UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALFENAS / UNIFAL-MG FÁBIO VIEIRA MARTINS VALDELICE MEZAVILA MILAN ANÁLISE SOCIOAMBIENTAL DAS BACIAS HIDROGRÁFICAS URBANAS DO MUNICÍPIO DE MACHADO-MG ALFENAS 2011 2 FÁBIO VIEIRA MARTINS VALDELICE MEZAVILA MILAN ANÁLISE SOCIOAMBIENTAL DAS BACIAS HIDROGRÁFICAS URBANAS DO MUNICÍPIO DE MACHADO-MG Trabalho de Conclusão de Curso apresentado no curso de graduação à Universidade Federal de Alfenas/UNIFAL-MG, para conclusão do curso de Geografia Licenciatura. Orientador: Prof. Dr. Clibson Alves dos Santos ALFENAS 2011 3 FÁBIO VIEIRA MARTINS VALDELICE MEZAVILA MILAN ANÁLISE SOCIOAMBIENTAL DAS BACIAS HIDROGRÁFICAS URBANAS DO MUNICÍPIO DE MACHADO-MG Trabalho de Conclusão de Curso apresentado no curso de graduação à Universidade Federal de Alfenas/UNIFAL-MG, para conclusão do curso de Geografia Licenciatura. Data de defesa: 25 de novembro de 2011. Resultado: BANCA EXAMINADORA: Professor Dr. Paulo Henrique de Souza Professora Dra. Michele Lindner 4 Dedicamos aos nossos familiares, que sempre nos apoiaram e contribuíram para a realização deste trabalho. 5 AGRADECIMENTOS Primeiramente a Deus, que sempre nos concedeu força e luz, e por ter nos fortalecido e consolado nos momentos difíceis, diante de tantos obstáculos que pareciam querer nos impedir de continuar, o Senhor nos fortaleceu e com perseverança concluímos a tarefa. Aos nossos amigos e colegas, pela cumplicidade e companheirismo nesta jornada. Aos nossos colegas Michele Fernanda Renzo e Henrique Faria dos Santos, que sempre nos apoiaram e que no decorrer dos quatro anos de faculdade se tornaram mais do que simples colegas, se tornaram grandes amigos. Aos nossos professores, que durante o curso nos orientaram e de forma significativa contribuíram para busca de conhecimentos para que sejamos cidadãos críticos e participativos na vida da sociedade. E de maneira muito especial ao professor Dr. Clibson Alves dos Santos, pela orientação, pelo incentivo e confiança depositada na capacidade de produzir nosso trabalho, além de toda dedicação oferecida no decorrer do curso. Deixamos aqui também nossos agradecimentos a todos aqueles que contribuíram de forma direta ou indireta, cujos nomes não foram mencionados, mas muito contribuíram para concretização desse trabalho. 6 RESUMO Objetivando contribuir para futuros programas e projetos de planejamento ambiental nas áreas urbanas onde percorrem o rio Machado e o seu principal afluente, o ribeirão Jacutinga no município de Machado, foram realizados no presente estudo levantamentos de dados dos meios social e ambiental, que visaram demonstrar o atual estado destas áreas, de forma que pudessem ser identificados os principais aspectos de vulnerabilidade socioambiental. Para subsidiar a análise, foram realizas pesquisas cujo resultado demonstrou que as áreas apresentam diversos sinais de interferência humana que se tornaram evidentes na qualidade da água do rio. Além deste problema, foi identificado na área de estudo, a necessidade de maiores investimentos para o desenvolvimento da conscientização da população local. Palavras chaves: análise socioambiental, rio Machado, ribeirão Jacutinga. 7 ABSTRACT Aiming to contribute to future programs and projects for environmental planning in urban areas where travel the Machado River and its main tributary, the stream Jacutinga in the municipality of Machado, were performed in the present study data from surveys of social and environmental resources, which aimed to demonstrate the current status of these areas so they could be identified major issues of social and environmental vulnerability. To complement this analysis, studies were carried out whose results showed that the areas have several signs of human interference that became evident in the quality of river water. In addition to this problem was identified in the study area, the need for greater investment in the development of awareness of the local population. Keywords: socio-environmental analysis, Machado river, stream Jacutinga. 8 SUMÁRIO ANÁLISE SOCIOAMBIENTAL DAS BACIAS HIDROGRÁFICAS URBANAS DO MUNICÍPIO DE MACHADO-MG 1. Introdução.............................................................................................................10 2. Referencial Teórico................................................................................................13 3. Metodologia............................................................................................................15 4. Resultados..............................................................................................................16 4.1. O rio Machado.................................................................................................16 4.2. A enchente no bairro Santa Luíza...................................................................18 4.3. A enchente no bairro Santo Antônio...............................................................20 4.4. A enchente que marcou a história da cidade..................................................21 4.5. Impactos causados pela mineração de areia no rio Machado........................23 5. Considerações Finais e Sugestões........................................................................31 6. Referências............................................................................................................33 9 LISTA DE FIGURAS FIGURA 1: Bacia do Rio Grande................................................................................10 FIGURA 2: Localização da área de estudo................................................................11 FIGURA 3: Rio Machado............................................................................................16 FIGURA 4: Casa no bairro Santa Luíza nas proximidades das águas que transbordaram do rio Machado...............................................................18 FIGURA 5: Caminhão da prefeitura de Machado fazendo a remoção temporária das famílias que vivem nas áreas atingidas pela enchente no bairro Santa Luíza..............................................................18 TABELA I: Medição do nível do rio Machado durante a ocorrência das enchentes..20 FIGURA 6: Casa do bairro Santo Antônio próxima ao leito do rio.............................21 FIGURA 7: Draga utilizada na extração de areia do rio Machado.............................24 FIGURA 8: Ribeirão Jacutinga na extensão do bairro Bom Jesus.............................26 FIGURA 9: Lançamento de esgoto no ribeirão Jacutinga..........................................27 FIGURA 10: Lixo lançado pelos moradores próximos ao ribeirão Jacutinga.............28 FIGURA 11: Árvore de grande porte nas margens do ribeirão Jacutinga..................29 FIGURA 12: Margem do ribeirão Jacutinga sem vegetação......................................30 10 1. INTRODUÇÃO O rio Machado que corta a cidade que leva o seu nome, possui além de aspectos positivos como o uso da água para abastecimento do município, e também alguns aspectos negativos que serão retratados neste trabalho. O rio que nasce na cidade de Congonhal, sul do estado de Minas Gerais, mais precisamente no sítio Cabeceira do Rio Machado e deságua no Lago de Furnas entre o bairro Matão (Alfenas) e o bairro Chico dos Santos (Paraguaçu) possui um percurso de aproximadamente 200 km, inserido dentro da Bacia hidrográfica do Rio Grande (Figura 1) e envolve muitas cidades em sua bacia hidrográfica, sendo elas: Congonhal, Espírito Santo do Dourado, Ipuiúna de Caldas, Campestre, São João da Mata, Poço Fundo, Machado, Paraguaçu e Alfenas (ASPARMA, 2008). Figura 1: Bacia do Rio Grande. Em vermelho rio Machado. (RODRIGUES, 2010) O rio transcorre por toda extensão urbana de Machado e o seu principal afluente dentro do município é o ribeirão Jacutinga. (Figura 2). 11 Figura 2: Localização da área de estudo. Linha Branca: delimitação da área urbana; linha Azul mais espessa: Rio Machado na área urbana; linha azul mais fina: Ribeirão Jacutinga na área urbana. O ribeirão Jacutinga é o mais afetado com o lançamento de esgoto in natura (sem tratamento) e deságua diretamente no leito do rio. Além disso, em todo seu percurso existem muitos outros problemas que afetam a população que vive naquela área, como: lançamento de lixo nas margens ou até mesmo direto no córrego, pouca ou nenhuma conscientização da população, seja por falta de informações ou esclarecimentos dos órgãos públicos responsáveis; inexistência de mata ciliar em alguns pontos da extensão dos córregos, entre muitos outros fatores. Outros problemas que envolvem sociedade e meio ambiente também atingem outras áreas da cidade de Machado, principalmente os bairros Santa Luíza e Santo Antônio. Esses são afetados de forma significativa nas épocas de elevação do nível do rio devido ao período de chuvas e a população local passa a sofrer com os impactos causados pelas enchentes. Para chegar às possíveis soluções para tais problemas, são necessários estudos que avaliem a real situação de questões que estejam relacionadas aos impactos socioambientais provocados pelo rio Machado e seus afluentes, para que 12 possa haver o surgimento e implantação de propostas que diminuam a degradação e conseqüências geradas pelos impactos. O presente trabalho tem como objetivo proporcionar uma análise socioambiental das margens dos cursos d’água e das comunidades próximas a eles dentro da área urbana da cidade de Machado, apoiados num diagnóstico socioambiental, através do qual serão apontados os problemas de cunho ambiental e social encontrados. 13 2. REFERENCIAL TEÓRICO A pesquisa realizada tem fundamentação teórica por meio de estudos já realizados com temas relacionados a problemas socioambientais, porém em áreas distantes dos vivenciados no município de Machado, tais como os apresentados neste trabalho, sendo este, o primeiro estudo de cunho acadêmico realizado em torno desta temática na cidade. Segundo Cardoso e Almeida (2010) em estudo realizado na bacia hidrográfica do Rio das Ondas as mudanças socioambientais que ocorreram, principalmente, durante a década de 1980, se deu ao aumento do uso e ocupação das áreas da bacia tanto pelo processo de irrigação na agricultura, quanto pelo processo de instalação de chácaras as margens dos rios, houve um acarretamento de mudanças paisagísticas naturais do ambiente e isso afetou até mesmo reservas legais como também áreas de preservação permanente, que levaram os autores a destacarem a perda das qualidades estéticas e socioambientais do rio tudo provocado pela utilização dos recursos oferecidos pela bacia do Rio de Ondas. Já Steinke (2008), retrata os impactos do córrego Arquineiras na cidade de Águas Claras no Distrito Federal, provocados pelo intenso processo de urbanização que oferece conseqüências significativas para a população do município, que pela falta de conscientização lança lixo e dejetos no leito do córrego, sendo que, além disso, a cidade sofre com a má infraestrutura que provêm de uma administração pública não planejada. Júlio e Brandli (2010) trabalham as questões que levaram a perda de qualidade de vida da população ribeirinha do córrego Santo Antônio em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, perda essa, gerada pela degradação deste córrego que é o principal afluente do rio Passo Fundo. A degradação se fez, principalmente pelo lançamento de esgoto doméstico e de resíduos sólidos, com um fator contribuinte para o agravamento da situação: o crescimento descontrolado da população urbana. As conseqüências desses problemas são as constantes inundações. De acordo com Sales (2004) é possível realizar projetos que visem à readequação urbana de margens de rios ou ribeirões, tais como a retirada da 14 população das margens impedindo a reocupação das mesmas, mas sem desabrigar a população que antes vivia próxima a essas áreas, dando a elas moradia digna, através de apoios oferecidos pelos órgãos públicos de cada cidade. Os problemas socioambientais retratados por esses autores se relacionam com as questões trabalhadas nesta pesquisa, pelo fato dos mesmos abordarem temas que discutem uma problemática causada, na maioria das vezes, pela falta de conscientização da população, uso e ocupação inadequada das margens dos rios, crescimento urbano desordenado, falta de investimentos, pelo poder público, em infraestrutura, entre outros fatores. 15 3. METODOLOGIA A trajetória da pesquisa é baseada em trabalhos de campos ao longo do curso do rio Machado e seu afluente, o ribeirão Jacutinga, que concentram a maior parte de suas extensões na área urbana da cidade. O primeiro passo realizado foi fazer um levantamento prévio de toda área a ser estudada, através de um trabalho de campo onde foram realizados coletas de dados e o registro fotográfico dos locais a serem trabalhados. Em seguida realizouse um mapeamento dos principais pontos que apresentam problemas que causam impactos socioambientais relacionados, direta e/ou indiretamente, com rio e o ribeirão. Na segunda fase, foram realizadas diversas visitas em locais estratégicos para verificar todas as questões levantadas que revelam pontos negativos e que oferecem riscos à população, e podem-se observar vários problemas, entre os quais o crescimento desordenado da população, resultando na ocupação das áreas ribeirinhas. A terceira etapa consistiu-se na análise dos dados quantitativos da pesquisa, que foram disponibilizados pela Defesa Civil da cidade, informações que contribuíram para maior entendimento das consequências causadas pelo transbordamento do rio nos períodos chuvosos. No decorrer da pesquisa foram realizados outros trabalhos de campo nos locais estudados para ser feito um acompanhado da situação atual desses locais. Foram analisadas também, pesquisas com temas relacionados a este, com problemas diretamente ligados ao descontrole socioambiental, para servirem como base para o desenvolvimento deste trabalho. Na fase final da realização do trabalho foram aplicadas entrevistas com a população que residem próximas às áreas mais afetadas com os problemas socioambientais, e com os principais impactos que geram maior desconforto, a fim de adquirir maiores informações sobre as questões que os afligem. 16 4. RESULTADOS 4.1. O RIO MACHADO Em toda extensão do rio Machado (Figura 3) na área urbana do município de Machado, é possível localizar problemas que oferecem desconforto de forma direta aos moradores próximos e também de forma indireta para toda a população da cidade. Figura 3: Rio Machado. (Fonte: Fábio Vieira Martins) O despejo de esgoto sem tratamento em seu leito, assim como no Jacutinga, também é um dos principais fatores que causam impactos na fauna e flora destes ambientes. De acordo com o SAAE (Serviço Autônomo de Água e Esgoto), em toda a cidade, existe apenas uma estação de tratamento de esgoto (ETE) que atende somente um bairro urbano do município. Por isso o rio Machado recebe sem 17 nenhum tipo de tratamento quase todo o material gerado pela cidade, tanto resíduos domésticos, quanto resíduos gerados por comércios e pequenas indústrias. Das indústrias que lançam seu esgoto no rio, fica salvo apenas o Pastifício Santa Amália Ltda. que possui de forma independente uma pequena estação de tratamento de esgoto dentro de suas instalações. Ainda segundo informações do SAAE, há um projeto da prefeitura municipal com esse órgão, que prevê a construção de outras estações de tratamento de esgoto que atenderá a área central da cidade, no entanto ainda não há previsão do início dessas obras. Outro problema encontrado no rio Machado, é o lixo encontrado em toda margem que se reserva à falta de conscientização da população, já que, a prefeitura realiza regularmente a coleta de lixo em todos os bairros e área central da cidade. Caberia aqui a implantação de projetos que favorecessem e contribuíssem de forma positiva o respeito da população por um bem de uso comum, que abastece a cidade e oferece equilíbrio para a vida no município. Já em períodos chuvosos o problema é outro, os bairros Santa Luíza e Santo Antônio são os mais prejudicados, pois devido à ocupação inadequada das margens do rio pela população, a grande maioria de baixo poder aquisitivo, que ocupa as áreas que podem ser inundadas, as conseqüências aparecem de forma significativa. Devido ao acúmulo de lixo, e um fator que favoreceu muito esse tipo de problema nestes bairros, que é o crescimento da população urbana que acarreta o processo de construção de residências em áreas de riscos (Figura 4), neste caso, próximas as margens do rio, não é necessário que chova muito para que as pessoas que residem nestes bairros comecem a sofrer com as conseqüências das enchentes, e as conseqüências são muitas, como perdas de móveis, doenças, pessoas desabrigadas, e em casos extremos, até mesmo mortes. 18 Figura 4: Casa no bairro Santa Luíza nas proximidades das águas que transbordaram do rio Machado. (Fonte: Jornal Folha Machadense, Janeiro de 2011) 4.2. A ENCHENTE NO BAIRRO SANTA LUÍZA Um dos bairros mais antigos da cidade, formado por uma classe social de baixa renda, estruturou-se seguindo o percurso final do rio Machado na área urbana. Há algumas décadas atrás, problemas com enchentes e inundações não faziam parte da história do bairro, no entanto, nos últimos anos o poder público foi obrigado a concentrar atenções para este local, pois as águas que transbordam do rio durante os períodos de chuva, estão provocando sérios prejuízos para alguns moradores do bairro. Essa nova história do bairro, com diagnósticos de impactos socioambientais, vem sendo escrita com um fator que de maneira geral é o que mais agrava a situação destes problemas em toda a cidade: o crescimento populacional de forma desestruturada. A cidade cresceu muito nos últimos anos em termo de espaço físico, apesar de pesquisas realizadas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) não apontarem crescimento populacional significativo. No entanto, a 19 parcela da população referente à classe baixa, na tentativa de uma vida melhor, com desejo de possuir sua casa própria, acaba adquirindo propriedades às margens do rio, propriedades estas, que estão totalmente ameaçadas com riscos de sofrerem diretamente com os impactos provocados pelas enchentes Muitos estão sendo os anos em que o rio está causando impacto na vida das famílias residentes nas suas proximidades, porém a prefeitura, juntamente com o projeto do governo federal “Minha casa, minha vida”, prevê que até o início de 2012 as famílias sejam removidas para um novo bairro em construção na cidade, o bairro Vila Formosa, próximo ao atual onde essas pessoas moram, no entanto, com segurança em relação a problemas ligados a enchentes. Esse plano da prefeitura realizará a transferência de sete famílias, que deixarão os riscos que correm em suas atuais casas. Após isso será realizado o processo de desmanche dessas residências para que outras pessoas não venham se instalar nesses locais, ou até mesmo, para que os atuais moradores não voltem, visto que um processo parecido com esse, de remoção dessas pessoas, já ocorreu antes, mas muitas famílias voltaram para suas antigas moradias, cujas quais, onde residem atualmente (Figura 5). Figura 5: Caminhão da prefeitura de Machado fazendo a remoção temporária das famílias que vivem nas áreas atingidas pela enchente no bairro Santa Luíza, em janeiro de 2011. (Fonte: Jornal Folha Machadense) 20 Em janeiro de 2011, quando ocorreram as enchentes que atingiram este bairro, até na metade do mês (dia 15) havia chovido o equivalente a 161,4mm de chuva, visto que a média esperada para este mês na cidade é de até 350 mm. Isto ajuda a revelar que está aumentando o número de casos de inundações nestas áreas devido à ocupação inadequada pela população. Nos sete primeiros dias do ano, o rio elevou seu nível a mais de 3 metros da normalidade (Tabela I): Dias / Mês Janeiro-2011 Nível do rio em metros 1º (Primeiro) 1,78 2 (Dois) 1,92 3 (Três) 2,30 4 (Quatro) 3,38 5 (Cinco) 5,27 6 (Seis) 5,18 7 (Sete) 4,92 Tabela I: Medição do nível do rio Machado, durante a ocorrência das enchentes. (Fonte: Estação Climatológica de Machado - Epamig/Empresa de Pesquisas Agropecuárias de Minas Gerais) Nesta enchente houve sete famílias desabrigadas no bairro, que foram levadas para abrigos improvisados oferecidos pela prefeitura. Neste ano não houve a ocorrência de mortes. 4.3. A ENCHENTE NO BAIRRO SANTO ANTÔNIO Um bairro composto também por uma população de baixa renda, o Santo Antônio, também sofre com os impactos causados pelas cheias do rio Machado. Esse bairro cresceu seguindo o percurso do rio e de forma bastante precária, por meio de construções simples, se estruturou (Figura 6). 21 Figura 6: Casa do bairro Santo Antônio próxima ao leito do rio. (Fonte: Valdelice Mezavila Milan) Segundo a população residente no bairro Santo Antônio, a forma de investimento nesse bairro por parte do poder público, que seria neste caso a prefeitura municipal que seria o órgão que deveria administrar os investimentos destinados a resolver esses problemas, se mantém quase que de forma neutra. Isso implica numa maior dificuldade, por parte das famílias, de reestruturação pós enchentes. Os principais impactos gerados de forma direta e indireta pelas enchentes, tanto neste bairro, quanto no Santa Luíza, são as perdas materiais, risco de desabamentos dos imóveis, problemas de abastecimento, perda da qualidade de vida, riscos de contaminação e contração de doenças infecto-contagiosas. 4.4. A ENCHENTE QUE MARCOU A HISTÓRIA DA CIDADE Um dos maiores impactos diretos que o rio ofereceu para uma grande parcela populacional da cidade foi a enchente que ocorreu no ano de 2000. 22 De acordo com registros do Jornal Folha Machadense, a grande quantidade de chuva que caiu sobre o município fez com o volume do rio chegasse ao extremo, ao ponto de transbordar e atingir áreas antes nunca atingidas com enchente, inclusive até mesmo áreas centrais da cidade com grande concentração de pessoas, como no caso da rodoviária e do bairro Jardim Chamonix, onde tiveram que ser utilizados barcos, do tipo canoa, para a locomoção dos moradores desta área. O bairro Jardim Chamonix que é formado pela sua principal avenida, a Dr. Renato Azeredo, é composto por uma gama alta de comércio e pequenas indústrias, os quais sofreram grandes perdas materiais com a enchente do ano 2000. O jornal “FOLHA MACHADENSE”, publicou, no ato do acontecimento, uma matéria relatando sobre esses prejuízos: “Empresas situadas principalmente ao longo da avenida Renato Azeredo passaram os últimos dias contabilizando os prejuízos causados pela enxurrada e pela lama... Cabide Mel tinha calculado perda de R$ 40.000,00... Multitec ainda somava os prejuízos... A Tapeçaria e Toldos Três Irmãos avaliou em R$ 15.000,00 o montante levado junto com a enxurrada... A Destaque Indústria e Comércio teve aproximadamente R$ 4.200,00 de prejuízos... Já as salas de aulas, banheiros, cozinha e direção da Escola Estadual Paulina Rigotti de Castro, foram alagados, as aulas ainda estão suspensas por tempo indeterminado...” O jornal também relatou as situações às quais os moradores das áreas atingidas foram submetidos: “Foram quatro dias ininterruptos de chuvas, desde o final da noite do dia 31 de dezembro e início da madrugada do dia 1º até o dia 4... havia chovido 2 em Machado 358,7 mm/m , o volume corresponderia a mais de 1/5 da média anual 2 da região, que é de 1.500 mm/m ... Quando cerca de seis casas no bairro Santa Luíza foram atingidas pelas águas, os moradores da avenida Renato Azeredo e do bairro Santo Antônio começaram a ficar apreensivos... Por volta das 18h00 de segunda feira, a avenida Renato Azeredo começa a ser coberta pelas águas. As 20h30, várias casas já haviam sido invadidas... No bairro Santa Luíza, pelo menos cinco famílias tiveram que deixar suas casas. Três foram abrigadas numa creche, outras duas foram alojadas numa garagem... O ginásio poliesportivo recebeu flagelados da região do bairro Jardim Chamonix, e outras famílias foram abrigadas numa igreja.” 23 Em relação aos bairros Santa Luíza e Santo Antônio, esses sim foram os mais prejudicados. Pessoas tiveram suas casas completamente cobertas pela água, houve casos de afogamento e morte, as perdas materiais somaram valores significativos, além de todo esforço e trabalho que tiveram que ser gerados para a recuperação dessas áreas afetadas. Ainda de acordo com registros do Jornal Folha Machadense, na década de 1960 houve uma enchente ainda maior que a ocorrida no ano de 2000, porém não há registros comprobatórios, visto que nenhum órgão da cidade possui algum tipo de informação, além disso, os impactos causados com certeza foram em menor escala, pois muitas das áreas impactadas no ano de 2000, naquela época não eram povoadas. De acordo com os dados da Estação Climatológica de Machado, instalada na EPAMIG (Empresa de Pesquisas Agropecuárias de Minas Gerais), que pertence ao 5º DISME (Distrito Meteorológico) do INMET (Instituto Nacional de Meteorologia), em apenas cinco dias (31 de dezembro de 1999 a 4 de janeiro de 2000), choveu cerca de 358,7 mm, mais que o previsto para todo o mês de janeiro, correspondendo a mais de 1/5 da média anual da região de Machado, que é de 1500mm. 4.5. IMPACTOS CAUSADOS PELA MINERAÇÃO DE AREIA NO RIO MACHADO A mineração de areia ocorre em locais onde houve a deposição de material sedimentar erodido ao longo das eras geológicas, normalmente próximos a fundo de vales e aos rios, coincidindo muitas vezes com as matas ciliares, consideradas áreas de preservação permanente (APP). O Código Florestal e a Resolução 302/2002 do CONAMA impõem que as áreas de preservação permanente devem ficar intocadas. Porém, a Resolução do CONAMA 369/2006 autorizou o uso, em se tratando de mineração de areia, uma vez que tal atividade é considerá-la de interesse social. No entanto, a mineração de areia acaba gerando inúmeros impactos sociais, econômicos e ambientais, alguns positivos, mas sobre tudo é responsável por grandes impactos ambientais negativos, que podem se tornar irreversíveis. 24 Segundo POPP (1992), isso ocorre devido o crescimento da industrialização e o crescimento das cidades aumentando a procura pela matéria prima e o conflito entre a extração da mesma e a conservação do meio ambiente. A areia possui baixo valor econômico, isso levou VALVERDE (1994) a debater que a extração de areia se torne problemática porque as empresas extraem essa matéria-prima, muito próximo aos centros de consumo, devido aos gastos com o transporte, causando conflitos entre mineração e a área urbana. Exatamente como ocorre na cidade de Machado. Para a retirada de areia do Rio Machado é utilizado dragas com bombas de sucção e recalque (Figura 7). Essas dragas têm a finalidade de escavar e remover a areia submersa e transportando-a, através de tubulações acopladas, para locais previamente selecionados. Figura 7: Draga utilizada na extração de areia do Rio Machado. (Fonte: Fábio Vieira Martins) 25 Segundo LELLES, et al. (2005), é possível listar alguns impactos negativos causados pelo processo de extração mineral no rios, entre eles: Turbidez no curso d’água, em virtude do surgimento de fenômenos erosivos, decorrentes da exposição do solo às intempéries; Contaminação do curso d’água causada pelos resíduos (óleos, graxas, lubrificantes) provenientes de maquinarias utilizadas nos diferentes tipos de operações; Depreciação da qualidade física, química e biológica da água superficial, pelo lançamento de efluentes advindos do esgoto sanitário; Alteração da calha original dos cursos d’água, em virtude do uso de equipamentos de extração de areia nos leitos dos rios; Possibilidade de interferência na velocidade e direção do curso d’água, tendo em vista a eliminação de bancos de sedimentos presentes nos leitos dos rios; Depreciação da qualidade de vida dos trabalhadores e de vizinhos situados no entorno do empreendimento, devido aos ruídos causados pelas máquinas nas diferentes operações de implantação do empreendimento; Impacto visual, associado às instalações das estruturas, ao processo da retirada da vegetação, à estocagem da areia e à descaracterização da paisagem natural; Possíveis danos à saúde pública, pela importação e disseminação de vetores e doenças com a vinda de trabalhadores de outras regiões; Depreciação do patrimônio público, em virtude das trepidações ocorridas com o uso de máquinas pesadas, podendo provocar avarias em pontes, estradas e construções próximas ao local; Possibilidade de ocorrência de acidentes com animais peçonhentos, em razão da permanência de entulhos e detritos advindos da extração; entre outros. Nem todos esses impactos ocorrem no município de Machado, porém alguns deles estão presentes neste processo de extração de areia, o que acarreta uma série de problemas que contribuem de forma significativa para o desequilíbrio ambiental do rio Machado. 26 4.6. O RIBEIRÃO JACUTINGA O ribeirão Jacutinga (Figura 8) é o principal afluente urbano do rio Machado, possui uma extensão que corta um dos bairros da cidade, o bairro Bom Jesus. Figura 8: Ribeirão Jacutinga na extensão do bairro Bom Jesus. (Fonte: Fábio Vieira Martins) Um dos seus principais aspectos negativos é o lançamento de esgoto diretamente no seu leito (Figura 9), o que acarreta odores indesejáveis para a população que circula por aquela área, e principalmente para quem reside nas proximidades. Isso talvez possa ser um problema que deve ser resolvido pelo poder público, visto que na cidade há apenas duas estações de tratamento de esgoto (ETE’s), controladas pelo SAAE (Serviço Autônomo de Água e Esgoto), que presta serviços na manutenção e distribuição da água que abastece a cidade. Porém essas duas estações de tratamento de esgoto atendem somente dois bairros no município, o Jardim das Oliveiras e Jardim dos Funcionários. Sendo assim, o esgoto produzido 27 pelos moradores do bairro Bom Jesus, não possui outro destino, senão o ribeirão Jacutinga. Figura 9: Lançamento de esgoto no ribeirão Jacutinga. (Fonte: Valdelice Mezavila Milan) Além disso, a falta de conscientização da população também é um dos principais problemas encontrados no que diz respeito à preservação do ribeirão, pois é visivelmente perceptível lixo jogado a céu aberto nas margens do ribeirão (Figura 10) e isso se deve unicamente a falta de conscientização da população, pois a prefeitura municipal realiza a coleta de lixo regularmente em toda cidade, inclusive neste local. Por parte da prefeitura, também já houve projetos que tentaram regredir o processo de agressão ao ribeirão, como por exemplo, a instalação de latões fixados as margens para que a população pudesse depositar o lixo para ser recolhido pelo caminhão de coleta, porém atos de vandalismos destruíram esse projeto, de forma que todos os latões foram arrancados e destruídos. 28 Figura 10: Lixo lançado pelos moradores próximos ao ribeirão Jacutinga. (Fonte: Fábio Vieira Martins) A questão da poluição do Jacutinga é um problema antigo, visto que campanhas de conscientização já foram realizadas por grupos de pessoas que se preocuparam e se preocupam com a revitalização do Jacutinga. Para tentar controlar o lançamento de dejetos, como sacolas, plásticos, entulhos e até mesmo roupas no ribeirão, no ano de 1993 uma campanha de conscientização ambiental foi realizada em prol do Jacutinga, com o apoio de equipes de jornalismo que tentaram promover a conscientização da população, porém não houve sucesso. Depois disso, vários outros projetos foram levantados, tanto por parte do poder público, quanto por membros da comunidade local, mesmo assim o ribeirão ainda apresenta degradação decorrente dessa falta de educação ambiental da população. Através de trabalhos de campo, onde foram realizadas entrevistas com os moradores locais, foi possível realizar uma interatividade maior com a população, e constatou-se que mesmo de forma indireta a maioria das pessoas acaba degradando o Jacutinga. Inclusive, os moradores das áreas próximas, relatam que indivíduos, cujos estes residem em outros locais da cidade, durante horários de 29 pequena movimentação na região, lançam quaisquer tipos de dejetos no ribeirão, contribuindo assim para o aumento da degradação do ambiente local. Outro aspecto que precisa de atenção no ribeirão Jacutinga está relacionado à vegetação que ocupa sua margem. O plantio de árvores no local se fez de forma inadequada, visto que as espécies não são apropriadas para a área devido ao grande porte que possuem. Isso ocorreu devido à falta de planejamento do poder público que permitiu que a população realizasse esse tipo de atitude. Então, as árvores que se encontram no local hoje (Figura 11) oferecem riscos para os moradores locais, pois suas raízes grandes atravessam a rua e chegam às residências, provocando soerguimento no asfalto e comprometendo a estrutura de algumas casas. Figura 11: Árvore de grande porte nas margens do ribeirão Jacutinga. (Fonte: Valdelice Mezavila Milan) 30 Porém nem toda extensão do ribeirão possui algum tipo de vegetação, a mata ciliar já foi extinta há muito tempo em determinados locais do leito do Jacutinga (Figura 12). O pior a se informar é que a própria população, desinformada das consequências, faz questão de acabar com toda e qualquer vegetação que possa aparecer, lançando contra ela, herbicidas do tipo roundap, provocando ainda, a contaminação da água do ribeirão. Figura 12: Margem do ribeirão Jacutinga, sem vegetação. (Fonte: Fábio Vieira Martins) 31 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS E SUGESTÕES As maiores implicações para uma melhora na qualidade e sustentabilidade das águas do rio Machado e seu afluente, o ribeirão Jacutinga, que foram analisados no presente trabalho estão diretamente ligados a realidade política, social e econômica. Como foi analisado no trabalho, a população ainda necessita de muitas informações, além de uma conscientização que contribua de forma significativa e que influencie positivamente, para que possa haver uma mobilização de todos, em prol das necessidades de melhorias ambientais no rio e no ribeirão. Foi possível analisar que com o passar dos anos, alguns dos problemas socioambientais presentes na cidade de Machado estão se agravando cada vez mais. Isso se deve a fatores socioeconômicos (população de baixa renda) acarretados também pelo crescimento populacional e a distribuição desordenada desta população, que se viu obrigada a se instalar em áreas consideradas de risco, como principalmente, nas várzeas do rio. O que poderia ser feito para melhoria das condições ambientais, e consequentemente, para a melhoria na vida social das populações presentes nas áreas de influência direta, do rio Machado e do seu principal afluente, o Jacutinga, seria o investimento em possíveis programas de educação ambiental, e principalmente investimento destinados as famílias que estão localizadas as proximidades do rio, para que estas possam ser alocadas com segurança em áreas que as permitam ter uma boa qualidade de vida. Além disso, se faz de extrema importância a aplicação de programas que recuperam as áreas já degradadas e devolva as condições naturais destes ambientes. Para isso, é necessário também que se realize a limpeza dos locais impactados pelo lançamento de lixo e esgoto. A recuperação dos impactos no rio provocados pela extração de areia necessita de tempo, e mesmo assim, não é possível restabelecer o equilíbrio natural do rio novamente, mesmo porque o as condições naturais do solo já foram afetadas. 32 O que será possível realizar é uma minimização dos impactos e reintegração da paisagem que fora afetada por este processo. Visto que ainda não há nenhuma análise de caráter acadêmico realizada no município em relação ao rio Machado e o ribeirão Jacutinga, este trabalho servirá de porte teórico para outros futuros trabalhos que visem o estudo da questão hídrica e socioambiental na área urbana de Machado. 33 6. REFERÊNCIAS ASPARMA. Algumas Informações sobre o Rio Machado. Abril de 2007. Disponível em: <http://www.asparma.com.br/riomachado.html>. Acessado em fevereiro de 2011. RODRIGUES, C, S. Histórico sobre a bacia hidrográfica de Machado. Diretor Municipal de Desenvolvimento e qualidade ambiental do município de Machado. Secretaria de Meio ambiente. 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Simpósio Nacional de recuperação de áreas degradas, 1., 1992. Curitiba. Curitiba: UFRJ/FUPEF, 1922. 34 VALVERDE, F. M. Avaliação qualitativa de impactos ambientais do reflorestamento do Brasil. 1994. Tese (Doutorado em Ciência Florestal) – Universidade Federal de Viçosa, MG: 1994. LELLES, et al. Perfil ambiental qualitativo da extração de areia em cursos d’água. 2005. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rarv/v29n3/a11v29n3.pdf>. Acessado em junho de 2011.