UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
INSTITUTO DE SAÚDE COLETIVA
PROGRAMA DE PÓS - GRADUAÇÃO EM SAÚDE COLETIVA
ADRIANA VALÉRIA DA SILVA FREITAS
POR TRÁS DOS MUROS:
um estudo sobre a vida de idosos em
Instituição de Longa Permanência
Salvador
2009
2
ADRIANA VALÉRIA DA SILVA FREITAS
POR TRÁS DOS MUROS:
um estudo sobre a vida de idosos em
Instituição de Longa Permanência.
Tese apresentada ao Programa de Pós-graduação
em Saúde Coletiva, Universidade Federal da Bahia,
como requisito parcial para obtenção do título de
Doutora em Saúde Pública sob a orientação da Profª
Drª. Ceci Vilar Noronha.
Salvador
2009
3
Ficha Catalográfica
Elaboração: Maria Creuza Ferreira da Silva
___________________________________________________________
F866p Freitas, Adriana Valéria da Silva.
Por trás dos muros: um estudo sobre a vida de idosos em Instituição de Longa
Permanência / Adriana Valéria da Silva Freitas. - Salvador: A.V.S. Freitas, 2009.
247f.
Orientador(a): Profª. Drª. Ceci Vilar Noronha.
Tese (doutorado) - Instituto de Saúde Coletiva. Universidade Federal
da Bahia.
1. Idoso. 2. Instituição de Longa Permanência para Idosos. 3. Atenção Integral ao
Idoso. 4. Violência. I. Título.
CDU 616-053.9
___________________________________________________________
4
ADRIANA VALÉRIA DA SILVA FREITAS
POR TRÁS DOS MUROS: um estudo sobre a vida de idosos em Instituição de
Longa Permanência
Tese apresentada ao Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva,
Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial para obtenção do
grau de Doutora em Saúde Pública.
Aprovada em 05 de março de 2009
Banca Examinadora
Ceci Vilar Noronha –orientadora________________________________
Doutora em Saúde Pública pela Universidade Federal da Bahia
Rosalina Aparecida Partezani Rodrigues______________________________
Doutora em Enfermagem pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da
Universidade de São Paulo
Alda Britto da Motta_________________________________________
Doutora em Educação pela Universidade Federal da Bahia
Maria do Rosário de Menezes______________________________________
Doutora em Interunidades Saúde do Adulto Idoso pela Universidade de São
Paulo
Mônica de Oliveira Nunes _________________________________________
Doutora em Antropologia – Université de Montreal
Salvador
2009
5
A
Minha
querida
mãe
pelos
ensinamentos.
Lud e Luíza, minhas amadas
filhas, por sempre me ensinar a
ver com olhos de criança.
6
AGRADECIMENTOS
A Deus,
À Profª Drª Ceci Vilar Noronha, orientadora, sempre atenciosa e companheira.
Às colegas da Escola de Enfermagem da Universidade Federal da Bahia, pelo
apoio.
À Coordenadora do Curso de Residência em Medicina social do Instituto de
Saúde Coletiva/ UFBA, Profª Drª Ana Luiza Vilas Boas e demais colegas, pelo
apoio.
Ao Asilo de idosos, pela confiança
Aos idosos e idosas entrevistados, pelos depoimentos e confiança
Muito obrigada por possibilitarem essa experiência gratificante e valiosa para
meu crescimento pessoal e profissional.
7
AUSÊNCIA
Por muito tempo achei que a ausência
é falta.
E lastimava ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada,
aconchegada nos meus braços,
Que rio e danço e invento
exclamações alegres,
Porque a ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.
CARLOS DRUMMONT DE ANDRADE
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FREITAS, Adriana Valéria da Silva. POR TRÁS DOS MUROS: um estudo
sobre a vida de idosos em Instituição de Longa Permanência. 247p. 2009. Tese
(Doutorado) - Instituto de Saúde coletiva, Universidade Federal da Bahia,
Salvador, 2009
RESUMO
Este estudo discute a vida de idosos em uma instituição de longa permanência,
no contexto da sociedade moderna. O asilo é uma possível alternativa para
garantir segurança e cuidado ao idoso. No entanto, esse espaço, que abriga a
velhice, torna-se um problema social e de saúde, à medida que se transforma
em lugar de segregação, estigma e preconceitos, emergindo situações que
facilitam a ocorrência de violências contra o idoso. Vários aspectos vão se
agregando para a construção da ambigüidade presente na função social do
asilo. Dentre eles, o preconceito histórico sobre viver nesse tipo de instituição
permanece, apesar dela procurar acompanhar as mudanças sociais.
Analisando as diferenças de gênero, condição social e gerações os objetivos
do estudo foram: identificar as razões que levaram os idosos a viver no asilo,
observando os laços sociais feitos e desfeitos ao longo do curso da vida;
analisar as relações e cuidados dispensados aos idosos pelos profissionais da
instituição; discutir sobre as relações interpessoais, com foco nas disputas e
competições entre eles no cotidiano e identificar as expressões de violência
presentes na vida dos idosos. Para tanto, nos apoiamos em teorias sociais,
explorando o conceito de ambigüidade, que pode ser compreendido tanto em
relação à instituição asilar quanto ao significado da velhice na sociedade
moderna. Para analisar o corpus do estudo usamos a análise de conteúdo
além de instrumentos de avaliação em saúde coletiva da estrutura familiar
(familiograma) e das relações interpessoais dos idosos entrevistados
(ecomapa). Os resultados apontaram que o asilo estudado permanece, ainda
hoje, com o discurso da caridade e que a opção de os idosos morarem na
instituição foi, em alguns casos deles próprios apesar de que por trás dessa
opção encontram-se conflitos e desentendimentos familiares. A convivência
entre os idosos é marcada por encontros e desencontros, brigas e casos de
agressões físicas, configurando situações de violência nas relações
interpessoais. Além disso, constatamos que o cuidado prestado ao idoso na
instituição destacou-se como importante vertente para observarmos a presença
(ou não) da violência contra idosos. Assim, o asilo pode ser uma alternativa de
vida para idosos na sociedade atual, mas que, fundamentando-se apenas na
caridade e na filantropia, não garante ao idoso viver uma velhice saudável.
Palavras-chave: idoso, instituição de longa permanência, cuidado, violência
9
FREITAS, Adriana Valéria da Silva. BEHIND THE WALLS: a study about
elderly´s life in Long-term Stay Institutions. 247p. 2009. Tese (Doutorado) –
Instituto de Saúde coletiva, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2009
ABSTRAT
This study discusses the life of the elderly in an institution for long stay, in the
context of modern society. Asylum is a possible alternative to ensure safety and
care to the elderly. However, this space, which houses the old age, it becomes
a social problem and health, as becomes a place of segregation, prejudice and
stigma, emerging situations that facilitate the occurrence of violence against the
elderly. Several aspects will be added to the construction of the ambiguity in the
social function of asylum. Among them, the historical prejudices about living in
this type of institution remains, despite her track seek social change. Analyzing
the differences in gender, social generations and the objectives of the study
were: to identify the reasons why the elderly to live in asylum, observing the
social ties undone and done over the course of life, examining the relationship
and care of the elderly by professionals of the institution; discuss interpersonal
relationships, focusing on disputes and competition between them in daily life
and identify the expressions of violence in the lives of the elderly. Thus, in
theories on social support, exploring the concept of ambiguity, which can be
understood both in relation to asylum institution as to the meaning of old age in
modern society. To examine the corpus of the study we used the analysis of
content as well as tools for evaluating public health in the family structure
(familiograma) and interpersonal relations of the elderly respondents
(ecomapa). The results showed that asylum studied remains, even today, with
the discourse of charity and that the choice of the elderly live in the institution
was, in some cases themselves despite the fact that behind this option there
are family conflicts and disagreements. The coexistence among the elderly is
marked by meetings and misunderstandings, fights and cases of physical
attacks, configuring situations of violence in interpersonal relationships.
Furthermore, we found that the care provided to the elderly in the institution
stood out as an important part to observe the presence (or not) of violence
against elderly. Thus, asylum may be an alternative of life for older people in
society today, but that is based only on charity and philanthropy, does not
guarantee the elderly live a healthier old age.
Keywords: elderly, long-stay institution, care, violence
10
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO...................................................................................................12
CAPÍTULO I
1 A VELHICE NO CONTEXTO DA SOCIEDADE MODERNA..........................21
1.1 OS SIGNIFICADOS DA VELHICE.........................................................25
1.2 O IDOSO E AS RELAÇÕES FAMILIARES entre o apoio e os conflitos
................................................................................................................32
1.3 O IDOSO E O ASILO.............................................................................38
1.4 O ASILO ONTEM E HOJE ....................................................................40
1.5 A VIOLÊNCIA NO ASILO: um problema da sociedade moderna?........46
1.6 O QUE DIZ A LEGISLAÇÃO..................................................................56
CAPITULO II
2 TRAJETÓRIA METODOLÓGICA...................................................................58
2.1 ESCOLHA DO TEMA............................................................................58
2.2 A PESQUISA EM QUESTÃO................................................................61
2.3 O CENÁRIO........................................... ...............................................65
2.4 A ENTRADA NO CAMPO......................................................................65
2.5 AS DIFICULDADES DO CAMPO..........................................................66
2.6 A COLETA DAS INFORMAÇÕES.........................................................68
2.7 DOCUMENTOS.....................................................................................75
2.8 A ANÁLISE............................................................................................77
2.9 CONSIDERAÇÕES ÉTICAS.................................................................82
CAPITULO III
3. A DIMENSÃO SOCIAL DO ASILO: o acolhimento que exclui.......................83
3.1 UM PASSEIO PELO ASILO “X”... ........................................................83
3.2... UM DIA DE VISITA.............................................................................95
3.3 O PAVILHÃO DA ESPERA..................................................................109
3.4 O REFEITÓRIO COLETIVO.................................................................112
11
3.5 ESPAÇOS DE CIRCULAÇÃO.............................................................116
3.6 O SERVIÇO DE SAÚDE NO ASILO....................................................118
CAPITULO IV
4 APRESENTANDO OS ATORES SOCIAIS...................................................122
CAPITULO V
5 A EXPERIÊNCIA DA VIDA COLETIVA........................................................139
5.1 EU VIM POR OPÇÃO.........................................................................139
5.2 AQUI DENTRO TEM UMA LEI...........................................................151
5.3 AQUI TÊM MUITAS FESTAS.............................................................158
5.4 SE VOCÊ SOUBER SE COMUNICAR É QUE VOCÊ NÃO TEM
SOLIDÃO............................................................................................161
CAPITULO VI
6 O CONTEXTO DO CUIDADO AO IDOSO NO ASILO.................................184
6.1 O CUIDADO CARIDADE......................................................................186
6.2 O CUIDADO INFORMAL......................................................................194
6.3 O CUIDADO PROFISSIONAL..............................................................196
6.4 O AUTOCUIDADO................................................................................216
CONSIDERAÇÕES FINAIS.............................................................................226
REFERÊNCIAS……………………...................................................................236
12
INTRODUÇÃO
Este estudo está centrado em alguns aspectos da velhice, uma
categoria natural, que faz parte do curso da vida. A velhice, enquanto
tema de pesquisa, conforme relata Debert (1998), encontra algumas
dificuldades, por ser uma categoria culturalmente produzida, que têm
como referência processos biológicos universais; caracterizar-se como um
problema social e, ainda, constituir-se um tema que exige com discurso
científico especializado.
Complementando esse pensamento, Lenoir (1998) comenta que a
velhice é apresentada como uma “categoria natural e evidente”, sendo
assim uma dificuldade, que impede o pesquisador social delimitar o seu
objeto, quando pensa em analisar a constituição da velhice como
problema. Ao analisar o envelhecimento, Lenoir (1998) aponta vários
motivos que levaram a velhice a ser encarada como um problema social:
a pobreza, a dependência, as mudanças nas relações entre as gerações
e outros.
Assim, diante da complexidade do assunto, o envelhecimento vem
ganhando expressão e estudos vêm sendo realizados, abordando os
diversos sentidos em que a velhice encontra-se inscrita, compreendendo
os aspectos: biológicos, culturais, psicológicos e sociais. Tais estudos
procuram mostrar como os idosos vivem na sociedade atual e, por vezes
os resultados são surpreendentes, pois evidenciam que eles sustentam
as famílias, estão no mercado de trabalho, buscam conhecimento através
de universidades e cursos, reivindicam seus direitos como aposentados e
cidadãos. Enfim, estão mais ativos do que nunca! No entanto, ainda
encontram obstáculos relacionados à faixa etária que se encontram,
aliadas as questões de gênero e condição social.
O Brasil tem uma população de idosos de aproximadamente 9% e,
será, em 2025, o sexto país com o maior número de pessoas idosas.
Assim, em relação à estatística ou demografia sobre o envelhecimento é
importante comentarmos dados que marcam a expansão do número de
idosos no mundo. Esse movimento deve-se à expectativa de vida, que
aumentou e isto é atribuído à diminuição da taxa de natalidade e
13
mortalidade infantil, melhoria das condições sociais, controle de doenças
entre outras. (CHAIMOWICZ, 1997).
O presente estudo foi realizado em uma instituição de longa
permanência localizada no Estado da Bahia, portanto é necessário trazer
informações sobre os idosos que residem nesse estado.
Assim, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do
IBGE, em 2004, registrou que a população baiana, com mais de 60 anos
já alcançava 1,28 milhões de pessoas e correspondia a 9,3% do total. Na
Região Metropolitana de Salvador esse número aproximava-se de 232,2
mil pessoas cerca de 7,0% da população total. (tabela 1). Esse número
tem aumentado rapidamente, decorrente ao processo de envelhecimento
no país que, no mesmo período, o contingente de idosos já chegava a
17,6 milhões de pessoas.
Considerando os fatores que contribuem para o envelheimento da
população, o aumento da população idosa é inevitável, mas outro dado
nos
chama
atenção,
conforme
comenta
Saad
(2005),
há
o
envelhecimento que se observa no interior da própria população idosa,
destacando o grupo composto de idosos com 80 anos (os octogenários) e
mais. A previsão é de que entre 2000 e 2050, o número de idosos,
octogenários, no mundo crescerá expressivamente, passando de 1,2
milhões para 10,8 milhões.
14
É importante dizer que entre os idosos e, sobretudo entre os mais
idosos, há um predomínio de mulheres, devido ao significativo diferencial
de longevidade feminina decorrente da sobremortalidade masculina. Na
Bahia, em 2004, os homens viviam, em média 6,5 anos menos que as
mulheres e enquanto que a esperança de vida alcançava 74,5 anos para
a população feminina, o mesmo indicador era de 68,0 anos para a
masculina.
Nesse contexto, em 2007, na população baiana considerando a
composição por sexo, havia predomínio de população feminina (171 mil
pessoas a mais), com um contingente de 7,14 milhões de mulheres,
representando 50,6% do total com expectativa de vida de 75,4anos, ao
passo que, o masculino, era de 6,97 milhões (49,4%) com esperança de
vida de 68,8anos. (PNAD, 2007)
Esse diferencial de longevidade confirma, ainda mais, o desafio e a
necessidade de se planejar o envelhecimento da população, segundo
perspectiva de gênero. Desse modo, além da especificidade no padrão da
morbidade, as mulheres idosas são mais pobres do que os homens,
sobretudo pelo fato, de receberem aposentadorias menores, resultantes
da histórica diferença do tratamento dado aos homens e mulheres pelo
mercado de trabalho, exceto com relação às aposentadorias do INSS,
cujas regras são igualitárias.
Em 2020, segundo dados do IBGE/ UNFPA/ SEI, a Bahia contará com
1,65 milhões de idosos, o que corresponderá a 11,0% da população de
todo o estado. Sendo que desse contingente de idosos, 56,6% (cerca de
932 mil) serão representados por mulheres e 43,4% (aproximadamente
716 mil) serão de homens.
Essa heterogeneidade representada pelos atributos de idade e sexo,
não são os únicos aspectos que devem ser observados em relação ao
processo de envelhecimento. Camarano; Pasinato (2004) chamam a
atenção para o fato de que a população de idosos é composta tanto por
pessoas que gozam de total autonomia, que contribuem para o
desenvolvimento socioeconômico e desempenham papéis importantes na
família, quanto por pessoas incapazes de lidar com as atividades básicas
do dia-a-dia e que não possuem rendimento próprio. Assim, esse
15
segmento também representa grande heterogeneidade e necessidades
diferenciadas.
Levando em conta outro lado do processo do envelhecimento, quando
observado em sua característica epidemiológica, refere-se principalmente
às patologias que podem provocar limitações e incapacidades no
indivíduo. Por isso, durante muito tempo, à velhice foi observada apenas
sob o ponto de vista da biologia.
Nesse sentido, é importante estarmos atentos aos sinais do
envelhecimento fisiológico, e sabermos diferenciar, com precisão, os
efeitos naturais desse processo, os quais são denominados como
senescência, envelhecimento primário ou eugeria, daqueles provocados
por doenças, denominados de senilidade, envelhecimento secundário ou
patogeria.
O idoso é geralmente acometido por patologias crônicas, como revela
um estudo epidemiológico sobre o envelhecimento no Nordeste do Brasil,
enfocando a cidade de Fortaleza (FILHO COELHO E RAMOS, 1999).
Nesse estudo, os idosos residiam na sua maioria, em domicílios
multigeracionais
e
apresentavam
morbidade
física
e
mental,
particularmente alta em áreas mais pobres, enquanto aqueles idosos com
melhor nível sócio econômico tenderam a morar sozinhos ou em
domicílios unigeracionais e eram menos dependentes.
Um aspecto também fundamental na epidemiologia do envelhecimento
diz respeito ao maior relato de doenças crônicas entre mulheres idosas,
pelo fato delas terem maior longevidade do que o homem, fazendo com
que o envelhecimento esteja fortemente associado ao sexo feminino,
sendo importante aspecto a ser considerado no delineamento de
programas de promoção da saúde do idoso.
Na Bahia, segundo informações da PNAD (2004), cerca de 171 mil
idosos (13,4% do total) viviam sozinhos. Na região Metropolitana de
Salvador são cerca de 26 mil idosos (11,3%) enquanto que no Brasil já
são 2, 29 milhões (13,0% das pessoas com mais de 60 anos) (tabela 2).
16
Viver sozinho, para muitos idosos, pode significar autonomia, mas
também pode ter como sentido sua adaptação ao que a sociedade atual
vem
passando,
no
que
se
refere
as
mudanças
nas
relações
intergeracionais familiares com a individualização dos componentes e a
quebra de seus vínculos afetivos, além do esgaçamento nas redes sociais
de vizinhança e de amizades.
Por outro lado, o risco que os idosos que vivem sozinhos estão
sujeitos torna-se maior, à medida que, não têm alguém que cuide ou que
lhes ajudem nas atividades diárias como cozinhar, alimentaren-se,
vestirem-se, limparem a casa, realizarem higiene pessoal, entre outros.
Do mesmo modo, há as atividades externas como idas ao banco, ao
médico, compras no supermercado, entre outras, destacando-se os riscos
que as ruas oferecem. Todas essas condições de risco, juntas, podem
fazer com que o viver sozinho não seja uma opção das melhores para a
velhice.
Nesse contexto, o asilo1 é uma possível alternativa para garantir
segurança e cuidado. No entanto, esse espaço, que abriga a velhice,
torna-se um problema social e de saúde à medida que se transforma em
lugar de segregação, estigma, preconceitos, emergindo situações que
facilitam a ocorrência de violências contra o idoso. Os asilos costumam
ser criticados e julgados como frios, onde os idosos são maltratados, mal
1
Atualmente o termo usado para as residências coletivas de idosos é Instituição de Longa Permanência.
Apesar disso, usamos a palavra asilo como sinônimo.
17
alimentados, sendo, ainda, considerados como depósitos de velhos. No
entanto, são um mal necessário, em respostas às transformações
ocorridas na sociedade nas últimas décadas. (FONTOURA, 2003)
Nesse sentido, deve ser dada atenção especial aos asilos, devido às
modificações que sofrem, tentando acompanhar as evoluções sociais,
tendo como exemplo, a passagem do seu caráter filantrópico e caritativo,
originalmente, para ser, hoje, um negócio rentável, constituído-se os dois
lados de uma mesma moeda, denotando em parte a ambigüidade desse
espaço.
Deve ser registrado que a ambigüidade não é produzida, apenas, em
relação ao espaço social, mas, também, pelos discursos daqueles que
constituem o cenário e entre as relações interpessoais. Assim
considerando, a questão principal que norteia este estudo é: como vivem
idosos em Instituições de Longa Permanência?
A situação de o idoso estar residindo em uma instituição, e não com a
família leva-nos a outros questionamentos, também importantes, como:
em que circunstâncias esses idosos foram morar no asilo? Quem os levou
para morar lá? Como é seu cotidiano na instituição? O que os idosos
pensam sobre a velhice? Qual seu projeto de vida? Como é o cuidado
dispensado aos idosos? Quais as expressões de violência contra o idoso,
no asilo?
Nossos pressupostos são que o asilo, espaço de acolhimento e
controle, provoca incerteza sobre sua função social. Assim, vários
aspectos vão se agregando para a construção desse paradoxo. Dentre
eles, o preconceito histórico sobre o viver nessa instituição, permanece,
apesar dela procurar acompanhar as mudanças sociais. A conseqüência
desse preconceito é a existência de constrangimentos que o idoso sofre
dentro da instituição, devido ao ambiente mostrar-se ora acolhedor, ora
controlador e excludente. Além disso, o abandono é uma das mais
frequentes expressões de violência no asilo. Isso porque, muitos dos
idosos estão nas instituições asilares não por escolha própria, mas pela
falta de condições dos seus familiares de cuidar, e/ou pela necessidade
de um lugar, que os protejam contra maus tratos, negligências, entre
outros abusos.
18
As precárias condições da estrutura física, dessas instituições,
agregadas a prestação de cuidados inadequados ao idoso, além de e
rígidas rotinas, colaboram para as possibilidades de violência institucional.
Também,
as
relações
interpessoais
nos
asilos
podem
revelar
divergências entre os próprios idosos e, ainda, entre eles e aqueles que
atuam no seu cuidado, constituindo o que é denominado de violência das
relações interpessoais.
Dessa maneira, os objetivos do estudo foram: conhecer como vivem
os idosos no asilo; Identificar as razões porque os idosos foram morar no
asilo, observando os laços feitos e desfeitos ao longo do curso da vida;
analisar as relações e cuidados dispensados aos idosos pelos
profissionais da instituição, destacando as diferenças de gênero, condição
social e gerações; discutir sobre as relações interpessoais observadas
entre os idosos residentes, com foco nas disputas e competições, entre
eles no cotidiano e identificar as expressões de violência, que podem
estar presentes na vida do idoso que reside no asilo.
Através do alcance desses objetivos, conseguimos perceber que o
asilo permanece na sociedade com a finalidade de controle e organização
dos idosos, em um espaço geográfico que consegue acolher e ao mesmo
tempo exclui, separando-os pela impossibilidade de contribuir para a
produção, alvo da modernidade. Por outro lado, o idoso que resolve ir
para o asilo por vontade própria isto ocorre devido às intempéries da vida.
No entanto, ele pode viver de forma saudável, reescrever sua história,
encontrar amigos antigos, fazer novos amigos, casar-se enfim, conviver
no asilo de maneira positiva.
Assim, considerando as diversas vertentes do tema, no capítulo I,
procuramos contextualizar o objeto do estudo. Inicialmente abordando a
velhice na sociedade moderna e seus diversos significados, os quais
contribuem para a ambigüidade e os preconceitos vividos por idosos. Foi
importante, também, escrever sobre as relações dos idosos e seus
familiares, nos apoiando na ambivalência entre o apoio e os conflitos
observados. Posteriormente, revisamos trabalhos, que abordam o idoso
no asilo. Saber sobre as transformações ocorridas no asilo de ontem e o
que atualmente se destina aos idosos foi necessário, bem como discorrer
19
sobre a violência, como uma conseqüência da sociedade moderna.
Finalizamos o capítulo com o que diz a legislação sobre a quem se
destina o asilo e as suas obrigações para com seus residentes.
No capítulo II, discorremos sobre a metodologia do estudo. A
importância do referencial teórico, através do conceito de ambivalência
baseado em Bauman (1999). Além da base teórica, lançamos mão de
instrumentos usados na saúde coletiva para análise das relações
familiares, o que nos deu uma visão sobre a rede social em torno do
idoso, sujeito do estudo. As falas dos idosos, as conversas com os
profissionais, o diário de campo, construído durante as visitas a instituição
e também, documentos internos do asilo foram usados para a análise em
empreendida.
Os resultados do estudo estão divididos em quatro capítulos. O
capítulo III está constituído pela descrição da dimensão social do asilo,
para tanto, foi importante a utilização do livro sobre a bibliografia do
fundador, o jornal produzido pela instituição além das conversas informais
com os profissionais e idosos residentes. No capítulo IV, apresentamos os
atores sociais, que participaram da pesquisa com breve relato de suas
histórias analisando os achados através do familiograma construídos com
cada um dos idosos. O capítulo V é constituído pelas experiências de vida
dos idosos no asilo. A opção pela vida coletiva, as normas e rotinas
presentes no asilo e as relações interpessoais compõem essas
experiências. O capítulo VI, discute sobre o cuidado no asilo, os tipos
encontrados e como a categoria cuidado pode ser um referencial para
perceber manifestações de violência.
Nas considerações finais, fazemos recomendações pertinentes ao
estudo e a importância de ser ampliado o olhar sobre à velhice,
desmistificando o asilo como um lugar de pessoas carentes e com um
apelo apenas filantrópico. Colocamos em evidência o asilo, uma empresa
que se encontra no mercado e deve-se preocupar com o seu público, os
idosos, que esperam consumir serviços oferecidos com qualidade. No
entanto, compreendemos que o espaço asilar somente deixará de
provocar situações de violência contra o idoso, na medida em que o
20
envelhecimento for tratado com respeito, e para isso, a sociedade precisa
mudar sua relação com a velhice.
21
CAPÍTULO I
1 A VELHICE NO CONTEXTO DA SOCIEDADE MODERNA
[...] O principal sintoma de desordem é o agudo desconforto
que sentimos quando somos incapazes de ler adequadamente
a situação e optar entre ações alternativas. (BAUMAN, 1999
p.09)
A modernidade é um estilo, um costume de vida ou organização
social, que surgiu na Europa a partir do século XVII, e devido a sua
influência, tornou-se mundial. Circunscrita no tempo, a modernidade não
pode ser associada a um período histórico e como tal, difícil de ser
analisado, pois é ao mesmo tempo - passado e presente.
Dessa maneira, a modernidade apresenta-se, na verdade, carregada
de ambigüidades, pois ao mesmo tempo em que oferece segurança,
oferece perigo; quando oferece confiança, oferece risco. Assim, somos
acometidos por um ritmo vertiginoso de mudanças, onde o avanço da
intercomunicação nos põe em conexão com as diferentes partes do
mundo sem que, no entanto, o desenvolvimento das forças de produção
tenha trazido melhora significativa na qualidade de vida.
Para Bauman (1999, p. 15):
A modernidade significa muitas coisas, e sua chegada e
avanços podem ser aferidos utilizando-se muitos marcadores
diferentes. Uma característica da vida moderna e de seu
moderno entorno se impõe, no entanto, talvez como a
“diferença que faz a diferença”, como o atributo crucial que
todas as demais características seguem. Esse atributo é a
relação cambiante entre espaço e tempo.
Assim, vivemos um grande dilema em relação aos contrastes de
nossa época: na produção aflitiva da violência do nosso século; nos
surpreendentes avanços tecnológicos, em contraste com a miséria e o
22
analfabetismo de grande parte da população; na crise com os
paradigmas, que durante tanto tempo tomamos como verdade e que,
atualmente,
não
mais
respondem,
satisfatoriamente,
as
nossas
indagações; no desafio de conviver com o diferente e com a multiplicidade
de versões e na ambigüidade constante, entre o que consideramos velho
e ultrapassado e o novo, muitas vezes difícil de ser identificado.
Contudo, as transformações sociais permitem ao indivíduo poder
decidir pelo que deseja. Essa liberdade nos conduz a idéia de igualdade.
Porém, a igualdade entre as pessoas surge através da identificação da
desigualdade
social.
Dessa
maneira,
a
ambigüidade
permanece
fragmentando, segmentando e dividindo o mundo. Segundo Bauman
(1999) a ambivalência é a principal aflição da modernidade e o mais
preocupante dos seus efeitos.
A ambivalência é experimentada pelo indivíduo, devido à ansiedade
causada pela indecisão. Estar indeciso significa dizer que hesitamos
diante de um fato ou situação. Quando isso acontece pelo menos temos
dois caminhos que podemos optar. Esta confusão nos faz pensar que
existe uma dificuldade na apresentação da situação, ou seja, a maneira
como o discurso é formulado ou que há uma deficiência da linguagem.
Para Bauman (1999), a ambivalência é um aspecto normal da
lingüística. É uma das principais funções da linguagem: a de classificar e
a de nomear. O mundo necessita utilizar esse recurso para se estruturar.
E o indivíduo precisa da ordem das coisas no mundo para sobreviver.
Imaginando o mundo sem elementos norteadores pensamos em uma
situação de caos total, onde não saberíamos distinguir as situações.
Porém, com as qualidades da linguagem, de nomear e classificar, há a
possibilidade de manipulação, na qual o indivíduo é controlado de acordo
com a conveniência de quem lidera.
Hoje, a igualdade aparece nos discursos políticos e sociais. “Esta
igualdade não é a descrição empírica da pura igualdade real das
condições de vida, mas a extensão de um princípio, o da igualdade dos
indivíduos apesar e além das desigualdades sociais reais.” (DUBET,
2003)
23
Assim, procuramos refletir sobre a vida em uma sociedade que tem a
igualdade como princípio e o indivíduo como o sujeito, a quem essa
igualdade deve contemplar. O significado da palavra indivíduo engloba
duas maneiras de conceituar: aquela que se refere à espécie humana,
presente no discurso comum; e outra, que diz respeito ao valor que se dá
ao indivíduo em fazer suas próprias escolhas. Isso remete ao que Dumont
(1983) comenta sobre as sociedades holistas, que privilegiam as
desigualdades coletivas, percebidas como naturais, e as sociedades
individualistas, que concebem a desigualdade, como atributo da
competição entre indivíduos.
Nesse sentido, a sociedade moderna produz e incentiva o
individualismo, conforme argumenta Debert (1999 p. 05):
Tratar das transformações históricas ocorridas com a
modernização é também chamar a atenção para o fato de que
o processo de individualização, e o individualismo como valor
próprio da modernidade, teve na institucionalização do curso
da vida uma de suas dimensões fundamentais. Os valores de
igualdade e liberdade estão associados a estágios da vida que
foram claramente definidos e separados e a fronteira entre eles
passou a ser dada pela idade cronológica.
Desse modo, a maneira padronizada é permitida para cada classe de
idade e veio com as transformações ocorridas na sociedade. As
mudanças
econômicas,
a
autoridade
do
Estado
Moderno,
que
transformou questões de ordem privada em problemas da esfera pública,
é, ainda, quem planeja as orientações do curso da vida. São as políticas
públicas, que definem o período da escolaridade, a entrada no mercado
de trabalho, o momento que se deve parar de trabalhar, enfim,
regulamenta a nossa vida do nascimento até a morte.
Assim, ao chegar à velhice a pessoa sente, de maneira mais intensa,
a cobrança do mundo moderno, que valoriza quem produz mais e com
uma velocidade cada vez maior. Assim, a velocidade dos acontecimentos
e o acesso aos meios mais rápidos de movimento chegaram aos tempos
modernos como a principal ferramenta do poder e da dominação. O
24
indivíduo necessita estar em permanente movimento para dominar o
mundo, ter conhecimento e estar ciente das últimas informações, ou
melhor, talvez o termo “últimas” não seja o mais adequado, pois quando
um acontecimento acaba de ser acessado, um outro já está circulando na
rede.
Essa velocidade requer agilidade não só física como mental, e porque
não dizer individual. A competição rege as relações e nesse caso não é
conveniente a lealdade. “[...] você deve ter em mente que é da natureza
das coisas exigir vigilância, não lealdade” (BAUMAN, 2007, p. ). As
relações são frágeis e convenientes. Nesse sentido, o indivíduo não tem
respaldo para sobreviver nessa selva veloz da modernidade, senão
renunciando a coletividade e assumindo a posição de diferente, particular,
isolando-se para garantir sua satisfação pessoal.
Bauman (2007, p. 31): afirma que: “a individualidade é o produto final
de uma transformação societária, disfarçada de descoberta pessoal”.
Assim, a sociedade produz esse arquétipo humano, compreendido entre o
diferente e o semelhante, conduzido pela ambigüidade e pela pressão de
ser sempre o melhor.
O idoso nesse contexto atual, percebe nitidamente sua dupla posição
social, representada pelos dramas da velhice abandonada, desvalorizada,
sem recursos para a manutenção de suas necessidades básicas. Em
contraste a essa representação, propagam-se os ideais da velhice ativa,
independente e produtiva.
Dessa maneira, o idoso quando está mais inclinado a participar do
mundo dos (des) amparados, precisa ser acolhido por uma ideologia de
boa ação. Estão frágeis, frustrados pelas perdas e pelo abandono. A
solução talvez se encontre nos grupos que provocam efeito de
pertencimento. Nesta pesquisa o grupo a que nos referimos é o grupo de
idosos acolhidos pelos asilos.
Nesse sentido, o asilo funciona como um refúgio, onde o idoso tem a
sensação, ou fazem com que creia, que juntos podem ser mais fortes e
seguros. Assim, Bauman (2007) faz referência aos abrigos ou
hospedagens públicas, que têm a função de acolher pessoas por uma ou
duas noites. O autor completa, afirmando que as muitas individualidades
25
expostas na entrada faz com que as paredes desse espaço pareçam
estar estabelecidas e testadas como sólidas e seguras, para encorajar
que o indivíduo procure seu abrigo.
No caso dos asilos para idosos, a segurança que se procura não é por
um período curto de tempo, como oferecem as hospedagens públicas. É
a segurança para uma fase da vida. Assim, a necessidade de se sentir
seguro coletivamente, depende da maneira como a velhice é significada
pelas diferentes sociedades.
1. 1 OS SIGNIFICADOS DA VELHICE
A distinção de um indivíduo idoso de outro não idoso é extremamente
importante para a formulação de políticas públicas. Uma das maneiras
usadas para se distinguir o idoso é o critério biológico, mas esse critério,
apenas, não é suficiente. É preciso ir além, e classificá-lo de acordo com
suas particularidades psicológicas, sociais e culturais. Dessa maneira, é
correto afirmar que não existe um conceito único de velhice ou de idoso,
isto por que:
A questão, no entanto, é mais complexa do que a simples
demarcação de idades-limite biológicas e enfrenta pelo menos
três obstáculos. O primeiro diz respeito à homogeneidade entre
indivíduos, no tempo e no espaço; o segundo, a suposição de
que características biológicas existem de forma independente
de características culturais; e o terceiro a finalidade social do
conceito de idoso. É extremamente difícil superar
simultaneamente esses três obstáculos, mas isso não quer
dizer que não devam ser considerados quando se debate
acerca de idosos. (CAMARANO, 1999 p. 03)
Desse modo, é necessário considerar todos os aspectos para
conceituar o idoso e, conforme Paschoal (1996), a velhice é definida a
partir do conjunto das condições: biológica, social, econômica, cognitiva,
funcional e cronológica.
O autor comenta que, biologicamente, o
envelhecimento se inicia no momento em que se nasce, e não aos 60
26
anos; socialmente, a velhice vai variar de acordo com o momento
histórico e cultural; intelectualmente, diz-se que alguém está ficando velho
quando suas faculdades cognitivas começam a falhar, apresentando
problemas
de
memória,
atenção,
orientação
e
concentração;
economicamente, a pessoa entra na velhice quando se aposenta, deixa
de ser produtivo para a sociedade; funcionalmente, quando o indivíduo
perde a sua independência, precisando de ajuda para desempenhar suas
necessidades básicas e, finalmente, cronologicamente, a pessoa torna-se
idosa quando faz 60 ou 65 anos.
A ONU adota a idade de 60 anos como a de transição das pessoas
para o segmento idoso da população. Esse critério é válido apenas para
os países em desenvolvimento, adotando-se 65 anos nos países
desenvolvidos, pelo fato da expectativa de vida ser maior. Nesse sentido,
o significado da velhice compreende um mosaico de peças fundamentais,
porém essas peças são usadas de acordo com a conveniência de cada
sociedade. A necessidade de definir a velhice se faz, pois queremos a
tudo justificar, controlar, ter certeza: do que é mesmo que estamos
falando? Isso também ocorre com a infância, a adolescência, a idade
adulta e com o idoso. Desse modo, vários termos são usados como
“terceira idade”, “melhor idade”, “quarta idade” a fim de classificar os
indivíduos que estão enquadrados nesse grupo etário, que tende a ser
mais elástico hoje, por conta da longevidade.
Entendendo a velhice através da ótica de colocar o indivíduo dentro
de um padrão, talvez nos deparemos com o maior dos erros, que é o de
enquadrar as pessoas, criando “modelos de velho” e prescrevendo seu
modus de vida. Bourdieu (1983) afirma que: “somos sempre o jovem ou o
velho de alguém. É por isso que os cortes, seja de classe de idade ou de
gerações, variam inteiramente e são objetos de manipulação” Sendo
assim, as ambigüidades a que a velhice está suscetível não nos deixa à
vontade para definí-la de uma única maneira. Variáveis como meio
ambiente, condições de trabalho, classe social, gênero e modo de vida
não devem, ser ignoradas. Attias-Dounfut (1988) refere que os cortes
cronológicos servem apenas para aumentar as barreiras entre as
27
gerações. Contudo, servem também para a formulação de proteção e
assistência, de acordo com a classificação por idade.
Diante dessa separação necessária entre as idades, as políticas
públicas, na maioria das vezes, não dão conta das reais necessidades
sociais do indivíduo. Essa forma como a velhice é encarada pela
sociedade contemporânea, nos dá a dimensão e o peso de ser velho. A
inversão atual na pirâmide etária tem reflexos na sociedade moderna que
com seu desenvolvimento desenfreado, incentiva a produtividade,
valorizando os seus membros em pleno vigor, pois eles contribuem com o
crescimento social. Os idosos, com suas limitações físicas demonstradas
através dos aspectos biológicos, vêm acumulando impossibilidades. Eles
se tornam alvo do isolamento e preconceito, sendo colocados à parte do
processo competitivo.
Lins de Barros (2004) refere que, nas sociedades tradicionais, o
indivíduo era visto dentro do grupo a que pertencia. Na sociedade
moderna, este passa a ser um valor social. Dessa maneira, a velhice
observada com os olhos da juventude, que a percebe como declínio,
como impossibilidade de ser valorizada, seja do ponto de vista de
produção, da capacidade física e psíquica, seja pela perda da capacidade
de controle do corpo e da mente, reafirma o isolamento, o estigma e a
exclusão social, que o idoso experimenta, e que a aposentadoria vem
legitimar.
O ritmo de vida e as regras de conduta, impostas pelas sociedades
contemporâneas, representam um fator de marginalização e de exercício
de violência simbólica sobre os idosos. Bourdieu (1983) comenta que a
juventude é apenas uma palavra e, portanto, acrescentamos que a
velhice também. Mas, os limites entre o que é um jovem e um velho, na
sociedade contemporânea, está definido pelo que é aceito para esse
jovem ou velho e, também, pela maneira como estes entendem como seu
papel social. A naturalização que estas fases da vida experimentam
interferem na visibilidade das suas formas de tratamento, e o que é aceito
socialmente, é imposto por padrões sociais, regras e momentos
históricos.
28
Significar a velhice através de dados conceituais biológicos, que
caracterizam esses indivíduos, não é satisfatório, pois as dimensões
culturais vão além da aparência física e do aparecimento das doenças,
que se diziam comuns ao envelhecimento. Sobre isso Beauvoir, (1990, p.
48) comenta que:
Para compreender a realidade e o significado da velhice é,
portanto, indispensável examinar qual o lugar nela atribuído
aos velhos, qual a imagem que deles se tem em diferentes
épocas e em diferentes lugares.
Desse modo, mas vale comentar algumas passagens que referem ser
a fraqueza e as perdas ósseas e musculares um atributo dessa fase do
curso da vida. Em relação a essa maneira de significar a velhice, através
de uma visão de que essa fase é representada pela fraqueza; Leme
(1996) afirma que foi encontrado nas representações gráficas do antigo
Egito, hieróglifo, o que significava “velho” ou “envelhecer”, registrado a
partir dos anos 2800-2700 a.C., estava representado por uma figura,
através da imagem humana deitada, com um ideograma de fraqueza
muscular e perda óssea.
Sem dúvida, esta visão está associada à representação da sociedade
capitalista: o que cada idade pode contribuir em relação à sociedade e a
juventude, destaca-se nessa visão. O jovem pode mais. Está mais forte,
tem mais capacidade, pode trabalhar e contribuir com o país. Aquele que
em alguma época já contribuiu é esquecido, pois o que importa é o aqui e
o agora.
Concordamos com Beauvoir (1990, p.108) quando refere que:
É o sentido que os homens conferem a sua existência, é seu
sistema global de valores que define o sentido e o valor da
velhice. Inversamente: através da maneira pela qual uma
sociedade se comporta com seus velhos, ela desvela sem
equívoco a verdade - muitas vezes cuidadosamente
mascarada - de seus princípios e de seus fins.
29
Assim, reiteramos que a velhice é percebida de maneira distinta, a
depender da cultura em que se investigue o fenômeno. Beauvoir (1990)
quando estudou a velhice através da etnologia, afirmou que os povos
primitivos adotavam soluções práticas para os problemas que os velhos
pudessem trazer: podia-se matá-los, deixar que morressem, concederlhes um mínimo vital, assegurar-lhes um fim confortável, ou mesmo
honrá-los e cumulá-los de atenções. Os povos civilizados lhes aplicam os
mesmos tratamentos: apenas o assassinato é proibido, quando não
ocorre de forma disfarçada.
Uma das soluções encontradas pela sociedade civilizada para a
velhice é o asilo. Nesse tipo de solução, o idoso pode estar sendo tratado
de maneira satisfatória, que atenda as suas demandas físicas, de
segurança e de sobrevivência, como também, pode ter encontrado uma
maneira civilizada de morte social, que é trazida pelo isolamento.
Contudo, a sociedade está sempre em movimento, transforma-se
constantemente, de forma que concepções racionalizantes, que visam
determinar uma organização de mundo pronta e acabada, isto é, estática,
tendem a produzir descontinuidades e rupturas indesejadas, que
prevalecem sobre a ação humana. Esse fenômeno não diz respeito ao
surgimento de um acaso triunfante da natureza sobre as ações humanas.
Na realidade, representa um risco produzido eminentemente pelas
opções e ações dos homens. Logo, é exatamente nisto que consiste o
referido paradoxo: a humanidade cria seus próprios entraves, na medida
em que conhece excessivamente o mundo e aplica esse conhecimento
sobre os próprios homens.
As discussões em torno da velhice dão-se principalmente, no campo
do sistema previdenciário. É uma grande preocupação para o Estado
prover seus aposentados de um rendimento mínimo. A forma de delimitar
com quantos anos uma pessoa já pode se aposentar passou por várias
reformas, sendo o momento da aposentadoria um ritual de passagem da
idade adulta para a velhice, o que deixa muitas pessoas preocupadas
com seu destino social e econômico.
Em nossa legislação, a aposentadoria é um direito para aqueles que
trabalharam por vários anos e contribuíram com os cofres públicos e
30
deveria ser almejada como uma situação de bem - estar, porém é comum
presenciarmos muitas pessoas, que já possuem idade e estão
aposentadas, buscar outra forma de trabalho por ser o ganho da
aposentadoria, irrisório, havendo uma queda no padrão de vida das
famílias que vivem apenas da aposentadoria dos seus membros mais
velhos.
Essa é uma ambigüidade, provocada pelo direito que se transforma
em perdas sociais e econômicas. Uma solução criada para amparar
produz outros problemas, e os idosos, vítimas dessa situação, procuram
meios para solucionar suas necessidades, e o envelhecimento ativo é
uma dessas soluções.
Assim, no âmbito político e ideológico, o envelhecimento ativo, com os
idosos trabalhando e mantendo sua autonomia é defensável. Nesse
sentido, Cícero um dos velhos senadores da antiga Roma, que além de
filósofo era influente político, apresentou a velhice sob o prisma do “bom
envelhecer”. Segundo ele, para aqueles que concebiam a velhice como
algo detestável, existia quatro razões para isso: ela nos afastaria da vida
ativa, acabando por enfraquecer-nos o corpo, privando-nos de alguns dos
melhores prazeres e, finalmente, nos aproximaria da morte. É então
preciso resistir à velhice, combatendo seus inconvenientes: é preciso lutar
contra ela, como se luta contra uma doença; conservar a saúde, praticar
exercícios apropriados, comer e beber para recompor as forças, sem
arruiná-la (CÍCERO, 2006, p. 16)
As recomendações de Cícero demonstram a importância de se
permanecer ativo, tanto intelectual como fisicamente. Demonstrando as
vantagens de ser velho, Cícero afirmava que no momento em que
algumas características se vêem alteradas nos velhos, outras passam a
ser evidenciadas positivamente, na comparação entre jovens e velhos.
Velhice e juventude não deveriam se contrapor, pois os velhos não têm
que cumprir as mesmas obrigações que os jovens. Cícero declarou que
os velhos fazem mais e melhor, pois “não são nem a força; nem a
agilidade física; nem a rapidez que autorizam as grandes façanhas; são
outras qualidades como a sabedoria, a clarividência e o discernimento.
31
Qualidades das quais a velhice não só não está privada, mas, ao
contrário, pode muito especialmente se valer.” (CÍCERO, 2006, p.19)
Na sociedade contemporânea, para se manter ativo, em busca do
corpo mais jovem, avanços já foram conseguidos, amenizando as marcas
do envelhecimento físico como o uso de cirurgias plásticas, aplicação de
botox, cosméticos que ajudam a rejuvenescer, entre outros. É a
importância que se dá à imagem da juventude, como referência para a
saúde. Contudo, em se tratando de fugir das perdas sociais que a velhice
provoca, como é o caso das aposentadorias irrisórias, é necessária muita
criatividade para que o rendimento, pelo menos, cubra os gastos com
alimentação e recuperação de doenças.
Nesse contexto, vale ressaltar que o aposentado sofre muitas
discriminações e as seguradoras de saúde constituem-se um dos vilões,
que permitem que o idoso seja colocado em segundo plano, pois os
custos com a assistência de saúde, quando um segurado já passa dos 60
anos, é grande e, aos 80 anos, muitas das seguradoras sequer dispõe
seus serviços para atender às demandas desse segmento.
Assim, sem uma aposentadoria satisfatória, o idoso vê-se sem
alternativas e busca os serviços públicos para ser atendido, quando
necessita de assistência médica. No entanto, os serviços do sistema
público de saúde nem sempre possuem uma dinâmica de atendimento
diferenciado para o idoso, e ele fica, como todo o restante da população,
submetido a longas filas e a outras situações, que desfavorece, ainda
mais, o quadro do envelhecimento, associado às doenças adquiridas
nessa fase da vida.
A velhice associada à doença requer, além de atendimento médico
nos serviços de saúde, adequadas condições para manter a terapêutica
solicitada pelos profissionais de saúde como fisioterapias, uso de
medicações, alimentação, com dietas apropriadas para diabéticos e
hipertensos; exercícios físicos, entre outros.
Essa gama de condições favoráveis, como boa alimentação, recursos
para a compra de remédios, realização de exercícios físicos é
responsável pela disposição para o envelhecimento ativo e que o idoso,
independente de sua faixa etária, tem condições para a realização de
32
atividades das mais variadas, incluindo a energia para o trabalho que
ajuda a mantê-lo no contexto social da produtividade, tão valorizada em
nossa sociedade.
Por tudo isso, na modernidade, os homens criam seus próprios riscos
sobressaindo à imprevisibilidade uma vez que os empreendimentos
humanos tornam-se insuficientes para lidar com os paradoxos e os
conflitos gerados pela própria ação humana. Nem as relações
interpessoais ficam a salvo.
1.2 O IDOSO E AS RELAÇOES FAMILIARES: entre o apoio e os conflitos
A família brasileira está presente e permanece enquanto espaço
privilegiado de socialização, de prática de tolerância, da divisão de
responsabilidades, de busca coletiva de estratégias de sobrevivência e de
lugar inicial para o exercício da cidadania, sob parâmetros da igualdade,
do respeito e dos direitos humanos. É um espaço indispensável para a
garantia da sobrevivência de desenvolvimento e da proteção integral dos
filhos e demais membros, independente do arranjo familiar ou da forma
como vem se estruturando. (KALOUSTIAN, 2002)
Assim, Áries (1978) comenta que foi no século XVI, que o sentimento
de família nasceu e se desenvolveu, sendo reconhecida por um valor, e
exaltada por todas as forças da emoção. Essa exaltação era dirigida,
principalmente, a um tipo de família: a chamada conjugal, formada pelos
pais e filhos.
Esse modelo, também denominado de família nuclear, é reconhecido
por sua importância social nas relações humanas. Nesse sentido, Britto
da Motta (1998a, p. 13) refere que:
A família é também, a configuração mais diretamente
percebida e analisável da dinâmica dessas relações, com uma
história que em grande parte pode ser contada no tom que
estas ensejam no realizar das prescrições sociais para os
33
sexos/ gêneros e grupos de idade na organização da
sociedade.
No mundo contemporâneo, a família ganhou outra estrutura e outros
indivíduos foram-se agregando para se adaptar às transformações sociais
e/ou econômicas da nossa sociedade. Desse modo, para entendermos o
que significa essa transformação que a instituição família vem passando é
preciso refletir sobre a característica mais forte que a família possui, que é
a tradição. Sendo assim, Sarti (1995) coloca que a sociedade atual vem
abandonando a tradição como em nenhuma outra época da história
aconteceu e, assim, o amor, a família, a sexualidade, o casamento, o
trabalho, antes vivido a partir de papéis preestabelecidos, passam a ser
conhecido como parte de um projeto, no qual a individualidade conta
decisivamente e ganha cada vez maior importância social.
Os novos arranjos familiares nos dão a dimensão da evolução que a
sociedade vem experimentando, e as relações de gênero e gerações vêm
se adaptando à essas mudanças, com o movimento de transformação em
questões como casamento, criação de filhos, separações, sexualidade,
orçamento doméstico, entre outros.
Nesse contexto de mudança, segundo refere Britto da Motta (1998b)
as reais relações de família dos idosos demonstram a existência de um
quadro social de significativa heterogeneidade, com situações de
conflitos, que podem gerar abandonos desses idosos, nos asilos além de
outras mais positivas, onde ocorre a troca de ajuda e apoio entre eles e a
família.
Desse modo, as relações familiares dos idosos, marcadas pela ajuda
e o apoio, é tema de estudo de autores como Britto da Motta (1998a) e
Sardenberg (1998), que apontam a presença do idoso em uma situação
de provedor da família, sendo que as mulheres destacam-se nessa
situação.
No entanto, o apoio deixa as pessoas vulneráveis e presas nessa
relação. É como se o apoio levasse à dívida e, na falta deste, os conflitos
emergem. Nas relações familiares é sempre esperado o apoio, e quando
ele não acontece os julgamentos são inevitáveis.
34
Contudo, não é a família apenas a única que deve dar apoio ao idoso.
A comunidade e o Estado também são responsáveis. Na relação e no
suporte provido pela tríade família-comunidade-Estado- no Brasil, assim
como na maioria dos países em desenvolvimento poderá existir
dificuldades crescentes como: 1) a não existência ou pouca evidência de
políticas sociais de suporte aos cuidadores, em referência aos familiares
ou outros indivíduos que prestam auxílio direto ao idoso em suas
atividades básicas, a saber: alimentação, auxílio domiciliar, assistência
médica e serviços de orientação, entre outros; 2) o tamanho das famílias
no Brasil, que vem diminuindo, devido à queda da fecundidade; 3) o
aumento na proporção de separações conjugais, havendo idosos
residindo sozinhos, casais que optam por não ter filhos e mães que criam
sozinhas seus filhos; 4) idosos residindo com familiares, cuja renda total
não ultrapassa três salários mínimos e por fim, 5) o sistema de suporte
formal, que não tem sido capaz de substituir o papel da família
(CHAIMOWICZ 1998).
A Constituição do Brasil, de 1998, no seu artigo 226 registra que a
família, é a base da sociedade, e tem especial proteção do Estado. No §
8º, tem-se que: o Estado assegurará a assistência à família na pessoa de
cada um daqueles que a integram, criando mecanismos para coibir a
violência, no âmbito de suas relações. O Art. 230 refere que: A família, a
sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas,
assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade
e bem-estar, garantindo-lhes o direito à vida.
Assim, a carta magna do país defende que o idoso deve,
preferentemente, viver junto aos seus familiares, e que estes têm toda a
responsabilidade de mantê-lo com segurança e sendo bem cuidado,
provendo suas necessidades humanas. Nas sociedades de alto
individualismo, a expectativa normativa de que aos pais compete cuidar
dos filhos, e estes quando adultos amparem os pais idosos, nem sempre
se concretiza. As relações de ajuda e trocas entre os idosos e sua família
dependem muitas vezes do que viveram, enquanto relação pais e filhos.
Nesta, acordos e pactos feitos entre eles, parecem não existir claramente
e o modelo criado como uma obrigação quase que divina, que os filhos
35
devem cuidar de seus pais idosos, sucumbe aos interesses individuais
dos filhos.
Dessa maneira, os conflitos nas relações intergeracionais, que
surgem nas famílias, devido ao envelhecimento, geram dificuldades no
acolhimento ao idoso, porque os filhos, principalmente, sentem-se
sobrecarregados quando precisam cuidar dos “seus velhos”.
Bernardo (2005) comenta que a relação com membros das gerações
mais jovens tem papel importante para a auto-estima do idoso. Porém, as
relações intergeracionais, parecem ser marcadas pelo conflito e pela
violência.
Estudos demonstram que, o domicílio da família é onde ocorre grande
parte dos casos de violência contra idosos. Menezes (1999) em sua tese
de doutorado, realizada na cidade de Ribeirão Preto (São Paulo), analisou
casos de idosos que sofriam violência doméstica de filhos, conjugues,
entre outros. Os netos não respeitam os avôs, os filhos já não têm tanto
carinho, e assim, vão se estabelecendo laços distantes, que sobrevivem,
muito, mais como uma obrigação do que satisfação em cuidar de alguém,
que já não enxerga mais como antes, escuta com dificuldade, anda com
lentidão, enfim, alguém que envelheceu.
Esse tipo de violência origina-se das relações humanas e dos conflitos
que delas podem surgir. É própria da vida íntima, doméstica, da
subjetividade e das relações de interdependência. O idoso, especialmente
a idosa, por estar na maioria das vezes inserida no contexto da vida
privada, está mais propensa a vivenciar esse tipo de violência.
Segundo comenta Menezes (1999), a convivência diária com a
violência e com os agressores, conduz os idosos a uma apreensão
constante; sentindo-se sob ameaça, eles carregam medo e ansiedade
profundos, diante da sua fragilidade e impotência de lutar, face às suas
próprias condições físicas e econômicas. Nesse sentido, o pesadelo e o
fantasma da violência rondam o cotidiano dos idosos, muitas vezes em
uma intimidade cúmplice, na relação face a face com seu agressor,
marcando, contundentemente a sua vida, pela tortura silenciosa da
ameaça, pela vergonha, pela exposição, pelo medo e pela dor.
36
Corroborando com o que refere Menezes (1999), Ibias; Grossi (2001)
afirmam que muitos idosos evitam denunciar o agressor e justificam as
agressões com relatos de quedas. O sentimento de culpa em denunciar é
um fator que contribui para que a violência não venha à tona.
Assim, exercida como um processo social, a violência não é objeto
exclusivo da área da saúde, porém ela tem a missão de atender suas
vítimas e elaborar estratégias de prevenção e promoção à saúde, estando
intrinsecamente ligada ao seu fazer, uma vez que participa do conjunto
das questões e relações da sociedade (MINAYO; SOUZA, 1998).
Freitas; Noronha (2004) comentam que os profissionais de saúde do
Programa de Saúde da Família (PSF) sabem identificar situações de
violência contra o idoso, no entanto, não estão preparados para intervir
adequadamente. As políticas de saúde, ainda, não são efetivas e não
ajudam os profissionais a denunciarem os casos por eles diagnosticados.
Faltam mobilizações sociais e organizações que protejam os idosos.
Garrido (2005) comenta, em seu estudo com profissionais de saúde
da família, sobre a identificação de mulheres em situação de violência nas
diversas fases do ciclo de vida, incluindo a velhice. A constatação foi que
o envolvimento mais íntimo dos técnicos do PSF, nos casos de violência,
expõe demasiadamente esses profissionais a possíveis retaliações, por
parte da comunidade e, mais especificamente, dos agressores, sem que
tenham garantias de proteção, por parte do Programa ou de qualquer
outra instância pública.
Assim, a estatística da violência contra o idoso, no Brasil, ainda é
pouco precisa. Sabemos de mortes provocadas por acidentes e causas
externas, mas não registradas como violência pelos serviços de saúde. A
epidemiologia evidencia os indicadores com os quais o sistema de saúde
mede a magnitude das violências no cotidiano da vida, das instituições e
do próprio Estado. Para isso, usa o conceito: causas externas.
As Causas externas constituem uma categoria estabelecida pela
Organização Mundial da Saúde (OMS) para se referir às resultantes das
agressões e dos acidentes, traumas e lesões. "Violência" é um conceito
referente aos processos, às relações sociais interpessoais, de grupos, de
classes, de gênero, ou objetivadas em instituições, quando empregam
37
diferentes formas, métodos e meios de aniquilamento de outrem, ou de
sua coação direta ou indireta, causando-lhes danos físicos, mentais e
morais (MINAYO 2003b).
Nos Estados Unidos, estima-se que entre 4 a 10% da população idosa
é vitimada, sendo que 58% resulta de agressões do esposo ou
companheiro e 24% dos filhos adultos e, ainda, que esses maus tratos
não têm a ver com a situação econômica do idoso (WOLF, 1994). Klaus
(2000) refere que existe muito interesse em avaliar o que freqüentemente
chamamos de abuso de idosos. O National Crime Victimization Survey
(NCVS) identificou que a violência contra pessoas com 65 anos ou mais é
freqüentemente cometida por parentes, amigos íntimos ou pessoas que
conhecem bem a vítima. Isso inclui violência ocorrida em domicílio, mas
não em asilos.
Outros estudos internacionais registram dados diferentes sobre o
perfil do abusador familiar, Anetzberger et al., (1994); Ortmann et al.,
(2001) evidenciaram que: por ordem de freqüência, costumam ser, em
primeiro lugar os filhos homens, mais que as filhas; e a seguir, noras,
genros; e esposos. Sanmartin et al. (2001), em uma amostra de 307
idosos maltratados, acima de 70 anos, encontraram o seguinte perfil de
agressores: 57% eram filhos e filhas; 23% eram genros e noras: 8%, um
dos cônjuges. Anetzberger et al. (1994) em um estudo qualitativo
realizado com abusadores e não-abusadores, nos Estados Unidos
também, evidenciaram como principais agressores: filhos homens em
56,5% dos casos; e filhos homens solteiros com idade inferior a 49 anos,
em 78,3% dos casos,
Estudar a violência contra o idoso no âmbito doméstico é importante,
porém nosso foco são os idosos que residem nos asilos e que podem
estar, também, vivenciando situações de violência. Conhecer como as
diversas modalidades de violência se configura no cotidiano do idoso
asilado, nas relações com os outros idosos, com os profissionais que
trabalham na instituição e com seus familiares, pode ser estratégia para
auxiliar a melhoria da qualidade dos asilos e da vida de idosos que nele
residem.
38
1.3 O IDOSO E O ASILO
O termo “idoso institucionalizado” costuma ser utilizado para definir os
idosos que vivem coletivamente. Na língua portuguesa, institucionalização
é o "ato ou efeito de institucionalizar". Institucionalizar, por sua vez, é: dar
o caráter de instituição, adquirir o caráter de instituição, oficializar,
arraigar. (HOUAISS ; VILLAR, 2004).
Assim, o idoso institucionalizado é aquele a quem se dá ou que
adquire o caráter de instituição, que se transforma em instituição, o que,
não faz sentido. Na língua inglesa, o verbo correspondente a
institucionalizar, to institutionalize, tem uma acepção a mais, a de colocar
ou confiar alguém aos cuidados de uma instituição especializada
(alcoólatras, epilépticos, delinqüentes, idosos) (WEBSTER’S THIRD NEW
INTERNATIONAL DICTIONARY, 1966). Para expressar o recolhimento
do idoso a um asilo, seja por solidariedade humana seja mediante
pagamento, teríamos de encontrar uma palavra correspondente a
institutionalization em inglês. O termo mais apropriado em português seria
asilamento, ato de asilar, de recolher a um asilo.
Nascentes (1967) refere que asilo vem do grego Asylon, através do
latim asylum, cujo significado é o de refúgio, local onde a pessoa sente se
amparada, protegida, ao abrigo de possíveis agravos e danos de qualquer
natureza.
Com a marcante influência da literatura médica de língua inglesa em
nosso vocabulário médico, possivelmente, os geriatras continuarão a
preferir
o
vocábulo
institucionalizados,
em
importado
lugar
de
do
inglês,
abrigados,
mantendo
os
albergados,
idosos
asilados,
internados ou recolhidos a um gerocômio, termo que se refere a hospício,
hospital, asilo, abrigo ou albergue para idosos. É necessário lembrar que,
hospício, no passado, não significava somente manicômio; significava,
também, abrigo ou albergue (REZENDE, 2005).
Bauman (2007) comenta que os abrigos são “imaginados” e que
sendo a imaginação uma faculdade volúvel e caprichosa, são reduzidas
as chances de que qualquer abrigo permaneça popular e procurado por
39
muito tempo. Está longe de serem “naturais” ou “dados”. A vida dos
abrigos é uma sucessão de acontecimentos, que ressurgem e não se
pode terão certeza de que terão continuidade. Assim como aqueles os
que buscam segurança, os abrigos vivem de episódios. São frágeis e é
dúbio seu status, em relação à garantia de segurança.
Dessa maneira, a idéia de idoso asilado remete nos a refletir sobre o
asilo como um local de exílio, que significa, segundo Bueno (1992),
expatriação, degredo, banimento. Beauvoir (1990) assevera que para
defender os idosos materialmente e moralmente do desconforto e da
solidão, pensou-se, na França, em se construir, para eles, residências
agrupadas. Essas residências teriam esse duplo significado, ao mesmo
tempo em que seria um abrigo, poderia levar o idoso a não se sentir bem,
convivendo nelas, comunitariamente, com outros idosos.
A ambigüidade da função do asilo para o idoso está presente também
na maneira como a instituição organiza seu funcionamento. A ordem gera
dilemas, conflitos e ambivalência nas pessoas. Não é possível perceber
um discurso homogêneo no que se refere a vida no asilo. Sempre haveria
aqueles que defendem essa alternativa, e outros que serão contra a sua
permanência na sociedade.
No livro de Jacoba Van Velde, intitulado A grande sala, a ambigüidade
da vida do idoso no asilo é retratada. Esse livro conta a história de uma
idosa, que foi levada por sua filha para viver no asilo, pois não possuia
meios práticos para cuidar da mãe; a idosa se vê angustiada, porque a
partir daquele dia não teve mais nem um minuto de solidão. Estava
sempre rodeada de pessoas. O depoimento de um idoso residente em
outro asilo afirma que a forma como os idosos, independentes de sua
idade, são tratados pelo corpo técnico leva-os ao sentimento de regresso,
como se voltassem à infância (BEAUVOIR, 1990)
A alternativa do asilo passou a ser um problema, pois ganha-se em ter
um local para viver, porém perde-se no respeito humano, na
massificação. Além disso, a infantilização da velhice ilustra a imagem de
dependência que o idoso aparenta e sabemos que não depende dele ter
autonomia para realizar suas atividades cotidianas. Essa maneira de
tratamento para com o idoso pode trazer constrangimentos, expondo-o
40
pela depreciação da sua imagem. Tal situação deve ser tão agressiva
para uma pessoa que já foi independente, que pode causar-lhe
sentimentos de inferioridade ao se ver reduzida a objeto.
Viver em ambientes coletivos significa falta de privacidade, por estar
sempre rodeado de outras pessoas e isso gera a sensação de estar
sendo vigiado, observado, permanentemente. Tal situação pode provocar
desconforto. Os asilos passam pela observação de pesquisadores que se
debruçam a olhar os idosos e a revelar as características desses
indivíduos: Como vivem? Como são suas relações com os familiares?
1.4 O ASILO ONTEM E HOJE
O recolhimento de pessoas em asilos nem sempre se constituiu de
idosos. Anteriormente, o asilo era um local destinado aos mendigos. O
internamento deles era uma estratégia, para identificar vadios e ociosos,
além de ajudar a zelar pela saúde pública. As ações de retirada dos
mendigos das ruas era uma atitude que se apoiava no saber médico
higienista, que via os pontos de mendicância como “focos de doenças”,
que ameaçavam a “salubridade” das cidades. Assim, orientação era a
construção de asilos distantes da cidade e em locais higienicamente
apropriados (FRAGA FILHO, 1996)
A retirada, limpeza e recolhimento de mendigos das ruas, leva-nos a
refletir sobre o Estado Moderno, que nasceu como uma força missionária
empenhada em submeter às populações dominadas a transformar a
sociedade através da ordem. Conforme comenta Baumam (1999) o
Estado Moderno era jardineiro. Apontava a mudança através de um
projeto racional, com critérios que dividia a população em plantas úteis, as
quais eram estimuladas e cultivadas, e ervas daninhas, que deveriam ser
removidas ou arrancadas. Considerava essas duas categorias como
objeto e negava-lhes a liberdade de escolha.
Sampaio (1983) relata que, em 1919, foi fundado na cidade de
Ribeirão Preto o Lar Padre Euclides, uma instituição filantrópica,
41
denominada Asylo da Mendicidade de Ribeirão Preto, realização do
Padre Euclides Gomes Carneiro. Originalmente, o asilo recolhia das ruas
mendigos de qualquer idade, oferecendo-lhes abrigo e oportunidade de
trabalho. Com o passar dos anos, a proposta assistencial foi modificada,
restringindo-se, atualmente, apenas ao acolhimento de idosos.
Deve ser registrado que na sociedade atual, a questão do idoso está
relacionada às aposentadorias com baixo poder aquisitivo, as quais
constituem sua principal fonte de rendimentos, impossibilitando o
atendimento de suas necessidades; além de discriminação nos serviços
de saúde; exclusão do idoso da família e comunidade, destacando-se à
indefinição de uma política de valorização dessa população, dentre
outras.
Diante dessa situação, e à medida que a população envelhece,
aumenta a demanda por instituições de longa permanência e pode ser os
asilos ou lares para idosos a alternativa mais adequada para atender tal
necessidade. Nos Estados Unidos (EUA), cerca de 5% dos idosos
residem em abrigos, que oferecem serviços de saúde, lazer e assistência
social.
Na Inglaterra, a freqüência da busca por instituições de longa
permanência é minimizada, por meio do atendimento em hospitais-dia,
com assistência multidisciplinar à saúde, oferecida a esse segmento da
população, principalmente na área da reabilitação, esses hospitais
prestam-se, em grande parte, para "aliviar" o trabalho extra dos familiares
de idosos dependentes (CHAIMOWICZ 1998).
Desse modo, os principais serviços oferecidos ao atendimento da
população dirigem-se à saúde e a seu cuidado, sendo comum, em grande
parte das capitais do país, instituições asilares, privadas ou filantrópicas,
direcionadas ao idoso, e, com raras exceções, aquelas mantidas pelo
Estado.
Chaimowicz (1998) comenta que, no Brasil, embora grande proporção
de idosos residentes em asilos seja dependente por problemas físicos ou
mentais, a miséria e o abandono são os principais motivos da procura por
essa alternativa de vida, estando a maioria dos asilos, nas regiões
42
metropolitanas de Belo Horizonte e São Paulo, mantidos por instituições
de caridade, como a Sociedade São Vicente de Paulo (SSVP).
Quanto às características dessas instituições, dirigidas aos idosos,
normalmente são locais com espaço e áreas físicas semelhantes a
grandes
alojamentos.
Raras
são
aquelas
que
mantêm
pessoal
especializado para assistência social e à saúde, ou que possuem uma
proposta de trabalho voltada para manter os idosos independentes e
autônomos. Eles vivem, na maioria das vezes, como se estivessem em
reformatórios ou internatos, com regras para entrada e saída, tendo
poucas possibilidades de vida social, afetiva e sexual. Na realidade,
muitas vezes o que se encontra são depósitos de pessoas, que,
fundamentados na idéia de amor ao próximo e amparo aos desabrigados,
consideram que o abrigo, juntamente com os cuidados prestados aos
idosos, são suficientes às pessoas que estão nos seus últimos dias de
vida (SILVA, 1997).
Duarte (1994) e Rodrigues (1996) relatam, que com vistas a toda a
problemática, comum ao idoso, o crescimento dessa população tem sido
objeto de estudo, e afirmam que o asilo não deveria ser configurado
apenas
como
uma
instituição
que
acolhe
idosos
rejeitados
ou
abandonados pela família, mas, que, também, deve ser lembrada,
compreendida e respeitada como uma escolha, dentro do contexto de
vida de cada indivíduo.
Assim, o perfil dos idosos que procuram os asilos para residirem é
bastante variado. Podemos encontrar idosos que não possuem filhos e,
portanto, não têm quem possa cuidá-los, apesar de o fato de ter filhos não
assegura uma velhice em companhia da família. Também, encontra-se a
presença de idosas que, com a perda do companheiro, preferiram ir para
o asilo, pois acreditam que assim não darão trabalho aos filhos. Há idosos
que abandonaram os filhos quando pequenos, e agora são abandonados
por eles; idosos que foram mendigos à época em que os asilos foram
construídos e ainda permanecem lá. Esse perfil também, envolve
diferentes aspectos de classe social, de gênero e de gerações dos idosos,
determinando suas demandas de saúde, sendo marcantes em suas vidas
no asilo.
43
Na sociedade, as divisões de classe social são as principais
características de possibilidades de consumo para o indivíduo. Nos asilos
essas tendências sociais de diferenças de classe são reproduzidas da
mesma maneira que fora dos muros, pois são encontradas divisões, em
termos de espaços físicos, que são as dependências que cada idoso
ocupa: alguns com quartos espaçosos e mantidos como se fosse em suas
casas, com aparelhos de tv, rádios e geladeiras e aqueles que têm
apenas os pertences pessoais, como: roupas e alguns objetos, estando
separados dos seus companheiros de quarto por uma pequena distância
entre uma cama e outra. Para estes últimos, a idéia de privacidade e
espaço individualizado não existem.
As relações interpessoais dos idosos que residem coletivamente
passa por uma divisão social também, porque estando em um mesmo
espaço, idosos da mesma classe social, têm mais contato e assuntos
comuns. Desse modo, nos asilos, os idosos que podem pagar por sua
morada têm privilégios, diferentes daqueles que são mantidos por sua
aposentadoria ou pelo Estado.
Em algumas instituições, observamos a implementação de ações que
buscam colocar o idoso em contato com tudo que acontece em
sociedade. Assim, são realizados passeios a lugares turísticos, festas em
datas comemorativas, bailes dançantes na própria instituição, tentando
promover ou manter a sociabilidade entre os companheiros. Alguns asilos
permitem que o interno saia do estabelecimento, desde que registrem
suas saídas e o horário da chegada e digam qual roteiro que farão. Esse
controle que se faz necessário, à medida que denota a responsabilidade
que a instituição tem com o idoso que ali reside.
No entanto, isso nos leva a refletir sobre o conceito de instituição total,
que é caracterizada pelo fechamento, o que significa a existência de
barreiras em relação ao mundo externo, através de proibições de saídas
que estão incluídas no esquema físico como exemplo: portas fechadas,
muros altos, fossos, pântanos, entre outros. (GOFFMAN, 1999)
As regras impostas pelas instituições, que podem ser classificadas
como totais, são importantes para sua organização local. Goffman (1976)
coloca que toda a organização implica em uma disciplina das atividades
44
e, também, de ter uma obrigação de apresentar um determinado caráter e
de habitar um determinado mundo. O autor descreveu o ajustamento
primário do indivíduo à organização e o ajustamento secundário, definido
como um arranjo habitual, através do qual o membro de uma organização
utiliza meios, sancionados ou não, para contornar as previsões da
organização.
Dessa maneira, considerando esses conceitos, trazidos por Goffman
(1976) sobre ajustamentos perguntamos: como os idosos se comportam
no asilo? Quais os meios ou ajustamentos que eles utilizam para se
adequar à vida na instituição? Acreditamos que o tempo que os idosos
estão residindo “na casa” deve ser um fator importante para a construção
desses ajustamentos, e que isso perpassa por uma reconstrução das
suas identidades, principalmente para aqueles que viveram, na juventude,
junto da família e, agora, na velhice, estão em uma residência coletiva.
Nesse sentido, a identidade é um dado fundamental para o indivíduo
na sociedade, e o idoso vivencia perdas, e precisa reconstruir sua
identidade. Assim, quem é o idoso que se encontra em uma instituição
asilar? Quais os papéis que assume, uma vez que não é mais pai, mãe,
ou melhor, já não pode mais desempenhar esses papéis no seu dia-adia? O idoso tem ou precisa aprender a viver com outras pessoas, que
não lhes são familiares, mas que se tornam, muitas vezes, tão próximas
quanto um membro da sua própria família.
Mendes (2002) relata que Erving Goffman faz uma importante
distinção conceitual no debate entre identidade social, identidade pessoal
e identidade de ego. A identidade pessoal é estabelecida pela aparência
física, o nome e as características que são derivadas de sua biografia. A
identidade social é construída pelas diferentes categorias sociais a que
um indivíduo pode pertencer e a identidade do ego também chamada de
“sentida” é a sensação subjetiva da sua situação, da sua continuidade e
do seu caráter, que advém ao indivíduo como resultado de suas
experiências sociais.
Neste estudo, usamos a identidade, segundo os aspectos pessoais,
sociais e identidade de ego, porque ao pesquisar sobre o cotidiano do
idoso no asilo, estivemos, também, conhecendo como o idoso construiu
45
sua identidade, a partir da ida para a instituição, e como essa construção
teve ou tem repercussão nas expressões de violência vivenciadas por
eles. A violência que pretendemos discutir neste estudo tem um caráter
sutil e, por isso, nem sempre percebida, pois a própria condição do idoso
é naturalizada em suas demandas sociais e isso, por si só, deixa aberta a
possibilidade de manifestações violentas contra si mesmo. A identidade
do idoso asilado pode ter sido construída através de atitudes, de
comportamentos agressivos contra ele, e, possivelmente, a família, o
Estado e a sociedade contribuíram em diferentes níveis, para isso.
Corroborando com Graeff (2007) entendemos que o caráter de
instituição total, vem se modificando quando os asilos organizam-se como
empreendimentos lucrativos. O segmento de idosos representa um
mercado potencialmente grande para todo tipo de serviços e mercadorias.
Dessa maneira, notamos que o asilo obteve alguns avanços ao longo dos
tempos, pois encontramos, em algumas instituições asilares abertura para
que os idosos possam ainda, sair para o mundo extra muros: ir ao banco,
visitar um amigo, ir à casa de familiares, acompanhados ou não, desde
que digam para onde vão e a que horas retornam é um avanço para os
idosos. Essas transformações não condizem com o conceito de Goffman
(1976, p. 16) que toda instituição total tem um caráter de “fechamento”
algumas mais, outras menos.
Seu fechamento ou seu caráter total é simbolizado pela
barreira a relação social ao mundo externo e por proibições a
saídas que muitas vezes estão incluídas no esquema físicopor exemplo, portas fechadas, paredes altas, arame farpado,
fossos, águas, florestas ou pântanos.
Dessa maneira, faz-se necessário uma compreensão dos asilos como
instituições que se tornaram flexíveis, embora tenham outros símbolos
para manter caráter controlador, como exemplo o cartão de saída com o
horário em que o idoso deixou a instituição e a determinação do horário
que ele deve retornar. Desse modo, o asilo, encontra-se entre a
formalidade de uma empresa, com seus clientes: familiares e idosos, a
quem deve convencer que sua estrutura e seus serviços sejam rentáveis
e satisfatórios.
46
1.5 A VIOLÊNCIA DO ASILO: um problema da sociedade moderna?
A modernidade é um tempo em que se reflete a ordem do mundo, do
habitat humano, do eu humano e a conexão com os três. Não se pode
datar seu início, apenas assinalar que surge como a qualidade de
perceber ordem nas coisas. (BAUMAN, 1999)
Os homens acreditam que ao produzir ordem podem ter a certeza de
que estão no controle da situação. No entanto, a ordem induz a
desordem, o controle ao descontrole e assim se constitui “a ambivalência,
um conceito que possibilita conferir a um objeto ou evento mais de uma
categoria” (BAUMAN 1999, p. 09). Assim, a necessidade de ordenar,
classificar e nomear acontece porque se percebe que existe uma
desordem, o que Bauman chama gêmeo da ordem. A ambivalência surge
em meio à crise de um mundo ordenado, que não concebia o acaso e a
dinâmica das situações.
O asilo, nesse contexto de modernidade, surge como um espaço para
classificar os diferentes, ao tempo em que segrega e separa a minoria,
antes composta de mendigos e hoje por idosos. Ao se imprimir a suposta
ordem ao espaço social, os problemas surgem nessa atitude moderna.
Dentre eles a violência é o que levantamos como uma das conseqüências
da ambivalência, produzida no asilo. Estudos sobre as instituições
asilares costumam relatar que existe violência no asilo, associada desde
a sua estrutura e organização social até a falta de cuidado ou negligência
nas relações entre os cuidadores e os idosos. A propósito, Guerra et al
(2000) relataram que os resultados do estudo realizado sobre as mortes
ocorridas no episódio da Clínica Santa Genoveva, mostraram que a
utilização dos dados do SIH-SUS poderia ter antecipado as investigações
dos órgãos competentes, de modo a evitar o excesso de mortalidade em
idosos, o que foi identificado, apenas, em meados de 1996.
Dessa maneira, no momento em que o Brasil vivencia o crescimento
progressivo da população idosa, o caso da Clínica Santa Genoveva
chamou a atenção para a vulnerabilidade dessa população. O SIH-SUS
oferece informações importantes para o monitoramento e avaliação da
47
assistência hospitalar prestada pela rede conveniada. Como não há
motivos para acreditar que o episódio dessa clínica seja fato isolado,
considera-se que esse tipo de investigação é fundamental para
estabelecer métodos de monitoramento, contribuindo para a construção
de indicadores de avaliação da qualidade da atenção à saúde.
Asilos sem condições estruturais, ou seja, construídos em locais que
não são adequados, e sem suportes para situações emergentes podem
ser encontrados e, também, fazem parte de um quadro de negligência,
pois colocam a vida dos idosos em risco. Como exemplo desse tipo de
violência, pode-se citar o que ocorreu em um asilo no Japão, onde seis
idosos morreram e um sétimo ficou ferido em estado grave em um
incêndio, que destruiu a residência na qual viviam, na cidade de
Nagasaki, sudoeste do Japão. (ESTADÃO, 2006)
Outro caso foi registrado no site do Globo on line, em 2005, quando
dois proprietários de um asilo de idosos em Nova Orleans, encontraram
34 corpos, após a passagem do furacão Katrina. Eles foram presos na
capital da Louisiana, Baton Rouge, acusados de homicídio por
negligência. O asilo St. Rita situado na zona de St. Bernard Parish, nos
arredores de Nova Orleans, cidade que ficou abaixo do nível da água do
mar. O escritório da promotoria geral da Louisiana revelou que os
proprietários Mable Mangano e Salvador Mangano teriam recusado a
oferta das autoridades, que queriam enviar ônibus para retirar os idosos
do asilo.
No contexto da Bahia, o jornal À TARDE tem publicado reportagens
sobre o crescimento da violência contra idosos. Esse mesmo jornal exibiu,
no dia 19 de março de 2006, fotos de idosos em um canto do pátio do
Asilo São Lázaro, localizado na cidade do Salvador – Bahia, comentando
sobre as cenas de abandono, que foram flagradas nessa instituição.
Também, essa reportagem faz referências às condições precárias que
os idosos vivem e, ainda, que alguns deles não têm registro civil e,
portanto, é como se não existissem para a sociedade. Esse tipo de
situação contradiz o direito da cidadania. São idosos que não sabem o
nome completo, a idade e nem sua história de vida. Muitos já passaram
48
por várias instituições e são os mais afetados pelo sistema social, que
relega o idoso a condição de um ser à margem da sociedade.
Segundo pesquisa realizada pela Escola de Enfermagem da
UNNIFESP, sobre as condições de 29 asilos, cadastrados na Vigilância
Sanitária em São Paulo, refere que eles não possuem condições de
acolher de maneira adequada os idosos. O Ministério da Saúde preconiza
o número máximo de quatro leitos por quartos, porém foram encontrados
asilos com quartos com mais de cinco camas. Além disso, as instalações
sanitárias eram inadequadas, as rampas de acesso, muito inclinadas; o
piso anti – derrapante, não foi encontrado em todos os asilos visitados,
entre outras condições desfavoráveis. Esses critérios estão descritos na
portaria GM/ MS Nº 810/1989, que dispõe sobre as normas para o
funcionamento de Casas de Repouso, Clínicas Geriátricas e outras
instituições destinadas ao atendimento dos idosos. Essa portaria
descreve como as instituições devem funcionar, determinando como deve
ser a estrutura física dessas instituições.
A vida dos idosos, que residem em instituições asilares, pode estar
entrelaçada em situações que são a reprodução do que a sociedade tem
como representação da velhice. Viver no asilo, para alguns idosos ou
idosas, não significa “proteção”. A história do asilo passa pela atitude de
retirada da sociedade de pessoas não aceitas, como mendigos, doentes
mentais e velhos. A ordem era isolar essas pessoas, pois elas eram
ameaça aos cidadãos. Essa ameaça, representada pela doença, pela
diferença e pela miséria, o que nos leva a refletir sobre uma situação de
desigualdade, que não é “nossa”, é do outro.
Ademais, o individualismo da sociedade atual deixa espaço para a
afirmação de que não devemos pensar nessas situações. Apesar do
paradoxo que define a individualidade como “espírito de grupo” e que
precisa ser imposta por um aglomerado. (BAUMAN, 2007)
Deve ser lembrado que a origem dos asilos está muito próxima da
origem dos hospitais,os quais, que segundo comenta Foucault (1998),
eram instituições de auxílio aos pobres. A definição dos hospitais deu-se
antes do século XVIII e, assim como os asilos, o hospital era uma
instituição de “assistência”. Ele propiciava separação e exclusão, porque
49
o pobre já era considerado como um necessitado de cuidados e, sendo
doente, era perigoso para a sociedade. Beauvoir (1990) comenta que os
asilos surgiram por volta do século IV por iniciativa e contribuição da
igreja católica. Criados primeiro em Roma e Alexandria, especialmente
pelas Associações Vicentinas, que tinham a finalidade de socorrer os
pobres órfãos, abandonados, necessitados e doentes.
Ainda, sobre a origem dos asilos, Miller (1997) relata que as primeiras
instituições filantrópicas destinadas a abrigar pessoas idosas apareceram
no Império Bizantino, no século V da era cristã. Abrigavam mendigos que
poderiam estar doentes e, além disso, trazia um perigo social e, portanto,
precisavam ser postos à parte da sociedade. Os velhos também
possuiam essa conotação social de marginalidade, que precisavam ser
isolados do convívio coletivo.
O isolamento da velhice, em alguns casos, está associado à miséria e
à pobreza. Dessa maneira, o que nos “agride” na condição de ser velho,
não é apenas a forma física que o idoso aparenta e que não nos agrada
pelas marcas físicas: dos cabelos brancos, dos pelos no queixo das
mulheres, da pele enrugada, da falta dos dentes, do lóbulo da orelha
maior, dos papos ou bolsas, sob os olhos, mas também todo um contexto
social e simbólico, no qual a velhice assume conotações negativas.
Nesse contexto social, as instituições asilares reúne, hoje, muitas
histórias de idosos que foram mendigos, que lá envelheceram ou foram
transferidos de abrigo a abrigo. Um quadro que revela como os asilos
passaram a ser uma opção para pessoas que não têm família e mesmo
para aquelas que têm e, por vários motivos, preferem viver coletivamente,
com indivíduos da sua mesma classe de idade. Porém, se a vida em uma
comunidade, onde existem diferentes gerações, assegura autoestima
para os idosos, o quê dizer dessa vivência com pessoas da mesma
idade? O quê isso assegura para os idosos? Será uma alternativa de
isolamento, disfarçada de segurança?
O isolamento, o preconceito e a marginalidade da velhice podem ser
encarados como formas violentas de tratar os idosos. Atualmente, a
violência é fato visto e sentido e, apesar dos inúmeros estudos sobre o
assunto, ela está presente em alguns equívocos na interpretação das
50
relações sociais. Em geral, esses equívocos surgem a partir de uma
atitude reducionista, frente à questão da violência, como aqueles que
limitam a compreensão, quando se referem ao fato de muitos situarem a
violência apenas no campo do crime. Os crimes, enquanto delitos
cometidos contra a lei, concretamente revelam a existência da violência,
uma vez que podem comprometer a vida de pessoas e de grupos; mas
por trás dos crimes estão presentes outros níveis de violência, que
necessariamente não se articulam diretamente com eles, e que nem
sempre são percebidos enquanto tal. (GOMES, 1997)
A legislação sobre crimes cometidos contra a pessoa idosa foi
evidenciada no Brasil somente com o Estatuto do Idoso (2003), e referese à discriminação; dificultar o acesso do idoso ao exercício de sua
cidadania; deixar de prestar assistência sem justa causa; abandoná-lo em
hospitais, casas de saúde, instituições de longa permanência ou não
prover suas necessidades básicas; expor a perigo a sua integridade física
e psíquica, submetendo-o a condições degradantes, privando de cuidados
indispensáveis ou de alimentos ou sujeitando-lhe a trabalho excessivo ou
inadequado; negar, por motivo de idade, emprego ou trabalho; obstar o
acesso a cargos públicos; apropriar-se de bens, proventos e pensões ou
outros rendimentos do idoso; reter o cartão magnético de conta bancária
referente
aos
seus
rendimentos,
ou
outros
documentos;
negar
acolhimento ou permanência ao idoso que se recuse a outorgar
procuração à entidade de atendimento; exibir ou veicular imagem ou
informações depreciativas a pessoa idosa; induzir a pessoa idosa, sem
discernimento de seus atos, a outorgar procuração para fins de
administração de bens ou deles dispor livremente e, ainda, coagir o idoso
a doar, contratar, testar ou outorgar procuração.
Assim, em relação a definição do que é violência contra o idoso, nos
apoiamos na Política Nacional de Redução de Acidentes e Violências do
Ministério da Saúde, a qual estabeleceu categorias e uma tipologia para
designar as várias formas de violências praticadas contra a população
idosa. (BRASIL 2001, p.51-53):
¾
Abuso físico, maus tratos físicos ou violência física são
expressões que se referem ao uso da força física, para compelir os idosos
51
a fazerem o que não desejam, para feri-los, provocar-lhes dor,
incapacidade ou morte.
¾
Abuso
psicológico,
violência
psicológica
ou
maus
tratos
psicológicos correspondem a agressões verbais ou gestuais, com o
objetivo de aterrorizar os idosos, humilhá-los, restringir sua liberdade ou
isolá-los do convívio social.
¾
Abuso sexual, violência sexual são termos que se referem ao ato
ou jogo sexual de caráter homo ou hetero-relacional, utilizando pessoas
idosas. Esses abusos visam a obter excitação, relação sexual ou práticas
eróticas por meio de aliciamento, violência física ou ameaças.
¾
Abandono é uma forma de violência, que se manifesta pela
ausência ou deserção dos responsáveis governamentais, institucionais ou
familiares de prestarem socorro a uma pessoa idosa que necessite de
proteção.
¾
Negligência refere-se à recusa ou à omissão de cuidados, devidos
e necessários aos idosos, por parte dos responsáveis familiares ou
institucionais. A negligência é uma das formas de violência contra os
idosos mais presente no País. Ela se manifesta, freqüentemente,
associada a outros abusos, que geram lesões e traumas físicos,
emocionais e sociais, em particular, para aquelas que se encontram em
situação de múltipla dependência ou incapacidade.
¾
Abuso financeiro e econômico consiste na exploração imprópria
ou ilegal dos idosos ou ao uso não consentido por eles de seus recursos
financeiros e patrimoniais. Esse tipo de violência ocorre, sobretudo, no
âmbito familiar.
¾
Auto-negligência diz respeito à conduta da pessoa idosa que
ameaça sua própria saúde ou segurança, pela recusa de prover cuidados
necessários a si mesmos.
Este estudo não tem como objetivo criar uma tipologia de violências
no asilo, mas refletir sobre as formas existentes e desenvolver o conceito
de violência invisível, camuflada e sutil, não contestada pelos que são
vítimas, e justificada pelos que a cometem. É a violência institucional e
das relações interpessoais, que aparece nesse espaço, e sobre a qual
debruçamos nosso olhar.
52
A violência pode ser justificada como algo próprio da natureza do
homem e da mulher. Uma definição, que não naturaliza a violência, nos
será útil e, nesse momento, nos apoiamos em Minayo:
A violência não é uma, é múltipla. De origem latina, o vocábulo,
vem da palavra vis, que quer dizer força e se refere às noções
de constrangimento e de uso da superioridade física sobre o
outro. No seu sentido material, o termo parece neutro, mas
quem analisa os eventos violentos descobre que se referem a
conflitos de autoridade, a lutas pelo poder e a busca de
domínio e aniquilamento do outro, e que suas manifestações
são aprovadas ou desaprovadas, lícitas ou ilícitas, segundo
normas sociais mantidas por aparatos legais da sociedade ou
por usos e costumes naturalizados. Mutante a violência
designa de acordo com épocas, locais, circunstâncias,
realidades muito diferentes. Há violências toleradas e há
violências não condenadas. E, desde o nascimento do homo
sapiens e, mais especificamente, desde o início da
modernidade, ela se enriquece de novas formas, cada vez
mais complexas e, ao mesmo tempo, mais fragmentadas e
articuladas. (MINAYO, 2003a p. 25)
O que Minayo afirma, nessa citação, leva à reflexão sobre a forma de
como a violência pode se plasmar nas relações entre as pessoas e na
sociedade, quando comenta que a violência é mutante, e que se modifica
de acordo com a época, o local, as circunstâncias e os contextos
diferentes. Essa complexidade das formas de violência nos levou a vários
questionamentos, ao longo deste estudo.
Sobre o porquê de idosos estarem hoje, no século XXI, morando em
instituições asilares, visto que eles obtiveram alguns ganhos ao longo dos
tempos. É o asilo um local onde existe violência, e de quê tipo? Como
compreender a violência relacionada à organização e aos cuidados
prestados pelos funcionários do asilo? Como bem analisar as trajetórias
de vida dos idosos que foram morar no asilo estudado? Em que medida a
condição social, o gênero e as questões geracionais são fatores que
fazem a diferença e a semelhança entre eles e elas? Sabemos que há
muitas diferenças entre eles, mas tem em comum esta determinada
instituição asilar, como destino. Dessa maneira, para formularmos a
compreensão das formas de violência contra o idoso a partir das nossas
53
observações e das histórias contadas pelos idosos, percebemos que a
violência contra esse grupo social não ocorre de forma pontual.
Ao contrário, o processo é um ciclo que não tem um começo bem
delimitado, e o seu fim não ocorre quando cessam as repetições dos atos
violentos, pois as marcas permanecem nas histórias de vida dos idosos.
Percebemos que quando ocorre uma forma de violência é porque outras
já aconteceram, ou estão prestes a ocorrer. Ou seja, uma forma leva a
outra, e o ciclo vai se formando como uma pedra que lançada na água se
propaga como ondas concêntricas, que giram provocando efeitos em
todas as dimensões da vida do idoso.
Figura 1
2
Ciclo da violência contra o idoso
Comparando com o modelo ecológico, construído pela OMS (2002),
que explica as causas da violência, citando quatro níveis a partir dos
fatores biológicos, relacionais, comunitários e sociais mais amplos, o ciclo
2
Este diagrama construído pela autora, representa o ciclo da violência contra o idoso para exemplificar
colocamos algumas formas de violência que podem acontecer, sendo que não é possível dimensionar o que
ocorre primeiro mesmo porque algumas manifestações violentas ocorrem simultaneamente.
54
que construímos não tem a intenção de explicar as causas, mas
compreender que os tipos de violência estão imbricados e se propagam
na vida da vítima, produzindo conseqüências desastrosas. Nossa
compreensão é próxima do modelo ecológico, quando este reporta-se à
reflexividade entre os fatores e os fenômenos. E, ainda, na necessidade
da interdisciplinaridade nas pesquisas sobre esse tema.
Sociais
Comunitários
Em relações
Individuais
Figura 2
Modelo Ecológico OMS (2002)
Para o entendimento da violência, muitas abordagens procuram
compreensão e explicação. Nesse sentido, Mertens (1981) refere-se à
"violência silenciosa", existente de forma bastante velada, como produto
de certos tipos de relações, que se configuram entre Estado e sociedade,
na exploração e na injusta concentração do capital por parte de pequenos
segmentos, em detrimento da miserabilidade de muitos "quase cidadãos"
Trabalhamos neste estudo com a noção de “violência invisível” que
tem relação com a “violência silenciada” referida por Mertens (1981).
Invisível, no sentido de que, de tão “naturalizada”, algumas maneiras com
que os idosos são tratados parece que esse tratamento não é
considerado como violência. Como exemplo é o que os políticos e
burocratas do Estado deixam claro que grande parte dos seus gastos com
a Previdência Social é com os idosos ou aposentados, sendo que isso é
um direito garantido por lei para o idoso e não uma doação do Estado.
55
Vale argumentar, que muitos idosos sustentam suas famílias com sua
aposentadoria, em virtude da falta de emprego e do crescimento da
pobreza das famílias de classe social menos privilegiada, sendo uma
característica comum a esse grupo, e não visualizado como violência.
Enquanto que a parcela da população de idosos que vivem em asilos
traz aspectos importantes na vida que levam nessas instituições, que
também são “invisíveis” e, portanto, muitas vezes, não considerados
como violência. Um dos aspectos, que consideramos fundamental é a
escolha de ir para a instituição, que pode ser uma opção própria do idoso
ou não. O idoso e a família são importantes para a tomada de decisão
dessa escolha. Outro aspecto é a própria instituição, que pode
despersonalizar o idoso, mantendo a impessoalidade dos cuidados e um
regime disciplinar rígido. A situação agrava-se sempre que as instituições
sofrem de falta de recursos – o que parece ser a regra -, e não
conseguem satisfazer às necessidades dos idosos que acolhem. O
reflexo da escassez de recursos evidencia-se na falta de preparo e de
estímulo das pessoas, que nelas prestam os cuidados aos idosos e na
baixa qualidade dos serviços prestados. Daí, a imagem negativa que
muitos idosos têm dessas instituições e da violência que representam,
nesses casos, a falta de alternativas à sua institucionalização.
Brito; Ramos (1996) ressaltam que, os asilos, geralmente, são
casas inapropriadas e inadequadas às necessidades do idoso. Esses
locais, também, dificultam as relações interpessoais no contexto
comunitário, indispensáveis à manutenção pelo idoso da sua vida e
construção da sua cidadania. Este é um fator que iremos considerar na
pesquisa, quando analisarmos à violência que o idoso está vulnerável nas
instituições que residem, as quais constitui, também, a modalidade mais
antiga e universal de atendimento ao idoso, fora do seu convívio familiar,
tendo como, inconveniente, favorecer seu isolamento, sua inatividade
física e mental, tendo, dessa forma, conseqüências negativas à sua
qualidade de vida.
56
1.6 O QUE DIZ A LEGISLAÇÃO
A Política Nacional do Idoso, sancionada pelo Decreto nº 1.948 de 03
de julho de 1996, frisa, no artigo 3º, que a instituição asilar tem, por
finalidade, atender, em regime de internato, o idoso sem vínculo familiar
ou sem condições de prover a própria subsistência, de modo a satisfazer
suas necessidades de moradia, alimentação, saúde e convivência social.
Prioriza, também, a Lei 8.842, de janeiro de 1994, no artigo 4º, parágrafo
III, o atendimento ao idoso pelas famílias, ao invés do asilar. Porém, a
existência de vários fatores, tais como os demográficos, sociais e de
saúde, conduzem ao aumento da demanda pela institucionalização e o
quadro hoje é o idoso em boas condições sociais e financeiras e com
família, vivendo em asilos.
Nesse sentido, o abandono de idosos em asilos, hospitais e similares
é considerado crime - artigo 98 Estatuto do Idoso (2003). Segundo Lemos
(2007) isso é um consenso indiscutível e tem sido considerado prática
intolerável pelas mudanças do seu significado social, representadas pela
sensibilidade coletiva, que se coloca contrária a esse procedimento,
dentro de um contexto de redemocratização, cidadania e direitos
humanos. No entanto, o mesmo autor assinala que a criminalização do
abandono, apesar de válida como medida de proteção ao idoso, tem
servido mais para mascarar a inoperância do poder público na elaboração
de uma política de atendimento efetiva, do que solucionar o problema dos
desamparados. Esse procedimento acaba por manter o assistencialismo
e o clientelismo da caridade e filantropia.
As políticas de saúde, voltadas para o idoso, dizem respeito a
diretrizes, planos, serviços e programas de saúde, visando o atendimento
a essa fase do ciclo vital. Com as peculiaridades e o expressivo aumento
relacionado à quantidade da população mundial, é preciso estarmos
preparados social, econômica, cultural e tecnologicamente para sermos
um país de velhos.
Nesse sentido, Jaramillo (1990) comenta que os serviços públicos são
meios de consumo coletivos, que surgiram no modo de produção
57
capitalista, e o Estado realiza suas ações mediante tensões entre as
diferentes forças da sociedade, sendo que para implementação de
políticas públicas é necessário que uma situação seja vista como um fato
político, conformado mediante mobilização da sociedade.
Assim, o idoso da maneira como é desvalorizado, em nosso país,
discriminado e segregado do processo capitalista de produção, não tem
expressão suficiente para fazer o Estado investir em políticas públicas
destinadas às suas demandas, ficando à mercê de situações, como
aquelas que ocorreram há alguns anos, na Clínica Santa Genoveva no
Rio de Janeiro.
58
CAPITULO II
2 TRAJETÓRIA METODOLÓGICA
Neste capítulo, pretendemos explicitar a base teórico-metodológica
que deu suporte à pesquisa. Para alcançar os objetivos propostos nesta
investigação e analisar o material coletado, sentimos necessidade de
orientar este estudo a partir de uma perspectiva sociológica, pois
consideramos necessário articular o asilo, a velhice e suas ambigüidades
às transformações mais amplas que vêm ocorrendo na sociedade. Dentre
suas conseqüências, as violências contra o idoso. Cabe sublinhar que
procuramos entender como essas transformações sociais repercutem na
vida do idoso no asilo e as expressões de violência que emergem nesse
contexto.
2.1 ESCOLHA DO TEMA
O interesse pelo estudo do tema velhice, surgiu como objeto de
pesquisa desde que fomos estudar enfermagem na Universidade
Estadual de Feira de Santana (UEFS), quando um dos primeiros estágios
realizados foi em um asilo, onde observávamos os idosos que ali viviam e
interagíamos com eles. Ficávamos intrigadas em saber suas histórias e
onde estavam suas famílias, mas o pouco tempo não deu para conhecer
suas experiências de vida.
Vir morar em Salvador e trabalhar como docente na Escola de
Enfermagem, da Universidade Federal da Bahia, foi também uma grande
motivação, porque uma professora nos convidou a fazer parte do grupo
que ela liderava e que estudava os idosos. Nosso interesse pela temática
aumentou ao participar desse grupo, que além de desenvolver atividades
de extensão em Centros Sociais Urbanos, prestando atendimento,
59
através de consultas, realizava atividades educativas com grupos de
idosos em bairros populares.
Registramos que o envelhecimento vem se tornando alvo de
pesquisas em todo o mundo. Primeiro foram os países desenvolvidos que
possuiam preocupação com os idosos, pois somente eles tinham uma
população envelhecendo. Hoje, vemos que países como o Brasil, que
ainda não pode ser considerado desenvolvido, já se ocupa em observar
esse segmento da população, que incomoda os cofres públicos pelos
gastos com as aposentadorias e com os serviços de saúde.
Pensar na velhice quando somos jovens não é comum, achamos que
essa condição ainda está longe e que temos tempo. Ficar se preparando
para a velhice também não é um costume. Porque como é possível se
preparar para ela? Não temos receita ou modelo a ser seguido,
garantindo qualidade de vida; a vida é repleta de surpresas, e nos cabe
esperá-las. A velhice é natural e, também, social, porque transforma o
indivíduo em sua forma física e na maneira de pertencer a um grupo.
Então, fazer uma dissertação de mestrado com essa temática garantiu
nossa inserção em uma linha de pesquisa, na qual desenvolvíamos o
Projeto do Idoso. Nesse projeto, foi possível constatar que a comunicação
interpessoal durante as consultas de enfermagem eram, para os idosos,
momentos terapêuticos, pois tinham alguém que os escutassem, o que
não acontecia em seus lares. Nesse momento, ainda partilhávamos do
olhar biomédico, marcante na formação do enfermeiro, assim como outros
técnicos da área da saúde, centrado principalmente no modelo de
cuidados ao indivíduo e à sua doença.
Posteriormente, tivemos a oportunidade de nos envolver com a
Residência Multiprofissional em Medicina Social no Instituto de Saúde
Coletiva (ISC), sendo preceptora de enfermeiros em unidades de Saúde
da Família. Nela conheci o trabalho da abordagem sistêmica familiar e
pudemos perceber que os casos trazidos para discussão em sala de aula
pelos residentes possuiam mais aspectos voltados para o social do que
para o biológico, pois apesar das doenças que acometem as pessoas,
elas estavam, constantemente, envolvidas em condições sociais tais
como: desemprego, moradia, fome, miséria, drogas e violências.
60
Assim, discutir os casos trazidos pelos residentes, incentivou-nos a
conhecer o tema violência contra idosos. Relatos de idosas que eram
agredidas por netos, ou namoradas de netos; idosos que sustentavam a
casa onde moravam os filhos, netos, genros e noras; idosos que apesar
de terem vários filhos, estes não vinham visitar, abandonando-os, entre
outros. Tais discussões foram “chaves” para minha decisão em adentrar o
campo das Ciências Sociais em Saúde.
Nos
hospitais,
onde
fazemos
supervisão
de
estudantes
de
enfermagem, atividade que faz parte da atuação docente, percebíamos,
também, que muitas famílias deixavam os idosos por longos períodos
sozinhos ou, algumas vezes, pagavam a pessoas desconhecidas para
acompanharem seus pais e avós, durante o período de internação. As
justificativas para isso variavam desde a falta de tempo até não ter “jeito”
para ficar em hospital.
Diante de tudo isso, sempre intrigava-nos essas formas de
convivência entre gerações, e o que faltava para que a velhice não fosse
tratada como algo negativo. Quando então começamos a estudar a
velhice tivemos muitos incentivos, mas também ouvimos pessoas que
falavam: “lá vai ela para os velhos” ou ainda “estudar os velhos está na
moda”. Hoje, depois de 10 anos pesquisando a velhice, encontramos,
ainda quem diga: “porque não larga desses velhos?”.
A velhice não é bem vista ou bem vinda. As pessoas não querem se
deparar com essa fase e enxergam-na bem distante das suas vidas ou,
muitas vezes, não a enxergam. Sei que mexe com valores, perdas,
vaidades, às vezes me pego pensando: como será minha velhice?
Marcas físicas são previsíveis, mas enquanto fenômeno social, o que vou
experienciar?
Na busca de entender a velhice e suas conseqüências trazemos um
relato para ilustrar as diferentes formas como as pessoas chegam a essa
fase da vida. É a história de um idoso que chamamos de João. Quando
jovem, ele foi casado e abandonou mulher com cinco filhas, ainda
pequenas. Após longos anos sem dar notícias, certo dia, bate à porta de
uma das filhas trazido por conhecidos, doente e sem ninguém para cuidar
61
dele. Sua filha o acolheu e depois de se recuperar o idoso voltou para sua
casa que era em outra cidade.
Porém, ainda mais velho e doente não tardou a aparecer novamente
e, sem ter onde residir e quem cuidasse dele, foi colocado em um asilo
para idosos. Era um lar que tinha pessoas idosas, com histórias
diferentes, mas iguais no destino de não estar partilhando a velhice com
suas famílias. Alguns por serem deixados de lado pelos filhos, que um dia
ele próprio abandonou; outros, por não ter filhos e familiares. Assim, este
homem morreu no asilo aos 86 anos longe da família.
2.2 A PESQUISA EM QUESTÃO
Trata-se de uma pesquisa de cunho qualitativo, que pretendeu retratar
as experiências dos indivíduos, as crenças, os valores, as motivações e
os sentimentos, dentro do contexto em que foram vivenciados. Nesse
caso, a abordagem estatística ou quantificável não nos permitiria alcançar
os objetivos propostos, levando-nos a optar por um estudo do tipo
exploratório e descritivo. (GOLDEMBERG, 1998)
De fato, como o assegura Godoy (1995a, p.58), a pesquisa qualitativa
busca: “[...] compreender os fenômenos segundo a perspectiva dos
sujeitos, ou seja, dos participantes da situação em estudo”.
Para tanto, lida com um nível da realidade que não é passível de
quantificação: “Certamente, qualquer pesquisa social que pretenda um
aprofundamento maior da realidade não pode ficar restrita ao referencial
apenas quantitativo” (MINAYO, 1994).
O interesse pela subjetividade, ou, em outros termos, a compreensão
da realidade humana vivida socialmente é o que distingue, segundo
Minayo (1994), a perspectiva qualitativa assumida pela Sociologia
Compreensiva. Em suas diversas correntes, é o significado, o conceito
central para a análise sociológica. A Sociologia compreensiva, portanto:
62
[...] propõe a subjetividade como fundante do sentido e
defende-a como constitutiva do social e inerente ao
entendimento objetivo. Esta corrente não se preocupa de
quantificar, mas de lograr explicar os meandros das relações
sociais consideradas essência e resultado da atividade humana
criadora, afetiva e racional, que pode ser apreendida através
do cotidiano, da vivência e da explicação do senso comum
(Minayo, 1994, p.11).
A matéria prima da abordagem qualitativa, de acordo com Minayo e
Sanches (1993, p.245), é a palavra na forma da fala cotidiana e que se
torna:
Reveladora de condições estruturais, de sistemas de valores,
normas e símbolos (sendo ela mesma um deles) e, ao mesmo
tempo, possui a magia de transmitir, através de um porta-voz
(o entrevistado), representações de grupos determinados em
condições históricas, sócio-econômicas e culturais específicas.
É a fala cotidiana, portanto, especialmente aquela pronunciada no
quadro de um coletivo de idosos, que convivem em uma instituição de
longa permanência que nos trará essa possibilidade de compreender seu
cotidiano. Godoy (1995b) aponta algumas características básicas da
pesquisa qualitativa. A primeira característica refere que a pesquisa
qualitativa tem o ambiente natural como fonte direta de informações e o
pesquisador como instrumento fundamental, o que significa dizer que,
para esses pesquisadores um fenômeno só pode ser mais bem
observado e compreendido no contexto em que ele ocorre e do qual é
parte. Nesse sentido, o pesquisador deve aprender a usar a si próprio
como o "instrumento mais confiável de observação, seleção, análise e
interpretação dos dados coletados" (GODOY, 1995b, p.62).
A segunda característica comentada pelo autor, refere que, a
pesquisa qualitativa é descritiva, sendo os seus resultados expressos:
[...] em retratos (ou descrições), em narrativas, ilustradas com
declarações das pessoas para dar o fundamento concreto
necessário, com fotografias, acompanhados de documentos
pessoais, fragmentos de entrevistas, etc. (TRIVIÑOS, 1987,
p.128).
63
Além disso, a compreensão ampla de um fenômeno exige que se
considerem, inicialmente pelo menos, todos os dados da realidade como
importantes
e,
por
isso
mesmo,
passíveis
de
exame.
Idéias
preconcebidas, portanto, podem barrar o esforço de exploração
investigativa, podendo chegar a ponto de colocar sob suspeita a própria
validade da pesquisa. "O ambiente e as pessoas nele inseridas devem ser
olhados holisticamente: não são reduzidos a variáveis, mas observados
como um todo" (GODOY, 1995a, p. 62).
Por último, os pesquisadores qualitativos têm em mente não apenas
os resultados, mas, sobretudo o processo, o que significa dizer que a
apreensão de um fenômeno não implica apenas evidenciá-lo na sua
versão atual, mas penetrar na sua estrutura íntima, latente, não captável
pela simples observação, de modo a revelar suas relações e os
condicionantes de sua evolução. De igual modo, "não é possível
compreender o comportamento humano sem a compreensão do quadro
referencial (estrutura), dentro do qual os indivíduos interpretam seus
pensamentos, sentimentos e ações" (GODOY, 1995a, p.63).
Em terceiro lugar, conforme já assinalada, a preocupação essencial
dos pesquisadores qualitativos é a compreensão dos fenômenos a partir
da perspectiva dos participantes. Isso não os dispensa, entretanto, do
esforço de procurar captar, com o máximo de fidelidade, o ponto de vista
dos participantes, seja confirmando junto aos próprios informantes o
acerto de suas percepções, seja confrontando-as com a de outros
pesquisadores.
Por último, os pesquisadores qualitativos utilizam, na análise de seus
dados, o enfoque indutivo. As associações, nesse caso, são erigidas a
partir das informações, num processo de baixo para cima.
Segundo Triviños (1987), na pesquisa qualitativa seguem-se,
basicamente, os mesmos passos de qualquer investigação, embora não
tão rigidamente quanto na pesquisa quantitativa. Um exemplo disso é que
coleta e análise das informações não são momentos estanques, ao
contrário,
o
conhecimento
recolhido
é,
em
geral,
interpretado
64
imediatamente, o que pode, por sua vez, originar novas buscas de
informações.
Outro aspecto importante, destacado por Triviños (1987), é que a
escolha do tamanho da amostra a ser pesquisada é, em geral, balizada
por critérios distintos daqueles da pesquisa quantitativa. Considerações
do tipo: a importância dos sujeitos para o esclarecimento do assunto em
foco, a facilidade de se encontrar as pessoas, o tempo dos indivíduos
para as entrevistas, entre outros, são aspectos determinantes na
conformação da amostra.
Assim, utilizamos o método etnográfico, que compreende o estudo,
pela observação direta e, por um período de tempo prolongado, das
formas costumeiras de viver de um grupo particular de pessoas, as quais,
estando associadas de alguma maneira, tomam uma unidade social
representativa para estudo.
A etnografia está do começo ao fim imersa na escrita, que inclui, no
mínimo, uma tradução da experiência para a forma textual. O processo é
complicado pela ação de muitas subjetividades e constrangimentos
políticos, que estão acima do controle do escritor. Dessa maneira, a
escrita etnográfica encena uma estratégia específica de autoridade, que
tem, classicamente, envolvido uma afirmação não questionada, no
sentido de aparecer como provedora da verdade no texto. (CLIFFORD,
1998)
A pesquisa de campo foi realizada por um período de um ano (2007 a
2008) no Asilo X. Tempo que julgamos necessário para entender e validar
o significado das ações dos/as participantes, de forma que este seja o
mais representativo possível do significado que as próprias pessoas
pesquisadas dariam às suas ações, eventos ou situações.
65
2.3 O CENÁRIO
Este estudo foi realizado em uma instituição asilar para idosos
considerada filantrópica, mas que, também, admite idosos com melhor
condição social e portanto tem caráter rentável. A instituição foi escolhida
por ser referência na cidade e, ainda, por nos dar maior riqueza de
evidências, uma vez que atende aos critérios estabelecidos para a
pesquisa como: admitir idosos de diferentes classes de idade e de
condição sócio - econômica.
2.4 A ENTRADA NA INSTITUIÇÃO
Nossa inserção na instituição deu-se a partir da autorização dos seus
responsáveis, e, de forma gradativa, participamos de atividades
realizadas nesse asilo, a fim de conhecermos os idosos.
Na instituição, o setor responsável pela análise de solicitações para
realização de pesquisas é o de relações públicas. Assim, foi o setor que
tivemos o primeiro contato. Enviamos ofício de solicitação e, após sua
análise, fomos contatados para uma entrevista com o profissional
responsável. A instituição pediu que falássemos da nossa intenção e
indicou idosos que poderiam ser os atores sociais do estudo.
A partir daí, iniciamos com a reconstituição da história institucional
para compreender o contexto dos atores que participaram e participam da
construção e do seu funcionamento. Além disso, realizamos várias visitas,
na intenção de entender a dinâmica de funcionamento do asilo e
conhecermos os profissionais e os idosos que ali residiam, conquistando
sua confiança e compreendermos como vivem na instituição.
Nessas visitas, fomos surpreendidos pela competição entre os idosos
que residem nos pavilhões coletivos, em relação à nossa presença. A
carência de atenção desses residentes nos fez compreender como o
abandono e a falta da família pode levar a um aumento das necessidades
66
de afeto. A nossa surpresa não parou por aí, pois a solicitação de
presentes e lembranças materiais era constante, configurando-se como
um símbolo do sentimento de ser importante para alguém.
A neutralidade quanto à situação dos idosos que vivem abandonados
pelos familiares não pode ser totalmente aplicada durante a pesquisa e,
assim, nos vimos envolvidas pelos apelos de alguns idosos em relação a
sua condição social. Durante às vistas levamos algumas lembranças
materiais. Nos entanto, tivemos essa atitude depois de terminada à
entrevista, evitando configurar uma troca pelas informações fornecidas.
Em outros momentos, apenas íamos visitar e notávamos que a nossa
presença já fazia diferença, porque idosos e cuidadores que não nos
conhecia perguntavam se éramos familiar ou amigo de algum residente.
2.5 AS DIFICULDADES DO CAMPO
Vale à pena relatar que apesar da satisfatória relação com os
residentes
e
funcionários
da
instituição,
principalmente
com
as
assistentes sociais, algumas atividades que planejamos não foram
possíveis de serem realizadas.
Houve desistência de uma das idosas em continuar participando da
pesquisa. Além disso, uma outra negou-se a dar informações, alegando
sua privacidade ser invadida com as constantes visitas de pesquisadores
na instituição.
Os atores sociais do estudo foram os idosos e idosas residentes,
embora tivéssemos a intenção de entrevistar os cuidadores. Planejamos
fazer oficinas com esses profissionais, por ter compreendido que eles
tinham dificuldades em lidar com os idosos. Essas dificuldades eram
relacionadas à questão das relações interpessoais e dos cuidados com a
higiene, alimentação, administração de medicamentos, entre outros.
A princípio, faríamos uma abordagem teórico-prática sobre o processo
do envelhecimento e para isso a participação dos cuidadores seria
importante. Eles iriam trocar de papéis e representar os idosos e seu dia a
67
dia no asilo. Essa metodologia garantiria aos cuidadores poder
experienciar as dificuldades das limitações físicas na mobilidade,
locomoção, visão e audição, de alguns idosos.
Depois de tudo planejado a assistente social nos colocou que o asilo
possuia duas enfermeiras e elas poderiam realizar essa atividade com os
cuidadores e, portanto, seria melhor que nós não fizéssemos a oficina.
Ela pediu-nos um projeto para que a médica da instituição avaliasse a
atividade,
e
nos
colocou,
ainda,
que
seria
melhor
que
não
conversássemos com os cuidadores, nem perguntasse nada sobre o asilo
ou sobre os idosos. Se quiséssemos saber sobre qualquer assunto
relacionado à instituição, poderíamos perguntar a ela ou às enfermeiras.
A justificativa dada pela assistente social para essa orientação era
que muitos cuidadores eram difíceis de lidar, não respeitavam a
hierarquia da instituição e falavam coisas que não seriam verdadeiras.
Além disso, os problemas trabalhistas eram freqüentes e o asilo estava
preocupado com as reivindicações que os cuidadores faziam. Eles
reivindicavam melhores condições de trabalho, uso de equipamentos de
proteção individual no cuidado ao idoso, como: luvas de proteção, para
realizar higiene corporal, evitando contato com idosos, que possuiam
doenças de pele e outras. E, ainda, fazia parte do elenco de
reivindicações o reconhecimento do seu trabalho como técnicos de
enfermagem, passando a receber salários de acordo com essa categoria
profissional.
Do conjunto de técnicos, um dos profissionais que poderiam ser
aliados para a produção das informações desta pesquisa deveriam ser as
enfermeiras. No entanto, encontramos resistência e até mesmo em
alguns momentos a categoria esquivou-se em nos receber e a dar
informações sobre seu trabalho e o cuidado prestado aos idosos.
Tínhamos a intenção de observar o turno da noite na instituição,
porém não foi permitida nossa permanência no asilo, nesse período.
Alegaram ser este o período que o serviço social não estava e, também,
que não era permitida visitas nesse horário.
Apesar dessas dificuldades, compreendemos que nossa presença na
instituição teve boa aceitação dos idosos e dos funcionários.
68
Procuramos, também, o Ministério Público para conversarmos com o
Procurador responsável pelas questões relacionadas ao idoso. Fomos
recebidas e nossa conversa teve como foco os tipos de queixas que o
Ministério recebe em relação à violência contra o idoso. Assim, foi-nos
mostrada uma lista de idosos, que não possuiam certidão de nascimento
e que vivem em asilos. Ainda, nos foi colocado que o Ministério Público
ajuda a conseguir o registro desses idosos e, com isso, eles podem
receber o benefício do INSS, que ajuda as instituições de longa
permanência a manter os residentes. Procuramos saber como é feita a
vistoria nos asilos, quais os aspectos observados pelo Ministério Público,
sempre com enfoque nos casos de abandono familiar, negligência em
relação aos idosos, estrutura física e se as visitas eram realizadas em
conjunto com a Vigilância Sanitária. Assim, fomos convidadas pelo
Procurador para acompanhar uma dessa visitas. Ficamos esperando o
contato e no dia 02/05/07 acompanhamos a visita, a única instituição
pública para idosos da cidade.
2.6 A COLETA DAS INFORMAÇÕES
Foram realizadas entrevistas com 07 idosos, com idades entre 71 a
89 anos, sendo 04 do sexo feminino e 03 do sexo masculino, que
consentiram participar do estudo e preencheram os seguintes critérios: a)
residir na instituição (não definimos tempo de asilamento, pois
consideramos
interessante
vermos
desde
aqueles
recentemente
admitidos na instituição até aqueles que estavam lá há muitos anos); b)
orientado e lúcido, sendo possível manter a comunicação verbal. Assim, a
identificação dos idosos e das idosas para a entrevista deu-se por meio
da indicação do Serviço Social e deles entre si.
69
Nome
Idade Sexo
Estado
civil
Permanência
Motivo da ida para o asilo
na instituição
Antonia
89
F
Viúva
12 anos
Solidão
Mandala
71
F
Viúva
2 anos
Desejo espontâneo de conviver
com pessoas de sua faixa
etária
Silvano
84
F
Casada
10 anos
Livre espontânea vontade
Emilia
71
F
Solteira
06 meses
Orientação da amiga
Cervantes
77
M
Viúvo
2 anos
Espontâneo - em busca de paz
e melhor qualidade de vida
Valdemar
83
M
Solteiro
6 anos
Escolha livre/ solidão
Possante
87
M
Divorciado 10 anos
Espontâneo
Fonte: dados da pesquisa
Quadro 1- Admissão dos idosos segundo o Serviço Social do Asilo X. Salvador, 2009
As entrevistas aconteciam nos espaços comuns do asilo ou nos
pavilhões, pensionatos e pousadas onde os idosos residiam. Foram de
dois a cinco encontros para a realização das entrevistas, o que dependia
da disponibilidade dos participantes. Os encontros eram marcados com
antecedência, mas, algumas vezes, foi preciso remarcar, devido à
necessidade dos idosos e das idosas saírem ou realizarem alguma
atividade, que não tinha sido prevista.
O conteúdo das entrevistas determinou o número de participantes e o
encerramento da coleta das informações. Cabe salientar que optamos por
realizar entrevistas
compreender
as
prolongadas,
especificidades
devido
ao
culturais
nosso
do
interesse
grupo,
em
estudando
(experiências e vivências). Nesse tipo de entrevista:
O pesquisador constantemente interage com o informante. [...]
Combina observação, relatos introspectivos de lembranças e
relevâncias e roteiros mais ou menos centrados em algum
tema. (MINAYO, 1994 p. 126)
Assim, a entrevista realizada com as idosas e os idosos do asilo
iniciou de maneira livre, deixando que trouxessem fatos representativos
da sua vida no asilo. Para isso, por vezes, foram no passado através das
lembranças a fim de responder o que vivem no presente. Em alguns
70
casos, eles refletiram sobre suas relações, experiências e o curso das
suas vidas. Nesse sentido, Lalanda (1998, p.875) refere que:
A entrevista em profundidade permite abordar de um modo
privilegiado, o universo subjetivo do ator, ou seja, as
representações e os significados do mundo que o rodeia e aos
acontecimentos que relata como fazendo parte da sua história.
Haguette (1992) comenta que é preciso considerar que, as entrevistas
colhem o retrato que o(s) informante faz (em) de seu mundo, cabendo ao
pesquisador avaliar o grau de correspondência das suas afirmações com
a realidade empírica, o que só pode ocorrer se o plano metodológico
estiver sustentado em um conjunto de procedimentos, ao invés de se
basear em um, exclusivamente.
Como forma de auxiliar a construção do corpus do estudo foi usado o
Genograma, que é um recurso empregado pelas enfermeiras da área da
Saúde Coletiva, e tem como objetivo delinear as estruturas internas e
externas da família, a partir de um diagrama do grupo familiar. A prática
usual é a inclusão de pelo menos, três gerações, cujos laços são
representados por símbolos, que identificam membros da família do sexo
masculino e feminino, casamentos, relacionamentos desfeitos, morte,
adoção, aborto, doenças pré- existentes, entre outros (WRIGHT e
LEAHEY, 2002). Abaixo encontra-se a ilustração de um genograma.
71
Fonte: Genograma proveniente de estudo de caso apresentado no curso de Medicina
Social sob a forma de residência com ênfase na Saúde da Família do Instituto de Saúde
Coletiva da UFBa.
FIGURA 3. Representação de genograma
Separação
Homem
Filho Adotivo
Mulher
Casamento,
união estável
Aborto Espontâneo
União não
estável
Aborto Provocado
Paciente Identificado
x
m. 1990
62
Gêmeos
(1) Dizigóticos
(2) Idênticos
Falecimento
Fonte: Genogramas en la Evaluacion Familiar
M. Mc Goldrich e R. Gerson
Gedisa, Barcelona, 1993
(1)
(2)
FIGURA 4. Legenda dos símbolos usados para a construção do genograma.
Lalanda (1998) comenta sobre a importância da abordagem
72
plurimetodológica, considerada uma estratégia eficaz na clarificação das
informações. Essa abordagem corresponde a integração científica de
diferentes métodos e técnicas de produção de informações.
Diante disso, usamos, também, a observação direta como técnica
para a produção das informações e esta foi de grande importância para
descrevermos a relação do asilo com os idosos e as providências
tomadas quando ocorre o abandono da família para com o idoso entre
outras expressões de violência.
Ainda, durante a observação, empregamos outro instrumento da
Saúde Coletiva que é o ecomapa (figura 5), importante no trabalho com
famílias para se identificar redes sociais de apoio, que ajudam nas
intervenções daquelas que necessitam. Este instrumento foi adaptado
para se identificar às redes que podem dar apoio a instituição asilar.
Fonte: Ecomapa proveniente de estudo de caso apresentado no curso de Medicina
Social sob a forma de residência com ênfase na Saúde da Família do Instituto de Saúde
Coletiva da UFBa.
FIGURA 5 Representação de Ecomapa usado em estudo de caso para ilustrar os
vínculos familiares
73
Vínculo superficial ___________
Distanciamento - - - - - Ausência de Comunicação ____________
Ligação intensa
Relação Conflituosa
FIGURA 6. Dinâmica de relações
Hartman (1978) comenta que o ecomapa representa uma visão geral
da situação da família, retratando as relações importantes, que podem
estar em conflito e demonstra o fluxo ou a falta de recursos e privações.
Dessa maneira, justificamos o uso desse recurso pela possibilidade que
nos dá de mapear, fazendo um diagnóstico da interface ou pontos de
intermediações entre o asilo e a sociedade, vislumbrando redes de apoio,
que poderão ser úteis na busca de meios que favoreçam a permanência
de idosos em instituições de longa permanência e minimizem as
possibilidades de violência.
Buscando interpretar a observação essa foi uma técnica fundamental
para a realização de nosso estudo e concordamos com Clifford (1998, p.
33-34) quando refere que:
A observação participante serve como uma fórmula para o
contínuo vaivém entre o interior e o exterior dos
acontecimentos: de um lado, captando o sentido das
ocorrências e gestos específicos, através da empatia; de outro,
dá um passo atrás, para situar esses significados em contextos
mais amplos. Acontecimentos singulares, assim, adquirem uma
significação mais profunda ou mais geral, regras estruturais, e
assim por diante. Entendida de modo literal, a observação
participante é uma fórmula paradoxal e enganosa, mas pode
ser considerada seriamente se reformulada em termos
hermenêuticos, como a dialética entre experiência e
interpretação.
A fim de ajudar a validação das informações obtidas através da
observação direta foi usado o diário de campo, que construímos durante
74
nossas vistas à instituição. Nesse momento, procuramos observar o asilo
de maneira geral, construindo seu perfil para o que hoje ele se destina e
buscando através de sua história acontecimentos que foram marcantes.
No diário, também, registramos fatos que presenciávamos durante as
visitas.
Alguns
desses
acontecimentos
foram
importantes
para
entendermos a vida dos idosos, suas relações com o asilo, familiares,
funcionários e outros idosos.
Registramos que o diário é um relato pessoal, e nele contamos fatos
que não falamos nem mesmo para nosso melhor amigo. Comum,
principalmente durante a adolescência, referida como uma fase da vida
de muitas descobertas que merece registro. Esse instrumento parece nos
“entender”, ou melhor, permite que nossos sentimentos e pensamentos
mesmo os piores possam ser expressos.
Não existe um modelo de construção do diário. Ele é particular,
pessoal e a escrita contém o que seu autor entende como importante. No
caso do diário usado em pesquisa científica o pesquisador ganha
expressividade ao contar ou relatar suas impressões sobre as pessoas, a
instituição ou grupo pesquisado. A cada vez que sentávamos para
escrever o diário de campo, durante a pesquisa no asilo, fizemos muitas
indagações, registramos nossas impressões sobre a instituição, pudemos
nos colocar no lugar dos idosos e idosas que vivem lá.
Assim, o diário foi um aliado, um companheiro que levava sempre
para
o
asilo.
Em
suas
páginas,
rabiscávamos
desenhos
para
compreendermos a instituição, o movimento dos idosos, a hierarquia das
relações. Escrevíamos as conversas informais com os funcionários,
idosos e familiares.
Para ilustrar, alguns trechos do diário de campo:
22/08/07 às 08 horas e 30 minutos, quarta-feira
[...] entrei na pousada fui cumprimentada por uma idosa negra,
com um torço na cabeça. Estava sentada na ante-sala com
uma revista nas mãos perguntei pelo senhor Cervantes ela
disse não saber. Falou que estava lendo na revista Isto É, uma
reportagem sobre Bordéis em pleno campo de concentração.
Comentou sobre Olga Prestes. Disse: - ela está na lista das
mulheres que sofreram abuso sexual. Falou ainda sobre
Getúlio Vargas. Dentre outras coisas comentou que foi a
Alemanha, Berlim, pois fez um cruzeiro. Tinha vocabulário
75
fluente. Perguntou se eu era estagiária disse-lhe que não.
Então ela falou: - sou autodidata e semi-analfabeta [...]
30/09/07 14 horas domingo
Domingo o asilo tem missa e hoje estava presente além de um
dos diretores e sua esposa o Bispo Dom Geraldo Magela.
Senhor Cervantes estava no portão de entrada do asilo para
receber o Bispo. A igreja já estava cheia de idosos, idosas e
outras pessoas que não residem na instituição. Os residentes
estavam arrumados. Chama a atenção uma idosa vestida de
branco, com muito brilho na roupa, cabelo bem penteado, bolsa
pequena, salto alto. [...]
21/02/08 9 horas quinta-feira
[...] O abandono na hora da morte foi uma situação que
presenciei quando da morte de uma idosa em que a família
sendo contatada ainda na madrugada do evento somente veio
comparecer ao asilo meio–dia, alegando não ter condições de
realizar o sepultamento. O jogo sobre a responsabilidade pelo
corpo da idosa passou de uma antiga patroa até a neta, que
pelo telefone disse não ter responsabilidade pela avó. O
serviço social da instituição tomou as devidas providências
para não deixar o corpo por mais tempo na “pedra” como é
chamado o necrotério do local e explicou a filha da idosa, 77
anos, que estaria se responsabilizando pelo enterro e
despesas, mas que isso não faz parte da obrigação
institucional, mas, sim, familiar. A filha da idosa informou não
saber nada sobre o assunto e agradeceu a instituição, mas
demonstrou interesse quando foi comentado sobre o benefício
da mãe, que foi suspenso quando a sua antiga patroa faleceu,
e que ninguém pelo menos ao que parece veio providenciar,
dando continuidade no processo para garantia do benefício. O
que transparecia era uma falta de vínculos entre a filha, a neta
e a avó já morta. Um descaso por sua morte. Neste caso, o
abandono permaneceu até nesta hora um momento que
poderia unir tocar, resgatar laços perdidos, pelo contrário o
corpo morto foi banalizado, a família que já estava dissolvida,
nesta hora também morreu. O corpo solitário esperava por
alguém, um familiar para velar e enterrá-lo prestando o último
cuidado.
2.7 DOCUMENTOS
Outra fonte de informações que, também, foi útil para nosso estudo
foram os arquivos de documentos institucionais como o livro publicado
sobre a vida do fundador do asilo o qual descreve o passado desta
instituição e apresenta fotos que marcaram sua história. O livro nos foi
76
fornecido pela instituição. Esse livro fica no acervo, local onde
encontramos outros documentos referentes ao asilo.
Também, analisamos números do Jornal dos anos de 2005, 2006,
2007 e 2008, publicados pelo próprio asilo. Eles traziam matérias sobre
os idosos, às atividades desenvolvidas pela instituição, entre outros
tópicos de interesse.
O uso de documentos em pesquisas é importante porque essa fonte
de dados remete-nos à história que, no caso deste estudo, tem muito a
nos dizer. As fotos das pessoas que viviam na instituição, à época da sua
fundação, retratam um passado que pode estar no presente dos idosos
que ali, hoje, residem. É preciso que o pesquisador tenha o interesse de
procurar essas fontes, a fim de ampliar o olhar acerca do problema do
estudo.
Os vestígios deixados pelo tempo, nesses documentos, para que
sejam percebidos, depende da subjetividade do pesquisador, que será
guiado a interrogá-los. Dessa maneira, o pesquisador dará a esses
documentos legitimidade, para que sejam observados, analisados e
interpretados. É um processo, onde o pesquisador formula suas questões
iniciais e estas, à medida que a pesquisa avança, irão refinar-se e
tornarem-se objetivas.
O pesquisador deve proceder com seus instrumentos de constituição
do corpus da pesquisa, como se estivesse usando a lente de um
fotógrafo, que diminui e/ou amplia seu foco na perspectiva de retratar seu
objeto. A foto tirada por um fotógrafo não é a cópia fiel da realidade, mas
uma construção, assim também acontece com a pesquisa.
O esquema abaixo resume os instrumentos usados na produção dos
dados e estão interligados:
Entrevistas
observação
diário de campo
genograma
ecomapa
documentos
Corpus do estudo
Esquema 1- sequência dos instrumentos utilizados para a construção do corpus do
estudo. Salvador, 2009.
77
2.8 A ANÁLISE
Para elaboração dos resultados, utilizamos a técnica da análise de
conteúdo, a qual nos pareceu mais apropriada ao tipo de investigação
desenvolvida. Partimos do pressuposto de que, por trás do discurso
aparente, simbólico e polissêmico, esconde-se um sentido que pode ser
desvelado. Para Bardin (apud Godoy, 1995b: 23) o termo:
Análise de conteúdo recobre um conjunto de técnicas de
análise das comunicações, visando a obter, por procedimentos
sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das
mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a
inferência de conhecimentos relativos às condições de
produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens.
A análise de conteúdo pode, de acordo com Laville; Dionne (1999),
trilhar tanto um caminho quantitativo, quanto qualitativo. No primeiro caso,
após ter agrupado os elementos dos conteúdos em categorias, o
pesquisador constrói distribuições de freqüências e outros índices
numéricos, aplicando em seguida, o aparelho estatístico habitual. A
abordagem qualitativa, por outro lado, embora também se sustente em
uma categorização dos elementos, não os reduz a uma simples
freqüência, como se fossem equivalentes, mas detém-se em suas
peculiaridades e nuanças, bem como na relação entre as unidades de
sentido, assim construídas.
Segundo Laville; Dione (1999), através da análise de conteúdo
procura-se desmontar a estrutura e os elementos do conteúdo com vistas
a esclarecer suas diferentes características e significação. No entanto, a
análise de conteúdo não é, como se poderia imaginar, um método rígido,
no sentido de que se percorrendo uma seqüência fixa de etapas,
fatalmente se obteriam os resultados desejados. Ao contrário: “ela
constitui, antes, um conjunto de vias possíveis nem sempre claramente
78
balizadas, para a revelação - alguns diriam reconstrução - do sentido de
seu conteúdo” (LAVILLE; DIONNE, 1999, p.216)
Desse modo, uma das primeiras etapas que o pesquisador deve
realizar consiste, pois, em efetuar um recorte dos conteúdos em
elementos que deverão, em seguida, ser agrupados em torno de
categorias. Tais elementos vão constituir as unidades de análise, no
sentido de que: “cada um desses fragmentos de conteúdo deve ser
completo em si mesmo no plano do sentido. (LAVILLE; DIONNE, 1999,
p.216).
Uma forma considerada por Laville; Dionne (1999) mais rica de se
trabalhar os conteúdos é recortá-lo em temas, ou seja, em fragmentos,
que traduzem uma idéia particular, que pode ser um conceito, ou a
relação entre conceitos. Tal encaminhamento permite ao pesquisador
maior aproximação com o sentido do conteúdo, uma vez que a
construção das unidades de análises faz-se a partir da sua compreensão
do conteúdo. As unidades de análise serão, portanto, palavras,
expressões, frases ou enunciados, que se referem a temas, e que serão
apreciados em função da sua situação no conteúdo, e em relação aos
outros elementos, aos quais estão ligados e que lhes dão sentido e valor.
Nesse
sentido,
procuramos,
em
um
primeiro
momento,
ler
exaustivamente as informações produzidas, destacando os temas
expressos pelos sujeitos. Posteriormente, dos temas gerais encontrados,
que foram em tornos de 76, considerando nosso objeto de estudo,
selecionamos 24 temas específicos. Alguns estavam relacionados entre
si, dando-nos a possibilidade de agrupá-los, gerando as categorias do
estudo:
79
Opção pelo asilo
Abandono
Solidão
Morte
Condição social
Casamento
Namoro
Sexo
Normas e rotinas
Lazer e socialização
Relacionamento interpessoal
Velhice
Brigas
Adaptação
Doença
Família
Filhos
Religião
Serviço de saúde
Dependência
Cuidado
Queda
Medicações
Ciúme
Fonte: informações do estudo
Quadro 2 - Temas Específicos encontrados nas narrativas dos idosos. Salvador,
2009.
A análise de conteúdo focaliza, em um primeiro momento, o conteúdo
manifesto. Alguns autores até consideram não ser necessário ultrapassar
esse nível de análise, denominada de primeiro grau, pois o sentido que o
pesquisador estaria à procura já se encontraria ali. Outros, entretanto,
julgam essa análise insuficiente e consideram necessário ir mais longe,
em busca do não-dito, dos elementos ocultos, simbólicos da mensagem.
O discurso implícito, nesse caso, é portador de sentido e auxilia na
compreensão do explícito. O que sugere Laville; Dionne (1999, p. 218) é
que:
Tudo depende, ainda e sempre, do problema examinado e das
intenções da pesquisa. Mas é certo que se deve levar em conta
o explícito, pois as intenções e vontades declaradas são a
porta de entrada do não dito. Quando se transpõe esta porta
cumpre fazê-lo com muita prudência crítica.
A etapa que se segue ao recorte dos conteúdos é a definição das
categorias analíticas, ”[...] Rubricas sob as quais virão se organizar os
elementos de conteúdo agrupados por parentesco de sentido [...]” (Laville;
80
Dionne, 1999, p.219). São três os modos de definição dessas categorias:
o modelo aberto, freqüente em estudos de caráter exploratório, no qual as
categorias tomam forma no decorrer do processo de análise; o modelo
fechado, em que o pesquisador estabelece previamente, com base em
um modelo teórico, as categorias, submetendo-o, em seguida, a
verificação; e o modelo misto, que faz uso dos dois modelos, ou seja,
estabelece
categorias
inicialmente
que,
entretanto,
poderão
ser
modificadas, a partir do que a análise demandar.
No presente estudo utilizamos o modelo aberto em duplo sentido, uma
vez que acolhemos as categorias que surgiram durante o processo de
coleta e o da análise. Entendemos que a construção de uma pesquisa
qualitativa é dinâmica e pode se adaptar ao surgimento de outras
categorias, que emergiram do incessante movimento do empírico ao
teórico e deste ao material empírico.
Assim, nosso movimento deu-se a partir de um trabalho, considerado
artesanal, pois após agruparmos as categorias, recortamos as falas dos
sujeitos e fomos colando-as separadamente para termos uma visão geral
do que cada idoso procurava expressar e, depois, coletivamente,
verificando as expressões comuns.
Dessa maneira, algumas categorias teóricas foram importantes no
desenvolvimento da pesquisa. A questão de gênero foi valorizada, uma
vez que o segmento feminino é predominante na população idosa, e
constituindo-se um grupo com maiores riscos de se tornar alvo de
violências interpessoais e institucionais. A condição sócio-econômica foi
outro fator considerado no estudo, uma vez que a literatura demonstra ser
os idosos mais pobres que tendem a ser provedores dos seus lares e os
de classes sociais mais altas costumam viver sozinhos. Indagamos: como
a instituição de longa permanência diferencia a assistência prestada aos
idosos pobres e ricos? No Asilo X, a condição social é uma das maneiras
de classificar os idosos, separados pela condição de prover uma melhor
acomodação na estrutura física e no tipo de serviço e cuidado que sua
condição social pode lhe oferecer.
A geração foi outro ponto observado na trajetória de vida do idoso até
ele ser levado para residir em um asilo. As relações intrageracionais
81
muitas vezes são conflituosas e deixam o idoso em situação de
desvantagem no convívio familiar. Resta-nos indagar como são as
relações entre as diferentes classes de idade em uma residência coletiva?
A geração, enquanto categoria analítica, vem sendo discutida ainda com
pouco destaque nos estudos sobre idosos. Concordamos com o que
refere Britto da Motta (1999), a categoria idade / geração, assim como
outra categoria social referida, também se expressa no marco das
relações sociais de poder.
Categoria de grande complexidade analítica, a geração tem relação
com o momento e o tempo vivido em cada idade, em um contexto
histórico e cultural, que se agrega na vida social e do indivíduo. Nas
observações dos estudos sociais, são feitas análises diante das
condições de classe e renda das pessoas, do gênero, mas a idade é
referida,
na
maioria
negligenciando-se
das
uma
vezes,
importante
através
de
dados
dimensão
social,
estatísticos,
que
influi
essencialmente na formação dos sujeitos.
O presente estudo não tem a pretensão de ser considerado como
uma pesquisa sobre geração. Mesmo porque, escrever e discutir sobre
ela requer reflexão ampla, com posições opostas relacionadas ao
biológico e à inserção social do indivíduo. Para os autores de formação
biomédica, a questão da geração é naturalizada, expressando aspectos e
características do indivíduo, se, velhos ou jovens, e isso é medido
cronologicamente. Pertencer cronologicamente a um grupo de pessoas
que possuem a mesma idade não pode ser o único fator para definir a
geração. Considerando o lado oposto ao biológico, Mannheim (1928,
p.135), comenta que: devemos compreender a geração como um
particular tipo de posição social.
Finalizando, procuramos confrontar os significados apreendidos a
partir da fala dos entrevistados - referentes às experiências cotidianas
com as categorias analíticas - modernidade, ambigüidade e violência.
Nessa etapa, procuramos levar em conta, que a atribuição de significados
tem relação com às especificidades históricas e com o contexto social.
Como o estudo foi realizado em apenas um cenário, não nos cabe
generalizar os resultados.
82
2.9 CONSIDERAÇÕES ÉTICAS
De acordo com os princípios éticos para as pesquisas científicas e
referência com base na Resolução 196/96 do Conselho Nacional de
Saúde, consideramos os princípios éticos que regem as pesquisas
envolvendo seres humanos que são: o consentimento livre e esclarecido
dos sujeitos; ponderação sobre os riscos e benefícios, tanto os atuais
quanto os potenciais, individuais ou coletivos; garantia de que os danos
previsíveis serão evitados, a relevância social da pesquisa e as vantagens
para os sujeitos. O consentimento para participar do estudo foi
formalizado através do termo de consentimento livre e esclarecido. Além
disso, a pesquisa foi aprovada em 12/07/2007 pelo Comitê de Ética em
Pesquisa do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA, sob o parecer nº 02607/CEP-ISC
Em relação ao risco, acreditamos que a pesquisa não trouxe riscos
para os idosos participantes, pelo contrário, o estudo visa à melhoria da
qualidade de vida dos idosos e dos asilos, portanto trará benefícios. Os
nomes e identificações dos idosos, do asilo, do jornal de edição própria da
instituição e documentos usados no estudo não foram divulgados e, para
tanto utilizamos nomes fictícios, garantindo o anonimato.
Também, não houve remuneração dos sujeitos participantes, nem
quaisquer formas de pagamento para a obtenção das informações
produzidas através das entrevistas realizadas. Foi aplicado o termo de
consentimento, o qual garantiu a obtenção dos dados e, por serem um
grupo vulnerável, os idosos foram selecionados pelos critérios: possuir
consciência de seus atos e ações, aceitarem a participação no estudo,
não possuir problemas cognitivos, mentais ou de outra natureza, que
inviabilizasse o estudo e, ainda, podendo, a qualquer momento, retiraremse da pesquisa, sem nenhum prejuízo.
Além disso, foi solicitada a permissão da diretoria da instituição para
freqüentarmos o asilo, e participando das atividades realizadas nas suas
dependências,
em
horários
e
dias
adequados,
evitando
constrangimento e a invasão da privacidade dos residentes idosos.
o
83
CAPITULO III
3 A DIMENSÃO SOCIAL DO ASILO: o acolhimento que exclui
Neste capítulo, trazemos à tona a discussão sobre o asilo, uma
instituição de sentido ambivalente. Ou seja, que pode significar
acolhimento ao idoso, mas, também, um espaço para a segregação e
isolamento do indivíduo, configurando-se como um local, onde a violência
transita facilmente. Essa mesma ambigüidade está presente nas
instâncias públicas, que emitem discursos sobre a velhice.
Desse modo, em 2008, o Jornal Tribuna da Bahia publicou a matéria:
“Abrigo de idosos, boa opção de moradia”. Essa reportagem destacou ser
o asilo um ambiente caseiro e de tranqüilidade e, ainda, que ele mesmo é
a salvação para muitos idosos, devido ao abandono sofrido por parte dos
familiares.
Assim, o asilo, às vezes, é visualizado pela mídia de forma positiva e
suas vantagens são o destaque. Outras vezes os asilos aparecem na
mídia tendo como foco os seus problemas, dentre eles destacamos a falta
de estrutura e de recursos para oferecer atendimento especializado ao
idoso (JORNAL À TARDE, 2006).
Nesse sentido, refletir sobre o que pode existir de ambigüidade na
instituição é um exercício fundamental para que possamos ter asilos de
qualidade.
3.2 UM PASSEIO PELO ASILO “X”...
O asilo é um local cheio de imaginações. Com muitas representações
ou muitas especulações. Ele guarda muitas histórias, vidas e velhices.
Está presente em todos os lugares do mundo mesmo que com outros
nomes e melhorando a apresentação não deixa de ser um local para os
84
velhos. Existem asilos disfarçados de hotéis cinco estrelas, com uma
gama de serviços que mascaram o pior da velhice, a dependência3. Tais
locais sugerem para os familiares dos idosos que ali eles estarão bem
cuidados e felizes e assim sendo, não será preciso sentir culpa por
institucionalizar a velhice.
Em Salvador segundo o que informa o Ministério Público através do
Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Justiça da Cidadania –
(CAOCI), órgão que vem executando um Plano Operacional Básico na
parte relativa à proteção dos direitos das pessoas idosas inspecionou,
junto com a Vigilância Sanitária Municipal, 15 instituições asilares de
longa permanência. Dessas, apenas quatro, três delas com algumas
ressalvas, preencheram os requisitos exigidos para a sua finalidade de
atender aos idosos, no que diz respeito aos aspectos estruturais,
higiênico-sanitários, de atenção à saúde e de lazer. Dentre elas, o Asilo X,
onde realizamos nosso estudo, é um dos quatro dos que foram
considerados satisfatórios.
Não nos foi possível verificar a totalidade de asilos existentes em
Salvador, pois até mesmo os setores que poderiam informar não têm este
número e referem que existem asilos clandestinos, que não estão
cadastrados. Por esta razão o Ministério Público e o Centro de Referência
de Atenção a Saúde do Idoso (CREASI4) fizeram parceria para estudar e
fiscalizar os serviços oferecidos aos idosos. Por conta da demanda de
idosos que tem procurado com mais freqüência o Asilo X, o Serviço Social
desta instituição fez uma lista com o nome de alguns dos asilos e casas
para idosos que possuem telefone e disponibiliza essa lista para as
famílias, que buscam uma vaga em asilo. Na instituição estudada não há
previsão de saída dos idosos que residem, além disso, o critério
dependência é um fator que, também, pesa na disponibilidade da vaga.
3
4
A dependência do ponto de vista geriátrico está associada à idéia de vulnerabilidade, aos condicionantes do meio
externo. Sua avaliação pode ser feita através do grau que é descrito como leve moderado ou grave (dependente,
independente ou semi-dependente) recorrendo para a avaliação funcional. É pautada na capacidade de exercer as
atividades da vida diária.
O CREASI tem a missão de atender ao idoso que necessite de atenção especializada na área de geriatria e/ou
gerontologia, através de avaliação multidimensional, por equipe interdisciplinar, com vistas à manutenção ou
recuperação de sua saúde física, mental e funcional, adequando seus déficits às novas realidades, mantendo-o
socialmente ativo e dentro do contexto familiar.
85
Sua maneira de classificar os idosos que admite nos parece ambígua,
pois se diz filantrópica, de caridade e o slogan que usa tem como
princípio o religioso. Sua missão é abrigar pessoas idosas, maiores de 60
anos, não portadoras de doenças infecto-contagiosas e fisicamente autosuficientes, independente de nacionalidade, cor, sexo, e estado civil.
Para Bauman (1999, p. 11):
Classificar consiste nos atos de incluir e excluir. Cada ato
nomeador divide o mundo em dois: entidades que respondem
ao nome e todo o resto que não. [...] Invariavelmente, tal
operação de inclusão/exclusão é um ato de violência
perpetrado contra o mundo e requer o suporte de certa dose de
coerção.
Assim, o Asilo X não responde ao que preconiza a legislação a qual
classifica os idosos que devem ser assistidos pelos asilos como aqueles
sem família ou sem condições de manter-se. Os discursos, a todo
instante, são classificatórios e excludentes como meio de organizar o
grupo social de idosos, que deve assistir, e acaba por cair nas armadilhas
da modernidade que ao produzir ordem, gera o caos. Nesse caso, o caos
que assinalamos é a quem compete à assistência aos idosos
dependentes. Sem um asilo que os acolham, ficam, ao destino da própria
sorte.
Bauman (p.12 1999) refere que:
A ordem é o contrário do caos e que eles são “gêmeos
modernos” concebidos em meio a ruptura e colapso do mundo
ordenado que não conhecia a necessidade nem o acaso, um
mundo que apenas era, sem pensar jamais em como ser.
Analisando a questão dos idosos dependentes, pensamos que a
legislação, ao tornar ampla a classificação idosos sem família ou
impossibilitados de se manter, deixa uma “brecha” para que o asilo crie
sua própria classificação,
deixando de fora
os dependentes, mesmo
86
sabendo que os independentes poderão tornar-se dependentes, vivendo
na instituição.
O discurso da filantropia aparece, na maioria dos asilos, através da
filiação religiosa e o seu nome é um importante símbolo dessa relação,
utilizando-se nomes de santos. Outras, usam o nome do fundador /
benfeitor ou termos que indiquem que, na instituição, o idoso terá uma
vida tranqüila com um ambiente acolhedor e saudável. Mas, as práticas
institucionais, frequentemente, não seguem o que o nome sugere. Em
geral as instalações estão longe de ser acolhedoras e os funcionários,
sem capacidade para cuidar, não têm respeito pelo idoso. Ainda, percebese que o idoso acaba tendo um sentido de capital simbólico, pois através
dos direitos adquiridos como a aposentadoria, que passa a ser um
recurso utilizável pela instituição. Assim, os idosos que residem em um
asilo pagam pelos serviços com sua aposentadoria e, em alguns casos,
não têm a garantia de ter alimentação, medicamento, roupas, saúde e
dignidade.
Registramos que a intenção do estudo não foi a de avaliar a
instituição, onde a pesquisa foi realizada, tão pouco de chocar as
pessoas, com páginas relatando estruturas decadentes de asilos, sem
condições de funcionamento. Nestes os maus-tratos e a negligência se
fazem claros, mas em uma instituição em boas condições, e selecionada
como satisfatória, como perceber as modalidades de violência?
Clough (1999) afirma que abuso e negligência podem ocorrer em
muitos tipos de instituições, mesmo naquelas que parecem fornecer
assistência de alta qualidade para os idosos e que um regime de
assistência aceitável ou bom poderia ser transformado fácil e rapidamente
em regime abusivo de assistência.
Nesse sentido, este estudo trata da violência sutil, invisível e, ao
mesmo tempo difusa, considerada como uma forma “natural” de
tratamento para com as pessoas idosas. Nos discursos dos funcionários
do escalão intermediário, na hierarquia funcional da instituição foram
enfatizados: a falta de pessoal qualificado para cuidar; a vida coletiva em
pavilhões,
que
não
permitem
privacidade;
os
cuidadores
criam
estereótipos para os residentes: “pacientes com problemas mentais”,
87
“velhos caducos” e “esclerosados” Enfim, sempre há como elaborar
justificativas para os possíveis maus-tratos ao idoso.
O Asilo X tem na sua história, uma origem marcada pela assistência a
mendigos. Essa proposta inicial, em 1934, foi considerada uma solução
para a cidade, que estava cheia de mendigos, devido ao reflexo da seca,
que assolara o Nordeste, em 1928, e prolongara-se por anos, fazendo
com que legiões de pessoas do campo buscassem refúgio nas cidades.
Nesse tempo, a instituição teve muitas dificuldades, pois um dos mais
graves problemas, de saúde, era o da tuberculose e entre os internos
havia muitos portadores dessa doença. Em Salvador não existia, na
época, hospital para pacientes portadores da doença e a cidade apenas
contava com duas enfermarias em um hospital da cidade geral, cada uma
dispondo de apenas 20 leitos, para cada sexo. Essas enfermarias viviam
superlotadas e a obtenção de uma vaga era muito difícil. O índice de
morbidade relacionado à tuberculose era um dos mais altos, entre
pessoas de classe mais pobre. Então, o fundador do Asilo X resolveu
construir um pavilhão para esses doentes, com capacidade para 150
leitos, financiado pelo Interventor do governo da Bahia. A princípio, os
pacientes misturavam-se com os outros internos, porém a Saúde Pública
veio solucionar o problema, resolvendo suspender a interdição do
primeiro prédio, adquirido pelo prefeito para os mendigos e os
tuberculosos foram removidos para lá. Estes ficaram neste local até a
conclusão das obras do pavilhão a eles destinados.
O Asilo X teve vários apoiadores, dentre eles é marcante a presença
da igreja católica, que contribuiu com a assistência aos internos através
da Congregação de Religiosas, além da participação de membros da
Sociedade também de religiosos. Representantes da Sociedade Civil e
políticos, também contribuíram com a fundação da instituição. Em 1956
as Irmãs Missionárias assumiram as questões da administração do asilo,
que na época era uma realidade difícil. Hoje, livres da tarefa
administrativa, atuam na missão religiosa e carismática.
Neste capítulo, o passeio pelo asilo, ou melhor, pelo Asilo X
descrevemos como vivem os idosos. Esse relato foi elaborado a partir do
diário de campo, o qual foi construído através da observação direta e
88
ainda das entrevistas e encontros informais com idosos e profissionais do
asilo, durante nossas visitas à instituição. Inicialmente falaremos sobre o
bairro onde a instituição está localizada, o qual é um dos mais populosos
da cidade do Salvador. Os transportes coletivos vão para vários outros
bairros da cidade sendo, portanto, de fácil acesso chega-se ao asilo.
Porém, até se entrar nele o trajeto é deserto e o idoso que utiliza
transporte coletivo, precisa andar do ponto, onde os ônibus param e
atravessar a rua, sendo que a calçada não favorece o caminhar do idoso.
Podemos dizer que o bairro está bem servido de supermercados,
farmácias, padarias, escolas, academias, bancos e igrejas. Trata-se de
um bairro residencial, mas o comércio faz parte do seu dia-dia. Observase que os idosos tanto do bairro, quanto os que estão no asilo, transitam
livremente, em busca de realizar suas atividades e, portanto, estão bem
inseridos no contexto social, sendo respeitados pelo menos quanto ao
direito do cidadão, de ir e vir.
Contudo, a falta de segurança nas ruas, também, ronda os idosos,
pois, como em qualquer centro urbano, a cidade do Salvador oferece
alguns riscos para os idosos nos transportes coletivos, a exemplo de
quando não são respeitados ao dar sinal de parada, os constantes
assaltos, furtos, entre outros. Por conta disso, o Asilo X é uma instituição
que dá oportunidade para o idoso que tem condições de sair sozinho,
usar do seu direito, porém, solicita que informe para onde vai e quando
retornará ao asilo.
Sobre a saída dos idosos da instituição, verificamos que são muitos
os idosos que usam essa prerrogativa e, em nossas visitas, sempre
observamos como idosos e idosas se dirigiam a recepção do serviço
social a fim de pegar “passe livre”, cartão que dava direito de sair do asilo.
Os idosos moradores das pousadas ficam com esse cartão de saída nas
mãos, não sendo tão rigoroso o controle, conforme acontece com os
moradores dos pavilhões e pensionatos. Essa atitude, do asilo demonstra
a diferença de tratamento entre os idosos. Também, não há nada
garantido quanto à fidedignidade da informação dada pelo idoso sobre o
local que deseja ir. Com o cartão assinado pelo serviço social, colocando
89
o horário da saída e do retorno, eles estão liberados para “ganhar o
mundo” lá fora.
Nesse nosso passeio procuramos mostrar as diferentes relações que
a instituição possui, onde percebemos grande número de redes sociais.
Com os familiares dos idosos, a sua dinâmica é conflituosa, em alguns
casos isso ocorre, em parte pelas normas do asilo e também devido à
relação dos familiares com os idosos, que pode ser a origem da entrada
deles na instituição. Mas, também, observamos uma distância existente
entre os familiares e a instituição. Não podemos generalizar, porém, são
muitos os casos em que os familiares dos idosos e o asilo encontram-se
distanciados, e esse conflito dificulta a vida do idoso. Em outras situações
podemos dizer que familiares e asilo têm um vínculo superficial, mantido
pela relação comercial de compra e venda de produto, no caso, a
manutenção do idoso no asilo.
Essa relação entre consumidor e produto, vivenciada pelos familiares
e idosos, naturalmente produz muitos discursos de satisfação/insatisfação
pela qualidade do serviço oferecido. Uma vez que a filantropia e a
caridade são a propaganda do negócio e o seu objetivo é o de acolher. A
princípio parece que nesse ato há lugar apenas para o movimento de
trazer para perto, dar atenção, suprir necessidades. Contudo, o discurso
não é formalizado e a conotação fragmenta-se, pela conveniência de
quem oferece e de quem recebe ou procura o serviço.
Assim, vai sendo construído o asilo de velhos. As demandas crescem
e a filantropia comercial precisa dar suporte ao quantitativo dos seus
consumidores. O discurso torna-se formal, comercial, envolvendo todo
arcabouço do mercado capitalista. Dessa maneira, na relação dos 409
funcionários que trabalham no Asilo X com a sua direção, encontram-se
há algumas questões trabalhistas como, por exemplo, cuidadores que têm
profissão de técnicos de enfermagem, mas que, na instituição, atuam e
são remunerados como apenas “cuidadores”, isso interfere diretamente
no cuidado prestado ao idoso. Ainda, os cuidadores não recebem
capacitação permanente, e muitos não estão aptos a cuidar do idoso, o
que fere os princípios da Política Nacional do Idoso (1997). Para atuar em
90
instituições asilares o profissional deve ser capacitado, afirma a
recomendação legal.
Essa falha na capacitação já vem de longa data, uma vez que as
instituições formadoras de profissionais da área da saúde, ainda, não
valorizam os conteúdos referentes ao envelhecimento. É necessário
incluir o processo de envelhecimento como curso de vida e em todos os
seus aspectos inclusive nos currículos de graduação. Além disso, deve-se
também ampliar a discussão sobre o papel da pós-graduação, da
educação permanente e da educação continuada para vencer o desafio
de envelhecer com qualidade. (MOTTA; AGUIAR, 2007)
Além dos cuidadores contratados pelo asilo existem aqueles que são
contratados pelos familiares. Formalmente o contrato de trabalho é de
responsabilidade da família do idoso, no entanto o asilo toma alguns
cuidados para que a presença desses profissionais não se configure
como da sua responsabilidade. Quando a família troca de cuidador, o
asilo precisa ser informado imediatamente, caso contrário o profissional é
“barrado” à entrada da instituição. É solicitado da família que o
profissional traga a sua carteira de identidade, CPF e carteira de trabalho
assinada pela família do idoso, o que, para o asilo, garante sua isenção
trabalhista.
No Asilo X a presença de instituições de ensino está representada
pelas universidades, que buscam estágio na instituição, como estudantes
de enfermagem, fisioterapia, nutrição, serviço social, entre outros. Nas
visitas ou estágios esse asilo serve como lócus de demonstração sobre
como funciona uma instituição asilar e como vivem os idosos, como se
cuidar deles. No geral, os estudantes são bem aceitos pela instituição e
pelos idosos. Vale ressaltar que, na maioria das vezes, o asilo é utilizado
como campo de coleta de dados para a pesquisa e práticas, mas o
retorno dessas pesquisas e trabalhos, sob forma de contribuições, não
acontece.
Nesse sentido, Motta; Aguiar (p. 367, 2007) afirmam que:
91
O desenvolvimento de práticas interdisciplinares envolve
flexibilização dos mandatos sociais e revisão das legislações
profissionais, bem como a ampliação destas práticas na
formação
dos
profissionais,
buscando
uma
nova
profissionalização capaz de enfrentar novos desafios teóricopráticos. Inclui a integração do ensino-pesquisa e extensão, a
democratização da hierarquia institucional e a possibilidade de
quebra das defesas corporativas, permitindo a troca e o
aprendizado.
Ainda, sobre o Asilo X servir de campo de práticas e estudos para
universidades, notamos que a falta de integração, dessas para com o
asilo, provocam comportamentos negativos de alguns dos idosos.
Durante o período de nossas visitas à instituição, tivemos a experiência,
onde uma das idosas não quis nos receber, alegando que os
pesquisadores não sabem o que querem e as perguntas são sempre as
mesmas: quanto tempo está na instituição? Gosta de morar aqui? Alegou,
ainda, que algumas pessoas vêm os idosos como bobos e que achava
uma invasão de privacidade estar falando sobre sua vida. Relatou se
importar de ser chamada de “mãe”, “florzinha”, “querida” e que as idosas
são mulheres e merecem ser tratadas como tal. A idosa estava em seu
quarto, que fica em um dos pensionatos, com sua cuidadora particular.
Referiu ser jornalista e manteve-se firme, recusando-se a participar da
pesquisa.
Assim, vemos a necessidade de planejamento, no que tange a
integração universidades–asilos, para que tenhamos um projeto de troca
entre a teoria e prática, buscando sempre a qualidade de vida dos
residentes e a formação de profissionais, de maneira mais condizente
com a realidade.
Em relação ao sistema de saúde, pudemos perceber que, com a
instituição, existe um vínculo superficial, à medida que o idoso residente
no asilo conta com o mesmo serviço público que outros idosos não
residentes, sem privilégios de qualquer natureza. Mesmo o Centro de
Referência em Atenção a Saúde do Idoso (CREASI), que poderia está
desenvolvendo ações junto ao asilo, não o faz. As relações com hospitais
públicos, da necessidade de internação de idosos era mantida, até pouco
92
tempo, por meio de conhecimentos entre profissionais. No entanto, com o
sistema de regulação nos serviços públicos hospitalares, que faz a
triagem da entrada de usuários, tornou-se mais difícil adquirir vagas para
os idosos que necessitam de atendimento. Dessa maneira, o asilo
mantém a enfermaria para os idosos e as idosas que ficam doentes,
mesmo sem possuir estrutura adequada. O asilo refere ser essa a
alternativa para atender as demandas do processo saúde – doença dos
idosos.
Existem 85 voluntários, que têm com o asilo um vínculo forte,
caracterizado por uma participação intensa. Acreditamos estar essa
representação nas relações entre eles e o asilo, em parte, por sua origem,
sempre sob a tutela da caridade e religiosidade. Para ser voluntário é
necessário se inscrever na instituição, verificando-se que tipo de ação
pode ser oferecido. Em sua maioria os voluntários vão para a instituição
com a missão de levar afeto e caridade para os idosos, permitindo que a
necessidade de amor manifestada por eles seja suprida de alguma forma.
Ao observar as missas realizadas no asilo, percebe-se que os voluntários
vão buscar os idosos que estão tristes, isolados e que não querem
participar das atividades, ou fazem reuniões que, na maioria, são
destinadas ao cuidado religioso e ao apoio espiritual. Outros voluntários
são responsáveis por receber as aposentadorias dos idosos, através de
procuração
e
compram
“coisas”,
principalmente
relacionadas
às
necessidades biofisiológicas como materiais de higiene e alimentos,
solicitados pelos idosos, que não podem mais sair, por motivos de
dependência física ou psíquica.
O Asilo X é filantrópico, mas necessita recursos financeiros para sua
manutenção. Desse modo, são várias as fontes de aporte de recursos,
entre as quais podemos enumerar as seguintes: o aluguel de imóveis, que
fazem parte da instituição e a contribuição dos idosos. Os idosos que não
pagam a instituição, diretamente, tem suas despesas cobertas pelo
financiamento da Secretaria Municipal de Trabalho e Desenvolvimento
Social (SETRADES). Dessa maneira, a relação da instituição com o setor
público para financiar seus gastos não parece significativa, sendo
93
considerada uma contribuição residual, pois, alcança uma pequena
parcela de idosos.
Outro importante vínculo, demarcado nas relações do asilo, é com
pessoas ilustres presente na figura dos políticos, empresas e artistas.
Essa ligação vem desde a sua origem. As personalidades ilustres na
época foram representadas por políticos, desembargadores, delegados,
professores, médicos e arcebispos.
Hoje, existem cerca de 290 sócios contribuintes. É importante
destacar que o asilo tem a participação de artistas, que fazem shows para
os idosos nas comemorações de datas festivas ou de outros eventos
realizados na instituição. Estes são considerados pessoas ilustres. Todos
os eventos são organizados pela comissão interna do asilo, que conta o
empenho de funcionários, que trabalham para garantir o lazer e a
convivência social dos idosos.
A realização dos eventos que acontecem no asilo é mérito do esforço
de uma comissão que, desde 2004, trabalha de maneira efetiva, pois,
anteriormente, eram os voluntários os responsáveis por essas atividades.
Essa comissão é formada por três funcionárias com formações diversas:
economista, bacharel em Letras e administradora. O curso de eventos,
realizado por elas, foi importante para que soubessem lidar com as
dificuldades e adquirirem ajuda para a realização das atividades de lazer.
Relacionamos os eventos promovidos pela instituição durante os anos
de 2005, 2006 e 2007, dados retirados dos exemplares do jornal
produzido pelo Asilo X. Classificamos em seis tipos: festas, reuniões
informativas, celebração religiosa, visitas de escolas, atividade laborativa
e recreação, representada no organograma abaixo, de acordo com sua
freqüência.
Assim, as festas são os eventos mais comentados e realizados com
maior freqüência. Nelas estão inseridas a dança, a música, o cinema e o
teatro, e podem acontecer dentro ou fora da instituição. Logo abaixo, no
mesmo nível de freqüência aproximada, estão às reuniões informativas,
envolvendo palestras e oficinas. Seguem-se a celebração religiosa, que
são as missas e atividades religiosas; visitas de escolas e faculdades
onde acontece a realização de bingos e gincanas; atividade laborativa,
94
com a realização de feiras de artesanatos e exposição dos produtos
confeccionados pelos idosos e idosas do asilo e a recreação que, inclui
passeios para parques, praias, entre outros.
Estas atividades descritas são as que a instituição considera como
formas de lazer:
LAZER
FESTAS
PROJETO
ARTISTA
SOLIDARIO
DANÇA, MUSICA
TEATRO E
CINEMA
REUNIÕES
INFORMATIVAS
PALESTRAS E
OFICINAS
CELEBRAÇÃO
RELIGIOSA
VISITAS DE
ESCOLAS
MISSAS,
ATIVIDADES
RELIGIOSAS
ATIVIDADE
LABORATIVA
GINCANAS,
BINGOS
RECREAÇÃO
FEIRAS
PASSEIOS
Organograma 1 - Atividades de lazer do Asilo X. Salvador, 2009
Fonte: informações do estudo
Quando foi inaugurado, o Asilo X promovia eventos com a intenção de
angariar recursos para manter a instituição. Nesse momento da história,
os artistas que participavam eram amadores. Realizavam peças teatrais,
sempre representando o mendigo que suplicava pela esmola. E a
esperança, que aparecia era a “porta da felicidade”, que o asilo oferecia.
Além do teatro, a música também, foi usada como forma de atrair quem
pudesse beneficiar o asilo. Hoje, os eventos são realizados por artistas
profissionais, cantores, atores, entre outros.
Constatamos que o Asilo X tem sempre publicado matérias em jornais
de grande circulação da cidade de Salvador. Matérias essas, sobre os
95
residentes ou eventos realizados internamente. São, em geral, notícias
que falam de maneira satisfatória sobre o asilo, ressaltando as vantagens
de se viver lá. Além disso, programas populares também levam idosos
para serem entrevistados e comentarem sobre as instalações e a
estrutura do asilo. Uma das idosas residentes foi entrevistada no
programa de Televisão, quando se fez um casamento simbólico, na
instituição, para a realização de um sonho dessa residente. Essa mesma
entrevista também foi publicada em revista de circulação nacional.
Destacamos que o Asilo X, possui publicação própria, de circulação
interna, o Jornal que aqui chamamos de “Fraternidade”. Uma das seções
desse jornal: mostra eventos realizados pelo Asilo X. A imagem dos
idosos não é usada de maneira pejorativa e com interesses escusos. Os
idosos demonstram que gostam de aparecer na mídia e de contribuir para
que o asilo possa crescer, cada dia mais. Essa é a imagem autoconstruída do asilo, mas nem todos os idosos participam dela.
Em setembro de 2006 foi realizada uma exposição de fotos com os
idosos vestidos com roupas de época. Houve parceria de um grande
shopping da cidade e serviços fotográficos para a realização do projeto
idealizado pelo Diretor de Relações Públicas da instituição.
O Asilo X conta, hoje, com uma Diretoria executiva, composta por um
presidente, dois vice – presidentes e doze diretores de diversas áreas; um
conselho fiscal, constituído por três conselheiros efetivos e três suplentes
e um conselho deliberativo, formado por cinqüenta membros eleitos
bianualmente. Todos atuam voluntariamente. Vale ressaltar que os idosos
não participam desses conselhos e que existe ligação com sua loja
maçônica. No entanto, não foi possível aprofundar essas informações,
pois o asilo as mantém sob segredo.
3.3... UM DIA DE VISITA
Um grande portão de ferro separa o asilo do ambiente externo. Essa
entrada é guardada e vigiada por uma guarita de segurança, onde os
96
homens vestidos com o rigor de sua profissão, a farda de segurança usam rádios de comunicação com os setores internos da instituição,
controlam quem entra e sai. Os pedestres devem se identificar e informar
para onde vão. É anotado o número do seu documento de identidade e
aqueles que chegam com veículos, além desse procedimento, é anotada
a placa do carro.
Durante o estudo não foram observadas muitas dificuldades na
entrada ou no acesso à instituição, apenas uma vez, foi questionada a
nossa presença e nos foi solicitado que antes passássemos no setor de
relações públicas. Tínhamos começado as visitas desde 2006 e, até
aquele momento nada constava sobre a presença de pesquisadores na
instituição.
Após passarmos pelo portão, estamos no asilo, mas ainda na parte
externa, e na praça da fonte, com um grande estacionamento, arborizada
e com uma pequena ponte bem cuidada e de aspecto agradável. Tudo
nos dá a impressão de que lá é um lugar acolhedor.
Assim, mais um portão de ferro, e já estamos no interior do asilo
quando nos deparamos com uma placa referente à sua fundação. Essa
placa, já de início, nos dá a sensação de que ali reside a caridade e que
para a instituição esse é o lema desde sua origem, até os dias atuais. É a
linguagem usada para convencer que a instituição imprime segurança. No
entanto, essa linguagem torna-se contraditória, na medida em que já
inicia como uma negativa. É como se a própria instituição provocasse
dúvidas em seus visitantes, pois, de que receio eles falam?
Precisamos então nos lançar nesse passeio, focalizando o que não
devemos recear. A entrada, estão às salas da administração, recepção,
diretoria e serviço social afinal trata-se de uma instituição e os espaços
burocráticos são aqueles que vêm nos dar boas vindas, cumprindo o
papel organizador de qualquer empresa. Logo à frente encontramos um
quiosque com flores e, em uma disposição circular, estão as pousadas, as
pensões e os pavilhões, locais onde a velhice se abriga, de acordo com a
sua condição sócio-econômica.
No ambiente físico existem vários símbolos do caráter de fechamento
das instituições, classificadas como totais: os muros, os portões, “a
97
pirâmide de olhares” (Foucault, 1998, p. 106) que buscam proteger, ao
tempo em que nos imprime um sentimento de aprisionamento e de falta
de liberdade para quem vive ali.
Mais um fator que nos leva a recear de viver, em uma instituição como
os asilos. Parece que os idosos estão à margem do mundo externo,
guardados para não serem vistos ou para não incomodar aos que vivem
lá fora. E como define Goffman (1976, p.11):
Uma instituição total é um local de residência e trabalho onde
um grande número de indivíduos com situações semelhantes,
separadas da sociedade mais ampla por considerável período
de tempo, leva uma vida fechada e formalmente administrada.
Estar em um ambiente acolhedor e que ofereça segurança, sem
aprisionar a pessoa, é importante. O idoso, ao longo da vida, perde seu
espaço sob vários aspectos. Vivendo com a família, pode sair do quarto
da frente, que ocupava quando jovem, para ocupar o quarto dos fundos e,
lá permanecer, sem o direito de opinar nas questões familiares. A perda
na identidade social, no sentido do trabalho, faz com que deixe de ser o
professor, o advogado, o vendedor para ser o aposentado; um estado
social que reúne todas as categorias profissionais em uma só. Sem falar
nas perdas do corpo físico, que transforma a imagem e constrói uma
representação preconceituosa da velhice.
No asilo, essa vida fechada, confinada, está distribuída em pavilhões,
pousadas e pensionatos, segundo a forma de financiamento, que cada
um tem ou que o idoso e seus familiares estão com condições de custear.
Ou seja, podemos comparar com uma pirâmide, onde no topo está a
classe mais abastada e na base a classe popular.
Os pavilhões, os pensionatos e as pousadas receberam diferentes
nomes homenageando personalidades que fizeram parte da sua história.
Na representação da distribuição social no asilo, ao seu lado está um
símbolo que representa a finitude, a ambigüidade desses vizinhos
demonstrada entre a vida e a morte, induz a compreendermos que a
velhice é percebida como próxima da morte. A morte ajuda a vida a se
98
manter. Falaremos mais sobre isso, adiante, quando descreveremos
como e por quem esse asilo é financiado.
Para endossar essa interpretação ainda mais vemos uma imagem de
cristo de braços abertos. O asilo é um reformatório ou retiro espiritual,
como que um ritual de passagem da vida para a morte, um preparo para
que o idoso seja perdoado pelos pecados realizados.
Da composição interna do Asilo X entendemos que sua disposição de
espaços tem correspondência com a reprodução da sociedade com
instâncias hierárquicas bem delimitadas. À frente encontram-se os idosos
que possuem condição social, que pode pagar mais pelos serviços,
embora todos paguem, mesmo que um valor menor. De alguma forma,
nada sai de graça. Observamos, também, nos locais mais aprazíveis a
presença maior dos idosos que podem deambular e são mais
independentes. Aqueles que podem pagar, e mesmo tendo limitações,
dispõem de condições para ter cuidadores particulares que se revesam
durante o dia e a noite ao seu lado.
Próximo à entrada do asilo ficam os idosos de condição social,
condizentes com a classe média, podem pagar mais e, assim, adquirir
melhores quartos e cuidados diferenciados. Ao fundo, nos pavilhões
coletivos, estão os idosos que envelheceram sem muitos recursos,
constituindo-se o reflexo do que foram na juventude. Eram trabalhadores
assalariados, homens e mulheres, que mal possuíam recursos para
comer, ou adquirir o básico para a sobrevivência. Esses, além do aspecto
social, têm maiores limitações e em suas faces grita uma velhice que
provoca pavor em quem se encontra do outro lado dos portões. A eles
são destinados o pavilhão coletivo, referente ao “povo”, ou seja, à
multidão, grande quantidade de pessoas.
Interessante é que, historicamente, o que primeiro veio compor o Asilo
X foram os pavilhões. As pousadas, os pensionatos e outras estruturas
foram sendo construídas, aos poucos. Desse modo, a planta da
instituição foi-se adequando às demandas sociais dos idosos e ao que a
própria instituição dispõe a oferecer para o acolhimento ao idoso.
Nesse asilo, em particular, encontramos a igreja católica em uma
disposição central e dominante. Ou seja, estando ao centro e acima das
99
pousadas, pensionatos e pavilhões e, assim, do alto, simbolicamente se
posicionasse como uma espécie de controle e de proteção. Uma vez que,
em sua história, essa instituição é marcada pela caridade e o dever
cristão de cuidar dos mais necessitados: antes dos mendigos, hoje dos
idosos. Lema ainda hoje utilizado pelas pessoas religiosas, que dizem ir
levar a palavra de Deus, um apoio e um conforto para os velhos do asilo.
A igreja está localizada na Praça do Asilo X, sendo uma referência da
instituição, pois possui jardins e quiosques com uma bela arquitetura. Na
capela, as missas são realizadas todos os domingos e os idosos sempre
freqüentam-na. Significa, também uma oportunidade para saírem de seus
cômodos e se socializar.
No livro escrito sobre a história do asilo e na biografia do seu fundador
está à importância da igreja católica para o Asilo X e as missas sempre
foram realizadas como o fim de manter o espírito religioso.
[...] antes de iniciar a missa, verificou-se um começo de
incêndio no altar. Ante as chamas, o pânico se instalou. Há
correrias, desmaios, gritos de socorro. Acodem várias pessoas
e conseguem debelar o fogo. [...] Restabelecida a calma, foi
celebrada a missa, havendo a comunhão geral [...] (PONDÉ,
1977, p. 60)
A fé, a crença, além do entusiasmo e dedicação do idealizador da
instituição foram armas que efetivamente ajudaram a concretizar essa sua
obra. No início, os residentes eram todos iguais, no sentido das condições
sociais: carentes, sem teto, alguns sem famílias, desprovidos da sorte e
de possuir recursos para se manter como cidadão, que possui casa,
emprego, família. A identidade desses indivíduos foi definida por serem
“mendigos,” indivíduos indigentes, pedintes, que precisam de esmola para
sobreviverem, significando uma maneira de classificar para excluir: ao
mesmo tempo em que se acredita estar organizando os espaços, está-se
criando mais diferenças dentro deles. Criando-se a categoria mendigos,
precisava-se criar, também, espaços físicos para eles e políticas, que
suprissem suas necessidades. É o que Bauman (1999) coloca sobre a
100
ambivalência da sociedade moderna, que ao se buscar alternativas
constroem-se problemas e, assim, constitui-se a ordem e o caos.
Isso mesmo acontece com a categoria “velhice”, que surge
naturalmente, como uma ordem natural das coisas, da vida, mas que
precisa ser organizada socialmente e, para isso, o Estado classifica os
idosos e cria leis para garantir a ordem. Porém, classifica-os
massificando, colocando-os como iguais e não percebe ou finge que não
existem as diferenças.
Nos asilos para idosos, os residentes deviam ser carentes, (des)
amparados como ordena a lei, mas, hoje, outra categoria surge,
amparada pela condição social, constituindo-se dos idosos que podem
pagar para viver no asilo, não como desamparados, mas como pessoas
que têm autonomia para escolher viver na instituição.
O Asilo X, da sua inauguração até o momento atual já se passaram 74
anos. Ele, também, envelheceu, mas as estruturas sociais parecem não
ter data de validade é preciso lembrar que muitas transformações
aconteceram na sociedade. Os mendigos, seus antigos moradores,
envelheceram e isso não significa dizer que não existam mais mendigos
jovens. Pelo contrário, eles existem de maneira mais organizada e muitos
são conhecidos como moradores de rua, excluídos da sociedade
capitalista moderna.
Nesse sentido, o Asilo X também passou por transformações e seus
residentes hoje já não são mais os mesmos, apesar de ainda existir a
exclusão, como sombra, em suas vidas.
Desse modo, a partir dessa evolução, o asilo abre suas portas também
para idosos que possuem condições de se manter, mas que querem ou
são destinados a viver na instituição. O destino é uma condição que pode
ser colocada pelo idoso como justificativa para sua escolha. Bauman
(1999) refere que somos educados para viver na necessidade e, assim,
descobrimo-nos a viver em contingência, transformando-a em destino,
abraçando “nossa sina” por um ato de escolha e vontade de manter
lealdade a opção feita. Por isso, é tão difícil o idoso deixar escapar o que
existe de ambigüidade por trás da sua escolha pelo asilo, como morada.
101
Nessa evolução, os signos de classificação social também são usados
pela sociedade e, com isso, o Asilo X mantém a leitura da condição social
dividida em três aspectos, ou seja: os mais favorecidos, os intermediários
e os menos favorecidos. Essa disposição de distribuição da velhice,
parece buscar esconder os que gritam e agridem os mais jovens pela
miséria, solidão e abandono e mostrar aqueles que, mesmo velhos, são
hígidos e independentes, ainda que seja, através dos braços dos seus
cuidadores. Esse quadro social não se modificou ao longo dos tempos é o
que demonstra Beauvoir (1990, p.320-321) quando comenta que:
Alguns privilegiados, capazes de pagar um preço de pensão
elevado, moram em quartos particulares; outros, em salas que
contêm de quatro a cinco leitos. Mas a imensa maioria está
distribuída nos dormitórios. Por uma estranha anomalia que
ninguém me soube explicar, os indivíduos válidos moram no
térreo, os semiválidos no primeiro andar, e os entrevados no
segundo. Estes últimos são incapazes de se moverem;
alimentam-nos e limpam-nos como se fossem bebês; mas essa
dependência nada tem de pacífica: os rostos das velhas que vi
estavam contraídos pelo pavor, pelo desespero, crispados
numa espécie de horror imbecil. Talvez não se possa mais
fazer nada por elas, os escândalos que salta aos olhos é o
pimeiro andar. Entre os semiválidos, muitos são capazes de se
deslocar de um extremo ao outro do dormitório; eles poderiam
sair; mais não podem descer as escadas, e como não há
elevador ficam literalmente prisioneiros. Assim, até mesmo o
jardim lhes é interditado. O que agrava a situação, é que se
misturam a eles velhos que não controlam mais as
necessidades, e que passam os dias sentados em cadeiras
furadas; eles ficam na mesma sala que os outros, que se vêem
condenados a viver uma atmosfera empestada. O térreo é
menos malcheiroso e menos abafado, mas o coração aperta ao
se constatar a inércia provocada pela vida de asilo.
Essa citação de Beauvoir, faz-nos lembrar quando ainda estávamos
nas visitas iniciais no asilo e, ao conhecer um dos pavilhões, informaramnos que nele vivia uma idosa que chegou no asilo ainda quando ele era
destinado aos mendigos. Hoje, sua condição social permitia-lhe viver no
pavilhão, onde o custo era mantido em parte por sua aposentadoria.
Assim, seu lugar estava garantido, mas ao fundo da instituição.
102
Na entrada da grande sala, como assinala Beauvoir (1990), na
descrição dos dormitórios dos asilos, não se pode deixar de relatar o
sentimento de perplexidade: que velhice era aquela? Nada tinha de belo,
pelo contrário, era assustadora, idosas sentadas com faces de pavor,
outras mergulhadas em suas memórias e mal percebiam que alguém de
fora ali passava. Outras, ainda, estavam deitadas em suas camas como
se esperasse o tempo passar. O que pensam esses idosos? O que
esperam da vida?
Uma freira que ali estava, olhou-me, e não sei se percebeu minha
expressão facial que, acredito, por mais que tentasse disfarçar,
demonstrava indignação e vontade de sair dali. Era a nossa reação, ao
sentir o cheiro forte de urina, que se misturava ao cheiro da velhice, que
não se pode explicar qual é, mas tem uma característica que lhe é
peculiar.
A freira nos interpelou, e sugeriu nossa ida ao pavilhão dos, ainda
mais, dependentes. Nesse dia não fui até lá, por questão do controle do
tempo de visita. Entretanto, imaginamos quê tipo de dependência essa
freira falava, se ali, na nossa frente, via-se, claramente, idosas
dependentes fisicamente e emocionalmente embotadas.
Soubemos logo que o clima, nesse pavilhão que visitávamos, era
desanimador, porque uma das idosas, que nele morava, havia falecido e
suas companheiras de dormitório estavam muito tristes. Era mais uma
perda. A morte estava muito perto, quase que uma vizinha. Como esses
idosos convivem com essa possibilidade tão próxima?
Diante da morte, a quarta razão para temer a velhice, conforme
comenta Cícero (2006), o idoso, muitas vezes, não tem como negar
sentimentos como o medo, mesmo que, em alguns instantes, essa
possibilidade não lhe passe pela cabeça, existe a lembrança feita por
alguém de que a finitude está próxima. Além disso, são muitos idosos
convivendo em um mesmo pavilhão, em média de 25 a 50. Alguns deles
com dependências, para não dizer doenças ou agravos de saúde, que
são por demais explícitos e quase sempre anunciam que a morte mora ali
ao lado. A morte pode ser a única certeza dos idosos.
103
Deve ser registrado que o conhecimento da sociedade em relação aos
aspectos biológicos do envelhecimento e da morte aumentou, nos últimos
séculos. Assim, o próprio conhecimento nessas áreas está bem mais
fundamentado e mais realista, além da nossa capacidade de controle
sobre a velhice que também aumentou. (ELIAS, 2001)
Dessa forma, atualmente “empurra-se” cada vez mais a velhice, como
se pudesse decidir o momento que envelhecemos. Na verdade, o idoso,
fisiologicamente falando, ainda é “medido” pela idade, apesar desta ser
apenas um número. Mas, é aos 60 anos que o indivíduo dá-se conta
desse processo, que começa ao nascer, pois a velhice, encarada como
uma desordem progressiva das células é iniciada quando começa a vida.
Os 60 anos para o idoso pode ser antagorizado aos 18 anos para os
jovens, que almejam alcançar autonomia, sendo que os 60 é, para alguns,
ao contrário da autonomia, uma regressão, uma progressiva dependência
em curso.
Essa dependência significa dizer para alguém, que já foi dono de sua
vida que agora outra pessoa necessita estar por perto para que suas
atividades
diárias
sejam
garantidas.
O
caráter
progressivo
da
dependência “vai dando ordens” ao idoso/ idosa que sua individualidade
já não vale mais e que é preciso esperar pelo outro, pelo seu tempo, sua
vontade e, para isso, uma boa dose de paciência é especialmente
importante.
Quando essa dependência requer ajuda de pessoas desconhecidas
que se apresentam por meio de uma instituição, como o caso do asilo,
significa dizer que a dependência deve ser instituída, organizada,
normatizada e prescrita. Todas as atividades cotidianas, que dependem
do outro para acontecer, são cronometradas pela equipe de apoio, uma
vez que a demanda é grande, e não há espaço para se considerar a
individualidade.
Com a intenção de minimizar a impessoalidade do atendimento nas
instituições de longa permanência, o Estatuto do Idoso (2003) traz, no
título IV, no capítulo II, das entidades de atendimento ao idoso artigo 49,
os princípios que deverão ser adotados por essas instituições:
104
I - a preservação dos vínculos familiares; II - atendimento
personalizado e em pequenos grupos; III – manutenção do
idoso na mesma instituição, salvo em caso de força maior; IVparticipação do idoso nas atividades comunitárias, de caráter
interno e externo; V- observância dos direitos e das garantias
dos idosos; VI- preservação da identidade do idoso e
oferecimento de ambiente de respeito e dignidade.
Dentre esses princípios, a preservação dos vínculos familiares é um
dos grandes desafios para estas instituições: como lidar com a família que
não aparece para ver seu idoso? A lei assevera que a família não pode
abandonar o idoso em asilos, clínicas ou casas de repouso, mas essa
situação é comum no Asilo X, principalmente entre os idosos que residem
no pavilhão coletivo.
Nesse sentido, o serviço social dentro da instituição asilar é de grande
importância
e
deve
procurar
meios
para
trabalhar
cada
caso,
considerando suas particularidades. No entanto, não devemos deixar de
entender a dificuldade de lidar com essas situações, pois é grande
número de idosos abandonados. Por outro lado, quase nunca do que traz
a lei é realizado, mesmo porque, se assim fosse, não iria faltar queixas
contra famílias, para que o Ministério Público pudesse atuar em favor dos
idosos. Acreditamos que o asilo não tem o papel de resolver questões de
conflitos que durante anos fizeram parte da vida dos idosos e de seus
familiares, esses são problemas mais profundos, que dizem respeito aos
afetos e aos laços que podem ter sido quebrados há muitos anos e que
dificilmente, serão refeitos.
Muitos dos idosos que estão no asilo podem, quando jovens, não ter
percebido a importância de manter os laços familiares ou de construir
outros. Certamente, eles, quando jovens, também não pensavam que
iriam envelhecer, e que o asilo poderia ser sua única opção para a
velhice. A verdade é que ,quando moços, não pensamos na velhice, pelo
contrário, achamos que está tão distante, e que não devemos perder
tempo em nos preocupar com ela. Apenas viver a vida. Quando chegar e
se chegar, ver-se-á o que pode ser feito.
105
Essa maneira de pensar, própria do Ocidente, reflete-se em tudo,
desde as relações até no aspecto financeiro, porque não fazemos
economias e nem nos preocupamos com estudos, com a construção de
conhecimentos, nem mesmo adquirir uma moradia. Enfim, vamos levando
a vida, sem pensar no amanhã. Assim, envelhece-se e como num toque
de mágica, deseja-se que tudo o que não foi construído e conquistado,
seja-nos dado como um milagre, pois estamos velhos e, coitadinhos,
merecemos ser olhados pelos filhos, que não criamos, pelos familiares
que não nos vêem há muitos anos ou pela misericórdia de algum outro
ser humano.
Mas, as coisas não funcionam dessa maneira. E o que mais se
encontra é o idoso sem família, sem vínculos afetivos, abandonados.
Entretanto, existe, também, outro lado, com histórias de mulheres e
homens que se dedicaram aos filhos e, hoje, não recebem a dedicação
que esperavam ou, ainda, há casos em que a vida incumbiu-se de deixar
lacunas para os idosos que perderam tudo que tinham: filhos, dinheiro,
família e, hoje, tentam reconstruir sua história de vida. Contudo, não nos
cabe julgar o curso de vida de cada idoso como certo ou errado, mas
podemos mostrar maneiras de como pode constituir-se a trajetória da
velhice.
No Asilo X o abandono de idosos configura-se pela falta de vínculo
com familiares, o que pode ser visto nas nossas idas ao asilo para o
desenvolvimento deste estudo. Nesse sentido, a instituição não possui
instrumentos para saber precisamente sobre a visita que os idosos
recebem. Verificamos que existe um impresso na portaria, preenchido
pelos vigilantes, que consta o número da placa do carro, nome do
condutor, número da identidade, a pessoa que vai ser visitada ou
procurada, pavilhão ou setor, hora da entrada e da saída. Este é o
controle geral de acesso a instituição, Não se configurando como um
controle de freqüência de visitantes familiares, ou não, dos idosos e
idosas. Para ilustrar a falta de conhecimento, pelo serviço social, sobre a
presença da família no asilo, quando perguntamos sobre esse assunto a
uma das assistentes sociais, esta referiu que quem pode falar sobre a
visita dos familiares são os cuidadores, que ficam nos pavilhões,
106
pousadas e pensionatos e, portanto vêem mais o movimento dos
visitantes. Porém, parece que a atenção dada a esse aspecto, na rotina
do asilo, não é de grande importância, porque já estávamos inseridos na
instituição há algum tempo, fazendo nosso trabalho e tínhamos nos
apresentado como de costume sempre antes de ir falar com os idosos e
em uma de nossas visitas, e fomos indagadas se éramos familiar de uma
das idosas do pavilhão coletivo. Certamente, alguns familiares são mais
freqüentes e facilmente pode-se identificar sua constante presença, face a
familiaridade adquirida com a instituição.
Dessa maneira, a visita ao asilo não é o único indicador de abandono,
embora seja de conhecimento que alguns idosos têm familiares, mas
estes não aparecem para visitá-los. Muitos deles, quando vão até a
instituição é apenas para fazer o pagamento das mensalidades ou
quando solicitados para autorizar algum procedimento ou ainda, quando
ocorre algum problema com o idoso que precisa ser resolvido por
familiares.
Uma das idosas entrevistadas precisou da autorização da sua
responsável, no caso a neta, para fazer cirurgia de catarata. O serviço
social entrou em contato e ela, que não quis autorizar. A médica do asilo
precisou lançar mão de ameaça, alegando a possibilidade da idosa
retornar para casa da família, e essa situação foi o que possibilitou a
autorização da cirurgia. O serviço social referiu que os casos de
abandono costumam ser levados ao Ministério Público, e que para
prevenir situações de conflito entre o asilo, familiares e idosos, hoje, é
realizada visita domiciliar, antes da admissão do idoso, para saber mais a
respeito da condição de moradia e relacionamento do idoso com sua
família.
Dentre os pavilhões coletivos, o que mais recebe visita é aquele onde
as idosas são mais independentes. Esse dado foi possível de ser
verificado, pois fizemos cálculo da freqüência de visitas durante um mês.
No entanto, não podemos afirmar que os visitantes eram familiares, pois o
impresso que registra o acesso das pessoas não consta nada referente
ao grau de parentesco do visitante. Segundo os cuidadores, nas
pousadas e nos pensionatos, os idosos e idosas são mais visitados.
107
Como o número de idosos desses locais é menor, acreditamos ser mais
fácil ter esse conhecimento.
Destacamos que, o planejamento do atendimento ao idoso, no asilo,
deve ser uma constante, que necessita de adequação e atualizações
freqüentes, devido à heterogeneidade das situações e necessidades dos
idosos residentes. A política de atenção ao idoso e o seu Estatuto é um
grande aliado para manter a instituição permanentemente cumprido a
legislação. Dessa maneira, dentre o que preconiza o Estatuto do Idoso
além da denuncia do abandono sofrido por ele, o atendimento
personalizado, também é difícil de ser realizado, diante do número de
idosos.
Nesse asilo, o atendimento personalizado e dirigido para pequenos
grupos é uma prioridade, e esses pequenos grupos são formados levando
em conta a estratificação social.
Nos pavilhões coletivos, caracterizados pelo grande número de
idosos, não possuem privacidade estando sempre limitados pela
presença do vizinho, que está muito próximo. As camas estão dispostas
umas perto das outras, afastadas por uma distância mínima, e mesmo
dentro dos seus armários, feitos de alvenaria ou em cômodas, compradas
pelos próprios idosos, seus pertences ficam à mostra. A exposição ao
olhar do outro é uma constante na vida desses residentes. As instalações
sanitárias ficam no final ou no meio do pavilhão. Há um espaço, nesses
pavilhões, onde existem sofá e cadeiras, para receber os visitantes.
A área externa da instituição é satisfatória, pois existem muitos
bancos, mesas com cadeiras, que podem servir para reunir as visitas que
os idosos recebem. No entanto, não há privacidade, pois o espaço
comum do pavilhão confunde-se com o espaço privado do idoso.
Os pensionatos constituem-se de quartos pequenos, com uma porta,
o que pode significar privacidade. Então, podemos dizer que os idosos
que vivem neles têm privacidade. Na entrada de cada pensionato há uma
ante-sala, com sofá, poltrona e uma televisão. É o ambiente para receber
as visitas. As instalações sanitárias ficam geralmente no final do corredor
ou no meio, dificultando o acesso ao idoso, que necessita andar muito,
108
principalmente à noite, período em que, muitas vezes, o idoso tem
necessidade de ir ao sanitário.
As refeições são feitas em uma área, que é copa e cozinha. Nelas as
idosas reúnem-se para se alimentar e esse momento pode gerar
competições como nos foi contado por uma das moradoras, que nos
informou estar com sua perna doente, devido uma briga com outra idosa,
que lhe pediu para trocar de lugar e como ela não aceitou a outra lhe
tratou mal e lançou uma cadeira, que era de ferro, sobre sua perna
atingindo-lhe o músculo e a veia. Foi socorrida, mas a perna ainda lhe
doe muito. Esse fato, não nos parece ser isolado, e a competição por
espaço, atenção e cuidado sempre está presente entre os idosos e
idosas.
As pousadas parecem um pequeno hotel, com quartos grandes e
arejados, com banheiro e espaço suficiente para mais que uma cama e
uma cômoda. Nelas há uma cozinha e copa para os idosos realizar suas
refeições e uma sala. É o ambiente mais agradável, tanto que uma
assistente social nos disse que muitas famílias quando acessavam o site
do asilo pensavam que a pousada se referia a um local para se passar
apenas alguns dias. Isso atenderia a necessidade de algumas famílias,
que queriam trazer seus idosos para passar um final de semana, quando
não havia ninguém da família disponível para ficar com eles.
No entanto, essa modalidade de instituição para idosos teria outra
característica social; seria, de fato, uma pousada, um hotel, um albergue
ou coisa parecida, porém, a característica de peso que o idoso representa
para a família não deixaria de existir, porque ele não iria para esse hotel
por vontade própria, para conhecer outro local, outra cidade ou para fazer
turismo, iria porque a família não desejaria ou não poderia levá-lo com
eles, em viagem de férias, por exemplo. Se compararmos essa situação
de famílias que possuem idosos, com aquelas que possuem crianças,
veremos que as últimas, certamente, levariam as crianças para a viagem.
Portanto o idoso é sempre sinônimo de “trabalho”, de “problema” para a
família e as alegações são, geralmente, a dependência que ele tem.
109
Essa confusão, na percepção de que o Asilo X não é um hotel ou
pousada, levou a instituição pensar em mudar o nome de suas
dependências denominadas de pousadas.
As pousadas são percebidas como um ambiente mais digno, melhor
para se viver, enquanto os pavilhões coletivos podem ser comparados a
um local frio, sem o aspecto de uma casa e, ainda, localizam-se na parte
baixa e, ao final do terreno que nos dá idéia de que estão à margem, na
periferia.
Mas, os serviços oferecidos pela instituição, na maioria das vezes, são
independentes da condição social. Por exemplo, a lavanderia geral,
inaugurada em 1944, que ainda serve a todos os idosos, independente da
sua localização espacial e social. Porém, alguns deles não querem que
suas roupas sejam lavadas nessa lavanderia alegando que ocorrem
perdas de peças e trocas de roupas. Isso pode-se prever pela grande
quantidade de idosos residentes no asilo. Sendo assim, os idosos
preferem pagar a alguém para lavar suas roupas pessoais, e mandam
apenas as roupas de cama e toalhas, que podem ser da instituição ou do
próprio idoso.
Continuando o passeio pelo Asilo X, encontramos o convite para
observar alguns dos cenários reveladores da vida que os idosos têm na
instituição, começando pelo pavilhão intitulado por nós de “espera”
posteriormente, descreveremos o refeitório coletivo; e os espaços de
circulação dos idosos como: o centro de convivência, onde as festas e
comemorações são realizadas; a biblioteca e o salão de jogos; a sala de
artesanato, o salão de beleza e, por fim, o centro de saúde.
3.4 O PAVILHÃO DA ESPERA
Esse pavilhão, na disposição da estrutura física, encontra-se no fundo
do asilo. Desse pavilhão os idosos não gostam de falar muito menos de
pensar em quem está vivendo por lá. Uma espécie de pavilhão da espera
da morte.
110
Nesse pavilhão, efetivamente, a enfermagem e os técnicos de
enfermagem atuam, segundo suas categorias. Em visita, percebemos sua
proximidade com uma unidade hospitalar. Idosos com sonda, que não
deambulam mais, desorientados ou diagnosticados com alguma doença
como é o caso de uma idosa de um dos pavilhões coletivos que
apresentava sinais e sintomas como: inapetência, dores pelo corpo, falta
de apetite, apatia e mucosas amareladas, sugerindo um quadro de
hepatite. Ela foi imediatamente transferida para o pavilhão da espera,
sendo solicitada a realização de exames, para confirmar o diagnóstico. A
hepatite é uma doença transmissível que possui variada classificação,
necessitando de cuidados especiais e, em alguns casos, do isolamento
de utensílios e objetos. A família dessa idosa foi avisada pelo serviço
social, porém não foi relatada a suspeita diagnóstica, apenas de que a
idosa não estava bem.
Esse caso ocorreu uma sexta – feira, véspera de final de semana,
quando o Asilo X fica com menor número de funcionários, menos
movimentado. Tal situação demonstra como a instalação de um quadro
clínico, com sintomatologia de doenças são tratadas pela instituição. As
alterações no processo saúde-doença são empurradas para o pavilhão da
espera e lá não há suporte para se confirmar nenhum diagnóstico médico.
O idoso, nesse jogo, tem que esperar e foi o que aconteceu com a idosa
em questão que teve de esperar o início da semana seguinte para que
providências fossem tomadas, no sentido de confirmar o diagnóstico e
tratá-la de maneira adequada às suas necessidades.
Dessa maneira, notamos que esse “pavilhão” afasta-se, ainda mais,
das características de uma residência ou casa e, de maneira adaptativa,
tenta-se atender ao processo saúde – doença, o qual, segundo o Estatuto
do Idoso (2003), não é em instituições de longa permanência que idosos
com doenças devem ficar. Os hospitais são os locais indicados, porém, o
asilo alega que tem dificuldades de achar leito hospitalar para os idosos
que têm problemas de saúde e necessitam de internação, preferindo
mantê-los no asilo a ter que enfrentar os corredores dos serviços de
saúde à espera de uma vaga.
111
Além disso, o pavilhão também depara-se com a presença da morte,
porque nele os idosos estão mais vulneráveis, pela sua condição de
dependentes e, por que não dizer, de moribundos. É um pavilhão onde se
observa o total isolamento dos idosos e eles próprios parecem estar
alheios ao mundo à sua volta. Conforme comenta Elias (2001), a
fragilidade das pessoas que envelhecem e adoecem são suficientes para
isolá-las dos vivos, pois a decadência as isola, podendo torná-las menos
sociáveis, e seus sentimentos menos calorosos, sem que se extinga a
necessidade dos outros. Sendo que o mais difícil é o isolamento tácito
dos idosos e dos moribundos da comunidade dos vivos, o progressivo
esfriamento das suas relações com pessoas, a que eram afeiçoados e a
separação, em relação aos seres humanos em geral. Assim, tudo que
lhes davam sentido e segurança, vão desaparecendo.
Ainda, o problema da morte torna-se mais evidente no “pavilhão da
espera” e para as famílias, pois mesmo vivendo na instituição, a
responsabilidade para com o idoso não cessa, pelo contrário, permanece
e estende-se até o momento em que se constata a sua finitude.
A doença, a morte e o “pavilhão da espera” inspiram medo aos idosos
do Asilo X. A condição social é um fator importante nessa questão, pois
os idosos do pavilhão coletivo não possuem muitas escolhas e o “pavilhão
da espera” acaba por ser a única alternativa para o enfrentamento da
doença. Os idosos que vivem nas pousadas e pensionatos ainda que
tenham conflitos familiares e histórias de dificuldades de relacionamento
com seus parentes, têm mais condições para não freqüentar esse
pavilhão temido. Quando ingressam na instituição. Esta deixa claro, no
momento da admissão do idoso que o cuidado e a responsabilidade, em
caso de doença, são da família.
Por outro lado, é importante ressaltar que alguns idosos vão para
esse pavilhão e referem ser bem tratados e que se recuperam bem das
doenças adquiridas. A senhora Antonia, uma de nossas entrevistadas,
relatou que fez a cirurgia de catarata. Informou que uma funcionária do
Asilo X a acompanhou, retornou no mesmo dia para a instituição, ficando
por três dias no pavilhão da espera, só saindo de lá após retirar o tampão,
referindo estar muito feliz, com o tratamento do asilo.
112
Em nossas visitas percebemos que, nesse pavilhão, os funcionários
eram desconfiados e não gostavam de declarar nada sobre sua rotina. A
enfermagem não permitia se comprometer, e quando solicitamos algumas
informações sobre os idosos, pediam que nos dirigíssemos ao serviço
social, que lá constava todas as informações sobre os idosos e idosas.
Além da enfermeira, vimos uma estagiária de enfermagem. Em uma
de nossas observações no pavilhão ela nos acompanhou na visita,
informando que não poderia esclarecer nossas dúvidas. Nesse dia,
encontramos alguns idosos gemendo, outros em posição fetal, gritavam e
emitiam sons que não entendíamos. A enfermeira nos disse que não seria
fácil entrevistar nenhum dos idosos que estavam ali, pois eles não
interagiam mais com o meio. Nesse dia, alguns familiares estavam
visitando os idosos, apenas encostados no leito, sem tocá-los e,
rapidamente, iam embora sem conversar com nenhum dos funcionários
do pavilhão. É apenas a presença silenciosa, que alguns idosos “ganham”
de seus familiares.
Enfim, esse é um pavilhão carregado de sentimentos negativos, e que
nos afasta da vontade de ficar ali por muito tempo. É a velhice que não
desejamos ter, mas que não temos garantias de que isso possa estar
longe das nossas vidas.
3.5 O REFEITÓRIO COLETIVO
Portas duplas na entrada, um grande vão, com mesas compridas e
cadeiras, caracterizam o refeitório do Asilo X. Passou por reforma há
pouco tempo, pois tinha sofrido a ação dos cupins que infestaram a sua
antiga estrutura de madeira. Em 15 de março de 2007 foi inaugurado.
Possui 300m² de área construída, e capacidade para 200 pessoas. Com a
reforma o piso foi substituído, colocando cerâmica, que segundo a
instituição, é adequada para os idosos. As paredes foram pintadas e o
telhado substituído totalmente. Reformou-se o sistema elétrico e
113
hidráulico e colocados seis exaustores industriais de teto e ventiladores
internos.
Fica próximo da cozinha que, nessa instituição destaca-se por ter
estrutura semelhante a uma cozinha industrial. É importante ressaltar que,
sua localização é estratégica para o grupo de idosos a que serve, ou seja,
os idosos dos pavilhões coletivos, pois fica a frente deles, facilitando o
trânsito dos idosos. Contudo, para os idosos que tem dificuldades de
andar o esforço é grande para chegar até esse refeitório. Como um
acessório de segurança encontra-se uma barra de ferro, a fim, de que os
idosos possam se apoiar.
As refeições são um momento de encontro entre aqueles que vivem
no pavilhão coletivo. No entanto, não podemos afirmar que é um encontro
de sociabilidade. É notado que há lugar para os homens e para as
mulheres separadamente e, também, pode-se afirmar que há um lugar
marcado para cada idoso. O encontro é barulhento, mas não amigável,
porque a maioria apenas faz a refeição e retorna para o aposento
coletivo. A comida é servida pelos funcionários da cozinha e algumas
freiras. Também ajudam nesse serviço, cuidadores, que ficam próximos
dos idosos, mais dependentes, auxiliando-os no ato de comer ou para
atender a possíveis intercorrências.
Vimos que no momento da refeição os idosos apenas olham o
alimento e comem sem demonstrar satisfação ou prazer pelo que lhes é
servido. Alguns dos idosos, que foram entrevistados, relataram que a
comida não é boa e que, muitas vezes, burlam o cardápio, acrescentando
molhos que compram quando saem da instituição. Assim, o sabor fica
melhor. Além disso, os idosos reclamam que sentem fome e culpam a
nutricionista da instituição por isso. A percepção da fome também passa
pela questão da dieta que muitos idosos tem que fazer, devido às
doenças adquiridas e o serviço de nutrição precisa atender uma grande
demanda e as suas particularidades. A instituição refere que não há
diferenciação
na
qualidade
das
refeições
servidas.
Os
idosos,
independente de onde estão: pavilhão, pousada ou pensionato, comem a
mesma comida; apenas adéqua-se ao que cada um necessita.
114
A alimentação é uma das necessidades básicas de qualquer indivíduo
e a falta ou o não adequado oferecimento de alimentos e dietas
específicas para o velho, pode-se traduzir por maltrato ou violência, que é
definida como negligência, a qual se refere à recusa ou à omissão de
cuidados devidos e necessários aos idosos, por parte dos seus
responsáveis, familiares ou institucionais.
O envelhecimento tem algumas conseqüências que não são
percebidas, ou melhor, não são informadas a quem cuida do idoso. Umas
dessas alterações, que traz morbidades, são aquelas relacionadas ao
aparelho digestivo.
No idoso ocorre uma modificação nas estruturas desse aparelho,
destacando-se que vai desde a cavidade oral, facilitando o aparecimento
de doenças e produzindo alterações funcionais. Todos os tecidos dessa
cavidade atrofiam-se e perdem a elasticidade. A saliva diminui
quantitativamente e qualitativamente e esse quadro pode, também, estar
associado ou ser influenciado pelo uso de medicamentos.
Além disso, os problemas odontológicos são comuns nessa faixa
etária, ocorrendo que o idoso, muitas vezes, não consegue usar prótese,
não se adaptando a ela. A maioria dos problemas dos idosos, que ainda
tem dentes naturais, está relacionada às doenças periodontais, as quais
tornam a mastigação difícil, com os dentes pouco firmes, o que altera a
possibilidade de degustar alimentos como carnes, vegetais crus e
algumas frutas. Ocorre, ainda, deficiência da defesa imunológica na
cavidade oral, sendo esta, provavelmente, a razão da ocorrência de maior
proliferação bacteriana e, conseqüentemente, maior agressão ao
aparelho periodontal.
Ainda, é notada a atrofia das papilas linguais que, aliada à redução do
olfato, tem relação com a diminuição do paladar, possibilitando a
inapetência do idoso.
A descrição dessas alterações serve para se constatar como o
momento da alimentação é importante e deve ser levada em
consideração pelos asilos e casas de repouso para idosos.
Ao observar um dos momentos de alimentação dos idosos
identificamos algumas situações que passaremos a relatar: a hora da
115
refeição no Asilo X é notificada através de um toque de sirene; o café da
manhã é servido às 8 horas, o almoço às 11h30min e o jantar às
17h30min. Os idosos, dos seus pavilhões, ouvem a sirene e aqueles
independentes,
que
podem
caminhar,
vão
até
o
refeitório.
Os
dependentes ficam à espera de alguém, que possa auxiliá-los e aqueles
que têm dificuldades de mobilização, vão a passos lentos. Foi assim que
encontramos a srª Antonia, com seu andador, saindo do banheiro, e indo
para o refeitório. Pudemos acompanhá-la e tivemos que diminuir os
passos. Impossível deixar de registrar a nossa inquietação na demora de
chegar até o refeitório. Mas, D. Antonia não estava nem um pouco com
pressa, ou melhor, já não podia mais ter pressa, as pernas não
acompanhavam essa sensação de que tudo devia ser feito mais rápido e
com maior agilidade.
Deslocar-se dentro do refeitório não fácil, devido as muitas cadeiras
de roda, que ficavam na passagem entre as mesas, além do carro que
leva os pratos para serem distribuídos aos idosos.
Os pratos já vêm prontos e não há possibilidade dos idosos serviremse do que gostaria de comer tão pouco existe um cardápio com opções
de comida. Dona Antonia disse-nos: - olha a comida é isso aí! Sua feição
denotava que não gostava da comida servida e essa percepção não era
sua, apenas. Algumas das refeições servidas eram pastosas, sem cor que
pudessem atrair o idoso, pela apresentação dos pratos. São servidas
frutas como sobremesa.
À entrada do refeitório havia um senhor sentado em uma cadeira de
rodas, meio disperso, ausente do ambiente. Ele tossia, demonstrando que
havia se engasgado. O cuidador batia-lhe nas costas e levantava-lhe os
braços. Ninguém mais estava observando a cena, e o idoso foi
melhorando até cessar a tosse. Essa pode ser uma situação de
emergência, e o cuidador deve ter maior cautela ao lidar com engasgos
no idoso. A repercussão desse episódio pode levar a parada cardiorespiratória e por conseqüência a morte.
Assim, observamos que um cuidado simples, como o ato de auxiliar
uma pessoa a comer, pode facilmente transformar-se em um risco, e ser
visto como uma situação de negligência. Somente o conhecimento sobre
116
o cuidado direcionado ao idoso, e as suas peculiaridades, pode prevenir
desagradáveis intercorrências.
3.6 ESPAÇOS DE CIRCULAÇÃO
Os idosos do Asilo X têm muito espaço para circular pela instituição.
Para isso, basta que tenham vontade e possam, ou seja, que não
possuam
restrições,
principalmente
relacionadas
à
mobilidade
e
locomoção. Mesmo com essas restrições, se houver cuidadores
disponíveis para auxiliá-los na locomoção, podem circular livremente.
Dessa maneira, o que aqui denominamos de espaços de circulação
dos idosos caracterizam-se, principalmente, por serem locais onde eles
podem se encontrar para jogar como, por exemplo, o salão de jogos. No
entanto, observamos que durante o período em que estivemos na
instituição esse local se encontrava sempre vazio. Um dos idosos relatounos que esse salão poderia ser bom, caso soubessem perder no jogo, o
que não acontece. As disputas ficam acirradas e acabam por gerar
competições e brigas.
Outro local que poderia também ser mais freqüentado pelos
residentes, é a biblioteca do asilo. Nela tem jornais de circulação da
cidade, revistas e livros, que ajudariam o idoso a se manter sempre ativo
e bem informado. É, também, aonde funciona o curso de alfabetização
dos idosos da instituição. Porém, observamos ser um espaço que, na
maior parte do tempo, estava vazio e, quando freqüentados, era sempre
pelos mesmos idosos, que já criaram o hábito da leitura.
Esses espaços, juntamente com a pista de Cooper, área destinada as
atividades físicas, onde os idosos podem fazer caminhadas, há também o
campo de futebol local onde ocorrem campeonatos e competições
esportivas entre os residentes, funcionários e voluntários, constituindo-se
o Centro de Lazer do Asilo X.
Diferentemente desses espaços, a sala de artesanato, que faz parte
do Centro de Terapia Ocupacional, é bem freqüentada, principalmente
117
pelas mulheres. Nessa sala, elas realizam atividades manuais como
pintura, costura, artesanato, dentre outras. No entanto, o seu espaço
físico é pequeno e não é suficiente para atender a demanda dos idosos
da instituição. O que produzido é vendido nas feiras, realizadas pelo asilo.
Há uma professora de artesanato e duas Terapeutas Ocupacionais que,
também, acompanham os trabalhos dos idosos e idosas Essa categoria
profissional faz parte da equipe de saúde do Asilo X, desde 2005.
A implantação do serviço de Terapia Ocupacional no Asilo X surgiu da
necessidade de inserir e operacionalizar ações técnicas e terapêuticas de
tratamento, reestruturando a vida do idoso, através de um programa de
atividades terapêuticas e ocupacionais, criando rotinas, e dinamizando o
ambiente. Segundo as profissionais da Terapia Ocupacional, o objetivo
principal do projeto é favorecer o autoconhecimento do idoso, trazendo a
tona desejos e interesses; promover autonomia, independência funcional
e o sentido de comunidade; estabelecer a integração entre os idosos, o
ambiente institucional e o externo, resgatando a cidadania do idoso.
A proposta desse setor é o atendimento em grupo com idosos que
manifestam necessidade de Terapia Ocupacional. Participamos de uma
das feiras realizada no asilo, no período das festas juninas, e pudemos
ver as peças confeccionadas por eles. São produtos desenvolvidos com
dedicação. O lucro é destinado para o idoso que realizou a atividade.
O asilo também possui um pequeno salão de beleza que os idosos
podem freqüentar, independente de viver no pavilhão coletivo, pousada
ou pensionato. O que diferencia os serviços oferecidos pelo salão é o
valor pago pelos idosos. Para aqueles que vivem nos pavilhões os
serviços não são cobrados, já para os idosos que vivem nas pousadas e
pensionatos, cobram-se um valor simbólico, a depender do serviço. Essa
distinção entre os idosos é questionada pelos que vivem nas pousadas e
pensionatos, que acham que também para eles nada deveria ser cobrado,
uma vez que já pagam um valor maior para morar no asilo.
Assim, enquanto os idosos dos pavilhões pagam em torno de R$
230,00, o custo dos pensionatos variam entre R$480,00, R$500,00 e
R$600,00 a depender do tamanho do quarto ocupado pelo idoso. As
pousadas têm custo que variam entre R$ 980,00 e R$ 1400,00.
118
As idosas freqüentam mais que os idosos o salão de beleza; elas e
eles vão em busca de ficar mais arrumados, bonitos e, comentam que
gostam de fazer as unhas, cortar os cabelos, entre outras coisas.
O Centro de Convivência é um espaço, onde os eventos acontecem
como palestras, apresentação de peças, realizadas em momentos
festivos como dia das mães, dos pais, entre outros. É um local amplo,
com muitas cadeiras: possui um palco grande, com cortinas como um
auditório ou um teatro. Nesse espaço, podemos, em dia de festa, ver os
idosos reunidos e misturados. Porém, ainda assim, percebemos que
aqueles que residem nas pousadas sentam-se juntos ou próximos, os que
se movimentam com ajuda de cadeira de rodas são colocados em fileiras
na frente, próximos ao palco. Aqueles que têm cuidadoras particulares,
sentam-se ao lado deles.
Diariamente, o Centro de Convivência também serve de refeitório, ou
melhor, de restaurante, com cadeiras e mesas para os funcionários e os
dirigentes da instituição.
3.7 O SERVIÇO DE SAÚDE NO ASILO
O asilo é um lugar de acolhimento a idosos que não possuem família
assim a Política Nacional do Idoso (1997, p.20) entende essa modalidade
de atendimento ao idoso art.3º:
Um atendimento, em regime de internato ao idoso sem vínculo
familiar ou sem condições de prover a própria subsistência de
modo a satisfazer as suas necessidades de moradia,
alimentação, saúde e convivência social.
Essa concepção de asilo deixa claro que ela não é um serviço de
atendimento hospitalar, mas precisa assegurar ao idoso a manutenção da
sua saúde. Para tanto, é necessária a presença de profissionais de saúde
na instituição e, ainda, de condições para cuidar dos seus residentes. Os
119
idosos quando vão para um asilo, geralmente, não apresentam nenhuma
doença instalada, ou seja, mesmo sendo portador da doença, esta não
provoca dependência funcional, mesmo porque, isso se torna um critério
ou pré-requisito para a garantia da sua admissão, mas com o passar dos
anos, ocorre o desenvolvimento de patologias e a dependência logo
aparece, necessitando de atendimento mais efetivo à saúde.
Destacamos que a instituição em estudo não tem, em seu serviço de
saúde, uma atenção voltada para a prevenção dos agravos, comuns no
envelhecimento. Alguns dos seus profissionais não estão capacitados
para cuidar dos idosos, restringindo-se tal cuidado, à administração de
medicações e manutenção da higiene.
Contudo, em 2008, um centro de saúde foi inaugurado, com 345m² de
área construída. Esse serviço possui 14 salas, destas 08 são consultórios
médico, psicológico, odontológico e massoterapeuta. A impressão é de
que a instituição deseja concentrar tudo aquilo que o idoso precisa, dentro
dos seus muros. Atualmente, são oferecidas consultas aos idosos da
casa com médicos clínicos, que atendem no período da manhã, ficando
esses profissionais de sobreaviso, caso haja alguma intercorrência.
Existem, ainda, dois médicos que são voluntários sendo, um deles,
geriatra. No caso de emergência, os idosos são colocados no “pavilhão
da espera” ou aciona-se o Serviço de Assistência Médico de Urgência
(SAMU) para idosos que vivem nos pavilhões coletivos. Para os idosos
que moram nas pousadas e pensionatos as famílias são chamadas, a fim
de tomar providências.
A enfermagem5 é uma categoria prioritária em uma instituição asilar,
no asilo estudado ela restringe seu cuidado aos pacientes que estão ”no
“pavilhão da espera”, que parece ser uma grande enfermaria, com idosos
debilitados, acamados e que têm sua saúde comprometida, sendo ele o
último percurso do asilo. Geralmente, ficam nesse pavilhão os idosos sem
5
Na enfermagem, Florence Nightingale, considerada a fundadora da enfermagem moderna, não conhecia o conceito
de contato por microorganismos, uma vez que este ainda não tinha sido descoberto, porém já acreditava em um
meticuloso cuidado quanto à limpeza do ambiente e pessoal, ar fresco e boa iluminação, calor adequado, boa
nutrição e repouso, com manutenção do vigor do paciente para a cura. Ao longo de toda a Guerra da Criméia,
Florence conseguiu reduzir as taxas de mortalidade entre os soldados britânicos, através de seus esforços como
enfermeira e, provando a eficiência das enfermeiras treinadas para a recuperação da saúde. Até o momento, só
homens e mulheres religiosos podiam cuidar dos soldados no exército.
120
família e sem recursos para estar mais bem assistidos em um hospital.
Quando solicitada, a enfermeira vai até os outros cômodos do asilo
(pavilhões coletivos, pousadas e pensionatos) para atender alguma
intercorrência, mas o seu trabalho é essencialmente curativo, deixando a
prevenção para um plano secundário.
O cuidado prestado aos doentes fica, assim, reduzido às atividades da
vida cotidiana como: higiene, alimentação, lavagem das roupas e cuidado
com o ambiente. Com isso, foi se constituindo o imaginário de cuidado
como apenas o de servir o outro, contemplando suas necessidades
básicas, o que é um modo reducionista de se ver o cuidado e, por que
não dizer, que é também um modo de favorecer um cuidado prestado
sem qualidade. Nem todas as pessoas podem cuidar, embora todas
necessitarem de cuidado.
Chamamos atenção que, no Século XX os agentes da enfermagem
também eram ligados à Igreja Católica, e procurava salvar a alma do
doente, através do cuidado. Verificava-se uma relação direta das
enfermeiras com os doentes e, assim, as enfermeiras, na pessoa das
ordens religiosas, executavam o cuidado, mediado pelo modelo religioso.
(ALMEIDA, 1986)
No Asilo X não observamos nenhum trabalho com os idosos para
educação em saúde, que fosse realizada pela equipe de enfermagem.
Nesse
sentido,
apenas
são
formados
grupos
com
Terapeutas
Ocupacionais e Psicóloga, enfatizando questões psicológicas e de
interação entre os idosos.
A integração do asilo com os serviços de saúde, que estão fora da
instituição, não nos parecem prioritária, porque os idosos, que necessitam
de atendimento especializado, passam pelos mesmos transtornos que
aqueles não asilados, enfrentam os corredores e macas dos hospitais
públicos e, algumas vezes, sendo submetidos à decisão dos profissionais
de saúde, quanto ao direito ao leito hospitalar. Idosos, nessas
circunstâncias, chegam até a competir com pessoas mais jovens. Para os
idosos que possuem mais recursos e pagam pelos melhores aposentos
no asilo, a família fica responsável, quando acontece alguma emergência,
para internar e providenciar os cuidados. O asilo dá a assistência inicial,
121
mas é a família que tem a obrigação de levar o idoso, caso tenha
necessidade, para o hospital. Já os idosos que vivem no pavilhão coletivo
a responsabilidade é totalmente do asilo, desde a compra de fraldas,
medicamentos e outros recursos para o cuidado, até o encaminhamento
para uma unidade hospitalar. Assim, o (SAMU) passa a ser o responsável
pelo atendimento inicial e pelo transporte do idoso até uma unidade
hospitalar.
122
CAPÍTULO IV
4 APRESENTANDO OS ATORES SOCIAIS
Neste capítulo, apresentamos os idosos e idosas que participaram da
pesquisa e eles próprios contam, de maneira resumida, sua história de
vida através do familiograma, instrumento usado para criar uma
representação esquemática da estrutura familiar.
O familiograma, também conhecido por Genograma ou, ainda, Árvore
Familiar, é considerado um método de coleta, armazenamento e
processamento de informações sobre a família, configuradas em um
gráfico, onde constam todos os membros do grupo familiar. Com ele é
possível visualizar-se a estrutura familiar, identificando quem dela faz
parte. Para sua elaboração utiliza-se dos ícones gráficos usados em
genética e em árvores genealógicas. Parte-se do indivíduo doente, alvo
de preocupação da equipe de saúde e incluem-se, pelo menos, três
gerações. Os membros da família são colocados em séries horizontais,
significando a linhagem de uma geração. Todos os indivíduos da família
devem ser representados. Nome e idade da pessoa devem ser anotados
dentro do símbolo (quadrado, para indicar o homem e círculo, para indicar
a mulher). É importante anotar a história da saúde – doença de todos os
familiares, em especial as doenças crônicas degenerativas, e os hábitos,
sejam saudáveis ou não. Devem ser anotados, ainda, aspectos
relacionados à morte de cada um dos membros da família. É importante
salientar que o familiograma é um retrato momentâneo da família, que
deve continuamente ser atualizado, pois a família se modifica dia-a-dia.
(BRASIL, 2006)
Para utilização desse método na pesquisa foi preciso adaptar os
instrumentos, devido às condições dos idosos entrevistados, os quais
demonstravam dificuldades em lembrar detalhes da constituição da
estrutura familiar e, ainda, é importante salientar que partimos do idoso
não com o enfoque na doença mas, sim, por ser ele o ator social da
123
nossa pesquisa. Procuramos preservar a originalidade do instrumento e
vimos sua importância para instituições de longa permanência, pois, ele
pode auxiliar na reconstituição de laços e vínculos familiares perdidos ou
desgastados, além de subsidiar o planejamento do cuidado ao idoso.
Conforme traz o caderno de atenção básica (Brasil, 2006) referente ao
envelhecimento e a saúde da pessoa idosa, é importante a apreciação da
estrutura familiar e das relações, na perspectiva de avaliação dos riscos
familiares, para a explicação de fatores, que possam contribuir para o
processo saúde-doença, com vistas a propiciar elementos que subsidiam
planos terapêuticos integrais, ou seja, com ações de prevenção,
recuperação e manutenção da saúde, especialmente, quando se faz
necessária à adoção de um elemento externo (familiar ou não) como
cuidador.
Assim, com o familiograma dos entrevistados foi possível observar
detalhes preciosos e comuns que serviram para a análise da vida dos
idosos. Entre eles encontramos as perdas de familiares, a morte dos pais,
que aparece na fala de todos os idosos, sendo comum a existência da
baixa expectativa de vida, ao nascer, para aquelas gerações. Alguns
morreram quando os filhos, atualmente idosos, estavam na infância ou
juventude, situação bastante freqüente, por algumas décadas. No Brasil,
pode-se afirmar que entre os anos 40 até os anos 60 do século XX a
população apresentou-se praticamente estável, com uma distribuição
etária quase que constante. Era uma população jovem, onde que, em
torno de 52% tinha idade abaixo de 20 anos, e menos de 3% acima dos
65 anos. (CARVALHO; GARCIA, 2003)
Hoje, as pessoas vivem muito mais e podemos ver várias gerações
em uma mesma família. É o que Britto da Mota (1998b, p. 74) comenta
sobre a família do idoso:
Vive, a família do idoso, situações novas, entre as quais se
destaca a simultaneidade de várias gerações. Se não a mesma
unidade doméstica, em espaço ou relações muito próximos.
Algo que é mais que atual relativamente inédito em sua
magnitude, ensejado tanto pela situação demográfica, da
queda da mortalidade e maior longevidade, com o conseqüente
124
aumento da população mais velha, como pela questão social
produzida pela crise econômica e pelo atual modelo excludente
de desenvolvimento, com a crescente escassez de empregos e
o recurso inapelável ao apoio da família. Geralmente, dos mais
velhos.
Dessa maneira, procuramos deixar que os próprios idosos e idosas,
participantes da pesquisa, se apresentem:
Senhora Silvano
Eu tenho 84 anos de idade, estou no Asilo X há 10 anos, perdi
minha mãe em uma segunda-feira e meu pai na outra. Fui
criada por uma tia que chamo de mãe, foi à mãe maravilhosa
que tive, eu sou a filha número 31. Não tenho irmãos vivos,
todos já morreram, até minhas cunhadas. Tenho sobrinhas que
vêem me visitar. A minha mãe teve 31 filhos. Casei duas
vezes, o meu primeiro marido era ótimo, ele nunca teve mulher,
mulher que eu falo casamento, a única fui eu. Ele era novo, 32
anos, eu era nova. Eu tive muita sorte Deus me deu dois
maridos ótimos, ter sorte duas vezes é difícil. Eu não tive filho
biológico, porque não quis; não sei se foi por complexo porque
minha mãe me deixou com três anos e meio. Meu marido
queria ter filhos tinha até nome, mas eu disse:- olha, Oscar, eu
não quero filho. Eu fiquei grávida duas vezes, dois abortos.
Minha cunhada, quando eu peguei a menina, disse: - olha você
não quis filhos agora vai pegar filho dos outro, Deus pode lhe
castigar. Que nada! É uma filha maravilhosa que eu tenho. Eu
morei no Rio de Janeiro, fui casada no Rio de Janeiro, fiquei
viúva no Rio de Janeiro, mais sou baiana. E, sendo baiana,
minhas irmãs e meus irmãos começaram a me chamar eu vim
para cá, trouxe uma filha solteira, ela chegou aqui, casou com
um rapaz de Feira de Santana, muito bem casadinha, direitinha
meu genro tem uma agencia de automóveis. Raquel, minha
filha, é de lá, mora lá. Cheguei aqui no asilo no mês de junho e
com quinze dias conheci meu atual marido. Você vê, a
programação divina é assim, eu tinha que vir aqui para me
encontrar com ele. Ele veio em maio eu vim em junho; isso foi
em junho, em setembro casamos poucos meses depois. Como
a gente não podia morar em um lugar coletivo. Eu morava
neste quarto, ela não estava aqui (o quarto a que dona Silvano
se referia era o quarto que hoje é ocupado por dona M.) outra
idosa que reside no asilo e que vive lá com o marido, foi onde
encontrei dona Silvano quando a assistente social me
apresentou como uma das possíveis interlocutores de nossa
pesquisa) ele morava em outro quarto, nesta mesma ala, mas
era aqui dentro, sabe como é o povo não é? Eu um brotinho
não é! (risos). Casei-me aqui dentro mais não foi de
brincadeira, então como já era viúva não ia colocar véu e
125
grinalda e virgindade. Agora, à noite de núpcias foi aqui, neste
quarto. Tenho boas recordações, meu marido é que é
maravilhoso eu que não presto, sou bruta, é minha natureza,
ele tem que se adaptar, sempre fui assim desde jovem, por
isso os maridos ficavam agarrados comigo homem gosta disso.
Aqui é minha residência, nós somos residentes, e claro que
não é porque eu resido aqui, que vou interferir na vida dela, na
vida de outro morador, tenho que respeitar a individualidade.
Aqui é casa de todos, do asilo, da instituição. Eu resido aqui
apenas. Praticamente não tenho nada a dizer, por que estou
feliz, e a gente feliz só quer falar de felicidade, porque aqui
tudo é bom, mas, nós, as pessoas humanas somos muito
exigentes, está tudo muito bom, mas sempre a gente acha que
falta algo. É o meu caso, tem dias que eu tenho vontade de
voltar para minha casa, dá uma saudade de casa enorme e eu
pergunto: - meu Deus, o que foi que eu vim fazer aqui? Porque
eu não estou na minha casa?
Familiograma 1
A estrutura familiar dessa idosa é composta por muitos irmãos, hoje já
falecidos. Ela não soube informar sobre a morte desses irmãos, nem
quantos eram mulheres ou homens, e nem a causa mortis dos pais e o
ano que esses fatos aconteceram6. Sobre os casamentos, ela revelou ser
muito feliz. Para Alves (2007) casamento e reprodução são fatos
corriqueiros na vida dos idosos. No Brasil, apenas 6% dos idosos são
6
Essas informações devem ser colocadas no familiograma, porém, devido ao viés de memória de alguns idosos, isso
não consta na demonstração do familiograma de alguns
126
solteiros e 6% nunca tiveram ou não têm filhos. Sendo o casamento e os
filhos a garantia de atenção na velhice. No entanto, essa garantia parece
ser mais sólida, quando existe coabitação do idoso (a), filhos e seus
conjugues. Entre os idosos entrevistados que têm filhos, o fato de não
conviver com eles no mesmo domicílio parece não ter afetado a relação.
A leitura do seu familiograma retrata as perdas e as transformações na
família, mortes de entes queridos, abortos espontâneos, morte do
primeiro marido. Um novo casamento e a oportunidade de reescrever a
sua história, agora em outro cenário: o asilo.
A estrutura familiar e sua importância para o envelhecimento são
comentadas por Alves (2007), no caso dos idosos brasileiros, fazendo um
recorte de gênero, onde, segundo a autora, para os homens foi comum, a
co-residência com as esposas (71%); com pelo menos, um filho ou filha
(51%), e para as mulheres, a moradia é, freqüentemente, compartilhada
com filhos e/ ou filhas (57%).
Sr. Cervantes
Tenho 77 anos de idade e há dois anos vivo no asilo, nasci em
12 de fevereiro de 1930, minha mãe faleceu quando tinha 14
anos, meu pai faleceu sete meses antes, em agosto de 1929.
Minha mãe era operária e, além de mim, teve mais dois filhos.
Ela, com muita dificuldade, nos criou, e os meus dois irmãos
mais velhos ela internou em um colégio que fica na cidade
baixa, nós morávamos na vila operária. O primário fiz com
muita facilidade. Naquela época era diferente entrava-se mais
tarde na escola, mas aprendia mais. Depois que minha mãe
conseguiu casa para morar, mandou buscar a minha avó para
tomar conta de seus filhos, enquanto ela estivesse trabalhando.
Lembro-me que a minha avó já era muito idosa, e não tinha
condições de executar as tarefas domésticas, com isso a
minha mãe ficava obrigada, após chegar da fabrica, às 16
horas, lavar, passar, cozinhar e demais afazeres domésticos.
Ainda hoje, tenho viva na minha memória a imagem da minha
mãe. Uma mulher, morena, alta bonita e que sempre se trajava
com vestidos bem comportados, e sempre usava no dedo
anelar esquerdo um par de alianças bastante largas, o que
significava o seu estado civil de viúva. Outra lembrança
agradável, que guardo até hoje, é ter certeza que a minha mãe
nunca teve nenhum envolvimento amoroso com homens,
porque ela só saía acompanhada por um dos filhos e nós três
dormíamos com ela numa cama de casal. Depois da morte de
127
minha mãe, eu tive que trabalhar. Conclui o ensino
fundamental e em 1946 iniciei a carreira profissional indo
trabalhar em uma fábrica na Boa Viagem. Eu queria logo
arranjar uma moça para namorar, casar e constituir família,
pois família para mim é a coisa mais importante. Mas,
engraçado que a minha família, desde a época de minha mãe,
é composta de poucas pessoas, repare, conforme você viu no
manuscrito meu7, a minha família era minha mãe, eu, mais dois
irmãos, porque o meu pai havia já falecido a minha mãe ficou
viúva com nós três e quando eu tinha 14 para 15 anos ela veio
a falecer. Aí de nós três: da minha parte tive três filhos e três
netos, agora é lógico que eu tenho parentes, mas não tão
próximos e os dois irmãos que eu tinha, ambos faleceram. A
morte de minha esposa deu inicio a uma nova fase da vida
agora na velhice. Família para mim é a coisa mais importante,
porque a família é o sustentáculo. Nós não nos falamos
religiosamente todos os dias, mas cada dia eu falo com um,
dois. Eles sempre vêm me ver, principalmente uma, a mais
nova, eu nunca perdi o contato com meus filhos. Eu, graças a
Deus, continuo mantendo ótimo relacionamento com eles,
apesar de estar aqui, continuo sendo como se diz, patriarca.
Familiograma 2
Nossa leitura sobre o familiograma do senhor Cervantes demarca uma
importante questão de gênero, atual, mas que já existia há muitos anos, a
7
Sr. Crevantes nos confiou um manuscrito sobre sua biografia. Este material foi analisado junto com sua entrevista.
Conteúdos desse manuscrito constam deste capítulo, sobretudo trechos, passagens de sua história de vida
,enfocando a infância e a juventude.
128
família sob a chefia de uma mulher, no caso, a mãe do idoso, a matriarca
e a quem ele demonstra admiração e respeito. Notamos a atualidade
dessa questão, um fator social que pesa muito, pois, hoje, as mulheres
criam seus filhos sozinhas e sustentam suas casas, também solitárias
pela
falta
do
companheiro
que,
por
vezes,
não
assume
as
responsabilidades familiares. Na situação vivenciada por Sr. Cervantes foi
a viuvez, que concorreu para que sua família de origem fosse classificada
como matriarcal. Sobre isso, Sardenberg (1998) comenta que os grupos
domésticos, chefiados por mulheres na sociedade, são, na sua maioria,
de viúvas acima de 50 anos.
A viuvez da sua genitora foi, sem dúvida, para Cervantes, um fato
marcante no aspecto da mulher que chefia uma família e, nesta já
percebíamos a solidariedade das gerações, pois para trabalhar, a mãe do
idoso recorreu à sua própria mãe já idosa, que ficou encarregada de
tomar conta dos seus filhos pequenos. Mas, é a imagem da mulher
recatada que o idoso enfatiza.
A família que o idoso constituiu com sua a esposa, por sua vez, é
considerada patriarcal, e se mantém nuclear. Ele tem orgulho de falar
sobre esse formato persistir até quando ele, o pai, chega à fase da velhice
e ainda pode, mesmo do asilo, agregar seus filhos, ou aconselhando-os,
orientando-os, sem perder seu papel social.
Sr. Valdemar
Sou morador do Asilo X há sete anos, tenho 83 anos. Tinha
cinco irmãos, agora só restaram dois, o mais velho está bem
ruim. Sobrinho, eu tenho. Família para mim é quando você
casa e constitui família, antigamente era assim, a educação em
primeiro lugar, até os filhos se formarem. Meu pai levava a
gente para tirar leite na fazenda, eu estudava, mas ele faleceu
e minha mãe não tinha condições. Aí, eu fiquei na casa de meu
avô, eu tomei porrada como a zorra, àquela coisa. Aí eu
pensei: pra me casar para ter um filho, pra isso, eu não admito.
Quando você nasceu, com seus pais, aí sim, você esta
morando em sua casa. Agora, se você se casa, aí você já tem
outra família. Eu não tenho família, eu tenho meus dois irmãos.
Eu nunca constitui família. Tenho meu irmão que se dá comigo,
meu sobrinho que me trata bem, quando eu tenho necessidade
129
vem me trazer de carro aqui, quando eu preciso de remédio,
agora, é difícil. Eu tenho um filho, mas ele nunca mais me
procurou. Eu também nunca o procurei, é de minha natureza, a
mãe dele fez uma carta dizendo que é meu filho. Sempre fui
aventureiro, chegava à empresa pedia para me carregar em
qualquer lugar, fui para o lado de Mato Grosso. Aquela
aventura boa, você muda de clima, muda de lugar. Eu gosto
muito de viajar. Eu tenho projeto de sair daqui, eu entrei aqui
porque eu quis, se Deus me ajudar, eu vou sair daqui. Porque
tem cara que nunca vão sair daqui. Eu já morei em vários
lugares, pensionato, vivo em qualquer lugar.
Familiograma 3
Essa auto descrição, nos leva a crer que a forma como se “desenha” a
vida, desde a juventude, é o resultado do que ela será na velhice. O
idoso, em sua fala, demonstra que nunca se “prendeu” a lugar, coisas ou
pessoas. É um homem errante. Vivia o presente, e nunca planejou o
futuro e esse seu jeito ainda permanece na velhice, quando refere sobre o
seu projeto de vida, de sair da instituição e viajar.
Além disso, nos chama a atenção, também, à maneira como o senhor
Valdemar concebe a estrutura familiar ideal, constituída pelo pai, mãe e
filhos, apesar de ter vivido outro modelo, ou seja, com os seus avôs.
Nesse formato, não há espaço para a família contemporânea, envolvendo
130
outros membros ou pessoas. É uma concepção que está bem definida
com a posição social do idoso, e vai de encontro ao vivido hoje em dia,
conforme afirma Britto da Motta (1998a, p.15):
A família exibe novas formas, de acordo com o ritmo das
mudanças. Persiste como nuclear, pelo menos como modelo
ideal, fixado nas representações e expectativas, mas ao
mesmo tempo amplia-se, tanto na realização de formas novas
e imperativas de apoio e solidariedade entre as gerações como
em função da coexistência de um número maior de gerações,
como, ainda, na realização ou tentativa de novas relações de
parentesco, várias ainda sem sequer designação própria- o
filho do casamento anterior do (a) companheiro (a), a
“madrasta” ou o “padrasto” de quem tem os pais vivos, a avó
do meio- irmão.
Dessa maneira, apesar das transformações na família o modelo
nuclear é, ainda hoje, o almejado, isso se deve à tradição. Uma herança
cultural passada de geração a geração.
Sr. Possante
Nasci no estado de Sergipe, na cidade de Simão Dias. Vim
para aqui, com 14 anos de idade, vim trabalhar. Meu pai,
depois de ficar viúvo, casou novamente. Era uma família
numerosa, dez filhos, minha vida dá um romance. Eu vim morar
aqui em Salvador com uma tia minha, trabalhei por aqui sem
escolaridade, sem orientação de pai, nem de mãe. Mas, os
tempos eram outros. Era mais difícil, mas em relação a
questões de vício, isso ainda não existia. Apesar de eu andar
sempre à vontade, sem nenhuma orientação nunca me envolvi
com nada disso. Morei também em São Paulo. Na época, em
1930, tinha migração de nordestino, ficava lá à procura de
emprego. Estudei até o primário. Aposentei-me como
funcionário público. Fui comissário de polícia. Tenho 87 anos,
moro do Asilo X há 10. Minha família de origem foi muito
dispersada. Minha mãe faleceu, quando eu tinha sete anos, eu
tive nove irmãos, todos falecidos. Eu tenho dois irmãos por
parte de pai que eu não conheço. Fiquei casado 23 anos.
Quando eu me divorciei, tive outra pessoa, vivi com ela por dez
anos, não tive filhos com ela. Meus quatro filhos são do
primeiro casamento. A pessoa que eu vivi por 10 anos era
freira deixou o hábito e nos conhecemos numas festas, tivemos
um relacionamento, moramos juntos por 10 anos. Após esse
período, o irmão dela disse a ela que não era certo, uma moça
religiosa viver com um homem casado, porque eu sou
131
divorciado, mas para a igreja o casamento é indissolúvel.
Acredito que tenha sido este o motivo que ela não quis mais
ficar comigo, dentre outras coisas. Eu tenho uma pessoa que
conheci aqui, foi funcionária aqui e nós começamos a
conversar aí começou um relacionamento. Ela saiu daqui, acho
que o motivo foi porque se envolveu comigo. Ela era auxiliar de
enfermagem aqui, ela foi embora e hoje ela trabalha no
Roberto Santos. Hoje, temos um relacionamento feito em
cartório, uma união estável. Eu tentei com duas pessoas, mas
não consegui, até com uma sobrinha. Não que eu tivesse
nenhuma intenção, mas pelo desgaste, lógico, não porque eu
sou velho, o novo também morre, mas pelo desgaste eu
achava que eu morria e tantas pessoas precisando de um
salário. O asilo é hoje a minha família, sempre conversamos
sobre isso. Aqui, há união, a convivência, viver em coletividade
não é como você ter sua casa, ter sua privacidade, dizer é
minha. É respeitar os limites dos outros até fora daqui nós
temos que viver assim, não querer consertar ninguém, nem
querer que todos sejam iguais. E a família fora, cada um tem, à
sua maneira.
Familiograma 4
Mas uma vez a morte de um dos genitores, nesse caso, da mãe, foi
referida no depoimento do idoso. Quando um dos pais morre, com os
filhos ainda criança, gera mudanças na estrutura familiar, que vai culminar
em outras fases da vida. Foi o que também observamos na história de
senhor Possante.
Trabalhar cedo é uma atribuição de muitas crianças e adolescentes
que necessitam ajudar em casa, pois os pais, em alguns casos, não
132
possuem emprego ou não ajudam no sustento, devido ao abandono da
família. O senhor Possante teve que vir morar com uma pessoa que fazia
parte de sua estrutura familiar, no entanto, é considerada parente, como é
caso de tios, tias e avós, tanto paternos quanto maternos. Essa mudança
na estrutura familiar, em uma fase importante de formação da vida, como
a adolescência, a qual os jovens necessitam de orientação para a
conduta pessoal, faz diferença e foi ressaltada no discurso do idoso
fazendo um contraponto com o que ocorre, atualmente, com os jovens
que não têm orientação dos pais. O idoso referiu que apesar de viver à
vontade, sem os limites geralmente impostos pelo papel dos pais, nunca
teve comportamentos desregrados.
Assim, o senhor Possante buscou construir sua vida e constituiu sua
família. No entanto, muitas rupturas foram evidenciadas no discurso do
idoso, o divórcio e a separação de sua segunda companheira, que veio
com certo tom de preconceito e a religião foi um entrave, pelo menos ao
primeiro entendimento do idoso, para que essa relação não desse certo.
Depois dessa separação, senhor Possante resolveu morar no Asilo X
e logo refez sua vida afetiva, mais uma, vez de maneira inusitada,
envolvendo-se com uma das cuidadoras da instituição. Apesar de ter um
familiograma convencional, com filhos vivos e alguns casamentos, a
família descrita pelo senhor Possante está longe de ser de pessoas com
laços consangüíneos, que vivem em uma mesma casa. Para ele o
conceito de família aproxima-se do conceito de grupo.
É a forma de viver que dá o sentido de família. Estar em coletividade é
um exercício de humanidade e respeito ao próximo. No asilo, todos os
idosos têm um mesmo objetivo viver a sua velhice só que neste espaço a
velhice é coletiva, não está disfarçada nem dispersa em meio a outras
gerações, como acontece fora dos muros do asilo. Uns se veem nos
outros, e não se pode mascarar essa fase da vida.
É importante ampliar o conceito de família ao contexto em que o
indivíduo vive. Uma nova forma de família surge no asilo aquela que
independente dos laços afetivos e de sangue está presente na
coletividade e no bem comum, que é a qualidade de vida.
133
Senhora Antonia
Nasci na cidade de Santo Amaro da Purificação- Bahia. Meus
pais tiveram dez filhos, cinco homens e cinco mulheres. Fui
casada, vivi 20 anos com meu marido. Deus o levou, pois teve
que levar, nunca tive briga nenhuma com ele, por isso algumas
pessoas perguntam: “por que a senhora não se casou se ficou
viúva tão jovem?” Porque eu achei na minha consciência que
meu marido primeiro, foi gente boa pra mim e eu não sabia o
que eu ia arranjar depois. Fiquei viúva com 37 anos, esses
anos eu morava perto de minha mãe, de meus irmãos, eles me
davam muita assistência. Agora eu digo parece uma coisa, até
as mulheres deles, Deus já levou elas, tem horas que eu digo:
meu Deus! Porque isso meu Jesus? Mas Deus quis levar,
coisas de Deus. Casei jovem, tive oito filhos com ele, mas Deus
já levou todos. Ele [o marido] tinha 40 anos e eu 17 anos, os
filhos foram morrendo depois. Tive quatro meninas e quatro
rapazes, alguns morreram quando meu marido ainda estava
vivo. Tenho netas, mas não vêm me ver. Vinha, agora tão
morando mais longe me telefonam: “amanhã eu vou aí lhe ver
e não vem”. Eu ajudei muito a elas porque eu tinha. Graças a
Deus eu tinha com quê, hoje eu estou aqui e eu pago o meu,
não que meu marido deixasse nada, mas eu trabalhava. Eu
tenho mais de oitenta anos agora o mais eu não sei, não
lembro, pois meus papéis estão tudo aí. Mas, mais de oitenta
eu tenho. Eu não espero mais nada da vida porque eu vivo
aqui, não tenho mais irmãos, tenho amigos que vêm me ver,
tem esses meninos seminaristas que me trazem assim, mas é
muito longe, viu? Acho que seja como Deus quiser!
Familiograma 5
134
Verifica-se que nesse caso, é marcante a perda da maioria dos
familiares, os quais poderiam dar outro sentido de vida à idosa.
Questionamos: se estivessem vivos será que Antonia estaria vivendo no
asilo? Fica então esta pergunta sem resposta. O asilo parece ser a
possibilidade mais digna de vida para ela, apesar de em alguns
momentos lamentar-se viver dessa maneira e das netas, únicas familiares
vivas, não aparecerem para visitá-la. Antonia vai levando sua vida na
instituição como se esperasse que a morte, sua rival, pois levou todos os
entes queridos, venha também buscá-la.
A morte dos filhos para os idosos é referida por Beauvoir (1990, p.
452) como:
O que deixa os velhos inconsoláveis é a perda de pessoas
mais jovens, que eles associavam ao seu próprio futuro,
sobretudo se tinham gerado criado ou formado essas pessoas:
a morte de um filho, de um neto, é ruína súbita de todo um
projeto; ela torna absurdamente vã os esforços, os sacrifícios
feitos por ele, as esperanças que nele se havia depositado.
Dessa maneira, senhora Antonia demonstra não ter mais o que
esperar da vida e se entrega a Deus. Para sobreviver, à idosa apega-se à
religião, aos seus pertences e sua memória e, de maneira comunicativa,
expressa-se sobre o que vive. Não esconde suas dores, compara sua
velhice com as companheiras de quadra. Briga, sorri, reclama, e ali
permanece como mais uma idosa que “pertence” àquela instituição.
Ela é considerada pelos dirigentes da instituição como “rebelde”, a
que reclama de tudo, a que briga com as demais idosas. Dona Antonia
não passa despercebida e imprime sua característica pessoal. Segundo a
assistente social, a idosa chega a humilhar as funcionarias da limpeza. E
a psicóloga nos disse que a senhora Antonia tenha uma “visão negativa”
da vida.
Nesse sentido, a preferência em ficar no seu leito, do que partilhar das
festas e eventos realizados pelo asilo, isolar-se como que estivesse se
protegendo e, ao mesmo tempo, em que se coloca disponível para novas
135
relações interpessoais, nos faz refletir sobre que, um curso de vida com
tantas perdas, pode mesmo levar a velhice para uma compreensão
negativa e sem perspectivas futuras, apenas esperando mais uma
tragédia acontecer.
Em relação a sua condição de viúva, dona Antonia orgulha-se de não
ter procurado outro marido, alega ter sido feliz, receiando de não ter a
mesma sorte, caso tivesse escolhido outro marido para partilhar sua
juventude e sua vida.
Senhora Mandala
Eu tenho 71 anos, mas eu faço 72 em agosto, no dia 22. Eu
morava em Madre Deus e vivia bem, mas ai o meu velhinho
adoeceu e ficou para baixo mesmo. Teve três derrames, três
derrames logo que perdeu a campanha política, ficou
desmotivado, ficou decepcionado, eu também muito triste, aí
em resumo, terminou ele indo embora. Eu fiquei em uma casa
muito bonita em Madre Deus, uma maravilha. Maravilha, muito
bem assessorada por amigos e tal, mas quando ele se foi
todos os amigos se afastaram naquela época eu ainda bebia,
fazia farra, aí, durante o dia tinha festa, tinha compromisso com
tudo, minha agenda era cheia, fazia parte da terceira idade de
lá, mas quando chegava à noite a solidão batia. Eu não tinha
como, eu tinha até preguiça e desgosto de fazer uma comida
só para mim, aí eu comecei a comprar negócio de quentinha,
marmita, aí eu enjoei. Casei, duas vezes viu! Meus maridos
sempre foram ótimos todos dois maridos, maravilhosos, já
achei até namorado. Eu quando casei com o segundo marido
eu aos 40 anos, ele aos 62 anos, homem bom, respeitador,
responsável, mas ele já era doentinho, já tinha problemas.
Então, com essa continuação, ele, como eu lhe disse, ele
perdeu a campanha política depois de ter tido três gestões
como vereador. Ele era muito bem relacionado, você sabe
como são esses políticos, ainda mais de interior, casarão
grande, muitos almoços, muitos jantares. Mas quando ele
adoeceu, eu não contei com ninguém, os amigos se afastaram.
A única pessoa que me deu a mão e agüentou até o fim da
vida dele foi um sobrinho. Ele era estéril não tinha filho, tinha
um filho adotado que não ligava para ele. E o que mais
apressou a minha vinda para cá foi ele, porque eu tive muitas
casas em Simões Filho, apartamentos e tudo e ele disse: deixa ela fazer bem a casa, para quando pai morrer, eu ir
buscar minha herança. Ele era adotado com a outra esposa
dele e eu achei aquilo uma ousadia. Ai eu disse não, não é
assim que a música toca não. A filha que eu tenho é do
primeiro casamento, ela mora no Cabula, ela vem me vê Ave
Maria! Qualquer coisa, ontem mesmo, eu liguei para ela, agora
136
só que eu não tenho necessidade de estar chateando ela,
qualquer coisa minha filha, venha cá, minha filha. Eu saio daqui
de manhã com minha sacolinha vou para casa de minha filha,
vou para lá durmo. Ela é evangélica, saio, eu vou para a igreja
com ela, ela faz parte da igreja Renascer, ali no Politeama.
Sábado mesmo eu estava com ela em uma caminhada. Eu
estou viva, eu tenho muito gás para queimar, eu tenho muito
gás. Eu penso em arranjar um homem. Aqui dentro é que não
tem, no pavilhão dos homens é que não tem. Não digo assim,
eu não quero casar, ele já me convidou para casar, eu disse
que não queria, mas eu não quero casar eu não quero dominar
ninguém. Eu quero ter pessoas para me relacionar, para
passear, para me sentir bem porque isso me ajuda a viver.
Familiograma 6
Diferente dos outros idosos entrevistados, a senhora Mandala não
vem de uma família com muitos irmãos. É filha única, os pais já falecidos
ela não soube informar maiores detalhes, disse preferir não falar sobre o
assunto. Detém-se a fatos mais atuais, relacionados à família que
constituiu com o primeiro marido e, depois, quando se casou novamente.
É alegre, comunicativa e demonstra saber resolver os conflitos
existentes no pavilhão coletivo, quando ocorre briga e desavença com as
outras idosas. Caracteriza-se como “animada” e a “maluquete da casa”.
Diz colaborar com a instituição, principalmente quando o assunto referese as festas e aos eventos comemorativos. Comentou ter sido miss vovó,
rainha, e que, no São João, foi a Maria Bonita.
Elogia a instituição e a sua iniciativa no cuidado com os idosos.
Comenta que poderia estar vivendo em uma pousada ou pensionato, mas
137
prefere ficar no coletivo, pois não gosta de solidão e afirma que é “povão”.
Essa expressão denota a questão da diferença de condição social, bem
demarcada pela instituição e pelos seus residentes, apesar de parecer
que há escolha do lado que se quer ficar. Diferente do que acontece fora
dos muros do asilo, onde a condição social não passa pela livre escolha,
mas por um conjunto de questões que vão desde oportunidade de
trabalho, até condição de etnia, gênero escolaridade, entre outros.
A senhora Mandala é considerada pela instituição, e por outros
residentes, como muito festeira e, até mesmo, “fofoqueira”. Sabe
informações da vida de todos. Chamou-nos atenção a maneira como ela
trata os funcionários, com muita intimidade e sem cerimônia. Quando
estávamos fazendo uma de suas entrevistas, ela interrompeu para falar
com um dos funcionários da limpeza e marcou com ele para sair e tomar
umas cervejas no final de semana. Usava um vocabulário vulgar.
No seu discurso é enfática ao referir-se sobre a necessidade de estar
namorando, ter um companheiro e isso, principalmente, relacionado ao
sexo. Vasconcelos et al (2004) referem que para compreender a
sexualidade entre as pessoas maiores de 50 anos de idade é preciso
considerar fatores como: saúde física, preconceito, auto- estima,
conhecimento sobre a sexualidade e status conjugal.
O Asilo X informou que lida com a sexualidade de maneira natural e
que isso faz parte da vida de qualquer pessoa, independente da faixa
etária. Porém, o preconceito na instituição existe explicitamente entre os
próprios idosos e, de maneira velada, pela equipe de dirigentes e
cuidadores dos idosos.
Alguns casais já se formaram na instituição, mas apenas aqueles que
residem nas pousadas podem viver juntos, no mesmo aposento. Os
residentes dos pavilhões coletivos até se casam, mas permanecem em
seus pavilhões. Desse modo, eles podem sair para viver sua sexualidade
fora dos muros da instituição. A assistente social do Asilo X relatou que
uma das funcionárias sugeriu que fossem constituídos quartos para que
os idosos pudessem se encontrar, namorar, mas isso geraria muitas
polêmicas, relacionadas à moral dentro da instituição. Referiu que,
freqüentemente, vê-se idosas, nos pavilhões coletivos, masturbar-se.
138
Esse fato nos dá a dimensão da falta de privacidade que essas idosas e
idosos têm por estarem vivendo coletivamente.
139
CAPÍTULO V
5 A EXPERIÊNCIA DA VIDA COLETIVA
Este capítulo apresenta os relatos das idosas e dos idosos
entrevistados. Esses discursos estão cheios de emoção, pois a todo
instante esses atores do estudo usam da memória para trazer fatos que
são bons de recordar e outros que nos davam a certeza de que, é lá no
passado, que muitas respostas podem ser dadas para o que se vive no
presente.
5.1 EU VIM POR OPÇÃO...
No bojo de mudanças substantivas na organização da sociedade e
nos estilos de vida, as pessoas idosas vêm adquirindo maior visibilidade
na esfera pública, pois trabalham, namoram, saem, viajam, entre outras
possibilidades. Nesse novo contexto social, a imagem do asilo como local
de velhos abandonados já não corresponde ao mundo moderno e, por
isso, o asilo pode ser uma opção de vida.
Apesar disso, pesquisas apontam, ainda, que o motivo do asilamento
em alguns casos é expresso pela decisão de terceiros como familiares,
amigos, entre outros (CAMARANO, 2007) (FALEIROS e JUSTO, 2007).
Esse dado é percebido na fala de dona Emília8 que morava sozinha até a
idade de 70 anos, é solteira, e não possui filhos:
8
Iniciamos a entrevista com a senhora Emilia, no entanto a mesma solicitou que gostaria de parar, pois tinha receio de
falar sobre a instituição. Explicamos que o nome dela não apareceria. A idosa disse que poderia usar as informações
que foram transmitidas, mas que não queria continuar na pesquisa. Notamos em alguns de nossos encontros que
ela estava triste e por vezes demonstrou culpa, mas não deixou claro sobre esse sentimento perguntou se o
arrependimento salva e disse ter Fe em Deus.
140
Minha família não aparecia muito e fui me sentindo sozinha,
triste, e uma amiga conversou comigo e achou que devia morar
no asilo. Ela procurou vários para mim e disse que o melhor
era esse. Não tenho filhos, tenho sobrinhos, mas eles não
vêem me ver com freqüência. Vejo algumas idosas saírem para
a casa de seus familiares, mas eu fico aqui, não tenho para
onde ir.
Esse discurso revela que a escolha não foi sua, mas era seu o
sentimento de solidão e ela acolheu a sugestão da amiga. Afinal qual
seria a outra opção? Entre viver só e viver sozinha, em comunidade,
preferiu a última.
Bauman (1999) comenta que a comunidade de qualquer natureza é
vista como uma mistura incomum de diferença e companhia. E completa
refletindo sobre a contingência que leva a pessoa a viver em uma corda
bamba, com necessidade de busca de equilíbrio de sorte e de uma rede
de amigos que possam lhe dar a mão. Então, para a senhora Emília, a
amiga foi a sua certeza e decisão.
Contudo, a busca de viver em um asilo atende a um conjunto de
necessidades, que vão desde aquelas relacionadas às questões mais
básicas como falta de condições financeiras para se manter, falta de
cuidadores, dentre os filhos e familiares até a esfera da filosofia de vida
de cada indivíduo. Algumas questões devem ser respondidas para melhor
entendermos a vida do idoso no asilo. Ou seja: Como a instituição pode
suprir suas necessidades? Qual a motivação que têm os idosos para
morar em uma instituição?
Dos idosos e das idosas que participaram da pesquisa a maioria
respondeu que foi opção sua a ida para o Asilo X. Essa crença na escolha
livre os protege da incerteza clara, que é comum na sociedade moderna,
pois uma consciência sobre a verdade, retira-lhe a possibilidade de ser
feliz. Para Bauman (1999), a contingência é uma benção para os
estúpidos e um pesadelo para os pensantes.
Optar por algo denota a liberdade de escolha, a autonomia de decidir
pela própria vida, porém, esse discurso encobre outras questões que
aparecem nas entrelinhas dos discursos. Fazendo uma comparação entre
os asilos São Luis e São Francisco no Rio de Janeiro nas primeiras
141
décadas do Século XX Groisman (1999) destaca a maior presença de
pessoas solteiras. No entanto, afirma a necessidade de analisar o curso
de vida de cada interno como: viuvez, separação, morte de filhos,
invalidez, entre outros, para obter maior entendimento do fenômeno da
busca por viver em instituições.
De acordo com essa análise, o trecho abaixo ilustra uma
determinação enfática de que o idoso deve ter um espaço seu distinto da
habitação dos filhos, sendo que não podemos afirmar, hoje, que é apenas
a falta da família que leva o idoso a procurar uma instituição de longa
permanência:
Eu entrei aqui em 2006 vai fazer dois anos que vim para cá.
Minha esposa faleceu em abril de 2000 e por iniciativa própria
eu nunca quis morar com ninguém. Nunca admiti morar com
filhos, nem filhas. Tenho três filhos e três netos. Meus filhos já
são adultos, formados, cada um vive suas vidas. Tenho duas
netas adultas e um neto ainda adolescente então por minha
livre espontânea vontade eu nunca quis morar com ninguém.
(Cervantes)
Os filhos são eleitos pelos laços de sangue, sendo pessoas em quem
se pode confiar, no entanto a expressão de Sr. Cervantes: “eu nunca quis
morar com ninguém”, neutraliza o laço sanguíneo e os filhos passam a
ser como quaisquer outras pessoas. Oferecem as mesmas dificuldades
das relações entre os seres humanos.
Entretanto, a vida social é formada de outras questões importantes e,
por vezes, é a condição de viúvo ou de viúva que precipita o momento da
decisão de residir em uma instituição de longa permanência.
O bom mesmo é vir porque se quer, como eu. [...] Eu vim por
opção, eu tenho uma cunhada que mora aqui a trinta e tantos
anos e sempre eu vinha vista-la com meu marido, morava em
Madre Deus e vivia bem, mas, aí o meu velhinho adoeceu e
ficou para baixo mesmo teve três derrames, três derrames
logo que perdeu a campanha política. Ficou desmotivado,
ficou decepcionado, eu também muito triste, aí, resumo,
terminou ele indo embora. (Senhora Mandala)
142
Outra condição social que não a de viuvez, que pode interferir nessa
decisão, é o caso de idoso divorciado. Entre eles, a separação não por
morte, também se configura como causas do asilamento. Assim, o
homem, talvez, em ambas as situações de separação, possa sentir-se
mais sozinho e precisar ter um local para suprir suas necessidades,
principalmente aquelas relacionadas às questões domésticas como
limpeza e manutenção da casa, alimentação, vestuário, entre outras.
Eu vim para aqui porque eu sou divorciado. A minha situação é
estável eu não tenho nenhum problema, poderia até morar em
outro lugar, poderia alugar uma casa. Mas verificando a
situação da vida, do futuro, eu preferi não morar sozinho.
(Possante)
Além disso, a doença também antecipa esta decisão, pois junto com
ela aparece a dependência física e as dificuldades de realizar as
atividades da vida diária.
Eu morava na Mouraria, aí eu comecei, a minha pressão só
andava alta, 19 x 8, eu, dia de sábado ia dançar, nunca liguei
para isso para mim é emocional, aí eu disse bom estou
chegando para a idade, aí eu vim para aqui falei com a
assistente social [...] (Valdemar)
A livre escolha, que aparece tão enfatizada pelos idosos, está então
amparada pela perda dos cônjuges, fato que foi determinante para o
senhor Cervantes e a senhora Mandala decidirem ir para a instituição; ou
ainda, por situações de separações conjugais e doença. No asilo, as
mulheres são maioria e a viuvez, além do fato de não ter filhos ou de têlos e preferirem não incomodá-los, pode ser considerado indicadores
dessa opção, nem tão livre assim.
No entanto, dizer que foi “opção própria” fica mais fácil para aceitar,
porque, em seu dia-a-dia, o idoso está em uma situação de perdas
contínuas. A diminuição do suporte sócio-familiar, a perda do status
ocupacional e econômico, o declínio físico continuado, a maior freqüência
de doenças físicas, incapacidade, a solidão e o isolamento social
143
compõem as perdas. Além disso, os conflitos intergeracionais e
intrafamiliares, também, favorecem a tomada de decisão pela vida no
asilo.
Sobre os conflitos familiares nos contou à senhora Antonia:
Vendi minha casa, porque eu quis vim para aqui, eu mesma
que quis vim, porque eu morava com uma neta. A neta mais
velha ela era boazinha, ainda é, agora eu não sei por que ela
não está aparecendo, ela é casada tem um filho que Deus
levou num desastre, tenho muita saudade dele o menino era
tão apegado a mim! Ele dizia:- porque você vai Antonia? Oh
meu filho! Eu vou embora. Mas a avó dele é sergipana, é muito
grossa, eu fiquei com medo dela me maltratar.
O relato de dona Antonia configura que, por trás de sua escolha,
existe o conflito com sua nora que ela chama de “grossa” e de “sergipana”
e, declarou mesmo ter medo de vir a ser maltratada por ela.
A violência intergeracional, expressão destacada nas histórias dos
idosos, dela decorre o abandono e/ou negligência, mas relativos aos
cuidados essenciais. O conflito intergeracional está inscrito na violência
das relações interpessoais, porém, mais bem delimitado pelo enfoque na
categoria geração. O termo intergeracional corresponde a fatos e
situações que acontecem entre gerações e, neste estudo, são os pais e
filhos, que colocamos em evidência.
A categoria geração foi abordada neste estudo desde o início como
sendo um dos nossos objetivos, e para trabalhar com ela é preciso ir até
as dimensões sociais e culturais da vida, compreendendo o indivíduo com
seus valores, crenças, modos de pensar e agir, o que se reflete no
convívio entre as gerações na sociedade.
Segundo Foracchi (1972), a geração constitui, uma modalidade
particular de localização social, e os membros de uma geração
compartilham um acervo comum de experiências, situações de vida e
oportunidades de trabalho. Usufruem juntos e contemporaneamente, os
benefícios e a opressão, as vantagens, à vilania, à tensão e à alegria do
destino, prefigurado pelo seu modo de inserção na estrutura social.
144
Os idosos e idosas que vivem em uma instituição asilar trazem em
suas histórias essas dimensões, e as relações com seus filhos e netos.
Dessa
maneira,
observamos
que
a
violência
intergeracional
foi
mencionada na fala de alguns dos sujeitos da pesquisa, não aparecendo
tão explicitamente, mas deixando-a escapar nas entrelinhas dos seus
discursos.
Assim, a senhora Silvano relatou as circunstâncias que a levaram a se
decidir pelo Asilo X, do seguinte modo:
Eu sou uma pessoa muito independente, agora mais ainda,
apesar das dificuldades, e indo morar com eles (a filha, o genro
e os netos) estava ótimo, aí começou o problema. Eles
gostavam de seresta e eu ia com eles tudo bem mais o dia que
eu não ia, quando davam 11 horas eles voltavam, para me
agradar, eu perguntava vocês já voltaram? Já mainha, a
senhora não quis ir e estava sozinha. Para me agradar eles
voltavam, em vez de me agradar eles me aborreciam, pois eu
estava interferindo na vida deles, sem querer.
Essa situação ocorria fora da instituição asilar, antes da idosa ir viver
no Asilo X, mas, foi ela que deu impulso à sua decisão em optar pela vida
na instituição. É uma situação de conotação subjetiva que não explicita
uma forma de violência ao primeiro olhar, mesmo porque não podemos a
tudo classificar como tal, mas podemos perceber o mal-estar nessa
relação. Os filhos acham que protegem os pais quando não os deixam só,
os pais acham que interferem na vida dos filhos e assim não há
entendimento entre eles. Para os mais jovens, sair, ir a festas faz parte de
sua vida social e não entendem porque os mais velhos preferem ficar em
casa ou ir a um local mais tranqüilo. Um tenta agradar o outro, mas
acabam por se agredir e não há satisfação na relação.
Em contraponto com a família e seus conflitos, o asilo pode ser uma
alternativa para se viver em segurança. Um local tranqüilo, acolhedor,
com uma estrutura física que dá a impressão de ser o lugar ideal. No
Asilo X, sua paisagem com os recursos da natureza bucólica, como o
recanto dos pássaros, a pequena ponte, muitas árvores e praças com
145
quiosque, além da igreja, que centraliza e emite a energia de proteção,
convida as pessoas para ficar por lá.
Desse modo, a possível sensação de segurança pode ser devida a se
estar livre dos maus-tratos de familiares ou relacionada à organização e
serviços que o asilo pode proporcionar. Segundo Maslow (1970) a
necessidade de segurança só aparece quando o indivíduo vê-se
ameaçado. Sobre isso, a senhora Antonia comentou o medo de maustratos, como fator importante para sua decisão. Com a sua família ela se
sentia potencialmente ameaçada.
Dentre as necessidades humanas básicas a de segurança configurase como a segunda, estando ainda situada na base da pirâmide de
Maslow (1970). A segurança está próxima do sentimento de proteção
individual contra perigos e ameaças.
A citação a seguir expressa o que o Asilo X representa para alguns
dos seus moradores:
Na semana passada aconteceu um fato engraçado eu fui com
minha filha assistir as bodas de ouro de um casal amigo nosso,
meu e de minha mulher e aí houve uma missa na Boa Viagem.
Após a missa teve uma recepção e eu fui, só que quando eu
retornei aqui era mais de meia noite, mas, eu comuniquei
também ao serviço social e aí menina, pelo fato de eu estar
aqui e todos nós nos sentimos aqui em segurança, isso aí é
uma verdade. Menina, quando minha filha me deixou aqui eu
sai do carro, botou o pé no chão do abrigo, mas senti tanta
felicidade de ter aquela segurança, aquela tranqüilidade. Ai eu
entrei, tudo em silêncio eu disse:- “Meu Deus, como é que
pode um negócio desses!” porque aqui para quem gosta e para
quem vem espontaneamente não tem lugar melhor para se
morar. (Cervantes)
Maslow (1970) ressalta que a necessidade de segurança permite ao
indivíduo dar valor às coisas que lhes são familiares, inclusive às rotinas,
o dia-a-dia, ou crer em alguma coisa, uma religião ou filosofia de vida. A
tranquilidade referida na fala do Sr. Cervantes permite que possamos
compreender que o asilo cumpre, dentro dos seus limites, o papel social
de ser acolhedor e garantir a ordem das coisas triviais em suas
dependências. “Aqui é um lugar bastante acolhedor, aonde o idoso, ele se
146
sente protegido, mas protegido mesmo, de tudo que a gente precisa”.
(Cervantes)
Por outro lado, nem tudo por lá é perfeito e a insegurança permeia a
vida tranqüila, sendo mencionados pelos residentes casos de furto: “Aqui
eu acho que já mexeram nas minhas coisas, hoje acho que não mexem
mais, quem mexeu já foi embora. Uma vez uma apanhou um dinheiro
meu, dentro de uma bolsa, e ainda rasgou a bolsa”. (Antonia)
O senhor Cervantes conta que:
Há um mês, a idosa que eu ajudo aqui sofreu um trauma muito
grande aqui dentro, porque levaram o dinheiro dela. Ela deu
bobeira e levou o dinheiro dela, ela ficou desesperada. Dentro
do próprio pavilhão eu chamei a assistente social, ela foi lá,
mas não. O asilo tem isso, não se responsabilizar por roubo,
mas apurou e tal, mas não chegou à conclusão nenhuma.
Então, com isso, ela ficou muito traumatizada, ficou muito triste.
No asilo todos podem ser autores do roubo, são muitas pessoas que
passam, durante os dias, por ela, muitos funcionários, visitantes,
familiares de idosos, além dos muitos idosos que nele habitam, sendo
difícil encontrar-se o autor do furto.
Dessa maneira, o asilo, também como do lado de fora, oferece certos
“perigos” a quem nele vive e vemos como a violência está presente no
dia-a-dia da instituição, mas não poderia ser diferente a não ser no
imaginário, quando se tem sempre a impressão de que os idosos são
pobrezinhos, coitadinhos, que sofrem e nunca são autores de nenhum ato
violento.
Mas, não é bem assim, foi observado que em uma situação de
admissão na instituição, a recepcionista ao atender uma senhora, que
estava para entrar como residente, dava às acompanhantes uma lista de
documentos necessários, dentre eles estava além da identidade e CPF
comum a qualquer contrato, a obrigatoriedade de trazer atestado de bons
antecedentes. A recepcionista disse sentir-se até constrangida ao pedir
essa documentação, mas isso foi depois que um idoso praticou roubo na
instituição. Então, viu-se a necessidade de se pedir tal documento. A
147
acompanhante da idosa em questão referiu ser importante esse
documento, pois, idosos também são criminosos e lembrou o caso da
idosa que vendia droga e foi noticiado pela mídia.
A percepção da impessoalidade existente no asilo condiz com o relato
da senhora Antonia e de senhor Valdemar, ao referirem que o asilo não é
sua casa, e definem casa como:
A casa é lugar de sossego. Aqui tem horas que tem sossego
tem horas que não tem. (Antonia).
Isso aqui não é minha casa isso aqui é aluguel. Quando você
nasceu com seus pais aí sim você está morando em sua casa.
(Valdemar)
Entretanto, essa maneira de compreender o espaço do asilo não é
comum a todos os idosos:
Aqui é minha casa. Hoje, apesar de ter dois apartamentos de
minha propriedade, mas hoje a minha casa é aqui, entendeu e
eu se Deus quiser, pretendo sair daqui só para o cemitério
tanto que eu esqueci a vida lá fora. (Sr. Cervantes)
A casa é o lar de cada um e eu considero aqui minha casa
hoje, faz dez anos que estou aqui e meus filhos quando ligam
me perguntam meu pai onde o senhor esta? Eu digo: estou em
casa. (Senhor Possante)
Para alguns idosos, a chegada a determinadas idades como 70 ou 80
anos, leva os familiares a tomar decisão de não mais permitir que morem
sozinhos, pois temem acidentes ou ataques cardíacos, levando-os à
morte súbita.
Quando eu fiz 70 anos, meu genro e minha filha vieram me
buscar. – “Não, a senhora não vai mais morar sozinha não, vai
ter uma suíte para mim, lá na casa deles” Uma suíte dentro de
casa e eu foi morar com eles. (Sra. Silvano)
Na fala da Sra Silvano observa-se que dar uma suíte ou um quarto
dentro de casa é um grande avanço para o idoso que, em alguns casos,
148
tem um quarto nos fundos ou, até mesmo, fora de casa, o que se
configura isolamento dentro da estrutura familiar.
A senhora Mandala referiu que sua família não aceitou tão logo ela
declarou que iria para o Asilo X: “minha filha chorou muito, logo no
começo, mas eu disse: _ não quero morar com ninguém, quero vir morar
aqui e ela aceitou, meus dois netos e meu genro”.
O senhor Cervantes descreveu a reação dos filhos ao saberem de sua
decisão de residir no asilo: “Então, eu cheguei a casa, liguei para meus
filhos, e disse: - Olha eu tomei uma decisão. Eu decidi ir morar em um
asilo. – O senhor está maluco?”
Senhor Possante também comentou sobre a posição dos seus filhos:
“no início os filhos não aceitaram muito, mas eu expus o meu desejo
como viver e eles aceitaram muito bem”.
De modo semelhante, a Sra Silvano relatou que sua filha não queria
que ela fosse para a instituição e que ela disfarçou para conseguir seu
objetivo:
Minha filha dizia:- “ah minha mãe não vá!” minha filha chorava,
meu genro falava tudo isso. Aí eu desfazia as malas umas três
ou quatro vezes, mas até que eu disse: - “eu vou passar uns
dias, não vou morar”. Eu disse, mas eu vim morar, mas para
acabar com aquela ansiedade eu disse que vinha passar uns
dias.
Em seu relato à senhora Silvano deixou claro que a escolha pelo asilo
foi motivada pelos transtornos que ela estava ocasionando ao casal, pois
eles deixavam de se divertir para chegar cedo a casa, porque ela estava
sozinha. Sua escolha pelo Asilo X não estava livre dos conflitos
intergeracionais:
A minha interferência estava demais. Cheguei a casa e eu
decidi e disse: - olha eu vou procurar um abrigo. Disse: - olha,
vou para uma instituição lá a gente tem tudo, vou poder tomar
informações sobre o que é uma vida coletiva como aqui. (Sra.
Silvano)
149
Sra. Silvano confirma que veio por problema de relacionamento em
família, mas referiu que sua situação era diferente de outras idosas que
vivem no asilo que, segundo ela mesma, têm “desavenças com seus
familiares”.
No
entanto,
admitir
que
há
um
problema
relacionado
a
desentendimentos familiares é difícil para o idoso, então, ele ou ela
procura mascarar, justificando que a opção foi sua:
A minha entrada aqui foi opção minha eu quis, mas que eu não
tenho nada com a vida dos outros. Têm muitas aqui que vem
por problema de família. Eu vim por causa de problema de
família, mas diferente porque eu que estava me sentindo mal.
Diga se não é desagradável você estar morando com alguém
sabendo que marido e mulher estão em uma praia e tem que
vir mais cedo por minha causa?(Sra. Silvano)
Em situações mais extremas a violência intergeracional aparece
freqüentemente, nos conflitos entre pais e filhos, principalmente no seio
familiar. Atias Dounfit (2004) refere o conflito entre mães e filhas no
âmbito da família e atribui isso às transformações recentes dos estatutos
e papéis das mulheres, que termina por provocar a ruptura do processo
de identificação entre elas, e por engendrar disputas de poder.
Em um ambiente da instituição asilar os idosos não estão distantes de
viver conflitos intergeracionais, e a violência ainda ronda suas vidas, e
mais uma vez não aparece sozinha vem, acompanhada de outras formas.
Na fala do senhor Cervantes percebemos: “tem casos aqui também que
os próprios familiares, filhos, netos exploram os idosos, eu sei de casos
aqui”.
O idoso relata um caso sofrido por uma moradora do pavilhão
feminino, em que a filha fez a mãe pedir um empréstimo no banco. Para
os filhos, os pais têm obrigação para com eles, mesmo quando já estão
adultos. Estes, por sua vez, não valorizam o que os pais levaram anos
para construir. A idosa referida por Sr Cervantes indagou: - “o senhor
acha que filho vai pagar à mãe?”
150
Nesse caso a idosa já estava fora do ambiente familiar, vivendo no
asilo, mas não estava protegida da exploração dos filhos. Isto é uma
questão que suscita interrogação. A quem compete proteger o idoso,
quando ele já está fora do “domínio privado da família”? Na teoria é o
Estado o responsável, mas, nesse caso, ninguém interveio e impediu a
exploração financeira que a idosa sofreu.
Segundo Carvalho; Almeida (2003, p. 02):
A família é apontada como elemento chave não apenas para a
sobrevivência dos indivíduos, mas também para a proteção e a
socialização de seus componentes, transmissão do capital
cultural, do capital econômico e da propriedade do grupo, bem
como das relações de gênero e de solidariedade entre
gerações. Representando a forma tradicional de viver e uma
instância mediadora entre indivíduos e sociedade, a família
operaria como espaço de produção e transmissão de pautas e
práticas culturais e como organização responsável pela
existência cotidiana de seus integrantes, produzindo, reunindo
e distribuindo recursos para satisfação de suas necessidades
básicas.
No entanto, a sensação de ser um peso, ou um fardo é um grande
empecilho no convívio do idoso/ da idosa com sua família. Esse, também,
é um sentimento, que já se fez característica da velhice, uma fase em que
a pessoa tem limitações para realizar as atividades do dia-a-dia e
somente “dá trabalho” para seus familiares. Sentimento compartilhado
social e culturalmente, fazendo dessa fase, a única do ciclo vital em que
não se deseja chegar tão cedo.
Sobre o trabalho que o idoso pode dar a sua família o senhor
Possante referiu: “Em casa, com a família, o pessoal não tem tempo, vai
trabalhar, o apartamento é confortável, tem o televisor, que fica ligado o
dia todo e, às vezes, o familiar não tem tempo para o velho, e quem vai
fazer é uma empregada”.
Como uma forma de se defender dos constrangimentos de está velho
e dependente o asilo é uma opção que vem ganhando espaço na
sociedade. No entanto, é preciso entender que, como uma instituição ele
151
tem suas normas e rotinas, que precisam ser experenciadas para saber
se é possível identificar-se com essa maneira para viver a velhice.
5.2 AQUI DENTRO TEM UMA LEI
As instituições asilares possuem normas e rotinas, que acabam por
retirar a individualidade dos idosos. A adaptação a elas pode levá-los à
não se sentir bem, convivendo ali. Os horários são predeterminados para
as refeições, atividades de lazer, entre outras. Estabelecidos, de modo
rígido, demonstram a insatisfação, e pode ser comparadas à disciplina
das instituições militares, conforme referiu o Sr. Valdemar:
Eu servi o Exército, quase que eu ia para a Itália. Em 1945
aprendi muito com a disciplina do Exército. Aqui tem uma lei
que quando dão 21 horas tem que desligar a televisão, mas os
caras aqui teimam, tem velhos que dizem que querem assistir
ao jogo. Assistir o jogo o quê? O jogo passa amanhã. Eu acho
que ser chamado atenção por isso, isso é ridículo. Eu concordo
com a disciplina daqui por que senão vira bagunça.
A disciplina é uma técnica de exercício de poder, que foi não
inteiramente inventada, mas elaborada em seus princípios fundamentais,
durante o século XVIII. Historicamente, as disciplinas existiam há muito
tempo, na Idade Média e mesmo na Antiguidade. Os mosteiros são
exemplo de região, de domínio, no interior dos quais reinava o sistema
disciplinar (FOUCAULT, p. 105, 1998)
No asilo, a disciplina aparece sob a forma de manipulação e controle
dos idosos, e se diferencia de acordo com a condição social e distribuição
espacial de cada um. A vida, sob controle externo e supervisão da equipe
técnica e dirigente, inicia-se a partir da seleção do que se deve levar para
o asilo. Fazer um resumo da sua história de vida, para caber em uma
suíte de pousada, um quarto de pensionato ou uma quadra do pavilhão
coletivo é um requisito velado para se viver na instituição.
152
Essa seleção começa na vida do idoso, quando os filhos percebem
que os pais não podem ou não é conveniente morarem sozinhos. Nesse
momento, há de se reduzir o que se levou anos para que fosse
conquistado, ao espaço físico de um pequeno cômodo. São alguns
poucos objetos que poderão ficar junto ao idoso/ idosa, o que causa
frustração, porque eles sempre querem levar mais. São fotos, que
guardam da juventude e fazem parte da recordação de um tempo, que já
não volta mais ou outros pertences pelos quais têm apreço.
A geração atual faz parte de uma época, onde tudo, ou quase tudo,
pode ser descartável, pois a velocidade da evolução dos acontecimentos
deixa algumas coisas obsoletas, rapidamente. É o que Bauman (2001)
traduz como próprio de uma sociedade líquido-moderna, onde as
realizações individuais não podem solidificar-se em posses permanentes,
pois em um piscar de olhos, os ativos se transformam em passivos e os
capazes em incapazes.
Assim, também acontece com as pessoas que envelhecem.
Anteriormente, com suas vidas tranqüilas, em sua casa, com sua família
se percebem tendo que viver em outro lugar e, mais que isso, deixar para
traz parte de sua vida, seus objetos pessoais, sua história. No asilo, o
idoso precisa reduzir seus pertences e se adaptar à nova vida. Nesse
sentido, dona Antonia disse:
Eu tenho roupa do tempo da minha casa. Dei muita roupa as
minhas netas. Cada vestido lindo e as roupas de cama, cada
coisa linda, não era porque era minha não. A irmã disse: - dê
suas roupas a suas netas, porque aqui não tem lugar de você
botar e aqui dar roupa de cama. Eu dei aquelas colchas do
tempo passado.
Os pertences dos idosos devem caber no armário de alvenaria que é
parte da decoração das quadras do pavilhão coletivo oferecido pelo Asilo
X. Para acomodar o que tem, alguns idosos compram cômodas ou
colocam as roupas em malas e sacolas. Contudo, o espaço físico é
pequeno e a desordem das roupas sobre as camas, o amontoado de
153
objetos é comum principalmente nos pavilhões coletivos. “Nessa cômoda
eu guardo minhas roupas”. (Antonia)
Nas pousadas, os idosos podem levar mais objetos e até modificar a
rotina da instituição:
Aqui os móveis: camiseiro, dois criados-mudo e o guarda-roupa
são do asilo. A cama deveria ser, mas só quando eu cheguei
aqui estava previsto para este quarto duas camas de solteiro
porque aqui é o seguinte: aqui eles abrigam um casal, e pode
abrigar uma pessoa aí eles colocam duas camas. Como eu já
estava acostumado há 48 anos dormir em cama de casal, aí eu
entrei em um acordo com o asilo aí eu disse que ia comprar
minha cama e vocês retiram a de vocês. A única coisa que o
diretor fez foi ligar para a loja que vende para eles e vendeu
pelo preço que vende para eles. Agora o resto, a geladeira, o
armário, a mesa, as banquetas, a televisão e essa poltrona e o
raque tudo é meu.
As normas e rotinas vão se estabelecendo e, mesmo nas pousadas,
ela chega; apesar de apresentar algumas diferenças e possibilidades de
quebras e privilégios. Sobre isso, Goffman (1999) comenta que: os
privilégios na instituição total não são iguais às prerrogativas, favores ou
valores, à ausência de privações, que comumente, a pessoa não espera
sofrer. Associamos isso às seguintes falas:
Quando eu entrei aqui foi uma coisa que eu estranhei muito,
mas muito mesmo o fato de eu ter que entregar minha
medicação para a cuidadora, isso me incomodou tanto, mas
tanto que eu um dia... Porque, primeiro, por mais cuidado que a
funcionária tenha. Ela sempre erra. Nós aqui somos 15, agora
um pavilhão que tem 50, 60 pessoas você já imaginou que
confusão é? Agora com um detalhe a medicação que nós
usamos aqui nós compramos e a de quem mora no coletivo o
asilo dá, é de graça. (Cervantes)
Em relação aos remédios meu marido adora remédio, depois
do desastre a minha pressão arterial tem dificuldade, mas tem
dias que está normal, meu marido me dá remédio, eu digo não
me dê remédio que eu não quero, ele diz que é para controlar.
O médico não prescreveu, mas meu marido entende. Mas, se
está dando 12x8 não precisa tomar. (Sra Silvano)
154
Através dessa falas observa-se que a rotina da instituição depende do
lugar em que o idoso está se é pavilhão, pousada ou pensionato. Os
idosos
moradores
das
pousadas
parecem
ter
mais
acesso
às
reivindicações, a manter-se no domínio de seu próprio cuidado, sabem
alegar, têm melhores argumentos e são ouvidos mais facilmente. Apesar
das rotinas chegarem para todos, estes, não as mantêm por muito tempo,
quebrando a característica do asilo, que também precisa se adequar às
mudanças ocorridas ao longo dos anos, quando os idosos eram
abandonados e carentes, e o cuidado era uma caridade. Hoje, alguns
podem pagar pelo asilo e garantem seus direitos.
Uma das assistentes sociais da instituição comentou que as normas
do asilo variam muito “do idoso que vive no pavilhão, para o idoso da
pousada” e nos contou sobre um episódio, no qual um idoso, que residia
em uma das pousadas, precisava tomar uma medicação injetável e que a
enfermeira sempre ia ao seu quarto para aplicá-la durante toda a semana.
Porém, no final de semana, quando a enfermeira não estava na instituição
e os técnicos de enfermagem não podiam ausentarem-se do pavilhão da
espera, o idoso recusou-se a ir até esse pavilhão, alegando que a
medicação sempre foi aplicada no seu quarto. Porque ele teria que ir até
o pavilhão se não consegue se locomover? Foi sugerido, então, o uso da
cadeira de rodas e, mesmo assim, o idoso recusou-se. Após o final de
semana, a enfermeira sabendo do ocorrido, veio falar com a assistente
social que disse que a norma é que os idosos devem ir até o pavilhão da
espera quando necessitam de medicações injetáveis, não devendo abrir
exceções. No entanto, o idoso desse caso falou com a médica da
instituição, que deu ordem à enfermeira para sempre aplicar a medicação
no seu quarto.
Observa-se que a equipe de profissionais do asilo não “falam a
mesma língua” e que o poder é usado em benefício de alguns em
detrimento de outros. A idéia de que a enfermagem, no Asilo X, é apenas
uma assistente do médico está clara, na medida em que a médica dá
ordens para a enfermeira e, mais uma vez, a questão da condição de
classe social, destaca-se nas escolhas e nos direitos exercidos dentro do
asilo.
155
A diferença de condição social modifica as rotinas da instituição. O
fato dos moradores dos pavilhões “ganharem” as medicações os deixa
mais subordinados ao controle dos cuidadores e, com isso, emerge a
possibilidade de sofrer a negligência, ou seja, de tomar a medicação
errada ou trocada. Como a medicação é de graça, e tudo que é dado
gratuitamente não pode ser contestado, aumenta, logicamente, a
submissão do “beneficiado”.
Vê-se, ainda, em vigência o discurso do “velho asilo” que guarda os
resquícios autoritários da caridade, mantendo pessoas carentes, pobres e
doentes, que precisam de cuidados prescritos e normatizados. Mais uma
vez, a disciplina sobre o coletivo surge, exercendo o seu controle e
hierarquizando os indivíduos.
O asilo segmenta os idosos nos espaços físicos, na condição social,
na questão de gênero e ainda nos estereótipos de velhos e velhas
doentes e dependentes. Estes últimos são amontoados no fundo como se
esse lugar fosse o pior da instituição:
“[...] no fundo ninguém quer ficar, porque tem as mais
caidinhas, porque tem uma que chora de noite, outra grita por
causa de dor, na frente às idosas são mais independentes”
(Sra. Mandala).
Essa divisão vai marcando quem são os idosos que vivem na
instituição e além da independência econômica e de locomoção, a
liberdade de movimentos para o mundo externo, também é prescrita. As
regras começam na admissão quando a família dá o aval para a saída
dos idosos. Senhor Cervantes comentou:
Na entrevista com a assistente social ela perguntou a minha
filha: - como é seu pai tem liberdade para sair? Minha filha
disse:- meu pai tem total liberdade para sair, ele sai todo dia.
Ele sai, ele é quem gerencia a vida dele a gente não interfere
em nada, pelo contrário, a gente ainda o procura. É ele que
nos orienta. Ele faz tudo isso. Então eu saio, tenho total
liberdade. Mas tem outras pessoas que não podem por
determinação da família e tem outras pessoas que não podem
156
por problema físico, que aqui você vai andar por aqui você vai
ver, aqui tem pessoas muito debilitadas, você vai encontrar
pessoas como eu, mas vai encontrar também muita gente
debilitada, muita gente esclerosada.
Ser dependente, ter alguma doença física limita o direito de ir e vir do
idoso, dentro do asilo. Isso, não pode ser considerado apenas como uma
atitude errada da instituição, parece mais uma forma de cuidar dos idosos
que ali residem. Porém, para os idosos as proibições soam como um ato
de controle, partilhado com a família:
Aqui eles controlam tudo, o asilo e a família. Quando o cara é
abestalhado eles chamam a família e não sai mesmo. Aí fica
preso. Aqui quem tem problema de saúde não sai. (Valdemar)
No Asilo X a liberdade, mesmo controlada, é liberada para alguns e
isso diferencia esta instituição de outras:
Fui a uns dois asilos não gostei, quando eu cheguei aqui logo
do portão eu gostei tá entendendo? Dos jardins, das coisas
amplas não tinha nada de buraquinho para a gente olhar, nada
disso. Ninguém é prisioneiro todos têm liberdade de sair, só
aqueles que não têm condição não vão para rua. Eu vou para
rua, aqui se pode sair à hora que quer, volta à hora que quer,
de noite, de dia. Eu tenho marido, não é! Eu vou com ele. (Sra.
Silvano)
Em sua fala, dona Silvano comenta que ao procurar uma instituição
para morar, o espaço, e a liberdade de circulação foram pontos que ela
observou. No Asilo X, a estrutura física bonita e agradável fez a diferença
no momento da sua escolha, além disso, foi notório o fato da idosa
mencionar que ela ainda pode sair e que tem algo que favorece a
liberdade, que é ser casada, o que não acontece com a maioria das
mulheres idosas. Portanto, ela tem a companhia de um homem, e isso lhe
confere mais liberdade. Esse fato revela um aspecto ainda valorizado na
sociedade, a mulher estar vivendo ao lado de um homem. Pela idade de
dona Silvano, notamos que o casamento faz parte dos anseios e dos
157
valores da sua geração. Uma mulher casada é mais respeitada que a
maioria das mulheres sem companheiro.
Para o senhor Possante a liberdade também é um aspecto positivo
para viver no Asilo X:
Aqui o melhor é isso, está onde quer, aqui temos liberdade. Se
a coisa não está muito agradável podemos dar uma volta ir ao
quiosque. Pega um livro vai ler, uma revista quando a coisa
não está muito boa temos espaço para sairmos de certas
coisas não reclamar, televisão que está alta, programas não
muito agradáveis, temos espaço para isso. Isso aqui é um lugar
maravilhoso. Quando tem uns 10% aqui que não se agrada do
lugar tem 90% que se agrada, pois todo lugar (pausa). Porque
não tem lugar nenhum 100%. (Possante)
Independente da liberdade grifada por alguns dos moradores do Asilo
X sua rotina tem peso particular para cada indivíduo, mas as normas
interferem, alterando todas as dimensões da vida: o preparo da
alimentação, o horário de alimentação, de visita, do lazer, entre outras. A
senhora Emília nos contou que:
Aqui para tudo se tem horário. Quando eu morava em minha
casa eu fazia minha comida, ia ao mercado, comia quando
queria, recebia minha amiga na hora que eu queria. Incomodome quando querem que eu vá para a reza, pois não posso
ajoelhar e tem reza todos os dias, sempre no mesmo horário.
(Emília)
Assim, o idoso perde parte de sua vontade própria em prol de uma
vontade coletiva e, se isso não ocorre, fica à margem dos outros internos.
Mesmo em momentos que deveria existir prazer, falo de participar das
rotinas institucionais, nem todos se sentem à vontade. Silva (2004)
recomenda associar flexibilidade à liberdade, para que as imposições da
vida asilar sejam amenizadas.
158
5.3 AQUI TÊM MUITAS FESTAS
As festas, um dos referenciais do Asilo X, são bem comentadas por
alguns e não aceitas por outros. O asilo preocupa-se em organizar festas
e eventos para os idosos residentes, a fim de garantir uma das questões,
discutidas quando do envelhecimento, que é romper a tendência do
isolamento social. Assim, o lazer, e suas múltiplas atividades, podem
proporcionar sociabilidade entre os idosos.
No jornal do Asilo X uma das seções traz sempre os eventos que
marcaram o período, com algumas fotos que registram as festas, os
cantores que participaram, entre outros. Uma das festas que é muito
esperada pelos idosos é a lavagem das escadarias da Capela que,
conforme relata o jornal de abril de 2007:
Já virou tradição! Uma festa das mais lindas e mais esperadas
por nossos residentes, a lavagem das escadarias da capela do
Asilo X, mais uma vez encantou a todos os presentes. Baianas,
carroça enfeitada, os “filhos do Grande ”e a banda tropicália
fizeram uma linda festa. Em meio a muita dança e muito som a
pomba da paz, solta pelo presidente, garantiu a harmonia entre
os presentes.
Sobre as festas realizadas no asilo a senhora Silvano comenta:
Aqui tem dança, biodança, dança de salão, dança da moda.
Aqui tem muita festa, tem carnaval, tem São João que é muito
animado, carnaval são 3, 4, 5 dias de folia no salão aí tem trio
elétrico aí na frente. O pessoal do evento, nós não pagamos
nada. Vou lhe explicar como é: tem uma senhora aqui que o
maior desejo dela era casar vestida de noiva. Não teve
palhaçada, pois uma vez fizeram em outro asilo aí disse que
colocaram uma coroa de flores tudo assim meio (pausa). Ela
não como se fosse uma noiva mesmo, era o desejo dela entrar
na igreja, foi uma representação, todo mundo sabia que não
era real, não transparecia uma safadeza, fazendo dela de
palhaça não, tudo decente, dama de honra.
A sociabilidade é uma das questões trazidas por Britto da Motta
(2001) quando comenta que: um fenômeno próprio da sociedade atual é o
encontro de pessoas idosas em grupos organizados, de variadas
159
propostas,
desenvolvendo
uma
sociabilidade
marcadamente
intrageracional. Simmel (2006) acrescenta que toda sociabilidade é um
símbolo de vida, quando acontece no fluxo de um jogo prazeroso e fácil.
Dessa maneira, observar as festas, que são acontecimentos onde
todos se encontram sejam eles (os idosos) dos pavilhões, dos
pensionatos ou das pousadas é importante, porque, nesse instante, todos
festejam uma data ou evento que lá fora dos muros da instituição outras
pessoas também comemoram.
Aqui tem muitas festas quando a festa é aqui eu participo, mas
quando é para ficar tarde da noite, depende da festa também
as festas que não seja, mas o que eu não gosto eu não vou. As
festas boas para mim é o Natal, aqui é bom, São João às
vezes eu danço forró. Aqui tem biodança eu participo, tem um
curso de dança, têm muitas atividades, palestras, reuniões, eu
participo de um grupo religioso. (Possante)
A sociabilidade entre os mais velhos geralmente acontece depois de
já não pertencerem ao grupo dos trabalhadores de uma empresa, uma
repartição ou de outras formas de local de trabalho, através de encontros
extra familiares, onde os homens reúnem-se em praças para jogar
dominó ou outros tipos de jogos e as mulheres em igrejas para dar apoio
aos trabalhos religiosos.
É importante comentar que esse jogo de sociabilidade no Asilo X, nem
sempre é prazeroso e os olhares sobre os idosos que não vão para as
atividades, promovidas pela instituição, chega a ser em alguns momentos
agressivos. Em nossas visitas percebemos que os cuidadores e
cuidadoras comentam que alguns idosos e idosas não gostam de sair dos
seus quartos ou leitos. Esses comentários são julgadores, discriminam e
controlam os idosos. Uma das cuidadoras relatou-nos sobre uma idosa
moradora do pensionato que é acamada, devido a um episódio de
Acidente Vascular Encefálico (AVC). Aos 96 anos, a idosa é viúva e foi
trazida para o asilo pelo irmão. Demonstra uma espécie de desânimo pela
vida e fala sobre a proximidade da morte de maneira enfática. A
160
cuidadora comentou que a idosa não quer, de forma alguma, sair da
cama. Comentou, ainda que ela é lúcida, orientada e que não vai morrer
tão cedo. Sua fala nos soou com ironia e desdém em relação à situação
vivida pela idosa.
Hoje, é comum encontrarmos grupos de terceira idade, nas
universidades para a terceira idade e reuniões em centros de convivência,
aonde os idosos vão em busca de pessoas da sua geração, que
comunguem coisas parecidas, a fim de se sentirem acolhidos e
pertencerem a um grupo.
A busca pelo envelhecimento ativo é almejada por alguns, que
chegam a essa fase da vida. Buscar alternativas para preencher o vazio
da inatividade é o que muitos idosos procuram e às vezes não lhes são
oferecidos recursos para driblar o ócio. Desde a origem do Asilo X já era
uma preocupação das religiosas que relatavam: “Sentir muita dificuldade
em estabelecer um clima de satisfação entre os internados”. (PONDÉ,
1977, p. 63)
O ócio, na vida do asilo, é comentado por Beauvoir (1990, p. 321)
como a inércia da vida do asilo e a autora ilustra ao relatar:
Essa inércia vai tão longe que, sobre tudo entre os homens,
muitos apesar de não estarem inválidos, fazem as
necessidades na cama, segundo me declarou o doutor: a
sociedade assumiu o amparo desses idosos- explicou-me – e
eles se abandonam totalmente a ela, levando a passividade ao
extremo. (suponho também que eles vivem a própria situação
com ressentimento, e se vingam). Durante todo o dia,
permanecem sentados na poltrona e não fazem nada. Vi um
homem, estendido na cama, tricotando; dois outros, sentados
no leito, jogavam cartas. E só. um pensionista em vinte lê o
jornal. Alguns ouvem um pouco de rádio. Mesmo se lhe são
propostas distrações, estão mergulhadas num tal estado de
letargia, que recusam: ofereceu-se a quarenta mulheres uma
excursão gratuita de ônibus pelas cercanias de Paris. Apenas
duas aceitaram. Seu único divertimento são as brigas: as
mulheres, principalmente, mexericam, discutem, formam clãs,
estabelecem alianças que depois desfazem. Entre os homens,
alguns agressivos e até mesmo violentos.
161
Aspectos dessa descrição, também, podem ser observados no Asilo
X, quando alguns idosos declararam que não gostam de ir às atividades
oferecidas pela instituição. Alegam que se sentem cansados, sem ânimo.
Nesse caso, o envelhecimento é passivo, dependente e parece que
apenas espera um desfecho.
5.4 SE VOCÊ SOUBER SE COMUNICAR É QUE VOCÊ NÃO TEM
SOLIDÃO
É importante refletir sobre os relacionamentos dos idosos e idosas
que residem em instituições de longa permanência ou asilos. Como
ocorrem? Quais os vínculos existentes entre eles e seus familiares?
Existe um círculo de amizades? O que diferencia os homens e mulheres
idosas nos círculos de relações sociais?
Abrimos o debate com Debert (1994), quando comenta que trajetórias
sociais de gênero determinam a situação real e os sentimentos das
pessoas idosas, ultrapassando a diversidade da situação de classe,
quando homens e mulheres colocam-se de maneira diferente, em relação
às possibilidades e sentimentos de bem-estar, liberdade e autorealização.
Reiteramos que, no asilo, a condição social diferencia os idosos e as
idosas pela possibilidade de pagar uma melhor acomodação e segmenta
o que nos parece ser apenas um grupo, em os idosos dos pavilhões, dos
pensionatos e das pousadas. A identidade de geração parece ser o
momento em que todos se encontram, mesmo que separados, eles
compartilham sentimentos parecidos.
Ser idoso parece, a priori,ser igual, e tanto para homens quanto para
mulheres, essa igualdade faz-se pela idéia de que envelhecer tem o
significado de perda, inclusive da condição social. A velhice traz o
empobrecimento,
reduz
a
renda
e
aumenta
as
dificuldades
e
necessidades de medicamentos e alimentos, tornando o custo de vida
162
mais caro. Além disso, diminui o ciclo social, acabando por trazer o
isolamento.
Desse modo, o confinamento do asilo traz a percepção de que nele os
idosos estão encarcerados e privados de uma vida social. Por outro lado,
o asilo pode ser uma possibilidade de encontrar pessoas da mesma
geração, fazer novas amizades, enfim, de se relacionar. Sobre isso,
Camarano (2007) refere que a companhia é uma das razões pela qual as
pessoas escolhem ir para uma instituição asilar e que essa razão é
referida mais pelas mulheres idosas do que pelos homens.
Britto da Motta (1999) relata que homens e mulheres idosos vivem, de
maneira
homogênea,
certas
condições
biossociais,
mas
reagem
diferentemente às condições sociais, sendo interferidas pela posição
social e de gênero que ocuparam e ocupam.
Dentre os nossos entrevistados o Sr. Cervantes comentou que o asilo
é um local em que não se fica sozinho, bastando para isso saber se
comunicar:
[...] o bom daqui, se você souber se comunicar, é que você não
tem solidão, para você sempre tem alguém para estar com
você. Essa é a minha opinião e é assim que eu vivo me dou
muito bem com os funcionários, com os residentes e até com a
própria diretoria. Quando tem qualquer coisa, eles me chamam
para representar os residentes, eles me têm como uma espécie
de líder, mas eu não me considero como tal, eu apenas me
considero um residente, um pouco diferenciado. (Cervantes)
O homem idoso tem, com a aposentadoria, uma mudança de vida,
passando do espaço público ao privado, representado pela casa e pela
família. Sobre isso, Attias- Donfut (2004) comenta que na transição do
espaço público para o privado o homem desenvolve seu lado feminino.
Quando minha esposa faleceu, passei a morar sozinho aí eu
tive que contratar uma empregada e tal e porque eu, nunca ter
tido experiência com a vida doméstica, tive muita dificuldade
em me adaptar, não lidava com a empregada, casa, com
163
supermercado, tudo isso quem fazia era a minha esposa.
(Cervantes)
Contrariamente, a mulher não se desliga do mundo doméstico,
mesmo na velhice, porque muitas delas nem sequer freqüentaram o
mundo público, pois nunca trabalharam e, ideologicamente, o espaço
doméstico está vinculado ao feminino. Foi o que nos colocou à senhora
Silvano:
Gosto de ajudar na arrumação aqui no asilo, não faço mais
porque aqui têm funcionários. Duas coisas que nunca tive na
minha vida: preguiça e dor de cabeça. Estou sempre disposta,
no Rio meu irmão tinha uma joalheria aí eu pedi a ele para ficar
lá uns meses eu não posso ficar sem ter uma ocupação eu era
solteira, jovem. Eu tenho vontade de falar, de me comunicar,
de movimentar.
A visibilidade que a mulher ganhou pela construção social de sua
imagem como o “sexo frágil”, hoje alcança igualdade em algumas áreas
da vida. No discurso gerontológico são comuns observações de caráter
descritivo, que retratam a realidade da velhice e mascaram as
desigualdades entre as mulheres, terminando por legitimar a fragilidade
dos seus corpos e das suas vidas. Diferenças entre os corpos, ligadas ao
sexo, constantemente são solicitadas para testemunhar e legitimar
relações e fenômenos sociais. (SCOTT, 1995)
Dessa maneira, a fragilidade expõe as mulheres e legitima direitos
diferenciados e, como exemplos, podemos citar o tratamento preferencial
que recebem nos sistemas previdenciários: elas podem requerer o
benefício da aposentadoria, mais cedo, bem como, a elas é permitido, no
Brasil, o acúmulo de aposentadoria e pensões – de pais e/ou cônjuges.
As justificativas para esse tratamento preferencial são: compensação
pelo afastamento do mercado de trabalho por ocasião da gravidez; dupla
jornada de trabalho e cargo com prestígio inferior aos masculinos ou
cargos semelhantes, com remuneração mais baixa. Isso, de certa forma,
reforça o pressuposto dominação-submissão e o poder e lugar das
164
mulheres no espaço privado – como cuidadoras e preservadoras dos
vínculos familiares.
As mulheres idosas, hoje, tornaram-se, em algumas famílias, a
provedora, devido ao fato de ter sua renda através da aposentadoria ou
pensão, representando um papel imprescindível no sustento de filhos
adultos e netos. Sobre isso, comentam Camarano; Pasinato (2002) que o
desemprego tem atingido amplas faixas da população jovem, o que,
provavelmente,
acarreta
novas
configurações
nas
relações
de
dependência entre os idosos e os jovens. As aposentadorias e pensões
têm um papel fundamental na composição da renda familiar, significando
tanto o apoio efetivo à população jovem e desempregada, como uma
resignificação do poder dos idosos. Ao invés de ninhos vazios, os ninhos
estão cheios – de filhos, netos, e até mesmo, bisnetos.
Entretanto, a posição de provedor familiar poderia dar ao idoso ou
idosa poder frente à família, o poder que já teve nas mãos quando mais
jovem e ditava as regras para os filhos, porém, não é sempre assim.
Acontece que o idoso ou idosa tem a renda, mas, são os filhos quem diz o
que deve fazer com o dinheiro da sua aposentadoria. Pelo fato da mulher
ficar viúva mais cedo do que os homens, são elas que, geralmente,
passam por essa situação. Os filhos procuram controlar o que elas
recebem, como os recursos da aposentadoria, e isso gera conflitos
intergeracionais.
As mulheres idosas, mais jovens, podem ter na família, além do papel
de provedora, ou papel complementar na criação dos netos, em alguns
casos, justificados pelas necessidades das filhas de trabalhar fora de
casa. Há filhos e filhas que entendem que é obrigação das mães
ajudarem a criar os netos. Para algumas idosas ajudar nas atividades
domésticas ou na criação dos netos passa a ser uma coisa boa, uma
atividade prazerosa, entretanto, em outras circunstâncias, não é isso que
ocorre. Os familiares exploram o idoso duplamente – usufruindo seu
rendimento mensal e o seu trabalho.
Este estudo trata de idosos asilados não como doentes e vinculados à
imagem da velhice inativa, pois, no Asilo X, encontramos idosos e idosas
que são ativas e outros, que pelas limitações, tornaram-se dependentes,
165
sem com isso perder a vontade de viver. Trazendo um contraponto, Lins
de Barros (2003) desenvolveu um estudo com idosos não asilados, não
doentes e referiu que estes eram a parcela da velhice não vislumbrada,
aquela que nos deparamos no cotidiano e não nos damos conta dela.
Nesse seu estudo, a autora entrevistou mulheres idosas, que faziam
parte de um grupo religioso e viviam sozinhas, em seus apartamentos ou
casas, saiam, realizavam atividades como pagar contas em banco, visitar
outras pessoas, não ficavam presas ao espaço doméstico. Assim, suas
identidades se formavam a partir do contexto em que estavam inseridas,
diferentes dos velhos e velhas asiladas, onde essa própria condição traz
uniformidade das identidades, levando ao surgimento de estigmas e
preconceitos, mas não deixando de possibilitar encontros. (LINS DE
BARROS, 2003)
Esses encontros podem se realizar através de visitas de familiares e
amigos à instituição ou mesmo com a saída do idoso para o mundo
externo. Nesse sentido, as relações dos idosos com seus familiares, no
Asilo X, são mantidas à medida que estes os procuram. Muitas vezes,
isso não acontece, conforme referiu à senhora Antonia:
Tenho netas, mas não veem me ver, vinha, agora estão
morando, mas longe. Elas moravam em Candeias, em uma
casa que meu filho deixou, ele era da Petrobrás, agora estão
morando mais longe, me telefonam: “amanhã eu vou aí lhe ver
e não vem.
O senhor Possante, também, comentou sobre a ausência de um de
seus filhos:
Eu tenho filho que não vem aqui. Ele é uma pessoa que tem
condições financeiras é empresário, mas tem a vida dele. Eu
não pergunto, é o jeito dele. Eu não tenho filho como
propriedade nós devemos educar, orientar fazer o que pode,
mas não ser proprietário de filho, Ele vai ter os filhos dele, a
esposa dele a vida dele, porque um filho amigo é um filho
amigo. O filho que não é amigo ele pode viver a vida dele. Por
isso que todos devem se preparar para não depender
financeiramente de filho.
166
Após essas considerações, passamos a analisar as relações sociais
dos idosos e idosas, através do ecomapa. A leitura desse instrumento foi
realizada a partir da análise do diagrama das relações abaixo ilustrado:
Vínculo superficial
Distanciamento
Ausência de Comunicação
Ligação intensa
Relação Conflituosa
Diagrama de relações
No círculo de convivência dos idosos, a ausência de familiares, por
vezes, é marcante. Nesse sentido, a descrição do ecomapa da senhora
Antonia
demonstra
que
suas
relações
sociais
são
mantidas
principalmente com pessoas que não fazem parte do seu núcleo familiar.
O abandono pelas netas é demonstrado através de linha tracejada,
representando distância entre elas
Ecomapa 1 Srª Antonia
167
Nesse sentido, o abandono é uma das formas de violência, porém
acreditamos que não aparece na vida do idoso de maneira isolada, mas,
associada a outras situações. No caso da srª Antonia ficou claro, também,
o conflito familiar com a sua nora, fato já mencionado neste estudo, e por
isso, representamos tal relação, no espaço onde não aparece ligação
entre a idosa e a nora, uma vez que, depois da idosa ter ido morar no
asilo, a relação com a nora deixou de existir.
A instituição como um todo mantém uma relação de vínculo superficial
com a idosa, sendo, portanto representada por uma linha contínua.
Antonia refere ter boa relação com alguns funcionários do asilo, mas
ressalta:
Essas meninas da terapia são muito boas pra mim, mas aqui
tem muita gente pesada. Tem algumas que trabalham aqui
que é pesada, são mal educadas; as que trabalham com a
limpeza, não sabem tratar. Ainda ontem, eu fui tomar banho,
eu não peço nada elas:- bote essa cadeira aqui. Eu não sou
orgulhosa não, viu nega, mas eu vejo a má vontade.
No asilo, é com os seminaristas e uma funcionária da terapia que a
idosa referiu ter um vínculo maior o que está demonstrado no ecopama
em negrito. Os seminaristas veem com freqüência visitá-la e a funcionária
da terapia lava sua roupa, compra produtos de higiene para ela, entre
outros pequenos mimos. Esses laços ajudam a idosa a viver na
instituição.
A
necessidade
de
afeto,
amor,
convívio
está
incluída
nas
necessidades sociais referidas por Maslow (1970), estão relacionadas à
vida em sociedade e representadas nas figuras dos amigos, esposas (os),
filhas (os). O indivíduo tende a construir relacionamentos afetivos com o
intuito de se sentir integrado no grupo, para fazer parte da sociedade,
mesmo que seja em uma sociedade de pequena escala, como o asilo.
Assim, as necessidades sociais quando não satisfeitas de maneira
adequada, podem tornar as pessoas resistentes, antagônicas e hostis
com relação às outras que estão ao seu redor. Quando frustradas, essas
necessidades conduzem, freqüentemente, à falta de adaptação social e à
168
solidão. (CHIAVENATO, 2000). Srª Antonia experimenta esse sentimento
e demonstra:
Eu me sinto muito só aqui. Solidão é isso que eu estou
vivendo. Mesmo que tivesse alguém para eu ir passear eu não
iria, não gosto. Agora, eu sinto falta de receber visita. Eu fico
muito jogada aqui na cama porque eu prefiro mesmo.
Srª Antonia demonstra que não se adaptou ao Asilo X, e se isola na
quadra em que vive, em meio à desordem dos seus pertences e das suas
lembranças dos tempos passados: “tenho muita dor de estar aqui, porque
eu me lembro do meu passado e hoje estou aqui não sei por que”.
(Antonia)
Debert (2004) comenta que o cotidiano do asilo está longe de ser a
manifestação da experiência de solidão. Acredita-se que a solidão existe
nas instituições de longa permanência, pois mesmo rodeado de outros
idosos, os internos e as internas podem estar solitários em relação às
pessoas com quem gostariam de estar. Desse modo, a vantagem do asilo
é a solidão coletiva.
A solidão, mencionada por Debert (2004) seria mais bem retratada
pela falta de movimento dos idosos no asilo, pois a instituição nem de
longe pode ser comparada ao um lugar privado. A constante entrada e
saída de pessoas, a própria curiosidade de saber o que faz o idoso no
asilo atrai pesquisadores e curiosos e, todos os dias, ele está repleto de
olhares. Além disso, os desentendimentos entre os residentes ou entre
eles e os profissionais, que lá trabalham, completa o dia a dia
movimentado da instituição.
Com as outras idosas, moradoras do pavilhão coletivo, Antonia vive
uma relação conflituosa, representada pela linha em desordem. Tal
relação é povoada por muitas brigas e sem tolerância de ambas as
partes, configurando conflitos.
Sobre a sua relação com as outras residentes, a senhora Antonia
comentou:
169
Eu não sou mulher de dar banana, elas dão banana na mesa,
elas falam mal cada nome triste, essa mesmo que passou aqui,
essa mulher me joga tanta praga, eu fiquei com uma dor de
cabeça grande de uma praga que ela me rogou eu tomei
aquela coisa assim. (Antonia)
Dona Antonia demarcou no trecho acima diferente nível de educação
e polidez que ela própria pratica, o que a faz distanciar-se das demais
companhias femininas do Asilo X.
Essa mulher me agrediu no braço (mostrou o braço com uma
grande cicatriz) me agrediu arranhado com a unha e saiu muito
sangue fui levada para a enfermaria para fazer o curativo todos
os dias, davam remédio, a doutora daqui é muito boa, eu me vi
foi doida, eu pedia toda hora: Oh meu São Lázaro! Ajude-me a
ficar boa de meu braço, não perder meu braço, eu nessa idade
nunca tive agressão nenhuma. (Antonia)
Nesse segundo fragmento do discurso, a entrevistada revela,
abertamente, a agressão sofrida, provocada por outra idosa, sinalizando
que tal agressão teve conseqüências para sua saúde. Nesses casos, a
violência física está clara e deixa marcas na história de vida dos idosos
asilados. O ambiente acolhedor deixa de ser um espaço seguro, para se
tornar um lugar insalubre e perigoso.
Percebemos que as brigas são constantes no asilo, onde realizamos o
estudo, o que nos faz concordar com Beauvoir (1990), quando a autora
afirma serem as brigas as únicas distrações dos idosos e idosas.
Podemos mesmo falar que é assim que o dia-a-dia no asilo vai sendo
construído.
Entretanto, podemos observar que as brigas nos pavilhões coletivos
são mais constantes e percebidas mais claramente do que nas pousadas,
isso porque, nestas, os idosos estão mais protegidos, e têm maior
privacidade. Foi o que declarou Dona Silvano, moradora de uma das
pousadas: “Aqui é reservado, são poucas pessoas, são oito quartos, para
nós, que vivemos aqui, lá embaixo, nos pavilhões, são mais pessoas é
mais coletivo”.
170
Nos
pensionatos,
apesar
das
idosas
terem
seus
quartos
independentes, as brigas também acontecem com maior freqüência do
que nas pousadas e, em alguns casos, são as diferenças de estrutura
desses quartos, que levam as divergências entre elas. Uma idosa,
moradora do pensionato, relatou que outra residente lhe trata mal e que
depois que ela doou um apartamento que tinha o maltrato da idosa ficou
mais evidente, porque o asilo deu-lhe um quarto maior, com suíte, uma
pequena cozinha com pia e armários. Além disso, depois dessa doação, a
idosa não paga mais nada à instituição.
Mas, existe um outro lado do asilo, referido pela senhora Silvano, que
não são os desentendimentos com familiares, funcionários ou residentes
da instituição, é o lado positivo, demonstrando que o asilo é um bom local
para se viver:
Aqui é um ambiente cordial, procuramos uma, ser amiga da
outra, embora cada uma tenha sua independência. [...] gosto
daqui, vivo aqui, bem feliz, com meu marido. Somos felizes e
há dez anos eu vivo aqui e não tenho vontade de sair daqui.
(Srª Silvano)
Ecomapa 2 D. Silvano
171
No ecomapa de dona Silvano podemos perceber que o que marca as
suas relações é uma ligação intensa, representada por uma linha em
negrito com a maioria daqueles que fazem parte da sua rede social. A
filha, o genro e a neta são representados por esse vínculo forte. Com os
filhos do marido e, até mesmo com uma das ex- esposas do atual marido
a idosa refere certa relação afetiva, que está representada por uma linha
contínua:
Eu me dou bem com os filhos de meu marido, até com uma
das ex. mulheres dele, ela vem aqui eu não importo, ela
telefona para mim quase todo dia. Ela não arranjou outro
marido, não quis ninguém, é mais velha do que eu. Meu marido
tem três filhos, ontem mesmo os três estiveram aqui. Duas
filhas e um filho. Minha filha vem aqui, mas não muito, mora em
Feira, trabalha a semana toda em uma agência de automóvel.
Eu ia mais a Feira, ela quer que eu vá passar a Semana Santa,
mas eu não vou não. (Dona Silvano)
A figura de uma amiga, também casada, é uma das observações que
fazemos no convívio de dona Silvano na instituição. Juntas, com os
esposos, à senhora Silvano e essa amiga passeiam pelo asilo, sentam no
quiosque, conversam, jogam cartas, distraem-se, pois fazem parte de um
“mundo” semelhante, mesmo tendo histórias e motivos diferentes para
residirem no Asilo X.
Ecomapa 3 D. Mandala
172
No ecomapa da senhora Mandala, também, aparecem conflitos e
brigas, no pavilhão em que vive, com algumas idosas, as quais têm a
linha sinuosa, que representa essa relação:
Aqui atrás tem problema de varal, muitas aqui meio “tantan da
bola”, as meio doentinhas, pegam a calcinha da outra, jogam
uma toalha por cima, querem tomar o varal todo. Isso gera
brigas. (Mandala)
Por outro lado, a idosa informou que têm amigas no asilo,
contradizendo a fala anterior. A linha em negrito representa uma ligação
intensa entre elas:
Aqui tenho muitas amizades, as colegas todas, penso eu que
sou querida, porque eu amo a todas e acho que sou querida.
Adoro essas meninas, os funcionários, de presidente ao
servente da casa é uma maravilha, é uma maravilha! Aqui é um
espetáculo, é maravilhoso, aqui a gente vive bem mesmo.
(Mandala)
No que diz respeito à relação da idosa com funcionários e a direção do
Asilo X, ela comenta ser boa, estando representada no ecomapa pela
linha em negrito, sendo confirmada pelo seguinte discurso:
[...] os funcionários, de presidente ao servente da casa é uma
maravilha, é uma maravilha! [...] Cada direção trabalha de uma
maneira. A atual, um espetáculo de presidente! Não sou puxasaco, digo assim, porque quero bem demais porque é um
espetáculo de homem, trabalhador.
Seu relacionamento com o namorado que conheceu no asilo, é
instável. Dessa maneira, representamos, também, por uma linha sinuosa,
demonstrando que há estresse na relação. A idosa decidiu terminar o
namoro, pois o namorado não satisfazia suas necessidades, que vão
além de ser classificada apenas como social, inserida no campo do afeto
173
e do companheirismo. Nesse trecho abaixo, ela esclareceu porque não
quer mais o namorado:
Eu que decidi terminar, porque eu sou muito sei lá, até que eu
não sou exigente, mas eu sou uma pessoa muito autêntica eu
preciso de um homem mais vivo, se é que você me entende.
Ele já esta muito caído. Um homem mais vivo é um homem
com potência, um homem com ereção.
O sexo é classificado como uma necessidade básica, biológica e
quando uma pessoa se encontra “dominada” por tal necessidade, tende a
perceber apenas os estímulos que visam satisfazê-la, sua visão de futuro
fica limitada e determinada por tal necessidade. (MASLOW, 1970).
A sociedade tem uma percepção restrita, tanto em relação à
sexualidade quanto à velhice e classifica essa fase da vida, como um
período de assexualidade e até de androginia. Isto é, um período em que
o indivíduo teria que assumir unicamente o papel de avó ou avô, cuidando
de seus netos, isolando-se no espaço da casa e da família. Attias-Donfut
(2004, p. 94) comenta que o envelhecimento paradoxal das mulheres
está,
sem
dúvida,
na
origem
da
tese
sobre
o
processo
de
“androgenização” da idade, que postula uma atenuação das diferenças
sexuais à medida que se envelhece.
Confirmando essa questão, Covey (1989) comenta que inúmeros
mitos, atitudes sociais e estereótipos negativos são atribuídos aos idosos,
mas os mais intensos são aqueles ligados à sexualidade, dificultando
qualquer manifestação dessa área, nas suas vidas.
Quanto ao relacionamento familiar da senhora Mandala, com a filha, o
genro e os netos pode ser descrito como uma ligação intensa e, mais uma
vez, a linha em negrito aparece no ecomapa e a idosa enfatiza:
[...] tenho uma família maravilhosa, que vem me ver. A filha que
eu tenho é do primeiro casamento ela mora no cabula ela vem
me ver. Ave Maria! Qualquer coisa. Ontem mesmo eu liguei
para ela agora só que eu não tenho necessidade de estar
174
chateando ela por qualquer coisa: - minha filha! Venha cá,
minha filha!
Assim como o ecomapa da senhora Silvano, o senhor Cervantes tem
no seu, a freqüência da ligação intensa, representada pela linha em
negrito, com a maior parte das pessoas que compõe sua rede social.
Registramos que todas as relações estavam camufladas nos discursos
não sendo, facilmente, visualizadas. Diante disso, foi preciso aperfeiçoar
o olhar de observadora nas numerosas visitas ao asilo para, então,
verificarmos que nas relações interpessoais, mesmo nas aparentes
ligações afetivas, encontramos, nas entrelinhas, por vezes, vínculos
fragilizados pelos conflitos humanos.
Cervantes refere ser um residente diferenciado, porque a equipe do
Asilo X o considera assim. Essa forma de se destacar dos outros idosos,
denota que as relações entre ele, os demais residentes do asilo, os
funcionários e a direção, não estão livres dos conflitos:
Esqueci a vida lá fora, cheguei aqui fui muito bem recebido não
só pela comunidade, como também, pelos funcionários e até
mesmo pelo pessoal do primeiro escalão, diretor e tudo. Eu sou
aqui eu mesmo, me considero, sem falsa modéstia, um
residente diferenciado, porque muitas vezes eu sou consultado
por eles alguma coisa, entendeu, até mesmo pelo próprio
serviço social, colaboro, questão de evento eu vou lá falo com
as meninas qualquer coisa que eu puder ajudar então uma
coisa também me encantou muito aqui foi eu também ter sido
muito bem recebido pelas idosas, as idosas gostam muito de
mim. Até tem aqui uma espécie de, não sei explicar, o que é
que é que todo mundo acha que as idosas gostam muito de
mim são apaixonadas por mim, mas não é nada disso. Eu digo
sempre a elas que, não é nada disso que eu gosto de todas,
mas não quero nenhum compromisso com ninguém, ninguém.
É tudo amiga o que eu puder ajudar eu ajudo, mas eu sempre
notando que algumas se insinuam e tal, mas aí, eu com jeito eu
vou lá e chamo, não é por aí, eu não quero.
Nesse discurso há uma separação entre o asilo e a vida fora dele.
Esse dado é comentado por Pontes (2006), quando assinala que
locuções como: “lá fora” e “aqui dentro” denotam no campo do simbólico
uma linha divisória, separando o mundo interno da sociedade mais ampla.
175
São duas coisas diferentes, o asilo parece está à parte da vida
externa aos muros, é o interior e o exterior, o que posso fazer e o que não
posso a oposição entre a velhice confinada e a velhice no mundo. O asilo
é um mundo artificial, criado para separar os de dentro, que têm uma vida
prescrita, daqueles que estão lá fora e que podem se lançar nas
imperfeições do mundo natural. Contudo, ao se entrar nesse mundo
artificial, leva-se tudo o que foi apreendido no mundo natural. Assim, o
discurso machista e preconceituoso é marcante no espaço social do asilo.
Na fala do Sr. Cervantes, em relação às idosas da instituição, e reforçado
pelos funcionários:
A médica daqui comentou: - Sr. Cervantes vou lhe prevenir
porque as idosas aqui, elas não são mole. O senhor está vendo
que é uma pessoa bem falante, comunicativa, educado ela não
estão acostumadas, e o senhor se prepare. Aí minha filha deu
risada, em menos de um mês ou dois que eu estava aqui elas
já começaram. As idosas são terríveis, mas eu sei por que,
elas não estavam acostumadas a lidar com pessoas como eu,
que trata bem, respeito às idosas, ajudo, porque, infelizmente,
os outros idosos daqui, a maioria absoluta, são pessoas rudes
que não sabem tratar a mulher. Então, quando eu cheguei foi
aquele negócio, mas eu soube colocar elas, umas três ou
quatro eu disse não, eu não vim para cá para isso. (Cervantes)
O idoso não queria namorar com nenhuma residente da instituição,
porém por intermédio de uma das moradoras conheceu uma prima dela e
começou a se relacionar. No entanto, a relação não deu certo, devido ao
preconceito da família da idosa sobre o asilo. Sr Cervantes fala como se
isso fosse marcante em sua vida. Hoje, Sr. Cervantes mudou de idéia e
namora uma residente do Asilo X. No seu ecomapa colocamos
representada a ex. namorada para mostrar as relações que o idoso vem
construindo, porém não fizemos nenhuma ligação para enfatizar que ela
já não mais existe. Quanto à atual namorada, o vínculo está representado
por ligação intensa, com a linha em negrito. O fato dos dois serem
independentes, saem, viajam e namoram, exercendo a sexualidade de
maneira positiva.
176
Ecomapa 4 Sr Cervantes
O interesse em ajudar algum morador do asilo, foi referido pelo senhor
Cervantes como um desejo que teve logo que entrou na instituição. A
escolha por esse morador passou pelo critério de gênero e nos chama a
atenção, dentre as relações interpessoais que o idoso mantém.
Compreendemos que essa relação vem a ser o resgate do seu passado.
O discurso abaixo, deixa transparecer essa nossa interpretação:
Quando eu vim para aqui, eu falei com meus filhos: se der tudo
certo, se eu me adaptar bem se eu for bem recebido eu vou
procurar uma pessoa para que eu cuide dela, e aconteceu que,
com 6 meses que eu estava aqui, eu identifiquei essa pessoa;
trata-se de uma senhora, ela fez 92 anos agora, no dia 15 de
setembro, ela é uma senhora carente apesar de ter um filho,
mas o filho dela não é aquele filho que toda a mulher gostaria
de ter. Ele também já tem 69 anos, mas isso ai não quer dizer
nada, porque o filho quando é bom ele não olha idade não é?
Mas, ele realmente não. E eu notei que essa senhora era muito
carente e precisava de mim aí eu me aproximei dela. Eu tinha
planos, tinha projetos de tomar conta de minha mãe e hoje eu
tenho certeza absoluta que esse meu comportamento, diante
177
dessa senhora que eu cuido aqui, tem haver com minha
relação com minha mãe. Eu disse a essa senhora: - Eu quero
fazer com a senhora, o que Deus não permitiu fazer por minha
mãe é dar carinho, dar amor, tomar conta da senhora, sei que
a senhora tem um filho, mas... Então não sei se ela entendeu
não, mas a minha idéia é essa, porque foi uma coisa que me
trouxe certa frustração foi eu não ter retribuído a minha mãe
tudo de bom que ela me ensinou, ela me ensinou a respeitar os
mais velhos, dentro de suas possibilidades, ela nos educou a
mim e meus irmãos.
Essa preocupação do Sr.Cervantes, demonstra afinidade entre as
gerações. Quando ele se refere “cuidar de sua mãe” traz a tradição, onde
os jovens respeitavam os mais velhos e os pais tinham certeza de que
seus filhos iriam retribuir sua dedicação. No entanto, hoje o que vemos é
o individualismo marcante. Relações fluidas, sem sinais de solidez,
mesmo entre pessoas, onde os laços de parentesco predomina.
O parentesco é diferente da afinidade, à medida que essa é uma
coisa dada quer se queira ou não. A escolha é o que transforma o
parentesco em afinidade, a qual deseja ser como o parentesco:
Tão incondicional, irrevogável, indissolúvel, quanto ele (no final,
a afinidade vai acabar se entretecendo com a linhagem e se
tornar indistinguível do restante da rede de parentesco; a
afinidade de uma geração se transforma no parentesco da
seguinte. (BAUMAN, 2004, p.45)
Assim, o senhor Cervantes possuía o desejo de ajudar sua genitora.
Não sendo possível, foi buscar laços de afinidade, com a escolha de uma
mulher, mãe, idosa e sobrevivente de suas perdas, construindo, dessa
forma, a relação forte e porque não dizer de parentesco. Essa relação
firma-se no dia-a-dia, por ações que vão além da caridade.
Para se manter a afinidade Bauman (2004) refere ser necessária uma
luta diária, com vigilância, o que para nós, habitantes do “líquido mundo
moderno”, que não suporta o sólido, o durável, ou tudo que não se ajusta
ao uso imediato, é uma ação muito difícil.
A atitude de ajudar e cuidar de outro residente do asilo, não foi comum
na construção dos relacionamentos entre os idosos e idosas. Em
178
oposição a essa ação de cuidado, encontramos os conflitos e brigas e,
mais uma vez, os moradores dos pavilhões coletivos sobressaem-se nas
brigas com os outros residentes:
Aqui eu não tenho amigos, aqui só tem “cagoete”. Aqui eu não
tenho amigos tenho camarada, porque aqui amigo é uma
palavra muito difícil. Meus irmãos são meus amigos, tem outros
amigos fora. Os velhos daqui são valentes pra porra. Aqui já
teve até faca... (Sr. Valdemar)
De acordo com essa fala, percebemos a construção social da
ambivalência dentro do asilo. Os amigos e os inimigos são considerados,
por Bauman (1999) oposições, que ordenam o mundo em que vivemos. É
uma oposição-chave, entre o interior e o exterior. A oposição entre eles
separa a verdade da falsidade, o bem do mal, o certo do errado. Os
amigos são criados pela pragmática da cooperação e os inimigos pela
pragmática da luta.
Desse modo, a luta pelo espaço no asilo anuncia os conflitos, e a
violência aparece, representada por comportamentos e ações como
preconceito, abandono e negligência indo parar em agressão física,
incluindo até, o uso de arma branca. No entanto, para estabelecer o que
existe na relação dos idosos amigos e inimigos no asilo, precisamos ir
além e analisar esses opostos, conforme fez Bauman (1999), dialogando
com Simmel, que afirma ser “a amizade e a inimizade formas de
associação e, juntas, constituem uma matriz de duas pontas”. Nesse
contexto, surge uma terceira categoria que é o estranho, um membro
indefinível não é nem bem nem o mal é outro, que pode passar de um
pólo a outro. No asilo, as relações são tão frágeis, que fica difícil de dizer
que os idosos são amigos ou inimigos, depende da situação, pois a
quebra dos contratos de respeito e fidelidade é freqüente, e a incerteza é
absoluta.
As formas de violência no asilo podem ir além, com ameaças de morte
e mesmo tentativas de homicídio. Sobre isso Antonia revelou: “Ela disse
que ia pegar uma faca para me matar, mais eu já dei queixa dela dei
queixa ao diretor”. Podemos indagar se a violência no asilo vem
179
ganhando mais requinte, ou vem acompanhando o que ocorre fora de
seus muros? Ou essas expressões de violência percebidas no asilo,
nada, mas são, do que frutos das relações humanas, sobressaindo nelas
o ego das pessoas, que não conseguem conviver coletivamente.
De toda forma, quando as
brigas
ultrapassam
o
nível
de
desentendimentos e chegam à fronteira da violência, não é mais a
construção do dia-a-dia que está sendo feita e, sim, uma situação grave,
sobre a qual, muitas vezes, a direção da instituição tem que intervir e
resolver. Foi assim que a senhora Mandala convocou a direção para
resolver suas brigas:
Eu consigo sair disso, mas não sozinha, junto com a direção.
Eu chamei a direção, pois se não chamar elas insistem e o
relacionamento ai fica com aquela maneira mesquinha.
(Mandala)
As brigas no asilo foram referidas como “baixarias”. Tumultuam o
ambiente, provocam um clima desfavorável à convivência coletiva. Essas
brigas ocorrem entre os idosos e entre eles e os funcionários. As
reclamações vão parar, sempre, no serviço social, que tem de aparar as
arestas, e tentar melhorar a convivência na instituição.
Dando continuidade à análise do ecomapa dos idosos que participaram
da pesquisa, observamos que as relações do senhor Valdemar são, na
maioria, afetiva e em relação aos seus familiares, porém representamos
através da linha contínua, analisando o discurso do idoso:
Eu não recebo visita, pois não sou esse pamonha que a família
vem pegar tudo que ele tem, se eu preciso de um remédio, ligo
para meu sobrinho. Eu me dou muito com minha família, mas
eu não sou de ser puxa saco. (Valdemar)
A figura de um dos sobrinhos é importante para o idoso e ele comenta
ser este seu responsável, pois para entrar no asilo o idoso necessita de
um tutor que assuma, formalmente, essa posição frente à direção da
180
instituição. Sobre esse sobrinho, podemos perceber que é com ele que o
Sr. Valdemar tem uma ligação intensa:
Eu vim para aqui falei com a assistente social, ela disse: - mas
o senhor tem que arranjar alguém para ser responsável.
Responsável sou eu mesmo. Um ano depois eu tornei a vir, aí
eu trouxe um sobrinho meu para ser responsável, eu entrei no
dia 18 de outubro de 2001.
Ecomapa 5 Sr Valdemar
Em relação ao Asilo X, Valdemar refere ter uma ligação intensa. O
que chama a atenção na vida do idoso é o fato de enfatizar que, quando
está sozinho, desprezado, vai para a rua. É o abandono, referido através
de outras palavras: “quando eu estou meio desprezado, eu pego o carro e
me pico e vou viajar, eu tenho amigo no Rio de Janeiro”. A sensação de
abandono emerge de modo disfarçado e, por isso, algumas vezes, não é
percebida por ele próprio. Ou ele estaria relutando em admitir que está
sendo esquecido pelos seus?
181
A rua sempre foi freqüentada por Valdemar, por isso, com ela,
mantém uma ligação intensa, a ponto dele se considerar um aventureiro.
Refere sentir vontade de sair da instituição e este é seu projeto de vida:
Eu não me sinto só, quando isso me acontece vou para a rua.
Eu gosto daquele ambiente, eu vou para o Shopping Piedade,
eu mudo, não fico em um lugar só, vou para o Iguatemi. Na
Praça da Piedade, eu não fico ali tem um bocado de
abestalhado, uns caras que ficam jogando dominó, eu não vou
para beco. Eu fico rodando por ali pelo Shopping, bato um
papo, tomo um chope, aquela coisa toda. O médico disse o
seguinte: você pode tomar um chope. Eu tenho projeto de sair
daqui entrei aqui porque quis, se Deus me ajudar, vou sair
daqui. Porque tem cara que nunca vai sair daqui. Eu já morei
em vários lugares, pensionato, vivo em qualquer lugar.
Sobre as relações do senhor Possante, observamos na sua fala que a
ligação intensa dá-se principalmente, com sua atual companheira, e
procurando deixá-la amparada, ele refere que:
Eu fiz a união estável com essa moça. Ela tem a casa dela
separada. Eu freqüento, passo final de semana é uma pessoa
humilde, mas é muito organizada. Ela tem filho, eu tenho ótima
relação com o filho dela. Meus filhos aceitaram bem, acham
que é uma companhia para mim. Vão lá, acham que é bom
porque, às vezes, não podem me assistir e percebem que
assim eu estou bem, não interferem em nada.
Sobre os filhos, senhor Possante comenta que se dá bem com eles e
os netos, mantendo também ligação intensa com eles. Com a ex. mulher,
considera ter um vínculo superficial. Apenas com um dos filhos, o idoso
possui uma relação de distanciamento. A atual companheira tem um filho,
com quem ele considera ter uma ligação intensa.
Sr. Possante enfatiza que não gosta de ficar preso ao passado:
182
Não gosto de recordar o passado. Eu gosto de viver onde
estou, se estou bem. Até então acho que estou bem,
sossegado, tranqüilo, não tenho mais aquele desejo de ficar
rico, de apostar em jogos para ter dinheiro. Também não tenho
medo de ficar mais pobre eu já estou em uma fase de maior
tranqüilidade o que eu tinha de construir eu fiz. Então, não
tenho saudade de épocas passadas, eu devo isso a um
preparo. Eu estudo muito o espiritismo.
Sobre a relação com os outros idosos, residentes na instituição, o
senhor Possante afirma:
O relacionamento aqui é bom, porque a gente vê cada um. Eu
gostei de vir para o pavilhão coletivo, pois eu aprendi e, ainda,
estou aprendendo a ver cada um, que tem o comportamento
diferente. Convivi no pensionato durante três anos e tenho sete
anos no pavilhão coletivo.
A esse discurso podemos considerar que uma relação superficial,
entre o idoso e os outros residentes, ocorre pela dificuldade de se manter
o respeito entre eles, principalmente vivendo sem privacidade. Mesmo
assim, o idoso faz esforço para respeitar os outros, e a essa forma de
conviver bem com os outros idosos, ele refere que é devido a sua
maneira de encarar a vida:
Eu tenho religiosidade, que é de acreditar em Deus, em
primeiro lugar; respeitar seus semelhantes e cumprir com as
determinações da sociedade; viver sem raiva, sem ódio,
porque o sujeito que tem raiva está doente, não se deve ter
ressentimento de nada. E eu tenho achado, realmente, no
espiritismo, um caminho que está me ajudando também nas
relações com os outros.
183
Ecomapa 6 Sr. Possante
Com os relatos dos idosos entrevistados, percebemos que viver em
uma instituição de longa permanência pode, sim, ser uma opção mesmo
que seja devido às circunstâncias da vida. Nas suas falas aparecem o
conflito de geração, a falta por não ter constituído família, a distância de
filhos e netos, o abandono e o isolamento.
As dificuldades encontradas na estrutura do asilo contribuem para que
esse cenário mantenha o estereótipo e o preconceito histórico que,
dificilmente, podem ser vencidos, pois existe na nossa sociedade uma
cultura arraigada e forte de que, no asilo, mora, apenas, aqueles que
estão à margem de tudo. Porém, enfatizamos a possibilidade de
casamentos, de conhecer novas pessoas e de reescrever sua história,
como aspectos positivos da vida asilar.
184
CAPITULO VI
6 O CONTEXTO DO CUIDADO AO IDOSO NO ASILO
Paremos de trapacear; o sentido de nossa vida está em
questão no futuro que nos espera; não sabemos quem somos,
se ignorarmos quem seremos: aquele velho, aquela velha,
reconhecemo-nos neles. Isso é necessário, se quisermos
assumir em sua totalidade nossa condição humana.
(BEAUVOUIR, 1990, p.12)
A importância de destacarmos o cuidado ao idoso, ocorre por ser um
dos fatores, que leva os idosos a buscarem ou a serem encaminhados
para viver em uma instituição asilar. O cuidado, por ser uma categoria
abrangente, perpassa todo o estudo, mas neste capítulo o tema é tratado
com maior profundidade.
Lembramos que a opção ou escolha de viver a velhice em uma
instituição asilar pode partir do próprio idoso ou de familiares, mas é o
cuidado ao idoso que determina a decisão pelo asilo, sendo este,
também, uma saída para os conflitos familiares. Isso, porque, as
atividades da vida diária como comer, vestir, higiene pessoal e
eliminações são aquelas que mais demandam pessoas disponíveis para
ajudar, encaminhar ou realizar. Apesar disso, no Brasil, embora grande
proporção de idosos institucionalizados seja dependente, por problemas
físicos ou mentais, a miséria e o abandono são os principais motivos da
institucionalização (CHAIMOWICZ, 1998).
A questão do cuidado na velhice nos faz lembrar o filme Família
Savage da diretora e roteirista Tâmara Jenkins, em que o pai idoso
precisa de cuidados, depois de apresentar demência. Os filhos,
absorvidos com suas vidas e sob o domínio do individualismo moderno,
não têm tempo nem afeto suficientes para assumirem o papel
culturalmente determinado a eles. Além disso, as lembranças dos maus
tratos a que foram submetidos pelo pai, na infância, contribuem para a
185
distância entre eles. A casa de repouso, então, constitui-se uma
alternativa para esconder os conflitos da família. Além desse aspecto, o
filme, ainda, nos traz a questão do espaço social da casa de repouso, que
com sua bela arquitetura, camufla o que está por trás dos seus muros, ou
seja, idosos dependentes e histórias de famílias, que perderam seus
laços afetivos, ao longo do curso de suas vidas.
Dessa maneira, pensando sobre os muitos significados da palavra
cuidar, esse estudo defende que tais significados sejam levados, também,
para o campo das relações interpessoais. Em estudo sobre o cuidado de
idosos
altamente
dependentes
Silveira;
Caldas;
Carneiro
(2006)
comentam que os significados para o ato de cuidar, relatado pelos
cuidadores de idosos, foram: crescimento, gratidão, doação, amor, dever,
reparação, obrigação, resgate de omissões, troca, suprir necessidades de
carinho ou de amor, missão, descobrir potencial, aprendizado, vontade de
Deus e elaboração de conflitos. E, ainda, que cuidar trás para o cuidador
uma realização pessoal, onde ele/ ela pode experimentar viver de
maneira diferente.
“o cuidado está na raiz primeira do ser humano, antes que ele
faça qualquer coisa. E se fizer, sempre estará imbuído de
cuidado, o cuidado é um modo - de - ser essencial, está
sempre presente e irredutível à outra realidade anterior”. Boff
refere-se ao cuidado como uma necessidade de todo ser e que
sem cuidado ele deixa de ser humano [...]. “Se não receber
cuidado, desde o nascimento até a morte, o ser humano
desestrutura-se, definha, perde o sentido e morre. Se, ao largo
da vida, não fizer com cuidado tudo que empreender, acabará
por prejudicar a si mesmo e por destruir o que estiver a sua
volta” (BOFF, 1999, p. 34)
Entretanto, a etimologia da palavra cuidado, para alguns teóricos,
deriva do latim cura. Para outros, o cuidado vem de cogitare- cogitatus,
que tem o mesmo sentido de cura: cogitar, pensar, colocar atenção,
mostrar interesse, revelar uma atitude de desvelo e de preocupação
(BOFF, 1999)
186
Assim, acreditar no cuidado como algo necessário para que exista a
relação entre as pessoas, e que está presente em tudo que se faz, é
importante. Portanto, necessário, também, para com a população idosa. A
tríade família, Estado e sociedade deve atentar para a crescente
população de velhos, que conforme consta na agenda de discussão em
todo o mundo, o envelhecimento é um fenômeno natural, com vastas
conseqüências sociais e que devem ser compreendidas, visando à
melhoria da qualidade de vida das pessoas que chegam a essa fase.
No asilo, o cuidado ao idoso é uma importante vertente para observar
a presença ou não da violência. A construção do cuidado, na instituição
estudada, herdou da sua origem uma das três formas de cuidado
existente: o cuidado na forma de caridade, mas, ainda, observa-se o
cuidado informal, realizado por cuidadoras contratadas pelos familiares de
alguns idosos; o cuidado profissional e o auto-cuidado.
Dessa maneira, o cuidado fragmenta-se, dividindo os idosos em
carentes, dependentes, independentes, doentes, entre outros. O cuidado
torna-se heterogêneo e os vários sentidos da sua possibilidade de ação,
produzem ambigüidades.
6.1 O CUIDADO CARIDADE
Comentando sobre o primeiro, e o mais antigo cuidado observado, é
aquele que se apresenta sob a forma de caridade significa ir até o
passado, e resgatar o que de semelhante existe no cuidado prestado aos
primeiros moradores do asilo, que eram mendigos, e que hoje são idosos.
Tal cuidado era realizado por religiosas, pela Igreja Católica e por
voluntários. Esse tipo de cuidado tem um caráter espiritual, teológico e
que gera em quem lhe presta a certeza de está fazendo o bem, a alguém
necessitado.
Assim, trazemos um recorte do registro em nosso diário de campo,
onde presenciamos uma visita de religiosas, que denominamos Via
Sacra. Estava próximo da Semana Santa e, nesse dia, fomos visitar o
187
asilo, para realizar, como de costume, entrevistas para este estudo.
Percebemos que o pavilhão coletivo, onde seria realizada uma entrevista,
recebia a visita de mulheres, na maioria idosas, que pertenciam a um
grupo religioso. Todas estavam vestidas com uma camisa de cor verde,
que trazia a seguinte descrição: Grupo esperança: vida, maturidade e
dignidade- paróquia Jesus de Nazaré.
As mulheres desse grupo passavam pelo pavilhão distribuindo às
idosas, era um pavilhão só de mulheres, copos com salada de frutas.
Após essa distribuição, o grupo dirigiu-se até o final do pavilhão e
começou a encenação da Via Sacra da Paixão de Cristo. Rezavam,
cantavam e declamavam um livro, o qual todas seguiam. Algumas idosas,
residentes do pavilhão juntaram-se ao grupo e, também, participavam
cantando e rezando. Faziam gestos e sinais com o corpo, levavam uma
cruz que benzia os leitos e diziam palavras de oração, súplica,
agradecimentos e pedidos de perdão a Deus. Declamaram os 12 passos
da Via Sacra.
A idosa, que foi entrevistada, permaneceu sentada, e comentava
sobre a visita das religiosas, dizendo que não achava correto que idosas,
que falavam mal e que agrediam as pessoas, estivessem ali, rezando e
participando da Via Sacra.
Em nenhum momento os profissionais da instituição participaram
desse evento, e aquela manifestação iria a todos os pavilhões,
posteriormente. Já havíamos presenciado, antes, em outro pavilhão,
chamado de pensionato, onde as idosas têm quartos individuais, a
presença de um grupo de mulheres, que também convidavam as idosas
para rezar.
Nesse sentido, a religião, que se tem ou segue, passava, também,
pela observação dos demais idosos residentes do asilo e das pessoas,
que vão voluntariamente para as instituições, achando- se solidárias,
fazendo caridade como uma doação de amor. Mas, os comentários de
que os idosos são coitados e precisam de oração, é uma maneira forte de
demonstrar que eles estão necessitados e dependentes do perdão e amor
de Deus e, somente ele, pode livrá-los das seqüelas da velhice. A
proximidade da morte faz com que se tenha uma visão da velhice como
188
aquela que se tem da doença, e as visitas religiosas procuram amenizar
isso, através de rezas e orações.
Vê-se mais esse quadro nos hospitais, onde é constante a visita de
líderes religiosos, distribuição de panfletos, com dizeres bíblicos. Nos
hospitais, a doença é a vilã que precisa ser extirpada, retirada dos corpos
dos homens, das mulheres, das crianças e dos velhos. No asilo, é a
velhice que precisa ser amenizada, pelas demonstrações religiosas de
amor ao próximo e temor a Deus.
A religião foi definida por Friedrich Schleiermacher, como um
sentimento ou uma sensação de absoluta dependência. C.P. Tiele,
comenta que a religião significa a relação entre o homem e o poder sobre
– humano, no qual ele acredita ou pelo qual se sente dependente. Essa
relação, expressa-se em emoções especiais (confiança, medo), conceitos
(crença) e ações (culto e ética). (GAARDER; NOTAKER; HELLERN,
2000).
Assim como a velhice, a religião tem uma estreita relação com o
conceito de dependência. Na velhice, depende-se mais do outro,
geralmente, alguém mais jovem que pertence ou não a sua família, para
ajudar a fazer o que antes o idoso fazia sozinho; comer, vestir, andar,
sair. A crença em um ser supremo, também, condiciona a dependência do
perdão, da misericórdia e a sensação de medo da morte faz o velho
pensar muito sobre essa relação com a religião, com Deus.
Das religiões, o cristianismo tornou-se o mais difundido em todo o
mundo e, hoje, há três ramos principais da igreja: o primeiro é a igreja
católica romana, majoritária no sul da Europa e na América Latina, e tem
grandes minorias nos Estados Unidos e na África; seguida da igreja
Ortodoxa, centrada na Grécia e na Europa Oriental, e, por fim, as igrejas
protestantes, localizadas, sobretudo, no Norte da Europa, nos Estados
Unidos e na Austrália.
Reiteramos que a origem dos asilos tem marcada contribuição da
Igreja Católica, mas, hoje, vê-se que muitos seguidores de outras igrejas,
já estão freqüentando os asilos a fim de levar palavras de conforto e
oração aos idosos, principalmente os mais dependentes e que vivem nos
189
pavilhões coletivos. Estes parecem permitir mais a aproximação com as
religiões.
Por outro lado, as visitas de religiosas, algumas vezes, deixam os
idosos aborrecidos e com sentimento de não ter privacidade no lugar que
vive. Foi o que comentou o Sr. Valdemar:
Tem pessoas de várias religiões que vem aqui pregar. Aí
sentam aqui na nossa cama e perguntam: você acredita em
Deus? Aí eu fico muito irritado, já briguei muito por isso. Eu sou
católico, mas não sou carola, eu vou à Igreja da Piedade.
É a igreja católica que, ainda, se mantém mais presente no Asilo X. A
participação de irmãs de ordem religiosa é marcante, também em outros
asilos. O Asilo x tem nas freiras sua ligação mais formal com a Igreja
Católica. Os rituais religiosos são fortes e marcantes para a instituição,
isso porque, desde sua inauguração possuía em sua diretoria a presença
da Igreja Católica, ficando a assistência aos internados, mantida por ela.
A ela foi entregue a administração interna da casa, e sob sua
responsabilidade ficaram, também, os encargos de auxiliar o sacerdote no
ministério religioso e de colaborar no serviço médico como encarregadas
da enfermagem.
A história da responsabilidade da assistência e do cuidado aos
residentes nos asilos, desde sua origem, ser da igreja católica e as freiras
atuando como enfermeiras, leva a nos reportar à origem das santas casas
de misericórdia e à própria história da enfermagem. Foucault (1998)
comenta que o hospital, na Europa, desde a Idade Média, não era
concebido como um meio de cura. Até o século XVIII, o hospital voltavase para assistência aos pobres, mas, ao mesmo tempo era uma
instituição de separação e exclusão. Os pobres eram propagadores de
doenças e precisavam ser afastados da sociedade. Assim, a doença,
vista como um castigo, fazia com que os agentes que trabalhavam nos
hospitais tivessem de conseguir a salvação dos enfermos, e ninguém
melhor que pessoas ligadas ao religioso ou laico, para realizar obras de
misericórdia, garantido a salvação eterna.
190
O modelo religioso, seguido a época, torna-se cultural e, ainda hoje, é
mantido por algumas instituições hospitalares e casas para idosos,
mesmo que não estejam ligadas aos cuidados relacionados ao processo
saúde - doença, mas àqueles relacionados ao cuidado espiritual. No Asilo
X as freiras permanecem por mais tempo nos pavilhões coletivos,
principalmente naqueles em que os idosos são mais dependentes e
dentre os quais ressaltamos o pavilhão da espera, que tem característica
de enfermaria.
Observamos em uma de nossas visitas no Asilo X, que uma das
freiras da instituição como que “tomando conta”, cuidava de idosas que
estavam sentadas em cadeiras de roda em um dos pátios, tomando sol
pela manhã. A maioria das idosas não interagia, pareciam que estavam
envoltas em uma espécie de “nuvem de pensamentos”, como que em um
mundo particular, introspectivo, distante, que somente elas tinham a
possibilidade de entrar. Uma dessas idosas, sentada em sua cadeira de
rodas, teve o corpo inclinado de tal maneira que parecia cair. A freira
levantou-se e foi até o interior do pavilhão da espera para chamar um dos
técnicos de enfermagem a fim de levantar a idosa, retornou em seguida,
gesticulando como se estivesse reclamando da demora do atendimento, e
ela e a técnica ajeitaram o corpo da idosa, que, certamente, em poucos
minutos, já estaria novamente pendente, por que apenas ali estava uma
estrutura física, humana, sem controle de seus movimentos e mergulhada
na dependência.
Percebemos que o cuidado deve ser constantemente avaliado. A
cadeira dessa idosa, em particular, não era adequada para o seu caso,
não havia acessórios de segurança como cintos, entre outros. A queda
era uma possibilidade e o olhar dos técnicos deveria estar presente,
evitando maiores danos à saúde dessa idosa.
Voltando a discutir sobre a presença da religião na instituição,
percebemos que a cultura religiosa está arraigada nos símbolos de
santos, nas capelas e altares existentes. Em alguns pavilhões é notado
maior aproximação com imagens de santos e altares. Até mesmo, no
Asilo X, a presença da morte ao lado reflete a cultura da velhice que
191
necessita da misericórdia de Deus e da ajuda do outro, que tanto pode
ser familiares quanto voluntários.
Herédia et al (2005) realizaram estudo em uma instituição asilar e
comentam que o papel do voluntário, inicialmente, restringia-se a visitas
aos idosos, passando, posteriormente, ao papel de complementar à
assistência, na realização dos cuidados de saúde ao velho doente e,
antes de 1978, tinha ainda a função de inibir as agressões físicas e
preconceitos do zelador, principalmente, às pessoas de raça negra. Em
2000, nessa mesma instituição, iniciou-se a abertura e aceitação para
entrada de novos voluntários, relacionada à profissionais qualificados e
inexistentes na instituição, como médico, psicólogo, nutricionista e
fisioterapeuta. Esses profissionais desenvolviam atividades isoladas e, a
partir de 2003, passaram a ocupar, efetivamente, o organograma da
instituição.
No Asilo X, o voluntário tem um papel, em alguns casos, de
“procurador” do idoso, ou seja, recebe a aposentadoria no banco e trás
para ele. Além disso, faz compras quando o idoso não tem condições de
sair do asilo. Participam das festas, missas e eventos realizados pelo
asilo, sempre levando os idosos e incentivando-os para que participem e
se integrem. São pessoas “comuns”, que já tiveram parentes como
morador do asilo, ou que desejam prestar cuidado ao idoso,
principalmente do pavilhão coletivo, aos chamados de “carentes”. Não
notamos nos pavilhões coletivos, onde estão os idosos com maior
dependência, a figura do voluntário prestando cuidados, relacionados às
atividades diárias como banhos, alimentação entre outros, talvez por não
serem profissionais. No entanto, existem dois médicos geriatras que
atuam como voluntários em todo o asilo.
A figura do artista solidário, que realiza shows para os idosos,
também, é considerada como voluntário. Alguns funcionários integram o
grupo de eventos, atuando em peças e outras apresentações e, isso,
também, para a instituição conta como voluntariado. Alguns idosos
elegem seus próprios procuradores e, dentre eles, são funcionários do
Asilo X. Os idosos dão seus cartões e suas senhas e pedem que essas
pessoas retirem suas aposentadorias e façam suas compras. Esses
192
casos, anteriormente, eram considerados comuns. Porém, com o Estatuto
do idoso, o Asilo X tem levado mais a sério essas situações, pois o
Ministério Público solicitou a relação com os nomes das pessoas que são
procuradoras dos idosos e aquelas que permanecem com o cartão do
idoso, sem uma procuração oficial, devem responder por isto.
A identificação da caridade tem um lado preconceituoso em que
coloca o indivíduo como o ser que necessita pobrezinho, indefeso,
vulnerável e solitário. E, muitas vezes, a Igreja Católica vincula essa
necessidade ao pecado. Nesse sentido, o “cuidado caridade” ganha um
lado espiritual e ao se observar a missa, que vem sendo realizada nos
pavilhões, semanalmente, percebe-se essa relação, quando na ante sala do pavilhão os idosos reunidos, alguns sentados em cadeiras de
rodas, outros acomodados nas cadeiras e sofás do local, aguardam
ansiosos pelo padre. Enquanto isso, uma freira arruma o altar e quando o
padre chega há saudação com palmas e entoam um cântico que diz: boa
tarde, boa tarde, boa tarde, como vai como vai, como vai, estou bem com
você. O padre responde: que bom ver os meninos e meninas ali
aguardando a missa. Eis uma forma de cuidado espiritual que gera bem
estar e acolhimento para os idosos.
A caridade não está imbuída da responsabilidade com a vida do outro,
mas de uma ideologia, na maioria das vezes, cristã que, também, passa
pela crença da espiritualidade, pelo desejo de ser reconhecido ou por
esperar que fazendo o bem, também receberá o mesmo. Pode ser visto
como um ato de solidariedade ou de misericórdia, ao ver pessoas
abandonadas, precisando de afeto, alimentos ou quaisquer outras
necessidades.
Boff (1999) refere ser um dos arquétipos vivos do cuidado essencial a
religiosa católica Madre Tereza de Calcutá que afirmou ter escutado um
chamado divino para ajudar os pobres, vivendo no meio deles. Relembrar,
em nosso meio, a imagem da religiosa irmã Dulce, que também teve seu
reconhecimento pelo cuidado aos mais necessitados, entre eles - os
idosos, é um dos nossos referenciais de cuidado humano. Como marca
desse cuidado, encontramos o hospital Santo Antonio, a referência em
geriatria na cidade de Salvador – Bahia e o Abrigo de idosos, uma das
193
instituições existentes na cidade, que foi construído, e mantido por irmã
Dulce.
Os idosos, que demonstram esse lado “carente”, expressam
preocupação em não saber o que pode acontecer ao precisar de ajuda,
de cuidado e, logo, parece que, atrelado a isso, veem à possibilidade de
acontecer maus-tratos, em decorrência da falta ou negligência na
prestação do cuidado. A idosa Antonia refere-se a isso, quando comenta
que: “eu imagino quando ficar mais velha aqui, adoecer, porque na
velhice você pode ser bem tratada ou maltratada quem sabe é Jesus.
Então eu entrego muito a Jesus”. Em sua fala, a Sra. Antonia deixa
escapar o sentimento da fé e da necessidade de se apegar ao divino,
para diminuir sua angústia de estar asilada bem como a falta de
solidariedade dos seus familiares, que não aparecem para visitá-la.
Desvinculando a solidariedade, de ser apenas um ato de caridade,
procuramos analisar o conceito, segundo o que ocorre entre pessoas que
possuem laços de parentescos, como é o caso das famílias, e trazer o
que refere Durkheim (2000) sobre solidariedade social, a qual está corelacionada à idéia de ligação familiar, tratando a família como uma
microssociedade.
Nesta,
podem
ser
observados
os
modos
de
constituição, integração e interação, através da divisão de trabalho, de
acordo com a idade e o sexo.
Ao relacionar a solidariedade com um sistema de trocas entre as
gerações, Mauss (1988) comenta que a primeira tem sentido, quando a
desvinculamos da dívida que circula entre as gerações. Dessa maneira,
compreendemos que tudo o que os pais fizeram para seus filhos, torna-se
dívida, que esses têm para com eles. Assim, o que se espera dos filhos é
que retribuam, quando os pais estiverem idosos e dependentes.
Por outro lado, a noção de solidariedade, relacionada à proteção
social, é moderna, herdeira dos valores de caridade, assistência,
fraternidade, e a sua história confunde-se com a da industrialização, da
proteção social, da aposentadoria e da velhice. (ATTIAS-DONFUT, 1996)
Porém, não se pode conter as intempéries da vida e, embora para
aqueles que não vivenciam o asilo, estando protegidos de conhecer a
história de muitos idosos solitários e carentes dos seus antepassados,
194
resta-lhes a sorte de encontrar a caridade e, também, o cuidado informal,
que é importante para a simples sobrevivência.
6.2 CUIDADO INFORMAL
Segundo Waldow (2001), cuidar de modo informal, expressa-se de
duas formas: como um modo de sobreviver, fazendo-se notar em todas as
espécies e sexos. O segundo modo ocorre entre os seres humanos,
considerando a capacidade de comunicação com os outros. Sendo assim,
o cuidado é essencial, também, para as relações humanas e, porque não
dizer, para a sociabilidade, que se concretiza na vida em grupo.
No asilo acredita-se que, também, proporcione a sociabilidade entre
os idosos, pois nele, casamentos são realizados, amigos são (re)
encontrados e a possibilidade de reescrever a história de vida social se
faz presente. As atividades de lazer, os locais de convivência nas
instituições de longa permanência ajudam os idosos a sentirem-se
pertencentes a um grupo social, onde compartilham suas vidas.
Nesse sentido, a senhora Mandala relata:
Eu tenho uma cunhada que mora aqui há 30 e tantos anos. Eu
sempre dizia a essa cunhada que mora aqui ela mora na
pousada, eu aí dizia: - se eu perder seu irmão eu venho morar
aqui. Ela dizia venha mesmo que é muito gostoso, venha que
aqui é muito gostoso. Eu aí, vim, cheguei até aqui, acertei os
papéis, eles aceitaram e eu hoje em dia estou aqui muito feliz,
feliz, feliz.
Também o Sr. Cervantes mostra que já conhecia alguém que morava
no asilo antes de residir nele:
No dia 31 de agosto de 2005, eu vim aqui para participar de um
aniversário de uma idosa, que mora aqui, aí aqui chegando eu
já sabia da construção dessa pousada, pois tenho uma amiga
que mora aqui. Então nesse dia eu me sentei, por que aqui os
195
aniversários são comemorados na hora do lanche às 15 horas
e quando terminou, eu me sentei do lado de fora aí eu me
lembrei que vi os trabalhadores entrando aqui nesse pavilhão
que hoje chama pousada aí eu me lembrei que essa parenta
minha tinha falado mais na época eu não quis vir, aí eu disse
deixa ir dá uma olhada, eu entrei exatamente neste quarto eles
ainda estavam pintando, aí eu entrei, me vi aqui dentro e
gostei, aí nesse dia foi que eu tomei a decisão de vir morar
aqui.
O fato de conhecer outro morador no asilo faz com que a decisão de ir
morar em uma instituição para idosos seja mais rápida. Sentir que tem
pessoas já conhecidas no asilo dá maior segurança para o idoso, porque
assim, o espaço do asilo parece mais familiar e também será mais fácil ter
por perto pessoas com quem contar, caso necessite de maiores cuidados.
Além disso, é também uma forma de manter parte da sua identidade,
porque no asilo encontra-se uma pessoa de referência, e que tem a ver
com a sua biografia. É como se a vida tivesse uma continuidade, sendo
que em outro cenário. Isso também foi referido por senhor Possante:
Eu resolvi vir para aqui, já conhecia aqui desde 1970 e vim por
opção, já ajudei muito aqui na época que a instituição
precisava de doações, hoje, é independente, porque tem renda
própria. Eu vinha sempre aqui eu tinha um amigo que morava
aqui.
Dessa maneira, o cuidado esperado, que aqui definimos como
cuidado informal, traduz-se pela necessidade e busca de alguém que
assuma a função de cuidador. A família seria, pelos laços afetivos e de
sangue, quem mais se adequaria a essa função. Deveria prestar o
cuidado sem que cobrasse nada, havendo em troca, apenas, a empatia
com a velhice.
Porém, a família, por variados motivos, busca uma pessoa que não
faz parte do núcleo familiar para assumir esse papel. Assim, a figura do
cuidador já é assimilada, nos países desenvolvidos, como um parceiro da
equipe de saúde, mas isso não acontece no Brasil, apesar de existir no
documento da Política Nacional de Saúde do Idoso, regulamentada pela
portaria nº 1.395 de dezembro de 1999, a ênfase na importância de
196
estabelecer uma parceria entre profissionais de saúde e cuidadores
informais9. GRUNDY (1998) comenta que na Inglaterra, estima-se que
mais de seis milhões de pessoas sejam cuidadoras de pessoas
dependentes, em sua maioria idosos.
No asilo, o voluntário também pode ser classificado como um cuidador
informal, pois não sendo capacitado profissionalmente, para assumir um
papel formal, tem a capacidade da experiência da vida, da disponibilidade
de se identificar com a velhice e dedicar alguns minutos do seu dia, para
isso.
6.3 CUIDADO PROFISSIONAL
O cuidado profissional, em uma instituição para idosos, está firmado
na
figura
dos
fisioterapeutas,
profissionais
auxiliares
de
de
saúde:
médicos,
enfermagem,
enfermeiros,
assistentes
sociais,
farmacêuticos e psicólogos. Conforme comenta Ward-Griffin (2003), esse
cuidado pode ser chamado, nos países desenvolvidos, de cuidado formal,
sendo oferecido pelos serviços de saúde. Mas, a instituição de longa
permanência não é um serviço de saúde, apesar do conceito de saúde ter
sido ampliado e não se referir apenas à ausência de doença. Então, o
cuidado aos idosos é um cuidado formal ou continuará a ser visto como
um cuidado caritativo? Ou de assistência social?
Assim, o cuidado profissional surge, na sociedade, como uma
necessidade de especializar, controlar, classificar, enfim, dar ordem as
coisas. Com ele fica mais fácil prescrever as normas do cuidado e dar
limites ao indivíduo, no sentido de agir pela razão. Diferente do cuidado
caridade, que é apelativo e seu controle ocorre através da obrigação para
com o divino e não para com o mercado produtivo.
No Asilo X, os pavilhões, pousadas e pensionatos ficam sob a
responsabilidade de supervisoras que são técnicas de enfermagem e,
9
Além disso, a portaria nº 703/ GM/ 2002 propõe um programa de assistência aos portadores da doença de Alzheimer
e suporte aos seus familiares no âmbito do sistema Único de Saúde- SUS.
197
ainda, são coordenados por “encarregadas” para os pavilhões coletivos
femininos e para os masculinos, esses funcionários organizam e
supervisionam o cuidado prestado pelas (os) cuidadoras (es). Para o
cuidado direto ao idoso, existe em média o número de dois a três
cuidadores, que visam atender todos os idosos de um pavilhão coletivo,
os quais variam entre 30 a 50 idosos. As supervisoras e os supervisores
cumprem um ritual de cuidado. Todos os dias passam no leito dos idosos
dos pavilhões, com uma prancheta nas mãos, perguntando sobre sono,
apetite, eliminações, entre outras coisas. Observam algum sinal ou
sintoma, comentado pelos idosos e idosas, e quando detectam alguma
alteração, relatam a médica da instituição, para que ela tome as devidas
providências.
Para trabalhar junto às mulheres idosas, são contratadas cuidadoras e
os
cuidadores
homens
atuam
nos
pavilhões
masculinos,
mas
encontramos também cuidadoras no pavilhão masculino, o que vem
demonstrar que as mulheres podem prestar cuidado tanto aos idosos
quanto às idosas. Isso, configura uma questão de gênero, no sentido de
ser a mulher quem mais está preparada para cuidar. Boff (1999, p. 167)
refere, que: figuras existem que concentram e irradiam cuidado de
maneira privilegiada: nossas mães e as mães de nossas mães, as nossas
avós. Não precisamos detalhar essa experiência. Ela é fontal em cada
pessoa, pois o primeiro continente que a criança conhece é a sua própria
mãe. Esse pensamento reforça as relações do cuidado como um modo de
ser da mulher.
Nos pensionatos e pousadas, as cuidadoras permanecem durante o
dia, ficando os idosos à noite apenas com o suporte da supervisora desse
turno. Essas profissionais são, também, técnicos de enfermagem, porém,
na instituição, têm a função de cuidadores e percebem pelo seu trabalho
o correspondente a um salário mínimo. Além disso, há idosos que podem
pagar para dispor de cuidadores informais, cuja responsabilidade pela
escolha e a remuneração é dos seus familiares.
O pavilhão da espera recebe idosos homens e mulheres, que têm
problemas de saúde e precisam de maiores cuidados. Nesse local não há
divisão de sexos, parece-nos mesmo, que a doença instalada e a
198
proximidade com a morte unificam os gêneros e, ambos, aguardam o
mesmo final. No pavilhão existem duas enfermeiras, que se revezam
entre os turnos matutinos e vespertinos, além de três a quatro técnicos de
enfermagem, homens e mulheres, que cumprem escala de trabalho como
se estivessem em uma unidade hospitalar.
Além desses profissionais, diretamente ligados ao cuidado com a
saúde do idoso, encontramos outros, que são responsáveis pelas funções
administrativas,
funcionários
da
limpeza,
vigilantes,
assim
como
profissionais que trabalham na cozinha e na lavanderia.
Os médicos são clínicos e atendem no período da manhã, ficando de
sobreaviso caso haja alguma intercorrência. Existem, ainda, dois médicos
voluntários, sendo que um deles é geriatra. Em caso de emergência, é
acionado o serviço de ambulância (SAMU). As enfermeiras estão no asilo
todos os dias, em turnos distintos manhã e tarde, exceto aos domingos.
Os fisioterapeutas, a psicóloga, e as duas terapeutas ocupacionais
também trabalham em turnos distintos, enquanto a odontóloga atende
todos os dias. O serviço social conta com duas assistentes sociais que se
dividem entre o período da manhã e da tarde. Durante nossa pesquisa
vimos passar pelo Asilo X, cinco assistentes sociais e, ao final dela,
apenas uma permaneceu na instituição, as demais foram demitidas.
Sobre o cuidado oferecido pelos profissionais de saúde o senhor
Possante referiu:
Aqui o médico chama. Se passar um mês sem ir lá eles
chamam. O dentista, se passar seis meses sem ir, eles
chamam para fazer uma revisão. Quando eu vou a qualquer
procedimento fora, eu trago para o médico daqui tomar
conhecimento, trago os exames e eles anotam. Eu faço
fisioterapia, hidroterapia duas vezes por semana, não é
obrigado, mas eu vou.
Ainda, durante a pesquisa de campo, observamos que a relação entre
os profissionais e os idosos é construída por uma série de conflitos e a
postura de alguns desses profissionais para com eles passa pelo
questionamento e algumas vezes pela afirmação de que os idosos da
199
instituição são “desorientados”, estão “caducando”, são “briguentos” e
difíceis de lidar. Goffman (1999) comenta que em todas as instituições
totais existem estereótipos formados em relação aos internos, e destes
para com os funcionários e dirigentes da instituição:
Cada agrupamento tende a conceber o outro através de
estereótipos limitados e hostis- a equipe dirigente muitas vezes
vê o interno como amargos, reservados e não merecedores de
confiança; os internos muitas vezes vêem os dirigentes como
condescendentes, arbitrários e mesquinhos. Os participantes
da equipe dirigente tendem a sentirem-se superiores e
corretos; os internos tendem, pelo menos sob alguns aspectos,
a
sentirem-se
inferiores,
fracos,
censuráveis
e
culpados”.(GOFFMAN, 1999, p. 19)
Na sua fala, o senhor Cervantes acrescenta elementos em relação às
estereótipos e ao tipo de relações entre o corpo dirigente e os internos:
Uma das assistentes sociais, ela até já saiu daqui, me chamou.
Eu mantenho um diálogo muito bom com elas. Seu Cervantes
o que houve que o senhor está rebelde? Eu já sabia o que era.
Eu disse: - rebelde por quê? A medicação. Ela disse. Eu disse:nada de rebeldia eu apenas tomei a decisão de não querer
mais que meu remédio ficasse na casa, porque quem compra
meu remédio sou eu, quem vai para o médico sou eu, eu vou
para o médico sozinho, não vou com ninguém, filho, eu vou
comprar meu remédio e não me sinto bem de entregar a uma
cuidadora que eu não sou nenhum débil mental, portanto, de
agora em diante, pode falar com o diretor diga a ele que se for
o caso ele me chama, porque aí eu vou expor a ele porque eu
estou tomando esta decisão.
Os estereótipos relacionados à velhice fazem parte do imaginário das
pessoas. Velho, geralmente, quer dizer pessoa que usa óculos, bengala,
tem cabelos brancos, encontra-se sentada na cadeira de balanço, faz
tricô, tem alguma doença e espera a morte. Assim ocorre nas estórias
infantis:
200
Numa casinha branca, lá no Sitio do Pica Pau Amarelo, mora
uma velha de mais de sessenta anos. Quem passa pela
estrada e a vê na varanda, de cestinha de costura ao colo e
óculos de ouro na ponta do nariz, segue seu caminho
pensando: que tristeza viver assim tão sozinha neste deserto...
(LOBATO, 2007, p. 12)
Com
o
passar
dos
anos,
os
estereótipos
relacionados
ao
envelhecimento, segundo comenta Camarano (2004), têm sido revistos e
novas terminologias e conceitos estão surgindo para classificar essa fase
da vida.
Para alguns idosos entrevistados, a velhice é significada como:
Uma tristeza, mas por enquanto para mim eu não estou
achando mal. À velhice minha filha, eu vejo a velhice aqui,
cada uma pesada, aquela mesmo é uma velhice pesada.
(Sorriu). Oh coitada! Oh minha filha! Porque não tem ninguém
assim não é? Como eu não tenho, mas eu tenho Jesus.
(Antonia)
É uma conotação negativa da velhice, voltada para a falta de pessoas
próximas, que podem ser familiares, companheiros, filhos e amigos. Mas,
também, notamos que a fala mostra a velhice dos outros atrelada à
negatividade, e não a do próprio sujeito.
Por outro lado, a maneira natural, também é uma forma de significar a
velhice, como um ciclo da vida. É o que referiu os idosos em suas falas,
abaixo destacadas.
A velhice é conseqüência da mocidade. É a continuidade da
nossa vida, tem a nossa fase de criança, de mocidade, de 30,
40 anos que eu fui muito feliz com meu marido, passeava,
ficava. Não havia ciúme nem dele para mim nem de mim para
ele, agora estou na velhice com meu marido ótimo, ele me faz
todas as vontades, se eu quero isso ele faz, agora se ele tem
alguma vontade eu não faço. (Srª Silvano)
A velhice é uma conseqüência da vida e nós temos que
raciocinar que é uma conseqüência da vida não ter medo da
morte, porque todo mundo morre e ficar dizendo que porque
está velho vai morrer. No dia que chegar chegou, eu vejo a
idade normal, eu vivo o dia, alegre (...). Ser velho é aceitar a
201
sua vida não se mal dizer, não pensar que a idade é uma
doença, procurar ter a mente sadia.(Possante)
Entretanto, também, vemos a necessidade de preparo para que essa
fase chegue sem tantos problemas. São receitas para envelhecer de
maneira saudável: “Para isso eu leio, eu assisto programas que ajudam,
não fumo, não bebo, não tenho pensamentos negativos” (Senhor
Possante)
Senhor Cervantes revela como se preparou para a velhice:
A palavra velho e idoso é totalmente diferente eu acho, mas só
que eu costumo dizer, que eu acho particularmente que soube
me preparar para a velhice, tenho certeza absoluta, porque
quando fui criança soube viver como criança, quando fui jovem,
como jovem, adulto e tal, conforme lhe falei me casei cedo,
convivi muito tempo, tive três filhos e sempre eu fui aquele
homem do trabalho para casa, de casa para o trabalho. Nunca
gostei de noitadas e minha esposa também. Não e me parece
que, com isso, pelo fato de eu sempre ter sido uma pessoa
acomodada hoje tiro vantagens disso e outra coisa que eu me
orgulho muito e que eu sempre gostei de fazer e preservar
amizades. E o engraçado é que as minhas amizades quando
eu era jovem, novo ainda, sempre foi com pessoas idosas eu
sempre gostei e, por isso, que quando eu vim morar aqui eu
disse para meus filhos tem tudo para dar certo porque eu gosto
de lidar com idoso eu já sou idoso e, graças a Deus, eu vim e
deu certo. Agora, há uma velhice que acho nem todo mundo
está preparado, primeiro a gente sabe que o idoso sofre muito
preconceito a começar por dentro de casa, além do
preconceito, ele também eu vejo, eu leio muito, vejo televisão
ele também é explorado pelos próprios filhos, netos etc
Outra idosa depós no mesmo sentido, reafirmando os valores
positivos da velhice:
Ser idoso é um privilegio. É uma bênção viver como eu vivo.
Aceitar a velhice, porque posso lhe dizer não sou doente, não
tenho problemas, não tenho problemas financeiros. Ser velho,
entrar nessa faixa de idade tem muitos que não querem
aceitar, não querem aceitar se sentem rejeitados, se sentem
abandonados, mas só vai depender da cabeça deles
(Mandala).
202
As diferentes concepções sobre a velhice, na visão do idoso que
reside no asilo, nos traz uma interpretação do seu passado e do presente.
Eles evocam a juventude e o que acontece na sociedade para falar sobre
ela.
[...] A juventude, a vida passada tem uns tabus. Tinha coisas
incríveis que não tinha razão para acontecer. [...] A sociedade
não se desenvolveu, educando seu povo. O mais crítico é essa
parte e, muitas vezes, um rapaz de periferia, eu sei por que
trabalhei, eu tenho certeza porque eu trabalhei no crime trinta
anos. Pode até fazer o segundo grau, ter ido para a escola,
mas não arranja emprego e ver os outros comprando, se
divertindo e ele rejeitado na periferia e ele é seduzido sempre,
isso é verídico. Eles aceitam fazer o crime por qualquer
dinheiro. As mudanças na sociedade trouxeram muitas coisas
ruins é um contraste, o progresso é uma maravilha. Não sei se
a violência ainda tem um fim, eu acho... A violência contra o
velho eu não vejo falar muito, eu exerço os meus direitos, mas
eu não sou muito vítima da violência contra o idoso. Por
exemplo, no ônibus eu vejo às vezes uma pessoa que
trabalhou no comércio o dia todo em pé e oferece o assento,
eu muitas vezes não aceito não é recusando, mas eu vejo que
a pessoa já estava sentada, eu não sou muito de perceber.
Também, a gente tem que ver o lado de cada um. Eu fico
sentido, porque a pessoa não me deu o lugar.
Assim, o senhor Possante demonstrou ter consciência política sobre a
situação da sociedade moderna. O contraste das condições sociais, o
apelo pelo consumismo e o individualismo presentes na vida. Aponta a
importância de adquirir informações sobre os direitos do idoso, para que
possa reivindicar, porém enfatiza a necessidade de não exagerar nas
reivindicações e da garantia e segurança para o idoso exercer sua
cidadania:
Eu gosto de reivindicar em locais que eu tenha garantia. Uma
vez eu revolucionei em Fortaleza, porque a caixa não conhecia
o direito do velho ter preferência. Eu disse:- moça onde está o
caixa preferencial para o idoso? Ela disse:- aqui não tem isso
não. Eu disse:- como não? É uma lei. Isso tem uns dez anos, o
pessoal atrás da fila não sabia, mas um rapaz que era
advogado disse:- o senhor tem razão o banco deveria saber.
203
Admira a senhora, caixa de um banco Bradesco não saber um
direito do idoso isso é uma lei constituída, art. 223, parágrafo 3º
da constituição e aí ficaram sabendo. Os idosos foram saindo
de lá de traz, então, nesse caso, eu vi que a lei me garantia.
Não vou reivindicar em um local, onde não tenho segurança.
Mas, é a imagem da doença, da limitação, da dependência física que
são fontes inspiradoras dos estereótipos que lhes são atribuídos não só
pelos outros, mas por eles mesmos. Quando os desentendimentos
acontecem, os estereótipos são usados para identificar os idosos e as
idosas que provocaram briga ou para justificar a situação.
No começo, que eu cheguei, logo quando eu comecei a gostar
desse rapaz, aí vem aquele ciumisinho, mas são aquelas
pobrezinhas doentes, eu chamo de pobrezinha, doente que
não tem condição, não tem diálogo, então o negócio delas é
ficar fofocando, tricotando, eu não dei importância. (Mandala)
Camarano (2004) ressalta que a visão tradicional de dependência dos
idosos foi ampliada, e, hoje, extrapolou os aspectos puramente biológicos
do aumento das limitações físicas, neles foi incorporado o aspecto do
trabalho e da estrutura social.
Porém, os aspectos biológicos, ainda, são os mais enfatizados. Na
fala da senhora Antonia a velhice e a loucura encontram-se no mesmo
local, ou seja, no asilo, lugar destinado aos diferentes. É o estereótipo do
asilo, que está arraigado de preconceito, faz a velhice parecer loucura,
desde a concepção dos próprios dirigentes: “Aqui tudo que se faz de
errado dizem que é doida. Então eu acho que não seja doida, se fosse
doida estava no asilo não é?” (Antonia)
Em contraponto à imagem de si, e para demarcar a posição de
pessoa lúcida, existem discriminações entre os próprios internos, como se
pode apreciar na declaração abaixo:
Essa mulher não era para está aqui, essa mulher era para está
num asilo?(risos). É porque o asilo é um lugar de doido, (risos).
204
Ela parece que é doida, o lugar aonde ela chega é para jogar
praga, isso é coisa de uma pessoa doida não é? Eu já visitei
muito, esqueci o nome, onde ficava o doido, um grande amigo
meu trabalhava lá, e eu me dava muito com ele, fui uma vez
visitar a chamado dele viu. Vá dona Antonia vá lá para senhora
ver lá é bom, graças a Deus eu fui e eu achei os doidos tudo
calmo, ninguém andava brigando nem xingando, nem
desejando mal, viu. Então, eu acho é bom. Não que eu queira,
que Jesus me livre muito de lá, que me deixe aqui. Você me
acha lúcida? Então muito obrigada. (Antonia)
Fora dos muros da instituição, o preconceito vai se alargando e não
deixa de incomodar e marcar a vida do idoso, que vive no asilo. Assim,
refere-se sobre esse tema, o senhor Cervantes:
Eu tive um relacionamento que não deu certo porque apareceu
um complicador, a família dela. Família preconceituosa. Eu fui
observando e vendo que essa pessoa não me assumia por
completo perante a família dela, porque ela já sabia do
preconceito, até que um dia a empregada dela esteve aqui aí
eu fiz uma coisa que... Mas eu tinha que fazer aquilo para ter
certeza pois eu observava que havia muita briga, muito atrito
entre ela e o filho por causa de dinheiro aí, essa menina veio
aqui, ela estava sentada neste lugar eu disse: - oh! qual é o
problema entre ela e o filho é por causa de dinheiro não é? Ela
aí balançou a cabeça eu disse:- mas ela me disse que ela é
independente, que tem a aposentadoria dela muito boa. Ela
disse: é seu Cervantes eu sei, mas acontece que ela gasta
muito, gasta acima do que pode e o irmão dela ajuda ela, mas
o filho quer controlar ela. Eu sei que conversa vai conversa
vem e eu tinha percebido algumas coisas em relação a mim,
mas não tinha certeza, tive nesse dia, nessa hora e a queima
roupa eu perguntei a ela e ela me contou, que o filho dela, teve
lá foi uma briga feia ele tirou o extrato bancário ele estava com
cartão e a senha dela e verificou que ela fez um saque de
600,00 e foi lá questionar com ela e ela não disse para o que
era e conversa vai conversa vem. Eu já esperava o que ela ia
dizer aí e só esperando, aí ele a apertou, ela não falou nada,
ele disse eu sei a senhora não quer me falar nada, mas esse
dinheiro a senhora entregou para o abrigado, que era eu.
O preconceito impede o idoso de viver livremente e de reconstruir sua
história. É como se no asilo estivessem os velhos que não são
socialmente aceitos e, por isso, ganham apelidos pejorativos e tendem a
perder sua identidade social.
205
Certamente, em qualquer contato entre humanos há relações de poder
e, isso, também, está presente quando se cuida ou se é cuidado.
Geralmente, o cuidador é quem mais se investe de poder, ou seja, parece
que em suas mãos está a decisão do cuidado, porém, também ser, objeto
do cuidado emite sinais de poder, quando se rejeita ou não se colabora
com o cuidador.
Pires (2005: p. 732) aborda o cuidado como uma ação de ajuda e
refere que, certamente, o poder está envolvido nessa relação, mas que:
como todo o poder que se preza em manter-se forte, a ajuda atua por
mecanismos camuflatórios, lançando-se mão de apelos, pretensamente
morais, para consolidar sua hegemonia.
Exclusivamente, quando a família está ausente, a dependência do
cuidado profissional faz os idosos lamentar a velhice e sua ida para o
asilo. Está em meio à família, aos filhos que um dia teve, mas que por
força da vida os perdeu, compreende, o que Attias Donfit (1991) comenta
que faz parte de acontecimentos do curso da vida e leva a recordações
do passado, da juventude, da vida entre os parentes e amigos e de hoje
viver na solidão.
O cuidado é pensado pelos profissionais de saúde como uma ação
técnica e mecânica, e quando isso acontece, notadamente, traz o olhar
reducionista para uma ação humana, que é intrínseca a qualquer
indivíduo. No asilo este é realizado através de ações como: higiene
(banho de idosos dependentes, auxílio ou ajuda a idosos parcialmente
dependentes,
troca
de
fraldas)
prescrição
e
administração
de
medicações, alimentação, apoio e auxílio nas atividades de lazer, na
locomoção e, sobretudo, na observação da evolução das condições dos
idosos que, estando no confinamento do asilo e sem a presença da
família, podem deprimir e evoluir com prognóstico não de um
envelhecimento ativo, mas de uma velhice sombria.
Dessa maneira, ressaltamos aqui, dois aspectos encontrados nos
resultados do estudo, que devem ser considerados em relação à violência
contra idosos: a administração e prescrição de medicações e as quedas e
traumas físicos, sofridos pelos idosos. Nesses casos, no cuidado com os
206
idosos institucionalizados deve ser dada a maior importância, pois podem
levar a intercorrências e até mesmo a morte do idoso.
Esses dois aspectos do cuidado com o idoso (as quedas e a
administração de medicações) podem ser percebidos como negligência,
sendo definida pela recusa ou à omissão de cuidados devidos e
necessários aos idosos, por parte dos responsáveis, familiares ou
institucionais. A negligência é uma das formas de violência contra os
idosos mais presentes no País, e não ocorre apenas nas instituições
asilares, pois começa no domicilio do idoso. Ela se manifesta,
freqüentemente, associada a outros abusos, que geram lesões e traumas
físicos, emocionais e sociais, em particular, para aqueles que se
encontram em situação de múltipla dependência ou incapacidade.
(BRASIL, 2001)
Os tipos de negligência que foram facilmente observadas, neste
estudo, foram, sobretudo, as quedas freqüentes e suas conseqüências
para os idosos residentes na instituição. Assim, muitas mortes em
instituições
asilares
são
atribuídas
a
causas
naturais,
porém,
freqüentemente, estão associadas à falta de cuidados adequados para
com os idosos, possivelmente, favorecendo os acidentes e com
conseqüências fatais.
A queda é uma das maiores causas de mortalidade e morbidade entre
os mais velhos e precisa ser mais bem tratada pelas instituições de longa
permanência através de medidas de proteção, promoção e de reabilitação
ao idoso vítima dessa intercorrência. Segundo estudo realizado entre
1980 a 2000 sobre a tendência de mortalidade entre os idosos a queda é
referida como causas externas e predomina entre as idosas atreladas a
evento de intenção indeterminada. Para os homens as causas externas
estão relacionadas a atropelamentos e acidentes de transito (LIMA –
COSTA; PEIXOTO; GIATTI, 2004).
O termo causas externas não dá visibilidade à emergência das
quedas ocorridas no interior dos domicílios e instituições de longa
permanência nem tão pouco coloca em evidência a intencionalidade da
ocorrência. Devido a isso, procuramos enfatizar as quedas como uma das
expressões de violência a que os idosos asilados estão sujeitos e que não
207
deixa vestígios de quem seria o agente causador dessa violência. A
expressão externa parece afastar a gravidade da situação, como se a
ocorrência de quedas não pudesse ser prevenida.
Essa ocorrência é uma das que mais acomete e torna o idoso
dependente o que se deve dar maior atenção para as estruturas físicas
dos domicílios e locais onde vivem idosos incluindo neles os asilos.
Adequar pisos, colocar corrimão para facilitar o acesso e proporcionar
maior segurança entre outras são medidas prioritárias e que se
encontram descritas na portaria n° 810/GM/MS, de 22 de setembro de
1989.
Várias são as razões relacionadas à suscetibilidade dos idosos às
quedas como: deficiência visual, doenças que afetam a locomoção e o
equilíbrio, alterações hormonais, sendo estas mais observadas nas
mulheres e, portanto, elas são as maiores vítimas das quedas na velhice
decorridas de osteoporose que pode levar a principalmente fraturas de
fêmur e da região transtrocantériaca. Além disso, podemos atribuir as
quedas ao uso de medicações que abaixam a pressão e podem levar a
tonturas, além de urgências urinárias e a dificuldade de levantar-se para ir
ao sanitário.
É ainda importante ressaltar fatores relacionados ao uso, pelos
idosos, de calçados inadequados, como os chinelos, que são mais
confortáveis que os sapatos fechados, mas que ocasionam riscos para as
quedas, pois não oferecem apoio em relação ao piso.
As quedas podem ser evitadas e a avaliação dos idosos com maior
risco para essa situação, que é uma emergência pela gravidade das
conseqüências que pode causar, é fundamental e isso pode ocorrer com
a ajuda de instrumentos como os protocolos. Na instituição pesquisada
não há protocolos de queda para os idosos, no entanto, elas são
freqüentes, conforme eles mesmos mencionam:
Eu vim para aqui boa, com minhas pernas forte, a mulher me
empurrou, eu tomei um medo de cair, porque foi uma queda
horrorosa. Eu fui telefonar, o telefone era lá embaixo, eu fui
telefonar para uma das minhas netas, quando eu volto não
208
estou sabendo que ela era malvada, ela tava em pé assim e eu
fui passando de junto dela e ela aí me empurrou. Minha filha eu
caí, levei assim uma queda assim de costa. Pensei até que já
estava morta, porque não perdi o juízo não, não perdi o
sentido, tanta gente de junto de mim, me pegaram, me levaram
lá para enfermaria, lá me examinaram não estava sentindo
nada, fiquei lá uma porção de dias com muito cuidado, mas
fiquei com uma dor nas costas horrorosa. (Antonia)
Nesse relato, observamos que a queda não foi acidental, mas
propositadamente provocada. Dessa maneira, uma questão a se pensar
sobre as expressões de violência no asilo é a intencionalidade do ato. No
presente estudo não temos o objetivo de discutir com profundidade esse
tema, no entanto levantamos uma reflexão a cerca do mesmo, de modo a
ajudar a identificar as expressões de violência na instituição.
A intencionalidade é definida por Searle (1995), como a propriedade
de muitos estados e eventos mentais, pelos quais estes são dirigidos
para, ou acerca de objetos e estados de coisas no mundo. Assim, o
empurrão sofrido por dona Antonia foi direcionado para ela, porém fica
difícil afirmar que esse ato foi consciente. Sobre isso, Searle (1995) refere
que intencionalidade não é a mesma coisa que consciência, apesar deles
se sobreporem.
A consciência é a percepção do que se passa em nós e ao nosso
redor. A dificuldade de julgar se a idosa que provocou a queda estava
consciente ou não do seu ato torna-se mais difícil de ser julgado, pois
essa residente encontrava-se todo o tempo alheia, absorta, distraída.
Fazia uso de medicações psiquiátricas e a senhora Antonia nos relatou
que os cuidadores da instituição justificaram como seu ato, a loucura.
No asilo as quedas também podem acontecer por outras causas. O
relato abaixo demonstra um episódio de queda acidental, ocorrida durante
uma atividade cotidiana, comum principalmente entre as mulheres.
Nesse braço tomei uma queda dando comida a bicho,
escorreguei e cair, me segurei nas plantas, mas não tinha
apoio. Todo mundo me perguntou como eu me levantei porque
sabe que toda pessoa idosa tem dificuldade para levantar, mas
eu me levantei Deus me ajudou. Chamei uma pessoa daqui e
pronto (Srª Silvano).
209
Ainda, no período que realizamos esta pesquisa a senhora Antonia foi
mais uma vez, vitimada por queda. No próprio pavilhão aonde ela vive.
como já possuía limitação, movimentando-se com a ajuda de andador,
tropeçou e caiu junto à cama de alvenaria, de uma das suas
companheiras de quadra. Dessa vez, não só a limitação já existente, mas,
também, as estruturas não aconselháveis para pessoas idosas, como as
camas de alvenaria, fizeram-na sofrer um traumatismo na região da
cabeça, com corte, sendo transferida para o pavilhão da espera, onde
levou alguns pontos e depois retornou ao pavilhão coletivo.
Quando indagada sobre a queda que a Srª Antonia sofreu, a
assistente social não soube informar. Como não estava informada sobre o
fato, buscou o livro de ocorrência, ligou para a coordenadora do pavilhão
e, notadamente, ficou desconcertada por não saber acerca de uma
situação tão importante. Isto nos leva a crer que, muitas vezes,
acontecimentos como esse são negligenciados no asilo.
A limitação, relacionada à diminuição da mobilidade e locomoção no
idoso, é uma das causas de queda, que faz com que ele fique, ainda
mais, dependente e vulnerável aos maus tratos. A mobilidade, no sentido
físico, requer muita paciência dos jovens, que se encontram em uma fase
da vida que faz tudo com muita rapidez. O idoso já não pode mais correr,
andar rápido e se movimentar como antes, e todas as estruturas do seu
aparelho locomotor são atingidas, ocorrendo alterações na estrutura
óssea, músculo, articulações, tendões e várias outras regiões do
organismo.
A senhora Antonia nos contou que:
[...] Já fui fazer terapia, pois eu faço viu! Teve uma senhora
aqui, aqui nesse lugar, tem muita gente malvada, a mulher me
empurrou, lá vai ela aí olhe, eu cai, não quebrou braço, não
quebrou perna, eu fiquei sem ânimo nas pernas para andar, eu
ando com isso (andador).
210
Essa fala retrata que a sua dificuldade de caminhar foi ocasionada por
outra idosa residente, quando a senhora Antonia chegou ao asilo e
andava sem dificuldades sendo, portanto, esse um quadro de violência
física, quando a idosa lhe empurrou, provocando seqüelas e contribuindo
para o acúmulo de limitações e doenças, relacionadas ao seu aparelho
locomotor.
Os andadores, as bengalas e as cadeiras de rodas são instrumentos
que fazem parte do dia-a-dia do idoso, ajudam na locomoção, mas, ainda
assim constituem-se em empecilho para a movimentação do idoso, que
necessita de ajuda dos seus cuidadores. O relato de dona Antonia, sobre
como os funcionários tratavam-na, quando precisa usar a cadeira de
rodas para se locomover com maior rapidez para algum outro local dentro
da instituição, demonstra-nos o contraste do cuidado com o idoso
dependente. “[...] elas me levaram na cadeira de rodas por causa das
pernas que eu não ando direito. Só ontem é que não foram elas, foi outra.
Eu não fui na cadeira de rodas, eu fui nessa andadeira até lá.”
A assistente social nos relatou que, uma das idosas que viviam no
pavilhão coletivo, ativa e parcialmente dependente, foi vitimada por queda
e a posição do asilo, quando ocorreu esse fato foi a de levar a idosa para
o pavilhão da espera, porque lá a equipe permanece mais tempo,
mantendo-a sob observação. Além disso, tem enfermeira no período
diurno. O pavilhão da espera apesar de ter cuidadores que ficam mais
atentos aos idosos, exatamente por ser um local onde eles são
colocados, por apresentarem problemas de saúde, está longe de ser um
local adequado e com infra-estrutura para o cuidado aos idosos vítimas
de quedas, que, muitas vezes, evoluem para o agravo dos traumatismos,
tornando-se uma situação de emergência, que requer cuidados
especializados e exames. Assim, seria necessário um suporte hospitalar,
a fim de evitar a negligência no cuidado e a morte, em conseqüência de
acidentes.
A prevenção de quedas, no asilo, deve ser realizada e orientada entre
todos os idosos e cuidadores. Nas instituições de longa permanência,
Timby (2001) refere que as intervenções usadas para prevenir as quedas
incluem, muitas vezes, os limitadores físicos e, em certos casos, até
211
mesmo, os químicos. Sobre isso, Barros Filho; Napoli (2000) comentam
que se devem evitar tratamentos em que o idoso seja mantido no leito por
muito tempo, o que pode levar a outros problemas como úlceras de
pressão e acúmulo de secreções pulmonares, favorecendo a bronco
pneumonia.
A negligência no nosso entendimento, vai além da recusa ou omissão
de cuidados. Ela está associada, também, à recusa da escuta e do
acolhimento ao idoso, quando ele necessita expressar suas queixas e
expectativas. As relações entre os cuidadores e os idosos aparentam ser
mecânicas e tarefeiras, como para o cumprimento apenas das atividades
diárias
desconsiderando
relações
humanizadas
e
afetivas.
Essa
observação não é extensiva a todos os cuidadores, porque alguns deles
interagem com os idosos. Parece haver vínculos afetivos entre eles.
Essa forma de violência manifesta-se na fala de alguns idosos, como
a da senhora Antonia:
Essa semana, uma funcionária (da limpeza) chegou e me disse
assim, essas que lava chão, porque tem todo tipo de gente,
viu? Ela me olhou atravessado assim comigo, porque
mandaram ela me levar na cadeira de rodas lá na terapia, eu
disse:- “oh Meu deus! logo essa que não gosta de mim!” Aí
outra disse:- “Também a senhora não dá nada a ninguém.” Eu
disse:- “não dou, nem vou dar filha”. Elas ganham para
trabalhar e além de ganhar, são brutas.
Em uma instituição asilar de grande porte como é o caso do Asilo X,
com muitos idosos residentes, o número de funcionários deveria ser
maior, evitando o deslocamento daqueles que são contratados para
realizar outras atividades como higienização e serviços gerais para cuidar
diretamente dos idosos. O cuidado ao idoso deve sempre ser realizado
por alguém capacitado para tal e o ato de empurrar uma cadeira de rodas
pode parecer banal, mas é um procedimento considerado importante,
pois, esse cuidado começa desde o momento em que o indivíduo é
colocado na cadeira, e continua com as manobras de deslocamento
desta.
212
Assim, os cuidados com pessoas que utilizam cadeiras de rodas é um
importante aspecto a ser visto pelas instituições de longa permanência.
Os obstáculos, existentes no percurso por onde circulam os idosos devem
ser levados em consideração, e o cuidador habilitado, sem dúvida, não se
esquecerá de sinalizar qualquer fato que ocorra, evitando conseqüências
como quedas e / traumatismos.
Além de tudo isso, pode-se interpretar que o cuidado costuma ser
prestado sem a mínima sistematização do serviço. Essa interpretação
parte da observação de uma situação, presenciada no percurso até o
refeitório, quando acompanhávamos a idosa Antonia, que foi interpelada
por uma das cuidadoras para tomar a medicação do horário. A cuidadora
perguntou se a idosa já havia almoçado, e esta respondeu-lhe que não.
Então, a cuidadora com uma bandeja nas mãos, contendo medicações
para as idosas, deu o remédio a Antonia, e foi pegar água. Nesse
momento a coordenadora do pavilhão foi chegando e perguntou se
Antonia já havia almoçado, orientando que o remédio somente deveria ser
dado após as refeições. Assim, a coordenadora tomou a medicação das
mãos de Antonia, que já estava levando à boca e devolveu a cuidadora.
Continuamos a caminhada até o refeitório, eu e Antonia, quando
encontramos alguns idosos que já estavam voltando do almoço e que nos
cumprimentava, enquanto, nós, ainda tentávamos chegar até lá. A
cuidadora passou por nós, apressando Antonia, que respondeu: não
posso andar mais rápido, minha filha. Ando com o andador e não consigo
mais que isto. A cuidadora insistiu que deveria se apressar, pois a comida
iria esfriar. Parecia que tinha muita pressa, revelando um desencontro
entre a cuidadora e a idosa.
Dessa situação, fazemos uma reflexão sobre o uso e a administração
das medicações aos idosos no Asilo X. A utilização de medicamentos por
idosos tem sido bastante discutida, principalmente, com enfoque na
abordagem biomédica. As alterações fisiológicas que o idoso desenvolve
ao longo do tempo interferem no uso de medicamentos necessários à
manutenção de sua saúde. E, muitas vezes, os profissionais que atendem
idosos não estão capacitados para prescrever medicações com dosagens
ajustadas às suas particularidades, a fim de evitar possíveis iatrogenias.
213
Estudo sobre o perfil de utilização de medicamentos por idosos, em
áreas urbanas do Nordeste do Brasil, afirma que o uso de medicamento
tende a ser maior entre idosos do sexo feminino, com idade mais
avançada, bom nível socioeconômico, doenças crônicas e visitas
regulares aos serviços de saúde. Idosos de condição socioeconômica
desfavorável e com problemas funcionais tendem mais a utilizar
medicamentos não prescritos e são os familiares os maiores responsáveis
pela indicação (COELHO FILHO; MARCOPITO; CASTELO, 2004)
Segundo Bennett; Kingston; Penhale (1997) o cuidado com o uso de
medicamento pelas pessoas idosas é tão importante, que pode ser
considerado um dos aspectos facilitadores do abuso ou da negligência
dentro de Instituições de Longa Permanência. No Asilo X, os seis idosos
que participaram da pesquisa fazem uso de medicamentos prescritos e
não prescritos e associam isso às doenças e aos sintomas que possuem.
As patologias referidas por eles foram hipertensão, diabetes mellitus,
artrose e cardiopatias.
As medicações são providenciadas pelo Asilo X, para os idosos que
vivem nos pavilhões coletivos e isso é um diferencial, muitas vezes,
questionado por alguns idosos residentes da pousada. Alguns idosos
parecem saber mais sobre as medicações que tomam. Estão mais bem
informados sobre seu processo de saúde-doença. Geralmente são
medicamentos prescritos pela médica, que atende na instituição. São
aprazadas pela enfermeira com os horários que devem ser administrados.
Mas, existem idosos que têm médicos particulares e já faziam uso de
medicações, antes de chegar ao asilo.
Assim, entendemos que as medicações devem ser mais bem
controladas nas instituições asilares e, para isso, é preciso certificar-se de
que o idoso realmente necessita do medicamento, se a dose é adequada
e os horários administrados, também, devem ser bem analisados, pois o
idoso que faz uso da medicação em horário mais tarde, à noite por
exemplo, tende a ficar sonolento no dia anterior.
Sobre as medicações notamos que, no asilo, alguns idosos recebem
medicações dos cuidadores que, muitas vezes, trocam essas medicações
ou os nomes dos idosos, administrando-as de maneira errada.
214
Vemos isso na fala de Sr. Cervantes, que tenta se proteger da
administração errônea de medicamentos, assumindo, ele próprio, essa
responsabilidade:
Às vezes, me davam medicação trocada, eu reclamava e, aí
um dia eu tomei a decisão chamei a cuidadora e disse: a partir
de amanhã eu vou querer a minha medicação na minha mão
porque eu não vou mais deixar, não se preocupe que eu vou
falar com a encarregada. Isso foi na noite, que queriam me dar
uma medicação trocada e eu me zanguei. No outro dia, quando
a encarregada chegou, eu chamei ela, aqui esta acontecendo
isso, isso e isso nada contra você, nada contar ninguém, mas
eu vou pedir que você bote no livro de ocorrência, que aqui tem
um livro de ocorrência e, qualquer coisa fora da rotina, elas
anotam e leva para o serviço social, aí é apurado. E, nada
contra você mais registre no livro de ocorrência, para a diretoria
tomar conhecimento que eu exijo que entregue a minha
medicação ah! Mas seu Cervantes! Não tem nada de seu
Cervantes, bote aí e deixe me chamar que resolvo o resto.
A forma de violência encontrada nesse caso, está relacionada ao
cuidado ao idoso ser realizado com negligência, pois se as medicações
são trocadas, demonstra que não existe um controle sobre esse aspecto
ou há falta de preparo dos cuidadores para prestar com esse cuidado.
Seria preciso haver uma sistematização rigorosa do cuidado relacionado
às medicações, organizando os prontuários dos idosos evitando-se essa
forma de violência, também construindo um protocolo de medicações.
O cuidado de enfermagem ao idoso, no asilo, pode e deve ser mais
completo; supervisionando os cuidadores, fazendo educação em serviço
através de capacitações, voltadas para o atendimento ao idoso; checando
as intercorrências e providenciando condições para que haja promoção
da saúde e a prevenção de doenças, nessa fase da vida.
Além da enfermagem, o profissional farmacêutico, também, deve ter
sua inserção na equipe de trabalho das instituições de longa
permanência. Sua formação específica sobre as drogas e suas
interações, efeitos colaterais e benefícios para a saúde assegura que o
cuidado ao idoso, no que diz respeito ao uso e abuso das medicações,
215
seja bem administrado. No Asilo X, o profissional farmacêutico foi
assimilado na equipe há um ano.
Assim, o estabelecimento de normas e rotinas relacionadas ao uso de
medicamento poderá ajudar a evitar acidentes e erros. Gurwitz (1994)
comenta que a preocupação com a utilização de medicações, em
instituições de longa permanência, propiciou o desenvolvimento de listas
de substâncias a serem evitadas em idosos ou usadas apenas em
circunstâncias excepcionais, e de suas respectivas doses, freqüências e
duração máxima do tratamento.
No asilo do estudo existe uma tentativa de controle das medicações
usadas pelos idosos. Utiliza-se sempre um código para identificá-las. É
uma legenda afixada na sala que guarda as medicações e os prontuários
dos idosos, tanto nos pavilhões coletivos, quanto nas pousadas e
pensionatos. A descrição da legenda é feita através da patologia que o
idoso tem, representada por círculos de cores diferentes: o círculo
vermelho significa que o idoso faz uso de medicação para hipertensão e
cardiopatia; dourado, refere-se a outras patologias ou especialidades
médicas como osteorartose, angiologia; verde, indica diabetes; preto,
alergias, abóbora, febre reumática; azul, glaucoma, patologias gástricas e
prata, relaciona-se a Neurologia, psiquiatria e neuropatias. Porém, ao
observarmos o prontuário da senhora Antonia percebemos que não havia
o círculo prata incluído para a idosa e, mesmo assim, ela faz uso de
medicação indicada para doenças mentais ou psiquiátricas. A idosa
referiu que, toda noite, lhe é dada a medicação, antes de dormir.
Em uma instituição asilar, os afazeres são muitos e poucos os
cuidadores ou profissionais que realizam atividades diretas com os
idosos. Quando existem idosos dependentes, notamos que os familiares
contratam cuidadores de fora da instituição para acompanharem-nos,
durante o dia e a noite. Não é o caso dos idosos que residem nos
pavilhões coletivos, os quais não possuem recursos para pagar um
cuidador particular e ficam à espera de cuidados dos profissionais da
instituição. São para os cuidados de higiene, auxílio nas refeições, e
aqueles relativos à locomoção e administração de medicamentos, que os
idosos pedem maior proximidade dos seus cuidadores.
216
Muitas medicações erradas, trocadas ou com doses incorretas, podem
ser notificadas como casos de maus tratos de idosos. Além disso, a
maneira como é oferecido o alimento para o idoso, também, pode
acarretar conseqüências como a má nutrição, o engasgo, que pode levar
a asfixia e a morte. Presenciamos um cuidador que batia nas costas de
um idoso, que se encontrava sentado em uma cadeira de rodas, e
levantava os seus braços, semelhante a uma das manobras usadas para
ajudar alguém que se engasga com um alimento, por exemplo. Assim, é
preciso capacitar os cuidadores para cuidar de maneira adequada dos
idosos, pois o engasgo é uma situação de emergência, que pode levar a
morte.
Reiteramos que, a complexidade do cuidado deve ser uma
preocupação dos gestores das instituições que acolhem idosos, pois o
cuidado é um indicador de violência. O cuidador precisa ter perfil
apropriado
para
executar
tal
ocupação,
deve
ser
capacitado
constantemente e, até mesmo, aqueles que atuam em pavilhões com
idosos que têm a capacidade funcional comprometida ou que possuam
doenças mentais, devem ser freqüentemente remanejados, com uma
espécie de rodízio entre os pavilhões, pois a freqüência em um só
ambiente pode tornar-se “insalubre”, para eles.
O Estatuto do Idoso (2003), no capítulo II das entidades de
atendimento ao idoso art.50, afirma que se constituem obrigações das
entidades de atendimento: o item VIII; proporcionar cuidados à saúde,
conforme a necessidade do idoso e, no item XVII; manter o quadro
pessoal de profissionais com formação específica.
6.4 AUTOCUIDADO
Durante muito tempo, pensou-se na velhice como uma fase, onde se
deve esperar sempre, pelo outro, como se o fato de ser idoso fosse
sinônimo de incapacidade. Hoje, o envelhecimento tem sido empurrado, e
o idoso de antes que, ao ter 60 anos, já estava fora do mercado de
217
trabalho e da vida social, atualmente, encontra-se em pleno vigor,
trabalhando, saindo, relacionando-se e continuando a viver.
O incentivo ao envelhecimento ativo, particip-ativo, tomando decisões
acerca das suas necessidades é a grande chamada para ser idoso e ter
qualidade de vida. Porém, o que encontramos muitas vezes são idosos
dependentes, considerados como “idosos hipodotados”, principalmente
entre os mais velhos, que não podem usufruir dos prazeres da vida.
(MAGALHÃES, 1989)
Dessa maneira, de um lado imaginamos que a busca pelo
envelhecimento ativo tende a camuflar a realidade da velhice. Mas, de
outro, pensamos que deixar o idoso à espera pela responsabilidade de
sua vida, não vai proporcionar nenhum benefício para ele e nem para
aqueles que estão a sua volta, sendo válido incentivar o ativismo, mas
estar sempre lembrando-se de considerar as limitações que o
envelhecimento naturalmente provoca.
Assim, ao conhecer os relatos dos idosos que vivem na instituição do
estudo encontramos, nas diferenças, alguma coisa comum como, por
exemplo, à chegada no asilo fisicamente sem nenhuma dependência, e
com o passar do tempo foram adquirindo limitações, por doenças, que
apareceram ou acidentes, conforme relatou, a senhora Antonia, que
devido a uma queda, hoje depende de outras pessoas, para realizar
algumas atividades como deambular, principalmente.
O termo dependência é entendido como falta de autonomia,
incapacidade de realização de “coisas” por seus próprios meios.
Relacionada ao envelhecimento essa leitura torna-se ainda mais limitante,
uma vez que a velhice socialmente está ligada a uma etapa da vida sem
perspectivas futuras, tendo a doença como aliada, e mais próxima da
morte. Contudo, uma palavra pode ter maior amplitude quando associada
a um contexto social, que favorece sua aplicação e mortifica o indivíduo
frente a outros grupos, que pela própria natureza física, são mais aceitos.
A dependência é uma categoria que aparece na fala dos idosos.
Trazida no estudo como uma expressão próxima a atos de violência
porque ela possibilita a negligência, a violência das relações e estimula
conflitos. Estar dependente em casa, junto da família, necessita da
218
solidariedade entre os membros mais jovens, que podem ser os filhos,
netos, sobrinhos. No entanto, a dependência em uma instituição, que
paga a pessoas, profissionais, para cuidar de outras, tem um caráter de
dever, de obrigação ou, há quem diga, também de caridade.
Em alguns casos, os cuidados não são cumpridos por fatores
diversos, como despreparo do profissional; exigência de muitas pessoas,
demandando por cuidados e o contingente de cuidadores é escasso ou
desproporcional.
Nesse contexto, encontramos idosos que preferem, depender de
pessoas que não fazem parte de sua família, como é o caso de
profissionais de uma instituição, a depender de familiares, e justifica isso:
Na minha idade não, hoje não, mais daqui a cinco anos ou seis
uma empregada ou uma neta ou uma nora se for cuidar de
mim vou me sentir constrangido. Além disso, ela não está
preparada psicologicamente para fazer e eu vou perceber
aquele constrangimento dela, isso para nós. A gente percebe
muito até em palavras então é por isso que eu estou aqui eu
vejo isso. Tenho dois filhos, que se eu fosse morar com eles eu
seria muito bem tratado. Tudo é bom quando se está unido,
genro não é parente nora também não é, enquanto estão bem
está tudo bem, mas a gente não sabe o que pode acontecer
amanhã. E quando chega a idade e 90 % dependendo de uma
assistência, a pessoa precisa levar para tomar banho, levar
uma cadeira, levar sentada, levar com jeito, aqui quem leva é
uma das cuidadoras sem constrangimento nenhum e eu tenho
certeza que em uma residência (casa de familiares, domicílio)
não se tem preparo para isso e é isso que a gente ver lá fora
alguns estão aqui por isso à família não tinha preparo para
cuidar. (Senhor Possante)
No asilo, a dependência física é um critério de seleção na admissão
do idoso, pois onera o serviço e quanto mais idosos dependentes, maior
número de cuidadores será preciso. Em relação a esse aspecto, de
idosos que tenham limitações, que sejam dependentes de maiores
cuidados, como critério de seleção de quem entra ou não em uma
instituição de longa permanência, a Política Nacional do Idoso (1997, p.
10), através da lei 8.842 de 04 de janeiro de 1994, comenta no capítulo II,
dos princípios e das diretrizes na seção II, que: “é vedada a permanência
219
de portadores de doenças que necessitem de assistência médica ou de
enfermagem permanente em instituições asilares ou de caráter social”.
Dessa maneira, nada consta para que as instituições não admitiram
idosos com dependência física ou de qualquer outra natureza, e esse
critério é mais um dos preconceitos ou expressão de violência que o idoso
recebe em sua vida. Então a quem compete assistir ou cuidar do idoso
que não tem recursos, nem família e ainda possua algum tipo de
dependência?
A dependência física é temida e, especialmente, a fala do Sr.
Cervantes ilustra isso:
Eu não quero é viver até ficar dependente principalmente para
mim, que tenho minha filosofia, eu sempre gostei de tomar
conta de mim mesmo, não sei como eu me sentiria prostrado
em cima de uma cama, dependendo de terceiros para viver,
mas eu estou preparado para o que Deus determinou para
mim, e pretendo, se depender de mim, viver muito tempo
ainda. (Cervantes)
Na instituição, observamos a preocupação em relação à dependência
física dos idosos. Porém, percebemos que nada é feito para conviver com
os diversos casos de dependência funcional. A avaliação funcional é
preconizada pela Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa e
determina não só o comprometimento da funcionalidade, mas a
necessidade de auxilio. Pode ser entendida como uma maneira de
sistematizar os cuidados necessários ao idoso. É uma forma de medir se
uma pessoa está capaz para se autocuidar. Não sendo capaz, verifica-se
o nível de dependência que é mensurada em parcial ou total e, para isso,
utilizam-se escalas de avaliação das atividades da vida diária e atividades
instrumentais.
Durante a realização do trabalho de campo, aplicamos entre os idosos
entrevistados a escala de avaliação das atividades da vida diária10 (ADV)
10
Atividades da vida diária é um instrumento usado para avaliar a capacidade funcional do indivíduo. Engloba todas as
atividades que uma pessoa precisa realizar para cuidar de si próprio. Para a aplicação desse instrumento pode-se usar
a escala de Barthel ou o índice de Katz.
220
CUIDADOS PESSOAIS
Comer
Banho
Vestir-se
Ir ao banheiro
MOBILIDADE
Andar com ou sem ajuda
Passar da cama para a cadeira
Mover-se na cama
CONTINÊNCIA
Urinária
Fecal
Quadro 4- Atividades da Vida Diária (AVD)
Fonte: COSTA et al., 2001
Através dessa avaliação, obtivemos que, das mulheres, apenas a
senhora Antonia apresentava dependência parcial, relacionada à
mobilidade e locomoção. As outras idosas eram independentes, apesar
de Sra Silvano ter relatado que de dois anos para cá ela ficou muito
dependente por causa de um acidente
Portanto,
os
idosos
entrevistados
são
independentes
e
se
posicionaram quanto a esse assunto:
Não quero ficar doente. Eu não tenho plano de saúde eu pago
o INPS, se eu ficar doente vou para a enfermaria aí a família
vem ver e se tiver condição leva para um hospital melhor. No
meu caso não tem e eu não quero ficar naquela enfermaria
então eu me cuido. (Valdemar)
Eu não dependo de ninguém para fazer as minhas coisas, saio
sozinho, vou ao banco, vou ao supermercado. Mas os filhos
não querem que eu vá sozinho. Eu acho isso ótimo. Mas às
vezes eu saio sozinho sim. Ela vem aqui eu vou lá a casa dela.
Eu me cuido, tomo banho sozinho. (Possante)
Ao
falar
de
autocuidado,
descartamos
a
possibilidade
da
autonegligência entre os idosos e idosas entrevistadas. Uma forma de
violência que indica uma conduta da pessoa idosa e que ameaça sua
própria saúde ou segurança, pela recusa de prover cuidados necessários
a si mesmos. Entretanto, esse descarte não pode ser generalizado, pois
221
em um universo de muitos idosos é importante a constante observação
deles mesmos, principalmente quando suas famílias não aparecem para
vê-los, o que pode levá-los à depressão. O senhor Cervantes comentou
sobre o que lhe revelou uma das idosas residentes:
Uma das idosas que vive aqui, ela coitada, pelo fato de já ter
sofrido muito na vida ela pede para morrer e aí é uma coisa
que eu estou sempre em cima dela dizendo: - a senhora que é
católica temente a Deus não adianta. E ela responde: - Ah eu
estou sofrendo!
Nesse caso, a decepção que a vida lhe proporcionou leva essa idosa
a preferir a morte do que viver.
Dona Antonia, voltou ao passado para mostrar que sempre se cuidou
e recebeu cuidado: “A minha madrinha me trazia num luxo de gente rica
igual a ela, porque ela era de uma família muito rica, me trazia num luxo!
Então, até hoje, eu gosto de andar arrumada”. Na instituição ela está
sempre arrumada e provoca nas outras idosas uma espécie de
competição é isso que afirma a senhora Antonia: “elas não gostam não.
Chama-me de “metida a rica”, assim me tratam com muita diferença
porque eu meço muita distância delas”.
Assim, vão se constituindo as relações entre os idosos residentes
como que reproduzindo o que está externo aos muros da instituição. A
competição entre eles é uma constante, gerando até mesmo intrigas,
brigas e porque não dizer, agressões. Competem pelas novas amizades
que fazem, pelos objetos que possuem, enfim, pela melhor velhice:
“Aquela que vai ali já caiu três vezes, você acha que aquela idosa ali está
mais velha do que eu?”
Algumas vezes, até mesmo o ato de se cuidar, para o indivíduo idoso
é visto como algo impróprio ou que tem sentido pejorativo: o auto-cuidado
por vezes é relacionado às questões de namoro, sexo e o preconceito
torna-se evidente. O gostar de roupas e acessórios que é normalmente
usado pelos mais jovens, garante ao idoso o “título” de ridículo:
222
Quando eu era jovem eu me cuidava muito depilava a
sobrancelha, usava batom, me pintava que naquele tempo
usava rouge. Antes eu estava jovem e hoje eu estou mais
velha e acho ridículo um velho pintado. Nunca usei calça
porque eu não gostava, no colégio eu usava saia e hoje pior.
Vestido de alça eu nunca usei. Aqui tinha uma velha que se
pintava eu acho feio. Vestido de alça eu acho feio, usa quem
gosta não é?(Antonia)
A vestimenta e o cuidado com a aparência é uma questão que passa
pelo gosto e sensibilidade de uma geração e conecta-se a posição
histórica e social dos indivíduos, o que não está prescrito para nenhum
idoso, sendo que os mais velhos podem sentir desejo de seguir o que a
geração atual usa ou de manter o que até fez parte de sua história, mas o
preconceito existe entre eles mesmos. A moda para o idoso vem
acompanhando a tendência atual, no entanto o estilo individual e
particular de cada um é que define o que eles usam e como se vestem.
A senhora Antonia relata que se cuida e em sua fala é notado que o
cuidado a que se refere está relacionado ao seu corpo: “Eu me cuido,
tomo meu banho, penteio meu cabelo, agora mesmo está precisando
cortar, pinto minha unha. Uso o sabonete que eu gosto que é bom para a
pele”.
Dona Silvano também quando fala sobre cuidado diz:
O cuidado para mim o principal é o asseio. Cinco horas da
manha tomo banho, me levantei da cama direto, escovar os
dentes, lavo o rosto, da pia vou para o banheiro, já botei minha
roupa para vestir não tenho dificuldade.
O senhor Cervantes comentou: “eu me cuido eu vou ao médico conto
a minha história e vou levando.”
Senhor Possante referiu:
Eu me cuido, caminho, como uma banana, bebo um copo de
água. A água segundo informações médicas nós devemos usar
em horas adequadas não almoçando. Eu bebo uma hora antes
e uma hora e meio depois.
223
Entretanto, o autocuidado vai além da aparência e do cuidado com a
saúde. Mas é por ela que tudo começa, pois ao vermos alguém com
desleixo em seu corpo, certamente, vamos encontrar esse aspecto em
toda a sua vida.
Dona Antonia não demonstra cuidar de sua cama na quadra do
pavilhão coletivo. Sempre em nossos encontros, observamos que a cama
da idosa e um pequeno armário de alvenaria, localizado em uma quadra
de um dos pavilhões coletivos para mulheres do asilo, estava sempre
desarrumada com muitas roupas espalhadas, vasilha, lata, frutas, retratos
por sobre o armário. O odor era de roupa suja, urina, mofo. Ela pendurava
roupas e calcinhas em um acessório que fica acima de sua cama. Em
uma de nossas visitas a coordenadora do pavilhão reclamou com ela
informando que não podia pendurar roupas na cama e que ela devia
arrumar melhor o leito. Dona Antonia não se incomodou apenas
comentou que as calcinhas são colocadas lá fora em um varal, mas que
somem e ela prefere deixar em sua cama.
O ambiente, também, deve ser cuidado para que possamos ter melhor
qualidade de vida. O acondicionamento de alimentos em locais que não
são adequados pode atrair insetos e outros animais, levando a
possibilidade de trazer doenças. Observamos durantes as visitas que os
idosos colocam, ou melhor, escondem comida no armário de roupas dos
pavilhões coletivos. Isso não acontece nas pousadas, pois nas suítes tem
frigobar para acondicionar frutas e outros alimentos.
Uma cuidadora do pavilhão coletivo falou com uma das idosas que
guardava banana no armário, que já estava com mosquito, pedindo que
ela comesse logo, para não apodrecer e disse que não poderiam ficar ali.
Acompanhamos, também, a assistente social em uma busca nos armários
dos idosos do pavilhão masculino para retirar alimentos estragados. Foi
uma briga entre eles, a assistente social e um dos cuidadores. Os idosos
negavam-se a abrir seus armários, achando uma invasão. No entanto,
nos armários abertos foram encontrados alimentos vencidos e baratas
que saíram em quantidade.
No pavilhão coletivo o idoso vive sem muitos privilégios, os espaços
são pequenos e o aglomerado já leva à falta de privacidade, prejudicando
224
o cuidado. Na instituição que fizemos a pesquisa referem que é difícil lidar
com isso, pois muitos idosos não compreendem a importância da higiene
e referem, estar sendo impedidos de ter objetos, roupas, alimentos, não
seguindo algumas regras importantes para o convívio coletivo.
Por outro lado, privar o idoso de não ter um pedaço da sua história
anterior à entrada na instituição, através dos seus pertences, nos leva a
refletir como envelhecer para alguns idosos é marcado pela perda de
espaços, pessoas, objetos, bens, privacidade e individualidade, e isso
pode afetar o auto-cuidado.
No asilo, que é uma instituição de assistência social, o cuidado ao
idoso passa pela caridade de alguns voluntários que têm essa ideologia
cristã, e vai para o cuidado dos profissionais que trabalham e, portanto,
não podemos vincular essa atitude a uma missão ou a caridade, pois
existe um sistema de troca financeira, para a garantia de seu próprio
sustento. Dessa maneira, esses profissionais têm de cumprir uma carga
horária, planejar o cuidado e garantir a sua qualidade, por estarem
lidando principalmente com vidas.
Assim, o cuidado é uma dimensão importante para manter os idosos
que vivem em asilos mais independentes e com melhor qualidade de vida.
Essa dimensão tem sua complexidade demarcada pela possibilidade de
um tipo de cuidado está presente no outro. Desta maneira, um cuidado
não anula o outro, mas colabora com sua principal função que é
proporcionar bem-estar ao indivíduo. O diagrama abaixo ilustra os tipos
de cuidado encontrados no Asilo X. Partindo desse pensamento,
destacamos que as instituições devem investir no cuidado oferecido e
assim, terão a aceitação social de que, no asilo, o idoso também pode
viver bem.
225
Cuidado
caridade
Desenho 2- Diagrama dos tipos de cuidado
Cuidado
informal
226
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise empreendida neste estudo reforçou alguns dos nossos
pressupostos, quanto aos possíveis nexos entre as ambigüidades existentes na
organização e nas normas de funcionamento do asilo e, as conseqüências
reveladas nas diferentes formas de violência contra o idoso, que se desdobram
entre a violência institucional e a das relações interpessoais.
Parece-nos pertinente pensar que a ambigüidade enquanto oposição de
opções e escolhas é um processo inerente à modernização. Nesse contexto, a
sociedade torna-se insatisfeita, continuamente, buscando novas maneiras de
satisfação, enquanto a velhice perde sua referência no seio familiar. Assim, a
busca incessante para fazer suprir necessidades faz os indivíduos querer mais
e quando uma necessidade é satisfeita, outra surge imediatamente.
Tradicionalmente, a família é a responsável pelo idoso, entretanto possui a
alternativa de transferir essa responsabilidade para as Instituições de Longa
Permanência. No Asilo X, onde desenvolvemos o estudo, as famílias dos
idosos que vivem nos pensionatos e nas pousadas são lembradas das suas
responsabilidades, quando o idoso é admitido, porque são elas que devem
levar medicamentos, fraldas e outros objetos que os idosos necessitam. Em
contrapartida, para os idosos que vivem nos pavilhões coletivos, a atribuição de
suprir suas necessidades é exclusiva da instituição.
Com o passar do tempo de internação, o abandono do idoso, por parte de
familiares, acontece “naturalmente”, com a desobrigação de cuidá-lo ou mesmo
visitá-lo, conduzindo à falta de vínculos afetivos. Nesses casos, como a equipe
profissional não tenta reaproximar os parentes dos idosos, parece haver uma
“permissão justificada” pelo Asilo X em relação a esse abandono.
Não obstante o Estatuto do Idoso assinalar que o abandono de seus
familiares em asilos ou outras instituições constitui crime, observamos ser esse
um crime sem vestígios, porque as regras do asilo, de certa forma, permitem o
abandono dos idosos de condição social menos favorecida, e apenas cobra
mercadorias e bens das famílias dos idosos de melhor condição social.
Na vida moderna, percebemos a fragilidade das relações familiares As
pessoas costumam não ter tempo para se encontrarem, tornando-se as
relações provisórias e sem solidez. Diante disso, os padrões preestabelecidos,
227
as transformações das experiências cotidianas, das relações afetivas e
familiares tornam-se difíceis. Assim, o asilo que é uma estrutura institucional
antiga, aparece como alternativa para os problemas próprios da vida moderna,
revelados na fragmentação das famílias, perda dos papéis sociais e busca
incessante de atender as necessidades impostas e a satisfação pessoal.
Por sua vez, essas instituições precisam acompanhar o que a sociedade
vive, e o considerado espaço acolhedor, promovido pela caridade, transformase em um mercado rentável, em um contexto social capitalista e consumidor. O
idoso, nesse processo, também requer um asilo que ultrapasse o apelo da
caridade, apesar de ela ser, ainda, utilizada como forma de atrair esse
segmento da população.
Nesse sentido, a filantropia que caracterizava o asilo, nos seus primórdios,
hoje, não consegue suprir o problema da falta de moradia e dos cuidados para
com os idosos. Isso porque, ele não tem mais a função de retirar idosos das
ruas como acontecia com os indigentes e mendigos no início do século
passado. No atual contexto, os idosos do asilo em estudo já não estão mais tão
desamparados no sentido da falta de condições financeiras, apesar de suas
aposentadorias, em alguns casos, não conseguirem suprir suas necessidades
básicas como alimentação, o cuidado a saúde, entre outros.
Para esses idosos, as aposentadorias são renda garantida, tornando-os
consumidores, com certo poder aquisitivo, destacando-se as muitas vantagens
oferecidas pelo setor bancário para aposentados como financiamentos, cartões
de crédito e empréstimos. Frente a essas mudanças, as Instituições de Longa
Permanência passaram a oferecer ao idoso o cuidado e segurança como
mercadorias que a velhice necessita.
Em nítido contraste com o que ocorre hoje, na época da origem do Asilo X,
as imagens fotográficas destacavam as personalidades que promoviam a
filantropia. Ao lado delas ou ao fundo, ficavam os residentes da instituição
vestidos com uniformes, encarnando em seus corpos a caridade religiosa na
figura dos mendigos. Atualmente, as fotografias mostram a estrutura física do
asilo como cartão de visita, apostando na beleza da arquitetura, quase a
justificar, através dessas imagens, a exclusão benéfica, jogando mais uma vez
com a ambigüidade do acolhimento proposto.
228
No asilo estudado, os idosos são acolhidos pela “caridade comercial”, uma
vez que todos pagam pela moradia e os serviços oferecidos. Desse modo, a
caridade não é mais doação. Os profissionais da velhice usam a solidariedade
como sinônimo de sentimentos, que expressam respeito à dignidade humana.
Assim, se compararmos essa instituição com um condomínio residencial
comum à solidariedade não se torna conveniente para expressar as relações
condomínio/condôminos.
Os que residem em condomínios pagam pelos serviços oferecidos. No asilo
também, os idosos pagam pelos serviços usados. Há aí relações comerciais.
No entanto, considerando a legislação existente é importante entender que o
respeito não é uma oferta espontânea é um direito adquirido. Desse modo,
para respeitar os outros é preciso honrar a alteridade no outro, a estranheza no
estranho, lembrando que ser diferente é o que nos faz semelhantes e que
respeitando a diferença do outro estamos respeitando a nossa própria
diferença.
A relação asilo/idoso está baseada na relação mercado/consumidor
moderno. O asilo, de maneira a satisfazer a demanda, vem ampliando suas
acomodações permitindo a vida coletiva com a diversidade da condição social.
O amplo pavilhão coletivo reduz-se na individualidade e amplia as exigências
para os seus moradores. O limite nas relações interpessoais nesse espaço
deve ser obedecido. O espaço de todos não possui dono. Estamos
acostumados a viver em nossas casas com limites concretos como portas,
paredes, chaves e outros. No asilo, o limite entre o que é possível fazer, onde é
permitido ir dentro dos pavilhões coletivos deve contar com o bom senso dos
idosos. Mas não é fácil colocar o limite, sem ver concretamente as ferramentas
que o define. Assim, podemos afirmar que os pavilhões coletivos são
emaranhados de vidas.
Diante disso, a sociabilidade no asilo não é uma interação entre iguais, não
constitui um jogo de cena, onde a alegria do indivíduo está totalmente ligada à
felicidade dos outros. Isso não acontece, pois são indivíduos que na maioria
das vezes, não se conhecem e por diversos motivos se encontram vivendo no
mesmo espaço físico. A sociabilidade na instituição é forçada. Todos são
estranhos entre si e isso gera indiferença. Nem é amigo nem é inimigo pode
229
até mesmo ser os dois ao mesmo tempo. Por tudo isso, essa situação de vida
coletiva ameaça a própria sociação.
Dessa maneira, os idosos vivem as ambigüidades do asilo também em
suas relações interpessoais e alguns afirmam que não têm amigos, nessa
convivência. Usam termos impessoais como “o outro”, “a mulher”, “os caras”
para se referir a seus pares e a eles mesmos. Tratam-se como diferentes ou
indiferentes. Eles e elas buscam mecanismos de defesa para não aceitar que
são iguais na posição social e histórica da vida.
Por outro lado, a igualdade é um valor da sociedade moderna. Considerada
como essencial à igualdade dos direitos, da liberdade, da escolha apesar e
além das desigualdades sociais. No asilo a desigualdade é marcada pela
condição social e isso divide os idosos e idosas, confinando-os nos pavilhões,
pousadas ou pensionatos. O valor pago por eles e elas para viver na instituição
é razoavelmente diferente e o discurso sobre ricos e pobres vivendo o coletivo
é forte. Os idosos que residem no pensionato em alguns momentos passam
despercebidos, pois estão em posição social intermediária.
Nesse sentido, como os idosos não se percebem iguais a cooperação não
encontra expressão nas relações interpessoais. Alguns relatos de cooperação
foram evidenciados em um discurso de solidariedade, defendido pela crença
em fazer o bem. Em oposição à ajuda mútua entre os idosos, vemos os
conflitos e as competições. Eles e elas, apesar da semelhança nas histórias de
ausência familiar ou abandono, competem pelo espaço, pela atenção, pelas
visitas, por objetos materiais. E fazem questão de pontuar as diferenças no
comportamento
e
na
velhice,
como
processo
fisiológico
que
causa
dependência, expondo os desejos, a sexualidade, a vida.
Existe competição pelo poder de adquirir objetos como eletrodomésticos,
roupas e pelo imponderável - não ter muitas limitações ocasionadas pelo
envelhecimento, pela possibilidade de sair da instituição e estar em contato
com o que está fora dos muros, e delimita a vida coletiva. Tais competições
constituem o dia-a-dia dos idosos. Em busca da diferenciação entre iguais,
alguns transformam seu espaço na quadra do pavilhão coletivo em que vivem,
ostentando o consumo de objetos pessoais. Esse fato é evidenciado
principalmente entre os homens. A televisão de 29', o som mais moderno,
230
DVDs, CDs e outros ilustram que os idosos são consumidores no asilo e fora
dele.
A conseqüência de deixar à mostra os objetos do consumo é o olhar dos
outros idosos que comentam, demonstrando a insatisfação em não poder
adquirir de maneira igual. Nesses detalhes, o incômodo e o mal-estar da vida
coletiva se fazem presentes. Às vezes, o incômodo vem de pequenas questões
como a escolha do canal de TV ou a audição da música preferida, o barulho, a
presença física, enfim, a vida pessoal cotidianamente devassada.
No asilo, a vida coletiva é pública e o segredo não é comum, pois a rapidez
dos comentários, das fofocas, das intrigas não permite cumplicidade nas
relações interpessoais. As varandas das pousadas e dos pensionatos e os
bancos que ficam à entrada dos pavilhões são locais bem freqüentados. Eles
oferecem a possibilidade de estar informado sobre os acontecimentos que
povoam a instituição. Namoros acontecem e podem ser percebidos como
escândalo ou não. O preconceito é encontrado entre os próprios idosos.
Para eles, não há “coitadinhos” na instituição, pelo contrário, eles se
consideram valentes, briguentos, malvados. Avaliam as atitudes agressivas
entre eles como intencional ou proposital e se os cuidadores e funcionários da
instituição procuram apaziguar ou justificar com um dos estigmas da velhice,
que a coloca próxima da loucura, os idosos e as idosas retrucam e reclamam
afirmando que o lugar da loucura não é o mesmo da velhice.
A agressividade dos idosos pode ser direcionada para eles mesmos e a
conseqüência dessa agressividade é percebida como resultante da ação,
motivada pela intencionalidade em ferir, machucar, provocar danos. Apesar
disso, não há ação sem intenção e vemos a importância de distinguirmos as
intenções que são formadas antes da ação e aquelas que não o são.
As intenções prévias à ação, são planejadas. Mas como afirmar que
quando um idoso feriu outro com um objeto, fato mencionado por idosos
entrevistados:
esta
ação
foi
planejada?
Essa
avaliação
sobre
a
intencionalidade é ainda influenciada pela condição de idosos e de idosas
serem medicados de maneira abusiva. O abuso terapêutico, foi um conceito
construído durante a pesquisa para configurar a ação repetida que provoca
danos físicos, modificando a relação da vítima com o meio, ao confundir sua
consciência pela absorção do medicamento.
231
Casos de roubo na instituição, também, ocorrem e a autoria dessa ação, na
maioria das vezes, não aparece. Nessas situações, também, torna-se difícil
avaliar a intencionalidade.
Nas relações interpessoais a percepção da morte é uma condição que
conduz à empatia entre os idosos. Quando acontece a morte de idosos
residentes nos pavilhões coletivos essa situação fragiliza os outros, sendo
contagiante o clima de luto. É a percepção da finitude e do desconhecido de
maneira coletiva. Quando morre um idoso, que não possui família, há sempre
idosos que comparecem ao enterro, e fazem isso por caridade, ou por crença
religiosa, buscando cumprir o ritual de despedida. A doença também é um
acontecimento que fragiliza os idosos, e podemos até afirmar que os une na
condição humana.
A identidade do idoso, no asilo é configurada pela compreensão do
significado da velhice e da maneira de como se vê a vida. O corpo profissional
do asilo identifica seus residentes com estereótipos como: rebelde, briguenta,
fofoqueira. Assim, os técnicos veem o conjunto dividido entre idosos, que
cooperam com a instituição e idosos que reclamam e percebem sua condição
de maneira negativa.
Para os idosos, o asilo é considerado como sua casa. No entanto, outras
percepções da instituição, também, são formuladas pelos idosos como um local
para velhos, um abrigo, um espaço alugado, a residência de todos. Essas
possibilidades de perceber o asilo conduzem à ambigüidade e à incerteza, e se
manifesta verbalmente na expressão usada por muitos idosos: “se der certo
morar aqui”. Para esses a incerteza de ter feito a escolha correta pode ainda
ter uma solução e eles/elas referem que podem sair da instituição, pois têm sua
casa e condições de voltar. Os idosos que vivem no pavilhão coletivo também
demonstram vontade de sair do asilo, em alguns momentos, porém essa
vontade tem poucas chances de se realizar, devido à falta da família ou de
alguém que assuma o seu cuidado, mesmo que temporariamente.
Os projetos de vida das idosas e idosos entrevistados refletem o desejo de
sair da instituição e voltar a viver em suas casas. Mas, também, projetos
imediatos são planejados como: a escrita de um livro, realizar viagens entre
outros. Em outros momentos, o asilo é a certeza de que dalí sairão apenas
para o cemitério. Eles/elas veem claramente a dualidade da morte e da vida.
232
Assim, o asilo também é ambíguo em relação a definir-se como uma
instituição total. Em alguns momentos esse conceito torna-se aplicável na
instituição, apenas no que tange à estrutura física e na postura de controle,
normas e regras impostas aos idosos. Como uma tentativa de se modernizar, a
instituição abriu suas portas para os internos saírem e estarem em contato com
a vida fora dos seus muros. Refletindo sobre essa transformação, concluímos
que o asilo não deve ser considerada como uma instituição total.
Apesar disso, existe, no asilo, uma reprodução do modelo do Panóptico
usado por Foucault como arquimetáfora do poder moderno com o domínio do
tempo e do espaço. Neste há confrontação mútua entre os dois lados da
relação de poder. Esse modelo é criticado como uma estratégia cara e sua
administração requere engajamento e presença permanente.
Por outro lado, a vigilância é coletiva e parte de um lado e do outro. Tanto
os
administradores
vigiam
os
residentes,
quanto
eles
vigiam
os
administradores. Ainda, tem a família que, também, lança seu olhar sobre os
administradores. O movimento de ir e vir na instituição é permitido para todos
que transitam por sua estrutura, mesmo que de maneira, ainda, desigual.
Curiosamente, a qualidade dos cuidados com a saúde no asilo não é o que
os idosos e as famílias, que procuram por seus serviços, mais se preocupam.
Ou seja, o cuidado profissional, direcionado para promover a saúde ou prevenir
danos à pessoa idosa. Os idosos e família quando buscaram um asilo
procuram a instituição que ofereça melhor estrutura física, isso não deixa de
ser cuidado. Porém, uma estrutura arquitetônica bela não é o mesmo que uma
estrutura adequada ao idoso, no sentido de satisfazer suas demandas físicas,
sociais e psicológicas e não permitir que expressões de violência institucional
estejam presentes na vida dos seus residentes.
A violência institucional foi observada em relação ao cuidado prestado ao
idoso. Nesse sentido, construímos o conceito de abuso terapêutico para
configurar o uso e a administração de medicações para os idosos sem que
eles, de fato, necessitem, ou quando as dosagens da medicação são
administradas sem ajuste, avaliando cada idoso em separado. Desse modo, a
massificação do cuidado é um abuso terapêutico e provoca conseqüências
como manter o idoso alheio ao mundo, sem condições de interação, ausente
de sua consciência.
233
As quedas são freqüentes e, algumas devido a brigas entre os idosos;
outras devido à estrutura física não ser adequada às limitações que alguns
idosos possuem. Para a equipe de técnicos e cuidadores, os casos de quedas
passam despercebidos ou não são objetos de discussão e encaminhamentos
para solução. Os cuidadores não sabem o que fazer. Eles e elas não
comunicam imediatamente a ocorrência e os idosos ficam sem um cuidado
direcionado para essa situação. Por tudo isso, a negligência é a expressão de
violência que define esta situação, assentada no despreparo dos profissionais
e, em especial, dos cuidadores.
O modelo do cuidado ao idoso no Asilo X está centrado na cura e não na
prevenção. Falta planejamento em relação a muitas ações e o entendimento da
instituição, em relação aos cuidadores, recai no quantitativo destes e não sobre
a qualidade dos seus serviços. A instituição define que não admite idosos
dependentes e justifica isso pelo alto custo que idosos com limitações
ocasionam. Desse modo, os idosos são admitidos sem dependência e ao longo
do tempo tornam-se dependentes. Isso, o asilo não consegue evitar, mesmo
porque, não investe na prevenção e na promoção da saúde para o idoso.
Devido o asilo ainda ter um discurso de modelo assistencial, baseado na
caridade, procura contar das suas ações com o trabalho de voluntários e das
freiras, que também moram lá. Esses auxiliam nas atividades religiosas e de
lazer. Além disso, devido à admissão de idosos, pelas quais a família se
responsabiliza com seu cuidado direto, o Asilo tem, ainda, que conviver com
cuidadores informais. A preocupação maior da administração do Asilo X com
esses cuidadores diz respeito às questões trabalhistas. A direção teme que
eles venham configurar vínculos trabalhistas, e reclamarem indenizações como
funcionários da instituição. Para evitar isso, o corpo funcional do asilo não
questiona a qualidade dos serviços que os cuidadores informais prestam ao
idoso, sendo, portanto, omisso em relação aos procedimentos realizados por
eles. O mais grave é que, no geral, esses cuidadores são pessoas que não
possuem capacitação e, portanto, não seriam indicados para cuidar de idosos.
Contudo, o asilo deve refletir sobre sua verdadeira função, e perceber a
heterogeneidade da velhice, independentemente de sua condição social. Sua
permanência requer reformas no cuidado oferecido através de protocolos de
atendimento ao idoso. Em particular, vemos a urgência da necessidade da
234
construção de protocolo no Asilo X, voltado para as quedas, que são
freqüentes e se caracterizam tanto por ser uma violência institucional expressa
nas negligências, como uma conseqüência da violência das relações
interpessoais. Os idosos e as idosas brigam e reagem com empurrões e
agressões físicas.
O protocolo deve conter o motivo da queda, o número de quedas que o
idoso já sofreu, qual capacidade funcional foi atingida. Causa da queda se
escorregões, tropeção, perda da consciência ou tonturas, empurrões de
terceiros, doenças que provoquem instabilidade postural como diabetes,
cardiopatias, osteoporose. Esse questionário deve ficar no prontuário de cada
idoso independente da acomodação dele, na instituição e, se possível, deve
ser aplicado desde a sua entrada na instituição. Um fluxograma indicando os
procedimentos a serem realizados em caso de quedas também deve ser
afixado nos pavilhões, pousadas e pensionatos, a fim de orientar os cuidadores
para melhor atender os internos.
Além disso, é necessário reorganizar a assistência de enfermagem, através
da sistematização do cuidado ao idoso. Em medida de urgência deve ser,
inicialmente, voltado para o uso e a administração dos medicamentos, evitando
erros e abusos terapêuticos na dosagem e na indicação pertinente, de acordo
com a clínica do envelhecimento, representada pela geriatria.
Fazem falta os instrumentos de avaliação funcional, que deveriam ser
aplicados junto aos idosos, para verificar o grau de autonomia e prescrever o
cuidado adequado a cada idoso. No asilo, a manutenção da saúde de seus
moradores requer muito mais do que o processo curativo, e mostra-se sedento
por medidas preventivas e de promoção da saúde. Com isso, sugerimos
trabalhos educativos com os idosos e seus familiares. Essas atividades podem
ser palestras interativas e dinâmicas, das quais o idoso e os familiares
participariam, colocando suas dificuldades, desde as relações interpessoais até
o entendimento sobre o processo de envelhecimento.
Resta-nos assinalar que o Asilo X possui profissionais que podem, de
maneira interdisciplinar, programar atividades de prevenção de danos e
promoção da saúde. Dessa maneira, todos participariam e realizariam trabalho
em equipe, fundamental para a promoção da saúde de uma coletividade.
Nesse bojo de mudanças de práticas, a aplicação dos instrumentos como
235
genograma e ecomapa seria importante também, poderão contribuir para o
êxito das atividades próprias ao asilo. Ainda, o emprego do familiograma na
admissão do idoso, para reconhecer a estrutura familiar e avaliar os possíveis
responsáveis por ele. O ecomapa também poderá auxiliar na análise da rede
de apoio que o idoso tem, antes de entrar na instituição, ajudando a conhecer
melhor o idoso e o planejamento do trabalho com suas famílias.
O Asilo X precisa assumir sua face empresarial e criar um espaço para que
o idoso possa contribuir, exprimindo as exigências de um consumidor moderno,
a exemplo de uma constante avaliação, com vistas a críticas construtivas, onde
todos
possam
ganhar
pela
satisfação
do
cliente-idoso-família
e
o
aprimoramento da empresa- asilo. Para isso, nossa sugestão é a composição
de uma comissão ou conselho, com representantes dos idosos, das famílias e
do próprio asilo. Esse grupo deverá reunir-se pra discutir os problemas
existentes e sugerir soluções ou estratégias para vencê-los, estabelecendo
prazos e metas.
Além disso, vemos como urgente o investimento em capacitações para os
cuidadores do asilo, e de outros profissionais. Essas capacitações podem ser
realizadas pelas enfermeiras, implantando a educação permanente no Serviço.
Ainda, pode o asilo procurar estar integrado no que vem vigorando atualmente
que é a contratação de mão de obra através das cooperativas de profissionais
de saúde. Dessa maneira, a instituição pode resolver problemas que ocorrem,
com freqüência em relação a questões trabalhistas e ainda ter a garantia de
profissionais que estarão ligados a outra empresa e, portanto, esta deve se
preocupar em capacitá-los
Para evitar ser conivente com uma das mais graves formas de violência
contra o idoso, que é o abandono das famílias e /ou responsáveis, é importante
notificar ao Ministério Público, o qual não deve ser visto como ameaça à
continuação do asilo na sociedade, apesar da sua imagem ser a de um órgão
controlador e punitivo.
Com tudo isso, este estudo não esgota toda complexidade desta temática.
É necessário que outros estudos sejam realizados, a fim de que, cada vez
mais, refine-se a atenção ao idoso e as necessidades sociais, culturais e
biológicas em um espaço que certamente poderá ser uma opção de vida.
236
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