A (Re)Construção da História de uma Fábrica a partir da Ótica Operária Autoria: Daniel Francisco Bastos Monteiro, Romário Rocha Sousa Propósito Central do Trabalho: O objetivo deste artigo é buscar remontar a história de gestão de uma fábrica de tecido, no sul mineiro e com 125 anos de existência, pelo olhar dos operários. Assim, esta pesquisa é um estudo de caso qualitativo que se constrói a partir das narrativas profissionais dos operários. Através de entrevistas semi-estruturadas pode-se remontar ao processo histórico da gestão nessa organização fabril no sul de Minas Gerais. Nessa reconstrução, também, foram entrevistados os gestores. A aproximação da Administração com a perspectiva histórica ocorre de maneira ainda tímida no Brasil, sendo mais presente na área de Estudos Organizacionais. As pesquisas em Administração necessitam apresentar uma análise crítica e com historicidade acerca da memória oficial das organizações, seja pelos argumentos supracitados ou pelas relações de força e poder que circundam a produção dos discursos e dos documentos oficiais (COSTA; SARAIVA, 2010). Os documentos oficiais são “fabricados”, visando atender determinados interesses e, assim, transformam-se em documento/monumento, exigindo um olhar crítico e analítico do pesquisador (LE GOFF, 2003). Por sua vez, História também está ligada ao conceito de memória que é uma reconstrução do passado a partir do contexto social do presente, sendo que as pessoas ao lembrarem algo, também, remetem ao grupo no qual fazem parte, sendo assim, elas criam uma identidade individual e coletiva (POLLAK, 1992; BOSI, 2003). Neste sentido, o corpus da pesquisa foi construído a partir de documentos coletados, na Internet, que se referem à história oficial, documentos coletados pelos pesquisadores e entrevistas com sujeitos trabalhando e aposentados. Com o corpus montado, procedeu-se a análise dos dados e como técnica usou-se a Análise do Discurso (vertente francesa). Marco Teórico: A perspectiva histórica e a Administração Para que possamos compreender melhor a relação interdisciplinar entre a História e a Administração e as contribuições oriundas deste diálogo, é importante adentrarmos parcialmente na historiografia, para então esboçarmos as diferentes metodologias historiográficas aplicadas nas pesquisas em Administração (BARROS; COSTA; MARTINS, 2010). Diante disso, iremos abordar a História Tradicional e a História Nova, que apresentam concepções distintas em relação à perspectiva histórica. A pesquisa retratada neste artigo, ao propor a construção e análise da história de uma empresa através de entrevistas gravadas com operários, estará em contato com os relatos e, consequentemente, a memória dessas pessoas. Diante disso, quando analisamos as pesquisas realizadas acerca das organizações no Brasil, nomeada de história empresarial, observamos uma preferência pela abordagem que utiliza a memória oficial como fonte documental, sendo ela oriunda do discurso e dos documentos oficiais das empresas. Isso acarreta em um contexto enviesado e unívoco, na qual outras memórias são ignoradas, como as memórias subterrâneas ou marginalizadas (POLLAK, 1989). Assim, não é concedida a voz aos demais personagens (operários) que participam da construção da história da organização, neste sentido, o discurso oficial silencia os dominados em prol da construção de uma história unilateral e “romântica”, em que os grandes feitos são exaltados à custa do sofrimento “invisível” de alguns. Trabalho na fábrica O significado da palavra trabalho juntamente com o seu sentido adquiriram ao longo dos séculos vários traços conforme o tempo e a cultura (CASTRO; ESTANISLAU; RESCH; VIEIRA, 2012), contudo a visão que se tem do trabalhador ou, mais propriamente aqui, do operário, continua ainda muito limitada à importância que a sociedade atribui ao seu trabalho. dessa forma, o trabalho e seu cotidiano tornam o homem um ser social (CASTRO; ESTANISLAU; RESCH; VIEIRA, 2012). Contudo, a partir da Revolução Industrial, o 1 trabalho que era constituído na forma de manufatura e artesanato, passa a ser controlado pelas fábricas. A partir daqui, a máquina passa a ocupar o lugar central no processo de trabalho da indústria moderna (GIROLETTI, 2002). Essa foi a grande hegemonia do capital sobre o trabalho, tornando assim um grande marco nas relações sociais de produção. A divisão social do trabalho foi adotada para garantir ao capitalista papel essencial de coordenador da atividade produtiva, dessa maneira, tira-se do operário o controle dos meios de produção e os cede ao capitalista, para então poder prescrever a quantidade, qualidade e natureza do trabalho e, dessa forma, ligar a gestão e o operariado ao capital. Analisando a mutabilidade sóciohistórica no trabalho, Simone Weil tinha a profunda convicção de que a “fábrica deveria ser um lugar de alegria, um lugar onde, mesmo que fosse inevitável que o corpo e alma sofressem, também a alma pudesse, no entanto gozar de alegrias, alimentar-se de alegrias” (WEIL, 1979, p. 140). Mas a imagem, comumente, evocada das grandes fábricas (BATALHA, 2000) ainda expressa a realidade contraditória do heterogêneo e precário mundo do trabalho. Assim, este trabalho tem o sentido de buscar remontar a história da gestão de uma fábrica de tecidos, no sul mineiro, a partir da memória de seus trabalhadores, enfocando, principalmente, seus operários. Método de investigação se pertinente: Para o tratamento qualitativo dos dados coletados da pesquisa, foi utilizada a Análise do Discurso (AD). Por seu caráter interdisciplinar, a AD nos permite (re)contextualizar toda e qualquer produção discursiva, uma vez que coloca o discurso em contato sócio-histórico de emergência, nos auxiliando a responder a questões do gênero como, por exemplo, quem fala, e nome de quem ou do que fala, de que maneira e com que meios se fala (CORNELSEN, 2009). A AD não se limita a um estudo puramente linguístico, ela leva em consideração também outros aspectos externos à língua, fazendo parte essencial de uma abordagem discursiva os elementos históricos, sociais, culturais, ideológicos, cercando a produção de um discurso e nele refletindo-se (BRANDÃO, 2009). Um dos principais objetivos da AD é a busca pela análise da produção discursiva de uma dada sociedade, por meio de formas de expressão. Dessa maneira, ela possibilita estudar e descrever a identidade dos atores sociais do discurso nas várias situações de interação (MONNERAT; PAULIUKONIS, 2008). Neste trabalho foram utilizadas as seguintes categorias de se analisar o discurso a) relação entre conteúdos explícitos e implícitos (pressupostos e subentendidos); b) figuras de palavra (metáfora), considerada um comparação abreviada que dá a ideia de transporte, do sentido próprio para o sentido figurado (ABREU, 2002, p. 112); c) operadores argumentativos, que consistem na designação de certos elementos de gramática de uma língua, tendo por função “mostrar” a força argumentativa dos enunciados e o sentido para o qual apontam (KOCH, 1992, p. 29-60); d) os lugares argumentativos, que são premissas de ordem geral utilizadas para reforçar a adesão a determinados valores (ABREU, 2002, p. 81); e) silenciamentos, temas sobre os quais o discurso se cala; f) dialogismo, quando um discurso dialoga com um ou mais discursos. Por meio dessas categorias, buscamos uma melhor compreensão do discurso, aprofundando suas características gramaticais às ideológicas, além de extrair os aspectos mais relevantes presentes nas falas dos personagens. Procuramos, assim, analisar o discurso de forma contextualizada, isto é, a partir das condições sócio-históricas em que ele foi produzido e no contexto em que foi disseminado. Resultados e contribuições do trabalho para a área: Este trabalho buscou recontar a história de uma empresa centenária do setor têxtil, localizada no sul de Minas Gerais, onde hoje trabalham 523 funcionários. A partir de um estudo de caso de cunho qualitativo e com entrevistas realizadas com os operários e os gerentes – trabalhando e aposentados – procurou-se identificar as divergências entre o discurso oficial 2 (empresa) e o extraoficial (operários). Para que fosse atendido o objetivo mencionado anteriormente, realizamos uma análise dos dados obtidos na pesquisa, sendo aplicada como metodologia, a análise do discurso (vertente francesa). Os principais resultados identificados nesta pesquisa demonstram a existência de pelo menos duas versões acerca da história da empresa, ou seja, uma proveniente da ótica empresarial e a outra da ótica operária. Diante disso, foi observado que a voz das minorias foi intencionalmente ignorada e obscurecida pela empresa, em prol de uma história harmônica e unívoca que retratasse os acontecimentos condizentes com os interesses dos dominantes. Outro aspecto observado remete ao fato de que os operários, mesmo estando no “chão de fábrica”, têm muito a contribuir, não só para o processo de gestão, mas também para a compreensão da história e da memória da organização. Através de uma abordagem histórica calcada na concepção da História Nova este trabalho propôs um diálogo interdisciplinar, entre a perspectiva histórica e a Administração, trazendo assim, uma análise crítica e consistente acerca da história e da gestão de uma empresa têxtil. Dessa maneira, procuramos embasar a nossa análise em entorno dos acontecimentos e da estrutura da organização a partir da memória e relatos dos marginalizados, com o intuito de desconstruir a memória oficial provinda da empresa. Em relação às contribuições deste trabalho, esperamos que o mesmo possa conceder aos estudos em Administração uma concepção de pesquisa que é pouco difundida na área, no qual se busca apresentar um posicionamento histórico e crítico acerca das análises em torno de uma organização. Além das contribuições mencionadas anteriormente, é importante ressaltar que esta pesquisa também apresenta contribuições relevantes para a área de Estudos Organizacionais, no que tange a construção de um pensamento administrativo moderno, na medida em que não se restringe, simples e acriticamente, a reproduzir a visão dos dominantes, mas também, busca dar voz aos dominados para que se obtenha uma compreensão aprofundada e crítica dos acontecimentos e das estruturas das organizações. A partir de uma pesquisa imbuída em aspectos teórico-metodológicos provindos da perspectiva histórica, esperamos que as discussões suscitadas aqui possam contribuir na realização de pesquisas de caráter interdisciplinar e com abordagens que melhor retratem os aspectos da realidade e da história organizacional. Por fim, trabalhos calcados em um diálogo com a perspectiva histórica podem agregar aos Estudos Organizacionais, no sentido de instigar a ampliação das vertentes de pesquisa da área e, consequentemente, enriquecer as suas análises em torno das organizações. Referências bibliográficas: BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembrança de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. BURKE, P. Abertura: a nova história, seu passado e seu futuro. In: BURKE, P. (Org.) A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: Unesp, 1992. COSTA, A. M. da BARROS, D. F. MARTINS, P. E. M. Perspectiva histórica em administração: panorama da literatura, limites e possibilidades. In: ENCONTRO DA ANPAD, 33, 2009, São Paulo. Anais... Rio de Janeiro: ANPAD, 2009. GIROLETTI, D. Fábrica: convento e disciplina. 2. ed. revista. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 2002. LE GOFF, J. “Memória”. In: História e memória. Campinas: Editora UNICAMP, 1994, p. 423-483. 3