1
ASSOCIAÇÃO AUTOCARAVANISTA DE PORTUGAL - CPA
Recantos com encanto no Vale do Douro
2010
Por Mário Caxias
O “nosso” Douro é uma região onde sempre encontramos algo que nos encanta, seja conhecido
ou ainda desconhecido.
Meia dúzia de casais amigos que lá tinham andado comigo na Páscoa de 2002 andava a desafiarme para regressarmos lá. Por isso, indo eu conhecendo um pouco a zona, sugeri-lhes uma
semana de férias, aproveitando os feriados em Junho. A adesão foi entusiástica e global.
O nosso meio de transporte é a autocaravana, veículo transformado para turismo itinerante, que
proporciona uma forma assaz diferente de usufruir dos momentos de lazer. Eu destoo deles com
uma caravana, algo convertida para poder acompanhar os meus amigos.
Concentrámo-nos em Vila Nova da Barquinha ao final de uma quinta-feira, no aprazível e recente
Parque Almourol ribeirinho ao Tejo, seguindo para Fajão, no coração da Serra do Açor (concelho
de Arganil), onde um famoso cabrito assado nos esperava, finalizado por uma tigelada genuína da
qual restou apenas a… tigela! Após um repouso mais moroso, prosseguimos para Norte, via
Arganil e Tondela, até Vouzela, onde pernoitámos. Depois de instalados e jantados, fomos
cavaquear até um café na base do proeminente viaduto ferroviário, algo parecido com o de Pala.
De manhã, após compras alimentares no comércio local e uns pastéis regionais a acompanhar o
café, prosseguimos para Norte, pois pretendíamos almoçar já à beira Douro. Atravessámos o Rio
Vouga nas termas de São Pedro do Sul, passámos no centro de Castro Daire, e a subida para as
Portas de Montemuro antes do meio-dia e sob um céu límpido proporcionou o panorama
deslumbrante para Sul, onde predomina o São Macário e o invulgar Portal do Inferno, onde todos
nós também já por lá passámos noutro passeio por montes e vales. Uns dois ou três quilómetros
na descida para Cinfães, parámos na óptima fonte para refrescar e apreciar a zona superior do
vale do Bestança, sobressaindo Alhões. Prosseguimos para o melhor miradouro do Douro, o de
Teixeirô (acesso pela EN 222 na descida de Cinfães para o rio), onde preenchemos na totalidade
o pequeno largo arborizado e aí almoçámos calmamente no melhor restaurante ao ar livre do
Douro (opinião subjectiva, claro), cavaqueámos ou descansámos, e fomos a pé até ao miradouro
propriamente dito, agora que já estávamos de férias propriamente ditas (com reduzidas distâncias
para percorrer).
A meio da longa tarde regressámos a Cinfães, onde passeámos pelo centro e parámos numa
esplanada. Descemos ao rio, cruzámos a harmoniosa ponte de Mosteirô e estacionámos no cais
fluvial de Pala, onde jantámos e pernoitámos. Procurámos pelas laranjas ditas famosas, mas não
encontrámos.
Rua Luís Sttau Monteiro, Lote C3 – Loja C3A
1950 – 373 LISBOA
Portal: http://cpa-autocaravanas.com
Email: [email protected]
2
O amanhecer do terceiro dia perspectivava outro dia de céu radioso. Gorada a hipótese de
passeio fluvial numa embarcação da zona, neste dia tivemos o apoio do jovem cinfanense Sérgio
Sousa, nosso conhecido desde o primeiro passeio colectivo por lá, que nos levou à praia fluvial
de Paços de Gaiolo, depois à Barragem do Carrapatelo – onde experimentámos o eco de uma
vuvusela na eclusa – e de seguida à agradável Ribeira do Sampaio. Retomado o andamento,
atravessámos o Rio Bestança junto do entroncamento para Boassas, e fizemos uma pausa em
Caldas de Aregos. O almoço estava reservado em Porto de Rei; na descida, apanhava-se
cereja, embora fosse sábado; e o porto estava muito movimentado… em terra, com várias
excursões além de inúmeros particulares. A agradabilidade do local para piquenique, associada à
fama da fritada de peixe da Sr.ª D. Alice (que uma vez mais fez sucesso entre nós), vai
promovendo a progressiva utilização deste aprazível local.
Como estávamos folgados no tempo, o Sérgio Sousa levou-nos ao miradouro do Penedo de São
João, onde decorria uma pequena quermesse. Apreciado o panorama e participado na
quermesse, prosseguimos serra acima até à Panchorra, pensando ir vir a rústica ponte; mas o
acesso para as autocaravanas verificou-se difícil, e apenas alguns de nós desceram para vê-la. A
pernoita seria em Resende, pelo que descemos, agora via miradouro de São Cristóvão.
Estacionámos próximo da piscina coberta, e apercebemo-nos que iria haver um serão musical no
auditório, patrocinado pelos Dragões de Resende; pois não faltámos, embora entre nós não
houvesse fãs portistas, e até gostámos. A noite estava agradável, pelo que terminado o serão
demos um passeio pela vila.
Depois de noite sossegada, a manhã do quarto dia, domingo, começou a provarmos cavacas em
dois ou três estabelecimentos, para divulgar aos amigos este doce peculiar, assim como comprar
mais algumas cerejas. Zarpámos para oriente a meio da manhã, via Barrô (sem espaço para
estacionarmos), avistando Mesão Frio na outra margem, e descemos pela encosta onde se situa o
recente aproveitamento hoteleiro de Vale Abraão até alcançarmos a Quinta da Pacheca, em cuja
frondosa alameda estacionámos para visitar a zona de pisa de uva, adega e escritório (actual
loja). Aproximava-se a hora de almoço, e escolhemos o monte de São Leonardo da Galafura
para piquenique (apesar do afamado restaurante no mesmo local). Depois, fomos ao miradouro,
na traseira da capela, para tirar fotografias de cada casal e em grupo. Um dos casais não tinha
disponibilidade para mais férias, e iniciou o regresso a casa.
Depois de momentos de repouso e apreciar o extenso panorama, identificando alguns cumes
envolventes, acicatámos os nossos amigos para numa próxima vez efectuarem a inesquecível
descida de Galafura para Covelinhas. Descemos à cidade do Peso da Régua, estacionámos no
espaço reservado para o nosso tipo de viaturas, e fomos visitar o recente Museu do Douro.
Pessoalmente, apreciei muito o filme de uma das últimas descidas em barco rabelo, obtido por
repórter da RTP. A tarde estava tórrida, pelo que refrescámo-nos numa esplanada, passeámos
pelo cais tendo visto antes até onde sobe o nível do rio em época de cheias remotas e recentes, e
só mais tarde retomámos o andamento para um outro mirante duriense de renome. Para aceder,
atravessámos o rio para a margem Sul, subimos na direcção de Armamar, avistámos a concha
gigante onde se localiza a povoação de Valdigem, e chegados a Fontelo, virámos para o monte de
São Domingos da Queimada, coroado pela capela românica de São Pedro, agora acompanhada
de antenas. No panorama quase circular, predominam as Serras do Marão e início da de Alvão,
com Peso da Régua na base, mas também a de Meadas com Lamego; o pequeno Rio Balsemão
quase não se avista, e ainda menos a muito interessante capela de origem visigótica de São
Pedro de Balsemão (a visita ficará para uma próxima). O parque de campismo existente muito
próximo do cume estava fechado, e sem informação de quem contactar (viemos a saber na
manhã seguinte que haveria que telefonar para a Junta de Freguesia…), viemos pernoitar à
entrada de Fontelo.
Na manhã seguinte (e já estamos a meio das mini-férias…), seguimos para Armamar, onde
parámos para ir às compras de víveres, à feira semanal, e visitar a igreja matriz. Prosseguimos
por Vila Seca onde virámos para descer a Marmelal e daqui ao Rio Douro em frente a
Covelinhas, acompanhados por extenso panorama sobre quintas arduamente cultivadas em
Rua Luís Sttau Monteiro, Lote C3 – Loja C3A
1950 – 373 LISBOA
Portal: http://cpa-autocaravanas.com
Email: [email protected]
3
ambas as margens. Prosseguimos à beira-rio para montante até ao vale do Rio Távora que
subimos até Tabuaço e prosseguimos até ao sobranceiro Miradouro da Pedra Escrita. Parámos
próximo para almoçar; viemos a pé até ao miradouro; saciados com o panorama, voltámos a
Tabuaço e fizemos uma incursão no vale superior do Rio Távora, pensando ir ver a recondida
capela de São Pedro das Águias. Mas o início da estrada de acesso não se afigurou compatível
às nossas viaturas, a distância a pé também era considerável, pelo que ficou para uma próxima
oportunidade. Contornámos o vale por Riodades, fazendo uma pausa num café. Prosseguimos
até ao extremo do planalto, em Valença do Douro, onde nos esperava a descida mais bonita do
Douro antes que o sol baixasse muito e algumas encostas ficassem na penumbra, permitindo
avistar o monte cónico da Quinta das Carvalhas, a acentuada inflexão do rio quando vem do
Pinhão, a margem oposta com Chanceleiros e quintas de nomeada, assim como a disposição de
vinhas em duas linhas paralelas horizontais numa e noutra quinta da margem esquerda que
descemos. Pena não haver um recanto para parar uns minutos, nem que seja um automóvel,
nesta panorâmica descida.
Regressados à beira-rio, tivemos o contacto via rádio CB de um casal que só hoje se juntava a
nós para os restantes dias. Encontrámo-nos no Pinhão, indo estacionar no parque anexo às
pontes pedonal e ferroviária na foz do Rio Pinhão, onde jantámos, demos um passeio pedestre
nocturno e pernoitámos.
Despertados pela passagem do comboio, a manhã do sexto dia iniciou-se com a ida a pé até à
Quinta de La Rose, para visita guiada e prova de vinhos. Um de nós tinha levado a
autocaravana, para trazer as compras que lá fizéssemos; também veio a servir para trazer alguns
de nós, pois surgiu chuva copiosa não muito duradoira. Embarcados nas viaturas, subimos a
Favaios, via estrada secundária de Cotas e Castêdo para transitarmos num “mar de vinhas”
conforme expressão lida há tempos, e chegados à adega cooperativa já à hora de encerramento,
almoçámos ao pé esperando a reabertura. Também aqui adquirimos algum néctar para uso
próprio e oferecermos. Paramos ali já a seguir, em Alijó, para fazermos compras de víveres e
outras e passearmos pelo centro da vila (realce para o monumento ao carregador de cestos de
vindima /quão árdua esta tarefa!) e à árvore monumental), e iniciamos o regresso à beira-rio por
São Mamede de Ribatua, tendo parado a meio da descida para apreciar o alcantilado vale do Rio
Tua, onde se avista o troço ferroviário numa parte já sem via noutro ainda com ela. Percorrida
vagarosamente a réplica à escala da Ponte da Arrábida, como chamamos à ponte rodoviária
sobre o Rio Tua quase na foz deste, entramos mesmo para a zona da estação ferroviária de Foz
Tua. Duas contradições chamam à atenção: uma casa recuperada com notável obra em madeira
(varandas, janelas); uma locomotiva a vapor abandonada (grande é a propagação da corrosão em
oito anos). Sendo meio da tarde, uma pausa no único mas conceituado café e restaurante local,
para refrescar e fazer umas compras de produtos da zona.
Como estamos à beira-rio, a saída é voltar a subir… via estrada municipal de Ribalonga (com
umas curvas em cotovelo e inclinação que nos fazem lembrar estradas alpinas) na direcção da
vetusta Carrazeda de Ansiães, onde viramos para a zona de lazer de Fonte Longa junto a
pequena barragem. Feita uma pausa, seguimos para Vila Flor, onde pernoitamos no parque de
campismo anexo à Barragem do Peneireiro.
E já estamos na manhã do sétimo dia! Como a piscina ainda está fechada, descemos para a vila,
onde tomamos café, visitamos o pequeno mas muito variado museu municipal, compramos pão
ainda a sair de forno de lenha. Passa do meio da manhã quando saímos da vila a caminho da
Barragem da Valeira; a meio da descida íngreme, paramos para apreciar demoradamente a obra
hidráulica e a agreste paisagem envolvente onde predomina o monte de São Salvador do Mundo;
o trabalho de há séculos de adaptação do solo à vinha também é de nos fazer meditar sobre as
canseiras dos nossos antepassados. Retomamos a descida, atravessamos o tabuleiro e paramos
para almoçar antes do meio da subida, num arruamento plano à esquerda que deverá ter sobrado
da construção; um navio-hotel aproximava-se da eclusa para subir, permitindo-nos acompanhar a
manobra da saída, invulgar neste caso, e comparar o efectivo grande estrangulamento do maior
rio da Península Ibérica no dito Cachão da Valeira.
Rua Luís Sttau Monteiro, Lote C3 – Loja C3A
1950 – 373 LISBOA
Portal: http://cpa-autocaravanas.com
Email: [email protected]
4
Com o monte de São Salvador do Mundo ali ao pé, não podíamos prescindir de subir ao cume; o
dia encoberto não impediu de impressionar quem o desconhecia. Passando junto à Quinta de
Cidrô (visita não autorizada), estacionámos em São João da Pesqueira, onde revimos os painéis
de azulejos no átrio e escadaria dos paços do concelho, e passeámos até ao centro histórico. A
hora de saída não permitiu descer à Ferradosa e subir pelo miradouro da Quinta de Vargelas, pelo
que seguimos directos a proximidades de Horta de Numão, para efectuarmos uma incursão
inédita para todos nós a um vulcão no Douro… que foi irmos até à afamada e enorme Quinta do
Vesúvio, cujo palacete fica à beira-rio e junto ao apeadeiro ferroviário. Um dos momentos
marcantes destas férias! Na outra margem, avistamos a aldeia ribeirinha da Foz da Ribeira. No
regresso, sob tempo bastante encoberto, viramos para Este por uma pequena represa na direcção
de Seixas, daqui via Mós e Santo Amaro, donde avistamos o vale entre Pocinho e Vila Nova de
Fozcoa durante a descida até às proximidades da Quinta do Vale Meão, atravessamos o Pocinho
e a respectiva barragem, reentrando na margem direita do Douro a caminho dos arredores de
Foz do Sabor, pois tínhamos reservado uma fritada de peixe do rio numa aldeia próxima. A
pernoita foi na praia fluvial da Foz do Sabor.
Amanheceu com luminosidade. A partida foi pelas usuais 10 h, subindo a Torre de Moncorvo,
onde prevíamos desdobrar-nos em dois grupos para visita pedestre: os mais afoitos desceriam a
pé a linha ferroviária até ao Pocinho (percurso que um amigo recomendara há uma dezena de
anos) pois avistam-se os vales do Sabor e da Vilariça sob diversos ângulos, onde algum dos
outros os iriam buscar; os restantes ficariam pela vila. Mas o passeio pedestre ficou sem efeito,
porque as silvas invadiram a via nestes anos de inactividade… pelo que reagrupámo-nos na
conceituada loja dos doces de amêndoa. Dada uma volta pela vila, prosseguimos para oriente,
parando em Carviçais para almoçar, tendo como destino Freixo-de-Espada-à-Cinta. Choveu
enquanto fazíamos alguns reabastecimentos, mas tivemos ocasião de ir ver o freixo e a dita
espada (moderna…), e o Museu da Seda (seda natural, obtida dos casulos dos bichos-da-seda).
Ainda tínhamos de descer à praia fluvial da Congida, não só para a ver após a remodelação, mas
porque o barco intermunicipal nos esperava para um cruzeiro fluvial de uma hora. Regressados a
terra, apreciámos a calmaria do crepúsculo e os assadores no local inspiraram alguns de nós para
grelhados para jantar; pernoitámos aqui.
E amanheceu o último dia, o nono, algo encoberto. Ainda havia mais uns montes e vales a rever
ou descobrir, nesta época do ano sem a companhia das amendoeiras em flor. Voltámos a Freixo,
descendo até quase Barca d’Alva, virámos à direita subindo pelo vale meio desfiladeiro da Ribeira
do Mosteiro, em cujas margens avistamos rochas encarquilhadas há milhões de anos, e
estacionámos junto ao acesso à Calçada de Alpajares para saborear esta paisagem esquecida no
tempo. Prosseguimos lentamente subindo o vale, parando aqui e acolá, passámos junto a Poiares
e alcançámos o miradouro do Penedo Durão, o mais imponente do Douro internacional!
Avisados para falarmos baixo, para não afugentar as aves de rapina, avistámos algumas mas que
voavam acima de nós e ainda não ao nível da falésia como noutras ocasiões; observada a
Barragem de Saucelle, as vinhas algumas centenas de metros abaixo, e o planalto de Castela-aVelha, almoçámos nas nossas casas rolantes. Antes da pausa para café em Barca d’Alva, ainda
nos esperava uma imponente descida e correspondente panorama, quando se sai do planalto de
Poiares e temos de descer até quase ao leito do rio umas boas centenas de metros abaixo; à
cautela, parámos por duas vezes, para recuperar os travões. Ultrapassado este último desafio,
poucos quilómetros nos separavam de Barca d’Alva, cuja ponte atravessámos e estacionámos
no agradável cais fluvial, para ir tomar o café no varandim do Cantinho da Cepa Torta.
Tínhamos terminado estas mini-férias à beira do Douro. As impressões recolhidas foram boas ou,
mesmo, óptimas, logo havendo quem perguntasse “quando voltamos?”. Eu também gostei de
visitar alguns locais; outros ficaram para uma próxima. Agora, havia que rumar a casa, via
Figueira de Castelo Rodrigo, Almeida, autoestrada da Beira Interior, etc.
Mário Caxias
Rua Luís Sttau Monteiro, Lote C3 – Loja C3A
1950 – 373 LISBOA
Portal: http://cpa-autocaravanas.com
Email: [email protected]
Download

Recantos com encanto no Vale do Douro