ARTIGO ORIGINAL Conhecimentos e comportamentos de risco dos alunos de odontologia do Centro Universitário de João Pessoa em relação à Hepatite B Knowledge and risk behavior of Dentistry students of the University Center of João Pessoa in relation to Hepatitis B Almira Alves Braga dos Santos1 Ingrid Miucha Sarmento Soares1 Izabella de Araújo Limeira1 Angelinne Ribeiro Ângelo2 Heloísa Helena Pinho Veloso1 Andréa Sarmento Queiroga1 Centro Universitário de João Pessoa UNIPÊ. João Pessoa-PB, Brasil 2 Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Recife-PE, Brasil 1 Correspondência Andréa Sarmento Queiroga Avenida Esperança 801, apartamento 502, Manaíra, João Pessoa-PB. 58038-281, Brasil. [email protected] Recebido em 23/fevereiro/2012 Aprovado em 07/maio/2012 RESUMO Objetivo: Investigar os conhecimentos práticas dos alunos de odontologia do Centro Universitário de João Pessoa (UNIPÊ) em relação à Hepatite B. Método: Participaram do estudo 255 alunos distribuídos de forma equivalente, do 1.° ao 8.° período, os quais responderam a um questionário composto por duas partes: I) questões relativas às formas de transmissão, prevenção e esquema vacinal da hepatite B; II) questões relativas ao uso de equipamentos de proteção individual e à ocorrência de acidentes ocupacionais. Os alunos do 1.° ao 4.° período responderam somente a parte I do questionário, e os demais responderam as partes I e II. Os dados foram submetidos à análise descritiva e aplicados teste do qui-quadrado e cálculo de coeficiente V de Cramer, considerando significantes valores de p<0,05. Resultados: Um total de 74,5% e 74,9% afirmou conhecer as vias de transmissão e prevenção da hepatite B, respectivamente, sendo os procedimentos odonto-médico cirúrgicos a via de transmissão mais citada (74,5%) e a imunização, a forma de prevenção mais conhecida (59,2%). Afirmaram ter tomado a vacina contra a Hepatite B, 76,9%, porém 31,4% apresentaram esquema vacinal completo e apenas 17,6% fizeram a verificação da soroconversão. Os acidentes ocupacionais ocorreram em 17% dos alunos (18) e apenas 8 realizaram profilaxia pós-exposição. Conclusão: Apesar dos acadêmicos mostrarem-se conscientes quanto às principais formas de transmissão e prevenção desta infecção, é preocupante o número reduzido daqueles que concluíram a imunização e realizaram a verificação da soroconversão, sendo necessário a realização de uma campanha de incentivo à vacinação preventiva e um monitoramento da caderneta de vacinação. Palavras-chave: Hepatite B; Odontologia; Estudantes. Com. Ciências Saúde. 2011; 22(4):335-342 335 Santos AAB et al. ABSTRACT Objective: To investigate practical knowledge of Dentistry students of the University Center of João Pessoa (UNIPÊ) in relation to hepatitis B. Method: The study encompassed a total of 255 students, distributed in an equivalent way from the 1st to the 8th period, who answered a questionnaire composed of two parts: I) questions relative to transmission and prevention ways and hepatitis B vaccine scheme; II) questions related to the use of personal protective equipments and the occupational accident occurrence. Students from the 1st to the 4th period answered only to part I of the questionnaire, and the other ones answered to parts I and II. Data was submitted to descriptive analysis and the chi-square test as well as Cramér´s V calculus coefficient were used, considering significant values of p<0,05. Results: A total of 74,5% and 74,9% stated to know transmission and prevention means of hepatitis B, respectively, being the dentistry-medical-surgical procedures the most mentioned transmission form (74,5%) and immunization, the prevention form mostly known (59,2%). A total of 76,9% of them assured having taken vaccine against hepatitis B, but only 31,4% presented complete vaccine scheme and only 17,6% accomplished seroconversion verification. Occupational accidents occurred with 17% of the students (18) and only 8 fulfilled post-exposure prophylaxis. Conclusion: In spite of scholars have shown to be conscious about the main transmission and prevention ways of such infection, the reduced number, of those who concluded immunization and carried out seroconversion verification, is worrisome, being necessary the accomplishment of an encouraging campaign to preventive vaccination and monitoring for vaccine card. Keywords: Hepatitis B; Dentistry; Students. INTRODUÇÃO As hepatites causadas por vírus são nos dias atuais as principais causas de doença hepática no mundo. Estudos epidemiológicos revelam uma forte relação entre a infecção pelo Vírus da Hepatite B (VHB), a cirrose e o carcinoma hepatocelular1-4. A hepatite crônica causada pelo VHB tem se revelado uma doença complexa, de difícil manejo, em função de peculiaridades na relação vírus-hospedeiro, surgimento de mutantes, heterogeneidade viral e diversidade das formas clínicas, entre outros fatores5. 336 Com. Ciências Saúde. 2011; 22(4):335-342 A Organização Mundial de Saúde (OMS) calcula que cerca de 400 milhões de pessoas no mundo estão cronicamente infectadas pelo vírus da hepatite B. No Brasil, estima-se que existam dois milhões de portadores crônicos de hepatite B. De 1999 a 2010 (com dados preliminares para o último ano), foram notificados 307.446 casos de hepatites virais no Brasil, incluindo os cinco tipos da doença – A, B, C, D e E6. Os dados disponíveis no Boletim Epidemiológico das Hepatites virais informam que entre as mortes atribuídas especificamente às hepatites Conhecimentos e comportamentos de risco virais, o maior número registrado entre os anos de 2000 a 2010 foi decorrente da hepatite C, com 14.873 óbitos. Em seguida, encontra-se a hepatite B, com 4.978 notificações6. alunos não concordaram em participar do estudo não assinando o termo de consentimento livre e esclarecido e 28 alunos foram excluídos por não terem preenchido o questionário adequadamente. Sabe-se hoje que o VHB circula em altas concentrações no sangue e em títulos baixos nos outros fluidos orgânicos, e que é aproximadamente 100 vezes mais infectante que o HIV e 10 vezes mais que o VHC7. A transmissão do vírus da Hepatite B se faz através de solução de continuidade (pele e mucosas); relações sexuais; exposição percutânea (parenteral) a agulhas ou outros instrumentos contaminados; transfusão de sangue e hemoderivados; uso de drogas intravenosas; procedimentos odonto-médicos cirúrgicos, transmissão vertical e contatos domiciliares8. A coleta de dados foi realizada com a aplicação de um questionário desenvolvido e aplicado por Ângelo et al.9, 2007, em outra população. Este questionário era composto por 17 perguntas e dividido duas partes. A parte I com perguntas relativas ao conhecimento dos alunos sobre a hepatite B, vias de transmissão, formas de prevenção, cobertura vacinal e comprovação da imunização e a parte II com perguntas sobre o uso de equipamentos de proteção individual e a ocorrência de acidentes ocupacionais. Por estar constantemente em contato com material biológico potencialmente contaminado e utilizando frequentemente de materiais perfuro-cortantes, o cirurgião dentista e o estudante de odontologia estão expostos a um risco maior de contaminação pelo VHB do que a população em geral, necessitando assim de orientações sobre as formas de proteção e prevenção que os mesmos podem lançar mão, pois estando bem informados e conscientizados tornam-se capazes de tomar os cuidados necessários para eliminar ou pelo menos minimizar os riscos de contaminação. Neste contexto, estudos envolvendo populações de risco para o VHB tornam-se de grande relevância, haja vista poderem fornecer dados sobre o conhecimento de medidas preventivas contra a infecção, bem como indicar a necessidade de realização de campanhas de prevenção e promoção de saúde especialmente dirigida para estudantes de odontologia minimizando o risco de contrair doenças como a cirrose hepática e o hepatocarcinoma. Desta forma, o objetivo deste estudo foi investigar os conhecimentos e práticas dos alunos de odontologia do Centro Universitário de João Pessoa (UNIPÊ) em relação a esta infecção. METODOLOGIA Foi feito um estudo transversal de caráter exploratório cuja população foi composta pelos 373 alunos do curso de odontologia do Centro Universitário de João Pessoa (UNIPÊ) regularmente matriculados no semestre letivo 2011.1. A amostra foi composta por 255 alunos distribuídos de forma equivalente do 1.° ao 8.° período, uma vez que 90 Todos os alunos incluídos na amostra responderam a parte I do questionário. A parte II foi respondida apenas pelos alunos matriculados do 5.° ao 8.° período. Esta divisão se fez necessária tendo em vista que os alunos do primeiro ao quarto período ainda não cursam componentes curriculares que envolvam atividades clínicas e, portanto, ainda não usam EPI e ainda não se expuseram aos acidentes ocupacionais. Os dados foram registrados na forma de banco de dados do programa de informática SPSS (Statistical Package for Social Sciences) para Windows, versão 15.0, e analisados por meio de estatística descritiva e inferencial. Os procedimentos de inferência estatística, por sua vez, foram realizados por meio do teste Qui-Quadrado ( ²) e cálculo do coeficiente V de Cramer. O ² permite estimar se há associação entre as variáveis, ao passo que o cálculo do V de Cramer identifica a força desta associação. Para os dados inferenciais foi considerado um nível de confiança de 95% e considerados significativos os dados com probabilidade associada inferior a 5% (p<0,05). Este estudo foi submetido à análise do Comitê de Ética em Pesquisa da Secretaria Estadual de Saúde da Paraíba e aprovado na 74.º Reunião Ordinária realizada em 22/02/2011. RESULTADOS Dos 255 alunos pesquisados, a média de idade correspondente foi de 21,6 anos (DP=3,7; Mediana=21 anos), variando de 18 a 45 anos. A maioria era do sexo feminino (69,0%) e apresentava o estado civil solteiro (89,0%), conforme informações discriminadas na Tabela 1. Com. Ciências Saúde. 2011; 22(4):335-342 337 Santos AAB et al. Tabela 1 Apresentação dos dados sociodemográficos em alunos da fase básica e clínica do curso de Odontologia do Unipê. Variáveis Idade Gênero Estado civil Sub-grupos Até 20 anos Acima de 20 anos Masculino Feminino Solteiro Casado Separado Básica f % 75 67,0 37 33,0 32 28,6 80 71,4 99 88,4 13 11,6 0 0,0 Clínica f % 34 23,8 109 76,2 47 32,9 96 61,7 128 89,5 13 9,1 2 1,4 Do total de alunos, 78,0% afirmaram ter conhecimento sobre a Hepatite B, ao passo que 74,5% afirmaram conhecer as vias de transmissão e 74,9% relataram conhecer as formas de prevenção desta patologia. Do percentual de alunos que declararam conhecer as vias de transmissão (74,5%), foram assinaladas as vias: sexual (43,5%), hematológica (48,6%), percutânea (11,0%) e procedimentos odonto-médico cirúrgicos (57,6%). Foram citadas, ainda, outras formas de transmissão, que foram: beijo (0,4%), intravenosa (0,4%), saliva (0,4%) e transfusão sanguínea (0,4%). Um participante (0,4%) informou que havia outras formas de transmissão, mas não soube informar estas outras. Quando afirmaram que tinham conhecimento sobre a Hepatite B, houve associação significativa do ponto de vista estatístico (p=0,004) em relação a estar na fase básica (primeiro ao quarto período) ou clínica (quinto ao oitavo período) do curso: isto é, observou-se que os alunos da fase clínica se associaram a ter conhecimento sobre a hepatite B. O cálculo do V de Cramer mostrou, em contrapartida que estas associações são fracas estatisticamente No entanto, em relação a afirmar conhecer as vias de transmissão (p=0,092) e formas de prevenção (p=0,086), não foram observadas associações estatisticamente significativas. Estes dados estão pormenorizados na Tabela 2. Tabela 2 Conhecimento dos alunos das fases básica e clínica do curso de odontologia do UNIPÊ sobre as formas de transmissão e prevenção da hepatite B. Conhecimento Variáveis dos alunos Conhecimento Transmissão Prevenção Sim Não Sim Não Sim Não Fase do curso Valores Básica Clínica estatísticos inferenciais f f 78 (-2,9) 121 (2,9)* ²=8,216; p=0,004 34 (2,9)* 22 (-2,9) 78 (-1,7) 112 (1,7) ²=2,830; p=0,092 34 (1,7) 30 (-1,7) 78 (-1,7) 113 (1,7) ²=2,938; p=0,086 34 (1,7) 30 (1,7) * Significativo ao nível de 5% (p<0,05). As vias de transmissão e prevenção assinaladas também foram analisadas em função da fase do curso. De todas as vias de transmissão e prevenção, verificou-se associação significativa entre três delas: hematológica (p=0,002), procedimentos odonto-médico cirúrgicos (p=0,015) para a transmissão, e biossegurança (p<0,001), com forma de prevenção. Ou seja, observou-se uma associação entre estar na fase clínica do curso e acreditar que as vias hematológica e odonto-médico cirúrgica constituem-se vias de transmissão para a hepatite B e que a biossegurança constitui-se em uma forma de prevenção como pode ser observado na tabela 3. Tabela 3 Vias de transmissão e prevenção da hepatite B mais conhecidas pelos alunos das fases básica e clínica do curso de odontologia do UNIPÊ. Conhecimento dos alunos Formas de Transmissão Formas de Prevenção Fase do curso Básica Clínica f f 46 (-0,7) 65 (0,7) 42 (-3,1)* 82 (3,1)* 8 (-1,7) 20 (1,7) Valores estatísticos inferenciais p=0,484 p=0,002* p=0,083 59 (-1,9) p=0,104 Sexual Hematológica Percutânea Procedimentos odonto-médico 55 (-2,4)* 92 (2,4)* p=0,015* cirúrgicos. Controle de 17 (-1,1) 29 (1,1) p=0,293 infecção Biossegurança 44 (-4,9)* 100 (4,9)* p<0,001* Imunização 92 (1,9) * Significativo ao nível de 5% (p<0,05). Afirmaram ter tomado a vacina contra a Hepatite B 76,9% dos estudantes. No entanto, somente 31,4% relataram ter tomado o esquema vacinal completo (3 ou mais doses). Apenas 20% dos estudantes tomaram apenas uma dose e 24,7% tomaram duas doses (23,9% não tomou dose alguma). Em 338 Com. Ciências Saúde. 2011; 22(4):335-342 Conhecimentos e comportamentos de risco relação àqueles com esquema vacinal incompleto (menos de 3 doses), 14,9% tomaram há menos de seis meses, 16,5% há mais de seis meses e 25,9% não lembra quando foi a última dose. Por fim, em relação à realização de testes laboratoriais para confirmação da soroconversão após a conclusão do esquema vacinal, apenas 17,6% afirmaram que fazem, enquanto 80,0% afirmaram que não. Para esta segunda parte do estudo, participaram somente 106 alunos, matriculados a partir do quinto período. Estes foram questionados sobre o uso de equipamento de proteção individual, e a maioria (98,1%) respondeu que utiliza rotineiramente avental, luvas, máscara, gorro e óculos. Em relação à acidentes durante o atendimento clínico, 18 estudantes (17%) relataram já ter ocorrido com eles, sendo este 1 vez (em 14 alunos) ou 2 vezes (em quatro alunos). Os tipos de acidentes sofridos citados foram: percutâneo (7 alunos), exposição em pele não íntegra (3 alunos), exposição em pele íntegra (5 alunos) e exposição em mucosa (4 alunos). No momento da exposição, 13 (do total de 18) estudantes relataram estar usando EPI’s, no entanto, apenas 8 destes relataram ter realizado profilaxia pós-exposição. DISCUSSÃO Para os profissionais da odontologia, a adesão às práticas de prevenção das infecções em seus consultórios representa um grande desafio, principalmente no que diz respeito ao Vírus da Hepatite B (HBV), que constitui em um grave problema de saúde pública. O VHB representa um risco ocupacional reconhecido para os cirurgiões dentistas (CD) visto que a principal fonte de transmissão são as exposições percutâneas ou de mucosas ao sangue infectado pelo VHB, onde quantidades mínimas deste sangue são suficientes para a transmissão da infecção 10. O VHB também pode estar presente nos fluidos corporais como a saliva e o fluido gengival, frequentemente manipulados pelos CD, representando assim outras fontes de transmissão11. Neste contexto, julgamos importante destacar que a maioria dos alunos do curso de odontologia do UNIPÊ (78%) mostrou ter conhecimentos sobre a Hepatite B. Este resultado encontra-se semelhante ao encontrado por Angelo et al.9 em estudo realizado com estudantes de odontologia da Universidade Federal da Paraíba (89,3%) e por Granville-Garcia et al.12. Em estudo semelhante realizado na Universidade Estadual da Paraíba (89,6%). Sendo este, então, um resultado positivo em relação à percepção dos examinados sobre o assunto. Com relação as vias de transmissão da Hepatite B, nossos resultados (visualizados na figura 1) divergem daqueles obtido por Angelo et al.9, onde as principais vias de transmissão citadas foram os procedimento odonto-médicos cirúrgicos (92,5%) e a via hematológica (88,1%), bem como diverge do estudo feito por Cavalcanti et al.13 realizado com os acadêmicos da Faculdade de Odontologia de Caruaru, onde as vias de transmissão mais citadas foram a hematológica (66,17%) e a saliva (51,96%). Resultados diferentes também foram observados no estudo realizado por Freitas et al.14, feito com os acadêmicos do curso de odontologia das Faculdades Unidas do Norte de Minas – FUNORTE, onde a maioria dos estudantes (46,7%) responderam que a Hepatite B era transmitida através de drogas injetáveis e apenas 2,7% dos alunos acreditam que esta infecção pode ser transmitida através de acidente profissional. Nos estudos citados pode-se observar que a via sexual para a transmissão da Hepatite B não foi mencionada pelos acadêmicos, o que é preocupante pelo fato de tratar-se de uma informação de extrema relevância. Para evitar a transmissão do VHB nos consultórios odontológicos, as medidas de proteção individual são indicadas, incluindo o uso de equipamentos de proteção individual (luvas, máscara, gorro, óculos e jaleco) e a vacinação de todo o pessoal que realiza tarefas que envolvam contato com sangue, outros fluidos corporais e instrumentos perfurocortantes10. Recomenda-se a vacinação anti-VHB para recém-nascidos, adolescentes até 19 anos e profissionais da saúde, já que estes possuem um risco aumentado para adquirir a infecção, especialmente os cirurgiões dentistas, que estão em contato direto com instrumentos perfurocortantes e fluidos corporais11. Pelo fato dos profissionais da odontologia estarem expostos a riscos constantes, a profilaxia por meio de vacinas torna-se uma proposta obrigatória mesmo para àqueles que ainda estão em fase de formação acadêmica. Neste contexto, foi investigado no presente estudo se os acadêmicos tinham conhecimento sobre as formas de prevenção contra a Hepatite B. As alternativas mais apontadas foram Com. Ciências Saúde. 2011; 22(4):335-342 339 Santos AAB et al. a imunização (59,2%) e biossegurança (56,5%), porém dos 76,9% dos estudantes que afirmaram ter tomado a vacina contra a Hepatite B, apenas 31,4% relataram ter o esquema vacinal completo e 23,9%, ainda não havia se vacinado. Baixos índices de completude do esquema vacinal têm sido observado em outros trabalhos na literatura, como no estudo realizado por Lima et al.15 onde somente 26,4% dos alunos pesquisados tomaram as três doses recomendadas e 17,6% não foram vacinados. Silva, Guedes e Miasato16 verificaram a cobertura vacinal para hepatite B nos alunos do curso de graduação em Odontologia do Centro Universitário Serra dos Órgãos (UNIFESO-RJ) e apesar dos 73,9% dos alunos afirmarem terem sido vacinados com pelo menos uma dose, dentre estes nenhum assinalou a série vacinal completa. Este fato é de difícil compreensão, considerando que a probabilidade de soro-conversão para hepatite B após exposição é alta, e que atualmente no Brasil, a vacinação é oferecida gratuitamente a todos os profissionais da área de saúde11. Para estudantes, a imunização deve ocorrer no primeiro semestre do curso, considerando que é necessário iniciar a imunização sete meses antes do contato do estudante com seus pacientes17. Tão importante quanto à vacinação é a verificação da imunização após completar o esquema vacinal. Portanto, testes sorológicos (anti-HBs) devem ser feitos dentro de um a três meses após a terceira dose da vacina, indicando-se revacinações quando os títulos estiverem abaixo de 10UI/ml16. O teste mostra-se desconhecido ou pouco difundido como mostram os resultados desta pesquisa, onde somente 17,6% dos acadêmicos haviam realizado verificação da resposta vacinal. O baixo percentual de graduandos que realizam esse procedimento tem sido relatado na literatura9,15. Com relação à ocorrência de exposição acidental entre os estudantes durante o atendimento clínico, esta pode ser considerada razoável, já que 17% dos alunos se acidentaram durante a prática odontológica, sendo o acidente mais citado o percutâneo. Apesar disto, ainda há a necessidade de reforçar a importância da imunização, já que ela é a maneira mais eficaz na prevenção da infecção aguda ou crônica, pois a exposição a uma pequena quantidade de sangue contaminado é suficiente para a transmissão do vírus. O fato da Hepatite B tratar-se de uma doença evitável reforça a idéia de que a imunização deve ser iniciada anteriormente às atividades clínicas visto 340 Com. Ciências Saúde. 2011; 22(4):335-342 que os estudantes de Odontologia apresentam pouca destreza manual com maior risco de contaminação durante o aprendizado clínico. Além do mais, as instituições de ensino devem orientar e intensificar as informações sobre outras doenças infecto-contagiosas visando conscientizar e principalmente, proteger os futuros profissionais e seus pacientes. Cita-se como limitação deste estudo o fato de que não foi possível incluir 100% dos alunos do curso de odontologia da instituição onde o estudo foi realizado, o que pode ter contribuído para um viés de seleção. Considerando que a amostra foi constituída por alunos de odontologia de uma instituição de ensino superior privada os dados aqui apresentados não podem ser generalizados para outros cursos ou instituições. Sugere-se que outras pesquisas nesta área sejam realizadas com fins de ampliar os dados relativos aos conhecimentos dos alunos dos cursos de odontologia com relação às doenças infecto-contagiosas, merecendo destaque as Hepatites B e C e a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS). CONCLUSÕES - Apesar dos acadêmicos mostrarem-se conscientes quanto as principais formas de transmissão e prevenção da Hepatite B, é preocupante o reduzido número de alunos que concluíram a imunização, tendo em vista que esta vacina é distribuída gratuitamente pelo serviço público; - Observa-se a necessidade e a importância de se realizar uma campanha para o incentivo à vacinação preventiva antes mesmo do início das atividades clínicas dos alunos de odontologia do UNIPÊ e um monitoramento da caderneta de vacinação, bem como informá-los sobre a existência do teste sorológico para a verificação da eficácia da imunização. COLABORADORES Almira Alves Braga dos Santos, Ingrid Miucha Sarmento Soares, Izabella de Araújo Limeira, Heloísa Helena Pinho Veloso, Angelinne Ribeiro Ângelo, Andréa Sarmento Queiroga. Conhecimentos e comportamentos de risco REFERÊNCIAS 1. Center for Disease Control and Prevention (CDC). Hepatitis surveillance report n° 59. Atlanta: US Department of Health and Human Services, Centers for Disease Control and Prevention. Disponível em: http://www.cdc.gov/ncidod/disease/hepatitis/resource. Acesso em 20/ago/2011. 2. Davis JP. Experience with hepatitis A and B vaccines. American Journal of Medicine. 2005; 118 (10A): 7-15. 3. Poland GA. Evaluating existing recommendations for hepatitis A and B vaccination. American Journal of Medicine. 2005; 118: 16-20. 4. Schiff ER. Introduction. American Journal of Medicine. 2005; 118 (10A): 1-6. 5. Lok AS. The maze of treatments for hepatitis B. New England Journal of Medicine. 2005; 352 (26):.27432746. 6. Ministério da Saúde. 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