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DO REDUCIONISMO À COMPLEXIDADE: O EXAME FÍSICO DE ENFERMAGEM NO
CUIDADO COM O CORPO
Carlos Magno Carvalho da Silva1
Enéas Rangel Teixeira2
O exame físico empregado pelo enfermeiro em sua prática assistencial tem por finalidade avaliar
características inerentes ao ser humano, que vem a servir como dados subsidiadores ao cuidado
oferecido. Durante o ensino da semiologia e semiotécnica da enfermagem o exame físico adquiriu um
embasamento por técnicas aferidoras, que se restringiam a detectar estritamente o físico, contribuindo
para a repetição de uma história clínica padronizada, independente do cliente examinado. No entanto, a
história clínica não é um formato ou uma formalidade que se tem de cumprir, mas trata-se de um
acontecer sucessivo das queixas do cliente e do que o profissional de saúde realmente faz em seu
benefício, através do julgamento crítico1.O cuidado de enfermagem requer conhecimento acerca dos
fundamentos dos conceitos2, existentes entre as relações de aspectos biológicos, psicológicos e sociais,
e as implicações psicoafetivas dos sujeitos envolvidos no cuidado de enfermagem – cliente,
profissionais, família, comunidade – caracterizam e implementam a subjetividade deste cuidado, que
pode ser realizado considerando as múltiplas nuances humanas e seu contexto 3. Nesse âmbito, a
Complexidade, escola filosófica cujo principal representante é o antropólogo Edgar Morin, surge para
trazer uma nova visão a tudo àquilo que antes era estudado em separado, isoladamente, desprovido de
um contexto, dos objetos que eram retratados sem que se expressasse a interação do pesquisador sobre
ele, do meio sobre ele e, conseqüentemente, dele sobre todas estas coisas 4. Trata-se assim do paradigma
da conjunção e não da segregação, assim o físico, o psíquico, social e o cultural estão interligados num
modelo em rede que merece ser considerado no exame físico. A aplicação do exame físico, até mesmo
por uma estratégia didática, sempre fora empregada utilizando a fragmentação do corpo, entretanto, no
que tange ao cuidado, é preciso direcionar as técnicas e os achados à assistência de um cliente, cujo
corpo ultrapassa apenas as linhas anatômicas, mas se engendra em conexões que o processo de
Enfermeiro. Mestre em Ciências do Cuidado em Saúde (MACCS). Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa
(EEAAC). Universidade Federal Fluminense (UFF). E-mail: [email protected]
2
Relator. Enfermeiro e Psicólogo. Doutor em Enfermagem. Coordenador MCCS/ UFF. Professor Titular do Depto.
Enfermagem Médico Cirúrgica (MEM/ EEAAC/ UFF). E-mail: [email protected]
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enfermagem abarca. O processo de Enfermagem compreende a metodologia do trabalho dos
enfermeiros, e constitui-se de cinco etapas inter-relacionadas (investigação, diagnostico, planejamento,
implementação e avaliação) de forma sistemática e dinâmica para promover o cuidado humanizado,
dirigido e orientado a resultados, acrescentando ainda seu baixo custo 5. Este processo tem viabilizado o
fazer em enfermagem, reafirmando-a como profissão com habilidades e saberes específicos. Alem
disto, tem mostrado resultados eficientes em instituições de saúde (hospitais, ambulatórios, unidades
básicas) no que diz respeito à administração da assistência. O exame físico integra a primeira fase, onde
as características do cliente pontuadas por ele permeiam todo o desenvolvimento do Processo. De tal
forma, a atividade intelectual do Processo de Enfermagem requer um julgamento do enfermeiro onde
este precisa associar constantemente os dados ao ser e o ser aos dados, que numa linguagem de
Complexidade estimula direcionar as partes ao todo e o todo às partes. A reflexão a respeito da
complexidade no desenvolvimento do exame físico no cuidado com o corpo deu origem aos objetivos
da pesquisa: descrever a realização do exame físico por enfermeiros do Programa de Saúde da Família
(PSF); analisar o(s) saber(es) articulado(s) ao exame físico que norteia(m) o cuidado, e orienta(m) a
prática assistencial destes enfermeiros; e discutir o exame físico na perspectiva da Complexidade tendo
em vista a atitude transdisciplinar no cuidado de enfermagem. A pesquisa é de natureza qualitativa,
classificada como descritiva, de acordo com seus objetivos, e exploratória, por sua finalidade. A coleta
de dados foi realizada entre o segundo semestre de 2009 e o primeiro de 2010, no Programa de Saúde
da Família (PSF) do município de Itaboraí, no Estado do Rio de Janeiro. Participaram da pesquisa dez
enfermeiros, de diferentes Unidades Básicas de Saúde, que realizam em seu cotidiano a consulta de
enfermagem, ambiente propício para o desenvolvimento do Processo de Enfermagem. Estes
enfermeiros estão identificados nos estudos com nomes fictícios, inspirados em personalidades da
história da enfermagem. Para seleção, obedeceu-se os seguintes critérios: mínimo de 02 anos de
conclusão do curso de graduação em enfermagem; que exerçam a consulta de enfermagem dentro de
suas atividades no PSF; concordância com a participação na pesquisa, através da assinatura do termo de
consentimento livre e esclarecido, cientes dos objetivos da pesquisa. Para coleta de dados, adotou-se a
técnica de entrevista semiestruturada, cujas perguntas focalizaram: a preparação para a realização do
Exame Físico, os instrumentos necessários, a subjetividade do cliente, os sentimentos e preocupações
emergentes da interação, a importância da realização do exame no processo de trabalho de
enfermagem. Os depoimentos foram gravados em aparelho de tecnologia Mp3 (abreviação de Layer-3
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Mpeg, forma de compressão de arquivos sonoros) e transcritos na integra pelos pesquisadores num
hipertexto. Coadjuvante à entrevista, foi realizado observação participante das atividades da consulta,
utilizando-se de um roteiro para observação e diário de campo, onde foram destacados aspectos do
exame físico realizado, cujos dados integram os resultados da pesquisa, subsidiando a discussão. O
total de tempo na observação participante foi 65 horas nas unidades básicas de saude e
aproximadamente 116 minutos foram investidos para gravação das entrevistas, tendo, em media 10
minutos cada entrevista. Para analise dos resultados das entrevistas, direcionadas aos enfermeiros, foi
adotada a Analise do Discurso do Sujeito Coletivo, proposta por Fenando Lefevre e Ana Lefevre. Esta
técnica tem foco primordial no discurso e oriunda da teoria das representações sociais 6. Tal proposta,
munida de figuras metodológicas definidas como expressões chave, idéias centrais e aceragem, originase de pressupostos antropológicos, na medida em que, se entende que o pensamento de uma
coletividade sobre um dado tema pode ser visto como o conjunto do discurso ou das formações
discursivas, ou representações sociais existentes na sociedade e na cultura sobre este tema, do qual,
segundo a ciência social, os sujeitos lançam mão para se comunicar, interagir, pensar. A pesquisa
obteve parecer favorável do Comitê de Ética e Pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade
Federal Fluminense com CAAE n.o 2867.0.000.258-09, emitido em agosto de 2009. Os resultados se
apresentam em três eixos temáticos. No primeiro deles, “Para a reflexão sobre a ação: a descrição da
realização do exame físico pelos enfermeiros do PSF”, a realização do exame físico pelos enfermeiros
demonstrou uma focalização ora nas queixas, ora nas partes do corpo humano, retratando
aparentemente uma lógica reducionista, simplificadora e mecanicista em determinados contextos,
deixando transparecer uma valorização da técnica em detrimento do cuidado. Em outros momentos, foi
possível retratar aberturas ao cuidado integral do cliente, através do comportamento ético, crítico, da
reflexão sobre os benefícios das ações e sua base científica. O segundo eixo, “Do disciplinar ao
transdisciplinar: o revelar de saberes norteadores do exame físicos e das práticas de cuidado no
Programa de Saúde da Família”, revela a relação entre as disciplinas e os saberes durante a prática do
exame físico e o cuidado, que ora agem isoladamente, passam por momentos de interseções até
indicarem um movimento à transdisciplinaridade, demonstrando uma transversalização de construções
de cada disciplina e de cada saber - seja popular ou acadêmico – imprimindo um caráter complexo ao
processo de cuidado. Por fim, o terceiro eixo “Um caminho para a Complexidade: aspectos apontados
pela realização do exame físico de enfermagem”, destaca a complexidade presenciada no campo das
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consultas de enfermagem, focada no exame físico, e trazida à tona pelos discursos e observação
participante. Entretanto, embora a complexidade não tenha sido completamente explicitada e
evidenciada nos produtos da coleta de dados, marcas e indícios de sua presença apontam para um
caminho em direção à atitude transdisciplinar e complexa no cuidado desenvolvido no PSF, como por
exemplo os princípios dialógico, hologramático, a recursividade, a reintrodução de conhecimento, ética
e solidariedade. Destarte, o exame físico pode deixar de assumir um papel estritamente investigativo,
para constituir-se como uma forma de cuidado. Como integrante do Processo de Enfermagem, ele é o
ponto inicial, de onde todas as ações posteriores terão uma relação íntima com as descobertas exaltadas
durante sua realização, envolvendo o conhecimento, a consideração do outro, o ambiente, as relações e
o pensamento, é, portanto, caracterizado pela Complexidade. A pesquisa contribui para a construção do
conhecimento, principalmente no que diz respeito ao fortalecimento da epistemologia da enfermagem,
ou seja, o corpo científico que fundamenta a profissão, visto o exame físico ser uma técnica e
tecnologia de enfermagem, realizada em diferentes âmbitos, e empregada no cuidado dos clientes.
Descritores: Exame físico; Cuidados de enfermagem; Corpo.
Área Temática: Tecnologia em Saúde e Enfermagem
Eixo Temático: A pesquisa de enfermagem no processo de cuidar e educar: interdisciplinaridade,
transculturalidade e difusão do conhecimento.
Referências
1. Kimura M. Ensino e aprendizagem do exame físico: análise do processo pelo exame das pupilas. São
Paulo, 1991. 138 p. Tese (Doutorado) - Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo.
2. Carvalho V. Por uma epistemologia do cuidado de enfermagem e a formação dos sujeitos do
conhecimento na área da enfermagem - do ângulo de uma visão filosófica. Esc. Anna NeryRev.
Enferm. 2009; 13(2); 406-414.
3. Teixeira ER. A Crítica e a sensibilidade no Processo de Cuidar na Enfermagem. Esc Anna Nery Rev
Enferm. 2004 Dez; 8(3):361-9
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4. Morin E. Ciência com consciência. Ed. revista e modificada pelo autor. 12º ed. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 2008.
5. Alfaro-lefevre R. Aplicação do processo de enfermagem: promoção do cuidado colaborativo. 5ª ed.
Porto Alegre: Artmed, 2005.
6. Lefèvre F; Lefèvre A. O discurso do sujeito coletivo: um novo enfoque em pesquisa qualitativa. São
Paulo: EDUCS, 2003.
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