DIVISÃO DO TRABALHO, GÊNERO E QUALIFICAÇÃO NO TRABALHO EM SAÚDE Mônica Loureiro dos Santos l INúcleo de Estudos de Saúde ColetivalUniversidade Federal do Rio de Janeiro ABSTRACT: The work aI public hospilals has been attacked by an incomprehensive policy in the population welfare point of view, which has been accentuating heallh problem s of health workers in these organizations. In this case study, it is sludied the forms af resistance af lhe workers at the hospital work process are studied, specially the group of Auxiliaries, considering lhe distinction betwecn precribed work and real work, concepls formulaled by Contemporary Ergonomics, and the defensive strategies and defensive ideologies, through sublimation and alienation. The methodologies adopted include lhe techniques of Work Psychodinamics, considering the demands of intervention in the sector sludied, the of Internai Medici ne Service of a general public hospital of middle size. In this arlicle, we discuss lhe transversality of gender calegory in the hospital work processo RESUMO: O trabalho em Hospitais Públicos vem sendo atacado por uma política incompreensível do ponto de vista do bem-estar da população, gerando uma acentuação dos problemas de saúde dos participantes destas organizações. Neste estudo de caso são assinaladas as formas de resistência dos trabalhadores e trabalhadoras inseridos na organização hospitalar. em especial as Auxiliares de Enfermagem, considerando-se a distinção entre trabalho prescrito e trabalho real, conceitos formulados pela Ergonomia Contemporânea, bem como as estratégias e ideologias defensivas, através da sublimação e alienação. A metodologia utilizada inclui técnicas da Psicodinâmica do Trabalho , a partir de demandas de intervenção no setor estudado, o Serviço de Medicina Interna de um hospital geral público de médio porte . Neste artigo discute-se a transversal idade da questão de gênero no processo de trabalho hospilalar. Key words: Work Organization; Menlal Health; Ergonomics; Gender. Palavras-chave: Organização do Trabalho; Saúde Menlal; Ergonomia; Gênero. 145 Cad. Saúde Colet. 5 (2), 1997 INTRODUÇÃO dos recursos são destinados a pagamento de pessoal, o autor traça um perfil destas principais tendências, demarcando dois A organização do trabalho hospitalar tem sido investigada mais exaustivamente períodos distintos neste levantamento (1965-75 e 1976-82). A capacitação formal sob o prisma da administração e gerência foi o critério utilizado para delimitar a abrangência do termo "pessoal de saúde", da força de trabalho no contexto da organização dos serviços de saúde no país, apresentando lacunas no que diz respeito aos estudos sob a ótica da saúde do trabalhador. Compreendemos o campo da saúde do trabalhador como o conjunto da produção técnico-científica sobre as relações entre saúde e trabalho no modo de incluindo os integrantes de determinados serviços comunitários onde a comunidade apresentava relevante participação em programas de formação de médicos e outros profissionais de saúde cuja inserção nas conjunturas mencionadas de expansão e retração da produção capitalista é analisada sob o prisma da formação e absorção do pessoal de saúde pelo mercado de trabalho. O autor apresenta dados da OMS, produção capitalista que procura inserir o sujeito do processo de trabalho no processo de produção do conhecimento. A linha de pesquisa em saúde do trabalhador voltada para o processo de dentre os quais destacamos o crescimento da formação de enfermeiros e pessoal de tipo auxiliar em proporção superior ao aumento populacional na conjuntura de trabalho em saúde vem apenas recentemente ocupando espaço neste campo de discussão, expansão da absorção da força de trabalho pelo setor de serviços de saúde. Segundo pesqu isa de recursos humanos da Escola Nacional de Saúde Pública (1970-80), constata-se, no que se refere à qualificação, o crescimento da taxa de incorporação de médicos e atendentes entre as décadas de 70e 80 em relação ao conj unto da força de onde predominam os estudos sobre processos de trabalho em indústrias de transformação. sendo que os primeiros estudos datam de meados da década de 70. Nesta perspectiva, a investigação das rel ações entre saúde e trabalho tem ressaltado a importância da organização do trabalho para a saúde mental de seus participantes e para a produção de subjetividade, o que vem nOrleando investigações em outros processos de trabalho no setor serviços'. Naquela primeira linha de estudos inserem-se os estudos de NOGUEIRA (1985) e SOUZA (1985), que ao situar tendências e perspectivas das investigações em saúde no país e na América Latina, trabalho, o que parece constituir-se como tendência em diversos países da América Latina. O autor relaciona os resultados preliminares da pesquisa citada, fornecendo uma descrição da situação da força de trabalho em saúde, e apresentando subsídios para uma análise da organização do trabalho no setor, principalmente no que tange à divisão do trabalho e à qualificação dos trabalhadores em saúde, quais sejam: fornecem um instrumental analítico para a compreensão da divisão do trabalho e da qualificação no setor de prestação de serviços de saúde no Brasil. (NOGUEIRA , 1985 :39 1-408), investigando a produção científica sobre força de trabalho em saúde', aponta características e tendências gerais do processo de trabalho em questão, no período compreendido entre 1965 e 1982. A partir de considerações sobre a "8) no período 70-80, o total da FTS (Força de Trabalho em Saúde) no Brasil aumentou em 109%, superando em muito o crescimento da PEA (População Economicamente Ativa), que atingiu apenas 52%; b) a força de trabalho técnica, composta de categorias pertinentes à área de saúde, também duplicou, somando em natureza trabalho-intensiva] do setor de serviços de saúde, onde cerca de 60 a 80% Cad. Salide Co/el. 5 (2), /997 146 \ num redimensionamento dos atributos 1980 mais de 600 mi/ trabalhadores; c) O pessoal de nível superior associados a um e outro sexo, no que diz respeito à construção social da identidade. O estatuto teórico do termo gênero, cresceu bem mais do que o auxiliar (130% contra 89%); d) o crescimento da força de trabalho técnica dá-se de tal forma a gerar uma polarização no entanto, ainda não apresenta a coerência e clareza da categoria " classe", por exemplo, conforme assinala SCOTT (1990). A busca de maior consistência reflete a entre médicos e enfermeiros não- necessidade de dar conta das desigualdades diplomados (taxas de crescimento de 125,6% e 124% respectivamente); e) o conjunto da força de trabalho em saúde sofreu uma femini/ização acentuada: as persistentes e das experiências sociais diferentes. A transversalidade do termo gênero em relação ao campo da saúde do trabalhador, investigada por BRITO e O'ACRI (1991) e BRITO (1996) nos propôe um avanço neste sentido: mulheres, que constituíam 47,8% da FTS em 1970, atingiram 58,1% em 1980; f) é patente a perda de rendimento a que foram "Homens e mulheres são afetados por diferenciadas nos situações processos produtivos e, portanto, a questão de gênero d,!ve ser vista como um submetidas certas categorias, em função da sobreoferta no mercado de trabalho: por elemento fundamental exemplo, metodológico dessa área de conhecimento. Se o trabalhador brasileiro está exposto a um os médicos na elaboração do marco teórico e que ganham menos de 10 salários mínimos aumentaram de 31,6 para 49,3%, o que, em parte pode ser explicado por sua quadro sanitário perverso no seu ambiente de trabalho, às incorporação ao mercado de trabalho através de mecanismos como o da residência médica, mas que seguramente evidencia mulheres não estão reservadas alocações particularmente saudáveis e isentas de risco à sua saúde." (BRITO e D'ACRI, uma perda de renda real numa situação de excesso relativo de oferta vindo do aparelho formador " (NOGUEIRA, 1991) A experiência das mulheres no 1985:397). trabalho tem sido apontada como bastante direrenciada em relação à dos homens. Alguns aspectos apontados por GUILBERT (1966) parecem apresentar continuidade com as situações de trabalho de hoje, tais GÊNERO E TRABALHO EM SAÚDE como As feministas inglesas começaram a utilizar o termo gênero na década de 70, considerando-o útil a partir de uma perspectiva que questionava o a permanência dos guetos profissionais e o trabalho desqualificado principalmente para as mulheres (linha de montagem, trabalho sob pressões de tempo e pressões da chefia). No que se rerere à saúde, KERGOAT (1995) assinala determinismo biológico, que estaria implícito na terminologia "sexo" e "direrença sexual". É um termo que remete portanto a uma construção social. experiências de trabalho doméstico quase que exclusivamente realizado pelas mulheres, com aumento das cargas A adoção deste termo não implica na negação das diferenças biológicas, mas psicológicas e das exigências Cfsicas no trabalho assalariado. 147 Cad. Saúde ColeI. 5 (2), /997 No caso da indústria paulista, SOUZA-LOBO (1991: 17-46) apresenta as principais características do trabalho feminino relacionadas à organização do trabalho: - salários mais baixos do que os masculinos (igualou inferior em até 60%); - concentração da força de trabalho em tarefas não-qualificadas ou semiqualificadas; - concentração da força de trabalho em Segundo ENGEL (1989), anteriormente ao desenvolvimento do setor fabril, o trabalho feminino nos segmentos mais pobres da população constituía-se de ocupações pouco qualificadas e pouco valorizadas socialmente: "Assim, não restava à mulher livre e pobre, ou mesmo à escrava de ganho, muitas alternativas, além do serviço doméstico, do pequeno comércio quitandeiras, vendedoras de quilutes, etc, ., do artesanato . costureiras, por exemplo - e outras ativüúuies como tarefas monótonas, repetitivas e que requerem destreza ou habilidade manual; - formas de controle e seleção diferenciadas, situações de ocorrendo mais constrangimento e humilhação entre as lavadeiras, cal1omantes,feiticeiras, mulheres. A autora indica , a título de conclusão, que as origens da discriminação e opressão sobre a mulher não podem ficar circunscritas à esfera da produção , articulando-as igualmente com a esfera da coristas, dançarinas, cantoras, atrizes e prostitulas ... " (ENGEL, 1989:25). À constatação de que o valor do trabalho masculino é sempre superior ao do reprodução, apontando a necessidade de discussão sobre os âmbitos visível e invisível das práticas sociais de homens e mulheres dentro da classe operária no Brasil. Acerca do debate entre a psicopatologia do trabalho e a sociologia que trata da divisão sexual do trabalho, HIRATA (1987 : 158-63) identifica aspectos divergentes entre as duas abordagens. Além trabalho feminino, podemos acrescentar, como assinala Bourdieu, que a esfera do da não consideração da dimensão sexuada Para SCOTT (1990), a interdependência das esferas da produção e da reprodução não é reconhecida trabalho reprodutivo é regida por uma lógica diferenciada da lógica do mercado, ou seja, pela lógica do amor. Assim, a di visão sexual do trabalho em nOSSa sociedade está estruturada segundo estes valores. presente na divisão social do trabalho, são apontados como divergentes a não consideração da representação social de masculinidade e feminilidade e a ausência de articulação entre atividade profissional e situação familiar nas análises de coletivos de trabalho. Nesta mesma linha de estudos, KERGOAT (1987:191-8) analisa a construção da noção de ofício pelas trabalhadoras de indústrias metalúrgicas, socialmente, e seu ocultamento tem onde seu principal estranhamento situa-se respondido a inleresses do Capital. A interiorização da desvalorização do trabalho doméstico e da criação dos filhos pela mulher ocorre simultaneamente à sua dificuldade de acesso a postos de chefia, e de participação em foruns coletivos. A este respeito, BOURDIEU, (1996: 174) nos fala da interiorização da dominação pelos dominados, o que os faz partilhar de na questão das relações entre qualificação para a atividade e subjetividade destes coletivos de trabalho. Este debate mostrou-se dos dominantes. A esta cumplicidade, O autor chama dominação simbólica, e é aplicada tanto à dominação masculina, extremamente rico para as formulações da quanto a certas relações de trabalho não Psicodinâmica do Trabalho, que passou a incorporar a dimensão sexuada em suas baseadas no direito. O trabalho em enfermagem pode ser análises das situações de trabalho. percebido como uma extensão dos cuidados Cad. Saúde ColeI. 5 (2), 1997 estruturas de percepções acerca dos atos 148 t não se coaduna com a de seres frágeis restritos ao recesso do lar. E o hospital apresenta muitas semelhanças com uma fábrica, uma fábrica que funciona 24 horas. Contudo, as diferenças biológicas têm sido mais recentemente destacadas por uma série de reivindicações dos movimentos feministas no que se refere aos direitos à saúde reprodutiva, e o trabalho tem aí uma importância fundamental. Os riscos físicos que determinados processos produtivos apresentam afetam de forma direta ou insidiosa os órgãos reprodutores femininos, e a informação sobre os mesmos apenas começa a tornar-se visível. A maioria das mulheres nas áreas urbanas concentram-se em ocupações ligadas ao setor terciário da economia, e nestes tipos de ocupação a carga mental e a psíquica adquirem maior relevância para a investigação das fontes de sofrimento, embora estejam presentes em todo processo de trabalho. Conforme já foi assinalado acima, o trabalho em turnos afeta de forma diferenciada as mulheres no que se refere à sociabilidade, e não apenas aos ritmos biológicos. À existência dos guetos profissionais, .acrescenta-se a convivência com cada vez mais um número maior de trabalhos realizados por ambos os sexos, e o crescimento da mobilidade das tarefas entre os sexos. Frequentemente, no entanto, estes trabalhos diferenciam-se quanto ao valor que lhes é atribuído: o trabalho da mulher recebe uma remuneração menor que o mesmo trabalho do homem e ela própria o desvaloriza em relação ao do homem, conforme apontado em depoimentos em estudo com operárias da indústria química no país; quanto às condições de trabalho: há um ocultamento diferenciado no processo produti vo dos "riscos", distribuídos, por exemplo, de acordo com a alocação dos dois gêneros por tamanho das empresas (BRITO, 1996)'Considerando as práticas de gênero e a questão do sofrimento no trabalho de enfermagem. vamos agora passar ao material de pesquisa no setor de Medicina Interna de um hospital geral público de médio porte no Município do Rio de Janeiro, enfocando aspectos da organização maternos. A qualificação dos principais executores, os Auxiliares Operacionais de Serviços Diversos (AOSDs) ou atendentes e os Auxiliares de Enfermagem, pode ser remetida a esta representação socia1. A complexificação do trabalho em saúde, com novas tecnologias e crescente informatização em geral não está associada a cuidados básicos de enfermagem. Esta distância exprime uma escolha social. e a questão de gênero é um de seus determinantes. Outra questão que comumente apresenta pouca visibilidade é a questão dos riscos e do sofrimento presentes na situação de trabalho, aos quais está exposta a equipe de enfermagem de forma diferenciada segundo a qualificação (enfermeiros graduados ou não). o SOFRIMENTO Os estudos sobre carga de trabalho podem contribuir para uma maior elucidação de questões referidas pelo senso comum como estresse ou mal-estar no trabalho. Fala-se de um sofrimento produzido no trabalho, mas que trabalho é este? Quando se incorporam questões relacionadas ao trabalho doméstico, ou mesmo ao cuidado com os filhos ou outros familiares, conforme assinalado acima, de que trabalho se está falando? As participantes do processo de trabalho em enfermagem usualmente já cumpriam uma "terceira jornada", o que tende a se agravar com a precarização e informalização do trabalho numa perspectiva mais ampla. E que sofrimento é este? O sentido do sofrimento e do prazer no trabalho não podem estar dissociados das possibilidades de criação de tempo livre, que não esteja sendo utilizado, por exemplo, de forma excessiva com transportes. A sociabilidade das Auxiliares é afetada de forma peculiar pelo trabalho em turnos. O trabalho noturno, ou mesmo o esquema de plantões imprime rotinas nem sempre compartilhadas pelo cônjuge ou pelos filhos . A ocupação massiva das fábricas pelas mulheres no início da industriaHzação 149 Cad. Saúde Coleto 5 (2), 1997 do trabalho, da qualificação e da relação com a família. processo de trabalho era a existência de folgas e licenças. A este respeito , DEJOURS (1987:71) discute a relação entre o uso de EPls e seu significado dentro da lógica ESTUDO DE CASO dos mecanismos de defesa coleti vos na O sofrimento em relação à organização é expresso de diversas formas pelas Auxiliares: "A gente se estressa, se acaba. Essa é uma profissão que aos poucos vai te desgastando, seu i"terior vai acabando, porque você quer pular um obstáculo e construção civil, por exemplo. No caso do processo de trabalho hospitalar, o grande contingente de mulheres entre os trabalhadores de enfermagem talvez confira um outro sentido à utilização de não encontra nenhum cavalo bom que ou sua adequação às trabalhadoras. Uma auxiliar recordava ressentida o fato de ler se exposto a uma situação de risco à equipamentos de proteção individuais, em que pese a discussão sobre sua eficácia salte."(AE, sexo feminino) i época que amamentava, o que não teria " ... Da auxiliar cobra a chefia imediata, cobra o doutor, cobra a enfermeira, cada visita que vem cobra É um desgaste mental muito grande." (AE, sexo feminino) sido levado em conta pela chefia: "Cadê a consideração da chefia? Pacientes com septicemia, HIV, tuberculose. Tive que usar máscara, me isolar toda." Para alguns membros da equipe de plantão noturno, as estratégias de defesa coletivas não dão conta do enfrentamento dos mesmos problemas que o pessoal o •• ..... Eu não aguento mais não. Eu já aguentei muito. Já trabalhei de dia aqui, mas agora não aguento mais não. Eu já dei entrada na minha aposentadoria .. .Agora não estou dando mais nada."(AE, sexo feminino) 1 diurno, acrescidos do isolamento e das alterações psicofisiológicas, dentre outras especi ficidades do trabalho noturno. Como exemplo. uma auxiliar solicitou transferência para o plantão "Estamos ficando cansadas, estressadas." (A E, sexo feminino) Da percepção do desgaste com as condições de trabalho à sensação de diurno. Esta situação é tratada pela instituição considerando apenas a limitação quantitativa de profissionais, o que suscitou às outras auxiliares questionarem se foi algum "pistolão" que esgotamento psíquico, as Auxiliares revelam seu sofrimento com os limites da havia favorecido a transferência. Relativizando o sentimento de organização. exclusão por trabalhar no setor, algumas Nas últimas observações, não foi presenciado nenhum AE ou enfermeiro auxiliares afirmam gostar de trabalhar na trabalhando em condições de saúde Cfnica Médica, manifestando o desejo de visivelmente precárias, O que pode ser aí permanecer. Estas auxiliares participam atribuído ao acréscimo de I ou 2 auxiliares por plantão. A chefia de do trabalho em equipes consideradas " coesas" pelos enfermeiros, o que nos remete ao conceito de cooperação enfermagem referiu-se a aumento do apontado por DEJOURS (1992). absenteísmo. Uma auxiliar da ala feminina relatou tcr assistido as duas alas sozinha durante um plantão de final de semana. Com exceção de um plantão, nenhum O sentimento comum aos membros da equipe de enfermagem de se sentirem "donas" do paciente sugere uma defesa coletiva frente a diversas situações sobre as quais não detêm o controle. Em entrevista, a chefia de enfermagem faz uma crítica a este sentimento: "Não somos outro observado apresentava a equipe completa. Em entrevista, uma auxiliar relatou que a forma encontrada para suportar as dificuldades e riscos do Cad. Saríde Colet. 5 (2), 1997 ~ 150 J , equipe que comenta: "Até já colocaram nosso nome no jornal, agradecendo o atendimento!", Este episódio isolado não é O corriqueiro atualmente. O Hospital Público tcm ocupado mais recentemente o noticiário com toda sorte de imagens desfavoráveis. Como resultado de uma polílica de investimentos no selor saúde extensamente analisada por diversos autores, a privalização do setor não é o alvo das críticas da opinião pública, mas sim os profissionais e o atendimento por eles efetivado. Questionada como conseguia defrontar-se com esta série de cargas presentes no processo de trabalho, uma auxiliar reportou-se à fé religiosa: "Peço sempre orientação a Deus. Ter uma fé, uma religião. Não acreditar em nada é estressante. Sempre passo uma força para o pessoal. As coisas não dependem só da gente, também do governo. Com a idade a gente vai vendo que se podem fazer algumas coisas."(AE, ala masculina) O Hospital é mencionado como local privilegiado não só do aprendizado profissional, como também de aprendizado sobre valores pouco usuais nas sociedades modernas, onde predomina O individualism06. "A gente tem que ter espírito de humanidade. O sofrimento é triste. Aqui eu aprendi muita coisa, a valorizar os outros"(AE, sexo masculino, ala feminina). "Todo mundo esquece do dia de amanhã, pensa que nunca vai ficar deitado numa cama dessas. A gente trabalha nisso, é o nosso dia-a-dia, então eu nunca esqueço disso, penso sempre que amanhã pode ser eu, pode ser minha mãe, pode ser alguém da minha família. "(AE, sexo feminino, UI) Quando não ocorre a sublimação como mecanismo defensivo, que opções encontram as auxiliares para fazer frente aos limites da organização? O exercício da criatividade pelo trabalho real, ou seja, a proposta de soluções inovadoras para os impasses donas do paciente . senão teríamos recursos para isto!" Supõe-se que se houvessem recursos suficientes o sentimento seria apropriado. Se, por um lado, a defesa propicia suportar uma série de riscos e inadequações do Hospital, por outro não permite romper com alguns desses limites, como a carência de comunicação. da qual todos se queixam . e principalmente aceitar a contribuição da participação do Paciente em seu próprio tratamento. Este sentimento é expresso em depoimento de uma auxiliar: "Não pode deixar ele (o Paciente) sozinho, se você não dá conta ele cai. Nós é que somos as donas do paciente. Não é ruim não, eu até gosto, eu só queria que a gente fosse uma dona mais hem equipada, para poder cuidar melhor, mas a gente não consegue ". Eu realmente já sofri muito por isso." A alienação como movimento conservador, anti-transformador é apontada na literatura (DEJOURS, 1987: 18). É pouco provável que a sublimação seja uma estratégia defensiva utilizada pela totalidade das Auxiliares de Enfermagem. Embora a maioria afirme em seus depoimentos o "amor à profissão". quando questionadas sobre os desejos anteriores à escolha profissional, algumas responderam que optariam por outra profissão, em geral de formação universitária: "Antes do meu pai adoecer? Queria ser jornalista ou professora de Letras ... de Português" "Fiz O vestibular para Psicologia e passei, mas não queria estudar de noite e a faculdade era muito longe. Já trabalhava nesta época," São registrados poucos sentimentos negativos em relação às tarefas, mas estes ocorrem, conforme depoimento de uma auxiliar: "Tenho ódio de dar injeções!". Também há que se considerar o sentimento de desvalorização profissional comum a todos os componentes da equipe de enFermagem. Há exceções, como a 151 Cad. Saúde Coleto 5 (21, /997 gerados pela organização prescrita pode ser uma saída positiva. Por outro lado, podemos observar a resistência das auxiliares quando o "não trabalho" é assinalado de alguma forma. As ausências durante a jornada, O incluindo cobranças por parte da famllia de maior tempo de convívio, e com O cuidado aos pais ou outros parentes idosos ou en fermos. Acrescente-se as queixas de contaminação do tempo fora do trabalho, com efeitos sobre o relacionamento familiar. A noção de família conjugal nem sempre é predominante entre estas trabalhadoras, devendo ser considerada a existência de outras formas de configuração familiar. Poucas referências foram feitas ao trabalho doméstico, ausência que pode ser remetida à desqualificação corrente deste tipo de trabalho. A maior parte das Auxiliares encontra-se na faixa etária entre 40 e 50 anos, e muitas estão próximas da aposentadoria. Embora haja referências (TISSOT, MESSING, FERRA RIS, VEZINA, S.D.) na literatura sobre a influência do ciclo menstrual no cotidiano de trabalho, não houve qualquer menção acerca deste aspecto entre as Auxiliares entrevistadas. A frequência de sofrimento psíquico entre as Auxiliares do Hospital estudado é maior do que a encontrada entre os profissionais do sexo masculino (60,3% e 55,6% respectivamente) , havendo uma população bastante restrita de homens (REGO, 1993) . A representação do trabalho de enfermagem como trabalho feminino não é consensual entre o grupo estudado. Em entrevista, a oposição entre trabalho "leve" e trabalho "pesado" aparece como contraponto a esta idéia dominante: "Este é um trabalho para homens !". A dimensão física do trabalho de enfermagem não abrange, no discurso das Auxiliares, o aspecto da sexualidade '. Este silêncio encontra ressonância nas considerações do colega de trabalho do sexo masculino que, em entrevis1a, alude à diferença de força física entre os sexos, avaliada como pouco relevante: "Não há diferença no trabalho ... às vezes eu ajudo por uma gentileza. mas aqui tem mulheres mais fortes do que a gente!" . A este respeito, HIRATA (1987: 160) aponta como os atributos sociais de feminilidade e masculinidade absenteísmo ou algum procedimento não efetivado apontam para a importância do trabalho realizado cotidianamente e que não é valorizado. A ocorrência de doenças entre este grupo profissional, assim como o uso de psicotrópicos podem ser indicadores de fraturas neste mecanismo de defesa. No entanto, mesmo considerando que a sublimação ocorra como mecanismo de proteção psíquica, ainda há que se considerar a possibilidade do mesmo configurar-se como defesa conservadora, isto é, constituir-se como alienação na medida em que o reconhecimento do outro adquire maior relevância do que a finalidade do trabalho. Embora não tenham sido investigados mais detalhadamente os efeitos da dupla jornada sobre a saúde das Auxiliares de Enfermagem, permanecemos atentas para a discussão sob este prisma. A escassez de tempo durante a jornada para descanso e ati vidades de estudo ou renexão parece reproduzir-se no espaço fora do trabalho. A este respeito, CHAUÍ (1987:59) reporta-se ao estudo de Eclea 80si sobre o desejo das operárias casadas de dedicar maior parte de seu tempo a leituras. que em geral não é realizado. Em entrevista. duas AEs atribuíram à criação dos filhos o motivo de impedimento de dar continuidade aos estudos. Durante as observações algumas Auxiliares comentaram o fato de terem criado os filhos sozinhas, demandando a existência de múltiplos vínculos; outras referiramse a distúrbios conjugais devido ao excesso de trabalho. Remetendo-nos à articulação entre atividade profissional e situação familiar sugerida por HIRATA (1987), lembramos os depoimentos de algumas AEs que se referiram à dificuldade em conciliar o trabalho com a criação dos filhos, Cad. Saúde Colet. 5 (2), 1997 152 • • • • , J são explorados pelas empresas, assinalando uma submissão feminina a uma ética e a uma estética erigida sobre muito mais forte para os homens , enquanto para as mulheres a dimensão do prazer ocupa lugar central na identificação do que seja um ofício. valores como a força física, a resistência às tarefas insalubres e a coragem para tarefas perigosas, próprias à masculinidade. Diferentemente do que é apontado por SOUZA-LOBO (1991) em relação à indústria paulista, as trabalhadoras em serviço público não recebem salários Embora nossa investigação estivesse mais voltada para a identificação de outros aspectos do trabalho coletivo, podemos observar que as Auxiliares estão mais próximas de uma compatibilidade entre a organização do trabalho e o sentimento de ter um ofício, considerando o reduzido distintos em relação aos homens, porém o trabalho em enfermagem do pessoal auxiliar é caracterizado como pouco controle sobre a totalidade do processo de trabalho e a pouca valoração social da atividade como situações que não favorecem esta harmonização. Por outro qualificado, com predomínio de tarefas lado, a existência do trabalho real , o tempo de aprendizado das Auxiliares e a repetitivas e monótonas . A este respeito , lembramos O estudo de KERGOAT (1987), em que a existência de um sindicato próprio (Sindicato de Auxiliares e Técnicos de Enfermagem) remetem à aproximação autora sintetiza o discurso das operárias desqualificadas sobre a noção de ofício, com este sentimento. Quanto a se sentirem ou não permutáveis, mereceria uma investigação mais exaustiva, porém podemos assinalar a inserção deste aspecto na discussão sobre as estratégias mostrando a incompatibilidade entre a organização do trabalho industrial e o fato de ter um ofício, assim como os efeitos sobre a noção de projeto: "ser responsável pela totalidade do trabalho, não ser permutável, tcr tido um de defesa, através da alienação como defesa utilizada por estas trabalhadoras. Por um lado, algumas AEs não tempo relativamente longo de aprendizagem, ter crédito socialmente e perante si mesma quanto à sua atividade, fazer funcionar a cabeça, não apenas em lermos de atenção , mas de maneira inteligente: é preciso "buscar"; o ofício supõe. enfim, uma demonstram sentlr-se permutáveis, como neste depoimento: "Tem doente que se interna neste hospital há mais de 10 anos, já te conhece. Chega te procurando. Quando eu saí da masculina [enfermaria], doente chegava lá me procurando. Tinha um que só fazia relação com os outros" (KERGOAT, 1987: 195)9 Para a autora, a importância da escolha tem lugar nas considerações acerca das noções de projeto e de sonho, distinguindo-se a primeira noção por estar curativo comigo." (AE, sexo feminino , UI) minimamente ancorada na realidade. Por outro lado, é comum o sentimento de se sentirem "usadas" ou Mas o que há de especificamente feminino nestes atributos? A autora exploradas pela organização do trabalho: aponta duas dimensões em que é revelada "Só vêem a gente como 'burro de carga' , mão-de - obra." (AE , sexo a condição feminina: na primeira, a dimensão temporal remete a um passado ou um futuro onde estão implicados o feminino, ala masculina) mercado de trabalho, os encargos Os estudos sobre a condição familiares e o envelhecimento para as mulheres; na segunda, está colocada a questão da valoração social do ofício, feminina apontam assim para um campo fértil de investigação , mostrando- se necessária a ampliação de sua inserção no estudo do processo de trabalho hospitalar. 153 Cad. Saúde Coleto 5 (2), 1997 REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS ARAÚJO, Gilberto M. (1992) - "Contribuição para a Prática de Inspeção Sanitária no Setor de Saúde a partir de Atividades Desenvolvidas no H.G.J." 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Este artigo é baseado em minha tese de Mestrado (Santos. 1995). 2 "Pessoal de Saúde: a discussão teórica e a produção científica sobre o tema " in Nunes, E.D. (org.) - As Ciências Sociais em Saúde na América Latina: tendências e perspectivas. OPAS, 1985 . 3Segundo o autor, esta característica do processo de trabalho é observada tanto em países de economia capi tali sta avançada como em países em desenvolvimento. 4SANTOS , Mônica Loureiro (1997)- "O Trabalho das Auxiliares de Enfermagem em Hospitais Públicos"- projeto apresentado para o doutorado na COPPE/UFRJ , mimeo. sPara uma discussão sobre as relações entre indi vidua li smo e organização do trabalho. ver Dejours (1994:60-65). 6Como exemplo, o estudo "Menstrual Symptoms and Worling Conditions among Hospital Worlcrs" do grupo de pesquisa-ação em biologia do trabalho da Universidade de Québcc identificou evidência de associação entre sintomas ligados ao ciclo menstrual (dismenorréia e síndrome pré-menstrual e determinadas condições de trabalho. tais como ritmo intenso de trabalho e sobrecarga física, ta l como levantamento excessivo de pesos). As enfermeiras representaram 33 ,2% do total de trabalhadoras entrevistadas. 7 A este respeito, Miranda (1992) refere-se à repressão da sexualidade na profissão de enfermagem, situada além das questões de poder institucionais. 8 "Ccs attributs des tãches masculines el feminines dans J'univers du travail, loin d'être particuliers à celles étudiées dans" établissement cité, semblent être tres répandus. On pourrait affirmer qu 'il 155 Gad. Saúde Colei. 5 (2), 1997 existe une éthique et une eslhétique de la soumissionféminine auxquelles correspondent une éthique et une esthétique de la force physique, de la résistance aux travaux sales et insalubres eldu courage pour les tâches dangereu ses, qui définissent la masculinité." (trad. livre da autora) 9" La synlhese de ces discours permel de caractéri ser ce qu ' un métier veut dire: être responsable de la totalité du tra va il , ne pas être interchangeable, avoir eu un ternps relativernent Jo ng d'apprentissage, être rier socialement et devant soi-même de son activité, faire fonctionner S3 tête, pas uniquement en terrnes d 'a ttention , mais de façon intelligente: iI faut chercher; le métier, enfin, suppose une relati on aux aUlTes." (lrad. livre da autora). Cad. Saúde ColeI. 5 (2), 1997 156