ARTIGO ORIGINAL
CONDIÇÕES DE VIDA E SAÚDE BUCAL: UMA ABORDAGEM TEÓRICO-CONCEITUAL
DAS DESIGUALDADES SOCIAIS
Johelle de Santana Passosa
Tania Maria Araújob
Isaac Suzart Gomes Filhoc
Simone Seixas da Cruzd
Resumo
A obtenção de uma boa saúde bucal deve passar por um padrão de vida aceitável
no qual se incluem as condições apropriadas de trabalho, de educação, atividades culturais e de
recreação representadas pelas condições de vida O objetivo deste ensaio é apresentar os
fundamentos que colocam a condição de vida como importante categoria de análise para
investigação do processo saúde-doença, evidenciando, na literatura, a sua abordagem nos estudos
de condição bucal das populações. A metodologia compreendeu revisão dos principais trabalhos
epidemiológicos que abordaram a temática “situação de saúde e condição de vida” e seleção de
estudos específicos da área odontológica que visam focar a determinação social na condição bucal.
Os estudos revisados mostram que a saúde bucal brasileira reflete a desigualdade socioeconômica
vigente e o difícil acesso à assistência odontológica para a maioria da população. Esses trabalhos
corroboram que a saúde da população apresenta forte gradiente social reproduzido nos diversos
países, independentemente da natureza, abrangência, eficácia e eficiência dos sistemas de saúde.
Conclui-se que a maioria dos estudos evidencia que o social ainda é visto como atributo individual,
não se alicerçando a compreensão dos processos desenvolvidos, passando-se ao longo da
determinação estrutural e das relações sociais.
Palavras-chave: Condições sociais. Saúde bucal. Cárie dentária. Periodontite. Iniquidade social.
a
Doutoranda em Saúde Pública, Instituto de Saúde Coletiva (ISC), Universidade Federal da Bahia (UFBA). Pesquisadora do Núcleo
de Pesquisa, Prática Integrada e Investigação Multidisciplinar (NUPPIIM), da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).
Doutora em Saúde Pública pelo ISC/UFBA. Coordenadora do Núcleo de Epidemiologia (NEPI). Professora do Programa de
Pós-Graduação em Saúde Coletiva da UEFS.
c
Doutor em Periodontia, Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB), Universidade de São Paulo (USP). Coordenador do
b
d
NUPPIIM. Professor do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da UEFS.
Doutora em Saúde Pública pelo ISC/UFBA. Pesquisadora do NUPPIIM. Professora do Programa de Pós-Graduação em Saúde
Coletiva da UEFS.
Endereço para correspondência: Universidade Estadual de Feira de Santana, Departamento de Saúde, Programa de Pós-Graduação
em Saúde Coletiva, Núcleo de Pesquisa, Prática Integrada e Investigação Multidisciplinar (NUPPIIM). Avenida Transnordestina, s/n,
bairro Novo Horizonte, Feira de Santana, Bahia, Brasil. CEP: 44036-900. [email protected]
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de Saúde Pública
LIFE CONDITIONS AND ORAL HEALTH: A THEORETIC CONCEPTUAL APPROACH OF
SOCIAL INEQUALITIES
Abstract
Achieving good oral health must go through an acceptable standard of living which
cover the appropriate working condition, education, cultural activities and recreation represented
by the living conditions. The aim of this paper is to present the grounds for making living conditions
an important analytical category for investigations on the health-disease process, through
demonstrating the approach taken in studies on the oral conditions of populations, in the literature.
Methodology included a review of the most important epidemiological studies dealing with the
topic of “health situation and living conditions”, and selection of specific studies within dentistry
that aimed to focus on social determination of oral conditions. The studies showed that Brazilian
oral health reflects the prevailing socioeconomic inequalities and the difficulties in accessing dental care faced by the majority of the population. They have confirmed that the health of populations
presents a strong social gradient that is reproduced in different countries, independent of the
nature, coverage, effectiveness and efficiency of the healthcare systems. These studies lead to
conclude that social factors are still seen as an individual attribute that is not based on comprehension
of the processes developed, thereby skating over structural determinations and social relationships.
Key words: Social conditions. Oral health. Dental caries. Periodontitis. Social inequity.
CONDICIONES DE VIDA Y SALUD BUCAL: UNA APROXIMACIÓN
CONCEPTUAL-TEORIA DE LAS DESIGUALDADES SOCIALES
Resumen
El logro de una buena salud oral debe pasar por un nivel de vida aceptable, que
incluye las condiciones adecuadas de empleo, educación, actividades culturales y recreativas
representadas por las condiciones de vida. El objetivo de este trabajo es presentar los fundamentos
que comprometen la condición de vida como una categoría importante de análisis para investigar
el proceso salud-enfermedad, demostrando a través de la literatura que ese enfoque en los
estudios de la condición bucodental de las poblaciones. La metodología incluyó la revisión de los
principales estudios epidemiológicos relacionados con el tema de las condiciones “situación de
salud y condición de vida”, y la selección de algunos estudios dentales específicos centrados en la
determinación social en la condición oral. Los estudios revisados muestran que la salud oral en
Brasil refleja la situación de desigualdad socio-económica y la falta de acceso a la atención dental
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para la mayoría de la gente. Estos estudios confirman que la salud de la población tiene una fuerte
influencia social replicado en varios países, independientemente de la naturaleza, el alcance, la
eficacia y la eficiencia de los sistemas de salud. Se concluye que la mayoría de los estudios
demuestran que lo social es aún visto como un atributo individual, no fundamentando la
comprensión de los procesos desarrollados, pasando de largo la determinación de la estructura y
las relaciones sociales.
Palabras-clave: Condiciones sociales. Salud bucal. Caries dental. Periodontitis. Iniquidade social.
INTRODUÇÃO
A despeito da prioridade do tema desigualdades sociais na agenda das organizações
internacionais e das instituições nacionais de saúde, em razão de sua expressão entre os quinze
problemas emergenciais que comprometem o futuro da humanidade, ações destinadas à sua
redução têm se defrontado principalmente com a falta de informação básica sobre a temática das
desigualdades em saúde e em serviços de saúde.1
No Brasil, a magnitude e a abrangência dessas desigualdades que caracterizam nossa
sociedade têm sido objetos de investigação intensa, ocupando lugar central na agenda de
pesquisas das diversas ciências sociais, quaisquer que sejam as perspectivas teóricas privilegiadas.
A busca de um aprimoramento teórico-metodológico que sustente os estudos de
desigualdades e iniquidades no processo saúde-doença tem levado as condições de vida e seus
impactos sobre a situação de saúde da população a um destaque crescente no campo da saúde
coletiva.2
Essa relação entre condições de vida e saúde mostra-se presente nas abordagens
mais conceituais e teóricas sobre causalidade em saúde do século XX. Desde então, nos variados
modelos de determinação das doenças, a tentativa de aproximação do social à saúde da população
é evidenciada em modelos como o ecológico, de Gordon, apresentado em 1920, quando da
incorporação do “ambiente social” nos aspectos referentes à renda, moradia, trabalho e
saneamento; da história natural da doença, de Leavell e Clark, que inspirou o preventivismo na
década de 1950; no conceito de “campo de saúde” de Lalonde, levado a público em 1974, que
introduziu os serviços de saúde e o estilo de vida;3 e nos modelos de explicação da epidemiologia
social que apresentam em comum a abordagem hierárquica da realidade e a valorização de
distintos processos de produção.4
Os estudos ecológicos têm proporcionado correlações entre indicadores
epidemiológicos e indicadores socioeconômicos, geralmente provenientes de censos. Sendo
assim, pessoas e áreas situadas em nível socioeconômico mais baixo apresentam, quase
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sempre, condições de saúde deficientes, independente da medida usada para avaliá-las
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(autorreferida ou clinicamente avaliada). Quanto às doenças bucais, esse padrão parece seguir
o mesmo percurso.
A observação do gradiente socioeconômico na saúde bucal deve ser então
considerado, uma vez que as evidências da determinação da pobreza e da dimensão social no
estado de saúde geral mostram-se cada vez mais presentes.
Nesse contexto, considerando que a saúde bucal envolve inúmeras variáveis
relativas ao indivíduo e ao ambiente físico e social, sua interpretação exige um enfoque mais
amplo, não sendo apropriado então o enfoque reducionista do modelo biomédico, criticado pela
ênfase na dicotomia corpo-mente e doença-enfermo.5
A obtenção de uma boa saúde bucal, então, deveria passar por um padrão de
vida aceitável, no qual se incluem as condições apropriadas de trabalho, de educação,
atividades culturais e de recreação representadas pela categoria condições de vida. Dessa
forma, essas condições de vida, colocadas como condições materiais necessárias à
subsistência,6 não podem ser vistas como categorias estanques, separadas, uma vez que a
situação de saúde refere-se a fatos que integram as condições de vida condizentes com o
conceito integral de saúde/doença.7
O objetivo deste ensaio é apresentar os fundamentos que colocam a condição de
vida como importante categoria de análise para investigação do processo saúde-doença,
evidenciando, na literatura, sua abordagem nos estudos de condição bucal das populações.
SAÚDE E CONDIÇÕES DE VIDA
Os aspectos sociais da doença têm sido uma das preocupações constantes nos
estudos de saúde que se propõem a compreender as articulações existentes entre os processos
sociais e o processo saúde-doença.
Essa integração do conhecimento biológico aos fenômenos sociais tem sido um
desafio na epidemiologia,6 em grande parte decorrente das limitações observadas nos
instrumentais metodológicos utilizados nos variados estudos. Dessa forma:
[...] tem-se que se considerar que nenhum campo do saber, ou qualquer
categoria de estudo isolada, tem dado conta da pluralidade de fatores
implicados no processo saúde/doença, o que exige um esforço
conceitual e metodológico para a identificação de recortes mais
adequados e de métodos mais sensíveis para apreendê-los
concretamente na prática investigativa. Assim, é necessário o aporte de
outros campos do conhecimento, adotando-se uma perspectiva inter
(ou trans) disciplinar.8:2
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Nesse sentido, a Organização Mundial de Saúde (OMS) tem estimulado a
elaboração de investigações que possibilitem discriminar melhor a situação de saúde segundo as
condições de vida.9
Diversos estudos têm associado a doença com a situação socioeconômica,
mostrando seu reflexo na estrutura social, particularmente nas suas divisões de classe.10 Na
sociedade capitalista, o acesso aos bens e serviços depende da inserção no processo social da
produção, ou seja, da sua condição de classe social.
Considerando os problemas conceituais e metodológicos referentes à
operacionalização do conceito de classe social, introduziram-se as categorias estrutura ocupacional e
modo de vida como mediadores desse conceito.7 A heterogeneidade estrutural brasileira, marcada
pela coexistência do “atraso” e da “modernidade”, bem como a mobilidade ocupacional que expõe
o indivíduo a processos de trabalho diversificados, confere importância às condições de vida e de
trabalho na determinação e diferenciação dos padrões epidemiológicos ligados à exclusão social.
Nesse modelo de determinação, a conformação das classes sociais apresenta-se
dependente da inserção socioeconômica do indivíduo na sociedade. Os indivíduos, então, ficam
submetidos às formas de inserção ocupacional distintas e a um dado modo de vida que é
condicionado pela remuneração obtida na venda da sua força de trabalho.3
O modo de vida é representado pelas condições de vida e pelo estilo de vida. O
primeiro caso alude às condições materiais próprias à subsistência e relacionadas à nutrição, à
habitação, ao saneamento básico e às condições do ambiente. O estilo de vida, por sua vez,
refere-se às formas sociais e culturalmente determinadas de vida, expressas no padrão alimentar,
no gasto energético cotidiano do trabalho, em hábitos como fumo, álcool e lazer, entre outros
determinantes do processo saúde doença.
As condições de vida, conformadas pela renda proporcionada pelo trabalho,
enquadram-se na estrutura de consumo (modo de vida) que, juntamente com a estrutura de
produção (inserção na estrutura ocupacional), determinam o perfil epidemiológico da população. O
estudo das condições de vida de determinados grupos sociais deve levar em conta não só a
distribuição de renda e o poder aquisitivo, mas também as ações estatais que buscam garantir o
atendimento de necessidades coletivas como serviços de saúde, saneamento básico, transporte,
educação, alimentação e nutrição, lazer e segurança.3
Alguns autores têm se inclinado para o emprego de indicadores compostos por
diferentes variáveis socioeconômicas como maneira de explicar os diferenciais de saúde,
permitindo uma aproximação dessas “carências” de condições materiais de existência nos grupos
sociais, que são determinadas pela forma como se inserem no processo de reprodução social, sob
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condições naturais específicas e em um dado momento histórico.11 A depender das variáveis de
condição de vida selecionadas, diferentes recortes da realidade podem ser obtidos, pois cada
indivíduo ou grupo social tem necessidades e riscos característicos que traduzem um perfil de
problemas de saúde/doença peculiares. O perfil de condições de vida pode ser expresso nas
dimensões predominantemente ecológicas (abastecimento de água, esgotamento sanitário, coleta
de lixo e número de moradores por dormitório), de consciência e conduta (analfabetismo, anos de
estudo), biológicas (causalidade) e econômicas (renda).12
Uma alternativa teórico-metodológica recomendada para análise das
necessidades e desigualdades sociais da saúde é o estudo das condições de vida segundo a
inserção espacial, pensando o espaço além de sua condição geográfica, como expressão das
condições de vida dos segmentos que o ocupam.3 O espaço social surge como mediador da
relação condição de vida e saúde e é definido pelas relações sociais decorrentes do modo de
produção econômica; sua evolução é concomitantemente uma condição e uma consequência
do desenvolvimento de uma sociedade global.13 A abordagem dos distintos espaços da cidade,
ocupados por diferentes grupos populacionais, permite uma aproximação da realidade, a
despeito de sua complexidade.14
Deve-se ainda dizer que a condição de vida do sujeito é determinada pela posição
que ele ocupa no espaço em relação ao tipo de poder ou capital obtido. Deste modo, o capital
econômico (renda), ao mesmo tempo que pode gerar riscos específicos como os ocupacionais,
simboliza maior acesso ao cuidado e condições de vida, permitindo melhor enfrentamento do
processo de adoecimento; o capital cultural (grau de instrução) permite acesso ao saber sobre
riscos de adoecer e a prevenção; o capital simbólico (prestígio, reconhecimento pessoal/
profissional) relaciona-se à dimensão subjetiva da satisfação das pessoas com a vida, tornando-as
mais normativas ao meio; e o capital social (coesão social) diz respeito a um conjunto de
elementos da organização social, como confiança mútua, solidariedade e engajamento cívico,
que facilitam a coordenação e a cooperação de ações coletivas para o alcance de benefícios
mútuos.3,15 Portanto, pode-se afirmar que a exposição aos diversos riscos depende de como o
indivíduo coloca-se nos diferentes campos, bem como das relações decorrentes desse
posicionamento.3
No que se refere à saúde bucal, essa exposição aos riscos parece transitar mais
frequentemente nos grupos com menor acúmulo e disponibilidade desses capitais referidos. A
determinação da saúde/doença bucal passaria pela expressão do perfil de condições de vida em
suas diversas dimensões, sendo traduzida pelas diferentes necessidades e carências particulares de
cada agente social.
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Dessa forma, os aspectos aqui considerados intrínsecos à abordagem da categoria
condição de vida devem ser transpostos aos estudos epidemiológicos de saúde bucal como forma
de melhor compreender a articulação entre os processos sociais e o processo saúde-doença bucal.
ABORDAGEM DA CATEGORIA CONDIÇÕES DE VIDA EM ESTUDOS DE
SAÚDE/DOENÇA BUCAL
Diante dessa necessidade de compreensão coletiva do processo saúde-doença
bucal, enfocando a sua dimensão social, alguns estudos têm tentado relacionar aspectos
socioeconômicos dos indivíduos com os perfis das doenças bucais. Não obstante o crescente
número de pesquisas sobre o papel das condições sociais como produtora de doenças bucais,
percebe-se ainda que, na maioria dos trabalhos existentes, o social é reduzido a variáveis
assumidas como atributos dos indivíduos, o que desvitaliza o social em sua essência, impedindo a
apreensão da relação proposta.16
O exame dos processos sociais não se deve reduzir à soma dos comportamentos
individuais. Deve-se também explorar como as práticas são moldadas pela cultura local, uma vez
que a cultura e o ambiente têm impacto na saúde e até na forma como a sociedade responde às
desigualdades.17
A abordagem das condições de vida nos estudos de saúde bucal pode ser ilustrada
por alguns trabalhos que analisam a distribuição das duas principais doenças bucais consideradas
grandes problemas de saúde pública – a cárie e a doença periodontal.18,19 Nesses estudos,
sugere-se considerar a etiologia das desigualdades sociais, como a má distribuição de renda, a
falta de participação na riqueza nacional, o desemprego, o atraso tecnológico em alguns setores,
o analfabetismo e as dificuldades de acesso aos serviços odontológicos como elementos
determinantes da condição bucal.
As variáveis de condições de vida, entendidas como definidoras de possibilidades
dos indivíduos de serem normativos ao meio e desenvolverem ou não doenças,5 normalmente são
operacionalizadas por meio de indicadores como ocupação, renda, acesso à água potável,
aglomeração domiciliar, percentagem de criança sem escola e anos de estudo.
O enfoque nas melhorias das condições de vida da população, com a consequente
diminuição das desigualdades, passa a ser ponto pacífico nesses trabalhos como principal estratégia
para prevenção e controle das doenças bucais.
Uma especial vulnerabilidade à cárie e doença periodontal está associada à
exposição mais intensa aos fatores de risco e à privação material e social,20 observando-se um
padrão de risco desvantajoso para aqueles indivíduos pertencentes aos grupos sociais menos
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privilegiados. Alguns estudos mostram que a prevalência da cárie, por exemplo, diminuiu na
medida em que o nível socioeconômico aumentou, mesmo em áreas sem adição de flúor na água
de abastecimento público.21
A situação socioeconômica tem sido então considerada como um fator
determinante do risco de cárie. A despeito do declínio da cárie dentária, ela vem sendo
acompanhada pela polarização da doença nos grupos menos privilegiados. A baixa renda pode
estar associada ao grau de educação, ao valor atribuído à saúde, estilo de vida e acesso à
informação sobre cuidados de saúde. Como consequência, a renda familiar pode ser um fator
indireto para a susceptibilidade à cárie.22
O capital econômico de um determinado grupo/indivíduo mostra-se fortemente
associado com a limpeza bucal. Indivíduos de classe mais alta parecem escovar mais vezes os
dentes e mais efetivamente, com uso de mais itens de higiene bucal, do que os de baixa renda.
Há que se considerar ainda, quanto a aspectos dietético-nutricionais, que a
quantidade de capital cultural obtida pelo indivíduo contribui de modo importante para a
manutenção ou não de hábitos alimentares deletérios. Estudo que avaliou aspectos sociais e
culturais na prevalência da cárie dentária em escolares de Jaraguá do Sul23 encontrou que famílias
de baixa renda apresentavam o hábito de ingerir mel em grande quantidade e frequência, e mães
de classes sociais de menor renda tendem a amamentar seus filhos por menos tempo e também a
acrescentar açúcar e farinhas às mamadeiras, sugerindo, assim, que a educação e a cultura dos pais
influenciam o tipo de alimentação dada aos filhos.
A literatura mostra que a educação, constituinte do capital cultural, está associada
com a posição social, com a ocupação, com o nível de saúde e com o acesso aos cuidados de
saúde.24 Indivíduos com melhor nível educacional têm, em geral, uma situação ocupacional mais
elevada, melhores condições habitacionais e estilos de vida mais adequados.
Além da renda familiar, a inserção social tem influência na prevalência das doenças
bucais. Crianças de pais com grau de escolaridade maior começam a ter seus dentes higienizados
mais precocemente, com impacto significativo na saúde bucal. Além disso, a disponibilidade de
instalações sanitárias adequadas, favorece as práticas de higiene pessoal.25
Considerando-se a relevância da pobreza relativa na maneira como ela exclui
pessoas, social e materialmente, das oportunidades proporcionadas pela sociedade, a associação
entre condições de saúde bucal, privação material (falta de bens, serviços e recursos largamente
aceitos na sociedade) e social (ausência de participação ativa na sociedade) tem sido analisada
em alguns estudos,26,27 verificando-se relação inversa entre medidas de capital social e
desigualdade de renda.
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Uma vez definida a coesão social como constituinte do capital social e decorrente
da confiança cívica entre os cidadãos e da participação ativa na vida associativa, observou-se, em
sociedades socialmente mais coesas, em que o apoio social é presente, que o bem-estar dos
indivíduos é potencializado e a situação de saúde é melhor quando comparada a sociedades
desagregadas. Dessa maneira, a participação da comunidade no desenvolvimento, planejamento e
implementação das intervenções no processo saúde-doença é imprescindível para o impacto
resolutivo das políticas de saúde bucal com redução das desigualdades, uma vez que o efeito da
concentração de renda sobre a saúde é mediado pelo capital social.4
Estudo28 que analisou os dados do último levantamento epidemiológico de saúde
bucal no Brasil, entre 2002 e 2003, concluiu que o efeito da desigualdade de renda sobre a
condição bucal é explicado principalmente pelas políticas públicas, que apresentam ações mais
resolutivas nos grupos de indivíduos com maior escolaridade e renda, reduzindo o risco de perdas
dentárias e dentes cariados.
Acredita-se que sociedades com grande nível de concentração de renda são as que
menos investem em programas sociais, resultando em educação pública e assistência médica
insuficientes, habitação inadequada e capacitação profissional deficiente. Neste contexto, as
condições de saúde estariam refletindo as desigualdades de acesso aos serviços coletivos
necessários ao bem-estar social.
É importante frisar que o desenvolvimento econômico não significa necessariamente
melhores condições de saúde e de vida para a maior parte da população. Estudo29 que investigou a
associação entre experiência de cárie, desenvolvimento econômico, despesas com saúde, tipo de
sistema de saúde e urbanização em 109 países, observou que a cárie em crianças foi mais
prevalente nos países em desenvolvimento com renda média e alta, onde havia maior taxa de
urbanização e os alimentos cariogênicos eram mais disponíveis do que nos países de renda baixa.
No Brasil, essa carência social é impelida a conviver insistentemente com um
modelo de produção científica e tecnológica incompatível com a realidade, na qual as diferenças
sociais são ainda agravadas pela mercantilização da saúde bucal, que coloca a necessidade do
reparo dentário acima da necessidade de ser saudável, criando falsas necessidades. Nesse
pensamento, a condição bucal como resultante do processo de reprodução das condições
materiais e da inserção estrutural do indivíduo na sociedade, condiciona os serviços odontológicos
como valores de uso e troca, destacando as desigualdades do modelo assistencialista.
Levantamentos epidemiológicos têm possibilitado verificar-se a polarização das doenças
bucais em áreas de privação socioeconômica, o que leva a considerar o espaço, como anteriormente
apresentado, como uma possibilidade de estratificar a população segundo condições de vida,
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informando certas relações entre sociedade e saúde bucal. Desse modo, muitas diferenças que
geralmente se mostram associadas ao efeito do espaço geográfico são efeitos da distribuição de capital
nesse espaço.15 Estudo de análise espacial30 constatou associação entre cárie e número de pessoas que
dormiam por cômodo em uma casa, indicando um comprometimento habitacional e social.
Diferenças no comportamento de saúde bucal e na qualidade da condição bucal
entre áreas privilegiadas e não privilegiadas foram evidenciadas em estudo de revisão sobre
privação e saúde bucal.26 Segundo o autor, as características de uma área em que os indivíduos
vivem podem influenciar sua condição bucal e comportamento numa proporção maior ou menor
do que as características pessoais/familiares. No entanto, essas medidas espaciais de privação
servem para complementar e ajudar a explicar os modelos de desigualdades em saúde, mas não
chegam a substituir as medidas convencionais das condições socioeconômicas.
Dessa maneira, o uso de determinantes sociais da saúde bucal na pesquisa
epidemiológica deve conhecer a presença da interligação complexa dos mecanismos causais que
variam ao longo do tempo e espaço. O foco exclusivo nos mecanismos causais diretos da
doença bucal falham em compreender como os fenômenos sociais relacionam-se com o
processo saúde-doença.17
Este estudo permitiu concluir-se que as desigualdades na saúde, seja relacionadas às
diferenças no risco de adoecer, seja no acesso a tecnologias ou serviços de saúde, constituem
enorme desafio, mesmo em países com maior nível de bem-estar social. A compreensão da
diversidade relativa às necessidades no campo da atenção odontológica é fundamental para o
planejamento dos serviços de saúde bucal, com vistas a uma maior equidade.
A redução das desigualdades em saúde bucal, sem que haja uma melhoria das
condições de vida da população, está sujeita a sofrer uma reversão toda vez que o sistema de
saúde não atender adequadamente às necessidades e/ou deteriorarem-se ainda mais as
condições de vida.
Pode-se afirmar ainda que, na maioria dos estudos específicos de saúde bucal
existentes na literatura, o social ainda é visto como um atributo individual, não se alicerçando a
compreensão dos processos desenvolvidos, passando-se ao longo da determinação estrutural e das
relações sociais.
É necessário o desenvolvimento de mais estudos sobre o tema condições de vida e
saúde bucal que não visem apenas priorizar as relações causais definitivas, mas, ao informar sobre
a distribuição espacial de um conjunto de problemas de saúde, sirvam para orientar políticas
públicas transetoriais voltadas para a equidade, visando melhoria da qualidade de vida e saúde
bucal da população.
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