Trabalho de enfermeiras em HIV/AIDS
ESPAÇO SOCIAL DO TRABALHO
DE ENFERMEIRAS EM UM SERVIÇO
DE ASSISTÊNCIA ESPECIALIZADA
EM HIV/AIDS
THE SOCIAL SPACE OF NURSES’ WORK IN A
HIV/AIDS ATTENDANCE SERVICE
Lucilane Maria Sales da Silva*
Maria Nazaré de Oliveira Fraga**
Maria de Fátima Bastos Nóbrega***
RESUMO: Objetivou-se analisar o espaço social de trabalho das enfermeiras em um Serviço de Assistência Especializada em HIV/AIDS de Fortaleza-CE. Com abordagem histórico-estrutural e dialética, foi
realizado estudo qualitativo com quatro enfermeiras desse serviço. Para coleta dos dados, realizou-se
entrevista semi-estruturada em 2002. São resultados da análise do discurso das depoentes: a consulta de
enfermagem e a prática do aconselhamento foram as atividades que mais identificaram a categoria
profissional. As enfermeiras utilizam a metodologia da assistência de enfermagem como suporte teórico
para subsidiar a prática e enfrentam dificuldades concretas para desenvolver seu trabalho devido à luta
de poderes com outras categorias. Conclui-se que seu espaço social de trabalho está em construção e
legitimação, necessitando um repensar e refletir criticamente sobre sua prática.
Palavras-chave: Assistência; enfermeira; prática social; trabalho.
ABSTRACT
ABSTRACT:: This study aimed to analyze the social space of nurses’ work in a HIV/AIDS attendance
service of Fortaleza-CE. A qualitative study, of a historical-structural and dialectical approach, has been
accomplished with four nurses of that service. Data collection has been done by means of semi-structured
interviews performed in the period of April to July of 2002. Speech analysis has been used for the
presentation of results, and showed that the nursing consultation and the advisement practice are the
activities that most identify this professional category. Nurses use the methodology of nursing assistance
as a theoretical support to subsidize their practices. They face concrete difficulties in the accomplishment
of their work due to the fight for power against other categories. We concluded that the social space of
nurses’ work is currently under construction and still being legitimated, needing critical rethinking and
reflections about the nursing practices.
Keywords: Attendance; nurse; social practice; work.
INTRODUÇÃO
Os
Serviços de Assistência Especializada
(SAE) para pessoas com Vírus da Imunodeficiência
Humana (HIV) e Síndrome da Imunodeficiência
Adquirida (AIDS) foram implantados, pelo Ministério da Saúde/Coordenação Nacional de Doenças
Sexualmente Transmissíveis (DST), em vários estados brasileiros a partir de 1994, com o objetivo de
oferecer ao paciente uma assistência diferenciada,
realizada por uma equipe multidisciplinar preparada para atender aos casos1.
Trata-se de um pequeno recorte do processo
de trabalho da enfermagem e seu saber que, no
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âmbito da epidemia do HIV/AIDS, se considera
em construção. Apreendem-se as mediações
estabelecidas entre o saber específico dessa categoria e o que é partilhado com outros profissionais que atuam nessa área.
Compreende-se enfermagem como uma prática social e, nesse sentido, se refere à atividade
que vai além de uma aplicação imediata e direta
dos conhecimentos técnico-científicos e
extrapola os limites do cliente cuidado, alcançando seu contexto social, família e demais grupos em que se insere. Leva-se em consideração
Silva LMS, Fraga MNO, Nóbrega MFB
as inter-relações de cada âmbito da prática com
as demais, seja na produção do conhecimento,
na reprodução socioeconômica e política, quanto
na inserção dos sujeitos2.
Nessa perspectiva, a categoria trabalho é tomada como referencial para a saúde, que tem uma
finalidade social e se traduz por uma determinada
concepção do processo saúde-doença, na perspectiva da multidimensionalidade psicossocial, cultural, biológica e coletiva, tendo a finalidade de promoção da saúde e a emancipação dos sujeitos.
Um dos grandes desafios da enfermagem é o
de produzir conhecimento e, assim, estruturar-se
como prática, com a capacidade de tecer em conjunto os diversos saberes, numa visão pluralista e
multifacetada do mundo3. Deve-se, ainda, compreender que, no sentido dialético, o processo de
trabalho em saúde pode avançar para operar de
forma interdisciplinar, dada a luta de contrários.
Percebe-se a realidade do serviço como um todo
estruturado e dinâmico, no qual a equipe de saúde deve atuar de forma integrada para o alcance
dos objetivos da assistência.
Dentro de seu vasto campo profissional, fazse necessário ao enfermeiro associar, através da
interdisciplinaridade, aspectos fundamentais de
seu saber específico com outros saberes essenciais
para a concretização da assistência aos clientes
portadores de HIV/AIDS. Nessa relação, este trabalhador promove seu aperfeiçoamento que poderá refletir-se em melhor qualidade do processo
global do trabalho.
Partiu-se do pressuposto de que cada trabalhador de saúde, em seu cotidiano, constrói seu
saber em maior ou menor articulação com os demais trabalhadores, considerando as experiências que resultem em seu melhor desempenho.
Pretende-se com este estudo a compreensão das relações entre as enfermeiras e outras categorias profissionais da área da saúde, assim como
uma melhor definição de seu papel neste serviço.
Portanto, objetiva-se analisar o espaço social de
trabalho das enfermeiras no SAE, a partir de suas
próprias percepções.
REFERENCIAL TEÓRICO
Visualizando o espaço social de trabalho das
enfermeiras no SAE, foi escolhida a abordagem
histórico-estrutural4-8 como fundamento teórico,
uma vez que o propósito deste estudo é repensar
essa realidade.
O subsistema que mais tem sido valorizado
na abordagem histórico-estrutural é a saúde do
trabalhador, tendo como eixo básico o processo
de trabalho e sua evolução no tempo e, como
determinante para o quadro de morbidade e desgaste dos trabalhadores, as unidades de produção. Vale ressaltar que é reduzida a produção científica de enfermagem pautada por análise histórico-estrutural que, a partir dos sujeitos sociais
e de suas representações, avaliam e questionam o
sistema, os serviços e as práticas de saúde. Em
geral, os estudos privilegiam mudanças ao nível
dos arcabouços políticos da dominação e da organização e administração do setor5.
O estudo histórico-estrutural tenta captar
não só a aparência do problema, mas também sua
essência, explicando sua origem, suas relações e
as conseqüências que terão para a vida humana.
Essa abordagem sugere que o profissional, em sua
prática, sofra transformações, não como simples
objeto, mas, sim, como sujeito de sua transformação, ao mesmo tempo em que as transformações
da sociedade impõem mudanças, na prática profissional. As transformações da prática profissional levam às mudanças sociais e vice-versa4.
Para a abordagem histórico-estrutural, o ser
social é o ator político na história e parte integrante da estrutura histórica. A estrutura, por sua
vez, é a circunstância dada, e pode ser chamada
de condições objetivas que se impõem ao sujeito
como dado encontrado. As condições subjetivas
significam o espaço histórico da criação humana,
que pode ser construído pelo ator social, no contexto dado. Nessa abordagem, pode-se agir em
condições objetivas e subjetivas, reconhecendo
que esta pode ser considerada um modo
estruturado e lógico de pensar e de ser6.
Para a dialética histórico-estrutural, a história é estrutura, não estática, mas dinâmica6.
Tanto a estática como a dinâmica fazem parte da
realidade. A estrutura dinâmica que se aplica
melhor à abordagem histórico–estrutural é a unidade dos contrários, que em termos sociais pode
ser configurada pela desigualdade social, que torna a sociedade estruturalmente definida como
algo dinâmico e provisório. Leva a compreender
o cotidiano da sociedade como composto complexo das contradições diárias. Mesmo que a normalidade social seja mantida pelos que dela extraem vantagens, essa normalidade é contraditória, pois contrapõe-se aos interesses da maioria, e
o normal tende a ser uma sociedade desmobilizada.
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Nessa abordagem, compreende-se o trabalho
das enfermeiras como uma prática social, histórica
e crítica, podendo ser transformadora, a depender
de toda uma conjuntura, conscientização e
mobilização dos seus agentes em determinado setor de atuação, por exemplo, no combate à infecção pelo HIV/AIDS. Essa afirmação tende a ser
relativa porque sempre existe nos agentes dessa
prática a contradição entre suas esperanças e a
realidade concreta, entre a conquista da emancipação e as circunstâncias limitantes e impeditivas.
Assim, o que se vislumbra do trabalho em saúde é a atuação dos diferentes atores de um modo
integrado, em que ocorra a conexão dos processos
produzidos, fundamentado na valorização e na participação coletiva (profissionais, comunidade, instituição), na construção de consensos na tomada
de decisão e na implementação do cuidado 9,10.
O trabalho é a ação intencional do homem
visando a um determinado fim, que utiliza em seu
processo partes de seu corpo físico e/ou psicológico e ainda instrumentos da tecnologia e se dá
pela interação direta ou indireta do homem com
a natureza material, ambiental, social e humana
e que em geral resulta na transformação dessa
natureza, que por reflexo é transformado por essa
interação. O processo de trabalho está caracterizado pelo conjunto de operações realizadas por
um ou vários trabalhadores, orientados para a produção de uma mercadoria ou realização de um
serviço. Tanto a mercadoria quanto o serviço são
reconhecidos pela sociedade consumidora como
valores de uso individual ou coletivo11.
METODOLOGIA
A
opção pela abordagem qualitativa de pesquisa deveu-se à natureza do problema estudado
que incorpora o significado e a intencionalidade
dos atos, as relações dos sujeitos e sua inserção
nas estruturas sociais. Toma ainda as estruturas
sociais como construções humanas significativas,
tanto em sua origem quanto na possibilidade que
têm de serem transformadas.
Escolheu-se para viabilizar este estudo um
dos Serviços Ambulatoriais Especializados em
HIV/AIDS de Fortaleza que é referência e o mais
completo no atendimento a clientes portadores
de HIV/AIDS no Ceará.
O SAE escolhido funciona em horário comercial e conta com uma equipe de saúde composta por 17 médicos, cinco enfermeiras, dois asp.56 •
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sistentes sociais, três psicólogas, três odontólogos,
seis auxiliares de enfermagem e pessoal de apoio
composto por dois recepcionistas, três agentes
administrativos e três atendentes. Esse serviço
observa as várias modalidades de atendimento a
portadores de HIV/AIDS recomendadas pelo
Ministério da Saúde – a Assistência Domiciliar
Terapêutica (ADT), o Hospital-Dia (HD) e a
assistência em nível de hospitalização.
Os sujeitos da pesquisa compreenderam quatro das cinco enfermeiras que atuam no SAE, visto que uma delas encontrava-se de férias, no
momento da coleta de dados. As informações foram obtidas, no período de abril a julho de 2002,
mediante entrevista semi-estruturada, gravada em
fita cassete. Os dados foram complementados pelo
pesquisador, com anotações adicionais em diário
de campo e apoio de um roteiro que continha
questões norteadoras.
No início da coleta dos dados, fazia-se uma
pequena apresentação individual aos sujeitos,
explicando o motivo da realização do estudo e
solicitava-se sua colaboração na pesquisa. Os obstáculos ocorridos, nesse processo, deveram-se ao
pouco tempo disponível das profissionais, devido
à grande demanda por atendimentos e o número
excessivo de consultas diárias por elas realizadas.
As entrevistadas foram numeradas e estão
indicadas no texto conforme a convenção: E1, E2,
E3 e E4. Para a análise dos dados, utilizaram-se os
pressupostos da corrente analítica que focaliza o
discurso4-6,12. Na análise do discurso, o importante é compreender a produção do mesmo, analisar
as condições históricas que o condicionam e com
as quais entra em relação7.
Ainda, quanto ao discurso, é relevante destacar o valor da palavra.Tudo que é ideológico é
um signo. Sem signos não existe ideologia. O signo ideológico por excelência é a palavra, sendo
esta produto da interação social, caracterizada
pela plurivalência. Por isso é o lugar privilegiado
para a manifestação da ideologia, retrata as diferentes formas de significar a realidade, segundo
vozes e pontos de vista daqueles que a empregam. Dialógica por natureza, a palavra se transforma em arena de luta de vozes que, situadas em
diferentes posições, querem ser ouvidas por outras
vozes. A palavra é o modo mais puro e sensível de
relação social e está sempre carregada de conteúdo ou de sentido ideológico ou vivencial8, 12.
Como instrumentos interpretativos foram
utilizadas as categorias analíticas – trabalho, pro-
Silva LMS, Fraga MNO, Nóbrega MFB
cesso de trabalho e prática social – conceitos que
se materializam na prática das enfermeiras, mediados pelas relações constitutivas da realidade
na qual se inserem. O entendimento dessas categorias está inspirado nas concepções dialética e
histórico-estrutural de pensar o mundo4-8, conforme proposta deste estudo.
O projeto de pesquisa foi analisado e aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa do Hospital
São José de Doenças Infecciosas (Fortaleza-Ceará). A participação dos sujeitos no estudo foi voluntária, e teve-se o cuidado de esclarecê-los quanto a seus objetivos e suas contribuições, obtendose seu consentimento livre e esclarecido por escrito, conforme os critérios éticos para as pesquisas
que envolvem seres humanos, previstos na Resolução n° 196/96, do Ministério da Saúde13.
RESULTADOS
E
DISCUSSÃO
Considerando as atividades com as quais
as enfermeiras mais se identificam no serviço, os
discursos revelaram:
O momento mais importante é o da consulta de enfermagem, onde você lida com o paciente, tira dele todas as
angústias e dá o suporte psicológico, tem ainda a confiança que acaba adquirindo entre enfermeiro e paciente.
O paciente entra angustiado e sai aliviado. (E2)
Tem duas atividades importantes... eu acho assim. .. a
realização do aconselhamento que é o primeiro momento que a gente tem com o paciente [...] quer dizer antes
do exame e após o exame, e a consulta de enfermagem,
que eu acho assim essencial, acho assim muito importante mesmo no desenvolvimento das nossas atividades a
nível ambulatorial. (E4)
Verificou-se nos discursos que a consulta de
enfermagem e a prática do aconselhamento são
as atividades que mais identificam esta categoria
profissional.
Quando as enfermeiras falam sobre seu cotidiano profissional, revelam pelo menos duas tendências: uma que privilegia o trabalho individualizado e especializado tecnicamente, e outra que
privilegia o compartilhamento das atividades com
outras categorias, conforme determinação
institucional, configurando-se uma visão coletiva do processo de assistência à saúde. Além disso, os autores afirmam que existe uma tendência,
entre as enfermeiras, ao se sentirem gratificadas
somente quando estão junto ao paciente, na assistência direta. O que, na assistência em HIV/
AIDS, pode ser propiciado tanto no momento da
consulta como do aconselhamento14.
Portanto, é compreensível a valorização das
atividades citadas, pelo que já foi dito e, ainda,
por ser a consulta de enfermagem uma atividade
privativa da enfermeira, que está prevista na Lei
nº 7.498, de 25 de junho de 1986, que dispõe sobre a regulamentação do exercício da Enfermagem no Brasil15.
É importante lembrar que há cerca de 15
anos vem ocorrendo uma mobilização significativa da categoria tentando implantar, documentar
e dar visibilidade à consulta de enfermagem nos
serviços, pois, além de sistematizar o atendimento ao cliente, ela confere maior valorização e autonomia às enfermeiras. No próprio SAE houve
mobilização das enfermeiras para implantá-la formalmente visto que, até 1998, a consulta de enfermagem não era documentada. Atualmente é
registrada em um formulário próprio, que foi elaborado a partir de adaptações feitas de um protocolo baseado na teoria do autocuidado14, e integra o prontuário do cliente.
A identificação das enfermeiras com o
aconselhamento e sua valorização são compreensíveis, tendo em vista que “o aconselhamento dá oportunidade ao indivíduo que procura o serviço de saúde
a retomada da integralidade, associando complementarmente o ver e tocar com o ouvir e sentir”16:17.
Ao indagar as enfermeiras sobre a percepção que têm do trabalho da categoria no serviço,
foram estes os discursos:
Eu acho que é um trabalho que tem um certo respeito, é
um trabalho que não é de qualquer jeito, se tem uma
metodologia por trás, a gente tenta falar a mesma língua
[...],mas eu acho que reclamações chegam, com certeza,
porque o serviço não é perfeito. Mas eu acho que, pesando na balança, tem muito mais qualidade, tem muito
mais ponto positivo do que negativo[...], um dia chegou
uma mulher, e muito chateada, falando: “Olha, eu gostaria de saber por que minha filha não tem direito à
consulta de enfermagem. Por que ela é desprivilegiada”.
Então, não é toda vida que se cobra a consulta. Mas um
caso desses, ou dois [...],eu acho que um só é importante
acontecer. (E1)
Em relação ao cliente eu vejo assim, que nós aqui no
ambulatório, nós desenvolvemos um trabalho que as
pessoas, que a comunidade de uma maneira em geral, a
sociedade, não tem costume de ter, não recebem isso em
outros locais. Inclusive às vezes muitos falam: eu não
sabia que enfermeiro fazia consulta. Porque nos serviços
que eu já andei, até hoje, eu nunca vi enfermeiro fazendo
consulta. (E4)
Os relatos não deixam dúvidas quanto à
importante contribuição da enfermagem para o
desenvolvimento do saber e da assistência nessa
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especialidade, o que resulta na valorização da
categoria perante os usuários, os demais trabalhadores e a instituição.
A noção de utilidade social é de suma importância para se obter o domínio do saber e da prática profissional. Tornar-se útil, socialmente relevante e confiável perante os clientes são elementoschave para o sucesso de qualquer profissão que
queira se firmar no mercado de trabalho17.
Assim, com base nos discursos e nas observações realizadas, essas profissionais conseguem,
de certa forma, articular seu saber específico com
o saber que é partilhado pelos trabalhadores que
atuam em HIV/AIDS, pois utilizam metodologia
assistencial com suporte teórico consistente. Isso
lhes rende valorização social, revelada principalmente pela procura dos clientes por esse atendimento.
Entretanto, não são todas que percebem dessa forma seu trabalho no SAE. Verificou-se, em
alguns relatos, dificuldades vivenciadas no cotidiano, relativas à aceitação e ao reconhecimento
do trabalho da enfermeira. Assim, falam:
A gente fica mais confortada com o reconhecimento do
paciente. A equipe não é a mesma coisa, porque tem a
questão do poder no meio, você colocando o outro no
patamar de mais status. Isso não é bom, porque ele[médico]
pensa que é perda de poder, ele não pensa em equipe, ele
não pensa de forma interdisciplinar. Ele pensa de forma
corporativa. Se o outro está muito... eu estou perdendo
meu espaço, eu estou perdendo poder. (E3)
Existe uma dificuldade muito grande de aceitação, acho
que da própria sociedade, do enfermeiro como um profissional que tem a competência de fazer uma consulta,
que é respeitável, no mesmo nível que é o médico, por
exemplo, que é o psicólogo. Porque aqui, o profissional
que eu vejo como... assim é... que as pessoas têm mais
resistência de chamarem de doutor é o enfermeiro. (E4)
Os discursos remetem a dificuldades concretas e enfrentadas por essas profissionais, indicando que elas percebem a ampliação do seu espaço
social ameaçada, e isso se expressa principalmente pela falta de reconhecimento e de valorização
tanto interna quanto externa ao SAE.
No campo de trabalho em saúde, para manutenção da ordem e do controle políticoinstitucional, conforme as forças presentes, o profissional deve submeter-se às normas da instituição, criando-se uma hierarquia de subordinação
e de poder numa rede de controle de cima para
baixo. Esta subordinação se dá entre agentes privilegiados e agentes complementares. Os agen-
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tes privilegiados de uma instituição são aqueles
que por sua prática legitimam a existência da instituição. O médico, com sua prática, vai legitimar a existência de um serviço de saúde. Esses
agentes privilegiados, cujas práticas são centrais
para a própria instituição, se autolegitimam sem
necessidade de agentes ou atores complementares, trabalhadores que têm de se submeter às práticas dos agentes privilegiados. Estes dificilmente
podem ser mandados embora da instituição porque isto implicaria o seu fechamento. A prática
complementar caracteriza certas profissões como
a enfermagem e o serviço social18.
Ainda, a hegemonia de uma disciplina se
define pela junção do econômico e do político, pela
organização de um bloco orgânico que se torna
capaz de condicionar os grupos e indivíduos a seus
interesses. Isso pressupõe a tomada de consciência
dos adversários, de suas estratégias e de si mesmo,
de seus próprios interesses, para traduzi-los em
mecanismo de poder na prática cotidiana18.
Outros discursos fazem referência a dificuldades relacionadas à continuidade da assistência de enfermagem aos clientes que são tratados
no SAE:
O que eu consigo fazer dentro da minha limitação é marcar com ele o retorno. Então, assim, eu atendo a primeira
vez, faço todas as minhas orientações e marco com ele:
“Olha, daqui a um mês eu vou querer lhe ver. Quando vai
ser sua consulta médica?” Então, pronto. Se for um mês e
pouco, a gente marca com a consulta médica, se não, eu
estabeleço com ele um mês e vou rever todas as orientações, revejo as medicações que ele está tomando, faço
orientações, mas é uma coisa pessoal. (E3)
A gente também não faz muita força para acontecer os
agendamentos, mesmo achando que são necessários, devido à demanda ser muito grande, gente de todos os
lugares, de todos os bairros vinham fazer anti-HIV aqui.
E o número de profissionais não era tantos, nós não
temos condições de atender. (T.N.S. 2)
Eu diria que a continuidade da assistência é regular,
devido à demanda que é muito alta. A gente marca aqui
na agenda da gente, eu faço assim, anoto num papel e
dou para a pessoa o dia que ela deverá me procurar. O
aprazamento das consultas de enfermagem não começou devido o pessoal de apoio que não dá valor à categoria[...] elas têm dificuldade de ver o enfermeiro como
um profissional igual ao outro, que são agendadas as
consultas também. (E4)
Os relatos também revelam os limites do espaço social do trabalho das enfermeiras. Embora a
insuficiência de recursos humanos, associada à
grande demanda, seja um fato constatado, na ver-
Silva LMS, Fraga MNO, Nóbrega MFB
dade o que mais pesa na questão é a falta de reconhecimento de outros trabalhadores e da coordenação quanto à importância do agendamento e do
acompanhamento de enfermagem aos clientes.
Quanto a isso, existe um certo conformismo
e até uma percepção equivocada por parte dessas
profissionais ao atribuírem a responsabilidade por
essa falha às recepcionistas, que na dinâmica do
atendimento no SAE não possuem poder de decisão, mas devem obediência a uma pesada hierarquia institucional. Se a coordenação do serviço
reconhecesse a importância do agendamento das
atividades das enfermeiras, o problema seria resolvido. Reconhece-se, no entanto, que as dificuldades operacionais, que limitam o espaço social do trabalho de enfermagem e a continuidade
da assistência, deverão ser reduzidas, quando os
próprios profissionais perceberem sua atividade
como essencial à concretude da assistência e lutarem por esse reconhecimento.
Nessa perspectiva, a enfermeira deve reconhecer-se como profissional ativo do processo e
gerador de mudanças necessárias, o que é fundamental para romper com a herança de uma prática subordinada aos interesses das instituições ou
a outras práticas profissionais19.
Concorda-se com Faleiros17, ao referir que
uma força se constitui na dialética da identidade
e da oposição, descobrindo interesses próprios em
conflito com o adversário, defendendo e conquistando posições, sendo necessário a consciência
da posição que se tem, da força do adversário e
do processo global das condições de manobra, dos
avanços e recuos imediatos e das mediações necessárias, procurando articular organização,
mobilização e saber. Entende-se que só assim essas profissionais de saúde poderão legitimar a continuidade do seu trabalho, mostrando o valor de
tal atividade no processo global da assistência aos
soropositivos.
Observa-se, ainda, que, nesse serviço, os
auxiliares de enfermagem chegam a referir como
chefia imediata a própria coordenação do ambulatório e as próprias enfermeiras referiram, em
discursos anteriores, a necessidade de uma coordenação específica para sua equipe. Deve-se
admitir que essas profissionais têm dificuldades
de lutar pela ampliação do espaço social e pelo
reconhecimento do seu trabalho, o mesmo ocorre por parte das auxiliares, um dos segmentos
sobre os quais mais pesa a hierarquia institucional.
CONCLUSÃO
C
onclui-se que o espaço social do trabalho
de enfermagem em HIV/AIDS no SAE está em
construção e legitimação, necessitando para sua
reorganização um repensar e refletir criticamente sobre a totalidade de sua prática, o que requer
o desenvolvimento desses sujeitos não apenas do
ponto de vista técnico, mas principalmente do
ponto de vista teórico e político, visando a uma
práxis mais autônoma, crítica, criativa e
transformadora.
A assistência de enfermagem fundamentase em princípios científicos e na presente pesquisa evidenciou-se que no cotidiano do SAE esse
trabalho é complementar aos outros saberes da
área de saúde. Nesse campo profissional, deve-se
reconhecer que o cliente é o centro da motivação e da atenção da equipe de saúde. Da assistência multidisciplinar de uma verdadeira equipe, o cliente espera que cada especialista ofereça
o melhor de si em competência terapêutica e
humanização.
O contexto de luta pelo fortalecimento do
poder social da categoria e ampliação do seu espaço social no SAE se traduz numa questão política ampla e requer uma motivação para construção de estudos que possam refletir e elucidar as
principais dificuldades na ampliação do espaço
social e político dos vários campos de atuação da
enfermagem, bem como uma compreensão por
essas profissionais do valor que o seu trabalho representa, como essencial e indispensável para o
bom funcionamento dos serviços de saúde e, em
especial, para o oferecimento de uma assistência
de qualidade aos indivíduos HIV positivos e doentes de AIDS.
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ESPACIO SOCIAL DEL TRABAJO DE ENFERMERAS EN UN SERVICIO DE ASISTENCIA ESPECIALIZADA
EN VIH/SIDA
RESUMEN: Se objetivó analizar el espacio social del trabajo de la enfermeras en un servicio de asistencia
especializada en VIH/SIDA de la ciudad de Fortaleza-Ceará-Brasil. Con enfoque histórico-estructural y
dialéctico, fue realizado estudio cualitativo con cuatro enfermeras de ese servicio. Para recolección de
los datos, se realizó encuesta semiestructurada en 2002. Son resultados del análisis del discurso de las
deponentes: la consulta de enfermería y la práctica del aconsejar fueron las actividades que más
identificaron la categoría profesional. Las enfermeras utilizan la metodología de la asistencia de enfermería
como soporte teórico para subsidiar la práctica y enfrentan dificultades concretas para desarrollar su
trabajo debido a la lucha de poderes con otras categorías. Se concluye que su espacio social de trabajo
está en construcción y legitimación, necesitando un repensar y reflexionar críticamente sobre su práctica.
Palabras Clave: Asistencia; enfermera; práctica social; trabajo.
Recebido em: 19.04.2005
Aprovado em: 16.01.2006
Notas
Enfermeira, Doutora em Enfermagem- Universidade Federal do Ceará, Professora Adjunta da Universidade Estadual do Ceará. Rua
Gustavo Braga, 257, Rodolfo Teófilo, Fortaleza-Ce, CEP: 60430-120. E-mail: [email protected].
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Enfermeira, Doutora em Enfermagem-USP,Ribeirão Preto, Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem da Universidade
Federal do Ceará.
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Enfermeira, mestranda do Mestrado Acadêmico em Cuidados Clínicos em Saúde – Universidade Estadual do Ceará, mestra em
Educação Especial, Enfermeira do Serviço de Educação Continuada em Enfermagem do Hospital Universitário Walter Cantídio/Universidade Federal do Ceará.
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p.60 •
R Enferm UERJ, Rio de Janeiro, 2006 jan/mar; 14(1):54-60.
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