1 LUZ, CÂMERA, EDUCAÇÃO! TRAILER – TEASER DE UMA PEDAGOGIA COMPLEXA 1 Thalitha Chiara de Siqueira Garcia2 Universidade Braz Cubas – UBC Minha mãe sempre dizia: a vida é como uma caixa de chocolate. Você nunca sabe o que vai encontrar. Forrest Gump 1. O Projeto O Projeto Olho Mágico é uma experiência interdisciplinar de Cinema e Educação realizada desde 2002 no formato de um programa social de arte - educação para crianças e adolescentes. Foi criado como um instrumento para despertar a sensibilidade artística com atividades de apreciação, estudo e produção de cinema para ampliação de repertório cultural, estímulo do senso crítico, do imaginário e da percepção social, com o objetivo, à princípio, de estruturar um espaço de desenvolvimento humano e da arte cinematográfica em Mogi das Cruzes, no estado de São Paulo, e regiões vizinhas. Ao longo de 7 anos, a proposta se transformou em um laboratório vivo e interativo com turmas de até 20 educandos nas seguintes faixas etárias com suas respectivas categorias alusivas ao cinema: De 09 a 11 anos, categoria Lanterninha; de 12 a 14 anos: categoria Zoom; de 15 a 17 anos, Categoria Objetiva. A aulas 1 Poster para Conferência os Sete Saberes. Colaboração da Prof.ª Rita Ribeiro Voss, 2010 2 Aluna no Programa de Mestrado em Semiótica, Tecnologias da Informação e Educação da Universidade Brás Cubas (UBC) – e-mail: [email protected] 2 compõem dois blocos, um a cada semestre, e são ministradas uma vez por semana com duração de três horas. As produções infantis somam 17 curtas de animação em Stop Motion; 2 exposições; 1 festival com premiação para os alunos de 2008; 2 curtas participantes no 17º Festival Internacional de Animação do Brasil, na categoria Futuro Animador e 1 Curta Vencedor do Eye of animation - Animation Film Competition – International Film Festival for Children, da Dinamarca. 2. Estratégia Didática Inicial O que você faz nesta vida ecoa na eternidade. Gladiador O Olho Mágico se constituiu como experiência pragmática e investigativa, guiada pela observação analítica de combinações participativas essencialmente e sensoriais intuitiva e da aprendizagem, criativa. Assim, de um forma estilo de desenvolvimento educativo pôde florescer e se expressar cuja concepção estruturou-se no Universo do Cinema traçado por uma linha do tempo, concebida como uma viagem pela tecnologia, pela linguagem e cultura da sétima arte. Como primeiro resultado, o processo dialógico investigação/práxis educativa possibilitou a progressão de atividades nascentes com três estratégias didáticas principais: 1. Identificação – envolvimento / integração e contextualização. O enfoque do Duplo e das manifestações imagéticas e imaginais abrem as portas do reconhecimento do Cinema como Saber. 2. Apropriação – estudo, análise crítica. O cinema ensina a pensar e o pensamento ensina o cinema. 3 3. Expressão – fazer criativo / contribuição. A emergência da criatividade, do imaginário na criação artística, a exteriorização do repertório adquirido e o reconhecimento da miscelânea intelectual atribuída à singularidade do sujeito. As reflexões de Edgar Morin sobre o cinema, o duplo e o imaginário ecoaram nas estratégias didáticas enunciadas, esclarecendo um processo cognitivo, um saber, o cinema: [...] Esta incessante conversão da alma das coisas nas coisas da alma vem corresponder, por outro lado, à natureza profunda do filme de ficção, em que os processos subjetivos imaginários se concretizam em coisas – acontecimentos, objetos – que os espectadores, por sua vez, reconvertem em subjetividade. (MORIN, 1956, Cap. III). 3. Constituição Investigativa do Direcionamento Teórico Tome a pílula vermelha e eu posso te mostrar até onde vai a toca do coelho. Matrix A experiência didática do Olho Mágico mostrou que um conhecimento de primeira mão inspirava e incitava uma reflexão mais profunda. Desta experiência, emergiam questões importantes sobre a dialogicidade de Cinema e Educação e a necessidade de formalização de uma estratégia cognitiva. Mas para que o desenvolvimento teórico possibilite a organização destes saberes em uma pedagogia complexa, torna-se necessário delinear uma trajetória epistemológica para identificar a experiência como representação positiva das possibilidades cognitivas e situá-la na composição de um modelo emergente. De acordo com Foucault (1966), “a partir do século XX, o campo epistemológico se fragmenta ou, antes, explode em direções diferentes” e busca “alinhar todos os saberes modernos a partir das 4 matemáticas é submeter ao ponto de vista único da objetividade do conhecimento a questão da positividade dos saberes, de seu modo de ser, de seu enraizamento nessas condições de possibilidades que lhes dá, na história, a um tempo, seu objetivo e sua forma” (p.479). Neste sentido, pode-se refletir científicamente Cinema e Educação, atribuindo-lhe uma positividade, pois é passível de obervação e investigação, mas insere-se na crítica ao pensamento clássico por fazer dialogar áreas do conhecimento, convencionalmente separadas, como a arte e a cognição humana implícitas na relação abordada. Com esta observação, podemos avançar para uma análise do Cinema como operador e acionador da cognição humana em seu duplo aspecto (natureza e cultura), como processo neuro – imaginal que possibilita compreender algo pela percepção, pela razão e pela cultura, simultaneamente. O duplo é, efetivamente, essa imagem fundamental do homem, anterior à íntima consciência de si próprio, imagem reconhecida no reflexo ou na sombra, projetada no sonho, na alucinação, assim como na representação pintada ou esculpida, imagem fetichizada e magnificada nas crenças duma outra vida, nos cultos e nas religiões. [...] Cada um vive acompanhado do seu próprio duplo: não tanto uma cópia exata, mas mais, contudo, que um alter ego: ego alter, um eu-próprio outro (MORIN, 1956, p. 44). Este é o ponto de partida para a composição teórica interdisciplinar fundamental com a experiência tratada anteriormente, para abordar os sete saberes para uma educação proposta por Edgar Morin. 4. A complexidade como plataforma interdisciplinar O simples bater de asas de uma borboleta pode causar um tufão do outro lado do mundo. Efeito Borboleta 5 Apesar do avanço, do saber cinematográfico e sua relevância no trabalho pedagógico e interdisciplinar, o Cinema e a Educação ainda se encontram separados por suas especificidades. E sua contribuição mútua muitas vezes acontece por intermédio da utilização do Cinema apenas como ferramenta subordinada às necessidades didáticas. Neste sentido, faz-se necessária a criação de uma plataforma para que a contextualização educacional no universo cinematográfico seja consolidada como uma fusão multifuncional, em que ambas as disciplinas contribuam na metamorfose de sua dialógica interdisciplinar. O formato da plataforma possibilita estabelecer as premissas iniciais da aplicação da complexidade nesta pesquisa, ao configurar a interdisciplinaridade a exemplo do sistema de computador. Ou como o próprio Morin (1999) sugere, como uma “computação viva”, pois “a organização competência computante geral bastante representa potente para […] como poder que uma aplicar-se a problemas diversos e particulares” (p.54). e “a computação viva deve incessantemente resolver os problemas do viver que são os do sobreviver”(p.55). A computação é uma operação sobre/via signos/símbolos/formas. Conhecer é realizar operações de que o conjunto constitui tradução/construção/solução. […] Há uma brecha enorme, para a inteligibilidade, entre a organização psicoquímica e a organização viva, justamente porque esta comporta a complexidade indissociável da autoeco-organização e do cômputo auto-eixo-referente. Ora, essa brecha, sem desaparecer, diminui um pouco se recorremos ao tipo de organização “hologramática”[...](MORIN, 1999, p. 64-66). 6 Os operadores dialógico, recursivo e hologramático idealizados por Morin (2003), são princípios e geradores de movimento para a “formatação” da plataforma. Assim, podemos esquematizar um sistema operacional espiral, como base para as infinitas possibilidades de relação entre o Saber Cinema e o Saber Educação, colocado aqui, em sua manifestação através dos sete saberes necessários à educação do futuro: Cinema Educação O Operador Dialógico entrelaça os saberes em uma espiral complexa, onde as possibilidades de conexão (complementar/concorrente/ antagônica) das instâncias necessárias são organizadas em função de um objetivo em comum. O Operador Hologramático movimenta a idéia da totalidade do processo e combina as informações sem dissociar a parte do todo. “Não só a parte está no todo como o todo está na parte” (p. 33-34) O Operador Recursivo faz circular a própria produção do processo em uma dinâmica autoprodutiva e autoorganizacional, que também impulsiona todo o processo recorrente para o futuro (como uma mola). 7 5. Modelo para a Dinâmica de uma Pedagogia Complexa Se você olhar bem, verá que o mundo todo é um jardim. O Jardim Secreto Ao considerar Os sete saberes necessários à educação do futuro como “interface” para a composição desta plataforma, podemos contemplar um sentido universal de educação. E o Cinema, como sétima arte, oferece uma gama infinita de conjunções artísticas, concepções técnicas e influências históricas e culturais que precisam ser reconhecidas como saber, como conhecimento: O conhecimento é sempre uma tradução, seguida de uma reconstrução. Mesmo no fenômeno da percepção, através do qual os olhos recebem estímulos luminosos que são transformados, decodificados, transportados a um outro código, que transita pelo nervo ótico, atravessa várias partes do cérebro para, enfim, transformar aquela informação primeira em percepção. A partir deste exemplo podemos concluir que a percepção é uma reconstrução (MORIN, 2002, p. 1). Esta dialogicidade abre perspectivas sólidas para o exercício do conhecimento pertinente como uma janela para a “capacidade natural que o espírito tem de contextualizar” de forma global, “ligando as parte ao todo e o todo às partes” (p. 4). A plataforma é um recurso para “fazer convergir todas as disciplinas conhecidas para a identidade e para a condição humana”(p. 7) já que, “ao mesmo tempo em que fazemos parte de uma sociedade, temos a sociedade como parte de nós, pois desde o nosso nascimento a cultura se nos imprime” (p. 4). Se “a redução do outro, a visão unilateral e a falta de percepção sobre a complexidade humana são os grandes empecilhos da compreensão”, Edgar Morin observa que “o cinema é uma arte 8 que nos ensina a superar a indiferença” e esta habilidade pode alcançar horizontes inimagináveis se ultrapassarmos o papel de expectadores e nos colocarmos nos sapatos de Charlie Chaplin, como protagonistas da ecologia da ação, abraçando a incerteza de um novo olhar para encontrar o inesperado. Este olhar pode ser a fonte de inspiração e reflexão, que fortalece problemas as novas da gerações atual a enfrentar condição a planetária complexidade e favorecer de o reconhecimento de que “a humanidade vive agora uma comunidade de destino comum” (p.11). Em síntese, mesmo que a lente cinematográfica possa ser o facilitador de uma nova concepção didática, numa Antropo-ética, “cabe ao ser humano desenvolver, ao mesmo tempo, a ética e a autonomia pessoal [...]” (p.11). A questão não é assistir ou produzir filmes para educar e sim descobrir como construir o longa-metragem da vida e observar que em cada um, há uma película viva projetada em milhares de dimensões na tela em branco do futuro. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FOUCAULT, M. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p.475-536. MORIN, E. Educar na era planetária: o pensamento complexo como método de aprendizagem pelo erro e incerteza humana. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2003. ____ Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2002. ____ O cinema ou o homem imaginário. Lisboa: Relógio D’água/Grande Plano, 1997. ____O Método 3 – O conhecimento do conhecimento. Tradução de Juremir Machado da Silva, Porto Alegre: Sulina, 1999. 9 1 LUZ, CÂMERA, EDUCAÇÃO! TRAILER – TEASER DE UMA PEDAGOGIA COMPLEXA Thalitha Chiara de Siqueira Garcia Universidade Braz Cubas - UBC Resumo O trabalho refere-se ao projeto desenvolvido no mestrado em Semiótica, Tecnologias de Informação e Educação da Universidade Braz Cubas e parte da didática base de uma experiência interdisciplinar pragmática, no sentido de construir uma trajetória epistemológica investigativa que possibilite a organização de uma pedagogia complexa. A proposta fundamental de estudo e pesquisa aqui esboçada é desenvolver uma plataforma epistemológica estruturada pelos princípios da complexidade presentes na obra de Edgar Morin, sobretudo em Sete saberes para a educação do futuro, em cuja dinâmica interdisciplinar faz dialogar educação, eixo pedagógico tecido pelos sete saberes, e cinema, como operador e acionador da cognição humana. O objetivo principal é a criação de uma estratégia de ensino e aprendizagem que atenda às necessidades presentes de alunos, professores e educadores em geral em sua prática pedagógica interdisciplinar. Palavras-chave: Cinema, educação, epistemologia, cognição.