MÚLTIPLAS FACES DA CRISE ECONÔMICA E FINANCEIRA MUNDIAL José Marangoni Camargo Agnaldo dos Santos Mirian Cláudia Lourenção Simonetti Projeto Editorial Praxis Capa baseada no cartaz Ocupar Wall Street (OWS), cujo nome é referência ao movimento que começou em 17 de setembro de 2011, em Zuccotti Park , localizado na cidade de Nova York Wall Street distrito financeiro. Múltiplas Faces da Crise Econômica e Financeira Mundial José Marangoni Camargo Agnaldo dos Santos Miriam Cláudia Lourenção Simonetti Projeto Editorial Praxis 1ª edição 2012 Bauru, SP Coordenador do Projeto Editorial Praxis Prof. Dr. Giovanni Alves Conselho Editorial Prof. Dr. Antonio Thomaz Júnior – UNESP Prof. Dr. Ariovaldo de Oliveira Santos – UEL Prof. Dr. Francisco Luis Corsi – UNESP Prof. Dr. Jorge Luis Cammarano Gonzáles – UNISO Prof. Dr. Jorge Machado – USP Prof. Dr. José Meneleu Neto – UECE C1728m Camargo, José Marangoni Múltiplas Faces da Crise Econômica e Financeira Mundial / José Marangoni Camargo, Agnaldo dos Santos e Mirian Cláudia Lourenção Simonetti. - - Bauru, SP: Canal6, 2012. 148 p. ; 21 cm. (Projeto Editorial Praxis) ISBN 978-85-7917-217-5 1. Economia. 2. Crise Econômica Mundial. 3. Crise Financeira Mundial. I. Camargo, José Marangoni. II. Santos, Agnaldo dos. III. Simonetti, Mirian Cláudia Lourenção. IV. Título. CDD: 338 Copyright© Canal 6, 2012 Sumário Apresentação ...................................................................... 7 Capítulo 1 Redes de inovação aberta em biotecnologia – uma aposta estratégica – Agnaldo dos Santos......................... 13 Capítulo 2 A crise estrutural do capitalismo e a crise do euro – Francisco Luiz Corsi .......................... 29 Capítulo 3 Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados – Jair Pinheiro ....................................... 49 Capítulo 4 O Peso das Commodities Agroindustriais na Pauta de Exportações do Brasil: Evidência de Reprimarização da Economia? – José Marangoni Camargo ..................... 85 Capítulo 5 A via campesina diante da crise global: a proposição de um modelo agrícola alimentar soberano – Mirian Cláudia Lourenção Simonetti, Adriane de Sousa Camargo ............................................................... 109 Capítulo 6 O movimento estudantil no Chile: uma das faces da crise econômica e financeira mundial – Noemia Ramos Vieira..................................................... 129 Apresentação M últiplas Faces da Crise Econômica e Financeira Mundial é fruto do conjunto de artigos e debates realizados durante o XI Fórum de Conjuntura em novembro de 2011, promovido pelo Departamento de Ciências Políticas e Econômicas, Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Conselhos dos Cursos de Ciências Sociais e Relações Internacionais, Centro de Pesquisas e Estudos Agrários e Ambientais (CPEA) e Grupo de Pesquisa e Estudos da Globalização (GPEG), todos da Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp, campus de Marília. Como nas demais edições, o Fórum de Conjuntura de 2011 constitui-se em momento de reflexão coletiva entre docentes e corpo discente da Unesp, com a colaboração de pesquisadores de outras instituições, onde se procura analisar as vicissitudes políticas e econômicas do Brasil ante às transformações do cenário internacional ocorridas nas últimas décadas. Nas últimas três edições, em especial, o foco é o conjunto de impactos que a crise financeira de 2008 vem acarretando ao Brasil, à América Latina e aos demais países com os quais temos relações mais estreitas. Nessa décima primeira edição, buscou-se identificar em que medida os desdobramentos da crise – que está longe de ser equa- 8 | Apresentação cionada, por se tratar de uma crise estrutural – são vivenciados nas diversas frentes de embates, passando pelos antigos e novos movimentos sociais, a questão da desindustrialização, as estratégias de desenvolvimento adotadas pelos países do chamado BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o problema dos direitos de propriedade intelectual, entre outras questões. O evento também possibilitou um balanço preliminar do primeiro ano de governo da presidenta Dilma Roussef e os caminhos que sua gestão parece apontar, de continuidade de algumas políticas no campo monetário e fiscal em relação ao Governo Lula e de iniciativas mais ousadas, como a orientação do Banco Central para uma contínua redução das taxas de juros ou os investimentos em infraestrutura, usando inclusive o expediente das concessões públicas. Já nessa ocasião, ficou patente aos debatedores que essas iniciativas ainda são mais revestidas de caráter reativo do que ações que gravitam em torno de grandes consensos políticos nacionais, em que pese a evidente popularidade dos últimos mandatos presidenciais. Será que apenas o sucesso eleitoral é suficiente para viabilizar um projeto nacional de desenvolvimento? Ou cabe apenas aos mandatários eleitos periodicamente fazer a gestão em seus países dessa crise sistêmica do capitalismo? Apresentamos ao público, então, algumas reflexões propostas nas mesas do Fórum, por meio dos textos escritos por seus expositores. O artigo de Francisco Luiz Corsi, A Crise Estrutural do Capitalismo e a Crise do Euro, mostra que, ao contrário dos anos 90, quando as crises atingiram mais as periferias, a atual, iniciada com o estouro da bolha especulativa no mercado imobiliário nos Estados Unidos em 2008, atinge o Centro do Sistema e está longe de ser superada. Com graves problemas fiscais e nas contas externas, vários países da União Européia, sobretudo os chamados PIGGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) têm sofrido seguidos ataques especulativos, expondo as fragilidades do Euro e fortes pressões dos capitais financeiros para a adoção de políticas de estabilização de corte ortodoxos. Segundo o autor, a crise atual enfrentada pelos Apresentação | 9 países da comunidade europeia, mas também pelos Estados Unidos e Japão, tendem a diminuir o peso destas economias e abrir espaço para uma nova ordem internacional multipolar, com a ascensão sobretudo da China, como um ator de relevância crescente e que pode se contrapor ao domínio das grandes corporações e bancos e aos países centrais. No entanto, para Francisco Corsi, essa via não significa necessariamente novas formas de desenvolvimento, especialmente para as periferias. José Marangoni Camargo mostra em seu artigo, O Peso das Commodities Agroindustriais na Pauta de Exportações do Brasil: Evidência de Reprimarização da Economia? que há uma tendência de ampliação da participação dos produtos primários e intensivos em recursos naturais no total das exportações brasileiras. Para alguns autores, o maior peso dos produtos de menor valor agregado e conteúdo tecnológico nas vendas externas do país, somado a um déficit crescente da balança comercial de manufaturados, sinalizam uma tendência de desestruturação produtiva da economia brasileira e uma perda de competitividade, especialmente dos segmentos industriais de maior conteúdo tecnológico. Para outros autores, os preços relativos mais favoráveis das commodities agroindustriais, puxados principalmente pela forte demanda chinesa, tendem a perdurar por um longo tempo, possibilitando um ciclo de crescimento econômico mais sustentável. O artigo de Agnaldo Santos, Redes de Inovação Aberta em Biotecnologia – uma aposta estratégica, procura apresentar as potencialidades e os limites do formato de inovação no campo da biotecnologia em plataformas abertas, tomando como base tanto a experiência brasileira do Projeto Genoma Fapesp quanto a experiência australiana da BIOS Cambia. Da análise dessas experiências, sugere caminhos para modelos de desenvolvimento científico e tecnológica que levem em conta as peculiaridades da expertise engendrada no país frente à imensa riqueza de nossa biodiversidade. Jair Pinheiro, em seu artigo Ocupe Wall Street – indignados com o capitalismo e a ele aprisionados, aponta para um balanço crítico 10 | Apresentação desse movimento social estadunidense que ganhou notoriedade mundial após os eventos do crash financeiro de 2008. Valendo-se de balanço bibliográfico acerca dos movimentos sociais e tomando uma matriz explicativa marxista, o autor indica a hesitação entre um discurso moralista e outro mais vinculado ao mundo do trabalho, e as possibilidades que se abrem ao movimento. O capítulo A Via Campesina diante da crise global de Mirian Claudia Lourenção Simonetti e Adriane de Sousa Camargo traz elementos para pensar a atuação da organização de camponeses e indígenas Via Campesina diante da crise global. Destacam aspectos da atual crise mundial que para as autoras se apresenta de modo multifacetado e generalizado, caracterizando-se por uma crise financeira-alimentar-energético-climática, resultante do processo de reprodução ampliada do capital, baseada no avanço do capitalismo financeiro e das empresas transnacionais sobre todos os aspectos da agricultura e do sistema alimentar de diferentes países do mundo. Para as autoras, a globalização neoliberal ao mesmo tempo em que integra a economia mundial também favorece a emergência de diferentes forças sociais que se projetam e constroem um novo cenário político de resistências e de participação dos movimentos sociais no contexto internacional. Noemia Ramos Vieira, no capítulo O movimento estudantil no Chile: uma das faces da crise econômica e financeira mundial, trata das tensões que ganham visibilidade entre a CONFECH – Confederação dos estudantes do Chile e o Estado chileno. Mostra como os estudantes universitários apoiados por diferentes setores da sociedade civil, dentre eles professores, pais de alunos, sindicalistas têm se manifestado através diante de uma política de Estado que promove o fortalecimento do sistema de ensino privado e leva a deterioração do ensino público. Salienta aspectos relativos às características peculiares do movimento que, além das formas tradicionais de protestos como marchas, ocupação de universidades, escolas ou prédios públicos e barricadas para bloqueio de vias, os estudantes realizaram panelaços, beijaços, apresentações culturais Apresentação | 11 e greve de fome para dar visibilidade a sua luta e chamar a atenção da sociedade e do Estado. Enfim, o conjunto de artigos, agora apresentado ao público, procura combinar diferentes enfoques e temas a fim de contribuir com uma visão mais abrangente sobre as idiossincrasias econômicas, no Brasil e no mundo, que afetam diversos aspectos da vida social. José Marangoni Camargo Agnaldo dos Santos Mirian Cláudia Lourenção Simonetti Organizadores Capítulo 1 Redes de inovação aberta em biotecnologia – uma aposta estratégica Agnaldo dos Santos1 A inovação tecnológica, em particular aquela desenvolvida nos campos das science life companies, é tradicionalmente alvo de interesses por proteção das propriedades intelectuais aí geradas. Grosso modo, trata-se de uma atividade que pressupõe investimentos de milhões de dólares e que leva muitos anos desde os primeiros experimentos até a comercialização do produto final. Essa arena é habitada, desse modo, por grandes atores em uma dinâmica altamente oligopolista, onde poucos possuem recursos para desenvolver novos produtos e processos. 1 Haveria alguma outra forma de inovação biotecnológica, que pudesse em um só tempo capacitar novos quadros de pesquisadores e gerar produtos com preços mais acessíveis, de acordo com as necessidades nacionais? Colocado nesses termos, pode parecer algo um tanto utópico, mas existem 1 Professor da Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp, campus Marília (Departamento de Ciências Políticas e Econômicas) e Doutor em Sociologia pela FFLCH/USP. 14 | Redes de inovação aberta em biotecnologia – uma aposta estratégica desde o início dos anos 2000 redes de pesquisa que perseguem exatamente esses objetivos. Esse opúsculo busca apresentá-los de forma panorâmica, mostrando suas potencialidades e os desafios que ainda se apresentam para essas redes. 1. Redes de pesquisa Em 1999 era anunciado com pompa, pelo governador Mário Covas, que uma rede de pesquisadores do estado de São Paulo havia realizado o sequenciamento genético da Xylella Fastidiosa, micro-organismo conhecido como “praga do amarelinho”, que ataca as plantações de laranjais. O empreendimento, financiado com recursos da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), também recebeu divulgação nas grandes revistas internacionais especializadas em ciências naturais, como a Nature2, pois mostrava que os países de desenvolvimento recente (como o Brasil) estavam capacitados a desenvolver pesquisa de ponta nessa área. Mas havia outro elemento importante aí. Foi um empreendimento que envolveu 35 laboratórios públicos e privados no estado que, usando a conectividade da internet, não só deu maior velocidade ao trabalho como também possibilitou a capacitação de jovens pesquisadores. Desse empreendimento, surgiram empresas start-up que, aproveitando a proximidade espacial e institucional com a universidade (no caso, empresas instaladas próximas à Unicamp, em 2 The Genome Sequence of the plante pathogen Xyllela Fastidiosa, Nature nº 406, julho de 2000 <http://www.nature.com/nature/ journal/v406/n6792/full/406151a0.html>. Redes de inovação aberta em biotecnologia – uma aposta estratégica | 15 Campinas), passaram a dar continuidade às pesquisas que pudessem gerar novos produtos demandados pela produção agropecuária e farmacêutica brasileiras. Se o modelo em si não é original – basta ver como se desenvolveram as empresas de tecnologia do Vale do Silício, nos EUA – o destaque fica por conta da potencialidade do feito: aprofundar cada vez mais os trabalhos em rede e a produção por pares (ou coletiva). Os custos com pesquisas nessa área são enormes, proibitivos para a realidade das empresas brasileiras, e mesmo nos contextos norte-americano e europeu as atividades colaborativas vão se transformando no modus operandi de investigação científica e desenvolvimento tecnológico. No caso específico brasileiro, a rede de pesquisa tinha como finalidade desenvolver o mais rápido possível o sequenciamento do genoma desse organismo (uma vez que outras iniciativas nesse sentido eram realizadas com outros organismos em centros já consagrados) e encontrar um procedimento que fosse passível de patenteamento. Ambos os objetivos foram realizados: os brasileiros foram os primeiros a sequenciar o genoma de um fitopatógeno (organismo que ataca plantas) e, por meio da rede ONSA3, desenvolveu a téc- 3 A Organização para o Sequenciamento e Análise do Nucleotídeo (Organization for Nucleotide Sequencing and Analysis - The Virtual Genomics Institute), integrou neste primeiro projeto diversos laboratórios paulistas para seqüenciamento de DNA em larga escala, com o suporte centralizado para bioinformática no Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (Kimura e Baía, 2002, p. 326). 16 | Redes de inovação aberta em biotecnologia – uma aposta estratégica nica ORESTES4. É um feito duplamente notável, pela primazia do experimento e por conseguir patente de uma técnica usada no campo da biotecnologia, algo raro no Brasil. Mas, nesse ponto, vale o questionamento: redes trabalham bem com propriedade intelectual? Até onde ele é estímulo e a partir de quando virá um entrave ao desenvolvimento científico-tecnológico? 2. Modelo open source de biotecnologia Existe um enorme debate sendo travado a respeito dos limites do sistema de proteção à propriedade intelectual5. Se as cartas patentes dos séculos XVI e XVIII, atribuídas por monarcas aos inventores e criadores, constituíram estímulos aos indivíduos que se lançavam em empreendimentos engenhosos, e ainda, se sua regulamentação no século XIX foi fundamental para a 2ª Revolução Industrial, pesa hoje 4 A metodologia Orestes (Open Reading Frames EST ), desenvolvida por Andrew Simpson e Emmanuel Dias Neto, do Instituto Ludwig em São Paulo e participantes do projeto Genoma Fapesp, possibilita mapear moléculas e proteínas de uma célula. “Separar para analisar”, Revista Fapesp OnLine, agosto de 1999. <http://revistapesquisa2.fapesp.br/?art=720&bd=1&pg=1&lg=> 5 Um dos autores que vem se destacando nesse tema é Yochai Benkler (2002), professor de direito da Universidade Harvard, bem como Lawrence Lessig (2005), da Universidade Stanford. Outro autor importante é Joseph Stiglitz (2007), economista da Universidade Columbia de Nova York. Redes de inovação aberta em biotecnologia – uma aposta estratégica | 17 dúvidas sobre o que é invenção ou descoberta e o quanto o enclosure desses empreendimentos não pode retardar novas pesquisas, ao invés de estimulá-las. No campo da informática, esse debate já possui algumas décadas. O desenvolvimento de softwares proprietários, que levou à criação de gigantes como a Microsoft e a Apple, correu paralelo à disseminação do software livre, como o Linux, onde o código-fonte dos programas é aberto a qualquer programador que queira aperfeiçoá-los ou adequá-los às suas necessidades. O principal argumento dos seus defensores é que o formato da comunidade de desenvolvedores, descentralizada e horizontalizada, propicia maior dinamismo ao processo de criação e torna esses produtos mais seguros, porque mais pessoas estão envolvidas nas soluções dos bugs e malwares6, contrário do sistema catedral dos softwares proprietários, onde apenas os empregados das grandes companhias conhecem o código-fonte e podem tentar resolver esses problemas. Esse tipo de debate, que parecia circunscrito ao campo dos programas de computadores, conheça também a aparecer em outras áreas, como a biotecnologia. Uma das razões é técnica: para desenvolver os procedimentos de sequenciamento de um código genético, que possibilita compreender a dinâmica de um organismo e a forma de proceder a engenharia de recombinação desse código genético, é preciso utilizar softwares mais rápidos, trabalhando em rede e adap6 Na nomenclatura da área, bug é o problema técnico de uma máquina ou programa, já malware (de malicious software) é o conjunto de programas criminosos ou que podem danificar um equipamento, como os vírus. 18 | Redes de inovação aberta em biotecnologia – uma aposta estratégica tados às peculiaridades do grupo de pesquisadores. A própria analogia entre bytes e genes, ainda que não totalmente exata7, aproxima as áreas, pois em ambos os casos existe informação que é transmitida. Mas a segunda razão é a mais conceitual: descobertas podem ser equiparadas a inventos? O princípio que instituiu o sistema patentário era claro sobre isso – apenas invenções poderiam ser patentadas, uma vez que descobertas não são frutos do artifício humano. Mas a Suprema Corte norte-americana, desde os anos 1980, aceita que seres vivos transformados em laboratório são “invenções”, além de fragmentos de informação genética com potencialidades biotecnológicas. Na última década, em especial, vozes respeitadas na área do direito e das ciências da natureza vem alertando sobre algo que pareceria óbvio: se fragmentos de informação, que não se sabe exatamente ao que servem à dinâmica celular ou molecular de um organismo, são cercados por proteção intelectual, tanto maior o custo de pesquisa e desenvolvimento, pois os laboratórios irão focar na obtenção dessas “patentes preventivas” e não em produtos acabados, como remédios ou organismo geneticamente modificados. É nesse sentido que uma iniciativa australiana, desde 2004, vem chamando a atenção: o Projeto BIOS Cambia. A Biological Innovation for Open Society (Inovação Biotecnológica por uma Sociedade Aberta) Cambia (“mudança” ou “mudar”, em espanhol) é um empreendimento liderado por Richard 7 Existe uma crítica ao modelo mecanicista “um gene, uma proteína”, adotada por alguns biólogos logo após a descoberta da estrutura de dupla hélice do DNA, feita por James Watson e Francis Crick em 1953. Ver Keller (2002). Redes de inovação aberta em biotecnologia – uma aposta estratégica | 19 Jefferson, da Charles Stuart University, que procura aplicar a mesma filosofia do software livre para as aplicações biotecnológicas. As atividades desenvolvidas por seus pesquisadores consistem em duas frentes: a manutenção de um website com uma plataforma/repositório de pesquisas na área biotecnológica, com especial atenção às pesquisas de doenças tropicais; desenvolvimento de vetores de transmissão de material genético em aplicações de DNA recombinante, cujas técnicas em geral são patenteadas pelos grandes players da área. A página da iniciativa na internet8 procura ser um centro de debates e troca de experiências entre pesquisadores que desenvolvam atividades nas chamadas “ciências da vida” (biologia, medicina, farmácia, agronomia e outras) e que estejam à procura ou queiram compartilhar ferramentas e processos abertos, sem os modelos tradicionais de propriedade intelectual. É o mesmo princípio das plataformas abertas da comunidade Linux, onde se estabelece debates sobre os produtos desenvolvidos e formas de aperfeiçoá-lo. Para um bom funcionamento dessa arquitetura institucional, é fundamental que a relação seja horizontal, sem hierarquia, e que os participantes percebam que o compartilhamento é melhor que o trade secret, que saem mais enriquecidos do que quando ingressaram, de acordo com o espírito da dádiva maussiano, como veremos em seguida. Já no plano dos produtos, um importante objetivo foi alcançado quando seus pesquisadores conseguiram utilizar um micro-organismo capaz de transmitir material genético de forma similar às agrobactérias patenteadas pelas grandes 8 <www.bios.net/daisy/bios/home.html.> 20 | Redes de inovação aberta em biotecnologia – uma aposta estratégica companhias, como a Monsanto. Esse organismo, chamado de Transbacter, cujos procedimentos de manipulação estão disponíveis de forma aberta e desenvolvidos a partir do Rizobium, pode ser utilizados sob uma licença especial, tal qual a forma de copyleft ou de Creative Commons na informática e no campo da criação cultural – são abertas, mas não podem ser cobertas por direitos autorais demasiadamente extensivos (o famoso “todos os direitos reservados” do copyright) e patentes. O objetivo é que pesquisadores de países de desenvolvimento recente possam apropriar-se desse ferramental para criar produtos demandados por suas populações, em geral incapazes de pagar os altos valores cobrados por remédios, sementes etc. 3. Dádiva na economia de mercado? A sociologia econômica vem buscando resgatar uma ideia presente em obras clássicas como A Grande Transformação, de Karl Polanyi, e Sociologia e Antropologia, de Marcel Mauss – a de que as relações econômicas não são fruto de uma autonomia da esfera mercantil, e sim que elas estão “imersas” nas relações sociais mais amplas, sendo um de seus exemplos mais expressivos a “economia da dádiva”, em que a doação representa importante elemento de coesão social (Granovetter, 2009; Swedberg, 2005). Indivíduos e grupos, ao ofertarem bens e serviços, ganhariam outros benefícios (reconhecimento, primazia no acesso a informações) para além dos meramente mercantis (como o lucro Redes de inovação aberta em biotecnologia – uma aposta estratégica | 21 imediato). Tal ideia pode ser útil quando procuramos compreender os processos relativos à inovação tecnológica desde uma perspectiva open source. Uma questão que vem aparecendo em muitos fóruns de debates em que aparecem governo, universidade e empresariado é a seguinte: por que investir em pesquisas nas áreas científica e tecnológica? A pergunta pode parecer retórica, uma vez que existe no senso comum a ideia de que investimentos em educação e C&T são óbvios para qualquer país com pretensões a player de destaque na economia global. Mas quando vemos o montante de investimentos privados em C&T, notamos que a resposta não é tão simples. Em geral, é o Estado que arca com o custeio das pesquisas no país9, e boa parte das patentes registradas no país é de universidades ou empresas públicas10. Dentro da perspectiva da propriedade intelectual, um agente econômico investe em pesquisa em busca de um benefício, com um risco calculado pois o investimento pode demorar a trazer retorno (Rosenberg, 1990); daí a briga, nas 9 Conforme dados apresentados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, no país o percentual de investimentos em tecnologia representa, respectivamente, 0,55% do setor privado e 0,61% do público em relação PIB (Agência Brasil, <agenciabrasilebc.com. br>, 23/03/2012). 10 Os pedidos de patentes de instituições ou pesquisadores brasileiros cresceu 64% entre 2001 e 2010, totalizando 130 mil pedidos de patentes de invenções (contra 3 milhões feitas pela China no mesmo período), sendo as cinco primeiras colocações no ranking: Petrobras, Unicamp, USP, Fapesp e UFMG (Folha.com, Ciência, 6 de março de 2012). 22 | Redes de inovação aberta em biotecnologia – uma aposta estratégica rodadas de negociações da OMC, em torno desse tema. Mas as pesquisas que procuram compreender esse fenômeno indicam que boa parte do processo investigativo leva à descobertas que não possuem uma aplicação comercial imediata, pelo simples fato de que não se sabe para que serve aquele achado, por exemplo, um gene específico em um genoma de algum organismo. Nesse sentido, a tendência das grandes science life companies é procurar garantir a patente dessas descobertas, agora tratadas como “inventos”, mesmo que não se saiba exatamente como lucrar com aquilo. A consequência disso é que as pesquisas estão ficando cada vez mais onerosas, mesmo para as grandes companhias, pois a corrida por “patentes preventivas” faz com que cada uma delas precise negociar o licenciamento de fragmentos patenteados com diversas outras empresas, tornando o processo demasiadamente moroso (Hope, 2004). As grandes empresas da área, sabendo desse problema, iniciaram em meados da primeira década deste século experiências de compartilhamento de informações e a formação de bancos públicos de dados. Aqui o foco é exatamente sobre as descobertas que não possuem um aplicação imediata, antes então que possa ocorrer as patentes preventivas. Duas iniciativas podem ser tomadas como exemplares. A Glaxo Wellcome e a Incyte Genomics resolveram usar o mesmo modelo de desenvolvimento de softwares para encontrar alguma aplicação às informações geradas em suas pesquisas, mas sem um destino comercial já traçado. Resolveram criar um banco de dados com essas informações, aberto aos seus pesquisadores e aos hospitais, centros de pesquisa e órgãos governamentais, de modo a se beneficiar Redes de inovação aberta em biotecnologia – uma aposta estratégica | 23 de eventuais aplicações desenvolvidas por esses pesquisadores. Da mesma forma que um desenvolvedor de software se relaciona com listas de debates, levando informação (relação upstream) e retirando dela outras informações (relação downstream), essas empresas perceberam que a velocidade no tratamento dos dados é mais veloz quando eles se encontram abertos a essa comunidade (Santos, 2011). Outra iniciativa ocorreu no chamado Consórcio SNP11, que envolveu empresas como a já citada Glaxo Wellcome, a Novartis, a Hoechst, a Universidade Stanford, o Instituto Whitehead e o Centro de Pesquisa do Genoma do MIT. Esse consórcio conseguiu identificar e localizar, até 2001, cerca de 300.000 SPNs no genoma humano, o que poderá levar ao desenvolvimento de terapias individualizadas12. 4. Limites e perspectivas Parte significativa dos especialistas em direito e propriedade intelectual acredita que é preciso rediscutir o conceito 11 Os polimorfismos de nucleotídeo único (SNP) são as variações de uma base (nucleotídeo) do DNA, que podem atribuir as características individuais das pessoas, como por exemplo suscetibilidade a doenças. 12 Mas a reação não tardou a aparecer: a empresa Genetic Technologies de Melbourne (Austrália) detém várias patentes, registradas no nome da GeneType, da Suíça, que cobrem parte do conceito da análise de SNPs. “Todas as companhias que usam SNPs não-codificantes estão infringindo as nossas patentes”, diz o presidente da empresa, Mervyn Jacobson (Folha de São Paulo, Ciência, 16 de maio de 2012). 24 | Redes de inovação aberta em biotecnologia – uma aposta estratégica e a extensão de patentes em biotecnologia, como de resto nas demais áreas em que fica difícil diferenciar uma descoberta de um invento. Alguns acreditam que a facilidade em obter patentes em biotecnologia poderá interferir no desenvolvimento da própria área, mas os sinais dados pelos fóruns internacionais não é animador. A OMC vem buscando, desde de meados da década de 1990, submeter os países membros à regras mais rígidas acerca da propriedade intelectual (Acordo TRIPS), o que faz com que os pesquisadores invistam nos modelos de criação regulados pela via patentária. Voltando ao caso brasileiro do Projeto Genoma Fapesp, é ilustrativo que a experiência mais significativa nos últimos anos no país, que ajudou a treinar quadros e fomentou empresas start-ups de sucesso (Allelyx, PR&D, CanaViallis, Scylla), mostrando inclusive a viabilidade de um peer production em uma área sensível em que a propriedade intelectual é priorizada, tenha reforçado após uma década a concentração de capital. A empresa símbolo, Allelyx, fundada por professores universitários e fomentada por fundos de investimento de uma empresa brasileira (Votorantin New Business), foi comprada pela Monsanto (outra empresa símbolo, só que do grande capital na science life) em 2008. À ocasião, o Ministério da Ciência e Tecnologia emitiu nota lamentando que uma bem sucedida empresa brasileira, que recebeu quase 6% de investimento público para sua constituição, tenha sido transferida com seu know-how para um grande truste internacional13. Parte expressiva dos pesquisadores brasileiros, ainda que olhem com curiosidade para as experiências de biotecno- 13 Ver O Estado de São Paulo, Economia e Negócios, 5/11/2008. Redes de inovação aberta em biotecnologia – uma aposta estratégica | 25 logia open source, estão convencidos que é necessário seguir nessa trilha: aumentar o depósito de patentes no Brasil e no exterior e, quando for o caso, aceitar as propostas de aquisição das grandes companhias (Santos, 2011). A experiência do BIOS Cambia, mesmo que seja alentadora para um grande número de pesquisadores situados nas franjas do sistema internacional de P & D, não foi capaz de garantir que empresas farmacêuticas e de biotecnologia fossem seduzidas para pesquisa, o fabrico e a venda de produtos mais acessíveis e orientados às necessidades das populações mais pobres da América Latina, África e Ásia. Os movimentos das negociações no âmbito da OMC indicam que o grande capital nessa área está disposto a recrudescer, e não flexibilizar, as regras de propriedade intelectual, tanto do direito autoral quanto das patentes14. Qual o espaço então para uma biotecnologia open source? Os mecanismos de mercado, por si só, não são suficientes para garantir que processos abertos e voltados à produção de artefatos de interesse social sejam efetivados. Uma possibilidade que se abre para os atores interessados em promover a peer production e controlar a expansão da biotecnologia mercantil é a intersecção desses interesses – pesquisadores do setor público, dos pequenos laboratórios privados, ativistas anti-trans14 O Governo Barack Obama, seguindo seus antecessores, concentrou fortemente esforços no sentido de evitar que a ONU e a Organização Mundial da Saúde promovam a produção e comercialização de remédios genéricos junto aos países pobres vítimas de epidemias, como a AIDS (“Remédios genéricos podem revolucionar o mundo”, Folha de São Paulo, suplemento New York Times, 3 de outubro de 2011). 26 | Redes de inovação aberta em biotecnologia – uma aposta estratégica gênicos das big companies e gestores das políticas públicas. Temos nesse campo de disputa fundamentalmente três forças – a dos interessados em reforçar e ampliar o modelo patentário (grandes empresas e seu corolário político e jurídico); a dos opositores por convicção ideológica (ecologistas, militantes de esquerda, populações atingidas pela bioprospecção) e a dos opositores ocasionais (que, mesmo defendendo a biotecnologia, sabem do risco potencial de oligopolização econômica e dependência tecnológica que ela pode engendrar). Uma política de Estado voltada à geração de biotecnologia realmente comprometida com o desenvolvimento econômico e social deve buscar uma aliança entre os dois últimos polos, uma vez que o lobby das grandes companhias continuará atuando junto ao poder público no sentido de fazer valer seus interesses. Dois centros de produção de biotecnologia se destacam no Brasil, além dos centros estritamente universitários: a Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias (Embrapa) e o Instituto de Tecnologia de Fármacos (“Farmanguinhos”) da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. Enquanto o primeiro possui por missão encontrar soluções à agricultura e à pecuária brasileiras, o segundo é o principal responsável pela produção de medicamentos e vacinas no país, ao lado do Instituto Butantã (SP). Esses atores poderiam ser o vetor de intersecção dos interesses por uma biotecnologia aberta e socialmente responsável, que mesmo mantendo o princípio da precaução15 poderia guiar uma po15 Os opositores da biotecnologia transgênica, inclusive no meio científico, defendem que a dinâmica biológica é muito complexa e que a liberação de organismos geneticamente modificados na natureza acarreta sério risco à biodiversidade, incluso aí a saúde humana. Redes de inovação aberta em biotecnologia – uma aposta estratégica | 27 lítica pública e uma estratégia de Estado menos dependente do sistema patentário, cujos processos de obtenção já estão completamente oligopolizados. As experiências de desenvolvimento recente de países como a Coreia do Sul, a China e a Índia (para não falar do caso anterior do Japão pós-guerra) deixaram claro que é fundamental a presença do Estado no sentido de construir uma burocracia estatal meritocrática e estável, fomentar empresas capazes de um crescimento para além das fronteiras nacionais e guiadas por estratégias de longo prazo (Evans, 2004). Uma postura política dessa natureza, aproveitando as virtudes da peer production em sistemas abertos, no espírito do projeto Genoma Fapesp e da BIOS Cambia australiana, teria condições de construir a aliança estratégica em prol da biotecnologia aberta. É acima de tudo uma aposta política, que certamente encontrará muitos opositores dentro e fora do meio acadêmico e empresarial (além das negociações internacionais), mas exigirá criatividade e perseverança dos atores envolvidos, que certamente buscam formas novas de fazer o “estado da arte” no país avançar. Referências BENKLER, Yochai. “Coase´s Penguin, or, Linux and the Nature of the Firm”, The Yale Law Journal (Selection Version), volume 112, 2002. No lugar da rápida liberação, defendem o “princípio da precaução”, onde exaustivos testes, sem a pressão das grandes companhias, devem certificar a biossegurança dos OGM (Santos, 2011). 28 | Redes de inovação aberta em biotecnologia – uma aposta estratégica EVANS, Peter. Autonomia e Parceria: Estados e transformação industrial. Rio de Janeiro, Editora UFRJ, 2004. GRANOVETTER, Mark. “Ação econômica e estrutura social: o problema da imersão”. Redes e sociologia econômica, (org. Ana Cristina Braga Martes), São Paulo, Editora Ufscar, 2009. 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Primeiro, foi o avanço de governos de centro-esquerda na América Latina, que representou um repudio ao ideário dominante do neoliberalismo. Um pouco mais tarde, explodiu a Primavera 30 | A crise estrutural do capitalismo e a crise do euro é um dos momentos agudos da luta pela reconfiguração da economia mundial e pela hegemonia. A situação dos países desenvolvidos se caracteriza, em linhas gerais, pelo baixo crescimento econômico, pelas elevadas dívidas públicas e altas taxas de desemprego. A crise parece também reafirmar a tendência de desenvolvimento desigual e combinado do modo de produção capitalista. Os EUA, o Japão e a zona do Euro foram duramente atingidos, Porém, outras regiões, como a China e a Índia, apresentaram apenas relativa desaceleração da atividade econômica3. Na verdade, esse comportamento discrepante é anterior à própria crise. Desde os anos 1980, os países do Leste Asiático apresentam altas taxas de crescimento, contrastando com o Árabe, que colocou abaixo longevos regimes autoritários. Com a crise a onda de contestação alcançou a Europa e os EUA. Sem traçar uma clara alternativa, esses movimentos e a crise global sugerem o esgotamento do capitalismo na sua forma atual. 3 Os países desenvolvidos foram duramente atingidos pela crise. Cresceram apenas 0,5, em 2008, e sofreram forte retração de 3,2% do PI, em 2009. Enquanto isso, os países em desenvolvimento cresceram 2,6%, em 2009, depois e terem crescido 6,1%, no ano anterior, e 7,4% em média na fase de auge 2003-2007, o que indica que estes países não ficaram imunes à crise mundial. Cabe destacar o crescimento da China. Esse desempenho dos países em desenvolvimento impediu uma crise de grandes proporções. A vacilante recuperação a partir de 2010 também dependeu do desempenho dos países em desenvolvimento, em particular da Ásia, que cresceram 9,5%. O bom desempenho desses países, sobretudo o da China, contribuiu por meio de sua elevada demanda por matérias primas para estimular outras economias periféricas, como as da América Latina (FMI, 2012, p. 2). A crise estrutural do capitalismo e a crise do euro | 31 baixo crescimento do núcleo do sistema e de vastas outras áreas da periferia. A crise parece aprofundar a reconfiguração espacial do capitalismo desencadeada na chamada fase de mundialização do capital, com o aparecimento de um novo polo dinâmico de acumulação de capital no Leste Asiático, que questiona a supremacia dos países desenvolvidos e aprofunda a luta pela hegemonia4. Diferentemente dos anos 1990, quando as crises varreram a periferia, o epicentro da atual crise encontra-se no centro do sistema e parece ter potencial para consolidar um mundo multipolar em gestação. A crise abalou um dos pilares do poder econômico e político dos países centrais, a saber: o capital financeiro, fração dominante na atual fase do capitalismo. Esse processo evidenciou-se após a quebra do banco norte-americano Lehman Brothers, em setembro de 2008, quando o pânico tomou conta do sistema financeiro internacional e trouxe a tona suas fragilidades. Uma das consequências imediatas desses fatos foi a drástica redução da liquidez no mercado mundial, que acarretou a paralisia da acumulação de capital. O resultado foi a forte recessão de 2009. O grau de deterioração da economia só não foi mais grave graças ao desempenho das economias em desenvolvimento, apesar delas também terem sofrido com a crise, e graças à ampla intervenção do Estado na economia. Embora o capital financeiro se apresente de forma cada vez mais desterritorializada, ele está intimamente articulado 4 O PIB dos G7 (grupo dos sete países mais ricos do mundo) cresceu 3% na década de 1980 e 2,4% na seguinte, enquanto cresceu 5,1% entre 1960 e 1969 (Brenner, 2003, p. 93). Enquanto a China cresceu, entre 1980 e 2000, 10% ao ano em média. 32 | A crise estrutural do capitalismo e a crise do euro com os Estados das grandes potências, como ficou evidente nos episódios recentes. A rápida e abrangente ação dos Estados nacionais dos países desenvolvidos, que saíram em socorro do capital financeiro e fizeram de tudo para estancar a crise de liquidez do sistema, evitou, provavelmente, uma depressão semelhante a da década de 1930. Governos liberais abandonaram suas convicções e intervieram pesado na economia. A crise evidenciou mais uma vez a incapacidade dos mercados regularem a economia de maneira eficiente, colocando em questão um dos pilares da ideologia neoliberal. Diante da possibilidade de colapso financeiro e econômico, vários governos abandonaram a ortodoxia e passaram a intervir na economia de diferentes maneiras para estancar a crise e salvar o mercado financeiro da bancarrota5. Passaram a considerar a regulamentação do capital necessária para recolocar a economia no caminho do crescimento e evitar novas instabilidades. Contudo, a forte oposição dos bancos e dos fundos bloqueou qualquer tentativa de uma regulamentação das finanças globais. As iniciativas se deram 5 Logo após o estouro da crise “o governo americano disponibilizou US$ 2,25 trilhões (sendo US$ 1,5 trilhão para garantir novas dívidas emitidas pelos bancos, US$ 5000 bilhões para os depósitos nos fundos mútuos e US$ 250 bilhões para capitalizar os grandes bancos). O Fereal Reserve (Fed) aumentou para US$ 900 bilhões seus acordos e troca de moedas com quatorze bancos centrais para ampliar a liquidez em dólares nos mercados financeiros globais. Os países da União Europeia (Alemanha, França, Holanda, Espanha, Áustria, Portugal, Reino Unido e Suécia) e a Noruega, por sua vez, disponibilizaram US$ 2,75 trilhões” (Cintra e Prates, 2011, p. 12). A crise estrutural do capitalismo e a crise do euro | 33 no âmbito nacional, sobretudo por parte do governo norte-americano (Cintra e Prates, 2011). O FMI e o Banco Mundial se mostraram incapazes de enfrentar a crise. Mudaram de postura em relação à década de 1990. Nas crises dos países latino-americanos e asiáticos, essas instituições impuseram de forma intransigente políticas ortodoxas que agravaram a situação. Porém, quando o epicentro da crise deslocou-se da periferia para os países desenvolvidos, passaram a recomendar políticas monetárias frouxas e expansão do gasto público. A preocupação com o endividamento público elevado, a inflação e os desequilíbrios externos foi flexibilizada no momento mais agudo da crise. A atuação dos Estados nacionais foi central para evitar o colapso no início da crise, o que nos leva a matizar a propalada crise dos Estados nacionais, pelo menos daqueles que ocupam o topo da hierarquia mundial, embora isso não se coloque para os Estados da maior parte da periferia e dos próprios países centrais. No segundo semestre de 2009, a crise deu alguns sinais nítidos de que estava amainando. A melhora do quadro econômico deveu-se a adoção generalizada de políticas econômicas anticíclicas (aumento do gasto público, política monetária expansiva, redução dos juros, ampliação do crédito, incentivos ao consumo e planos de investimentos) por parte de inúmeros governos de países desenvolvidos e em desenvolvimento. Estas políticas evitaram o colapso do sistema financeiro e do padrão monetário e, por conseguinte, da produção e do emprego, mas se mostrariam insuficientes para recuperar a atividade econômica. Os governos injetaram trilhões de dólares na economia para evitar o total estrangulamento da liquidez 34 | A crise estrutural do capitalismo e a crise do euro e desta maneira salvaguardaram o sistema financeiro. Estimam-se os desembolsos com resgates de bancos, planos de investimentos, estímulos fiscais, estímulos ao consumo, investimentos em obras públicas etc. pelas principais economias do mundo em 11trilhões de dólares do início da crise até março de 2009. O plano norte-americano, anunciado ainda no governo Bush, previa dispêndios da ordem de 860 bilhões em estímulos para a economia e socorro aos bancos. Para União Europeia estimam-se que os dispêndios alcançaram cerca de 260 bilhões de dólares no enfretamento imediato da crise (Blackburn, 2008; Dowbor, 2009). Paralelamente a essas medidas, o Federal Reserve, em um contexto de baixa inflação, injetou enormes quantidades de moeda na economia com o objetivo de animá-la e desvalorizar o dólar, contribuindo assim para melhorar as contas externas norte-americanas e desvalorizar os passivos em dólares. O Banco Central europeu resistiu, inicialmente, a essa política. Só no ano passado, ante ao agravamento da crise, passou também a fazer uso da mesma para salvar o sistema bancário e os fundos da bancarrota. Os países em desenvolvimento também adotaram políticas econômicas anticíclicas. Cabendo destaque para a China. A manutenção de elevados níveis de crescimento econômico neste país foi fundamental para amenizar a crise econômica mundial. O governo chinês implantou um programa de incentivo ao consumo e aos investimentos, voltado para o mercado interno, orçado em 585 bilhões de dólares. Os governos latino-americanos também adotaram uma série de medidas para enfrentar os impactos da crise mundial. Contudo, a recuperação esboçada em 2010 não prosperou e a economia mundial voltou a declinar em 2011. O ritmo de A crise estrutural do capitalismo e a crise do euro | 35 crescimento dos países desenvolvidos caiu pela metade em 2011 em relação ao ano anterior, cabendo destacar a queda da atividade econômica nos EUA e no Japão. A zona do euro, o epicentro da segunda fase da crise, que teve um crescimento medíocre em 2010, manteve esse desempenho em 2011. O foco dos problemas foi a situação econômica precária de diversos países da zona do euro. A rápida deterioração da situação desses países levou a economia mundial a entrar em uma fase de declínio, cujos desdobramentos não são ainda possíveis de serem avaliados em toda a sua extensão. 2. A crise europeia O espectro de 1929 pareceu afastar-se quando no segundo semestre de 2009 a economia mundial começou a dar sinais de recuperação, com pequena melhora no desempenho econômico dos EUA, Alemanha, França e Japão. Ao mesmo tempo, o PIB chinês cresceu 8,9% no 4º trimestre de 2009 em relação à igual período do ano anterior (BNDES, 2009, p. 2; Corsi, 2010, p. 57; FMI, 2010). Entretanto, a crise não tinha sido superada. Em novembro 2009, novos problemas começaram a vir à tona. O governo socialista grego anunciou, o que muitos já sabiam, a delicada situação fiscal e das contas externas do país, mascarada pelo governo anterior com a ajuda do banco de investimento Goldman Sachs. A dívida pública equivalia a 115,1% do PIB e o déficit fiscal 13,6%. O déficit em conta corrente era de 11,2% do PIB. Ou seja, a Grécia tinha claros problemas de financiamento de sua dívida e de suas contas externas, apresentando elevada 36 | A crise estrutural do capitalismo e a crise do euro dependência dos fluxos externos de capital. Situação semelhante à de Portugal, Irlanda, Espanha e a da Itália, países que ocupariam o epicentro da crise que se estende até os dias de hoje. Situação que não diferia da do Reino Unido, com um déficit público de 13% do PIB, e da dos EUA, com um déficit de 10,6% do PIB (FMI, 2011). No início de 2010, a Grécia sofreu forte ataque especulativo, que a levou praticamente a insolvência e deu início a tentativa de resgatá-la, liderada pela Alemanha e pela França. Processo que culminou com a reestruturação da dívida pública em outubro de 2011, uma espécie de moratória, com mais um pacote de bilhões de euros e com o compromisso da Grécia assumir dura política de estabilização. O governo socialista caiu e o país sofreu, na prática, uma intervenção da União Europeia para salvar os interesses do capital financeiro e a própria União. O comprometimento dos bancos é relevante no caso da Grécia: 52% da dívida grega estão nas mãos de bancos franceses, 30% na de bancos alemães, 10% ingleses e 8% na dos holandeses. (Formento e Merino, 2011, p.112). Concomitantemente, desencadearam-se processos especulativos contra a Irlanda, a Espanha, a Itália e Portugal. O risco do pânico se alastrar pela Europa já era palpável naquele momento, o que poderia levar a falência o sistema bancário europeu, dado o elevado volume de títulos desses países nas carteiras dos bancos franceses, alemães, holandeses e ingleses. Os bancos franceses e alemães foram responsáveis por 71% do dinheiro emprestado aos chamados PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália e Grécia) e os ingleses por cerca de 15%. Estes bancos estão expostos em cerca de 2 trilhões de dólares. Portanto, tornou-se vital para esses interesses evitar A crise estrutural do capitalismo e a crise do euro | 37 o colapso, ao mesmo tempo em que muitos lucram enormes somas com os movimentos especulativos de capital. Os PIIGS capitularam ante as pressões do capital financeiro, adotaram rígidas políticas ortodoxas de estabilização inspiradas nas políticas do FMI. A crise expôs as fragilidades do euro e a profunda luta pela reconfiguração do capitalismo entre os blocos imperialistas (Formento e Merino, 2011. Os próximos parágrafos baseiam-se amplamente nesta obra). A deterioração das contas externas e públicas de vários países europeus, que está no centro da segunda onda da crise de 2008, resultou, em parte, dos esforços dos Estados para salvarem o capital financeiro e das tentativas para estancar a própria crise. Em 2008 e 2009, ante a perspectiva de colapso do sistema monetário e financeiro internacional, adotaram, como em inúmeros outros países pelo mundo, políticas monetárias e fiscais expansivas no intuito de deter a crise de liquidez e retomar a acumulação de capital. Foi essa política que agravou a situação das contas públicas, que já não eram boas em virtude dos fortes desequilíbrios estruturais da zona do euro. De um lado, encontramos países superavitários, como a Alemanha e a Holanda e, no outro extremo, Grécia, Portugal, Espanha, Itália e Irlanda, países cujas contas externas apresentavam importantes déficits. Estes países passaram a depender cada vez mais da importação de capitais. Ao adotarem o euro, uma moeda forte, perderem competitividade, uma vez que o nível de produtividade do trabalho nestes países era menor do que na Alemanha. O resultado foi o retrocesso na produção industrial, que ficou mais cara. Isto dificultava as exportações e favorecia as importações. A 38 | A crise estrutural do capitalismo e a crise do euro França, a Holanda e principalmente a Alemanha, que controlam o euro, beneficiaram-se desse processo. A moeda forte também proporcionou um boom e consumo. Tudo isso financiado pelo aumento do endividamento externo, principalmente junto às redes financeiras franco/ alemãs. Essa situação foi agudizada pela crise aberta em 2008. Paralelamente, os capitais franceses e alemães, que constituem o núcleo das grandes corporações europeias, avançaram sobre as economias periféricas da Europa, controlando empresas estratégicas nos setores bancário, industrial e de serviços. Observa-se o aprofundamento do processo de centralização de capitais, comandado pelos blocos de capitais alemães, em particular nos setores de bens de capitais, no desenvolvimento de tecnologia e na produção de armamentos. Esses processos reduziram a autonomia e a capacidade de reação da periferia europeia (Formento e Merino, 2011). Ante a situação de crise e o risco crescente de colapso do euro, o eixo franco alemão, que controla a zona do euro, adotou como estratégia de enfrentamento da crise o aprofundamento da União Europeia, o que implica na redução da autonomia dos países membros, em especial no que diz respeito à politica fiscal. O enfraquecimento dessas economias e a adoção de políticas ortodoxas também abre a possibilidade para os capitais financeiros absorverem empresas públicas e privadas das regiões em crise, incrementando o processo que Harvey (2005) denominou de acumulação por despocessão. Em linhas gerais, essa estratégia consiste em promover o equilíbrio fiscal e nas contas externas por meio de políticas recessivas de corte drástico do gasto público, reforma no sistema previdenciário, flexibilização da legislação trabalhista e A crise estrutural do capitalismo e a crise do euro | 39 política monetária restritiva. Condicionada a adoção dessas medidas, também foi estabelecida robusta ajuda financeira e renegociação parcial das dívidas, como na Grécia, para enfrentar os problemas de prazo mais curto e garantir o euro. Para tanto, constitui-se, em maio de 2010, um fundo de 750 bilhões de euros, que recentemente foi ampliado para 1 trilhão, sem contudo conseguir estancar a crise. Mesmo assim a dívida grega teve que ser parcialmente cancelada no início de 2012, depois de meses de crise e negociações. A estratégia adotada agora procura garantir o pagamento das dívidas por meio do aumento da poupança interna e de ajuda financeira. Esperava-se que com essa estratégia a confiança do capital financeiro retornasse e assim melhorasse as condições de financiamento das dívidas, em particular uma redução das taxas de juros dos títulos das dívidas. Ao mesmo tempo, acreditavam que seria possível, em um segundo momento, com o incremento da poupança interna e com a volta dos fluxos de capital retomar os investimentos, aumentar a produtividade do trabalho, ampliar a produção, elevar as exportações e assim enfrentar os problemas de fundo da unidade monetária. A implementação dessas medidas exigiria maior controle das políticas econômicas nacionais pela União Europeia. Essa estratégia, que salvaguarda os interesses financeiros, joga nas contas dos trabalhadores o ônus dos ajustes para superar a crise, pois implica no incremento do desemprego, na redução dos salários, na precarização das condições de trabalho, na redução dos gastos sociais e na queda das aposentadorias, o que vem acontecendo na Grécia e em outros países europeus mais afetados pela crise. Entretanto o capital, sem querer, ao acirrar a luta de classes, como já 40 | A crise estrutural do capitalismo e a crise do euro vem acontecendo na Grécia, na Itália e em Portugal, apesar das vitórias recentes de forças conservadoras, pode estar abrindo a possibilidade para outra saída da crise. Uma saída mais de acordo com os interesses dos trabalhadores, que implicaria na moratória das dívidas, na nacionalização dos bancos, em controles severos dos movimentos de capital e no desmantelamento da especulação. Esta saída não pode ser descartada, apesar da correlação de forças desfavorável aos trabalhadores no momento. Mesmo porque os problemas da estratégia franco/alemã, que aparentemente está se impondo, não são poucos. A drástica política de cortes de gastos, o arrocho dos salários e aposentadorias irá, como já vem acontecendo, reduzir o consumo, a produção e, portanto, a arrecadação pública, o que dificultará de maneira crescente o pagamento das dívidas, podendo levar a uma situação insustentável. Neste caso, a possibilidade de ruptura dos países mais afetados com o euro não pode ser descartada, embora os custos políticos e econômicos dessa opção sejam bastante altos não só para a zona do euro como também para o conjunto da União Europeia. A desvalorização melhoraria a competividade, daria mais liberdade para adotar políticas expansivas, mas implicaria em moratória generalizada. Também não está claro na estratégia franco/alemã como países mergulhados na crise recuperarão os investimentos necessários para reduzir os diferenciais de produtividade, pois só a política deflacionária e de redução de custos pelas reformas não serão suficiente para enfrentar essa questão. Além disso, esse processo de incremento da produtividade não e algo que se dê da noite para o dia, exigindo largo A crise estrutural do capitalismo e a crise do euro | 41 prazo para ocorrer. A Alemanha recusou-se, inicialmente, a permitir que o Banco Central Europeu comprasse maciçamente títulos das dívidas dos PIIGS, aliviando a situação dos mesmos, como sugeriam os EUA e os capitais financeiros anglo/norte-americano globalizados, com a alegação que isso poderia desencadear acentuado processo inflacionário, forte depreciação do euro e premiaria os países perdulários. Essa saída poderia incentivar o consumo, a produção e assim melhoraria a arrecadação e as condições de pagamento das dívidas, sem tantos traumas, dado que a inflação parece estar sob controle na zona do euro. Isto poderia enfraquecer o euro. Porém, com o aprofundamento da deterioração da situação da Grécia e de outros países europeus a partir do final de 2011 o Banco Central Europeu passou adotar uma política monetária frouxa. Parece ser vital para o capital financeiro e para o eixo França/Alemanha resolver a crise pelo maior controle dos países da zona do euro, pela maior integração econômica e pelo fortalecimento da moeda. Isto parece particularmente claro para a Alemanha. País cuja economia depende, em boa medida, das exportações. Entre 1990 e 2008, as exportações passaram de 32% do PIB para 47%, não obstante a valorização da moeda, o que sugere a força da estratégia alemã baseada em poupança, investimento, produção, exportação e superávit. Boa parte desse crescimento foi obtido pelo avanço alemão na União Europeia (Formento e Merino, 2011). Entretanto, a disseminação do padrão alemão de acumulação fecharia um dos espaços mais importantes de seu crescimento, o que não deixa de ser contraditório com a própria política que ela propõe para os países periféricos da Europa 42 | A crise estrutural do capitalismo e a crise do euro saírem da crise. Posição superavitária, moeda forte e avanço da União Europeia é o projeto do eixo França/Alemanha para manter sua autonomia e projeção em uma economia global marcada por forte concorrência intercapitalista, apesar de essa estratégia aprofundar a crise de superprodução e acirrar a concorrência interimprialista, de um lado, com os blocos de capitais financeiros anglo-americanos e com os EUA e, de outro, com o novo polo de acumulação na Ásia, liderado pela China, que colocou em segundo plano a economia japonesa. Um euro forte poderia questionar a posição do dólar como moeda chave do sistema monetário internacional em um contexto de crise e decadência da economia norte-americana. Durante a guerra fria os EUA estimularam a economia e a unidade da Europa. Mas com a debacle soviética, uma Europa forte e integrada passou a ser pouco interessante para os EUA e para seus capitais globalizados (Formento e Merino, 2011). Não por acaso o governo Obama vem criticando a China e a Alemanha por suas políticas agressivas de exportação, poupança, superávit e investimento. Para ele, a posição superavitária da China e da Alemanha seriam uma das principais responsáveis pelos desequilíbrios da economia mundial, embora os EUA tenham também se beneficiado de sua estreita relação com a economia chinesa em termos de bens manufaturados baratos e financiamento de seus crescentes déficits. Dessa forma, pressiona cada vez mais a China para valorizar sua moeda e aumentar o consumo interno. Assim como pressiona a União Europeia a adotar uma política monetária e creditícia frouxa para sair da crise. Mas não há garantia dessas políticas surtirem efeito duradouro, pois não A crise estrutural do capitalismo e a crise do euro | 43 atacam a raiz da crise, que reside no excesso de capacidade produtiva e de capital fictício em escala mundial. 3. Considerações finais Os capitais financeiros anglo-americanos globalizados viram na crise das dívidas dos chamados PIIGs uma oportunidade de enfraquecer o euro. Indícios sugerem que lideraram os movimentos especulativos recentes contra esses países. Não é casual o fato do rebaixamento, em novembro de 2009, da avaliação da dívida grega pela Standard & Poor´s, agência de avaliação de risco ligada a esses interesses, ter desencadeado os movimento que culminaram com a quebra da Grécia, enquanto as agencias Moody´s e Fitch demoraram para acompanhar a avaliação da Standard & Poor´s (Formento e Merino, 2011). Uma União européia fraca parece favorecer aos interesses anglo-americanos e assim seria importante para assegurar ou retardar a crise da hegemonia dos EUA. À China e à Rússia não interessa, no momento, o enfraquecimento da zona do euro. Por isso os chineses, em um contexto de crise da economia e profundas fraturas na classe dominante dos EUA, passaram a ter uma atitude firme de recusa em valorizar sua moeda e, desde 2010, em vários momentos críticos, a comprar quantidades importantes de títulos dos países em crise da Europa, e, dessa maneira, contribuíram para evitar um colapso do euro. Além disso, a União Europeia é, hoje, o principal parceiro comercial da China. O resultado desse processo histórico está em aberto e será definido no interior das disputas interimperialistas e na luta entre o capital e o trabalho. 44 | A crise estrutural do capitalismo e a crise do euro A resistência da China e da Alemanha em seguir as políticas defendidas pelos EUA e pelos capitais financeiros globalizados pode acirrar as lutas pela reconfiguração do capitalismo global em curso nas últimas décadas em um contexto de crise de superprodução. Um dos resultados da presente crise poderá ser a diminuição do peso das economias dos EUA, do Japão e da União Européia na economia mundial, o que acelerará, provavelmente, a consolidação de uma ordem internacional multipolar. A China, que vem consolidando sua posição de novo pólo de acumulação de capital mundial, a partir de seu projeto nacional de grande potência é a única força capaz de disputar espaço no capitalismo globalizado e se contrapor ao domínio dos grandes corporações, dos grandes bancos, dos fundos de investimento e dos EUA, do Japão e da União Européia, embora a hegemonia dependa também da liderança política, cultural e militar, atributos que lhe faltam. A possibilidade de caminharmos para um mundo multipolar não significa necessariamente a abertura de novas alternativas de desenvolvimento para o conjunto da periferia capitalista, para as massas oprimidas e para a resolução da questão ambiental. Referências AMIN, S. “El mundo visto desde el sur”. Disponível em: <cloc-viacampesina.net/pt/.../972-entrevista-con-samir-amin-el-mundo-visto— desde-el-sur?tmpl=com>. Acessado em 01/07/2012. ARCEO, E. e BASUALDO, E. Neoliberalismo y setores dominantes. Tendencias globales y experiências nacionales. 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A conferir!1* A indignação que varreu as ruas de várias cidades resultou da percepção (talvez inevitável) de que a enorme 1∗ Professor do Departamento de Ciências Políticas e Econômicas da FFC/ UNESP/Marília. 50 | Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados quantia destinada aos bancos pelos governos de diversos países, Estados Unidos à frente, indicava a captura da democracia pelas grandes corporações. Não por acaso, a par dos discursos que denunciavam tal captura, chamava a atenção nas manifestações um cartaz que apresentava um desenho da Casa Branca, abaixo do qual a frase: Democracy for sale na horizontal e, cortando esta em diagonal, sold out. Não é ocioso assinalar que, lá como cá, essa percepção tem uma presença difusa na opinião pública desde há muito tempo. Todavia, até então, tal percepção baseava-se em fatos que, embora corriqueiros, podiam ser apresentados como desvios de um processo normal, tais como corrupção de funcionários ou autoridades e financiamento ilegal de campanhas eleitorais. Contudo, na presente crise, tanto “El monto de los recursos utilizados para este fin se estima en un magnitud equivalente a la totalidad de producción anual de los EEUU, del orden de los 15 billones de dólares (trillones en la contabilidad brasilera o anglosajona), una cuarta parte aproximadamente del producto bruto mundial2”. Como a forma institucional-burocrática das decisões tomadas sobre o destino desta exorbitante quantia expunha, à vista de todos, a independência que o grande capital goza em relação às instituições representativas, tal visão 2 Rieznik, Pablo. Sobre la Crisis Mundial, Marx y Keynes, mimeo, 2012. Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados | 51 gerou indignação e, esta, por sua vez, revoltas. É comum decisões que afetam a vida de toda a comunidade serem apresentadas como meramente técnicas, passando ao largo e independente das instituições proclamadas democráticas, mas, desta vez, o momento expôs com rara clareza o concerto entre burocratas do Estado e executivos das grandes corporações, o bancos à frente. Por outro lado, um exame dos gritos de protestos, das palavras-de-ordem e manifestações espontâneas revela um contraste entre a percepção de captura da democracia pelo capital e o horizonte sugerido por tais manifestações como solução possível. Os movimentos sociais, em geral, se constituem como um campo de luta onde diferentes forças disputam principalmente apoio da sua base social, do público em geral e a posição de liderança; Occupy Wall Street não é uma exceção. Assim sendo, farei um breve exame das práticas discursivas de algumas tendências observadas no debate público sobre este movimento. Para proceder a este exame, farei uma breve digressão teórica a fim de estabelecer a base conceitual da análise que apresento. 2. Quadro conceitual Há uma espécie de lugar comum na sociologia filiada às tradições durkheimiana e weberiana, com repercussão na literatura crítica (inclusive marxista), segundo a qual “Os problemas sociais não são fenômenos objetivos.” (Klandermans, 1992: 77). O mínimo que se pode dizer dessa visão, é que ela toma a representação do objeto por ele mesmo, como 52 | Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados se se identificassem imediatamente, não havendo defasagem entre uma e outro; assim, nesta perspectiva teórica, a luta ideológica pela definição do problema se torna luta pela construção dele, como se ele já não existisse como objeto exterior. O uso em profusão da palavra construção nesta literatura dá o testemunho do pântano ideológico sobre a questão. Paradoxalmente, esta mesma literatura oferece uma valiosa contribuição para a análise da questão, desde que recuperemos a diferença entre representação e objeto. Quanto à orientação ideológica dos movimentos sociais, a primeira observação a fazer é que a polissemia da palavra ideologia dificulta seu uso, o que, no entanto, parece inescapável na medida em que os estudiosos, inclusive os que não a adotam como conceito, continuam a utilizá-la para designar fenômenos para os quais não encontram outra palavra. Por ora, limitar-me-ei a observar que a literatura tem reservado a palavra ideologia para movimentos que se opõem à democracia liberal e/ou ao capitalismo (Donatella, 1999 e Tarrow, 2009), e o conceito de quadro interpretativo de Snow et al. (1986) para os demais, o que confere à palavra ideologia o sentido lato de utopia e aos movimentos ditos ideológicos uma aura de irrealismo, portanto, ambiguamente próximo e distante do uso que Mannheim (1972) faz do termo utopia. Irracionalismo que, cedo ou tarde, seria corrigido pela racionalidade do sistema; ideia nem sempre explicitada, mas sempre implícita e corrente nas análises sobre o tema. Uma abordagem diferente da ideologia é oferecida por Gamson, que se apropria crítica e seletivamente das contribuições de Gramsci. Segundo aquele autor, Gramsci “chama nossa atenção não apenas para as crenças explícitas, mas Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados | 53 também para como a rotina e as estruturas cotidianas de pensamento estabelecidas contribuem para uma estrutura de dominação. Gramsci nos incita a expandir nossa noção de ideologia para incluir o senso comum.”. Contudo, ainda segundo Gamson, “A explicação de tal processo é uma agenda intelectual, não uma resposta. Tanto quanto os mecanismos são deixados vagos e não especificados, a análise permanece excessivamente abstrata. A hegemonia se torna um rótulo que, mais que oferecer a explicação, a substitui3.” (1992, p. 66). Por isso, alternativamente, o autor adota o conceito geral de estruturas da ação coletiva (collective action frames), de Snow e Benford, no interior do qual é central a definição de frame4, como “um esquema interpretativo que simplifica e condensa o “mundo lá fora” (aspas no original), ao pontuar e codificar seletivamente objetos, situações, acontecimentos, experiências e sequência de ações num ambiente passado ou presente.” (1992, p. 137). Em outro lugar, Snow et al. definem quatro tipos de quadro interpretativo: de ligação (frame bridging), entendido como “o vínculo entre dois ou mais quadros interpretativos ideologicamente congruentes mas estruturalmente desconectados, relativamente a uma questão ou problema particular.” (1986: 467); de amplificação (frame amplification), entendido como “clarificação e avivamento de um quadro 3 Todas as citações em outro idioma foram traduzidas por mim. 4 A palavra frame pode ser traduzida por estrutura, quadro de referência (ou simplesmente quadro), entre outras possibilidades. Utilizarei a primeira alternativa em contextos nos quais ela se refere à orientação da ação e, a segunda, quando se referir à interpretação de situações, problemas ou valores e crenças. 54 | Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados interpretativo ligado a uma questão, problema ou conjunto de eventos particulares.” (id.: 469); de extensão (frame extension) é relativo aos casos em que valores e crenças dos movimentos não estão enraizados em sentimentos existentes ou não parecem relevantes aos potenciais apoiadores, situação na qual os movimentos “têm de estender as fronteiras do seu quadro interpretativo primário assim como abarcar interesses ou pontos de vista que são secundários para seus objetivos primários, mas de considerável relevância para seus potenciais adeptos.” (id., p. 472). Por fim, o quadro interpretativo de transformação (frame transformation) merece um parágrafo próprio, por ser de dois tipos e mais extenso e complexo. Quando a participação exige mudanças em termos de desenvolver e adotar um quadro interpretativo de injustiça e a correspondente orientação atribuicional5, torna-se necessário a transformação interpretativa global ou de um domínio específico. “Por quadro interpretativo de transformação de um domínio específico, nos referimos costumeiramente a mudanças internas, mas substanciais, na maneira como um domínio particular da vida é estruturado, de modo que um domínio anteriormente dado por seguro é reestruturado porque problemático e necessitando de reparos, ou um domínio visto como normativo e aceitável é reestruturado como uma injustiça que justifica mudança.” (id., p. 474). 5 Este termo (attributional) é utilizado para designar “a característica central do processo de estruturação relativo à ação coletiva é a geração de diagnósticos de atribuições, que envolve a identificação de um problema e a atribuição de culpa ou causalidade.” (Snow e Benford, 1992, p. 138). Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados | 55 No que se refere ao quadro interpretativo de transformação global, “o escopo da mudança é ampliado consideravelmente na medida em que um novo quadro primário ganha ascendência sobre outros e chega a funcionar como uma espécie de quadro dominante que interpreta eventos e experiências sob uma nova chave.” (id., p. 475). Estes conceitos são muito úteis à análise de casos empíricos, como o tratado aqui. Entretanto, como seus formuladores os concebem como incompatíveis com a abordagem marxista, que embasa minhas análises, é preciso explicitar o fundamento da alegada incompatibilidade a fim de superá-la. Na verdade, Gamson comete uma omissão e uma confusão relativamente ao conceito gramsciano de hegemonia. A omissão: para Gramsci, a elaboração de uma visão de mundo está necessariamente enraizada no lugar que os indivíduos ocupam no processo de produção, embora não possa nem deva a ele ser reduzido; a confusão: hegemonia não é um rótulo que explicaria tudo por antecipação, mas um processo dinâmico regido pela correlação de força entre as forças em luta, processo que “pressupõe indubitavelmente que sejam levados em conta os interesses e as tendências dos grupos sobre os quais a hegemonia será exercida, que se forme um certo equilíbrio de compromisso, isto é, que o grupo dirigente faça sacrifícios de ordem econômico-corporativa” (Gramsci, 2002, p. 48). Portanto, no contexto da reflexão gramsciana, hegemonia significa a incorporação dos grupos subalternos, tanto material como simbolicamente, num arranjo social com equilíbrio instável em que a direção moral e intelectual dos dominantes é reconhecida como legítima pelos dominados. 56 | Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados A causa dessa abordagem inadequada da contribuição de Gramsci reside na relação estreita entre a teorização sobre crenças coletivas (da qual Gamson é um importante representante) e o conceito durkheimiano de consciência social (Klandermans, 1992), que despreza o lugar ocupado no processo produtivo (relações sociais de produção) para a reflexão sobre a formação de identidades e crenças coletivas e como identidades e crenças relativas a diferentes esferas da vida social são articuladas na ação política. Como veremos adiante, é possível identificar diferentes formas de realizar tal articulação, segundo a perspectiva adotada. Corrigida a omissão e desfeita a confusão, a afirmação de Gamson de que “O surgimento de uma disputa simbólica é a evidência do colapso da hegemonia e a principal realização do desafiante.” (id., p. 68) se torna ingênua, pois tal disputa é a forma da luta política no nível ideológico e, por conseguinte, a reiteração da articulação de diferentes quadros interpretativos (ligação, extensão, amplificação, transformação, além de outros que o movimentos podem formular) ao mesmo quadro interpretativo dominante6 (Snow e Benford, 6 “O que chamamos quadro interpretativo dominante desempenha as mesmas funções que a estrutura de ação coletiva de um movimento específico, mas em escala mais ampla. (...). Os quadros interpretativos dominantes são, para a estrutura de ação coletiva de um movimento específico, como os paradigmas para as teorias bem afinadas. Os quadros interpretativos dominantes são genéricos, as estruturas de ação coletiva específicas são derivativas. Assim concebidos, os quadros interpretativos dominantes podem ser construídos para funcionar de maneira análoga ao código lingüístico, segundo o qual eles fornecem uma gramática que pontua e conecta sintaticamente os padrões e acontecimentos no mundo. (Snow and Benford, 1992, p. 138) Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados | 57 1992), no longo prazo, é testemunho da hegemonia exercida pela classe ou fração de classe que logrou afirmar-se como direção intelectual e moral de toda a sociedade, relegando as reivindicações dos dominados ao seu nível econômico-corporativo, ou mesmo descartando-as como racionalmente inviáveis ou moralmente ilegítimas. Até aqui, utilizei a palavra ideologia mais ou menos no sentido corrente, impõe-se agora defini-la com a precisão possível já que seu caráter polissêmico impede uma definição unívoca. Eagleton (1997) enumera dezesseis significados da palavra encontrados na literatura e, o que dificulta ainda mais o uso conceitual do termo, nenhum desses significados exclui necessariamente os demais. Assim, para adotar a palavra como um conceito operacional para a análise da produção discursiva dos movimentos, utilizo-a em três acepções estreitamente vinculadas: 1) concepção de mundo, frequentemente referida por visão social de mundo (Gramsci, 2001 e Löwy, 1998; 1999); 2) sistema de normas, crenças e valores; e 3) processo social de interpelação discursiva (Althusser, 1996; Therborn, 1980; Pinheiro, 1997). Nesta tripla acepção há uma distinção que precisa ser explicitada para se obter um uso conceitual adequado da ideologia: ela comporta uma definição quanto ao que ela é e, uma outra, sobre seu modo de operar presente nas práticas discursivas, independentemente de os atores sociais estarem ou não conscientes dessa operação ideológica inerente à sua prática discursiva. Destarte, as duas primeiras acepções designam o que é a ideologia segundo diferentes graus de sistematização: um nível geral, inclusivo e aberto, correspondente à definição de visão social de mundo de Löwy como “(...) 58 | Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados a perspectiva de conjunto, a estrutura categorial, o estilo de pensamento socialmente condicionado (...)” (1998, p. 12); outro, como teorias sistematizadas (moral, religiosa, filosófica, jurídica ou estética), (cf. Althusser, 1967). A terceira acepção, por sua vez, designa o modo geral de produção e operação da ideologia, que se desdobra em modos particulares, que Thompson define como cinco modus operandi de elaboração das formas simbólicas que, para facilitar, organizei-os no quadro da página seguinte. Em resumo, através destes cinco modus operandi os atores sociais, inseridos nos processos sociais de interpelação discursiva, formulam quadros interpretativos articulando categorias dos sistemas de normas, crenças e valores e da visão social de mundo. Desse modo, a produção discursiva dos movimentos pode realizar uma gama muito variada de articulação entre crenças e valores ao conhecimento7 estabelecido, segundo o quadro interpretativo formulado em suas lutas, com maior ou menor combatividade, mas sempre no interior de uma visão social de mundo, ou seja, no limite do modo social de produção dominante ou na perspectiva de um modo social de produção alternativo. A análise que apresento aqui procura sustentar a tese de que a perspectiva ideológica do movimento Ocupe Wall Street não ultrapassa o horizonte do capitalismo, apesar de sua queixa se referir a problemas estruturais deste modo de produção e, portanto, insolúveis nos seus limites. 7 Este também pode adquirir um caráter ideológico, tanto na interpretação como já no processo de produção/elaboração, aspecto que não abordarei aqui. Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados | 59 Tabela 1. Definições do modo de operar da ideologia Modus operandi Estratégias racionalização: produção “de uma forma simbólica constrói uma cadeia de raciocínio que procura defender, ou justificar, um conjunto de relações ou instituições sociais.” Legitimação Universalização. “(...) acordos institucionais que servem aos interesses de alguns são apresentados como ser vindo a todos, e como estando abertos, em princípio, a qualquer um (...).” Narrativização: (...) histórias que contam o passado e tratam o presente como parte de uma tradição eterna e aceitável. Deslocamento: termo usado para transferir conotações positivas ou negativas de objeto ou pessoa para outros. Dissimulação Eufemização: ações, instituições ou relações sociais são descritas ou redescritas de modo a despertar uma valoração positiva. Tropo. “(...) o uso figurativo da linguagem ou, mais em geral, das formas simbólicas. (...) Entre as formas mais comuns de tropo estão a sinédoque, a metonímia e a metáfora.” Padronização. “Formas simbólicas são adaptadas a um referencial padrão, que é proposto como um fundamento partilhado e aceitável de troca simbólica.” Unificação Simbolização da unidade. “Essa estratégia envolve a construção de símbolos de unidade, de identidade e de identificação coletivas, que são difundidas através de um grupo, ou de uma pluralidade de grupos.” 60 | Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados Modus operandi Fragmentação Estratégias diferenciação – “isto é, a ênfase que é dada às distinções, diferenças e divisões entre pessoas e grupos, apoiando as características que os desunem e os impedem de constituir um desafio efetivo (...).” Expurgo do outro. “(...) construção de um inimigo, seja ele interno ou externo, (...) contra o qual os indivíduos são chamados a resistir coletivamente ou expurgá-lo.” “Naturalização. Um estado de coisas que é uma criação social e histórica pode ser tratado como um acontecimento natural ou como um resultado inevitável de características naturais (...)” “Eternalização: fenômenos sócio-históricos são esvaziados de seu caráter histórico ao serem apresentados como permanentes, imutáveis e recorrentes.” Reificação “A nominalização acontece quando sentenças, ou parte delas, descrições da ação e dos participantes nelas envolvidos, são transformados em nomes (...)”. “A passivização se dá quando verbos são colocados na voz passiva, como quando dizemos que ‘o suspeito está sendo investigado’, ao invés de ‘os policiais estão investigando o suspeito’.” Fonte: Thompson, 1995, pp. 82-88. O exposto até aqui deixa claro que a concepção de mundo não é um ponto de vista que se adota, entre outros possíveis, segundo um critério qualquer de racionalidade, crença ou valor, à semelhança de um quadro interpretativo específico ou dominante. Longe disso, a concepção de mundo Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados | 61 se refere à própria organização psico-física (para tomar de empréstimo, não por acaso, a expressão de Gramsci) das potencialidades individuais pela transmissão da cultura de uma época, conforme uma dada direção, isto é, um determinado modo de reprodução material e espiritual da vida social. Daí por que não se observa, numa dada formação social, um número de concepções de mundo equivalente ao de pretendentes à liderança social, mas frequentemente apenas aquelas que polarizam a sociedade, correspondentes às classes sociais fundamentais do modo social de produção dominante, e elementos de concepções relativas a classes de modos de produção subordinados, com fraca ou nenhuma incidência sobre as instituições de ensino e de organização da cultura. É por isso que o debate intelectual do século XX foi dominado pela polarização entre liberalismo e comunismo, ainda que ambas as correntes de pensamento apresentem diversas vertentes, na medida em que o primeiro oferecia as bases da organização do processo de reprodução material e espiritual da vida social e, o segundo, reivindicava substituí-lo neste papel. Pelo mesmo motivo, a concepção de mundo é a esfera mais geral da representação social do mundo e, porque opera de modo subjacente como meio de apropriação simbólica da realidade exterior, como uma espécie de segunda natureza ao lado da natureza biológica, não é percebida como construção social. Os vários conceitos que tratam da representação do mundo foram concebidos, quase sempre, como alternativas uns aos outros; todavia, por ser a representação um fenômeno simultaneamente geral e individual, universal e particular, cada um desses vários conceitos encerra em si conteú- 62 | Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados dos dos conceitos que pretendiam superar. A meu ver, isto decorre de três características da representação do mundo: 1) apresentar-se como uma totalidade (concepção social de mundo); 2) cuja existência dependente de um processo social de interpelação discursiva e 3) ser detectada nas ações de sujeitos sociais concretos, portanto, com graus variados de manipulação com relação a fins. Isto posto, os conceitos de concepção (visão) social de mundo, ideologia e quadro interpretativo se articulam segundo uma hierarquia implícita na ordem de exposição dessas três características, ou seja, o mais geral é a concepção (visão) social de mundo porque se apresenta tanto a atores individuais como coletivos como a ideologia mais inclusiva porque dela deriva ou com ela mantém algum grau de coerência e/ou de compatibilidade funcional a representação de qualquer esfera particular da vida social; a ideologia, por sua vez, um conceito operacional relativo às práticas sociais de interpelação discursiva que tem um duplo efeito: sustentar a concepção (visão) social de mundo, por um lado, e, por outro, permite a composição de um quadro interpretativo conforme o fim visado. Tanto para sustentar uma visão social de mundo como para compor um quadro interpretativo, no processo social de interpelação discursiva os atores sociais (não apenas os movimentos) utilizam uma combinação complexa dos recursos materiais à sua disposição com os modos de operação da ideologia e as estratégias. Advirta-se que o termo ideologia como imagem de mundo recobre os três conceitos, mas para obter clareza terminológica, restrinjo seu uso apenas ao sistema de normas, crenças e valores e ao processo social de interpelação. Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados | 63 A seguir, passo a examinar a produção discursiva do Occupy Wall Street e sobre ele sob a ótica do quadro conceitual definido até aqui. 3. “Nós” e do que nos queixamos De forma genérica, pode-se dizer que o ponto de partida de qualquer movimento é a transformação de uma questão social em queixa de um grupo determinado, o “nós” atingido pelo problema, ou seja, definição da queixa e formulação da identidade resultam de uma mesma operação discursiva. Como o material tomado para essa operação discursiva é a experiência comum dos indivíduos e as opiniões correntes sobre ela, às quais correspondem diferentes interesses, sendo o principal formulador de opinião a mídia (Cf. Gamson e Modigliani, 1989; Fonseca, 2005 e Silva, 2009) num campo em que (em condições normais) a opinião pública é a principal força para o alinhamento político; participar do debate público com vistas a formular um queixa como injustiça e definir os atingidos implica tomar partido frente às questões políticas da sociedade num contexto de luta entre diferentes concepções de mundo. Destarte, decorre dessa primeira operação discursiva a necessidade de outras definições: 1) os responsáveis (o eles) pela situação de injustiça, isto é, aqueles cujos interesses se opõem (em algum grau) aos do grupo que sofre a injustiça; 2) os potenciais aliados (o nós mais amplo), entre os quais se incluem desde aqueles que sofrem a mesma injustiça, mas não se encontram ao alcance da organização do movimen- 64 | Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados to, até os que podem ter convergência tática de interesses, o que significa que este “nós mais amplo” pode se encolher ou ampliar conforme a conjuntura; e 3) elaborar uma visão de mundo ou se apoiar em alguma das existentes. Como o material sobre este movimento é muito abundante, para essa análise me ocuparei apenas daqueles documentos mais representativos do discurso hegemônico no movimento e as tensões internas a ele como um discurso próprio, por um lado, e de alguns comentários críticos, por outro, como contraponto. Talvez para assegurar essa hegemonia e abranger uma base social mais ampla possível, no texto de autoapresentação do movimento, se afirma que “The one thing we all have in common is that We Are The 99% that will no longer tolerate the greed and corruption of the 1%.8”. Essa ideia de 99% de queixosos contra 1% de gananciosos aparece incontáveis vezes em cartazes e entrevistas a ponto de se tornar a mais emblemática do movimento e ser adotada por aqueles que opinaram sobre ele, ainda que de maneiras diversas. Em termos de análise de discurso, ou análise ideológica, esta autoapresentação contém três aspectos centrais da forma de atuação pública dos movimentos, dois explícitos e um implícito: a definição de uma identidade (o nós), a queixa e, implicitamente, a solução vislumbrada. Quanto ao primeiro aspecto, a escolha do critério numérico como núcleo da identidade coletiva (o nós), por uma lado, permite a mais ampla abrangência social uma vez que todo aquele que 8 Disponível em http://occupywallst.org/ http://occupywallst.org/, acessado em 30/11/11. Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados | 65 se sentir prejudicado pela ganância e corrupção poderá se alinhar ao movimento, por outro lado, esse critério é completamente anódino com relação aos fundamentos da forma social e econômica capitalista, como de resto, de qualquer outra forma social, tal a sua generalidade e abstração. Essa identidade assentada numa ideia numérica é complementada por outra negativa, a de que “Occupy Wall Street is leaderless resistance movement (...)” (Grifo no original). Contudo, não há consenso a este respeito, como demonstra a fala de um militante: Eu discordo. Estou hesitante em dizer que não há hierarquia, que não há liderança, porque eu realmente penso que há um núcleo de pessoas – jornalistas – que estão fazendo muito da organização e dando uma forma à imagem pública da coisa. Eu e outros camaradas temos encontrado resistência nas lideranças para incorporarem outras ideias ao trabalho e para pensarem criticamente a respeito do que está acontecendo. Tentamos falar com um dos camaradas da mídia a respeito do problema de não haver gente não branca no movimento e o do problema dessas pessoas não se sentirem confortáveis em participar, e houve resistência da parte deles em reconhecer isto. Eles afastam as críticas dizendo: “Se alguém quiser se envolver pode se envolver. Se quiserem ser representados, eles simplesmente vem e 66 | Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados podem fazê-lo, também”. Eu penso que isso é denegar a dinâmica real do poder que está em jogo agora. Eu não estou certo de se este é um modo de a liderança afastar a responsabilidade ou se eles realmente não pensam que estão exercendo poder no movimento9. Ora, se do ponto de vista retórico a proclamação de um movimento sem liderança seduz por aludir negativamente ao universo hierarquizado das grandes corporações e do Estado (o 1% constituído, ou seja, o “eles” a quem o movimento se opõe), onde a maioria (os 99%) não tem voz, do ponto de vista prático e organizacional ela encerra uma contradição: o discurso parte de um lugar (a liderança recusada?) e é pronunciado por alguém que, em algum momento e por algum tempo recebeu a legitimação da maioria participante para pronunciá-lo. Do ponto de vista prático e político, esta contradição tem o efeito de tornar a permanência das bandeiras do movimento na agenda do debate público dependente da mobilização contínua e da organização formal de movimentos já institucionalizados, como os sindicatos. A perspectiva de mobilização contínua, manifesta na afirmação de que “Queremos o máximo de movimentos assim pelo país, queremos mostrar que falamos sério, que estamos insatisfeitos, mesmo 9 Entrevista de Mohamed Malik (MM), 29 é ex-diretor executivo do Conselho de Relações Islamo-Americanas no sul da Flórida, à Al Jazeera, em 05/10/11, reproduzida por Carta Maior, disponível em http://www. cartamaior.com.br/templates/materiaImprimir.cfm?materia_id=18627 Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados | 67 que isso leve semanas, ou meses, anos. Até que essa mudança aconteça, estaremos aqui.10”, não se mostrou realista após a desocupação do Zuccotti Park em Nova York, onde tudo começou, em 15/10/11. Assinale-se que a literatura também não tem registro histórico de mobilização contínua, mas de ciclo de protestos. Por outro lado, a relação com os sindicatos, embora tenha sido importante em momentos decisivos, também tem suscitado desconfiança naqueles que cultivam a imagem de um movimento espontâneo e sem liderança. No que se refere à queixa contra a ganância e a corrupção, também aí não há crítica à forma social, pois tal queixa se situa no campo estritamente moral como causa. Por outras palavras, os atributos morais do 1% ganancioso e corrupto são apontados como causa da crise; ou seja, a solução passível de ser vislumbrada para uma queixa assim formulada é de dois gêneros: legal e moral. A primeira, porque a legislação de toda democracia representativa criminaliza a corrupção, a segunda, espera-se que a comoção social provocada pela movimentação dos 99% sensibilize a todos para os efeitos negativos da ganância. Desse modo, a questão volta ao leito normal da insatisfação com o regime, onde as soluções são pensadas nos seus termos e limites, portanto, o potencial transformador proclamado pelo movimento é excluído do horizonte pela sua própria prática discursiva. 10 Entrevista de Anthony Allen, “um dos organizadores do movimento Occupy DC (ocupe Washington). Nascido há nove dias e fincado na mesma rua dos escritórios de lobby, o protesto do qual o vendedor Anthony Allen, 38, participa é filhote do movimento que ocupa uma praça vizinha a Wall Street, em Nova York.”, ao jornal Folha de São Paulo, de 11/10/11. 68 | Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados Não está entre meus propósitos fazer algum tipo de prognóstico quanto ao desenvolvimento futuro do movimento, mas não resta dúvida quanto a três aspectos que, certamente, influirão neste futuro: essa formulação da identidade coletiva, da queixa e a solução que elas supõem continuará a se relacionar de forma tensa com 1) o sentimento de indignação que tem animado as mobilizações de rua; 2) com outras tendências ideológicas observadas no interior do movimento; e 3) complementarmente, com a tendência de o movimento ganhar adesões de outros atores mais radicalizados mundo afora. Este sentimento de indignação, que caracteriza a primeira frente de tensão, tende a acentuar a disposição de radicalização na medida em que os efeitos da crise se prolongam, tendência observada tanta nos Estados Unidos como na Europa. A radicalização e a própria repercussão das manifestações de rua mundo afora levaram ao surgimento de uma espécie de identificação difusa: por um lado, jovens de muitos e diferentes países (inclusive do Brasil) acamparam em praças públicas e alteraram no nome original apenas o local que ocupavam, reivindicando assim uma identidade internacional. Por outro lado, o próprio Occupy Wall Street, através da sua página na internet, passa a adotar uma identidade mais ampla, afirmando que “O movimento é inspriado pelas revoltas populares no Egito e na Tunísia e visa a resistir ao 1% mais rico que está escrevendo as regras de uma economia global injusta que está bloqueando nosso futuro.11”. 11 “The movement is inspired by popular uprisings in Egypt and Tunisia, and aims to fight back against the richest 1% of people that are writing the rules of an unfair global economy that is foreclosing on our future.”, disponível em http://occupywallst.org/ Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados | 69 Ora, embora a crise do capital seja internacional, suas causas políticas e econômicas locais são distintas, assim como as forças políticas envolvidas nas manifestações de massa, de modo que atuar sobre elas certamente trará à tona problemas que tensionarão a identidade dos 99%. Os efeitos mais visíveis desse processo de busca de ampliação da base social contra a crise do capital são dois: primeiro, substituir a condição de vítima dos 99% por 1% cujo atributo moral é fonte geradora de privilégios, por uma condição material, o 1% mais rico, ou seja, embora não formule, se aproxima da velha critica social de que o capitalismo é ineficiente na distribuição e, por conseguinte, a queixa e a solução se deslocam do campo estritamente moral para mudanças operacionais consistentes no regime, sem alterar seus fundamentos. Esta visão, moldada pelas estratégias discursivas de naturalização e padronização, definidas na tabela acima, aparece claramente na afirmação de que: Não somos contra os bancos. Bancos são bancos, sempre estiveram e sempre estarão na praça. É claro que precisamos dos bancos, mas não precisamos que os bancos se tornem parte do cassino global. Precisamos de bancos que peguem dinheiro de quem tem dinheiro e o empreste para as pessoas comprarem uma casa ou começarem um negócio. Não precisamos que os bancos comecem a operar derivativos, swaps e nem que façam parte desse cassino global. Os bancos têm um papel que 70 | Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados no momento está totalmente distorcido. Por isso os Estados Unidos estão em declínio. Por muitos anos pensou-se que poderíamos mandar nossas fábricas para a China, Indonésia e várias partes do mundo e, com a mão no mouse, apostar dinheiro no mercado financeiro à vontade. Só que agora começam a descobrir que isso não é uma fundação muito sólida para uma economia vibrante12. Portanto, a interpretação da crise e as possibilidades de resolução continuam restritas a “um esquema interpretativo que simplifica e condensa o “mundo lá fora” (aspas no original), ao pontuar e codificar seletivamente objetos, situações, acontecimentos, experiências e sequência de ações num ambiente passado ou presente.” (Snow e Benford, 1992, p. 137) moldado pelas categorias próprias da forma democrática representativa, cuja captura pelo 1% mais rico é denunciada pelo movimento, e pelas da produção econômica baseada na relação de assalariamento, a base do poder econômico que permite àquele 1% comprar tudo que lhe interessa, inclusive a democracia. Nos termos do quadro teórico proposto, o movimento vive um paradoxo, pois o sucesso do quadro interpretativo (de extensão), pela simplicidade e ausência de antagonismo dos termos identitários, ao mesmo tempo que permite a mais 12 Entrevista de Kalle Lasn, editor-chefe da revista Adbusters, um dos idealizadores iniciais do movimento. Disponível em http://ponto. outraspalavras.net/2012/01/23/criador-occupy-wall-streetquer-novo-partido-nos-eua/ acessado em 23/01/12. Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados | 71 ampla base de apoio (em tese, 99% da população), impede a formulação de um quadro interpretativo de transformação (implícito nas vozes dissonantes) que associe suas queixas a uma visão social de mundo alternativa ao capitalismo, como quadro interpretativo dominante, pois apesar do acento crítico do discurso, as categorias da crítica não permitem alternativa, a não ser mais do mesmo com acento moral. Se a alguém ocorrer de objetar que não há nada que prove a viabilidade de uma alternativa ao capitalismo, tal objeção apenas confirmaria a análise aqui apresentada, além de pretender congelar a histórica com base numa visão fatalista dela, o que está relacionado ao desprezo científico pela defasagem entre a crítica do presente e a projeção do futuro, objeto da aposta dos que sofrem o peso do presente, mas ainda não configurado historicamente, portanto fora do alcance da ciência. Porém, se até aqui analisamos o discurso hegemônico, apesar dos tensionamentos internos, veremos na seção seguinte os tensionamentos externos. 4. “Nós” de acordo com “eles” Até aqui, vimos que os manifestantes se autodefinem como os 99% (o “nós”) cuja única coisa em comum é não tolerar mais as coisas como estão (a queixa) e se opõem ao 1% (o “eles”) responsáveis por este estado de coisas. Quando voltamos a atenção para o debate público sobre o movimento, identificamos pelo menos duas vertentes de análise13: a 13 Há uma terceira abordagem francamente hostil ao movimento, representada sobretudo pelas autoridades estadunidenses, da qual 72 | Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados primeira, curiosamente, toma os termos da identificação dos manifestantes, às vezes, quase literalmente, formulando uma linha de argumentação de aproximação indulgente do movimento, como quem diz: compreendemos vocês e sabemos o que vocês não sabem, que a solução para a queixa é tolerar um pouco mais do que vocês não toleram mais; a segunda, formula uma argumentação baseada mais na análise das causas estruturais do movimento do que nele mesmo, por isso, embora mais realista, não promove (não está escrito que não possa vir a promover) uma aproximação discursiva com o movimento no estágio em que ele se encontra, ainda que por vezes se observe certa aproximação prática. Žižek oferece dois exemplos da primeira vertente de análise, que ele chama de aproximação perversa dos falsos amigos, diz ele: Clinton acha que os manifestantes são, “no final das contas, algo positivo”, mas se diz preocupado com a nebulosidade da causa: “eles precisam apoiar algo específico, e não somente ser contra, pois, se você é simplesmente contra, alguém acaba ocupando o vazio que você criou”, disse ele. Clinton sugeriu que os manifestantes apoiassem o plano de empregos do presidente Obama, que, segun- não me ocuparei nesta análise. Uma análise dessa abordagem pode ser encontrada no artigo Os novos soldados do capitalismo, de Antônio Martins, disponível em http://www.outraspalavras.net/2011/11/16/ossoldados-high-tech-do-sistema/ Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados | 73 do ele, criará “milhões de empregos ao longo do próximo um ano e meio”. (2012, p. 18). Com acento mais na política que na economia, Applebaum, colunista do Washington Post, afirmou serem os protestos ao redor do mundo (...) similares em sua falta de foco, em sua natureza incipiente e, acima de tudo, em sua recusa a participar das instituições democráticas existentes. Em Nova York os manifestantes cantaram “essa é a cara da democracia”, mas na verdade essa não é a cara da democracia. É a cara da liberdade de expressão. Democracia soa um pouco mais chato. Democracia requer instituições, eleições e partidos políticos, regras, leis, poder judiciário e muitas atividades nada glamorosas e que consomem o tempo. (...). Diferentemente dos egípcios na praça Tahrir, com quem os manifestantes de Londres e Nova York se comparam de maneira aberta (e ridícula), nós temos instituições democráticas no mundo ocidental. Elas são planejadas para refletir, pelos menos de forma grosseira, o desejo de transformação política dentro de uma dada nação. (Apud Žižek, 2012, pp. 19-20) Em ambos os casos, por não negarem aos manifestantes as razões dos protestos, Clinton e Applebaum as admitem 74 | Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados implicitamente, assim como conferem certa positividade aos protestos, mas, como os manifestantes não têm conhecimento adequado de como as coisas funcionam (ou seja, as instituições políticas e as leis econômicas), eles lhes indicam o caminho, uma espécie de sábio conformismo. Uma segunda linha de argumentação típica da aproximação indulgente, embora a indulgência seja mitigada pela simpatia, é oferecida pelas análises de Castells e Stiglitz. Para Castells: Rompe-se a barreira do silêncio. O movimento, então, estendeu-se por todo o país. Centenas de cidades, e numerosos bairros e ruas, têm sua própria ocupação, tanto no espaço urbano quanto numa rede que relata a ação cotidiana e se conecta com outras redes que vão tecendo uma geografia virtual e espacial da mudança de mentalidade num país capitalista por excelência: 82% das pessoas no Estado de Nova York e 46% em todo o país apoiam as críticas do movimento Wall Street, frente a 34% que se opõe. O movimento se autoproclama representante de 99% dos cidadãos, em oposição a 1% que detém 20% da riqueza. E começa a ter impacto na opinião política: enquanto 68% da população pede que os ricos paguem mais impostos, 69% pensa que os republicanos favorecem os ricos.14 14 Manuel Castells, Da internet às ruas e às contas bancárias, disponível em: http://www.outraspalavras.net/2011/11/08/da-internet-asruas-e-as-contas-bancarias/ Acessado em 12/04/12. Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados | 75 O autor reproduz quase literalmente os termos da crítica do movimento e também conclui com sábio conformismo, embora revestido de indignação: “Não se trata do velho mito comunista do súbito colapso do capitalismo, mas simplesmente de saber que a economia europeia afunda na recessão, que a cobertura social se dilui, que a política tradicional patina e que os cidadãos continuam indignados e são cada vez mais conscientes.15” Stiglitz, por sua vez, ao relatar sua experiência de visita ao acampamento de Nova York, ironiza A Suprema Corte dos Estados Unidos, deu às corporações, numa decisão que se tornou conhecida como Citizens United, rédea solta para usar dinheiro e influenciar os rumos da política. Mas enquanto os ricos podem usar seu dinheiro para ampliar o alcance de seus pontos de vista, a polícia não permitiu que eu usasse um megafone para me dirigir aos manifestantes do Occupy Wall Street. O contraste entre a democracia ultra-controlada e os banqueiros livres de regulação não passou despercebido. (...) Eles estão certos ao dizer que há algo errado com nosso sistema. Após expor dados sobre os contrastes do sistema (casas vazias e gente sem casa, máquinas paradas e gente sem trabalho), ele conclui: 15 Manuel Castells, Até onde irão os indignados, disponível em: http://www. outraspalavras.net/?p=9472&upm_export=pdf Acessado em 01/02/12. 76 | Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados Num certo sentido, os manifestantes de agora pedem pouco: uma chance para usar seus talentos e habilidades. O direito a trabalho com salário decente. Uma economia e sociedade mais justas. Seu desejo é de evolução, não de revolução. Mas num outro plano, eles estão lutando por algo grande: uma democracia em que as pessoas, e não os dólares, falem mais alto; e uma economia de mercado que entregue o que promete.16 Um terceiro tipo de aproximação indulgente, mitigada pela autocrítica, é oferecida por Bresser-Pereira, que assume francamente a posição que ocupa e, a partir dela, enxerga os problemas: Mas qual a legitimidade de um protesto sem propostas? Quem protesta não tem obrigação de dizer como se resolvem as coisas? Minha resposta a essa pergunta é um grande e sonoro “não”. Os jovens manifestantes não têm responsabilidade pela crise que está aí, nem possibilidade de resolvê-la. Os responsáveis somos nós, os mais velhos, as elites, os que dominaram e governaram. Somos nós que temos que dar soluções. Eles 16 Joseph E. Stglitz, Um Nobel de economia explica Occupy Wall Street, disponível em: http://www.outraspalavras.net/?p=7991&upm_ export=pdf Acessado em 12/04/12. Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados | 77 podem levantar o problema, podem debater, sugerir, mas nós que decidimos. E nós, que antes acertamos muitas vezes, que contribuímos para o progresso ou o desenvolvimento, que no pós-guerra produzimos os 30 Anos Dourados do Capitalismo (1949-1978), falhamos desde os anos 80 quando deixamos que apenas 2% da população auferisse todos os benefícios do progresso, e estamos falhando mais agora, com as consequências dos anos neoliberais. Três anos depois da crise alguns analistas afirmam que ela foi desperdiçada. Que não aprendemos nada. Não é verdade. Aprendemos alguma coisa, e se está procurando regular os bancos, e trazer o Estado para seu papel de instituição por excelência de ação coletiva da nação. Mas as mudanças estão sendo tímidas. Os privilégios continuam gritantes. Bem vindos os jovens que protestam. Eles têm direito a um futuro. E não têm senão sua indignação para exigi-lo. Enfim, entre esses analistas e o movimento há uma insuspeita convergência prática, os primeiros, por convicção, o segundo, pelos termos que adota para fazer a crítica; ambos estão impedidos, pelos quadros interpretativos que adotam, de conceber uma visão global alternativa ao capitalismo. A segunda vertente de análise formula uma crítica aberta ao capitalismo e retoma o debate sobre a necessidade de 78 | Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados “uma forma alternativa de organizar a produção, a distribuição e o consumo para o benefício do povo.”, o que supõe que “Os bens públicos, como educação e saúde, devem ser oferecidos gratuitamente e de maneira acessível a todos.” (Harvey, 2012, p. 62), pois, sob o domínio do capital, denominado pelo autor no contexto dos Estados Unidos, de Partido de Wall Street, (...) não pode haver nenhum adversário sério ao poder absoluto do dinheiro de dominar absolutamente. E esse poder tem de ser exercido com um único objetivo: seus detentores não devem apenas ter o privilégio de acumular riqueza sem fim e à vontade, mas também o direito de herdar o planeta, com domínio direito ou indireto da terra, de todos os seus recursos e das potencialidades produtivas que nela residem, bem como de assumir o controle absoluto, direta ou indiretamente, sobre o trabalho e as potencialidades criativas de todos os outros que sejam necessários. (idem, p. 58). Para ter êxito contra este poder do Partido de Wall Street, “o movimento precisa alcançar os 99%. (...). Devem se formar grandes coalizões entre estudantes, imigrantes, subempregados e todos os que estão sob ameaça das políticas de austeridade, totalmente desnecessárias e draconianas, impostas à nação e ao mundo para atender ao Partido de Wall Street.’ (idem, p. 61). É interessante notar que Har- Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados | 79 vey também toma as referências numéricas de autoidentificação do movimento como registro da sua análise, mas acrescenta-lhe conteúdos mais específicos e precisos com vistas a dar-lhe mais efetividade, ao mesmo tempo, desloca o motivo da queixa do campo moral para as características constitutivas do sistema. Com a mesma preocupação de dar efetividade a essa referência identitária numérica, Wallerstein apresenta esta questão como um problema a resolver, pois “Ainda que exista, em termos econômicos, um abismo claro e crescente entre um grupo muito pequeno (o 1%) e outro muito grande (os 99%), a divisão política não segue o mesmo padrão. (...). Há profundos desacordos tanto sobre objetivos de longo prazo quanto sobre táticas a curto prazo.” (2012, p. 74). Shamus Cooke procura conferir aos 99% um caráter de classe, pois, segundo ele, “Não há dúvida de que o movimento Ocupe continuará a crescer como movimento de massa ou contrairá até que a elite corporativa seja capaz de pulverizá-lo. Para que o movimento cresça, ele deve atrair franca e amplamente os 99%, não simplesmente os 10% mais progressistas (...) a classe trabalhadora como um todo17.” 17 “There can be no doubt that the Occupy Movement will either continue to grow into a massive social movement or shrink until the corporate-elite are able to snuff it out. In order for the movement to grow, it must truly attract the broader 99%, not merely the most progressive 10%. Focusing on broad but specific demands that all working people will fight for will attract organized labor, the elderly, students, minorities, i.e., the whole working class.”. In: Next Steps for the Occupy Movement, disponível em www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=27110 80 | Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados Os analistas incluídos nesta segunda vertente de análise, embora não formulem claramente um quadro interpretativo de transformação, fornecem elementos para isto, ao mesmo tempo sugerem a necessidade de outra visão social de mundo que opere como quadro interpretativo dominante, mas parecem encontrar dificuldades na escolha da estratégia lingüística adequada para articular as demandas do movimento a este novo quadro. No limite desta análise não é meu propósito examinar as dificuldades levantadas pelas questões expostas pelos autores. De acordo com o quadro teórico adotado, o movimento como campo de lutas no qual intervêm diversos atores e/ou autores com vistas à definição do “nós” atingidos por um problema que, para gerar mobilização, deve ser transformado em queixa, e o “eles” responsáveis por tal problema; tanto a produção discursiva no interior do movimento (entre seus ativistas) como sobre ele expressa a luta política por imprimir-lhe uma determinada direção. Sem a pretensão de fazer prognóstico, disso depende o futuro do movimento. No momento que finalizo este artigo, a página do movimento na internet exibe um balanço das atividades em 07/06/12, no qual diz: Um novayorkino, trabalhando em tempo integral, ganha o salário mínimo de US$ 290 por semana, exatos US$ 15.080 anuais. Apoiadores de um salário digno mostram que é quase impossível pagar aluguel, alimentação, transporte, saúde e tudo o mais com este salário magro. Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados | 81 “É indefensável que alguém que trabalhe 40 horas por semana seja incapaz de alimentar sua família.”, disse Disalvo, “É hora de o Governador Cuomo apoiar o trabalhador novayorkino e não simplesmente privilegiar interesses como da indústria do jogo.18” Sem dúvida, trata-se de um deslocamento do campo moral para o mundo da produção, ainda nos limites do capitalismo, certamente, mas a partir daí aumenta a possibilidade de a crítica avançar para o modo social de produção. Referências ALTHUSSER, Louis. Ideologia e Aparelhos ideológicos do Estado. In: ŽIŽEC, Slavoj (org.). Um Mapa da Ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996. . Marxismo, ciência e ideologia. In: Marxismo segundo Althusser. São Paulo: Sinal, 1967. DELLA PORTA, Donatella. Protest, protesters, and protest policing: public discourses in Italy and Germany from 1960s to the 1980s. In: GIUGNI, M., MCADAM. D. e TILLY, C. (Ed.) How social movements matter. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1999. 18 A new Yorker working full-time at minimum wage earns $290 a week, or just $15,080 annually. Supporters of a living wage point out that it’s nearly impossible to pay for rent, food, transportation, health care and everything else on such a meager wage. “It’s indefensible that someone who works 40 hours a week would be unable to feed her family,” said Disalvo “It’s time for Governor Cuomo to stand up for working New Yorkers and not just pay-to-play interests like the gambling industry.” 82 | Ocupe Wall Street: indignados com o capitalismo e a ele aprisionados EAGLETON, Terry. Ideologia. São Paulo: Boitempo, 1997. FONSECA, Francisco. O consenso forjado: a grande imprensa e a formação da agenda ultraliberal no Brasil. São Paulo: Hucitec, 2005. GAMSON, William A. and MODGLIANI, Andre. “Media discourse and public opinion on nuclear power”. In: American Journal of Sociology, 1989. . The social psychology of collective action. 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A política macroeconômica desde 1999 tem priorizado o controle da inflação, sendo a taxa de juros o mecanismo adotado para alcançar esta meta, a geração de superávits fiscais e a taxa de câmbio flutuante. A combinação destas políticas, junto com a abertura comercial que a antecede tem ocasionado uma entrada maciça de dólares, em grande medida de caráter especulativo, e uma valorização cambial, com impactos sobre a economia brasileira e a estrutura industrial.1 1 Doutor em Ciências Econômicas e Professor de Economia da Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp). 86 | O Peso das Commodities Agroindustriais na Pauta de Exportações do Brasil: Evidência de Reprimarização da Economia? Como aponta Almeida (2008), a valorização cambial tem efeitos contraditórios sobre a economia brasileira, particularmente sobre o setor industrial. Se de um lado, as importações de bens de capital e matérias-primas ficam mais baratas, reduzindo os custos de produção e possibilitando a modernização de vários segmentos produtivos, por outro levam a um desadensamento de algumas cadeias produtivas. A conjunção de uma rápida abertura econômica e a valorização do Real tem afetado de forma diferenciada os diferentes segmentos da indústria brasileira. Segundo Paulino (2011), frente à concorrência externa, parte da indústria regrediu, como o ramo eletroeletrônico, enquanto que os segmentos que estavam relativamente inseridos em cadeias produtivas mundiais e que se reestruturaram como as indústrias automobilística e aeronáutica conseguiram manter seu espaço, inclusive porque passaram a utilizar crescentemente insumos e componentes importados, a preços mais baixos. Outros ramos, por outro lado, como o de mineração e agroindustrial, foram favorecidos por uma conjuntura externa favorável de elevação das cotações das commodities no mercado internacional a partir de 2002. A menor vulnerabilidade externa da economia brasileira na década passada, com a melhora nas contas externas e o aumento das reservas internacionais em um contexto de elevada liquidez internacional e de expansão da demanda mundial de commodities contribuiu para um melhor desempenho do PIB nesse período (Almeida, 2008). A economia brasileira cresceu em média 3,6% ao ano entre 2000 e 2010, o que representou uma taxa de expansão de mais de 70% superior ao verificado nas duas décadas anteriores. O Peso das Commodities Agroindustriais na Pauta de Exportações do Brasil: Evidência de Reprimarização da Economia? | 87 Além disso, outros fatores contribuíram para esse desempenho mais favorável da economia brasileira, como a maior estabilização da inflação e o aumento da renda especialmente das camadas mais baixas, puxadas pelo aumento do emprego, da recuperação do valor real do salário mínimo e de políticas sociais como o programa Bolsa Família. A própria crise econômica e financeira mundial afetou menos os países em desenvolvimento, como o Brasil, assim como a China continuou a crescer entre 9% a 10%, enquanto os países centrais continuam mergulhados na recessão naquilo que Krugmam (2011) tem chamado de pequena depressão. 2. Balança Comercial da Indústria de Transformação e a Controvérsia sobre a Reprimarização da Economia Brasileira O crescimento mais expressivo da economia e da demanda interna na última década, combinado a uma valorização da taxa de câmbio, por outro lado acentuou o desequilíbrio comercial nos setores industriais de maior valor agregado e intensidade tecnológica, segundo Almeida (2008). A balança comercial da indústria de transformação, depois de registrar um superávit externo desde 2002 e atingir o maior saldo em 2005, quando o Brasil registrou superávit de US$ 31,1 bilhões, passa a apresentar resultados menos expressivos a partir de 2006 e se torna negativa em 2008. Este déficit alcança um patamar recorde de US$ 48,7 bilhões em 2011, depois de um saldo negativo de US$ 34,8 bilhões no ano anterior. A ba- 88 | O Peso das Commodities Agroindustriais na Pauta de Exportações do Brasil: Evidência de Reprimarização da Economia? lança comercial como um todo apresentou em 2010 ainda um superávit de US$ 20,3 bilhões, o menor desde 2003, graças ao saldo positivo de outros produtos, como os agrícolas e minerais, que usam intensivamente recursos naturais e em que o país possui grandes vantagens comparativas na produção e que registraram expressivas elevações de preços (IEDI, 2011). Os segmentos industriais de média e alta intensidade tecnológicas apesar de apresentaram historicamente déficits comerciais, registraram um saldo negativo sem precedentes em 2010, de mais de US$ 65 bilhões, enquanto que em 2009 este resultado tinha sido negativo em de US$ 45 bilhões. Entre os produtos considerados de alta intensidade tecnológica, contribuíram para este déficit sobretudo aparelhos e componentes eletrônicos, de informática e instrumentos médico-hospitalares e de precisão, com um saldo negativo de mais de US$ 20 bilhões em 2010. No caso dos bens de alta tecnologia, somente a indústria aeronáutica e espacial obteve superávit, de US$ 681 milhões neste ano. Para os bens de média-alta tecnologia, o maior déficit foi verificado em produtos químicos, de US$ 16,1 bilhões, seguido pelo segmento de máquinas e equipamentos mecânicos (déficit de US$ 12,3 bilhões) e de Máquinas elétricas, (- US$ 5,6 bilhões). Surpreende também o elevado déficit em material de transporte, superior a US$ 5 bilhões, afetado principalmente pelo resultado negativo da indústria automobilística (-US$ 4,3 bilhões). Além disso, o grupo das atividades classificadas como de média-baixa intensidade tecnológica registrou, pela primeira vez, desde 1989, quando se iniciou a série, saldo negativo, de US$ 8,2 bilhões. Destaca-se negativamente, o comportamento dos combustíveis e O Peso das Commodities Agroindustriais na Pauta de Exportações do Brasil: Evidência de Reprimarização da Economia? | 89 produtos de petróleo, que experimentaram seu maior déficit da história, de US$ 10,5 bilhões em 2010. É no segmento de bens de baixa tecnologia que o país apresentou resultados mais expressivos neste ano, com um superávit de US$ 38,9 bilhões, obtido particularmente em função do desempenho das indústrias de alimentos, bebidas e fumo, com um saldo positivo de US$ 33,2 bilhões. As atividades da indústria madeireira, de papel e celulose e impressão gráfica, por sua vez, registraram um superávit de US$ 6,3 bilhões em 2010. Por outro lado, dois segmentos considerados de baixa tecnologia têm sofrido mais intensamente os efeitos do câmbio apreciado e da concorrência externa, principalmente dos produtos chineses, representados pela indústria de brinquedos e o conjunto das indústrias têxtil, de vestuário, couro e calçados. Este último grupo, apresentou seu primeiro déficit na série iniciada em 1989, com um saldo negativo de US$ 215 milhões (IEDI, 2011). Este quadro acima aponta claramente para uma perda de ritmo e de competitividade dos segmentos mais dinâmicos e intensivos em tecnologia da indústria brasileira. Apesar de o Brasil aumentar seu market share no comércio mundial de bens, de 0,88% do total em 2000 para 1,26% em 2009, este resultado deve-se fundamentalmente a evolução das exportações de commodities, no qual o Brasil passou a representar 4,66% das exportações mundiais, contra uma participação de 2,77% em 2000. Por outro lado, neste período, o Brasil reduziu a sua fatia nas exportações de alta intensidade tecnológica, em que representava 0,52% do comércio mundial em 2000, e que passou a 0,49% em 2009. Isso fica evidente também quando se analisa a participação das commodities no total das vendas ex- 90 | O Peso das Commodities Agroindustriais na Pauta de Exportações do Brasil: Evidência de Reprimarização da Economia? ternas do país. A participação destes produtos nas exportações brasileiras, que oscilavam em torno de 40% do total desde os anos 90, alcançou 51% do total em 2010 (De Negri e Alvarenga, 2011). Segundo os autores, essa tendência de primarização das exportações brasileiras se acentuou com a crise, que se refletiu em um forte recuo do comércio mundial em 2009, puxado pelo comportamento negativo dos países centrais e com a continuidade do crescimento da economia chinesa, com uma presença cada vez maior nas importações de matérias-primas. Desde 2009, a China se tornou a principal parceira comercial do Brasil, ultrapassando os EUA como o principal destino das exportações brasileiras. As vendas externas do país para a China passaram de US$ 16,4 bilhões em 2008 (8,3% do total das exportações brasileiras) para US$ 30 bilhões em 2010 (14,9% do total). Ademais, aumentou a participação brasileira no total das compras externas chinesas, de 0,5% do total em 2000 para 2% atualmente. No entanto, 80% do que o Brasil vende para a China são commodities, especialmente soja e o minério de ferro. Em 2000, o Brasil respondia por 2,5% das importações chinesas de commodities, alcançando mais de 8% em 2009 (De Negri e Alvarenga, 2011). Os efeitos desse ciclo de alta dos preços das commodities agrícolas e minerais, puxado especialmente pela demanda chinesa e a consequente valorização cambial decorrente desse processo sobre a estrutura produtiva do país são controversos. Para alguns autores como Bresser Pereira, citado por Paulino (2011), o grande afluxo de divisas decorrentes do aumento das exportações de recursos naturais leva tanto a uma valorização da moeda nacional como a uma perda de competitividade das demais manufaturas, sobretudo dos O Peso das Commodities Agroindustriais na Pauta de Exportações do Brasil: Evidência de Reprimarização da Economia? | 91 bens de maior conteúdo tecnológico. A continuidade dessa tendência por um período mais prolongado poderia ocasionar uma desindustrialização mais acelerada e uma dependência externa crescente do país dos produtos básicos e de menor valor agregado, como soja, minério de ferro e outras commodities agrícolas e minerais. Posições semelhantes são defendidas pelo IEDI (2011) e por Almeida (2008), sendo que este alerta para o risco de uma rápida reversão desse ciclo de alta de preços internacionais, ocasionando sérios problemas nas contas externas do país, assim como por ter adotado uma postura que representou a ausência de políticas coordenadas para conter os efeitos disruptivos da valorização cambial. Para De Negri e Alvarenga (2011), a primarização da pauta de exportações brasileira resultou não apenas de um desempenho extremamente favorável das exportações de commodities, mas também da perda de competitividade do país em outros produtos, especialmente os mais intensivos em tecnologia, onde a valorização cambial teve um papel crucial. Segundo os autores, a taxa de câmbio real em janeiro de 2011 estava mais de 25% valorizada em relação ao nível observado em 2005, decorrente não apenas do ciclo de preços favorável dos produtos primários como também do grande afluxo de capital, atraído pelas elevadas taxas de juros reais internas e pela estagnação dos países centrais. No entanto, para os autores ainda é prematuro afirmar que esteja em curso um processo de desindustrialização da economia brasileira, mas uma tendência de maior participação dos setores tradicionais na estrutura produtiva, dependendo da magnitude e da duração dos efeitos do cenário externo sobre esta estrutura. Segundo estes, a previsão é de que este ciclo de valorização 92 | O Peso das Commodities Agroindustriais na Pauta de Exportações do Brasil: Evidência de Reprimarização da Economia? das commodities não deve se esgotar no curto prazo, dado um desequilíbrio na oferta e demanda mundial de alimentos, especialmente pelo duradouro e elevado crescimento da economia chinesa, grande demandante destes produtos no mercado internacional. Posição análoga também é a de Paulino (2011), enfatizando que a perda de competitividade de setores mais dinâmicos da economia brasileira não significa necessariamente um processo inexorável de desindustrialização. No entanto, alerta que esta menor competitividade deve-se não apenas ao câmbio defasado, como também a outros problemas estruturais como a deficiente infraestrutura, especialmente a de transportes, a elevada carga tributária, a ausência de uma política nacional de inovação, entre outros pontos de estrangulamento da economia brasileira. Para Furtado (2008), também o crescimento da demanda chinesa deverá manter os preços relativos favoráveis aos produtos primários por um longo tempo, o que poderia acarretar, em função de uma renda extraordinária de caráter duradouro, um processo semelhante à “doença holandesa”. Mas para o autor, alguns destes efeitos ocorrerão em uma proporção muito mais limitada em economias como a brasileira, marcada por um elevado grau de integração interindustrial e cadeias industriais diversificadas. Se de um lado, há uma tendência da economia brasileira ser menos autossuficiente e diversificada e uma maior dependência das exportações nas áreas primárias, a forte demanda da China por matérias primas e produtos com forte intensidade em recursos naturais oferece janelas de oportunidades para promover transformações qualitativas da estrutura econômica do país. Através da formulação de políticas, programas e instrumentos que sejam capa- O Peso das Commodities Agroindustriais na Pauta de Exportações do Brasil: Evidência de Reprimarização da Economia? | 93 zes de desenvolver novas tecnologias e soluções inovadoras, poderá reforçar a competitividade das cadeias exportadoras e que possuem um forte grau de integração e capacidade de irradiação para outros setores internos e que possam evitar uma especialização excessiva e empobrecedora da estrutura econômica brasileira. É o que defendem também De Negri e Alvarenga (2011), ao afirmar que o bom desempenho dos setores tradicionais podem fomentar setores que contenham maior grau tecnológico, como por exemplo, a produção de bens de capital agrícolas, a indústria química e a de petróleo, através da formulação de políticas industrial e de inovação. Para Além et al. (2011), a forte expansão das vendas brasileiras de commodities nos últimos anos, especialmente para a Ásia, não representa necessariamente uma tendência de reprimarização de sua pauta de exportações. Os autores se baseiam em trabalho realizado por Abdon et al. , que adotando o modelo desenvolvido por Hidalgo e Hausmann, utilizam estatísticas de exportação de 124 países para o período 20012007 e chegam a conclusão de que nesse ranking de países, o Brasil encontrava-se na 30ª colocação, uma posição intermediária quando considerada uma medida de complexidade de sua pauta de exportação. O grau de complexidade da pauta é dado pela existência de capacitações específicas necessárias que um determinado país possui e que tende a se refletir em uma pauta mais diversificada de exportação ou capacitações exclusivas, quando um número reduzido de países participa do comércio internacional, o que requer em geral um domínio de inovações e processos por poucas empresas. Mendonça de Barros (2008) entende que, apesar dos desafios ainda a serem enfrentados, o conjunto de reformas 94 | O Peso das Commodities Agroindustriais na Pauta de Exportações do Brasil: Evidência de Reprimarização da Economia? implantadas a partir de 1994 na economia brasileira e as mudanças ocorridas na economia mundial, com o desenvolvimento de um novo polo dinâmico representado pela China, possibilitaram um ciclo de crescimento econômico mais sustentável no Brasil no início deste século. A incorporação da China à economia de mercado e a sua gigantesca população provocou uma mudança nos preços relativos mais favoráveis às commodities e que tendem a perdurar por um longo período de tempo, fortalecendo as contas externas brasileiras, na medida em que possibilitou a geração de saldos comerciais elevadíssimos a partir de 2004. Para o autor, o fortalecimento das contas externas do país, apesar dos riscos da “doença holandesa”, criou as condições para a estabilização monetária como também reencontrar o caminho do crescimento econômico sustentado, via expansão do consumo, do crédito e do investimento. No próximo tópico, procuramos demonstrar como a evolução favorável das cotações internacionais das commodities agroindustriais na última década, puxados especialmente pela demanda chinesa, impactaram positivamente sobre a balança comercial brasileira destes produtos. 3. Evolução das exportações brasileiras de produtos agroindustriais no período 2000-2010 O cenário externo mais favorável na década de 2000, conjugada a uma elevação dos preços das commodities agrícolas a partir de 2002, possibilitaram uma recuperação da O Peso das Commodities Agroindustriais na Pauta de Exportações do Brasil: Evidência de Reprimarização da Economia? | 95 rentabilidade do setor e um aumento da participação brasileira no comércio mundial de produtos agroindustriais, que passa a representar 6,9% do total mundial em 2006, contra uma participação de apenas 3,9% em 2000. As exportações dos produtos das cadeias agroindustriais têm papel fundamental no total do comércio externo brasileiro. É um setor tradicionalmente com maior grau de abertura e que tem aumentado a sua participação nas exportações totais do país.. As exportações agroindustriais em valor cresceram mais de 18% em 2010 em relação ao ano anterior e quase quadruplicaram entre 2000 e 2010, representando quase 40% do total das exportações do país neste último ano (Tabela 1). As importações de produtos agroindustriais, por sua vez, ficaram praticamente estagnadas entre 2000 e 2006, crescendo de forma significativa apenas em 2007 e 2008, sofrendo uma redução em 2009, por conta da crise econômica mundial e da queda dos preços das commodities agrícolas. Estas voltaram a crescer em 2010 em função da valorização cambial, e concentradas principalmente na compra de insumos, com destaque para os fertilizantes e de cereais, notadamente trigo, onde a maior parte do consumo nacional é proveniente das importações. O crescimento expressivo das exportações brasileiras de produtos agroindustriais a partir de 2003, e uma expansão em um ritmo muito menor das importações, possibilitaram a geração de saldos comerciais crescentes da balança dos produtos da agroindústria. O superávit do setor passou de US$ 12 bilhões em 2000 para mais de US$ 40 bilhões a partir de 2006, chegando em 2010 a mais de US$ 56 bilhões (apesar do expressivo crescimento das importações de produtos agroindustriais neste último ano), o 96 | O Peso das Commodities Agroindustriais na Pauta de Exportações do Brasil: Evidência de Reprimarização da Economia? que representou quase o triplo do saldo comercial total do Brasil registrado em 2010. Tabela 1. Balança comercial brasileira de produtos agroindustriais 2000/2011 (em US$ bilhões) ANO Exportações Importações Balança Comercial 2000 21,78 9,47 12,31 2001 25,01 8,56 16,45 2002 26,06 7,68 18,38 2003 32,43 8,51 23,92 2004 41,51 10,20 31,31 2005 46,30 10,07 36,23 2006 52,04 11,86 40,18 2007 61,84 17,21 44,66 2008 76,14 26,36 49,78 2009 67,56 18,53 49,03 2010 79,95 23,73 56,22 2011 98,94 33,26 66,68 Fonte: IEA/APTA, elaborada a partir dos dados da SECEX/MDIC A pauta agrícola brasileira é bastante diversificada, mas um número reduzido de grupos de mercadorias concentra a maior parte do valor das exportações do setor. Destacam-se as exportações de cereais/leguminosas/oleaginosas (US$20,33 bilhões em 2010), especialmente soja e seus derivados, cana e sacarídeas (US$13,82 bilhões), derivada das exportações de açúcar e álcool, produtos florestais (US$9,55 bilhões), constituídos especialmente por madeira e celulose, O Peso das Commodities Agroindustriais na Pauta de Exportações do Brasil: Evidência de Reprimarização da Economia? | 97 bovídeos-bovinos (US$8,89 bilhões), principalmente carne bovina e couro, suínos e aves (US$8,18 bilhões), a maior parte representada pelas exportações de carne de frango. Estes cinco principais agregados de cadeias de produção responderam por mais de três quartos do total das exportações agroindustriais do Brasil em 2010, refletindo o peso desses produtos na pauta de exportação do setor (Tabela 2). Tabela 2: Exportações de produtos agroindustriais por grupo de mercadorias, Brasil, 2011 (em US$ milhões) Grupos de mercadorias US$1.000 Participação (em %) Cereais/leguminosas/oleaginosas 29.002 29,31 Cana e sacarídeas 16.475 16,65 Produtos florestais 9.968 10,07 Suínos e aves 9.662 9,76 Bovídeos-bovinos 9.330 9,43 Café e estimulantes 9.226 9,32 Frutas 3.646 3,68 Fumo 2.935 2,97 Bens de capital/insumos 2.868 2,90 Agronegócios especiais 2.830 2,86 Têxteis 2.463 2,49 Olerícolas 279 0,28 Pescado 226 0,23 Flores e ornamentais 35 0,04 Total 79.995 100,00 Fonte: IEA/APTA, elaborada a partir dos dados da SECEX/MDIC 98 | O Peso das Commodities Agroindustriais na Pauta de Exportações do Brasil: Evidência de Reprimarização da Economia? O grande salto das exportações brasileiras de produtos agroindustriais a partir de 2003 deve-se em grande parte à trajetória de elevação dos preços das commodities agrícolas, observado desde o início de 2002, como foi dito anteriormente (Figura 1). Os preços da soja, por exemplo, alcançaram em abril de 2008 as cotações mais altas dos últimos 34 anos e o milho nos últimos 11 anos. Há várias causas deste ciclo de alta dos preços das commodities agrícolas até meados deste ano. Em primeiro lugar, verifica-se uma demanda crescente por alimentos e matérias-primas agrícolas, especialmente por parte dos países emergentes, puxados notadamente pela China. O consumo global destes produtos tem crescido mais nesta década que nas duas décadas anteriores, particularmente de carne, cereais, leite e seus derivados. A China já se tornou o maior importador de soja mundial, absorvendo 40% das exportações internacionais. O consumo de carne per capita neste país passou de 20 kg por ano em 1985 para mais de 50 kg atualmente. Por outro lado, ocorreram problemas pelo lado da oferta, associados às adversidades climáticas, que resultaram em estoques com os níveis mais baixos dos últimos 30 anos para o trigo e o milho. A oferta de commodities agrícolas foi pressionada também pela destinação crescente de milho para a produção de etanol nos Estados Unidos. Neste país, atualmente 33% da produção de milho é utilizada para a produção de biocombustível, contra menos de 15% em 2006, o que resultou em um aumento de preços de 46% desse produto em 2007 e uma menor área destinada à soja e um aumento expressivo dos preços de outros alimentos. Outro fator que contribuiu para elevar ainda mais os preços das commodities agrícolas nesse período foi a especulação financeira nos O Peso das Commodities Agroindustriais na Pauta de Exportações do Brasil: Evidência de Reprimarização da Economia? | 99 mercados futuros destes bens, com a redução da taxa de juros americana, a consequente menor rentabilidade dos ativos financeiros e a maior atratividade das commodities e seus derivativos (FUNDAP, 2008; Lima e Margarido, 2008). O cenário de grave crise econômica e financeira mundial em meados de 2008 reverteu o quadro de alta nos mercados de commodities agrícolas, com forte queda das cotações dos principais bens agroindustriais, o que afetou o comércio brasileiro destes produtos. No caso dos produtos agroindustriais, os preços das principais commodities agrícolas despencaram até meados de 2009 (Figura 1). As cotações dos produtos agrícolas em setembro de 2009 estavam em um patamar bem inferior às cotações de setembro de 2008. Os preços da soja, nosso principal produto de exportação, estavam 8% inferiores em setembro deste ano em relação ao mesmo período do ano anterior. Outros produtos apresentaram reduções ainda mais acentuadas: O café -13%, etanol -16%, carne bovina -18%, frango -23%, produtos florestais -35%. As exceções foram o fumo, com aumento de 3% dos preços em dólar no período e o açúcar, de 26%, puxado pela quebra da safra da Índia, que passou de exportador para importador e pelos baixos estoques mundiais do produto. Em 2010, com a recuperação das economias, recomeçou um novo ciclo de alta dos preços das commodities. Segundo o FMI, os preços dos alimentos aumentaram em torno de 30% nos últimos 6 meses de 2010, alcançando, no final deste ano, patamares superiores aos verificados antes da crise econômica mundial, o que contribuiu para impulsionar as exportações dos produtos agroindustriais brasileiros em 2010 (BNDES, SINOPSE INTERNACIONAL, 2011). 100 | O Peso das Commodities Agroindustriais na Pauta de Exportações do Brasil: Evidência de Reprimarização da Economia? Base 100 = Média 2005 Fonte: BNDES, 2011, Apud: FMI Figura 1. Evolução dos preços de Commodities Setembro de 2002/ Dezembro de 2010 O Brasil em 2009 já era o segundo maior exportador mundial de produtos agroindustriais e o principal fornecedor internacional de açúcar, café, suco de laranja, álcool e carne bovina e de frango e ocupava a segunda posição no complexo da soja, terceiro em milho e quarto em carne suína (Tabela 3). Além de ter uma pauta de exportações diversificada, o país deve aumentar ainda mais a sua participação no comércio mundial destes produtos, dadas a existência de terras disponíveis e a elevada competitividade de grande parte de suas cadeias agroindustriais. O Peso das Commodities Agroindustriais na Pauta de Exportações do Brasil: Evidência de Reprimarização da Economia? | 101 Tabela 3: Participação Brasileira na produção e no comércio mundial de produtos agroindustriais - 2009 Ranking Mundial Produção Exportação Participação no Comércio Mundial (%) Açúcar 1 1 62,0 Café 1 1 28,0 Suco de laranja 1 1 68,0 Álcool 2 1 68,0 Complexo de Soja 2 2 30,0 Carne Bovina 2 1 33,0 Carne de Frango 3 1 38,0 Milho 3 3 12,0 Carne suína 4 4 12,4 Produtos Fonte: Conjuntura Econômica, 2010. 4. Agregação de valor das exportações agroindustriais brasileiras Apesar da grande expansão das vendas externas de produtos agroindustriais brasileiros no período 2000-2010, quando se analisa pela ótica de agregação de valor, constata-se que há um peso crescente dos bens de menor valor agregado. Os produtos básicos responderam por mais da metade do valor das exportações brasileiras de produtos agroindustriais em 2010 (52,5%), enquanto que os produtos industrializados, constituídos pelos manufaturados e semimanufaturados, re- 102 | O Peso das Commodities Agroindustriais na Pauta de Exportações do Brasil: Evidência de Reprimarização da Economia? presentaram 47,5% do total, o que configura uma pauta mais centrada em bens com um nível menor de elaboração (Tabela 4). Observe-se que em 2000, os bens industrializados tiveram um peso maior no total exportado do setor, com quase 60% das exportações da agroindústria e em 2005 já tinham reduzido a sua participação para 56% do total das exportações agroindustriais. Portanto, apesar do incremento expressivo das exportações dos produtos agroindustriais processados entre 2000 e 2010, de US$ 12,95 bilhões para US$ 37,94 bilhões, a sua evolução foi menos favorável em relação aos produtos básicos, em grande medida pelo comportamento dos preços, que não tiveram incrementos tão relevantes quanto aos verificados com os produtos básicos no mercado internacional (Souza e Gonçalves, 2008). Além disso, os manufaturados agroindustriais tendem a sofrer mais os efeitos do câmbio sobrevalorizado. No primeiro semestre de 2011 constata-se uma continuidade desta tendência de redução da participação dos bens de maior grau de elaboração na pauta de exportação dos produtos agroindustriais brasileiros, onde os produtos industrializados reduziram a sua fatia para 41, 7% do total, enquanto que os produtos básicos aumentaram a sua participação para mais de 58% do total exportado nesse período. Tabela 4: Exportações de produtos agroindustriais por fator agregado, Brasil, 2000, 2005 e 2011 2000 2005 2011 Fator agregado US$ Bilhão % US$ Bilhão % US$ Bilhão % Produtos Básicos 8,82 40,51 21,92 47,35 55,42 56,01 Semimanufaturados 4,28 19,66 8,38 18,10 21,80 22,03 O Peso das Commodities Agroindustriais na Pauta de Exportações do Brasil: Evidência de Reprimarização da Economia? Fator agregado Manufaturados Total 2000 US$ % Bilhão 8,67 39,83 21,78 100,00 2005 US$ % Bilhão 15,99 34,54 46,29 100,00 | 103 2011 US$ % Bilhão 21,72 21,96 98,94 100,00 Fonte: IEA/APTA, elaborada a partir dos dados da SECEX/MDIC A maior presença dos produtos básicos na pauta de exportações agroindustriais brasileiras pode ser também debitada à volúpia chinesa por commodities agrícolas. Apesar do total das exportações do Brasil para a China terem se expandido enormemente nos últimos 10 anos, mais de 84% do total é constituído por produtos básicos em 2010, contra 68% do total em 2000. Ademais, apenas quatro produtos, minério de ferro, soja (óleo e em grão), petróleo e pasta química de madeira, concentraram 85% do total das vendas para aquele país em 2010. No caso dos produtos agroindustriais, as compras chinesas, que eram praticamente irrisórias até o início da década passada, alcançaram US$ 10 bilhões em 2010. No entanto, por grau de processamento, há um peso muito maior de produtos com baixo nível de agregação de valor em relação ao total das exportações brasileiras de produtos agroindustriais. Do total das exportações do setor para a China em 2010, 72% do total era constituído por produtos básicos, contra 52% do total quando se considera as exportações totais de produtos agroindustriais do Brasil neste ano. Os produtos manufaturados representavam menos de 2% do total destes bens exportados para a China, enquanto que para o conjunto dos países, estes constituíam 25% do total das exportações agroindustriais em 2010. Além das exportações dos produtos agroindustriais para a China serem majoritariamente constituídos por bens 104 | O Peso das Commodities Agroindustriais na Pauta de Exportações do Brasil: Evidência de Reprimarização da Economia? com baixo nível de elaboração, estas se concentram em um número reduzido de grupos de produtos. Apenas cereais e oleaginosas, representadas basicamente pela soja e seus derivados, representam 80% de todas as exportações de bens agroindustriais para a China em 2010. Outros produtos importantes são os produtos florestais, especialmente madeira, os da cadeia de carnes, representadas praticamente pelo couro bovino e carne de frango e o fumo. No conjunto, estes quatro grupos representaram mais de 95% do total das exportações de produtos agroindustriais para a China neste último ano. Portanto, apesar da importância crescente do mercado chinês para os produtos agroindustriais brasileiros, a pauta de exportações destes bens para a China é extremamente concentrada em poucos produtos e de baixo valor agregado. Ademais, é preciso considerar que as compras destes bens pela China destinam-se à produção de manufaturados que concorrem exatamente com os produtos brasileiros, como calçados e móveis. Isso é reforçado pela imposição de práticas protecionistas por parte daquele país, colocando barreiras aos produtos industrializados, preferindo importar as matérias-primas para industrializar em seu território (FOLHA de SÃO PAULO, 2011). Apesar da maior participação dos produtos básicos nas exportações agroindustriais brasileiras, para alguns autores essa tendência não significa necessariamente que esteja ocorrendo um processo de commoditização ou reprimarização da pauta exportadora. Segundo Lopes, “a soja e a carne de frango exportadas pelo Brasil, assim como outros produtos agrícolas, não são meras commodities, mas produtos de alta tecnologia....Exportamos ativos intensivos em ciência O Peso das Commodities Agroindustriais na Pauta de Exportações do Brasil: Evidência de Reprimarização da Economia? | 105 e tecnologia, capital humano e financeiro”. (CONJUNTURA ECONÔMICA, p. 34, 2010). De fato, políticas públicas para o setor levadas a cabo desde os anos 70 conformaram cadeias de produção consolidadas, tendo como núcleos dinâmicos a agroindústria processadora, os complexos cooperativos ou as modernas empresas comerciais. Destaca-se neste sentido, o esforço inovativo desenvolvido pela Embrapa e por outras instituições de pesquisa que possibilitaram incrementos significativos da produção e da produtividade agrícolas. Estes ganhos devem-se não apenas ao maior uso de insumos modernos e ao avanço da mecanização, mas também e associado a estes fatores, a geração e difusão de inovações para o setor, por parte de instituições de pesquisa. Além disso, muitas cadeias de produção primárias possuem uma forte articulação nacional, com efeitos que se irradiam para outras regiões ou setores, como a indústria de bens de capital, de insumos ou de serviços, integrantes dos complexos agroindustriais (Furtado, 2008). No entanto, mesmo levando em conta que muitas cadeias agroindustriais brasileiras são competitivas internacionalmente e os bens gerados pelo setor são em boa parte produtos intensivos em ciência e tecnologia, deve-se aproveitar o ciclo favorável de preços internacionais das commodities agrícolas para promover mudanças qualitativas mais profundas, que possam associar expansão com o desenvolvimento de novas tecnologias que reforcem a competitividade e a integração das cadeias industriais. Isso implica a necessidade de um esforço maior de elaboração de políticas que visem à geração de um maior valor agregado nas cadeias produtivas agroindustriais e no total das exportações do setor e que possam 106 | O Peso das Commodities Agroindustriais na Pauta de Exportações do Brasil: Evidência de Reprimarização da Economia? superar uma possível tendência de especialização regressiva da estrutura produtiva do país, concentrada na produção de bens de baixo valor agregado e conteúdo tecnológico. Referências ALÉM, Ana Cláudia et al. - Sinopse internacional, n.15. BNDES, Rio de Janeiro, 2010. ALMEIDA, Júlio Sérgio Gomes de - A contradição do ciclo de commodities. Novos estudos (81), São Paulo, CEBRAP, 2008. CONJUNTURA ECONÔMICA - Semeando tecnologia. Rio de Janeiro, FGV, 2010. DE NEGRI, Fernanda e ALVARENGA, Gustavo Varela - A primarização da pauta de exportações do Brasil: ainda um dilema. Tecnologia, Produção e Comércio exterior Radar (13), Brasília, IPEA, 2011. 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Essa crise se apresenta de modo multifacetado e generalizado, caracterizando-se em uma crise financeira-alimentar-energético-climática, resultante do processo de reprodução ampliada do capital, que na atualidade se baseia no avanço do capitalismo financeiro e das empresas transnacionais sobre todos os aspectos da agricultura e do sistema 1 Professora dos cursos de graduação e pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual Paulista, Campus de Marília. Doutora em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Geografia Humana, com ênfase nos temas sobre movimentos sociais, políticas públicas de reforma agrária e meio ambiente. É coordenadora do Centro de Pesquisa e Estudos Agrários e Ambientais (CPEA). Bolsista Produtividade 2 CNPq. 2 Discente do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo (USP). Pesquisadora do Centro de Pesquisa e Estudos Agrários e Ambientais (CPEA) da Universidade Estadual Paulista (UNESP). 110 | A via campesina diante da crise global: a proposição de um modelo agrícola alimentar soberano alimentar de diferentes países do mundo. Esse processo atinge de maneira desigual grupos sociais, camponeses, populações originárias e etnias. O processo de globalização não se aprofunda sem encontrar resistências. Ao mesmo tempo em que integra a economia mundial também favorece a emergência de diferentes forças sociais que se projetam e constroem um novo cenário político de participação dos movimentos sociais no contexto internacional. Os movimentos sociais se caracterizam como ações coletivas de caráter sócio-político e cultural que viabilizam distintas formas das populações se organizarem e demandarem seus direitos. Na atualidade, atuam por meio de redes sociais locais, regionais, nacionais e internacionais e utilizam-se das novas tecnologias de comunicação e informação. Seus atos comportam ações tais como mobilizações, grandes marchas, concentrações e demais enfrentamentos aos poderes constituídos (Gohn, 2003). Há no mundo uma ampla gama de movimentos que se opõe aos processos da globalização. No que concerne às questões da agricultura, destacamos as ações da Via Campesina, tanto pela sua articulação, como pela amplitude de sua intervenção na sociedade contemporânea. A Via Campesina é um movimento social internacional que coordena organizações camponesas, pequenos e médios produtores, organizações rurais de mulheres, comunidades indígenas, organizações de Sem Terra, organizações da Juventude rural, trabalhadores agrícolas migrantes, dentre outros. A Via Campesina nasce em 1992 durante o Congresso da Unión Nacional de Agricultores y Granaderos (UNAG) e, A via campesina diante da crise global: a proposição de um modelo agrícola alimentar soberano | 111 desde sua formação3, o movimento tem concentrado suas ações na crítica ao atual modelo capitalista vigente na agricultura mundial, bem como às instituições internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização Mundial do Comércio (OMC), que são responsáveis pela manutenção desse modelo imposto à agricultura. Concomitantemente, a Via Campesina trabalha de maneira propositiva, buscando alternativas viáveis para a solução de problemas advindos da globalização de um único modelo agrícola, o capitalista. Desse modo, a Via Campesina cumpre seu propósito de defender os interesses de seus membros, atuando em diversas arenas onde são definidas as políticas internacionais dirigidas à agricultura, como na Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Destarte, a Via Campesina age com uma organização articuladora de interesses de atores com menor poder de influência no palco internacional e se estabelece, simultaneamente, como arena e ator nas relações internacionais, na medida em que promove um ambiente propício para a participação dos movimentos sociais que a forma e atua internacionalmente sob uma única bandeira, a da Via Campesina. Nas últimas décadas, assistimos no Brasil, e em diferentes países do planeta, uma aceleração da destruição da agricultura camponesa e uma ampliação das monoculturas ligadas ao agronegócio de exportação. Como resultado, podemos perceber uma enorme concentração das terras nas 3 Até a Conferência de Maputo, ocorrida em 2008, a Via Campesina possuía 148 organizações participantes do movimento, estabelecidas em 69 países. (LA VÍA CAMPESINA, 2008b). 112 | A via campesina diante da crise global: a proposição de um modelo agrícola alimentar soberano mãos de poucos proprietários e a destruição das florestas nativas. As consequências ecológicas desse processo são bem conhecidas: a destruição das florestas destrói a biodiversidade, os mananciais, os rios e as populações. Verifica-se o crescente avanço do capitalismo financeiro e das empresas transnacionais na agricultura e no sistema alimentar dos países da América Latina, África e Ásia. Esse avanço envolve desde a privatização das sementes e a venda de agrotóxicos até a compra dos produtos, bem como seu processamento, transporte, distribuição e venda ao consumidor. Cada vez mais a produção, distribuição, circulação e consumo dos produtos agrícolas estão centralizados em um número reduzido de empresas. Uma das consequências disso é que os alimentos deixam de ser um direito e tornam-se cada vez mais mercadorias. Verifica-se também uma ofensiva do capital sobre os recursos naturais. O processo de reprodução ampliada do capital lança as grandes empresas numa guerra de privatização que as levam a expulsar camponeses, comunidades indígenas, privatizando suas terras, territórios, florestas, biodiversidade, água e minérios. O cultivo de agrocombustíveis (cana-de-açúcar) em grandes monoculturas industriais também é razão dessa expulsão, amparada em argumentos sobre a crise energética e climática. A realidade por trás destas últimas facetas da crise tem a ver com a atual matriz de transporte de longa distância dos bens, e individualizado em automóveis. Esse fenômeno deve ser compreendido no contexto dos processos vinculados a globalização neoliberal que, segundo Boaventura de Sousa Santos (2005), A via campesina diante da crise global: a proposição de um modelo agrícola alimentar soberano | 113 [...] corresponde a um novo regime de acumulação de capital, um regime mais intensamente globalizado que os anteriores, que visa, por um lado, a dessocializar o capital, libertando-o dos vínculos sociais, e políticos que no passado garantiram alguma distribuição social e, por outro lado, submeter a sociedade no seu todo à lei do valor, no pressuposto de que toda atividade social se organiza melhor quando se organiza sob a forma de mercado. A conseqüência principal desta dupla transformação é a distribuição extremamente desigual dos custos e das oportunidades produzidos pela globalização neoliberal no interior do sistema mundial, residindo aí a razão do aumento exponencial das desigualdades sociais entre países ricos e países pobres e entre ricos e pobres no interior do mesmo país (p. 11). Assim, face ao aprofundamento do processo da globalização neoliberal, e às consequências danosas deste sobre as populações originárias e camponesas, esses sujeitos emergem por meio da ação coletiva no cenário internacional. Segundo Desmarais (2007), A força brutal da globalização contribuiu para o surgimento de uma grande variedade de novos atores sociais. Também levou às novas estruturas de ação coletiva entre os 114 | A via campesina diante da crise global: a proposição de um modelo agrícola alimentar soberano atores sociais tradicionais, incluindo as organizações camponesas. [...] todos estão tentando estabelecer uma presença e esculpir espaços políticos alternativos em que as suas preocupações e demandas possam ser articuladas, negociadas e que se sejam acomodadas em um contexto de uma globalização contestada. (p. 24, tradução nossa4). A construção dos novos espaços políticos esculpidos por esses novos atores sociais também é alvo de ação política da Via Campesina, que, se utilizando das novas estruturas de ação coletiva, apresenta um potencial de transformação da atual realidade camponesa. Claramente, a Via Campesina está preenchendo um vazio importante. Sua existência é a evidência de novas estruturas de ação coletiva no campo; suas estratégias desafiam modelos tradicionais de organização no setor rural, e da magnitude de sua presença internacional - sua natureza dinâmica, a diversidade cultural e a distri4 The brutal force of globalization contributed to the emergence of great variety of new social actors. It also led to new structures of collective action among traditional social actors, including peasant organizations. [...] all are trying to establish a presence and carve out alternative political spaces in which their concerns and demands can be articulated, negotiated, and accommodated in the context of a contested globalization. (DESMARAIS, 2007, p. 24) A via campesina diante da crise global: a proposição de um modelo agrícola alimentar soberano | 115 buição geográfica ampla - fala a suas potencialidades transformadoras. (Desmarais, 2007, p. 09, tradução nossa5). Para tanto, a Via Campesina se baseia numa organização em rede, visto que ela não existe fora das organizações-membros que a constitui. Quando se fala na Via Campesina como uma rede transnacional de movimentos sociais, partimos da perspectiva de que a Via Campesina sofre influências mútuas, partindo elas da esfera local para a esfera global e da esfera global para a esfera local (Simonetti, 2006). Uma das ações políticas da Via Campesina de maior notoriedade são suas campanhas internacionais. Através destas, a organização estabelece estratégias de ação para toda a rede, buscando alcançar outros setores da sociedade de maneira a tornar conhecidas suas demandas. A criação e a promoção de um novo modelo agrícola baseado no conceito de soberania alimentar, conceito esse formulado dentro do âmbito da própria Via Campesina, permitiu o reconhecimento, por parte de outros atores internacionais, da relevância do trabalho desempenhado pela rede em relação aos temas agrícolas. Esse trabalho é fruto de outra percepção de agricultura por parte dos movimentos sociais que são agrupados na 5 Clearly, La Vía Campesina is filling important void. Its very existence is evidence of new structures of collective action in the countryside; its strategies defy traditional patterns of organizing in the rural sector; and the sheer magnitude of its international presence - its dynamic nature, cultural diversity, and wide geographical distribution - speaks to its transformatory potential. (Desmarais, 2007, p. 09). 116 | A via campesina diante da crise global: a proposição de um modelo agrícola alimentar soberano Via Campesina, sendo ela diversa do modelo proposto pelas organizações internacionais intergovernamentais, como a FAO e a OMC. O modelo da rede vai ao encontro das aspirações daqueles que lidam diretamente com a terra, de modo que se trata de um [...] modelo radicalmente diferente de agricultura, baseado no conceito de soberania alimentar. O movimento camponês acredita que isso só pode ser feito através da construção de unidade e solidariedade entre a grande diversidade de camponeses e organizações de agricultores em todo o mundo. (Desmarais, 2007, p. 26-27, tradução nossa6). O conceito de “soberania alimentar” amplia e aprofunda o conceito de “segurança alimentar”, sendo este último o conceito basilar das políticas alimentares implementadas pela FAO. Para esta organização, a “segurança alimentar” é garantida no acesso aos alimentos em quantidade considerada suficiente para atender todas as necessidades nutricionais dos indivíduos, conforme consta no Plano de Ação da Cúpula Mundial da Alimentação (FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION, 1996), documento assinado juntamente com a Declaração de Roma sobre Segurança Alimentar Mun6 […] main goal of the Vía Campesina is to build radically different model of agriculture, one based on the concept of food sovereignty. The peasant movement believes that this can only be done by building unity and solidarity among the great diversity of peasants and farm organizations around the world. (DESMARAIS, 2007, p. 26-27). A via campesina diante da crise global: a proposição de um modelo agrícola alimentar soberano | 117 dial durante a Cúpula Mundial sobre a Alimentação que ocorreu em 1996. Já “soberania alimentar é o DIREITO dos povos, Países ou Uniões de Estados de definir suas políticas agrícolas e alimentares, sem dumping de países terceiros.” (LA VÍA CAMPESINA, 2003). Assim, diferentemente da abordagem da FAO, a Via Campesina entende que os direitos dos camponeses estão diretamente ligados à sua produção agrícola, em consonância com sua própria cultura de cultivo, e ao direito dos povos de se alimentar através dos produtos provenientes de uma agricultura voltada para a produção daquilo que é culturalmente aceito por eles. Uma das mais importantes campanhas internacionais promovidas pela Via Campesina em defesa de seu modelo agrícola alternativo baseado no conceito de “soberania alimentar” foi a “Campanha Sementes: patrimônio do povo a serviço da humanidade”. Lançada no ano 2000 durante a III Conferência Internacional da Via Campesina, a rede se opõe “a que se privatizem e a que se patenteiem os materiais genéticos que dão origem à vida, à atividade campesina, à atividade indígena.” (LA VÍA CAMPESINA, 2000, tradução nossa7), visando à proteção do primeiro elo da cadeia produtiva agrícola, a semente. Nesse sentido, respalda-se nos Direitos do Agricultor (FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION, 1989), onde consta que o acesso livre às sementes é um direito dos agricultores. 7 “[...] a que se privaticen a que se patenten lo materiales genéticos que dan origen a la vida, a la actividad campesina, a la actividad indígena.” (LA VÍA CAMPESINA, 2000). 118 | A via campesina diante da crise global: a proposição de um modelo agrícola alimentar soberano Desse modo, a atuação da Via Campesina está intimamente ligada à soberania alimentar dos povos, esta alicerçada na defesa do status público das sementes. Dessa forma, a rede não se opõe somente ao modelo neoliberal de desenvolvimento, mas propõe um modelo alternativo, baseado na “soberania alimentar”. Uma das principais estratégias da Via Campesina empregadas nessa campanha foi o aprofundamento do conceito de soberania alimentar, ligando-o ao tema da biodiversidade. A Via Campesina apóia esta campanha em um conceito sócio-cultural de biodiversidade, além de apresentar os camponeses como os responsáveis históricos pela manutenção da biodiversidade agrícola e pela melhoria das espécies: o camponês é apresentado como um expert, e o seu conhecimento, valorizado. (Niemeyer, 2006, p. 113). Dessa forma, passa-se a valorizar também o papel desempenhado pelo camponês na preservação e na melhoria dos recursos fitogenéticos8. Assim, podemos perceber que [...] a biodiversidade estaria intimamente ligada à diversidade cultural, que fora responsável pela domesticação diversa das sementes. [...] Essa biodiversidade permite a 8 Os recursos fitogenéticos abrangem inúmeras categorias como espécies silvestres, variedades de plantas, linhagens melhoradas, dentre outras. A via campesina diante da crise global: a proposição de um modelo agrícola alimentar soberano | 119 autonomia dos povos, pois é base de sua cultura de produção de alimentos, bem como de sua cultura alimentícia. Isso se contrapõe ao posicionamento da FAO, uma vez que ela tem promovido a transgenia. Esse tipo de política permite a privatização do que antes era público e coletivo. Quando se privatiza recursos e o conhecimento, os fluxos da biodiversidade são rompidos, e monopoliza-se o primeiro elo da cadeia produtiva, a semente. Por isso, a diversidade é colocada numa posição basilar para se alcançar a soberania alimentar. (Simonetti; Camargo, 2010). Buscando sair do campo exclusivo da contestação, a Via Campesina tem alicerçado suas demandas em mecanismos legais internacionais, como as resoluções 8/83 (FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION, 1983), que versa sobre recursos fitogenéticos, e a 5/89 (FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION, 1989), que conceituou a noção de direitos dos agricultores (FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION, 2002). Essa postura, assumida pela rede, tem possibilitado uma atuação mais efetiva perante os organismos internacionais, como a FAO. Essas ações demonstram que a Via Campesina vem se projetando nos fóruns mundiais e tem se revelado como um ator de relevância que objetiva uma ampla transformação social, visando o estabelecimento da equidade e da justiça social. Para tanto, vem construindo junto aos movimentos sociais o conceito de “Soberania Alimentar”, em que a 120 | A via campesina diante da crise global: a proposição de um modelo agrícola alimentar soberano união do conceito de biodiversidade à valorização da cultura camponesa demonstrou-se uma das principais estratégias utilizadas para projetarem-se na luta contra os grandes oligopólios vinculados à produção alimentícia. A partir disso, a Via Campesina conquistou adeptos a sua luta, na medida em que criou uma atmosfera em torno dos ideais camponeses, indígenas e demais populações originárias de diferentes regiões do planeta. Na V Conferência Internacional da Via Campesina realizada em outubro de 2008, a rede reuniu 600 camponeses, representantes de organizações sediadas em 70 países, na cidade de Maputo, Moçambique, sob o slogan “Soberania Alimentar já! Com a luta e a unidade dos povos.” A conferência aprovou uma declaração, a Carta de Maputo (LA VÍA CAMPESINA, 2008a), cujos trechos reproduzimos a seguir, visto que retratam a posição da Via Campesina diante da crise global. Na referida carta, denominada Agricultura Camponesa e Soberania Alimentar Frente à Crise Global, declaram que O mundo inteiro está em crise. Uma crise multi-dimensional. De alimentos, de energia, de clima e de finanças. As soluções que o poder propõe – mais livre comércio, sementes transgênicas, etc – ignoram que a crise resulta do sistema capitalista e do neoliberalismo, e somente aprofundarão seus impactos. Para encontrar soluções reais, temos que olhar para a Soberania Alimentar que propõe a Via A via campesina diante da crise global: a proposição de um modelo agrícola alimentar soberano | 121 Campesina. (LA VÍA CAMPESINA, 2008a, tradução nossa9). Para a Via Campesina, essa crise se deve ao avanço do capitalismo financeiro e das empresas transnacionais sobre todos os aspectos da agricultura e do sistema alimentar dos países e do mundo. Esse processo ocorre envolvendo Desde a privatização das sementes e a venda de agrotóxicos, até a compra da colheita, o processamento dos alimentos, transporte, distribuição e venda ao consumidor, tudo já está em mãos de um número reduzido de empresas. Os alimentos deixaram de ser um direito de todos e todas, e tornaram-se apenas mercadorias. Nossa alimentação está cada vez mais padronizada em todo mundo, com alimentos de má qualidade, preços que as pessoas não podem pagar. As tradições culinárias de nossos povos estão se perdendo. (LA VÍA CAMPESINA, 2008a, tradução nossa10). 9 “El mundo entero está en crisis, una crisis de dimensiones múltiples, una crisis de alimentos, de energía, del clima y de las finanzas. Las soluciones que nos ofrecen desde el poder – mas libre comercio, semillas transgénicas, etc. - ignoran que la crisis es producto del sistema capitalista y del neoliberalismo, y solo profundizarán sus impactos. Para encontrar soluciones reales, mas bien hay que mirar hacía la soberanía alimentaria que propone la Vía Campesina.”.( LA VÍA CAMPESINA, 2008a). 10 “Desde la privatización de las semillas y la venta de agrotóxicos, hasta la compra de la cosecha, el procesamiento de los alimentos, y su transporte, distribución y venta al consumidor, todo está ya en manos de un número reducido de empresas. Los alimentos han pasado de ser un derecho de todos y todas, a ser una mercancía más. Se están homogenizando nuestras dietas en todo el mundo, con alimentos que son malos 122 | A via campesina diante da crise global: a proposição de um modelo agrícola alimentar soberano Para a Via Campesina, a investida do capital sobre os recursos naturais é mais uma faceta da crise dos alimentos, que, junto à crise financeira, tem tornado a situação dos camponeses e populações indígenas insustentáveis. A crise financeira e a crise dos alimentos estão vinculadas à especulação do capital financeiro com os alimentos e a terra, em detrimento das pessoas. Agora, o capital financeiro está desesperado, assaltando os cofres públicos para diminuir seus prejuízos. Os países serão obrigados a fazer ainda mais cortes orçamentários, condenado-os a maior pobreza e maior sofrimento. A fome no mundo segue a passos largos. A exploração e todas as violências, em especial a violência contra a mulher, espalham-se pelo mundo. Com a recessão econômica nos países ricos, aumenta a xenofobia contra os trabalhadores e trabalhadoras migrantes, com o racismo tomando grandes proporções e com o aumento da repressão. (LA VÍA CAMPESINA, 2008a, tradução nossa11). para la salud, tienen precios fuera del alcance de la gente, y estamos perdiendo las tradiciones culinarias de nuestros pueblos.”. (LA VÍA CAMPESINA, 2008a). 11 “La misma crisis financiera y las crisis de alimentos están vinculados por la especulación que hace el capital financiero con los alimentos y la tierra, en detrimento de la gente. Ahora el capital financiero se vuelve mas desesperado, asaltando los erarios públicos para sus rescates, los cuales van a obligar a todavía mayores recortes presupuestarios en los A via campesina diante da crise global: a proposição de um modelo agrícola alimentar soberano | 123 Para a Via Campesina, a Soberania Alimentar baseada na agricultura camponesa local faz-se mais necessária do que nunca e defende os pontos que constam na tabela abaixo (Tabela 1): Tabela 1. Temas e propostas da Via Campesina presentes na Carta de Maputo Carta de Maputo Temas Soberania alimentar Crises energéticas e climáticas Propostas “Renacionalizar e tirar o capital especulativo da produção dos alimentos é a única saída para a crise dos alimentos. Somente a agricultura camponesa alimenta os povos, enquanto o agronegócio produz para a exportação e sua produção de agrocombustíveis é para alimentar os automóveis, e não para alimentar gente. A Soberania Alimentar baseada na agricultura camponesa é a solução para a crise.” “Disseminação de um sistema alimentar local, que não se baseia na agricultura industrial nem no transporte a longa distância, eliminaria até 40% das emissões de gases de efeito estufa. A agricultura industrial aquece o planeta, em quanto a agricultura camponesa desaquece. Uma mudança no padrão do transporte humano para um transporte coletivo e outras mudanças no padrão de consumo, são os passos a mais, necessários para enfrentarmos a crise energética e climática.” países, y mayor pobreza y sufrimiento. El hambre en el mundo sigue su ritmo de crecimiento. La explotación y todas las forma de violencia, en especial contra las mujeres, aumentan. Con la contracción económica en los países ricos, crece la xenofobia en contra de los trabajadores y trabajadoras migrantes, con creciente racismo y represión ...”. (LA VÍA CAMPESINA, 2008a) 124 | A via campesina diante da crise global: a proposição de um modelo agrícola alimentar soberano Carta de Maputo Temas Propostas Reforma Agrária “A Reforma Agrária genuína e integral, e a defesa do território indígena são essenciais para reverter o processo de expulsão do campo, e para disponibilizar a terra para a produção de alimentos, e não para produzir para a exportação e para combustíveis.” Agricultura camponesa sustentável “Somente a produção camponesa agroecológica pode desvincular o preço dos alimentos do preço do petróleo, recuperar os solos degradados pela agricultura industrial e produzir alimentos saudáveis e próximos para nossas comunidades.” Violência contra a mulher “O fim de todos os tipos de violência para com as mulheres, seja ela, física, social ou outras. A conquista da verdadeira paridade de gênero em todos os espaços internos e instâncias de debates e tomada de decisões são compromissos imprescindíveis para avançar neste momento como movimentos de transformação da sociedade.” Semente e água “A semente e a água são as verdadeiras fontes da vida, e são patrimônios dos povos. Não podemos permitir sua privatização, nem o plantio de sementes transgênicas ou de tecnologia terminator.” Criminalização de movimentos sociais “Sim à declaração dos Direitos dos Camponeses e Camponesas na ONU, proposta pela Via Campesina. Será um instrumento estratégico no sistema legal internacional para fortalecer nossa posição e nossos direitos como camponeses e camponesas.” Juventude do campo “É necessário abrir, cada vez mais, espaços em nossos movimentos para incorporara força e a criatividade da juventude camponesa, com sua luta para construir seu futuro no campo.” Alimentação “Nós produzimos e defendemos os alimentos de todos e todas.” Fonte: LA VÍA CAMPESINA, 2008a. Elaborado pelas autoras. A via campesina diante da crise global: a proposição de um modelo agrícola alimentar soberano | 125 Através da análise da carta Agricultura Camponesa e Soberania Alimentar Frente à Crise Global, verificamos que os movimentos sociais, aqui representados pela Via Campesina, têm apontado diversas propostas visando à superação da crise global. Podemos perceber também que as propostas elencadas pela rede têm por eixo central o conceito de Soberania Alimentar. Dessa forma, a Via Campesina propõe não somente algumas soluções possíveis para a superação da crise, mas propõe um modelo agrícola diverso do proposto por algumas organizações internacionais intergovernamentais, como a OMC e a FAO. Ao proporem políticas agrícolas baseadas no conceito de Segurança Alimentar, essas organizações privilegiam ações que contemplam os interesses das grandes corporações em detrimento das propostas pelas populações originárias e camponesas, tais como a reserva das melhores sementes e a sua livre circulação. Diferentemente, a Via Campesina baseia suas ações e suas proposições no conceito de Soberania Alimentar. Esse modelo alternativo, emancipatório, de agricultura possibilita aos povos e países a aplicação de modelos próprios de agricultura, valorizando-se, desse modo, as diferenças culturais existentes e o conhecimento local produzido a partir do respeito às suas próprias especificidades. Destarte, para a Via campesina, a crise global, que se deve ao avanço do capitalismo financeiro e das empresas transnacionais sobre todos os aspectos da agricultura e do sistema alimentar dos países e do mundo, só será superada respeitando-se a soberania alimentar. Este modelo possibilita que a autonomia e a diversidade cultural dos grupos, 126 | A via campesina diante da crise global: a proposição de um modelo agrícola alimentar soberano etnias, populações originárias, camponeses, sejam contempladas nas suas formas de plantar, colher e viver. De modo emancipado, de modo soberano. Referências DESMARAIS, A. A. La Vía Campesina: globalization and the power of peasants. Black Point: Fernwood Publishing, 2007. FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION. Resolution 5/89. 1989. Disponível em: <ftp://ftp.fao.org/ag/cgrfa/res/c5-89e.pdf>. Acesso em: 03 mar. 2010. . World food summit. 1996. Plano de ação da cúpula mundial da alimentação. 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Os estudantes universitários apoiados por professores, pais de alunos, sindicalistas e por vários setores da sociedade têm se manifestado através de marchas e das mais diversas formas de expressão2 a fim de reivindicar mudanças na política educacional adotada pelo governo do Chile. O movimento teve inicio em Santiago do Chile e posteriormente espalhou-se pelas principais cidades do país e no mês de agosto do ano de 2011 atingiu a sua maior expressão. Uma greve geral de dois dias convo1 Professora da Faculdade de Filosofia e Ciências (campus Marília) da Unesp, doutora em Geografia pela Unesp (campus Presidente Prudente). 2 Uma das características peculiares do movimento é que além das formas tradicionais de protestos como marchas, ocupação de universidades, escolas ou prédios públicos e barricadas para bloqueio de vias, os estudantes realizaram panelaços, beijaços, apresentações culturais e greve de fome para chamar a atenção da sociedade e do Estado. 130 | O movimento estudantil no chile: uma das faces da crise econômica e financeira mundial cada pela CUT – Central Única dos Trabalhadores – paralisou 80 setores incluindo a indústria de mineração, uma das maiores fontes de riqueza do Chile. Em vários momentos do movimento ocorreram violentos confrontos entre a população e a polícia chegando até a morte de um jovem de 16 anos. Cabe lembrar que não é a primeira vez na história política do Chile – período pós-Pinochet – que o sistema educacional do Chile é alvo de protestos de estudantes. No ano de 2006 cerca de 800 mil jovens estudantes secundaristas envolveram-se em paralisações e protestos, exigindo passe livre nos ônibus e melhora da qualidade do ensino e da infraestrutura das escolas3. Na busca dos fatores que impulsionam os protestos estudantis é possível elencar duas dimensões da questão. Em uma delas estão os fatores apreendidos em escala nacional partir de uma análise das ações políticas do governo chileno que tem impulsionado os protestos dos estudantes. A outra dimensão diz respeito aos fatores que podem ser apreendidos a partir de uma reflexão dos fatos em escala global, ou seja, os mecanismos políticos internacionais que estão por trás das ações do Governo na gestão do Sistema Público de Ensino no Chile. No que diz respeito à dimensão nacional o descontentamento dos universitários se deve à má qualidade do ensino oferecido, aos altos preços cobrados pela matrícula mesmo em universidades públicas e a um modelo de financiamento que têm condenado muitos estudantes recém3 Este movimento estudantil ficou conhecido como Revolução dos Pinguins uma referência ao uniforme azul e branco usado pelos secundaristas durante os protestos. O movimento estudantil no chile: uma das faces da crise econômica e financeira mundial | 131 -egressos ao endividamento. O movimento reivindica que o governo estabeleça diretrizes que fortaleçam a educação pública e não a iniciativa privada. O atual modelo educacional é o alvo dos protestos dos estudantes Em entrevista a Revista Carta Capital (11/08/2011), o educador chileno Juan García-Huidobro que tem acompanhado o movimento enxerga esta situação como uma das conseqüências do sistema de ensino adotado pelo Estado Chileno, o chamado financiamento compartido: No Chile o sistema educacional funciona pelo chamado financiamento compartido. Ou seja, tanto a escola pública quanto a privada tem o mesmo direito de receber do estado para educar. O problema é que a escola pública não pode cobrar nada dos pais, enquanto que a escola privada cobra um adicional que pode chegar ao dobro. Assim, hipoteticamente, 50% da população são educadas por um valor de 100 pesos por aluno, enquanto que a outra metade é educada com o mesmo valor pago pelo estado, mais 100 pesos da família. Assim temos escolas subsidiadas pelo estado para cada nível socioeconômico distinto. Como se vê no financiamento compartido, as escolas subvencionadas têm a liberdade de cobrar mensalidades às famílias. Esta situação transformou o sistema universitário do Chile em um sistema de segregação socioeconômica, uma vez que o aluno com baixas condições financeiras, por 132 | O movimento estudantil no chile: uma das faces da crise econômica e financeira mundial não ter condições de pagar valores adicionais, só tem chance de cursar a universidade pública, aquela provida de menos recursos, enquanto os alunos de melhores condições econômicas têm a oportunidade de financiar um ensino que, em tese, é mais provido de recursos. De acordo com um dos membros do movimento e secretário-geral da Federação dos Estudantes da Universidade Católica – FEUC – Sebastian Vielmas4 as diversas reformas promovidas no sistema de Ensino Público do país nas últimas décadas culminaram na separação das escolas em três grupos: as públicas, que foram municipalizadas; as privadas subsidiadas, cujos alunos recebem “abonos” do governo; e as totalmente particulares, pagas com dinheiro da família. Para Vielmas essa divisão resultou em duas situações paradoxais: de um lado, há escolas exemplares e reconhecidas internacionalmente – as escolas particulares -, e de outro, instituições de péssima qualidade – as escolas públicas e as escolas subsidiadas. Diante disso o que se vê é uma política de Estado que promove o fortalecimento do sistema de ensino privado e leva a deterioração do ensino público. Outra problemática apontada por Garcia-Huildobro é o endividamento que atinge grande parte dos alunos devido ao sistema de crédito ao estudante. São dois créditos. O primeiro, bem pouco abrangente, começa a cobrar do estudante dois anos depois da formatura. É um crédito do estado e a mensalidade nunca pode su- 4 Em entrevista à Revista Veja: edição de 03/09/2011. O movimento estudantil no chile: uma das faces da crise econômica e financeira mundial | 133 perar 5% do salário. Os desempregados não pagam e a dívida é perdoada se a pessoa não conseguir quitá-la em 20 anos. O problema é que há uma enorme quantidade de inadimplentes, até porque as universidades são pouco eficientes em realizar as cobranças. Com isso, os inadimplentes aparecem em listas de devedores e não conseguem crédito para financiar uma casa, por exemplo. O restante do sistema, cerca de 70% dos matriculados, recebe um crédito chamado “com aval do estado”. É muito mais cruel que o anterior. Quem cobra é o banco privado, por isso os boletos costumam ser entregues com bastante eficiência. A taxa de juros anual é de 5,7%, comparado a 2% do crédito estatal. Não há perdão da dívida, se o ex-estudante está desempregado tem de pagar, se o valor ultrapassa 5% do seu salário paga da mesma forma. É verdade que isso possibilitou um aumento expressivo no acesso ao ensino superior. Mas os estudantes que começaram um curso em 2007 percebem que pagar essa dívida é algo complicado. O governo chegou a propor baixar os juros desse crédito para 4%, assumindo os custos da diferença, e formar uma comissão de estudos para elaborar um projeto de apenas um crédito, que deixe pelo menos os 40% dos estudantes mais pobres numa situação de bolsa de estudo e não de crédito. 134 | O movimento estudantil no chile: uma das faces da crise econômica e financeira mundial Esta realidade aponta para o fato de que a educação no Chile deixou de ser um direito humano fundamental e se transformou em um bem de consumo, em uma mercadoria. O acesso à educação de qualidade, um dos direitos fundamentais do individuo, depende diretamente do poder aquisitivo das famílias quando deveria ser garantido pelo Estado. Juan García-Huidobro vê esta situação como uma das consequências do modelo educacional chileno forjado ainda na era Pinochet e fortalecido posteriormente por seus sucessores. Para o educador tal modelo levou à descentralização e á privatização do ensino superior no Chile. Para uma melhor compreensão deste processo há que se voltar a alguns anos na historia do Chile. Rojas Figueiroa (1997, p.2) em um resgate histórico da educação no Chile mostra a existência de ao menos duas etapas no processo de privatização da educação chilena. A primeira etapa que corresponde ao regime de Pinochet e vai de 1981 a 1990 e a segunda que tem início em 1993 durante o Governo da Negociação de Partidos pela Democracia em que foi instituída a Lei do Financiamento compartilhado. Segundo o autor, até a década de 1980 a maior parte das escolas do Chile era de propriedade pública e de gestão e normatização centralizada no Ministério da Educação. A partir de 1981 todas as escolas, bem como sua gestão, foram privatizadas, ficando somente a normatização centralizada no Ministério da Educação. Com base em dados do Ministério da Educação desse país Rojas Figueiroa ilustra a situação posta acima. O movimento estudantil no chile: uma das faces da crise econômica e financeira mundial | 135 Em 1980 pouco mais de 80% dos matriculados no ensino básico pertenciam a escolas públicas e o restante, 20%, a escolas privadas. Dez anos mais tarde, a cifra de matriculados nas escolas municipais caiu para 58%, enquanto nas escolas privadas subiu para 41%. (1997, p.50) Para o autor a expansão da educação privada ocorreu a expensas da educação pública. A transferência de recursos públicos aos estabelecimentos privados, nesta fase, foi condição essencial do processo de privatização da educação no Chile. Em troca dos subsídios oferecidos pelo Estado a rede privada de ensino deveria ficar encarregada de oferecer educação de qualidade à população. A partir disso teve inicio no Chile a chamada educação particular subvencionada. Segundo Figueiroa “o montante de recursos repassado para o setor privado vai de 63,4 milhões de dólares em 1980 a 465,8 milhões de dólares em 1990” (1997, p.50). No que tange a segunda fase do processo, Rojas Figueiroa (1997) informa que esta teve início com o término da era Pinochet. Com o fim do regime militar foi estabelecido um governo de Negociação de Partidos pela Democracia. Porém muito pouco se avançou no que diz respeito ao estabelecimento de um governo democrático. O sistema eleitoral e a Constituição do país outorgavam muitos poderes ao exército e isto fez com que as reformas educacionais iniciadas anteriormente tivessem plena aceitação entre os parlamentares e fosse dada a continuidade no processo de privatização do sistema ensino sem se quer levar em consideração a participação popular. 136 | O movimento estudantil no chile: uma das faces da crise econômica e financeira mundial Recentemente Danoso Diaz (2005, p.54) quando faz uma análise crítica do processo de privatização da educação chilena nos confirma este fato como algo ainda presente da realidade chilena. [...] mesmo depois da queda do regime militar muitos temas de interesse público não foram discutidos em esferas mais amplas da sociedade, pelo contrário são considerados conhecidos, aceitos ou rejeitados, sem uma discussão mais detida. A falta de uma busca sistemática da opinião pública, mesmo depois de treze anos de reinstaurada a democracia no país, atinge também a discussão a respeito do financiamento da educação tanto em seu nível mais técnico, como também ideológico. O ponto alto desta fase do processo de da educação no Chile deu-se no ultimo ano do governo de Negociação quando foi elaborada e aprovada a lei do Financiamento Compartilhado5 que entre outras coisas: [...] autorizou os estabelecimentos educacionais particulares subvencionados a cobrar mensalidades de seus alunos, sem que o aumento de renda derivada dessa cobrança se traduzisse em diminuição substantiva da 5 O autor em questão utiliza Sistema Compartilhado o qual tem o mesmo significado de Sistema Compartido. O movimento estudantil no chile: uma das faces da crise econômica e financeira mundial | 137 subvenção. E mais, a lei modificou o mecanismo estabelecido durante o regime militar que, por meio de cortes na subvenção, tendia a desestimular tal cobrança. (Rojas Figueiroa, 1997, p. 51) Para Rojas Figueiroa esta lei foi uma ação política antidemocrática do governo pós Pinochet que contribuiu de forma definitiva para aperfeiçoar o projeto privatizador iniciado no governo anterior e que perdura até os dias de hoje. Nesse sentido os atuais protestos dos estudantes chilenos têm sua razão de ser quando se analisa que o processo de privatização do sistema educacional chileno se deu à revelia da participação popular e de suas reais necessidades. Foi uma transformação realizada sob um regime autoritário e imposta em escala nacional sem que houvesse participação ou poder de decisão dos atores envolvidos. O protesto dos universitários se faz legítimo uma vez que a educação é um dos direitos fundamentais do ser humano e, por esta razão, deve ser garantido pelo Estado. Não são poucos os documentos de caráter internacional, assinados por países da Organização das Nações Unidas, que reconhecem e garantem esse acesso a seus cidadãos. Tal é o caso do art. XXVI da Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948. Do mesmo assunto ocupam-se a Convenção Relativa à Luta contra a Discriminação no Campo do Ensino, de 1960, e o 138 | O movimento estudantil no chile: uma das faces da crise econômica e financeira mundial art. 13 do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, de 1966. (Cury, 2002, p.246). Em especial, o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais – PIDESC6 é o principal instrumento internacional de proteção dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. Adotado pela Assembleia Geral da ONU em 1966, sua importância reside no fato de ter surgido para consolidar os principais direitos humanos já declarados na Declaração Universal de Direitos Humanos Possui cerca de 150 signatários, entre estes o Chile. Este documento em seu artigo 13 delibera que os Estados-partes no presente Pacto reconhecem o direito de toda pessoa à educação e concordam que a educação deverá visar ao pleno desenvolvimento da personalidade humana e do sentido de sua dignidade e a fortalecer o respeito pelos direitos humanos e liberdades fundamentais. Ainda segundo o referido documento a educação no contexto nacional deverá capacitar todas as pessoas a participar efetivamente de uma sociedade livre, favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e entre todos os grupos raciais, étnicos ou religiosos e promover as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz. De modo específico sobre a educação superior os países assinantes do Pacto acordaram que: 6 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Resolução n.2.200-A (XXI). 1992. Disponível em: <http://www.oas.org/dil/port/1966%20Pacto%20Internacional%20sobre%20os%20Direitos%20Econ%C3%B3micos,%20 Sociais%20e%20Culturais.pdf>. Acesso em: 17 ago. 2012. O movimento estudantil no chile: uma das faces da crise econômica e financeira mundial | 139 A educação de nível superior deverá igualmente tornar-se acessível a todos, com base na capacidade de cada um, por todos os meios apropriados e, principalmente, pela implementação progressiva do ensino gratuito. (ONU, 1992) Nestes termos o que se presencia no Chile aponta para o fato de que o Estado Chileno encontra-se na contramão do caminho que se comprometeu trilhar quando firmou o referido Pacto. As considerações realizadas até aqui apontam para o fato de que o motivo dos conflitos entre o movimento estudantil e o Estado chileno reside na natureza das políticas educacionais implantadas no país nas três ultimas décadas. Políticas estas que levaram à privatização e consequentemente à mercantilização do sistema de ensino chileno. Por outro lado quando se ultrapassa a escala nacional e se contextualiza a problemática no âmbito global é possível verificar que as considerações realizadas deram conta de apenas uma pequena parte da realidade. Nestes termos para uma compreensão da totalidade da questão há que se levar em conta um fato importante na história do sistema capitalista e da maioria das nações latino-americanas, qual seja a adoção por parte dos governos latino-americanos dos princípios neoliberais como norteadores de suas políticas sociais e econômicas. A seguir serão realizadas algumas considerações sobre esta dimensão. Para uma análise mais aprofundada dos fatores envolvidos nos protestos estudantis do Chile, ou seja, aqueles fato- 140 | O movimento estudantil no chile: uma das faces da crise econômica e financeira mundial res não visíveis de imediato faz-se necessário uma contextualização da problemática no âmbito da Sociedade Global. De modo mais específico que se retroceda algumas décadas na história da sociedade capitalista e das nações latino-americanas e se reflita sobre a influência dos princípios neoliberais nas políticas de Estado dos países latino-americanos. Em meados da década de 1980, com o fim do período ditatorial na maioria das nações latino-americanas, sob a liderança dos Estados Unidos foram realizadas reformas capazes de promover ajustes nas economias destes países que em regra geral acumulavam significativa divida externa. As reformas assumidas integralmente pelas autoridades políticas da região promovidas pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial tiveram como principio norteador o neoliberalismo. A ortodoxia neoliberal promovida pelos organismos financeiros internacionais, especialmente o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, foi assumida pelas elites políticas e econômicas locais como a única receita válida para superar o déficit publico e estabilizar as convulsionadas economias da região (Gentili, 1998, p.p 13-14). O neoliberalismo é um conjunto de ideias que nasceu logo depois da II Guerra Mundial, na região da Europa e da América do Norte onde imperava o Capitalismo. Segundo Anderson (1995) O movimento estudantil no chile: uma das faces da crise econômica e financeira mundial | 141 [...] foi uma reação teórica e política veemente contra o Estado intervencionista e de bem estar (...) um ataque apaixonado contra qualquer limitação dos mecanismos de mercado por parte do Estado, denunciadas como uma ameaça letal à liberdade, não somente econômica, mas também política (Anderson, 1995, p.9). Os adeptos do neoliberalismo europeu defendiam veementemente que a “proteção social” promovida pelo Estado de bem estar social destruía a liberdade dos cidadãos e a vitalidade da concorrência, da qual dependia a prosperidade de todos. Assim para os defensores do neoliberalismo europeu da época “a desigualdade era um valor positivo – na realidade imprescindível em si –, pois disso precisavam as sociedades ocidentais” (Anderson, 1995, p.10). Com a chegada da crise do capitalismo a partir de meados da década de 1970 em que os países desenvolvidos sentiram os efeitos de uma profunda recessão combinada com altas taxas de inflação e baixas taxas de crescimento, as ideias neoliberais que até então estavam restritas às teorias passaram ganhar terreno na prática politica dos Estados. O primeiro país da Europa a aderir ao ideário neoliberal foi a Inglaterra com o governo de Margareth Tatcher em 1979, em seguida, no ano de 1980, os EUA com o governo Ronald Reagan, em 1982 Alemanha, em 1983 a Dinamarca e posteriormente quase todos os países do norte da Europa Ocidental com exceção do Suécia e da Áustria, aderiram aos pressupostos do neoliberalismo. (idem, ibidem) 142 | O movimento estudantil no chile: uma das faces da crise econômica e financeira mundial Neste contexto muitas medidas foram tomadas a fim de que o ideário neoliberal fosse colocado em prática. Todas elas tinham como objetivo minimizar os gastos sociais do Estado, e reduzir por completo a sua intervenção no setor econômico. Outro alvo de combate do neoliberalismo eram os sindicatos e a sua politica protecionista aos trabalhadores. A estabilidade monetária deveria ser a meta suprema de qualquer governo. Para isso seria necessária uma disciplina orçamentaria, com a contenção de gastos com bem estar e a restauração da taxa “natural” de desemprego, ou seja, a criação de um exército de reserva de trabalho para quebrar os sindicatos. (idem, p.11) Desse modo no final da década de 1980 aqueles países que adotaram as políticas neoliberais alcançaram grande êxito no combate à inflação, no aumento das taxas de lucros e no combate ao movimento sindical. Para Anderson a principal razão deste êxito refere-se à derrota do movimento sindical, expressado na queda drástica do número de greves durante os anos de 1980 e numa notável contenção de salários. Isto porque o movimento sindical adotara uma postura moderada tendo em vista os altos índices de desemprego que marcaram os anos de 1980 e de 1990. Outra marca das politicas neoliberais foi o amplo programa de privatizações começando por habitação pública e passando em seguida a indústrias básicas como o aço a O movimento estudantil no chile: uma das faces da crise econômica e financeira mundial | 143 eletricidade, o petróleo, o gás e a agua. Este programa de privatização posteriormente atingiu a saúde e a educação públicas. O objetivo era retirar de cena o Estado enquanto “protetor social”. Embora os resultados econômicos, em um primeiro momento, tenham sido satisfatórios este processo trouxe sérios problemas sociais que são sentidos até os dias atuais uma vez que o Estado do bem estar social findou-se e cedeu lugar a um Estado ausente e descompromissado com as necessidades sociais básicas. Nos países da América Latina o ideário neoliberal também teve seu avanço e, como foi dito anteriormente, foi orquestrado pelos EUA através do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional. Este processo marcou profundamente a sociedade e a economia dos países desta parte do mundo. Nesta época em que os EUA detinham a hegemonia exclusiva do planeta, o neoliberalismo tornou-se uma ideologia dominante que procurava responder à crise do Estado nacional ocasionada pelo processo de globalização, isto é, pelo processo de interligação crescentes das economias das nações industrializadas por meio do comercio e das novas tecnologias (Ianni, 1992). Para Gentili (1998) a retórica neoliberal fundou-se num acordo Global que “foi penetrando capilarmente no senso comum das administrações governamentais latino-americanas” (p.15). Neste contexto o Chile em especial foi o pioneiro do ciclo neoliberal da história da América Latina e também do mundo. 144 | O movimento estudantil no chile: uma das faces da crise econômica e financeira mundial Isto porque nos anos de 1970, antes mesmo de sua implantação na Inglaterra, o neoliberalismo e seus princípios foram implantados no Chile em meio ao regime ditatorial de Augusto Pinochet. Segundo Anderson este país foi à experiência-piloto para o neoliberalismo dos países avançados do ocidente. “O Chile de Pinochet começou seus programas de maneira dura: desregulação, desemprego massivo, repressão sindical, redistribuição de renda em favor dos ricos, principalmente de bens públicos” (1995, p.19). Como resultado disto a economia chilena cresceu em um ritmo muito rápido sob o regime de Pinochet e também sob o governo daqueles que lhe substituíram. Por outro lado no âmbito social do país as consequências foram devastadoras. É neste ponto que se faz pertinente a retomada da questão dos protestos estudantis no Chile. Na realidade o descontentamento dos universitários chilenos, foco das reflexões do presente texto, representa um protesto às condições da Educação Superior. Condições estas resultantes das políticas neoliberais adotadas pelo Estado há mais de três décadas, em especial, às políticas que culminaram na privatização e descentralização do sistema de ensino chileno. O mais grave de tudo isso é que as políticas foram elaboradas e implantadas por agentes financeiros externos ao Chile e à revelia das necessidades sociais da população. Em uma reflexão sobre a reforma neoliberal da educação superior no Chile, Danoso Diaz esclarece alguns pontos desta questão: Em 1981, o regime militar realizou uma grande mudança no sistema educacional como um todo, o que também envolveu a O movimento estudantil no chile: uma das faces da crise econômica e financeira mundial | 145 educação universitária. O sistema universitário nacional em vigor até 1980 tinha como modelo o financiamento da oferta e previa a ação direta do Estado na educação; a partir de 1981, foi substituído por um modelo com componentes de financiamento da demanda. (Danozo Diaz, 2005, p.54) Segundo o autor naquela ocasião o país vivia um regime político ditatorial, em que a participação da população nas decisões nacionais era nula, e no plano econômico vivenciava a reforma neoliberal cujo objetivo era aumentar a participação de setores privados em cada um dos setores da atividade econômica e diminuir a estrutura estatal e a responsabilidade do Estado na produção de bens e serviços. Neste processo o sistema educacional não escapou destas mudanças. Para Danoso Diaz [...] a mudança na modalidade de financiamento público da educação obedeceu fundamentalmente a uma decisão política das autoridades do país em aplicar sem restrições o modelo econômico de livre- mercado em âmbito nacional, que abarcou o conjunto dos setores da sociedade, inclusive o educacional. (idem, p.54) Em consequência deste processo o sistema educacional nacional sofreu reformas estruturais e mudanças nos meca- 146 | O movimento estudantil no chile: uma das faces da crise econômica e financeira mundial nismos do financiamento. Tal reforma reservou ao Estado um papel secundário. Como exposto no item anterior deste texto, a reforma mudou os critérios de atribuição dos recursos financeiros ao sistema universitário, resultando na privatização e descentralização do sistema educacional. Gentili (1998) esclarece a lógica neoliberal para a privatização da Educação. Segundo ele Trata-se de transferir a educação da esfera política para a esfera do mercado, negando sua condição de direto social e transformando-a em uma possibilidade de consumo individual, variável segundo o mérito e a capacidade dos consumidores. A E educação deve ser pensada como um bem submetido às regras diferenciais da competição. Longe de ser um direito do qual gozamos indivíduos dada sua condição de cidadãos, deve ser transparentemente estabelecida como uma oportunidade que se apresenta aos indivíduos, empreendedores, aos consumidores “responsáveis” na esfera de um mercado flexível dinâmico [o mercado escolar] (p. 19). Assim a orientação administrativa proposta pelo receituário neoliberal é a de despublicizar a educação e transferi-la para a esfera da competição privada, reduzindo-a na sua condição de mercadoria. Neste contexto a educação deve ser protegida não como um direito social, mas pelos direitos que O movimento estudantil no chile: uma das faces da crise econômica e financeira mundial | 147 asseguram o uso e a disposição da propriedade privada por parte de seus legítimos proprietários. Desta feita em uma análise das ações políticas e das reformas educacionais realizadas no Chile nas ultimas décadas é possível identificar claramente elementos de orientação neoliberal. O que vemos neste país é um processo que resultou de modo bastante eficaz na descentralização e privatização do sistema de ensino. É contra isto que os estudantes chilenos protestam. Assim para compreender a realidade em sua totalidade há que ultrapassar a análise das determinantes nacionais e partir para sua contextualização no âmbito da sociedade global. Referências ANDERSON, Perry. Balanço do Neoliberalismo. In: SADER, Emir & GENTILI, Pablo. Pós–Neoliberalismo: As Políticas Sociais do Estado Democrático. 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