Na hora de nossa morte, Amém
Obituários: o retrato 3x4 de uma vida
ANA CRISTINA FERNANDES, FERNANDO CHAVES, FLÁVIA MORETTI
E
TAISA ALOY
Obituário publicado no jornal O Globo de 22/01/2005
screver sobre a vida de famosos e de
anônimos. Essa é a rotina diária de
muitos jornalistas. Mas e se a vida em
questão for a morte? Estranho? Não. O
obituário ou necrológio refere-se ao
gênero biográfico, à narração de vidas, uma tradição
no jornalismo. Não é uma tarefa fácil de fazer, demanda pesquisa, apuração, e porque não dizer paixão.
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O obituário é elaborado pelos mais qualificados
profissionais, por aqueles com capacidade de enxergar detalhes do cotidiano e contar histórias.
Borges Neto, 70, ingressou no jornalismo em 1969,
como repórter para copydesk.
– Foi engraçado porque logo fui contratado com
carteira assinada e sem a mínima experiência – diz
Neto.
Julho/Dezembro 2004
Um mês depois, foi demitido e logo foi admitido
como revisor no Jornal do Brasil. Em 1972, virou
repórter e, em 2001, foi destacado para escrever
obituários.
– Eu nunca tinha pensado em fazer obituários e,
em 1969, acho que isso nem existia, se existia era
uma coisa muito relativa, muito secundária. Só
depois, com a influência do The New York Times foi
que se percebeu que a morte também era notícia, e
os jornais se preocuparam com isso – conta Borges.
Nos Estados Unidos, jornais como o Washington
Post e o Indianapolis Star não escrevem apenas
sobre pessoas famosas, mas também sobre anônimos, moradores da região. O obituário faz uma retrospectiva dos principais acontecimentos de suas
vidas, acompanhado, em alguns casos, por foto.
No caso do Jornal do Brasil, os obituários são com
pessoas famosas, embora também se noticie,
através de pequenas notas, a morte de anônimos.
Obituário publicado no Jornal do Brasil de 05/02/2005
Isso é recorrente na imprensa paulista, em que é de
praxe dizer nome, idade, parentes e onde se realizou o enterro da pessoa. No jornal Estado de S.
– Sabe qual a forma que eu descobri que agradaPaulo há um telefone para envio de notícias de
va os leitores do Jornal do Brasil? Logo que eu apreFalecimento ou Missa. A seção da Folha de S. Paulo
sento o morto, abro com um travessão e coloco um
é menos destacada, a linguagem é mais direta, e a
depoimento, esse recurso dá muita “vida à morte”.
coluna diária publicada no caderEsse é o segredo. Eu criei isso – reno Cotidiano se denomina “Morvela Borges Neto.
tes”.
As biografias fazem parte do
“Eu ajudei esse
No Rio, o estilo do Globo é mais
obituário, mas nada têm a ver com
morto a ser
solto, criativo e livre. Em alguns
elogios fúnebres. Não precisam ser
mais
bonito”
casos, há uma frase de impacto no
portadoras de tristezas, podem ser
início do texto ou uma citação. Já
Borges Neto
mensageiras de grandes proezas.
no Jornal do Brasil, segue-se um
Independente do formato, a bimodelo mais objetivo, direto, deviografia não pode escapar de sua
do ao menor espaço reservado para o obituário.
principal obrigação: mostrar uma pessoa através
Segundo Borges, a liberdade para se escrever um
de suas qualidades e defeitos.
obituário é um fator positivo, mas deve-se ter cuida– Um retrato não tem que esconder rugas. Agora
do para não se perder com o excesso de informações.
cabe ao bom redator escrever o texto com elegância
– No Globo você é soberano, pode começar com
– completa Borges.
uma citação bela e a partir daí desenvolver sua
Para evitar perfis biográficos ou obituários escritos
história. O desafio é prender o leitor, não se perder
às pressas, todas as redações costumam manter, em
com detalhes e minúcias que o cansam e o levam
seus arquivos, material biográfico sobre personaliaté a mudar de página – afirma Borges.
dades idosas ou que estejam com problemas de
O resumo de uma vida
Ao fazer a “biografia” de um morto, deve-se pro c urar entrevistar pessoas que conviveram com ele.
A indesejada das gentes
saúde. O objetivo do jornal é retratar a dimensão da
vida daquele personagem de uma forma precisa e
de acordo com os interesses do leitor. Veículos mais
p reocupados com a qualidade dos seus textos
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encomendam obituários por antecipação, perisabe que divulgar a morte sai caro. No jornal O
odicamente revistos e atualizados, como é o caso do
Globo, o menor anúncio, de segunda a sábado,
Papa.
custa R$435, enquanto no domingo o preço sobe
A função do obituário é informar ao leitor da
para R$690. O mais caro chega a R$4.350, de
m o rte e perpetuar a existência da pessoa nesta vida.
segunda a sábado, e R$6.900 no domingo.
Ao passar essa história para o papel, o jornalista
– O espaço é importante, mas acho que deveria ser
tem a sensação de ter ajudado a torná-la conhecida.
mais barato. Conheço muita gente que faleceu e a
– Eu contribuí para a existência de uma pessoa.
família não teve condições de pagar um anúncio
Tem tudo a ver com o lado bom da
fúnebre. E quando o anúncio é
vida. Eu ajudei esse morto a ser
muito pequeno, quase ninguém vê.
mais bonito – emociona-se Borges.
Eu mesmo já não vi – critica Inês.
O obituário é a
O advogado Felipe Jucá diz que
coluna social
o obituário é a “coluna social dos
Os leitores de obituários e
dos defuntos
defuntos”. Ele também costuma
anúncios fúnebres
Alguns lêem obituários e anúnler os anúncios fúnebres e já encios fúnebres movidos por uma
controu conhecidos.
espécie de “curiosidade mórbida”, outros, como
– Certa ocasião, eu estava pronto para visitar
muitos jornalistas, para estarem informados, já que
uma amiga. Não a via fazia muitos anos. De
a morte é notícia. De modo geral, as pessoas instinrepente, minha mulher, que só acidentalmente lê o
tivamente são levadas a saber quem morreu.
obituário do jornal que assino, desfez meus planos:
Inês de Albuquerque lê com freqüência a seção de
avisou-me que a tal amiga havia morrido no dia
anúncios fúnebres do jornal O Globo. Ela conta que
anterior. Agora, para vê-la, eu só tinha um camiadquiriu o hábito da leitura depois de ter perdido o
nho: ir ao seu enterro, no Jardim da Saudade, como
enterro e a missa da tia de uma amiga.
indicava o anúncio fúnebre – conta o advogado.
– Depois desse dia, passei a ler os nomes de pessoas
Para quem não gostar de freqüentar cemitérios,
que faleceram porque já aconteceu algumas vezes de
velórios e enterros, visitar os obituários de jornais é
ter pessoas conhecidas e eu me manifestar. Eu leio
a melhor forma de se despedir dos mortos conhecipara não ficar em falta com as famílias – diz Inês.
dos sem passar pelo constrangimento de vê-los
Quem já precisou comprar um anúncio fúnebre,
desaparecer.
Você sabia que é possível enviar “Condolências Virtuais”?
O envio de condolência on-line é
uma nova curiosidade mórbida na
era da internet. Esta prática já está
começando a se difundir em São
Paulo. Três portais já oferecem o
serviço. Além do envio de mensagens de pêsames, o site inclui
ainda guia funerário além de dicas
e procedimentos para quem precisa lidar com esta situação, que é
a morte.
Em um recado do site http:
//www.osan.com.br/obito/, no dia
8 de novembro de 2004, a Sra.
Ninha solicita obter mais infor-
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mações sobre André Luiz de Souza
Grande, jovem de 21 anos, da
cidade de Santos, falecido em 24 de
outubro de 2004. A senhora Ninha
suspeita que o morto seja um conhecido que, de acordo com ela,
“sumiu do mapa”. De fato, a internet se tornou uma teia onde se
encontra qualquer tipo de informação, inclusive, sobre pessoas
falecidas.
Saiba mais nos links:
http://www.obito.com.br/;
http://www.ossel.com.br/obituario/
http://www.osan.com.br/obito/
Julho/Dezembro 2004
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