Ler em fórum: uma atividade complementar às aulas de espanhol na graduação Cristina Vergnano-Junger (UERJ) Introdução As novas tecnologias da informação e comunicação (NTICs) vêm-se aperfeiçoando, abrindo caminho a uma interação interpessoal mais ágil, rápida e sem fronteiras e ganhando, conseqüentemente, espaços em diferentes ramos da sociedade urbana moderna. Em termos de educação, manifestam-se, em especial, nas propostas de ensino à distância (OEIRAS, 1998). No entanto, seu potencial deveria ser incorporado às aulas presenciais como um recurso adicional. Isso poderia gerar não apenas o contato com novas formas de utilizar e produzir discursos, como uma ampliação do tempo e do espaço de contato entre alunos e professores. A internet, rede internacional de computadores, veio abrir inúmeras possibilidades de intercâmbio, tanto síncrono como assíncrono entre pessoas de diferentes partes do mundo. Através dessa rede virtual, usuários de computadores podem fazer pesquisas variadas; estudar; ler notícias, reportagens, trabalhos acadêmicos, letras de músicas etc.; conversar on-line; trocar mensagens; participar de comunidades e fóruns de discussão; fazer compras; tudo isso sem se deslocar de seus países e, em muitos desses casos, em tempo real. A leitura e a escrita em meio virtual apresentam características peculiares com relação às suas práticas equivalentes em papel, embora muitos dos aspectos que se destaquem a respeito nos recentes estudos não sejam privilégios exclusivos das fontes digitais. Os recursos que seu suporte — os computadores — oferece são 2472 responsáveis por potencializar certos usos e ferramentas que seriam difíceis ou impossíveis em suportes impressos (PINHEIRO, 2005; RIBEIRO, 2005). O texto virtual e sua leitura são eminentemente não-lineares. Isso se dá devido à presença dos hipertextos. No caso do material veiculado digitalmente, a hipertextualidade é uma de suas características inerentes e constitutivas (PINHEIRO, 2005). O acesso aos diferentes hipertextos é feito por links, representados por palavras ou imagens, acessados por meio de um click do mouse. Essa configuração do texto virtual o torna um objeto aberto, que se constrói durante a leitura por ação direta do leitor que opta por determinados caminhos, segundo seus objetivos e interesses, dentro das opções de links deixadas pelo autor da página visitada. Isso significa que, não se tem completa visão da totalidade do texto antes de completar determinado percurso de leitura (PINHEIRO, 2005). Embora essa forma de ler conceda ao leitor grande liberdade e um papel semelhante ao de um coautor do material lido, também implica no risco de perder-se num emaranhado de possibilidades. Para evitá-lo, é necessário ter muito claros os objetivos que motivam o acesso e um controle das trajetórias, fechando-se os parênteses abertos nas sucessivas consultas a links (PINHEIRO, 2005). Outro aspecto marcante nos textos e gêneros difundidos através de computadores e da internet é a multissemiose (PINHEIRO, 2005). O fato de os textos estarem constituídos pela conjugação de palavras, imagens estáticas, em movimento e sons requer do leitor a capacidade de reconstruir sentidos a partir de variados meios de expressão, lidando com uma comunicação verbal, imagética e sonora concomitantemente, sempre que isso se faça necessário. Acessar a internet significa, portanto, interagir com documentos cuja estrutura caracteriza-se pela não-linearidade, fragmentação, imaterialidade, riqueza multimidiática e intertextualidade. Em tal contexto, proliferam a pluralidade de vozes, a interpolação dos papéis de autor e leitor, o caráter efêmero das páginas e a dificuldade 2473 para estabelecer, em muitos casos, a idoneidade das fontes e seus conteúdos (PINHEIRO, 2005; RIBEIRO, 2005). Nesse sentido, defendemos que a leitura requerida para uma atividade de compreensão realmente proficiente em meio virtual é aquela que segue parâmetros interativos. Nela, o leitor é um sujeito ativo, que reconstrói sentidos, negocia significados e inter-relaciona seus conhecimentos enciclopédicos, procedimentais, de gênero, lingüísticos e socioculturais com o material lido. Assumimos, como base teórica subjacente às nossas reflexões sobre o processo leitor mediado pelas NTICs, por um lado princípios da leitura sociointeracional (COLOMER; CAMPS, 2000) e, por outro, aspectos da leitura definida como enunciação (MAINGUENEAU, 1996), no que se refere, em especial, à polifonia, coerções de gênero, influência da situação de enunciação e inserção sociohistórica de sujeitos e textos. Neste breve artigo, exemplificamos o uso de recursos da internet como uma forma de potencializar o desenvolvimento do processo leitor e de escrita de estudantes universitários de espanhol como língua estrangeira. Nossa opção de trabalho centrou-se no fórum on-line, melhor caracterizado a seguir. 1. Caracterização dos fóruns virtuais O ponto de partida para a discussão sobre a caracterização de um fórum virtual é definir se se trata ou não de um gênero. Marcuschi (2005) considera-o como um ambiente, no qual se reúnem de forma assíncrona e virtual pessoas com interesses comuns para discussões em torno de determinados temas. O fórum, nesse caso, abrigaria diferentes gêneros. Paiva e Rodrigues Jr. (2004), ao contrário, consideram-no como gênero. Nele, os sujeitos participantes interagem, constroem coletivamente seus discursos e as características estáveis que o conformam como tal. Tomamos como base o conceito de Bakhtin (1997), para quem os gêneros são formados de enunciados relativamente 2474 estáveis e típicos de determinada esfera de atividade humana, para ratificarmos nossa opção por definir fórum como um gênero, tal qual Paiva e Rodrigues. Acrescentamos, ainda, o fato de que já existiam fóruns antes do advento das tecnologias digitais. Historicamente, estes sempre foram reconhecidos como gênero de discurso, através do qual as pessoas discutiam questões da sociedade civil. Caracterizava-se pela exposição de diferentes posicionamentos sobre um tema, pelo debate e pela busca de soluções coletivamente (XAVIER; SANTOS, 2005). Embora as discussões no âmbito digital se dêem à distância, de forma assíncrona e marcadas pela virtualidade do meio, é possível identificar: a) objetivos e temas comuns a todos os participantes, b) questões a serem discutidas, c) prática de retomada de tópicos apresentados por outros participantes e d) uma série de regras de conduta. Isso permite configurar o fórum on-line como uma atividade social, cujos discursos estão caracterizados por enunciados relativamente estáveis, sujeitos a formatos predefinidos (embora não únicos). Portanto, um gênero. 2. O fórum no ensino universitário de espanhol A experiência aqui relatada é fruto de uma trajetória de estudos sobre leitura desenvolvidos por nós (ou sob nossa orientação), que, recentemente, vem-se fixando nas reflexões sobre as especificidades do processo leitor mediado por computadores (VERGNANO-JUNGER, 2007). A partir dos resultados do experimento com fórum on-line realizado por uma de nossas orientandas (DORIA; VERGNANOJUNGER, 2008), propusemos uma reedição do emprego de um fórum como atividade complementar a aulas de língua espanhola numa turma de graduação em PortuguêsEspanhol, de uma instituição de ensino superior (IES) do Rio de Janeiro. O grupo estava no sétimo período, penúltimo do curso, e se compunha de 18 alunos. Nosso objetivo geral era ampliar os canais de discussão sobre a história do 2475 espanhol de sua gênese à atualidade, matéria da disciplina em questão, promovendo um espaço virtual de interação. Através deste, novas leituras seriam realizadas e discutidas. Montamos o fórum sob o título “La lengua española: de los orígenes hasta la actualidad” num site gratuito, o queroumforum.com, no qual inserimos diferentes espaços (ou fóruns), segundo os objetivos específicos em cada caso. Em função do contexto em que se realizaria o trabalho, adotamos o espanhol como língua padrão do fórum. Assim, tínhamos: a) Reglas de participación; b) Área de debates sobre evolución del español; c) Espacio interactivo extra; d) Espacio para discutir los proyectos. O primeiro apresentava o fórum, dava as boas-vindas aos participantes e estabelecia as regras de conduta. O segundo constituía o foco da disciplina, com questões a serem discutidas, propostas a cada mês, a partir tanto das aulas, quanto de leituras adicionais indicadas pela professora ou por algum dos próprios alunos. O terceiro abria um espaço livre para que a turma tratasse de qualquer tema que lhes interessasse. Finalmente, no quarto, eram apresentadas dúvidas e explicações sobre a redação de projetos, já que essa disciplina incluía, além da história da língua, o conteúdo referente à elaboração de projetos de pesquisa. As questões discutidas foram as seguintes: a) Establece relaciones entre las nociones de ideología, poder e identidad y el concepto de lengua; b) Unidad en la diversidad: este lema se usa frecuentemente cuando se discute la lengua española hoy. Discute las implicaciones que tal enfoque trae para las políticas lingüísticas del idioma en la actualidad y las nociones de lengua patrón, norma, norma pluricéntrica; c) Discute de las trayectorias e influjos en la evolución del español: cuestiones históricas, cuestiones lingüísticas, extensión de los cambios y d) Reflexiona y debate sobre las implicaciones de los contenidos de historia de la lengua y su descripción sincrónica en la formación del profesor y en la enseñanza de E/LE. As primeiras participações foram tímidas e limitadas a respostas diretas à 2476 pergunta feita. Houve baixa presença, a maioria do grupo se manteve fora, não tendo sequer se inscrito. Nas respostas não havia traços de leitura, reflexão ou relação intertextual com as intervenções dos companheiros. Tampouco foram citadas outras fontes que não a sala de aula. Uma das dificuldades relatadas pelos alunos foi seu pouco contato com esse gênero e com o uso on-line de computadores. Isso nos leva a refletir que as práticas digitais ainda estão em formação e difusão, não podendo ser consideradas uma unanimidade. Outro detalhe relacionado a essa observação é que, por um lado, não se associa o computador e a internet às práticas escolares e acadêmicas e, por outro, para atuarem satisfatoriamente no fórum, muitos estudantes relataram terem que produzir seus textos ou ler os materiais indicados primeiro fora do site. Isso significa que a prática escrita e leitora impressa ainda prevalece em nossa realidade acadêmica. Com uma intervenção da professora moderadora, incluindo uma avaliação dessa atividade no próprio fórum, a participação cresceu em número e em qualidade a partir da segunda questão. Após participar uma vez e obter parâmetros do que seria uma leitura e uma escrita críticas, reflexivas, interativas, a turma reagiu apresentando produtos de leitura, manifestadas em suas intervenções postadas no fórum que demonstraram: a) atenção à fala dos colegas; b) prática de pesquisa, ampliando o tema por meio de citações e resenhas de novos textos; c) caráter mais científico dos discursos, ao recorrerem a citações e referências, limitando suas opiniões pessoais e subjetivas. 3. Considerações finais Nosso foco nessa experiência, em função das investigações que vimos desenvolvendo, esteve orientado para o processo de compreensão leitora. Pudemos perceber que, ao contrário do que se vem alardeando, a mediação da escrita e leitura 2477 por computadores ainda não constitui uma realidade hegemônica e plenamente dominada. A mediação impressa continua sendo desejada e requerida para o desenvolvimento de leituras acadêmicas, em especial as mais longas e complexas. Como qualquer processo leitor, este precisa ser trabalhado sistematicamente. Os leitores em formação demandam orientações quanto aos procedimentos tanto de uso das tecnologias envolvidas, quanto do que significa ler como enunciação, interativamente. Por isso, observamos um incremento das práticas intertextuais, reflexivas e críticas a partir da avaliação da primeira atividade de debate. Naturalmente, o fórum pode oferecer outras vantagens complementares às aulas presenciais. Uma delas é o aperfeiçoamento da escrita acadêmica em língua estrangeira. Embora a participação tenha sido incrementada, constatamos que isso não necessariamente implicou uma amostra exemplar de espanhol culto. Houve vários exemplos de interferências do português, de incorreções gramaticais e lexicais e de inadequações discursivas, considerando-se o gênero acadêmico, que deveria ser utilizado. Portanto, uma outra etapa do trabalho poderia voltar-se para o estudo sistemático da produção escrita, tanto em termos formais, quanto pragmáticos e comunicativos. Uma das vantagens do fórum, enquanto ferramenta didático-pedagógica é o fato de ficar registrado. Ou seja, tudo o que se produziu, se conserva e pode ser resgatado a fim de atender a diferentes objetivos: desenvolver a compreensão leitora, ampliar conteúdos teóricos, praticar a escrita etc. Outro aspecto relevante é o fato de ser uma atividade assíncrona, que permite a participação de todos nos momentos que mais lhes forem convenientes. Cada questão fica disponível por um tempo determinado pelo moderador e o fórum aberto para debatê-la pode ser acessado de qualquer máquina, a qualquer instante. O usuário pode simplesmente ler o que está postado ali e decidir responder imediatamente ou em outra hora. Fazê-lo no espaço destinado à redação das participações ou preparar seu texto num editor de textos (ou 2478 mesmo em papel) para depois passá-lo a limpo no lugar devido e enviá-lo ao site. Tanto em termos escolares como em investigativos, trata-se de um gênero e de uma ferramenta com grande potencial. Referências BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1997. COLOMER, T.; CAMPS, A. Enseñar a leer, enseñar a comprender. Madrid: Celeste, 2000. DORIA, N. G.; VERGNANO-JUNGER, C. Compreensão leitora em E/LE de alunos universitários do Estado do Rio de Janeiro em um fórum de discussão on-line: a pesquisa piloto. Revista Intercâmbio, São Paulo, LAEL/ PUC-SP, v. 17, p. 420-443, 2008. MAINGUENEAU, D. Pragmática para o discurso literário. São Paulo: Martins Fontes, 1996. MASCUSCHI, L. A. Gêneros textuais emergentes no contexto da tecnologia digital. In: MARCUSCHI, Luiz Antônio; XAVIER, Antônio Carlos (Orgs.). Hipertexto e gêneros digitais. 2. ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005. OEIRAS, Janne Yukiko Yoshikawa. ACEL — Ambiente Computacional Auxiliar ao Ensino/ Aprendizagem a Distância de Línguas. (Dissertação de mestrado) — Instituto de Computação, Unicamp, Campinas, 1998. Disponível em: <http://hera.nied.unicamp.br/teleduc/publicacoes/joeiras_disser.pdf>. Acesso em: 09 mar. 2006. 2479 PAIVA, V. L. M.; RODRIGUES JR., A. Fóruns online: intertextualidade e footing na construção do conhecimento. In: MACHADO, I. L.; MELLO, R. (Orgs.). Gêneros: reflexões em análise do discurso. Belo Horizonte: Fac. de Letras/ UFMG, 2004. p. 171189. Disponível em: <http://www.veramenezes.com/forum.pdf>. Acesso em: 27 jul. 2006. PINHEIRO, Regina Claudia. Estratégias de leitura para a compreensão de hipertextos. ARAÚJO, J. C.; RODRIGUES, B. B. (Orgs.). Interação na internet: novas formas de usar a linguagem. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005. RIBEIRO, Ana Elisa. Ler na tela — letramento e novos suportes de leitura e escrita. In: COSCARELLI, C. V.; RIBEIRO, A. E. (Orgs.). Letramento digital; aspectos sociais e possibilidades pedagógicas. Belo Horizonte: CEALE, 2005. VERGNANO-JUNGER, Cristina. Leitura e espanhol como língua estrangeira: interseção de pesquisas que discutem o ensino-aprendizagem. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE PROFESSORES DE ESPANHOL, 12, 2007, Cuiabá. Anais... Cuiabá: AMPLE, 2007. XAVIER, A. C.; SANTOS, C. F. E-forum na internet: um gênero digital. In: ARAÚJO, J. C.; RODRIGUES, B. B. (0rgs.). Interação na internet — novas formas de usar a linguagem. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005. 2480