o d e s e i s c e n t o s m i l r.s q u e o S u p p c t e m , h e c o m o
158
José Maurício Nunes Garcia biografia
C o m p o s i t o r , s e r v i n d o gratuitamente e m outras o c c u p a ç o i n s ,
d e q u e S.M. o e n c a r r e g a v a , e v e m aser: Servia e a i n d a s e r v e
d e A r c h i v i s t a . S é r v i o q u a s i t r e z a n n o s d e O r g a n i s t a ; era
o C o n t a d o r e p a g a d o r d e t o d a a O r q u e s t r a , q u e se c h a m a v a
d e f o r a a l é m d o s M u z i c o s da R. Camara p a r a as Festas da
R . C a p e l a , o q u e l h e c u s t a v a in m e n ç o t r a b a l h o ; o m e s m o
lugar d e Mc. d e C a p e l a ou R e g e n t e das M u z i c a s e x e r c i a - o
s e m q u e e x i g i c e d e S.M. p r o d u t o a l g u m d e suas f a d i g a s .
A l é m d i s t o t e v e , e t e m h u m a aula p u b l i c a d e M u z i c a H á
quazi vinte e oito annos, d a n d o Liçoins a m o c i d a d e q u e
c o m e l l e q u e r a p r e n d e r esta A r t e ; o S u p p e d e dia e d e n o i t e
t r a b a l h o u s e m p r e c o m e x a c t i d ã o nas c o m p o s i ç o i s q u e S.M.
l h e m a n d a v a f a z e r p a r a as F u n ç o i n s da R . C a p e l a a n t e s
e d e p o i s d e chegar o Archivo d e Muzica d e Queluz, d o que
l h e r e s u l t o u f i c a r d e t r i o r a d o nasua s a ú d e a t h e o p r e z e n t e ;
v i o e m t o d o este t e m p o serem augmentados muitos Muzicos
d o C o r o da R . C a p e l a p o r d u a s o u t r a z v e z e s , e o S u p p c s e m
a u g m e n t o a l g u m , p o r n ã o q u e r e r e m c o m o d a r a S.M., c o m o
V . A . R . b e m o s a b e ; o b t e v e h u m a R a ç ã o inteira d e C r i a d o
particular, q u e avaliada p e l o p r e ç o d o s g e n e r o s d a q u e l e
t e m p o m o n t a v a a o u t r o s s e i s c e n t o s m i l r 5 .: esta R a ç ã o , f o i l h e tirada e m D e z e m b r o d o a n n o p r o x i m o p a ç a d o e h á sette
m e z e s q u e o S u p p c s o f r e nas n e c e s s i d a d e s p o r esta C a u s a :
e c o m o V . A . R . p e l a Sua b o n d a d e se d i g n o u d a r - l h e asua A .
palavra d e q u e daria o e q u i v a l e n t e da R a ç ã o p o r o u t r o título,
portanto.
P.a V . A . R . q u e i r a f a z e r a o S u p p e a G r a ç a d e m a n d a r p o r
Seu R e a l D e c r e t o q u e se l h e d ê c o m o o r d e n a d o da A u l a d e
M u z i c a p u b l i c a q u e dá g r a t u i t a m e n t e o e q u i v a l e n t e d e Sua
R a ç ã o o u p o r o u t r o q u a l q u e r titulo, q u e f o r m a i s d o R.
agrado de V.A.R.
E.R.M."
N e s s e documento 2 , 1 8 e, s o b r e t u d o , n o i n f o r m e d e m o n s e n h o r
Fidalgo, a q u e m D. P e d r o incumbiu d e informar sobre o p e d i d o
d o p a d r e J o s é M a u r í c i o , e s t a m p a - s e c l a r a m e n t e a injustiça d a
d e s i g u a l d a d e d e t r a t a m e n t o q u e o c e r c o u s e m p r e . Se é v e r d a d e
q u e as d i f i c u l d a d e s d e v i d a se a g r a v a r a m a p ó s 1821, o d o c u m e n t o
d e i x a c l a r o q u e f o r a s e m p r e mal r e m u n e r a d o ; sua m o d é s t i a t a n t o
q u a n t o o respeito e amizade p o r D. João V I i m p e d i u - o s e m p r e
d e r e i v i n d i c a r q u a l q u e r m e l h o r i a e m seu b e n e f í c i o .
Monsenhor Fidalgo reconhece que o "ordenado é
m e s q u i n h o " , e q u e " h e c e r t o q u e e l e h e d o e n t e " , m a s nas suas
159
Cleofe Person de Mattos
respostas p e r c e b e - s e q u e a palavra n e m s e m p r e foi exata; n e m
sempre foi verdadeira:
" q u e J o s é M a u r i c i o tinha [ d e i o r d e n a d o , na a n t i g a Sé trinta
mil reis p o r a n n o c o m o mestre d e c a p e l a ( ! ) ; e para d e s p e s a s
d a S e m a n a Santa e o u t r a s f e s t i v i d a d e s se l h e d a v ã o m a i s
q u a r e n t a e o i t o m i l reis, c o m o c o n s t a d o L i v r o d e D e s p e s a s
da Fabrica. ( . . . ) athé q u e v e i o o A r c h i v o d e Muzica d e
Q u e l u z ; e d e s d e e n t ã o f o i S.M. s e r v i d o m a n d a r - l h e d a r o
o r d e n a d o d e seissentos mil reis annuais c o m o Mestre d e
Capela e igualmc compositor. O Supplicante continuou a
r e q u e r e r a l g u m a c o i s a m a i s ; e e s t e A u g u s t o Snr. f o i s e r v i d o
m a n d a r - l h e dar h u a r a ç ã o d e Particular, a q u a l f o i V . A . R .
s e r v i d o m a n d a r tirar a i n d a a l g u m t e m p o d e p o i s d e s e r e m
tiradas aos outros q u e a tinhão ( ! ) ; h e e n t ã o q e l l e f i c o u
u n i c a m e n t e c o m seiscentos mil reis."
D o i s p o n t o s são absolutamente inverídicos. José Maurício
n ã o p o d e r i a r e c e b e r 30$000 c o m o m e s t r e - d e - c a p e l a . E q u e
"continuasse a requerer alguma coisa mais" é uma a f i r m a ç ã o q u e
s e o p õ e a o f e i t i o p e s s o a l d o p a d r e - m e s t r e , q u e é inútil q u a l q u e r
a r g u m e n t o . P o r fim, d i z o inspetor r e f e r i n d o - s e à r a ç ã o retirada
p o r D . P e d r o : " f o i V A R s e r v i d o m a n d a r tirar a i n d a a l g u m t e m p o
d e p o i s d e s e r e m tirados d o s o u t r o s q u e a tinham". O s d o c u m e n t o s
aí estão, para c o n t r a d i z ê - l o .
C o n t i n u a o i n s p e t o r da C a p e l a I m p e r i a l c o m o a r g u m e n t o
decisivo, q u e impediria qualquer benefício ao mestre-de-capela.
" H e v e r d a d e q u e o supplicante he d o e n t e , e n ã o d u v i d o
lhe seja m e s q u i n h o o o r d e n a d o , c o m o diz; p o r e m d a n d o s e - l h e a l g u m a c o u s a mais c o m o o r d e n a d o , o s o u t r o s q u e
s e r v e m q u e r e r ã o a l e g a r a m e s m a justiça, e se v e r á V . A . R .
p e r s e g u i d o : m a s p o r o u t r o q u a l q u e r titulo, V A R o q u i s e r
i n d e n i s a r , isto p e n d e da innata P i e d a d e d e V . A . R . - H e o
q u e p o s s o i n f o r m a r a V.A.R. q u e m a n d a r á o q u e f o r s e r v i d o .
C a p e l a R e a l , 22 d e j u l h o d e 1822."
E c o m estas p a l a v r a s m o n s e n h o r F i d a l g o f i c a e m p a z c o m a
sua c o n s c i ê n c i a .
D e p o i s da carta, D. P e d r o n ã o p o d i a i g n o r a r a falta d e s a ú d e
e as p r o p o r ç õ e s d a s n e c e s s i d a d e s d o p a d r e J o s é M a u r í c i o ; t u d o
l h e tinha s i d o e x p o s t o , c o m c l a r e z a e n a t u r a l i d a d e . T a m b é m n ã o
p o d i a i g n o r a r q u e e s s e v e l h o s e r v i d o r q u e l h e e s c r e v e r a essa
carta s i m p l e s , mas v e r d a d e i r a , d e i x a r a c l a r o q u e f o r a i m o l a d o
160
José Maurício Nunes Garcia biografia
n o t r a b a l h o da Real C a p e l a — o q u e v i m o s n o s c a p í t u l o s
r e f e r e n t e s a 1809, 1810 e 1811 — s e m se q u e i x a r , t o l h i d o n o s e u
r e s p e i t o a o rei.
A carta nunca t e v e resposta n e m d e s p a c h o . Caíra n o r o d o p i o
da f u n ç ã o p o l í t i c a , a g o r a e m outra d i r e ç ã o .
N o R e a l T e a t r o S ã o J o ã o , q u e c o n t i n u a v a a ser o c e n á r i o
p o l í t i c o para p r o n u n c i a m e n t o s e discursos nas noites de
e s p e t á c u l o , t r a v a v a - s e outra luta, q u e c o n d u z i r i a D . P e d r o d e
A l c â n t a r a a o t r o n o c o m o i m p e r a d o r d o Brasil.
A p ó s u m a carreira p o l í t i c a f u l m i n a n t e , D . P e d r o é a c l a m a d o
i m p e r a d o r . Em s o l e n e c e r i m ó n i a c o m e m o r a t i v a , o Brasil e n t r a v a
e m outra f a s e a o s o m d o Te Deum d e 1820, a o b r a o f e r e c i d a a D.
J o ã o V I . N o s m o m e n t o s g l o r i o s o s d a h i s t ó r i a d o Brasil, s e r ã o d e
sua a u t o r i a as o b r a s o u v i d a s na I m p e r i a l C a p e l a , c o m e m o r a n d o
os grandes acontecimentos.
A c o r o a ç ã o , n o dia I a d e d e z e m b r o , o u t r o e s p l e n d o r o s o
e s p e t á c u l o , será a c o m p a n h a d a na c e r i m ó n i a p e l a Missa
do
imperador,
c a n t a d a p e l o s m ú s i c o s da Real C a p e l a e Real
Câmara. 2 4 9
O prestígio d e Marcos Portugal c o m o mestre-compositor
t o r n a r a - s e i n s u f i c i e n t e p a r a a s s e g u r a r - l h e a h o n r a d e c o m p o r as
o b r a s p a r a t ã o i m p o r t a n t e s s u c e s s o s da v i d a d e s e u e x - a l u n o .
À m a r g e m da a g i t a ç ã o na c i d a d e , o p a d r e J o s é M a u r í c i o
assistia, c o m tristeza, à i n d i f e r e n ç a c o m q u e era tratada a f i g u r a
d e D . J o ã o V I , o q u e l h e p a r e c i a injusto. A i n d a assim, d u a s obras,
s e m e m b a r g o d e c o n o t a ç õ e s tristes, acrescentam-se a sua b a g a g e m
d e c o m p o s i t o r , e m 1822. U m a s o b r e v i v e e m partitura a u t ó g r a f a :
a Novena do SSm° Sacramento,
a 4 vozes, rabecas, clarineta,
hua
trompa, violoncellos
e Contrabasso.
F o i c o m p o s t a n o a n o d e 1822
a o e n s e j o d a e n t r a d a d o p a d r e - m e s t r e na I r m a n d a d e d o Sacram e n t o ( 1 7 d e m a r ç o ) . O b r a e x t e n s a , a Novena i n c l u i u m c â n t i c o
i n i c i a l — O Salutaris—
e m s o l o d e s o p r a n o , e u m Tantum
ergo.
1823-1825
Anos de
dificuldades
financeiras
no pais
O s a n o s 1823, 1824 e 1825 n ã o s ã o f é r t e i s e m n o v a s
c o m p o s i ç õ e s . O Rio d e Janeiro reunia, n o m o m e n t o , a l é m d o s
161
Cleofe Person de Mattos
três mestres-de-capela, alguns c o m p o s i t o r e s , l i g a d o s o u n ã o à
i m p e r i a l C a p e l a , q u e já t i n h a m d a d o sinal d e a l g u m t a l e n t o . A
e n u m e r a ç ã o d e v e ser i n i c i a d a c o m F r a n c i s c o M a n u e l da Silva —
o aluno q u e mais d e perto seguiu os caminhos traçados p e l o
m e s t r e , c o m p o n d o muita música r e l i g i o s a , a l é m d e hinos,
m o d i n h a s e cânticos r e l i g i o s o s — , P e d r o T e i x e i r a d e Seixas, Sousa
Q u e i r ó s , s e m falar n o s n u m e r o s o s c o m p o s i t o r e s d e modinhas,
a l g u n s c é l e b r e s , c o m o G a b r i e l F e r n a n d e s da T r i n d a d e , L i n o J o s é
N u n e s e o u t r o s m a i s m o d e s t o s : p o r q u e aí a seara era g r a n d e .
Sem deixar de admitir q u e o extravio de obras possa
e x p l i c a r , a l é m da c o n j u n t u r a d o p a í s , a e s c a s s e z na p r o d u ç ã o
m a u r i c i a n a , a ú n i c a o b r a i m p o r t a n t e q u e se c o n h e c e e m 1823 é
a Missa abreviada,™
c o m p o s t a d e Kyrie e Gloria,
para c o r o ,
solistas e orquestra ( c o r d a s , d o i s clarinetes e duas t r o m p a s ) .
O a n o foi, sobretudo, d e c o m e m o r a ç õ e s políticas. O q u e
s u b e n t e n d e f e s t i v i d a d e s na R e a l C a p e l a , a q u e u m d e c r e t o d e r a
outra d e n o m i n a ç ã o : C a p e l a I m p e r i a l . T o d a s as c e r i m ó n i a s e r a m
a c o m p a n h a d a s p o r m ú s i c a c o m p o s t a p e l o i m p e r a d o r . N o d i a 25
d e m a r ç o c o m e m o r o u - s e o j u r a m e n t o da Constituição. O p r i m e i r o
a n i v e r s á r i o da I n d e p e n d ê n c i a , a 7 d e s e t e m b r o , t e v e f e s t a e m
a ç ã o d e g r a ç a s e t a m b é m o d i a 12 d e o u t u b r o , a n i v e r s á r i o d e D .
P e d r o e dia "da g r a n d i o s a e l e v a ç ã o d o p a í s à c a t e g o r i a d e
I m p é r i o " . C o m e m o r a ç õ e s q u e se faziam e m grande estilo, c o m
f o g o s d e a r t i f í c i o , r e p i q u e d e s i n o s na c i d a d e , g u a r d a d e h o n r a ,
c o m p l e m e n t a ç õ e s b e m a o estilo d o imperador.
As dificuldades económicas levaram
músicos
e
instrumentistas a q u e r e r ingressar na C a p e l a I m p e r i a l , a p e s a r d o s
precários vencimentos, ou mesmo sem nenhum estipêndio. É o
c a s o d o p a d r e J o ã o J o s é d e Faria, 251 e m 11 d e n o v e m b r o , d e
V i c e n t e Ferreira Pontes.252 N o m e s m o a n o D. P e d r o mandara
a d m i t i r d o i s c a n t o r e s : F r a n c i s c o A n t ô n i o Franco 2 5 3 e r e m e t e u o
p e d i d o d e J o ã o d o s S a n t o s Viana 2 5 4 q u e d e s e j a v a s e r a d m i t i d o
p a r a t o c a r c l a r i m , c a r g o v a g o na o r q u e s t r a . Em 4 d e d e z e m b r o
L i n o J o s é N u n e s f o i n o m e a d o para a C a p e l a I m p e r i a l s u b s t i t u i n d o
o instrumentista J o s é M o s m a n n , q u e f a l e c e r a . T e r t u l i a n o d e S o u z a
R a n g e l , a l e g a n d o q u e servia há 12 a n o s s e m e s t i p ê n d i o , p e d i u o
l u g a r d e " t i m b a l e i r o " . T a m b é m q u e r i a ser t i m b a l e i r o J o a q u i m
T o m á s d a Cantuária, d e q u e m i n f o r m a v a o i n s p e t o r : " C a n t u á r i a
já t o c o u o i n s t r u m e n t o q u a n d o f u n c i o n a v a na c a p e l a c o m o a l u n o
d e José Maurício. M u d a n d o d e mestre, d e i x o u a capela, o n d e s ó
vinha tocar q u a n d o lhe pagavam."255
Para c o m p e n s a r nesses a n o s a escassez d e ó p e r a s m o n t a d a s ,
c r i o u - s e n o R i o d e J a n e i r o u m a S o c i e d a d e c u j o o b j e t i v o era
p r o p o r c i o n a r a a u d i ç ã o d e árias d e ó p e r a : o s A c a d é m i c o s
162
José Maurício Nunes Garcia biografia
Filarmónicos. Fabrício Piacentini, cantor n o Imperial Teatro São
P e d r o d e Alcântara, à frente de u m g r u p o d e cantores, dirigia os
" a c a d é m i c o s " . Q u a n d o havia orquestra, os a c o m p a n h a m e n t o s
faziam-se sob a direção de P e d r o Teixeira de Seixas. As
assinaturas e r a m f e i t a s p a r a 25 c o n c e r t o s . N o a n o d e 1823 d o i s
c o n c e r t o s f o r a m r e a l i z a d o s na sala da rua d o C o n d e , 195, o n d e
L o u r e n ç o L a c o m b e tinha a a c a d e m i a d e d a n ç a . A i n d a e m 1823
a p r e s e n t o u - s e a harpista M m e . J o l y — d e há m u i t o instalada n o
R i o d e J a n e i r o , e q u e já d e r a c o n c e r t o c o m o r q u e s t r a — q u e s e
e x i b i u c o m um trio curiosamente f o r m a d o d e harpa, t r o m p a e
f a g o t e . N o a n o d e 1824 c o n t i n u a r ã o a a p r e s e n t a r - s e , já e n t ã o n o
I m p e r i a l T e a t r o d e São P e d r o d e A l c â n t a r a . A n u n c i a r a m u m a
c a n t o r a f r a n c e s a n o Diário
do Rio de Janeiro,
o periódico que
s u b s t i t u i u a Gazeta
do Rio de Janeiro.
A p r o g r a m a ç ã o era
c o n s t i t u í d a d e árias, d u o s , t e r c e t o s e c o r o s .
Outros n o m e s são citados um p o u c o mais tarde (1826), d e
i n s t r u m e n t i s t a s p e d i n d o i n g r e s s o na Capela. 2 5 6
Observe-se, contudo, que a Capela Imperial, mesmo
d i m i n u í d a , dispunha d e um n ú m e r o r a z o á v e l d e cantores: 42
v o z e s ( 8 s o p r a n o s , 7 c o n t r a l t o s , 11 t e n o r e s , e 16 b a i x o s ) . E 18
instrumentistas, três organistas e u m o r g a n e i r o . O castrato A n t ô n i o
C i c c o n i a l c a n ç o u n o v o e n g a j a m e n t o e m 1824.
O incêndio
do Real Teatro
São João
U m acidente inesperado provocou um incêndio d e enormes
p r o p o r ç õ e s n o Real T e a t r o São J o ã o e m 1825, d e i x a n d o - o r e d u z i d o
às q u a t r o p a r e d e s . Era n o i t e d e e s p e t á c u l o e u m a g r a n d e p l a t é i a
— i n c l u s i v e o i m p e r a d o r e D . L e o p o l d i n a — f o r a assistir a u m
d r a m a : A vida de São Hermenegildo.
O p ú b l i c o já se retirara
q u a n d o as c h a m a s i l u m i n a r a m o c é u .
P a r a o s h a b i t a n t e s d o R i o d e J a n e i r o f o i triste a d e s t r u i ç ã o
d o teatro, mas a música brasileira f o i diretamente atingida p o r
e s s e i n c ê n d i o c o m o s e u r e s u l t a d o : d e s a p a r e c e u nas c h a m a s o
m a t e r i a l d a ú n i c a ó p e r a q u e J o s é M a u r í c i o e s c r e v e u : Le due
Gemelle.
Seria a p r i m e i r a ó p e r a d e a u t o r b r a s i l e i r o . O m a t e r i a l
c o m "as p a r t e s c a n t a n t e s e as p a r t e s d e o r q u e s t r a " f o i r e d u z i d o a
cinzas. D o i s registros existem s o b r e o material da ó p e r a : n o
A r q u i v o N a c i o n a l e n o M i n i s t é r i o da F a z e n d a , t a l v e z n o " R e g i s t r o
o u I n v e n t á r i o d o R e a l T e s o u r o " ( T a u n a y , p . 1 1 9 ) . A partitura
163
Cleofe Person de Mattos
e n c o n t r a v a - s e e m casa d e M a r c o s P o r t u g a l , m e m b r o da c o m i s s ã o
q u e j u l g a v a o r e p e r t ó r i o a ser e x e c u t a d o n o teatro. Estaria a s a l v o ,
c a s o h o u v e s s e r e a l m e n t e a i n t e n ç ã o d e apresentá-la. 2 5 7
Fora d o t e a t r o , na rua — para a q u a l v o l t a r a i m e d i a t a m e n t e
o i m p e r a d o r q u e se dirigia p a r a a Q u i n t a da B o a Vista — o p o v o
m u r m u r a v a , a p r o p ó s i t o d o i n c ê n d i o , ser c a s t i g o , l e m b r a n d o q u e
as p e d r a s d e cantaria da Sé h a v i a m s e r v i d o na c o n s t r u ç ã o d o
Teatro.
A ó p e r a , q u e t a n t o se discutiu h o u v e s s e s i d o l e v a d a n o
teatro, 2 5 8 f o i c o m p o s t a p o u c o t e m p o d e p o i s d o s
Divertimentos,
e m 1817, para a b a n d a d e música q u e a c o m p a n h o u D . L e o p o l d i n a
a o Brasil. Se f o i c o m p o s t a p o r o r d e m d e D . J o ã o V I n ã o há c o m o
confirmar. Havia uma c o m i s s ã o para d e c i d i r s o b r e o assunto:
Marcos Portugal, Fortunato Mazziotti e Simão Portugal, q u e n ã o
estariam interessados e m p r o m o v e r a obra d e José Maurício,
i n d e p e n d e n t e d o s e u v a l o r . D o d e s t i n o da partitura, n u n c a mais
se f a l o u .
E m 1834, p o r é m , já f a l e c i d o o c o m p o s i t o r p o r t u g u ê s , u m
a n ú n c i o na i m p r e n s a c o m u n i c a v a estar à v e n d a u m c a i x o t e c o m
o b r a s d e M a r c o s P o r t u g a l . Estaria a i n d a aí, p o r e n g a n o , e n t r e
outras? N ã o será m i l a g r e se a p a r e c e r , u m d i a , e m a l g u m a r q u i v o
d e Minas Gerais, a ópera de José Maurício.
R a p i d a m e n t e r e c o n s t r u í d o p o r q u e o s e u e s p a ç o f a z i a falta
para d i s c u r s o s e p r o n u n c i a m e n t o s p o l í t i c o s , o t e a t r o f o i a d a p t a d o
provisoriamente n o salão interno, paralelo à varanda d o edifício.
Ficaria m e n o r , durante a l g u m t e m p o — 24 c a m a r o t e s e 150 lugares
na p l a t é i a — até ser i n a u g u r a d o s o b o n o m e d e I m p e r i a l T e a t r o
S ã o P e d r o , e m 26 d e j a n e i r o d e 1826.
M a c i e l d e u sinal da c o m p o s i ç ã o d a s Matinas
de Nossa
Senhora
do Carmo,
c o m t o d o o i n s t r u m e n t a l e m 1824 e " p o r
o r d e m d e S.M. o I m p e r a d o r , r e d u z i d a a v o z e s e ó r g ã o , n o a n o d e
1832". 2 5 9
U m a estranha s o l i c i t a ç ã o , e m 1825, d e i x a uma n o t a c u r i o s a
e u m a i n t e r r o g a ç ã o na b i o g r a f i a d o p a d r e J o s é M a u r í c i o . D i r i g e se e s t e e m r e q u e r i m e n t o a o p r o v e d o r da Santa Casa d e
Misericórdia c o m o primo e padrinho de Constâncio José Nunes
G a r c i a , c i r u r g i ã o d a m e s m a Santa C a s a , d e p o u c o f a l e c i d o .
A l e g a n d o t ê - l o e d u c a d o , e v e s t i d o e m a n d a d o estudar e m L i s b o a
para d i p l o m a r - s e e m cirurgia, p e d e os b e n s q u e p e r t e n c i a m a o
cirurgião: seis escravos. N a d a significa a p o n t á - l o c o m o p r i m o ,
p o i s o Dr. N u n e s G a r c i a a i n d a e m 1828 era c i t a d o e m t a b e l i ã o
c o m o s o b r i n h o d o p a d r e José Maurício. O d e s p a c h o d e D. P e d r o
a o p r o v e d o r d a Santa Casa d e M i s e r i c ó r d i a : " D e f i r a m c o m o f o r
j u s t o s o b r e esta p r e t e n ç ã o . P a l á c i o d o R i o d e J a n e i r o , e m 15 d e
j u l h o d e 1824." 2 6 °
164
José Maurício Nunes Garcia biografia
1826
A Missa de Santa Cecília
O a n o d e 1826 m a r c o u f u n d a m e n t e a v i d a d o p a d r e J o s é
M a u r í c i o . Em a b r i l c h e g o u a o R i o d e J a n e i r o a n o t í c i a d o
falecimento de D. João VI. N o m e s m o ano emudeceu o composit o r e i m o b i l i z o u - s e o r e g e n t e d e p o i s d e c o m p o r a Missa de Santa
Cecília, sua última c o m p o s i ç ã o , a p r e s e n t a d a e m 22 d e n o v e m b r o .
S e m d ú v i d a , terá p r o f u n d a r e p e r c u s s ã o n o c o r a ç ã o d o c o m p o s i t o r o d e s a p a r e c i m e n t o d a q u e l e q u e e m sua m e m ó r i a
c o n t i n u a v a a ser o a m i g o q u e o f i z e r a c o m p o r e r e g e r d u r a n t e
u m p e r í o d o i n e s q u e c í v e l , na Real C a p e l a . A f e t i v a m e n t e , a i m a g e m
d e D . J o ã o c o n t i n u a v a a ser a d o a d m i r a d o r d e sua o b r a , a q u e l e
q u e o c o n d e c o r o u c o m a O r d e m de Cristo e c o n c e d e r a outros
b e n e f í c i o s m e n o r e s . Se o s e u s e n t i m e n t o t r a n s f o r m o u - s e e m
m ú s i c a a i n d a n ã o se p ô d e saber. 2 6 1 A s e x é q u i a s d o p a i d o
i m p e r a d o r f o r a m r e a l i z a d a s n o dia 13 d e m a i o , d i a d e s e u
aniversário. Data s e m p r e festejada c o m d e c r e t o s que
b e n e f i c i a v a m n ã o s ó o s c o l a b o r a d o r e s mais p r ó x i m o s c o m títulos
e c o n d e c o r a ç õ e s , mas t o d o u m p o v o c o m m e d i d a s administrativas
q u e p u d e s s e m b e n e f i c i á - l o . D. J o ã o V I m e r e c i a d o p o v o d o R i o
d e J a n e i r o a h o m e n a g e m d e v i d a a u m p r í n c i p e q u e aí passara
t a l v e z o s mais f e l i z e s d i a s d e sua v i d a e q u e s o u b e r e c o m p e n s a r
a esse p o v o dessa f e l i c i d a d e p r o p o r c i o n a n d o - l h e benfeitorias e
m o d i f i c a ç õ e s definitivas e que d e l e fizera o Reino U n i d o a Portugal e A l g a r v e s .
J o s é M a u r í c i o e s t a v a c o m 59 a n o s . E s t a n c a v a - s e n e s s e a n o
a m a i s f u n d a r a z ã o d o s e u v i v e r , q u e era t r a n s f o r m a r e m m ú s i c a
a r i q u e z a d o seu m u n d o interior.
D o i s ex-alunos, G e r a l d o Inácio e Lino José Nunes, o
p r o c u r a r a m e m n o m e da I r m a n d a d e d e Santa Cecília para c o n v i d á l o a c o m p o r a " m i s s a a g r a n d e o r q u e s t r a " q u e seria c a n t a d a n o
d i a d a f e s t a anual da p a d r o e i r a . O c o n v i t e era t u d o q u a n t o se
p o d i a f a z e r para dar a o c o m p o s i t o r o â n i m o d e q u e estava
p r e c i s a n d o p a r a ter a s a t i s f a ç ã o d e s e n t a r - s e j u n t o à m e s a e
exprimir o muito q u e lhe vinha à imaginação.
1826 será, p o r t a n t o , o a n o e m q u e o p a d r e J o s é M a u r í c i o
c o m p õ e a o b r a q u e será o p o n t o final d e 43 a n o s d e v i d a v o l t a d a
p a r a a c o m p o s i ç ã o ( 1 7 8 3 - 1826). A n o s q u e v i v e u a d a p t a n d o - s e
à v i d a p o l í t i c a d o p a í s e suas t r a n s f o r m a ç õ e s e c o m e l a s se
c o n f u n d i n d o . P á g i n a s q u e s i g n i f i c a m , p e l o seu c o n t e ú d o , a
e v o c a ç ã o d e m o t i v o s d e é p o c a s p a s s a d a s v i v i d a s na m e m ó r i a d o
165
Cleofe Person de Mattos
c o m p o s i t o r através das quatrocentas obras p o r o n d e c a m i n h o u e
d e i x o u a m a r c a d e sua e m o ç ã o e s e u s e n t i m e n t o .
A i n i c i a t i v a p a r t i d a d o s m ú s i c o s d a I r m a n d a d e d e Santa
Cecília encontrou o mestre-de-capela desencantado, doente,
passando necessidades, um p o u c o desligado d o q u e o cercava,
não só pela saúde c o m o p e l o a b a n d o n o e m que vivia. O convite
despertou n e l e novas forças, incutindo-lhe vida n o v a . Desse
e s f o r ç o resultará u m a o b r a d i g n a d e e n c e r r a r c o m b r i l h a n t i s m o
u m a carreira d e c o m p o s i t o r . A o f i n a l i z á - l a , J o s é M a u r í c i o l a n ç o u
n o p a p e l o t í t u l o : Missa com grande
orquestra.
N ã o o título q u e
se t r a d i c i o n a l i z o u , o d e Missa de Santa Cecília,
consagrado à
p a d r o e i r a d o s músicos, para a qual f o i c o m p o s t a .
C a n t a d a n o m e s m o a n o , a 22 d e n o v e m b r o , s o b a d i r e ç ã o
d o p r ó p r i o c o m p o s i t o r na missa p e l o s i r m ã o s f a l e c i d o s n a q u e l e
a n o , c u m p r i a J o s é M a u r í c i o , p e l a última v e z , s e u c o m p r o m i s s o
c o m a e n t i d a d e à q u a l era l i g a d o d e s d e o s s e u s 17 a n o s . C o m
essa m i s s a e n c e r r a v a a carreira d e r e g e n t e .
O s manuscritos encontram-se n o Instituto H i s t ó r i c o e
G e o g r á f i c o B r a s i l e i r o s o b n ú m e r o : A r q . 2.2.10. Suas 278 p á g i n a s
c o m p r e e n d e m , a l é m d a Missa e d o Credo,
21 p á g i n a s d e
" a c r é s c i m o s i n s t r u m e n t a i s " o r g a n i z a d o s e m particella
que
r e p r e s e n t a m a r e f o r m u l a ç ã o da o r q u e s t r a ç ã o
original,
a c r e s c e n t a n d o : o b o é s I e II, f a g o t e s I e II, t r o m b o n e s a l t o , t e n o r
e b a i x o , a l é m d e u m a p a r t e c o r a l , d e s t i n a d a a o Qui tollis, p a r a
r e v i v e r u m a d a s c o n s t â n c i a s n o t r a t a m e n t o d o Qui
tollis.
c o n c e r t a n t e c o m t e n o r solista. Escrito à parte, entre o s a c r é s c i m o s
i n s t r u m e n t a i s , f a z c r e r n ã o h a j a s i d o assim e x e c u t a d o e m 1826.
O padre José Maurício escreveu-os ao l o n g o dos anos que lhe
restaram v i v e r a p ó s a c o m p o s i ç ã o da Missa. Os n o m e s d o s solistas
e s t ã o l a n ç a d o s na partitura: " O Snr. Augusto" 2 6 2 ( s o p r a n o ) , o "Snr.
L u i z G a b r i e l " 2 6 3 ( c o n t r a l t o ) , o "Snr. C â n d i d o " 2 6 4 ( t e n o r ) e o "Snr.
A p o l i n á r i o " 2 6 5 ( b a i x o ) cantaram o Domine Deus. G a b r i e l F e r n a n d e s
da T r i n d a d e 2 6 6 a t u o u n o Qui tollis-, e n o Quoniam
o mais f a m o s o
c a n t a n t e b r a s i l e i r o : J o ã o d o s Reis Pereira. 2 6 7 A p e n a s o
Laudamus
n ã o traz i n d i c a ç ã o .
Obra magnífica, com peculiaridades de beleza em
determinados trechos. M e s m o não aceitando c o m o v e r d a d e i r o
q u e ela f o r a feita e m m e n o s d e trinta dias, p r a z o d e m a s i a d a m e n t e
c u r t o q u a n d o se l e v a m e m c o n t a as p r o p o r ç õ e s da Missa,
os
sinais d e p r e o c u p a ç ã o para a e n t r e g a da partitura e v i d e n c i a m - s e
e m a c i d e n t e s c o m o a f o l h a d a s n o t a s s o b r e as q u a i s d e v e atuar;
troca d e pauta c o r r e s p o n d e n t e a o i n s t r u m e n t o , na partitura; o u a
s i m p l e s r e p e t i ç ã o d e m o t i v o s , n o Credo.
166
José Maurício Nunes Garcia biografia
A s s i m a d e n o m i n o u t a m b é m o Dr. N u n e s G a r c i a na carta
e m q u e o f e r e c e u a o Instituto H i s t ó r i c o e G e o g r á f i c o Brasileiro
o s o r i g i n a i s d a Missa. N e s s a carta o Dr. N u n e s G a r c i a e l u c i d a
vários aspectos desse m o m e n t o vivido p e l o compositor. Segue a
t r a n s c r i ç ã o p a r c i a l d o s p o n t o s mais i m p o r t a n t e s d o q u e o Dr.
N u n e s G a r c i a e s c r e v e u e m I a d e d e z e m b r o d e 1853: 268
«Ulmo g n r j-)r S e c r e t a r i o d o I n s t i t u t o H i s t o r i c o .
R e m e t e n d o a V.S a . o a u t h o g r a p h o das duas ultimas Partituras
d e m e u P a e , e q . d e s t i n a v a ha m ' ° o f e r e c e r p a o A r c h i v o d o
Instituto H i s t o r i c o e G e o g r a p h i c o B r a z i l e i r o , d e s d e q . d e u m e elle a honra d e aceitar p o r seu s o c i o c o r r e s p o n d e n t e
c u m p r e q . eu d ê as r a z õ e s a q . t i v e d e a t t e n d e r p a i s s o . ( . . . )
( . . . ) N a i m p o s s i b i l i d a d e d e c o l l i g i r - s e h o j e m1"0 o q . m a i s
v u l t o faz d o q . p r o d u z i o c o m o contrapontista o prim. Mestre
d e Capella da Corte d o Brazil, e s e n d o c e r t o q ' esse g é n i o
muzical c o m p o z o authographo e m questão e m m e n o s de
30 d i a s , m 10 c r e n t e d e q . era e l l e e c o m o m " d i c e a s e u s
a m i g o s — "a sua ultima c o m p o z i ç ã o " p a r e c e q . e m m e u
f a v o r h o j e , n e s t e m o m ' ° , n u n c a r e z e r v a n d o c o m o sua
p r o p r i e d a d e as partituras q . e s c r e v i a , s e m p r e a p e d i d o , estas
q . f o l g o d e p o d e r o f f e r e c e r , s ã o c o m e f e i t o as u l t i m a s q .
e l l e e s c r e v e u ; s ã o as ú n i c a s q u e a m o u g u a r d a r p a d a r - m e
p o u c o a n t e s d a sua m o r t e !
P a r e c e q . se u f f a n a v a t a n t o o m e u m e s t r e , P a e e a m i g o d a
p r o d u ç ã o harmónica q. m e ocupa, q. a o dar-m'a, lembrom e q . p r o f e r i r a e l l e estas p a l a v r a s " g u a r d a isso, q . te p o d e r á
servir um dia"... H e verdade...: nesse t e m p o frequentava
eu o 6 a a n n o da antiga A c a d e m i a M e d i c o - C i r u r g i c a ; e hoje?...
na d a d i v a d e l l e está, t u d o o q . , e s p e r o q . o I n s t i t u t o m e
aceite...
C o n s t a o l i v r o q . o f f e r e ç o e m s u m m a , d e h u m a Missa e
C r e d o q u a s e i n é d i t o s , f e i t a s expressam 1 0 - a f e s t a d e Sta.
C e c i l i a , e a p e d i d o d o s P r o f f e s s o r e s G e r a l d o I g n a c i o Per™
e L i n o J o z é N u n e s , e m 1826. F o r ã o c a n t a d a s a p e n a s h u m a
v e z n e s s e a n n o , s o b a batuta o u r e g e n c i a d o s e u a u t h o r e
h u m a s e g a v e z p o u c o d e p o i s da m o r t e d e l l e . E p o r q . h o j e
as c o m p o z i ç õ e s sacras p e d e m r e f o r m a ; h o j e q . os
c o m p o z i t o r e s s a c r o s n a c i o n a i s s ã o raros, a u l t i m a Missa e
C r e d o d o P e . M®. J o z e M a u r i c i o q . d i g o s ã o v e r d a d e i r o s t i p o s
e mal eu p o d i a guardar, h e s ó nos A r c h i v o s d o Instituto
Historico G e o g r a p h i c o Brazileiro e q.do m e considero semimorto, q. m e apraz v e r esses originais.
167
Cleofe Person de Mattos
D i g n e - m e V. Sra a t t e n d e n d o - m e p e l o e x p o s t o , d e a p r e z e n t a r
e m sessão, o s protestos d e intensa C o n s i d e r a ç ã o p e l o
Instituto —
d o seu C o n s o c i o ami° Cr°
R i o , 1 d e D e z b r o d e 1853 "
A Missa de Santa Cecília
é obra d e grandes p r o p o r ç õ e s ,
c o m hora e meia de duração. Motivos que a alimentam f a z e m
evocar passagens sonoras desde os últimos anos d o século XVIII.
Exemplo concreto é o motivo cromático, processional, em
m o v i m e n t o p a r a l e l o , d o s d o i s c l a r i n e t e s da Sinfonia fúnebre,
de
1790, q u e atravessa — abstrata e e s p i r i t u a l i z a d a m e n t e triste —
n o Agnus Dei da Missa.
Estão i g u a l m e n t e p r e s e n t e s o s a p e l o s d e b r i l h a n t i s m o q u e
v i n h a m d e 1810, c o m o o m o t i v o d o s e x t e t o da Missa de Nossa
Senhora da Conceição,
q u e a p a r e c e n o "Quoniam
tu es
sanctus"
e m s o l o d e b a i x o , c o m uma ternura amadurecida e e x p e r i m e n t a d a .
V a l e u m a b r e v e r e f e r ê n c i a s o b r e o f i n a l d o Gloria,
que
r e p r e s e n t a u m m o m e n t o f e l i z na p e n a d e u m c o m p o s i t o r : o s
sessenta c o m p a s s o s instrumentais q u e p r e c e d e m a entrada d o
c o r o n o Cum Sane to Spiritu.
A e v o c a ç ã o d o s o m da " s e r a f i n a "
p a r e c e ter s i d o a intenção d o v e l h o p a d r e - m e s t r e a o iniciar a
I n t r o d u ç ã o d e s s e t r e c h o n ã o m e n o s p r e c i o s o d o q u e a p a r t e coral
q u e o c o m p l e m e n t a : o andantesostenuto
que precede a mudança
d e m o v i m e n t o para o allegreto,
e se d e s e n v o l v e s o b r e u m m o t i v o
d e caráter quase popular, até o
"Amen".
O s e n t i d o d o m i n a n t e d o "Et incarnatus
est"é o d e angústia,
e x p r e s s o n o andantino
agitato
q u e o c o m p o s i t o r e m p r e g a na
i n d i c a ç ã o d o m o v i m e n t o e d e caráter d o trecho, " s e m p r e l i g a d o
e p i a n í s s i m o " . Será, r e a l m e n t e , uma a g i t a ç ã o interior q u e m o v e r i a
o padre José Maurício diante d o texto e explica o sentido
l a n c i n a n t e d e s s e b e l o fugato
c o n f i a d o às q u a t r o v o z e s s o l i s t a s
a c o m p a n h a d a s p o r d u p l o q u a r t e t o d e madeiras, c o m b i n a ç ã o única
e m t o d a a sua o b r a .
N ã o m e n o s c o m o v e n t e é o Crucifixus,
com o coro em
u n í s s o n o e n v o l v i d o p e l o s trágicos acentos das cordas q u e lhe
fazem a moldura.
T e r m i n a a Missa de Santa Cecília e m g r a n d e t r a n q u i l i d a d e ,
a l t e r n a n d o o s t r e c h o s s o l í s t i c o s c o m as p a r t e s c o r a i s . É o
d e p o i m e n t o d o c o m p o s i t o r , já e n v e l h e c i d o e c a n s a d o a o s 59 anos,
q u e assiste à p r o x i m i d a d e d o s e u f i m , c e r c a d o d e tristeza e d e
a m a r g u r a , mas q u e terá e n c o n t r a d o nesta Missa u m a d a s últimas
alegrias q u e lhe f o r a m c o n c e d i d a s antes de apagar-se.
168
José Maurício Nunes Garcia biografia
Os últimos
anos
V i r a - s e a p á g i n a e m q u e se i n s c r e v e a ú l t i m a c o m p o s i ç ã o
d o padre José Maurício N u n e s Garcia e chega-se à dolorosa fase
f i n a l da v i d a d o m e s t r e - d e - c a p e l a .
A o s p o u c o s d e s a p a r e c e r a t u d o a q u i l o q u e d e r a s e n t i d o mais
p r o f u n d o e a f e t i v o à sua e x i s t ê n c i a . A s p e r s p e c t i v a s da f a s e q u e
se a p r o x i m a acentuarão o p r o g r e s s i v o d e c l í n i o das f a c u l d a d e s
d e inteligência d e q u e m tanto e n g r a n d e c e r a a música d e seu
p a í s , d o n o t á v e l o r a d o r q u e se s a b e ter s i d o . E d a c a p a c i d a d e d e
s u p o r t a r as c o n d i ç õ e s d o m e i o q u e o c e r c o u d e s d e 1808.
A d e c a d ê n c i a física é a m o l d u r a p s i c o l ó g i c a d e s s e p e r í o d o
d e vida d o padre José Maurício, acrescido pela penúria q u e sobre
e l e se a b a t e r a d e s d e 1821. T e r m o c o n c l u s i v o e i n j u s t o d e u m a
v i d a t r a b a l h o s a e g r a n d e m e n t e p r o d u t i v a q u e , n o e m o t i v o ser
h u m a n o q u e d e v i a ser, a p a g o u a f o r ç a c r i a d o r a antes q u e a i d a d e
o justificasse.
O s últimos anos d e vida q u e lhe restavam, apesar das
c o n d i ç õ e s adversas d e saúde, e m p r e g a v a - o s José Maurício e m
r e v e r a o r q u e s t r a ç ã o e f a z e r m o d i f i c a ç õ e s na Missa de Santa
Cecília.
A l é m disso, elaborava estudos teóricos d e harmonia e
c o n t r a p o n t o . O b r a s q u e , s e g u n d o i n f o r m a Januário da Cunha
B a r b o s a , teria c o n c l u í d o a n t e s d e m o r r e r .
N ã o l h e e s c a p a a raiz d o s e u s o f r i m e n t o m a i o r : " N u n c a
p u d e e s c r e v e r t u d o o q u e r e a l m e n t e o u v i a " , disse ele. 2 6 9 D e s a b a f o
q u e p e r m i t e avaliar a p o s i ç ã o d o músico q u e desejaria reservar
t o d o s o s m o m e n t o s da v i d a para a c r i a ç ã o musical, o u q u e amaria
l e g a r à p o s t e r i d a d e t o d a a música q u e p o v o a v a a sua i m a g i n a ç ã o
s e m ser p e r t u r b a d o p o r e m a r a n h a d o s b u r o c r á t i c o s .
O p a d r e José Maurício m o r a v a c o m o f i l h o q u e v e i o para a
sua c o m p a n h i a a o s s e i s m e s e s d e i d a d e , q u e usará s e u n o m e e
d e q u e m r e c e b i a a j u d a p a r a a s o b r e v i v ê n c i a . D i z o Dr. N u n e s
G a r c i a : "Mais tarde, q u a n d o faltaram r e c u r s o s a m e u pai o c u p a v a s e e l e e m c o z i n h a r , lavar, e n g o m a r , i n c l u s i v e costurar." U m a v e z ,
"fez sapatos". E invoca o testemunho de Cláudio Antunes
Benedito.270
169
Cleofe Person de Mattos
O requerimento
dos músicos da
Capela
Imperial
O s p r o b l e m a s f i n a n c e i r o s q u e a f l i g i a m o s habitantes d o R i o
d e J a n e i r o t o r n a r a m - s e t r á g i c o s e m 1828. M ú s i c o s da C a p e l a
p r o c u r a v a m o u t r o s m e i o s d e se l i b e r t a r da t e r r í v e l s i t u a ç ã o e m
q u e v i v i a m . F o i o q u e o s l e v o u a solicitar, n u m r e q u e r i m e n t o
c o m u m a o i m p e r a d o r , q u e o l h a s s e para a s i t u a ç ã o e m q u e e n t ã o
viviam.
Eram 170 p e s s o a s q u e , neste d o c u m e n t o , f a z i a m a e x p o s i ç ã o
d a s n e c e s s i d a d e s e v i c i s s i t u d e s d e sua p r o f i s s ã o .
O r e q u e r i m e n t o relaciona todos eles, d o bispo a o sineiro,
f e i t o p e l o i n s p e t o r da C a p e l a , m o n s e n h o r F i d a l g o , e m 11 d e
n o v e m b r o d e 1828, q u e e n c a m i n h a essa r e l a ç ã o c o m o s
respectivos estipêndios v e n c i d o s n o último quartel d o ano.
D e s p a c h o d e D . P e d r o : " P a r e c e q u e isto n ã o é p a r a s e p a g a r ,
p o i s g u a r d e - s e a t é v e r s e há q u e m s o l i c i t e " ( f l s . 2 7 ) . O u t r o
despacho modifica o tom agressivo d o imperador: "Pague-se n o
f i m d o quartel". 2 7 1
A t i n g i d o s p e l a situação criada p o r m e d i d a s e c o n ó m i c a s
ditadas p o r D. P e d r o , uniram-se t o d o s o s q u e militavam na Capela
I m p e r i a l e m r e i v i n d i c a ç ã o salarial. T o d a s as c a t e g o r i a s da i g r e j a ,
d e s d e o b i s p o ( g a n h a v a 2.000$000 e está r e d u z i d o a 5 0 0 $ 0 0 0 )
ao varredor, a o sineiro, aos capelães, estão e m p e n h a d a s n o
m e s m o m o v i m e n t o : n ã o t i n h a m m e i o s para v i v e r .
Os peticionários alegavam de forma dramática a
insuficiência d o que ganhavam. Suportavam tudo e m silêncio
a t e n d e n d o à s i t u a ç ã o d e s f a v o r á v e l d o país. N o d o c u m e n t o q u e
m o n s e n h o r F i d a l g o e n t r e g o u , r e l a t i v o a o q u a r t o q u a r t e l d e 1828,
as i n f o r m a ç õ e s s ã o e x t r a í d a s da f o l h a d e p a g a m e n t o .
A o encaminhar o requerimento dos músicos, m o n s e n h o r
F i d a l g o i n f o r m a : " F o i f e i t o o o r ç a m e n t o da C a p e l a I m p e r i a l p a r a
1828-1829 e , se o s m ú s i c o s c a n t o r e s d e v e m ser a u m e n t a d o s ,
t a m b é m o s m e s t r e s q u e , a l é m d e f a z e r e m as suas o b r i g a ç õ e s n o
c o r o , s ã o o b r i g a d o s à c o m p o s i ç ã o d e músicas q u e S. M. o r d e n a r . "
D i z i a m o s p e t i c i o n á r i o s na carta a D. Pedro: 2 7 2
"Destinados d e s d e a infância a uma profissão p o u c o f e l i z
n ã o obstante m e r e ç a a estima d e t o d o s o s p o v o s eles
d e d i c a r a m g r a n d e p a r t e d e seus a n o s a e s s e s e s t u d o s p a r a
c o l h e r u m dia o f r u t o d o t r a b a l h o a s s e g u r a n d o - l h e s
subsistência d e c e n t e , p r e m i o a q u e d e v e aspirar t o d o
c i d a d ã o n ã o o c i o s o . H o u v e um t e m p o e m que, d e algum
170
José Maurício Nunes Garcia biografia
m o d o , c o n s e g u i r a m , mas n o m o m e n t o f a l t a - l h e s o m e i o d e
entreterem huma sem caprichos e amargurada existência."
Mais adiante continuam:
" O s q u e s ã o e n c a r r e g a d o s d o sustento d e família, s e m p o d e r
assumir o u t r o e m p r e g o q u e o s a j u d e a m i n o r a r sua p e n ú r i a ,
s ó encontram n o Imperador, sem duvida o mais p o d e r o s o
r e c u r s o q u e l h e s resta, e d e q u e m e s p e r a m h a j a p o r b e m
c o n c e d e r - l h e s a q u e l e a u m e n t o q u e f o r c o m p a t í v e l c o m as
atuais c i r c u n s t a n c i a s . "
O s 170 n o m e s r e l a c i o n a d o s n o d o c u m e n t o r e ú n e m d e s d e a
alta f i g u r a da C a p e l a — o b i s p o — a t é c a p e l ã e s c a n t o r e s c o m o
Januário da C u n h a Barbosa e o u t r o s mais. T o d o u m g r u p o a b a t i d o
pelas dificuldades de vida, e também músicos talvez p o u c o
l e m b r a d o s d o s atos e s p l e n d o r o s o s de que haviam sido
p r o t a g o n i s t a s a í se r e u n i a m , e s q u e c i d o s d e suas v a i d a d e s n o
p a s s a d o , q u e d a v a m à Capela Real o b r i l h o d e uma c a p e l a
e u r o p é i a . Lá e s t ã o , a b r a n d a d o s e m s e u o r g u l h o ,
os
p r e c o n c e i t u o s o s músicos q u e amarguraram a vida d o p a d r e José
M a u r í c i o . E n f i m , numa a s p i r a ç ã o c o m u m , M a r c o s P o r t u g a l e J o s é
Maurício assinaram o d o c u m e n t o .
I r m a n a d o s na m e s m a causa, n ã o era i d ê n t i c a a p o s i ç ã o d o s
d o i s compositores. A Marcos Portugal fora mantido, e m b o r a
r e d u z i d o , p a r t e d o o r d e n a d o d o " b o l s i n h o " . C e r t a m e n t e teria
outras v a n t a g e n s , p o i s a l é m d e ser o p r o f e s s o r da c o r t e , t a m b é m
assistia a D . P e d r o e m t o d a s as suas c o m p o s i ç õ e s . Para o p a d r e
J o s é M a u r í c i o , d e t o d a s as b e n e s s e s c o n c e d i d a s p o r D . J o ã o V I ,
nada restava a l é m d o o r d e n a d o d e m e s t r e - d e - c a p e l a — os
6 0 0 $ 0 0 0 da V e l h a Sé — a g o r a r e d u z i d o s a 156$000. A t i n g i a - o a
m i s é r i a . C a b e a m o n s e n h o r F i d a l g o , c o m o i n s p e t o r da c a p e l a ,
i n f o r m a r t a m b é m s o b r e o r e q u e r i m e n t o d e seus c o m p a n h e i r o s .
E n c a m i n h a - o e m 22 d e j u l h o d e 1828, 273 e x a t a m e n t e s e i s a n o s
após o lancinante p e d i d o — desatendido — d o padre José
Maurício a D. Pedro.
A s p a l a v r a s d o i n s p e t o r n ã o e x t r a p o l a m da v e r d a d e d o s
a c o n t e c i m e n t o s p a s s a d o s , c o m o e m 1822. D e s t a v e z e l a s d ã o a
m e d i d a d a s n e c e s s i d a d e s , nas q u a i s e l e está e n v o l v i d o , e e s c r e v e :
" N a d a m a i s justo; a m a i o r p a r t e t e m d i m i n u t o o r d e n a d o .
A l é m d o s escriturados — q u e n ã o p o d e m ter a u m e n t o a l g u m
— p o u c o s o u t r o s t ê m o r d e n a d o m a i s a t e n d í v e l , e assim
m e s m o insuficiente. A maior parte dos cantores tem
171
Cleofe Person de Mattos
o r d e n a d o muito diminuto, com
sustentar n e m d i m i n u i r . "
o qual
não se
podem
E acrescenta,
numa
possível
demonstração
de
a r r e p e n d i m e n t o o u d e p i e d a d e d i a n t e das reais n e c e s s i d a d e s
d e s s e s m ú s i c o s , d e n t r e o s q u a i s se i n c l u í a :
"... se o s m ú s i c o s c a n t o r e s d e v e m ser a u m e n t a d o s , t a m b é m
o s m e s t r e s - d e - c a p e l a q u e , a l e m d e f a z e r e m as suas
o b r i g a ç õ e s n o c o r o , s ã o o b r i g a d o s à c o m p o s i ç ã o d e musicas
q u e S. M a j e s t a d e o r d e n a r . H a o s o r g a n i s t a s e a l g u n s
instrumentistas q u e t ê m m e n o s , m u i t o m e n o s d o q u e o s
outros."
O r e s u l t a d o d a s ú p l i c a c o l e t i v a a D . P e d r o I n ã o terá s i d o
s u f i c i e n t e p a r a as n e c e s s i d a d e s d o s q u e c u i d a v a m d a C a p e l a e
s o n h a v a m c o m o seu a s p e c t o f í s i c o d e outrora.
A renúncia
ao Hábito
de
Cristo
Uma p e r p l e x i d a d e fala mais d e perto de um p r o b l e m a d o
p a d r e José Maurício: a renúncia a o H á b i t o d e Cristo. O assunto
t e m i n í c i o à p á g i n a 18 d o s Apontamentos
biográficos-.
" P a r a q u e n ã o s e j a o b j e t o d e d u v i d a , d e c l a r o já q . até
1828, q u a n d o se d e u a p e r f i l i a ç ã o e r e c o n h e c i m e n t o q u e
f e z m e u pai p o r escritura l a v r a d a nas N o t a s d o T a b e l i ã o
J o s é P i r e s G a r c i a , g u a r d e i eu o n o m e d e J o s é A p o l i n á r i o
N u n e s Garcia, c o m o q u e n o s livros da antiga A c a d e m i a
M e d i c o - C i r u r g i c a d e v e estar l a n ç a d o o d e s p a c h o d o
Barão de I n h o m i r i m — c o m o Diretor d a q u e l a Escola —
q u a n d o estudei m e d i c i n a e s t a n d o e n t ã o n o 5a ano,
m a n d a n d o registrar a troca d e s o b r e n o m e , p r isso q . p e l o
facto d o meu reconhecimento paterno coube-me o n o m e
d e José M a u r i c i o N u n e s Garcia Júnior. T e n h o disso
certidão entre os meus papéis e diplomas."
O D r . N u n e s G a r c i a associa a r e n ú n c i a p a t e r n a a o u t r o ato,
adiantando que fora feito c o m prévia licença d e D. Pedro, e q u e
e l e p o d e r á r e q u e r e r a Sua M a j e s t a d e I m p e r i a l a c o m p e t e n t e graça,
172
José Maurício Nunes Garcia biografia
o q u e s i g n i f i c a r i a o r e c o n h e c i m e n t o d e f i n i t i v o da r e n ú n c i a q u e
o b e n e f i c i a v a . 2 7 4 O f i l h o d e v e r i a aguardar o m o m e n t o para
r e q u e r ê - l o . M o m e n t o q u e seria, o b v i a m e n t e , a m o r t e d o pai.
O imprevisível, porém, aconteceu: a "prévia licença" foi
r e q u e r i d a t a r d e d e m a i s , às v é s p e r a s da a b d i c a ç ã o . R a z ã o p o r
q u e f i c a n d o t o d a s as o r d e n s s e m g r ã o - m e s t r e s , n ã o f o r a p o s s í v e l
tirar o d i p l o m a p a r a usar d a s i n s í g n i a s .
A r e n ú n c i a e m 1 8 2 8 é d e s m e n t i d a na P ú b l i c a - F o r m a
transcrita n o t e x t o d a Carta d e P e r f i l i a ç ã o , r e q u e r i d a e m 9 d e
j a n e i r o d e 1833- N e s s a o c a s i ã o o Dr. N u n e s G a r c i a n ã o p o s s u í a
ainda o d o c u m e n t o de legitimação, q u a n d o afirma:
"Ser e l e f i l h o natural d o P a d r e J o s é M a u r i c i o N u n e s G a r c i a ,
já f a l e c i d o , q u e o t e v e n o e s t a d o d e s a c e r d o t e d e m u l h e r
s o l t e i r a e d e s i m p e d i d a ( . . . ) C o m o tal o c r i o u e e d u c o u
d e c l a r o u ser s e u f i l h o na escritura q u e juntará e q u e p a r a
sua inteira v a l i d a d e h o u v e - s e p o r b e m c o n f i r m a r . "
A o s e r a p o n t a d o c o m o s o b r i n h o d e J o s é M a u r í c i o , e m 21
d e j u n h o d e 1828, t e s t e m u n h a d o p o r d o i s a m i g o s s e u s — Franc i s c o d a L u z P i n t o e M a n u e l P i m e n t a C h a v e s — o Dr. N u n e s
G a r c i a p e r t u r b a a i n d a mais o s a c o n t e c i m e n t o s q u a n d o i n f o r m a
ter s i d o l e g i t i m a d o nesse m e s m o a n o . C o m p l i c a m - s e o s fatos
d i a n t e d o d o c u m e n t o q u e se v a i ler a g o r a :
"Escriptura d e R e n u n c i a da M e r c e d e h u m a b i t o da O r d e m
d e C h r i s t o q u e f a z o p c . Jc. M a u r i c i o N u n e s G a r c i a a s e u
s o b r i n h o Jc. M a u r i c i o N u n e s G a r c i a .
S a i b ã o q u a n t o s e s t e p u b l i c o . Instrum 10 - d e Escriptura d e
R e n u n c i a v i r e m q ' n o A n n o d o N a s c i m e n t o d e N . S. J e z u s
Christo d e mil o i t o c e n t o s e v i n t e O i t o aos V i n t e C i n c o
Dias d o m e s d e Junho d o ditto a n n o , Nesta M u i t o Leal e
Heróica Cidade d o Rio de Janeiro e m m e o Escriptorio
a p a r e c e r ã o p e r a n t e m i m C o m o O u t o r g a n t e o P c Jc M a u r i c i o
N u n e s Garcia Cavalleiro Da O r d e m d e Christo, e C o m o
O u t o r g a d o s e u s o b r i n h o Jc M a u r i c i o N u n e s G a r c i a , a m b o s
r e c o n h e c i d o s d e m i m T a b e l i ã o p e l o s p r o p r i o s e das
t e s t e m u n h a s adiante n o m e a d a s eassignadas p e r a n t e as quais
p e l o O u t o r g a n t e m e f o i ditto q ' p r esse Instrum. 10 e na m e l h o r
f o r m a e na d e Dir.'° f a z i a C o m o d e f a t o f a z r e n u n c i a da
M e r c e d o H a b i t o da O r d e m d e C h r i s t o d e q ' l h e f e z a g r a ç a
o Senhor D. J o ã o S e x t o a seu subrinho o O u t o r g a d o Ditto
J e . M a u r i c i o N u n e s G a r c i a d e sua l i v r e e e s p o n t a n e a
173
Cleofe Person de Mattos
v o n t a d d e sem Constrangimento d e pessoa alguma e sem
nenhum ónus e só p ' querer obzequiar n o Ditto Outorgdo
s e u S o b r i n h o p o r l h e ter m u i t o a j u d a d o e a C o m p a n h a d o
e m t o d o s o s t e m p o s e p o d e r á r e q u e r e r a sua M a g e s t a d e
I m p e r i a l a C o m p e t e n t e graça da r e n u n c i a e p e ç o O u t o r g a d o
f o i d i t t o q ' a s e i t a v a esta Escriptura na f o r m a d e l i a e a s s i m
justos e C o n t r a c t a d o s p e d i r a m a m i m T a b e l i ã o l h e s l a v r a s s e
e s t e Instrum 1 0 nesta N o t t a q ' s e n d o l h e s lida d i c e r ã o estar
asuas v o n t a d e s d e q ' d o u f é e m e f o i d i s t r i b u í d o p e l o b i l h e t e
d e t h e o r s e g , c D e s t r i b u i n d o a P i r e s o P a d r e Je M a u r i c i o
N u n e s G a r c i a f a z Escriptura d e R e n u n c i a d e h u m a b i t o d e
C h r i s t o a s e u S u b r i n h o Jc M a u r i c i o N u n e s G a r c i a e m V i n t e
h u m d e Junho d e mil O i t o Centos e Vinte O i t o . =
D u a r t e , e a s s i g n a r ã o s e n d o t e s t e m u n h a p r e s e n t e s — Fran. co da L u z P i n t o e M a n o e l Pimenta C h a v e s R e c o n h e c i d o s d e m i m
Tabelião."275
E assim e s t a v a s e l a d a e m 21 d e j u n h o d e 1828 a r e n ú n c i a
a o H á b i t o da O r d e m d e Cristo q u e o p a d r e J o s é M a u r í c i o r e c e b e r a
e c o m q u a n t a e m o ç ã o , e m 1809, d e D . J o ã o V I , e o u t o r g a r a a o
"seu subrinho J' Mauricio Nunes Garcia".
O casamento
D. Maria Amélia
1829
de D. Pedro
com
de
Leuchtenberg
Os depoimentos sobre a vida d o compositor, sem saúde,
s e m e s p e r a n ç a , n o s d o i s a n o s q u e se s e g u e m , n ã o s ã o m u i t o s ,
mas e l o q u e n t e s : acentuam-se os p a d e c i m e n t o s físicos a q u e
a l u d i r a n o d o c u m e n t o d e 1822. I n f o r m a P o r t o - A l e g r e q u e " h a v i a
hora e m q u e sofria cruelmente". O estado depressivo agrava-se:
q u e i x a - s e d e q u e " h o j e , s ó o u ç o o s m e u s g e m i d o s , o cantar d o s
grilos, ou o ganir dos cães, q u e me i n c o m o d a m e me
e n t r i s t e c e m " . 2 7 6 Suas n o i t e s s e m s o n o s ã o p e r s e g u i d a s p o r
f a n t a s m a s m u s i c a i s d o t e m p o e m q u e d i r i g i a na C a p e l a R e a l .
• C r e s c e a e m o t i v i d a d e d o c o m p o s i t o r q u a n d o a f l o r a m à sua
consciência as mais fortes lembranças desse passado, c o m traços
c r u é i s , m a s c o m p e n s a d o r e s , a g o r a distantes.
174
José Maurício Nunes Garcia biografia
U m a n o v i d a d e h a v i a na f e s t a d e São S e b a s t i ã o : n ã o m a i s o
Senado. D. P e d r o determina o c o m p a r e c i m e n t o da Irmandade
d o Santíssimo Sacramento à festa.
O e d i f í c i o da Capela Imperial oferecia o espetáculo da
d e c a d ê n c i a física q u e deprimia o s que haviam participado d o
seu e s p l e n d o r , para o s o l h o s e para o s o u v i d o s . O t e m p o a afetara.
R a z õ e s q u e a t i n g i a m o s e n t i m e n t o d e s a c e r d o t e d o i n s p e t o r da
Capela l e v a v a m - n o a referir-se c o m frequência ao "estado
desgraçado" a que chegara.
D e há m u i t o d i m i n u í r a o e f e t i v o d o s m ú s i c o s . M o n s e n h o r
F i d a l g o ainda lamentava os q u e haviam i d o c o m D. J o ã o VI, os
q u e desapareceram. Mas D. P e d r o queria q u e f o s s e m n o v a m e n t e
escriturados alguns músicos.
Em 1829 c a s o u - s e n o v a m e n t e o i m p e r a d o r , v i ú v o d e s d e
1826. O a c o n t e c i m e n t o d a r á v i d a n o v a , u m a aura d e a l e g r i a à
C a p e l a I m p e r i a l , q u e passará p o r a p r e s s a d o tratamento d e
restauração a f i m d e r e c e b e r a noiva para a b ê n ç ã o nupcial.
O s p r e p a r a t i v o s para a c e r i m ó n i a na C a p e l a l e m b r a v a m
s o l e n i d a d e s d e o u t r o s t e m p o s . Seu a s p e c t o f í s i c o f o i c u i d a d o , e
a r e n o v a ç ã o d e contratos c o m alguns músicos vai permitir seja
o u v i d o r e p e r t ó r i o c a p a z d e f a z e r c o m q u e a n o i v a , D . Maria
Amélia Eugênia N a p o l e o n a d e Leuchtenberg,277 t o m e l o g o
c o n h e c i m e n t o d a s q u a l i d a d e s artísticas d o f u t u r o m a r i d o .
N e s s e ano, e m m a r ç o , três m e s t r e s - d e - c a p e l a
são
c o n v o c a d o s p e l o imperador.
É c u r i o s o o b s e r v a r c o m o a b u r o c r a c i a n i v e l a , numa r e u n i ã o
c o m u m , três p e r s o n a l i d a d e s distintas d o s três m e s t r e s - d e - c a p e l a
para cuidar d e assuntos q u e nada mais lhes diziam, d o i s d e l e s
p e r t o d e desaparecerem. Mazziotti, m e n o s dotado, p o r é m mais
m o ç o , m a n t é m - s e à f r e n t e d a o r q u e s t r a para r e g e r o T e D e u m
q u e se realizará e m d e z e m b r o .
Aproximava-se o casamento d o imperador. O contrato foi
f e i t o na I n g l a t e r r a e o c a s a m e n t o , p o r p r o c u r a ç ã o , r e a l i z o u - s e
e m M u n i q u e , o n d e r e s i d i a a n o i v a , na i g r e j a d o s A g o s t i n i a n o s .
Encerrava-se a v i u v e z d e D. P e d r o antes d e cessarem d e t o d o o s
r u m o r e s e a c a m p a n h a contra o n o i v o , f a c e às c o n d i ç õ e s da m o r t e
d e D. Leopoldina. Um a m i g o pessoal d e D. Pedro, a q u e m a
l e m b r a n ç a d e D . L e o p o l d i n a n ã o seria f a c i l m e n t e e s q u e c i d a ,
e s c r e v e u - l h e : " F a ç a f e l i z a ú n i c a p e s s o a q u e o q u i s . " O Te Deum
d e D. P e d r o foi o u v i d o a o chegar a o Rio d e Janeiro a notícia d o
casamento.
A c h e g a d a da i m p e r a t r i z f o i a g r a n d e f e s t a d o a n o , q u e
d e s d e l o g o p ô d e m a n i f e s t a r suas q u a l i d a d e s f e m i n i n a s d e
175
Cleofe Person de Mattos
s o l i d a r i e d a d e e e x i b i r sua f o r m o s u r a . Realizou-se na Capela I m p e rial a cerimónia s o l e n e pela chegada, a o s o m da Missa de D. Pedro. 2 7 8
N ã o m a i s a b r i l h a n t a r ã o as c e r i m ó n i a s as m ú s i c a s d e M a r c o s
P o r t u g a l o u d o p a d r e J o s é M a u r í c i o . O s v e l h o s m e s t r e s , d e há
m u i t o e m u d e c i d o s e e s q u e c i d o s à m e d i d a q u e se i a m d e s p e d i n d o
d a v i d a , a p a g a v a m - s e d i a n t e da f i g u r a n o v a d e c o m p o s i t o r q u e ,
d e s d e 1821, e r g u i a - s e p a r a a d m i r a ç ã o d o s h a b i t a n t e s d a c i d a d e :
o imperador.
A b r i g a d o na casa da m a r q u e s a d e S a n t o A m a r o , 2 7 9 M a r c o s
P o r t u g a l , a p ó s o t e r c e i r o ataque a p o p l é t i c o , v i v e u o seu
ostracismo, e s q u e c i d o d o s t e m p o s g l o r i o s o s d o "rei v e l h o " .
Lamentaria t a l v e z a p e r d a d o s p r i v i l é g i o s q u e a f a g a v a m o seu
o r g u l h o e s e transferira para a rua d o L a v r a d i o s e m as s e g e s , s e m
a integral ração d o "real b o l s i n h o " .
A o p a d r e J o s é M a u r í c i o , já a g o r a " m a i s v e l h o e
valetudinário", n ã o tivera benesses, mas lembrava-se c o m
s a u d a d e , d o f u n d o d e sua p e n ú r i a e d e s e s p e r a n ç a , d o a m i g o
desaparecido.
O p a d r e J o s é M a u r í c i o f o i s o l i c i t a d o , e m 1829, a i n f o r m a r
s o b r e o p e d i d o d o c a n t o r e o r g a n i s t a Elias A n t u n e s d a Silva,
c a n d i d a t o a o H á b i t o d e Cristo. Na ocasião, e s c r e v e u o " a t o
a t e s t a t ó r i o " q u e será t a l v e z o ú l t i m o d o c u m e n t o d e sua v i d a
funcional.
N o d o c u m e n t o , grafado de próprio punho, p o d e - s e apreciar
a c l a r e z a da e x p o s i ç ã o , q u e n ã o p a r e c e c o r r e s p o n d e r à d o m ú s i c o
m e i o a p a g a d o i n t e l e c t u a l m e n t e q u e se a c r e d i t a e s t i v e s s e , a esta
altura, o p a d r e - m e s t r e . D o c u m e n t o p r o d u z i d o s e t e m e s e s a n t e s
d o s e u f a l e c i m e n t o . Esse a s p e c t o c h a m a a a t e n ç ã o : o c o m p o s i t o r
e n c a b e ç a o a t e s t a d o c o m o e n u n c i a d o d o s s e u s títulos, i n c l u s i v e
o d e " P r o f e s s o na O r d e m d e C h r i s t o " . T a l v e z p e l a última v e z .
1830
A "legitimação"
do
Dr. Nunes
Garcia
J a n e i r o a abril d e 1830. Ú l t i m o s m e s e s d e v i d a para o m ú s i c o
q u e v i v e u e m p e n h a d o e m s e r v i r à sua a r t e e d e l a f a z e r o
i n s t r u m e n t o d e sua s e g u n d a n a t u r e z a .
Desmoronava
p r o g r e s s i v a m e n t e o estado físico d o padre José Maurício.
176
José Maurício Nunes Garcia biografia
A s h i p ó t e s e s q u e c o n f i r m a m as r a z õ e s d e
seu
d e s a p a r e c i m e n t o aos 62 anos d e idade vinculam invariavelmente
o s m a l e s f í s i c o s às a g r e s s õ e s d e n a t u r e z a p s i c o l ó g i c a . 2 8 0 P o r f i m ,
a p o b r e z a , a inanição, a miséria. A i m a g e m d o descalabro d o
p a í s , da C a p e l a , d e t u d o o q u e r e p r e s e n t o u d e g r a n d e e m sua
v i d a f a r ã o o resto. A situação d e t e n s ã o p r o f u n d a criada p o r
v o l t a d e 1811 m a r c o u u m c o l a p s o e m s e u r i t m o c r i a t i v o , o q u e
p r e c i p i t o u o e s v a i m e n t o d e sua f o r ç a total.
C o n s i d e r e - s e q u e se o p a d r e José Maurício t e v e crises
i n t e r m i t e n t e s d e s a ú d e , a t e n s ã o n e r v o s a f o i s e m p r e sua
c o m p a n h e i r a d e s d e a c h e g a d a da c o r t e . A d i s c r i m i n a ç ã o q u e d e l e s
sofria — e m b o r a jamais dela se queixasse — amargurava a
existência d o h o m e m de p e n s a m e n t o altivo. Sofrerá mais
f u n d a m e n t e q u a n d o o s i n t e r e s s a d o s e m c o n f r o n t o s a t i n g i a m sua
o b r a d e criação, m e n o s p r e z a n d o o seu valor. Em n e n h u m
m o m e n t o q u e i x o u - s e , p o r é m , d o p r e c o n c e i t o racial q u e o f a z i a
i n f e l i z . A t o d a s essas a f r o n t a s r e s p o n d e r á c o m o s i l ê n c i o , o q u e
l e v o u o b a r ã o d e T a u n a y , c o m o já f o i d i t o , a d e f i n i r a sua c o n d u t a
c o m o "de grande superioridade".
O s sinais p r e c u r s o r e s c o i n c i d i a m c o m a d i m i n u i ç ã o d o r i t m o
d e sua p r o d u ç ã o , o q u e v i m o s e n t r e 1811 e 1812. Seria d o e n ç a ,
a p e n a s , ou a falta d e e s t í m u l o de a l g u é m f u n d a m e n t e
d e s p r e s t i g i a d o ? P o d i a ser m o l é s t i a d e g e n e r a t i v a — "sofria
c r u e l m e n t e e m c e r t a s h o r a s " — mas e s s e s s i n t o m a s c o n f u n d i a m se c o m o s q u e o e n t r i s t e c i a m : " o g a n i r d o s c ã e s " e " o c a n t a r d o s
grilos". 2 8 1
O q u o t i d i a n o lhe fora muito p e s a d o e os m o m e n t o s
cruciantes d e i x a r a m marcas. Sabe-se d o seu s o f r i m e n t o , sabe-se
d o e s q u e c i m e n t o n o f i m da v i d a , s a b e - s e d a e m o t i v i d a d e q u e o
l e v a v a às l á g r i m a s , m a s a l u d e - s e p o u c o a o s a b a l o s c a u s a d o s n o
t r a b a l h o v i v i d o s o b p e r m a n e n t e t e n s ã o n e r v o s a . O q u e l h e era
e x i g i d o c o m p r o m e t i a o e q u i l í b r i o d e sua estrutura p s i c o l ó g i c a e
n ã o p o d i a d e i x a r d e abater u m o r g a n i s m o q u e , na o b s e r v a ç ã o d e
P o r t o - A l e g r e , "havia sido de forte constituição".
N a s c o n d i ç õ e s e m q u e se e n c o n t r a v a o p a d r e J o s é M a u r í c i o
é d i f í c i l a v a l i a r até q u e p o n t o terá t o m a d o c o n s c i ê n c i a d a m o r t e
d e M a r c o s A n t ô n i o Portugal, 2 8 2 o c o m p o s i t o r p o r t u g u ê s cuja v i n d a
p a r a o R i o d e J a n e i r o retirara d e sua v i d a a m a i s cara a l e g r i a , e
afastara d e seus s o n h o s a o p o r t u n i d a d e d e r e g e r c o m aquela
o r q u e s t r a suas o b r a s na C a p e l a R e a l . N ã o o s o b r e v i v e r i a m u i t o
tempo.
O r e g i s t r o n o L i v r o d e Ó b i t o s das p e s s o a s q u e t r a b a l h a v a m
na C a p e l a I m p e r i a l d e d i c a - l h e a l g u m a s linhas. M e n o s l a c ó n i c a s
177
Cleofe Person de Mattos
d o q u e e s c r e v e r ã o p a r a J o s é M a u r í c i o p o r q u e a m e m ó r i a d e sua
glória era mais recente:
" A o s d e z e s s e t e dias d o m e s d e F e v e r e i r o d e mil o i t o c e n t o s
e trinta a n n o s , na rua d o L a v r a d i o , f a l e s c e o M a r c o s A n t o n i o P o r t u g a l , c a s a d o c o m D o n a Maria J o a n n a P o r t u g a l e n o
dia d e z o i t o f o i p o r mim e n c o m e n d a d o (privadamente??) e
a c o m p a n h a d o e m andas para o C o n v e n t o d e Santo A n t o nio o n d e foi sepultado, amortalhado c o m vestes de
c a v a l l e i r o d e q u e para c o n s t a r f i s e s t e a s s e n t o . "
M o r a v a o p a d r e J o s é M a u r í c i o na rua d o N ú n c i o , n ú m e r o
18, o n d e v e i o a f a l e c e r . N o f i m d o s é c u l o X I X (Jornal
do
Commercio,
24 d e j u n h o d e 1 8 9 8 ) , o v i s c o n d e d e T a u n a y
e s c r e v e u : " H á dias e s t i v e p a r a d o , n ã o p o u c o t e m p o a c o n t e m p l a r
c o m o v i d o a casinha n ° 18 d a rua d o N ú n c i o , e m q u e e l e e x h a l o u
o u l t i m o s u s p i r o , e m 18 d e a b r i l d e 1830. Está a i n d a c o m o
n a q u e l e s d i a s , dies irae, dies illa, calamitatis...
baixinha, terrea,
d e p o r t a e j a n e l a , e n c o s t a d i n h a a outra a b s o l u t a m e n t e i g u a l . . . "
A l e g i t i m a ç ã o d o f i l h o é, p o r é m , o assunto mais g r a v e n o
p e r í o d o . M a s n ã o d e i x o u d e se p r e o c u p a r , n e s s e m o m e n t o g r a v e ,
c o m o q u e p u d e s s e m p e n s a r o s v i z i n h o s s e estaria o u n ã o
c u m p r i n d o os seus d e v e r e s religiosos. A o q u e lhe r e s p o n d e o
p a i : " N ã o v i s t e q u e d i s s e missa o n t e m ? "
N o interregno entre a morte de Marcos Portugal e os
a c o n t e c i m e n t o s q u e e s t ã o s e n d o l e m b r a d o s , i n t e r p õ e - s e u m a carta
d e S i m ã o P o r t u g a l d i r i g i d a a D . P e d r o . D e há m u i t o i n t e r e s s a d o
e m t e r u m p o s t o na C a p e l a I m p e r i a l — s e m p r e e s c u s a d o — o
irmão d e Marcos Portugal encontrou, ao e n s e j o da morte deste,
o m o m e n t o d e r e f e r i r - s e a J o s é M a u r í c i o e à sua p o u c a saúde: 2 8 3
" P e l a sua i d a d e se v ê c o m f r e q u e n c i a a c o m e t i d o d e c r ó n i c a s
moléstias, hè muito p r o v á v e l q u e não possa continuar c o m
o m e s m o f e r v o r q u e era seu c o s t u m e n o s e r v i ç o da s o b r e d i t a
capela."
S i n c e r o o u n ã o , o d e p o i m e n t o é p o s i t i v o para a a t u a ç ã o d o
p a d r e J o s é M a u r í c i o , na C a p e l a , n o s ú l t i m o s anos. 2 8 4
Na continuidade d o processo de legitimação, esclarece o
D r . N u n e s G a r c i a às p á g i n a s 32 d o s Apontamentos
biográficos:
" m e u P a i m e d o a r a p o r escritura p ú b l i c a , l a v r a d a e m N o t a s d o
T a b e l i ã o Pires Garcia", o q u e revela interesses m e n o s n o b r e s
p o r trás d e t u d o i s s o e , e m b o r a c o n s t r a n g e d o r e s , d e v e m ser
178
José Maurício Nunes Garcia biografia
v e n t i l a d o s p a r a m e l h o r c o n h e c i m e n t o da n a t u r e z a h u m a n a . É o
q u e se l ê a b a i x o : 2 8 5
"E v i s t o o s e u r e q u e r i m e n t o , dita escritura l a v r a d a na acta
d o T a b e l i ã o J o s é P i r e s G a r c i a e m dacta d e tres d e a b r i l d e
1830 e d i l i g ê n c i a s d e estilo a q u e p r o c e d e u o d e s e m b a r g a d o r
Juiz d e F o r a i n t e r i n o J o ã o J o s é d e O l i v e i r a J u n q u e i r a , d e
q u e c o n s t a v a q u e a dita l e g i t i m a ç ã o era d e sua l i v r e e
espontânea vontade e sem constrangimento de pessoa
alguma, n ã o s e n d o o u v i d o s parentes por declarar o m e n o r
p e r f i l h a d o , d e b a i x o d e j u r a m e n t o , n ã o ( o s ) ter até o q u a r t o
grau."
P o b r e J o s é M a u r í c i o , a q u e m n ã o bastara o m e n o s p r e z o
d o s m i n i s t r o s d a Patriarcal d e L i s b o a e d o s m ú s i c o s da C a p e l a
R e a l . Seria t a m b é m i n j u s t i ç a d o , n o f i m da v i d a , p e l o j u r a m e n t o
f e i t o p e l o f i l h o , e m p e n h a d o na sua l e g i t i m a ç ã o , d e i x a n d o o s
i r m ã o s s e m o m e s m o r e c o n h e c i m e n t o . E q u e , p a r a e x i m i r - s e da
responsabilidade d e haver c o n d u z i d o o pai perante o tabelião,
q u i n z e d i a s a n t e s d e sua m o r t e , m e r g u l h a d o já nas s o m b r a s d e
uma inteligibilidade que se esvaía, e m p e n h o u - s e numa tramóia
d e datas, entre 1828 e 1830, s e m c o n s e g u i r libertar-se dessa culpa.
N ã o é m e n o s e s t r a n h á v e l o q u e e l e e s c r e v e u trinta a n o s
mais tarde:
"É p o r t a n t o esta r a z ã o p o r q u e , s e n d o q u a t r o o s m e u s i r m ã o s
d e pai e mãe ao t e m p o d o r e c o n h e c i m e n t o paterno por
c u j o s d i r e i t o s p u g n a n d o se ia d a n d o o f a c t o d e f i c a r s e m
n e n h u m e f e i t o a escritura, o u s e m a assinatura d o o u t o r g a n t e
q u e a nada atendera p o r a q u e l e p r e c e i t o materno."286
Fica dessa afirmativa a suspeita d e q u e o p a d r e José
M a u r í c i o n ã o teria a s s i n a d o o d o c u m e n t o d e l e g i t i m a ç ã o , n o dia
3 d e abril.
Morre José Mauricio
Nunes
em extrema
Garcia
miséria
A c o n s c i ê n c i a d a p r o x i m i d a d e d e q u e a hora c h e g a r a l e v o u
o padre José Maurício ao último gesto: fez descer d o sótão a
179
Cleofe Person de Mattos
c a m a o n d e d o r m i a , para o a n d a r t é r r e o . I n d a g a d o q u a l a r a z ã o ,
r e s p o n d e u c o m s i m p l i c i d a d e : "É para dar m e n o s t r a b a l h o . "
O d i a 18 d e abril m a r c o u o f i m dessa e x i s t ê n c i a f e c u n d a ,
s o f r i d a , m a s q u e terá p o s i ç ã o b r i l h a n t e na e v o l u ç ã o da m ú s i c a
brasileira.
R e d u z i d o à sombra d e l e próprio, o padre José Maurício
N u n e s Garcia d e i x a v a o m u n d o aos 62 anos, "mais c a r r e g a d o d e
m e r e c i m e n t o s d o q u e d e a n o s " , e s c r e v e o p a d r e J a n u á r i o da
C u n h a Barbosa. 2 8 7 P e r d i a a C a p e l a I m p e r i a l o m e s t r e - d e - c a p e l a
q u e p a r t i c i p a r a , c h e i o d e e s p e r a n ç a , da c r i a ç ã o da C a p e l a R e a l .
P e r d i a a m ú s i c a b r a s i l e i r a u m d o s s e u s v u l t o s m a i s n o t á v e i s até
esta d a t a .
D u a s p e s s o a s — o f i l h o e u m e s c r a v o — o assistiram nessa
h o r a d e c i s i v a e m q u e o d i a , p e l a s seis h o r a s da tarde, t a m b é m se
findava.
O f i l h o a i n d a o u v i u o p a i murmurar as p a l a v r a s d e u m h i n o
à N o s s a S e n h o r a . D a rua c h e g a v a o s o m a l e g r e d o c l a r i n e t e d e
s e u a m i g o Policarpo, 2 8 8 q u e v i n h a visitá-lo. O p a d r e J o s é M a u r í c i o
já n ã o terá o u v i d o o s o m d o i n s t r u m e n t o . O m u n d o t o r n a r a - s e
mais distante. E o s i l ê n c i o cai s o b r e a v i d a d o p a d r e J o s é M a u r í c i o .
Apaziguado, enfim.
O q u e s e s e g u e a o p r o f u n d o s i l ê n c i o dessa h o r a l e v a a
m e d i t a r s o b r e a e x i s t ê n c i a d e s s e m ú s i c o q u e v i v e r a p a r a a sua
arte. Desaparecia o padre José Maurício d e i x a n d o uma obra d e
p r o p o r ç õ e s n ã o e x a t a m e n t e a v a l i a d a até a g o r a , mas q u e e m seus
contrastes e desníveis vale c o m o testemunho d o m á x i m o valor
d e uma fase histórica da c r i a ç ã o brasileira, quantitativa e
q u a l i t a t i v a m e n t e a m a i o r c o n t r i b u i ç ã o r e u n i d a até e n t ã o p o r u m
c o m p o s i t o r d o Rio d e Janeiro.
A v i n c u l a ç ã o d o artista c r i a d o r à m o r t e na m i s é r i a atingira
e m c h e i o e c o m toda a brutalidade o compositor brasileiro e m
s e u s ú l t i m o s dias. M o r r e u d e s a m p a r a d o o f i l h o d e V i t ó r i a M a r i a .
M o r r e u s e m assistência. O m e i o q u e o c i r c u n d a v a , o d o s músicos,
t a m b é m estava sem recursos e esse infortúnio sem a p e l a ç ã o fora
c r i a d o p e l a s c o n d i ç õ e s g e r a i s d e v i d a d o país. Era u m a c l a s s e
falida, a d o s músicos; estavam todos muito pobres.
A l a m e n t á v e l situação e m q u e m o r r e u o p a d r e J o s é M a u r í c i o
f a z p e n s a r nas p a l a v r a s d e Arthur H o n n e g e r , q u e p a r e c e m ajustars e a u m a r e a l i d a d e q u e n ã o é mais a d e n o s s o s dias. D i z o c o m p o s i t o r SUÍÇO:
" O s á b i o , o c r i a d o r i n t e l e c t u a l é , p o r t a n t o , o ú n i c o ser q u e
n ã o e n r i q u e c e e x p l o r a n d o o seu s e m e l h a n t e . A o c o n t r a r i o ,
e l e f a z u m d o m à h u m a n i d a d e , r e n u n c i a n d o muitas v e z e s
180
José Maurício Nunes Garcia biografia
a satisfações materiais. B e m s a b e m o s q u e raramente e l e é
r e c o m p e n s a d o e m vida. E tem direito à incompreensão, à
falta d e c o r a g e m , a o d e s p r e z o , a l g u m a s v e z e s até à m i s é r i a . "
T e r " d i r e i t o " à miséria — palavras terríveis, cheias de horror, p r o n u n c i a d a s p e l o c o m p o s i t o r — n ã o p o d e ser a p l i c a d o a o
m ú s i c o d e h o j e , mas era uma r e a l i d a d e na é p o c a d e J o s é M a u r í c i o
e e l e v i v e u - a i n t e g r a l m e n t e . A injustiça e o d e s p r e z o c o u b e r a m l h e c o m o u m d i r e i t o . Seus d o n s n ã o o a j u d a r a m a ter a v i d a
m e n o s difícil.
São aspectos q u e c o n c o r d a m c o m o d e s a b a f o d o filho, a o
r e f e r i r - s e m a i s t a r d e "à t e r r í v e l i m p r e s s ã o q u e e m m i m causara
v ê - l o expirar e m completa desgraça, cercado de desgostos e
p r i v a ç õ e s , e d e s a t e n d i d o até nos seus direitos ( . . . ) q u a n d o toda
sua v i d a tinha já g a s t o e m s e r v i r b e m a o E s t a d o . "
Passados alguns momentos d o falecimento, Felizarda
M o r e i r a d e C a s t r o , irmã d e S e v e r i a n a , e n c o n t r o u e m u m a g a v e t a
16$000 e m c o b r e . A h u m i l d a d e da quantia grita, p e l o contrastante
e n t r e a p e n ú r i a q u e e n v o l v e a sua m o r t e e a g r a n d e z a d o q u e
o f e r e c e r a e m v i d a . É o r e m a n e s c e n t e d o s últimos g a n h o s materiais
d e u m a v i d a d e d i c a d a à arte. R e s t o s c o n c r e t o s da i n d i f e r e n ç a ,
da i n g r a t i d ã o p e l o d e s t i n o d o h o m e m q u e p a g o u , c o m o
s o f r i m e n t o d e c a d a dia, o d i r e i t o d e d e i x a r o s e u c a n t o .
A i n d a a t u r d i d o n o tentar c o n c i l i a r o s 16$000 e m c o b r e c o m
as d e s p e s a s n e c e s s á r i a s a o e n t e r r a m e n t o d o p a i , o Dr. N u n e s
Garcia f o i b a f e j a d o c o m o conforto q u e lhe trouxeram a m i g o s e
e x - a l u n o s , na p e s s o a d e C â n d i d o I n á c i o d a Silva, q u e , e m n o m e
da I r m a n d a d e d e Santa C e c í l i a , e x p r i m i u o d e s e j o d e s t a e m
responsabilizar-se p e l o sepultamento d o padre José Maurício e m
e x é q u i a s c o m missa e o f í c i o s o l e n e s , q u e a e n t i d a d e o f i c i a l d o s
m ú s i c o s f a r i a na i g r e j a d e S ã o P e d r o .
A o c h e g a r o c ó n e g o Luís G o n ç a l v e s d o s Santos " p a r a v e s t i r
o c o r p o " , já o e n c o n t r o u p r o n t o . O f i l h o c u m p r i r a e s s e a t o . O
p a d r e José Maurício foi enterrado c o m "calças e jaqueta roxas,
v e s t e s q u e usava n o i n t e r i o r d e sua c a s a " .
O Dr. M a n u e l d e A r a ú j o P o r t o - A l e g r e , i n f o r m a d o d o
f a l e c i m e n t o , v e i o à casa d o p a d r e - m e s t r e a c h a m a d o d o f i l h o ,
s e u c o m p a n h e i r o d e e s t u d o s , para f a z e r - l h e a máscara mortuária,
h o j e n o Instituto Histórico e G e o g r á f i c o Brasileiro.
Nessa o c a s i ã o , analisa a figura física d o p a d r e José M a u r í c i o :
" F o i J o s é M a u r í c i o u m h o m e m d e estatura mais d o q u e o r d i n á r i a ;
tinha u m a f i s i o n o m i a n o b r e , o l h a r p e n e t r a n t e e l u m i n o s o q u a n d o
r e g i a a o r q u e s t r a o u f a l a v a da arte: as d i m e n s õ e s e s a l i ê n c i a s
ó s s e a s d o seu t o d o m o s t r a v a m q u e havia s i d o de f o r t e
181
Cleofe Person de Mattos
c o n s t i t u i ç ã o " . P o r t o - A l e g r e c o n f i r m a ter v i s t o s o b r e a sua m e s a o
tratado d e c o n t r a p o n t o e de harmonia " q u e havia t e r m i n a d o
p o u c o s dias antes d e morrer". E t a m b é m uma f o l h a d e p a p e l
c o m e n g e n h o s o "círculo m o v e d i ç o n o qual estavam marcados
t o d o s os tons e q u e m o v i d o e m qualquer sentido q u e fosse,
apresentava e m roda um sistema c o m p l e t o d e harmonia".
A l u n o s e a m i g o s r e u n i r a m - s e para tocar, na h o r a g r a v e d o
s e p u l t a m e n t o , a Sinfonia
fúnebre,
n o c l a u s t r o da i g r e j a d e S ã o
Pedro. A venerável irmandade d o Príncipe dos Apóstolos, dos
c l é r i g o s , se n ã o l h e d e u s o c o r r o à v e l h i c e , n e m o a m p a r o u na
d o e n ç a e n q u a n t o v i v e u , d e u - l h e m o r a d a p a r a as suas c i n z a s .
Q u a t r o dias a p ó s a morte d o padre José Maurício, D. P e d r o
i n d i c o u S i m ã o P o r t u g a l para o c u p a r o p o s t o d e m e s t r e - d e - c a p e l a .
N ã o o c o l o c o u na v a g a d e i x a d a p e l o i r m ã o , M a r c o s , m o r t o e m
f e v e r e i r o , e s i m na d e J o s é M a u r í c i o . N o í n t i m o , o g e s t o d o
i m p e r a d o r representava uma h o m e n a g e m a o seu v e l h o p r o f e s sor, d e c l a r a n d o - o insubstituível. Mas, p o r o u t r o l a d o , era a pá d e
c a l atirada p o r D . P e d r o na s e p u l t u r a d o p a d r e J o s é M a u r í c i o
N u n e s Garcia.
O N e c r o l ó g i o — e s c r i t o p o r J a n u á r i o da C u n h a B a r b o s a n o
Diário
Fluminense
d e 7 d e m a i o d e 1830 — é a ú n i c a v o z q u e se
l e v a n t a p a r a deitar, c o m o e s c r e v e o autor, u m a " p e q u e n a c o r o a "
s o b r e o s e u t ú m u l o . O v a l o r m a i o r das palavras d o g r a n d e tribuno,
o r a d o r sacro, f u n d a d o r e secretário p e r p é t u o d o Instituto H i s t ó r i c o
e G e o g r á f i c o B r a s i l e i r o é a a v a l i a ç ã o g e n e r o s a d o artista e d o
intelectual q u e d e s a p a r e c e r a , a d m i r a ç ã o p r o f u n d a p e l o c o m p o s i t o r q u e m a r c a r a u m p a s s o na e v o l u ç ã o da m ú s i c a b r a s i l e i r a .
"Este p e q u e n o t r i b u t o da nossa s a u d a d e na m o r t e d e u m
p a t r í c i o q u e tanto n o s honrara p e l a sua d e c i d i d a e x c e l ê n c i a
na p r o f i s s ã o q u e d e s d e m e n i n o abraçara, n ã o será p e r d i d o
para os Brasileiros, q u e a m a m ver r e c o m e n d a d o à
p o s t e r i d a d e e a o c o n h e c i m e n t o d o m u n d o ilustrado, o n o m e
d a q u e l e q u e se f e z c é l e b r e , c u l t i v a n d o c o m z e l o , e
p e r s e v e r a n ç a , o s t a l e n t o s c o m q u e o d o t a r a a n a t u r e z a . Já
n ã o e x i s t e mais o P a d r e J o s é M a u r í c i o N u n e s G a r c i a .
U m a l i g e i r a vista l a n ç a d a a g o r a s o b r e a sua v i d a fará v e r
q u e n ã o s o m o s e x a g e r a d o s neste v o l u n t á r i o tributo d e nossa
a m i z a d e , e q u e o e p i t á f i o q u e d e v i a estar s o b r e a sua c a m p a ,
o n d e s ó se e n c o n t r a m m o d é s t i a e p o b r e z a , e x i s t e n o s
c o r a ç õ e s d e saudosos patrícios, q u e c o n h e c e m quanto ele
h o n r a r a a sua pátria e q u a n t o m e r e c e r a d o s a m a n t e s d a s
Letras e d a s B e l l a s A r t e s . "
182
José Maurício Nunes Garcia biografia
Palavras que espelham o espírito i n d e p e n d e n t e e g e n e r o s o
d e s s e s a c e r d o t e , e s c r e v e n d o - a s q u a n d o nenhuma outra v o z
encontrara v e z para louvar o m ú s i c o q u e desaparecera. Figura
í m p a r na m ú s i c a b r a s i l e i r a , o n o m e d e J o s é M a u r í c i o N u n e s
G a r c i a , até e n t ã o e n v o l v i d o e m s o m b r a , viria à l u z para r e a f i r m a r
sua m e m ó r i a c o m u m a o b r a q u e o c o l o c a v a e n t r e o s g r a n d e s d e
sua p á t r i a .
F r u t o e f o n t e d e a l e g r i a s c o m o d e tristezas, n a s c i d a d o s
m o m e n t o s d e c o n f i a n ç a na v i d a e d a s angústias q u e o c e r c a r a m ,
sua m ú s i c a t r a n s f o r m o u - s e e m p a t r i m ô n i o para sua g e n t e e e m
d á d i v a para a h u m a n i d a d e . Assim cumprira e l e a missão q u e
e s c o l h e r a : ser m ú s i c o p a r a t r a z e r a s e u p o v o a p a l a v r a q u e era
sua, e q u e era n o v a .
183
Post-mortem
O destino
de uma
obra
N ã o foram f e l i z e s para a Catedral d o Rio de Janeiro os anos
q u e se seguiram a o desaparecimento d e seu primeiro mestre-decapela. C o m a morte d o p a d r e José Maurício Nunes Garcia n ã o
mais existia o servidor que, ao l o n g o de 63 anos d e existência
v o l t a d a para a música, construíra uma b a g a g e m numerosa
c o m p r o m e t i d a c o m o ambiente cultural e m q u e f o i p r o d u z i d a .
Da sombra e m que viveu nos últimos anos mergulhava seu c o r p o
e m outra sombra mais escura; dela ascenderia mais tarde para
v i v e r na memória d e seu p o v o c o m uma obra que o c o l o c a v a
entre os grandes d e sua pátria. 290
N ã o f i c o u e s q u e c i d o o mestre-de-capela p e l o s discípulos,
a m i g o s e admiradores. Durante anos sua música permaneceu nas
estantes e suas c o m p o s i ç õ e s continuarão a ser copiadas. A Missa
de Santa Cecília f o i ouvida uma segunda v e z , e m 1830, mas não
seria possível f a z e r muita coisa p o r ser uma obra destinada à
Catedral. Entregue o mestrado da Catedral à m e d i o c r i d a d e d e
Fortunato Mazziotti e d e Simão Portugal, a velha Sé assistirá ao
d e s m a n t e l a m e n t o d o Primeiro Reinado e acompanhará os seus
passos até a a b d i c a ç ã o d e D. P e d r o , e m 1831. Instalou-se uma
Regência q u e aguardou a maioridade d e D. P e d r o II, nascido e m
1825.
A Regência f o i impiedosa c o m a Catedral. Concretizando a
desconfiança d o s h o m e n s públicos c o m a instituição q u e custara
às finanças d o país somas fabulosas n o p e r í o d o d e esplendor,
d e s p e d i u t o d o s os músicos p o u c o s meses após a abdicação. Em
julho d e 1831, ficou a orquestra reduzida ao ó r g ã o , a o rabecão,
e a um violoncelo. 2 9 1
Era o g o l p e final d o conjunto f a m o s o . O s músicos, j o g a d o s
na m i s é r i a , c o n t i n u a r a m v i v e n d o p e n o s a m e n t e . A l g u n s
s o b r e v i v e r a m c o m o diretores d e música e m igrejas — J o ã o d o s
Reis Pereira ou Manuel Pimenta Chaves , outros dedicaram-se a
copiar música. Outros afirmaram-se c o m o professores, c o m José
Maria da Silva Reis, q u e se anunciava nos jornais o f e r e c e n d o - s e
para ensinar música ou Francisco da Luz Pinto, professor n o Pedro
II — e ainda c o m o organistas nas igrejas da cidade. Q u a n d o não
iam buscar e m Buenos Aires ou Montevidéu o ambiente que lhes
p r o p o r c i o n a r i a p e r m a n e c e r na atividade a q u e estavam afeitos.
A criação da Sociedade Musical Beneficente, por Francisco
Manuel da Silva, e m 16 d e d e z e m b r o de 1833, terá sido um ato
heróico com o objetivo de acudir os músicos sem nenhum amparo,
os d o e n t e s e suas famílias, custeando-lhes os funerais.
187
Cleofe Person de Mattos
A d e f i c i ê n c i a d o m e i o musical, s e m r e c u r s o s , s e m o r q u e s t r a
e v o z e s adequadas ao repertório, não favorecia a apresentação
d e g r a n d e s obras. Mudará d e z anos mais tarde c o m a a s c e n s ã o
d e P e d r o I I a o t r o n o , q u e i n d i c o u Francisco M a n u e l c o m o m e s t r e d e - c a p e l a d a C a t e d r a l M e t r o p o l i t a n a e C a p e l a I m p e r i a l e m 1842,
na v a g a d e S i m ã o P o r t u g a l .
A o assumir o posto, cuidou Francisco Manuel d o
a p a r e l h a m e n t o m u s i c a l da C a t e d r a l , q u e a R e g ê n c i a e x t i n g u i r a ,
e chamou d e volta os antigos companheiros. Porém, os anos
haviam passado e esses músicos envelheceram ou morreram,
t o r n a n d o i m p r a t i c á v e l a e x e c u ç ã o d e p e ç a s c o m p o s t a s para v o z e s
qualificadas. Dentro e m p o u c o , o mestre-de-capela viu-se diante
da triste r e a l i d a d e : c o m a v e l h i c e , c h e g a r a m as m o l é s t i a s
incuráveis, d i f i c u l t a n d o o u inabilitando esses m ú s i c o s para o
t r a b a l h o . O r e c u r s o a o s f a l s e t i s t a s era a l t e r n a t i v a q u e n ã o
c o r r e s p o n d i a n e m na t é c n i c a n e m n o v o l u m e .
Uma decisão de Francisco Manuel ao chamar para o c o r o
da Catedral o s alunos d o Imperial C o n s e r v a t ó r i o de Música f o i
s a u d a d a p e l a i m p r e n s a . O g e s t o c o n t r i b u í a , c e r t a m e n t e , para rev i v e r o r e p e r t ó r i o m a u r i c i a n o da C a p e l a I m p e r i a l , m a s n ã o
i m p e d i u a i d é i a d e q u e "as v e l h a s o b r a s p r e c i s a m ser
r e o r q u e s t r a d a s " , i d é i a q u e o p r ó p r i o f i l h o d e f e n d e na carta a o
Instituto Histórico.
O a r q u i v o da C a p e l a I m p e r i a l era r i c o e m o b r a s
s i g n i f i c a t i v a s . Mas, a q u e l e s q u e s u p u n h a m h o m e n a g e a r o p a d r e mestre, m o v i d o s p e l o espírito de renovação, não imaginavam
q u e , a o o u v i r o b r a s c o m p o s t a s p o r J o s é M a u r í c i o , na r e a l i d a d e
estas p a s s a v a m p e l a p e r s o n a l i d a d e d e F r a n c i s c o M a n u e l da
Silva. 2 9 2
N a ânsia d e m o d e r n i z a r as o b r a s , c o l o c a v a m n o v a s árias
s u b s t i t u i n d o as v e r d a d e i r a s ; o instrumental o r i g i n a l era p o r sua
v e z substituído p o r outros, espúrios, não usados n o t e m p o d o
c o m p o s i t o r . Eram e m p r e g a d o s nessas s u b s t i t u i ç õ e s o f i c l e i d e , pist o n s etc. C h a m a v a m - s e o s a u t o r e s das r e d u ç õ e s d e v o z e s N o r b e r t o
Pereira da N o r m a n d i a e M i g u e l P e d r o Vasco, a m b o s arquivistas
da C a p e l a . C o m b i n a r o b r a s d e v á r i a s é p o c a s a t r i b u i n d o - l h e s u m
título ú n i c o c o m p r o m e t e u a m e m ó r i a exata dessas o b r a s cujos
títulos se perderam293 e cuja v e r s ã o o r i g i n a l ainda n ã o f o i
l o c a l i z a d a . P r o b l e m a s é r i o nas o b r a s c o n s e r v a d a s n o R i o d e
J a n e i r o , a m p l i a v a - s e s o b r e t u d o n o interior, o n d e o s i n s t r u m e n t o s
originais faltavam.
A s s i m d e s a p a r e c i a m o s m a n u s c r i t o s da C a t e d r a l d o R i o d e
J a n e i r o : as o b r a s c o r r o í d a s p e l a s traças e a t a c a d a s p e l o m o f o o u
u m i d a d e ficaram reduzidas a um m o n t ã o de papéis velhos. É
188
José Maurício Nunes Garcia biografia
incalculável o n ú m e r o d e manuscritos q u e d e s a p a r e c e r a m . D e p o i s
d a s traças e d o s c u p i n s , a d e p u r a ç ã o f i n a l e d e f i n i t i v a d e u - s e
n u m a e n o r m e f o g u e i r a , l e v a n t a d a n o p á t i o da C a p e l a I m p e r i a l .
S o b r e v i v e r a m até a l g u m a s d é c a d a s t e s t e m u n h a s d e s s e f a t o , e n t r e
elas m o n s e n h o r Marinho, que dele deu c o n h e c i m e n t o ao
historiador A m é r i c o L a c o m b e , d o Instituto Histórico.
O C a t á l o g o d e J o a q u i m J o s é M a c i e l , l e v a n t a d o antes d e s s e s
a c o n t e c i m e n t o s e m 1887 c o m o s s e u s 241 t í t u l o s d e o b r a s
c o m p o s t a s até 1811, p r o v a da e n o r m e p r o d u ç ã o d e J o s é M a u r í c i o
N u n e s G a r c i a para a C a t e d r a l e R e a l C a p e l a d o R i o d e J a n e i r o ,
permaneceu reduzido.
E m 1811 c h e g o u M a r c o s P o r t u g a l e a p r o d u ç ã o d e J o s é
M a u r í c i o d e s a p a r e c e u . F r a n c i s c o M a n u e l d a Silva, q u e s u c e d e u
a S i m ã o P o r t u g a l , d e s a p a r e c e u e m 1865. Seu p o s t o f o i o c u p a d o
p o r A r c â n g e l o F i o r i t o , u m n a p o l i t a n o d a c o m i t i v a da i m p e r a t r i z
D . T e r e s a Cristina Maria, p o r o c a s i ã o d o c a s a m e n t o d e s t a c o m
D . P e d r o II, e q u e n a d a tinha a v e r c o m a t r a d i ç ã o b r a s i l e i r a .
A partir d e 1890 o n o v o m e s t r e - d e - c a p e l a H u g o B u s s m e y e r
d e c i d i u r e v i v e r o r e p e r t ó r i o a n t i g o da C a p e l a . O i m p a s s e e n t r e a
e x e c u ç ã o d a s o b r a s e a i n e x i s t ê n c i a d e v o z e s na C a p e l a I m p e r i a l
c o n d u z i u o mestre-de-capela a tomar medida p o u c o acertada: a
r e d u ç ã o p a r a três v o z e s m a s c u l i n a s d e o r i g i n a i s c o m p o s t o s p a r a
q u a t r o . D e s s a i n i c i a t i v a r e s u l t a r a m o b r a s cuja i n t e g r i d a d e f o i
a t i n g i d a , mas o p r e j u í z o m a i o r f o i o e x t r a v i o d o s o r i g i n a i s . N i s t o
i n c l u e m - s e m i s s a s d e 1808, 1809, d u a s d e 1820, c u j o s títulos
dificilmente serão descobertos n o Catálogo de Maciel.
N e s s e ínterim, Bento das Mercês, e x c e l e n t e copista,
arquivista da C a p e l a I m p e r i a l e a d m i r a d o r i n c o n d i c i o n a l d e J o s é
M a u r í c i o , c o n s e g u i u reunir c ó p i a s e c o l e ç õ e s d e a m i g o s e a n t i g o s
a l u n o s d o p a d r e - m e s t r e : as c o l e ç õ e s d e Francisco M a n u e l da Silva,
q u e r e p r e s e n t a a C a t e d r a l , d e F r a n c i s c o da L u z P i n t o , d e J o ã o
d o s Reis P e r e i r a , assim c o m o o s a n t i g o s c o p i s t a s d e suas músicas:
V i t ó r i o M a r i a G e r a l d o , Luís d e S o u z a R a n g e l , J o ã o d e S. B a r r o s .
D o i s a r q u i v o s e r a m s o b r e t u d o i m p o r t a n t e s : o d e Batista L i s b o a
( O r d e m T e r c e i r a d o C a r m o ) e o d e F r a n c i s c o M a n u e l d a Silva.
A p o s i ç ã o d e arquivista da C a p e l a I m p e r i a l f a c i l i t o u a B e n t o
d a s M e r c ê s l e v a r para casa muita m ú s i c a p a r a c o p i a r . Entre o s
a r q u i v o s r e c o l h i d o s d o s a n t i g o s c o l e c i o n a d o r e s , é i m p o r t a n t e citar
a c o l e ç ã o d e Batista L i s b o a , q u e a o m o r r e r e m 1848 d e i x o u vasta
c o l e ç ã o d e o b r a s e x e c u t a d a s nas c e r i m ó n i a s da O r d e m T e r c e i r a
d o Carmo. Desta ampla c o l e ç ã o q u e abrangia vários autores,
p o d e - s e d i z e r q u e B e n t o das M e r c ê s a b s o r v e u t o d a a m a u r i c i a n a .
O b r a s i m p o r t a n t e s aí s e e n c o n t r a v a m : matinas, m i s s a s , o b r a s
ú n i c a s , e n t r e e l a s o Ofício e a Missa de Requiem
d e 1816.
189
Cleofe Person de Mattos
P o r o u t r o l a d o , n ã o se i g n o r a q u e m a n u s c r i t o s p e r t e n c e n t e s
a o a r q u i v o da Catedral se e n c o n t r a m h o j e na b i b l i o t e c a da Escola
d e M ú s i c a . B e n t o das M e r c ê s , arquivista da C a p e l a I m p e r i a l , tinha
l i b e r d a d e p a r a retirar d o a r q u i v o e l e v a r p a r a casa m a n u s c r i t o s e
l e v a n t a r p a r t i t u r a s o u tirar n o v a s c ó p i a s . D e m o r a v a m - s e e s s e s
m a n u s c r i t o s e m sua casa na rua d o L i v r a m e n t o , o n d e o a c o l h e u
a m o r t e a o s 8 2 a n o s , d e p n e u m o n i a d u p l a , e m 12 d e j u l h o d e
1887. T r ê s d i a s a n t e s , J o a q u i m J o s é M a c i e l e n t r e g a v a o c a t á l o g o
d a s m ú s i c a s d o a r q u i v o , c o m 241 u n i d a d e s . O b r a s n e l e c i t a d a s
e n c o n t r a v a m - s e a i n d a na casa d e B e n t o .
A parte quantitativa e qualitativa mais valiosa d o material
d a E s c o l a d e M ú s i c a era s e m d ú v i d a a c o l e ç ã o p r o v e n i e n t e d o
a n t i g o cantor e arquivista da Capela I m p e r i a l . A r r o l a n d o , s e g u n d o
e s t i m a t i v a d o v i s c o n d e d e T a u n a y , n o m o m e n t o da c o m p r a , 112
p e ç a s — n ú m e r o q u e resulta da c o n t a g e m e m s e p a r a d o d e
partituras e p a r t e da m e s m a o b r a , o u d e d i f e r e n t e s c ó p i a s da
m e s m a o b r a — o total é u m p o u c o m e n o r , e m b o r a r e p r e s e n t e
t o d o s o s a r q u i v o s d o Rio d e Janeiro. Muitas das partituras
a u t ó g r a f a s das 14 q u e s o b r e v i v e m e s t ã o na b i b l i o t e c a da E s c o l a
d e Música.
A c o l e ç ã o mauriciana da O r d e m Terceira d o Carmo (na
b i b l i o t e c a p a r t i c u l a r d e J o s é Batista L i s b o a ) já e s t a v a a g r e g a d a à
c o l e ç ã o d e B e n t o d a s M e r c ê s d e s d e a m o r t e d e Batista, e m 1848.
O a c e r v o f o i l e g a d o p o r h e r a n ç a a suas c u n h a d a s V e r i d i a n a
Carolina e P e r e g r i n a Belarmina; p o r m o r t e destas, ficaria para
sua a f i l h a d a G a b r i e l a L o p e s da Silva. 294 Das m ã o s desta, já casada,
c o m o n o m e d e Gabriela Alves de Souza, recebeu o g o v e r n o os
d o i s c a i x o t e s c o m o s m a n u s c r i t o s e a carta da p r o p r i e t á r i a
p r o p o n d o a v e n d a p o r 2:000$000 ( d o i s c o n t o s d e r é i s ) . U m a
p r o p o s t a d o d e p u t a d o m i n e i r o Pandiá C a l ó g e r a s para incluir a
a q u i s i ç ã o da c o l e ç ã o d e B e n t o das M e r c ê s n o o r ç a m e n t o f a c i l i t o u
a aquisição n o ano e m curso. A c o l e ç ã o foi doada ao então
c h a m a d o Instituto N a c i o n a l d e Música. Nesta d o a ç ã o e n v o l v e r a m se o d i r e t o r d o e s t a b e l e c i m e n t o , L e o p o l d o M i g u e z , e o c o m p o s i tor A l b e r t o N e p o m u c e n o numa g r a n d e tarefa: o material r e c e b i d o
foi estudado, reconstituído e copiado, visando à publicação de
algumas obras, l o g o apresentadas a o público.
A i n a u g u r a ç ã o d o e d i f í c i o n o v o da C a n d e l á r i a , e m 1898, é
a o p o r t u n i d a d e d e dar a m p l i t u d e e d i v u l g a ç ã o às o b r a s p o s t a s
ao alcance d o público. Foi um m o m e n t o d e consagração e m nível
n a c i o n a l , p o r q u a n t o as n o t í c i a s t r a n s p u n h a m as f r o n t e i r a s d o s
e s t a d o s . F o r a m o u v i d a s na o c a s i ã o as s e g u i n t e s o b r a s :
Requiem
d e 1816 ( j u n h o ) , Missa festiva ( n o m e a t r i b u í d o , p o r e q u í v o c o , à
Missa de Santa Cecília,295
Missa d e 1801. 296
190
José Maurício Nunes Garcia biografia
N o m e s m o a n o , a I g r e j a d a Santa C r u z d o s M i l i t a r e s f a z i a
o u v i r a Missa mimosa
n o dia d e Nossa Senhora da P i e d a d e ,
d i r i g i d a p o r J o ã o P e r e i r a da Silva. 2 9 7
C r i a d o e d e s e n v o l v i d o para atender aos s e r v i ç o s religiosos
da Catedral, o seu a r q u i v o f o i p r e j u d i c a d o c o m o b r a s
d e s a p a r e c i d a s o u desfiguradas p o r arranjos; d e n t r o e m p o u c o
c e d i a sua p o s i ç ã o prioritária à c o l e ç ã o d e B e n t o d a s M e r c ê s , q u e
s e d e s e n v o l v e u p a r a l e l a m e n t e a o a r q u i v o da C a t e d r a l e é h o j e ,
s e m d ú v i d a , o m a i s i m p o r t a n t e s a c e r v o d e m ú s i c a : o da E s c o l a
d e Música da Universidade Federal d o Rio de Janeiro.
S ã o três o s a r q u i v o s q u e f o r m a m a c o l e ç ã o da E s c o l a d e
Música: o a c e r v o de Bento das Mercês, o d o ' I m p e r i a l
C o n s e r v a t ó r i o d e Música e a c o l e ç ã o da Real F a z e n d a Santa Cruz.
A l g u m a s d o a ç õ e s ou aquisições posteriores juntaram-se a
esta, c o m o b r a s p e q u e n a s e d e m e n o r v a l i a , o u i n d e v i d a m e n t e
arranjadas, c o m o a d e José R a i m u n d o d e Miranda M a c h a d o , q u e
p r a t i c a m e n t e a n u l o u as á r i a s o r i g i n a i s , s u b s t i t u i n d o - a s p o r
entradas repetidas d o m o t i v o d o Glória.
E m 1930, n o p r i m e i r o c e n t e n á r i o da m o r t e d e J o s é M a u r í c i o ,
l e v a n t a m e n t o f e i t o p e l o bibliotecário Luiz Heitor Corrêa d e
A z e v e d o , segundo o catálogo de Guilherme de Mello, confirma
a l g u m a s e n t r a d a s a l é m das q u e se c o n h e c i a m .
Crescia, n ã o s ó n o R i o d e Janeiro c o m o n o interior d o Brasil,
o m o v i m e n t o e m t o r n o da m ú s i c a d o p a d r e J o s é M a u r í c i o . N ã o
t a n t o e m c o n c e r t o s c o m o e m p r e s t í g i o , na r e p e r c u s s ã o d o p r o j e t o
de Taunay em cidades que possuíam cópias de músicas d o c o m positor nos arquivos locais.
Em P o r t o A l e g r e o m o v i m e n t o f o i b e n e f i c i a d o p e l o s e c o s
da a t i v i d a d e d o m ú s i c o m i n e i r o J o s é J o a q u i m d e M e n d a n h a ( V i l a
Rica 1801 - P o r t o A l e g r e 1885), q u e f o r a m e s t r e - d e - c a p e l a d a
Catedral. 2 9 8
Na realidade, o a c e r v o d e B e n t o das Mercês significava o
a g r u p a m e n t o d e várias c o l e ç õ e s d e música q u e ele, o mais ativo
c o p i s t a e p r o f u n d o a d m i r a d o r da o b r a d e J o s é M a u r í c i o , p r o c u r o u
reunir d e s d e c e d o para m e l h o r d e f e n d ê - l o , e adquiri-las d e p o i s
d e d e s a p a r e c i d o s o s r e s p e c t i v o s d o n o s . D e n t r e essas, o b r a s d o s
primeiros anos d e atividade d e José Maurício copiadas p o r Vitório
Maria G e r a l d o , Luís d e S o u z a R a n g e l , J o s é d e Faria B a r r o s . Entre
o s a r q u i v o s q u e c o n v e r g i r a m para a c o l e ç ã o d e B e n t o das M e r c ê s ,
g r a n d e i m p o r t â n c i a c a b e a o s manuscritos q u e p e r t e n c e r a m a J o s é
Batista L i s b o a q u e , c o m o d i r e t o r d e m ú s i c a da O r d e m T e r c e i r a
d o Carmo, ficava c o m manuscritos d o p r ó p r i o José Maurício que
s e r v i a m às c e r i m ó n i a s da O r d e m . Seu c o n t e ú d o p o d e ser até
c e r t o p o n t o a v a l i a d o na r e l a ç ã o feita p o r Francisco M a n u e l C h a v e s
191
Cleofe Person de Mattos
e F r a n c i s c o da L u z P i n t o , a n e x a d o a o s e u i n v e n t á r i o (Batista
m o r r e u e m 21 d e abril d e 1848), já e n t ã o c h a m a d o d e J o s é Batista
Brasileiro, n o m e a d o t a d o d e s d e a I n d e p e n d ê n c i a . O s manuscritos
p r o v e n i e n t e s d o a r q u i v o d e Batista s ã o r e c o n h e c í v e i s , na E s c o l a
d e M ú s i c a , p e l a rubrica q u e e l e p u n h a n a q u e l e s q u e f i z e r a m ^ d ú v i d a
parte, a l g u m dia, d o seu a c e r v o .
D o i s copistas q u e d e s a p a r e c e r a m antes d e B e n t o d a s M e r c ê s
f o r a m p o r e l e a b s o r v i d o s : Francisco M a n u e l da Silva, c u j o a r q u i v o
seria p a r t e d a s m ú s i c a s da C a t e d r a l p o r e l e t r a b a l h a d a s , e Franc i s c o da L u z P i n t o , c o m p e q u e n o a r q u i v o n u m e r a d o ; a m b o s
c o n f l u í r a m p a r a a c o l e ç ã o d o z e l o s o a r q u i v i s t a , F i r m i n o J o s é da
Silva. O cantor J o ã o d o s Reis f o i igualmente copista de obras d o
p a d r e - m e s t r e . M o r t o e m 1853 p ô d e c o p i a r o b r a s i m p o r t a n t e s ,
c o m o a Missa a grande orquestra
( C T 120) q u e se p o d e a c r e d i t a r
seja a Missa da Degolação,
extraviada durante anos, hipótese
q u e se d e f e n d e nesta b i o g r a f i a .
A l é m d a c o l e ç ã o d e B e n t o das M e r c ê s , d o i s a r q u i v o s f o r a m
c a n a l i z a d o s p a r a a Escola d e Música: o da Real F a z e n d a d e Santa
Cruz e Imperial Conservatório d e Música.
A o ser extinto o Imperial C o n s e r v a t ó r i o d e Música, seu
a r q u i v o f o i integralmente transferido para o Instituto N a c i o n a l
d e M ú s i c a , b e m a n t e s da c o l e ç ã o d e B e n t o d a s M e r c ê s . C o m o
material d o Conservatório, inaugurava-se, e m 2 d e janeiro de
1893, o l i v r o d e r e g i s t r o da b i b l i o t e c a . A c o l e ç ã o d e B e n t o d a s
M e r c ê s p r o v e n i e n t e d o I m p e r i a l C o n s e r v a t ó r i o d e Música s o m e n t e
e m 1896 p r i n c i p i a v a a ser r e g i s t r a d o .
A o c o n t r á r i o d o q u e se p o d e r i a i m a g i n a r d e u m a instituição
q u e t i v e r a c o m o d i r e t o r F r a n c i s c o M a n u e l da Silva, a p e n a s d u a s
o b r a s d e J o s é M a u r í c i o s e r i a m registradas na b i b l i o t e c a da Escola
d e Música c o m essa p r o v e n i ê n c i a : Compêndio
de música e Método
de pianoforte
e a Missa festiva ( n o m e a c r e s c e n t a d o e m 1898, a
l á p i s v e r m e l h o ) q u e c o r r e s p o n d e à Missa de Santa Cecília.
O
e n c a m i n h a m e n t o d o m a t e r i a l da R e a l F a z e n d a d e Santa C r u z , a
t e r c e i r a f o n t e i m p o r t a n t e , t e v e c o m o p o n t o d e partida o o f í c i o
d o s e c r e t á r i o d o M i n i s t é r i o d o I n t e r i o r , e m 1894, r e c l a m a d o
p r o v i d ê n c i a s d o Instituto N a c i o n a l d e Música para q u e m a n d a s s e
buscar o s manuscritos d o " a r q u i v o musical" da F a z e n d a — p o u c o s
e m a l c o n s e r v a d o s — q u e se a c h a v a m à d i s p o s i ç ã o d o instituto.
O s manuscritos eram os seguintes:
Tamquam
auram ( 1 8 1 2 ) - r e g i s t r o 30.056
Moteto dos apóstolos
( 1 8 1 8 ) - r e g i s t r o 30.056
Moteto para a festa da Degolação
de São João Batista
- r e g i s t r o 31.335
Moteto para as Virgens ( 1 8 1 8 ) - r e g i s t r o 30.058
192
(1818)
José Maurício Nunes Garcia biografia
Missa a grande
orquestra
( 1 8 1 8 ) - r e g i s t r o 4155-3112
O s m a n u s c r i t o s p r o v e n i e n t e s da F a z e n d a d e Santa Cruz t ê m
u m a c a r a c t e r í s t i c a c o m u m : as g r a n d e s m a n c h a s d e u m i d a d e . 2 "
A l g u m a s o b s e r v a ç õ e s d e v e m ser f e i t a s s o b r e as o b r a s da
F a z e n d a d e Santa C r u z : o m a n u s c r i t o d o Praecursor
Domini—
a
primeira obra c o m p o s t a p o r José Maurício para os e s c r a v o s d e
Santa C r u z — v e i o p a r a a E s c o l a d e M ú s i c a na c o l e ç ã o d e B e n t o
d a s M e r c ê s s e m sinais.
O m o t e t o " p a r a a f e s t a da d e g o l a ç ã o d e São J o ã o Batista"
( C T 6 3 ) faria p a r t e da c o l e ç ã o da C a p e l a I m p e r i a l ; era o
Ofertório
da missa da Degolação
da q u a l há p a r t e a u t ó g r a f a d e
timbales.
M u i t a s b u s c a s f o r a m e f e t u a d a s e n t r e a l g u m a s o b r a s : a Missa a
grande
orquestra,
c o p i a d a p o r J o ã o d o s Reis P e r e i r a é , s e g u n d o
t u d o f a z crer, a f a m o s a Missa da Degolação
de São João
Batista,
q u e t a m b é m terá v i n d o na c o l e ç ã o d e B e n t o . C o m p r a d a p o r
180$000 ( c e n t o e oitenta mil réis), s u r p r e e n d e o p r e ç o d o
manuscrito, c o m o d o s mais valiosos manuscritos da c o l e ç ã o .
A 22 d e f e v e r e i r o d e 1894 e s c r e v e r i a L e o p o l d o M i g u e z a o
m i n i s t r o d o I n t e r i o r , i n f o r m a n d o da t r a n s f e r ê n c i a d o a r q u i v o da
S u p e r i n t e n d ê n c i a d e Santa C r u z . M a s a c r e s c e n t a : " N ã o é o m a i s
i m p o r t a n t e a r q u i v o q u e c o n s t a v a lá existir; está r e d u z i d o a v e l h a s
m ú s i c a s , na m a i o r i a i m p r e s t á v e i s . "
N i s t o e n g a n a v a - s e o d i r e t o r d o Instituto N a c i o n a l d e Música.
A s m ú s i c a s — c i n c o m o t e t o s — e r a m i m p o r t a n t e s para a v a l i a r - s e
a e v o l u ç ã o desses intérpretes de José Maurício, o s escravos, por
t e r e m e l e s e x e c u t a d o o b r a s i m p o r t a n t e s , e n t r e e l a s a Missa da
Degolação
de São João Batista na R e a l C a p e l a , o q u e f i c o u na
história. A f i r m a ç ã o q u e o m o t i v o musical d o Moteto da
Degolação
de São João Batista tornara e v i d e n t e , c o m o O f e r t ó r i o , a p r o x i m a ç ã o
e m q u e a autora desta obra acredita.
Antes d e p r o s s e g u i r m o s n o assunto c o l e ç ã o B e n t o das
M e r c ê s , a o q u a l v o l t a r e m o s , é u m a t o d e justiça a c a m p a n h a
feita p e l o v i s c o n d e d e T a u n a y , q u e se e s f o r ç o u n o q u e e l e p r ó p r i o
d i z i a : " F a ç a m o s justiça a J o s é M a u r í c i o , a t é ser a d q u i r i d a p e l o
G o v e r n o , para o Instituto N a c i o n a l d e Música, a v a l i o s a c o l e ç ã o . "
E m 1872 u m a v o z l e v a n t o u - s e e m d e f e s a da m e m ó r i a d e
J o s é M a u r í c i o e b a t e u - s e p e l a p u b l i c a ç ã o d e suas o b r a s . S o b r e
e l e e s c r e v e u , f e z d i s c u r s o s , c h a m a n d o a a t e n ç ã o para essa f i g u r a
q u e honrara a pátria, t o r n a n d o v i v o o seu v u l t o p e r a n t e a história:
o v i s c o n d e d e T a u n a y . A v a l i o u sua p e r s o n a l i d a d e , sua f i g u r a
h u m a n a n o s e m b a t e s da v i d a para m e l h o r c o m p r e e n d ê - l o : m e n i n o
c h e i o d e inteligência e b o a f o r m a ç ã o , t e v e q u e d e f e n d e r seu
d i r e i t o d e n ã o ser b r a n c o d e p e l e .
193
Cleofe Person de Mattos
O v i s c o n d e , e l e i t o d e p u t a d o p o r Santa Catarina (1881-1883),
t e v e o c a s i ã o d e o u v i r a 21 d e d e z e m b r o , na C a p e l a I m p e r i a l ,
u m a d a s m i s s a s d e J o s é M a u r í c i o na c e r i m ó n i a o f i c i a l c h a m a d a
" d o Espírito Santo", q u e p r e c e d i a a abertura d o s trabalhos
parlamentares. N ã o apenas foi importante a audição da obra,
c o m o o e n c o n t r o q u e a e l a se s e g u i u , e n t r e o d e p u t a d o e o
a r q u i v i s t a da C a p e l a , B e n t o d a s M e r c ê s .
F a l a n d o a o p a i — o b a r ã o d e T a u n a y , m o r t o e m 1881 — a
respeito d o acontecimento, ficou informado sobre a personalidade
d o m e s t r e - d e - c a p e l a , d e sua v i d a na c o r t e e s o b r e t u d o d o v a l o r
d e sua o b r a . A a d m i r a ç ã o " a t á v i c a " p e l o p a d r e a q u e s e r e f e r e
T a u n a y n o p r e f á c i o d o s e u l i v r o f e z - s e sentir, e d e u - l h e e l e m e n t o s
d e a n á l i s e p u b l i c a d o s a partir d e 1880 e m a r t i g o s na
Revista
Musical
Brasileira
e na Gazeta
de Notícias,
cujo diretor o
p r e s t i g i a v a . A t r a j e t ó r i a s e g u i d a na c a m p a n h a d o v i s c o n d e d e
T a u n a y p r i n c i p i o u c o m a a p r e s e n t a ç ã o d e u m p r o j e t o , e m 1882:
i n v e n t a r i a r a o b r a d e J o s é M a u r í c i o na C a t e d r a l , nas i r m a n d a d e s ,
e m São J o ã o d e l - R e i , para o n d e h a v i a m s i d o l e v a d a s várias o b r a s .
Em j a n e i r o d e 1899 d e s a p a r e c i a , p o r sua v e z , o v i s c o n d e
d e T a u n a y , a p ó s a n o s d e d e d i c a ç ã o à causa d e J o s é M a u r í c i o , a
par d e o u t r o s t r a b a l h o s e m p r e e n d i d o s p e l o Brasil p o r e s s e f i l h o
d e f r a n c e s e s , q u e mais u m a v e z c o n f i r m a v a o v a l o r da i m i g r a ç ã o
cultural q u e o v i s c o n d e p ô d e r e a l i z a r . A f o n s o d e T a u n a y , s e u
f i l h o , r e u n i u t o d a s as p u b l i c a ç õ e s d a Revista
e d e jornais e
p u b l i c o u o r e s u m o d o s seus escritos, p r o n u n c i a m e n t o s e p r o j e t o s
e m Uma grande glória brasileira: JM N G ( M e l h o r a m e n t o s , 1930),
p o r o c a s i ã o da p a s s a g e m d o p r i m e i r o c e n t e n á r i o da m o r t e d o
c o m p o s i t o r . L i v r o q u e durante a n o s f o i — j u n t a m e n t e c o m a p a r t e
m a u r i c i a n a d e Dois artistas
máximos:
José Maurício
e
Carlos
Gomes — a m a i s p r e c i o s a f o n t e d e i n f o r m a ç ã o s o b r e o c o m p o s i tor carioca.
C o m as m ú s i c a s l e v a d a s para P o r t o A l e g r e , J. M e n d a n h a
o r g a n i z o u u m p e q u e n o a r q u i v o q u e a p ó s sua m o r t e se e s p a l h o u
e n t r e seus a l u n o s . U m destes, d e n o m e A d ã o Salvador, c o n s e g u i u
juntá-las e m p a r t e , o q u e c h e g o u a o c o n h e c i m e n t o d o d o u t o r
A n t ô n i o O l i n t o d e O l i v e i r a , m é d i c o g a ú c h o e p r o f e s s o r d e música
n o Instituto d e Belas-Artes, h o j e Escola d e Música da U n i v e r s i d a d e
F e d e r a l d o R i o G r a n d e d o Sul. Este o r g a n i z o u u m
Catálogo
temático
das c o m p o s i ç õ e s d e José Maurício existentes n o A r q u i v o
Mendanha, de Porto Alegre.
O c a t á l o g o alinha v i n t e títulos c a d a q u a l c o m o r e s p e c t i v o
incipit,
e m a i s q u a t r o g r a d u a i s d a t a d o s d e 1795, p e r t e n c e n t e s a o
d o u t o r O l i n t o d e Oliveira. O seu c o n t e ú d o abrange obras para a
S e m a n a Santa incipits
n ú m e r o s 1 a 15), alguns c o m t e x t o s
194
José Maurício Nunes Garcia biografia
p o s s i v e l m e n t e adaptados d e outras obras. O c a t á l o g o faz-nos
l a m e n t a r o d e s a p a r e c i m e n t o da Missa de defuntos
e m fá m e n o r
— incipit
n ú m e r o 18 da c o l e ç ã o — q u e seria, s e g u n d o v e m
c o n s i g n a d o , o Requiem
q u e se s e g u i r i a a o Ofício de defuntos,
no
m e s m o t o m (Matinas
de Finados
( C T 191). O b r a q u e teria
f r e q u e n t a d o o u t r o a r q u i v o na c i d a d e v i z i n h a d e R i o P a r d o , é
h o j e p r o p r i e d a d e d o C o n s e r v a t ó r i o Brasileiro d e Música d o Rio
d e J a n e i r o , p o r d o a ç ã o da ú l t i m a p r o p r i e t á r i a d o a r q u i v o
sobrevivente.300
A s s i m c o m o a a t i v i d a d e d e J o s é M e n d a n h a teria e s t i m u l a d o
a v i d a m u s i c a l e m t o r n o da C a t e d r a l d e P o r t o A l e g r e e c i d a d e s
vizinhas, outros arquivos musicais e m p e n h a v a m - s e e m coligir
m a n u s c r i t o s para ilustrar u m p a s s a d o d e música na c i d a d e , c o m o
o c a s o d e R i o P a r d o , c i d a d e natal d e M a n u e l I n á c i o P o r t o - A l e g r e .
D e l a s d á conta d a s o b r a s d e J o s é M a u r í c i o nessa c i d a d e o escritor
D a n t e d e L a y t a n o , e m c ó p i a s p o r e l e a s s i n a d a s . Esta é a o r i g e m
d o c o n h e c i m e n t o d e s s e a r q u i v o e m c i d a d e tão l o n g í n q u a . E s c r e v e
a l g u é m s o b r e o q u e o c o r r i a q u a n d o as m ú s i c a s d e J o s é M a u r í c i o
e r a m e n s a i a d a s para a l g u m a a p r e s e n t a ç ã o : "Era u m dia d e j u í z o !
o h o m e m g r i t a v a , se d e s c a b e l a v a , p u x a v a o s c a b e l o s , c h o r a v a ! "
A o chegar o f i m d o século, e c o m a tomada d e c o n h e c i m e n t o
da c a m p a n h a d e Taunay, os entendimentos p r o p i c i a r a m um
r e l a c i o n a m e n t o q u e , se n ã o resultou e m a p r e s e n t a ç õ e s p ú b l i c a s ,
p o r q u e a v i d a m u s i c a l n ã o era m u i t o rica, p r o p o r c i o n o u u m a
t r o c a d e c o r r e s p o n d ê n c i a e n t r e a c i d a d e d o sul e a c a p i t a l d o
Brasil.
O estado de São Paulo possui arquivos representativos q u e
d e v e m ser m e n c i o n a d o s p o r c o n t e r o b r a s únicas d e J o s é Maurício.
Em Campinas, o pai d e Carlos G o m e s — Manuel José
G o m e s , d i r e t o r d o c o n j u n t o m u s i c a l da matriz d e N o s s a S e n h o r a
da C o n c e i ç ã o — r e u n i a u m a r q u i v o m u s i c a l d e p r o c e d ê n c i a
diversa, c o m o a dos c o m p o s i t o r e s setecentistas d e Minas Gerais,
c ó p i a s d e músicas de José Maurício feitas p e l o r e g e n t e d e s d e
1834, a l é m d a s p r ó p r i a s c o m p o s i ç õ e s . Q u a t o r z e p e ç a s d e J o s é
M a u r í c i o , a l g u m a s das quais c ó p i a s únicas, v a l o r i z a m a mauriciana
d o arquivo em questão:
Ouverture
em ré
Domingo
de Ramos (Ofício
de)
Missa de "capella"
( p r o v a v e l m e n t e o r q u e s t r a d a p o r M. J.
Gomes)
Novena de São
Joaquim
Missa mimosa ( c ó p i a q u e se p o d e j u l g a r a m a i s c o m p l e t a )
Ladainha
de Nossa Senhora
(1788?)
195
Cleofe Person de Mattos
O a r q u i v o está s e d i a d o n o M u s e u C a r l o s G o m e s d o C e n t r o
d e Letras d e A r t e s d e C a m p i n a s . A s c ó p i a s t ê m a assinatura d e
M a n u e l J o s é G o m e s , q u e g e r a l m e n t e data a c ó p i a . N o total, o
a r q u i v o a l c a n ç a 14 c ó p i a s .
Outra c i d a d e , P i n d a m o n h a n g a b a , n o interior d e São P a u l o ,
c o n t é m o b r a s d e J o s é M a u r í c i o . O a r q u i v o está i n s t a l a d o e m parte
d o Museu Imperial d e D. Pedro e Dona Leopoldina, d i v i d i d o
este e n t r e o a r q u i v o particular d o p r o p r i e t á r i o o r i g i n a l d o a c e r v o .
O a r q u i v o tinha d o i s m e s t r e s - d e - c a p e l a : o q u e o r g a n i z o u o
a r q u i v o e o padre José Fernando G o m e s Cardim, que
p o s t e r i o r m e n t e r e t o r n o u à C a t e d r a l d e S ã o P a u l o . Este é o a u t o r
d e a r r a n j o s e o r q u e s t r a ç õ e s d o m a t e r i a l , i n c l u s i v e u m Te Deum
e m lá m e n o r , Credo,
para v o z e s e orquestra e um m o t e t o
Ascendens
Christus a q u a t r o v o z e s e ó r g ã o , h o j e na C a t e d r a l d e
São P a u l o , o b r a registrada p o r M a c i e l , o q u e s i g n i f i c a i n f o r m a ç ã o
s o b r e a o r i g e m da o b r a : a C a t e d r a l d o R i o d e J a n e i r o .
O g r a n d e c e l e i r o d e obras mauricianas é, p o r é m , o estado
de Minas Gerais, c o m arquivos centenários. Vários deles reúnem
manuscritos desaparecidos d o Rio de Janeiro. Em São J o ã o delR e i , c o m s e u s d o i s a r q u i v o s c e n t e n á r i o s , a Lira S a n j o a n e n s e t e m
p a r t e d o m o t e t o Creator
alme siderum
( C T 5 9 ) (as partes q u e
faltam reaparecem e m O u r o Preto), e a possivelmente primeira
v e r s ã o d a s Matinas
de Santa Cecília ( ? ) e a c ó p i a ( ú n i c a ) d e u m
moteto,
Aleluia.
Na m e s m a c i d a d e , a Orquestra R i b e i r o Bastos b e n e f i c i o u se d e cópias " e m t e m p o levadas p o r Martiniano Ribeiro Bastos",
c o m o e s c r e v e T a u n a y , entre e l a s o Requiem.
Seu a r q u i v o c o n t é m ,
e n t r e o u t r a s c ó p i a s , d u a s o b r a s ú n i c a s e tardias:
Responsórios
fúnebres
e Matinas
de Nossa Senhora
do
Carmo.m
A l é m da Lira S a n j o a n e n s e e da O r q u e s t r a R i b e i r o Bastos, o
M u s e u da I n c o n f i d ê n c i a d e O u r o P r e t o é d e p o s i t á r i o d o a c e r v o
Curt L a n g e . N e l e e n c o n t r a m - s e d u a s v a l i o s a s p a r t i t u r a s : o
a u t ó g r a f o d a Missa abreviada
( 1 8 2 3 ) e o mais antigo a u t ó g r a f o
d e J o s é M a u r í c i o l o c a l i z a d o até a g o r a : a partitura d o s d o i s ú l t i m o s
m o t e t o s : Sepulto Domino
e o Heu ( L a m e n t a ç õ e s ) , C T 123, d o s
Bradados
de 6afeira
maior, d e 1789.
O u t r a s o b r a s ú n i c a s e n c o n t r a m - s e n o M u s e u da
I n d e p e n d ê n c i a , até h o j e i n t e i r a m e n t e d e s c o n h e c i d a s d o p ú b l i c o :
a Ladainha
de N. Sr.a das Dores ( p r o v a v e l m e n t e d e 1809 o u 1812)
e a Antífona
de S. José ( o b r a i n c o m p l e t a ) .
A c i d a d e d e M a r i a n a t e m seu e x e m p l a r ú n i c o ( a r q u i v o da
C ú r i a ) , n o Libera
me ( e m s o l m e n o r ) p a r a v o z e s e ó r g ã o .
D i a m a n t i n a p o s s u i e m u m a r q u i v o p a r t i c u l a r ( V i c e n t e C. P i r e s )
u m a Ladainha
do Sagrado
Coração
de Jesus.
196
José Maurício Nunes Garcia biografia
D ã o - s e p o r encerradas, p o r circunstâncias outras q u e não
o e s g o t a m e n t o d e m a n u s c r i t o s m a u r i c i a n o s , as p e s q u i s a s e m
Minas Gerais. Muito haverá o que procurar, obras talvez
e s q u e c i d a s , outras c o n s e r v a d a s e m a r q u i v o s m e n o r e s .
Século
vinte
A d i v u l g a ç ã o da o b r a d e J o s é M a u r í c i o p a r e c e ter
e s m o r e c i d o um p o u c o com a morte de L e o p o l d o Miguez (1902)
e, posteriormente, de Alberto N e p o m u c e n o (1920), os dois
p r i m e i r o s b a t a l h a d o r e s d a d i v u l g a ç ã o da c o l e ç ã o B e n t o d a s
M e r c ê s . U m a q u e outra a p r e s e n t a ç ã o a c o n t e c i a , e m S ã o P a u l o
(Missa mimosa'),
o u n o R i o d e J a n e i r o . A q u i se f a z i a m as h o n r a s
da d i v u l g a ç ã o i d e a l i z a d a p o r T a u n a y . A a u d i ç ã o d o Requiem,
em
1930, d i r i g i d a p o r F r a n c i s c o B r a g a , m a r c o u a p r e s e n ç a d o c o m p o s i t o r n o p r i m e i r o c e n t e n á r i o da sua m o r t e .
O Requiem
f o i p r i v i l e g i a d o p o r várias a p r e s e n t a ç õ e s não
a p e n a s n o R i o d e J a n e i r o . M a s v a l e citar a q u e o c o r r e u e m 1948,
na missa d e s é t i m o dia d e L o r e n z o F e r n a n d e s , q u e d e i x o u marcas
na l e m b r a n ç a d o s q u e a o u v i r a m .
P o r essa é p o c a já entrara e m c e n a a A s s o c i a ç ã o d e C a n t o
Coral e o seu d e s e j o d e aparelhar-se para r e p e r t ó r i o mais
c o m p l e x o , c o m orquestra e c o r o misto. C o m a necessidade de
o u v i r - s e música brasileira, mais uma v e z u m a c o n t e c i m e n t o
r e l i g i o s o de nível nacional p r o p i c i a v a a o p o r t u n i d a d e : o 35°
C o n g r e s s o Eucarístico e m 1955. C o m e ç a v a a A s s o c i a ç ã o a p r o c u r a
das nossas raízes nacionais, iniciando um p e r í o d o de d e v o ç ã o
p o r p a r t e d a q u e l a s o c i e d a d e m u s i c a l a t r a v é s da m ú s i c a d o p a dre-mestre.
D e s t a v e z n ã o era a p e n a s o Requiem
q u e se o u v i r i a , m a s
t r e c h o s d a s Matinas
do Natal, u m a d a s m a i s d e l i c a d a s p e ç a s d o
c o m p o s i t o r , q u e já t r a z i a m e m sua e s c r i t a r e s s a i b o s d o
n a c i o n a l i s m o , a Missa em si bemol, d e 1801, e o b r a s d o r e p e r t ó r i o
internacional.
Sua m a i o r g l ó r i a seria, p o r é m , ter-se b a t i d o p e l a a q u i s i ç ã o
d o a c e r v o musical d e B e n t o Fernandes das M e r c ê s para d o á - l o
a o Instituto N a c i o n a l d e Música, s a l v a n d o - o d o d e s a p a r e c i m e n t o ,
traças e o u t r o s m e i o s d e d e s t r u i ç ã o , p a r a ser a m a i s i m p o r t a n t e
c o l e ç ã o d e c o m p o s i ç õ e s d o padre José Maurício.
197
Cleofe Person de Mattos
Já era t e m p o d e se p e n s a r e m g r a v a r a l g u m a o b r a , a s s i m
c o m o e m imprimir partituras para m e l h o r c o r r e s p o n d e r aos
p r o p ó s i t o s d e d i v u l g a ç ã o . A Escola d e Música n ã o f u g i u a o seu
dever, d e v e z q u e dispunha d e imprensa o n d e eram publicados
o s p r i m e i r o s n ú m e r o s da Revista Musical
de Belas-Artes
(1934).
A Missa dos defuntos
d e 1809 f o i d a s p r i m e i r a s o b r a s i m p r e s s a s ,
p o r iniciativa d e Luiz H e i t o r Corrêa d e A z e v e d o . Outras seriam
p r o d u z i d a s : Tantum ergo das Matinas da Conceição
(1798). Outro
Tantum
ergo
( e m mi m e n o r ) , escrito para v o z e s c o m
acompanhamento de órgão, foi orquestrado possivelmente por
F r a n c i s c o M a n u e l da Silva. N o m e s m o í m p e t o , m a i s o u m e n o s à
é p o c a , f r e i P e d r o S i n z i g f e z p u b l i c a r na r e v i s t a Música Sacra as
Matinas
do Natal ( i n f e l i z m e n t e s o m e n t e a p a r t e v o c a l ) . O u t r a s
obras f o r a m publicadas, sempre e m c o n d i ç õ e s precárias.
A s a u d i ç õ e s m u l t i p l i c a v a m - s e , mas a i m p r e s s ã o c o n t i n u a v a
muito dificultosa. A apresentação de obras levantadas de
m a n u s c r i t o s a u t ó g r a f o s e m partituras a t i n g i a m , p o r v e z e s , 242
p á g i n a s ( c o r o , i n s t r u m e n t a l e s o l i s t a s ) . S e g u i r a m - s e as p e ç a s a
c a p e l a d e S e m a n a Santa, r e p e r t ó r i o q u a s e t o d o d a t a d o d e 1789Foi uma r e v e l a ç ã o s u r p r e e n d e n t e a existência dessas p e q u e n a s
peças, q u e o b e d e c i a m a uma tradição portuguesa.
S e m p r e c o m o p r o p ó s i t o d e apresentar as primeiras a u d i ç õ e s
c o n t e m p o r â n e a s , para r e v e l a r u m a o b r a e n o r m e e q u e m e r e c i a
ser c o n h e c i d a d o s brasileiros, a c i d a d e p r e p a r o u - s e para
c o m e m o r a r o 4 a C e n t e n á r i o d e sua f u n d a ç ã o . D o i s a n o s antes, o
Serviço d o Patrimônio — então f u n c i o n a n d o por cima de um
g a l p ã o d e m a r c e n a r i a , j u n t o à Q u i n t a da B o a Vista — p r e p a r o u
u m o r ç a m e n t o e e s t u d o s n e c e s s á r i o s para c o m e m o r a r a arte m u sical. P o r iniciativa d e seus d i r e t o r e s , p r o f e s s o r I p a n e m a M o r e i r a
e Dona Cibele d e Ipanema Moreira, organizou-se um p l a n o q u e
i n t e r e s s a v a m a i s d e p e r t o a i m p r e s s ã o d e partituras. P o r falta d e
recursos, o plano não teve seguimento. A o m e s m o t e m p o , e c o m
o m e s m o o b j e t i v o , p o r iniciativa d o p r o f e s s o r C â n d i d o d e A n d r a d e
M u r i c y f o i p r o p o s t o p e l o C o n s e l h o Federal d e Cultura d o
M i n i s t é r i o da E d u c a ç ã o e Cultura t o m a r m e d i d a s c o m o m e s m o
p r o p ó s i t o : c o m e m o r a r a data c o m u m p r o j e t o d e i m p r e s s ã o d e
partituras e u m c a t á l o g o d a s o b r a s d e J o s é M a u r í c i o . O p r o j e t o
f o i e l a b o r a d o p o r A d e m a r A l v e s da N ó b r e g a , d e l e r e s u l t a n d o a
c ó p i a d e a l g u m a s m a t r i z e s e a p u b l i c a ç ã o d o Catálogo
temático,
r e a l i z a d o p e l a autora deste l i v r o e p u b l i c a d o e m 1970. A s matrizes
f i c a r a m a g u a r d a n d o uma o p o r t u n i d a d e , q u e v e i o e m seguida.
A o aproximar-se o ano d o centenário, algumas peças foram
o u v i d a s . As c o m e m o r a ç õ e s tiveram início n o dia 3 d e m a r ç o de
1 9 6 5 e a m ú s i c a d e J o s é M a u r í c i o b r i l h o u na i g r e j a d o s
198
José Maurício Nunes Garcia biografia
C a p u c h i n h o s — o n d e está c o n s e r v a d o o m a r c o d e f u n d a ç ã o da
c i d a d e — c o m v á r i a s o b r a s : o Eccesacerdos
(1810) a oito vozes,
o Gradual
de São Sebastião
(1799) e vários hinos.
A S e m a n a Santa d e 1965 f o i a i n d a c o m e m o r a d a c o m n o v a s
a p r e s e n t a ç õ e s , e m p r o m o ç ã o da R á d i o M i n i s t é r i o da E d u c a ç ã o e
Cultura. F o r a m o u v i d a s na C a n d e l á r i a , t a m b é m e m p r i m e i r a
audição c o n t e m p o r â n e a , s o b a direção d e A l c e o B o c c h i n o , obras
d e v á r i a s é p o c a s , c o m a O r q u e s t r a S i n f ó n i c a N a c i o n a l e solistas
da A s s o c i a ç ã o d e Canto Coral: G o d o f r e d o T r i n d a d e , Dircéa
A m o r i m : Domingo
de Ramos ( C T 2 1 7 ) , m a n u s c r i t o d o M u s e u
C a r l o s G o m e s ; Matinas
da Ressurreição
( C T 2 0 0 ) e o Te Deum
( C T 93).
N e s s e m e s m o a n o , v á r i o s a c o n t e c i m e n t o s culturais f o r a m
r e a l i z a d o s p o r ó r g ã o s o f i c i a i s , i n c l u s i v e a g r a v a ç ã o d e três d i s cos, c o m obras d e José Maurício e outros c o m p o s i t o r e s brasileiros
o u l i g a d o s a o Brasil. F o r a m g r a v a d a s : Cruxfidelis
( 1 7 8 9 ) , Judas
mercator
pessimus
( 1 8 0 9 ) , Sinfonia
fúnebre
( 1 7 9 0 ) , Kyrie
e
fugatos
( 1 8 1 0 , t r e c h o s d a Missa de Nossa Senhora da
Conceição),
Zemira
( 1 8 0 3 ) , Te Deum ( 1 8 1 1 ) , Beijo a mão que me
condena
( s . d . ) e Abertura
em Ré M.
N a v e r d a d e , as g r a v a ç õ e s c o m e ç a r a m e m 1958, p o r iniciativa
d e I r i n e u G a r c i a , d i r e t o r d o s e l o Festa, a q u e m o Brasil f i c o u
d e v e n d o a l g u m a s g r a v a ç õ e s m e m o r á v e i s . M a i s u m a v e z , o Requiem
foi o pioneiro, levado no Teatro Municipal, com a
Orquestra Sinfónica Brasileira, e a A s s o c i a ç ã o d e Canto Coral.
A Missa pastoril
(1811) foi gravada pela O d e o n , sob a
regência d e Francisco M i g n o n e , e a Associação d e Canto Coral.
À primeira iniciativa de Irineu Garcia, seguiram-se outras
g r a v a ç õ e s , i n c l u s i v e u m a d e g r a n d e s i g n i f i c a ç ã o , a Missa de Santa
Cecília,
a p r e s e n t a d a e m c o n c e r t o e m 1959Em 1986, d i a n t e da p e r s p e c t i v a d e n o v a s g r a v a ç õ e s , a
A s s o c i a ç ã o d e C a n t o C o r a l abriu e m s e u s q u a d r o s u m c o n j u n t o
i n s t r u m e n t a l — a C a m e r a t a R i o d e J a n e i r o — para a c o m p a n h á - l a
nesses discos. Três g r a v a ç õ e s f o r a m feitas, duas das quais c o m
m ú s i c a s d e J o s é M a u r í c i o : Matinas
do Natal ( 1 7 9 9 ) e a Missa de
Nossa Senhora
do Carmo
(1818), ambas em CD. Dificuldades
e c o n ó m i c a s i m p e d i r a m q u e a s é r i e c o n t i n u a s s e . O s 35 a n o s d e
e x i s t ê n c i a da A s s o c i a ç ã o d e C a n t o C o r a l ( 1 9 7 6 ) f o r a m
c o m e m o r a d o s c o m a p u b l i c a ç ã o d e O b r a s Corais, uma série de
d e z p e ç a s a c a p e l a p a r a S e m a n a Santa.
P o u c o t e m p o a p ó s , c r i a v a - s e , n o M i n i s t é r i o da E d u c a ç ã o e
Cultura, a Funarte ( F u n d a ç ã o N a c i o n a l d e A r t e ) , q u e e n o r m e s
s e r v i ç o s p r e s t o u à cultura e à arte b r a s i l e i r a s . Em c o n v é n i o c o m
a A s s o c i a ç ã o d e C a n t o C o r a l , f o r a m i m p r e s s a s as Matinas
do
199
Cleofe Person de Mattos
Natal, c o m ó r g ã o e o r q u e s t r a . S e g u i r a m - s e o u t r a s p u b l i c a ç õ e s ,
p e l o i n t e r e s s e e s p e c i a l d o diretor d o Instituto N a c i o n a l d e Música
da F u n a r t e , E d i n o K r i e g e r , q u e d e c i d i u l e v a r a e f e i t o u m p r o j e t o
d e p u b l i c a ç ã o d e d e z partituras, o q u e se f e z a o l o n g o d e a l g u n s
a n o s através d o P r o j e t o M e m ó r i a Musical Brasileira — P r o M e m u s :
d o i s s a l m o s : Laudatepueri
e LaudateDominum;
d u a s aberturas:
Abertura
em ré e Zemira;
Gradual
de Natal: Dies
sanctificatus;
Gradual
de São Sebastião;
Constitues
eos pricipes;
Oficio
1816;
Tota pulchra;
Missa de Santa Cecília;
Missa
pastoril.
N u n c a se tinha f e i t o p r o j e t o tão a m b i c i o s o q u a n t o e s t e , e m
t e r m o s d e Brasil, e m t o r n o d e u m c o m p o s i t o r s e m a l c a n c e
c o m e r c i a l . Foi g r a n d e a r e p e r c u s s ã o artística, c o m a p r e s e n t a ç õ e s
n o Brasil e e x t e r i o r , e ainda e s t i m u l a n d o o e s t u d o e o
c o n h e c i m e n t o d e sua o b r a .
Em 1967, d o i s a n o s a p ó s o I V C e n t e n á r i o , o c o r r i a o s e g u n d o
centenário de nascimento do padre José Maurício. A
c o m e m o r a ç ã o f o i na m e s m a igreja e m q u e f o i o u v i d a a o b r a p e l a
p r i m e i r a v e z n o B r a s i l c o l o n i a l , na C a p e l a R e a l , a g o r a
s i m p l e s m e n t e C a t e d r a l d o R i o d e J a n e i r o : a Missa de Nossa
Senhora
da Conceição
d e 1810. A c o m e m o r a ç ã o d e u - s e p o r
i n i c i a t i v a d e A i r e s d e A n d r a d e , e n t ã o d i r e t o r da Sala C e c í l i a
M e i r e l e s , c o m a O r q u e s t r a S i n f ó n i c a Brasileira, a A s s o c i a ç ã o d e
C a n t o C o r a l , t e n d o c o m o r e g e n t e Isaak K a r a b t c h e w s k i .
N o e x t e r i o r f o r a m l o c a l i z a d o s a u t ó g r a f o s e c ó p i a s . Em P o r tugal (Vila Viçosa, n o palácio d o s duques d e Bragança) i m e n s o
arquivo musical — que conserva obras de compositores
p o r t u g u e s e s q u e e s c r e v e r a m para as c a p e l a s brasileiras, entre
eles Marcos Portugal e Fortunato Mazziotti — abriga dois
a u t ó g r a f o s d e J o s é M a u r í c i o : O triunfo
da América
e o drama
Ulisséa, o b r a s c o m p o s t a s q u a n d o da g u e r r a c o n t r a a i n v a s ã o
f r a n c e s a , e u m a c ó p i a : Coro para o benefício
da Senhora
Lapinha.
Em M o n t e v i d é u localizaram-se obras d e José Maurício, todas a
três v o z e s ( m a t e r i a l a r r o l a d o n o l i v r o d e L a u r o A y e s t a r á n : La
música en el
Uruguay).
A s a p r e s e n t a ç õ e s f o r a d o Brasil, e s p e c i a l m e n t e d o
Requiem,
s u c e d e r a m - s e . F o i e x e c u t a d o e m N á p o l e s , p o r i n i c i a t i v a d e F.
B a d a r ó , m i n i s t r o j u n t o à Santa Sé. O Requiem
foi também
a p r e s e n t a d o n o Instituto P r í n c i p e d e N á p o l e s , t e n d o c o m o r e g e n t e
O t t i n o Ravalli. A O l i v e i r a Lima, ministro p l e n i p o t e n c i á r i o d o Brasil
na B é l g i c a , d e v e - s e a e x e c u ç ã o d o Requiem,
e m Bruxelas, e m
1908.
N o U r u g u a i , o Requiem
foi apreciado p e l o maestro Calvo,
q u e escreveu palavras elogiosas quanto a o estilo d o eminente
b r a s i l e i r o . Em Paris, p o r o c a s i ã o da missa d o t e n o r L a b a l h a c h e ,
200
José Maurício Nunes Garcia biografia
m a i s u m a v e z o Requiem
f o i e x e c u t a d o , o u v i d o p o r Rossini, q u e
se e m o c i o n o u . A o b r a h a v i a s i d o l e v a d a t a m b é m nas e x é q u i a s
d e D . T e r e s a Cristina Maria, e s p o s a d e D . P e d r o II, i m p e r a d o r d o
Brasil.
201
Notas
José Maurício Nunes Garcia biografia
1)
Garcia Júnior, José Maurício Nunes. Apontamentos para a notícia biográfica do
membro correspondente do Instituto Histórico Geográfico e Etnográfico do Brazii, Rio de Janeiro, 22.9.1860. Documento na Biblioteca Nacional, RJ, Seção de
Manuscritos, Col. Otoni, I, 36.
2)
Este é o nome citado pelo compositor em dois importantes requerimentos: em 25 de
junho de 1791, ao solicitar cópia de sua certidão de batismo para instruir o processo
de genere, habilitação à carreira sacerdotal; o outro, em 1809, está vinculado ao
processo de concessão do Hábito de Cristo (Arquivo Nacional: Ordens Militares, Cx.
331, doe. 1.221). Em ambos os casos o segundo sobrenome toi omitido nas cópias
expedidas. Vem citado (grafado: "Gracia") na cópia da certidão de casamento de
seus pais. igualmente anexada ao processo de genere (página 31) e por isso repetido
em todos os documentos expedidos pela Câmara Episcopal do Rio de Janeiro em
1791. Quanto ao "José" acrescentado pelo dr. Nunes Garcia ao nome do avô —
Apolinário José Nunes — nos citados Apontamentos (nota n. 1), não há sinal em
nenhum documento importante. O filho de José Maurício também não é exato ao
qualificar o avô como mestre-de-campo e nascido em Campos dos Goitacases:
Apolinário era alfaiate, nasceu na ilha do Governador e foi batizado na igreja de Nossa
Senhora da Ajuda. O sobrenome Nunes Garcia pode revelar algum laço com o
proprietário de um engenho de açúcar na ilha do Governador: Pedro Nunes Garcia.
Este foi casado e teve vários filhos; fez-se padre no fim da vida e foi pároco na mesma
igreja em que Apolinário foi batizado em 1743. A respeito da possível aproximação,
vide artigo de Cibele Ipanema Moreira no Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 16
abr. 1967.
3)
O processo de genere encontra-se no Arquivo do Cabido Metropolitano do Rio de
Janeiro e é o documento citado como fonte principal, pois o Livro I de Assento de
Matrimónios da Igreja de Santa Rita, onde foi registrado o casamento dos pais de
José Maurício (às páginas 150v) está desaparecido.
4)
A requisitória de genere enviada pela Câmara Episcopal do Rio de Janeiro para o
bispado de Mariana a favor de José Maurício Nunes Garcia (L- 10, fls. 60 do
Contencioso) envolveu várias autoridades em Minas Gerais, além do vigário de
Cachoeira do Campo. São de Mariana: Dr. José Botelho Borges — cónego da Catedral,
examinador sinodal, provisor, juiz de habilitação de genere; José da Costa Serrão —
escrivão da Câmara Episcopal; José Joachim Santanna (ou Santa Anna) — clérigo
subdiácono — que reconhece por fim a certidão. Esta vem transcrita às páginas 11
do Processo.
5)
Curioso que as testemunhas de 1791 recordem o nome de Simão Gonçalves, embora,
desde o batismo de Vitória Maria, sua mãe já era apontada como escrava de Barbosa
Gonçalves, provável descendente de Simão. Quanto ao ser "crioula da Guiné", uma
voz apenas discorda dessa informação: Manuel Rodrigues Garcia, testemunha das
inquirições no Rio de Janeiro, mas natural do bispado de Mariana, que cita Joana
como natural de Angola.
6)
Barroco (Belo Horizonte, 1981, n. II, após a página 13). Algumas considerações se
fazem necessárias, porquanto o documento que exibe fragmento de folha de livro
aparentemente original, discorda de todas as referências conhecidas. Aceitar dois
escravos na ascendência próxima (avô) do padre José Maurício seria não reconhecer
o iniludível contingente de raça branca no compositor. Condição que um avô
"desconhecido" explica melhor. Basta conferir os traços relativamente finos do retrato
pintado pelo filho, dr. Nunes Garcia (óleo na Escola de Música da UFRJ) e da máscara
205
Cleofe Person de Mattos
mortuária moldada por Manuel de Araújo Porto-Alegre, hoje no Instituto Histórico e
Geográfico do Rio de Janeiro.
7)
De seu primeiro casamento com o tenente Raimundo Pereira de Abreu, herdou Vitória
Maria "umas terras" situadas em Obatiba, distrito de Maricá. Terras compradas em
1760 por Raimundo, ainda solteiro, por 260S000. Com o seu falecimento e provável
deslocamento de Vitória Maria, as terras foram invadidas e passaram a outros
proprietários. Em 1809, valendo-se do prestígio do filho junto a D. Joio, quis reavêlas, sem resultado. Mais tarde, após a morte de José Maurício, essas terras ainda
seriam objeto de cobiça em sua descendência (Biblioteca Nacional — Seção de
Manuscritos — C — 175—10).
8)
A segunda cópia, calcada na mesma fonte — documento no Arquivo Nacional, caixa
331, doe. 1.221 — feita a pedido do compositor em 1809 para instruir o processo
de habilitação de José Maurício ao Hábito de Cristo, além de equivocada a data de
nascimento de José Maurício para 20 de setembro, repete o mesmo engano da cópia
de 1791 quanto ao nome da avó paterna, Joana da Silva, evidenciando que a
inexatidão no sobrenome da mesma é proveniente do próprio registro original, de
1767. Há discordância igualmente no nome atribuído ao padrinho de batismo de
José Maurício: Manuel Jacques (ilegível) na cópia de 1791, e, aportuguesadamente,
Manuel Joaquim na cópia de 1809.
9)
A rua da Vala, foco de poluição, fora coberta por um lajeado, assim defendendo a
saúde dos moradores locais, inclusive a dos frequentadores da Catedral e Sé,
instalada na mesma rua. Um jardim surgira ao longo da rua da Ajuda — o Passeio
Público — e no mapa da cidade, pontilhada de alagadiços, a lagoa do Boqueirão é
aterrada. Localizada nas proximidades do Aqueduto, a meio caminho do Passeio
Público, a imagem da lagoa foi perpetuada no quadro pintado por Leandro Joaquim,
em data que coincide com a época da primeira composição de José Maurício.
10)
Uma breve referência às festas reais no Rio de Janeiro do século XVIII deixa.claro
que a cidade estava inicialmente longe da opulência exibida em Minas Gerais ou
Salvador, para essas realizações. Em 1728 (10.VI), o governador Vahia Monteiro —
o Onça — comunica em ofício a programação da festa que se realizaria por ocasião
dos "desposórios" do príncipe com a princesa espanhola, filha de Felipe II: comédias,
toiros e "outras demonstrações de alegria" (Múcio da Paixão, O teatro no Brasil, p.
74). Não fica esclarecido se as comédias eram feitas com "bonifrates" ou
"mamulengos". Não se faz menção de qualquer atividade musical. Mário de Andrade
(Pequena história da música, p. 155), citando Lamego Filho (A planície do solar e
da senzala), faz crer que outras cidades da província — caso de São Salvador do
Campo dos Goitacases — fossem melhor aparelhadas, musicalmente, do que a cidade
de São Sebastião e refere-se a uma festa na qual o músico Pedro Leam dirigiu, ao
órgão, um Te Deum acompanhado de orquestra de cordas e sopros, com violinos,
violas, flauta, clarinete, acrescido de "gaitas de fole". As festas reais tinham o
privilégio de impulsionar acontecimentos musicais mais apurados. Os "atos
académicos", constituídos pela reunião de homens cultos, empenhavam-se em
valorizar os seus encontros musicais no século dezoito. É o que se vê, por volta de
1747, no Rio de Janeiro, à chegada do bispo D. Antônio do Desterro, quando foi
apresentada no Mosteiro de São Bento uma ópera — Felinto exaltado — com
"excelente música". Os atores "vinham especiosamente vestidos, que no luzido das
pedras com que se guarnecem mostravam o brilhante dessa festa" (Isidoro da
Fonseca, Júbilos da América, Rio de Janeiro, 1747, p. 21). Carleton Spraghe Smith,
em entrevista ao Correio da Manhã (18. nov. 1972). Ainda antes de instalado o vice-
206
José Maurício Nunes Garcia biografia
reinado no Rio de Janeiro, em 1763, ao chegarem quatro religiosas clarissas, o
capitão João Castelo Branco oferece um concerto "do que havia de melhor" (Jornal
do Commercio—26 maio 1850). Apenas não se sabe o que seria esse "melhor".
11)
O Teatro do Padre Ventura sucede aos mais populares tipos de teatro — marionetes,
bonifrates, mamulengos — e foi chamado de "Casa da Ópera". E porque deixara de
ser teatro de bonecos, a Casa da Ópera também foi conhecida como a "oipr'a dos
vivos". Funcionava em rua que ficava no caminho do Valongo. Particularidade que
chama atenção para o nível social circundante, nas proximidades do largo do Capim,
local hoje desaparecido mais situado nas imediações da que foi chamada de "rua do
Fogo" — hoje rua dos Andradas — centro comercial do Rio de Janeiro. O repertório
tinha pretensões: Metastásio, Antônio José da Silva, o Judeu. Não são muitos os
dados que oferecem visão nítida de sua realidade musical. 0 ter sido visitado e
merecido comentários de viajantes europeus: James Forbes — súdito inglês que em
1759 se dirigia a Goa para trabalhar na Companhia das índias — e pelo barão de
Bougainville — navegador francês (1729-1811), autor de Voyage autourdu monde
(1771), de visita ao Rio de Janeiro em julho de 1767 — permite adiantar algumas
informações. O teatro era dirigido pelo chamado padre Ventura, apontado por
Bougainville como mulato e corcunda, que subia ao palco para cantar acompanhandose ao violão. 0 pesquisador Gilson Nazareth retifica: "Nem mulato nem corcunda e
seu nome era Boaventura Dias Lopes, batizado em julho de 1710." Gilson Nazareth
dá outros informes além destes, que serão publicados proximamente em pesquisa
própria. Luiz Antônio de Bougainville descreve a sala como "bastante bonita"; sobre
o espetáculo a que assistiu, acrescenta à imagem do seu diretor "padre corcunda".
Segundo depoimento de Forbes — anterior ao de Bougainville — o teatro mantinha
com regularidade dois espetáculos semanais. Apoiava-se o repertório no gosto popular, em peças dramáticas ou com participação de cantores, atores e orquestra, peças
do tipo de zarzuelas, denominação de origem espanhola para peças — geralmente
em um ato — onde o diálogo dos atores se entremeava com o canto e a interferência
de instrumentistas e dançarinos. Peças de caráter ligeiro, nisso contrastava com as
óperas, de natureza mais séria. A preferência pelas peças sobre libreto do poeta
italiano Pietro Metastásio (Roma, 3 de janeiro de 1698 — Veneza. 12 de abril de
1782) é manifesta. Libretos utilizados em obras de sucesso por figuras como Scarlatti,
Vivaldi, Cimarosa, a tradução para a língua portuguesa facilitou o caminho para os
compositores lusitanos, entre os quais Marcos Portugal. O brasileiro Antônio José
da Silva, o Judeu, gozava igualmente do gosto do público e foi precisamente em
noite de representação de Os encantos de Medéa, de sua autoria, que o Teatro do
Padre Ventura se incendiou. A data, incerta, tem sido citada entre 1767, ou, segundo
Varnhagen, "depois de 1769".
12)
A alegria do povo do Rio de Janeiro, abalada com o incêndio do Teatro do Padre
Ventura, renasce com o estímulo que lhe oferece o ânimo folgazão do marquês do
Lavradio com a abertura da sala de espetáculos que mais tarde se chamou Teatro de
Manuel Luiz, no edifício ao lado do palácio do Vice-Rei, hoje palácio Tiradentes, onde
também funcionava a cadeia. O aspecto externo, que se pode ver na litografia de
Desmons, parece justificar, apesar das nove janelas e uma porta, as reservas que lhe
fazia John Luccock ao qualificá-lo de "casa miserável, apertada, sombria" (Notas
sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil-, São Paulo. Livraria Martins
Editora, Biblioteca Histórica Brasileira). O inglês descreve com "olho frio" o seu interior, o palco acanhado. Embora não compartilhe, Luccock confirma admiração dos
habitantes da cidade pelo seu teatro.
Após 1808, com a chegada da corte, o teatro sofreu reformas é passou a ter duas
ordens de camarotes, arandelas e lustres de cristal. Informa Moreira de Azevedo
(op. c/f., v. 2. p.140) que nas primeiras filas da platéia o público se sentava em
207
Cleofe Person de Mattos
tamboretes "com encosto". 0 espaço posterior, coberto pela tribuna real, não
dispunha de cadeiras. À orquestra refere-se o inglês como "reduzida e mal recrutada".
No ato da inauguração — data não precisa — falou o poeta Silva Alvarenga, que
recitou um poema "ao grande Pedro", marido de 0. Maria I, e exalta a função cultural
do Teatro (Múcio da Paixão, O teatro no Brasil, p.70).
Ao longo das duas últimas décadas do século dezoito e início do dezenove, o Teatro
de Manuel Luiz, se não divergia, em essência, das realizações do Padre Ventura —
que também reunia atores e músicos — tinha outra categoria. Era o local mais
qualificado na apresentação de peças dramáticas, entremeadas ou não de música.
As ouvertures eram de praxe. Os espetáculos denominados "óperas" estariam longe
da complexidade que hoje caracteriza o género: além das ouvertures, ouviam-se
árias, duetos, coros. Ao ensejo de casamentos e nascimentos de príncipes e reis, o
Senado da Câmara obrigava-se a favorecer a população com espetáculos de "ópera
franca", isto é, gratuita, que se realizavam no Teatro de Manuel Luiz. Os festejos
eram anunciados por bandos de publicação, que percorriam a cidade com música,
cavalos, foguetes, roupa para os músicos e máscaras anunciando os itens da festa e
os seus motivos.
As deficiências de instalação e de funcionamento do teatro tornaram-se evidentes
com a chegada da corte portuguesa e forçaram Manuel Luiz a enfrentar o desafio
promovendo reformas no edifício, mudando inclusive o nome para Teatro Régio. O
pano de boca de cena, setecentista, pintado por Leandro Joaquim, é substituído —
por ordem de D. João — por outro, que tinha por motivo a baía de Guanabara, pintado
por José Leandro de Carvalho, artista que viera de Portugal com 0. João.
José Maurício compôs, em 1809, duas obras para acompanhar uma ação dramática
que tinham o teatro como cenário e como cantora solista a "Senhora Lapinha".
Datam de 1810 os primeiros sinais de que o velho Teatro de Manuel Luiz, renovado
mas envelhecido, apesar do título de Teatro Régio que lhe é aposto, não mais
correspondia às exigências do público socialmente categorizado que passara a
frequentá-lo. Em 28 de maio, quinze dias após o casamento de D. Maria Teresa, é
expedido o decreto de D. João para a construção de novo teatro de ópera. A concessão
de loterias para esse fim acompanhava o decreto, e logo foi decidida a sua extração
em 25 de junho — presteza que mostra o empenho — no consistório da igreja de
São Francisco de Paula.
Não fraquejou Manuel Luiz diante da perspectiva, e continuou apresentando no Teatro
Régio comédias e tragédias provavelmente em novas encenações de obras traduzidas
para o português: Molière, Goldoni e, como sempre, Metastásio; assim sobreviveu
até 1812.
Em 1811 chegou ao Brasil Marcos Portugal. Imediatamente, todas as deferências e
sinais de consideração, inclusive posições oficiais foram reservadas para o compositor português que no mesmo ano, a 9 de outubro, foi encarregado "da inspeção
dos teatros". A incumbência atingia as "peças em música" apresentadas nos dias
em que Sua Alteza Real se dignasse a assistir ao espetáculo. Na mesma data, um
aviso era dirigido a Manuel Luiz:
"Tendo acontecido por várias vezes não serem executadas na real presença do
Príncipe Regente Nosso Senhor com a regularidade devida algumas peças de música
que se têm recitado no teatro de V. Mcê.: o mesmo Senhor he servido, para evitar
esta falta de execução, das providencias que julgou convenientes a este respeito,
encarregando a Marcos Portugal, mestre de Musica de SSAARR, a inspeção e direção
de comum acordo com V. Mcê., dos espetáculos que se destinarem para os dias em
que S A R fôr ao teatro na forma do aviso de Cópia inclusa na data de hoje, que
remeto a V.Mcê., para sua inteligência. Deus guarde a V. Mcê. Paço, em 9 de outubro
de 1811 — Conde de Aguiar."
208
José Maurício Nunes Garcia biografia
Manuel Luiz resistiu com dignidade a esta prova, e o teatro continuou em
funcionamento. Em dezembro do mesmo ano, apesar da grave enfermidade do compositor português, deu-se continuidade à rotina da comemoração anual do aniversário
da rainha, apresentando no Teatro Régio a ópera-bufa de Marcos Portugal: L'oro
non compra amore. Foram intérpretes Mariana Scaramelli, mulher do primeiro
bailarino Luiz Lacombe e habitual cantora das obras de Marcos Portugal. Atuaram
portugueses (Antônio Ferreira e Manuel Rodrigues) e brasileiros (Luiz Inácio,
Joaquina da Lapa — a "Lapinha" — Geraldo Inácio e João dos Reis). Complementava
o espetáculo, segundo o costume, um bailado. 0 programa, que se encontra na
Biblioteca Nacional, Seção de Obras Raras, informa, italianizando-os, os nomes dos
intérpretes, assim grafados: "Geraldo Ignazio, Lugi Ignazio, Gio. dos Reis, Giovacchina
Lapa." Prejudicadas no ano seguinte (1812) as atividades no teatro por motivo de
luto na família real — falecimento do príncipe D. Pedro Carlos, marido de D. Maria
Teresa — a comemoração do aniversário da rainha, em dezembro, realizou-se com
outra ópera de Marcos Portugal: Artaxerxes. O bailado foi composto por Luiz
Lacombe sobre assunto mitológico, como de praxe. Seriam as últimas entre as mais
importantes realizações no Teatro Régio, que já fora a Nova Ópera, mas não deixará
esquecido o nome do Teatro de Manuel Luiz que o distinguiu durante muitos anos.
Em outubro de 1813 é inaugurado o Real Teatro São João. O velho teatro setecentista
não sobreviveu à inauguração do novo e majestoso teatro de ópera. Mais tarde coubeIhe destino ingrato: transformou-se em depósito de material da Casa do Trem e por
fim, em 1817, de alojamento para as damas da princesa D. Maria Teresa.
13)
Revista da Semana, Rio de Janeiro, outubro, 1943.
14)
Carlos Rizzini: Hipólito da Costa e o Correio Braziliense; São Paulo, Companhia
Editora Nacional, 1957, p.84, item 9). Hipólito José da Costa (13 ago. 1774 — 11
nov. 1823), homem de grande instrução, ao voltar dos Estados Unidos para Portugal
foi acusado de ser maçom, o que confirmou. Fugindo de Portugal para a Inglaterra,
iniciou a publicação do Correio Braziliense (1808-1822), obra de grande valor sobre
os acontecimentos históricos no Brasil.
15)
Antônio Nascentes Pinto fizera estudos na Itália, onde a oportunidade de ouvir e
talvez de praticar música dera-lhe a capacitação que desenvolveu no Brasil, ao
retornar: manter em atividade um grupo musical com repertório que lhe era familiar.
Nascentes Pinto traduziu para o português as óperas Pieti d'amore e L'italiana in
Londra. O poeta e músico Silva Alvarenga "ensaiava nesse teatro composições
trágicas e cómicas de amigos e discípulos seus antes de serem apresentadas no
Teatro de Manuel Luiz". Não tardou ao grupo receber a denominação de "companhia
Ifrica".
16)
Seja lembrado que foi cantando Cimarosa e Mozart, na Real Câmara, que José Maurício
provocou o gesto entusiasmado de D. João do que lhe resultou a condecoração do
Hábito de Cristo.
17)
Instalados no Rio de Janeiro desde o século dezesseis (cód. 618, v.l, estante) os
jesuítas ocupavam, ao raiar o século dezoito, terras que abrangiam considerável
extensão territorial, cujas denominações ainda encontram eco na toponímia da cidade:
Fazenda de Santa Cruz, Fazenda do Engenho Velho, do Engenho Novo, Quinta de São
Cristóvão, além dos vastos "chãos" também pertencentes á Ordem e que se
espalhavam no que hoje é o centro da cidade do Rio de Janeiro: rua da Alfândega, de
São Pedro e ainda em cidades vizinhas, entre elas Macaé. 0 enorme contingente
humano que vivia nessas terras — mais de mil escravos — ocupava-se em produção
209
Cleofe Person de Mattos
diversificada: fumo, açúcar, destilaria, plantações, madeiras, gado. Verdadeira
população que se devia alimentar, vestir, dar assistência religiosa, o que incluía a
obrigação de assistir à missa aos domingos. Alguns escravos eram especialmente
preparados para isso. e cantavam ou tocavam algum instrumento na igreja de Santo
Inácio (convento ou colégio dos jesuítas, na Fazenda), assim como em São Cristóvão.
O apego à música manteve com vida a tradição musical, o que poderá ser comprovado
em relações de escravos do século dezoito que assinalam os escravos-músicos. Seus
nomes são conhecidos numa relação de "alfaias e mais pertences" dirigida em 4 de
junho de 1791 a dom Romualdo Antônio de Freitas Coutinho, capelão curado da
igreja, de onde foram destacados os doze escravos-músicos cujos nomes são
transcritos a seguir (Arquivo Nacional, cód. 8, v.4, p.155-183). Observem-se as
indicações C (cativo e f> (forro):
João Batista
C
Jerônimo José
C
Música: p. 171
Domingos Ramos
C
Música: p. 173
Música: p. 171
João Francisco
C
Música: p. 175
Hipólito Vr»
C
Música: p. 178
José da Silva
C
Música: p. 178
Pedro Milagre
C
João Policeno
f*
Música: p. 180
Matias José
f«
Música: p. 182
Música: p. 178
Manuel José
f«
Música: p. 182
Manuel Gusmão
f>
Música: p. 183
José Perez
f>
Música: p. 183
Mesmo no período em que se dissolvia a administração da Fazenda, os escravos
músicos atuavam como profissão (Arquivo Nacional, cód.34, doe.40-2-22), incluindo
tarefas paralelas, como a que se encontra na certidão de sequestro (datada 1760)
dos bens da Fazenda do Engenho Velho, na igreja de São Francisco Xavier, feito a
pedido de Francisco Xavier Telles no ano de 1780, onde aparece o nome de Gaspar
Ribeiro como corista e "cupista". Não é menos expressivo observar-se que ao serem
vendidos os escravos da Fazenda e as terras, após o sequestro, os arrematantes
obrigavam-se a "patrimoniar a capela" e a "manter culto em cada domingo e dias
santos de guarda" (cód. 34, p.229). A exigência diz respeito à continuidade das missas
cantadas pelos escravos-músicos de Santa Cruz, tradição mantida apesar das longas
distâncias que deviam vencer esses músicos da sua "roça" na fazenda para ir até a
capela. Ainda no ano 1780 vendiam-se escravos em Santa Cruz. Vendidos conforme
a idade, as condições físicas e aptidão para o trabalho, é sem dúvida emocionante
lembrar um menino escravo de seis anos, avaliado em bom dinheiro porque sabia
cantar. Sucederam-se os sequestros durante anos, e nos seus autos confirma-se
indiretamente a prática musical, assim assegurando a participação da música nas
cerimónias religiosas. Um passado positivo na igreja de Santo Inácio é o que deixa
entrever a "Relação de coisas inúteis que vão fora do inventário" (Arquivo Nacional,
cx.507, pac.4, doe.3) ao revelar em poucos itens o requinte dos "guisamentos" da
capela ao tempo dos jesuítas: "cazula de damasco carmezim e branco, forrada de
tafetá"; "alvas de linho com renda estreita"; "opas de sarafina" (Serafina era o nome
de pequenos órgãos usados no interior). Na Fazenda de Santa Cruz ficou a memória
ativa, confirmada em breves mas intermitentes assentos anteriores a 1800. Serve de
exemplo o pedido feito em 28 de fevereiro de 1794 para a compra de "huma rabeca,
como aquela q' em outra ocasião já me comprou". Pedido feito ao soldado do I
Regimento da Praça do Rio de Janeiro — Manuel Per» Barroso — por alguém da
Fazenda cujo nome não pôde ser lido. Foi intermediário o cabo Manuel José, que
210
José Maurício Nunes Garcia biografia
entregou, sob recibo, a importância de 4$000 pela rabeca (Fonte: cx.507, doc.7,
folha 31).
Não é menos eloquente, como depoimento, o material recolhido e arrolado nos autos de sequestro da Fazenda de Macaé:
35 cadernos de solfa para o Natal
48 papéis de solfa para o Sacramento
mais cinco papéis de solfa de várias cantatas
13 cadernos de solfa de três ladainhas de cantochão do tempo e alguns "bailos" e
"encomentos" para defuntos
cinco papéis ditos de solfa que constam de cantatas e "minuetos"
seis cadernos de papel riscado para solfas
29 cadernos de solfa para missa, vésperas para Nossa Senhora, e graduais para a
Ascensão e Ressurreição
um minueto e outros papéis com Te Deum e alguns sonetos etc.
Difícil será informar os nomes dos professores que orientavam essa prática. A música
andou sempre ligada à ação missionária, razão por que os nomes dos que se
ocupavam da música aparecem menos. Poderiam ser sacerdotes seculares, ou os
"não regulares" a que se referem posteriormente os autos de sequestro. Mas teriam
ajudado na construção de uma comunidade com escravos-músicos, como terão
respondido pela formação de músicos que se espalharam pelo território do Rio de
Janeiro, e possivelmente mais além, formando um background de músicos-práticos,
alimentando as irmandades e perpetuando, ainda que modestamente, os
ensinamentos recebidos nos colégios da companhia: solfa, um que outro instrumento,
um pouco de cantochão. Um desses músicos teve preservado o nome: padre João
Lopes Ferreira, que atuou na igreja de Santa Rita, na Candelária, como capelão-cantor, foi mestre-de-capela na Irmandade de São Pedro dos Clérigos. Mas é sobretudo
por ter sido o predecessor de José Maurício como mestre-de-capela da Catedral e
Sé que seu nome foi conservado. Os escravos-músicos continuaram sua missão na
Fazenda de Santa Cruz: em 1804 já são 21 os nomes conhecidos (cx. 507, pac. 26,
doe. 33). A chegada de D. João VI em 1808 dará ênfase à prática musical indicando
dois professores de música e de primeiras letras para Santa Cruz. O progresso que
alcançam terá contrapartida no interesse do padre José Maurício, que dedicará aos
seus irmãos de raça algumas obras que merecem atenção, inclusive uma obra famosa
da qual eles serão os intérpretes. Desde 1814 já eram 50 (cx. 507, pac. 24, doe. 53)
os que se ocupavam de música e usavam uniforme para cantar diante do rei.
18)
A migração de músicos vindos de Minas Gerais beneficiou as irmandades do Rio de
Janeiro, mas também foi útil a José Maurício porque lhe trouxe aquele que será o
seu primeiro professor de música: Salvador José, o Pardo. Muitos outros músicos
da mesma origem relacionaram-se de perto com o compositor carioca; vale citar
Bonifácio Gonçalves, seu discípulo desde 1779, ou João dos Reis Pereira, gloriosa
figura de cantor que acompanhou José Maurício por toda a vida, encarregando-se
dos solos para ele especialmente compostos com todas as suas potencialidades.
Outros músicos mineiros viviam em conventos ou serviam nas ordens religiosas e
ordens terceiras da cidade. Alguns eram compositores: frei Manoel da Silva Rosa
(Itabirito (MG), 17 — Rio de Janeiro (RJ), 1793), franciscano, organista afamado.
Nada confirma, como foi aventado, relacionamento de mestre e aluno entre José
Maurício e esse frade, pessoa arredia, de trato difícil. Compositor, sabe-se de uma
"Paixão" cantada até meados do século XIX na Capela Imperial (Taunay, op. cit., p.
60). Finalmente, seja mencionada a grande figura da música mineira do século
dezoito: José Joaquim Emérico Lobo de Mesquita (Serro (MG) 1746 ? — Rio de
Janeiro (RJ) 1805). Viveu no Rio de Janeiro seus últimos dias, vinculado desde 1801
211
Cleofe Person de Mattos
à Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo. A aproximação entre José Maurício e
Lobo de Mesquita, que tudo faria crer fosse positiva — mineiro um, filho de mineira
o outro, enfim dois grandes músicos — parece ter sido dificultada pelo diretor de
Música da Ordem Terceira, que tomou atitude de defesa de sua posição — ou de
seus interesses — ao ser contratado pela mesa administrativa da Ordem Terceira o
músico mineiro para tocar aos sábados e domingos na "capela do comissário".
19)
212
No caso da Catedral e Sé, o mais credenciado reduto da música religiosa na cidade,
com um passado construído sobre uma estrutura fixa: chantres, mestre-de-capela,
"moços de coro", o desaparecimento de documentação musical por ela produzida
impede qualquer avaliação sobre a música e possíveis compositores que escreveram
para os conjuntos da Catedral nos anos que precederam o mestrado de José Maurício.
Alguns nomes de músicos nascidos no Rio de Janeiro serão conhecidos como
compositores, entre eles três carmelitas: frei José Pereira de Sant'Ana (1696 —
Salvaterra 3 jan. 1759). Suas composições foram ouvidas no Rio de Janeiro antes
de viajar para Portugal, onde presenciou o terremoto de Lisboa em 1755, o que lhe
afetou as faculdades mentais. Pereira de Sant'Ana tinha ilustração e escreveu "no
reino" a História da Ordem Carmelitana. Outro compositor do Rio de Janeiro — frei
João de Santa Clara Pinto (1735—1825) — nasceu na freguesia da Candelária e
ordenou-se em 1760. Compositor e professor de cantochão em vários conventos,
no Rio e cidades vizinhas de São Paulo, dedicou-se principalmente ao canto coral. O
caso mais incompreensível desse desaparecimento porque envolve a figura de um
intelectual que foi mestre-de-capela da Catedral do Rio de Janeiro, cabe ao padre
Antônio Nunes de Siqueira. Vale a pena conhecer alguma coisa a respeito desse
eminente teórico, tido como compositor de qualidade, para informações sobre a
situação da música na Catedral do Rio de Janeiro antes de ocupar o mestrado o
predecessor do padre José Maurício. Oriundo de família que deu à Catedral de São
Paulo dois mestres-de-capela, o padre Antônio Nunes de Siqueira nasceu no Rio de
Janeiro em 1701 onde faleceu, em 1783. Colaborou na monumental obra do mestrede-capela da Bahia — padre Caetano de Mello de Jesus — intitulada: "Escola de
Canto de Órgão" com uma "censura", intervenção bem fundamentada, que põe em
destaque sua erudição. Ocupou o mestrado na Catedral do Rio de Janeiro em 1733,
sem ter tomado ordens — situação incomum — por portaria do bispo D. frei Antônio
Guadalupe. Casou-se por volta de 1734 com D. Joana Vieira de Carvalho Amada. Em
1736, já viúvo e com uma filha — Inácia Catarina, mais tarde organista e segunda
priora do convento das Carmelitas Descalças — pediu para ser sacerdote (Cabido
Metropolitano, L' de índice de Processos de genere, maço 7, 1742). A habilitação
foi dificultosa, e Nunes de Siqueira principiou o ministério sacerdotal em 1747. Sua
filha deixou algumas notas sobre o pai, reproduzidas no opúsculo O Convento de
Santa Teresa, publicação do Arquivo Nacional em 1955. Pode-se apreciar a
consideração que cercava, como intelectual, o mestre-de-capela da Sé. O período foi
assinalado por uma crise envolvendo os músicos da irmandade onde se instalara a
Catedral. Insatisfeito com o nível de execução dos músicos — os "pretinhos", como
eram chamados os irmãos no processo do Conselho Ultramarino — pretendeu o
padre Nunes de Siqueira substituí-los por outros, mais competentes. O gesto
contrariava os termos do alvará de 1742 que assegurava à irmandade o direito de
fazer a música com os seus próprios músicos, assistindo-lhes apenas o mestre-decapela da Sé Catedral para lhes "bater o compasso". Queixaram-se os "irmãos" ao
rei, do que resultou o processo que deu razão à irmandade. A resposta do Conselho
Ultramarino à representação dos irmãos do Rosário em 1746 pode ser lida nos Anais
da Biblioteca Nacional, volume 46. Outro ato do padre Antônio Nunes de Siqueira —
sua obstinação em fundar uma Ordem Carmelitana para freiras, o convento de Santa
Teresa — causou desgosto ao bispo e resultou em sua prisão no Aljube, de 1752 a
1753. Ao ser libertado, viajou para Portugal, a fim de alcançar do rei e do papa "o
novo breve para a fundação do convento". Conseguiu-o, mas essa atitude valeu-lhe
José Maurício Nunes Garcia biografia
a animosidade do bispo, razão por que passou a ser perseguido. Talvez fosse a razão
de demonstrarem as autoridades desapreço pelas composições não as preservando
no arquivo da Catedral. As realizações musicais da Sé não devem ter melhorado com
essas lutas nem com o afastamento do padre Antônio Nunes de Siqueira. Em 1783
morreu aquele que talvez tivesse sido o mais competente mestre-de-capela da
Catedral e Sé, até então afastado de qualquer atividade que não a de ensinar música
às freiras do convento de Santa Teresa.
Não é sabido o que sucedeu musicalmente na Sé, no período entre a prisão de Nunes
de Siqueira e os mestres-de-capela que a ele se seguiram — entre eles Gervásio da
SSm* Trindade Maxado — que em 1760 ocupava o posto. Pode-se presumir fossem
músicos de ineficiente formação musical ou não se ajustassem aos princípios de
composição da música adequada ao culto, o que não seria favorável à imagem da
Catedral, razão de não a haverem preservado. O desaparecimento da documentação
no arquivo da Catedral estaria ligado, portanto, a uma atitude de defesa das
autoridades eclesiásticas diante das obras compostas. Temiam essas autoridades
pudessem corresponderão que, indiscriminadamente, chamavam de villancicosnas
portarias de nomeação. Obras que assimilavam elementos profanos, inclusive textos,
no envolvimento primário que caracteriza o género. O villancico, originário da
península ibérica, onde teve origem nobre, difundiu-se largamente nos países da
América Latina, em muitos casos com gosto e categoria. A reação dos bispos
portugueses, não os admitindo no repertório da Catedral do Rio de Janeiro, poderia
ser preconceituosa. É o que se lê nos termos da portaria de 22 de novembro de 1770
para João Lopes Ferreira — o mestre-de-capela que precedeu José Maurício —
transcrita na nota 31.
20)
Essa irmã de Vitória Maria não é citada pelas testemunhas de São Gonçalo do Monte,
que se recordavam da menina de dez anos e de sua mãe, a escrava Joana Gonçalves.
Também não consta dos livros vistoriados pelo vigário de Cachoeira do Campo.
Taunay refere-se à "irmã mais velha". ("Esboceto biográfico"; Introdução à partitura
do Requiem de 1816 reduzida a órgão; Casa Bevilacqua, 1898). Seria talvez uma "tia
de amizade".
21)
Manuel de Araujo Porto-Alegre — barão de Santo Ângelo — (Rio Pardo (RS)
21.11.1806 — Lisboa 29.12.1879): "Apontamentos sobre a vida e a obra do Padre
José Maurício Nunes Garcia". In: Iconografia brasileira; Revista do IH6B, Rio de
Janeiro, tomo XIX, 1856. Homem de cultura, orador no Instituto Histórico, pintor
laureado — aluno de Debret — professor e diretor da Escola de Belas Artes, membro
de organizações internacionais e cônsul do Brasil em Berlim e Lisboa, onde faleceu,
Porto-Alegre foi condecorado com a Ordem da Rosa e a Ordem de Cristo.
Seu trabalho sobre José Maurício — republicado em Estudos mauricianos, Rio de
Janeiro, Funarte, 1983, p.23-9 — faz jus às numerosas e necessárias citações
contidas neste trabalho. Ainda na Europa, Porto-Alegre escreveu na Revista Brasileira
de Letras e Artes (Niterói; Paris, Dauvin et Fontaine, 1839, tomo I, n.1) outro artigo,
no qual reproduz apreciações de Neukomm (Sigismund) sobre a qualificação musical de José Maurício segundo a óptica do compositor austríaco.
22)
Januário da Cunha Barbosa (Rio de Janeiro, 10.8.1780 - 22.2.1846), figura notável
em nossa história, foi pregador régio da Real Capela, professor de filosofia, e um
dos fundadores do Instituto Histórico (1838). Tribuno, envolveu-se no movimento
pela independência, foi preso em 1822 e exilado por motivos políticos. Retornou ao
Brasil em 1823, alcançando compensações, como a direção da Biblioteca Nacional e
várias condecorações. Seu apreço pela figura multifacetada de José Maurício é
confirmado no Necrológio publicado no Diário do Rio de Janeiro de 7 de maio de
1830. Trabalho que contém importantes informações sobre a vida e a personalidade
213
Cleofe Person de Mattos
do padre-mestre, em quem ele reconhece "vários talentos". 0 Necrológio será citado
continuadamente ao longo desta biografia.
23)
Salvador José de Almeida e Faria, nascido em Cachoeira do Campo por volta de 1732,
alega ter sessenta anos em 1791.
24)
Citado por M.A. Porto-Alegre. In: Estudos mauricianos, op. cit., p. 23. 0 compositor austríaco que esteve no Rio de Janeiro de 1816 a 1821, Sigismund Neukomm, e
observou a realidade em termos do ensino de música, não hesita em dizer, louvando
José Maurício, que ele "tinha o mérito de ter aprendido tudo por si" (Allgemeine
Musikalishe Zeitung, Viena, n.29, julho 1820). Em outras palavras: define-o como
autodidata. Com os elementos de formação cuidados por Salvador José, perde sentido
considerar sumariamente José Maurício como autodidata. O julgamento do músico
de excepcional formação comparava os ensinamentos que recebera de Michael e de
Franz Joseph Haydn, em Salzburg, com o que presumivelmente ele admitia ser o
ensino no Rio de Janeiro quarenta anos antes. Nem imaginava o que poderia enfeixar
de positivo, no contexto do país, a eficiência das "artinhas" nas mãos de um mestre
experimentado em equilibrar, didaticamente, a teoria e a prática na orientação desse
ensino. Também não se pode admitir fosse infrutífera a convivência de José Maurício
com outros músicos da cidade, citados em diversas fontes, sem crédito suficiente
para confirmar hajam sido realmente continuadores de Salvador José, como
professores de harmonia e contraponto. A Grande Enciclopédia Portuguesa e
Brasileira (Lisboa — Rio de Janeiro, V.IX, verb. JMNG) informa: "Pouco se sabe de
sua educação musical, que foi orientada por sacerdotes músicos entre os quais Silva
Reis, mas devido às condições do meio em relação à aprendizagem musical, pode
ser considerado autodidata ."
José Maria da Silva Roiz, amigo de José Maurício, é o nome de um músico que atuou
na Sé, e depois ingressou na Capela Real. Oevia ser bom músico. Em 1808 substituiu
José Maurício na direção da música em cerimónia na Capela "dos Terceiros"
promovida pelo Senado em regozijo à infundada vitória das armas portuguesas. D.
João distingue-o em 1811 (11.2) com aumento de ordenado (4$000 por mês). (Arq.
Nac., cx.12, pac.2, doc.31).
Em 1833 Silva Roiz ainda funcionava na Capela. Não seria sacerdote, nem foi
encontrada documentação comprobatória de que teria sido professor de harmonia e
contraponto de José Maurício, mesmo porque essas práticas estariam embutidas
nas artinhas e nos ensinamentos de Salvador José, que atenderiam, o que se pode
crer, à tradição do ensino de música, à época.
25)
214
Em 1739 o bispo D. Antonio Guadalupe assina provisão criando um seminário junto
à igreja de São Pedro — na rua do mesmo nome — para receber meninos órfãos, os
quais teriam estudos de "contar" e de artes. Deu-se à entidade o nome de Órfãos de
São Pedro. Um item da provisão que a criou fazia exigências: os meninos deviam ser
"cristãos velhos" e também "brancos de geração e de nenhuma sorte mulatos".
(Moreira de Azevedo, O Rio de Janeiro, sua história, monumentos e homens
notáveis, 3.ed., Rio de Janeiro, Brasiliense, 1969).
Em 1766 transferiram os alunos e o seminário, instalando-os junto à igreja de São
Joaquim e assim trocam de patrono. A esta altura já se diferenciavam em três classes
os seminaristas: pensionistas, meio pensionistas, pobres e gratuitos. É possível que
com o p,assar dos anos as exigências do item citado houvessem caído. Os alunos do
seminário não apenas cantavam no coro da Sé, como atuavam em cerimónias de
outra natureza com as quais eram familiarizados, cantando Libera me ou visitando
doentes aos quais levavam, com o seu canto e a sua presença, o conforto da música
e da religião. Em 1789 percebiam "de côngrua anual" 136S000 (34S000 por
José Maurício Nunes Garcia biografia
trimestre). Não eram sujeitos a multas "porque são do Colégio São Joaquim, onde
há meninos em abundância e quem os governa tem o cuidado de os mandar sem
falência", escreve José de Souza Marmelo, tesoureiro-mor da mesma Sé no ano de
1789, in: "Memórias da origem e progressos do Cabido da Santa Sé de São Sebastião"
(Manuscrito no Instituto Histórico do Rio de Janeiro). Se a admissão de José Maurício
no coro do Seminário São Joaquim — destinado a "amparar as crianças pobres e
órfãs" — foi dificultada pelo problema da cor, não existem dados que esclareçam a
respeito da discriminação que vai sofrer a vida inteira. Neto de escravas, José
Maurício não era "branco de geração". Mas a musicalidade que nele explodia abrirIhe-ia o caminho para finalmente cantar no coro da Sé, assim vencendo essa primeira
luta levantada à sua condição de menino de cor. O desaparecimento da documentação
sobre o Seminário São Joaquim no século dezoito — Escragnole Dória na Introdução
à História do Colégio Pedro II— impede esclarecer este ponto.
26)
Organistas vários atuavam na cidade, e sua execução auxiliaria José Maurício como
exemplo na abordagem do instrumento. No convento de Santo Antônio, por exemplo,
podem ser enumerados:
Frei Antônio de Santo Elias. Português, ainda noviço em 1802, quando principiou a
tocar órgão. Fez-se frade em 1804 (12.2). D. João pôde apreciá-lo tocando para a
família real. Era apontado como "o rei dos organistas".
Frei Francisco de Santa Eulália (falecido em 10.3.1814). Organista e tido como compositor "notável". Seu biógrafo revela que, faltando certa vez a obra musical para o
repertório da Páscoa, frei Eulálio compôs "Matinas da Ressurreição" em 24 horas.
Frei João de Santa Clara Pinto (1735-1825) era brasileiro; compunha para coro e foi
mestre de cantochão.
A Ordem Terceira do Carmo mantinha organistas — alguns eram também
compositores — para o serviço da igreja sem embargo das realizações com orquestra.
Sobrevive a documentação sobre ordenados devidos àqueles que exerciam essas
funções, mas não as composições assinaladas nas festas realizadas.
27)
Agostinho Corrêa da Silva Goulão, formado na Universidade de Coimbra, chegou ao
Rio de Janeiro em 1789. Ocupou a cadeira de Filosofia Racional e Moral (Perereca,
p.774). Em setembro de 1822 foi eleito deputado à Constituinte pela Província do
Rio de Janeiro. (Livro I das Publicações do Arquivo Nacional, p.47).
28)
A versão conhecida do seu "opus 1", na Escola de Música — "concertada" para soprano (solo), coro a 4 vozes, violinos, viola, violoncelo e flauta — pressupõe versão
anterior, talvez a vozes e órgão, e sem a flauta. Expansão ingénua dos ensinamentos
de Salvador José, a obra enquadra-se no âmbito da mineiridade que ronda a primeira
fase das composições de José Maurício. A cópia da Escola de Música não revela,
porém, a circunstância de ter sido "composta para a Sé", informação colhida em
outra cópia que pertenceu a antigas sociedades de música de Pirenópolis (Goiás),
onde se lê: "copiada na Capela Imperial do Rio de Janeiro". A informação não só dá
outro sentido à composição da própria antífona e à posição de José Maurício face à
Catedral e Sé, como sugere um vínculo mais positivo entre o compositor e a Sé nessa
época bastante recuada, 1783.
29)
Instituição criada em 1784 e concebida nos mesmos princípios que regulavam a
vida musical no reino, a Irmandade de Santa Cecília constituía-se na entidade
aglutinadora dos militantes na música, atribuindo-lhes, como profissionais da arte,
direitos e deveres de autêntico órgão de classe. A Irmandade funcionava
exemplarmente: tinha mesa diretora, fazia eleições e. entre outras atividades,
215
Cleofe Person de Mattos
promovia cerimónias anuais para festejar o dia da padroeira e homenagear os irmãos
desaparecidos no decorrer do ano. A participação de 33 professores de música em
1784 faz sentir a intensidade da vida musical no Rio de Janeiro. Seus nomes
freqúentaram, de diverso modo, a classe musical atuante na cidade no fim do século
dezoito.
Não há como afastar a idéia de que entre os professores de música que assinaram o
compromisso da Irmandade de Santa Cecília em 1784, houvesse algum beneficiado,
ainda que remotamente, pelo ensino comprovadamente inserido nos quadros da
ordem jesuítica, ou melhor dizendo, no Colégio da Companhia. Segue, a título
ilustrativo, a relação nominal dos 33 professores que participaram da fundação: João
da Costa Pinheiro, Florentino de Aragão Espanha, Francisco Antônio da Costa,
Clemente José Ribeiro, Salvador José de Almeida e Faria, Manuel Francisco Daires,
Manuel Correia da Silva, Carlos José da Costa e Silva, José Mendes de Almeida Jordão,
Manuel Rodrigues Silva, Antônio Joaquim Serpa, Carlos Joaquim Rodrigues,
Pantaieão Ferreira da Silva, Bonifácio Gonçalves, Quintino dos Santos Tomás, Felix
Marinho de Castro, José de Oliveira Souza, Joaquim Bernardo de Almeida Soares,
Inácio Pereira Sarmento, Vitório Maria Geraldo, Joaquim Antônio do Amaral Gurgel,
Manuel Monteiro Serpa, Manuel de Faria Pimentel, Antônio Fernandes da Silva, José
Maurício Nunes Garcia, Joaquim José Lacce, João Manso Pereira, José da Silva
Lobato, José do Carmo Torres [Vedras], Antônio Xavier, Antônio Francisco, Joaquim
Antônio da Silva e Francisco José de Madureira.
30)
José Batista Lisboa, morto em 1848, foi irmão andador da Ordem Terceira do Carmo
e mais tarde (1802) diretor de música, quando se tornou responsável "por toda a
música que se fizesse" na Ordem. Inexistindo comprovação de que fosse compositor, parece óbvio que Batista Lisboa se propunha à escolha de repertório, do compositor, dos intérpretes, providenciando tudo quanto diz respeito à execução das
obras por ele escolhidas ou encomendadas, para ser ouvidas nas cerimónias
religiosas da Ordem Terceira.
Ao reivindicar, em 1802, o posto de diretor de música, Batista Lisboa invocou sua
qualificação de professor e parece assumir, ao fazê-lo, atitude de defesa de seus
direitos, face à contratação do novo organismo da Ordem, o grande músico mineiro
José Joaquim Emérico Lobo de Mesquita, decidida pela mesa da Ordem em dezembro
de 1801. Muito ligado ao padre José Maurício, de quem foi compadre, Batista Lisboa
era excelente copista, o que faria parte de sua invencível habilidade em ganhar
dinheiro. Mas é sobretudo como colecionador de manuscritos musicais que sua figura
se destaca. A vasta coleção por ele reunida vem relacionada e anexada ao seu
inventário, em lista organizada por dois músicos: Francisco Manuel Chaves e Francisco da Luz Pinto. Ambos alunos de José Maurício, mas nem por isso cuidadosos
no registro das obras de autoria do padre-mestre na coleção do diretor de música,
mais numerosas por certo do que os sumários registros com autor conhecido
assinalados na relação. Podem ser identificados esses manuscritos pela rubrica Bap"
lançada naqueles que, em algum momento, pertenceram ao diretor da Ordem, fosse
ou não cópia sua. Absorvidos pela coleção de Bento Fernandes das Mercês após seu
falecimento em 1848, esses manuscritos encontram-se hoje na Biblioteca da Escola
de Música. Ao tempo da Independência, Batista Lisboa, como muitos outros
descendentes de portugueses, substituiu o sobrenome. Passou a chamar-se José
Batista Brasileiro.
31)
216
Natural do Rio de Janeiro, como o pai, de igual nome, João Lopes Ferreira batizouse na Sé. Ainda clérigo subdiácono, era capelão do coro da igreja de Nossa Senhora
da Candelária "com obrigação de cantar missa em semanas alternadas": atuava
também no coro da igreja de Santa Luzia, quando pediu — e alcançou — ser
dispensado em "interstícios". Ordenou-se em 1755. Foi aluno do Colégio da
José Maurício Nunes Garcia biografia
Companhia — ou seja, dos jesuítas —, o que informou ao ingressar na carreira sacerdotal. Capelão cantor em 1763 (Arquivo Nacional, cód.127), ocupou o mestrado
em 1770, no dia 22 de novembro. A origem espanhola da Ordem explica a sua
assinatura como Joam Lopez Ferreira em vários documentos. Nos termos de sua
nomeação para mestre-de-capela (L- de índice de genere — maço J), sente-se a
preocupação do bispo com o repertório musical nas igrejas, proibindo "que no culto
divino hajam músicas e cantos profanos e indecentes" (Cabido Metropolitano). O
tom dessas observações reforça a hipótese de que nas décadas de 1750 e 1760, as
críticas seriam justas ao recomendar fossem cantadas somente "músicas edificantes
e dignas de louvor a Deus". É o que se lê nos termos da portaria de 22 de novembro
de 1770 para João Lopes Ferreira, escrito pelo bispo e (parcialmente) transcrito a
seguir. (Documento na Catedral do Rio de Janeiro. L* 2* de Portarias e Ordens
Episcopais, p.115):
"D. F.' Antonio do Desterro por merce de D.' e da Santa Sé Ap." Bispo do Rio de
Janr'e do Conselho de Sua Mag.' Fidelíssima efe. Aos que aprezente N. Portaria
virem saúde, e paz em o Snr. que de todos he o verdadr' remedio, e salvação:
fazemos saber que attendendo nos ao bom procedimento, e capacid.' do P' João
Lopes Ferr' Presbytero do habito de S. Pedro: Havemos por bem de o prover, pela
prezente Nossa Portaria o provemos em quanto não mandarmos o contr' em a
occup."" de M4. da Capella da N. Cathedral: aquai occup."" servira bem e fielm."
como convém ao serviço de Deos, e ao Nosso, assistindo a todas suas obrigaçoens
com o zelo, e cuidado, que da sua pessoa esperamos, e com a Muzica necessaria
na Nossa Cathedral, e nas mais Igr' que delia precizarem; e porque segundo o
Sagr. Cone. Trid. somos obrigados a zelar, e prohibir, que no Culto Divino, hajão
Muzicas, e Cantos profanos, e indecentes, mas antes procurar que eram Sem.'
lugar só se cantem Muzicas Edificativas, e dignas do louvor de D.' mandamos
com pena de Excomunhão mayor a todos os muzicos deste nosso Bispado, não
cantem, ou toquem nas Igr." Capellas, Oratórios, ou em outros quas quer lugares
semelhantes/ onde se devem cantar louvores a D.' (.....) Villancicos, e papeis,
que não forem primr' aprovados pelo do Nosso M.' da Capella ao qual mandamos
que não aprove se não os que forem dignos, e pela sua approv."" levara o
estipendio, que direitam." lhe competir; e aos R.R. Parochos deste Nosso Bispado
mandamos sob pena de suspensão; ipso facto, não deixem de cantar, ou tocar
nas suas Igr ", Capellas, Oratorios filliaes, Muzicos alguns sem lhe mostrarem
approv.'" do d' N. M.' da Capella, o qual ha vera na D' occup."" os proes, e
precalços, que direitam." lhe pertencerem. Dada nesta Cid.' do Rio de Janr'Sob
Nosso Signal e sello da N. Chan' aos vinte e dous de 9bro de 1770 Com a rubrica
de Sua Ex', Rm' que dis Bispo."
Essas palavras fazem crer que as bases que sustentavam o cotidiano da Catedral do
Rio de Janeiro não seria do agrado do bispo. A suposição da inexistência de um
músico categorizado para ocupar-se da música na catedral seria, naturalmente, a
causa do desnível na produção. As circunstâncias que beneficiaram a criação musical nos países da América Latina, com mestres-de-capela do século dezesseis, padres espanhóis e compositores que conheciam e transmitiam as tradições de sua
terra, de que eram herdeiros naturais, puderam fazer do mestrado na catedral de
seus países uma fonte de educação de bom gosto, e de boa escrita. Os bispos do Rio
de Janeiro limitaram-se a proibir fossem cantados os villancicos, como se viu na
portaria de nomeação do padre Lopes Ferreira. Ficou, assim, o arquivo da catedral
incapacitado para responder à natural curiosidade de quem quisesse saber o que
haveria sido produzido antes de José Maurício, no fim do século XVIII. Conquanto
muito sacrificada por insetos e por procedimentos pouco desculpáveis, inclusive o
fogo, sua obra ainda é o primeiro exemplo de legado de um mestre-de-capela na
Catedral do Rio de Janeiro.
217
Cleofe Person de Mattos
32)
Registrada no processo de genere; o levantamento das obras compostas ou
executadas pela Irmandade de Santa Cecília é inviável. Nenhum sinal assinala o fato,
nenhuma informação sobrevive nos manuscritos. 0 já mencionado Te Deum de 1791
"pelo feliz regresso de D. Luiz de Vasconcelos a Portugal" foi preservado porque a
Gazeta de Lisboa reproduziu a notícia em 10.5.1791. Em 1819, é com os músicos
da Irmandade de Santa Cecília que José Maurício faz ouvir, ainda na Igreja do Parto,
o Requiem de Mozart. Sua última obra — a Missa de Santa Cecília — foi composta
por encomenda da Irmandade e por ele regida. Vale citar ainda, embora ignorada a
data, as Matinas de Santa Cecília. Duas cópias dessa obra são conhecidas: uma em
São João dei Rei, que pode ser considerada a primeira versão; a outra, intitulada
Segundas Matinas de Santa Cecília, com a mesma temática, porém bem mais
desenvolvida, seria a versão definitiva da obra. Esta última cópia encontra-se na
Escola de Música, infelizmente incompleta, o que contradiz o registro de entrada na
biblioteca.
33)
A história da identificação desses motetos não se limita aos Bradados (CT 219).
Continua com manuscritos intitulados: 2' feira maior, 3' ir' maior, 4' fer' maior. O
acaso funcionou na identificação desses manuscritos, localizados pela professora
Ruth Serrão, manuscritos sem nome de autor, sem data. Ver-se-á que, embora cópia,
a terminologia usada no título é a mesma dos Bradados "de 6* fer1 maior", com o
mesmo estilo, e com constâncias melódicas que dão a esse conjunto de obras
indiscutível unidade. O todo corresponderá ao item lançado por José Maurício na
relação de obras compostas para a Capela Real: "Toda a Semana Santa da Sé". Mas
que esse item tivesse data — não citada pelo compositor — e esta fosse 1789, é o
que se pode concluir juntando todas as peças até agora conhecidas:
2' feira maior
3* feira maior
4' feira maior
5' feira: "Pange Lingua com Tantum ergo para a Procissão do SSnv Sacramento de
5« fer", a 4 vozes, em 1789"
Brados de 6' feira maior.
34)
A Sinfonia fúnebre não foi composta para a Sé. Não é registrada no catálogo de
Maciel e as circunstâncias que cercam os seus manuscritos, assim como no Moteto
a solo de 1800 —cópia de Batista Lisboa com a sua rubrica — fazem crer que o seu
destino haja sido a Ordem Terceira do Carmo que nesse ano viu desaparecer pessoa
importante ligada à sua administração. Por coincidência, é também o ano da morte
de sua tia. A cópia da parte de baixo permite uma avaliação do número de
instrumentos utilizados na execução da obra: "4 Violinos Primos; 4 Segundos; 2
Violetas; Boés, Flautas, Trompas, Clarins, 2 Fagottes, 9 Baixos". O que dá margem a
uma hipótese: José Maurício compunha para a Ordem Terceira pelo menos desde
1790. E a primeira composição puramente instrumental do compositor, então com
23 anos. Das quatro aberturas de que se tem notícia, sabe-se a data, além da Sinfonia
fúnebre, da Zemira (1803). Uma terceira abertura, a Sinfonia da tempestade, terá
sido composta entre 1801 e 1806. Informação de Sacramento Blake (Dicionário
biobibliográfico brasileiro; Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1899): "composta
para o Elogio Dramático representado no aniversário do Vice-Rei D. Fernando de
Portugal", que exerceu o cargo no período.
35)
Normas vigentes à época facilitavam a ordenação daqueles que "para isso estivessem
capacitados". Em 1781 (19.3) o bispo do Rio de Janeiro, D. José Joaquim Justiniano
Castelo Branco abordou o problema do clero nesta cidade. "... procurando formar
um clero digno de ocupar-se futuramente nas funções eclesiásticas" e empenhado
em que "as previas disposições de uma verdadeira vocação" se acompanhem de
218
José Maurício Nunes Garcia biografia
"suficiente instrução das obrigações que contrahem neste sublime estado, e de cada
hum dos graus que habilitem para o sacerdocio", o bispo comunica aos diocesanos
que pretendam ordens:
"1) Que nenhum será admitido... sem primeiro mostrar ter seis meses sucessivos
de residência pessoal no Seminário de S. José desta cidade ...de maneira que
se possa formar conceito ... e assegurar-se
o pretendente da firmeza ou
insubsistência de sua vocação.
2) Que todo aquele que continuar em sua vocação e dela tiver dado boas provas
será admitido a ordens provando-se hábil em exame Sinodal."
Os conhecimentos exigidos versavam, além da doutrina cristã, a língua latina. Mas
em cada um dos graus da ordenação, o ordinando seria sempre examinado em
cantochão "das cerimónias competentes que se devam praticar nas funções solenes
e privadas". Para facilitar a execução, o bispo complementou a sua idéia nomeando
mestres inclusive para o cantochão. Davam esses mestres "escola publica no
Seminário de S. José nos dias e horas que lhe fossem assinados". Percebiam 20S000
por ano como prémio do seu trabalho, pagos pelos rendimentos do dito Seminário.
(L> 3- de Portarias e Provisões Episcopais).
36)
37)
Processo de genere (1* folha). Documento na Catedral do Rio de Janeiro (Cabido
Metropolitano).
Correspondem essas qualificações às seguintes testemunhas:
Marcos Antunes Marcello (Oficial da Alfândega); Manuel dos Santos e Souza
(presbítero); Manuel Garcia Rodrigues (casado, do bispado de Mariana, 42 anos;
vive do ofício de ourives); R- José Rodrigues Lima (Rio de Janeiro — presbítero, 60
anos mais ou menos); Bonifácio Gonçalves (bispado de Mariana) vive da arte de
música; Antônio Francisco Barbosa (bispado de Mariana) solicitador e porteiro da
Fazenda Real.
38)
O destino levaria José Maurício a conviver com seres humanos que considerariam
fraqueza seu espírito conciliador e a humildade de atitudes por ele assumida mais
tarde diante dos tropeços que a maldade dos homens lhe impõe, para justificar a
animosidade e o desprezo pelo músico brasileiro que carregava um "defeito de cor".
Seu comportamento, aceitando com serenidade e resignação, mostrava qualidades
desenvolvidas em sua formação religiosa.
39)
Uma anotação à esquerda do documento retifica, a respeito da expressão
"dignamente"; "Benignam."", diz o original.
40)
Cabido Metropolitano, Rio de Janeiro, Livro 5>,fl.1, n.2. Catedral — L- de índice dos
Processos de Genere. (Letra J -1- maço, 45 (1790) 1791 (n.6): JMNG — p.38.
41)
Filho do também comendador José Marcelino Gonçalves, Tomás Gonçalves residia à
rua da Ajuda — hoje do Passeio — esquina da rua das Marrecas. Seu filho tinha o
nome do avô — José Marcelino Gonçalves. Fez-se frade e em 1810 foi um dos
padrinhos do compositor no ato de receber o Hábito de Cristo.
42)
Informa Moreira de Azevedo (RING, v.34, p.296) que a casa em que funcionou o
curso de música tinha no fim do século número 14.
219
Cleofe Person de Mattos
43)
Tem-se conhecimento dessa composição através do registro da execução, na Gazeta
de Lisboa, de 10 de maio de 1791. Terá sido a primeira noticia sobre o compositor
no além-mar. Atuaram na cerimónia, na Igreja do Parto, os músicos da Irmandade de
Santa Cecília. Não foi identificada esta obra entre os vários Te Deum do autor.
44)
Em carta a D. Pedro no ano 1822, o padre José Maurício alegou ter servido 13 anos
na Catedral e Sé. 0 que faz recuar até 1795 o primeiro sinal concreto de atividade de
José Mauricio na Catedral, provavelmente o curso de música, assim completando
treze anos de exercício. Documento encaminhado ao inspetor da capela, monsenhor
Fidalgo, adianta que José Maurício percebia 30$000 ao começar a trabalhar na Sé.
Sabido que o seu ordenado ao ser indicado mestre-de-capela, em 1798, era de
600$000, a informação do inspetor faz crer fosse esse o ordenado do padre-mestre
como professor do curso de música.
45)
Taunay, in: "Esboceto biográfico", introdução da partitura reduzida da Missa de Requiem, Rio de Janeiro, Casa Bevilacqua, 1898.
46)
Alguns nomes devem ser citados: Francisco da Luz Pinto (17-1865), compositor,
instrumentista, atuou na Capela Real e Imperial; foi organista na Ordem Terceira do
Carmo e professor de música no Colégio Pedro II. Copiou muitas obras do mestre,
embora se permitisse pequenas traições aos originais, acrescentando introduções,
substituindo Instrumentos (flautas por oboés). Francisco da Luz Pinto deixou
modinhas (impressas por Laforge) e obra religiosa, conservada na Escola de Música
e no Cabido Metropolitano. Cândido Inácio da Silva (1800-1838) — tenor
categorizado — foi solista em obras importantes de José Maurício. Na Sociedade
Filarmónica, cantou, em 1837, obras de Rossini, o que pressupõe virtuosismo vocal: o dueto de Bianca e Falliere, o "terceto" da Semiramis com a cantora Elisa
Piacentini e João dos Reis Pereira, e coros, um "terceto" da Adina com Reis Pereira
e Gabriel Fernandes da Trindade. Cândido Inácio da Silva apresentou-se como compositor em: "Novas variações para corneta de chaves". Em 1838 cantou Meyerbeer o
"Dueto dos Cruzados no Egito". Sua sentida morte foi chorada pelo dr. Nunes Garcia
numa valsa intitulada "Saudades de um amigo", publicada nas "Mauricinas". Gabriel
Fernandes da Trindade (17-1854), cantor e compositor. Suas modinhas
celebrizaram-se (várias impressas por Laforge); deixou hinos e outras peças. Estudou
violino com Francisco Inácio Ansaldi, a quem dedicou dueto para dois violinos
concertantes. Instrumentista da Capela Real e Imperial de 1827 até 1831, reingressou
em 1842; Trindade também foi cantor na Capela Imperial. Solista de várias obras do
padre José Mauricio (tenor e alto falsetísta), cantou o Guilherme Tell de Rossini no
Teatro São Pedro de Alcântara em 1835. Uma informação do inspetor da Capela Imperial (monsenhor Fidalgo) em 1840 sobre esse músico diz: "hè um perito na arte da
musica tem excelente voz deste naipe". Na mesma oportunidade, o secretário do
bispado refere-se à "bondade da voz e perícia d'arte de que é dotado". Lino José
Nunes morreu em 1847 e foi sepultado no convento de Santo António. Instrumentista
(rabecão) na Real Capela, onde anteriormente cantou como aluno de José Mauricio.
Autor de modinhas e de um trabalho teórico. Manuel Alves Carneiro (1795-1866),
padre, instrumentista da Capela Imperial, foi secretário e tesoureiro do Imperial
Conservatório. Ao morrer Francisco Manuel, em dezembro de 1865, o padre Alves
Carneiro foi proposto pelo diretor da Academia de Belas Artes para substituí-lo. Não
chegou a ocupar o posto. Morreu vinte dias após, em 7 de fevereiro. Francisco da
Mota (1859), instrumentista, professor de flauta, fagote e corninglês (no
Conservatório) e concertista. Secretário da Sociedade Musical Beneficente desde
1834, solicita em 1841, juntamente com Francisco Manuel e outros músicos, a criação
de um Conservatório. Em 1853 requereu ser músico da Capela Imperial, ocasião em
que Francisco Manuel atestou suas qualidades. João António Gonçalves (1794-
220
José Maurício Nunes Garcia biografia
1874). Informa Moreira de Azevedo que este aluno de José Maurício morreu em Campos. Joaquim Tomás da Cantuária (1800-18??) já fora timbaleiro em época passada,
quando aluno do padre José Maurício. Ao mudar de mestre deixou a Capela, onde
"só ia quando lhe pagavam" (3.10.1825, cx.12, pac.1, doe.9). Em 1825 solicitou o
mesmo posto na Capela Imperial. Cláudio Antunes Benedito, trompista, foi da Capela
Imperial. Copista, trabalhou na copistaria de Theotonio Borges Diniz. Francisco
Manuel Chaves (.... + 1854), copista na Real Capela; timpanista na Capela Imperial
(1843). Foi sobretudo copista. Francisco Manuel da Silva (1795-1865) é, porém, o
aluno de José Mauricio que alcançou maior projeção como autor do Hino Nacional
Brasileiro. Mestre-de-capela da Capela Imperial (1842-1865), foi relevante a sua
atuação na vida musical da cidade, no século dezenove. Diretor da Sociedade Musical Beneficente, criada em 1834 para socorrer os músicos impedidos de trabalhar e
dar amparo à família em caso de morte, partiu desta sociedade a iniciativa para a
criação do Imperial Conservatório de Música, do qual foi nomeado diretor, posto
que ocupou até sua morte. Francisco Manuel da Silva foi cantor "falsetista" no naipe
dos sopranos da Capela Real até 1825, quando passou a instrumentista: timbaleiro e
violoncelista. Compositor fecundo, não compôs apenas os hinos que se conhecem,
as modinhas e lundus, mas enorme quantidade de música religiosa, hoje espalhada
por vários arquivos do Brasil, sobretudo no Rio de Janeiro (Escola de Música e Cabido
Metropolitano), São Paulo (Conservatório Dramático Musical e Museu Carlos Gomes)
e Minas Gerais, em numerosos arquivos do Estado.
47)
Arquivo da Catedral, L> de Portarias e Ordens Episcopais, fls. 185v. O Livro de Óbitos
da Irmandade de São Pedro (L« 2-, p.155) informa: Falecido em sua residência, à rua
da Vala, no dia 5 (cinco) o Cónego Lopes Ferreira. 0 enterramento se fez
processionalmente, "carregado em andas".
A Irmandade do Sacramento é mais explícita (Livro de Óbitos de Livres e Escravos,
Livro n- 3,1798-1812):
"Aos sinco dias do mes de julho de mil setecentos noventa e oito anos faleceo
nesta Freg' e Rua da Valia com todos os SSacram.'" o M." R." Mestre Capela
João Lopes Ferr' N." desta cid.'. Foi revestido nas vestes
sacerdotais,
encomendado pelo M." R."" Conego Cura Antonio Roiz de Miranda Parocho desta
Freg' e doze sacerdotes; e conduzido processionalm." para a igreja de S. Pedro
onde toi sepultado e fez TT>, de que para constar fiz este assento e assinei
(CondManoel Afonso Costa)."
48)
L* 3- de Portarias e Ordens Episcopais, fls. 185v.
49)
0 novo mestre-de-capela recebia 19$200 "por quartel". Seu antecessor realizava
essas cerimónias com músicos profissionais (veja-se o requerimento de fevereiro
de 1791, AGERJ 1> 43.3.89). José Maurício, ao contrário, fazia-as, ou reforçava-as
com alunos seus. que não eram pagos. Pode ser esta a causa do desnível de
pagamento aos dois mestres-de-capela, a não ser algum tipo de discriminação, que
mais adiante ficará visível.
50)
AGERJ, L* de Arrematações e Mandados de Pagamento do Senado da Câmara —
16.1.44, p.136.
51)
José Maurício desejou expressar o seu reconhecimento pelo que representara a
convivência como velho mestre na evolução de sua carreira; o Oficio e Missa teria
acertado integralmente. Título: Oficio a 4 e Missa dos Defuntos a 4 vozes e
Acompam." Feito no Anno de 1799 por Joze Mauricio Nunes Garcia Para o
221
Cleofe Person de Mattos
Anniversario dos S.°" Conegos Defuntos. A Obra severa, sem solos, deve ser aceita
como padrão para cerimónias fúnebres em grande estilo. Composta para quatro vozes
com acompanhamento de órgão em baixo cifrado, completa em sua estrutura de
"Matinas", o texto foi integralmente atendido, no que se confirma uma das marcas
da música do padre-mestre: a sua funcionalidade.
52)
Mariano José Pereira da Fonseca, marquês de Maricá, e Manuel Inácio da Silva
Alvarenga figuram nos depoimentos da Devassa do Marquês (Arq. Nac., v.61, p.283350), assim como Amaral Gurgel (amigo de José Maurício) e o dr. Ernesto França
(segundo dr. Nunes Garcia, médico do pai). Com menor ênfase o poeta e compositor
padre Caldas Barbosa, que cantava modinhas de sua autoria em Portugal. O nome de
José Maurício não figura nos autos de sequestro nem na Devassa. Não é
esclarecedora, na imprecisão da palavra do delator, a alusão ao privilégio dos
sacerdotes que se refere, em 1794, a um "clérigo não identificado". Poderia ser o
padre Caldas, poderia não ser.
53)
O poeta Manuel Inácio da Silva Alvarenga terá tido, no século dezoito, papel
semelhante ao de Mário de Andrade no século vinte junto aos compositores nacionais,
influenciando-os com suas idéias. Se o canto e os lamentos dos escravos que
passavam pela rua da Vala a caminho do Valongo não deixaram marca na linguagem
de José Maurício — impensável transposição cultural, à época — o canto já mestiçado
e semi-erudito da modinha seria bem-vindo na música, nesse fim de século,
permitindo fosse envolvido pelos acenos seresteiros familiares ao padre que cantava
modinhas e xácaras. São exemplos dessa fase na música religiosa o canto dos violinos
no Tantum ergo da Novena de 1798, o "verso" do 3* responsário, no solo de soprano das Matinas do Natal.
54)
Aderaldo Castelo: Manifestações literárias do período colonial. São Paulo, Cultrix,
1975, p.200 e seguintes. O autor reproduz trechos de sermões de Monte Alverne
que impressionam pela caracterização da vaidade humana na Real Capela,
enquadrando bem a atuação de José Maurício.
55)
Mauricinas. Colleção de canções e valsas. Dedicado á memória do P.' M.' José
Maurício Nunes Garcia. Ornado com o seu retrato, desenhado pelo Dr. José Maurício
Nunes Garcia. Rio de Janeiro, Litografia de Heaton e Rennsburg, rua da Ajuda 68.
56)
Não o terá abandonado a partir do fim do século — mesmo na música religiosa — na
preciosa e delicada modinha nas Matinas do Natal. Mas é inesperadamente na obra
que se poderia supor menos adequada que esse sentimento floresce: na Missa de
Requiem, de 1816, que se poderá encontrar a expressão mais forte, mais funda,
mas transfigurada nas raízes que o prendiam a esse sentimento musical do seu povo.
57)
Pierre Laforge, de nacionalidade francesa, chegou ao Brasil em 1816. Em 1817
anunciava como professor de flauta. Flautista na Real Capela, na Real Câmara e no
Real Teatro, a grande contribuição de Laforge inscreve-se na música brasileira: a
impressão musical, a que deu inestimável impulso com a publicação de modinhas,
valsas, lundus, em sua Estamparia de Música. Desse trabalho o pais lhe é devedor
por ter ficado a memória de obras menores de compositores brasileiros: Gabriel
Fernandes da Trindade, Cândido Inácio da Silva, Francisco Manuel da Silva, Francisco da Luz Pinto — todos alunos ou amigos de José Maurício — e ainda: Jerônimo
S. Arvelos, Xisto Bahia e Souza Queiroz.
222
José Maurício Nunes Garcia biografia
58)
0 trovador. Coleção de modinhas, recitativos, árias, lundus etc. Rio de Janeiro,
Livraria Popular de A.A. da Cruz Coutinho, 1876. v.l.
59)
Sacramento Blake informa a respeito do marquês de Maricá:"... de suas composições
poéticas nunca se fez coleção; há algumas postas em música pelo Padre José
Maurício Nunes Garcia de quem já ocupei-me." (Dicionário Bibliográfico
Brasileiro.
Rio de Janeiro, 1883, v.V, p.239).
60)
As cinco modinhas do mesmo álbum já identificadas:
n- 1 — Eu amo as flores (M.A. de Souza Queiroz)
n> 2 — Põe na virtude, filha querida
n- 6 — A hora que te não vejo (Cândido Inácio da Silva)
n- 8 — No momento da partida (? José Maurício?)
n« 10 — Se meus suspiros pudessem (Lino José Nunes)
61)
O trovador, op. c/f., v.lV.
62)
A Bibliotek faz parte da Robert Bosch Stiftung, localizada em Gardiner, cidade próxima
a Stuttgart. 0 volume, com modinhas impressas por P. Laforge, encadernadas com
requinte e oferecidas a D. Pedro II por João Francisco Leal, que escreve uma peça
para o imperador do Brasil oferecendo a coleção de modinhas. Além de duas
modinhas do padre José Maurício — Beijo a mão que me condena; e Marilia, se
me não amas, estão representados compositores brasileiros: João Francisco Leal,
Gabriel Fernandes da Trindade, Francisco da Luz Pinto, Cândido Inácio da Silva, P.
Teles, Lino José Nunes e S.P. Lobo, e outros não brasileiros, mas radicados no Brasil:
F. Mazziotti, Isidoro Bevilacqua e J. Facchinetti.
63)
Joaquim Manuel de Macedo: Memórias da rua do Ouvidor. São Paulo, Saraiva, 1963,
p.157.
64)
Sacramento Blake, Dicionário biobibliogrâfico brasileiro. 1883, v.5, p.89). Elogio
dramático era género literário, muito em voga no Brasil colonial, apresentado sob
pretextos vários: casamentos, aniversários e outras festas. Geralmente elaborados
em estilo gongórico, realizavam-se em oportunidades de louvar autoridades, fossem
as da família real, ou da própria colónia.
65)
Os manuscritos da Missa em Si bemol, de 1801, adquiridos em leilão por Alfredo
Pinto de Moraes na década de 1870, em péssimas condições de conservação — o
que pode explicar as divergências em torno da obra — foram entregues a Alberto
Nepomuceno, que a fez executar (em junho de 1898) e imprimir, em versão a três
vozes (SAT) com acompanhamento de órgão (Casa Bevilacqua, Rio de Janeiro, 1898).
Deve-se acreditar em missa de capella, ou seja, com acompanhamento de órgão, na
terminologia adotada pelo compositor. A ambiguidade quanto ao acompanhamento
resulta de declarações conflitantes: Alberto Nepomuceno retere-se à "orquestração
original" que pudera ler nos "autógrafos" (?). em desacordo com a versão por ele
publicada da Casa Bevilacqua, ou aceitar outra informação, do mesmo Jornal do
Commercio, na palavra de Taunay: "Que deliciosa instrumentação de Alberto
Nepomuceno! Quanta discrição para fazer realçar só e só a maravilhosa pérola
mauriciana!" (27 jun. 1898). Será esta a versão da missa de José Maurício, que
corresponde à cópia existente na Escola de Música.
223
Cleofe Person de Mattos
66)
A Zemira, bem como a Sinfonia da tempestade, envolvia-se na mesma temática que
proliferava antes de Beethoven compor a Pastoral (1807-1808). Na partitura
levantada por Miguéz vem transcrito, em nota hoje bastante apagada, o titulo original lançado nas partes antigas: Overtura ou Introdução que expressa
relâmpagos
e trovoadas com violinos, viola, violoncello, trompas, trombe iunghe, flautas,
fagottes e basso. Informação, tanto quanto a busca por reviver o som original, que
animou uma editora americana na elaboração de uma partitura com a instrumentação
citada acima e publicada em: The symphony 1720-1840. A comprehensive
coliection of full scores in sixty volumes. New York & London, Garland Publishing, Barry
S. Brook Editor, 1984, v.8.
A Sinfonia da tempestade tem cópia incompleta em particella — sete instrumentos
— levantada por Alberto Nepomuceno. Foi ouvida no Teatro São Pedro de Alcântara
em 1851, sob a direção de Dionísio Veiga.
67)
Pode-se questionar a posição desse moteto na cerimónia religiosa e o tipo de solista
a que se destinaria. Uma parte do solo — cópia de Batista Lisboa — classifica-o
como "Solo ao Pregador", mas não afasta a curiosidade em torno do solista. Sem
dúvida, um tiple bem dotado e bem treinado corresponderia à tradição. Afastada,
porém, a idéia de execução na Sé, a viabilidade de ter sido cantada por solista mulher
abre caminho para a cantora brasileira, a Lapinha. A opção recai na cópia de Batista
Lisboa, da Ordem Terceira do Carmo, que solenizava em dois dias consecutivos a
festa de Santa Teresa: o dia da cerimónia administrativa e o da posse da irmã priora
e da nova mesa diretora.
Chamava-se a cantora Joaquina Maria da Conceição da Lapa. Dela, informa Ernesto
Vieira: "Cantora brasileira, de apelido Lapinha." Já afamada no Rio de Janeiro,
apresentou-se em Portugal, na cidade do Porto onde deu "Grande concerto de música
vocal e instrumental" em 27 de dezembro de 1794. A Gazeta de Lisboa noticia que,
face ao sucesso alcançado, apresentou-se uma segunda vez, a 3 de janeiro de 1795.
Sobre outro concerto, no Teatro São Carlos de Lisboa, escreve o mesmo informante:
"A harmoniosa execução do seu canto excedeu a expectação de todos .... a admiração
que causou a firmeza e sonora flexibilidade de sua voz, reconhecida uma das mais
belas e mais próprias para o Teatro." Escragnolle Doria (Revista da Semana, 16 out.
1943) informa sobre a Lapinha: "Não só possuía voz extensa como da mesma fazia o
que queria, em agilidade." Qualidades que justificam fosse escolhida mais tarde como
solista em duas obras do padre José Maurício a ela destinadas, em 1809: O Triunfo
da América e Ulisséa, drama eroico.
Dois são os motetos a solo de José Maurício. O de 1800 (7e Christe soium novimus)
e Creatoralme siderumsem data, com texto para o Advento. Ambos fazem jus a um
espaço na liturgia, antes do sermão, no momento de meditação que precede a palavra
do orador. O estreito parentesco temático entre as duas obras deixa entrever o apego
do compositor a motivos utilizados em tempos passados, submetendo-os a um
espírito de renovação artística, que o tratamento orquestral, mas, sobretudo, a
escritura da parte solística evidencia que o intérprete a que se destinava o segundo
moteto, bem mais tardio, tinha possibilidades técnicas superiores ao que fizera ouvir
o moteto de 1800.
68)
224
Levanta-se aí uma dúvida, tal seja avaliar a participação de José Maurício na música
da Irmandade antes de ser por ela o responsável, em 1799. O cónego Lopes Ferreira,
bastante idoso, não deixaria de lançar mão da força de criação latente no jovem
sacerdote filiado à Irmandade, compositor que com ele convivia nos trabalhos da
Sé, compunha para a Sé, ensinava no curso de música da rua das Marrecas em função
da Sé. Pode-se depreender — sem confirmação — que na Irmandade, como na Sé, o
José Maurício Nunes Garcia biografia
padre José Maurício emprestasse seu talento e sua juventude nas festividades
organizadas pelo velho mestre-de-capela. A alusão à excelência da música nas festas
dos últimos anos de vida do cónego Lopes Ferreira não esclarece muita coisa.
Bastante discutível fosse da autoria de um padre-mestre que não deixou uma página
conhecida, até agora, em termos de criação.
69)
As músicas para as cerimónias rotineiras — novenas, missas Te Deum — eram
incumbência de organistas e compositores vinculados à Ordem e tinham os nomes
citados nos Livros de Receita e Despesa: frei João de Santa Bárbara, frei José Xavier
e frei Manuel de Barcelos. Os pagamentos eram registrados em termos pouco
precisos: "pela música da festa", ou simplesmente "da música". A ausência desses
nomes nos livros da Ordem a partir de 1798 levantou a suspeita — logo confirmada
— de que, nesses casos, a autoria da música teria passado para outro compositor. A
"música" — subentenda-se composição — passou a ser incluída entre as demais
despesas e pagas diretamente ao irmão andador de Ordem. (Lourenço Batista Lisboa
até 1800 e José Batista Lisboa, seu filho, após essa data).
70)
Os manuscritos que comprovam essa prática encontram-se hoje na Escola de Música,
provenientes que são da coleção de Bento das Mercês, que absorveu, após o
falecimento de Batista Lisboa, a mauriciana que pertencera a este. Nela, abrigam-se
hoje nada menos do que seis partituras autógrafas: o Moteto, de 1800, as Matinas
da Assunção, de 1813, os Salmos, do mesmo ano, a Novena de São Pedro, a Missa
de Nossa Senhora do Carmo (1818), a Missa de Nossa Senhora da Conceição, Oficio
e Missa de Requiem, de 1816. Entre as obras únicas, vale citar a antífona In honorem,
de 1807, e a Novena de Santa Teresa.
A transferência dos manuscritos do arquivo Batista Lisboa para a coleção de Bento
das Mercês está assinalada na Escola de Música. Evidencia-se na numeração que o
visconde de Taunay atribuiu a cada manuscrito, e pelo preço por que foram
comprados, no fim do século, pelo governo para doá-los à Escola de Música.
71)
Dentre as obras correspondentes às datas citadas, apenas a de 1798 (Novena de
Santa Teresa) não acusa as três etapas dessa engrenagem por faltar no manuscrito
(E.M., reg. 4142-3098) a página-título, com a data e a autoria.
O livro 63 da Ordem Terceira traz o elemento de comprovação: levantado por copista
habitual do compositor, está assinalado no inventário de Batista Lisboa sem data e
sem nome de autor, tal como se encontra na Escola de Música. Com essas
características passou pelo arquivo de Bento das Mercês, de onde seguiu a trajetória
normal.
A esses dados é possível acrescentar outros não menos relevantes porque dizem
respeito à própria obra: o estilo — orquestração, temática, movimentação melódica
— o âmbito em que se movem as vozes, dados que não só confirmam a autoria do
padre José Maurício como se pode atribuir o ano de 1798.
72)
Os livros da Ordem assinalam que Batista Lisboa recebeu em 1807 34$400 "pela
música" e 12$800 pela "missa cantada" na festa de Nossa Senhora do Carmo. O
manuscrito da antífona dessa festa (hoje na Escola de Música) registra em 1807 a
autoria, e traz por extenso o nome de José Batista Lisboa. A antífona será essa, mas
a "missa cantada" não foi localizada.
73)
Bento Fernandes das Mercês (Minas Gerais, 1805 — Rio de Janeiro, 1887) ocupa
posição única na sobrevivência da obra do padre José Maurício Nunes Garcia. Pessoa
modesta, de vida profissionalmente rica — copista, arquivista da Capela Imperial,
225
Cleofe Person de Mattos
professor de música, regente (Teatro São Pedro), e diretor de música de grupos de
igreja, diretor de um liceu musical que funcionou na década de 1850 na praça da
Constituição, e por fim mestre-de-capela honorário da Capela Imperial — deve-seIhe a determinação de reunir a mauriciana que até hoje sobrevive, fazendo jus a um
voto de agradecimento pela preservação da obra do mestre-de-capela da Sé. Nisto
favoreceu-o, ao longo dos anos, as múltiplas funções que exerceu na Capela Imperial, de 1842 ao fim de sua vida, em decorrência das quais Bento das Mercês teve
oportunidade de ler, ouvir e copiar muitas composições do padre-mestre. Autógrafos
enriqueciam sua coleção, além de cópias suas, e manuscritos de coleções particulares
pertencentes a músicos que desapareceram antes dele, Bento, e que ao longo de sua
vida refluíram para o seu acervo. Entre eles, velhos amigos, alunos, colecionadores
e donos de manuscritos de época recuada: Luiz de Souza Rangel, dr. Victorio Maria
Geraldo, José de Faria Barros — este diretor de música em igrejas e conventos,
regente da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Candelária — Francisco Antônio
da Costa, mas, sobretudo, a coleção de Batista Lisboa. Teve o mesmo destino a
coleção reunida e copiada por Francisco da Luz Pinto (17??-1865), compositor, aluno
de José Maurício, que orquestrou a Missa breve (Dó M) (CT 114) e a Missa em Mi b
M (CT 115). Também foram localizados na coleção de Bento das Mercês manuscritos
copiados por amigos do padre: Firmino Roiz da Silva (músico da Capela Real e mais
tarde da Capela Imperial) e João dos Reis Pereira. A posição de arquivista de Bento
das Mercês proporcionou-lhe facilidades para levar para casa, a fim de copiá-los, os
manuscritos da Capela. O que fez abundantemente. Prolongaram-se os manuscritos
na casa de Bento das Mercês, onde o colheu a morte, de pneumonia dupla, aos 82
anos de idade. É indispensável citar, entre os que concorreram para ampliar o acervo
de Bento das Mercês, o nome de Francisco Manuel da Silva, que além das cópias, fez
reorquestrações e adaptações e redução de vozes. Trabalho do qual Bento das Mercês
participou como involuntário cúmplice, copiando inclusive versões desfiguradas (CT
191). A soma de todas essas contribuições faz da coleção que leva o nome de Bento
das Mercês (citada no processo de aquisição como "coleção Gabriela Alves de Souza",
sua afilhada e herdeira), o maior patrimônio particular de obras do padre José
Maurício, com cópias únicas e valiosas. Título transferido à biblioteca da Escola de
Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro — então chamada Instituto Nacional
de Música — para onde a encaminhou o governo federal ao adquiri-la, em 1898. O
visconde de Taunay é a grande figura agindo nessa aquisição com o auxílio do
deputado Pandiá Calógeras, autor do projeto, evitando a dispersão, quiçá
desaparecimento da mais rica parcela de obras do compositor brasileiro. Não é exata
a avaliação de Taunay em 112 unidades feita às obras constantes da coleção. Cópias
em duplicata, ou avaliação em separado de partituras e partes avulsas da mesma
obra reduzem esse número para 92 títulos, aproximadamente.
A coleção foi recebida no Instituto Nacional de Música por dois grandes músicos —
Alberto Nepomuceno e Leopoldo Miguez — que lhe deram atenção, recopiando
incansavelmente muitas obras, especialmente Miguez. Parte do material antigo
desapareceu, como as partes originais da Zemira. Um fichário levantado após a
entrada na biblioteca permite constatar esse desaparecimento. A catalogação dos
manuscritos, iniciada em 1916, confirma o fato, no livro I de Registro.
74)
226
Severiana Rosa de Castro, "parda livre e desembaraçada", informa o Dr. Nunes Garcia.
Nasceu em 1789 e foi batizada na igreja de Santa Rita. Teria 16 anos quando lhe
nasceu o primeiro filho, em 1806. Essa criança — José — não deve ter sobrevivido
muito tempo, o que explicaria o mesmo nome aplicado ao Dr. Nunes Garcia, nascido
em 1808. Casada anos mais tarde com Antônio Rodrigues Martins, comerciante, teve
outro filho ilustre, o médico Severiano Rodrigues Martins (Rio de Janeiro, 1820 Paris, 1897). Severiana morreu em 1878 e foi sepultada no cemitério da Ordem
Terceira dos Mínimos de São Francisco de Paula.
José Maurício Nunes Garcia biografia
75)
0 que não parece inverossímel. Não só relativamente ao José, de 1806 obviamente
excluído pelo Dr. Nunes Garcia entre os irmãos "vivos" de pai e de mãe, mas a uma
menina a que-deu o nome de Clara, que em 1800 o padre José Maurício levara à
igreja de São José para batizar. Foi ele o padrinho dessa menina filha de pais
"incógnitos". Outro parentesco discutível aparece no requerimento feito pelo padre,
em janeiro de 1825, solicitando à Santa Casa os bens do falecido cirurgião Constâncio
José Nunes Garcia. Na petição, o padre apresenta-se como "primo e padrinho de
batismo", alegando havê-lo vestido e dele cuidado desde a idade de dois anos,
fazendo-o estudar em Portugal. (Ubaldo dos Santos: O passado heróico da Casa
dos Expostos; 1959, p.220).
76)
O nome dos padrinhos, quase todos músicos, desperta a atenção: José Baptista
Lisboa, diretor de música da Ordem do Carmo; Francisco Joaquim da Silva, violinista
da Capela Real; José do Carmo Vedras, músico da Capela Real; Manuel Rodrigues
Silva, diretor de música em 1796, músico da Capela Real a partir de 1809.
77)
Este filho é o futuro Dr. José Maurício Nunes Garcia Júnior (10 dez. 1808 — 18 out.
1884). Desde os seis meses viveu com o pai e a avó. Dotado para a música, que
aprendeu com o pai, deixou composições, algumas reunidas em álbum com valsas,
romanças e outras peças de pequeno porte — as Mauricinas — assim como música
religiosa — Missa e Credo — hoje parcialmente conservada no Museu da
Inconfidência (Casa do Pilar), em Ouro Preto. Atuou como organista nas igrejas da
Lampadosa, Sacramento, São Francisco de Paula. Também dotado para a pintura,
foi aluno de Debret, o que lhe permitiu deixar para a posteridade um retrato a óleo
do pai, precedido de várias tentativas, e uma litografia. Também deixou poesias.
O verdadeiro campo de atividade do filho de José Maurício foi, porém, a medicina.
Em 1824 matriculou-se na Academia Médico-Cirúrgica; inscreveu-se nos cursos da
Escola Militar entre 1826-1828. Em 1829 retornou à Academia Médico-Cirúrgica,
pela qual se formou, e definiu sua vida profissional como obstetra de renome. Foi
professor na Academia de Medicina — onde se encontra o seu retrato a óleo —
deixando vários artigos em sua especialidade, publicados na Revista de Medicina.
(Sacramento Blake dá relação extensa; op. cit.. v.5, p.93). O dr. Nunes Garcia
beneficiou-se com a renúncia do pai ao Hábito de Cristo. O reconhecimento de seu
trabalho no combate à epidemia de febre amarela no Rio de Janeiro valeu-lhe, mais
tarde, a condecoração da Ordem da Rosa. Aspirante a membro do Instituto Histórico
e Geográfico, doou, em 1853, os autógrafos da Missa de Santa Cecília, última
composição do padre-mestre. Em 1860 completou, para o mesmo Instituto, os
Apontamentos biográficos citados na nota 1, fonte de muitas informações contidas
neste trabalho, apesar de dados discordantes colhidos em outras fontes de registro:
nome e local de nascimento do avô, nome do padrinho de batismo e do procurador
de Vitória Maria no ato do seu batismo. Homem de temperamento difícil, recalcado
por preconceitos — era mais escuro do que o pai, visto que a contribuição branca
ficara mais distante — o dr. Nunes Garcia casou-se em 1833 com D. Ana Francisca
da Silva, com quem teve dois filhos: José Maurício Nunes Garcia, nascido em 1- de
junho, batizado em 9 do mesmo mês, que faleceu em 26 de dezembro de 1864 e foi
sepultado no Caju; e Apolinário, nascido em 24 de maio. batizado em 1 de junho de
1847.
O casamento com Ana Francisca deslez-se alguns anos depois; divorciou-se (sic)
acusando sua mulher de querer envenená-lo com a ajuda de dois escravos. O dr.
Nunes Garcia morreu na rua Luiz de Camões no dia 18 de outubro de 1884. Único
filho legitimado peio pai, os assuntos relacionados a esse fato serão tratados no
momento desses acontecimentos.
227
Cleofe Person de Mattos
78)
Josefina viveu até 1873, falecendo aos 83 anos, solteira, à rua do Catete número 17.
Tinha 2 mil réis na Caixa Económica, algumas miudezas: móveis, brincos. Cuidou do
seu enterramento o irmão Antônio José, então com 80 angs, morador à rua Frei
Caneca, que se declara solteiro, quando, na verdade, fora casado duas vezes.
79)
Antônio José (no registro: Antônio) assinava o sobrenome do pai, embora não tivesse
alcançado o reconhecimento paterno. Teria induzido a irmã Josefina a fazer o mesmo,
é o que se conclui no requerimento para os funerais da irmã, ao informar o nome
desta: "Josefina Nunes Garcia", hoje "Josefina Rosa de Castro". As atividades de
Antônio José eram diversificadas: foi ourives e tipógrafo, mas predominavam as
letras. Foi escritor — medíocre — deixando impressas novelas e poesias. Fundou e
dirigiu vários periódicos de vida efémera: O Brasileiro (1857/58); >4 Estrela do Brasil
do qual era proprietário e principal redator (1861/1865); O Espelho (1870), folha
periódica, política e de teatro; O Censor Brasileiro (1879), revista. Inocêncio cita
alguns hinos, entre os quais Hino consagrado aos liberais para ser cantado com a
música do Hino da Independência. 0 Arquivo pitoresco cita uma novela: A grinalda.
Antônio José casou-se em 9 de abril na igreja do Sacramento com sua prima Cantilde
Alves de Araújo, filha de Felizarda Moreira de Castro, irmã de Severiana (L- 6, fls.
23). Enviuvando, tornou a casar em 1841 (4 de julho) com Francisca Rosa de Jesus,
na igreja de SanfAna (Livro I, fl.368v).
80)
A sessão do Senado para cuidar dos preparativos com a chegada realizou-se em 16
de janeiro (Biblioteca Nacional, Seção de Manuscritos, II, 35, 4, 1) nada informa
sobre música: repertório ou regente. Prevê: "A Igreja do Carmo deverá achar-se armada e tudo disposto para um Te Deum no dia da chegada de SAR, convidando-se
para isso a música precisa para que, no caso que SAR queira fazer oração depois do
desembarque, rompa a orchestra no ato de sua entrada na dita Igreja." Decide ainda
o Senado: "... no fim de 8 dias se ha de celebrar um Te Deum na Cathedral para o
qual serão convidados pelo Senado todas as corporações e pessoas distintas desta
cidade". E acrescenta: "Finalmente deve cantar um Te Deum pela feliz chegada de
SAR em dia da próxima semana em que o Senado deve assistir às Preces que se
devem fazer na Sé para o que se deve escrever ao Cabido para licença e assistência
delle mesmo". Algumas observações à margem deste documento deixam entrever
certo distanciamento entre o Senado e a Sé. Nenhuma alusão à circunstância de que
a "música" seria a da Sé como de costume nas contratações com o Senado, nem que
a dirigiria o mestre-de-capela da mesma Catedral e Sé.
81)
Biblioteca Nacional (Seção de Obras Raras): Carta ao irmão de Lisboa; Lisboa, 1810.
82)
Padre Perereca: Luís Gonçalves dos Santos. In: Memórias para servir à história do
reino do Brasil. Lisboa, Imprensa Régia, 1825. Republicada no Rio de Janeiro, Ed.
Zélio Valverde, 1934, p.111-5. Ao livro do padre Perereca devem-se muitas das
informações contidas neste trabalho.
83)
0 curto prazo entre o dia da notícia (19 de janeiro) e a previsão da chegada do príncipe
não favorece a idéia de haver composição nova na solenidade da Catedral e Sé, dada
a insuficiência de tempo para compô-la e apresentá-la condignamente. Seja lembrado,
por isso, que uma das duas obras ouvidas — a antífona Subtuum praesidium (CT
2), citada por Perereca — é o título de uma antífona composta em 1795 por José
Maurício. Pode ter sido a obra executada no ato.
228
José Maurício Nunes Garcia biografia
84)
Biblioteca Nacional, Seção de Manuscritos, II, 35, 4,1.
85)
Esta é a apreciação do padre Perereca (p.223). Entretanto, se se levar em conta as
medidas posteriores do príncipe regente, deve-se concluir que a música ouvida
nessas cerimónias não teriam sido por ele julgadas como grandes realizações. Afinal,
a música praticada na colõnia, apesar da grande figura que a dirigia, não poderia
competir com a Capela Real de Lisboa. D. João decidirá a vinda de cantores e
instrumentistas da Capela de Lisboa; pode ter ficado surpreendido ao encontrar algo
além do que esperava. Sua admiração crescerá à medida que os meses se passam,
ao verificar o retorno oferecido por esse mesmo padre-mestre que se transforma ao
tomar conhecimento de partituras novas e de novo material humano, musicalmente
familiarizado com esse repertório. Este, o músico que o príncipe regente colocará à
frente dos destinos musicais de sua Real Capela a partir de novembro do mesmo
ano.
86)
Ao tesoureiro da Real Capela de Lisboa cabe responder: "Pe. José Eloi Vieira em
execução das ordens de V» Real Alteza offerece a relação junta das despesas que
poderá fazer a nova Capella q' diz respeito aos Ministros da Sta. Igreja Patriarchal
como das mais que se houverem de ad'metir; e finalmente em q' consiste a piquena
modificação destas, na União com a Sé. Também induzo entrega o parecer de Certa
pessoa sobre a erecção, e união da Sé à Capella Real, q" Va A.R. lhe fez a honra de
convidar."
A relação das despesas que acompanha o documento tem em vista, sobretudo, os
ordenados em Portugal, com o título: "Relação dos ordenados que levavam em folha
os Ministros da Patriarchal a quem Sua Alteza Real concedeu a honra de o
acompanhar, como igualmente dos ordenados dos mais Ministros q' de novo se hão
de ademitir p' os serviços da Capela Real; e finalmente das despesas de sua Fabrica
..." Prossegue o tesoureiro enumerando as despesas que "poderão caber àqueles
que de novo se houverem de ademitir" — alusão óbvia aos Ministros e Eclesiásticos
da Sé do Rio de Janeiro — o próprio padre Elói esclarece: "devem ser do país" e que
deveriam ser "sugeitos" com meios para cuidar de sua subsistência para que seus
ordenados se poderem modificar do modo seguinte". A "modificação" é o
desassombrado desnível de ordenado para os que fossem "do país", relativamente
aos ordenados dos músicos portugueses.
Não fica aí a astúcia do tesoureiro de Lisboa, e informa que falta no cálculo: outro
organista, a "Múzica" e a "esmola" dos sermões "q'nesta terra excedem a 12$800".
Observa, porém, que se unindo a Capela Real à Sé "poder-se-á poupar alguma cousa".
Entre eles, os "cantochonistas" e um organista.
Causa espanto o argumento de economia aplicado ao organista, conforme sugere o
tesoureiro, equiparando a despesa de um instrumentista da categoria do padre José
Maurício com a de um "seminarista de Vila Viçosa" — José do Rosário, o seu nome
— vindo para o Brasil com D. João, com 150$000 de ordenado "enquanto não se
promptifica no instrumento". José do Rosário não se "promptificará" até 1821,
quando pede aumento de ordenado e Marcos Portugal o rejeita. José Maurício ficará
exercendo esse posto sem receber ordenado, até 1811.
87)
Padre Perereca, op. cit., p.240-1.
A observação conduz a uma especulação sobre o repertório então ouvido, e faz
lembrar a Relação de Obras elaborada em 1811 pelo compositor. Não muito
abundante, na bagagem mauriciana, obras a cappella — tradição portuguesa para
esse período —, o que torna provável fosse cantado, na ocasião, repertório já
conhecido pelo conjunto — embora datado do século dezoito — e regido pelo mestrede-capela da Sé, seu autor.
229
Cleofe Person de Mattos
88)
Padre Francisco de Paula Pereira era músico de categoria. Confirmando o que dele
escreve o tesoureiro da Capela de Lisboa, "Padre Paula" foi solista de várias obras
de José Maurício, na Capela Real. Homem de pouca saúde (tinha preocupações
pulmonares, o que o levou a desejar transferir-se para o Maranhão), morreu no Rio
de Janeiro em 1833.
89)
Era temor dos prelados portugueses ver ocupados todos os postos do Cabido da Sé
do Rio de Janeiro, o que daria espaço para mais dois cónegos e cinco ou seis
beneficiados vindos com D. João. No evidente intuito de acalmar os receios e
desagrados dos eclesiásticos — do Rio de Janeiro e de Lisboa —, o bispo acenou
com o esplendor que se pretendia dar à Capela Real. Razão por que Sua Alteza Real
poderá acrescentar "novos capelães e cantores aos que já existem", assim como
fazer entrar novos cónegos "e até monsenhores e prelados que vierão da Patriarcal
para comporem uma espécie de hierarchia, muito honrada e muito illustre".
Com vistas ao Cabido do Rio de Janeiro, faz ver o inteligente Bispo: "O Cabido não
pode ter a mínima dúvida em ceder a precedência às novas Dignidades porque ao
numero destas pode ser elevada alguma das suas antigas Dignidades." (!) A esse
apelo tristemente subornativo, acrescentou o bispo: "e por outra parte fica mui bem
compensado com a honra de Capela Real, ou com hum qualquer piqueno aumento
de côngrua, ou com o Habito de Cristo, ou com qualquer outro despacho que Sua
Alteza Real se dignar fazer a cada hum dos Capitulares." (!!!) São esses os
argumentos que tinham em vista conciliar em torno da pessoa do bispo, tornando-o
capelão-mor, os que se opunham à fusão da Catedral à Real Capela. Como se vê, em
quadro assim constituído, em ambiente de exclusiva defesa dos interesses
portugueses, o espaço reservado ao padre José Mauricio era muito pequeno.
Transformado em máquina de compor para as cerimónias da nova capela, não é difícil
avaliar as condições em que decorrem o seu trabalho. (Arquivo Nacional, Seção de
Documentação Histórica, cx.12, pac.12, doe.4).
90)
Arquivo Nacional, cx.12, pac.6, doe.4. E documento 980.
91)
Foi composta pelo padre José Maurício a música dessas vésperas solenes do Corpo
de Deus. Motivo de muita tensão entre o Senado e o compositor, nunca foi cumprido
o pagamento da obra nem as despesas com músicos extraordinários que o mestrede-capela obrigava-se, de praxe, a pagar por antecipação.
92)
A procissão representou no cerimonial português a primeira função da corte na
recém-criada sede da Coroa. Foi apreciada pelo padre Perereca como
"verdadeiramente real", se é que assim se pode qualificar a surrealista caminhada
pelas ruas da colónia das pessoas ostentando condecorações, as damas com todos
os ademanes e "funcionários" em "primeiro uniforme". 0 padre Perereca e os Livros
do Arquivo Nacional (UJ'197) abrem-se à curiosidade dos interessados em minúcias
sobre essa função.
93)
A transcrição do documento tem por base o original lançado no Livro Primeiro da
Coleção de Leis e Alvarás da Chancelaria-mor. (Arquivo Nacional, códice 48, livro 1,
páginas 20 e seguintes).
"Eu e o Príncipe Regente Faço saber aos que este Alvará com força de Lei virem,
que sendo Me prezente a situação precaria e incomoda em que se achão o Cabido
e mais Ministros da Cathedral desta minha Cidade e Corte do Rio de Janeiro, em
huma igreja alheia e pouco decente para os Officios Divinos; e Desejando
230
José Maurício Nunes Garcia biografia
estabelecer-lhe
hum local em que com o devido decoro possam ezercer o
Ministério de suas Funções Sagradas, não só por seguir o exemplo de Meus
Augustos Predecessores mas principalmente por serem os Senhores Reis de Portugal os primeiros Fundadores e perpetuos Padroeiros de todas as Igrejas do
Estado do Brazil concorrendo por essa razão com tudo o que era necessário para
a conservação e fabrica das mesmas igrejas e considerando por huma parte as
necessidades actuais e urgentes do Estado a que cumpre acudir sem demora e
que me não permittem continuaras obras na nova Cathedral a que deu principio
Meu Augusto Avô, o Senhor Rei D. João V, de gloriosa Memoria; e por outro lado
não querendo perder nunca o antiquíssimo costume de manter junto ao Meu Real
Palacio huma Capella Real, não só para maior comodidade, e edificação da Minha
Real Familia, mas sobretudo para maior decencia e esplendor do Culto Divino, e
Gloria de Deos, em cuja Omnipotente Providencia confio, que abençoará os Meus
cuidados, e os disveios com que procuro melhorar a sorte de Meus vassalos na
geral calamidade da Europa: Tendo ouvido sobre esta maleria pessoas mui doutas,
e zelosas do serviço de Deos e Meu, e juntamente com o parecer do Bispo
Diocezano, na parte que pode tocar á sua Jurisdição Espiritual, e Ordinária; Fui
Servido Adoptar o plano que nas presentes circunstancias mais
conviessem,
Ordenando a este respeito o seguinte:
1* Que o Cabido da Catedral seja logo com a possível brevidade transferido com
todas as Pessoas, Cantores, e Ministros de que se compoem no estado actual
em que se acha na Igreja da Confraria do Rozario, para a Igreja que foi dos
Religiosos do Carmo contigua ao Real Palacio da Minha Rezidencia, para onde
se passarão igualmente todos os Vasos sagrados, Paramentos, Alfaias e todos
os moveis, que pertencerem ao mesmo Cabido, e possão de alguma sorte servir
no exercício de suas funções.
2' Que todos os sobreditos Membros do Cabido sejão desde logo e para o futuro
reputados por Ministros da Minha Capella Real, e como tais gozarão de todos os
Privilégios, Immunidades, e Izenções, que por costumes antiquíssimos, e Bulias
Pontificais
tem sido concedidos
á Capella Real dos Senhores Reis Meos
Predecessores.
3' Que em consequência
dos mesmos Privilégios, não so os Conegos de que
prezentemente consta o Corpo Capitular, mas todos os mais, que Eu for Servido
Acrescentar para o futuro, poderão uzar de alguma differença no feitio dos
Roquetes, e cores das Murças, segundo o Acordo que Eu For Servido Fazer com o
Meu Capellão Mor, em quem concorre igualmente a Juridisção Ordinaria e
Delegada desta Diocese.
4' Que além da Corporação e da Jerarchia dos Conegos Graduados a que se poderá
dar o nome e o tratamento de Monsenhores, que vierão da Patriarchal de Lisboa,
e outros que Eu For Servido acrescentar para o futuro, occupando pela sua
antiguidade a precedencia no Coro, e no Altar, dentro e fora da Igreja e uzando
dos mesmos Hábitos e Insígnias, sem exceptuar a Mitra, que estou na posse de
permitir em Lisboa aos Monsenhores não mitrados.
5' Que os Ministros das duas Jerarchias entrarão nas funções do Culto Divino, e
no Serviço da Capella, constituindo hum só corpo na união de hum só Prelado,
porém sem sua graduação, e do modo mais aproximado que for possível, do estillo
da Santa Igreja Patriarchal de Lisboa, sem com tudo se derrogarem os Estatutos
da Cathedral nas partes em que forem compatíveis com o dito estillo em quanto
se não formão novos Estatutos inteiramente conformes, e adaptados ao novo
arranjamento da Cappella."
Continua o alvará com mais quatro itens, menos importantes para o objetivo que se
persegue: oferecer a imagem da rígida hierarquia que presidiu à formação da Capela
Real. 0 que permite compreender a posição de José Maurício — presbítero secular,
brasileiro e mestiço — sem voz diante dessas dignidades tão chegadas ao poder —
231
Cleofe Person de Mattos
ao bispo ou ao príncipe regente — por caminhos apontados no documento assinado
pelo bispo, ou nos trechos citados no alvará.
94)
Arquivo Nacional, decretos sobre Fazenda, livro 1,1808-1820, e ainda: SPE IJJ'307,
fls.38.
95)
O problema do pagamento das composições feitas por ordem de D. João é levantado
em 1813 por Fortunato Mazziotti, alegando ser praxe em Portugal. Mas, se os mestresde-capela e compositores da Real Capela — Marcos Portugal, especialmente — eram
recompensados materialmente pelas composições feitas, no caso de José Maurício
tal privilégio não ocorreu. Ele era remunerado pelas obras que compunha "sempre a
pedido" para outras entidades, o que não acontecia com as composições destinadas
à Real Capela. O depoimento de José Maurício no já citado documento de 1822 é
mais claro: o compositor alega nunca ter sido pago "para os múltiplos serviços" que
fazia — compor, ensinar, ser organista — além de cumprir os encargos burocráticos
da Capela. Trabalho não só de composições destinadas à rotina da Capela, como
ainda deixava sem recompensa profissional a criação de obras de vulto: Missa de
São Pedro de Alcântara (1809), três missas "pelo aniversário da chegada de D.
João ao Rio de Janeiro", a Missa de Nossa Senhora da Conceição (1810) e muitas
outras partituras.
Por ironia, confronte-se o não pagamento a José Maurício com a ordem enviada, em
1813, ao tesoureiro da Casa Real, para que "meta em folha a Januária Evarista Portugal — mulher de Simão Portugal, irmão de Marcos Portugal — com doze mil e
quinhentos reis por mez, de que o Príncipe Regente lhe faz merce" com sobrevivência
para a filha, Maria Teodora, "em remuneração aos serviços que até hoje tem feito
seu marido como compositor de musica para a Real Capela". Na mesma ordem vem
recomendada "clareza no Livro de Assentamento da Casa Real, para que em todo
tempo conste de terem sido, com esta graça, remunerados os serviços do mencionado
Simão Portugal". 23 de junho de 1813. (Arquivo Nacional, IJJ'43, n.305, p. 162)
96)
O não haver sinal de arquivo organizado, com obras para ele escritas e material
disponível com os nomes dos seus compositores teria comprovado a inatividade
criadora no Rio de Janeiro. Nomes existem, mas a documentação é inexistente. Essa,
a razão de ser José Maurício apreciado como a figura pioneira na criação musical da
cidade, com as suas primeiras obras por sorte ainda sobreviventes. Desde 1783,
com o opus 1 — a Tota puichra — e, de 1793 em diante uma série de graduais,
entre outras obras. Ao deixar de compor para a Capela Real, em 1811, José Maurício
relaciona as obras por ele compostas. Mais de duzentas unidades. Chamava-se
Relação de Obras, mas era um arquivo!
Daí vem a pergunta: o que cantariam os meninos agregados à Sé, uma vez que não
havia arquivo nem catálogo? Apenas o gregoriano? Ignora-se. 0 material em uso na
Catedral tomou forma mais completa com a "Relação de obras compostas para a
Capela Real até 6 de setembro de 1808", conquanto não fosse este seu objetivo, mas
uma relação não cronológica, sem títulos exatos. 0 primeiro catálogo fazendo jus ao
título, correspondendo a um arquivo organizado chegou muito mais tarde, em 1887.
Organizou-o o arquivista José Joaquim Maciel, que arrolou 241 obras. Diga-se:
arquivo com obras de José Maurício.
97)
232
Eram festividades de importância variável, divididas em quatro ordens e abrangiam
não só as festas regulares da Igreja (Natal, Epifania, Páscoa, Quinta-feira Santa, Sextafeira Santa, Corpo de Deus), como santos mais de perto ligados à coroa: São
Sebastião, São Pedro, São Pedro de Alcântara, Santa Isabel Rainha, Nossa Senhora
do Carmo, Assunção, Nossa Senhora da Conceição, São Francisco de Borja. E ainda
José Maurício Nunes Garcia biografia
os dias dedicados a festividades especiais, como o dia "da Purificação de Nossa
Senhora", ou "da Exaltação da Santa Cruz". A comemoração da "oitava" (8- dia)
obrigava os membros do Senado a participarem, incorporados à mesma festa. (A.N.,
SPE IJJ'370, fl.38v.).
98)
Os manuscritos das missas que Maciel registra em 1808 e 1809 — nem todas
localizadas — podem ter sobrevivido no arquivo do Cabido Metropolitano sem os
títulos originais, segundo cópias feitas no fim do século.
99)
A única cópia conhecida dessa obra foi levantada em 1892 por Miguel Pedro Vasco,
arquivista e copista da Catedral. E é citada por J.J. Maciel nos seguintes termos:
Missa a 4 vozes e organo, para o dia 19 de outubro, composta e offerecida a Sua
Alteza Sereníssima Príncipe Snr. D. Pedro de Alcantara. No anno 1808. É a obra
oferecida a D. Pedro quando fazia dez anos. Certamente encantado com a
musicalidade do príncipe.
100)
A música dessa cerimónia, promovida pelo Senado "pela restauração de Portugal",
foi dirigida pelo tenente Manuel Roiz da Silva, mais tarde admitido na Real Capela. 0
não caber a José Maurício a direção da festa e sim ao seu compadre faz crer estivesse
ele absorvido na composição das missas solenes dos dias 19, 20 e 21. Os problemas
em torno do pagamento do evento — ouviu-se, a pedido do Senado, a missa que "se
costumava cantar na festa de Santa Cecília, inda que importasse em quatro centos
mil reis" — prolongaram-se até 15 de março. Os desentendimentos estão expostos
nas petições (três) do tenente ao Senado, e ilustram procedimentos tristemente
rotineiros das autoridades, à época (AGERJ, L« 16-1-5, does. n.28 e 29).
A importância do ato pelo número de músicos participantes e outras minúcias da
época justificam a transcrição da conta anexada à primeira Petição:
46 músicos a 3S520
2 ditos a 65400
161 $920
125800
Aluguel da música
. 25000
Feito dos Antebancos
Aluguel dos Rabecões Grandes
Agência
35200
45000
125800
1965720
O pagamento foi, porém, reduzido para 1285000.
101)
Prática decorrente do velho preceito "muliertacet in Ecclesia", a castração dos jovens
(operação que os emasculava para conservar-lhes o timbre de vozes femininas) não
os impedia de ter volume sonoro das vozes de adultos. Donde o extremo valor dessas
vozes, requisitadas para cantar em igrejas e teatros, em substituição às vozes infantis
ou aos "falsetistas". Adaptaram-se sobretudo a esse recurso os italianos, que os
exportava para os países europeus onde a prática não era adotada. Alguns castrati
foram famosos, como Farinelli, para quem Mozart escreveu árias, ou ainda
Crescentini. Portugal adotou-os desde cedo, daí o apego de D. João a esses timbres
que atuavam na Capela Real de Lisboa ou no Teatro São Carlos.
102)
A "ração de criado particular", concedida em 17 de julho de 1808, fazia jus à retirada
de mantimentos na "Uxaria"; foi convertida em dinheiro (325000 por mês) por ser
difícil suportar a atitude de arrogância dos que aí serviam. 0 L-1- de Registro IJJ'155,
p.14 (Arquivo Nacional. Seção de Ministérios) especifica os alimentos concedidos:
233
Cleofe Person de Mattos
2 Arr' (Arratéis) de vaca
103)
1 dito de arroz
1 galinha
4 paens
1 Arr1 de Presunto
9 frutas
1 dito • toucinho
hortaliça.
Dois professores de música são nomeados, por ordem da coroa, para desenvolver
esse potencial: o major Quintiliano José de Moura e Inácio Pinheiro da Silva. Ambos
serviram nas "milícias''.
Inácio Pinheiro da Silva foi ajudante no Regimento de Guaratiba e em 30 de janeiro
de 1810 "agora encarregado de Mestre de Música de SAR na Fazenda Santa Cruz",
faz o mesmo pedido (Arquivo Nacional, cod.54, p.46v).
Atuantes na Fazenda, mais tarde também na Real Quinta da Boa Vista, a ação conjunta
dos dois professores facilitaria no futuro o caráter deambulatório do grupo musical
entre as duas capelas reais: a de Santo Inácio, em Santa Cruz, e a de São Cristóvão,
na Real Quinta da Boa Vista. 0 que faz indagar: seria apenas um ou seriam dois os
grupos de escravos-músicos, um em cada capela? A dúvida persiste, e a alusão mais
freqúente aos "músicos de Santa Cruz" pode não significar um único grupo musical
sediado na Real Fazenda.
104)
Não são coincidentes, nas portarias ou nos livros de registro e documentos em caixa
do Arquivo Nacional, as datas de admissão desses músicos. Para efeito do primeiro
vencimento levava-se em conta a data da partida de Lisboa ou o desligamento de
compromissos profissionais em Portugal, o que retroagia a data do exercício real na
Capela. Por outro lado, nem todas as portarias foram encontradas, nem os livros de
registros consultados revelaram os nomes de todos os que atuaram na Capela.
Deficiência que terá diminuído com os dados do Documento n> 53, de 1831, onde foi
feito o levantamento da vida funcional dos músicos: ano de admissão e benefícios
posteriores. Providência que facilitou a listagem cronológica bastante aproximativa
que virá a seguir, relação de músicos registrados entre 1809 e 1830.
1808 — nenhuma admissão registrada em portaria. Músicos oriundos da velha Sé
Catedral teriam participado, como Geraldo Inácio Pereira, Luiz Gabriel Ferreira Lemos,
sem portaria, da Capela Real juntamente com os meninos do Seminário São Joaquim
e os instrumentistas.
1809 — Lúcio António Fluminense. Alexandre José Leite, Feliciano Joaquim, Manoel
Roiz Manso, Manoel Roiz da Silva, José Ferreira, (padre) João Mendes Sabino, padre João Jacques (organista).
1810 — João dos Reis Pereira. José Maria da Silva Roiz, Francisco de Paula Pereira,
José Maria Dias, Carlos Mazziotti, Francisco da Cruz Soares, José Gory (ou Gorif),
Antônio Cicconi, João Avondano, Pedro Carlos Heredia, Manoel Joaquim Corrêa dos
Santos, Francisco Ansaldi.
1811 — Augusto Cesar d'Assis, Joaquim José Agostinho d'Almeida, José Caprânica,
Joaquim Felix Xavier 8axixa (organista). João Antônio Dias Ferreira, João da Lapa,
João Mazziotti, José Inocêncio de Castro, Bernardo Mendes Castodios, Antônio
Oliesai, Antônio Felizardo Porto, Antônio Feliciano do Porto.
1812 — Firmino Roiz da Silva, Antônio Pedro Gonçalves. Geraldo Inácio, Luiz Folia.
Jozé Joaquim da Silva, Eugênio José Farnesi, Policarpo José de Faria Beltrão, Simão
Portugal (organista), padre Gil Manoel de Souza Galhardo, João Manoel da Silva.
Pedro Teixeira de Seixas, Vicente de La Corte.
1813 — Antônio Joaquim Apolinário (mandado tirar de folha), Francisco da Luz Pinto.
1814 — Lúcio Inácio (demitido), Luiz Gabriel Ferreira Lemos, Carlos Mazziotti,
Antônio José de Araújo (afinador de cravos), Inácio Pinheiro da Silva (era professor
234
José Maurício Nunes Garcia biografia
na Fazenda Santa Cruz e na Quinta), Quintiliano José de Moura (professor na Fazenda
de Santa Cruz e na Quinta da Boa Vista).
1815 — Joaquim d'Almeida.
1816 — José Mosmann, Alexandre Baret, José Fernandes da Trindade, Marcelo Tani,
Pascoal Tani, Pedro Laforge (flauta), Leonardo da Motta.
1817 — José Fernandes, João Francisco Fasciotti, Elias Antônio da Silva, Vicente
Masoni.
1818 — Angelo Tinetti, Francisco Realle, José Inácio Machado (notícia de
falecimento), José Tibúrcio (nomeado cantor, mas já era da Capela).
1819 — Padre Eleutério José Ferrão (segundo regente).
1820 —João Liberali.
1821 — Bernardino Antônio de Barros (novamente incluído).
1824 — Padre João José de Faria, padre Pedro João da Rocha.
Estão incluídos nesta listagem os músicos diretamente encaminhados para a Real
Câmara, que faziam parte de outra "repartição". Tinham identidade própria, mas
funcionavam conjuntamente nas grandes solenidades. Em 1822, face às grandes
dificuldades financeiras, os músicos da Real Câmara passam a integrar a folha da
Capela Real.
105)
Visconde de Taunay, op. cit., p.102.
106)
O documento (não definitivo) encontra-se na Biblioteca Nacional, Seção de
Manuscritos, II, 34,17.
107)
Arquivo Nacional, L« de Registros e Avisos e Ofícios (IJJ1172, p.18-19) e cod. 980,
p. 235. Na resposta, o bispo alude ao "aviso" de D. João. Os estatutos foram
publicados em 1811 pela Imprensa Régia.
108)
Padre Perereca, op. cit., p.290.
109)
Excetuado o Te Deum de 1811 (autógrafo no Cabido Metropolitano do Rio de Janeiro)
nenhum outro manuscrito conhecido faz referência ao evento. Razão de aludir a duas
partes avulsas (pistom e trombone) conservadas no Museu da Inconfidência em Ouro
Preto (Casa do Pilar, arquivo Curt Lange), cópia incompleta de instrumentos
obviamente não originais, de uma missa em Mi bemol, compasso 12/8. As partes
não trazem título, somente autoria e no fim a informação: "Esta missa é de 1809."
Evidentemente, mesmo aceita como legítima a informação contida nas partes, pode
tratar-se de outra missa que não a que se destinou ao dia 7 de março de 1809, ano
em que se alinham outras missas de invocação conhecida, todas a quatro vozes com
acompanhamento de órgão. A dispersão da obra de José Maurício justifica o
detalhamento parcial do manuscrito, visando localizar outra cópia em condições de
ajudar a identificação.
110)
Ainda no contexto da Semana Santa de 1809 merece atenção um despacho do bispo
D. José Caetano sobre o assunto "Oratórios do Paço". Escreve o bispo, em seu "Livro
de Apontamentos", p. 55 (Cabido Metropolitano) em 16 de fevereiro, sob o título
acima citado:
"Pediu-se licença para se representar no Teatro Régio vários Oratórios, como a
Epiphania ou Tempo de Religião, Samsão e Dalila", etc.. Proferiu-se o seguinte
235
Cleofe Person de Mattos
despacho: "Pela Parte que nos pertence não devemos autorizar semelhante espetáculo
no sancto tempo da Quaresma, e de penitência, porque esperamos que nos sagrados
templos e nos exercícios e práticas da Igreja acharão os fiéis de mais segura
edificação." O Bispo condena ainda o hábito de "nichos" com sua Novena e Sermão
.... "Não podemos aprovar semelhantes devoções nos cantos das ruas quando se
pode louvar a Deus nas suas casas, com mais decência." (8 jan. 1809). O assunto
não teve continuidade, no momento, mas tomou outros aspectos anos mais tarde. A
estranheza do fato, de que não se localizou a origem, pode estar vinculada à chegada
dos cantores da Capela de Lisboa, familiarizados com o género.
111)
O comentário do padre Perereca sobre O triunfo da América no dia do casamento de
D. Maria Teresa sobre o espetáculo no Teatro Régio, à noite, é diverso (p. 324):
"Ao entrarem Suas Altezas com os Augustos desposados, rompeu aquela nobilissima
assembléia em repetidos vivas ao Pr. Rege. N.S., aos Serenissinos noivos e a toda a
real família. Depois disto os cómicos passaram a desempenhar um novo drama
intitulado "0 Triunfo da América", expressam, composto para se recitar nesta
faustissima noite".
112)
0 processo referente à concessão da Ordem de Cristo está recolhido ao Arquivo
Nacional, em folhas separadas e numeradas, em: SAP, Graças Honorificas (antigas
Caixas Verdes, número 331, documento 1.221).
113)
Taunay, op. cit., p. 94.
114)
0 "correr folha", expressão equivalente a "folha corrida", teve resposta assinada
pelo escrivão da Câmara Eclesiástica, padre Francisco dos Santos Pinto (27.VI): a
folha deveria ser respondida pelos escrivães do Juízo de que o padre José Mauricio
"não leva culpa". Na verdade, o padre José Mauricio já era pai de duas crianças: o
futuro Dr. Nunes Garcia, o segundo havido de Severiana Rosa e Apolinário José, mas
o tabelião Pires Garcia reconhece.
115)
As razões da súbita decisão de "pedir dispensa" das certidões que havia solicitado
podem ter raízes nos termos do ofício enviado aos escrivães do Juízo Eclesiástico:
"... digam ao pé desta todas as Culpas".
116)
Registrado no L- I de Decretos Gerais (Coleção XV). Arquivo Nacional. Galeria. 225.
117)
Página 12 do L- I dos Decretos Gerais. A redução de 12$000 de Tença para 9$000
seria sinal da impossibilidade do padre de fazer face ao gravame maior.
118)
Arquivo Nacional. Seção Histórica; Registro Geral das Mercês, v. 8, p. 137.
119)
Porto-Alegre, Apontamentos. In: Funarte, Estudos mauricianos, op. cit., p. 25.
120)
Um pouco de reflexão em torno da obra que teria provocado a carta ao conde de
Aguiar faz recair o pivô do assunto em composições datadas do mesmo ano: Uiisséa,
drama eroico, ou O Triunfo da América. Compostas como música de cena, com
vistas ao Teatro Régio, a previsão da Lapinha, cantora brasileira, para responder
236
José Maurício Nunes Garcia biografia
pelos solos das duas peças, e não qualquer dos castrados já chegados ao Rio de
Janeiro, pode ter exacerbado o mal-estar com a música de José Maurício.
121)
Devem ser repassados acontecimentos de 1808: em 21 de fevereiro, quinze dias
antes da chegada da corte, já anunciada na cidade, o padre José Maurício obrigarase a reclamar do Senado a falta de pagamento dos dois últimos quartéis de 1807,
mais o da festa de São Sebastião de 1808 para fazer face ao pagamento antecipado
dos músicos nos eventos próximos. Após a chegada de D. João em 1808, permitese o Senado novo atraso, não só dos quartéis vencidos, como o que correspondia
aos eventos não previstos no ato de arrematação do ano: as cerimónias da Sé, no
dia 8 de março, a missa em ação de graças também na Sé, a 12 de março, festa do
Corpo de Deus na data da transferência do Cabido para a Capela Real, com a
composição "fora de costume" de duas vésperas. Nessa oportunidade (junho de
1808), o padre-mestre escrevera um ofício que merece transcrição porque ilustra
rotinas da Capela e configura uma situação que se repetirá até 1811 (AGERJ, L« 434-16, p. 80):
"Senhores do Senado //Diz o Pe. JMNG que estão aceleradas as funções do Senado
do presente ano, e que ele ainda não recebeu dinheiro algum, tendo já pago aos
Músicos todas as funções e que por aviso do Sr. Dr. Juiz de Fora e por ordem de
SAR houve demais, e além do costume, Primeiras e Segundas Vesperas na festa do
Corpo de Deus da Câmara, nas quais Vesperas o Suplicante gastou 2 doblas e
húa dobla cada Vespera; e por tanto Pe. a VS's sejam servidos mandar pagar ao
suplicante os dois quartéis de março a junho, já vencidos, segundo o costume, e
também o acréscimo das duas Vesperas do Corpo de Deus, conforme já expôs//"
A resposta ao ofício de José Maurício (datado de 19.10.1809, AG. ERJ, L« 16-1-46)
esclarecia que o pagamento correspondia "às funções anuais assim como as duas
doblas de cada Vespera". Afirmação não verdadeira, porquanto a importância
autorizada pelo Senado — 102$400 — cobria apenas os quartéis de ordenado do
mestre-de-capela. Um mês mais tarde, 17 de novembro, movido por quais angústias,
o padre José Maurício assinou a quitação dessa quantia, que não correspondia aos
serviços. Voltará a reclamar as "duas doblas e huma dobla cada Véspera" nos anos
seguintes, até 1812, sem as alcançar jamais (AGERJ, L> 43-4-18, p. 95).
122)
Padre Perereca, op. cit. p. 290.
123)
Processo arquivado na Biblioteca Nacional, Seção de Manuscritos, SPY, Livro 203
de Notas do l« Ofício, p. 71).
124)
AGERJ, Livro 16-1-46, p. 144.
125)
AGERJ, Livro 43-4-17, p. 21.
126)
AGERJ. Livro 43-4-17, p. 14.
127)
AGERJ. Livro 16-1-46, p. 156.
128)
Documento conservado no Arquivo Nacional, Seção do Poder Judiciário, L> 203, f 1.71,
de Notas do l« Ofício (caixas verdes, doe. n.13). Escritura de divida e obrigação
que faz o Reverendo José Maurício Nunes Garcia a Mateus Francisco Gomes em
18 de agosto de 1810:
237
Cleofe Person de Mattos
"Saibão quantos este publico instromento de Escritura de divida e obrigação
virem que no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos
e dez aos dezoito dias de Agosto nesta Cidade do Rio de Janeiro em a rua Bom
Jesus, casa de morada do Sargento Mor Gregorio Jose da Assumpção, onde eu,
Tabelião, vim, aparecerão presentes como Outorgante devedor o Reverendo José
Mauricio Nunes Garcia Professo na Ordem de Christo Mestre da Capela Real e
como Outorgado Credor o Capitão Mateus Francisco Gomes morador na Rua da
Sapucaia da Freguesia de Inhaúma, e vive da lavoura, reconhecidos este de mim
Tabelião e aquele das testemunhas adiante nomeadas e assignadas perante as
quaes me dice o Outorgante que se constitue devedor do Outorgado da quantia
de quatro centos mil reis que pedira emprestados ao mesmo Outorgado, e este
lhe empresta neste acto em moeda corrente e o Reverendo Outorgante contou e
recebeu e dice que lhe pagará esta quantia em pagamentos iguaes, de tres em
tres meses que começarão a correr de hoje, e hão de findar daqui a hum ano
prefixo satisfazendo-ihe
juntamente nesse tempo os competentes juros que for
vencendo a proporção do que for pagando: e que a tudo isso se obriga por seus
bens presentes e futuros e especialmente por hua morada de casas terreas que
tem na rua das Marrecas, que partem com o Coronel Antonio Nascentes Pinto por
um lado e do outro com quem direito for as quaes são livres de foro pensão
penhora ou hipoteca alguma a ele outorgante agora as hipoteca para segurança
melhor desta divida além da qual oferece por seu fiador principal o Capitão Antonio Carlos da Silva Ramalho morador na sua chacara do Bairro de São Cristovão
da Freguesia do Engenho Velho, o qual compareceu e foi por mim reconhecido e
dice que de facto se obriga na solução desta divida como fiador e principal
pagador dela por seus bens presentes e futuros. E logo dice o outorgado que
aceita esta escritura na forma dela e mencionados me pedirão lhes lançasse
nesta data e sendo ...dida dicerão estar assaz contentes e de tudo... a mim
distribuindo pelo bilhete seguinte o Reverendo José Maurício Nunes Garcia fez
escritura de divida e obrigação com hipoteca a Mateus Francisco Gomes em
dezessete
de agosto de mil oitocentos e dez. Prates, e assignaram com as
testemunhas presentes Luiz Ignacio Pereira Samento e João dos Reis Pereira —
moradores nesta cidade reconhecidos de mim Tabelião João (Rimim) Carlos da
Rocha Pita para no impedimento do Proprietário Antonio Teixeira de Carvalho a
129)
Adrien Balbi, Essai statistique du royaume du Portugal. Além do mito da "espèce
de" (sic) de Conservatório dos negros na Fazenda de Santa Cruz, Balbi criou o da
biblioteca supostamente pertencente ao compositor. Referindo-se ao padre-mestre
como "compositor de muito mérito, digno rival de Marcos Portugal e, como este,
primeiro compositor da Capela Real do Rio de Janeiro", Balbi acrescenta: "tanto mais
digno de admiração o é pelo fato de nunca ter saldo de sua pátria. Possui a mais
completa coleção de música no Brasil, pois recebe as melhores obras que aparecem
na Alemanha, na Itália, na França e na Inglaterra."
A biblioteca viajou para o Brasil no navio que trouxe Luiz dos Santos Marrocos que
viria trabalhar na Real Biblioteca. Filho do bibliotecário da Ajuda, Luiz dos Santos
Marrocos correspondia-se muito com o pai, escrevendo cartas que sSo fontes de
informação sobre a vida na cidade. Ficou instalada a biblioteca na enfermaria do
Hospital da Ordem do Carmo em vastos salões de amplas janelas da rua Detrás do
Carmo. Os leitores sentavam-se junto a grandes mesas para a consulta às obras
vindas no acervo. Deve-se supor que muitas composições de Marcos Portugal hajam
chegado à cidade nesta livraria, se se leva em consideração as muitas obras por ele
compostas para a capela do Palácio de Queluz (Ernesto Vieira, Dicionário).
130)
238
AGERJ, Livro 43-4-17, p. 21.
José Maurício Nunes Garcia biografia
131)
Obra desaparecida. 0 registro de Maciel informa a orquestração:
"Psalmo Beati omnes qui timent Dominum, a 4 vozes e órgão, violinos, flautas,
clarinetas, fagotes, trompas, tímpano e contrabaixo; partitura original para
Vésperas do Corpo de Deus, composta em 1810."
132)
As composições de Marcos Portugal seriam, obviamente, conhecidas de José
Maurício, mas é provável que a Missa festiva fosse a primeira grande obra
apresentada na Real Capela. Assim não é difícil detectar o eco de seu estilo — e
alguns procedimentos — em futuras obras do mestre-de-capela brasileiro. A própria
temática da Missa festiva (Grafias) é evocada em outras obras do padre José
Maurício.
133)
São cinco os motetos conhecidos (1810,1812,1815, dois em 1818) com o mesmo
destino, todos conservados na Escola de Música. O Praecursor Domini, composto,
como os demais, para esse conjunto musical que nem de longe se aproximava da
qualificação musical dos habituais intérpretes do padre-mestre, mantém-se num
quadro de simplicidade de recursos técnicos que revela a intenção de ficar ao alcance
dos intérpretes. É o que se observa na elaboração dos motivos, na busca da facilidade
das harmonias, reduzidas a esquemas por assim dizer pobres. Não por acaso o moteto
foi composto em dó maior. Com o passar dos anos constata-se uma evolução de
fatura musical dos demais motetos, sinal de que estaria correspondendo à crescente
capacitação dos intérpretes, orientados, como foi dito, por dois professores de
música. Os mesmos que em 1814 serão nomeados para a música da Real Câmara,
assim facilitando a vida deambulatória do conjunto musical entre as duas capelas
reais: a de Santo Inácio e a de São Cristóvão.
134)
Arquivo Nacional, IJJ'197, p.38 v.
135)
A relação de obras foi publicada na Revista do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro, Rio de Janeiro, 1859 (t.XXII, p. 504), e também na introdução à partitura
da Missa de requiem (versão reduzida a vozes e órgão), Rio de Janeiro, Casa
Bevilacqua, 1898. Elaborada pelo próprio compositor, permite a avaliação aproximada
da obra composta para o mais importante de seus campos de trabalho, dezenove
anos antes de desaparecer. A imprecisão quanto ao número exato de obras decorre
de itens indefinidos como: "Salmos, jogos alternados", ou "Toda a Semana Santa da
Sé". Cerca de duzentas unidades estão alinhadas nesse documento que, além das
obras destinadas à Capela Real, inclui composições feitas anteriormente para a Sé
do Rio de Janeiro, sugerindo houvessem sido ouvidas na Capela Real.
136)
Marcos Antônio da Fonseca Portugal (Lisboa, 24.3.1762 — Rio de Janeiro,
17.2.1830), compositor e regente desde cedo (9 anos) iniciou os estudos musicais
na Patriarcal de Lisboa com João de Souza Carvalho, excelente compositor, e Antônio
Leal Moreira, mais tarde seu cunhado. Precoce como compositor (um Miserere aos
14 anos), foi também cantor e organista. Inclinado, inicialmente para géneros mais
ligeiros, compôs igualmente muita música religiosa, hoje distribuída em bibliotecas
e arquivos das capelas reais de Portugal: Lisboa, Mafra, Évora, Vila Viçosa. Em 1792
alcançou bolsa para estudar na Itália, onde permaneceu oito anos. Nessa fase
produziu intensamente óperas sérias sobre libretos originais ou já tratados por outros
compositores. Ao mesmo tempo sua obra é amplamente divulgada, inclusive na
Alemanha, em Viena, Londres, Madri e até em São Petersburgo. De volta a Portugal,
239
Cleofe Person de Mattos
em 1800, é logo Indicado para dirigir o Teatro Real de São Carlos e a Real Capela de
Lisboa.
Em 1807, por injunções políticas, transferiu-se para o Brasil o príncipe regente, a
Rainha e toda a Coroa Portuguesa, com a alta administração. Marcos Portugal
permaneceu em Lisboa, embora os que vão ocupá-la sejam os inimigos do seu país.
O que não o impediu de apresentar obra sua para Junot, no teatro São Carlos, e
compor uma cantata para o aniversário do príncipe regente D. João, seu protetor, o
futuro 0. João VI: La Speranza o sia l'augurio di feliciti, cujo hino final (Hino do
Príncipe) foi cantado muitos anos — em Portugal e no Brasil — como o hino oficial
português. A transferência do compositor para o Brasil, em 1811, teria razões várias
agindo nesse sentido: o esvaziamento de músicos capacitados em Lisboa, tanto
quanto a perspectiva de um grande teatro de ópera no Rio de Janeiro e a constatação
de que o príncipe regente não tencionava retornar tão cedo ao reino. Chegou Marcos
Portugal ao Rio de Janeiro em torno de junho de 1811 acompanhado de músicos
que se destinavam à Capela Real e Real Câmara e outros que se preparavam para
ocupar um posto no Real Teatro do Rio de Janeiro, já em construção. A cantora
Mariana Scaramelli, que em Portugal era intérprete contumaz das óperas de Marcos
Portugal, o organista e compositor Simão Portugal, irmão e sombra de Marcos, e o
bailarino Luiz Lacombe. Marcos Portugal foi recebido com todas as honrarias a que
fazia jus sua fama de compositor e amigo do príncipe regente. Repetindo o feito de
1800, em Portugal (ao chegar da Itália e ser nomeado mestre da Capela Real de
Lisboa e diretor do Real Teatro São Carlos), ao chegar ao Brasil foi logo indicado
mestre-de-capela da Capela Real do Rio de Janeiro e diretor do futuro Teatro Real
em construção. Os avisos expedidos à época, pelo conde de Aguiar — documentos
na Biblioteca Nacional, Seção de Manuscritos, — deixam claro o entusiasmo que
causou a vinda do compositor português na 'elite' portuguesa instalada no Brasil.
Não foi muito fértil no Brasil a produção de Marcos Portugal. A música religiosa
dominava o ambiente musical da colónia, não a ópera, género que tornara glorioso o
seu perfil de músico na Europa. Marcos Portugal não teria como escapar a tal situação
e compôs algumas peças isoladas: Te Deum, sequências, salmos e missas para
grandes ocasiões: Ofício fúnebre pelo príncipe D. Carlos (1812), Oficio e Missa
pela morte da rainha (1816) e Missa pela aclamação de D. João (1818), pelo
aniversário de D. Leopoldina. Por outro lado, Marcos Portugal foi atacado por doenças
graves. Crises apopléticas (1811, cx.12, pac.3, doe.16 e em setembro de 1817).
Prezado pela família real, pela corte e pelos músicos portugueses e italianos, não o
era generalizadamente por toda a comunidade por seus ares arrogantes e extrema
vaidade, que Marrocos definiu com a costumeira ferinidade.
Surpreende Marcos Portugal não ter acompanhado D. João VI de volta a Portugal em
1821. Talvez a idade, a saúde, e as esperanças em D. Pedro, seu aluno, no Brasil.
Torna-se-lhe difícil, porém, económica e musicalmente a vida na capital do Reino
Unido. Escapariam-se-lhe, em termos de conforto e sucesso, os privilégios do tempo
do "rei velho"; chegará o momento — em 1828 — de assinar reivindicação coletiva
de salários da Capela Real. Marcos Portugal terminará seus dias abrigado na casa da
marquesa de Aguiar (Lavradio) onde vem a falecer em 17 de fevereiro de 1830. Não
muito depois apresenta-se a viúva de Marcos Portugal — Joana Portugal —
solicitando uma "pensão" a D. Pedro e recordando os serviços prestados ao
imperador pelo compositor, seu mestre (Biblioteca Nacional, Seção de Manuscritos).
Marcos Portugal foi enterrado no convento de Santo Antônio. Lá ficaram os seus
ossos até que Manuel de Araújo Porto-Alegre colocou-os em uma urna (foto no livro
de Jean-Paul Sarraute), posteriormente transferida para Portugal, e depositados na
Igreja de Santa Isabel, onde fora batizado.
137)
240
Biblioteca Nacional, Seção de Manuscritos, 4 avisos.
José Maurício Nunes Garcia biografia
138)
Visconde de Taunay, op. cit., p.104. O recuo do mestre-de-capela no pagamento
prévio aos músicos não terá sido favorável á sua imagem. Poucas pessoas poderiam
imaginar a realidade dos fatos nem a capacidade de construi-los. Ficava José Maurício
diminuído perante os outros, e é possivelmente a mais poderosa razão para conduzilo à falência nervosa e económica, concorrendo para afastá-lo dos caminhos da
competição artística — que de qualquer modo seria desigual — na vida da Real
Capela.
139)
O visconde de Taunay (op. cit., p.17) descreve a cena: José Maurício, chamado a
tocar ao cravo uma sonata de Haydn no encontro com Marcos Portugal, chegado às
vésperas, recebe no fim da execução o abraço deste e ouve as palavras ditas com
entusiasmo: "Belíssimo! És meu irmão na arte; com certeza serás para mim um
amigo."
À página 32 do seu livro, Taunay assinala a fonte dessas informações com palavras
que vão transcritas a seguir: "0 episódio que deixamos em começo narrado, e em
que figuraram José Maurício e Marcos Portugal, foi-nos narrado, com toda a minúcia
e vivacidade de colorido, por ilustre testemunha quase de vista — meu pai, o Barão
de Taunay."
140)
A identificação das três missas compostas para o dia "7 de março" nos anos de
1809, 1810 e 1811 tem desafiado os esforços aplicados nesse sentido. A busca —
especialmente orientada entre as não datadas — fixou-se entre aquelas que
apresentam linguagem peculiar à fase, com as inovações que as vinham marcando
desde 1808: proporções, fugas, concertantes, solos que não deixam dúvida sobre a
época e a natureza de seus intérpretes.
141)
Nove solistas — alguns dos quais chegados no mesmo ano, com Marcos Portuga!
— exibem na partitura autógrafa suas possibilidades técnicas: o "Sr. Cicconi" (soprano), o "Sr. Gorif" (contralto), "Padre Paula" (baixo), o "Sr. José Inácio" (soprano
primo), "Sr. Figner" (tenor "di concerto"), "Sr. Porto" (basso "di concerto"), "Sr.
Pe. Lúcio" (basso "di ripieno").
142)
Os problemas do Senado da Câmara corriam paralelamente aos da Real Capela mas
eram, como sempre, de natureza financeira. O mandado de pagamento da festa de
São Sebastião de 1811 foi expedido no dia 30 de janeiro (L« 16-1-46, p.177) e
importou em 128$000, parte do seu ordenado e "do que se lhe dá da festa de S.
Sebastião e seu oitavário". 0 "resto do ordenado" seria objeto de um mandado de 22
de janeiro de 1812 (L> 16-1-46, p.203), com despacho de 18 de setembro de 1811 e
procedia "das músicas que fez nas festas do mesmo Senado." (Obs.: a autenticidade
do documento deve ser posta em dúvida. O "José", tabelião que subscreve o
documento, no impedimento do Senado, não é o Pires Garcia). Na aparente pouca
fidelidade do documento parece embutir-se uma omissão, ou inverdade quanto à
data do despacho citado: 18 de setembro de 1811. A data é demasiadamente próxima
do dia 6 de setembro, e sua angustiante "relação de obras" em que o compositor
encerra sua missão de compor para a Capela Real, para que se possa pensar em
coincidência de datas.
143)
Não é fácil avaliar-se a contribuição de José Maurício para a Irmandade nesses onze
anos, sem incorrer em repetições que não correspondam à verdade. A repetição dos
mesmos títulos — ou aproximativos — em anos seguidos pode levar a interpretar
como novas composições todos os títulos lançados nos livros de despesa. A opção
seguida representa os registros colhidos no artigo "A presença de José Maurício na
241
Cleofe Person de Mattos
Irmandade de São Pedro", de Jaime Diniz (publicado em Estudos mauricianos, op.
cit., p.41) e sumarizados:
"Ao P. M. da Capella José Mauricio da Muzica das Vesperas e dia do Santo Patriarcha."
Anos 1799,1800,1801,1802,1803,1804,1805 (Ao Pe. José Mauricio, da Música),
1806, 1807, 1808, 1809, 1810, 1811.
•6 Novenas: 1801,1802, 1806,1807, 1808, 1809, 1810.
•Te Deum: 1801.1802,1804,1806, 2 Te Deum em 1808, 2 Te Deum em 1809 e 2 Te
Deum em 1810.
Da Música das Domingas da Quaresma: 1806, 1807,1808,1810.
Da Música do dia geral da Irmandade: 1806, 1807,1808.
Da Música da Semana Santa: 1806.
•Missa de Cantochão em 5* feira santa: 1807.
•Ao dito de Quinta-feira Santa: 1808.
•Da Festa da Senhora da Hora: 1810,1811.
Quarenta obras é o que representa a produção de José Mauricio para a Irmandade.
Deve-se pensar em obras desaparecidas. A exceção possível seria para "Música para
Semana Santa", registrada em 1806 (L« 3, p.135) que parece corresponder a um
manuscrito sem nome de autor (Domingo de Ramos / Semana Santa), já identificado,
restaurado e recolhido à igreja da Irmandade. (Igreja da Irmandade do Príncipe dos
Apóstolos, Av. Paulo de Frontin 566, Rio Comprido, Rio de Janeiro).
144)
A referência aos 100S000 encontra-se no documento (de "distrato") de 6 de julho de
1812 (Arquivo Nacional, L- de Notas do I» Ofício, n. 206, fls.41-2).
145)
O Qui sedes avulso datado 1808 (CT 76), incompleto, pode ter sido o primeiro
recitativo escrito por José Maurício. Não foi localizada a parte de solista. A escrita
primorosa das partes instrumentais — a flauta, brasileira, inspirada, dialogando com
o clarinete — faz pensar em orquestração posterior à data lançada no manuscrito,
que seria de missa composta em 1808. Fica a hipótese sem confirmação até o
presente.
146)
0 tratamento polifônico idêntico nas duas fugas, e sua equivalência estrutural justifica
apreciar-se apenas uma delas: o Christe. O sujeito é tonal e a mutação corretamente
realizada. A exposição ocupa os quarenta primeiros compassos, ai incluindo doze
de reapresentação do contrassujeito que separa as primeiras entradas soprano e
contralto da réplica nas vozes masculinas. Um "episódio modulante" (comp. 41-99)
precede a reexposição (comp. 99-125). Novo episódio modulante em stretto conduz
ao pedal da dominante, com novas apresentações dos elementos temáticos até a
coda final, tratada em grande aparato. Nos compassos que precedem a coda, a
orquestra apresenta motivo de inspiração popular.
Impossível não evocar as circunstâncias que cercavam a composição dessas duas
fugas em dezembro de 1810, obrigando a uma pausa para refletir sobre os problemas
que levanta.
O padre José Mauricio não poderia escapar a tudo o que se antepunha à sua liberdade
de criador, o que significa agir e lutar contra o meio e contra o tempo, em grande
parte desviado para outros afazeres menos dignos de nota: cuidar da burocracia da
Capela e ocupar-se com a contratação de músicos. Se José Maurício, após o período
que estamos focalizando, não teve condições de escrever outras fugas da mesma
categoria compostas em fase tão difícil de sua vida, é preciso acreditar no seu
depoimento a D. Pedro, em 1822: teria ficado "deteriorado até agora". É a avaliação
242
José Maurício Nunes Garcia biografia
do paciente exprimindo quão fundamente havia sido atingida a sua estrutura mental
nesses anos de tortura. Depois de uma pausa nos trabalhos de composição, que se
setendeu, praticamente, por todo o ano de 1812, José Maurício voltará a compor.
Algumas obras desse novo período são das mais belas de sua carreira. Mas a
composição de fugas em grande estilo não terá sido mais possível após 1811.
147)
A causa provável da insólita convocação no início de 1812 terá sido a súbita doença
de Marcos Portugal. Em 18 de setembro de 1811, um "aviso" foi mandado por D.
João (a Roiz de Miranda) recomendando que "se acompanhasse Marcos Portugal ao
Recolhimento do Parto por achar-se ele gravemente molestado". Luís dos Santos
Marrocos não hesitou em transmitir a informação para Lisboa, anunciando que
Marcos Portugal tivera "um estupor." (Carta de outubro de 1811).
148)
AGERJ, L» 16-1-46, p. 203. Este mandado abrangia o pagamento de todo um ano de
trabalho, desde 30 de janeiro de 1811 (L« 16-1-46, p.177), quando o Senado mandou
que se pagasse a José Maurício Nunes Garcia: "a quantia de 128$000, que procede
do que se lhe dá da Música na Festividade de São Sebastião". Nenhuma alusão ao
pagamento dos músicos convocados.
Apoiada nas fontes mencionadas, pode-se presumir que em 1812 apenas duas obras
são conhecidas:
Moteto para os mártires (Tamquam auram), CT 56.
Moteto para o Setenário das Dores (assinalado por M. P. Vasco). Pode corresponder
ao CT n.74.
149)
AGERJ, L' 43-4-18, p.95. AGERJ. L- 43-4-18, p.97.
150)
A solução dos casos pendentes neste ofício arrastou-se por alguns meses, até
novembro, quando o Senado concluiu, após as buscas internas, que os pagamentos
anteriores — desde 1808 — "são respectivos aos quartéis dos seus ordenados ..."
Confirma-se assim que jamais o Senado efetuara o pagamento aos músicos (que
José Maurício fazia em grande parte com alunos) e que ao mestre-de-capela, após a
chegada da corte, nada fora dado além do seu estrito ordenado, sem levar em conta
que muitas festividades exigiam, para realce do evento, maior número de músicos,
convocados e pagos por antecipação. É o que revela o já tantas vezes citado
documento de 1822, a respeito deste assunto:
"... era o Contador e pagador de toda a Orquestra, que se chamava de fora alem
dos Muzicos da Real Camara para as Festas da Real Capela, o que lhe custava in
menço trabalho."
151)
Arquivo Nacional, L« de Notas do l« Ofício n. 206, p. 41v/42.
152)
Duas pessoas com o mesmo nome (pai e filho) atuavam na Capela. O pai, amigo de
José Maurício, foi músico da Real Capela (1812), e serviu 28 anos. Foi copista de
obras de José Maurício. Além de testemunha, deu assistência no ato de resgatar a
dívida em 1812. Um músico de nome Roiz Silva é apontado na Enciclopédia
portuguesa e brasileira como o professor que teria dado continuidade aos estudos
musicais do futuro mestre-de-capela, após os ensinamentos de Salvador José. Não
foi comprovada a informação, que outras pessoas endossam.
243
Cleofe Person de Mattos
153)
0 Catálogo dos Fundos Musicais da Biblioteca do Palácio dos Duques de Bragança,
em Vila Viçosa (Portugal), foi organizado pelo ilustre pesquisador José Augusto
Alegria (Fundação Calouste Gulbenkian, 1989, Lisboa, Portugal), que no levantamento
desse repertório arrolou obras de Marcos Antonio Portugal.
154)
Informa Jean-Paul Sarraute (Marcos Portugal no Brasil, Fundação Calouste
Gulbenkian, 1979) que muitas das obras apresentadas no Rio de Janeiro não
passavam de remanejamentos de obras antigas, compostas para as capelas reais
portuguesas. Falta cotejo mais profundo entre essas peças para avaliar-se até que
ponto se identificaria esse repertório às palavras lançadas nos manuscritos pelo compositor: "compostas de novo para a Real Capela do Rio de Janeiro".
155)
Não era um original composto para a cerimónia. Como em outros casos, era a
orquestração de Matinas de defuntos para vozes com acompanhamento de seis
órgãos, que o compositor escrevera em 1807 para Mafra (Jean-Paul Sarraute, op.
cit.).
156)
Padre João Jacques e Simão Portugal. 0 padre João Jacques, morto em 1853, foi
capelão-cantor até a época da Capela Imperial e atuou igualmente como professor
de música: órgão, piano, canto. Foi condecorado com a Ordem de Cristo.
Simão Portugal, que morreu em 1855 no Rio de Janeiro, foi compositor, regente,
organista e sempre buscou um posto na Capela Real ou no Real Teatro São João:
conseguiu sucessivamente alcançar seus desígnios. Depois de organista na Capela,
pleiteou um posto no Teatro. Em 1830 foi nomeado por D. Pedro para o posto de
mestre-de-capela deixado vago por morte do padre José Maurício.
157)
Baxixa — Joaquim Felix Xavier — pianista e organista, era natural de Lisboa (1775)
e chegou ao Rio de Janeiro em 1811 (Arquivo Nacional, cod. 418, n.1, p.55) e no
mesmo ano (11 de fevereiro) ingressou na Real Capela com 300S000 por ano de
ordenado. De gosto mais delicado no instrumento do que o padre José Mauricio —
é o que informa Adrien Balbi — e saúde precária, sofria das faculdades mentais, foi
substituído em 1812 (13.11). Arquivo Nacional, cx. 12, pac. 2, doe. 53.
158)
Citado por Sacramento Blake, Dicionário biobibllográfico
159)
Compor para os escravos-músicos de Santa Cruz — José Maurício continuará a fazêlo em 1815 e 1818 — provoca uma indagação: o que representam no contexto de
sua obra essas poucas partituras? De início necessariamente adaptadas ao
desenvolvimento dos intérpretes, abrem caminho para futuras composições em outro
nível, à medida que evoluía musicalmente o grupo: o Bendito e louvado seja (CT
12). o Bendito "mais pequeno e abreviado" (CT 13) de 1815, e três motetos, em
1818: Moteto para as virgens, Moteto para os apóstolos, e com muitos sinais
positivos, o Motetoe a Missa para a "festa da degolação de São João Batista", última
obra a grande orquestra destinada ao conjunto, apresentada em "função da corte"
na festividade em comemoração da data do mártir, grande devoção do príncipe
regente.
brasileiro, v. V, p. 88.
160)
Angelo Pereira: "Os filhos de El Rei D. João VI". apud Benedito Freitas, v.ll, p. 138.
161)
Arquivo Nacional, cx.12.
244
José Maurício Nunes Garcia biografia
162)
Dessa varanda foram feitos importantes pronunciamentos históricos da vida do país,
como a declaração de que D. João aceitaria o projeto de Constituição que se elaborava
em Portugal.
163)
A retirada do material da Sé Velha utilizada na construção do teatro efetuou-se após
a bênção do chão, medida necessária. Ainda assim, o povo desgostou-se com o que
chamava de irreverência com o uso do material, interpretando como castigo os
desastres ocorridos com o teatro, vítima de três incêndios.
164)
Luiz Lacombe foi o primeiro de uma família voltada para a dança, como professores
e bailarinos. Permaneceram no Brasil e representam, ainda hoje, destacadas figuras
na área cultural, como escritores e administradores culturais.
165)
No requerimento, datado de 26 de julho de 1813, Simão Portugal revela "que não há
folha para instrumentistas por enquanto". E que "como nesta corte ainda não se
estabeleceu a referida folha do Teatro, em consequência do que passaram os
instrumentistas a serem pagos pela folha da Casa Real, pede a remuneração dos
serviços, que não são apenas de organista". (Biblioteca Nacional, Seção de
Manuscritos, C-59, 10 ou 11-23-20).
166)
Na verdade, poderiam ser outras as razões dessa ausência. Não se sabe se Marcos
Portugal traria, na bagagem, obra inédita — preferência de D. João — pronta para ir
á cena. O tato é que somente em 1814 Marcos Portugal emprestará seu prestígio ao
Real Teatro São João com duas obras. Nenhuma inédita. Não julgaria o Teatro
suficientemente categorizado para a apresentação de obra de sua autoria.
167)
Bernardo José de Souza Queiroz era português de origem, vivendo no Brasil. Em 25
de setembro de 1810 D. João concede-lhe pensão anual (Arquivo Nacional, Decretos
sobre Fazenda. L> 1,1808-1821; IJJ'307, p.90):"... faz mercê a Bernardo de Souza
Queiroz de huma pensão anual de 240$000, pagas aos quartéis pela "folha respectiva
com a obrigação de fazer as composições de Muzica que lhe forem por Ordem minha
determinadas." O manuscrito da obra está na Escola de Música. Ernesto Vieira
(Dicionário de músicos portugueses, Lisboa, Tip. Matos Moreira & Pinheiro, v.2, p.
233) cita-o como brasileiro.
168)
O libreto foi impresso à custa do autor (Arquivo Nacional, L- 6 e 7 de Avisos,
1813-1814). (Ver também L> 6, p. 64v e 110v e L» 7, p.51v, de 3.8.1814) com
a resposta de D. Gastão à censura feita à sua peça pelo redator de O Patriota.
(L> 7, p. 62. de 27.8).
169)
Teor da nota: "O Sr. Bap". não terá dúvida nem fará dificuldades em emprestar esta
Novena P* a Igreja de São Pedro pois lá he a m1 Irmandade." E insiste: "Com a
declaração de sempre q. lhe pedirem p1 a Festa de São Pedro, emprestalla pois he a
m* Irmandade." Difícil saber se a Novena foi ouvida na Irmandade; seu nome não é
mais citado nos lançamentos da festa do apóstolo. Poderá ter sido apresentada com
outro regente, é o que faz crer o pagamento a José do Carmo Torres Vedras,
encarregado da música — Novena, Te Deum— na festa do santo patriarca em 1815.
1
A diversas repartições estavam subordinadas essas realizações, mencionadas com
clareza e denominação diversas, de acordo com o Códice 54 do Arquivo Nacional:
?0)
245
Cleofe Person de Mattos
Repartição da Folha dos Oratórios do Paço (cod. 54, 1811, p.304); Oratórios do
Conselho da Fazenda [idem)-, Repartição da Fábrica dos Reais Oratórios [idem, p.
254). Outras fontes além do cod. 54 registram esses atos: L- IJJ'197; Decretos sobre
Fazenda (L> 1,1811-1812, p. 96); L- IJJ'307, p.167. Incidiam, conforme o trimestre,
em datas consagradas a determinados santos.
171)
Novena de Santa Bárbara (1810)
Ladainha de Nossa Senhora do Carmo (1811)
Ladainha das Dores de Nossa Senhora (1812?)
Setenário das Dores de Nossa Senhora (1809)
Trezena de Santo Antônio
Novena do Sagrado Coração de Jesus
(1812)
Novena de São José
172)
As princesas estudavam música com Marcos Portugal. Em 1817 cantam para D.
Leopoldina. E D. Maria Bárbara, mais tarde princesa de Espanha, fez muita música
em companhia de Domênico Scarlatti e o castrato Farinetti.
173)
Arquivo Nacional, IJJ'43, p.180 (Livro 350).
174)
A partitura autógrafa da versão original está arquivada no Cabido Metropolitano do
Rio de Janeiro, onde também são encontradas as partes avulsas, autógrafas, onde
foi lançada a nota.
175)
Arquivo Nacional, Decretos sobre Fazenda (Livro I, p. 95; e L> IJJ'307, p. 167). O
Patrimônio para os Clérigos Pobres fora instituído graças à doação de casas à
Irmandade de São Pedro para auxiliar os clérigos que não dispunham de recursos.
Gesto devido ao sargento-mor, ou "intendente" — Alexandre Dias Rezende — falecido
em 9 de agosto de 1812. Fora ele impedido, no passado, de ingressar na Irmandade
de São Pedro "por ser homem de cor" (J. Diniz: "A presença de José Maurício na
Irmandade de São Pedro dos Clérigos", p.61 dos Estudos mauricianos, Funarte,
1983). O patrimônio era administrado pela Irmandade, e assim explica houvesse o
padre Perereca, tesoureiro da Irmandade de São Pedro em 1830 à época do
falecimento do padre José Maurício, apresentado conta de 16$000 com a "mortalha
e condução dos finados", gastos previstos no regimento da entidade.
176)
A versão original, composta a seis vozes com acompanhamento de órgão, violoncelos
e dois fagotes, tem 15 solistas: dois baixos, um tenor, duo de sopranos e quatro
quartetos vocais do mesmo naipe: SSSS, AAAA, TTTT, e BBBB (quatro sopranos,
quatro contraltos, quatro tenores e quatro baixos). Os "quatro" funcionam como
refrão, utilizando o "Verso" dos responsórios. Não será surpresa encontrar o nome
de Francisco Manuel da Silva entre os sopranos. Aluno do padre José Mauricio, cantou
no coro da Sé como falsetista antes de ingressar no coro da Capela Real. Ao completar
25 anos de idade, alegando voz enfraquecida, Francisco Manuel pediu para ser
timbaleiro, o que lhe é concedido. Dois anos mais tarde alcançou portaria para
transferir-se para o naipe de violoncelos, ondeatuou até 1831. A obra foi orquestrada,
e provavelmente não pelo compositor, conquanto a orquestração haja conservado o
arcabouço melódico lançado no original da parte de órgão. Tudo faz crer seja Francisco Manuel da Silva o autor da orquestração, como procedeu em várias obras do
246
José Maurício Nunes Garcia biografia
seu velho mestre no período em que foi mestre-de-capela da Capela Imperial (18421865).
177)
Outro regente, amigo e compadre de José Maurício, José do Carmo Torres Vedras,
passara a responder pela festa do patriarca. Não é seguro conseguisse executar a
obra na igreja dos Clérigos.
178)
Arquivo Nacional, cod. 528, v. 2, p. 68-70. Livro de Registro de Leis e Alvarás.
179)
Informação prestada pelo padre Perereca (op. cit., v.ll, p.474); colidindo com a
Gazeta do Rio de Janeiro, que atribui a Fortunato Mazziotti a direção musical na
cerimónia.
180)
Padre Perereca, op. cit., p.474.
181)
Fontes para esses comentários: Arquivo Nacional, IJJ'197, p. 124. E padre Perereca,
op. cit., p.523.
182)
O padre Perereca (p.488-505) descreve com minúcias todas as cerimónias.
183)
Além da cerimónia que dizia do sentimento da coroa portuguesa, de D. João e da
família real, muitas outras exéquias — solenes e suntuosas — foram realizadas no
Rio de Janeiro e no interior do país. Entre cerimónias mencionadas na Gazeta do Rio
de Janeiro e o padre Perereca algumas serão destacadas: a do Senado da Câmara (9
e 10 de junho), no convento da Ajuda; a do 3* Regimento das Milícias por empenho
do coronel Fernando José de Almeida (17 de junho) e a da igreja de São Francisco
de Paula; ambas regidas por Fortunado Mazziotti. A Irmandade de São Pedro dos
Clérigos, em nome do clero, fez ofício "em tudo eclesiástico": numeroso coro de
sacerdotes em cantochão acompanhado a órgão e "regido pelos Cantores da Capela
Real". O padre Perereca, além da referência à "pompa exterior" das três ordens
terceiras, ressalta apenas, para a do Carmo, ter sobressaído na "armação" e no
"mausuleu". A música — que era do padre José Maurício — não lhe mereceu
referência. Não cita o regente. Entre os compositores ouvidos nessas cerimónias
cabe destaque a Marcos Portugal pela importância do ato. Também Davi Perez é
louvado, com o seu "nunca excedido ofício", como escreve a Gazeta. No interior do
país, a música de André da Silva Gomes acompanha a cerimónia na Catedral de São
Paulo. Em Minas Gerais destaca-se, nas exéquias realizadas na cidade de São José
do Rio das Mortes — atual Tiradentes —, o nome do mineiro citado na Gazeta: "Este
ato se fez mais pomposo peia harmoniosa música a quatro coros, composta pelo
raro engenho de Manuel Dias de Oliveira."
184)
Visconde de Taunay: "Esboceto biográfico", in Missa de requiem; partitura reduzida
a órgão e vozes, por Alberto Nepomuceno, Rio de Janeiro, Casa Bevilacqua, 1896.
185)
A divulgação da missa foi facilitada no momento em que a coleção Bento das Mercês
foi adquirida, pela impressão reduzida a órgão pela Casa Bevilacqua, op. cit.
Recentemente (1988), a editora alemã Hãnssler (Stuttgart) imprimiu todo o material
da Missa, inclusive as partituras. Duas gravações foram feitas, até agora: a mais
antiga, em 1958, com a Orquestra Sinfónica Brasileira, a Associação de Canto Coral,
247
Cleofe Person de Mattos
regente Edoardo de Guarnieri. Outra gravação nos Estados Unidos (Black Composers Series, v. 5), Coro e Orquestra Helsinki Philarmonia, regente Paul Freemann.
O Oficio, muito tardio em fazer-se ouvir, teve a apresentação contemporânea também
nos Estados Unidos, em 1978, sob a direção de Robert S. Prichard, com The Byrne
Choir. No Brasil, em 1980 (sesquicentenário de morte do compositor), foi executado
em São Paulo, sob a direção de Olivier Tony, com orquestra e coro do Teatro Municipal. O Rio de Janeiro somente em 1989 tomou conhecimento da obra, com a Orquestra
Jovem, Associação de Canto Coral, regente Ernâni Aguiar.
186)
Presses de 1'Université Lavai, Quebec, Ed. Van de Walde, Tours, France, 1970, p. 84.
187)
Veja-se o artigo de Ricardo Tacuchian sobre o assunto: O Requiem mozarteano
José Maurício, Revista Brasileira de Música, UFRJ, n. 19,1991.
188)
A Missa de requiem foi reorquestrada várias vezes: SanfAna Gomes (Museu Carlos
Gomes). A mais significativa foi a de Francisco Manuel da Silva, feita no decorrer do
segundo reinado (1842-1865), ocasião em que o autor, então mestre-de-capela, fez
a reorquestração do Oficio e da Missa (cópia datada 1853/1854), acrescentando
mais duas trompas, dois oboés e trombone, instrumentos não previstos pelo compositor, reescrevendo com aproximação as partes originais.
189)
O autógrafo encontra-se em Lisboa, no palácio da Ajuda.
190)
O inventário de Batista Lisboa conserva-se no Arquivo Nacional (Caixa 289, n- 3543,
Juízo da 3* Vara Cível). Atuaram no levantamento da coleção Francisco da Luz Pinto
e Manuel Francisco Chaves.
191)
O registro das Despesas da Ordem Terceira com o Ofício (Livro 63, p. 201) mostra
que Batista Lisboa recebeu pelas exéquias 184$960. E ainda ganhou "da Mesa"
40$000 de gratificação pela "demonstração de zelo como se portou na direção de
muitas coisas". Segue relação de alguns itens da relação de despesas:
Oração Fúnebre
Armação
64$000
204$000
Importância paga pela música do Ofício
184$960
de
Tinta e pregos
50S000
Centralizava-se, pois, nas mãos do irmão andador da Ordem a responsabilidade pelos
pagamentos; desde os 50$000 para "tinta e pregos" ou 64$000 de monsenhor
Narciso, orador, até os 184$960 "pela música do Ofício". Lamentavelmente, faltam
recibos, mas os manuscritos autógrafos documentam a trajetória seguida após a
cerimónia.
192)
Não era novidade, nas relações entre o padre-mestre e a Ordem Terceira o caminho
tomado pelos manuscritos dessa Missa. A certeza da cerimónia por D. Maria I com
a música de José Maurício partiu, na realidade, dessa constatação. O Ofício e a Missa
dos defuntos representariam simplesmente um elo a mais nessa engrenagem.
193)
Fortunato Mazziotti (14.6.1782 — Rio de Janeiro. 1855) já era compositor quando
veio para o Brasil, logo indicado para a Real Capela (Arquivo Nacional, p. 2. doe. 13).
Seus irmãos Carlos Fazziotti e João — valente tenor — também fizeram parte da
248
José Maurício Nunes Garcia biografia
Capela. Fortunato apegou-se aos serviços de Marcos Portugal, certamente julgando
ser o caminho mais rápido para vencer. Dirigiu obras deste em ocasiões solenes.
Sua estrela começou a crescer quando participou da regência na missa de requiem
pelo príncipe D. Pedro Carlos, em 1812. Dirige duas vezes, por ordem do Senado,
em São Francisco de Paula e na Ajuda, o Ofício e Missa de Davi Perez, exéquias pela
rainha. Em 1817 dirigirá a missa comemorativa do dia "7 de março". As exéquias de
D. Maria representam o grande momento na carreira de Fortunato Mazziotti. Em junho
já era apontado na Gazeta como "compositor a serviço de S. Magestade", e em julho
foi nomeado mestre-de-capela.
194)
Compunha a Missão Artística Francesa um grupo de pessoas diversamente
especializadas, chefiadas por Henri Lebreton, que por motivos políticos desejavam
deixar a França. Seguem os nomes dos mais representativos artistas e sua
qualificação: Nicolau Antonio Taunay, pintor; Augusto Maria Taunay, escultor; João
Batista Debret, pintor; Augusto Henrique Vitor Grandjean de Montigny, arquiteto;
Simão Pradier, gravador; Francisco Ovide, mecânico.
195)
Afonso de Escragnolle Taunay, em 1929, no prefácio do livro.
196)
Não se sabe do destino dessas partituras.
197)
Visconde de Taunay: Uma grande glória brasileira — José Maurício Nunes Garcia
(São Paulo, Melhoramentos, 1830). O livro do visconde (1876-1899) foi publicado
após a morte do autor por seu filho Afonso de Escragnolle Taunay (1876-1935),
baseando-se nos artigos escritos pelo pai em jornais e revistas do século dezenove:
Brasil Musical. Revista Brasileira (1896). Jornal do Commercio (1896 a 1898).
Outro livro do visconde tem por título Dois artistas máximos, Carlos Gomes e José
Maurício e foi publicado pela mesma editora.
198)
O movimento teve início aos 21 de dezembro de 1872, após ouvir a Missa do Espírito
Santo, que dava início aos trabalhos parlamentares, uma das missas de José
Maurício. O fato vem relatado no já citado livro de Taunay e, com maiores minúcias,
nas Memórias do mesmo (Biblioteca do Exército, Edif.. 1960, p. 406). Fica-se
conhecendo a figura humana de Bento das Mercês, homem "já velho, com a cara
vermelha descorada e muito raspada, grandes óculos de prata, cabelo à escovinha,
pesadão no todo, de casaca, calças brancas e sapatos de entrada baixa ornados de
fivelas à antiga, uma figura de aquarela velha do século dezoito, numa palavra, o
Bento das Mercês com quem tanto me dei depois". Após o agitado diálogo entre o
deputado e o músico da Capela Imperial, Bento das Mercês "seguiu adiante,
arrastando os pés". Taunay ativou a compra pelo governo, no que foi ajudado por
Pandiá Calógeras, autor do projeto de aquisição do acervo de Bento das Mercês, a
coleção de obras do padre José Maurício: autógrafos, cópias únicas, cópias por ele
mesmo levantadas, formando um todo de altíssimo valor, legado em testamento às
suas cunhadas Veridiana Carolina e Peregrina Belarmina e à sua afilhada Gabriela. A
transação administrativa da coleção fez-se em nome desta, já Gabriela Alves de Souza,
e foi adquirida por 12:000$000 (doze contos de réis). Encaminhada para o então
Instituto Nacional de Música, ainda é, hoje, na biblioteca da Escola de Música da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, a mais importante coleção de manuscritos
de obras do padre José Maurício.
199)
Neukomm desembarcou no Rio de Janeiro a bordo do Hermione, em 30 de maio.
Com ele chegou o escritor-pintor e botânico Augusto de Saint-Hilaire. Músico de
249
Cleofe Person de Mattos
excelente formação, aluno dos irmãos Haydn, apesar de sua categoria, Neukomm
não logrou fazer-se ouvir em grande estilo, na Real Capela. Cumprindo a portaria de
D. João (Arq. Nacional: Decretos sobre Fazenda, L* I, p 183v e L< IJJ'317), Neukomm
deu aulas de música ao príncipe D. Pedro.
Também D. Leopoldina foi sua aluna, assim como Francisco Manuel da Silva, que
com o aluno de Haydn tomou aulas de contraponto. 0 músico austríaco trouxe
movimento nos meios interessados, dando a conhecer obras que recebia da Europa.
Numa dessas ocasiões, na casa do marquês de Santo Amaro, relembrou Neukomm a
Porto-Alegre a ocasião em que os dois se encontraram em Paris ("Idéias sobre
Música", Niterói, Revista Brasileira de Ciências, Letras e Artes, Paris, Duvin,
Fontaine, 1837). Neukomm lamentava a sorte do artista no Brasil, vivendo com tão
escassas possibilidades artísticas, e julgava José Maurício um autodidata. Referese também à missa por ele composta, e jamais ouvida.
Em 1818, Neukomm é afetado por uma enfermidade que o mestre da Academia
Médico-Cirúrgica, Manuel Luis Alvares de Carvalho, diagnostica em 18 de março
como "phytsia nervosa" (Biblioteca Nacional, Seção de Manuscritos. C, 46, 15 e II
— 2 — 10,15). Apesar de aconselhado a procurar clima mais ameno — Rio Grande
do Sul — Neukomm permanece no Rio de Janeiro até 1821.
200)
O visconde de Taunay refere-se à cena: Neukomm, entrando na Real Capela, encontra
José Maurício executando ao órgão a sua música. Abraçaram-se emocionados sem
nada dizer.
201)
Arquivo Nacional, cod. 528, v. 2, p.109.
202)
Marcos Portugal jamais compôs ópera inédita para o teatro da cidade onde viveu
tantos anos. Não teria suficiente apreço pela cidade, pelo teatro, nem pelo público
presente aos espetáculos do Real Teatro, embora dele participasse seu augusto
protetor D. João VI. A atuação da Scaremelli e cantores brasileiros anteriormente
ativos no Teatro Régio é assinalada no libreto: João dos Reis Pereira, Luiz Inácio,
Geraldo Inácio e outros músicos, atraídos para o Rio de Janeiro, à medida que se
tornava mais forte a vida profissional dos artistas nos quadros do teatro. Assim
chegaram os Piacentini (Fabrício e Elisa), Nicola Majoranini, Isabel Ricciolini, Madame Toussaint, Paulo Rosquelas (violinista, concertista, compositor), Miguel
Vaccani, Salvador Salvatori; culminaria com a vinda de Gianfrancesco Fascietti, o
mais credenciado entre os castrati que vieram para o Brasil.
203)
D. Leopoldina, princesa, foi educada dentro de severos princípios religiosos.
Chegando ao Brasil, pautou sua vida e sua conduta na moldura dos hábitos austeros
de sua formação. Trouxe-lhe desgostos e contraste com a vida no Brasil. Voltada
para estudos intelectuais, especialmente a Botânica, preparou-se D. Leopoldina para
o casamento com D. Pedro, intensificando seus estudos musicais, o que pôs em
prática depois de casada, fazendo música de câmara com D. Pedro no Paço de São
Cristóvão. O reconhecimento de suas aptidões como musicista participante, vivendo
numa corte onde a música era praticada sob o interesse permanente de D. João VI e
de D. Pedro, fica sem explicação não haja partido de sua pessoa qualquer referência
expressa ao padre José Maurício, a quem não terá faltado oportunidade de conhecer.
Especialmente por não ser do seu agrado o estilo de Marcos Portugal, como se deduz
de suas palavras na carta em que oferece ao pai o Te Deum composto por D. Pedro.
Nesta carta, D. Leopoldina acrescenta à guisa de escusa pelo estilo do príncipe: "que
é culpa do seu professor" (Carlos Oberacker Jr., A imperatriz Leopoldina, sua vida
e sua obra; Conselho Federal de Cultura e Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro,
1973). Na mesma linha, talvez movida pelo temor de desagradar à família que passara
250
José Maurício Nunes Garcia biografia
a ser sua, ou por excessiva discrição diante dos conflitos de opinião entre os que a
cercavam, pode-se admitir que D. Leopoldina estivesse aludindo in pectoris ao padre-mestre ao dizer que "os que têm talento não são premiados" (idem). Não se
pode esquecer que seu compatriota Neukomm também não alcançou grandes
vantagens na corte do Rio de Janeiro, além das que lhe haviam sido concedidas por
D. João à época de sua chegada, em 1816.
204)
Arquivo Nacional, Seção Ministérios, L« IJJ'160, livro 9-, e L* de Avisos, fls. 175. As
casas "de Aposentadoria" a que se refere o aviso representa uma rotina criada com
a vinda da corte para o Rio de Janeiro, face à dificuldade de encontrar residência
para tantos forasteiros em uma cidade despreparada para isso. O morador —
proprietário ou não — era afastado da casa, por ordem do príncipe regente, para ser
cedida aos recém-chegados. Problemas sem fim foram criados com o sistema. Muitos
músicos beneficiaram-se dessa lei que lhes favorecia habitação à custa da coroa.
205)
É impressionante o número de vezes que o padre José Maurício trocou de residência.
Desde a informação de seu aluno Bonifácio Gonçalves, que o conheceu na Freguesia
da Sé, "onde sempre o vi morando", registram-se: rua da Vala onde nasceu; rua
Detrás do Hospício (1792); rua das Marrecas (1795); novamente rua Detrás do
Hospício; rua dos Inválidos (1816); rua de São Jorge (1817); rua do Lavradio;
Segunda Travessa de São Joaquim; rua Detrás do Hospício e rua do Núncio (1830),
onde morreu.
206)
Otávio Tarquinio de Souza: A vida de D. Pedro I, Rio de Janeiro, José Olímpio, 3 v.,
v.1, p. 98, (Coleção Documentos Brasileiros).
207)
Erdmann Neuparth, ex-soldado de origem alemã, combateu como mercenário nas
tropas de Napoleão. Findo o trabalho no Rio de Janeiro, permaneceu na cidade,
agregado, como outros músicos do conjunto, à música das reais cavalariças.
Retornou a Lisboa em 1821 com Ziegler, músico do conjunto, onde fundou uma casa
de música, também editora, que tomou o seu nome e hoje é a Casa Valentim de
Carvalho, no Rocio.
208)
Taunay (op. cit., p.119) acrescenta: teriam desaparecido da casa do compositor no
dia do seu falecimento, com outras obras teóricas recentemente terminadas. Uma
cópia enriquecia em Portugal, no século passado, o arquivo do conde de Farrobo,
mas não se conseguiu localizar.
209)
Porto-Alegre, Estudos mauricianos,
210)
Nem a autoria do texto é conhecida, embora haja sido muito repetida, à época, no
Rio de Janeiro, uma obra de título igual, da autoria de Guillelmo de Guillelmi (partitura
no palácio da Ajuda); seu assunto gira em torno dos acontecimentos do casamento
de uma jovem com um velho que faria "o favor de morrer para deixá-la livre de
escolher outro marido". Como se vê, nada menos adequado a estimular a sensibilidade
musical do padre José Maurício.
Funarte, p.26.
Outro libreto, Le due sorelie, se refere à história de duas moças que se recolhem ao
convento e após muitas confidências descobrem que tinham amado, ambas, o mesmo
homem.
211)
Taunay, op. cit., p.97.
251
Cleofe Person de Mattos
212)
0 destino dos manuscritos será discutido mais adiante. Não antes de aludir a um
anúncio, datado de 26 de agosto de 1834, no Jornal do Commercio, referente ao
material musical, colocando à venda uma caixa de músicas de Marcos Portugal. Suas
composições espalharam-se abundantemente por Minas Gerais, e não seria milagroso
encontrar um dia a ópera do padre José Mauricio.
213)
Palavras ditas em Paris a Manuel de Araújo Porto-Alegre, publicadas na Revista do
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 1856 (tomo XIX, 3- trimestre, p. 35469).
214)
As jaculatórias são orações curtas, cantadas geralmente em vernáculo. De caráter
simplório, frequentam as novenas, trezenas, setenários, com melodias e textos
diferentes. O exemplo oferecido a seguir mostra o caráter popular de uma das 45
jaculatórias da autoria do padre José Maurício.
215)
Aos interessados nas minúcias dos trabalhos dessa restauração, vale uma consulta
aos livros já citados de Benedito Freitas sobre a Fazenda (v. 2, p. 131 e seguintes),
que têm como fonte primária os livros de Registro de Ofícios e Portarias da
Superintendência da Real Fazenda, nos anos 1817-1818.
216)
Difícil localizar a misteriosa data da enfermidade de Marcos Portugal, assinalada em
1817, no momento em que o seu nome está vinculado a realizações musicais de
importância. Em 5 de novembro, a chegada de D. Leopoldina, quando ele dirige a
Bênção nupcial; dois dias depois, L'augurio di felicitá, na Real Câmara; no dia 8 de
novembro sua ópera Mérope. Em 22 de janeiro de 1818 dirige a missa do aniversário
de D. Leopoldina; em 5 e 6 de fevereiro, são dias de festa da Aclamação de D. João,
com Missa da aclamação e o Te Deum dirigidos por ele. Ainda no decorrer do ano
dirige em regozijo pelo casamento de D. Pedro. A doença, ao que parece, deixou-lhe
sinais, que Marrocos comenta: "Marcos Portugal teve uma espécie de estupor, que o
deixou leso de um braço."
217)
O Moteto, incompleto, está conservado na Escola de Música (reg. 31.335), com 12
partes instrumentais (cordas, sopros, metais) e uma parte autógrafa de timbales.
Material sem nome de autor, entrou na biblioteca após a coleção de Bento das Mercês.
Construído em forma de responsório, como os demais motetos para ofertório das
missas, em três movimentos: allegro spiritoso, allegretfo,
andantino.
218)
Portaria lançada no Livro de Registro de Ordens e Portarias 1817-1818. folha
72, da Superintendência da Real Fazenda de Santa Cruz. Transcrita no livro de
Benedito Freitas, Santa Cruz, fazenda Jesuítica,
real e imperial. 1987. v. 2.
p. 146.
219)
Visconde de Taunay, op. cit., p. 118.
220)
M. A. Porto-Alegre, Estudos mauricianos,
221)
Arquivo Nacional, L- IJJ'165, p. 35v. Villanova Portugal comunica a Loulé, em 29 de
agosto, que o rei "houve por bem reabilitá-lo. concedendo-lhe as honras, mercês e
bens gozados pelo Marquês quando no real serviço, ficando em esquecimento e sem
252
Funarte, p. 27.
José Maurício Nunes Garcia biografia
efeito a sentença contra V. Excia. proferida. E me ordena que assim faça constar a V.
Excia. para sua inteligência e para que se ache hoje presente na Festa que se há de
celebrar na Capela da Real Quinta da Boa Vista".
222)
Adriano, um dos filhos do barão, desenhista e pintor de talento, integrou a Missão
Langsdorff, na viagem ao interior do Brasil. Desapareceu, afogado, nas águas do rio
Guaporé. Sua primorosa obra documental foi recolhida com os restos da Missão e
enviada para a Rússia. Resgatada há alguns anos, foi parcialmente publicada.
223)
Lançamento no Livro 63, p. 223 (José Mauricio ofereceu a Missa à Ordem). A idéia
de que pudesse caber a Batista Lisboa, diretor de música do Carmo e professor de
música pela Irmandade de Santa Cecília, a regência nas cerimónias do Carmo não
condiz com a figura do funcionário que vendia "bentinhos" no Domingo de Ramos.
Muito menos o seria para enfrentar a direção de grandes obras como a Missa de
requiem de 1816, onde o nome do padre José Maurício nem aparece.
224)
Pedro Teixeira de Seixas, morto em 1832, brasileiro, compositor, violoncelista (Real
Câmara, Real Teatro S. João), professor pela Irmandade Santa Cecília. Ao morrer,
muito moço, o Brasileiro (n, 43, p. 3) escreveu: "A música sofreu uma perda
considerável." "Seguiu o gosto de Rossini." Deixou várias obras: Coroação (Mi
bemol?), Novena do Espirito Santo (Fá), Te Deum (Lá), Credo (Dó). Em 1818compôs
O prodígio da harmonia, ou O triunfo do Brasil para um bailado de Luís Lacombe.
Existem músicas suas em Campinas. São João del-Rei, Ouro Preto (Museu da
Inconfidência).
225)
Não terá sido sem razão que em 1809, na partitura de 0 Triunfo da América, o compositor adverte o copista: "0 Sr. Mariano que cosa esta (partitura) junto com o outro
Quaderno deste Drama." E ainda outro recado: "0 Sr. Copista que copie por Extenso
e seguidamente esta repetição do Coro (pois hè muito pequena) para evitar-se
qualquer confusão que possa haver."
226)
Arquivo Nacional, IJJ'159, p.76. Outros registros sobre o assunto: Arq. Nac. cx. 12,
pac. 3 (F.M. Chaves); Livro IJJ'158, p.153.
227)
Padre Perereca, op. cit., p.724.
228)
T. von Leithold e L. von Rango, O Rio de Janeiro visto por dois prussianos em 1819;
tradução de Joaquim de Souza Leão Filho; São Paulo, Nacional (Brasiliana, v. 238;
dir. Américo Jacobina Lacombe).
229)
0 flautista francês era Pierre Laforge, mais tarde dedicado à impressão de música
brasileira. 0 violoncelista era Policarpo "... que executou uma ária do I Tancredi e
um adágio, sozinho, com tal emotividade e expressão que, sem exagero, acreditei
estar ouvindo o Maestro Romberg. Informando-me sobre esse homem vim a saber
que é meio demente."
230)
O casal Toussaint retornou à Europa em ????. Mas a família Lacombe — Lourenço,
André, Emílio (e sua mulher, cantora que atuara no São Carlos de Lisboa e fazia parte
do quadro do Real Teatro São João) — dava aulas de dança na rua do Conde e fixou-
253
Cleofe Person de Mattos
se no Brasil, onde deixou ilustre descendência de intelectuais e professores,
escritores e diretores de instituições de grande projeção cultural, ainda hoje em açio.
231)
Transcrição do original alemão, publicado no periódico vierense (no texto, tradução
de Marilda Cavalcanti):
Rio de Janeiro. Die Korporation der hiesigen Musiker (auf
portugiesisch
Irmandade, eine Art religiõser Verbindung) feyert jârlich das Fest der heil.
Caecilia, dem einige Tage darauf eine Messe zum Andenken der wâhrend dem
Laufe des Jahres verstorbenen Musiker folgt. Zu diesem Ende haben einige
Mitglieder dieser Korporation, die Sinn fur bessere Musik haben, fur die letzte
Caecilia — Feyerlichkeit
Mozart's Requiem vorgeschlagen,
welches
auch
letztverflossenen
December in der Kirche do Parto von einem
zahlreichen
Orchester autgefúhrt v/urde. Die Leitung des Ganzen hatte der Kapellmeister der
kõniql. Kapelle Hr. José Mauricio Nunes Garcia Obernommen.
Der Eifer, mit dem Hr. Garcia alien Schwierigkeiten entgegengearbeitet
hat, um
endlich einmal auch hier ein Meisterwerk unseres unsterblichen Mozart's zur
Auffuhrung zu bringen, verdient den wãrmsten Dank der hiesigen Kunstfreunde,
und ich meinerseits rechne es mirzur Pfiicht, diese Gelegenheit zu benutzen, um
unsere europâische Kunstwelt auf einen Mann aufmerksam zu machen, der es
nur seiner zu grossen Bescheidenheit zuzuschreiben hat, wenn seiner vielleicht
erst bey dieser Gelegenheit zum erstenmale õffentlich gedacht wird. Er hat um
so mehr die gerechtesten
Anspruche auf ehrenvolle Auszeichnung, da seine
Bildung bloss sein eigenes Werk ist. Geboren in Rio de Janeiro, wurde er in der
Folge im bischõflichen
Seminarium dieser Stadt aufgenommen, wo er nach
vollendetem Studium die Priesterweihe empfing und endlich ais
Kapellmeister
bey der bischõflichen Kapelle angestellt wurde. Bey der Ankunft des Hofes in
Brasilien erhielt er die Stelle ais Kapellmeister der kõnigl. Kapelle, welcher er,
seiner zerrútteten Gesundheit ungeachtet, noch immer rúhmlichst vorsteht.
Vor dem Requiem wurden die Nocturnen aus dem Officio Defunctorum, von David
Perez' in Musik gesetzt, gesungen. Diess Werk besteht aus mehreren Arien,
Duetten, Chõren etc. Die meisten dieser Sâtze sind mit der dem Kirchenstyl
angemessenen Wurde geschrieben.
Von mehreren Chõren wurde die Bewegung
viel zu rasch genommen, welches ich uberhaupt hier bey Aufluhrung mehrerer
Werke dieses Meisters bemerkt habe. Die Tradition dieser Werke ist, wie es
scheint, verloren gegangen. Besonders unangenehm wirkte auf mich ein Chor in
Ddur, dessen triviale Trompeten— und Hõrner-Gãnge bey der raschen Bewegung
mich an iene Trompeter-stúckchen
erinnerten, mit den man die in Karlsbad
ankommenden Bade-Gãste vom Thurm herab begrusst.
Die Aufluhrung des Mozartischen Meisterwerkes liess nichts zu wúnschen ubrig;
alie Taiente wetteiferten, um den genialen Bremdling Mozart in dieser neuen Welt
wurdig zu empfangen. Dieser erste Versuch ist in jeder Hinsicht so gut gelungen,
dass er hoffentlich nicht der letzte in seiner Art seyn wird.
Neukomm.
232)
254
Porto-Alegre (Estudos mauricianos,
Funarte, op. cit., p.27): José Maurício
"queixava-se da versatilidade dos seus companheiros d'arte, que esqueciam os velhos
mestres para darem a Rossini o cetro da arte musical. Levado de indignação começou
a desfiar as óperas do Cysne de Pesare, a despir essas criações melódicas, essas
belezas harmónicas e a mostrar a sua origem"; em determinado ponto, parou e disse:
"não, isto é novo, isto é sublime; é um homem imenso, é um génio que há de ir
longe."
José Maurício Nunes Garcia biografia
233)
0 hábito de empregar motivos de outros compositores não é estranho nem
supreendente na história da música. Praticaram-no compositores de várias categorias,
inclusive grandes de todos os tempos. São conhecidas as composições de Vivaldi e
Couperin, revividas na obra de J.S. Bach. Haêndel não foi mais discreto.
Antes do século dezoito, procedem da mesma forma: Orazio Vecchi emprega em
KAmfi parnasso uma canção já trabalhada por outro compositor — Cipriano de Rore
—, este repetindo um terceiro, como se se tratasse de melodia anónima sem que
tenha perdido a identidade.
Já no século dezenove, os que assim procediam lançavam o d'après..., procurando
justificar transcrições próprias, às vezes com caráter de homenagem.
234)
A Missa mimosa, que Maciel não registra — somente Miguel Pedro Vasco que lhe
atribui data de 1820 — é vitima da infidelidade de copistas e arranjadores. Entre os
últimos, Miranda Machado, que foi da Catedral no fim do século dezenove. Não é
possível avaliação exata da obra — notadamente nos trechos destinados a solo —
em qualquer das cópias existentes — Escola de Música, Museu Carlos Gomes e as
dos arquivos de São João del-Rei — segundo o pensamento original do compositor.
Na versão mais confiável, a do Museu Carlos Gomes, a cópia terá tido o apoio em
partes avulsas do Rio de Janeiro: a flauta, com rubrica Bapta. e o "basso instrumental", parcialmente copiado da parte do copista João Antônio, também com trechos
solísticos substituídos (Laudamus, Qui sedes e Quoniam; o Domine Deus, a 4,
copiado).
235)
Visconde de Taunay, op. cit., p.103.
236)
Idem, p.96.
237)
Aumentos concedidos por D. João em momento de entusiasmo, caso de João dos
Reis Pereira, que passou a receber 5$000 por mês em determinada atuação, ou os
aumentos gerais, distribuídos pela Aclamação, quando cada músico recebeu 25$000.
238)
Visconde de Taunay, op. cit., p.103.
239)
Idem, p.96.
240)
Peça de bom gosto, posteriormente modificada pelo Dr. Nunes Garcia, que substituiu
o retrato de D. João, em esmalte, pelas suas iniciais. Exibida no Teatro Municipal do
Rio de Janeiro no ano do sesquicentenário da morte do compositor, na pequena
mostra organizada pelo Arquivo Nacional, que elaborou uma ficha técnica de
tabaqueira: "... peça francesa, mas o alto relevo trabalho brasileiro; o ouro, de
coloração diferente do todo da caixa, e os brilhantes lapidação brasileira. A inscrição
circunscrita pelo "alo, portanto, é trabalho posterior". A tabaqueira foi conservada
por D. Judith Goulart, afilhada do Dr, e filha de seu amigo Dr. Inácio Goulart.
Juntamente com um par de fivelas de sapato que pertenceram ao padre José Maurício.
241)
Conservado na Escola de Música sob registro 3493-2609, o volume é proveniente
do Imperial Conservatório de Música — extinto em 1891 — e foi registrado — por
Leopoldo Miguez — no Livro I, aberto em 2 de janeiro de 1891, com registro lançado
às páginas 113, em 1893. (Como se vê, antes de ser comprada a coleção de Bento
Fernandes das Mercês).
255
Cleofe Person de Mattos
Antes do Imperial Conservatório, o Compêndio teve outro proprietário, cujo nome
vem lançado na página-tftulo: "Pertence a Jm d'Almeida", nome de um violinista da
Real Câmara.
242)
A viabilidade de nâo ser a única obra teórica de sua autoria é levantada em artigo
publicado no Jornal do Commercio de 18.1.1840 sob o titulo: "A linguagem da
música", onde se comenta: "Deus fale na alma de José Maurício, que foi o homem
que melhor compreendeu a metafísica da Música Eclesiástica. Diz este grande homem,
no prólogo de sua Arte da Musica: 'um ouvido de páu supõe um coração de pedra"'.
Se o padre José Mauricio Nunes Garcia não escreveu estas palavras em livro seu, é
difícil saber. É um título a mais e bastante aproximado do que vem citado na "alegoria"
do filho: "Elementos d'Arte da Música". Não foi encontrado, porém, nenhum exemplar.
243)
A portaria que regulava o assunto tem data de 27 de julho de 1821, e refere-se ao
pagamento "dos pensionários do Real Bolsinho no corrente ano". A mesma portaria
anunciava "outras relações", onde eram visados, entre outros, "os músicos da Real
Câmara ou Capela que, tendo pingues ordenados têm também vencimentos pelo
Bolsinho e se lhes pagará vindo incorporados nas escrituras dos seus contratos,
que deverão apresentar".
Para José Maurício, a perda do benefício significava que tinha fim o que lhe era dado
para alimentação (vide nota 102), convertida em 32$000 mensais por não suportar
a insolência com que era servido na Ucharia.
Trinta anos mais tarde, o dr. José Maurício mostrava quão vivo era o seu
ressentimento diante dessa injustiça, e escrevia, ao ensejo da inauguração da estátua
de D. Pedro no Rocio (p. 39 dos Apontamentos biográficos): "Oh! essa estátua
equestre não me fará comemorar o reinado de um príncipe que tão surdo foi aos
gemidos de um velho servidor de seu Augusto Pai". D. Pedro terá dado um único
sinal de apreço ao velho mestre-de-capela com a possível encomenda das Matinas
de Nossa Senhora do Carmo, em 1824. Alívio à sua miséria, nunca lhe proporcionou.
244)
D. Pedro de Alcântara de Bourbon e Bragança (12 de outubro de 1798 — 24 de
setembro de 1834), primeiro Imperador do Brasil, nasceu em Portugal, no palácio
de Queluz, onde veio a morrer, no mesmo quarto de "Don Quixote" em que nasceu. A
personalidade acima de tudo politica que o dirigia desajudou-o nos estudos, mesmo
nos de música, arte para a qual era dotado com reais qualidades. Teve professores
de música: Marcos Portugal, com quem estudou antes da família real vir para o Brasil
— que se pode reconhecer o responsável pela sua formação — e após 1811, quando
o compositor português veio para o Brasil. Mais tarde Sigismund Neukomm deu-lhe
aulas de contraponto, mas refere-se à pouca assiduidade do aluno. O músico que
nele existia foi utilizado politicamente, e assim D. Pedro impôs-se como o compositor do momento. São de sua autoria as composições ouvidas nas comemorações
dos grandes momentos históricos; já o fora em 1821, quando chegou ao Brasil a
notícia da chegada a Portugal de D. João. Nessa ocasião, ele escreveu ao pai, dizendoIhe da festa na Capela Real, e que fora ouvido o Te Deum "de m" autoria" (Tarquinio
de Souza, A vida de D. Pedro, v.2).
245)
Biblioteca Nacional, Seção de Manuscritos, II, 34, 28, 34.
246)
Outros músicos da Real Câmara: Manuel Joaquim Correia dos Santos, Aleixo Borch,
Joaquim de Almeida, Pedro Teixeira de Seixas, José Joaquim Silva desejavam
"enquadramento" na Capela, (Doe. 10, 26.08.1822).
256
José Maurício Nunes Garcia biografia
247)
Cena relatada pelo visconde de Taunay, op. cit., p.110: "Havia o nosso artista
improvisado tanto e sem descanso, que uma vez entrando no coro da então já Capela
Imperial, parou na porta e perguntou a um discípulo, como que extasiado: "de quem
é esta bela música?". — "É sua, padre-mestre, pois não se lembra?". — "Minha?
respondeu José Maurício!" — "Sim, senhor, sua". — "Está-me parecendo agora;
mas quando escrevia-a eu, que não me lembra?" — "No tempo do rei velho",
respondeu-lhe o discípulo. José Maurício calou-se, abateu a cabeça, limpou as
lágrimas...".
248)
Documento na Biblioteca Nacional, Seção de Manuscritos.
249)
Há cópia — incompleta — da Missa de D. Pedro na Escola de Música, sob registro
4215-3168. Manuscrito atribuído por letra diferente (mas a mesma que o faz em
numerosos casos) ao padre José Maurício.
Uma cópia isolada do Laudamus da Missa, com o nome do autor, encontrada em
São João dei Rei (comunicação de Aluísio Viegas) foi o elemento de identificação do
manuscrito da Escola de Música. O "Laudamus da Missa de Nossa Senhora do Carmo"
tornou possível identificar o verdadeiro titulo, haja vista a devoção do imperador
por Nossa Senhora do Carmo. Seja lembrado, porém, um ofício na igreja de SanfAna
solicitando a "Missa da Aclamação" de D. Pedro. Faz crer, como em outros casos,
fosse denominação corrente da obra vinculá-la ao acontecimento em que foi ouvida
como a Missa de Santa Cecília e a Missa da Degolação de São João Batista.
250)
A partitura autógrafa (Museu da Inconfidência, Ouro Preto, acervo Curt Lange) está
incompleta. Falta-lhe o Qui toliis, solo de soprano, que é encontrado em cópia, em
vários arquivos do Brasil: Museu Carlos Gomes, Coleção Régis Duprat. Lauro
Ayestaran (La musica en el Uruguay) localizou-a na igreja de San Francisco, reduzida
a três vozes. O autógrafo foi localizado por Curt Lange em Ouro Preto, segundo declara
no artigo em que faz a análise da obra (Yearbook to Interamerican Institut, Tulane
University, 1963). A Missa mostra ainda reminiscências de rossinianismo. Não
somente no modo de tratar a orquestra como na utilização de motivos do compositor italiano.
251)
AGERJ, L< IJJ'198.
252)
AGERJ, L* IJJ'198.
253)
AGERJ. L- IJJ'198.
254)
AGERJ, L-IJJ'198.
255)
AGERJ, L> IJJ'198.
256)
Esses nomes estão todos registrados no Arquivo Nacional, L> IJJ'174: Antônio S.
Cruz (p. 15, em 14.1), pede o lugar de 2< fagote; Herculano José de Carvalho (p.191,
em 12.5) quer ser admitido como violeta e Antônio Xavier da Cruz (p.199. 27.5) que
pede para ser admitido como 21 flauta.
257
Cleofe Person de Mattos
257)
A idéia de Aires de Andrade (Francisco Manuel da Silva e seu tempo, p.72) de que
essa fora levada em 1809, no Teatro de Manuel Luís, não se mantém. A "bela pessa"
a que se refere o marquês de Aguiar só poderia ser uma das duas peças compostas
nesse ano, por José Maurício: O Triunfo da América ou Ulisséa, drama eroico.
258)
Ópera de igual nome foi muitas vezes apresentada no Rio de Janeiro. Era seu autor
Guilhermo de Guillelmi. A hipótese de que o texto pudesse servir de inspiração à
obra de José Maurício é completamente afastada.
259)
A estranheza da data: 1832 para a redução, pode creditar-se a engano de copista, ou
ser encomenda anterior. Mais estranho será a inclusão do motivo rossiniano, ao longo
de dez compassos, na cópia única encontrada dessas Matinas.
260)
O requerimento no Arquivo Nacional (SPE IJJ'193, p. 24), ou doe. 16 nas caixas
verdes, vem publicado no livro de Ubaldo Santos: A história gloriosa da Santa Casa.
261)
Entre as obras tardias que poderiam enquadrar-se nesta homenagem póstuma, vale
citar composição de evidente maturidade, o Oficio a 8 vozes, em fá menor, com
acompanhamento de dois órgãos (CT 191), sem destino conhecido, sem dúvida a
obra mauriciana que acusa maiores probabilidades de corresponder à intenção de
ajustar uma obra à expressão de um sentimento. É obra sentida, esplendidamente
bem escrita, com a interpretação do texto segundo os princípios filosóficos do compositor; é das grandes obras do padre. Acompanhava-a a Missa, também em fá menor,
desaparecida, da qual se tem o incipit no valioso C.T. de Olinto de Oliveira, (vide
Cadastramento).
262)
Augusto César de Assis integrava o quadro da Capela Real; já fizera outros solos de
José Maurício.
263)
Luis Gabriel Ferreira Lemos, seria falsetista, velho amigo de José Maurício, e cantara
no Teatro de Manuel Luís.
264)
Cândido Inácio da Silva. Ao partir para Santos a alfândega fez o seu retrato: "Estatura
baixa, magro, rosto e corpo comprido, pouca barba". Foi aluno de José Maurício, ele
próprio compositor e tenor credenciado.
265)
Apolinário. Houve um Antônio Joaquim Apolinário. Poucas informações se têm do
mesmo. Foi da Capela, e mandado "tirar da folha".
266)
Gabriel Fernandes da Trindade. Autor de famosas modinhas, muitas das quais
impressas por Pierre Laforge. Foi cantor da Capela Imperial. Dele disse monsenhor
Fidalgo: É um perito na arte da música, tem excelente voz".
267)
João dos Reis Pereira (Minas Gerais, 1782 — Rio de Janeiro, 1853) terá sido, à
época, o mais bem dotado dos cantores brasileiros ouvidos por D. João VI, que soube
reconhecê-lo e recompensá-lo. Atuou no Teatro de Manuel Luís antes de 1808, cantou
na Real Capela, e no Real Teatro São João. Muitos solos de José Maurício foram
escritos com base nas possibilidades técnicas desse cantor. João dos Reis Pereira
sobreviveu de muito ao seu glorioso período de cantor, e exerceu outras atividades:
258
José Maurício Nunes Garcia biografia
diretor de música em conjuntos que atuavam em igrejas e procurador da Irmandade
de Santa Cecília. Foi excelente copista.
268)
A carta do Dr. Nunes Garcia foi publicada na Revista do Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro, de 9 de dezembro de 1853. Seu original encontra-se na lata
3^0, doe. 39. 0 manuscrito da Missa (desde 1853 no Arquivo do I.H.G.B. do Rio de
Janeiro) é guardião do precioso autógrafo sob registro ARQ. - 2-10-2.
269)
Visconde de Taunay: op. cit.
270)
Músico da Capela Real, filho de Cláudio Benedito, também músico, que fazia cópias
de obras de José Maurício na Copistaria de Teotónio Borges Diniz. Amigo de José
Maurício.
271)
Arquivo Nacional, cx. 12, pac. 1, doe. 8, fl. 27.
272)
Arquivo Nacional, cx. 12, pac. 1, doe. 1.
273)
Arquivo Nacional, Livro de Registro de Avisos e Ofícios
274)
Biblioteca Nacional, Seção de Manuscritos. Antigo: Livro V, fl. 83, registrado no Livro
9. fl.43, Registro atual: C-954,22.
275)
Biblioteca Nacional, Seção de Manuscritos, C-320,3.
276)
Visconde de Taunay, op. cit.
277)
D. Maria Amélia, filha de Eugênio de Beauharnais, (irmão de Josefina, imperatriz da
França) e da princesa Augusta Amália se carecia de "puritanismo na origem" tivera
educação primorosa (Otávio Tarquinio de Souza; A vida de D. Pedro-, op. cit., p.
799). Ostentava qualidades que D. Pedro exigia para sua futura esposa; virtude e
formosura. Escreveu à época do noivado, 5 de agosto de 1829 (mesma fonte, p.
800v.): tinha 17 anos e era estimada como "das mais belas princesas da Europa".
Caberia a essa princesa, que conseguirá modificar os hábitos de D. Pedro,
acompanhá-lo na vida política da última fase do imperador no Brasil, até a Abdicação.
278)
A Missa da Aclamação como é chamada em documento na igreja de SanfAna, talvez
não tivesse esse nome, no original, e sim Missa de Nossa Senhora do Carmo, título
que é lançado numa cópia isolada do Laudamus, em São João dei Rei (informação
de Aluísio Viegas).
279)
Otávio Tarquinio de Souza, A vida de D. Pedro, op. cit.
280)
A breve digressão que ora se faz em torno dos sintomas da doença que o vai levar ao
fim não tem outro intuito além de síntese do que ficou dito em páginas anteriores, e
evocar esses sintomas: "Nos últimos tempos de sua vida só viveu para a arte, porque
a ella consagrou todas as horas que não sofria cruelmente", escreve Porto-Alegre.
Januário da Cunha Barbosa escreve, no Necrológio: "José Maurício começou a sofrer
IJJ'190, p. 61.
259
Cleofe Person de Mattos
enfermidades que muito se agravaram pelo trabalho a que se dava...". Já no fim
Simão Portugal alude às "crónicas moléstias" em março de 1830, no serviço da
sobredita igreja (Biblioteca Nacional, "Documentos biográficos", SP, C,50).
281)
Um russo que esteve no Brasil em 1823 (Kozekue) e que escreveu um livro sobre a
nossa cidade — do qual Rodolfo Garcia dá notícia na Revista do instituto Histórico
e Geográfico Brasileiro (v. LXXX, p.507) — atribui à alimentação deficiente dos
escravos (farinha de mandioca, como base), a doença que os flagelava horrivelmente:
uma espécie de "lobinhos", localizados sobretudo no rosto e nas pernas, que não
supuravam nem abriam feridas, mas aumentavam tanto de volume que desfiguravam
o doente.
282)
Marcos Portugal desapareceu dois meses e um dia antes do padre José Maurício.
Deixou viúva D. Joana Maria Portugal, que no ano seguinte dirigiu-se a D. Pedro
numa exposição acerca de seus parcos recursos, pedindo uma pensão (400$000),
em nome do muito que Marcos Portugal fizera ao imperador (Biblioteca Nacional,
Seção de Manuscritos, 935-24). Sepultado no convento de Santo Antônio, seus ossos
aí ficaram muitos anos, até serem descobertos por Porto-Alegre, que providenciou a
remessa dos mesmos para Portugal, onde se encontram numa urna de madeira na
igreja de Santa Isabel, onde foi batizado.
283)
Dr. Nunes Garcia, Estudos maurlcianos, p. 20.
284)
Arquivo Nacional. Teor da carta de Simão Portugal: "Havia até aqui, na Imperial Capela,
dois Mestres de Capela, habilitadíssimos ambos, e importantes em preencherem os
seus encargos. O Padre José Maurício e Fortunato Mazziotti. Firmado nestes
raciocínios, e igualmente em esfoutro de que ele, pelo uzo de haver regido as suas
composições e pela longuíssima prática de ter acompanhado outras feitas dirigidas
por muito insignes mestres, poderá executar este emprego com a necessária
efficiencia."
P. a V.M.I. otimo conhecedor, e Remunerador Magnifico dos que se distinguem nesta
profissão, que, Attendento às razões allegadas, Haver por bem nomeá-lo Mestre da
sobredita Imperial Capella, com os mesmos vencimentos de qualquer dos dois acima
referidos. Ass. Simão Portugal."
Carta lançada no Livro de Registro de Avisos e Ofícios, IJJ'188), 1829-1830, p.140.
285)
Documento na Biblioteca Nacional, Seção de Manuscritos (extraído do Livro 133 do
1« Ofício de Notas — Av. Graça Aranha, 324). Prosseguem, na mesma Pública Forma,
os detalhes da ocorrência: "O curador aceitou ... E pela parte que toca ao legitimato,
que passa a ter todas as honras, privilégios como de legítimo matrimónio, e gozar
dos bens, fazendas, serviços do dito seu Pai.... Que haja a nobreza e privilégios de
seu Pai, que for direito comum, leis, ordenanças, usanças ..."
286)
O "preceito materno" a que se refere o doutor às páginas 44-45 dos Apontamentos
é repetido (apesar dos seus oito anos): "Não tireis para os outros o que é de José,
ele hè que hè vosso filho", dizia a velha avó. Devia referir-se ao fato de ser o único
educado em sua companhia, beneficiando-se do exemplo de austeridade que lhe
dava o pai. 0 que não impede seja registrado essa contradição nas palavras acima.
287)
Januário da Cunha Barbosa, Necrológio.
260
José Maurício Nunes Garcia biografia
288)
Policarpo era músico do Real Teatro São João.
289)
Porto Alegre, Estudos mauricianos, op. cit., p.28.
290)
Vi/ite anos permaneceram seus ossos no claustro da igreja de São Pedro, até que
por provisão do monsenhor Narciso Nepomuceno (vigário capitular de 1852 a 1858)
foram transferidos para a igreja do Sacramento. Foram então conservados em uma
urna de madeira feita por subscrição pública para guardar os ossos de frei Sampaio
(Joaquim Manuel de Macedo, op. cit., p.153). Como tardasse o produto da
subscrição, o entalhador vendeu-a ao dr. Nunes Garcia. Este pretendia colocar os
ossos'do pai na campa que fosse também sua. Não terá tido tempo de fazê-lo; sua
campa foi adquirida pelo dr. Inácio Goulart, compadre e testamenteiro, no dia de sua
morte (18.10.1884), no cemitério São João Batista. Se a vontade do dr. Nunes Garcia
foi cumprida posteriormente, não há registro no cemitério.
Terminadas as celebrações religiosas do sepultamento, não faltarão problemas para
o filho do padre José Maurício. Nas páginas dos Apontamentos biográficos, o dr.
Nunes Garcia revela os acontecimentos que se seguiram ao enterro e à missa de
sétimo dia. Algumas minúcias evidenciam que não lhe faltaram problemas. A
proprietária da casa da rua do Núncio comunicou-lhe de imediato que o aluguel
passaria a custar 32$000, o dobro do que era ao tempo do compositor. Veio-lhe
também a noticia de que suas duas irmãs — Panfllia e Josefina — então com 19 e 20
anos, ficariam sob sua guarda. Responsabilidade impraticável para um estudante
sem trabalho. A mãe, Severiana, já casada com um português desde muito e com um
filho nascido em 1820, não teria facilidades em mantê-las junto a si. O problema foi
resolvido com o auxílio da tia Felizarda, que passou a ocupar-se das duas irmãs
"mediante módica pensão". Por outro lado, não lhe faltaram provas de consideração
de pessoas amigas de José Mauricio, com auxílio financeiro: o bispo D. José Caetano,
o general Aguiar e outros que o ajudaram a vencer esta primeira e difícil fase.
Dos outros irmãos sabe-se pouco. De Apolinário José, músico que tocava órgão nas
igrejas da Lampadosa e Sacramento, não se ouviu mais falar. O contrário deu-se
com Antônio José, nascido em 1813, o último dos filhos do padre José Maurício.
Seguirá pela vida experimentando várias profissões: escritor, jornalista, ourives,
conforme já ficou dito em nota. Foi sempre amigo do irmão, a quem responsabilizava
por não ter sido legitimado.
O dr. Nunes Garcia casou-se em 1855 com Ana Francisca Inácio Silva mas desquitouse (divorciou-se, escreve ele) acusando sua mulher de querer assassiná-lo com vidro
moído na alimentação, com a cumplicidade de dois escravos. Teve um filho a quem
deu o seu nome e que morreu logo em seguida, e outro que morreu em 1861 e está
sepultado no cemitério de São Francisco Xavier. Josefina morreu na década de 1880.
Deixou 2:000$000 na Caixa Económica. Assistiu-a Antônio José, então com 83 anos.
Antônio José assinava com o nome do pai, embora não fosse legitimado, e atribuía à
irmã o mesmo sobrenome.
291)
Ao cumprir-se o ato da Regência, fez-se o levantamento da vida funcional dos músicos
que então serviam na Capela desde 1809: data da portaria de admissão, ordenado e
aumentos periódicos, licenças e jubilação. O documento tem o número de 53 e é de
11 de julho de 1831 (Arquivo Nacional, cx.12).
292)
Curioso que o copista de obras reorquestradas ou remanejadas — Matinas de
Finados ou a Missa pastoril—foi muitas vezes o próprio Bento das Mercês. Na sua
fidelidade ao compositor, Bento copiava tanto a versão tratada por Francisco Manuel,
reduzida de oito para quatro vozes, quanto o original, que assim não ficaria esquecido,
e, caprichosamente copiada por Bento das Mercês, ao mesmo tempo, havia a versão
mais difundida do que a original, para dois coros e dois órgãos. Vários desses
261
Cleofe Person de Mattos
exemplos dificultaram muitas vezes o reconhecimento da versão original de
determinadas composições: a Missa mimosa será o caso mais grave desse
procedimento.
293)
A chamada Missa da purificação de Nossa Senhora é exemplo concreto: reúne o
Kyrie de 1808 a um Credo de 1820 e um Moteto de 1808: Felix Namque. Não se
sabe a que missa correspondem no Catálogo de Maciel.
294)
Arquivo Nacional, Seção judiciária, Verba Testamentária, 1887, Livro 48, fl. 6.
295)
O título, atribuído pelos organizadores da comemoração (Taunay, Nepomuceno,
Miguez), só foi restaurado no concerto de 1959.
296)
Esta Missa, cujos manuscritos foram comprados em leilão por Alfredo Pinto de
Moraes em lastimável estado de conservação, traz dúvidas a respeito de sua fatura,
se a três ou quatro vozes (a parte de baixo não localizada, parece indiscutível, na
opinião de quem escreve estas linhas. O título também desapareceu, assim deixando
em dúvida assegurar se a capela ou não.
297)
A execução mereceu uma resenha crítica do jornalista Rodrigues Barbosa Jornal do
Commercio, que expõe a estrutura da Missa — ou melhor, das partes solistas —
Laudamus (solo de soprano), Domine Deus (dueto de ) Qui sedes (solo cantado
por Carlos de Carvalho, baixo) sequência hoje não encontrada em qualquer das cópias
existentes, mesmo na do Museu Carlos Gomes, que se pode supor de maior fidelidade,
por ter, entre as fontes em que se terá apoiado, duas partes do Rio de Janeiro, uma
das quais para flauta — copiada por Batista — e uma parte incompleta em cópia
com o nome de João Antônio.
298)
Veio para o Rio de Janeiro e fez parte da Irmandade de Santa Cecília (como dissidente
para criar a filial em Niterói), quando tomou conhecimento de José Maurício, cuja
obra divulgou enormemente em Porto Alegre. Mais tarde entrou para a Capela Imperial (1837). Cantor e compositor foi para o Rio Grande do Sul como mestre de banda
e de orquestra e, ao começar a Guerra dos Farrapos, caiu nas forças revolucionárias.
Foi quando compôs o Hino Farroupilha, hoje hino oficial do estado do Rio Grande do
Sul. Fixou-se em Porto Alegre, onde foi mestre-de-capela da Catedral e organizou
um pequeno arquivo. Em 1856 fundou a Sociedade Musical Porto-alegrense e regeu
o concerto inaugural do Teatro São Pedro, em 1858.
299)
Lembrar na Escola de Música, entre as obras não identificadas, a parte de bombo de
uma obra que seria Matinas de Reis. Texto:
2> Resp.: Omnes de Saba venient
6> Resp.: Thus auram et deferentes
A parte existente (bombo) tem marcas de umidade, o que reforça possível origem S
C.
Obs.: Na Escola de Música há: 2- Resp. e 6> Resp. (texto: Omnes de Saba veniente,
aurum et thus...)
300)
Dona Adir Leijhardt de Freitas, regente do coro da igreja de Rio Pardo, sobrinha do
regente do Coro de Santa Cecília, maestro João de Deus Lieben — também regente e
professor da Banda de Santa Cecília — que recebeu por doação de seu tio as músicas
da igreja e da banda.
301)
Ambas com sinais de adulteração. Nos Responsórios fúnebres podem-se pôr em
dúvida as Introduções que precedem cada Responsório. Teriam sido acrescentados
pelo arranjador-copista? A estrutura geral da obra é muito próxima, inclusive
tematicamente, de outros ofícios, com evidente substituição de instrumentos.
262
José Maurício Nunes Garcia biografia
As Matinas de Nossa Senhora do Carmo terão sido menos felizes. Adota no primeiro
Responsório um motivo de Rossini que atravessa, ipis litteris os primeiros vinte
compassos, atribuindo-lhe uma alegria que não cabe às Matinas.
263
Cadastramento das obras
José Maurício Nunes Garcia biografia
O cadastramento ora f e i t o abrange t o d o s o s títulos d e q u e
se p ô d e t o m a r c o n h e c i m e n t o : m a n u s c r i t o s in spécie,
obras
desaparecidas mas citadas nos antigos catálogos e r e l a ç õ e s de
obras m e n c i o n a d a s ao curso desta biografia. Incluem-se
igualmente c o m o fontes d e informação, contratos c o m previsão
d e t r a b a l h o — anuais, c o m o o s d o S e n a d o d a C â m a r a — o u
p a g a m e n t o s registrados nos livros d e despesa das irmandades e
o r d e n s t e r c e i r a s — c o m as q u a i s t r a b a l h o u o p a d r e J o s é M a u r í c i o
— p o r s e r v i ç o s prestados. Categoria e s p e c i a l f o i dada às o b r a s
q u e a m e m ó r i a histórica c o n s e r v o u , c o m ou sem data.
D o i s c a t á l o g o s o u relação de o b r a s m e r e c e m citação particular: o C a t á l o g o T e m á t i c o d o dr. O l i n t o d e O l i v e i r a , l e v a n t a d o
c o m o s manuscritos d o A r q u i v o Mendanha, que foi mestre-dec a p e l a da C a t e d r a l d e P o r t o A l e g r e , c o m a p a r t i c u l a r i d a d e d e
t r a z e r o incipit
das p e ç a s m e n c i o n a d a s . E a R e l a ç ã o d e Obras
C o m p o s t a s p a r a a R e a l C a p e l a a t é o dia 6 d e s e t e m b r o d e 1811,
elaborada p e l o próprio compositor.
A s i n f o r m a ç õ e s c i r c u n s c r e v e m - s e a o título da o b r a e à data
de composição,
esta q u a n d o p o s s í v e l .
Observações
c o m p l e m e n t a r e s c o m o o texto — q u a n d o não constar d o título
•— s e r ã o a c r e s c e n t a d a s e m c o l u n a e s p e c í f i c a . A s o b r a s já
c a t a l o g a d a s e n u m e r a d a s t e r ã o esta c i r c u n s t â n c i a a s s i n a l a d a . O
Catálogo
temático
das obras d o p a d r e José Maurício p u b l i c a d o
e m 1970 p e l o C o n s e l h o F e d e r a l d e Cultura, f e i t o p e l a a u t o r a
deste trabalho, é p o n t o de r e f e r ê n c i a para manuscritos
c a t a l o g a d o s e n u m e r a d o s . O m e s m o tratamento será d a d o às o b r a s
desaparecidas desde q u e a f o n t e d e i n f o r m a ç ã o o registre. A
t r a n s c r i ç ã o d a s c i t a ç õ e s t e m p o r b a s e o A p ê n d i c e ( p á g i n a s 3374 5 ) , d e s s e Catálogo
temático.
M e s t r e - d e - c a p e l a d a R e a l C a p e l a — a n t e r i o r m e n t e da Sé
C a t e d r a l — o p a d r e J o s é M a u r í c i o c o m p ô s s o b r e t u d o p a r a essas
entidades.
Outras entradas, de obras n ã o previstas no
Catálogo
temático,
d e v e m - s e a o registro d e p a g a m e n t o feito a o padremestre e m outros c a m p o s d e trabalho q u e n ã o a Catedral e Sé. O
c a s o m a i s c o n c r e t o e s i g n i f i c a t i v o é o da I r m a n d a d e d e S ã o P e d r o
d o s C l é r i g o s d o q u a l resultaram, n ã o p r e c i s a m e n t e n o v o s títulos,
visto q u e a p r o d u ç ã o praticamente desapareceu, mas a notícia
d e u m r e p e r t ó r i o i n i c i a d o c o m a Missa para a festa do
santo
patriarcha.
P r o d u ç ã o m a n t i d a c o m r e g u l a r i d a d e d e s d e 1799 até
1811, e s s a s o b r a s e s t ã o i d e n t i f i c a d a s , n o c a d a s t r a m e n t o , p e l a
s i g l a ISP.
As obras destinadas à O r d e m Terceira d o C a r m o figuram
n e s t e c a d a s t r a m e n t o e m n ú m e r o m u i t o m e n o r d o q u e teria s i d o ,
na r e a l i d a d e , p e l a s r a z õ e s já e x p o s t a s nesta b i o g r a f i a .
267
Cleofe Person de Mattos
P a r a f a c i l i t a r o c a d a s t r a m e n t o d a s o b r a s e m q u e a data n ã o
f i g u r a n o d o c u m e n t o n e m na f o n t e o n d e se l o c a l i z a a c i t a ç ã o ,
d e c i d i u - s e s e p a r a r o total d e o b r a s e m três g r u p o s d i s t i n t o s , d e
a c o r d o c o m as c a r a c t e r í s t i c a s da d o c u m e n t a ç ã o :
G r u p o A: Manuscritos datados e citações igualmente c o m
d a t a , m e s m o as o b r a s d e s a p a r e c i d a s .
G r u p o B: M a n u s c r i t o s n ã o d a t a d o s e c i t a ç õ e s t a m b é m s e m
data c o n h e c i d a .
G r u p o C: O b r a s d e s a p a r e c i d a s , mas c o n h e c i d a s a t r a v é s d e
r e f e r ê n c i a h i s t ó r i c a ( c o m data c o n h e c i d a o u n ã o ) .
A s i n f o r m a ç õ e s o b e d e c e m à s e q u ê n c i a : data — t í t u l o —
o b s e r v a ç õ e s . O s títulos a l t e r n a m - s e c o m as c i t a ç õ e s a o l o n g o d o
cadastramento. Distinguem-se graficamente quanto à natureza
d a d o c u m e n t a ç ã o . A s c i t a ç õ e s v ã o transcritas e m g r i f o , e a
indicação numérica e m algarismos romanos.
268
Grupo A: Obras datadas
Data
Catalogação
e
citações)
Observações
1783
( P M 1)
Antífona/Tota
pulcra es Maria
Consertad"/
a 4 vos Com dois violinos violas e/Basso/
Feito pello Sr. Jozè Mauricio
Nunis
da
Gama/No anno de 1783•/Bap"/H
- 9y.
1788
(PMApênd.XXIV)
Ladainha
de Nossa Senhora a 4 vozes e
órgão, composta em 1 788. (M)
1789
(PMApênd.XIX)
O Redemptor Sume Carmen - hino para a
Procissão da Sagração dos Santos Óleos, a
4 vozes somente. Composto no ano de 1789.
J.J. Maciel
1789
(PMApênd.XX)
Pange
M. registra dois hinos c o m o
m e s m o texto. O s e g u n d o não tem
data.
1789
(PMApênd.CLIII)
[17891
1789
V
Título e
(manuscritos
( P M 192)
lingua
Obra composta aos 16 anos para
a Catedral e Sé.
Pange lingua para as procisões
do SSm°
Sacramento
de 5a feira maior, a 4 vozes
somente, composto no ano de 1789.
J.J. Maciel
Bradados
Os motetos desta obra o c u p a m n o
PM vários registros que serão
u n i f i c a d o s : Bradados,
Popule
meus, Crux fidelis / Felle potus,
Vexilla
regis,
Heú e 5epulto
Domino.
de 6afer"
Heu e Sepulto
maior.
Domino.
Partitura incompleta d o s últimos
trechos d o s Bradados.
r
Data
Título e
[1789]
2afeira
Maior
CT 192b: 2a fra Maior. Gradual.
Exsurge
Domine.
Verso:
Adjuvando
nos Deus.
Mottetto:
Domine Jesu p" o Pregador.
(CT
208).
[1789]
3afeira
Maior
CT 192C: 3afeira Maior.
Ego sum.
O f e r t ó r i o : Custodi me
[1789]
4afeira
Maior
C T 192d: 4afeira Maior. Gradual:
Ne avertas. Tracto Ne avertas et
clamor
meus
ad te
veniat.
Ofertório:
Domine
exaudi
orationem
meam.
1790
Basso/Sinfonia
funebre/Com
Rebecas, 2
Violetas,/Duas Flautas, Duas
Trompas/Dois
Fagotes Obrigados/e
Baixo/Composto
no
Anno de 1790/Por Joze Mauricio
Nunes
Garcia/E
a elle pertence
este
papel,
(incipit).
A u t ó g r a f o . O u t r o título c o m
r e s p e c t i v o material c o n f i r m a
a c r é s c i m o de clarins. CT 230.
1791
Te
CT
Apênd.340.
Obra
não
identificada, anunciada na Gazeta
de Lisboa em 10 de maio d e 1791.
Deum
Catalogação
Observações
Gradual;
_
o
o
J
V
Data
Título e
Catalogação
1793
Gradualpa
1793
Gradual Violinoz
Viola, Flauti, Trombe, e
Basso — a 4 vozes — Oculi Omnium p" o
Sacra'". Por o ff J.M.N.G./Do
Snr.
Victorio
Maria
Geraldo/1793
CT 131
1793
Tecum Principium
Bapta Gradual/Para
a
IaMissa da Noite de Natal/Com 2 Rabecas,
Violeta, Flauta; Trompas e Baixo/feito
no
anno de 1 793/Por Joze Mauricio
Nunes
Garcia/e a elle pertence este papel.
CT 132
a 3a Missa do dia de
A
Observações
Natal
T e x t o : D i e s sanctificatus.
CT 130.
1794
( P M 133)
Gradual de S.'a Anna Epara o Comum das
Santas nem Virgens nem Martires/Com
2
Rabecas, Flautas, Trompas eBaixo/Feito em
1 794 Por o P° Joze Mauricio Nunes
Garcia.
Do Sr. Dr. Victorio Maria
Geraldo.
T e x t o : Dilexisti justitiam. Há parte
avulsa d e viola, n ã o mencionada
n o título.
1794
( P M 177)
Psalmos
l°,,2°,,e
3a,,/Das Vesperas das
Dores
de
Nossa
Senhora/Com
Rabecas,,
Violeta,,Flautas,.Trompas,,/4
vozes,, eAcompanhamento:
etc etc/PorJozé
Mauricio
Nunes Garcia Jno anno de 1794/
E a elle pertence este papel.
Textos:
Dominum
me.
Ia
Credidi;
cum tribularer;
2a
Ad
3 a Eripe
/
Data
Título e
Catalogação
Observações
1795
( P M 2)
Nunes GVBap" / Antífona
de N.
tum preasidiu
/Com
V.V. Flautas
e
Trompas/4 Vozes e
Acompanhamento/Por
Joze, Mauricio,
Nunes, Garcia/P" o Uzo do
e
p J.M.N.GV
(rasuras).
1795
( P M 134, 135,
136, 137)
4 Graduais/Hum
p9 N. Senhora, outro p°
os Apostolos,/eoutro
para as Virgens ehum
da Sta CruzJ Com Rabecas, Violeta,/4 vozes
e Baixo /Feito no anno 1 795 Por Joze
Mauricio
Nunes
Garcia.
Snra/Sub
Gradual
1796
de
Sant'Anna.
O b r a s copiadas em um ú n i c o
manuscrito.
CT 134: Alleluia,
alleluia
CT 135: Alleluia specie tua
CT 136: Constitues eos
príncipes.
O instrumental f o i a l t e r a d o n o
Gradual
dos apóstolos
com
a u t ó g r a f o e data d e 1799CT 137: Virgo Dei
genitrix.
Informação discutível (Taunay,p. 87).
1797
( P M 178)
Vesperas de Nossa Senhora do Snr. Pe M" f
Maurício
Da Sé do Rio de Janeiro
anno
1797
T í t u l o parcialmente autógrafo.
1797
( P M 16)
Magnificai,
"Vesperas de Nossa Senhora "/
Do Snr P° Me J* Mauricio/Da
Sé do Rio de
Janeiro no anno de 1797 Para o Regente
Organo
Ver CT 178
1797
(PM
Apênd.CI)
^
da Sé do Rio de Janeiro.
1797
J
Data
Título e
Observações
1797
(PM
Apênd.CXXXVl)
Vesperas dos Apostolos a 4 vozes e orgão,
compostas para a Sé do Rio de Janeiro
no
ano de 1797
J.J. Maciel
1798
(PM 3)
Ecce Sacerdos, F* J. Mauricio,
1797, in.Missa da Purificação
de N. Sr0 arranjo para
3 Vozes masculinas por Miguel Pereira da
Normandia.
C o p i a d o na partitura da Missa
1798
(PM
Apênd.CII)
Missa do Advento e Quadragésima
para 4
vozes somente, alternado
com canto chão
(1798)
J.J. Maciel. P o d e c o r r e s p o n d e r ao
CT 213-
Miserere
Obra posteriormente acrescentada
d e ó r g ã o ( F r a n c i s c o M a n o e l da
Silva?).
1798
V
Catalogação
mei a 4 vozes somente.
1798.
1798
( P M 10)
Magnificat
1798
( P M 46)
"Ladainha"/,
in.- Novena da Conceição
de
N. Snr"/ a 4 Vozes, 2 Rabecas, e Baixo/l
Flauta, e 2 Trompas ad
Libitum/Composta/
Pelo P" Joze Mauricio
Nunes
Garcia/no
anno de 1798/. Pertence a Luiz de Souza
Rangel por compra
qfez.
a 4 vozes e órgão.
\
1798
J
r
Data
Título e
Catalogação
1798
( P M 64)
Novena da Conceição de N. Snra,/a 4 Vozes,
2 Rabecas, e Baixo/l Flauta e 2 Trompas
ad Libitum/
Composta/Pelo
P"
Joze
Mauricio
Nunes Garcia/no anno de 1798/
Pertence
a Luiz de Souza
Rangel/por
compra q 'fez.
1798
( P M 81)
"Tantum ergo", in: Novena da
Conceição
de N. Snr"/a 4 Vozes, 2 Rabecas, e Baixo/l
Flauta, e 2 Trompas ad Libitum/
Composta
Pelo P" Jozé Mauricio
Nunes Garcia
no
anno de 1 798/ Pertence a Luiz de Souza
Rangel por compra q' fez
1798
( P M 138)
Benedicite Dominú Omnes Angeli ejus etc./
Organo/Gradual
e Offertorio P° S. Miguel
Arcangelo/no
dia 29 de Septbro. /A quatro
Vozes e Organo Som'./ Composto
no/anno
de 1 798/Por Joze Mauricio
Nunes
Garcia/
E a elle pertence este papel.
1798
( P M 160)
"Ofertorio para S. Miguel", in.Benedicite
Dominú
omnes Angeli ejus etc/Gradual,
e
Offertorio/ P" S. Miguel Arcangelo/no
dia
29 de Sept.br°/ a quatro
vozes
eOrgano
Som'J Composto no anno de 1798/PorJoze
Mauricio
Nunes Garcia/E a elle
pertence
este papel.
\
Observações
T e x t o : Stetit angeli juxta
ara
/
Data
V
Titulo e
Catalogação
\
Observações
1798
( P M 139)
1798/Bapt"/Gradual/Para/
O SSm° Coração
de Jezus/ A 4 Vozes/Com Violinos Flauta e
Trompas
E/Basso, Pello
Rd.do Sr. Jozé
Mauricio
Nunes Garcia/ De Jozé Baptista
Lisboa.
T e x t o : Discitefilliae
1798
( P M 193)
"Christus p" 4a Fr" 5a e 6a", in.- Organo/
Cântico
Benedictus/e
Christus factus est
etc/Organo
a 4/ Composto pelo F*. Joze
Mauricio
Nunes
Título autógrafo. Órgão.
atribuída p o r Maciel.
1798
( P M 194)
Miserere/Pafr"
de
trevas/Organo/Miserere/
a 4 Vozes e Organo/Do
Snr. F*
.MJoze
Mauricio/ PB aSé do Rio de Janeiro/no
Anno
de 1 798
A l t e r n a d o c o m cantochão.
1798
( P M 195)
Da Sé do Rio de Janeiro/No anno de 1798/
Miserere/
a 4 Vozes/Para
Quinta
feira
Santa /Com/Organo,
e
Contrabassos./Feito
no anno de 1 798/Pello Snr. P°. M'. Joze
Mauricio
Nunes
Garcia.
A l t e r n a d o c o m cantochão.
1798
( P M 215)
Miserere
J.J.Maciel. O b r a p o s t e r i o r m e n t e
acrescentada d e ó r g ã o (Francisco
M a n o e l da Silva?) ( P M 215, s o b
outro título)
a 4 vozes
somente
sion.
Data
J
Data
V
Título e
Catalogação
Observações
[1798]
( P M 196)
"Antífona para Benedictus",
in.- Cântico/
Benedictus/e Christus factus est etc/Organo
a 4/ Composto pelo P". Joze Mauricio
Nunes
J.J. Maciel ( c o m data de 1798)
[1798]
( P M 213)
Hinos e Credo Alternado do P , f .
para Domingo
de Ramos
Documento incompleto.
V i n c u l a ç ã o p o s s í v e l : Missa do
Advento e da
Quadragésima.
A p ê n d . CII.
Mauricio
1798
(PM Apênd.CII)
Missa do Advento e Quadragésima
para 4
vozes somente, alternado com canto
chão
1798
1799
( P M 140)
1799. Gradual
alleluia Angelus
Domini
Para a ultima Dominga
de Abril na Festa
da Fuga de Nossa Senhora
a 4 Vozes
Rabecas Flauta Trompas Feioto Pello R1" Sr
Joze M. N. G.
1799
( P M 141)
Gradual/Para
da Ascencão do Senhor/A 4
Vozes/ Com Rabecas Flauta Trompas/Basso/
Feito Pello Rdo Sr. JozéM.N.G.
1 799.
T e x t o : Alleluia
1799
( P M 142)
Gradual pa a SSm" Trind'/Com
Viola, Flauta
e Trompas/Quatro
eBasso/Feito p."° R.do P".Me. J.M.N.
De Jozé Baptista
Lisboa.
T e x t o : Benedictus
intueris.
Violinos,
Vozes,
Garcia/
O registro poderá corresponder ao
CT. 213 J.J. Maciel.
ascenditDeos.
es Domine
qui
/
^Data
V
Título e
Catalogação
A
Observações
1799
( P M 143)
Gradual
"1° Justus cum ceciderit
- 2o
Constitues eos Príncipes"
Para o dia de S.
Sebastião, eseo Oitavario/Com
outro p" as
Festas dos Apostolos/Com
2 Rabecas,
Ia
Flauta, 4 Vozes/2 Trompas eBaixo/Feito
no
anno
1799/ Por Joze Mauricio
Nunes
Garcia/Com outro Gradualp"
os Apostolos.
1799
( P M 143a)
Gradual dos Apóstolos, in.- Gradual/Para
o
dia de S. Sebastião eseo Oitavario
(Com
outro p" as Festas dos Apostolos)
Com 2
Rabecas,
Ia Flauta,
4 vozes/2
Trompas
eBaixo/Feito
no anno
1799/Por
Joze
Mauricio
Nunes
Garcia/Com
outro
a
Gradualp
os Apostolos.
Acréscimos autógrafos em 1799 d o
Gradual d e 1795.
1799
( P M 170)
Organo a 4 Vozes/De
Capella/Responsorios/
Para Noite do Natal a 4 Vozes/e Organo
Muzica de Capella/Compostos
Pelo P". Joze
Mauricio
Nunes Garcia/no anno de 1799
p" a S.'a I.C. do R° de Jan.r°/e Pertencem
à
mesma Sé etc etc
Primeira
versão
da
obra,
orquestrada e m 1801 ( 1 7 0 a )
1799
( P M 170a)
Instrumentalp°;
da Sé no anno
Partitura (flauta, clarinetes,
trompas, v i o l i n o s ) da obra P M 170.
Em 1801 J. M. acrescenta f a g o t e s
e clarins.
as Matinas
de 1799
do Natal q' são
_
J
Data
V
Título e
Catalogação
Observações
1799
( P M 181)
Partitura
J.M.N.G.
1799
( P M 182)
"Missa dos Defuntos", in.- Officio a 4 eMissa
dos Defuntos a 4 Vozes e
Acompanham.'0.
Feito no Anno de 1799 Por Joze
Mauricio
Nunes Garcia Para o Aniversario
Dos S."rs
Conegos
Defuntos.
1799
( P M 183)
Officio a 4 e Missa dos Defuntos a 4 Vozes
e Acompanham'".
Feito no Anno de 1799
Por Joze Mauricio
Nunes Garcia Para o
Anniversario
dos Snrs. Conegos
Defuntos.
1799
( P M 197)
Sabado de Alleluia/Gradual,
e Vesporas,
com Violinos/Frauta
e Trompas
Baixo/De
Joze Baptista Lisboa
(monograma)
1799
( P M 198)
Antiphona
pa a cerimonia/Do
Lava pés, a
4/vozes, e Basso/Pelo P". M'. José
Mauricio/
Abril 28 de 185l/Paula
Miranda
do Instromental
do Libera
no Anno de 1799
me de
A parte vocal do I a trecho
c o r r e s p o n d e a o Ofício
para
defuntos, d e 1799.
Cópia d o
pedes.
Domine
Tu mi
lavas
J
r
Catalogação
"Muzica
das
Fatriarcha "
Vesperas
e dia
do
Santo
(ISP)
1799
(PM
Apênd.XXI)
Pange
(PM
Apênd.CIII)
Missa Pontifical
1799
(PM
Apênd.XCI)
T e Deum seguido para 4 vozes e orgão,
violinos, flautas,
clarinetes,
clarins,
timp. e contrabasso.
1 799
1800
( P M 52)
anno 1800/Mottetto a Solo/Te Cbriste solum
movimus/Com
Rabecas,
Flauta,
Viola/
Trompas eBaixo/Composto
em
1800/Por
Joze Mauricio
Nunes
Garcia/E
a elle
pertence este papel
(incipit)
1800
( P M 144)
Organo/Baptista/Gradual/Para
a Dominga
in/fra octava do Corpo de Deus/Ad
Dominu
cum
tribularer
etc./E outro
pa a 3B
Dominga
do Pentecostes/com
Violinos,
Flauta, Trompas,/e Basso/Por Joze
Mauricio
Nunes Garcia/In
anno
1800.
Lingua
Glorioso.
\
Observações
1799
1799
V
Título e
Data
Registrado
Vasco.
1799
a 4 vozes e órgão.
Fonte: Livro 3° d e despesas da
I r m a n d a d e d e São P e d r o d o s
Clérigos. O livro registra Vésperas
para o dia do santo patriarca
até
1811. I m p o s s í v e l saber quantas
f o r a m compostas.
1799
com
cor,
por
Miguel
Pedro
J.J.Maciel
P o d e ser CT 96. J.J. Maciel.
J
r
V
Data
Título e
Catalogação
Observações
1800
( P M 145)
"Gradualp"a
3aDominga
do
Pentecostes"
in.- Gradual Para a Dominga in/fra octava
do Corpo
de Deos/Ad
Dominú
cum
tribularer
etc./Eoutrop"
a 3a Dominga
do
Pentecostes/Com Violinos, Flauta,
Trompas,
e Basso. Por Joze Mauricio
Nunes
Garcia
In anno
1800.
T e x t o : Jacta cogitatum
1800
( P M 146)
Gradualp"
a Festa dos Reis/e Seu oitavario/
Com Rabecas, Flauta, Trompas/4 vozes e
Baixo/Por Joze Mauricio
Nunes
Garcia/De
Jozé Baptista
Lisboa.
T e x t o : Omnes de saba
1800
(ISP)
Muzica
Patriarca
J. M. escreveu Vésperas para o dia
do santo patriarca,
d e 1799 até
1810.
I m p o s s í v e l d i z e r se e m cada a n o
c o m p ô s música nova.
1800
(1SP)
Ao mesmo das
1801
( P M 91
das
Vesperas
e dia
do
Santo
Novenas
Organo/Te Deum Laudamus/A 4 Vozes de
capella/ e Organo/ em o anno de 1801/
Composto
pelo F*. Joze Mauricio
N. G.
(incipit)
in
Domino.
venient.
J.M. r e c e b e u 35$200.
A c r e s c e n t a d o na p á g i n a - t í t u l o :
"Para as Matinas da Assunção".
J
Título e
Data
1801
( P M 102)
1801
(ISP)
Novenas
Provedor
1801
(ISP)
Musica
1802
(ISP)
Novenas
1802
(ISP)
Musica
1802
(PM
Apênd.CIV)
1803
( P M 231)
V
Catalogação
Observações
Missa em Si bemol do Padre J. M. N.
e Te
Deum
da Reeleição
de todo o dia do Santo
e T e D e u m do novo
do dia do
Garcia
do
Patriarca
Provedor
Manuscrito adquirido e m 1898 e m
leilão
(3
vozes
S.A.T.
e
"acompanhamento").
Obra
provavelmente
incompleta.
Faltava a parte d e B a i x o .
40$960
48$000
R e c e b e u 40$960
R e c e b e u 48$000
Santo
Missa a 4 vozes para as Pontificais
Snr Bispo da Sé do Rio de Janeiro.
Zemira.
"Protophonia
composta
em 1803
Maurício"
^
do Exm.
1802
da opera
Zemira
pelo
Padre
José
J.J. Maciel
O q u e se c o n h e c e desta abertura
c o r r e s p o n d e à orquestração feita
p o r L e o p o l d o Miguez com base na
c ó p i a antiga q u e d e s a p a r e c e u .
M i g u e z atribuiu-lhe o título (entre
parênteses) e transcreve a
informação: "Nas cópias que
s e r v i r a m para f a z e r a partitura
havia o seguinte título: Ouverture
ou Introdução
que
expressa
J
r
Data
1803
Título e
Catalogação
relâmpagos
e trovoadas,
com
violinos,
viola,
violoncello,
trompas, "trombe
lunghe"flautas,
fagotes e "basso ".
(ISP)
"Toda
a Muzica
Patriarca"
V
da festa
1804
(ISP)
Ao Mestre de Capela José
1805
(ISP)
O importe da música
José Ma u rício Nu nes
1806
A
Observações
do
Santo
ao
Da música da Festa de N. S. Patriarca,
também das Novenas
1806
Música
das 5 Domingas
1806
Música
da Semana
Pagou-se
88$960.
Maurício
que pagou
da
Santa
Quaresma
88$960 ( o m i t i d o o n o m e d e J.M.)
Rdo.
e
ao
mestre-de-capela
76$800
Igreja d e São Pedro. José Maurício
r e c e b e u 76$800.
Igreja d e São Pedro. José Maurício
r e c e b e u 8$000.
Igreja d e São Pedro. 3$400 é o que
terá r e c e b i d o J.M. pela Semana
Santa, s e m i n f o r m a ç ã o d e quais e
quantas peças. É possível q u e o
Ofício de Domingo
de Ramos ( C T
218) seja remanescente da obra.
J
Data
Título e
1806
Música
do
Irmandade
1807
In honorem
Beatissimae/Maria
Virginis
jubilemus/Domino
Com Violinos,
Flautas,
Trompas, e Basso/Feito no Anno
1807/Pello
R.P.J.M.N.G./ De Jozé Bap"
Lisboa
CT 4
1807
Musicas Ao Redo. Jose Mauricio
Nunes da
festa do Santo Patriarca,
dois T e D e u m e
Novenas
Igreja d e S. P e d r o . J.M. recebeu
76$800.
1807
Das Cinco
Igreja d e S. P e d r o . J.M. recebeu
8$000
1807
Do dia do Ofício
1807
1808
^
Ao dito de
( P M 103)
Catalogação
dia
do
Domingas
5a feira
Observações
Ofício
da
Geral da
Geral
da
Quaresma
Irmandade
Santa
Igreja d e São P e d r o . J.M. recebeu
6$400.
Igreja d e S. P e d r o . J.M. recebeu
8$400
Igreja d e S. P e d r o . J.M. recebeu
8$000.
"Kyrie e Gloria",
in.- Missa para o dia da
Purificação
de N. Senhora Composta pelo
Padre Mestre José Maurício
em 1808. a 4
vozes. Arranjada para 3 vozes pelo Professor Miguel Pereira Normandia.
1897. Ca-
)
Data
Catalogação
( P M 104)
Missa Para o dia 19 de outubro.
do Padre José Mauricio
No anno
1808
( P M 121)
Credo/Composto
no anno de
1808/pelo
Padre José Mauricio/Nunes
Garcia/Para
a
Cathedral do Bispado do Rio de Janeiro.
1808
( P M 162)
Sollo Qui
Mauricio
1808
( P M 227)
Coro em 1808 Para a Senhora
Lapinha partitura
de J.M.N.G.
1808
(PM
Apênd.XII)
"Benedictus " alternado em 1e tom a 4 vozes
e órgão, vlc., fg., e cb para o dia 15 de
agosto de Nossa Senhora da Glória.
1808.
1808
(PM
Apênd.CV)
Missa e Credo
órgão,
1808.
1808
(PM
Apênd.CVI)
1808
A
Observações
1808
1808
V
Título e
Comp.à°
de 1808.
Kyrie e Credo ( C T 119)
Sedes/Acompanhamento/PorJoze
Nunes Garcia/Anno
de 1808.
da Natividade
Missa Pastoril para
e órgão,
1808.
a Noite
para
Joaqu.""
4 v. e
do Natal a 6 v.
Matinas da Assunção de Nossa Senhora
4 v. e órgão, fg., vlc. e cb. 1808
a
Vésperas de Nossa Senhora a 4 v. e órgão.
1808 ("Laetatus
sum",
"Nise
Dominus",
"Magnificai
")
J.J. M a c i e l
J.J. M a c i e l
J.J. Maciel. Orquestração e m 1811
( C T A p ê n d . C X X V I I I ) J.J. Maciel
( C T A p ê n d . CXXXVIDJ.J. Maciel
J
Data
Titulo e
1808
Primeiras e Segundas
Deus
(1808)
1808
Missa de Nossa Senhora/Para
o dia 2 de
Fevereiro/
Na Cathedral
do
Bispado./
Compo.ção
do Padre/José
Maurício
N.
Garcia.
Partitura
Cópia do
original/por
Miguel/1892
( P M 119) Missa e
1808
Músicas/ao Rdo. José Mauricio
Nunes
da
festa do Sto. Patriarca,
dois T e D e u m e Novenas
José Maurício r e c e b e u 76$800.
Igreja d e Sào P e d r o .
1808
Ao dito das Domingas
J.M. r e c e b e u 8$000. I.S.P.
1808
Ao Dito de Quinta-feira
1808
Do Ofício
1809
1809
V
Catalogação
geral
da
Observações
Vésperas do Corpo de
e
Quaresma
Santa
Irmandade
(CT Apênd. CXXXVa)
AGERJ L° 43-4-16.
Fonte:
Credo'.
J.M. r e c e b e u 8$000. I.S.P.
J.M. r e c e b e u 6$400. I.S.P.
( P M 53) T e x t o : Ascendens
Christus
Responsorio
6°/Mottetto/pa o Offertorio
da
Missa de 5a feira de Ascenção/Composto
no
Anno
de 1809./ Pelo P.' José
Mauricio
Nunes
Garcia
"Moteto Jozé Mauricio
1809" - arranjo
do
Professor Normandia/1897,
in.- "Missa da
Purificação
de N. Sra. Composição
do Padre Joze Maurício
em 1808. A 4 Vozes.
Arranjada
para 3 Vozes, Pelo
Professor
Miguel Pereira de Normandia,
em 1897"
T e x t o : Feliz
namque.
Maciel
registra: Missa da Purificação
de
N. Sra., a c i n c o v o z e s e ó r g ã o , d o
1 0 Responsorio
do Ofício da
J
r
Data
1809
1809
1809
1809
1809
1809
V
Título e
Catalogação
Partitura
de Capella e Com
Instromental
ad Libitum/
Te Deum
Laudamus
das
Matinas
de S. Pedro/composto
por Joze
Mauricio
Nunes Garcia em 1809
Purificação.
C T 92
Missa Pequena/Organo/Missa
a 4 Vozes/de
Capella/Composta/Pelo
P." Joze
Mauricio
Nunes Garcia/Para
19 de outubro dia de
S. Pedro D'Alcantara/Para
a Real Capella/
(incipit
aut.)
C T 105
Partitura
= Sequencia
de Deos/por J.M.N.G./em
A
Observações
de 5 " fr"
1809
do
Corpo
CT 54.
T e x t o : Lauda Sion. CT 165
Stabat
Mater
a
4
Vozes
Com
acompanhamento
d'Organo Foi cantado o
1° motivo por S.A.R. e depois arranjado
e
Composto em 1809 Pelo P." Joze
Mauricio
Nunes Garcia Com Flautas e Fagottes ad
Libitum para o Setenario de N. S. na Real
Capella
CT 166
Partitura
l°Resp.ro das Matinas
Por J.M.N.G. em 1809
de S. Pedro
CT 171
Partitura/Missa
dos Defuntos/a 4 Vozes de
Capella =/Composta por Joze Mauricio
N.G.
em 1809 = p" a Real capella
C T 184
J
r
Data
1809
1809
1809
Título e
Catalogação
\
Observações
Motetto p" 5a fra Maior em Coena
Domini
Para o Offertorio da Missa de 5afr" S.'a A 6
vozes sem Organo Composto em 1809 Pelo
P" Mestre Joze Mauricio
Nunes
Garcia
Texto: Judas
CT 199
Matinas
1809
J.J. Maciel. CT A p ê n d . C X X I X
da Ressurreição
a4v.e
Matinas
da Reissurreição.
Pelo Padre José
Mauricio)
(in
órgão,
ano
colophon:
mercator
pessimus.
V
Orquestração. CT 200
1809
"Ecce Sacerdos"
1809
1809
1809
1809
V
a 8 v. e
órgão.
Maciel cita d o i s Ecce sacerdos.
Apênd. V
Ladainha de Nossa Senhora a 4 v. e órgão.
Composta para a festa da Ordem 3a do
Carmo, no ano de 1809
J.J. Maciel. CT A p ê n d . X X V
Moteto de N. Senhora para procissões.
vozes somente.
1809
J.J. Maciel. CT A p ê n d . X X X I
A 6
CT
Moteto para o Setenário
das Dores de N.
Senhora. A 4 v. e órgão, fl., fg. e cb. "ad
lib. "; brevepart.
orig. composta no ano de
1809.
J.J. Maciel. CT A p ê n d . X X X I I
Moteto para procissão da Aclamação do Rei
Senhor D. João IV, a 8 v. somente,
composto
no ano de 1809
AGERJ, L° 16-1-21 informa data
1812. CT A p ê n d . X X X I I I
J.J. M a c i e l
J
c
Data
1809
1809
1809
1809
1809
1809
1809
1809
1809
V
Título e
Catalogação
Observações
Moteto e Responsório "Si quaeris miracula
para as Trezenas de St° Antonio.
(4v.
órgão,
1809)
Moteto "Falias gratia", Responsório
Ana, tirado do Comum das "nem
nem mártires",
a 4 v. e órgão.
Moteto e Responsório do Anjo
Reino, a 4 v. e órgão.
1809.
"
e
de Sta.
virgens
Custódio
do
J.J. Maciel. CT A p ê n d . X X X I V . A
" r e l a ç ã o " d e J.M. cita: Mottetto da
trezena de S. Antonio. Documento
e m meia folha de papel.
J.J. Maciel. CT A p ê n d . X X X V
J.J. Maciel. CT A p ê n d . X X X V I
Moteto 2° e último Responsório das Matinas
do Espírito Santo a 4 v. e órgão.
1809
J.J. M a c i e l . CT A p ê n d . X X X V I I
Moteto "Cum Jejunatis"para
o ofertório da
Missa de 4afeira de Cinzas, a 4 v. somente.
1809
J.J. M a c i e l . CT A p ê n d . X X X V I I I
Moteto "InJejunio"para
a IaDominga
Quaresma,
a 4 v. somente.
1809
J.J. Maciel. CT A p ê n d . X X X I X
Moteto "Vidi Dominum
"para
da Quaresma,
a 4 v. somente.
Dominga
1809.
Moteto "VidertsJacob"para
3aDominga
Quaresma,
a 4 v. somente.
1809Credo a 8 v. para 5afeira
da
2a
Santa.
1809.
da
\
J.J. Maciel. CT A p ê n d . X L
J.J. Maciel. CT A p ê n d . X L I
J.J. Maciel ( C T A p ê n d . C L V I ) S.d.
in: Bradados de 6afre
maior.
y
r
Data
Título e
Catalogação
Observações
1809
1809
"Vexilla Régis"para
a Procissão
cramento
na Sexta-feira Santa.
do SS. Sa1809.
J.J. Maciel ( C T Apênd.CLVII). Vide
P M 225
"Victimae
Paschali".
Sequência
para a
Missa da Ressurreição
do Senhor, nos dias
de domingo, 2a e 3afeira da oitava
Páscoa
para 4 v. e órgão.
1809.
J.J. M a c i e l ( C T A p ê n d . C X X I V ) .
V i d e CT A p ê n d . C L V I I I
Vésperas a 6 v. e órgão, fg.
separado.
1809.
("Dixit
"Comfitebor",
"Beatus
Vir",
Pueri",
"Magnificai").
J.J. Maciel ( C T A p ê n d . C X X X V I I I )
1809
1809
1809
1809
1809
Moteto para
4" feira
de Cinzas.
e cb., em
Dominus",
"Laudate
1809
Matinas de S. Pedro, a 4 v. e órgão,
ao 8° Responsórios,
em 1809.
Vésperas a 6 v. e órgão, fg.
separado.
1809
("Dixit
"Confitebor",
"Beatus
Vir",
Pueri",
"Magnificat").
do 2°
e cb., em
Dominus",
"Laudate
Novena de S. José. Para a Capela
Real.
Cantada primitivamente
de cor e depois
organizada
em partitura.
4 v. e órgão.
1809.
Novena do SSmo. Coração
fag. e órgão.
1809.
de Jesus, a 4 v.,
J.J. Maciel ( C T A p ê n d . X L I V )
J.J. Maciel ( C T A p ê n d . C X X X ) Vide
PM 171. I n c o m p l e t o
J.J. Maciel ( C T A p ê n d . C X X X V I I I )
J.J. Maciel ( C T A p ê n d . L I X )
J.J. Maciel ( C T A p ê n d . L X )
J
/ Data
—
Catalogação
Observações
Missa da Imaculada
Conceição para 4 v. e
órgão, part. orig. acrescentada para a festa
de S. Pedro de Alcântara
no ano de 1809.
J.J. Maciel ( C T A p ê n d . C V I I )
1809
Missa de S. Miguel
órgão.
1809.
J.J. Maciel ( C T A p ê n d . C V I I I )
1809
Missa e Credo
da Visitação
de Nossa
Senhora e do Anjo Custódio do Reino (4 v.
e órgão,
1809).
J.J. M a c i e l ( C T A p ê n d . C I X )
1809
Moteto
La Responsório
do Comum
dos
Apóstolos
para o ofertório
da Missa do
Apóstolo S. Jacó, a 4 v. e órgão, fg e cb.
1809.
J.J. M a c i e l . C T A p ê n d . X L I I I .
Orquestrada e m 1818 ( V i d e CT 57)
1809
Ao Rdo. Pe. Me. José Maurício
Nunes da
Festa do Sto Patriarca,
dois Te D e u m e
Novena
R e c e b e u J. M. 84$480. ISP
1809
Ao dito das Domingas
R e c e b e u J. M. 8$000. ISP
1810
"Ecce Sacerdos "
1810
Ecce Sacerdos/a 8 vozes/Fagotes,
Violoncellos, Contrabaixo/
e Órgão/composto
pelo
Pedre/José Mauricio
Nunes Garcia/
(em
1810).
Partitura
1809
V
Título e
Arcanjo
da
para
4 v. e
Quaresma
CT 5
J
r
Data
Titulo e
1810
Magnificai
das Vesperas de S.José pelo p°.
Joze Mauricio
no anno
1810.
CT 17
1810
J.M.N.G.
em 1810/Motteto
de S.
Baptista/em 1810p'S.'a
Cruz.
João
CT 55
1810
Novena
de S." Barbara
Garcia em 1810
J.M.N.
CT 65
1810
C
) e N. Sra. a 8 de Dezembro
do Anno
de 1810 ....cio Nunes Garcia em 1810
CT 106. T í t u l o d a n i f i c a d o
1810
Ladainha de Nossa Senhora, a 4 v., vl., via.,
cb e órgão.
1810
J.J. Maciel. CT A p ê n d . X X V I
1810
Moteto
"Cantemus
Domino"
para
4a
Dominga
da Quaresma,
a 4 v. e órgão.
1810.
J.J. Maciel. CT A p ê n d . X L I I
V a s c o cita c o m data d e 1809-
1810
Moteto das Dores de N. Sra. a 8 v.e
fg. obr. e cb. 1810
J.J. Maciel. CT A p ê n d . X L V
1810
V
Catalogação
"Beati Omnes"
1810
Observações
Pelo
P*.
órgão,
\
CT A p ê n d . L X I V . V a s c o registra
c i n c o c o m o m e s m o texto.
J
V
Data
Titulo e
1810
"Beati omnes qui timent Dominum
" a 4 v.
e órgão, vl., fl., cl., fg., cor, tp. e cb., part.
orig. para Vésperas do Corpo de Deus,
composta no ano de 1810
J.J. Maciel. CT A p ê n d . L X V I I I
1810
"Credidi"
Salmo
3° das Vésperas
Santíssimo Sacramento
a 4 v. e órgão
instrumental
"ad libitum", vl.,fl., cl.,
cor, tp. e cb. 1810
Vide Apênd.CXL
A p ê n d . LXXIV
1810
"Dixit
1810
"Laetatus
1810
"Lauda
Jerusalem"
para
Vésperas
do
Santíssimo Sacramento.
4v.e órgão. 1810.
J.J. Maciel. CT A p ê n d . L X X X I
1810
"Nisi Dominus".
J.J. M a c i e l . C T A p ê n d . L X X X V .
Vasco registra três c o m o m e s m o
texto.
Catalogação
Dominus"
sum"
a 4 v. e
Observações
do
com
trp.,
órgão.
a 4 v. e órgão.
CT
C T A p ê n d . L X X V I . Vasco registra
q u a t r o c o m o m e s m o texto.
1810.
1810
1810
Credo para
1810
Matinas de S. Sebastião a 4 v. com
devi., vla.fl.,
cl.,fg.,
trp., corecb.
1810
Vésperas de S. José a 4 v. e órgão,
1810.
("Dixit
Dominus",
"Confitebor",
"Laudate
Pueri", "LaudateDominum",
"Magnificai")
4 v. e órgão.
(Maciel).
1810
J.J. Maciel. CT A p ê n d . L X X I X
CT A p ê n d . C X V
acomp.
1810
J.J. Maciel. CT A p ê n d . C X X X I
J.J. M a c i e l . CT A p ê n d . C X X X I X .
V i d e Magnificai
das vésperas de S.
José. CT 17.
J
r
Data
Título e
1810
Mot. das Dores de N. Sra. a 8 v. e
fag. obr. e cb. 1810
órgão,
J.J. Maciel. CT A p ê n d . X L V
1810
Vésperas do Santíssimo
e órgão.
1810 ("Beati
Jerusalem ")
a 4 v.
"Lauda
J.J. Maciel. CT A p ê n d . C X L
1810
Vésperas do Santíssimo Sacramento
a 4 v.
e órgão com instrumental
"ad libitum " (vl.
fl., cl., trp., cor, tp., e cb.) 1810
1810
Vésperas da Conceição
a 4 v. e órgão, fg.,
vlc.
e cb.
1810
("Dixit
Dominus",
"Confitebor",
"Laudate
Pueri",
"Beatus
vir",
"Laetatus
sum",
"Nise
Dominus",
"LaudaJerusalem",
"Magnificat")
J.J. Maciel. CT A p ê n d . C X L I I
1810
Vésperas da Natividade
de Nossa Senhora
a 4 v. e órgão, fg. vlc., e cb. "ad
libitum"
1810 ("Dixit
Dominus",
"Laudate
Pueri"
"Laetatus sum" "Nisi Dominus",
"Lauda
Jerusalem",
"Magnificat")
J.J. Maciel. CT A p ê n d . C X L I I I
1810
Vésperas de Sant'Ana
("Dixit
Dominus",
J.J. Maciel. C T A p ê n d . C X L I V
Jerusalem",
V
Catalogação
Observações
Sacramento
omnes",
a 4 v. e órgão.
1810
"Laudate
Pueri",
J.J. Maciel. CT A p ê n d . C X L I . V i d e
Apênd. LXXIV
"Magnificat").
J
r
Observações
Data
Titulo e
1810
"Tu devicto
mortis"
original
de
Marcos
Portugal
arranjado
e transportado
para
contralto por José Maurício
por ordem de
SAR para o casamento de D. Maria
Teresa
Este arranjo está registrado por J.J.
Maciel e m data de 1813 o que não
p o d e r i a ser e x a t o porquanto D.
Maria Teresa casou-se e m 1810
( V i d e C L X X ) . CT Apênd.CXLIVa
1810
Músicas/Ao
Rdo. Pe. Me. José
Nunes Gar cês da Festa do Sto.
dous T e D e u m e Novena
R e c e b e u J.M. 92$800. ISP
1810
Ao dito das
1810
Da Festa da Senhora
1810
Música ao R.Je. Mauricio
e Festa do S.
Patriarca
1811
Ladainha
de N. Snra do
Carmo/Comn
Violinos,
Flauta,
e/Trompas,
Vozes e
Organo/Basso/p"
Joze Mauricio
Nunes
Garcia/No anno de 1811
CT 47
1811
T e D e u m Laudamus/A
Fagottes, Contrabasso
pelo P* Joze Mauricio
1811.
Obra c o m p o s t a para o dia "7 d e
março". Foi reorquestrada (fl, 2 cl,
2 violetas, trompas e clarins). Em
1814 foram acrescentados: sopros
e v i o l e t a s por o r d e m de D. João.
Há c ó p i a deste Te Deum na Escola
V
Catalogação
Maurício
Patriarca,
R e c e b e u J.M. 8$000. ISP
Domingas
da
Hora
R e c e b e u J.M. 16$000. ISP
Nunes de Novena
R e c e b e u J.M. 92$800. ISP
4 Com
Violoncellos,
e
organo/Composto
Nunes Garcia
em
J
r
Data
Título e
Catalogação
Observações
d e M ú s i c a , c o m d i f e r e n ç a s na
orquestração e trechos outros.
Partitura levantada por L e o p o l d o
M i g u e z . CT 93
1811
Missa a/4 vozes (?) (...,)/em
1811
Patoril Missa p" a Noite de Natal
do P" Jose Mauricio
em 1811.
1811
Moteto "Hic est vere Martyr"para
Procissão
de São Sebastião, a 9 vozes somente.
( C T A p ê n d . X L V I ) J.J. Maciel
Moteto para 3a feira depois da dominga da
Quadragésima
no Carnaval,
a 4 vozes,
fagote e órgão.
1811
( C T A p ê n d . X L V I I ) J.J. Maciel
1811
Moteto para o ofertório da Missa "Pro
a 4 vozes, fagote e órgão.
1811
( C T A p ê n d . X L V I I I ) J.J. Maciel
1811
Missa a 4 vozes, violinos,
violoncelo,
fagotes e órgão, flauta, clarinete,
clarim,
trompa,
tímpano,
contrabaixo,
meia
orquestra
"ad libitum".
Partitura
original
composta
para
o dia
7 de
março.
Aniversário
da chegada
de S A Real o
Príncipe
Regente.
1811....
Título danificado, incompletandoo. A obra é para 4 v o z e s e ó r g ã o .
O n o m e d o autor f o i acrescentado
a lápis, pela mesma letra q u e o
faz e m outros casos. CT 107 ( A u t . )
Original
Orquestração da obra composta
para v o z e s e ó r g ã o e m 1808. CT
108
1811
V
Pace"
( C T A p ê n d . C X ) J.J. Maciel
_
J
r
V
Data
Título e
Catalogação
1811
T e Deum para Procissões a 4 vozes
1811
T e D e u m para
as Procissões
Capela, 2 8 vozes somente.
1811
Moteto
1812
Mottetto
pa
Mauricio/p"
Orquestra.
1813
Laudate
Mauricio
1813
Laudate
1813
1813
Missa pequena
de orquestra
pequena/
Composta pelo P* Joze Mauricio
Nunes/no
Anno de 1813p" o Sr.f Bapt"
LxaPrimeira
Missa e Credo abreviado
e de
Orquestra
ordinária
Composto pelo P f
Mauricio
Nunes Gr"p" o Snr f Bap" Lx» em 1813
CT 109 ( A u t . )
1813
Matinas
da Assumpção
de N" S"/Para a
festa da Snre da boa Morte/na Igreja do
Hospício a 15 de Agosto/Compostas pelo P"
Joze Mauricio
em 1813
CT 172. P r o v á v e l orquestração da
obra c o m p o s t a e m 1808 p o r José
Maurício ( A u t . )
d'Aleluia.
Observações
somente
da
Real
os S"" Mártires
- pelo P Je
a Real Quinta em 1812. Com
Pueri
Omnes
1813
( C T A p ê n d . X C I V ) J.J. Maciel
( C T A p ê n d . C L I X ) Miguel P e d r o
Vasco. P o d e ser a obra sem data
d o A r q u i v o da Lira Sanjoanense
( P M 201)
1811
Dominú
N.G. em
( C T A p ê n d . X C I I I ) J.J. Maciel
Gentes
Por Joze Mauricio
por J"
N.G.
em
CT 56. T e x t o : Tamquam
auram.
O b r a escrita para a Real Quinta
d e Santa Cruz ( A u t . )
CT 76 ( A u t . )
CT 77 ( A u t . )
J
V
Data
Título e
1813
Credo a 4 v. e órgão.
1813
"Tu devido mortis" solo original de Marcos
Portugal arranjado e transportado por José
Maurício por ordem de SAR
CT A p ê n d . C L X X .
Registro CXLIVa
1814
Contrabasso/Bemdito, e louvado seja o 55™°
Sacramento/a
4 Vozes/Violinos,
Violeta,
Flautas,
Clarinetes,
Fagottes/Trompas,
Clarins,
Violloncello
e
Contrabasso/em
1814/pelo P' Joze Mauricio Nunes Garcia/
CT 12
1814
Tantum ergo, in. Novena do Apostolo S.
Pedro/Com 2 Rabecas, bua clarineta,
búa
trompa/4
Vozes, Violoncello
e Organo/
Composta no anno de 1814p" o Sr f
Bap"/
pelo F* Joze Mauricio
Nunes Garcia Em
Junho do anno de 1814.
CT 82
1815
Mais pequeno
eabreviado/Bemditto,
elouvado
seja oSS'""
Sacramento/com
grande orquestra por ordem de S.A.R./
Composto pelo P" Joze Mauricio em 1815/
p" aReal Quinta de Santa Cruz
CT 13 (Aut.)
Catalogação
\
Observações
1813
CT A p ê n d . C X V I . Miguel P e d r o
Vasco. D e v e ser o Crede? (PM 109).
C. de L. Miguez.
V i d e 1810.
J
f Data
V
Título e
Catalogação
Observações
1815
Matinas do Apostolo S. Pedro/a 6 Vozes
eorgano/com
Fagottes som.V/Pelo P Joze
Mauricio
Nunes Garcia/anno
1815
C T 173- ( A u t . ) O b r a c o m 15
solistas: 3 isolados e 4 quartetos
1815
Moteto "Si quaeris
de Santo Antonio,
1815
CT A p ê n d . X L I X . J.J. Maciel
1815
"Dixit
1815
"Laudate
1815
"Praetiosa " Solo de baixo para se cantar
no meio do salmo "Credidi", composto por
ordem de S.A.R. para as 2"s Vésperas de
S. Sebastião
no ano de 1815
CT A p ê n d . L X X X V I I . J.J. Maciel
1815
Vésperas
de S. João.
1815("Dixit
Dominus",
"Confitebor",
"LaudatePueri",
"Beatus vir",
"Magnificat")
C T A p ê n d . I C X L V / C X L V I . J.J.
Maciel: Salmos para as Vésperas a
4v.
e órgão,
podendo
se
acrescentar ad libitum
vlc., f g .
Part. orig. c o m meia orquestra e m
partes avulsas, vl., fl., cl., trp., cor,
tp. e cb. 1815
1816
Missa dos Defuntos - Composta pelo P Joze
Mauricio
Nunes Garcia - no anno
1816/
Com Flautas, clarins e Timballes "ad Libitum"
CT 185 ( A u t . )
Dominus"
Pueri".
miracula"
Responsório
para 4 v., fg. e órgão.
a 4 v. e órgão:
1815
1815
CT A p ê n d . L X X V I
C T A p ê n d . L X X X I I I . J.J. M a c i e l
registra 8 sem data
J
r
V
Data
Titulo e
1816
Officio dos Defuntos pelo F* Je.
Nunes Garcia no anno 1816
Catalogação
Observações
Mauricio
CT 186 ( A u t . )
1816
"Magnifica":
1816
Moteto para Missa da Eleição ou Sagração
do Ilustríssimo
e ExT" Sr. Bispo,
Prelado
atual da Real Capela do Rio de Janeiro, em
15 de março, a 4 v. e órgão
1816
CT A p ê n d . L . J J Maciel
1817
Trezena
do Patriarca
S. Francisco
Paula. Composta pelo /* Joze Mauricio
oanno
1817
CT 75. ( A u t . )
1817
"Beatus omnes".
1817
"Laudate
1817
Doze Divertimentos
sopro. 181 7
1816
Pueri".
CT A p ê n d . X I . Miguel P e d r o Vasco
(Corpus
Christi)
de
em
181 7
CT A p ê n d . L X I X . M i g u e l
Vasco
1817
para
CT A p ê n d . L X X X I I I .
Vasco
instrumentos
de
Pedro
Miguel
P.
C T A p ê n d . C L X V I I I . O b r a para
conjunto
instrumental.
O
manuscrito desapareceu n o dia d o
falecimento d o compositor (Fonte:
M a p a ) . À falta d e outros informes
c a b e enumerar o instrumental d o
conjunto para o qual f o i escrito, e
/
r
Data
Título e
Catalogação
Observações
que a c o m p a n h o u D. L e o p o l d i n a
na vinda para o Brasil: 1 regente,
2 cl., 2 cor, 2 trp., 2 fag., 2 trb.,
bmb, rufo, 2 prateiros (Fonte:
Otávio Tarquinio de Souza)
1818
Ladainha,
in.- Novena de Nossa Snr° do
Carmo Pelo P*Joze Mauricio N.G. em 1818
CT 48 ( A u t . )
1818
Mo t te to para os Apóstolos/Pelo
P°
Maurício
Nun... No anno de 1818
C T 57
1818
Por Ordem de S. Mag' p" a Capela de S'a
Crus./Motteto
p" as
Virgens/Com/V",
Flautas,
Clarinettas,
Fagottes,/Trompas,
Clarins,
Violoncello,
e/Contrabasso/No
anno
de 1818/Pello
Rmo P° M' da R'
Capella Jozé Mauricio
Nunes.
CT 58. Obra incompleta
1818
Timbale = Motteto
de S. João
Bap"
CT
63Parte
autógrafa
a c o m p a n h a d a de material em
c ó p i a da obra.
1818
Novena de Nossa S. do Carmo pelo P* Joze
Mauricio
N. G. em 1818
CT 67 (Partitura a u t ó g r a f a )
1818
Tantum Ergo, in.- Novena de Nossa
do Carmo
Feita
no Anno de 1818 Para a ordem
da mesma Snr°
CT 83 ( A u t . )
^
da Festa
Jozé
da/Degolação
Senhora
Terceira
J
V
Data
Titulo e
1818
Anno 1818/Missa a 4 Vozes/Com Rabecas,
Clarinetas, Trompas,/e Basso/Composta no
anno de 1818/pa a Ordem 38 de N. S. do
Carmo/ na Festa da mesma S1" Virgem aos
16 de Julho/pelo P Joze Mauricio
Nunes
Garcia/.
Credo a 4 Vozes com
Rabecas,
Clarinetas,
Trompas,
Violoncello
e
Contrabaixo
Composto no anno de 1818
pelo P* Joze Mauricio
Nunes Garcia
Para
a
a Ordem 3 de N. S. do Carmo.
CT 110 ( A u t . )
1818
Missa a grande
Garcia
PM 120a. A i d e n t i f i c a ç ã o desta
Missa à Missa da Degolação é uma
hipótese apoiada em razões
musicais e históricas.
1818
Messa e Quattro voci/del Sr P M.
Maestro dei'a Regia
Capella
J.M.N.G./
( P M 120) Copiada juntamente com
trechos d o P M 120a.
1818
Qui Sedes e Quoniam
= Duetto de Tenores/
pelo P f Mauricio
Nunes Garcia no anno
1818
CT 163 ( A u t . )
1819
Credo a 4 v. e orquestra.
CT A p ê n d . C X V I I . Registrada por
Catalogação
orcbestra.J.
Observações
M. N.
1819
_J
Data
Título e
1820
Missa Mimoza/A 4 Vozes/com Violini, Viole,
Flauti,
Clarinetti/Trombão,
Violoncello,
Bombo,
e/Contrabasso/Do
Padre
Mestre
Jozé Mauricio
Nunes Garcia/Pertence
a
João Antonio/"Pertence
a Manoel
Jozé
Gomes"
( C T 111) Vasco atribuiu a esta
Missa a data d e 1819-
1820
Credo
CT 122. Credo em Dó M data de
1820 i n c l u í d o na
Missa
da
Purificação
de N. Senhora; arranjo
d o p r o f . M i g u e l P e r e i r a da
N o r m a n d i a e m 1897.
1820
Laudate pueri pa as Vesperas do Esp" Santo
Pelo P" f Mauricio
N. G. no anno 1820
CT 179. Este Laudate pueri
foi
orquestrado e m 1820. As Vésperas
do Espírito Santo de o n d e p r o v é m
datam d e 1815.
1820
"Laudate
( P M 8 0 ) Parte d e v i o l i n o seria
o u t r o s a l m o das Vésperas
do
Espírito
Santo
registrado por
Miguel P e d r o Vasco.
1820
1820
V
Catalogação
Dominum
"
"Magnificat"
Hino de Vésperas das Santíssimas
Chagas
de N.S.J.C, a 5 e a 6 de fevereiro
a 4 v. e
órgão, com orq. "ad. lib." de vi., fl., cl., ob.,
fg., trp., comi e cb.
Observações
( C T A p ê n d . X I ) M.P. Vasco
( C T A p ê n d . X V I I ) J.J. Maciel
J
V
Data
Titulo e
1820
"Credidi
alternado
em Ia tom,
para
Vésperas das Chagas de N.S.Jesus Cristo em
5 e 6 de fevereiro,
a 4 v. e órgão, vis., vlcs.,
fls., cls., obs., cor, fg., tp. e cb.
partitura
original
composta
por ordem
de S.M.
Fidelíssima
no ano de 1820.
( C T A p ê n d . L X X I I I ) J.J. Maciel
1820
Missa e Credo
órgão.
1820.
( C T A p ê n d . C X I ) J.J. Maciel. P o d e
ser obra r e c o p i a d a n o fim d o séc.
XIX, sem o título original.
1820
Missa do Patrocínio
de N. Sra. sob o título
de Nossa Senhora da Cabeça, a4v.e
órgão.
1820
( C T A p ê n d . C X I I ) J.J. Maciel
1820
Sequência
"Victimae
Paschali"
para a
missa da Ressurreição
do Senhor nos dias
de Domingo,
2a e 3a feira da oitava da
Páscoa, a 4 v. e órgão, com vlc., fg. obr. e
cb.
( C T A p ê n d . C X X V ) Obra registrada
por J.J. Maciel
1820
Vésperas do Espírito Santo a 4 v. e instrumental: vl., vlc., fl., cl., fg., trp., cor, tp. e
cb. ("Dixit
Dominus",
"Confitebor",
"Beatus
vir",
"Laudate
Dominum",
"Magnificai
").
(CT
Apênd.CXLVII)
Destas
Vésperas s o b r e v i v e o
Laudate
pueri, o r q u e s t r a d o ( P M 179).
Catalogação
de Sta. Bárbara
Observações
para
4 v. e
J
r
Data
Título e
1821
Laudate Dominum
Omnes Gentes
Psalmo
Para as Encomendaçoens
dos
Innocentes
falecidos
Com
duas Rabecas,
duas
Clarinetas,
2 Trompas, 4 Vozes, e Baixo
Composto no Anno de 1821 pelo Pe Joze
Mauricio
Nunes Garcia arranjado
sobre
alguns motivos da Grande obra da Creação
do Mundo do Immortal Haydn
eofferecido
ao & João dos Reis Pereira pelo Seo Autor.
( P M 78) (Aut.)
1821
Anno
1821 Laudate
Pueri
Dominum
Psalmo
Para
as Encomendaçoens
dos
innocentes
defunctos Com Duas Rabecas,
duas clarinetas
duas Trompas, 4 vozes e
Baixo Composto no anno de 1821 Pelo P"
Joze Mauricio
Nunes Garcia, e
arranjado
sobre alguns motivos da grande obra da
Creação do Mundo do Immortal
Haydn e
r
offerecido
ao S João dos Reis Pereira
pelo
Seo Autor.
(PM 79) (Aut.)
1821
Novena
( C T A p ê n d . L X I ) M.P. Vasco
1821
Compendio de Musica/e/Metbodo de Pianoforte/do/Sr.
P* M" Jozé Mauricio
Nunes
Garcia./Expressam."
escripto/Para
o Dr.
Jozé Mauricio
e seu Irmão
Apollinario/em/
1821.
^
Catalogação
de N.S.ra do Monte
Observações
do
Carmo
( P M 236)
J
V
Data
Título e
1821
Original Laudamus te = Duetto de Soprano
e Contralto/Com
2 Rabecas, hua Violeta, 2
Clarinetas/
2 Trompas,
Violoncellos,
e
Contrabasso/Composto
em Agosto do anno
de 1821/Pelo
P.° Joze Mauricio
Nunes
Garcia/ anno
1821.
( P M 157)
1822
Anno 1822/Novena/do SS.mo
Sacramento/a
4 Vozes, rabecas,
bua
Clarineta,/bua
Trompa,
Violoncello,
e
Contrabasso/
Composta no Anno de 1822/Pelo P* Joze
Mauricio Nunes Garcia/Para a
Irmandade
do SS.mo/da Freguesia
do Mesmo SS.mo Sacramento.
( P M 68)
1822
O Salutaris,
mento
1822
Ladainhape
a Novena do
— por Joze Mauricio/anno
1823
Missa A 4 Abreviada/Com
2 Rabecas, 2
clarinetas, 2 Trompas, 4 Vozes,
Violoncelo,
E Contrabasso/Composta
no anno de 1823/
Pelo P." Joze Mauricio
Nunes
Garcia.
( P M 112) Partitura autografa. Falta
o Qui tollis, trecho encontrado em
cópia, n o Museu Carlos G o m e s .
1824
Ladainha do Sagrado
P. José
Mauricio
( P M 50)
Catalogação
Observações
in.- Novena/do
SS.mo
Sacra-
SS.m"
Sacramento
1822.
Coração
de Jesus Por
(PM
14a) A
Novena
catalogada: PM 68
está
( P M 49)
J
Data
Título e
1824
Novena abreviada
de N.S.ra do Monte
Carmo a 4 v. e órgão, com
do
(CT Apênd.LXII)
1826
Missa Com g." orquestra Composta pelo
Jose Mauricio/Nunes
Garcia no Anno
1826.
P."
de
( P M 113)
V
B)
(
Catalogação
Observações
Manuscritos sem data conhecida. Citações também não datadas.
Título e
Data
Catalogação
\
Observações
S.d.
Antiphona/de
S.Joze a Quatro Vozes Com
Violino/Violla,
Flautas, Trompas e/Basso/
Pello seu Aucthor
o Re.''0 Joze
Mauricio
Nunes
Garcia.
T e x t o : Joseph, fili David ( P M 5a)
S.d.
Ave Regina Caelorum/Antífona
de Nossa
Senhora desde as Completas do dia/2 de
Fevereiro
athe 4afr" maior ou de trevas/a
4 Vozes e Organo de Capella/Composta
pelo
Pe Joze Mauricio
Nunes Garcia
(incipit)
(PM 6)
S.d.
Antiphona
Ré M, 3/4. ( P M 7 )
S.d.
[Antífona]Ecce
S.d.
Antífona
^
Ecce
Sacerdos
Sacerdos
J
Mi b, C ( P M 7a)
O . A . D . T e x t o : Fios Carmeli
( P M 8)
J
V
>
Data
Título e
S.d.
Antífona
a 4/P" N.Sr" do
Carmo/Com
Violini/Oboe/Trombe
e/Basso/Flos Carmeli,
vi tis florigera
etc./etc./etc/ Do Snr.
Victorio
M«
T e x t o : Fios Carmeli
S.d.
O Sacrum
Convivium/Pa
a Exposição
do
SS.mo Sacram.'"/
e Tantum
ergo P" a
Repozição/Com
Violinos,
Flautas,
e
Trompas,/E Vozes e Basso/Feito Pello R.riu
P M" da Real Capella José/Mauricio
Nunis
Garcia
(PM 9)
S.d.
Para Sabado
de Alleluia/Regina
Laetare/ Antífona
de N.S. desde a
atbe a
Trindade
Coeli
Pascoa
( P M 10)
S.d.
Regina Coeli laetare alleluia Antífona
de
Nossa a 4 Vozes Desde as Completas
de
Sabado
d'Alleluia
Atbe as
primeiras
Vesperas
da Dominga
da
Trindade/
Composta/ pelo P Joze Mauricio
Nunes
Garcia
(incipit)
( P M 11)
S.d.
"Alma
Redemptoris"
Relação de obras de
Apênd.I)
S.d.
"Exaudi
nos"para
Catalogação
4aFeira
Observações
de
Cinzas
C.T.O.O.
Apênd.II)
(incipit
( P M 8a)
nQ
1811 ( C T
2) ( C T
)
r
Data
Título e
Catalogação
S.d.
"Ecce Sacerdos Magnus" a 4 vozes e órgão,
com acompanhamento
de vis., vias. fls.,
cls.,
oboés,
clarins,
trombones
e
contrabasso faltando
a parte de trompas
J.J. Maciel:" sem as t r o m p a s " ( C T
Apêndice III)
S.d.
"Ecce Sacerdos " a 4 v. e órgão com vl., via.,
vlc., fl., cl., oboés, fg., trp., cor, trb., tp., e
cb.
J.J. Maciel: "partitura ( c ó p i a ) " ( C T
Apênd.IV)
Observações
S.d.
"Ecce Sacerdos "
(CT Apênd.V a)
S.d.
Cântico Benedictus, e Christus factus est etc
etc/composto pelo F* Joze Mauricio
Nunes
T e x t o : Quia visitavit
Texto: Cântico de Zacarias ( P M 15)
S.d.
Benedictus
S.d.
"Benedictus
S.d.
3 "BEnedictus
S.d.
"Benedictus"
S.d.
9
^
em 8 tom
" das
Procissões
" a vozes e
com vlc.
"Magnificat"
órgão
efg.
( P M 14)
C.F. Relação de obras d e 1811 ( C T
Apêndice VI)
C.F. Relação de obras d e 1811 ( C T
Apêndice VII)
C.F. Relação de obras d e 1811 ( C T
Apêndice VIII)
C.F. Relação de obras d e 1811 ( C T
Apêndice IX)
/
V
Data
Título e
S.d.
"Magnificai"
alternado em 1° tom, para as
procissões de N. Sra. e do Anjo Custódio do
Reino a 4 v. somente, composta para a Sé
do Rio de Janeiro.
J.J. M a c i e l :
Apênd.XIII)
"sem
data"
(CT
S.d.
"Magnificai"
em 8 tom alternado
com
cantochão,
para as procissões de N. Sra. a
4 v. somente.
J.J. M a c i e l :
Apênd.XIV)
"sem
data"
(CT
S.d.
"Salutaris"
Vide XCIII (CT Apênd. XlVa)
S.d.
"Himno para Matinas
e p" Tercia",
in.Organo/Himnos
Para as Ia' e 2a* Vesperas
de S. Pedro/e outrop"Matinas,
e Laudes/a
4 Vozes de Capella/Compostos/Pelo
P" Joze
Mauricio
Nunes Garcia/Para
a Capella
Real
Texto: Aeterna
Christi
munera.
Ó r g ã o e cantochão c o m cifragem.
( P M 18)
S.d.
"Himno
de Laudes",
in. Himnos
das
vesperas,
Matinas,
Laudes e
Segundas
vesperas do Natal A 4 vozes de Capella Por
Joze Mauricio
Nunes Para a Capella Real
T e x t o : A solis ortus Cardine.
19)
S.d.
Ave Maris Stella Himno para as las e 2a*
Vesperas de Nossa Senhora E outro
para
Matinas;
e outro p" as Laua 4 Vozes e
Organo de Capela Composto pelo P Joze
Mauricio
Nunes
Garcia
Para
a Real
Capella.
Texto: Ave Maris Stella. Ó r g ã o e
c a n t o c h ã o c o m cifragem. ( P M 20)
Catalogação
Observações
^
(PM
'
r
V
Catalogação
Observações
Data
Título e
S.d.
Hymno/Ave
Maris Stella
Com/Violini,
Flautas, Trompas,
Violortcello,
Organo/e
Basso,/P.' Joze Mauricio
Nunes
Garcia.
T e x t o : Ave Maris stella. Cópia ( e
possível harmonização) de A.
N e p o m u c e n o . ( P M 21)
S.d.
"Himno
de Laudes",
in.- Himnos
Para
Vesperas, Matinas, e Laudes da
Dominga
de Pentecoste/Para
o dia do divino
Espirito
Santo/Por J.M.N. G.
T e x t o : Beata nobis gaudia. Ó r g ã o
e c a n t o c h ã o c o m cifragem. E um
h i n o para Tércia - Veni
creator
spiritus - c o m ó r g ã o e cantochão
sem c i f r a g e m .
S.d.
"Himnop?
Laudes", in: Himnos Para as Ia*
e 2as Vesperas de S. Pedro
e outro
p"
Matinas,
e Laudes a 4 Vozes de Capella
Compostos Pelo P° Joze Mauricio
Nunes
Garcia Para a Capella Real
T e x t o : Beate Pastor Petre ( P M 23)
S.d.
Crudelis Herodes Himno p" o dia de Reis
em Vesperas Matinas e Laudes
alternado
Composto pelo Pc Joze Mauricio
Nunes G.
Para a Capella Real
T e x t o : Crudelis Herodes. Ó r g ã o e
c a n t o c h ã o c o m cifragem. ( P M 24)
S.d.
"Himnos Para as las e 2a* Vesperas de S.
Pedro",
in.- Himnos
Para as Ia* e 2a*
Vesperas de S. Pedro, e outro paMatinas,
e
Laudes a 4 Vozes de Capella Compostos Pelo
P" Joze Mauricio
Nunes Garcia Para a
Capella Real
T e x t o : Decora
lux
aeternitatis
Órgão e cantochão com cifragem
( P M 25)
J
V
Data
Título e
S.d.
"Himnop"
Vesperas eMatinas",
in.- Himnos
Para Vesperas, Matinas, e Laudes/do Officio
de S. Sebastião/a
4 Vozes e
Organo
Compostos Pelo P Joze Mauricio
Nunes
Garcia/Para
a Capella Real
T e x t o : Deus tuorum
( P M 26)
S.d.
Himnos p° as las e 2a* Vesperas da Rainha
5*a Izabel/ a 4 de Julho/de Capella pelo P
Joze Mauricio/Com
outro
Himno
p" o
Apostolo/S. Jacob a 25 de Julho
T e x t o : D o m a r e cordis. Ó r g ã o e
c a n t o c h ã o c o m cifragem. ( P M 27)
S.d.
"Himno p" 25 de julho S. Jacob Apostolo ",
in.- Himno
pa as Ia* e 2a'
Vesperas/da
Rainha S1" Izabel/a 4 de Julho/de
Capella/
pelo P Joze Mauricio/Com
outro Himno p"
o Apostolo/S. Jacob a 25 de Julho
S.d.
Hinop" Laudes, in.- Himnos Para Vesperas,
Matinas, e Laudes do Officio de S. Sebastião
a 4 Vozes e Organo Compostos pelo P Joze
Mauricio
Nunes Garcia
Para a Capella
Real
Texto: Invicto
martyr. Ó r g ã o e
c a n t o c h ã o c o m cifragem. ( P M 29)
S.d.
Himno de Vesperas Iste Confessor
Domini
do Comum dos Confessores não
Pontífices
Para S. Joaquim ep" S. Francisco de Borja
Composto Por Joze Mauricio
Nunes
Garcia
Para
a R.C. Com outro
Himno
pa as
Vesperas de todos os Santos.
T e x t o : Iste confessor
Domini.
Ó r g ã o e cantochão com cifragem.
( P M 30)
Catalogação
Observações
militum.
- —
/
T e x t o : Exultet orbisgaudiis.
Órgão
e c a n t o c h ã o c o m cifragem.
( P M 28)
J
r
V
Data
Titulo e
Catalogação
Observações
S.d.
"Hymno
de Matinas",
in.Himnos/Para
Vesperas, Matinas, e Laudes/ da
Dominga
de Pentecostes/Para o dia do divino
Espirito
Santo/Por J.M.N.G.
Texto:
Jam
Cb ris tus
astra
ascenderat.
Órgão e cantochão
c o m c i f r a g e m . ( P M 31)
S.d.
Himno das Vesperas da SS""" Trindade
E
também Serve para as Laudes e Segundas
Vesperas
T e x t o : Jam sol recedit
igneus.
Ó r g ã o e cantochão c o m cifragem.
( P M 32)
S.d.
H i m n o d e Vesperas e Matinas", in: Himnos
das Vesperas, Matinas; Laudes e Segundas
V e s p e r a s d o N a t u a í Jesu R e d e m p t o r
o m n i u m A 4 v o z e s de Capella Por Joze
Mauricio Nunes Para a Capella Real
Texto: Jesu redemptor
omnium.
Ó r g ã o e cantochão c o m cifragem.
( P M 33)
S.d.
" H i m n o p a Laudes", in: A v e Maris Stella
H i m n o para as I a5 e 2" Vesperas d e Nossa
Senhora E o u t r o para Matinas; e outro p a
as Laudes a 4 V o z e s e O r g a n o d e Capella
C o m p o s t o p e l o Pe- Joze Mauricio Nunes
Garcia Para a Real Capella
T e x t o : O gloriosa Virginum. Órgão
e c a n t o c h ã o c o m cifragem. ( P M
34)
S.d.
" H i m n o d e Laudes", in: H i m n o p a o dia de
Reis e m V e s p e r a s Matinas e Laudes
alternado C o m p o s t o p e l o Pc- Joze Mauricio
Nunes G. Para a Capella Real.
T e x t o : O sola magnarum
urbium.
Ó r g ã o e cantochão c o m cifragem.
( P M 35)
J
V
Data
Título e
S.d.
" H i m n o p 4 as 1 " e 2" Vesperas d o SS.mo
Sacramento" in: Himnos p a as Vesperas de
S. J o z é e para as d o SS.™ Sacram.'° a de 24
de Março a 4 V o z e s e O r g a n o alternados
C o m p o s t o s p e l o P c Joze Mauricio Nunes
Garcia P» a Real Capella.
T e x t o : Pange
lingua.
Órgão e
cantochão c o m cifragem. ( P M 36)
S.d.
"Himnop"
as Vesperas de todos os Santos",
in.- Himno
de Vesperas Iste
Confessor
Domini
Do Comum dos Confessores
não
Pontífices Para S.Joaquim e paS.
Francisco
de Borja
Composto
Por Joze
Mauricio
Nunes Garcia
Para a R.C. Com
outro
Himno p" as Vesperas de todos os Santos
Texto: Placare
Christe. Ó r g ã o , e
c a n t o c h ã o cifrados. ( P M 38)
S.d.
"Himno de Matinas",
in. Ave Maris Stella
Himno para as Ia* e 2a* Vesperas de Nossa
Senhora E outro para Matinas; e outro pa
as Laudes a 4 Vozes e Organo de Capella
Composto
pelo P Joze Mauricio
Nunes
Garcia Para a Real Capella
T e x t o : Quem Terrapontus
sidera.
Ó r g ã o e cantochão com cifragem.
( P M 39)
S.d.
"Himno
de S. Antonio
para
las e 2a*
Vesperas, e para Laudes", in.- Himno das
Vesperas Ia e 2a de S" Antonio a 4 Vozes
de Capella Por Joze Mauricio Nunes Garcia
Com outro Himno das Vesperas de S. João
Baptista
T e x t o : Qui lusitanos
deserens.
Ó r g ã o e cantochão c o m cifragem.
( P M 40)
Catalogação
Observações
J
Data
Título e
S.d.
Himno das Vesperas da Ascensão 5"fra a 4
Vozes de Capella
Composto
Por
Joze
Mauricio
N. G. Com outro Himno
das
Vesperas da SS™" Trindade
T e x t o : Salutis
humanae
sator.
Ó r g ã o e cantochão c o m cifragem.
(PM 41)
S.d.
Himnos pa as Vesperas
do SS.mo Sacram.'" a 24
e Organo
alternados
Joze Mauricio
Nunes
Capella.
de S. Jozé epara as
de Março a 4 Vozes
Compostos pelo P'
Garcia
P" a Real
T e x t o : Te Joseph celebrent.
Órgão
e c a n t o c h ã o c o m cifragem. ( P M
42)
S.d.
"Himno das las e 2a* Vesperas de S. João
Baptista e também para Laudes", in. Himno
das Vesperas Ia e 2a* de S" Antonio
a 4
Vozes de Capella Por Joze Mauricio
Nunes
Garcia Com outro Himno das Vesperas de
S. João
Baptista
Texto: Ut queant laxis. Ó r g ã o e
c a n t o c h ã o c o m cifragem. ( P M 4 3 )
S.d.
"Himno
das Vesperas", in.- Himnos
Para
Vesperas, Matinas,
e Laudes da
Dominga
de Pentecostes Para o dia do divino Espirito
Santo Por
J.M.N.G.
T e x t o : Veni creator spiritus. Ó r g ã o
e cantochão com cifragem. (PM
44)
S.d.
[Veni
C ó p i a s e m data n e m n o m e d e
autor, proveniente da igreja de Rio
Pardo (RS). ( P M 45)
^
Catalogação
creator
Spiritus]
Observações
J
Observações
Data
Título e
Catalogação
S.d.
Gloria Laus et honor para a Procissão
do
Domingo
de Ramos a 4 Vozes somente.
S.d.
"Gaude Tuorum"para
Laudes de S. Sebastião.
Vésperas Matinas
4 v. e órgão
e
J.J. Maciel. ( C T A p ê n d . X V )
S.d.
Hinos para St" Estevão na
oitava, S.João
Evangelista na 2a oitava e SS. Inocentes na
3a oitava. 4 v. e órgão.
J.J. Maciel. ( C T A p ê n d . X V I )
S.d.
"Iste Confessor"
das Vésperas
Coração de Jesus com outro de
(CT Apênd.XVIII)
J.J. M a c i e l
S.d.
"Vexilla Régis" para Vésperas da festa
Exaltação
de Santa
Cruz
em 24
setembro a 4 v. e órgão
S.d.
"Veni
Sancte
Spiritus"
das
Matinas e Laudes de Pentecostes
órgão.
S.d.
Ladainha
das Dores de Nossa
S.d.
Ladainha,
Mauricio
in.- Novena
S.d.
Ladainha,
in.- Novena
^
Ia
do SSmo
Sant'Ana.
Vésperas
a 4 v. e
Senhora
de S.Joaquim
de S"
da
de
Tereza
Por I*
\
(CT Apênd.XXII)
J.J. M a c i e l
J.J. Maciel ( C T A p é n d . X X I I I )
( P M 50a)
( P M 51)
( P M 51a)
J
Observações
Data
Título e
S.d.
Mottetto a Solo/Creator Alme
Siderum/com
V. V. V., flauta a sollo, Trompas e Baxo/Pelo
P* M° Joze Mauricio
Nunes Garcia/P. a S.
Lyra S. Joanense/Para
o uzo
de/Antonio
Angelo da Costa e Mello
(PM 59) Texto:
siderum
S.d.
Motetto/do/SS.mo
Sacramento,
Deos/Por
J.M.N.G.
( P M 6 0 ) T e x t o : Ego sum panis
tae
S.d.
"Ia Motetto",
in.- Organo/Motettos
Domingas/
pelo/P.'
M.' J.M.N.
Miserere pelo Snr./F. M. da Silva
S.d.
"2a Motetto",
in.- Motettos
para
as
Domingas/
Pelo P.e M.e J. M. N.:
Garcia/
Miserere pelo SrnY F.M. da Silva
( P M 6 2 ) T e x t o : Inter
S.d.
Timbale - Motteto
de S. João Bap.'a
(PM 63)
S.d.
Si quaeris
V
Catalogação
da Festa
miracula
e
Corpo/de
p" as
Garcia/
da/Degolação
Creator
( P M 6 1 ) T e x t o : Immutemur
alme
vi-
habitu
vestibulum
( P M 63a) A Relação de Obras
c o m p o s t a para a C a p e l a R e a l
menciona u m Motetop"
a Trezena
de S. Antonio
q u e justifica a
autoria desta peça sem data e sem
n o m e d e autor ( a n t i g o PM 101).
J
Data
V
Titulo e
Catalogação
de Santa
Observações
( P M 65)
S.d.
Novena
S.d.
Moteto 10 Responsorio
Sra. 5 v. e órgão
Bárbara
S.d.
Moteto
I a Responsorio
do Ofício
do
Patrocínio
de São José com o 2a de S. Francisco de Borja, Padroeiro
do Reino, para o
ofertório das Missas desses dois dias. 4 v. e
órgão
J.J. Maciel. ( C T A p ê n d . L I I )
S.d.
Moteto
4a Responsorio
das Matinas
Arcanjo
S. Miguel,
para o ofertório
Missa. 4 v. e órgão
do
da
J.J. Maciel ( C T A p ê n d . L I I I )
S.d.
Moteto 1° Responsorio para o ofertório
Missa da Natividade
de Nossa Senhora,
8 de setembro.
4 v. e órgão
da
em
J.J. M a c i e l ( C T A p ê n d . L I V )
S.d.
Moteto 5a Responsorio
do Ofício da SS.ma
Trindade, para o ofertório da Missa. 4 v. e
órgão
J.J. Maciel ( C T A p ê n d . L V I )
S.d.
Moteto 1° Responsorio
do Ofício de Santa
Bárbara, para o ofertório da Missa. 4 v. e
órgão
J.J. Maciel ( C T A p ê n d . L V I I )
da Purificação
\
de N.
J.J. Maciel. T e x t o : Felix
namque.
D e v e corresponder a o CT 104. ( C T
Apêndice LI)
*
J
r Data
Título e
Catalogação
Observações
S.d.
Moteto para a Vigília do Natal. 4a
do Advento, 4 v. e órgão
S.d.
Novena
S.d.
Novenas
Mauricio
Jose
(PM 70)
S.d.
Novena
de Nossa Snr" May
dos/Homens
Com/Violini,
Flauta obrigada,
Trompas e/
Basso/Pelo P." Joze Mauricio
Nunes
Garcia/
De Fran.c° Ant° da Costa
(PM 71)
S.d.
[Novena]
Parte avulsa d e "baixo" instrumental ( P M 7 2 )
S.d.
Novena
de S.Joaquim
S.d.
Novena
de S.'a
S.d.
Septenario
Doloroso
4 vozes,
com
acompanhamento
de violinos,
Violas e
Baixo por José Mauricio
Nunes
Garcia
T e x t o : Setenario
Dores ( P M 7 4 )
S.d.
Laudate
Mauricio
(PM 80)
S.d.
"De Profundis
clamavi ad te"para
Véperas do Natal. 6 v. e órgão
^
da Conceição
da
-
Conceição
Dominga
J.M.N.G.
Pelo
Por P." José
( P M 69)
P.'
Mauricio
do Snr.
(PM 73)
( P M 73a)
Tereza
Dominum
J.J. Maciel ( C T A p ê n d . L V I I I )
P." M.'
Joze
as 2."'
para
N.Sa
das
( C T A p ê n d . L X X V ) J.J. Maciel
_J
^
Data
Título e
Catalogação
S.d.
"In Exitu
Domingos.
Israel"
das
4 v. e órgão
dos
J.J. Maciel ( C T A p ê n d . L X X V I I )
S.d.
"In Exitu Israel de Eggyptu " a 4 v. e órgão,
alternado
com cantochão
em 8o tom.
J.J. Maciel ( C T A p é n d . L X X V I I I )
"Lauda Jerusalem
M.P.Vasco ( C T A p ê n d . L X X X )
S.d.
S.d.
Tamtum
pessimus.
S.d.
Tantum
S.d.
S.d.
V
Vésperas
".
Ergo,
i n : Judax
O Crux tantum
Ergo
mercator
ergo
( P M 85)
( P M 86)
Tantum ergo, in: Novena
José
Mauricio
Tantum
Observações
de S.Joaquim
ergo, in: NOvena
de S.'a
Por
Tereza
( P M 87)
( P M 87a)
S.d.
"Tantum
ergo para a Repozição",
in: O
Sacrum Convivium/Pa
a Exposição do SS.'""
Sacram.'°/e
Tantum ergo P" a
Repozição/
Com Violinos, Flautas e Trompas/4 Vozes e
Basso/Feito Pello/R.do P." M.' da Real Capella
Jozé/Mauricio
Nunis
Garcia
( P M 88)
S.d.
Tantum ergo, in: Setenario
José Ma u ricio
P."
( P M 89)
S.d.
"Tantum
J.M.N.G.
Alternado
( P M 90)
Ergo",
das Dores.
in: "Te Deum
_J
Observações
Título e
S.d.
Te Deum Alternado
S.d.
Te Deum (com fuga), p" 4 vozes e orchestra (cordas,
flauta,
2 clarinetes,
2
trompas)*
Obra desaparecida. Dela existem,
n o C.T.O.O., os incipits: Te Deum
e fuga
Tu
Patris.
Ambos
assinalados
no
fim
deste
cadastramento.
"(Cop.
M.
[ M e n d a n h a ] e duas outras d o Rio:
faltam violas)". Terá n o PM n° 94a.
S.d.
Organo/Te Deum Laudamus/De
Capela a
4 Vozes/p" as Matinas
da
Conceição/de
N.S/Composto/Pelo
PS Joze Mauricio
Nunes
Garcia/para
a Capella Real/
(PM 95) ( i n c i p i t )
S.d.
Te Deum
(PM 96)
S.d.
Te Deum
alternado/a
4/Com
Violinos,
Flauta,
Trompas/e/Basso
ad
Libitum/
Composto por José Mauricio
Garcia/
Digo
Pelo P." Jozé Mauricio
Nunes
Garcia/João
dos Santos
(PM 97)
S.d.
"O Crux", in.- JudaxMercatorPessimus.
Crux. Tantum
Ergo
(PM 98)
S.d.
Senhor deus, misericórdia,
in."Motettos
para a Procissão
dos Passos (e
deposição)
Pelo Notável Maestro o Padre José
Mauricio
N. Garcia a 4 vozes, e piquena
Orquestra
V
Catalogação
A
Data
J.M.N.
do P." M." J.M.N.
Garcia
Garcia
( P M 94)
(1799?)
O
( P M 100)
J
r
\
Data
Titulo e
Catalogação
S.d.
Siquaeris
S:d.
Te Deum
S.d.
Original
em 1835 Por Francisco
da L.P.
Missa
breve
Com violinos
Clarinetta
Trompa
Timpano
Contrabasso/
4 vozes
Composta somente a orgão pello Snr. P.'
Mestre Jozé Mauricio
Nunes
Garcia
( P M 114)
S.d.
Missa/Do
Garcia
Nunes
( P M 115)
S.d.
Missa a 4, Composta
pelo
Mauricio
Nunes
Garcia
Joze
( P M 116)
Observações
( P M 101)
Miracula
de S.José alternado
Sr Pr Af
\
Joze
a 4 v.e
Mauricio
P*• M'
órgão
J.J. Maciel ( C T A p ê n d . L X X X I X )
S.d.
Missa a 4 do P" M' Jose Mauricio
Garcia
Nunes
( P M 117)
S.d.
Missa a 4 vozes Com Violinos,
Trompas, e Basso por Joze Mauricio
Garcia
Flauta,
Nunes
( P M 118)
S.d.
Missa de nossa SenhoraYPara
o dia 2 de
Fevereiro./Na
Cathedrál
do
Bispado./
Composição
do Padre/José Maurício
N.
Garcia
( P M 119) C ó p i a l e v a n t a d a p o r
M i g u e l P e d r o Vasco e m 1892. O
o r i g i n a l tem Missa e Credo.
S.d.
Missa a grande
( P M 120)
orchestra.
J.M.N.
Garcia
J
/ —
Data
Titulo e
S.d.
Messa a Quattro
Voei/dei S.r
Maestro dei'a Regia Capella
S.d.
Missa
órgão
S.d.
Credo a 4 vozes
de Santa
Isabel
Observações
PM.J.M.N.G.
Rainha.
4 vozes e
^
( P M 120a) C o p i a d a juntamente
c o m a Missa a grande
orchestra,
P M 120.
J.J. Maciel ( C T A p ê n d . I C )
somente
Maciel registra dois sem data. ( C T
Apênd.CXIII)
"Gradual",
in.- Gradual
e
Ofertório
"Ascendens Deus in jubilatione"
para 5a
feira da Ascenção do Senhor, a4v.e
órgão
J.J. M a c i e l ( C T A p ê n d . C X I X ) O
Gradual desapareceu. O Ofertório
tem n. 53 e data.
S.d.
Credo do P.' José
( P M 123) - D ó M
S.d.
Harmonium/Credo
Mauricio
S.d.
Basso/Credo/Do
S.d.
Credo/D.
S.d.
Credo Jozé Mauricio
S.d.
Credo
S.d.
Gradual,
i n : Gradual
e Sequencia
Espirito Santo. Jose
Mauricio
S.d.
V
Catalogação
Mauricio
a 2 Vozes/de
P" M' Jose
José
Mauricio
( P M 125) - d ó M
( P M 127) - RéM
P'M:J.M.N.G.
Nunes
( P M 124) - D ó M
( P M 128) - FáM - O . A . D .
Garcia
( P M 129) - SibM
do
T e x t o : Alleluia
tuum ( P M 147)
emitte
spiritum
J
V
Data
Título e
S.d.
Gradual a 4. Dilexisti justitiam,
et odisti/
Com Violinos, Oboés, Trompas e Basso/Pelo
Rdo Snr. P" Joze Mauricio
Nunes
Gar/cia/
Ferreira
( P M 148)
S.d.
Gradual
P.' Jose
da Festa de N.S. das Dores,
Mauricio
T e x t o : Dolorosa
( P M 149)
S.d.
Gradual
SS.mo Sacramento
Texto: Ego sum panis
150)
vitae
(PM
S.d.
Emitte Spiritum
Tuum Gradual
para a
Festa do D. Espirito Sancto/a 4 vozes com
acomp. de 2 violinos, duas flautas,
oboés,
trompas e baixo - pelo P. José Mauricio
da
Gama.
T e x t o : Emitte
151)
tuum
(PM
S.d.
Pa o Divino
T e x t o : Gradual
Santo ( P M 152)
S.d.
Gradual/Para
M.J.M.N.G.
S.d.
"Gradual de Santo Antonio de Padua ", in.Gradual para S. Miguel e outro dito de S.'°/
Antonio com vv Trompas Oboé
Baxo/Violon
Cello etc. Pelo Rda Jose
Mauricio/Nunez
Garcia, epertense A/Jose de Faria
Barros.
Catalogação
Spirito
Observações
pelo
J.M.N.G.
Santo
Missa
do
Gallo/do
P.'
et
spiritum
para
lacrimabilis
o
Espírito
T e x t o : Hodie nobis coelorum
( P M 153) I n c o m p l e t o
Texto:
154)
Os justi
meditabitur
rex
(PM
J
r
Catalogação
\
Data
Título e
S.d.
Gradual de S. Lourenço Com Violinos Viola
Oboés
Trompas
4 Vozes
Violoncello
Tímpano
e Órgão
Composto
pello
Reverendo
Padre Mestre Jozé
Mauricio
Nunes Garcia. Pertence a Francisco da Luz
Pinto.
( P M 155) T e x t o : Probasti
cor Meum
S.d.
Gradual Para Solemnid.' do Esp.'° S.'° Veni
Sancte Spiritus
a 4 vozes Pelo P.' Joze
Mauricio
Texto:
156)
S.d.
Gradual
e Ofertório
"Ascendens Deus in
jubilatione"para
5afeira
da Ascenção
do
Senhor, a 4 v. e órgão
( C T A p ê n d . C X I X ) J.J. Maciel
S.d.
Gradual, Sequência e Ofertorio para Missa
de Domingo
do Espírito Santo, a 4 v. e
órgão
Alleluia Emitte Spiritum
Tuum
Confirma
Hoc Deus
Veni Sancte
Spiritus
( P M 147, 161, 169) I n c o m p l e t o
S.d.
Laudamus a Solo de
soprano/Com/violinos
Violla Flauta Clarinettas/Trompas
Violoncello Trombão/e
Contrabasso/Composto
pello Snr. P*-M*-f- Mauricio/Nunes
Garcia.
( P M 158)
Observações
Veni Sancte
Domine
Spiritus
(PM
( P M 159) o n o m e d o c o m p o s i t o r
f o i a c r e s c e n t a d o a lápis.
V
)
V
Data
Titulo e
S.d.
Solo Quoniam,
Mauricio
Nunes
"N
Catalogação
Observações
de Basso,
Garcia
pelo
P*
]•
das dores,
P."
S.d.
Stabat Mater, in: Setenario
Jose
Mauricio
S.d.
Stabat Mater
S.d.
Seqiiência,
in: Gradual
e Sequência
Espirito Sancto. José
Mauricio
das Dores Pelo /*
Mauricio
V i d e P M 74 ( P M 167)
( P M 168)
T e x t o : Veni Sancte Spiritus
S.d.
Matinas/da Conceição/Soprani/Do
Jozé Ma u ricio
P" M"
( P M 174)
S.d.
Basso/Matinas/de
Nossa Senhora
do
Carmo/do Snr. P6 MJose
Mauricio
Nunes
Garcia
( P M 175)
S.d.
Soprano/2"
As iniciais d o c o m p o s i t o r f o r a m
acrescentadas a lápis. ( P M 176)
Matinas
de S.'a
Cecilia/J.M.N.G.
S.d.
3 Matinas
S.d.
Matinas
para
S.d.
Matinas
órgão
de N. Sra. do Carmo,
para
vozes mistas e
violoncelo
Sr
do
( P M 164)
R e l a ç ã o d e Obras para a Capela
Real. ( C T A p ê n d . C X X V I )
órgão
e fagote
para
R e l a ç ã o d e Obras para a Capela
Real. ( C T A p ê n d . C X X V I I )
4 v. e
J.J. Maciel. ( C T A p ê n d . C X X X I I I )
J
Data
Título e
Catalogação
S.d.
Matinas
S.d.
Matinas dos Reis a 4 v. e órgão do 4a ao 8°
Responsórios
J.J. Maciel. ( C T A p ê n d . C X X X V )
S.d.
In convertendo
Dominus
4o Psalmo
das
Segundas
Vesperas
do Comum
dos
Apostolos Psalmo a 4 de Capela
Composto
pelo P." Joze Mauricio
Nunes
Garcia
(1797?) ( P M 180)
de S. Sebastião
S.d.
Vésperas de Sant'Anna
S.d.
Vésperas dos Domingos
S.d.
Segundas
S.d.
Officio
S.d.
Officio/do
Observações
a 4 v. e
J.J. Maciel. ( C T A p ê n d . C X X X I V )
órgão
para vozes e
órgão
J.J. Maciel ( C T A p ê n d . C X L V I I I )
para
4 v. e
órgão
( C T A p ê n d . C L ) J.J. Maciel
Vésperas do Natal,
4 v. e
órgão
( C T A p ê n d . C L I ) J.J. Maciel
Mauricio
( P M 187) T e x t o : Regem cui
vivunt. O . A . B .
de Deffuntos
Pelo P.' José
P.'J.M.N.G./para
( C T 191) O Ofício
coros.
4 Vozes
omnia
é a 8 vozes e
S.d.
Missa de R e q u i e m em fá menor,
estylo
severo, 4 vozes sem solos, violinos, viola, 2
flautas, 2 trompas e baixo.**
( C T A p ê n d . C L I I ) É a continuação
d o Ofício anterior. Vem registrada
e m incipit n o C.T.O.O., assinalado
no fim deste cadastramento.
" ( C o p . M. [ M e n d a n h a ] antigas,
excepto vozes)".
S.d.
Responsórios
Mauricio
( P M 192)
^
Fúnebres
do Padre
Jose
J
V
Observações
Data
Titulo e
Catalogação
S.d.
"Antífona
para Benedictus",
in:
Cântico
Benedictus/ e Christus factus est etc/Organo
a 4/Composto pelo PS Joze Mauricio
Nunes
( P M 196) V i d e PM 193
S.d.
Aleluia/para
a Missa de Sabado
d'Alleluia/
a 5 vozes/ Do P.' M.' Joze Mauricio
Nunes
Garcia
( P M 201)
S.d.
"Bajulans",
in.- Bajulans
Motettos J.M.N.
Garcia
( P M 202)
S.d.
Gradual
a 4 Vozes/Para Quinta
Feira/
Sancta
Com
Vio/linos
Viola
Flautas/
Trompas e Baixo/Por Joze Mauricio
Nunes
Garcia/Pertence
a Joze Bap.'" Lisboa
( P M 203) T e x t o : Christus factus
est
S.d.
"Gradual
pa 5" fr" Sta" i n : Gradual,
e
Offertorio/pa 5afr" Sta/Joze Baptista
Lisboa
( P M 204) T e x t o : Christus factus
est
S.d.
Crux
S.d.
"Offertorio",
5a fr" Sto
S.d.
"Domine Jesu ", in. Bajulans
Motettos J. M. N. Garcia
e Domine
Jesu
S.d.
Gradual
Pascoa.
Domingo
de
e Domine
Jesu
( P M 205). V i d e P M 192
Fidélis
in: "Gradual
Haec
dies
Para
e
Offertorio"p"
( P M 206) T e x t o : Dextera
Domini
( P M 207)
( P M 209) T e x t o : Haec dies
fecit Dominus.
DóM.
quam
J
V
Data
Título e
S.d.
Gradual para Domingo
de Pascoa
Com
Violinos Violla Oboés Trompas 4 Vozes Violoncello
Timpano
Composto
pello
Reverendo
Padre Mestre Jozé
Mauriscio
Nunnes
Garcia.
( P M 210) T e x t o : Haec dies
fecit Dominus.
MibM.
S.d.
Heu,
( P M 211) V i d e P M 192, partitura
S.d.
Basso, 7° Motetto/(Jesu, Jesu
clamans)/Para
a/Procissão dos Passos/Da I.S.C.
( P M 212) Cópia
autor
S.d.
Libera-me
( P M 213a)
S.d.
Motettos dos Passos/Com
Violinos,
Viola
Flauta Clarineta trompas/4 Vozes e Baixo/
Pelo Rd" /•*' Mestre Joze Mauricio
Nunes
Garcia - "Copiado em Campos e Offerecida
ao Ill.mo Snr. João dos Reis Pereira "
Com os seguintes
motetos:
Bajulans, Exeamus, O vos bomnes,
Angariaverunt,
Domine Jesu, Filie
Jesuralem, Jesu clamans
S.d.
Domingo
( P M 2 1 7 ) SibM
S.d.
Semana
S.d.
Bradados
S.d.
"Bradados",
de Ramos.
S.d.
"Turbas",
S.d.
"Popule
_
Catalogação
Observações
Domine
de Ramos P." J.M.
Santa. Domingo
de 6a Fr"
in: Domingo
Santa.
de Ramos
sem n o m e
de
( P M 218) D ó M
( P M 219) V i d e P m 192
maior
in.- Semana
Meus "
de Ramos
quam
Domingo
( P M 220) I.S.P.
P.'J.M.
( P M 221)
( P M 222) V i d e PM 192
J
r
Data
Título e
S.d.
P" a
S.d.
"Himno pa a Procissão
Sexta Feira "
S.d.
Benedictus
p"
autem), 4 v. e
4a feira
baixo
S.d.
Christus factus
santa, 4 v.
est, gradual
para
S.d.
Christus factus
feira, 4 v.
est, outro
gradual,
S.d.
"Quoniam
seguimento
S.d.
Glória, Laus et honor para Procissão
Domingo
de Ramos a 4 vozes e órgão.
S.d.
Miserere para
e órgão
S.d.
Overtura
^
Catalogação
Procissão
( P M 224) T e x t o : surrexit
Dominus.
O fichário de A. N e p o m u c e n o
registra: Motetop°a
Procissão
de
Ramos
do Sacramento
Santa
4a, 5a e 6° feira
Mauricio
em
(Traditor
5a
(Exaudi)
a 4 vozes,
ao precedente (mesmo
P." J.
\
Observações
Maior
feira
p"
5a
fazendo
motivo)"
de
a 4 v.
( P M 225) V i d e PM 192 v
(CT Apênd.CLX) Com o mesmo
motivo
vem
registrado
o
Posuerunt
(CTOO, incipti n.5).
(CT
Apênd.CLXI)
Mendanha)
(Cópia
(CT
Apênd.CLXII)
Mendanha)
(Cópia
(CT Apênd.CLXIII) Mesmo motivo
d o Christus factus
est (CTOO incipit n . 6 )
( C T A p ê n d . C L X I V ) J.J. Maciel
( C T A p ê n d . C L X V ) J.J. Maciel
( P M 232) Overture
em Ré
Maior
J
r
V
Data
Título e
Catalogação
S.d.
Sinfonia
Mauricio
S.d.
[Moderato]
S.d.
Liberame do Barreto/Com
Pelo P.'/M." da Capella
J.B.
Brasileiro
Tempestade
N. G.
Observações
do Padre Mestre Jose
( P M 233) Incompleta
( P M 235) Peça para p i a n o ,
manuscrito conservado
por
tradição pela família Taunay, c o m
a autoria d e José Maurício.
Orquestra
Feita
Imperial/J.M.N.G./
S.d.
"Le Due
S.d.
"Beijo a mão que me condena".
Composta
por o R.S.P.M. José
Nunes
Garcia
S.d.
No momento
entreguei"
S.d.
"Marilia, se me não amas,
verdade "
Gemelle"
da Partida
( P M 2 3 7 ) O r q u e s t r a ç ã o d e José
Maurício
( C T A p ê n d . C L X I X ) N o m e da única
ó p e r a escrita p o r José Maurício
Modinha.
Maurício
meu coração
( P M 226) Obra impressa e m 1840
por
Pierre
Laforge.
Texto
p u b l i c a d o e m O Trovador,
como
da autoria d o Dr. Nunes Garcia
te
( P M 238) M o d i n h a impressa e m
1837 p o r Pierre Laforge, publicada
em
álbum
com
outros
compositores.
não mi digas a
( P M 239) Impressa por Pierre
L a f o r g e e m 1840. O
Trovador
i n f o r m a : "Poesia e Musica d o
f a l e c i d o padre mestre José
Maurício".
J
Arranjos
Data
V
Titulo e
e
Catalogação
S.d.
"Libera
S.d.
"Tu devicto
me do
S.d.
"Magnificat"
Barreto"
mortis "
orquestrações
Observações
( P M 237) O r q u e s t r a ç ã o
(CT
Apênd.CLXX)
Solo
o r i g i n a l m e n t e c o m p o s t o para v o z
d e contralto p e l o Sr. Marcos Portugal, t r a n s p o r t a d o e arranjado
para T e n o r p e l o Pe. M e . J.M.N.G.
p o r o r d e m d e S.A.R. o Príncipe
R e g e n t e , para o c a s a m e n t o da
Serenísma Princesa a Sra. D. Maria
Thereza.
( C T A p ê n d . C L X X I ) Maciel registra:
"escrito originariamente por
A n t ô n i o Leal Moreira,
com
a c o m p a n h a m e n t o d e vlc., fg., tp.
e cb. e m 1812 e acrescentado p o r
o r d e m d e S.A.R., d e fl., cl., trp. e
cor, p e l o Pe. M e . J.M.N.G. n o a n o
d e 1816."
y
Discografia
José Maurício Nunes Garcia biografia
CPM
Allelluia,
Alleluia
(Gradual
para a Festa da
Invenção
da Santa Cruz)
1795
A S C 58 — A c a d e m i a Santa C e c í l i a
C o r a l e O r q u e s t r a d e Câmara d e N i t e r ó i
Regente: Roberto Ricardo Duarte
134
Credidi
(Salmo
I das Vésperas das Dores de
N. Senhora)
1794
A S C 58 — A c a d e m i a Santa C e c í l i a
C o r a l e O r q u e s t r a d e Câmara d e N i t e r ó i
Regente: Roberto Ricardo Duarte
177
Constitues
eos príncipes
(Gradual
para
os
Apóstolos)
1795
A S C 58 — A c a d e m i a Santa C e c í l i a
Coral e O r q u e s t r a d e Câmara d e N i t e r ó i .
Isa A r a g ã o ( s o p r . )
Regente: Roberto Ricardo Duarte
136
Crux fidelis (Bradados
de 6" Feira Maior)
A n g e l 3 C B X 4 1 0 - M E C ( M ú s i c a na
Corte Brasileira n. 1)
A s s o c i a ç ã o d e Canto Coral
R e g e n t e : C l e o f e P e r s o n de Mattos
N o v a t i r a g e m p o r E M I - O d e o n - SC 10118
205
Domine,
tu mibi lavas pedes ( a n t í f o n a )
A b r i l Cultural G C 46 ( G r a n d e s C o m p o s i t o r e s
da M ú s i c a U n i v e r s a l )
A s s o c i a ç ã o d e C a n t o Coral
Regente: C l e o f e Person d e Mattos
198
In M o n t e O l i v e t i (Do Ofício
de Domingo
de
Ramos)
A b r i l Cultural G C 4 6 ( G r a n d e s
C o m p o s i t o r e s da M ú s i c a U n i v e r s a l )
A s s o c i a ç ã o d e Canto Coral
Regente: C l e o f e Person d e Mattos
218
Judas mercator pessimus (Moteto para 5a Feira
Maior)
1809
A n g e l 3 C B X 4 1 0 - M E C ( M ú s i c a na
C o r t e Brasileira n . l )
A s s o c i a ç ã o d e C a n t o Coral
Regente: C l e o f e Person de Mattos
N o v a t i r a g e m p o r E M I - O d e o n - SC 10118
199
335
Cleofe Person de Mattos
CPM
Lauda Sion salvatorem
( S e q u ê n c i a d e 5a Feira
do Corpo de Deus) 1809
E l d o r a d o S-I - USR 7746; U C L A Latin
A m e r i c a n C e n t e r F e s t i v a l o f Early Latin
American Music R o g e r W a g n e r Chorale;
Sinfonie Chamber Orchestra
Regente: Roger Wagner
165
Laudate
pueri
(Psalmo
para as encomendações dos inocentes
defuntos)
1821
P S P - L P 1749
Coral F o r d - W i l l y s . Edmar Ferretti ( s o p r . )
O r q u e s t r a d o T e a t r o M u n i c i p a l d e São
Paulo
Regente: Geraldo Menucci
79
Matinas
do Natal. 1799
C l i o D i s c o s ; A C C 100-002
A s s o c i a ç ã o d e Canto Coral ( C l e o f e Person
d e Mattos)
Lúcia V a l a d ã o ( s o p r . ) , Cristina P a s s o s
(meio-sopr.), Ricardo Tutman (ten.),
M a u r í l i o Costa ( b a i x o )
Camerata Rio d e Janeiro
Regente: Henrique Morelenbaum
170
Matinas
de Finados
F u n a r t e . P r o M e m u s M M B 80.016
Betty Antunes ( ó r g ã o )
A s s o c i a ç ã o de Canto Coral
R e g e n t e : C l e o f e P e r s o n d e Mattos
191
Missa
336
abreviada.
1823
Frank Justo A c k e r F J A 099; F u n d a ç ã o
Rio A s s o c i a ç ã o d e Canto Coral, Coral
da PUC/RJ, C o r a l da UFF, C o r a l d e
Câmara d e Niterói e Madrigal Degli
Amici
E l i a n e S a m p a i o ( s o p r . ) , Ilda Lauria
(contr.), Paulo Bernardes (ten.), Inácio
de N o n o (bar.)
Orquestra Sinfónica da Escola d e Música
da U.F.R.J.
Regente: Roberto Ricardo Duarte
112
José Maurício Nunes Garcia biografia
CPM
Missa
de requiem.
1816
Festa L D R 5012
A s s o c i a ç ã o d e Canto Coral ( C l e o f e Person
d e Mattos)
M a r g a r i d a Martins Maia ( s o p r . ) , C a r m e n
Pimentel (contr.), Isauro C a m i n o (ten.),
Jorge Bailly ( b a i x o )
Orquestra d o Teatro Municipal d o Rio
d e Janeiro. (Gravada e m 1958)
Regente: Edoardo d e Guarnieri
Missa
de requiem.
1816
C B S - S T 250001 ( B l a c k C o m p o s e r s
Series)
C o r o d o M o r g a n State C o l l e g e ( N a t h a n
Cárter)
D o r a l e n e Davis ( s o p r . ) , Betty A l l e n
( c o n t r . ) , W i l l i a m B r o w n ( t e n . ) , Matti
Tuloisela ( b a i x o )
Orquestra Filarmónica d e Helsinki
R e g e n t e : Paul F r e e m a n
185
Missa
dos defuntos.
1809
A b r i l G C 46 - A b r i l Cultural. ( G r a n d e s
C o m p o s i t o r e s da M ú s i c a U n i v e r s a l )
G r u p o C o r a l d o Instituto Cultural I t a l o Brasileiro (S. P a u l o )
 n g e l o Camin, órgão; Fernando
Tancredo, fagote
Regente: Walter Lourenção
184
Missa
de Nossa Senhora do Carmo.
1818.
C l i o D i s c o s L P V O - 004 - M i n i s t é r i o
da Cultura e Funarte
A s s o c i a ç ã o d e Canto Coral ( C l e o f e Person
d e Mattos)
Lúcia V a l a d ã o ( s o p r . ) , L u d n a B i e s e l ( 2 a
s o p r . ) , Lúcia Dittert ( c o n t r . ) , R e g i n a l d o
P i n h e i r o ( t e n . ) , M a u r í l i o Costa ( b a i x o ) ,
Ezequiel Decotelli (2° baixo)
Camerata Rio d e Janeiro
Regente: Henrique Morelenbaum
110
337
Cleofe Person de Mattos
CPM
de Santa Cecília.
1826
F u n a r t e . P r o M e m u s M M B 82.024/025
( D o c u m e n t o s da Música Brasileira v . 1 5 ) .
G r a v a d a e m 1959
Associação d e Canto Coral ( C l e o f e Person
d e Mattos)
Z i l d a L o u r e n ç o ( s o p r . ) , Lucille B o y
Sandra ( m e i o - s o p r . ) , I s a u r o C a m i n o
( t e n . ) , Juan C a r l o s O r t i z ( b a i x o )
O r q u e s t r a S i n f ó n i c a Brasileira
Regente: Edoardo d e Guarnieri
113
Missa de Nossa Senhora da Conceição
(Kyrie
e Fuga)
1810
A n g e l 3 C B X 412 ( M ú s i c a na C o r t e
Brasileira n ° 3 )
A s s o c i a ç ã o d e Canto Coral ( C l e o f e Person
d e Mattos)
O r q u e s t r a S i n f ó n i c a N a c i o n a l da R á d i o
MEC
Regente: Alceo Bochino
N o v a tiragem: O d e o n , A n g e l (S B R X L
D-12.261)
106
Missa pastoril.
1811
A n g e l 3 C B X 262
Associação d e Canto Coral ( C l e o f e Person
d e Mattos)
Dircéa A m o r i m (sopr.), Maura Moreira
(contr.), Isauro C a m i n o (ten.), Paulo
Fortes ( b a i x o )
Orquestra
Regente: Francisco M i g n o n e
N o v a t i r a g e m p o r E M I - O d e o n SC 10119
108
Missa
120
Missa
338
Festiva em Si bemol Maior
A S C 140 - A c a d e m i a Santa C e c í l i a
C o r a l da U n i v e r s i d a d e Rural d o R i o d e
Janeiro e Orquestra.
L i e g e G . Lins ( s o p r . ) , Y e d d a A . L e i t ã o
da C u n h a ( m e i o - s o p r . ) , M á r i o T o l l a
( t e n . ) , J o s é C a r l o s B o t e l h o , Clarineta
Regente: Nelson Nilo Hack
José Maurício Nunes Garcia biografia
CPM
Popule
meus (Bradados
de 6a Feira Maior)
A b r i l Cultural G C 46 ( G r a n d e s
C o m p o s i t o r e s d a Música U n i v e r s a l )
A s s o c i a ç ã o d e Canto Coral
Regente: C l e o f e Person d e Mattos
222
Te Christe solum novimus (Moteto a solo) 1800
Frank Justo A c k e r F J A - 099; F u n d a ç ã o
Rio
Eliane Sampaio ( s o p r . )
Orquestra Sinfónica da Escola d e Música
da U.F.R.J.
Regente: Roberto Ricardo Duarte
52
Te Deum.
1811
A n g e l 3 C B X 411 ( M ú s i c a na C o r t e
Brasileira n ° 2 )
A s s o c i a ç ã o d e Canto Coral ( C l e o f e Person
d e Mattos)
Dircéa A m o r i m (sopr.), José Evergisto
G o m e s N e t t o ( t e n . ) , Juan T h i b a u l t
(baixo)
O r q u e s t r a S i n f ó n i c a N a c i o n a l da R á d i o
MEC
Regente: Alceo Bochino
N o v a tiragem p o r E M I - O d e o n - SC 10120
93
Te Deum - R é M
P S P - L P 1749
Coral Ford-Willys
Cecília E. Runha ( s o p r . ) , A n a J. L o u r e n ç o
Lima ( c o n t r . ) , J o s é B u s t a m a n t e ( t e n . ) ,
João Prieto ( b a i x o )
Orquestra d o Teatro Municipal d e São
Paulo
Regente: Geraldo Menucci
Tenuist Domine
Jesu - Ego autem (
Gradual,
Moteto,
Ofertório)
1789
K u a r u p D B 004 ( S é r i e D i s c o g r a f i a
Brasileira)
Fundação Roberto Marinho. Disco
c o m e m o r a t i v o d o s 40 a n o s
A s s o c i a ç ã o d e Canto Coral
Regente: C l e o f e Person d e Mattos
339
Cleofe Person de Mattos
CPM
Virgo Dei Genitrix
( Gradual para as Virgens)
1795
A S C 58; A c a d e m i a Santa C e c í l i a
C o r a l e O r q u e s t r a da Câmara d e N i t e r ó i
R e g e n t e : R o b e r t o Ricardo Duarte
Beijo
a mão que me condena
- Modinha
A n g e l 3 C B X 411 ( M ú s i c a na C o r t e
Brasileira n. 2 )
O l g a Maria S c h r õ e t e r ( s o p r . )
C o l l e g i u m M u s i c u m da R á d i o M E C
R e g e n t e : J. Strutt
N o v a t i r a g e m : E M I - O d e o n SC 10120
Beijo
a mão que me condena
- Modinha
E s t ú d i o E l d o r a d o 187900596; ( V i a g e m
p e l o Brasil)
A n a Maria K i e f f e r ( s o p r . ) , G i s e l a
Nogueira, viola d e arame, Edelton
G l o e d e n , guitarra
Beijo
a mão que me condena
- Modinha
R G E F e r m a t a 303-1015; M E C - F u n a r t e
(O canto simples de Maria da
Glória)
Harmonização de Aloysio de Alencar
Pinto
Maria da G l ó r i a C a p a n e m a G u e r r a
( s o p r . ) , Lilian B a r r e t o , p i a n o
Abertura
em Ré
Frank Justo A c k e r F J A - 099 - F u n d a ç ã o
Rio
O r q u e s t r a S i n f ó n i c a d a Escola d e
M ú s i c a da U.F.R.J.
Regente: Roberto Ricardo Duarte
Abertura
em Ré
A n g e l 3 C B X - 4 1 2 ( M ú s i c a na C o r t e
Brasileira n. 3 )
O r q u e s t r a S i n f ó n i c a N a c i o n a l da R á d i o
MEC
Regente: A l c e o Bocchino
340
137
226
232
José Maurício Nunes Garcia biografia
CPM
Sinfonia
fúnebre
A n g e l 3 C B X -^410 ( M ú s i c a na C o r t e
Brasileira n . 1 )
O r q u e s t r a S i n f ó n i c a N a c i o n a l da R á d i o
MEC
Regente: A l c e o Bocchino
N o v a t i r a g e m p o r E M I - O d e o n - SC 10118
Zemira
230
- A b e r t u r a . 1803
A n g e l 3 C B X - 411. ( M ú s i c a na C o r t e
Brasileira n . 2 )
O r q u e s t r a S i n f ó n i c a N a c i o n a l da R á d i o
MEC
Regente: Alceo Bocchino
N o v a tiragem p o r E M I - O d e o n - SC 10120
Método
de pianoforte
do Compêndio
de
Música.
1821
Funarte - I N M - P r o M e m u s L P 3-56-404011
P i a n i s t a : Ruth S e r r ã o
236
341
Bibliografia
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REVISTA D O I N S T I T U T O H I S T Ó R I C O E G E O G R Á F I C O . Almanaques.
1792, 1794, 1816, 1817, 1820, 1825, 1826, 1827, 1828
SARRAUTE, Jean-Paul. Marcos Portugal,
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à História do Reino do Brasil divididas em três épocas: Da
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Honra e Glória, escriptas na corte do RJ. no anno de
1821 e offerecidas a S. Magestade el Rei Nosso Senhor O Senhor
D.João VI. Lisboa : I m p r e s s ã o Régia , 1825- ( R e i m p r e s s o n o Rio
d e J a n e i r o : Z é l i o Valverde , 1943).
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São Paulo : M e l h o r a m e n t o s , 1930.
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VIEIRA, Ernesto. Dicionário
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347
Cleofe Person de Mattos
Documentos
no Cabido
Processo
pesquisados
Metropolitano
degenere
C e r t i d ã o d e b a t i s m o d e José Maurício
C e r t i d ã o d e c a s a m e n t o d e seus pais
C e r t i d ã o d e n a s c i m e n t o d e Vitória Maria da Cruz
A sentença d e habilitação
L i v r o I a d e registro d e leis e alvarás d e Chancelaria-Mór ( 1 8 0 8 1820) - A r q u i v o N a c i o n a l
Livro Ia d e Publicações d o A r q u i v o Nacional
Capela Real e Imperial - A r q u i v o Nacional - S e ç ã o Histórica ( c x . 1 2 )
Cartas régias - C o d . 207 (1818 - 1821)
C o l e ç ã o d e graças honoríficas ( o r d e n s militares) - A r q u i v o N a c i o n a l
L i v r o s d e registro d e leis d o d e c r e t o da O r d e m d e Cristo - C o l . 525
D e c r e t o s s o b r e F a z e n d a - A r q u i v o N a c i o n a l L° IJJ1 307 ( L ° 6 0 3 )
O f í c i o s a o ministro d o R e i n o - Cx. 1, pac. 1
O r d e n s r é g i a s - A r q u i v o N a c i o n a l , C ó d . 64, v. 33 - 35
Registro dos ordenados das pessoas empregadas n o Real Erário (1808)
- A r q u i v o Nacional
D e c r e t o s g e r a i s - A r q u i v o N a c i o n a l , L° 1 ( G a l e r i a 2 2 5 ) C o d . 763,
SPE, IJJ' 307/41 3 8 )
L i v r o d e r e g i s t r o d e d e c r e t o s e a v i s o s d e d e s p e s a da
C o n t a d o r i a - C o d . 54
Primeira
R e g i s t r o d e leis, alvarás e cartas (1813 - 1818) - C o d . 528, v . 2
C ó d i g o 34 - ( 1 8 1 0 )
L i v r o para secretaria d o C o n s e l h o d e F a z e n d a - C o d . 33, v . 1
Dr. N u n e s Garcia - Carta a o s e c r e t á r i o d o Instituto H i s t ó r i c o e
G e o g r á f i c o Brasileiro r e m e t e n d o o s autógrafos das últimas partituras
d o pai ( 1 8 5 3 ) - D o e . 39, nota 310
D e c r e t o s g e r a i s - A r q u i v o N a c i o n a l , C o d . 15
D e c r e t o s gerais (1816 - 1 8 1 7 ) - A r q u i v o N a c i o n a l
348
José Maurício Nunes Garcia biografia
Livros d e registros, avisos e o f í c i o s - A r q u i v o N a c i o n a l , IJJ1 155
Livros d e f u n ç õ e s da corte: 1, 2, 3, 5, 13, 14, 15, 16, 17, 20, 23, 24,
25, 26, 27, 28
Livros d e registros, avisos e o f í c i o s - IJJ1 154; IJJ1 155; IJJ1 160; IJJ1
164; IJJ'"'l65; IJJ1 171
BuIIario d o B i s p a d o d o Rio d e Janeiro
L i v r o d e portarias e o r d e n s e p i s c o p a i s
Provisão d e mestre-de-capela da Catedral d o Rio d e Janeiro a o p a d r e
J o ã o L o p e s Ferreira - 22.XI.1770
T e s t a m e n t o d o p a d r e José L o p e s Ferreira
P r o t e s t o ( n ã o a s s i n a d o ) d o s Ministros da Patriarcal
L i v r o d e matrícula d e o r d i n a n d o s
Livros 4 a , 5 a , 6 a d e batisados na Igreja d e São José
O Seminário d e S o p r a n o s - L i v r o d e A p o n t a m e n t o s d o B i s p o D J C
O r ç a m e n t o e l a b o r a d o p e l o p a d r e Eloy Vieira c o m vistas à c r i a ç ã o
d e uma c a p e l a real n o Rio d e J a n e i r o
L i v r o d e ó b i t o s da casa imperial
L i v r o d e ó b i t o s das p e s s o a s o c u p a d a s n o s e r v i ç o d o P a ç o ( 1 8 0 8 1887)
L i v r o d e entrada d e I r m ã o s da I r m a n d a d e d e Nossa Senhora d o
Rosário e São B e n e d i c t o d e H o m e n s P r e t o s ( m i c r o f i l m a d o para o
atual A r q u i v o Geral d o Estado d o R i o d e Janeiro - AGERJ - antes d e
ser d e s t r u í d o p o r i n c ê n d i o da igreja e m 1967)
349
Documentos pequisados no Arquivo
Geral do Estado do Rio de Janeiro
16. I. 5 - Requerimento a que se referem os mandados de 16. 1. 44:
festas d o Senado da Câmara (1785, 90, 96, 808, 06, 09) (posse de
Vice-Reis); festas d o Senado (1806) (1786 - 1830)
16. I. 21 - Despesas e contas do Senado (1786, 1810) D. João VI
(Port. 1812 - 22)
16. I. 22 - Escritura de despesas e contas (1816)
16. I. 23 - Despesas d o Senado (1812 - 16) ( R e i n o U n i d o )
16. I. 24 - Despesas porteiro (1801 - 2)
16. I. 25 - Despesas anuais d o Senado (1807 - 1811) e 22. 1. 1812
16. I. 26 - Escritura despesas - obra na nova Câmara
16. I. 27 - Recibos e fornecimentos ao Senado (1818)
16. I. 43 - Mandado de pagamento (1788 - 1893)
16. I. 44 - Mandado de pagamento (1793 - 1800) Festividade d e São
Sebastião (1791, 92, 93, 96, 98, 1803)
16. I. 45 - Mandado d e pagamento Senado (1802 - 04) 1800 - 01
Festividade de São Sebastião
16. I. 46 - Mandado de pagamento Senado (1805 - 1814)
16. I. 36 - D. Leopoldina (enterro) (1827)
16. I. 35 - Despesas do Senado (obras); obras e m casa d o Senado
(1826 - 27)
Arrematações d o Senado da Câmara
1795 - 1806 ( I a v o l u m e ) 3 9 - 3 - 5 1
1807 - 1817 (2 a v o l u m e ) 3 9 - 3 - 5 2
1818 - 1820 (3 a v o l u m e ) 3 9 - 3 - 5 3
Livros de mandados de pagamento d o Senado da Câmara e outras
cousas
Despesas d o Senado da Câmara
Livro de receita e despesa (Venerável Ordem Terceira d o Monte d o
José Maurício Nunes Garcia biografia
Carmo)
L i v r o 3 a d e ó b i t o s (lata 5 4 )
L i v r o d e receita e d e s p e s a s (lata 63, 6 4 )
L i v r o s d e t e r m o s e a c ó r d ã o s (latas 85, 96, 9 7 ) o q u e se p ô d e ler;
estão muito estragados)
351
índice
onomástico
José Maurício Nunes Garcia biografia
a
Abreu, Raimundo Pereira d e
21
Aguiar, c o n d e e marquês de; Fernando José de Portugal e
C a s t r o 71, 77, 79, 89, 110, 116, 117, 128
Alberto Joaquim
Almeida
136
78
Almeida, Fernando José de: ver Fernandinho
A l m e i d a , José E g í d i o Á l v a r e s d e : v e r Santo A m a r o , marquês d e
A l v a r e n g a , M a n u e l I n á c i o da Silva
51, 55
Alves, Francisco
Amorim, Dircéa
34,
49,
50,
103
136
Andrade, Aires de
Antônio
28,
199
A n a s t á c i o da M a d r e d e D e u s
Antônio
27,
136
Alves, Joaquim Antônio
Ana da Cruz
26,
153
200
136
(Nunes Garcia)
Antônio Pedro
Apolinário
62
66
160
Apolinário José
(Nunes Garcia)
61,
62,
151,
172
Araújo, A n t ô n i o d e A z e v e d o : v e r Barca, c o n d e da
Araújo, Antônio José de
158
355
Cleofe Person de Mattos
Araújo, José d e Souza Pizarro e: v e r Pizarro
( e Araújo), José
d e Souza
A r m e n o , J o s é A n t ô n i o d o s Santos
Asioli
105
151
Augusto
166
Ayestarán, Lauro
200
A z e v e d o , Joaquim José de: ver Rio Seco, v i s c o n d e d o
A z e v e d o , Luiz H e i t o r Corrêa d e
191,
198
b
Bach, Johann Sebastian
B a d a r ó , F.
123
200
Balbi, Adrien
85
Barbosa, A n t ô n i o Francisco
Barbosa, Caldas
39,
40
146
Barbosa, D o m i n g o s Caldas
Barbosa, Januário da Cunha
180, 182
106
28,
31,
34,
50,
133,
169,
171,
Barbosa, R o d r i g o D o m i n g o s de Souza C o u t i n h o T e i x e i r a d e
A n d r a d e : v e r Linhares, c o n d e d e
Barca, c o n d e da; A n t ô n i o d e A z e v e d o Araújo
Baret, A l e x a n d r e
B a r r o s , J o ã o d e S.
356
158
189
125,
129,
131
José Maurício Nunes Garcia biografia
B a r r o s , J o s é d e Faria
35,
191
Bastos, Martiniano Ribeiro
Baxixa, Joaquim Félix
196
106
Benedito, Cláudio Antunes
Berry, duque de
146
Bocchino, Alceo
199
169
Bragança, P e d r o Carlos d e B o u r b o n e
B r a s i l e i r o , J o s é Batista
Bussmeyer, H u g o
106
192
189
c
Caleppi,
Lourenço
Calógeras, Pandiá
Calvo
119
190
200
Cândido
166
C a n t u á r i a , J o a q u i m T o m á s da
Caprânica
162
73
Cardim, José Fernando G o m e s
C a r l o s X, d a França
195
146
Carlota J o a q u i n a d e B o u r b o n , d e P o r t u g a l
Carvalho, A n t ô n i o Teixeira
90
84
Castelo Branco, Joaquim Justiniano Mascarenhas
22
357
Cleofe Person de Mattos
Castro, Felizarda Moreira de
181
Castro, F e r n a n d o José d e Portugal e: v e r Aguiar c o n d e e
marquês de
Castro, Francisco d e A l m e i d a M e l o e
131
C a s t r o , J o s é Luís d e : v e r R e s e n d e , c o n d e d e
Castro, M a n u e l F e r n a n d e s d e
23
C a s t r o , S e v e r i a n a Rosa d e
61, 62,
Chaves, Francisco Manuel
140,
C h a v e s , M a n u e l Ferreira
20
Chaves, Manuel Pimenta
173,
Cicconi
181
191 - 2
174,
187
73
Cimarosa, D o m ê n i c o
Colonna, Pedro
27,
76
109
C o n c e i ç ã o , J o a q u i n a Maria da: v e r L a p i n h a
Correa, A n t ô n i o José
C o s t a , H i p ó l i t o da
17,
Costa, José I n á c i o da
C o s t a , M a n u e l da
18
26
25
111
C o u t i n h o , Gastão Fausto da Câmara
C o u t i n h o , J o s é C a e t a n o da Silva
76,
C r u z , V i t ó r i a Maria da
17, 18, 19, 20,
39, 41, 42, 43, 61, 120, 121, 180
358
111
66
21,
22,
23,
28,
38,
José Maurício Nunes Garcia biografia
d
Dâmaso, Joaquim
115
D e b r e t , Jean Baptiste
111,
Desterro, Ana Corrêa d o
126
17,
21,
23,
54
e
Elias
Elói
33
66,
67,
69
f
Faria, J o ã o J o s é d e
162
Faria, S a l v a d o r J o s é d e A l m e i d a : v e r S a l v a d o r J o s é , o p a r d o
Fasciotti, G i a n f r a n c e s c o
Fernandes, L o r e n z o
73,
130,
132
197
Fernandinho; Fernando José d e Almeida, dito
Fernando, d e Portugal
(vice-rei)
F e r n a n d o José, d e Portugal
Ferrão, Eleutério José
Ferreira, A n t ô n i o
110
54
77
152
136
Ferreira, J o ã o L o p e s
35,
36,
46,
47,
F e r r e i r a , M a n u e l Luís
25,
26,
28,
110
48,
55
359
Cleofe Person de Mattos
Ferreira, Vicencia
Fidalgo
109,
136
159,
160,
Fiorito, A r c â n g e l o
170,
171,
175
189
Fonseca, Mariano José Pereira da: v e r Maricá, marquês de
Francisco, Propícia
136
Franco, Francisco A n t ô n i o
Freire, Caetano
162
17
Freitas, I n á c i o d e
130
Frixe, Manuel Jacques
g
G a r c e z , J o s é Luís
23
105
Garcia, A n t ô n i o José Nunes
62
Garcia, A n t ô n i o Nunes: ver A n t ô n i o
(Nunes Garcia)
Garcia, A p o l i n á r i o José Nunes: ver Apolinário José
Garcia)
Garcia, Apolinário Nunes
42, 43
20,
Garcia, Constâncio José Nunes
Garcia, Irineu
21,
22,
23,
28,
(Nunes
38,
164
199
Garcia, José Nunes: ver José ( N u n e s Garcia)
Garcia, José Pires
103, 172,
179
Garcia, Josefina Nunes: ver Josefina
360
(Nunes Garcia)
40,
41,
José Maurício Nunes Garcia biografia
Garcia, Panfília Nunes: v e r Panfília
(Nunes Garcia)
G a r c i a Júnior, J o s é M a u r í c i o N u n e s 17, 51, 52, 61, 62,
151, 152, 153, 164, 167, 169, 172, 173, 174, 176
Generali, Pietro
145
G e r a l d o , V i t ó r i o Maria
Geraldo Inácio
Gomes, José
26,
35,
191
20
195,
G o m e s , Mateus Francisco
196
83,
84,
104
176
G o n ç a l v e s , Barbosa
18 - 9,
Gonçalves, Bonifácio
34,
Gonçalves, Feliciano
135
G o n ç a l v e s , Joana
18,
19,
G o n ç a l v e s , José Marcelino
Gonçalves, Simão
Gonçalves, Thomás
Gorif
189,
165
G o m e s , Manuel José
Gonçalo
131,
18,
19,
20
35,
39,
40
20,
21,
22,
28,
54
79
21
44
73
Gottschalk
62
G o u l ã o , A g o s t i n h o C o r r ê a da Silva
33
361
Cleofe Person de Mattos
h
H a e n d e l , G e o r g Friedrich
123
H a y d n , Franz Joseph
48,
100,
de Bourbon
130
Haydn, Michael
127,
145,
146,
150,
152
127
H o n n e g e r , Arthur
180
i
I s a b e l Maria,
j
João Jacques
106
João Manuel
111
João VI, d e Portugal,
57, 63, 64, 65, 66,
77, 78, 79, 80, 90,
112, 113, 115, 116,
128, 132, 133, 134,
157, 158, 159, 161,
João Mariano
136
Joaquim Francisco
Joaquina Rosa
Jommelli
Joly
362
163
27
Brasil e A l g a r v e s
26, 27, 50, 55, 56,
67, 68, 69. 71, 72, 73, 74, 75, 76,
91, 94, 103, 105, 106, 109, 110,
117, 118, 119, 122, 124, 125, 127,
135, 137, 145, 147, 148, 149, 153,
164, 165, 171, 173, 174, 175
136
136
José Maurício Nunes Garcia biografia
José
(Nunes Garcia)
61
José, Salvador: v e r Salvador José, o p a r d o
José Caetano
114,
130
Josefina (Nunes Garcia)
José Inácio
61,
93
136
Junqueira, João José d e Oliveira
Justiniano, José Joaquim
179
46
k
K a r a b t c h e w s k i , Isaak
Krieger, Edino
200
200
l
Labalhache
200
Lacombe, A m é r i c o Jacobina
Lacombe, Lourenço
163
L a c o m b e , Luís
111,
107,
189
142
Laet, A n t ô n i o P e d r o d e
17,
18
Laforge, Pierre
53,
135
51,
52,
L a n g e , F r a n c i s c o Curt
21,
196
Langsdorff, barão de: G e o r g Heinrich v o n Langsdorff
142
363
Cleofe Person de Mattos
L a p a J o a q u i n a Maria da C o n c e i ç ã o d a : v e r L a p i n h a
L a p i n h a ; J o a q u i n a Maria d a C o n c e i ç ã o ,
dita
26,
27
L a v r a d i o , m a r q u ê s d o : Luís d e A l m e i d a S o a r e s P o r t u g a l A l a r c ã o
e Eça e M e l o 24, 25
Laytano, Dante de
195
Leandro, José de Carvalho
Lebreton, Henry
126,
L e i t h o l d , T. v o n
142
111
146
L e m o s , Luís G a b r i e l Ferreira
L e o p o l d i n a , d o Brasil
196
L i b â n i a Francisca
73
129,
130,
131,
141,
163,
164,
175,
136
Lima, Manuel de Oliveira
200
Linhares, c o n d e de: R o d r i g o D o m i n g o s d e Souza C o u t i n h o
T e i x e i r a d e A n d r a d e Barbosa
71
L i s b o a , B a l t a z a r da Silva
L i s b o a , J o s é Batista
190, 191
Lobato
35,
146
56,
57,
6l,
124,
25
L o b a t o , Francisco José R o f i n o de Souza
Loulé, marquês de
Luís G a b r i e l
137
166
Luís I n á c i o
26
Luxemburg,
duque de
364
108,
127
78,
79
125,
189,
José Maurício Nunes Garcia biografia
t i l
Macedo, Joaquim Manuel de
53
M a c h a d o , José R a i m u n d o d e Miranda
Maciel, Joaquim José
116, 146, 189, 190,
Maier
36,
195
45,
70,
191
75,
81,
85,
91,
109,
52,
53
146
Malheiro, A n t ô n i o José
Manoel Conceição
Manoel Joaquim
23
136
136
M a n u e l Luís ( F e r r e i r a ) : v e r F e r r e i r a , M a n u e l Luís
Marcello, Benedetto
123
Maria da Exaltação
136
Maria da G l ó r i a , d e P o r t u g a l
141
Maria Jacinta: v e r M a r u c a s
Maria I,
d e Portugal
Maria Teresa,
35,
de Bourbon
49,
76,
120,
124,
125
86,
106,
130
M a r i c á , m a r q u ê s d e ; J o s é P e r e i r a da F o n s e c a
Marinho
28,
189
Marques, Simão
136
Martins, Francisco R o d r i g u e s
62
Martins, S e v e r i a n o R o d r i g u e s
62
M a r r o c o s , Luís d o s S a n t o s
M a r u c a s , Maria Jacinta, dita
115,
137
25
365
Cleofe Person de Mattos
Mathildes
Mateus
136
93
Mazziotti, Fortunato
Mazziotti, João
106,
125,
Mello, Guilherme de
M i g n o n e , Francisco
Miguez, Leopoldo
187,
200
191,
194,
195
57,
124,
125,
127,
189,
190,
199
(Américo)
54,
190,
193,
197
27
Montigny,
(Auguste Henri Victor)
Morais, José Joaquim
de
Moreira, Ipanema
158,
Mota, L e o n a r d o da
126
198
198
M o r e i r a , R o q u e da Silva
Mosmann, José
Grandjean de
136
Moreira, Cibele de Ipanema
141
162
158
Mozart, W o l f g a n g Amadeus
143, 144, 145, 146, 152
40,
76,
Monte Alverne, Francisco d e
49,
Muricy, Cândido d e Andrade
198
366
175,
20
Mercês, Bento Fernandes das
191, 192, 193, 194, 197
Millico
164,
191
Mendanha, José Joaquim de
Mendes, João
132,
73
50,
100,
149
122,
123,
142,
José Maurício Nunes Garcia biografia
n
N a p o l e ã o I I I , d a França
Nepomuceno, Alberto
116,
54,
N e u k o m m , Sigismund
150
Neuparth, Erdmann
106,
127,
197
128,
132,
142,
143,
146,
131
N ó b r e g a , A d e m a r A l v e s da
Nunes, Francisco Duarte
Nunes, José d o Rosário
Nunes, Lino José
127
190,
162,
198
78
66
165
o
Oliveira, Antônio Olinto de
Oliveira, Manuel José de
194
18,
19,
62,
93
20
P
Paesiello, Giovanni
Pagani, Romualdo
Panfília
Paula
27
151
(Nunes Garcia)
(padre)
73
Peregrina Belarmina
190
367
Cleofe Person de Mattos
P e d r o I, d o Brasil 47, 101, 110, 128, 129, 130, 134, 136,
141, 147, 148, 152, 153, 157, 158, 160, 161, 162, 164,
170, 171, 172, 175, 178, 182, 187, 195
P e d r o I I , d o Brasil
Perez, David
187,
188,
189,
201
144
P e r e i r a , F r a n c i s c o d e Paula
66
Pereira, G e r a l d o Inácio
73
P e r e i r a , J o ã o d o s Reis
27,
84,
111,
Pessoa, Manuel Rodrigues Gameiro
117
P e r e i r a , Luís I n á c i o
Pestana, José
27,
73,
Piacentini, Fabrício
113,
116,
P i r e s , V i c e n t e C.
84
174,
189,
192
84
( e Araújo), José d e Souza
(padre)
63,
64,
66,
180
Porto, Antônio
187,
196
P o n t e s , V i c e n t e Ferreira
368
27,
173,
119
P i t a , J o a q u i m Costa d a
Policarpo
189
162
Pinto, A n t ô n i o Nascentes
Perereca
143
187,
136
Pinto, Francisco da Luz
Pizarro
166,
136
Pinheiro, Inácio
Pio VII
137,
27
73
162
75,
35
76,
81,
118,
124,
141,
José Maurício Nunes Garcia biografia
Porto-Alegre, Manuel de Araújo
145, 152, 174, 177, 181, 182,
30,
195
P o r t u g a l , A n t ô n i o da Vila N o v a
31,
71-2,
79,
137,
132, 135,
136,
140
P o r t u g a l , M a r c o s A n t ô n i o da F o n s e c a
73, 86, 88, 89, 90,
91, 92, 93, 105, 106, 107, 121, 124, 128, 129, 130, 132,
133, 134, 135, 136, 140, 141, 142, 144, 152, 157, 161,
163, 164, 171, 176, 177, 178, 182, 189, 200
P o r t u g a l , Maria J o a n a
178
Portugal, Simão Vitorino
182, 187, 188, 189
Puccitta, V i n c e n z o
106,
111,
132,
145,
164,
178,
145
Q u e i r ó s , B e r n a r d o J o s é d e Sousa
111,
162
r
Rainha, Vila N o v a da
71, 76,
79,
R a m a l h o , A n t ô n i o C a r l o s d a Silva
Ramos, Zeferina de
R a n g e , E. v o n
136
142
R a n g e l , Luís d e Sousa
189,
Rangel, Tertuliano de Souza
Ravalli, Ottino
89
84
191
162
200
369
Cleofe Person de Mattos
Redondo, conde de
Reis, J o ã o d o s
98,
Reis, J o s é d o s
17
89
150,
192
Reis, J o s é M a r i a da Silva
187
R e s e n d e , c o n d e d e : J o s é Luís d e Castro
49
Rio Seco, v i s c o n d e d o : Joaquim José de A z e v e d o
Rodrigues, Manuel
Rodrigues, Manuel Garcia
Rosinha
136,
137
25
22
25
Rossini, G i o a c c h i n o
142,
145,
146,
152,
201
s
Salieri, A n t o n i o
Salvador, A d ã o
112
194
S a l v a d o r J o s é , o p a r d o : S a l v a d o r J o s é d e A l m e i d a e Faria, d i t o
22, 28, 31, 32, 33, 39, 40
S a m p a i o , F r a n c i s c o d e Santa T e r e s a
116
Santo A m a r o , marquês de: José Egídio Álvares de A l m e i d a
132, 176
S a n t o s , Luís G o n ç a l v e s d o s
S a r m e n t o , Luís I n á c i o P e r e i r a
Scaramelli, Mariana
Sebastiana
181
84
110
136
370
.
José Maurício Nunes Garcia biografia
Seixas, P e d r o Teixeira d e
140,
S i l v a , C â n d i d o I n á c i o da
135,
Silva, Elias A n t u n e s d a
176
S i l v a , F i r m i n o J o s é da
192
Silva, F i r m i n o R o d r i g u e s
163
105
Silva, F r a n c i s c o A n t ô n i o da
Silva,
162,
181
35
F r a n c i s c o J o a q u i m da
Silva, F r a n c i s c o M a n u e l da
198
61
128,
162,
187,
188,
189,
192,
Silva, G a b r i e l a L o p e s da: v e r S o u z a , G a b r i e l a A l v e s d e
Silva, J o a n a d a
23
Silva, J o ã o A n t ô n i o
140,
Silva, J o ã o M a n u e l da
Silva, J o ã o Pereira da
191
Silva, M a n u e l D e l f i m
61
Silva, Manuel Rodrigues
Silva, M a n u e l R o i z da
Sinzig, P e d r o
141
110
62
73
198
Souza, Francisca d e
136
Souza, Gabriela Alves d e
190
Souza, Manuel d o s Santos e
22,
23,
47
371
Cleofe Person de Mattos
t
Targini José
136
Taunay, Adriano
127,
139
Taunay, A f o n s o d'Escragnolle
Taunay,
barão de: Félix
194
Émile Taunay
124,
127,
139,
194
Taunay, Nicolau Antônio
127
T a u n a y , v i s c o n d e d e : A l f r e d o Maria A d r i a n o d ' E s c r a g n o l l e
Taunay
121, 122, 127, 135, 136, 163, 178, 190, 193,
194, 195, 196, 197
Tayllerand
117
T e o d o r o Ciro
146
T e r e s a Cristina M a r i a , d o Brasil
Toussaint, Augusto
112,
130,
T r i n d a d e , Gabriel Fernandes da
Trindade, G o d o f r e d o
199
Trindade, José Fernandes
158
V
Vachon, Monique
123
Vagos, marquês de
89
Vasco, Miguel Pedro
146,
V a s c o n c e l o s , Luís d e
44
372
188
189,
201
142
162,
166
177,
José Maurício Nunes Garcia biografia
Vedras, José d o C a r m o Torres
Veiga
( e Barros),
Veridiana Carolina
Evaristo
Viana, J o ã o d o s Santos
Vitório
61
da
157
190
V i ç o s a , J o s é Maria da Vila
Villas-Boas,
35,
(Ferreira)
162
73
Francisco de G o m e s
41,
43
136
z
Zeferino Antônio
136
373
Padre José Maurício Nunes Garcia. Retrato a óleo pintado por seu filho, Jose
Maurício Nunes Garcia Júnior. Acervo Escola Nacional de Música da UKRJ, Rio
de Janeiro.
Panorama da cidadc dc São Sebastião do Rio dc Janeiro em 1775. Aquarela colorida
atribuída a Luís dos Santos Vilhena. Acervo Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.
Platz in Rio de Janeiro-, largo e igreja de Santa Rita, onde se casaram os pais de
José Maurício. Aquarela colorida de Eduard Hildebrandt, 1844. Acervo Staatliche
Museum zu Berlin. In: A muito leal e heróica cidade de São Sebastião do Rio de
Janeiro. Texto e organização de Gilberto Kerrez. Rio de Janeiro, R. de Castro
Maya / C.G.P. Machado / F. Machado Portella e Banco Boavista, 1965, p.l6(>.
Igreja de Nossa Senhora do Rosário, na rua da Vala (atual rua Uruguaiana),
onde, em 22 de setembro de 1767, nasceu José Maurício. Aquarela colorida de
Thomas Euder, 1817. Acervo Akademic der Bildcndc Kunst, Viena. In: O velho
Rio de Janeiro através das gravuras de Thomas Ender. Texto e legendas de
Gilberto Ferre/. S3o Paulo, Melhoramentos, 1956, p.57.
Rua do Cano (atual rua Sete de Setembro). Aquarela colorida de Charles Landseer,
1825. Acervo Cândido de Paula Machado. In: A muito leal e heróica cidade de
São Sebastião do Rio de Janeiro. Texto e organização de Gilberto Ferrez. Rio de
Janeiro, R. de Castro Maya / C.G.P. Machado / F. Machado Portella e Banco
Boavista, 1965, p.113.
Januário da Cunha Barbosa, o primeiro
biógrafo do padre José Maurício.
Litografia de S.A. Sisson. A c e r v o
Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.
Marquês do Lavradio, vicc-rci do Brasil
de 1779- Litografia de Gaggiani, Rio de
Janeiro, s.d. Acervo Biblioteca Nacional.
Procissão marítima, c. 1780-1790. Óleo sobre tela atribuído a Leandro Joaquim.
Acervo Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro. In: A muito leal e heróica
cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Texto e organização de Gilberto
Herrez. Rio de Janeiro, R. de Castro Maya / C.G.P. Machado / R Machado Portella
e Banco Boavista, 1965, p.49.
Carros alegóricos construídos para comemorar, em 1786, com desfile no Passeio
Público, o casamento de D. João e D. Carlota Joaquina. Desenho a bico de pena
de Antonio Francisco Soares. Acervo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro,
Rio de Janeiro.
Mariano José Pereira da Fonseca,
marquês de Maricá, amigo do padre
José Maurício. Litografia de S.A.
Sisson, s.d. In: Galeria dos Brasileiros
Ilustres. Acervo Biblioteca Nacional,
Rio de Janeiro.
Passeio Público. Litografia aquarelada de K. Loeillot de Mars, segundo desenho
de Wilhelm K. Theremin. In: Theremin, W. K., Saudades do Rio de Janeiro. Berlim,
L. Sachs, 1835. Acervo Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.
Espírito Santo. Água-tinta de G. Hunt, segundo desenho de Chamberlain, c.
1819-1820. Views and costumes of the city and neighborhood of Rio de Janeiro.
Brasil, 1819-1820. Londres, Mowlet and Brinner, 1822. Acervo Biblioteca
Nacional, Rio de Janeiro.
Beija-mão no Paço Real. Água-tinta colorida de autor anónimo. In: A.P.G.D.,
Sketches of portuguese lífe, manners, costume and character. Londres, B. Whitaker,
1826. Acervo Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.
Embarque do príncipe regente de Portugal para o Brasil. Gravura de Francisco
Bartolozzi segundo desenho de Domingos Antônio de Sequeira. Acervo Biblioteca
Nacional, Rio de Janeiro.
Marcos Antônio da Fonseca Portugal,
compositor e regente. Sua chegada
ao Brasil em 1811, acompanhado de
músicos da Capela de Lisboa, fez
com que José Maurício deixasse de
compor para a Capela Real. Litografia
da C.S.Francisco. Acervo Biblioteca
Nacional, Rio de Janeiro.
José Maurício apresentando-sc para D. JoDo VI c I). Carlota Joaquina, na presença
de Marcos Portugal. Estudo de Henrique Bernardelli. Acervo Museu Histórico
Nacional, Rio de Janeiro.
Campo de Santana (Igreja de Santana e Chafariz, do Campo). Aquarela colorida
de Thomas Ender, 1817. Acervo Akademie der Bildende Kúnst, Viena. In: O
velho Rio de Janeiro através das gravuras de Thomas Ender. Texto e legendas de
Gilberto Ferrez. S3o Paulo, Melhoramentos, 1956, p.99.
Ruínas da Sé, onde se construiu mais tarde a Academia Militar, depois Escola de
Engenharia e Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, no largo de São Francisco de
Paula. Aquarela colorida de Thomas Ender, 1817. Acervo Akademie der Bildende
Kunst, Viena. In: O velho Rio de Janeiro através das gravuras de Thomas Ender.
Texto e legendas de Gilberto Ferrez. São Paulo, Melhoramentos, 1956, p.87
Real Teatro São João, construído em 1813 no Campo dos Ciganos (atual praça Tiradentes),
incendiou-se três vezes e foi palco de importantes encenações e cerimónias políticas.
Teve outros nomes: Teatro Imperial de São Pedro de Alcântara, Teatro de São Pedro e,
depois de demolido, Teatro João Caetano. Gravura de Le Rouge et Bernard, a partir de
desenho de Arago Voyageautourdu monde. Paris, 1839. In: A muito leal e heróica cidade
de São Sebastião do Rio deJaneiro. Texto e organização de Gilberto Ferrez. Rio de Janeiro,
R. de Castro Maya / C. G. P. Machado / F. Machado Portella e Banco Boavista, 1965, p.85.
Rua de São Jorge Catual Gonçalves
Ledo), onde morou José Maurício.
Desenho a bico de pena e aquarela
de Charles Landseer. Acervo Cândido
de Paula Machado, Rio de Janeiro. In:
A multo leal e heróica cidade se São
Sebastião do Rio de Janeiro. Texto e
organização de Gilberto Ferrez. Rio
de Janeiro, R. de Castro Maya / C. G.
P. Machado / F. Machado Portella e
Banco Boavista, 1965, p.113-
Aclamaçào de D. João VI em 6 de fevereiro de 1818. Litografia aquarelada de J. B.
Debret, Voyagepittoresqueet historiqueau Brésil, v.III, pr. 37. Paris, Firmin Didot,
1834-39. Acervo Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.
"Maria I Regina Fidelíssima..
Gravura d e G. Froes, s e g u n d o
desenho de T. Hickey. Lisboa, 1786.
Acervo Biblioteca Nacional, Rio de
Passagem de SSMM e AAKR por debaixo do arco na rua Direita (atual rua Primeiro
de Março) construído por Grandjcan de Montigny e decorado por J. B. Debret
para a chegada de D. Leopoldina, futura imperatriz do Brasil, após seu
desembarque em 6 de novembro de 1817. Pintura e gravura de Hippolyte Taunay.
Acervo Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.
Sigismund Neukomm, compositor
austríaco nomeado por I). João VI
para o ensino público e importante
interlocutor musical de José Maurício.
Gravura de Ary Schoffer segundo
desenho de Louis Eugène Coedes.
Acervo Biblioteca Nacional, Rio de
A party at Rio de Janeiro. Água-tinta colorida de autor anónimo. In A.P.G.D.,
Sketches of portuguese li/e, manners, costume and character. Londres, B.
Whitaker, 1826. Acervo Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.
Casas na rua dc Matacavalos (aluai Riachuelo). Aquarela colorida de Richard
Bate, 1808. Acervo Corncll University, Hstados Unidos. In: Aquarelas de Richard
Bate. Apresentação e texto de Gilberto Ferrez. Rio de Janeiro, Galeria Brasiliana,
1965, p.51.
Aclamação de I). Pedro I. Com a volta dc D. João VI para Portugal e a ascensão
do príncipe regente, tudo ficaria ainda mais difícil para o padre José Maurício.
Água-forte aquarclada de Félix Hmile Taunay, 1822. Acervo Biblioteca Nacional,
Rio de Janeiro.
Um frade. Litografia aquarelada, por
Ludwig & Briggs. In:
Brazilian
souvenirs, a selection of the inosl
peculiar
costumes of the
Brazil,
c.1845. Acervo Biblioteca Nacional,
Rio de Janeiro.
Um padre. Litografia aquarelada, por
L u d w i g & Briggs. In:
Brazilian
souvenirs, a selection of the most
peculiar costumes of the Brazil, c.
1845. Acervo Biblioteca Nacional, Rio
Irmãos do Bom Jesus. Litografia
aquarclada, por Ludwig & Briggs. In:
Brazilian souvenirs, a selection of
the most peculiar costumes of the
Braztl, c. 1845. Acervo Biblioteca
Nacional, Rio de Janeiro.
Casamento de D. Pedro I com D. Amélia de Leuchtenberg. Litografia aquarelada
de J.B. Debret, Voyage pittoresque et bistorique au Brésil, v. III, pr. 51. Paris,
Firmin Didot, 1834-39- Acervo Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.
Uma família brasileira. Água-tinta colorida dc G. Hunt segundo desenho de
Chamberlain, c. 1819-1820. Views and costumes ofthe clty and neighborhood of
Rio de Janeiro. Brazil, 1819-1820. Londres, Mowlet and Brinner, 1822. Acervo
Biblioteca Nacional, Rio dc Janeiro.
ramília indo â missa. Litografia
aquarelada, por Ludwig & Briggs. In:
Brazilian souvenirs, a selection of
the most peculiar costumes of the
Brazil, c. 1845. Acervo Biblioteca
Nacional, Rio de Janeiro.
Dr. José Maurício Nunes Garcia Júnior,
médico e único filho legitimado pelo
padre José Maurício. Faculdade de
Medicina da Universidade do Rio de
Janeiro.
Antonio José Nunes Garcia, filho dc
José Maurício. Litografia de S.A. Sisson.
Manuel de Araújo Porto-Alegre, barão
de Santo Angelo. Biógrafo de José
Maurício, escreveu os "Apontamentos
sobre a vida e a obra de padre José
Maurício Nunes Garcia", publicada na
Revista do IHGB, tomo XIX, 1856.
Passeio Público, Convento da Ajuda, morro de Sâo Sebastião, praia de Santa
Luzia e ponta do Calabouço vistos da igreja da Glória. Aquarela colorida de
Richard Bate, 1809- Acervo Cornell University, Estados Unidos. In: Aquarelas de
Richard Bate. Apresentação e texto de Gilberto Ferrez. Rio de Janeiro, Galeria
Brasiliana, 1965, p.54.
XK
Máscara mortuária do padre José Maurício
Nunes Garcia, tirada por Araújo PortoAlegre. Acervo do Instituto Histórico e
Geográfico Barsileiro, Rio de Janeiro.
A chegada do príncipe regente D. João
ao Rio de Janeiro, em 1808, marca o
período seguinte, que se estende até
1821. É a parte mais extensa da obra,
com descrição dos acontecimentos
políticos, a criação da Real Capela e as
dificuldades que o compositor teve de
enfrentar durante o período em que
nela atuou( 1808-1811), fase de
fecunda criação musical. A vinda de
músicos portugueses para a Real
Capela ocasionou profundas
modificações no meio musical,
penalizando a vida do padre José
Maurício. As composições dessa época
refletem uma renovação estilística, com
o aproveitamento dos novos recursos
vocais e instrumentais. Com a chegada
de Marcos Portugal em 1811, finda a
sua missão de compositor da Real
Capela, o que resulta em
empobrecimento da sua produção.
0 regresso de D. João VI a Portugal
desestabiliza a situação política e
económica do país, e a vida musical no
Rio de Janeiro entra em decadência.
Inicia-se uma fase pungente da vida do
padre-mestre, estampada nos vários
documentos transcritos pela autora.
Em 1830, "o padre José Maurício
desaparece em extrema penúria", diz a
autora — e perdia a música brasileira
um dos seus vultos mais notáveis.
Mercedes Reis Pequeno