Domingo, 4 fevereiro de 2007 O atravessador da vida pública De como a mídia cria a ilusão de intimidade entre o político e o eleitor André Lara Resende* Quando instigado a indicar nomes para cargos públicos, sempre tive uma resposta pronta, caso me pedissem para sondar o candidato: se eu for a pessoa designada para transmitir o convite e ele aceitar, retiro a indicação. Para a vida pública, as pessoas certas só vêm por convocação. Uma observação que resume o dilema de hoje. Nunca houve tão profunda e generalizada desconfiança dos homens públicos. Desconfiança que não é dirigida a alguns políticos específicos, aos políticos que hoje compõem o Legislativo ou aos que estão no Executivo, mas sim aos políticos em geral, aos políticos de hoje e aos políticos de amanhã, a todos que ocupam cargos públicos. A política está desvalorizada. Desacreditada, a vida pública perdeu importância, capacidade de atrair e de mobilizar. Trata-se de uma constatação difícil de ser contestada. Os políticos são vistos com uma enorme desconfiança. A motivação dos que optam pela vida pública questionada. A forma como os políticos, os homens públicos em geral, são percebidos é a pior possível. Espertalhões, senão flagrantemente desonestos, idiotas que se deixam levar por uma vaidade anacrônica. O gosto do poder pelo poder, a vaidade ou, cada vez mais, interesses definitivamente escusos, acredita-se, seriam as verdadeiras forças motrizes da opção pela política. O paralelo entre a modernidade e os anos de decadência do Império Romano tem sido recorrente. A partir do fim da era de Augusto, os romanos passaram a tratar as obrigações da vida pública como uma mera obrigação formal. O argumento é de Richard Sennett, em The Fall of Public Man. Das cerimônias políticas aos ritos militares do Império, todo contato formal entre cidadãos fora do círculo familiar passou a ser visto apenas como um dever. Dever cumprido a cada dia com menos entusiasmo, de forma passiva, de acordo com as regras estabelecidas, no qual não havia mais qualquer investimento emocional. Também hoje a vida pública é percebida como uma formalidade desprovida de sentido. A falta de paciência para os assuntos públicos, nos tempos atuais, vai além da esfera política propriamente dita. Todo tipo de contato obrigatório entre não-conhecidos, entre concidadãos, é percebido como um formalismo sem sentido e antiquado. O contato formal entre quem não se conhece pessoalmente passou a ser visto como um ritual retrógrado, desprovido de sentido. Ocorre que, sem as regras da formalidade cívica, o encontro com um desconhecido torna-se mais do que uma mera chateação a ser evitada. O desconhecido passa a ser tratado com uma desconfiança prévia, que ameaça tornar-se agressiva ao mais sutil sinal de desentendimento. O trânsito nas grandes cidades é, evidentemente, apenas o exemplo mais ilustrativo dessa perda de civilidade entre concidadãos. Ainda segundo Sennett, há uma diferença entre o desinteresse pela vida pública do romano clássico e o desinteresse do homem moderno. Enquanto o romano buscava na vida privada um princípio alternativo de ordenação da vida, baseado numa transcendência religiosa, para substituir a vida pública imperial em decadência, o homem moderno não busca na vida privada nenhum sentido organizador, mas a sua identidade psicológica. A valorização da vida privada para o homem moderno tem uma conotação introspectiva, numa tentativa de encontrar o que seriam os seus sentimentos autênticos. Estar a sós com a família e com os íntimos tornou-se um valor em si, o caminho para o encontro consigo mesmo e com a felicidade. A busca da felicidade, ou mais do que a busca, a obrigação descontextualizada de ser feliz, de ser individualmente feliz, independentemente dos que o rodeiam, é uma noção essencialmente moderna. Hoje, como em nenhuma outra época, multidões estão preocupadas exclusivamente com as suas próprias histórias pessoais, com as suas emoções particulares. Esse mergulho egocêntrico e introspectivo tem implicações profundas para a vida em comum. As questões e os acontecimentos, se impessoais, tornaram-se incapazes de despertar interesse. As questões e os acontecimentos só despertam interesse se tratadas, ainda que de forma indevida e desvirtuada, como se fossem questões pessoais, capazes de provocar sentimentos e emoções. É claro que uma vasta parte da experiência da vida é não apenas incapaz de criar intimidade como impossível de ser conduzida segundo os cânones da intimidade. Todas as atividades associadas à vida pública no seu sentido mais amplo são, por definição, incapazes de serem tratadas como questões privadas entre íntimos. A dificuldade da ação conjunta entre não-íntimos, daquilo que constitui vida pública no seu sentido mais amplo, se estende da reunião de condomínio aos partidos políticos. Toda sorte de iniciativa em que deve haver contato entre pessoas que não compartilham intimidade tornou-se extremamente difícil de ser levada a cabo, diante de uma indiferença absenteísta e das intransponíveis dificuldades da tentativa de introduzir a intimidade onde ela não cabe. O desinteresse e o absenteísmo das questões públicas foram fatores, senão determinantes da decadência romana, certamente fundamentais para acelerá-la. Na modernidade a vida pública não desapareceu com o desinteresse e o absenteísmo, mas transformou-se radicalmente. O desenvolvimento dos meios de comunicação criou a possibilidade de uma vida pública sem o contato entre concidadãos. A vida pública através dos meios de comunicação passou a dispensar o contato pessoal. Passou a ser um teatro de percepções intermediadas, onde a ação e os temas são menos importantes do que a tentativa de criar uma ilusão de intimidade entre os atores e o público. Essa intermediação atendeu aos anseios do homem moderno, dispensando-o do convívio com quem não compartilha da intimidade, mas dando-lhe a impressão de que continuava a participar das grandes questões da vida pública. Essa é uma transformação que tem conseqüências muito mais profundas do que o convencionalmente reconhecido. Embora com certeza não escape a ninguém que a vida pública hoje seja primordialmente - senão integralmente - intermediada pelos meios de comunicação, o desenho institucional das democracias não foi repensado para adequar-se a uma transformação tão radical. A obsessão intimista do homem moderno e a intermediação dos meios de comunicação na vida pública criaram um espaço público radicalmente diferente do concebido pelos idealizadores da moderna democracia representativa. Assim como o conceito do mercado competitivo, democracia é um idealtipo, uma idealização conceitual, pela qual deve pautar-se o desenho institucional da sociedade. A melhor forma de aproximar a vida em comum do ideal democrático, assim como a melhor forma de aproximar a organização da economia do ideal competitivo, não é nem indiscutível, nem é imutável no tempo. Mudam-se os tempos, mudam-se os meios, mudam-se os modos e é preciso repensar. Não existe uma proposição antecedente universal e definitiva para a organização democrática da sociedade. O que é o Estado democrático, qual o seu papel, quais as suas responsabilidades e como ele é constituído é apenas uma das questões que não têm respostas a priori, que exigem serem permanentemente repensadas. Aceitos os princípios básicos das modernas democracias liberais - o respeito às liberdades individuais e a representatividade dos governos -, não há fórmulas congeladas, imutáveis de organização institucional para aproximar a sociedade dos idealtipos da democracia e da economia de mercado competitivo. Eleições e mandatos fixos são uma forma de se ter tanto representatividade como responsabilidade por parte dos governos. Em tese, os eleitos exprimiriam os anseios da maioria e, se assim não o fizessem, não seriam reeleitos. As hipóteses subjacentes a tal raciocínio são: primeiro, de que os eleitores sejam capazes de efetivamente conhecer e avaliar os eventuais candidatos; e segundo, que ao menos alguns dos candidatos sejam efetivamente potenciais representantes dos eleitores. Ocorre que a vida pública intermediada pelos meios de comunicação reduziu de forma dramática a capacidade dos eleitores de conhecer os candidatos. De conhecer, no sentido de efetivamente ter noção de quem são e do que representam os candidatos, não no sentido que ser conhecido tem no moderno mundo das comunicações. Ser conhecido no mundo das comunicações, no mundo do espetáculo, é ser famoso, cuja melhor definição ainda é a de celebridade: alguém que é famoso por ser famoso. Os eleitores desinteressados, imersos em suas questões pessoais, só tomam conhecimento do mundo através dos meios de comunicação. Estes, por sua vez, com receio de se tornarem também vítimas da apatia pelos assuntos públicos, dão-lhes uma conotação cada vez mais indistinguível da do mundo do espetáculo. O tratamento dado à política e aos seus personagens, numa tentativa de dar-lhe uma conotação pessoal, intimista, capaz de despertar emoção e interesse, passa a ser muito semelhante ao da ficção e do espetáculo. O resultado, como não poderia deixar de ser, é que os candidatos a homens públicos passam a se comportar como personagens do mundo do espetáculo. São atores com agentes e roteiristas para auxiliá-los a construir fama. Personagens não podem evidentemente ser representativos. São apenas instrumentos de acesso aos postos públicos onde, na melhor das hipóteses, não representam ninguém, e na pior e mais comum das hipóteses, representam seus próprios interesses individuais. A existência de mandatos fixos e de eleições periódicas só pode garantir algum tipo de vigilância sobre os eleitos se entre os candidatos às próximas eleições houver quem se diferencie dos atuais eleitos. Se, entretanto, a vida pública só atrai personagens em busca de fama e de proveito próprio, se os novos candidatos são indistinguíveis dos eleitos, a lógica da celebridade volta a prevalecer. Nesse caso, ao contrário do pretendido, os eleitos têm uma vantagem relativa por já serem conhecidos, famosos, independentemente do que fizeram ou deixaram de fazer de seus mandatos. A vida pública não pode dispensar a vida em comum, dispensar o convívio entre pessoas. Não admite intermediação. Este é o ponto central da tese de John Dewey ao tratar do desaparecimento do público, da vida comunitária, sem a qual não pode haver nem representatividade política, nem democracia. Segundo Dewey, não há substituto para a vitalidade e a profundidade do contato direto e pessoal. No seu sentido mais rico e profundo, a comunidade deve sempre permanecer baseada no contato face a face. Se o público não existe, se a vida em comum desapareceu, não há democracia, só os seus formalismos. * André Lara Resende é economista e foi presidente do BNDES no governo FHC