CASCAVEL, UMA REFLEXÃO SOBRE A INFLUÊNCIA DE BRASÍLIA SOBRE A PRIMEIRA INTERVENÇÃO NA AVENIDA BRASIL.
Dezembro 2013
CASCAVEL, UMA REFLEXÃO SOBRE A INFLUÊNCIA DE BRASÍLIA SOBRE A PRIMEIRA
INTERVENÇÃO NA AVENIDA BRASIL.
Lissandra Guimarães Gil1
RESUMO
Este artigo apresenta uma reflexão sobre a concepção do projeto de Brasília - DF e surgimento
de Cascavel – PR, como a capital do país se tornou referência para a primeira e principal
intervenção na principal avenida da cidade, a Avenida Brasil. Para desenvolvimento da
pesquisa se buscou material em fontes bibliográficas, virtuais, trabalhos acadêmicos
(monografias, dissertações e teses) e documentos legislativos através da Câmara Municipal de
Cascavel. Após a leitura dos textos, o trabalho foi estruturado de maneira que primeiramente
seja abordado sobre as referências e concepção de Brasília, em seguida um breve histórico
sobre a origem e conformação de Cascavel e por fim é evidenciada a influência de Brasília
sobre a Avenida Brasil. Constatou-se que o momento histórico foi decisivo para que Cascavel
sofresse essa influência, visto que o arquiteto autor do projeto, Gustavo Gama Monteiro, era
fundador e professor do curso de arquitetura e urbanismo da Universidade Federal do Paraná
na disciplina de planejamento urbano e logo foi inevitável que o contexto histórico e a sua
área profissional não tomassem como referência a maior obra urbana modernista já realizada
no mundo.
PALAVRA-CHAVE
Intervenção urbana, Avenida Brasil de Cascavel-PR e Gustavo Gama Monteiro
ABSTRACT
This article presents a reflection about the project conception of Brazilia-DF and emergence of
Cascavel-PR, and like the country’s capital became a reference for the first and more important
intervention in main avenue of the city, Brazil Avenue. For the development of the research,
1
Arquiteta e Urbanista. Especialista em Concepção do Espaço Construído, Universidade
Paranaense. Docente do curso de Arquitetura e Urbanismo da mesma universidade. Mestranda do
Programa de Pós-Graduação em Metodologia do Projeto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade
Estadual de Maringá e da Universidade Estadual de Londrina. [email protected] 045 9113
0500
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we searched material in bibliographical sources, virtuals, academic works (monograph,
dissertation and teses) and legislative documents through of the Cascavel City Council. After
the leiture of the texts, the work was structured first of all with the references about
conception of Brazilia, then with a short historical about the origin and conformation of
Cascavel, so was evidenced the influences of Brazilia on Brazil avenue. Found that the
historical moment was decisive to Cascavel suffer this influence, since the project's author, the
architect, Gustavo Gama Monteiro, was founder and teacher of architecture and urbanism at
the Federal University of Parana, in urban planning area, and so, was inevitable that the
historical context and his professional area were a reference for the greatest urban modernist
work ever undertaken in the world.
KEY WORDS
Urban intervention, Brazil Avenue Cascavel-PR and Gustavo Gama Monteiro.
INTRODUÇÃO
Este artigo apresenta uma reflexão sobre a concepção do projeto de Brasília - DF e
surgimento de Cascavel – PR, como a capital do país se tornou referência para a primeira e
principal intervenção na principal avenida da cidade, a Avenida Brasil. Num primeiro momento
é evidenciado quais são as referências para a concepção e projeto de Brasília através do CIAM
e o que representou esse projeto para o restante do país. Em seguida é abordado sobre a
origem e desenvolvimento inicial de Cascavel e como uma das estradas do entroncamento da
região se tornou a principal e mais importante avenida da cidade sendo responsável pela
conformação urbana da cidade. Logo destacamos o arquiteto responsável pela primeira
intervenção na avenida, fazendo com que ela se tornasse via de destaque e por fim concluímos
realizando um paralelo entre o princípio projetual de ambas as cidades.
URBANISMO MODERNO BRASILEIRO
A cidade nasceu a partir do momento em que o
homem decidiu compartilhar com o próximo, “antes da cidade, houve a pequena povoação, o
santuário e a aldeia; antes da aldeia, o acampamento, o esconderijo, a caverna, o montão de
pedras; e antes de tudo isso, houve certa predisposição para a vida social que o homem
compartilha” (Mumford, 1998, p. 11), primeiro vivendo da caça, logo deixando de ser nômade
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encontrou na agricultura um meio para suprir as necessidades de um grupo que crescia e
então, para cultivo dessa atividade fixou moradia deixando as suas marcas culturais, sociais e
religiosas no espaço físico de modo que hoje a sua história pode ser compreendida graças aos
rastros edificados resistentes ao tempo. (Mumford, 1998). Segundo Benévolo (2009, p. 23) “a
cidade nasce da aldeia, mas não é apenas uma aldeia que cresceu. Ela se forma [...] quando as
indústrias e os serviços já não são executados pelas pessoas que cultivam a terra, mas por
outras que não têm esta obrigação”. Dessa maneira, no decorrer da história verificamos que o
espaço foi configurado pelo homem sempre para atender as suas necessidades e anseios. A
Europa assistiu em suas terras durante muito tempo o nascimento de inúmeras cidades que
com a evolução da civilização foi sofrendo intervenções e se adaptando aos seus usuários.
Após a Revolução Industrial houve então a criação de leis urbanísticas e intervenções na busca
de uma organização do meio urbano e tentativa de otimizar a cidade existente regulando o seu
crescimento. (Benévolo, 2009)
Posteriormente, os arquitetos precursores do
movimento moderno consideraram a estrutura da cidade estática em relação à evolução
industrial e decidiram discutir os rumos da arquitetura e como a cidade poderia acompanhar
essa evolução. Surgiu então o CIAM – Congresso Internacional de Arquitetura Moderna. De
acordo com Mumford E. (2007, p. 97):
O Congresso Internacional de Arquitetura Moderna, CIAM, foi fundado em
La Sarraz, Suiça, em junho de 1928 como uma aliança de grupos de avant2
garde de toda a Europa. Reuniam-se regularmente em vários países
europeus até setembro de 1929, e foi em seus encontros que debatiam e
formularam elementos básicos de uma nova aproximação à arquitetura e ao
urbanismo. O CIAM tinha como enfoque a ideia que o redesenho e
desenvolvimento futuro das metrópoles do século XX deviam estar
baseados nas necessidades biológicas, psicológicas e sociais das classes
trabalhadoras. Para facilitar esta reorganização, devia ser levado a cabo
pelas autoridades reformistas de diversas correntes políticas, os integrantes
dos CIAM ofereciam estratégias de análises e reorganização urbana
diagramática, as quais incluíam a inovação tipológica, a pré-fabricação e a
integração dos elementos da paisagem com os elementos construídos. (grifo
nosso)
No primeiro congresso ficou decidido que a escola
de arquitetura deveria ser separada da escola de belas artes e devia ser ligada ao sistema
2
Avant-garde, expressão em francês que significa “avançado”. Disponível em
<http://oque.dictionarist.com/avant+garde> Acessado dia 03/07/2013.
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econômica geral. O congresso II foi marcado pela discussão da habitação mínima em blocos de
edifícios, buscando aproximação com áreas verdes, mas com baixo custo. Ao terceiro
congresso coube discutir a questão da habitação vertical versus habitação horizontal. Nos
CIAM seguintes o tema era Cidade Funcional, a qual deu origem a Brasília. Mumford E. (2007,
p. 98) descreve:
Van Eesteren em 1931, num encontro do CIRPAC – Comitê Internacional de
Resolução de Problemas da Arquitetura Contemporânea, classificou a
cidade clássica como uma “cidade de cartão”, composta principalmente por
fachadas e em seu lugar propôs um urbanismo baseado na distribuição
racional dos elementos funcionais da cidade. Estas “unidades da
metrópole” incluíam edifícios industriais, lotes de parques e garagens,
campos desportivos e arranha-céus, assim como outras tipologias de
construções mais tradicionais tais como estações de trem e edifícios
religiosos. (grifo nosso)
O tema Cidade Funcional se estendeu por muitos encontros e foi base para o
planejamento pós-guerra e de novas cidades, como Brasília. Portanto o CIAM proporcionou o
que pode se chamar de base para o urbanismo moderno na escala da grande cidade.
(Mumford E., 2007)
Ao abordar o urbanismo moderno brasileiro é imprescindível citar Brasília, um dos
maiores reflexos desse movimento. Nasceu do desejo por parte do poder do Estado em se
construir uma cidade modelo, símbolo de progresso e que representasse e colocasse o país em
evidência no cenário mundial.
Brasília foi projetada com o intuito de espelhar para o resto do país a nação
moderna que o Brasil se tornaria. Na escala da arte de governar, Brasília é
um centro carismático em termos duplamente miméticos. Por um lado, ela
transmite a sua aura como centro ativador do moderno ao concretizar em
sua própria organização o plano do CIAM de um futuro radiante. Por outro,
ela ativa, ao retransmitir para o âmbito nacional, a sua ideia de inovação.
(NOBRE [et al.], 2004, p. 163)
O projeto de Brasília reaplica os princípios do CIAM,
trabalhar, morar, recrear e trafegar. As elites da construção nacional abraçaram esse projeto espalhado
por todo o mundo. No lugar das esquinas, rotatórias; no lugar das ruas, vias expressas para o
automóvel; no lugar dos espaços públicos, uma estrutura de urbanismo completamente diferente; ou
seja, Brasília redefiniu a função do tráfego. (NOBRE [et al.], 2004) “Nasceu do gesto primário de quem
assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da
cruz.” (Revista Acrópole Edição 256/257, p. 56)
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Apesar de hoje, após a sua maturação, enxergarmos os
elementos empregados com boas intenções é possível compreender que muitos deles não tiveram
resultados satisfatórios, porém este trabalho não tem como objetivo destaca-los ou discuti-los, visto
que o intuito é evidenciar o fato de Brasília se tornar inspiração para alguns profissionais e cidades do
país.
CASCAVEL E A AVENIDA BRASIL
Segundo PIAIA (2004), a região oeste teve seu desenvolvimento de maneira
diferenciada em relação ao norte do estado. Várias companhias foram responsáveis pela
ocupação da região, entre elas a companhia MARIPÁ, referencial da colonização oestina. Ainda
nos anos de 1950 várias cidades se formaram no território no eixo Cascavel a Foz do Iguaçu
gestada por outras colonizadoras. A ocupação do oeste ocorreu depois das outras regiões do
Paraná. O oeste representava limite para os sulistas e nortistas. No norte do Paraná a cultura
do café foi responsável pelo seu desenvolvimento econômico, e o mesmo tentou-se aplicar no
oeste, porém o clima frio mais a falta de conhecimento do cultivo do café pelos colonos
sulistas não impulsionou a cultura. Dessa maneira o início da ocupação, colonização e
desenvolvimento do oeste paranaense seguiram quatro linhas principais: dos estrangeiros
através da exploração da erva-mate impondo moeda, idioma e costumes; expansão dos
descendentes dos tropeiros fixando território na região de Cascavel; expansão do capitalismo
no campo e concentração urbana e, por fim, a linha imposta pelo do Poder Público através da
extensão do telégrafo e construção da Rodovia Estratégica.
A terceira década estaria reservada, logo em seu princípio, à fundação de
Cascavel enquanto formação urbana, dotada dos equipamentos públicos
que reunidos conformam a cidade.
Cascavel capitanearia no Oeste paranaense a era dourada da madeira e os
fundamentos de uma forte agricultura. Mas para isso foram necessários
cerca de 20 anos de maturação até o surgimento do Município, no início da
década de 50.
Os anos que vão de 1930 a 1950 serão, na verdade, o período da construção
efetiva da cidade, já que Cascavel do período 22/30, ás margens do rio, não
passava de um estabelecimento rural.
Só então seria possível a inauguração de seu posto histórico de
entroncamento rodoviário – futuramente rodoferroviário – e polo de uma
região altamente produtiva. (SPERANÇA, 2007, p. 95)
Entre as estratégias oficiais, para desenvolver a
região através da colonização, estava a rodovia denominada BR-35 (atual BR-277, que liga as
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cidades de Ponta Grossa, Guarapuava, Cascavel e Foz do Iguaçu), como parte do Programa
Rodoviário Marcha para o Oeste, criado em 1938, para ser desenvolvido pelo Departamento
Nacional de Estradas de Rodagem – DNER. A agricultura, com produção voltada para consumo
próprio e para serem exportados, deu suporte para o crescimento desta região. (LOPES, 2000
apud PERIS, 2002)
Segundo Sperança (2007) o ponto de partida para o aparecimento da futura cidade de
Cascavel foi à construção de uma estrada (pelo ervateiro Augusto Gomes de Oliveira) de
importante ligação comercial, ampla, que nascia próximo ao rio da Cascavel, cuja certa
margem era pouso de viajantes ervateiros. Com o aumento de tráfego desta, ligando o ribeirão
cascavel a Lopeí, nesta região apareceram várias trilhas que se cruzavam com a estrada de
Gomes de Oliveira – a Encruzilhada - e com a estrada aberta por militares, aliás, até surgir a
trilha em direção a Lopeí, este lugar era coberto por vegetação. Dessa forma este
entroncamento é o ponto chave para o surgimento de Cascavel. Hoje esta encruzilhada seria
por volta da esquina da Avenida Brasil com a rua Osvaldo Cruz (Figura 01 e Figura 02) e suas
proximidades.
Figura 01 – Terreno de Cascavel requerido
pelo Município de Foz do Iguaçu
Fonte: SPERANÇA, 1992, p. 56
Figura 02 – Esquina, cruzamento da Avenida Brasil com
a Rua Osvaldo Cruz – Área da citada Encruzilhada e
arredores.
Fonte: Google Maps – edição da autora
Gregory (2008, p. 88) cita:
A história recente do Oeste do Paraná, no que concerne à ocupação
brasileira, se iniciara, ainda no século passado, quando, por motivos
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estratégicos e de segurança das fronteiras, foi fundada, em 1889, a Colônia
Militar, que deu origem ao atual centro urbano de Foz do Iguaçu, a mais
antiga cidade da região. Nessa época, foi muito pequena a presença de
brasileiros, sendo um período de intensa presença estrangeira e de
companhias de exploração de erva-mate e de madeira.
Com a criação da comarca de Foz do Iguaçu em 1917, contando com um aglomerado
de casas, ruas irregulares, uma igreja e uma escola simples, mas com fortes influências
argentinas, a cidade ficava cada vez mais conhecida pela existência das cataratas que passou a
ser visitada com mais freqüência. Na realidade, ao fundarem Foz do Iguaçu o governo
brasileiro quis marcar presença em relação à Argentina e ao Paraguai, mas a falta de infraestrutura para se chegar até lá dificultava o desenvolvimento local, muitos turistas tomavam
embarcações em Porto Aguirre – Argentina para tal. (PIAIA, 2004)
A região oeste já possuía estradas, porém em mau estado e era de interesse do
governo Getúlio Vargas preencher o vazio urbano do oeste com os colonos gaúchos, já que as
fronteiras do Rio Grande do Sul já estavam ocupadas, e desenvolver as estradas de rodagem
através do Programa Rodoviário Marcha para o Oeste. A ideia era ligar Ponta Grossa e Foz do
Iguaçu, passando por Cascavel, o que foi feito em 1941. Ali se inicia a BR-35, hoje BR-2773.
(SPERANÇA, 2007, p. 121)
Das pranchetas dos engenheiros começava a se redesenhar a tão
propalada rota definitiva para o oeste. Já não se tratava de
simplesmente interligar uma região, pois agora se percebia mais
claramente o caráter integratório do projeto e os interesses
econômicos a serem viabilizados pela estrada. Em 1944 é entregue
ao trafego a BR-35, considerada a “espinha dorsal do sistema
rodoviário paranaense e justa aspiração do nosso povo desde os
tempos do segundo reinado. (Estante Paranista 3, 1976 apud PIAIA,
2004, p. 348)
A projetada BR-35 não fez uso da estrada que
cruzava o povoado da futura Cascavel, Piaia (2004, p. 68) assinala:
Para os habitantes próximos assim como para seus usuários, a
estrada ficou conhecida simplesmente como BR-35. Um aspecto
importante de sua nova configuração é que, embora construída
basicamente sobre o leito da antiga estratégica, ela confirmaria a
3
“Nos anos de 1960, a BR-35 mudará o nome para BR-277, quando será totalmente
asfaltada, sendo anexada à mesma o trecho que vai de Curitiba a Paranaguá, permitindo escoamento
das safras agrícolas cada vez mais volumosas, oriundas do oeste do Estado, cujas matas densas haviam
sido transformadas em grandes campos de cultura intensiva.” (PIAIA, 2004, p. 70)
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passagem por Cascavel, que então já existia como um pequeno
povoado, pois originalmente a estrada declinava mais ao sul a partir
de Catanduvas.
Voltando à colonização de Cascavel, Sperança (2007, p. 219) afirmam:
Ao contrário de Foz do Iguaçu, Toledo, Palotina, Guaíra e Santa Helena,
entre outras cidades, Cascavel nunca fez propaganda de projetos de
colonização que, aliás, nunca existiram aqui fora da área estadual (Fundação
de Colonização, DGTC etc). Cascavel cresceu em razão da sua localização
privilegiada e pelo espírito de iniciativa de suas lideranças, que impediram a
antiga vila de se tornar um povoado subordinado do Município de Toledo.
Eis que a partir deste momento é preciso citar a figura de José Silvério de Oliveira ou
“Nhô Jeca”, como era chamado na época. José Silvério era morador de Laranjeiras do Sul,
proprietário de um bar com armazém e conhecido por divulgar a Aliança Liberal que apoiava
Getúlio Vargas. Com medo de sofrer perseguição política José Silvério decide se mudar para
um lugar mais reservado, foi então que arrendou terras de Antônio José Elias, próximo a
chamada “encruzilhada”. José Silvério apostou na região que considerava promissora, devido
sua posição geográfica favorecendo a ligação norte/sul-leste/oeste, e assim iniciou um
movimento para que os amigos e conhecidos se mudassem para a região. Muitos colonos
sulistas vieram e muitos deles descendentes de poloneses, ucranianos, alemães e italianos.
Cascavel se tornou distrito em 1938 e foi emancipada em 1952. (DIAS S., FEIBER, MUKAI, DIAS
C., 2005).
Segundo DIAS S., FEIBER, MUKAI, DIAS C. (2005, p. 61-62) “a ocupação por habitações
e serrarias ocorreu ao longo do eixo físico da antiga estrada de ligação do litoral com o
extremo oeste paranaense” e “essa característica linear refletiu nas áreas de maior valorização
e concentração populacional, marcada hoje pela Avenida Brasil”.
No final de 1944, a atual Avenida Brasil revelava os frutos da
arbitrariedade da administração em diferentes trechos de seu percurso. Do
primeiro aeroporto até a rua Moysés Lupion (atual Sete de Setembro) o
trecho passou a ser chamado Governador Frederico Trotta. A partir daí, em
direção ao atual bairro São Cristovão, sua denominação passava a Avenida
Iguaçu, em referência ao território. (SPERANÇA, 2007, p. 123)
Em 1931, Foz do Iguaçu solicitou ao governo do Estado uma área de 500ha para sede
do futuro município de Cascavel, de imediato Foz do Iguaçu realizou em seu memorial
descritivo um projeto para a área solicitada e titulou 76 pessoas. No entanto, o novo
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interventor do Estado, Manoel Ribas, assinou a doação de 100ha, isso impossibilitou o uso do
projeto para 500ha, o que gerou conflitos fundiários. (GARGNIN, 1992)
Figura 03 – Sobreposição do terreno doado pelo Governo do Estado a pedido de Foz do Iguaçu com o
projeto realizado pelo mesmo município.
Fonte: SPERANÇA, 2007
O órgão responsável pela colonização da região era a Fundação Paranaense de
Colonização e Emigração que a princípio teria a intenção de regularizar as questões de terra,
porém com a valorização das terras sua atuação se tornou um negócio. A terras tituladas por
Foz do Iguaçu vão da rua Manaus-Cuiabá-Sete de Setembro-Tiradentes. (GARGNIN, 1992)
O traçado e arruamento do Patrimônio Municipal de Cascavel foi de responsabilidade
do engenheiro Hans Marth. (SPERANÇA, 2007)
Após duas administrações, foi com o prefeito Octacílio Mion que Cascavel deu o
primeiro passo para um planejamento urbano, assim coube ao arquiteto Gustavo Gama
Monteiro4, amigo pessoal do prefeito, a responsabilidade de iniciar o processo de
planejamento. No momento em que a estrada de ligação litoral-Foz do Iguaçu saiu da área
central e se deslocou para o sul, Gustavo Gama Monteiro foi contratada para sugerir uma
solução urbanística á antiga estrada, hoje principal via da cidade. A nova estrada hoje é a BR-
4
Natural do Rio de Janeiro, estabelecido em Curitiba. Professor do Curso de Arquitetura e
Urbanismo da Universidade Federal do Paraná na disciplina de Planejamento Urbano e com escritório
próprio na mesma cidade. Também autor do projeto da Catedral Nossa Senhora Aparecida (1962).
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277 e a antiga se denominou Avenida Brasil, com largura de 60m na área central e 70m no
extremo leste.
LEGENDA
Antiga BR-35
Atual BR-277
Figura 04 – Mapa de localização da antiga Br-35 e atual BR-277
Fonte: Google Maps - edição da autora
Dessa maneira, inspirado pelo urbanismo modernista enaltecendo o automóvel e
ainda devido à preocupação com a velocidade dos automóveis, a proposta inédita foi de inserir
canteiros centrais de estacionamento de veículos. (DIAS S., FEIBER, MUKAI, DIAS C., 2005).
Neste mesmo período se exigia a expansão dos serviços urbanos, devido o crescimento
populacional o Paraná sofria com a recessão. (SPERANÇA, 2007) Uma das propostas para
conter a velocidade dos veículos na avenida é citada no Plano Diretor de Uso e Ocupação do
Solo de dezembro de 1986 á Junho de 1987, “tratamento paisagístico para a área central da
cidade, garantindo além do uso mais intenso para pedestres, um controle sobre a velocidade
de tráfego”, porém lamentavelmente esse trabalho não foi concretizado neste momento e sim
após o ano de 2001. (DIAS S., FEIBER, MUKAI, DIAS C., 2005, p. 87)
Hoje, ao olharmos para o histórico desta avenida,
percebe-se que em vários momentos seu desenho central foi motivo de discussão onde o
enfoque sempre foi o veículo. A Avenida Brasil nasceu linear em todo seu percurso e teve sua
parte central em determinado momento modificada em função do fluxo. Atualmente a
Secretaria de Planejamento discute uma proposta de reforma que prevê inserir o transporte
público em sua faixa central, instalar uma ciclovia ligando região leste-oeste e ainda ao longo
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de toda a avenida locar pontos de convivência e entretenimento para a população, através de
quiosques, quadras e playgrounds.
Figura 05 – Sobreposição do perímetro de 1963 e 2007.
Fonte: SPERANÇA, 2007.
A partir do histórico levantado sobre implantação da cidade de Cascavel juntamente
com a origem e transformação da Avenida Brasil percebe-se que a cidade tomou como eixo
estruturante esta avenida que através do seu desenho serviu como base seu crescimento
posterior.
ESTACIONAMENTOS E CALÇADÃO DA AVENIDA BRASIL – BRASÍLIA, UMA INSPIRAÇÃO?
Dentre as cidades do Estado do Paraná a Avenida
Brasil é uma via que se destaca pela sua dimensão. Como já dito anteriormente, surgiu por
conta das muitas estradas que cortavam a região sendo ela a ligação de Guarapuava á Foz do
Iguaçu. Em 1950, a cidade se desenvolveu ao longo da via BR-35, 30m de cada lado. Em 1953
Adelar Bertolucci Adelino Cattani fizeram o projeto de lei nº26 que dava a estrada federal o
nome de Avenida Brasil, em 11 de agosto de 1953 a lei foi aprovada. Em 1956 a Avenida
recebe seu primeiro calçamento de pedra irregulares (RAHAL, 2007).
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Figura 06 – Primeiro calçamento da Avenida em 1956.
Fonte: Sperança, 1992.
Em 08 de maio de 1961 a avenida passou pelo primeiro grande projeto de intervenção
autorizada pela lei nº127/61 “Artigo 1º) É o Sr. Prefeito Municipal autorizado a promover,
dentro do plano de urbanização desse do Município de Cascavel o alargamento da Avenida
Brasil e consequentemente afastamento das ruas Rio Grande do Sul e Paraná.” (CASCAVEL,
1961)
Através de pesquisas em fotografias da época verifica-se que a avenida (ver figura 07,
08, 09 e 10) enquanto estrada era estreita, quando passou a ser BR-35 foi alargada e
posteriormente transformou em três pistas pavimentadas.
.
Figura 07 – Avenida Brasil quando estrada.
Fonte: MIS – Museu da Imagem e do Som de
Cascavel
Figura 08 – Avenida quando BR-35
Fonte: MIS – Museu da Imagem e do Som de
Cascavel
Figura 09 – Avenida quando BR-35
Fonte: MIS – Museu da Imagem e do Som de
Figura 10– Avenida com inserção de canteiros
centrais.
Fonte: MIS – Museu da Imagem e do Som de
Cascavel
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O arquiteto Gama Monteiro5, inspirado pelo urbanismo modernista
que valorizava os veículos na área urbana, inspirado pelo advento de
Brasília com seus eixos: rodoviário e monumental inspirado na vocação
rodoviária da cidade de Cascavel concebe, em proposta inédita, a Avenida
Brasil, com canteiros centrais de estacionamento de veículos. Nesta
característica projetual, Cascavel é referência estadual e modelo para cópia
em diversas cidades do interior paranaense. (DIAS C., FEIBER, MUKAI, DIAS
S., 2005, p. 65)
O arquiteto responsável pelo projeto de alargamento da via foi Gustavo Gama
Monteiro, original do Rio de Janeiro e professor da Universidade Federal do Paraná.6
Na década de 70 a Avenida Brasil era composta por 03 vias (Ver figura 09), sendo a
central para uso da BR-35 e as laterais de uso urbano. (RAHAL, 2007)
De acordo com Rahal (2007, p. 18):
Gama Monteiro teve o objetivo de destinar 12m de largura
para cada pista da Avenida e 26m para os canteiros centrais que
abrigariam estacionamentos, projeto este que foi executado na
segunda gestão de Octacílio Mion entre 1969 e 1972.
Sobre sua vinda detectamos que aconteceu a pedido do prefeito Octacílio Mion e
ainda consta-se que:
O arquiteto Gustavo Gama Monteiro (1925–2005),
enviado pelo presidente da Fundação Paranaense de Colonização e
Imigração, Djalma Rocha Al Chuery, chega para comunicar às autoridades
locais sua missão: iniciar um ambicioso plano de colonização dirigido pelo
poder público na “Colônia A”, cujas terras fertilíssimas são banhadas pelos
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rios Tourinho, Melissa e Piquiri.
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Arquiteto carioca que desenvolveu sua vida profissional no Paraná desde a década de
50. Como urbanista foi convidado pela Fundação Paranaense de Colonização e Imigração a desenvolver
projetos de urbanização no Oeste do Paraná. Foi responsável por uma série de projetos de urbanização
e planos diretores em diversos centros urbanos no Paraná e Santa Catarina realizados pela sua empresa
Seaco Construções Civis. Atuou durante trinta e três anos como professor titular de Planejamento
Urbano e Paisagismo no Curso de Arquitetura da Universidade Federal do Paraná e seis anos como
professor titular de Planejamento Urbano da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Disponível em
<http://site2.confea.org.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=2829&pai=4&sid=342&sub=19
7&tpl=printerview> Acessado dia 03/07/2013
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CONFEA.
Disponível
em
<http://site2.confea.org.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=2829&pai=4&sid=342&sub=19
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Munhoz calou pregação separatista. Jornal O Paraná. Variedades. Disponível em
<http://www.oparana.com.br/variedades/munhoz-calou-pregacao-separatista-20029/> Acessado dia
03/07/2013
ISSN 2179-5568 – Revista Especialize On-line IPOG - Goiânia - 6ª Edição nº 006 Vol.01/2013 –
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CASCAVEL, UMA REFLEXÃO SOBRE A INFLUÊNCIA DE BRASÍLIA SOBRE A PRIMEIRA INTERVENÇÃO NA AVENIDA BRASIL.
Dezembro 2013
O alargamento da Avenida proporcionou uma grande intervenção por conta da sua
dimensão e através de análise das imagens encontradas da época, entende-se que Gustavo
Gama Monteiro aproveitou seu eixo, entendido como monumental, similar ao proposto por
Brasília, para marcar conceitos referenciados na capital do país. A partir do momento em que
o modernismo setorizou a cidade e locou espaços específicos para o automóvel, compreendese que desde seu alargamento a Avenida já ganhou condições para acolhimento do tráfego, e
em seguida a proposta do arquiteto atendeu a demanda do veículo (via urbana e
estacionamento) e do pedestre (calçadão).
Inspirada nos conceitos modernos de Brasília, o arquiteto carioca
transformou a rodovia que deu origem aos primeiros assentamentos, em
principal artéria da cidade. A concepção de uma larga avenida com
estacionamentos e outros equipamentos instalados na área central, com as
pistas de rolamento e calçadas de pedestres juntos com os espaços
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comerciais, obteve resultado bem equilibrado.
O projeto de Brasília partiu do cruzamento de linhas
perpendiculares evoluindo para o plano piloto final, apesar da Avenida Brasil não ter sido delimitada, e
sim desenvolvida por motivos já citados, acabou que se configurando numa linha marcante e ponto de
partida para conformação atual da cidade, e isso é comprovado à medida que analisamos os
loteamentos inseridos posteriormente (Ver figura 05) e a configuração que a cidade possui atualmente
(Ver figura 04).
Figura 11 – Avenida Brasil, abaixo praça Florêncio Galafassi “Praça do Migrante”, obra de Leonardo Oba,
Joel Ramalho Jr e Guilherme Zanardo.
Fonte: Museu da Imagem e do Som - MIS
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GNOATO, Salvador. Espaço Público, principal patrimônio de uma cidade. Publicado em
05/12/2011.
Disponível
em
<http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/conteudo.phtml?id=1199376&tit=Espaco-publicoprincipal-patrimonio-de-uma-cidade> Acessado dia 03/07/2013.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
A cidade de Cascavel apesar de não ter sido fruto de
planejamento aconteceu com o desenrolar da ocupação e desenvolvimento da região oeste do
Estado do Paraná e por conta do encontro das estradas, aconteceu, sendo justamente esse o
fator essencial para o seu progresso até hoje. As intervenções realizadas na avenida
potencializaram a sua projeção e destaque, e por conta da visão moderna e inspirada na
capital nacional, Gustavo Gama Monteiro prevendo seu potencial, deu início a toda essa
transformação.
Vemos que apesar da cidade e da avenida não ter
sido resultado de projeto, houve outros fatores, neste caso um deles a localização, que
influenciaram o seu desenvolvimento de maneira que Brasília teve seu terreno escolhido,
Cascavel foi resultado de um entroncamento; Brasília teve seus eixos projetados e
demarcados, Cascavel viu surgir espontaneamente seu eixo linear; Brasília se tornou referência
modernista com seu eixo monumental, Cascavel obteve com sua primeira e principal
intervenção tomando como referência a capital nacional, a Avenida Brasil marcando eixo de
conformação urbana e destaque no estado.
BIBLIOGRAFIA
CASCAVEL. Lei nº 127 de 08 de Maio de 1961. Autoriza o Sr. Prefeito Municipal a promover,
através do Departamento de Engenharia da municipalidade, o plano de urbanização da cidade,
e da outras providências. Câmara Municipal de Cascavel. Diário Oficial do Estado, Cascavel, 16
de Agosto de 1961.
CONFEA.
Galeria
de
fotos
2004
–
Gustavo
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Monteiro.
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http://site2.confea.org.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=2829&pai=4&sid=342
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