DIVISÃO DO TRABALHO, GÊNERO E QUALIFICAÇÃO NO
TRABALHO EM SAÚDE
Mônica Loureiro dos Santos l
INúcleo de Estudos de Saúde ColetivalUniversidade Federal do Rio de Janeiro
ABSTRACT: The work aI public hospilals
has been attacked by an incomprehensive
policy in the population welfare point of
view, which has been accentuating heallh
problem s of health workers in these
organizations. In this case study, it is sludied
the forms af resistance af lhe workers at
the hospital work process are studied,
specially the group of Auxiliaries,
considering lhe distinction betwecn
precribed work and real work, concepls
formulaled by Contemporary Ergonomics,
and the defensive strategies and defensive
ideologies, through sublimation and
alienation. The methodologies adopted
include lhe techniques of Work
Psychodinamics, considering the demands
of intervention in the sector sludied, the of
Internai Medici ne Service of a general public
hospital of middle size. In this arlicle, we
discuss lhe transversality of gender calegory
in the hospital work processo
RESUMO: O trabalho em Hospitais
Públicos vem sendo atacado por uma
política incompreensível do ponto de vista
do bem-estar da população, gerando uma
acentuação dos problemas de saúde dos
participantes destas organizações. Neste
estudo de caso são assinaladas as formas
de resistência dos trabalhadores e
trabalhadoras inseridos na organização
hospitalar. em especial as Auxiliares de
Enfermagem, considerando-se a distinção
entre trabalho prescrito e trabalho real,
conceitos formulados pela Ergonomia
Contemporânea, bem como as estratégias
e ideologias defensivas, através da
sublimação e alienação. A metodologia
utilizada inclui técnicas da Psicodinâmica do
Trabalho , a partir de demandas de
intervenção no setor estudado, o Serviço
de Medicina Interna de um hospital geral
público de médio porte . Neste artigo
discute-se a transversal idade da questão de
gênero no processo de trabalho hospilalar.
Key words: Work Organization; Menlal
Health; Ergonomics; Gender.
Palavras-chave:
Organização do Trabalho; Saúde Menlal;
Ergonomia; Gênero.
145
Cad. Saúde Colet. 5 (2), 1997
INTRODUÇÃO
dos recursos são destinados a pagamento
de pessoal, o autor traça um perfil destas
principais tendências, demarcando dois
A organização do trabalho hospitalar
tem sido investigada mais exaustivamente
períodos distintos neste levantamento
(1965-75 e 1976-82). A capacitação formal
sob o prisma da administração e gerência
foi o critério utilizado para delimitar a
abrangência do termo "pessoal de saúde",
da força de trabalho no contexto da
organização dos serviços de saúde no país,
apresentando lacunas no que diz respeito
aos estudos sob a ótica da saúde do
trabalhador.
Compreendemos o campo da saúde
do trabalhador como o conjunto da
produção técnico-científica sobre as
relações entre saúde e trabalho no modo de
incluindo os integrantes de determinados
serviços comunitários onde a comunidade
apresentava relevante participação em
programas de formação de médicos e outros
profissionais de saúde cuja inserção nas
conjunturas mencionadas de expansão e
retração da produção capitalista é analisada
sob o prisma da formação e absorção do
pessoal de saúde pelo mercado de trabalho.
O autor apresenta dados da OMS,
produção capitalista que procura inserir o
sujeito do processo de trabalho no processo
de produção do conhecimento.
A linha de pesquisa em saúde do
trabalhador voltada para o processo de
dentre os quais destacamos o crescimento
da formação de enfermeiros e pessoal de
tipo auxiliar em proporção superior ao
aumento populacional na conjuntura de
trabalho em saúde vem apenas recentemente
ocupando espaço neste campo de discussão,
expansão da absorção da força de trabalho
pelo setor de serviços de saúde. Segundo
pesqu isa de recursos humanos da Escola
Nacional de Saúde Pública (1970-80),
constata-se, no que se refere à qualificação,
o crescimento da taxa de incorporação de
médicos e atendentes entre as décadas de
70e 80 em relação ao conj unto da força de
onde predominam os estudos sobre
processos de trabalho em indústrias de
transformação. sendo que os primeiros
estudos datam de meados da década de 70.
Nesta perspectiva, a investigação das
rel ações entre saúde e trabalho tem
ressaltado a importância da organização do
trabalho para a saúde mental de seus
participantes e para a produção de
subjetividade, o que vem nOrleando
investigações em outros processos de
trabalho no setor serviços'.
Naquela primeira linha de estudos
inserem-se os estudos de NOGUEIRA
(1985) e SOUZA (1985), que ao situar
tendências e perspectivas das investigações
em saúde no país e na América Latina,
trabalho, o que parece constituir-se como
tendência em diversos países da América
Latina.
O autor relaciona os resultados
preliminares da pesquisa citada, fornecendo
uma descrição da situação da força de
trabalho em saúde, e apresentando subsídios
para uma análise da organização do trabalho
no setor, principalmente no que tange à
divisão do trabalho e à qualificação dos
trabalhadores em saúde, quais sejam:
fornecem um instrumental analítico para a
compreensão da divisão do trabalho e da
qualificação no setor de prestação de
serviços de saúde no Brasil.
(NOGUEIRA , 1985 :39 1-408),
investigando a produção científica sobre
força de trabalho em saúde', aponta
características e tendências gerais do
processo de trabalho em questão, no
período compreendido entre 1965 e 1982.
A partir de considerações sobre a
"8) no período 70-80, o total da
FTS (Força de Trabalho em
Saúde) no Brasil aumentou em
109%,
superando em muito o
crescimento da PEA (População
Economicamente Ativa), que
atingiu apenas 52%;
b) a força de trabalho técnica,
composta
de
categorias
pertinentes à área de saúde,
também duplicou, somando em
natureza trabalho-intensiva] do setor de
serviços de saúde, onde cerca de 60 a 80%
Cad. Salide Co/el. 5 (2), /997
146
\
num redimensionamento dos atributos
1980 mais de 600 mi/
trabalhadores;
c) O pessoal de nível superior
associados a um e outro sexo, no que diz
respeito à construção social da identidade.
O estatuto teórico do termo gênero,
cresceu bem mais do que o
auxiliar (130% contra 89%);
d) o crescimento da força de
trabalho técnica dá-se de tal
forma a gerar uma polarização
no entanto, ainda não apresenta a coerência
e clareza da categoria " classe", por
exemplo, conforme assinala SCOTT (1990).
A busca de maior consistência reflete a
entre médicos e enfermeiros não-
necessidade de dar conta das desigualdades
diplomados
(taxas
de
crescimento de 125,6% e 124%
respectivamente);
e) o conjunto da força de
trabalho em saúde sofreu uma
femini/ização acentuada: as
persistentes e das experiências sociais
diferentes. A transversalidade do termo
gênero em relação ao campo da saúde do
trabalhador, investigada por BRITO e
O'ACRI (1991) e BRITO (1996) nos
propôe um avanço neste sentido:
mulheres, que constituíam
47,8% da FTS em 1970,
atingiram 58,1% em 1980;
f) é patente a perda de
rendimento a que foram
"Homens e mulheres são
afetados
por
diferenciadas nos
situações
processos
produtivos e, portanto, a questão
de gênero d,!ve ser vista como um
submetidas certas categorias, em
função da sobreoferta no
mercado de trabalho: por
elemento fundamental
exemplo,
metodológico dessa área de
conhecimento. Se o trabalhador
brasileiro está exposto a um
os
médicos
na
elaboração do marco teórico e
que
ganham menos de 10 salários
mínimos aumentaram de 31,6
para 49,3%, o que, em parte pode
ser explicado por sua
quadro sanitário perverso no seu
ambiente de trabalho,
às
incorporação ao mercado de
trabalho através de mecanismos
como o da residência médica,
mas que seguramente evidencia
mulheres não estão reservadas
alocações particularmente
saudáveis e isentas de risco à sua
saúde." (BRITO e D'ACRI,
uma perda de renda real numa
situação de excesso relativo de
oferta vindo do aparelho
formador "
(NOGUEIRA,
1991)
A experiência das mulheres no
1985:397).
trabalho tem sido apontada como bastante
direrenciada em relação à dos homens.
Alguns aspectos apontados por GUILBERT
(1966) parecem apresentar continuidade
com as situações de trabalho de hoje, tais
GÊNERO E TRABALHO EM SAÚDE
como
As feministas inglesas começaram
a utilizar o termo gênero na década de
70, considerando-o útil a partir de uma
perspectiva que questionava o
a
permanência
dos
guetos
profissionais e o trabalho desqualificado
principalmente para as mulheres (linha de
montagem, trabalho sob pressões de tempo
e pressões da chefia). No que se rerere à
saúde, KERGOAT (1995) assinala
determinismo biológico, que estaria
implícito na terminologia "sexo" e
"direrença sexual". É um termo que
remete portanto a uma construção social.
experiências de trabalho doméstico quase
que exclusivamente realizado pelas
mulheres, com aumento das cargas
A adoção deste termo não implica na
negação das diferenças biológicas, mas
psicológicas e das exigências Cfsicas no
trabalho assalariado.
147
Cad.
Saúde ColeI. 5 (2), /997
No caso da indústria paulista,
SOUZA-LOBO (1991: 17-46) apresenta
as principais características do trabalho
feminino relacionadas à organização do
trabalho:
- salários mais baixos do que os masculinos
(igualou inferior em até 60%);
- concentração da força de trabalho em
tarefas não-qualificadas ou semiqualificadas;
- concentração da força de trabalho em
Segundo
ENGEL
(1989),
anteriormente ao desenvolvimento do setor
fabril, o trabalho feminino nos segmentos
mais pobres da população constituía-se de
ocupações pouco qualificadas e pouco
valorizadas socialmente:
"Assim, não restava à mulher livre
e pobre, ou mesmo à escrava de
ganho, muitas alternativas, além
do serviço doméstico, do pequeno
comércio
quitandeiras,
vendedoras de quilutes, etc, ., do
artesanato . costureiras, por
exemplo - e outras ativüúuies como
tarefas monótonas, repetitivas e que
requerem destreza ou habilidade manual;
- formas de controle e seleção diferenciadas,
situações
de
ocorrendo
mais
constrangimento e humilhação entre as
lavadeiras, cal1omantes,feiticeiras,
mulheres.
A autora indica , a título de
conclusão, que as origens da discriminação
e opressão sobre a mulher não podem ficar
circunscritas à esfera da produção ,
articulando-as igualmente com a esfera da
coristas, dançarinas, cantoras,
atrizes e prostitulas ... " (ENGEL,
1989:25).
À constatação de que o valor do
trabalho masculino é sempre superior ao do
reprodução, apontando a necessidade de
discussão sobre os âmbitos visível e invisível
das práticas sociais de homens e mulheres
dentro da classe operária no Brasil.
Acerca do debate entre a
psicopatologia do trabalho e a sociologia
que trata da divisão sexual do trabalho,
HIRATA (1987 : 158-63) identifica aspectos
divergentes entre as duas abordagens. Além
trabalho feminino, podemos acrescentar,
como assinala Bourdieu, que a esfera do
da não consideração da dimensão sexuada
Para
SCOTT
(1990),
a
interdependência das esferas da produção
e da reprodução não é reconhecida
trabalho reprodutivo é regida por uma
lógica diferenciada da lógica do mercado,
ou seja, pela lógica do amor. Assim, a
di visão sexual do trabalho em nOSSa
sociedade está estruturada segundo estes
valores.
presente na divisão social do trabalho, são
apontados como divergentes a não
consideração da representação social de
masculinidade e feminilidade e a ausência
de articulação entre atividade profissional
e situação familiar nas análises de coletivos
de trabalho.
Nesta mesma linha de estudos,
KERGOAT (1987:191-8) analisa a
construção da noção de ofício pelas
trabalhadoras de indústrias metalúrgicas,
socialmente, e seu ocultamento tem
onde seu principal estranhamento situa-se
respondido a inleresses do Capital. A
interiorização da desvalorização do trabalho
doméstico e da criação dos filhos pela
mulher ocorre simultaneamente à sua
dificuldade de acesso a postos de chefia, e
de participação em foruns coletivos. A este
respeito, BOURDIEU, (1996: 174) nos fala
da interiorização da dominação pelos
dominados, o que os faz partilhar de
na questão das relações entre qualificação
para a atividade e subjetividade destes
coletivos de trabalho.
Este
debate
mostrou-se
dos dominantes. A esta cumplicidade, O
autor chama dominação simbólica, e é
aplicada tanto à dominação masculina,
extremamente rico para as formulações da
quanto a certas relações de trabalho não
Psicodinâmica do Trabalho, que passou a
incorporar a dimensão sexuada em suas
baseadas no direito.
O trabalho em enfermagem pode ser
análises das situações de trabalho.
percebido como uma extensão dos cuidados
Cad. Saúde ColeI. 5 (2), 1997
estruturas de percepções acerca dos atos
148
t
não se coaduna com a de seres frágeis
restritos ao recesso do lar. E o hospital
apresenta muitas semelhanças com uma
fábrica, uma fábrica que funciona 24 horas.
Contudo, as diferenças biológicas têm sido
mais recentemente destacadas por uma série
de reivindicações dos movimentos
feministas no que se refere aos direitos à
saúde reprodutiva, e o trabalho tem aí uma
importância fundamental. Os riscos físicos
que determinados processos produtivos
apresentam afetam de forma direta ou
insidiosa os órgãos reprodutores femininos,
e a informação sobre os mesmos apenas
começa a tornar-se visível. A maioria das
mulheres nas áreas urbanas concentram-se
em ocupações ligadas ao setor terciário da
economia, e nestes tipos de ocupação a
carga mental e a psíquica adquirem maior
relevância para a investigação das fontes de
sofrimento, embora estejam presentes em
todo processo de trabalho. Conforme já foi
assinalado acima, o trabalho em turnos afeta
de forma diferenciada as mulheres no que
se refere à sociabilidade, e não apenas aos
ritmos biológicos.
À
existência dos
guetos
profissionais, .acrescenta-se a convivência
com cada vez mais um número maior de
trabalhos realizados por ambos os sexos, e
o crescimento da mobilidade das tarefas
entre os sexos. Frequentemente, no entanto,
estes trabalhos diferenciam-se quanto ao
valor que lhes é atribuído: o trabalho da
mulher recebe uma remuneração menor que
o mesmo trabalho do homem e ela própria
o desvaloriza em relação ao do homem,
conforme apontado em depoimentos em
estudo com operárias da indústria química
no país; quanto às condições de trabalho:
há um ocultamento diferenciado no
processo produti vo dos "riscos",
distribuídos, por exemplo, de acordo com
a alocação dos dois gêneros por tamanho
das empresas (BRITO, 1996)'Considerando as práticas de gênero
e a questão do sofrimento no trabalho de
enfermagem. vamos agora passar ao
material de pesquisa no setor de Medicina
Interna de um hospital geral público de
médio porte no Município do Rio de
Janeiro, enfocando aspectos da organização
maternos. A qualificação dos principais
executores, os Auxiliares Operacionais de
Serviços Diversos (AOSDs) ou atendentes
e os Auxiliares de Enfermagem, pode ser
remetida a esta representação socia1. A
complexificação do trabalho em saúde, com
novas
tecnologias
e
crescente
informatização em geral não está associada
a cuidados básicos de enfermagem. Esta
distância exprime uma escolha social. e a
questão de gênero é um de seus
determinantes.
Outra questão que comumente
apresenta pouca visibilidade é a questão dos
riscos e do sofrimento presentes na situação
de trabalho, aos quais está exposta a equipe
de enfermagem de forma diferenciada
segundo a qualificação (enfermeiros
graduados ou não).
o SOFRIMENTO
Os estudos sobre carga de trabalho
podem contribuir para uma maior
elucidação de questões referidas pelo senso
comum como estresse ou mal-estar no
trabalho. Fala-se de um sofrimento
produzido no trabalho, mas que trabalho é
este? Quando se incorporam questões
relacionadas ao trabalho doméstico, ou
mesmo ao cuidado com os filhos ou outros
familiares, conforme assinalado acima, de
que trabalho se está falando? As
participantes do processo de trabalho em
enfermagem usualmente já cumpriam uma
"terceira jornada", o que tende a se agravar
com a precarização e informalização do
trabalho numa perspectiva mais ampla. E
que sofrimento é este? O sentido do
sofrimento e do prazer no trabalho não
podem estar dissociados das possibilidades
de criação de tempo livre, que não esteja
sendo utilizado, por exemplo, de forma
excessiva com transportes. A sociabilidade
das Auxiliares é afetada de forma peculiar
pelo trabalho em turnos. O trabalho
noturno, ou mesmo o esquema de plantões
imprime rotinas nem sempre compartilhadas
pelo cônjuge ou pelos filhos .
A ocupação massiva das fábricas
pelas mulheres no início da industriaHzação
149
Cad. Saúde Coleto 5 (2), 1997
do trabalho, da qualificação e da relação
com a família.
processo de trabalho era a existência de
folgas e licenças.
A este respeito , DEJOURS
(1987:71) discute a relação entre o uso
de EPls e seu significado dentro da lógica
ESTUDO DE CASO
dos mecanismos de defesa coleti vos na
O sofrimento em relação à
organização é expresso de diversas formas
pelas Auxiliares:
"A gente se estressa, se acaba. Essa
é uma profissão que aos poucos vai te
desgastando, seu i"terior vai acabando,
porque você quer pular um obstáculo e
construção civil, por exemplo. No caso
do processo de trabalho hospitalar, o
grande contingente de mulheres entre os
trabalhadores de enfermagem talvez
confira um outro sentido à utilização de
não encontra nenhum cavalo bom que
ou sua adequação às trabalhadoras. Uma
auxiliar recordava ressentida o fato de ler
se exposto a uma situação de risco à
equipamentos de proteção individuais, em
que pese a discussão sobre sua eficácia
salte."(AE, sexo feminino)
i
época que amamentava, o que não teria
" ... Da auxiliar cobra a chefia
imediata, cobra o doutor, cobra a
enfermeira, cada visita que vem cobra
É um desgaste mental muito grande."
(AE, sexo feminino)
sido levado em conta pela chefia: "Cadê
a consideração da chefia? Pacientes com
septicemia, HIV, tuberculose. Tive que
usar máscara, me isolar toda."
Para alguns membros da equipe de
plantão noturno, as estratégias de defesa
coletivas não dão conta do enfrentamento
dos mesmos problemas que o pessoal
o ••
..... Eu não aguento mais não. Eu
já aguentei muito. Já trabalhei de dia aqui,
mas agora não aguento mais não. Eu já
dei
entrada
na
minha
aposentadoria .. .Agora não estou dando
mais nada."(AE, sexo feminino)
1
diurno, acrescidos do isolamento e das
alterações psicofisiológicas, dentre outras
especi ficidades do trabalho noturno.
Como exemplo. uma auxiliar
solicitou transferência para o plantão
"Estamos ficando cansadas,
estressadas." (A E, sexo feminino)
Da percepção do desgaste com as
condições de trabalho à sensação de
diurno. Esta situação é tratada pela
instituição considerando apenas a
limitação quantitativa de profissionais, o
que suscitou às outras auxiliares
questionarem se foi algum "pistolão" que
esgotamento psíquico, as Auxiliares
revelam seu sofrimento com os limites da
havia favorecido a transferência.
Relativizando o sentimento de
organização.
exclusão por trabalhar no setor, algumas
Nas últimas observações, não foi
presenciado nenhum AE ou enfermeiro
auxiliares afirmam gostar de trabalhar na
trabalhando em condições de saúde
Cfnica Médica, manifestando o desejo de
visivelmente precárias, O que pode ser
aí permanecer. Estas auxiliares participam
atribuído ao acréscimo de I ou 2
auxiliares por plantão. A chefia de
do trabalho em equipes consideradas
" coesas" pelos enfermeiros, o que nos
remete ao conceito de cooperação
enfermagem referiu-se a aumento do
apontado por DEJOURS (1992).
absenteísmo. Uma auxiliar da ala feminina
relatou tcr assistido as duas alas sozinha
durante um plantão de final de semana.
Com exceção de um plantão, nenhum
O
sentimento
comum
aos
membros da equipe de enfermagem de se
sentirem "donas" do paciente sugere uma
defesa coletiva frente a diversas situações
sobre as quais não detêm o controle. Em
entrevista, a chefia de enfermagem faz
uma crítica a este sentimento: "Não somos
outro observado apresentava a equipe
completa. Em entrevista, uma auxiliar
relatou que a forma encontrada para
suportar as dificuldades e riscos do
Cad. Saríde Colet. 5 (2), 1997
~
150
J
,
equipe que comenta: "Até já colocaram
nosso nome no jornal, agradecendo o
atendimento!",
Este episódio isolado não é O
corriqueiro atualmente. O Hospital
Público tcm ocupado mais recentemente
o noticiário com toda sorte de imagens
desfavoráveis. Como resultado de uma
polílica de investimentos no selor saúde
extensamente analisada por diversos
autores, a privalização do setor não é o
alvo das críticas da opinião pública, mas
sim os profissionais e o atendimento por
eles efetivado.
Questionada como conseguia
defrontar-se com esta série de cargas
presentes no processo de trabalho, uma
auxiliar reportou-se à fé religiosa:
"Peço sempre orientação a Deus.
Ter uma fé, uma religião. Não acreditar
em nada é estressante. Sempre passo uma
força para o pessoal. As coisas não
dependem só da gente, também do
governo. Com a idade a gente vai vendo
que se podem fazer algumas coisas."(AE,
ala masculina)
O Hospital é mencionado como
local privilegiado não só do aprendizado
profissional, como também de
aprendizado sobre valores pouco usuais
nas sociedades modernas, onde
predomina O individualism06.
"A gente tem que ter espírito de
humanidade. O sofrimento é triste. Aqui
eu aprendi muita coisa, a valorizar os
outros"(AE, sexo masculino, ala
feminina).
"Todo mundo esquece do dia de
amanhã, pensa que nunca vai ficar deitado
numa cama dessas. A gente trabalha nisso,
é o nosso dia-a-dia, então eu nunca
esqueço disso, penso sempre que amanhã
pode ser eu, pode ser minha mãe, pode
ser alguém da minha família. "(AE, sexo
feminino, UI)
Quando não ocorre a sublimação
como mecanismo defensivo, que opções
encontram as auxiliares para fazer frente
aos limites da organização?
O exercício da criatividade pelo
trabalho real, ou seja, a proposta de
soluções inovadoras para os impasses
donas do paciente . senão teríamos
recursos para isto!" Supõe-se que se
houvessem recursos suficientes o
sentimento seria apropriado. Se, por um
lado, a defesa propicia suportar uma série
de riscos e inadequações do Hospital, por
outro não permite romper com alguns
desses limites, como a carência de
comunicação. da qual todos se queixam .
e principalmente aceitar a contribuição da
participação do Paciente em seu próprio
tratamento. Este sentimento é expresso
em depoimento de uma auxiliar:
"Não pode deixar ele (o Paciente)
sozinho, se você não dá conta ele cai. Nós
é que somos as donas do paciente. Não é
ruim não, eu até gosto, eu só queria que a
gente fosse uma dona mais hem equipada,
para poder cuidar melhor, mas a gente não
consegue ". Eu realmente já sofri muito
por isso."
A alienação como movimento
conservador, anti-transformador é
apontada na literatura (DEJOURS,
1987: 18).
É pouco provável que a sublimação
seja uma estratégia defensiva utilizada
pela totalidade das Auxiliares de
Enfermagem. Embora a maioria afirme em
seus depoimentos o "amor à profissão".
quando questionadas sobre os desejos
anteriores à escolha profissional, algumas
responderam que optariam por outra
profissão, em geral de formação
universitária:
"Antes do meu pai adoecer? Queria
ser jornalista ou professora de Letras ...
de Português"
"Fiz O vestibular para Psicologia e
passei, mas não queria estudar de noite e
a faculdade era muito longe. Já trabalhava
nesta época,"
São
registrados
poucos
sentimentos negativos em relação às
tarefas, mas estes ocorrem, conforme
depoimento de uma auxiliar: "Tenho ódio
de dar injeções!".
Também há que se considerar o
sentimento de desvalorização profissional
comum a todos os componentes da equipe
de enFermagem. Há exceções, como a
151
Cad. Saúde Coleto 5 (21, /997
gerados pela organização prescrita pode
ser uma saída positiva.
Por outro lado, podemos observar
a resistência das auxiliares quando o "não
trabalho" é assinalado de alguma forma.
As ausências durante a jornada, O
incluindo cobranças por parte da famllia
de maior tempo de convívio, e com O
cuidado aos pais ou outros parentes
idosos ou en fermos. Acrescente-se as
queixas de contaminação do tempo fora
do trabalho, com efeitos sobre o
relacionamento familiar. A noção de
família conjugal nem sempre é
predominante entre estas trabalhadoras,
devendo ser considerada a existência de
outras formas de configuração familiar.
Poucas referências foram feitas ao
trabalho doméstico, ausência que pode ser
remetida à desqualificação corrente deste
tipo de trabalho.
A maior parte das Auxiliares
encontra-se na faixa etária entre 40 e 50
anos, e muitas estão próximas da
aposentadoria. Embora haja referências
(TISSOT, MESSING, FERRA RIS,
VEZINA, S.D.) na literatura sobre a
influência do ciclo menstrual no cotidiano
de trabalho, não houve qualquer menção
acerca deste aspecto entre as Auxiliares
entrevistadas.
A frequência de sofrimento
psíquico entre as Auxiliares do Hospital
estudado é maior do que a encontrada
entre os profissionais do sexo masculino
(60,3% e 55,6% respectivamente) ,
havendo uma população bastante restrita
de homens (REGO, 1993) .
A
representação do trabalho de enfermagem
como trabalho feminino não é consensual
entre o grupo estudado. Em entrevista, a
oposição entre trabalho "leve" e trabalho
"pesado" aparece como contraponto a
esta idéia dominante: "Este é um trabalho
para homens !". A dimensão física do
trabalho de enfermagem não abrange, no
discurso das Auxiliares, o aspecto da
sexualidade '. Este silêncio encontra
ressonância nas considerações do colega
de trabalho do sexo masculino que, em
entrevis1a, alude à diferença de força física
entre os sexos, avaliada como pouco
relevante: "Não há diferença no trabalho ...
às vezes eu ajudo por uma gentileza. mas
aqui tem mulheres mais fortes do que a
gente!" . A este respeito, HIRATA
(1987: 160) aponta como os atributos
sociais de feminilidade e masculinidade
absenteísmo ou algum procedimento não
efetivado apontam para a importância do
trabalho realizado cotidianamente e que
não é valorizado.
A ocorrência de doenças entre este
grupo profissional, assim como o uso de
psicotrópicos podem ser indicadores de
fraturas neste mecanismo de defesa.
No entanto, mesmo considerando
que a sublimação ocorra como mecanismo
de proteção psíquica, ainda há que se
considerar a possibilidade do mesmo
configurar-se como defesa conservadora,
isto é, constituir-se como alienação na
medida em que o reconhecimento do
outro adquire maior relevância do que a
finalidade do trabalho.
Embora não tenham sido
investigados mais detalhadamente os
efeitos da dupla jornada sobre a saúde das
Auxiliares
de
Enfermagem,
permanecemos atentas para a discussão
sob este prisma.
A escassez de tempo
durante a jornada para descanso e
ati vidades de estudo ou renexão parece
reproduzir-se no espaço fora do trabalho.
A este respeito, CHAUÍ (1987:59)
reporta-se ao estudo de Eclea 80si sobre
o desejo das operárias casadas de dedicar
maior parte de seu tempo a leituras. que
em geral não é realizado. Em entrevista.
duas AEs atribuíram à criação dos filhos
o motivo de impedimento de dar
continuidade aos estudos. Durante as
observações algumas Auxiliares
comentaram o fato de terem criado os
filhos sozinhas, demandando a existência
de múltiplos vínculos; outras referiramse a distúrbios conjugais devido ao
excesso de trabalho.
Remetendo-nos à articulação entre
atividade profissional e situação familiar
sugerida por HIRATA (1987), lembramos
os depoimentos de algumas AEs que se
referiram à dificuldade em conciliar o
trabalho com a criação dos filhos,
Cad. Saúde Colet. 5 (2), 1997
152
•
•
•
•
,
J
são explorados pelas empresas,
assinalando uma submissão feminina a
uma ética e a uma estética erigida sobre
muito mais forte para os homens ,
enquanto para as mulheres a dimensão do
prazer ocupa lugar central na identificação
do que seja um ofício.
valores como a força física, a resistência
às tarefas insalubres e a coragem para
tarefas
perigosas,
próprias
à
masculinidade.
Diferentemente do que é apontado
por SOUZA-LOBO (1991) em relação à
indústria paulista, as trabalhadoras em
serviço público não recebem salários
Embora nossa investigação estivesse mais
voltada para a identificação de outros
aspectos do trabalho coletivo, podemos
observar que as Auxiliares estão mais
próximas de uma compatibilidade entre a
organização do trabalho e o sentimento
de ter um ofício, considerando o reduzido
distintos em relação aos homens, porém
o trabalho em enfermagem do pessoal
auxiliar é caracterizado como pouco
controle sobre a totalidade do processo
de trabalho e a pouca valoração social da
atividade como situações que não
favorecem esta harmonização. Por outro
qualificado, com predomínio de tarefas
lado, a existência do trabalho real , o
tempo de aprendizado das Auxiliares e a
repetitivas e monótonas .
A este respeito , lembramos O
estudo de KERGOAT (1987), em que a
existência de um sindicato próprio
(Sindicato de Auxiliares e Técnicos de
Enfermagem) remetem à aproximação
autora sintetiza o discurso das operárias
desqualificadas sobre a noção de ofício,
com este sentimento. Quanto a se
sentirem ou não permutáveis, mereceria
uma investigação mais exaustiva, porém
podemos assinalar a inserção deste
aspecto na discussão sobre as estratégias
mostrando a incompatibilidade entre a
organização do trabalho industrial e o fato
de ter um ofício, assim como os efeitos
sobre a noção de projeto: "ser responsável
pela totalidade do trabalho, não ser
permutável,
tcr
tido
um
de defesa, através da alienação como
defesa utilizada por estas trabalhadoras.
Por um lado, algumas AEs não
tempo
relativamente longo de aprendizagem, ter
crédito socialmente e perante si mesma
quanto à sua atividade, fazer funcionar a
cabeça, não apenas em lermos de atenção ,
mas de maneira inteligente: é preciso
"buscar"; o ofício supõe. enfim, uma
demonstram sentlr-se permutáveis, como
neste depoimento:
"Tem doente que se interna neste
hospital há mais de 10 anos, já te conhece.
Chega te procurando. Quando eu saí da
masculina [enfermaria], doente chegava
lá me procurando. Tinha um que só fazia
relação com os outros" (KERGOAT,
1987: 195)9 Para a autora, a importância
da escolha tem lugar nas considerações
acerca das noções de projeto e de sonho,
distinguindo-se a primeira noção por estar
curativo comigo." (AE, sexo feminino ,
UI)
minimamente ancorada na realidade.
Por outro lado, é comum o
sentimento de se sentirem "usadas" ou
Mas o que há de especificamente
feminino nestes atributos?
A autora
exploradas pela organização do trabalho:
aponta duas dimensões em que é revelada
"Só vêem a gente como 'burro de
carga' , mão-de - obra." (AE , sexo
a condição feminina: na primeira, a
dimensão temporal remete a um passado
ou um futuro onde estão implicados o
feminino, ala masculina)
mercado de trabalho, os encargos
Os estudos sobre a condição
familiares e o envelhecimento para as
mulheres; na segunda, está colocada a
questão da valoração social do ofício,
feminina apontam assim para um campo
fértil de investigação , mostrando- se
necessária a ampliação de sua inserção no
estudo do processo de trabalho hospitalar.
153
Cad. Saúde Coleto 5 (2), 1997
REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
ARAÚJO, Gilberto M. (1992) - "Contribuição para a Prática de Inspeção Sanitária no
Setor de Saúde a partir de Atividades Desenvolvidas no H.G.J." Rio de Janeiro,
monografia apresentada ao Curso de Especialização em Saúde Pública, ENSP/
FIOCRUZ, mimeo
BOURDIEU, Pierre (1996) - "A Economia dos Bens Simbólicos" in Razões Práticas:
sobre a teoria da ação. Campinas :Papirus, 231 p.
BRITO, Jussara C. e D' ACRI, Vanda (1991) - "Referencial de Análise para o Estudo da
Relação Trabalho, Mulher e Saúde" in Cadernos de Saúde Pública, RJ, 7 (2): 201214, abr/jun,.
___ (1996) - Trabalho e Saúde nas Indústrias de Processos Químicos: a experiência
das trabalhadoras. Rio de Janeiro, Tese de Doutorado, ENSP/FIOCRUZ, 227p.
CHAUÍ, Marilena (1987) - Conformismo e Resistência: aspectos da cultura popular no
Brasil. São Paulo: Ed. Brasiliense, 179p.
DEJOURS, Christophe (1987a) - A Loucura do Trabalho: estudo de psicopatologia do
trabalho. São Paulo : CortezlOboré, 163p.
_ _ _ (1987) - "Souffrance ot Plaisir: l' approche par la Psychopathologie du Travail"
in Plaisir et Souf!rance au Travail. Paris:CNRS, vol. I, 145p.
_ _ _ (1992) - ''Note de travail pour le groupe: "concept de travail" . Paris: CNAM, 10p.
_ _ _ ; ABDOUCHELLI, Elizabeth e JAYET, Christian - Psicodinâmica do Trabalho:
contribuições da escola"dejouriana à análise da reLação prazer, sofrimento e trabalho.
São Paulo: Ed. Atlas.
ENGEL, Magali (1989) - Meretrizes e Doutores: saber médico e prostituição no Rio de
Janeiro (/840-1890). São Paulo: Ed . Brasiliense, 143p.
HIRATA, Helena e KERGOAT, Daniele (1987) - "Rapports Sociaux de Sexe et
Psychopathologie du Travail" in Plaisir et Souf!rance au Travail. Paris:CNRS, vol
2,208p.
KERGOAT, Daniele (1995) - "De la Division Sexuelle du Travail et de ses Conséquences
sur les Conditions de Travail" in Messing, Karen; Neis, Barbara; Dumais, Lucie Invisible: la santé des travailleuses. Canadá: Gynergy books.
MIRANDA, Cristina M. Loyola (1992) - "O Discurso da Sexualidade como Eixo de
Instrução da Enfermagem Moderna" in Saúde e Debate, n° 36, outubro.
NOGUEIRA, Roberto Passos (1985) - "Pessoal de Saúde: a discussão teórica e a produção
científica sobre o tema" in NUNES, E.D . (org.) - As Ciências Sociais em Saúde lia
América Latina: tendências e perspectivas. Brasília:OPAS, 474p.
REGO, Marisa Palácios C.M.A (1993) - Trabalho Hospitalar e Saúde Mental: o caso de
um hospital geral e público 110 Município do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Tese de
Mestrado, IMS/UERJ, I I I p.
SANTOS, Mônica L. (1995) - "O Trabalho dos Anjos de Branco: um estudo em hospital
geral público". Rio de Janeiro, Tese de Mestrado, COPPE/UFRJ, 200p.
SANTOS, Mônica Loureiro (1997)- "O Trabalho das Auxiliares de Enfermagem em
Cad. Saúde Coleto 5 (2), /997
154
•
Hospitais Públicos". Rio de Janeiro, projeto apresentado para o doutorado na COPPEI
UFRJ, mimeo, 18p.
SILVA, Cláudia (1994) - Curar Adoecendo: um estudo do processo de trabalho hospitalar
em busca da saúde, da invemividade e da vida. Rio de Janeiro, Tese de Mestrado,
ENSP/FIOCRUZ.
SOUZA, Alina M.A (1985) - "A Enfermagem:análise das principais pesquisas e seus
problemas" in NUNES, E.D. (org.) - As Ciências Sociais em Saúde na América
Latina: tendências e perspectivas. Brasília: OPAS, 474p.
SOUZA-LOBO, Elizabeth (1991) - A Classe Operária tem Dois Sexos: trabalho,
dominação e resistência . São Paulo: Ed. Brasiliense, 285p.
SCOTT, Joan (1990) - "Gênero: uma categoria útil de análise histórica" in Educação e
Realidade, Porto Alegre 16 (2): 5-22, julldez.
TISSOT, France; MESSING, Karen; FERRARIS, Jocelyne e VEZINA, Nicole (s/d) "Menstrual Symptoms and Working Conditions among Hospital Workers" , Montréal ,
Canadá, mimeo.
NOTAS:
IA respeito do processo de trabalho em saúde. ver as teses e monografias produzidas peJo Projeto
Integrado de Pesquisa do Programa de Saúde do Trabalhador da Coordenadoria de Programas da
S.E.S.lRJ (Araújo, 1992; Rego , 1993; Silva, 1994; Santos, 1995); e o estudo pioneiro de Ana
Pitta, "Hospital: dore morte como ofício". Este artigo é baseado em minha tese de Mestrado (Santos.
1995).
2 "Pessoal de Saúde: a discussão teórica e a produção científica sobre o tema " in Nunes, E.D.
(org.) - As Ciências Sociais em Saúde na América Latina: tendências e perspectivas. OPAS,
1985 .
3Segundo o autor, esta característica do processo de trabalho é observada tanto em países de
economia capi tali sta avançada como em países em desenvolvimento.
4SANTOS , Mônica Loureiro (1997)- "O Trabalho das Auxiliares de Enfermagem em Hospitais
Públicos"- projeto apresentado para o doutorado na COPPE/UFRJ , mimeo.
sPara uma discussão sobre as relações entre indi vidua li smo e organização do trabalho. ver Dejours
(1994:60-65).
6Como exemplo, o estudo "Menstrual Symptoms and Worling Conditions among Hospital Worlcrs"
do grupo de pesquisa-ação em biologia do trabalho da Universidade de Québcc identificou evidência
de associação entre sintomas ligados ao ciclo menstrual (dismenorréia e síndrome pré-menstrual e
determinadas condições de trabalho. tais como ritmo intenso de trabalho e sobrecarga física, ta l
como levantamento excessivo de pesos). As enfermeiras representaram 33 ,2% do total de
trabalhadoras entrevistadas.
7 A este respeito, Miranda (1992) refere-se à repressão da sexualidade na profissão de enfermagem,
situada além das questões de poder institucionais.
8 "Ccs attributs des tãches masculines el feminines dans J'univers du travail, loin d'être particuliers
à celles étudiées dans" établissement cité, semblent être tres répandus. On pourrait affirmer qu 'il
155
Gad. Saúde Colei. 5 (2), 1997
existe une éthique et une eslhétique de la soumissionféminine auxquelles correspondent une éthique
et une esthétique de la force physique, de la résistance aux travaux sales et insalubres eldu courage
pour les tâches dangereu ses, qui définissent la masculinité." (trad. livre da autora)
9" La synlhese de ces discours permel de caractéri ser ce qu ' un métier veut dire: être responsable de
la totalité du tra va il , ne pas être interchangeable, avoir eu un ternps relativernent Jo ng
d'apprentissage, être rier socialement et devant soi-même de son activité, faire fonctionner S3 tête,
pas uniquement en terrnes d 'a ttention , mais de façon intelligente: iI faut chercher; le métier, enfin,
suppose une relati on aux aUlTes." (lrad. livre da autora).
Cad. Saúde ColeI. 5 (2), 1997
156
Download

Divisão do trabalho, gênero e qualificação no trabalho em saúde.