Este corpo é dirigido por uma Cabeça, Jesus Cristo, que é também o Rei da igreja, e é vivificado por um só Espírito, pelo Espírito de Cristo. Esta unidade implica que todos os que pertencem à igreja participam da mesma fé, são solidamente interligados pelo comum laço do amor, e têm a mesma perspectiva gloriosa do futuro. Os Atributos da Igreja – Efésios 4.11-16 Os atributos são atribuídos primariamente à igreja considerada como um organismo invisível, e só secundariamente como instituição externa. Já os católicos romanos os atribuem à sua organização hierárquica. 1. A UNIDADE DA IGREJA. Esta unidade interior busca e também adquire expressão na profissão e conduta cristã dos crentes, em sua pública adoração do mesmo Deus em Cristo, e em sua participação nas ordenanças. Não pode haver dúvida quanto ao fato de que a Bíblia afirma a unidade, não só da igreja invisível, mas também da visível. A figura do corpo, como se acha em 1 Co 12.12-31, implica esta unidade. A. CONCEPÇÃO CATÓLICA ROMANA. Comumente, os católicos romanos reconhecem como igreja apenas a ecclesia organizada hierarquicamente. Em vista da unidade da igreja, uma igreja local foi admoestada a suprir as necessidades doutra, e o concílio de Jerusalém se encarregou da solução de um problema que surgira em Antioquia. A unidade desta igreja se manifesta em sua impotente organização mundial, que visa a incluir a igreja de todas as nações. A igreja de Roma dava forte ênfase à unidade da igreja visível e a expressava em sua organização hierárquica. Seu centro real não se acha nos crentes, mas na hierarquia com seus círculos concêntricos. Há primeiramente o largo círculo do clero de nível mais baixo, os sacerdotes e os demais funcionários inferiores; depois o círculo menor dos bispos; em seguida o círculo mais restrito ainda dos arcebispos; e, finalmente, o círculo mais restrito de todos, dos cardeais – sendo que a pirâmide completa é encimada pelo papa, o chefe visível da organização toda, que tem domínio absoluto sobre todos os que estão sob ele. Dessa maneira, a igreja Católica Romana apresenta aos olhos uma estrutura grandiosa. B. CONCEPÇÃO PROTESTANTE. Os protestantes asseveram que a unidade da igreja não é primariamente de caráter externo, mas, sim, de caráter interno e espiritual. É a unidade do corpo místico de Jesus Cristo, do qual todos os crentes são membros. E quando os Reformadores romperam em Roma, não negaram a unidade da igreja visível, mas, antes, a sustentaram. Contudo, eles não viam o vínculo e união na organização eclesiástica da igreja, mas na fiel pregação da Palavra e na correta administração das ordenanças. É esta também a posição que se vê na Confissão Belga: 1 Citamos dela apenas as seguintes declarações: “Cremos e professamos uma só igreja católica ou universal, que é santa congregação dos crentes verdadeiros, todos aguardando a sua salvação em Jesus Cristo, sendo lavados pelo Seu sangue, santificados e selados pelo Espírito Santo”. 2 Os sinais pelos quais se conhece a verdadeira igreja são estes: “Se a sã doutrina do Evangelho é pregada nela; se ela mantém a sã administração das ordenanças como estas foram instituídos por Cristo; se a disciplina da igreja é exercida na punição do pecado; em suma, se todas as coisas são conduzidas de acordo com a santa Palavra de Deus, todas as coisas contrárias a ela rejeitadas, e Jesus Cristo reconhecido como o único Chefe da igreja. Por meio disso se pode conhecer certamente a igreja verdadeira, da qual ninguém tem direito de separar-se”. 3 A unidade da igreja visível foi ensinada também pelos teólogos reformados (calvinistas) do período da pós-Reforma, e sempre foi vigorosamente salientada na teologia escocesa. Walker diz até: “As verdadeiras igrejas de Cristo, com governos separados, pareciam-lhes (aos teólogos escoceses) inadmissíveis, a menos que o fossem de maneira muito limitada e por alguma razão de experiência temporária”. Em vista das presentes divisões da igreja, é muito natural que seja levantada a questão sobre se essas divisões não militam contra a doutrina da unidade da igreja visível. Em resposta, pode-se dizer que algumas divisões, como as causadas por diferenças de lugar ou de língua, são perfeitamente compatíveis com a unidade da igreja; mas outras, como as que se originam em perversões doutrinárias ou abusos nas ordenanças, realmente prejudicam essa unidade. As primeiras resultam da direção providencial de Deus, mas estas últimas se devem à influência do pecado: - Ao obscurecimento do entendimento - Ao poder do erro, ou à obstinação do homem; e, portanto, a igreja terá que lutar pelo ideal de sobrepor-se a elas. Pode ainda surgir a questão sobre se a igreja invisível única não deveria achar expressão numa única organização. Dificilmente se pode dizer que a Palavra de Deus exige isso explicitamente, e a história mostra que isso é inexequível e também de valor questionável. A única tentativa feita para punir a igreja toda numa grande organização externa, não mostrou capacidade de produzir bons resultados, mas levou ao externalismo, ao ritualismo e ao legalismo. Ademais, a multiformidade de igrejas, tão características do protestantismo, na medida em que resultou da direção providencial de Deus e de modo legítimo, surgiu da maneira mais natural, e está em completa harmonia com a lei da diferenciação, segundo a qual um organismo em seu desenvolvimento evolui do homogêneo para o heterogêneo. É muito possível que as riquezas inerentes ao organismo da igreja achem expressão melhor e mais completa no presente variedade de igrejas, do que numa só organização externa. Isto não significa, porém, que a igreja não deve lutar por maior medida de unidade externa. O ideal sempre deverá ser dar a máxima expressão adequada à unidade da igreja. Na época atual há um movimento forte pela união da igreja, mas este movimento, como se desenvolveu até agora, embora indubitavelmente brotando de motivos louváveis por parte de alguns, ainda é de valor duvidoso. Seja qual for a união externa que se realize, terá que ser expressão natural de uma unidade interior existente, mas o presente movimento em parte procura fabricar uma união externa onde não se acha nenhuma unidade interna, esquecido de que “nenhuma agregação artificial que busque unificar disparidades naturais pode oferecer garantia contra o conflito da partes componentes dessa agregação”. É antibíblica, na medida em que procura unidade à custa da verdade e voga na onda do subjetivismo na religião. A menos que esse movimento mude de cor e lute por maior unidade na verdade, não produzirá real unidade, mas apenas uniformidade, e ainda que possa tornar a igreja mais eficiente do ponto de vista da atividade, nada acrescentará à verdadeira eficiência espiritual da igreja. Barth toca na tecla certa quando diz: “A busca da unidade da igreja deve, de fato, ser idêntica à busca de Jesus Cristo como a concreta Cabeça e Senhor da igreja. A bênção da unidade não pode estar separada daquele que abençoa; nele ela tem a sua origem e realidade; por meio da Sua Palavra e do Seu Espírito é nos revelada; e somente na fé ela pode tornar-se uma realidade entre nós”. 2. A SANTIDADE DA IGREJA A. CONCEPÇÃO CATÓLICA ROMANA. A concepção católica romana da santidade da igreja também é primariamente de caráter externo. Não é a santidade interna dos membros da igreja pela obra santificadora do Espírito Santo, mas a santidade cerimonial exterior é que é posta em primeiro plano. De acorde com o padre Devine, a igreja é santa acima de tudo “em seus dogmas, em seus preceitos morais, em seu culto e em sua disciplina”, em que “tudo é puro e irrepreensível, tudo é de natureza tal que é planejado para afastar o mal e a iniqüidade, e para remover a mais exaltada virtude”. Só secundariamente a santidade da igreja é concebida como moral. Diz o padre Deharbe que a igreja também é santa “porque houve nela, em todos os tempos, santos cuja santidade Deus também confiou com milagres e graças extraordinárias” B. CONCEPÇÃO PROTESTANTE. Os protestantes, porém, têm uma concepção completamente diversa da santidade da igreja. Eles sustentam que a igreja é absolutamente santa num sentido objetivo, isto é, como ela é considerada em Jesus Cristo. Em virtude da justificação mediadora de Cristo, a igreja é tida por santa perante Deus. Também, num sentido relativo, os protestantes consideram a igreja como subjetivamente santa, isto é, como realmente santa no princípio interior da sua vida, e destinada a santidade perfeita. Daí, ela de fato pode ser denominada comunidade de santos. Esta santidade é, acima de tudo, uma santidade do homem interior, mas uma santidade que também acha expressão na vida externa. A santidade é atribuída também, secundariamente, à igreja visível. Essa igreja é santa no sentido de que é separada do mundo na sua consagração a Deus, e também no sentido ético de colimar e em princípio realizar um santo relacionamento com Cristo. Como o faz com os outros atributos da igreja, ela o aplica à organização visível. Ela reivindica o direito de ser considerada como a única igreja realmente católica, porque está espalhada pela terra toda e se adapta a todos os países e a todas as formas de governo; porque existe desde o princípio e sempre teve súditos e filhos fiéis, enquanto que as seitas vêm e passam; porque tem posse da plenitude da verdade e da graça, destinadas a serem distribuídas entre os homens; e porque sobrepuja em número de membros a todas as seitas dissidentes juntas. B. CONCEPÇÃO PROTESTANTE. Os protestantes, mais uma vez, aplicam este atributo primariamente à igreja invisível, que pode ser chamada católica num sentido muito mais verdadeiro que quaisquer organizações existentes, a Igreja Católica Romana inclusive. Com justiça reagem contra a arrogância dos católicos romanos em sua apropriação deste atributo para a sua organização hierárquica, com a exclusão de todas as demais igrejas. Os protestantes insistem em que a igreja invisível é primordialmente a real igreja católica, porque inclui todos os crentes da terra, de toda e qualquer época particular, sem nenhuma exceção; Ela também tem os seus membros entre todas as nações evangelizadas do mundo; e porque exerce uma influencia controladora sobre a vida inteira do homem, em todas as suas fases. Desde que as igrejas visíveis locais se compõem de crentes e sua semente, pressupõe-se que delas estão excluídos todos os descrentes e todas as pessoas ímpias. Paulo não hesita em dirigir-se ás igrejas como igrejas de santos. Secundariamente, eles também atribuem o atributo de catolicidade à igreja visível. Não é fácil indicar com precisão onde se acha esta igreja católica visível. Ademais, surgem questões como as seguintes: 3. A CATOLICIDADE DA IGREJA. (1) Esta doutrina leva consigo uma vasta condenação do denominacionalismo, como parece pensar o doutor Henry Van Dyke? (2) Significará ela que alguma denominação, e só essa, é a igreja verdadeira, enquanto que todas as outras são falsas, ou será melhor distinguir entre as igrejas de formação mais pura ou menos pura? (3) Em que ponto uma igreja local ou uma denominação deixa de ser parte integrante da igreja visível? (4) Uma única instituição ou organização externa é essencial para a unidade da igreja visível, ou não? (Fonte: T.S. Berkoff) A. CONCEPÇÃO CATÓLICA ROMANA. A Igreja Católica Romana se apropria do atributo de catolicidade, como se somente ela tivesse o direito de chamar-se católica.