1820 X Salão de Iniciação Científica PUCRS Adaptação e validação de conteúdo da versão em português do Posstraumatic Cognitions Inventory (PTCI) Alice Reuwsaat Justo1, Beatriz Lobo1, Marcelo Montagner Rigoli1, Gabriela Sbardeloto1, Christian Haag Kristensen1 (orientador) 1 Faculdade de Psicologia, PUCRS Resumo Introdução O Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) é considerado um dos transtornos mais incapacitantes que vem sendo pesquisado atualmente. Ele se desenvolve a partir de um trauma sofrido. Sua prevalência ao longo da vida tem sido estimada em 6,8% da população geral (Kessler, Chiu, Demler, Merikangas & Walters, 2005) e é considerado o quarto transtorno mental mais comum (Yehuda & Davidson, 2000). O trauma é definido como uma situação de estresse em que o indivíduo experiencia ou testemunha ameaça a sua vida, ou de alguém. Após o trauma, pode haver um impacto dramático na saúde mental dos indivíduos e gerar danos psicológicos e neurológicos. No cérebro humano, surgem alterações que podem ser vistas como uma tentativa de resposta adaptativa a novas demandas (Gazzaniga & Heatherton,2005). Foa et al. (1993;1998;1999) defende a idéia de que os eventos traumáticos produzem mudanças nos pensamentos e crenças básicas das pessoas e de que essas mudanças têm um papel importante na resposta emocional ao trauma. A idéia central dentro dessa teoria é que eventos traumáticos modificam as crenças básicas das pessoas. Devido a pouca disponibilidade de instrumentos que auxiliam no diagnóstico para TEPT, Foa et al. (1999) desenvolveram o Posttraumatic Cognitions Inventory (PTCI) baseados na literatura sobre crenças e trauma. Esse é um inventário auto-aplicável de 36 itens em que é possível investigar três domínios específicos de cognições pós-traumáticas: Cognições Negativas Sobre o Eu (self), Cognições Negativas Sobre o Mundo e sobre AutoResponsabilização. Atualmente o PTCI é um instrumento utilizado em pesquisas e na área X Salão de Iniciação Científica – PUCRS, 2009 1821 clínica. O objetivo este trabalho foi traduzir, adaptar e validar o conteúdo do PTCI para uma versão em português, denominada Inventário de Cognições Pós-Traumáticas (ICPT). Metodologia O processo de tradução e adaptação envolveu cinco etapas, essas foram: (1) Tradução: dois profissionais pós-graduados, brasileiros, com experiência de no mínimo 3 anos em Londres fizeram a tradução do instrumento de inglês para português; (2) Retradução, dois profissionais da área da Psicologia, bilíngües, ambos pós-graduados, doutores em Psicologia, com experiência na temática construção e validação de instrumentos, residentes do Brasil, mas com experiência de moradia no exterior, com a língua oficial inglesa, traduziram novamente o instrumento para o inglês; (3) Correção e adaptação semântica, nessa etapa foram observadas a equivalência semântica na primeira e segunda traduções e o significado geral de cada pergunta em relação às perguntas do instrumento original. Foram feitas modificações e sugestões, e a partir delas e da escolha dos melhores termos, uma versão traduzida foi criada. Essa avaliação foi realizada em uma reunião de 12 pessoas com experiência em Psicologia; (4) Validação do conteúdo por profissionais da área (juízes), nessa etapa se avaliou a validação de conteúdo e o significado geral dentro do contexto da população alvo. Foram consultados oito profissionais de saúde mental que trabalhavam com psicopatologia e que tinham conhecimento considerável sobre criação de instrumentos, temática do trauma e desenvolvimento do TEPT (todos psicólogos pósgraduados em Psicologia). Além desses, outros quinze profissionais ligados a Psicologia foram consultados quanto às possíveis modificações na linguagem. (5) Avaliação da versão final por amostra da população (n=45), por intermédio de uma escala verbal-numérica. A pergunta norteadora era: “Você entendeu o que foi perguntado?”. O valor mínimo era “0” (“não entendi nada”) e o valor máximo “5” (“entendi perfeitamente”). Estabeleceu-se que para uma compreensão suficiente era necessário que se atingisse o valor maior ou igual a 3. Resultados (ou Resultados e Discussão) As 36 questões e as instruções iniciais traduzidas e adaptadas criaram o Inventário de Cognições Pós-traumáticas. Após a terceira e quarta etapa, algumas alterações foram necessárias na geração da versão final. Como por exemplo, a troca do termo “neutro” para a tradução de “neutral”, na escala Likert, para “Nem concordo, nem discordo” e no 30º item, a expressão "My reactions since the event show that I am a lousy coper" foi traduzida como "Minhas reações desde o evento demonstram que eu sou péssimo em enfrentar algumas X Salão de Iniciação Científica – PUCRS, 2009 1822 situações", pois a tradução literal não foi considerada apropriada "Minhas reações desde o evento mostram que sou um mau lidador". . Os resultados obtidos na etapa 5 do procedimento metodológico evidenciaram que para todos os itens do PTCI as médias de compreensão na escala verbal-numérica foram acima de 4,10. A avaliação de compreensão total foi, em média, de 4,23 (±0,21). Todos os 36 itens obtiveram pontuação superior ao valor 4, o que indica boa compreensão do instrumento. Conclusão A versão mostrou ser de fácil compreensão obtendo-se adequada validação semântica. O ICPT não deve ser considerado um instrumento diagnóstico, pois o PTCI (original) não possui esse objetivo. No entanto, pode ser uma ferramenta útil na investigação de crenças preditoras relacionadas ao TEPT, também ser utilizado como instrumento de pesquisa, além de auxiliar como mais um elemento na avaliação clínica. Referências FOA, E.B.; EHLERS, A.; CLARK, D.M.; TOLIN, D.F.; ORSILLO, S.M., The Posttraumatic Cognitions Inventory (PTCI): development and validation. Psychological Assessment. Vol. 11(1999), pp. 303-314. FOA, E.B.; ROTHBAUM, B.O., Treating the trauma of rape: Cognitive behavioral therapy for PTSD. New York: Guilford Press. 1998. FOA, E.B.; RIGGS, D.S., Post traumatic stress disorder in rapa vicitms. In: OLDHAM J.; RIBA, M.B., TASMAN A. (eds). American Psyachiatric Press review of psyachiatry. vol. 12 Washington (DC): American Psychiatric Press, 1993. pp 273-303. GAZZANIGA, M.S.; HEATHERTON, T.F., Ciência Psicológica: Mente, Cérebro e Comportamento. Porto Alegre: Artmed. 2005. KESSELER, R.C.; CHIU, W.T.; DEMLER, O.; MERIKANGAS, K.R.; WALTERS, E.E., Prevalence, severity, and comorbidity of 12-month DSM-IV disorders in the National Comorbidity Survey Replication. Archives of General Psychiatry. Vol. 62(2005), pp. 617-627. YEHUDA, R.; DAVIDSON, J., Clinician’s manual on post traumatic stress disorder. London: Science Press. 2000 X Salão de Iniciação Científica – PUCRS, 2009