O CUIDADO DE SI COMO POSTURA ÉTICA NA SUBJETIVAÇÃO DE
UMA PRÁTICA PEDAGÓGICA SENSÍVEL À DIFERENÇA SOB A
ÓTICA DA INCLUSÃO ESCOLAR.
Manuela Cristina Tórcia1 - FFC UNESP/MARÍLIA
Grupo de Trabalho – Diversidade e inclusão
Agência Financiadora: CNPQ
Resumo
O tema da inclusão escolar é recorrente em pesquisas e artigos brasileiros nas duas últimas
décadas. Majoritariamente, na literatura sobre o assunto, aspira-se a normalizar e trazer para o
meio social alunos anteriormente excluídos por suas características especiais. Nesta pesquisa,
nossa hipótese foi a de buscarmos uma abordagem inversa a essa e discutir a possibilidade de
subjetivar uma postura ética na prática pedagógica que norteada pelo cuidado de si helenístico
(práticas corporais e espirituais que visam uma formação e transformação do sujeito), se faça
sensível à vida, a diferença e ao outro na atividade docente. Em vista a discutir essa hipótese,
objetivamos analisar as noções de Michel Foucault e outros filósofos sobre, biopolítica e
biopoder, e como as práticas inclusivas escolares legitimam esses conceitos. Analisaremos o
cuidado de si helenístico de Michel Foucault, problematizando os limites e apontando
possibilidades de subjetivação dessa concepção de ética para atividade docente. Dentro dessa
concepção, procuraremos vislumbrar de que maneira a inclusão escolar poderia desencadear
uma prática pedagógica da diferença, instigando o exercício da alteridade por parte do
professor e a explicitação de sua conduta ética e subjetiva. Assim, nos propomos a evidenciar
as fragilidades do discurso político pedagógico normalizante e indicar um outro olhar sobre a
relação com a deficiência na escola. Iniciamos uma análise do discurso atual de inclusão
escolar partindo de conceitos de Michel Foucault: biopolítica, biopoder e posteriormente do
cuidado de si helenistico. Utilizamos considerações de pensadores do tema na atualidade,
André Duarte, Tatiana Luiza Rech e Pedro Angelo Pagni, que caracterizassem o deficiente
como detentor da vida que excede dentro da sala de aula e catalisador de uma postura ética
para uma pedagogia da diferença e de resistência ao discurso político pedagógico.
Palavras-chave: Cuidado de si. Ética. Inclusão escolar.
1
Graduanda em Pedagogia na Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista Júlio de
Mesquita Filho – Marília. E-mail: [email protected].
ISSN 2176-1396
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Introdução
A configuração biopolítica está presente em todas as esferas atuais: familiar, social e
educacional. Nosso estudo centrou-se nos sujeitos escolares que se subjetivam nesse sistema
que exige eficiência e produtividade de professores e alunos, partindo de uma esfera escolar
sustentada por elementos como: a normalização, a inclusão escolar como estratégia
biopolítica, a formação do homo oeconomicus. Procuramos discutir se é possível seguir outro
rumo na escola e se a ética da diferença, com base na alteridade e na potencialidade da vida,
poderiam constituir teoricamente outros elementos para a emergência de outro olhar sobre a
inclusão a partir do convívio com um aluno deficiente na sala de aula. Desta ótica, partimos
de uma concepção Foucaultiana sobre o cuidado de si helenístico, e caminhamos rumo à ação
dos sujeitos, estreitando o olhar para a necessidade urgente de uma ação do professor em sala
de aula. Para essa perspectiva teórica, incluir seus alunos implica numa questão ética muito
além de incluí-los na mera logica normalizante ou funcional dos discursos em voga.
Biopolítica, biopoder e a configuração do homo oeconomicus
Michel Foucault (2008) analisa historicamente o liberalismo nascido na segunda
metade do século XVIII e traz elementos importantes que irão ajudar a compor seu conceito
de biopolítica e homo oeconomicus. “A Teoria do Capital Humano” (FOUCAULT, 2008, p.
302) enumera três fatores de dependência para a produção de bens: terra, capital e força de
trabalho incumbindo ao trabalho concreto o conceito de ser abstrato, de carregar em si
características humanas. No neoliberalismo, a compreensão do trabalho não deve acontecer
por meio de estudo de seus mecanismos de produção, deve se basear no estudo da captação de
recursos e ainda numa logística de escolha da aplicação desses recursos para determinados
fins excludentes entre si que se deseje alcançar. A economia neoliberal tem como
característica analisar o comportamento humano e sua racionalidade interna, infiltrando-se nas
estratégias das atividades dos indivíduos, controlando e gerindo todas as esferas da população,
de modo a potencializar as diferentes características humanas que são consideradas recursos
para o trabalho, “conjunto de todos os fatores físicos e psicológicos que tornam uma pessoa
capaz de ganhar este ou aquele salário” (FOUCAULT, 2008, p. 308). Instaura no trabalhador
uma possibilidade de sentir-se ativo dentro da análise econômica e que terá como recompensa
final o seu salário, que se decompõe em dinheiro e aptidão, sendo o capital (aptidão)
inseparável de quem o possui. Desse modo, trabalhador e aptidão são um todo, um conjunto e
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não uma mera força de trabalho a ser vendida, uma concepção de “capital-competência”
(FOUCAULT, 2008, p. 310), o empresário de si mesmo, o homo oeconomicus. Este não se
limita a ser o sujeito da simples troca trabalho-salario: ele é o empresário de si mesmo e
representa seu próprio capital, é a sua aptidão, sua capacidade de ser treinado e de produzir
satisfação por meio de seu consumo. Foucault (2008, p. 315) acrescenta que essa formação de
competência-maquina, além da genética, exige investimentos educacionais que também serão
responsáveis pela formação do capital humano da criança, vinculando uma análise da vida de
cada criança para pré-determinar seu capital humano. Desse ponto em diante, o próprio
homem se caracteriza como um sujeito ambíguo: ao mesmo tempo em que é objeto de saber,
é também um espectador de si mesmo. Nesse contexto entre o século XVIII e XIX nascem os
alicerces para uma politica estatal disciplinante da população, a biopolitica, “fundada nas
relações de poder-saber implementada pelos dispositivos disciplinares que constituíram o
corpo e a individualidade dos súditos do antigo regime fez-se acompanhar pelo fato novo da
entrada da vida da população como objeto privilegiado das politicas estatais.” (DUARTE,
2010, p.91).
Uma politica estatal que vem carregada de micropoderes disciplinares espalhados e
dissolvidos por toda a teia e em todas as esferas da sociedade capazes de matar a vida no
sentido de sua espontaneidade e potência humana e controlá-la em cálculos explícitos, não se
referindo somente ao homem-corpo-individuo, mas ao homem-vivo-organismo, a população.
O produto desse sistema biopolítico é o homem institucionalizado, pensado e manipulado
como recurso vital, saindo da condição de simples sujeito útil, o homo oeconomicus, o
empresário de si.
A inclusão escolar como estratégia biopolítica
Em seu texto “A inclusão educacional como estratégia biopolítica” Tatiana Luiza
Rech (2013, p. 26) aproxima esses conceitos Foucaultianos de biopolítica e biopoder com a
esfera escolar, no que diz respeito a políticas públicas de inclusão escolar. Apresenta
características da inclusão escolar, estabelecida especificamente a partir do governo de
Fernando Henrique Cardoso, como um movimento, um imperativo do Estado neoliberal e
utilizada como um dispositivo de segurança vinculado à multiplicidade da população, já que a
política neoliberal opera por meio da biopolitica sobre toda a população. Para Rech (2013,
p.34), todo esse movimento de inclusão escolar se traduz numa “estratégia biopolítica de
circulação” de toda a população, tal como um dispositivo de segurança biopolítico de fluxo-
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habilidade, uma estratégia de transversalidade dos sujeitos, que termina por permitir ao
Estado conhecer, controlar e delimitar as configurações, as habilidades individuais dos
sujeitos, caracterizando-a como uma forma de poder, já que ao mesmo tempo em que
transforma esse ideal de incluir todos numa exigência política, o transforma também numa
exigência econômica, subjetivando e produzindo na população estratégias que seduzem e ao
mesmo tempo chamam à todos para alimentar essa política inclusiva.
Rech (VEIGA-NETO, 2007, p. 70 apud RECH, 2013, p. 29) ao pensar a escola como
uma instituição de sequestro, de adequação e de controle, e vai além, quando ao aproximar a
inclusão da instituição escolar, caminha para o desfecho politico e social necessário de
sedução que esta produz, imputando na sociedade uma sensação ética de estarmos incluindo à
tudo e à todos, “a escola encarregou-se de operar as individualizações disciplinares,
engendrando novas subjetividades e, com isso, cumpriu um papel decisivo na constituição da
sociedade moderna”. Subjetivação esta traduzida em uma atual escola para todos nascida
desde os tempos de Comenius: ensinar tudo a todos, e fortemente alimentada a partir da
década de 90, traduzindo a escola como, além de uma mera adequação física, uma
responsabilidade e garantia de direitos humanos, corroborando em uma sensação de
mobilização social e uma luta coletiva pelos direitos das minorias: “inclusão escolar como
uma prática de subjetivação dos sujeitos, um dispositivo de segurança que utiliza a sedução
como uma estratégia e adquire caráter irreversível na contemporaneidade” (RECH, 2013,
p.30).
Nesse movimento, a autora (RECH, 2003, p. 30) irá se prender também em apontar
como a inclusão escolar se vale da sedução por meio de práticas de governo não autoritárias e
unilaterais, mas que gerem a conduta mais intima dos sujeitos, implicitamente. Essas
estratégias de sedução se traduzem em aumento de repasses de verbas para escolas inclusivas,
ações do MEC, estatísticas baseadas em dados positivos para os incluídos apontando a
necessidade de incluir todos na escola, entre outras..., dando veracidade a proposta de
inclusão, produzindo uma ética necessária em que a população se sente parte, se sente
cumplice desse governo de condutas do Estado neoliberal. A inclusão escolar passa
discretamente a ser uma grande verdade, um imperativo do Estado e que precisa ser
constantemente naturalizada eticamente pela população. Estratégias de discurso, para seduzir
e convencer a população de incluir a todos numa escola regular, bem como estatísticas
utilizadas como mecanismos de segurança, que ordenam relações, estabelecem critérios de
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sujeitos de risco ou não, maximizando os efeitos positivos e eliminando aspectos
considerados de risco e transgressores.
Em outro momento de seu texto, Tatiana Rech (2003, p. 33) destaca as práticas de
fluxo populacional na inclusão educacional. Nos anos 90 o que existia era uma inclusão
escolar como estratégia biopolítica de circulação dos alunos, um movimento circular que se
alternava entre passagem para a escola regular e retorno para a escola especial, estando
incluído na regular até o momento em que essa inclusão não mais se sustentasse, então
retornando a escola especial ou outra instituição de enclausuramento ou mercado de trabalho,
garantindo uma forma desses sujeitos circularem no meio social, não estarem mais
marginalizados. Lógica que embora resultasse na circulação de sujeitos, poucos conseguiam
escapar e chegar de fato ao mercado de trabalho, gerando exclusão e exigindo outras formas
desses sujeitos permanecerem incluídos. No governo Lula, novo contorno é dado, em que
saem as ideias de circulação e entram as ideias de visibilidade desses alunos especiais – agora
a inclusão funciona como uma estratégia biopolítica de fluxo – habilidade (RECH, 20013, p.
33): reconfiguração principalmente do currículo escolar regular, colocando a escola especial
como um centro de apoio, objetivando movimentar os sujeitos, fazer o aluno incluído sair o
mais rápido possível da escola, indo direto e habilitado para o mercado de trabalho, ou para a
universidade. Toda essa lógica baseada agora em incluir as pessoas com deficiência no
mercado de trabalho, o que na logica anterior de circulação dessas pessoas não aconteceria,
produzindo mudanças significativas nos padrões de vida, novamente, na conduta dos
cidadãos. Passagem esta do aluno da escola para o mercado de trabalho que alimenta o
funcionamento neoliberal e sua economia. Além de educar, cabe à escola também empregar
todos os seus alunos, caracterizando os alunos incluídos como os indivíduos com
potencialidades (RECH, 2013, p.38), sendo ele mesmo, o sujeito responsável por sua
adequação e mudanças, tal como o empresário de si.
Essa nova lógica de fluxo-habilidade (RECH, 2013, p.33) se encaixa na atualidade das
escolas vistas como instituições com características empresariais: autonomia, adaptabilidade,
criatividade, competências, liderança, talento, uma serie de expressões que passam a circular,
além de no campo relativo ao mercado de trabalho, também o campo educacional inclusivo.
Assim, “politicas de inclusão escolar são dispositivos para o governamento e o controle das
populações e podem gerar uma inclusão excludente e contribuir para tal. Uma inclusão
baseada em critérios, em habilidades, em competências” (LOPES; VEIGA-NETO, 2007, p.1
apud RECH, 2013, p. 36).
1743
Por fim, Rech (2013, p. 38) nos traz dados que apontam o quanto o atendimento
inclusivo cresceu no Brasil passando de 24,7% para 46,4 % entre 2002 e 2006, deixando claro
o quanto essas estratégias seduzem a população, moldando e produzindo novos sujeitos
necessários a essa inclusão. Como problematizações, nos é apresentado o fato de que
pensando a inclusão como uma estratégia de fluxo-habilidade propicia a desenvolver
habilidades, faz da escola um espaço de se adaptar ao futuro, àquilo que virá, e que remete ao
aluno como um sujeito passivo com fim de atingir o mercado de trabalho, e que se
reconfigura nesse contexto de inclusão não por meio de uma ética da diferença, mas por
meios de procedimentos pedagógicos destinados a capacitar para o mercado de trabalho,
procedimentos que englobam agora os alunos ditos inclusivos, e que nessa lógica e ética
neoliberal, já estão moralmente fazendo parte do todo. Não existem currículos nem práticas
escolares diferenciados para os alunos com características especiais, apenas a ânsia de uma
passagem destes o mais rápida possível pela escola rumo ao mercado de trabalho.
O cuidado de si como subjetivação de uma prática docente na inclusão escolar
Nesse panorama de nos apresentar seu conceito de biopolítica, suas ferramentas de
sustentação e de constituição, bem como a necessidade de subjetivar um sujeito
economicamente empreendedor e condizente com a máquina neoliberal por meio de técnicas
de investimentos em si mesmo, faz-se necessário quando deslocamos nosso olhar para o
discurso de inclusão que emerge, pensarmos a respeito da prática docente atual e suas práticas
de cuidado de si.
Em A hermenêutica do sujeito (2010), Michel Foucault nos apresenta suas concepções
a respeito de um cuidado de si não somente estruturado em teorias, sem finalidades políticas e
econômicas, muito além do que nos aponta Sócrates ou Platão que associavam a ideia de
cuidado de si com conhecimentos teóricos, como julgamentos do outro para um encontro com
si mesmo, ou com o divino, como o cuidado de si como uma ascese cristã.
Foucault (2010) nos remete a ideia de cuidado de si estruturado como uma prática de
converter-se a si mesmo, “arrancar-se de si mesmo” (FOUCAULT, 2010, p. 246), uma
atividade de subjetivação do eu coexistente a toda a fase da vida, e não traduzida em um
determinado momento da existência do sujeito, é preciso que o sujeito inteiro se volte para si
e se consagre a si mesmo” (FOUCAULT, 2010, p. 221). Difere também de uma possível
ideia de um cuidado em si mesmo como uma atividade de prestar atenção em si próprio, pois
nessa hermenêutica de si, Foucault nos passa um forte sentido de deslocamento, de esforço
1744
pessoal
do sujeito em relação a si mesmo, um sujeito subjetivado que se constróis e
simultaneamente se modifica “compreendido como transformável, modificável: é um sujeito
que se constrói, que se dá regras de existência e conduta, que se forma através de exercícios,
das práticas, das técnicas, etc” (GROSS, 2006, p. 128-129).
Conceitos que nos remetem a uma ideia de construção do converter-se a si mesmo
como um modo de relacionar-se consigo, numa atividade de reflexão constante para
posteriormente construir-se. Nesse trajeto de refletir-se, desconstruir-se e construir-se,
Foucault (2010) reforça a ideia de movimentos que aproximem o eu ético regido pela moral
do sujeito consigo mesmo, rompendo com outros ideais de cuidar de si ligadas ao platonismo
ou ao cristianismo e próximas ao cuidado de si helenístico, um deslocamento constante do
sujeito que parte de si a caminho de uma trajetória perigosa e inconstante, a vida, para
posteriormente voltar-se a si mesmo em uma utilização da arte de pilotar, de um saber
complexo unido por teorias e práticas. Muito diferente de algo como “só pode salvar-se quem
renunciar a si” (Foucault, 2010, p. 224), e próximo do cuidado de si que parte do que
realmente somos no mundo, de uma ontologia do presente, colocando na experiência a
essência de uma pratica do cuidado de si. Uma prática que não desconsidera de todo o saber
teórico para uma constituição do eu, mas que considera fortemente outra categoria de saberes,
um saber que necessita do outro, subjetivo e experienciável, que culminará numa real relação
consigo mesmo:
E é possível que nesses tantos empenhos para reconstruir uma ética do eu, nessa
serie de esforços mais ou menos estanques, fixados em si mesmo, nesse movimento
que hoje nos leva, ao mesmo tempo, a nos referir incessantemente a essa ética do eu
sem contudo jamais fornecer-lhe qualquer conteúdo, é possível suspeitar que haja
uma certa impossibilidade de construir hoje uma ética do eu, quando talvez seja essa
uma tarefa urgente, fundamental, politicamente indispensável, se for verdade que ao
final, não ha outro ponto, primeiro e ultimo, de resiliência ao poder político senão na
relação de si mesmo (FOUCAULT, 2010, p. 225).
Na configuração biopolítica, no entanto, o cuidado de si perpassa o individual e vai
para o tecido social constituindo uma ação política, hoje praticada numa forma de governo
neoliberal , esta como “um campo estratégico de relações de poder, no sentido mais amplo do
termo e não meramente político, entendida pois como um campo estratégico de relações de
poder no que eles têm de móvel, transformável, reversível” (FOUCAULT, 2010, p. 225). Ou
seja, uma relação intimamente ligada à ética dos seus sujeitos, ética que se constitui e se
solidifica nas práticas tanto sociais como políticas.
1745
Essa ligação entre governo – ética dos sujeitos - cuidado de si, subjetiva uma ética
como ferramenta biopolítica em seus sujeitos, e por consequência, uma noção de cuidado de
si muito distante daquela resgatada por Foucault (2010) quando nos remete aos povos
romanos e helenísticos e seus ideais de ética e de amizade, um olhar do alto do mundo
exterior não para escapar do mundo, mas para observá-lo, para senti-lo subjetivamente e
enxergar o outro e onde nos encontramos, materializadas em ações de cuidado e de
experiência com o outro e não de julgamento, um deslocamento com e pelo o outro saindo de
nós mesmos e entrando na trajetória perigosa necessária para nossa reconstrução individual,
uma “arte de viver” (PAGNI, 2014). Um sujeito ético que volta para si mesmo mais
sensibilizado e comprometido com os laços sociais ao seu redor numa relação entre professor
e aluno, caracterizando o cuidado “como uma atitude ética, um modo de atenção e um
conjunto de praticas exercidas sobre si mesmo, no sentido de sua própria transformação, sem
deixar que o sujeito se fixe em uma fôrma pré concebida e em um eu idêntico a esse mesmo.”
(PAGNI, 2014, p. 155).
Práticas que na escola se materializam pelo papel primordialmente ético do professor e
da noção que este tem sobre o cuidado de si, e sobre o cuidado de si que deseja despertar em
seus alunos, considerando a experiência como “o processo de racionalização que culmina na
formação de sujeitos. Nesse sentido, a subjetivação não se confunde com a pessoa, muito
menos com o sujeito, no sentido em que foram concebidos na modernidade” (PAGNI, 2014,
p. 156).
Considerações finais
A configuração biopolítica em que estamos imersos se faz presente em todas as
esferas: social, familiar e educacional, sendo esta última e suas relações de subjetivação
objeto de estudo dessa pesquisa. Iniciamos essa etapa final com um estudo da biopolítica e os
sujeitos escolares que se subjetivam nesse sistema que exige eficiência e produtividade de
professores e alunos, partindo de uma esfera escolar sustentada por elementos tais como:
normalização, inclusão como dispositivo biopolítico, homo oeconomicus, rumo à outra esfera
de base no cuidado de si helenístico norteando a prática docente. Partimos de uma concepção
Foucaultiana sobre o cuidado de si, e caminhamos rumo à ação dos sujeitos, estreitando o
olhar para a necessidade de uma ação do professor em sala de aula, questão levantada na etapa
anterior dessa pesquisa. Incluir seus alunos que emergem do discurso biopolítico de inclusão,
se trata de uma questão ética para muito além de inclui-los na mera logica normalizante
1746
desses discursos. Problematizar a ação do professor dentro do discurso da inclusão permeando
apenas as maneiras da biopolítica legitimar essas pratica não basta. É preciso uma ação
docente que se sustente em um urgente deslocamento do olhar, enquanto possibilitadora de
práticas de cuidado de si de seus alunos regidas não pela lógica neoliberal que se instaurou
também na escola e no professor, para outro tipo de olhar com o outro, que considere suas
experiências, suas falhas, suas imprevisibilidades e tudo aquilo que o compõem, como sujeito
e como aluno. Preparar o docente para uma prática educativa com seus alunos que
possibilitem modos de existência transformadores e potencializem as diferenças, prática
docente que:
Seguramente não é para compreendê-lo e governá-lo, por meio de saberes e técnicas,
ajustando-o à racionalidade econômica antes mencionada ou para nos assegurar de
como conduzi-lo e de como incluí-lo, denotando nossa própria eficiência; ao
contrario, é para cuidar eticamente desse outro, cujo acidente é a própria diferença e
cuja deficiência é o acontecimento, no sentido de que acolham a este e
potencializem ainda mais a diferenciação ética que representa, a fim de que ele
possa formar seu modo de ser ou o seu ethos, exprimi-lo ao mundo e quem sabe,
gerar nele modos de existência outros, capazes de transformá-lo. (PAGNI, 2015, p.
100).
Nesse estudo procuramos recorrer à história, ao passado, ao cuidado de si de Foucault
(2010) como estratégia principal para despertar um movimento de estranhamento no tempo
presente, uma estratégia que permita criar outros processos de subjetivação nas relações e na
prática docente.
REFERÊNCIAS
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Janeiro: Forense Universitária, 2010.
FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do sujeito. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010.
GROS, Frédéric. O cuidado de si em Michel Foucault. In: RAGO, Margarteh; VEIGANETO, Alfredo. (Orgs.) Figuras de Foucault. Belo Horizonte: Autêntica, 2006, p. 127-138.
PAGNI, Pedro Angelo. Diferença, subjetivação e educação: outro olhar sobre a inclusão
escolar. Pro-Posições, v.26, n. 1, p. 87-103, jan./abr. 2015.
PAGNI, Pedro Angelo. Experiência estética, formação humana e arte de viver: desafios à
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RECH, Tatiana Luiza. A inclusão educacional como estratégia biopolítica. In: FABRIS, Elí T.
Hein; KLEIN, Rejane Ramos. (Org.) Inclusão e biopolítica. Belo Horizonte: Autêntica,
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VEIGA-NETO, Alfredo. Foucault & Educação. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2007.
VEIGA-NETO, Alfredo; LOPES, Maura Corcini. Inclusão e governamentalidade. Revista
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em: http://www.scielo.br/pdf/es/v28n100/a1528100.pdf .Acesso em: 07 jun. 2015.
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