ISSN 1415-2762 E Revista Mineira de Enfermagem Nursing Journal of Minas Gerais Revista de Enfermería de Minas Gerais v o l u m e 1 5 . n ú m e r o 1 . j a n / m a r d e 2 0 1 1 EDITORA GERAL Adelaide De Mattia Rocha Universidade Federal de Minas Gerais DIRETOR EXECUTIVO Lúcio José Vieira Universidade Federal de Minas Gerais EDITORES ASSOCIADOS remE Revista Mineira de Enfermagem Andréa Gazzinelli C. Oliveira Universidade Federal de Minas Gerais Isabel Amélia Costa Mendes Universidade de São Paulo – RP Edna Maria Rezende Universidade Federal de Minas Gerais José Vitor da Silva Universidade do Vale do Sapucaí Francisco Carlos Félix Lana Universidade Federal de Minas Gerais Lídia Aparecida Rossi Universidade de São Paulo – RP Luiza Akiko komura Hoga Universidade de São Paulo – RP Magali Roseira Boemer Universidade de São Paulo – RP Márcia Maria Fontão Zago Universidade de São Paulo – RP Marga Simon Coler University of Connecticut – USA Maria Ambrosina Cardoso Maia Faculdade de Enfermagem de Passos – FAENPA María Consuelo Castrillón Universidade de Antioquia – Colombia Maria Flávia Gazzinelli Universidade Federal de Minas Gerais Maria Gaby Rivero Gutierrez Universidade de São Paulo – SP Maria Helena Larcher Caliri Universidade de São Paulo – SP Maria Helena Palucci Marziale Universidade de São Paulo – RP Maria Imaculada de Fátima Freitas Universidade Federal de Minas Gerais Maria Itayra Coelho de Souza Padilha Universidade Federal de Santa Catarina Maria José Menezes Brito Universidade Federal de Minas Gerais Maria Lúcia Zanetti Universidade de São Paulo – RP Maria Miriam Lima da Nóbrega Universidade Federal de Paraíba Raquel Rapone Gaidzinski Universidade de São Paulo – SP Regina Aparecida Garcia de Lima Universidade de São Paulo – RP Rosalina Aparecida Partezani Rodrigues Universidade de São Paulo – RP Rosângela Maria Greco Universidade Federal de Juiz de Fora Silvana Martins Mishima Universidade de São Paulo – RP Sônia Maria Soares Universidade Federal de Minas Gerais Vanda Elisa Andrés Felli Universidade Federal de São Paulo – SP Jorge Gustavo Velásquez Meléndez Universidade Federal de Minas Gerais Marília Alves Universidade Federal de Minas Gerais Roseni Rosângela de Sena Universidade Federal de Minas Gerais Tânia Couto Machado Chianca Universidade Federal de Minas Gerais CONSELHO EDITORIAL Adriana Cristina de Oliveira Universidade Federal de Minas Gerais Alacoque Lorenzini Erdmann Universidade Federal de Santa Catarina Alba Lúcia Bottura Leite de Barros Universidade Federal de São Paulo – SP Aline Cristine Souza Lopes Universidade Federal de Minas Gerais André Petitat Université de Lausanne – Suiça Anézia Moreira Faria Madeira Universidade Federal de Minas Gerais Carmen Gracinda Scochi Universidade de São Paulo – RP Cláudia Maria de Mattos Penna Universidade Federal de Minas Gerais Cristina Maria Douat Loyola Universidade Federal do Rio de Janeiro Daclê Vilma Carvalho Universidade Federal de Minas Gerais Deborah Carvalho Malta Universidade Federal de Minas Gerais Elenice Dias Ribeiro Paula Lima Universidade Federal de Minas Gerais Emília Campos de Carvalho Universidade de São Paulo – RP Flávia Márcia Oliveira Centro Universitário do Leste de Minas Gerais Goolan Houssein Rassool University Of London – Inglaterra Helmut Kloos Universit of Califórnia, San Fransico – USA REME – REVISTA MINEIRA DE ENFERMAGEM Publicação da Escola de Enfermagem da UFMG Em parceria com: Escola de Enfermagem Wenceslau Braz – MG Faculdade de Enfermagem e Obstetrícia da Fundação de Ensino Superior de Passos – MG Universidade do Vale do Sapucaí – MG Centro Universitário do Leste de Minas Gerais – MG Universidade Federal de Juiz de Fora – MG CONSELHO DELIBERATIVO Maria Imaculada de Fátima Freitas – Presidente Universidade Federal de Minas Gerais Girlene Alves da Silva Universidade Federal de Juiz de Fora José Vitor da Silva Escola de Enfermagem Wenceslau Braz Tânia Maria Delfraro Carmo Fundação de Ensino Superior de Passos Rosa Maria Nascimento Fundação de Ensino Superior do Vale do Sapucaí Sandra Maria Coelho Diniz Margon Centro Universitário do Leste de Minas Gerais Indexada em: BDENF – Base de Dados em Enfermagem / BIREME-OPAS/OMS CINAHL – Cumulative Index Nursing Allied Health Literature CUIDEN – Base de Datos de Enfermería en Espanhol LATINDEX – Fundación Index LILACS – Centro Latino Americano e do Caribe de Informações em Ciências da Saúde REV@ENF – Portal de Revistas de Enfermagem – Metodologia SciELO/Bireme - OPAS/OMS LATINDEX - Sistema Regional de Información en Linea para Revistas Científicas de América Latina, el Caribe, Espanã y Portugal Formato eletrônico disponível em: www.enfermagem.ufmg.br www.periodicos.capes.ufmg.br Secretaria Geral Mariene Luiza Lopes Pereira – Secretária Gabriela de Cássia C. Rolim de Britto – Bolsista da Fundação Universitária Mendes Pimentel (FUMP) Projeto Gráfico, Produção e Editoração Eletrônica Brígida Campbell Iara Veloso CEDECOM – Centro de Comunicação da UFMG Escola de Enfermagem Universidade Federal de Minas Gerais Revista Mineira de Enfermagem – Av. Alfredo Balena, 190 – Sala 104, Bloco Norte – Belo Horizonte - MG Brasil – CEP: 30130-100 Telefax: (31) 3409-9876 E-mail: [email protected]/[email protected] Editoração Saitec Editoração (Eduardo Queiroz) Impressão Editora e Gráfica O Lutador Normalização Bibliográfica Maria Piedade Fernandes Ribeiro Leite CRB/6-601 Jordana Rabelo Soares CRB/6-2245 Revisão de texto Maria de Lourdes Costa de Queiroz (Português) Mônica Ybarra (Espanhol) Mariana Ybarra (Inglês) Assinatura Secretaria Geral – Telefax: (31) 3409 9876 E-mail: [email protected]/[email protected] Revista filiada à ABEC – Associação Brasileira de Editores Cientíicos Periodicidade: trimestral – Tiragem: 1.000 exemplares REME – Revista Mineira de Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. - v.1, n.1, jul./dez. 1997. Belo Horizonte: Coopmed, 1997. Semestral, v.1, n.1, jul./dez. 1997/ v.7, n.2, jul./dez. 2003. Trimestral, v.8, n.1, jan./mar. 2004 sob a responsabilidade Editorial da Escola de Enfermagem da UFMG. ISSN 1415-2762 1. Enfermagem – Periódicos. 2. Ciências da Saúde – Periódicos. I. Universidade Federal de Minas Gerias. Escola de Enfermagem. NLM: WY 100 CDU: 616-83 Sumário 9 Editorial IZABEL DOS SANTOS E A FORMAÇÃO DE PROFISSIONAIS DE ENFERMAGEM: CAPACIDADE DE TRANSFORMAR O IMPOSSÍVEL EM POLÍTICA PÚBLICA Roseni Sena Kenia Lara Silva 11 Pesquisas 11 SIGNIFICANDO O CUIDADO ECOLÓGICO/PLANETÁRIO/COLETIVO/DO AMBIENTE À LUZ DO PENSAMENTO COMPLEXO ATTRIBUTING MEANING TO ECOLOGICAL, PLANETARY, COLLECTIVE, AND ENVIRONMENTAL CARE ACCORDING TO A COMPLEX THINKING STRAGEGY OTORGÁNDOLE SIGNIFICADO AL CUIDADO ECOLÓGICO/PLANETARIO/COLECTIVO/DEL AMBIENTE SEGÚN EL PENSAMIENTO COMPLEJO Maria Aparecida Baggio Giovana Dorneles Callegaro Alacoque Lorenzini Erdmann 19 DIAGNÓSTICO DE ENFERMAGEM DE CRIANÇAS EM PÓS-OPERATÓRIO DE APENDICECTOMIA CHILDREN’S NURSING DIAGNOSIS IN APPENDECTOMY POST SURGERY DIAGNÓSTICO DE ENFERMERÍA DE NIÑOS EN POSTOPERATORIO DE APENDICECTOMÍA Silvania Braga Ribeiro Viviane Martins da Silva Edna Maria Dantas Guerra Mara Dalila de Araújo Lima 25 TRATAMENTO AMBULATORIAL DE PACIENTES COM FERIDA CIRÚRGICA ABDOMINAL E PÉLVICA AMBULATORY CARE FOR PATIENTS WITH ABDOMINAL AND PELVIC SURGICAL WOUND TRATAMIENTO AMBULATORIAL DE PACIENTES CON HERIDA QUIRÚRGICA ABDOMINAL Y PÉLVICA Daclé Vilma Carvalho Eline Lima Borges 34 HIPOTERMIA COMO FATOR DE RISCO PARA INFECÇÃO DE SÍTIO CIRÚRGICO: CONHECIMENTO DOS PROFISSIONAIS DE ENFERMAGEM DE NÍVEL MÉDIO HYPOTHERMIA AS A RISK FACTOR FOR SURGICAL WOUND INFECTION: THE NURSE ASSISTANT’S KNOWLEDGE HIPOTERMIA COMO FACTOR DE RIESGO PARA INFECCIÓN DE SITIO QUIRÚRGICO: CONOCIMIENTO DE LOS AUXILIARES DE ENFERMERÍA Djenane Roberta Ribeiro Alessandra Renata Targa Longo 42 ASPECTOS CLÍNICOS E EPIDEMIOLÓGICOS DOS CLIENTES SUBMETIDOS À CINEANGIOCORONARIOGRAFIA CLINICAL AND EPIDEMIOLOGICAL ASPECTS OF PATIENTS WHO UNDERWENT CORONARY ANGIOGRAPHY ASPECTOS CLÍNICOS Y EPIDEMIOLÓGICOS DE LOS CLIENTES SOMETIDOS A CINEANGIOCORONARIOGRAFIA Maria Helena Barbosa Jordânia Lumênia Tavares Érica Vieira de Andrade Quenia Cristina Gonçalves da Silva Marina Aleixo Diniz Luiz Antônio Pertili Rodrigues de Resende Gabriela Lucas Cardoso 47 ESTUDO DOS DIFERENCIAIS DA MORTALIDADE MASCULINA POR HOMICÍDIO, EM BELO HORIZONTE, DE 1980 A 2005 DIFFERENTIAL STUDY OF MALE MORTALITY FROM HOMICIDE IN BELO HORIZONTE FROM 1980 TO 2005 ESTUDIO DIFERENCIAL DE LA MORTALIDAD MASCULINA POR HOMICIDIO EN BELO HORIZONTE DESDE 1980 HASTA 2005 Lenice de Castro Mendes Villela Edna Maria Rezende Eunice Francisca Martins Paula Gonçalves Bicalho Lívia de Souza Pancrácio de Errico 54 ANEMIA EM CRIANÇAS E FATORES ASSOCIADOS EM REGIÃO URBANA FACTORS ASSOCIATED TO ANEMIA IN INFANTS RESIDENTS OF AN URBAN REGION FACTORES ASOCIADOS A LA ANEMIA EN NIÑOS DE UNA ZONA URBANA Milene Cristine Pessoa Ann Kristine Jansen Gustavo Velásquez-Meléndez Jose Divino Lopes Mark Anthony Beinner 62 CONCEITOS E PRÁTICAS DE INTEGRALIDADE NO MUNICÍPIO DE CATAS ALTAS-MG CONCEPTS AND INTEGRALITY PRACTICES IN CATAS ALTAS-MG CONCEPTOS Y PRÁCTICAS DE INTEGRALIDAD EN MUNICIPIO DE CATAS ALTAS-MG Evandro de Souza Queiróz Cláudia Maria de Mattos Penna 70 HISTÓRIA DE VIDA E O ALCOOLISMO: REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE ADOLESCENTES LIFE HISTORY AND ALCOHOLISM: SOCIAL REPRESENTATIONS OF ADOLESCENTS HISTORIA DE VIDA Y ALCOHOLISMO: REPRESENTACIONES SOCIALES DE LOS ADOLESCENTES Sílvio Éder Dias da Silva Maria Itayra Padilha 79 PercepçÃo e perspectivas de gestantes sobre o processo do parto a partir de oficinas educativas PREGNANT WOMEN’S PERCEPTION AND PERSPECTIVE ON THE LABOUR PROCESS IN EDUCATIONAL WORKSHOPS PERCEPCIÓN Y PERSPECTIVA DE LAS MUJERES EMBARAZADAS SOBRE EL PROCESO DE PARTO A PARTIR DE TALLERES EDUCATIVOS Maria Rita de C. B. Almeida Kleyde Ventura de Souza Virgínia Beatriz Maciel Juliana Thomé Ribeiro Maria Luiza de Medeiros Amaro Mariana Julia Pioli da Costa Sabrina Strapasson 86 PARALISIA CEREBRAL: ESTUDO SOBRE O ENFRENTAMENTO FAMILIAR CEREBRAL PALSY: A STUDY ON FAMILY COPING PARÁLISIS CEREBRAL: ESTUDIO SOBRE CÓMO LA FAMILIA LA ENFRENTA Mariana Beserra de Andrade Sheila de Souza Vieira Giselle Dupas 97 MANIFESTAÇÕES DE EGRESSOS DE UM CURSO DE ENFERMAGEM MANIFESTATIONS OF GRADUATES FROM A NURSING COURSE MANIFESTACIONES DE EGRESADOS DE UM CURSO DE ENFERMERÍA Dulce Maria Nunes Gabriela Bottan Laura Bianchi e Silva 105 AS PRÁTICAS INTEGRATIVAS E COMPLEMENTARES NA ATENÇÃO À SAÚDE DA MULHER: UMA ESTRATÉGIA DE HUMANIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA NO HOSPITAL SOFIA FELDMAN COMPLEMENTARY AND INTEGRATIVE PRACTICES IN WOMEN’S HEALTH CARE: A STRATEGY FOR THE HUMANIZATION OF MEDICAL CARE AT SOFIA FELDMAN HOSPITAL PRACTICAS COMPLEMENTARIAS E INTEGRATIVAS EN LA ATENCIÓN A LA SALUD DE LA MUJER: UNA ESTRATEGIA PARA HUMANIZAR LA ATENCIÓN DEL HOSPITAL SOFIA FELDMAN Maritza Rodrigues Borges Lélia Maria Madeira Vivian Mara Gonçalves de Oliveira Azevedo 114 PERCEPÇÕES DAS MÃES SOBRE OS CUIDADOS À SAÚDE DA CRIANÇA ATÉ 6 ANOS MOTHERS’ PERCEPTIONS ON HEALTHCARE FOR CHILDREN BETWEEN 0 AND 6 YEARS OLD PERCEPCIONES DE LAS MADRES SOBRE LOS CUIDADOS DE LA SALUD DE LOS NIÑOS DE 0 A 6 AÑOS Astrid Eggert Boehs Pamela Camila Fernandes Rumor Edilza Maria Ribeiro Márcia Grisotti 121 Revisão teórica 121 A SAÚDE DO CUIDADOR: POSSIBILIDADES DE PROMOÇÃO DE RESILIÊNCIA EM ENFERMEIROS THE CAREGIVER’S HEALTH: POSSIBILITIES FOR THE RESILIENCE PROMOTION IN NURSES LA SALUD DEL CUIDADOR: POSIBILIDADES DE PROMOCIÓN DE LA RESILIENCIA EN ENFERMEROS Maria de Fátima Belancieri Edna Maria S. Peters Kahhale 129 CURSOS DE ESPECIALIZAÇÃO E RESIDÊNCIA EM SAÚDE DA FAMÍLIA: UMA ANALISE SOBRE OS ENFOQUES DE AVALIAÇÃO SPECIALIZATION COURSES AND RESIDENCY IN FAMILY HEALTH CARE: AN ANALYSIS ON THE EVALUATION APPROACHES CURSOS DE ESPECIALIZACIÓN Y RESIDENCIA EN SALUD DE LA FAMILIA: ANÁLISIS SOBRE LOS ENFOQUES DE EVALUACIÓN Tatiane Aparecida Moreira da Silva Lislaine Aparecida Fracolli Anna Maria Chiesa 135 Artigo reflexivo 135 PRÁTICA EDUCATIVA PARA AUTONOMIA DO CUIDADOR INFORMAL DE IDOSOS EDUCATIONAL PRACTICE FOR THE AUTONOMY OF THE INFORMAL CAREGIVER OF ELDERLY PEOPLE PRÁCTICA EDUCATIVA PARA LA AUTONOMÍA DEL CUIDADOR INFORMAL DE ANCIANOS Chrystiany Plácido de Brito Vieira Emiliana Bezerra Gomes Ana Virgínia de Melo Fialho Dafne Paiva Rodrigues Thereza Maria Magalhães Moreira Maria Veraci Oliveira Queiroz 141 REFLEXÕES ACERCA DA REFORMA PSIQUIÁTRICA E A (RE)CONSTRUÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS REFLECTIONS ON THE PSYCHIATRIC REFORM AND THE (RE) CONSTRUCTION OF PUBLIC POLICIES REFLEXIONES SOBRE LA REFORMA PSIQUIÁTRICA Y LA (RE)CONSTRUCCIÓN DE LAS POLÍTICAS PÚBLICAS Angélica Mota Marinho Álissan Karine Lima Martins Helder de Pádua Lima Ângela Maria Alves e Souza Violante Augusta Batista Braga 149 Normas de publicação 151 Publication norms 153 Normas de publicación Editorial IZABEL DOS SANTOS E A FORMAÇÃO DE PROFISSIONAIS DE ENFERMAGEM: CAPACIDADE DE TRANSFORMAR O IMPOSSÍVEL EM POLÍTICA PÚBLICA A reflexão sobre a formação de profissionais de enfermagem no Brasil permite reconhecer os valores históricos dos processos formativos e suas interfaces com as políticas de saúde e de educação. Sabe-se que a criação de escolas e o processo de formação dos profissionais é determinado por um conjunto de políticas públicas que visam responder às demandas e às necessidades de saúde da população. Atualmente, são mais de 650 cursos de graduação em enfermagem no País.1 No nível médio, o Censo da Educação Profissional, em 2006, revelou a existência de 3.294 escolas, das quais 30% correspondem a cursos da área da saúde e, destes, cerca de 60% são de formação técnica em enfermagem.2 Esse cenário é marcado pela ampliação do número de escolas na última década, em todo o País, pela concentração e pela desigualdade na disponibilidade de profissionais de saúde nas diversas regiões do Brasil. Assim, muito mais que o quantitativo, em números absolutos, expresso pelo contingente de escolas e cursos existente no nosso país, a força de trabalho em saúde, com foco na enfermagem, está marcado pela influência de políticas públicas e tem repercussão na qualidade do cuidado em saúde. Ao mesmo tempo, o processo de formação mantém íntima ligação com a conformação do mercado de trabalho e, ao responder a essa demanda, tende a reforçar a situação de desigualdade e iniquidade que atinge a sociedade brasileira. Nesse contexto, contestar as desigualdades e as iniquidades também deve ser encarado na qualificação e formação dos profissionais de enfermagem, e pode-se dizer que muitas foram as instituições e líderes de enfermagem que marcaram esse processo. Nesse caminho, nossa reflexão neste Editorial se volta para uma das personagens mais importantes no campo da formação de Recursos Humanos em Enfermagem no Brasil: Izabel dos Santos. Mineira de Pirapora, Izabel formou-se na Escola de Enfermagem da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Trabalhou pela Fundação de Saúde Pública (FESP) em diferentes regiões do Brasil e como docente na Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Pernambuco. Sua trajetória no Ministério da Saúde e na Organização Panamericana de Saúde revelaram sua luta pela qualidade do cuidado de enfermagem tendo como foco a qualificação e a formação do pessoal de enfermagem. Izabel instituiu o mais importante programa de qualificação profissional de atendentes em auxiliares de enfermagem: o Larga Escala. O programa visava desenvolver uma metodologia orientada pela concepção pedagógica de problematização com formação em serviço e a utilização de metodologias centradas nos estudantes. Izabel coordenou a elaboração de material educativo e a implantação do programa em vários Estados brasileiros, permitindo o reconhecimento oficial da habilitação profissional do auxiliar de enfermagem pelo sistema de educação nacional. O programa Larga Escala atendeu a uma demanda de extensão de cobertura da rede de serviços, no contexto da Reforma Sanitária brasileira, e, por isso, contribuiu para a legitimação e o reconhecimento da formação de profissionais, sejam os auxiliares e técnicos de enfermagem, sejam os visitadores sanitários também objeto do Programa. Tendo como pano de fundo o Sistema Único de Saúde (SUS), em conformação naquele momento, o Larga Escala foi encarado como instrumento de luta contra as desigualdades e injustiças sociais, nas palavras da própria Izabel dos Santos: Vamos pensar em um processo e conversei com muita gente, e comecei primeiro estudando a parte de educação para eu ver como é que eu podia fazer um processo de educação que desse conta desta clientela sem fazer a exclusão porque se eu fosse fazer um processo de educação do jeito que ele era e é pensado até hoje nas escolas regulares esta turma não tinha a menor chance, esta turma seria toda eliminada, não sabia ler, era aquilo que você falava um 1 2 3 Ministério da Educação. Disponível em: <http://emec.mec.gov.br/>. Acesso em: em 7 mar. 2011. Censo da Educação Profissional no Brasil. Disponível em: <http://www.inep.gov.br/basica/censo/default.asp>. Acesso em: em 7 mar. 2011. Entrevista publicada em: Castro, Janete Lima de, Santana, José Paranaguá de e Nogueira, Roberto Passos. Izabel dos Santos: a arte e a paixão de aprender fazendo. Natal: Observatório de Recursos Humanos do Núcleo de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2002. remE – Rev. Min. Enferm.;14(3): 19-24, jul./set., 2010 9 mundo a parte.3 Superado os limites do Larga Escala, Izabel assumiu a construção do Projeto de Profissionalização dos Trabalhadores da Área de Enfermagem (PROFAE), financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, pelo Tesouro Nacional e pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador. Novamente, o PROFAE traduziu a intenção de Izabel do investimento público na formação de pessoal de nível médio em saúde como uma política de inclusão social. Os resultados do PROFAE foram surpreendentes pela eficácia e eficiência das ações, capacidade de desenvolvimento de metodologias, produção de material educativo e, sobretudo, pela capilaridade do projeto, que atingiu mais de 4 mil municípios no País. O processo de capacitação de tutores ocorreu de forma descentralizada e com intensivo grau de atividades semipresenciais, representando, também, inovações tecnológicas no campo da formação de profissionais de saúde. Sem dúvida, o PROFAE foi o maior e mais intensivo programa de educação nos serviços de saúde. Os modelos de gestão foram capazes de enfrentar os desafios de um país continental, que exigiram parcerias interinstitucionais entre os governos federal, estaduais, municipais e escolas de enfermagem públicas e privadas, para concretizar o projeto. Pode-se afirmar que a experiência acumulada de projetos como o Larga Escala e PROFAE permitem salto de qualidade na formação de profissionais de saúde no nosso país, em estreita relação com as políticas de saúde e educação na proposição de um novo modelo de atenção à saúde. Izabel dos Santos, protagonista nesse processo, será sempre lembrada por sua coerência, persistência e capacidade de transformar o impossível em políticas públicas. Roseni Sena Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora emérita da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. Kenia Lara Silva Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora adjunta da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. 10 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 11-18, jan./mar., 2011 Pesquisas SIGNIFICANDO O CUIDADO ECOLÓGICO/PLANETÁRIO/COLETIVO/DO AMBIENTE À LUZ DO PENSAMENTO COMPLEXO ATTRIBUTING MEANING TO ECOLOGICAL, PLANETARY, COLLECTIVE, AND ENVIRONMENTAL CARE ACCORDING TO A COMPLEX THINKING STRAGEGY OTORGÁNDOLE SIGNIFICADO AL CUIDADO ECOLÓGICO/PLANETARIO/COLECTIVO/DEL AMBIENTE SEGÚN EL PENSAMIENTO COMPLEJO Maria Aparecida Baggio1 Giovana Dorneles Callegaro2 Alacoque Lorenzini Erdmann3 RESUMO Estudo qualitativo-interpretativo, derivado de dissertação de mestrado, desenvolvido em um hospital-escola de Santa Catarina, com o objetivo de compreender o significado do cuidado ecológico/planetário/coletivo/do ambiente para profissionais de enfermagem à luz do pensamento complexo. Foram participantes enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem de uma unidade clínico-cirúrgica. Os dados oriundos de oficinas realizadas por meio de um processo educativo, reflexivo e interpretativo, mediante análise de conteúdo, designaram a categoria O cuidado ecológico/ planetário/coletivo/do ambiente. A consciência desse cuidado é individual, mas também é coletiva quando percebido o benefício das ações de cada indivíduo para o alcance da totalidade do cuidado do universo – do homem e do meio que o acolhe. Percebem-se a necessidade e a importância do pensar e do (re)pensar as práticas individuais cotidianas relacionadas à problemática ambiental, considerando que a conduta individual reflete o produto da coletividade. Conclui-se que todos os seres humanos são responsáveis pelo cuidado ecológico/planetário/coletivo/do ambiente, uma vez que vivem, integram e compartilham o mesmo ecossistema, dele dependendo para a própria sobrevivência. O cuidado do ecossistema também é um cuidado de enfermagem, visto que problemas ambientais também podem ser entendidos como potenciais problemas de saúde. Assim, a atuação na prevenção dos danos ambientais e a diagnose de problemas já existentes são importantes ações da enfermagem que permitem definir prioridades e estratégias de gestão em saúde. Somente mediante uma visão integradora entre homem-natureza, saúde-ambiente é que se pode estabelecer uma relação complexa de cuidados. Palavras-chave: Meio Ambiente; Saúde Ambiental; Ecologia; Natureza; Enfermagem. ABSTRACT The objective of this qualitative-interpretive study was to comprehend the meaning of ecological, planetary, collective, and environmental care among nursing professionals employing complex thinking strategies. The study originated from a Master’s Thesis developed and carried out in a University Hospital in Santa Catarina. Its participants included nurses, nursing technicians, and assistant nurses in a clinical surgery unit. The data originated from workshops carried out through an educational, reflexive, and interpretative process. Using content analysis, the category Ecological/ Planetary/ Collective/ Environmental Care was designated. The study developed the idea that being aware of such care is basically an individual process; nevertheless it is also collective once each individual action is directed towards achieving totality in care for humanity and the environment which shelters it. It is necessary and important to think and rethink individual daily practices related to the environment and consider that the individual conduct reflects the collective product. All human beings are responsible for an ecological, planetary, collective, and environmental care, since we all depend on it for our survival. Caring for the ecosystem is also a nursing care, since environmental problems can represent potential healthcare hazards. Preventing environmental damage and diagnosing current problems are important nursing actions which permit the allocation of priorities and the designation of strategies in healthcare management. An integrative vision approach of the human-nature and healthcare-environment binomials is the only way to establish a complex healthcare relationship. Key words: Environment; Environmental Health Care; Ecology; Nature; Nursing. 1 2 3 Enfermeira. Doutoranda em Enfermagem pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PEN) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Bolsista do CNPq. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Administração e Gerência do Cuidado em Enfermagem e Saúde (GEPADES), na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Rua Morom 2664, apto 302. Centro. Passo Fundo, Rio Grande do Sul, Brasil. CEP: 99010-034. E-mail: [email protected]. Enfermeira. Docente da Escola Técnica Pró-Saúde. Membro do GEPADES, na UFSC. Brasil. E-mail: [email protected]. Enfermeira. Doutora em Filosofia de Enfermagem. Professora Titular do Departamento e Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFSC. Coordenadora do GEPADES. PQ 1A do CNPq. Coordenadora da Área da Enfermagem na Capes.Brasil. E-mail: [email protected]. Endereço para correspondência – Rua Servidão Costa, 75, Florianópolis-SC. CEP: 88036-640. E-mail: [email protected]. remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 11-18, jan./mar., 2011 11 Significando o cuidado ecológico/planetário/coletivo/do ambiente à luz do pensamento complexo RESUMEN El presente estudio interpretativo cualitativo se propuso comprender el significado del cuidado ecológico/planetario/ colectivo/del ambiente para profesionales de enfermería según el pensamiento complejo. El estudio fue realizado en un hospital Escuela de Santa Catarina y deriva de una disertación de maestría. Participaron del mismo enfermeros, técnicos y auxiliares de enfermería de una unidad clinicoquirúrgica. Los datos se obtuvieron en talleres llevados a cabo mediante un proceso educativo/reflexivo/interpretativo. A través del análisis de contenido fue designada la categoría El cuidado ecológico/planetario/colectivo/del ambiente. El estudio se centra en la idea de que la conciencia de dicho cuidado es básicamente un proceso individual; sin embargo, también es un proceso colectivo cuando cada una de las acciones individuales buscan alcanzar la totalidad del cuidado de la humanidad y del universo que la acoge. Se perciben la necesidad y la importancia del pensar y del (re)pensar las prácticas individuales cotidianas relacionadas a la problemática ambiental, considerando que la conducta individual refleja el producto de la colectividad. Se concluye que todos los seres humanos son responsables del cuidado ecológico/planetario/colectivo/del ambiente, porque viven, integran y comparten el mismo ecosistema y dependen del mismo para su supervivencia. El cuidado del ecosistema también es un cuidado de enfermería, que se preocupa y preserva la vida del hombre y de la naturaleza, puesto que los problemas ambientales también pueden vislumbrarse como problemas de salud en potencial. Por ello la actuación en la prevención de los daños ambientales y el diagnostico de problemas ya existentes son importantes acciones de Enfermería que permiten definir prioridades y estrategias de gestión en salud. Solamente a partir de una visión integradora entre el hombre y la naturaleza y entre la salud y el medio ambiente se podrá establecer una relación compleja de cuidados. Palabras clave: Medio Ambiente; Salud Ambiental; Ecología; Naturaleza; Enfermería. INTRODUÇÃO O viver humano é permeado de múltiplas e complexas relações, conexões e interações entre os seres humanos e destes com o meio em que vivem. Inseridos no processo vital de cuidar/cuidado, os seres são, ao mesmo tempo, receptores e emissores de ações que contribuem para o seu desenvolvimento e do meio que habitam. Pensar o contexto em que vivem, considerando a complexidade, o subjetivo e o intersubjetivo, a interdependência, a interação, a conexão, a relação do todo, considerando os componentes econômico, político, sociológico, psicológico, afetivo, mitológico e correlacionando esses aspectos multidimensionais a um ser humano também multidimensional, é um processo lento, mas necessário, que exige dos sujeitos envolvidos a capacidade de conexão e interconexão das partes com o todo e do todo com as partes.1-3 Para um processo de viver, conviver, ser e sentir-se saudável, importa ao ser humano compreender a complexidade ecossistêmica do Universo; importa não apenas o cuidado do homem na sua dimensão biológica, mas também o cuidado ecológico/planetário/ coletivo/do ambiente. Não se propõe reduzir o homem ao meio, mas integrá-lo nele, já que são inseparáveis. Constituem uma relação interativa, aberta, de troca mútua, comportando a ordem/desordem e o equilíbrio/ desequilíbrio oriundos do movimento dinâmico e complexo dos sistemas vivos.3 O ser humano, por meio de suas múltiplas dimensões, é o único que pode interagir com outros seres e com o universo, construindo uma teia complexa de relações de troca e de cuidado, incluindo o cuidado do planeta.3 Contraditoriamente, dentre todos os seres, o ser humano também é o único que tem a possibilidade de, ao invés de cuidar, destruir o próprio hábitat. As marcas do tempo revelam esses sinais contraditórios. Primitivamente, o trabalho era desenvolvido pelo homem mediante interações com o meio, uma vez que 12 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 11-18, jan./mar., 2011 demonstrava respeito e reverência à natureza: apenas subtraía da natureza o necessário para sobreviver. Em anos recentes, o homem passou a explorar além do necessário para sua sobrevivência, o que vem causando desequilíbrios ambientais difíceis de reparação pela própria natureza, tendo como resultado desastres naturais, que causam prejuízos e prejudicam a si próprio, o coletivo e o planeta.4 Em razão disso, necessária se faz a manifestação do pensamento consciente pelo ser humano no sentido de cuidar, preservar e proteger o meio em que vive, pois a humanidade depende na natureza, do meio ambiente, não o contrário.5 Para evitar que a destruição ambiental conduza a danos graves e implique sofrimento humano, é necessário pensar e refletir sobre como se pode minimizar o impacto ambiental causado pelo desenvolvimento da civilização.6 A articulação e a reflexão do seres humanos sobre sua relação com o meio ambiente, considerando os aspectos social, biológico, cultural, psíquico, é um desafio do pensamento complexo,1-3 visto que considera a multidimensionalidade do ser na interface com o meio, com o todo e do todo com o ser, além dos múltiplos olhares, saberes singulares e plurais que constituem a existência humana e do planeta. Na sociedade contemporânea, os problemas ecológicos/ planetários/coletivos/do meio ambiente assumiram centralidade e presença marcante no viver cotidiano. Habitam o concreto de nossa vida. Fatores sociais, alterações ambientais causadas pelo homem e/ou mudanças ecológicas caracterizam-se, visivelmente, como algumas das principais dificuldades enfrentadas.4,7 Assim, entende-se o cuidado ecológico/planetário/ coletivo/do ambiente como um tema atual e pertinente. A consciência desse cuidado é individual, mas também é coletiva quando percebido o benefício mútuo das ações de cada um para o alcance da totalidade do cuidado do Universo – do homem e do meio que o acolhe. O cuidado ecológico/planetário/coletivo/do ambiente remete à preocupação com a problemática ecológica, promovendo redução dos danos à natureza e maximização da preservação do meio natural, uma questão de consciência ecológico-ambiental. Entretanto, embora se percebam significativa divulgação e circulação de conhecimentos sobre tais questões por diversos setores da sociedade moderna, parece não haver o esperado interesse da população e a demonstração de atitudes para a preservação ou redução de danos ao planeta no meio em que vive.8,9 Atitudes individuais simples, que reduziriam o impacto para o coletivo, também são insistentemente divulgadas em vários meios de comunicação, porém ainda há pouca participação do coletivo – por exemplo, para a redução do consumo de água potável, para o adequado tratamento do lixo e do esgoto, para a não poluição de nascentes, rios, mares, lagos, entre outros. Teoricamente, essas são ações simples a serem desenvolvidas, porém na prática cotidiana poucos despertam para este cuidado.10 Entende-se que é imprescindível a abordagem multidisciplinar e multissetorial da questão ecológica, tendo em vista que os problemas ambientais possuem ampla repercussão e afetam diversos setores da sociedade, sendo um deles o da saúde.8 Por essa razão, atualmente, admitese que problemas ambientais relacionam-se a problemas de saúde, uma vez que conceitos modernos de saúde admitem a dimensão ambiental como parte dos processos constitutivos de saúde, por serem os seres humanos e as sociedades afetados de forma multidimensional.11 A discussão sobre a problemática ecológica tem sido discutida mundialmente, em diversas áreas do saber, em razão da condição de ameaça de vida no planeta. No Brasil, o tema do 61º Congresso Brasileiro de Enfermagem, em 2009, foi “Transformação social e sustentabilidade ambiental”, o que representa o interesse da área pelas questões ambientais e sociais. Embora os trabalhos sobre a temática revelem processos em construção, identifica-se pouca produção científica sobre o assunto pela enfermagem.12 Desse modo, percebe-se que a ótica de saúde associada ao meio ambiente ainda está pouco incorporada nos espaços de saúde, revelando um processo tímido, com pouca contribuição do setor da saúde. Nesse sentido, questionase: Qual o significado do cuidado ecológico/planetário/ coletivo/do ambiente para profissionais de enfermagem à luz do pensamento complexo? Assim, visando contribuir para a realização do cuidado ecológico/planetário/natureza/do ambiente, incitando a consciência ecológica e reconhecendo o ser humano na sua complexidade como uma parte do ecossistema local e global, neste artigo busca-se compreender o significado do cuidado ecológico/planetário/coletivo/ do ambiente para profissionais de enfermagem à luz do pensamento complexo. I METODOLOGIA Trata-se de estudo qualitativo-interpretativo, derivado de dissertação de mestrado13 cujo projeto teve como pergunta de pesquisa “Como ocorrem as relações de cuidado de si, do outro e ‘do nós’ nas diferentes dimensões de cuidado em uma unidade clínico-cirúrgica?” e como objetivo, “compreender as relações de cuidado de si, do outro e ‘do nós’ nas diferentes dimensões de cuidado, por meio de um processo educativo/reflexivo/ interpretativo com profissionais de enfermagem de unidade clínico-cirúrgica de um hospital-escola, sob a perspectiva da complexidade”. O Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Santa Catarina aprovou, sob o nº 266/07, o desenvolvimento da pesquisa, tendo sido respeitados os aspectos éticos de pesquisas envolvendo seres humanos, conforme prevê a Resolução nº 196/96,14 do Conselho Nacional de Saúde, em todas as etapas da pesquisa. Foram realizadas cinco oficinas semanais, em outubro de 2007, com duração de uma hora aproximadamente. As oficinas foram realizadas por meio de um processo educativo/reflexivo/interpretativo, 4 I com aporte teórico da complexidade, 1-3 tendo cada uma três momentos distintos. No primeiro momento, denominado “Preparando-nos para a oficina”, objetivou-se a sensibilização e a introdução às temáticas, com leitura de texto e elaboração de cartazes. No segundo momento, denominado “Indo ao ponto X”, promoveu-se espaço para discussões aprofundadas sobre as relações de cuidado de si, do outro e “do nós”. No último momento, denominado “Fechamento”, tratou-se de aglutinar as manifestações dos significados das relações de cuidado, fundamentadas na circularidade do pensamento complexo, com base nas das interpretações e construções dos sujeitos participantes da oficina. O roteiro de discussão das oficinas foi baseado no princípio da incerteza, de Edgar Morin,1 que orientou, conforme adaptação dos pronomes (eu, tu, nós), todas as oficinas. Foram participantes do estudo enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem de um hospital-escola de Santa Catarina, os quais autorizaram sua participação voluntária mediante esclarecimento dos objetivos e da metodologia proposta, por meio de assinatura de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Participaram da pesquisa dez profissionais; entretanto, neste artigo, foram apresentados fragmentos de falas de oito, que representam a categoria Cuidado ecológico/ planetário/coletivo/do ambiente. O registro dos dados foi realizado mediante gravação digital de voz dos participantes e anotações de campo. Para resguardar-lhes a identidade, os participantes foram identificados com a letra “P”, seguida do número ordinal correspondente às participações nas falas (ex.: P.1; P.2; P.3...). A construção e a implementação da dinâmica das oficinas foram requisito da disciplina Projetos Assistenciais em Enfermagem e Saúde, do curso de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina. remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 11-18, jan./mar., 2011 13 Significando o cuidado ecológico/planetário/coletivo/do ambiente à luz do pensamento complexo Os dados foram submetidos à análise temática de conteúdo, 15 seguindo três momentos distintos: inicialmente, foi realizada a leitura de contato dos dados coletados e, logo após, várias leituras do mesmo material visando ao maior aprofundamento das informações e à consequente busca/compreensão dos significados nas falas dos sujeitos; em seguida, foram recortadas do texto as palavras-chave ou frases de significado dos conteúdos manifestos para a formação das unidades de significados, as quais, ao final, foram classificadas e agregadas, sendo, então, definidas e interpretadas as categorias que orientam as especificações dos temas na ótica da complexidade.2 RESULTADO E DISCUSSÃO A seguir, apresenta-se a categoria derivada do estudo de mestrado no qual são discutidos os significados do cuidado ecológico/planetário/coletivo/do ambiente, um tema, na contemporaneidade, amplamente discutido no cenário social, porém ainda pouco nos cenários da enfermagem. Entretanto, os profissionais de enfermagem participantes do estudo trazem à tona preocupações e reflexões que relacionam ser humano e meio ambiente. É essa uma relação a ser pensada e discutida por trabalhadores da enfermagem nos múltiplos espaços de saúde, como parte de um processo de viver humano mais saudável, considerando-se o cuidado multidimensional. Cuidado ecológico/planetário/coletivo/do ambiente Os profissionais de enfermagem apontam preocupação com o cuidado ecológico/planetário/coletivo/do ambiente assinalando a necessidade do controle de epidemias como a da dengue, que afeta a população no país; da preservação do ambiente natural; da promoção da saúde humana, vislumbrando o cuidado individual e coletivo; e do cuidado do planeta. Os profissionais de enfermagem mostram-se preocupados com o risco de conviverem com doenças recorrentes, outrora erradicadas ou até então controladas, que estão ressurgindo ou se alastrando em novas condições, com grande poder de virulência.16,17 Em 2007, foram notificados, no Brasil, 559.954 casos suspeitos de dengue; foram confirmados 1.541 casos de febre hemorrágica da dengue (FHD) e constatados 158 óbitos por FHD, com uma taxa de letalidade de 10,2%.18 Saliente-se que no mesmo período não havia casos confirmados na cidade do estudo. Embora os esforços dos governos federal, estaduais e municipais e da sociedade tenham possibilitado a redução do número de casos de dengue no Brasil, no último ano, em relação a 2007 e 2008, a condição ainda preocupa.19 Fica claro, portanto, para os participantes, a responsabilidade de cada indivíduo em evitar a propagação e combater essa moléstia: 14 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 11-18, jan./mar., 2011 Se eu deixar água no meu reservatório vai (mosquito da dengue) respingar em mim e no vizinho. (P9) Por enquanto, ainda não encontraram nada (foco do mosquito da dengue) aqui (P.2). A emergência e a reemergência de doenças infecciosas16 denotam um importante sintoma da crise civilizacional enfrentada na contemporaneidade que, se não for considerada com a importância devida, acarretará catástrofes incalculáveis por hora.17 A pouca adesão da população às medidas preventivas da doença configurase como descuido e descaso da coletividade com o próprio viver humano e planetário. Essencial se faz o pensar e o (re)pensar as práticas individuais com vista a garantir a própria saúde e de toda a população. Isso implica uma análise das próprias práticas cotidianas, considerando aspectos ambientais, sociais e culturais para a promoção de novas e melhores práticas para o cuidado coletivo. Assim, ações individuais beneficiariam a própria pessoa e o coletivo, visto que, no caso de endemias, epidemias e pandemias, tais ações são fundamentais para o controle do vetor da doença. Os desmatamentos e as queimadas também trazem implicações à saúde dos seres humanos e à saúde do meio ambiente, comprometendo a vida de grandes florestas, matas, campos, etc. Entretanto, repetidas vezes é o próprio ser humano o causador da destruição do ambiente,8 que lhe é naturalmente ofertado, em busca do alcance do desenvolvimento e da prosperidade econômica. Para isso, o homem apropria-se de ações antiecológicas, sem considerar a autonomia e a alteridade dos sistemas da própria natureza, tampouco sua necessidade de relação e interdependência com a natureza.17 Os profissionais apontam a redução/eliminação dos desmatamentos e das queimadas para o cuidado do planeta, do coletivo: Controle dos desmatamentos, das queimadas... para cuidar do planeta! (P.8) A consciência ecológica subjacente à crise de degradação do meio ambiente, atualmente ameaçado pelo desenvolvimento urbano, revela que as espécies vegetais e animais, os elementos e as coisas são mani-pulados e subjugados pelo próprio homem em benefício da técnica, da ciência (tecnociência) e da indústria, sob o risco de se destruir toda a vida nos ecossistemas, impunemente.20 Assim, na relação ecossistêmica, o homem pode, pelo resultado de suas ações, apresentar incongruência consigo mesmo e com o próprio ambiente, situação considerada inadequada à condição de ser saudável.21 Ainda que alguns não percebam as influências múltiplas, imprevisíveis e a repercussão de suas ações, os participantes do estudo entendem que para o cuidado da coletividade, para o cuidado do planeta, é preciso iniciar pelo ambiente em que se vive, preservando o espaço natural, visto que os seres humanos necessitam dele para sua sobrevivência. A natureza é uma totalidade complexa e o homem não é uma entidade fechada em relação a essa totalidade. O homem é um sistema aberto, que estabelece relação de autonomia-dependência no ecossistema natural, ou seja, o homem e a natureza são sistemas abertos, que integram e interagem num sistema maior – o ecossistema –, sendo simultaneamente independentes, dependentes e interdependentes.20 A crise da degradação do meio ambiente não tão atual, mas nunca antes tão preocupante, permitiu importantes momentos de reflexão interdisciplinar pelos participantes – a tomada de consciência ecológica –, trazendo a este estudo discussões de ordem epistemológica no domínio da ciência da terra, da ciência da vida e da natureza e das ciências sociais, integrando e inter-relacionando os diferentes campos disciplinares.20 Nos depoimentos dos profissionais de enfermagem, também, denota-se a preocupação com o coletivo, com o uso de agrotóxicos em produtos orgânicos consumidos pela coletividade, além de com a necessidade de preservação da água, do meio ambiente: Muitos agrotóxicos, mesmo dentro da vigilância, continuam fazendo mal. Ao comer frutas e verduras, de alguma forma, a gente está se alimentando de veneno (P1). A própria questão da água, do meio ambiente, do global... Todo mundo tentando encontrar formas, maneiras de mudar isso [...]. Tem gente, por exemplo, que previu muitos anos atrás o que está acontecendo agora [...]. Essa pessoa que falou isso, lá atrás, já quis abrir os olhos das pessoas [...], pensou no coletivo, pensou no mundo inteiro, só que ninguém acreditou, levou a sério. E agora está acontecendo, e as pessoas estão querendo correr atrás do prejuízo... (P.4) Explorando a ideia de um cuidado coletivo, os profissionais assinalam a integração do homem com a natureza nas aldeias, pelos indígenas, os quais a valorizam e cuidam dela para benefício mútuo: Numa aldeia [...] os índios se relacionam [...] vivem na natureza, e é um equilíbrio. Ele tira da natureza pra sobreviver da natureza e nem por isso a destrói. E eles vivem em harmonia. (P.6) Eles só tiram realmente o que eles precisam, o que eles necessitam, o contrário do que acontece hoje. (P.4) Tudo poderia ser melhor se a gente colaborasse [...], quando falam na preservação [...], no mundo [...], envolvendo toda a população, todo o mundo. Porque só uma andorinha não faz verão. (P.1) Salientam os profissionais de enfermagem que as melhorias dependem de ações e atitudes de cada indivíduo, e os resultados mais amplos dependem do envolvimento de uma maioria. Sinalizam o risco de escassez dos recursos naturais, se não preservados, e ressaltam que a não consciência e a ausência de ações para resguardar esses recursos pela coletividade remetem a prejuízos globais, razão por que merecem atenção coletiva. Nesse sentido, ações coletivas podem contribuir significativamente para amenizar, diminuir e até mesmo extinguir os desastres ambientais, dentre outros acontecimentos de cunho negativo oriundos da não preservação dos recursos naturais. Da mesma forma que o homem pode afetar negativamente o ambiente natural, também pode atingi-lo de forma positiva, pois a união de esforços pode abrandar ou superar problemas ambientais. Enquanto o ser humano considerar a natureza de forma fragmentada, somente com intenções de dominar e controlar, utilizando os recursos naturais em detrimento do social, problemas ambientais impedirão o caminhar para uma vida mais harmônica, mais sustentável.22 Na modernidade, o desenvolvimento urbano e industrial é responsável pela destruição de culturas rurais e milenares, acometendo diversas culturas regionais, que ainda resistem de forma desigual, como no caso das aldeias indígenas. O desenvolvimento tem destruído traços originais adaptados às condições ecológicas singulares. Entretanto, entende-se que toda evolução, criação ou ganho comportam algum grau de destruição, abandono ou perda.2 Por essa razão, como parte do ecossistema local e global, o ser humano, em suas dimensões humana, cultural, social, etc., precisa se descobrir e se sentir como um ser integrado e inter-relacionado com o ambiente, alimentando uma cultura planetária comum a todos, com espaço para a diversidade.1,2 Desse modo, “cada pessoa precisa descobrir-se como parte do ecossistema local e global, com os pés no chão e a cabeça aberta para o infinito”.17:135 Os participantes acrescentam às discussões a problemática da adulteração do leite, que no período do estudo foi notícia amplamente divulgada na mídia nacional.23,24 Foram misturados ao leite, por algumas cooperativas leiteiras, soda cáustica (hidróxido de sódio), água oxigenada (peróxido de hidrogênio) e citrato de sódio. Os participantes do estudo, tendo acompanhado as informações públicas sobre o evento, teceram os seguintes comentários: Soda cáustica e água oxigenada! A gente obriga o filho a tomar leite porque é bom pra saúde. (P.2) A marca se faz de sonsa e diz que não em nada no leite [...]. Adulteravam e embalavam. (P.9) Quantos inocentes, quantas crianças, famílias, claro que os adultos também, mas mais é a criança? [...] Mas com certeza ele (engenheiro responsável pela adulteração) não ingeriu? É frio e calculista. (P.1) Depreendem-se dos depoimentos a indignação dos participantes com os responsáveis – produtores do leite adulterado – e a preocupação com a saúde de crianças e adultos que consomem o produto. Além disso, as profissionais de enfermagem, como mães e atentas à alimentação e à nutrição dos seus filhos, sentiram-se enganadas, pois também ofereciam aos seus filhos e consumiam o leite visando à promoção da saúde, não remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 11-18, jan./mar., 2011 15 Significando o cuidado ecológico/planetário/coletivo/do ambiente à luz do pensamento complexo o contrário. Todavia, contraditoriamente à intenção, o produto pode ocasionar malefícios à própria saúde das mães e das crianças, visto que os componentes químicos adicionados ao leite podem causar efeitos danosos ao organismo, principalmente ao das crianças. Os profissionais questionam e apontam, enfaticamente, a ambição dos proprietários das cooperativas produtoras do leite adulterado. Essa ganância é motivada por interesses individualistas, em prol de interesses econômicos e de benefício particular de poucos, sem se importar com o outro, com milhares de pessoas que consomem o produto, como apontam as falas: Até aonde chega a ganância do ser humano? (P.1) Olha a irresponsabilidade de uma pessoa por ganância pelo dinheiro. Ele (químico responsável pela adulteração) colocou em risco a vida de milhares de pessoas, em benefício dele mesmo. Ele queria ganhar alguma coisa, não se importando com milhares de pessoas que iriam consumir aquele produto (leite). (P.2) Há uma ganância... Uma minoria querendo se beneficiar, não pensando no futuro das próximas gerações, no futuro do planeta; colocando em risco todo o planeta, todo o mundo; pensando só em si, só na ganância, na busca pelo dinheiro, pelo poder; pensando só no imediato; não pensando no futuro; não se preocupando com as pessoas. (P.4) O descuido e o descaso com os seres humanos e com a moral da vida pública estão implícitos nas falas, cujas situações expostas são marcadas pela corrupção de valores e interesses econômicos e financeiros, exaltando o interesse individual ou o interesse de poucos e ressaltando a ganância por dinheiro e por riqueza. A reflexão dialógica pelos participantes motivou o diálogo coletivo sobre as relações de cuidado e incitou o pensar sobre as ações de caráter individual e coletivo como seres humanos e profissionais de comunhão, de trocas, de cuidado, como anunciam as falas: Eu começo a refletir como estão as minhas atitudes hoje, que eu consegui, assim, captar um pouquinho de cada um [...]. Como eu vou reagir? Como eu posso reagir? Como profissional e como pessoa? Se eu cuido, eu tenho que cuidar das minhas relações também. Bacana isso. (P5) Encaixar o planeta na frase da responsabilidade social... A responsabilidade é do indivíduo, do que é de todos. (P.9) Pensando o que será do planeta? O que vai acontecer? Preocupando-se com o nós mesmos, assim? O que a gente faz pra isso? (P.4) Os depoimentos dos profissionais sinalizam preocupação e tensão com o futuro do planeta, do coletivo, das relações de cuidado. Entretanto, a reflexividade no estudo em questão – sobre o cuidado ecológico/ planetário/coletivo/do ambiente – tem o benefício da possibilidade de mudanças positivas na relação homem 16 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 11-18, jan./mar., 2011 e ambiente, na ética no cuidar e na preservação do planeta para as futuras gerações.9 Desse modo, fortalecese a ideia de que “para cuidar do planeta precisamos todos passar por uma alfabetização ecológica e rever nossos hábitos de consumo e desenvolver a ética do cuidado”.17:134 Conforme o exposto, a responsabilidade pelo cuidado ecológico/planetário/coletivo/do ambiente é de todos, da coletividade; uma responsabilidade social com outras pessoas, com o próprio planeta e consigo mesmo. Se não houver preocupação e reflexão associada à ação, absolutamente, não ocorrerão mudanças positivas e significativas de que o planeta, o ambiente e a coletividade necessitam. Questões como O que será do planeta? O que vai acontecer? (P.4) terão respostas cada vez mais subjetivas se essa responsabilidade não for assumida por todos os seres sociais que dependem do ambiente para a própria sobrevivência. Nesse sentido, os profissionais entendem que o respeito para com o outro, com o coletivo e a responsabilidade social são deveres de todos, a priori, de cada indivíduo, que, consequentemente, beneficiarão o coletivo. Assim eles se expressam sobre o assunto: A gente tem que ter respeito com o outro e com o nós. (P4) Responsabilidade social como sendo dever do eu, do outro e de todos nós. (P6) É que na verdade a gente pensa na gente. Não estamos pensando em nós. (P.1) O pessoal começou a ter noção do que estava jogado para o coletivo, do que estava jogado para o céu, para o mar, para o rio, para a terra. O pessoal já está se acordando nisso! Quando se está começando, sofre! Hoje o calor não é para um, é para todos! O individual está sofrendo dentro de um coletivo. Enquanto se pensava, que, ah, ele está poluindo lá... (P.9) Quanto mais eu estiver preparada, quanto mais eu estiver melhor e mais conhecimento, mais eu consigo pensar no coletivo. Não só no coletivo da minha família, do meu trabalho, mas até um coletivo maior assim, abrangendo mais. Pensar no mundo inteiro. (P.4) Com base no exposto, o cuidado ecológico/planetário/ coletivo/do ambiente se sustenta pela soma de ações individuais para o alcance de ações e resultados coletivos. A aglutinação dos esforços de cada um facilita a promoção da sustentabilidade ambiental, a minimização dos impactos negativos do desequilíbrio na relação entre o homem e o meio ambiente,25 bem como oportuniza relações humanas mais saudáveis, mais éticas e de respeito para com o outro. Desde que o homem reuniu esforços para se separar e se tornar superior à natureza, mediante a exploração e extração desta em seu benefício, também ocasionou grave desequilíbrio socioambiental, com inúmeras e significativas mudanças no processo de viver humano. Em razão disso, constata-se que “muito se perdeu da real natureza humana ligada intimamente ao ambiente do qual fazemos parte e do qual não devemos, nem podemos em essência, nos separar”.26:379) É nesse sentido que a atuação dos profissionais de saúde, em especial os da equipe de enfermagem, pode desenvolver uma visão ampliada do próprio cenário de atuação, com vista a contemplar a complexa teia vital que envolve o viver humano na sua relação com o meio ambiente.27 Para tanto, são fundamentais a participação e a preocupação dos atores sociais, dos profissionais da assistência, da educação e da pesquisa em enfermagem e da saúde no que tange ao cuidado na dimensão ecológico-planetária e coletiva. Pensar a complexidade das relações do universo significa considerar, conjuntamente, o certo e o incerto, o lógico e o contraditório, a ordem e a desordem, com as incertezas e certezas que permeiam todo o processo. Não existe pleno equilíbrio; é preciso, também, o desequilíbrio para organizar o movimento dinâmico do Universo. É preciso, principalmente, o exercício da consciência de si, do que está à sua volta e da interdependência das relações de si com o mundo, para que o cuidado humano, do ambiente, do coletivo aconteça.28 CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste estudo apontam-se a necessidade e a importância do pensar e do (re)pensar as práticas individuais cotidianas relacionadas à problemática ambiental, considerando que a conduta de cada indivíduo, que comporta os múltiplos aspectos sociais, culturais, ambientais, educacionais, religiosos, etc., condiciona a conduta de muitos outros, que, por fim, refletem o produto da coletividade. Assim, cada indivíduo, cada sociedade, é responsável pelo cuidado ecológico/ planetário/coletivo/do ambiente, por viver, integrar e compartilhar o mesmo ecossistema, dele dependendo para sua sobrevivência. Cuidar do planeta é cuidar do que é individual e do que é coletivo, concomitantemente. Cuidar o ambiente natural representa o cuidado de todos os seres humanos. A enfermagem, em seu núcleo de cuidados, é diretamente influenciada pelos costumes de uma sociedade e movida pelo fundamento básico da profissão: o cuidado. Todavia, na atualidade, urge aos cuidadores – profissionais de enfermagem – atenção para a perspectiva do cuidado em suas dimensões múltiplas, interativas, integrativas e inter-relacionais, visto que o ser humano vivencia uma relação interdependente, ou seja, precisamos uns dos outros para o cuidado coletivo e multidimensional. O cuidado do ecossistema também é um cuidado de enfermagem, que se preocupa e preserva a vida do homem e da natureza, visto que problemas ambientais também podem ser entendidos como potenciais problemas de saúde. Assim, somente com base numa visão integradora entre homem-natureza, saúdeambiente é que se pode estabelecer uma relação complexa de cuidados. Neste estudo, os profissionais demonstraram sensibilização, preocupação e engajamento ético, posicionando-se crítica e reflexivamente perante os problemas ecológicos/planetários/coletivos/do ambiente, oferecendo contribuições ímpares e relevantes sobre o tema, que possui significativo potencial científico. Entretanto, a enfermagem carece de maior sensibilização e participação na produção de estudos e pesquisas que envolvam a interface saúde e questões ambientais/ ambiente, uma extensão do cuidado humano, o que, provavelmente, será instigado por este estudo. O aprofundamento teórico sobre o tema se faz importante para atender às necessidades das práticas em saúde, principalmente na atuação da prevenção; para orientar a formulação de políticas públicas a priori, construídas com base na diagnose de problemas, que permitam orientar prioridades e definir estratégias para a melhor gestão em saúde, tendo a participação da enfermagem como aliada. REFERÊNCIAS 1. Morin E. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, repensar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand; 2000. 128 p. 2. Morin E, Kern AB. Terra-Pátria. 5ª ed. Porto Alegre (RS): Sulina; 2005. 181 p. 3. Morin E. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre (RS): Sulina; 2006. 120 p. 4. Lima GFC. Consciência ecológica: emergência, obstáculos e desafios. Rev Eletrônica Política e Trabalho. 1998 set; 139-54. [Citado 2010 mar. 17]. Disponível em: http://www.cefetsp.br/edu/eso/ecologiacritica.html 5. Ellis BR, Wilcox BA. The ecological dimensions of vector-borne disease research and control. 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Participaram do estudo 17 crianças, internadas na Unidade de um Hospital da Rede Estadual do Ceará, de maio a junho de 2009. O instrumento de coleta de dados constituiu-se de um roteiro elaborado segundo domínios apresentados pela Taxonomia II da North American Nursing Diagnosis Association (NANDA) e das informações dos prontuários do paciente. As informações levantadas determinaram as respostas humanas, as características definidoras e os fatores relacionados e de risco. Foram identificados 13 diagnósticos de enfermagem diferentes, 21 características definidoras e 16 fatores relacionados. Mediante a identificação dos diagnósticos de enfermagem nessa clientela, os enfermeiros podem propor intervenções fundamentadas e específicas, proporcionando a implementação de ações eficazes e imediatas para a resolução dos problemas identificados. Assim, este estudo fornece uma base para a sistematização do cuidado de enfermagem ao paciente em período pós-operatório de apendicectomia. Palavras-chave: Diagnóstico de Enfermagem; Criança; Apendicectomia. ABSTRACT This is a descriptive-exploratory study whose goal was to determine the profile of nursing diagnosis and to identify the defining characteristics, related factors and risk factors in children during appendectomy post-surgery. Seventeen children admitted to a Public Hospital in Ceará were observed from May to June 2009. The instrument of data collection was the patient’s medical reports and a guide elaborated according to the Taxonomy II from the North American Nursing Diagnosis Association (NANDA). The information obtained determined the human answers, the defining characteristics as well as the related and risk factors. 13 different nursing diagnosis, 21 defining characteristics and 16 related factors were identified. Through the nursing diagnosis identification in the patients, the nurses can recommend specific interventions and can provide the implementation of effective and immediate actions to solve the identified problems. This study offers thus a basis to nursing care systematization to patients in appendectomy post-surgery. Key words: Nursing Diagnosis; Children; Appendectomy. RESUMEN Estudio exploratorio descriptivo realizado con el objetivo de determinar el perfil de los diagnósticos de enfermería e identificar las características de definición , los factores relacionados y de riesgo en niños en postoperatorio de apendicectomía. Participaron del estudio 17 niños internados en la unidad de un hospital estatal del Estado de Ceará/ Brasil, de mayo a junio de 2009. Se utilizó como herramienta de recogida de datos un cuestionario estructurado en conformidad con las directrices de Taxonomía II, de la North American Nursing Diagnosis Association (NANDA) y la ficha médica del paciente. Las informaciones recogidas determinaron las respuestas humanas, las características de definición y los factores relacionados y de riesgo. Se identificó un total de 13 diagnósticos de enfermería, 21 características de definición y 16 factores relacionados. Mediante la identificación de los diagnósticos de enfermería de los pacientes, los enfermeros pueden proponer intervenciones fundamentadas y específicas que promuevan la puesta en práctica de acciones eficaces e imediatas para resolver los problemas identificados. El presente estudio ofrece, entonces, base para sistematizar la atención de enfermería al paciente en el postoperatorio de apendicectomía. Palabras clave: Diagnósticos de Enfermería; Niños; Apendicectomía. 1 2 3 4 Enfermeira. Especialista em Centro de Terapia Intensiva (UECE). Enfermeira assistente do Pós-Operatório Cardíaco Pediátrico do Hospital de Messejana Dr. Carlos Alberto Studart Gomes /Serviço Pré-Hospitalar SAMU-Fortaleza. Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora adjunta do Departamento de Enfermagem da Faculdade de Farmácia, Odontologia e Enfermagem da Universidade Federal do Ceará (DENF/FFOE-UFC). E-mail: [email protected]. Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Coordenadora de Curso da Faculdade Metropolitana da Grande Fortaleza. Professora adjunta da UECE. Enfermeira graduada pela Faculdade Metropolitana de Fortaleza. Endereço para correspondência – Rua Inácio Vasconcelos nº 221 Messejana, Fortaleza-CE, Brasil. CEP: 60830-100. E-mail: [email protected]. remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 19-24, jan./mar., 2011 19 Diagnóstico de enfermagem de crianças em pós-operatório de apendicectomia INTRODUÇÃO A enfermagem vem elaborando métodos, como o processo de enfermagem para uma prática clínica eficaz, que representam uma tentativa de mudança da postura de atividade caritativa, eminentemente intuitiva e empírica para a adoção de uma assistência respaldada em conhecimentos científicos.1 A discussão sobre o processo de enfermagem não é recente. Adquiriu resistência em meados da década de 1950, nos Estados Unidos, com a finalidade de desenvolver e organizar os conhecimentos de enfermagem. Várias teorias, descritas por diversos autores, surgiram para orientar a assistência de enfermagem no atendimento às necessidades humanas e constituíram processo de enfermagem próprio.2 Com a aprovação da lei do exercício profissional de enfermagem, que determina que a prescrição de enfermagem é privativa do enfermeiro, o processo de enfermagem tornou-se fundamental para as atividades assistenciais, implicando melhoria da qualidade da assistência, como também na área de ensino, incentivando a pesquisa e demonstrando a importância desta para o futuro profissional.2 O uso do diagnóstico na prática de enfermagem pode refletir em melhor assistência aos clientes que recebem constantemente os cuidados de enfermagem, pois exige do enfermeiro um pensar crítico e um agir reflexivo e sistematizado. O desafio da enfermagem tem sido, então, a construção do conhecimento dos diagnósticos de enfermagem em populações específicas, como aquelas constituídas por crianças em pós-operatório de apendicectomia.3 Vale destacar que a apendicite é uma doença frequente com alta incidência em países como Estados Unidos, Dinamarca e Inglaterra. Estima-se que cerca de 7% da população desenvolverá apendicite em algum momento da vida. Sua maior ocorrência encontra-se no sexo masculino, na razão de 3:2, especialmente em crianças de 4 a 15 anos, sendo rara nos dois primeiros anos de vida.4 É a doença que mais comumente requer cirurgia abdominal de emergência na criança, constituindo a principal causa de abdômen agudo cirúrgico na criança maior de 2 anos de idade, e responsável por cerca de 10% de todas as admissões em salas de emergências pediátricas.5 mais rápida, dado o pequeno tamanho das incisões, além de melhor efeito estético. Além disso, a cirurgia videolaparoscópica permite a inspeção de toda a cavidade abdominal, excluindo-se, assim, outras causas de dor abdominal que não a apendicite.6 O tempo de internação varia de 24 a 72 horas em média, dependendo da recuperação do paciente e do grau de contaminação da cavidade abdominal.5 A principal complicação da apendicite é a perfuração do apêndice, o que pode acarretar a peritonite ou o abscesso. A incidência de perfuração é de 10% a 32%. É mais elevada em crianças jovens e nos idosos. Em geral, a perfuração ocorre 24 horas depois do início da dor. Os sintomas incluem febre de 37,7° C ou mais, aspecto tóxico e hipersensibilidade ou dor abdominal continuada.7 A identificação de condições clínicas apresentadas no período pré-operatório de crianças com apendicite, como graus variados de desidratação, toxemia, complicações respiratórias e anorexia, contribuirão para inferência diagnóstica e determinação do cuidado pós-operatório. Vale ressaltar que a determinação de diagnósticos de enfermagem acurados é essencial para a elaboração de intervenções eficazes, bem como sua avaliação constante para investigação e prevenção de complicações ou efeitos indesejáveis provenientes do procedimento cirúrgico propriamente dito. Cabe ao enfermeiro avaliar suas intervenções de maneira precisa para uma prestação da assistência de qualidade, minimizando intercorrências. Destaque-se que, apesar do progresso tecnológico, a apendicite continua sendo uma importante causa de mortalidade e morbidade, na qual o êxito do tratamento depende de cuidados de enfermagem específicos. Os objetivos com este estudo de determinar o perfil dos diagnósticos de enfermagem e identificar as características definidoras, bem como os fatores relacionados e de risco de crianças no pós-operatório de apendicectomia, se justificam, uma vez que são escassos os estudos nesse sentido, e eles podem contribuir para a acurácia dos diagnósticos de enfermagem nesse grupo. METODOLOGIA A etiopatogenia da doença pode ser atribuída a fatores como obstrução mecânica, dieta inadequada de fibras, suscetibilidade familiar, estrutura populacional e patógenos diversos.4 A abordagem exploratória e descritiva foi adotada para este estudo, uma vez que ela possibilita que o pesquisador observe, descreva e classifique características de populações ou fenômenos específicos ou até mesmo estabeleça relações entre variáveis.8 O tratamento da apendicite é a retirada do apêndice, podendo ou não ser seguido de antibioticoterapia, dependendo do aspecto do apêndice no intraoperatório. Atualmente, o método indicado para a realização da apendicectomia é a cirurgia videolaparoscópica, realizada mediante três pequenas incisões, com o auxílio de um monitor. Esse tipo de cirurgia permite uma recuperação O estudo foi realizado em um hospital infantil da rede pública do Ceará, considerado de referência no atendimento a crianças. Ao longo dos anos, o hospital foi credenciado pelo Ministério da Saúde para realizar procedimentos de alta complexidade em oncologia, neurocirurgia, cirurgia cardíaca e cirurgia craniofacial. Possui 287 leitos credenciados ao Sistema Único de 20 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 19-24, jan./mar., 2011 Saúde (SUS), sendo 237 hospitalares e 50 domiciliares. O corpo clínico é composto por quase 300 médicos, 133 enfermeiros e 483, entre técnicos e auxiliares, entre servidores do Estado e terceirizados. A unidade clínica, local da coleta de dados, é uma seção que recebe crianças provenientes de todo o Estado que precisam se submeter a um procedimento cirúrgico. Essa unidade é constituída por 44 leitos, dos quais 8 são destinados a pacientes com apendicite. Em 2010, a unidade recebeu 793 internamentos, dos quais 178 foram pacientes com apendicite, que apresentaram média de internação de 6,3 dias. A população do estudo foi constituída por crianças com idade entre 5 e 10 anos, submetidas a apendicectomia. Estabeleceu-se que crianças hemodinamicamente instáveis no período da coleta não fariam parte do estudo. A amostra do estudo foi delimitada pelo tempo para coleta de dados e composta por 17 crianças no pósoperatório de apendicectomia internadas no período de maio a junho de 2009. O instrumento de coleta de dados foi elaborado segundo os domínios apresentados pela Taxonomia II da North American Nursing Diagnosis Association (NANDA) permitindo, assim, a coleta de dados subjetivos e objetivos da criança. Foi incluído um roteiro de exame físico da criança e entrevista pertinente à problemática com o responsável. Utilizou-se, também, o prontuário do paciente para complementar as informações. As crianças foram avaliadas somente quando se encontravam hemodinamicamente estáveis, sem dor e no próprio leito. As informações recolhidas determinaram as respostas humanas, as características definidoras e os fatores relacionados e de risco, inferidos segundo o processo de raciocínio diagnóstico9 com base na taxonomia II da NANDA.10 Essas informações foram compiladas em um banco de dados no programa Excel. Os dados foram apresentados em tabelas e analisados com base nas frequências absolutas, percentuais e medidas de tendência central e dispersão. O projeto foi encaminhado ao Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital da rede Estadual do Ceará sobre o registro nº 002/09, buscando atender aos aspectos contidos na Resolução nº 196/96, sobre pesquisa com seres humanos, do Conselho Nacional de Saúde/ Ministério da Saúde. Os responsáveis pelas crianças participantes do estudo foram esclarecidos sobre seus objetivos, bem como conscientizados do sigilo conferido às informações e identidades. A coleta foi realizada após a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.11 TABELA 1 – Distribuição das crianças avaliadas, segundo sexo, idade e procedência. Fortaleza-CE Brasil – 2009 Variáveis Nº % Masculino 14 82,4 Feminino 03 17,6 Total 17 100,0 5-7 09 52,9 8-10 08 47,1 Total 17 100,0 Interior 06 35,3 Capital 11 64,7 Total 17 100,0 Sexo Idade Média 7,65 DP 1,53 Legenda: KS – Kolmogorov-Smirnov; DP – desvio-padrão Verificou-se que 14 crianças eram do sexo masculino (82,4%), com idade média de 7,65 anos (±1,53 anos), e 52,9% tinham idade entre 5 e 7 anos. Em relação à procedência, observou-se que 06 (35,3%) pacientes eram do interior e 11 (64,7%) da capital. Com dados obtidos na entrevista e no exame físico, foi possível inferir os diagnósticos de enfermagem em crianças no pós-operatório de apendicectomia, dentre s quais identificou-se um total de 13 diagnósticos de enfermagem diferentes, 21 características definidoras e 16 fatores relacionados (Tabela 2). TABELA 2 – Distribuição dos diagnósticos de enfermagem, características definidoras e fatores relacionados identificados em crianças no pósoperatório de apendicectomia. Fortaleza-CE, Brasil – 2009 Variáveis Diagnósticos de enfermagem Características definidoras Relacionados Para explorar o contexto do estudo, buscou-se caracterizar as crianças quanto ao sexo, à idade e à procedência, conforme demonstrado na TAB. 1: KS (valor p) 0, 71 (0,68) Procedência Fatores RESULTADOS Estatística Mediana Média DP KS (p) 6,00 6,41 1,41 0,83 (0,48) 8,00 7,88 1,40 0,74 (0,63) 4,00 4,65 1,69 1,22 (0,10) A média de diagnósticos de enfermagem identificada nas crianças em pós-operatório de apendicectomia foi de 6,41, remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 19-24, jan./mar., 2011 21 Diagnóstico de enfermagem de crianças em pós-operatório de apendicectomia com desvio-padrão de 1,41. A média das características definidoras foi de 7,88 por paciente, sendo o desviopadrão de 1,409. E os fatores relacionados tiveram uma média de 4,00, com desvio-padrão de 1,69. Os diagnósticos de enfermagem, as características definidoras e os fatores relacionados de acordo foram organizados com os percentis 25, 50 e 75. Na discussão dos achados, destacaram-se os diagnósticos de enfermagem que se apresentaram acima do percentil 75. TABELA 3 – Distribuição dos diagnósticos de enfermagem presentes em crianças no pós-operatório de apendicectomia. Fortaleza-CE, Brasil – 2009 Diagnósticos de enfermagem Nº % 1. Integridade da pele prejudicada 17 100,0 2. Risco de desequilíbrio na temperatura corporal 17 3. Risco de volume de líquidos deficiente 17 4. Nutrição desequilibrada: menos do que as necessidades corporais 13 TABELA 4 – Distribuição das características definidoras presentes em crianças no pós-operatório de apendicectomia. Fortaleza-CE, Brasil – 2009 Características definidoras Nº % 1. Falta de interesse na comida 13 61,9 2. Peso corporal 20% abaixo do esperado 13 61,9 3. Relato verbal de dor 10 47,6 4. Expressão facial 09 42,8 5. Capacidade prejudicada de percorrer distâncias necessárias 08 38,0 6. Dor abdominal 07 33,3 P75 7. Posição para evitar dor 07 33,3 100,0 8. Relato de dificuldade para adormecer 06 28,5 9. Relato de dificuldade para permanecer dormindo 06 28,5 100,0 10. Mucosas pálidas 05 23,8 11. Aumento na temperatura corpora acima dos parâmetros normais 04 19,0 12. Calor ao toque 04 19,0 13. Dispnéia 03 14,2 76,5 P75 5. Dor aguda 11 64,7 6. Deambulação prejudicada 08 47,1 14. Mudança no padrão intestinal 02 9,5 7. Risco de infecção 07 41,2 15. Estado de alerta aumentado 02 9,5 8. Insônia 06 35,5 16. Dilatação pupilar 02 9,5 9. Hipertermia 04 23,5 10. Medo 03 17,6 P50 P50 17. Relato de náuseas 02 9,5 18. Sensação de tentar vomitar 02 9,5 11. Constipação 03 17,6 19. Abdome distendido 01 4,7 12. Náusea 02 11,8 20. Volume de fezes diminuído 01 4,7 13. Padrão respiratório ineficaz 01 5,9 21. Uso de musculatura acessória 01 4,7 P25 Legenda: P25 – percentil 25, P50 – percentil 50, P75 – percentil 75 Entre os diagnósticos de enfermagem identificados, risco de volume de líquidos deficiente (100%), risco de desequilíbrio na temperatura corporal (100%), integridade da pele prejudicada (100%) e nutrição desequilibrada – menos do que as necessidades corporais (76,5) apresentaram maior número de ocorrências. Náusea (11,8%) e padrão respiratório ineficaz (5,9%) ocorreram em menor frequência. 22 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 19-24, jan./mar., 2011 P25 Legenda: P25 – percentil 25, P50 – percentil 50, P75 – percentil 75 Das 21 características definidoras identificadas, falta de interesse na comida (61,9%), peso corporal 20% abaixo do esperado (61,9%), relato verbal de dor (47,6%), expressão facial (42,8%), capacidade prejudicada de percorrer distâncias necessárias (38,0%) e dor abdominal (33,0%) apareceram com maior frequência. Enquanto abdome distendido (4,7%), volume de fezes diminuído (4,7%) e uso de musculatura acessória (4,7 %) obtiveram menores frequências. TABELA 5 – Distribuição dos fatores relacionados ou de risco presentes nas crianças avaliadas. FortalezaCE, Brasil – 2009 Fatores relacionados / Risco Nº % 1. Procedimentos cirúrgicos 17 100,0 2. Desvios que afetam a ingestão de líquidos 17 100,0 3. Fatores que influenciam as necessidades de líquidos 17 100,0 4. Dor 16 94,1 P75 5. Imobilização física 13 76,4 6. Estado nutricional desequilibrado 13 76,4 7. Agentes lesivos biológicos e físicos 11 64,7 8. Fatores biológicos 10 58,8 9. Defesas secundárias inadequadas 07 41,1 10. Hipertermia 04 23,5 11. Doença 04 23,5 12. Fatores psicológicos 03 17,6 03 17,6 14. Falta de familiaridade com experiência ambiental 03 17,6 15. Separação do sistema de apoio 03 17,6 16. Atividade física insuficiente 03 17,6 Em face dos resultados mencionados, as crianças no pós-operatório imediato de apendicectomia ingressam na unidade de cuidados intensivos apresentando algumas peculiaridades provenientes da situação clínica, dentre as quais: a permanência do jejum iniciado no pré-operatório, alterações na temperatura corporal em decorrência de possíveis complicações por infecções e a presença da incisão cirúrgica, na qual comumente se observa a inclusão de drenos para evitar o risco de peritonite. Relacionados a esses problemas, nesta investigação, alguns diagnósticos de enfermagem foram observados, dentre os quais o risco de volume de líquidos deficiente, o risco de desequilíbrio na temperatura corporal, a integridade da pele prejudicada a nutrição desequilibrada: menos do que as necessidades corporais. O diagnóstico de enfermagem “risco de volume de líquidos deficientes” é definido pelo risco de desidratação vascular, celular e intracelular.10 Frequentemente, nessa situação, a desidratação em crianças pode se instalar por uma combinação de duas causas: vômitos e perda de líquidos em excesso por meio da sudorese provocada pela febre13. O vômito é um sinal clínico frequentemente encontrado em crianças em pós-operatório que determina a instalação aguda de distúrbios hidroeletrolíticos. Ele pode ser agravado quando a ingesta oral da criança compensa apenas parcialmente as perdas anormais. As crianças mais jovens apresentam maior necessidade de água e são mais vulneráveis às alterações do equilíbrio hidroeletrolítico.13 P50 13. Medo vários estudos evidenciaram maior proporção do sexo masculino em grupos de pacientes submetidos a apendicectomia.5 P25 Legenda: P25 – percentil 25, P50 – percentil 50, P75 – percentil 75. Procedimentos cirúrgicos (100,0%), desvios que afetam a ingestão de líquidos (100,0%), fatores que influenciam as necessidades de líquidos (100,0%) e dor (94,1%) foram os que apresentaram maior frequência entre os 16 fatores relacionados. DISCUSSÃO Neste estudo, houve o predomínio do sexo masculino, com idade média de 7,65 anos (±1,53 ano). Estudo sobre a caracterização de 436 pacientes submetidos a apendicectomia, também, encontrou frequência maior do sexo masculino12. Apesar de não se buscar uma relação de causa e efeito entre gênero e cirurgia, As perdas hídricas, associadas ao efeito dos medicamentos anestésicos e à ruptura, muitas vezes presente do apêndice no período pré-operatório, podem ocasionar um risco de desequilíbrio na temperatura corporal nas crianças. Esse fato é definido como o risco de não conseguir manter a temperatura corporal nos parâmetros normais.10 Na evolução habitual do estado de saúde da criança no período pós-operatório de apendicectomia ou mesmo no indício precoce de uma infecção aguda, a febre pode persistir em decorrência das complicações geradas, possivelmente, por infecções cirúrgicas ou até mesmo por perfuração do apêndice. Até dois ou três dias, os episódios febris podem ser consequentes apenas de uma reação à agressão cirúrgica.14 Outro diagnóstico de enfermagem que apresentou predomínio entre as crianças foi a “integridade da pele prejudicada”, o qual pode ser definido como epiderme e/ou derme alterada.10 Neste estudo, esse diagnóstico se caracterizou pela invasão de estruturas do corpo, destruição das camadas da pele (derme) e rompimento da superfície pele (epiderme). Especificamente, a presença desse diagnóstico pode estar relacionada à descontinuidade da pele decorrente da incisão cirúrgica, a sondas, drenos e cateteres e à imobilização física15. remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 19-24, jan./mar., 2011 23 Diagnóstico de enfermagem de crianças em pós-operatório de apendicectomia Nutrição desequilibrada: menos do que as necessidades corporais é outro diagnóstico frequentemente encontrado em pacientes em pós-operatório. As crianças operadas de apendicectomia comumente são submetidas à dieta zero por um período que persiste desde o pré-operatório. Somam-se a isso os efeitos colaterais dos medicamentos anestésicos que contribuem para a instalação de náuseas e vômitos no período pós-operatório, adiando o início da primeira dieta. Dessa forma, o diagnóstico “nutrição desequilibrada: menos do que as necessidades corporais” esteve presente nessa clientela, definido como uma ingestão insuficiente de nutriente para satisfazer as necessidades metabólicas. 10 A presença desse diagnóstico de enfermagem pode influenciar no aparecimento de outros diagnósticos, como a “integridade da pele prejudicada”, visto que este atua como um fator que fomenta cicatrização lenta da incisão cirúrgica. Com base nos diagnósticos identificados, o enfermeiro poderá incluir como metas dos cuidados de enfermagem às crianças no pós-operatório de apendicectomia o alívio à dor, o impedimento do déficit de volume hídrico, a redução da ansiedade, a contribuição para eliminação da infecção causada pela ruptura, pelo potencial ou real do trato gastrintestinal, a manutenção da integridade cutânea e o alcance de uma nutrição ótima.13 CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste estudo, foram identificados 13 diferentes diagnósticos de enfermagem encontrados em crianças no pós-operatório em apendicectomia, sendo 11 do tipo real e 2 de risco. Dentre os diagnósticos de enfermagem identificados, risco de volume de líquidos deficiente (100%), risco de desequilíbrio na temperatura corporal (100%), integridade da pele prejudicada (100%) e nutrição desequilibrada: menos do que as necessidades corporais (76,5%) apresentaram maior número de ocorrências. Esses diagnósticos foram analisados, considerando-se os fatores relacionados, as características definidoras ou fatores de risco (de acordo com o tipo de diagnóstico) e os fatores associados à cirurgia de apendicectomia. Conhecer os diagnósticos de enfermagem dos pacientes no período pós-operatório de apendicectomia possibilita aos enfermeiros que atuam nos centros de recuperação pósoperatória planejar individualmente o cuidado prestado a essa clientela. Mediante a identificação dos diagnósticos de enfermagem nessa clientela, os enfermeiros podem propor intervenções fundamentadas e específicas, proporcionando a implementação de ações eficazes e imediatas para a resolução dos problemas identificados. Assim, neste estudo fornece-se uma base para a sistematização do do cuidado de enfermagem ao paciente em período pós-operatório de apendicectomia. REFERÊNCIAS 1. Gentil AC, Passos CM, Campos MD, Costa RSM, Camargos AT. 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Neste estudo tem-se como objetivos caracterizar os pacientes com ferida cirúrgica abdominal e pélvica tratados no setor de Estomaterapia de um serviço ambulatorial de um hospital em Belo Horizonte e comparar os fatores identificados nos pacientes com os citados na literatura como predisponentes às complicações na ferida cirúrgica. Trata-se de um estudo retrospectivo-descritivo, realizado no ambulatório com amostra de 22 pacientes portadores de ferida cirúrgica abdominal ou pélvica complexa. Houve predomínio de mulheres, idade variando de 22 a 79 anos, com sobrepeso ou obesidade. Todos os pacientes apresentaram deiscência na ferida cirúrgica com infecção associada em 63,6%, mais da metade das lesões apresentou área superior a 20 cm2 e a profundidade variou de 0,1 cm a 6,8 cm. A maioria recebeu alta com a ferida curada, em média, após três meses e dez dias de tratamento. Como descrito na literatura, os resultados obtidos confirmaram que o sobrepeso e a obesidade são fatores que contribuem para o desenvolvimento de infecção. Destaque-se, também, que a infecção e a deiscência foram os principais fatores que caracterizaram a ferida cirúrgica complexa. Palavras-chave: Deiscência da Ferida Operatória; Infecção da Ferida Operatória. ABSTRACT Despite technological advances, patients submitted to surgical anesthesia procedures still suffer from surgical wound complications. These wounds are classified as acute and are made so as to reduce the risk of complications. They tend to retreat spontaneously and completely within an estimated time. However, they can become complex and chronic when there are complications in the healing process. The objectives of this study were to characterize patients with an abdominal and pelvic surgical wound treated in the Stomal Therapy Division in an ambulatory care department of a Belo Horizonte hospital and to compare the factors identified in patients predisposed to complications in the surgical wound with those reported in the medical literature. This is a retrospective, descriptive study taken at the ambulatory care with a sample of 22 patients presenting a complex abdominal or pelvic surgical wound. These were mainly women between 22 and 79 years old, overweight or obese. The patients had surgical wound dehiscence associated with infection in 63.6%. More than a half of the lesions displayed an area greater than 20 cm2 and the wound depth ranged from 0.1 cm to 6.8 cm. Most patients were discharged with the wound healed in about 3 months and 10 days of treatment. The results confirmed what is described in the medical literature, that is, overweight and obesity contribute to the development of infection. Infection and dehiscence were identified as the complex surgical wound main complication. Key words: Surgical Wound Dehiscence; Surgical Wound Infection. Resumen Aún a pesar de los avances tecnológicos pacientes sometidos a procedimientos anestésico-quirúrgicos suelen enfrentar complicaciones de heridas operatorias. Tales heridas están clasificadas como agudas y se realizan de modo a disminuir el riesgo de complicaciones. Tienen la tendencia a la regresión espontánea y completa dentro de un período esperado. Sin embargo, pueden transformarse en complejas y crónicas cuando hay complicaciones en el proceso de cicatrización. El objetivo del presente estudio fue de caracterizar a los pacientes con herida quirúrgica abdominal y pélvica tratados en el sector Estomaterapia de un servicio ambulatorial y comparar los factores identificados en los pacientes con aquéllos citados en la literatura como con predisposición a complicaciones de herida quirúrgica. Se trata de un estudio retrospectivo descriptivo realizado en ambulatorio con una muestra de 22 pacientes con heridas quirúrgico abdominal o pélvica complejas. Hubo predominio principalmente en mujeres con edades entre 22 y 79 años, con sobrepeso u obesidad. Todos los pacientes presentaron dehiscencia de herida quirúrgica asociada a infección en el 63,6%, más de la mitad de las lesiones mostró una superficie superior a los 20 cm2 con profundidad entre 0,1 cm y 6,8 cm. La mayoría fue dada de alta con la herida curada, en promedio, después de 3 meses y 10 días de tratamiento. Como descritos en la literatura, los resultados confirmaron que el sobrepeso y la obesidad son factores que contribuyen al desarrollo de la infección. También se observa que la infección y la dehiscencia son los principales factores que caracterizan la herida quirúrgica compleja. Palabras clave: Dehiscencia de Herida Operatoria; Infección de Herida Operatória. 1 2 Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Associada do Departamento Enfermagem Básica da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. Enfermeira estomaterapeuta Ti-SOBEST. Doutora em Enfermagem. Professora adjunta do Departamento de Enfermagem Básica da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. Endereço para correspondência – Escola de Enfermagem da UFMG. Campus Saúde, Avenida Alfredo Balena, 190, sala 216, bairro Santa Efigênia, Belo HorizonteMG. CEP: 30.130-100. Fone: (31) 3409-9177. E-mail: [email protected]. remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 25-33, jan./mar., 2011 25 Tratamento ambulatorial de pacientes com ferida cirúrgica abdominal e pélvica INTRODUÇÃO Em resposta ao ato anestésico-cirúrgico, o organismo desencadeia o processo de reparação tecidual, considerado extremamente complexo, composto de uma série de estágios interdependentes e simultâneos, envolvendo fenômenos químicos, físicos e biológicos. Vários processos celulares contínuos e imbricados contribuem para a restauração da ferida, tais como proliferação celular, produção de colágeno, epitelização e reorganização das fibras de colágeno, culminando com a restauração da lesão. As feridas cirúrgicas são classificadas como agudas e, por serem intencionais, são planejadas e realizadas de modo a reduzir os riscos de complicações. Têm tendência à regressão espontânea e completa, em um prazo esperado. No entanto, podem tornar-se complexas quando apresentam complicações no processo de cicatrização e crônicas, por terem uma longa duração.1 Quanto ao tipo de cicatrização, as feridas que apresentam justaposição de bordas cicatrizam por primeira intenção e quando não é possível aproximá-las, a cicatrização ocorre por segunda intenção. Essas demandam mais tempo para cicatrizar, uma vez que existe espaço morto entre as bordas e necessita de grande formação de tecido de granulação para o seu preenchimento até que a contração e a epitelização ocorram.2 Outros fatores podem também influenciar no processo cicatrização, tais como condições gerais do paciente, tipo de afecção cirúrgica e procedimento técnico adotado. Podem surgir complicações sistêmicas ou locais que necessitam de cuidados específicos. Dentre as complicações mais frequentes, destacam-se o hematoma, o seroma, a infecção e a deiscência.1 Nos últimos anos, apesar dos avanços tecnológicos ocorridos na assistência prestada aos pacientes submetidos ao ato anestésico-cirúrgico, tais como o aperfeiçoamento das drogas anestésicas, trombolíticas e o aumento do espectro dos antibióticos, refinamento da técnica cirúrgica e modernização dos equipamentos, ainda ocorrem complicações nas feridas operatórias. Essas complicações são identificadas em pacientes com ferida cirúrgica atendidos em diversos serviços de saúde, inclusive nos Programas de Estratégia da Família, Unidades Básicas de Saúdes e ambulatórios. Os pacientes internados que são submetidos à cirurgia do sistema gastrintestinal em um hospital universitário de grande porte de Belo Horizonte-MG, quando apresentam complicações na ferida cirúrgica, são encaminhados, após alta hospitalar, para o setor de Estomaterapia do referido hospital, para continuar o tratamento da ferida. Esse serviço foi criado em 1998, para atender os pacientes com lesões crônicas de diversas etiologias, inclusive as decorrentes de cirurgias complexas. A assistência é prestada por um enfermeiro docente e um assistencial, que atuam amparados por um protocolo de prevenção e tratamento de lesão. Os pacientes recebem alta do serviço quando ocorre a epitelização completa da lesão. 26 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 25-33, jan./mar., 2011 O serviço atendeu 50 pacientes com feridas cirúrgicas complexas decorrentes de procedimentos realizados nas regiões da cabeça, pescoço, mamas, tórax e membros inferiores, de janeiro de 2006 a janeiro de 2007. No grupo dos pacientes com ferida cirúrgica no serviço, destacam-se os submetidos à cirurgia abdominal e pélvica, dado o número de encaminhamentos recebido. No entanto, até o momento não se conhecem os fatores apresentados por essa clientela predisposta às complicações nas feridas cirúrgicas e o resultado obtido com o tratamento implementado pelo serviço. Para sanar a lacuna, as pesquisadoras decidiram realizar este estudo com o objetivo de identificar os fatores sistêmicos e locais que predispõem essa clientela às complicações na ferida cirúrgica e os resultados obtidos com o tratamento. Os resultados encontrados nortearão os profissionais envolvidos na prática clínica para atuarem preventivamente, reduzindo ou eliminando os possíveis fatores de risco. O estudo, também, poderá subsidiar a revisão de protocolos assistenciais para pacientes cirúrgicos. OBJETIVOS Caracterizar os pacientes com ferida cirúrgica abdominal e pélvica tratados no setor de Estomaterapia de um serviço ambulatorial. Comparar os fatores identificados nos pacientes com os citados na literatura como predisponentes para as complicações na ferida cirúrgica. METODOLOGIA Trata-se de um estudo retrospectivo, exploratório e descritivo, realizado no setor de Estomaterapia ambulatorial de um hospital universitário em Belo Horizonte-MG. Todos os 22 pacientes portadores de ferida cirúrgica complexa abdominal ou pélvica, atendidos no período de janeiro de 2006 a janeiro de 2007, compuseram a amostra. Destaque-se que cada paciente apresentava somente uma lesão. Os dados foram coletados pelas autoras utilizando-se um formulário para registrá-los, digitados em planilha do Excel, procedendo-se, em seguida, à análise estatísticodescritiva. Os resultados foram discutidos, amparados na literatura específica. O projeto de pesquisa foi submetido ao Comitê de Ética da instituição e aprovado sob o Parecer nº ETIC094/00. Destaque-se que a pesquisa respeitou os termos da Resolução nº 196, de 10 de outubro de 1996, do Conselho Nacional de Saúde. Os pacientes que concordaram em participar assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). RESULTADOS A amostra de pacientes deste estudo, em sua maioria (72,7%), constituiu-se de mulheres, com a idade variando entre 22 e 79 anos. Tendo como ponto de corte 45 anos, os pacientes estavam distribuídos de forma equitativa, ou seja, 50% tinham mais de 45 anos e igual percentual com menos de 45 anos. Destaque-se que 31,8% tinham 60 anos e mais. 46,4% por câncer nos órgãos gastrintestinal e pélvico e 63,6% decorrentes de afecções benignas. Destaquese que, dessas, as complicações mais frequentes foram decorrentes de hernioplastia, parto cesárea e histerectomia. Um fator importante no processo de cicatrização é o índice de massa corporal. A descrição desse índice de massa na população estudada está apresentada no GRÁF. 1. Todos os pacientes foram admitidos no serviço com deiscência na ferida cirúrgica e, desses, 63,6% haviam apresentado infecção no sítio cirúrgico. Quanto ao índice de massa corporal, 14(63,7%) estavam com sobrepeso ou obesidade, fator importante para ocorrência de deiscência, e 13,7% com baixo peso. As características das feridas no primeiro dia em que foram avaliadas estão descritas na TAB. 2. Os dados referentes aos fatores relacionados ao procedimento cirúrgico estão apresentados na TAB. 1. Todos os pacientes se encontravam no pós-operatório de diversas cirurgias com abordagem abdominal, sendo Na avaliação inicial, as feridas apresentavam área que variou de 1,4 cm2 a 376,1 cm2 e média de 48,0 cm2. Mais da metade das lesões (59,1%) apresentou área superior a 20,0 cm2. A profundidade variou de 0,1 cm a 6,8 cm, com média de 2,63 cm, e a maioria (81,8%) tinha profundidade superior a 1,0 cm. GRÁFICO 1 – Distribuição dos pacientes com ferida cirúrgica complexa conforme o índice de massa corporal. Belo Horizonte-MG – 2008. TABELA 1 – Distribuição dos pacientes segundo o motivo da cirurgia e procedimento realizado. Belo Horizonte – 2008 Motivo da cirurgia Cirurgia realizada Pacientes N % Gastrectomia Colectomia Retosigmoidectomia Histerectomia Cistectomia Ressecção de tumor de partes moles 1 2 1 2 1 1 4,5 9,1 4,5 9,1 4,5 4,5 Hernioplastia Histerectomia Desbridamento infecção necrotizante de partes moles Laparatomia exploradora +apendicectomia Parto cesárea 5 3 1 1 4 22,7 13,6 4,5 4,5 18,2 22 100,0 Por câncer Gástrico Cólon Reto Útero/ovário Bexiga Músculo abdominal Por afecções benignas Hérnia incisional Mioma Infecção perineal Obstrução intestinal Parto Total remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 25-33, jan./mar., 2011 27 Tratamento ambulatorial de pacientes com ferida cirúrgica abdominal e pélvica TABELA 2 – Distribuição das feridas segundo as características apresentadas no início do tratamento no Setor de Estomaterapia. Belo Horizonte – 2008 Características das feridas Pacientes N Características das feridas % Área (cm2) Pacientes N % 4 18,2 Profundidade (cm) ≤20 9 40,9 ≤1,0 20,1 – 40 6 27,3 1,1 - 3,0 11 50,0 40,1 – 60 4 18,2 3,1 - 5,0 3 13,6 ≥60,1 3 13,6 ≥5,1 4 18,2 Total 22 100,0 Total 22 100,0 Volume do exsudato Sinais de infecção Moderado 13 59,1 Não 17 77,3 Acentuado 9 40,9 Sim 5 22,7 22 100,0 22 100,0 0 1 4,5 1 – 50 9 40,9 51 – 99 4 18,2 Não 17 77,3 100 8 36,4 Sim 5 22,7 22 100,0 22 100,0 Total Total Extensão da lesão com tecido necrótico (%) Total Presença de tela de Marlex Total Todas as feridas apresentavam drenagem de exsudato com aspecto seroso ou purulento e volume de moderado a intenso, isto é, umedeciam três ou mais de três pacotes de gaze em 24 horas, respectivamente. Em mais da metade das lesões (59,1%) o volume foi classificado como moderado. de tecido necrótico, a maioria (95,5%) das feridas o apresentava de cor amarela e aparência espessa e aderida, comprometendo de 10% a 100% da extensão e com média de 60,9%. Além do tecido necrótico, era possível identificar a tela de Marlex exposta em 5 (22,7%) feridas. Os sinais clínicos locais de infecção caracterizados por edema, hiperemia, calor e queixa de dor estavam presentes em cinco feridas (22,7%). Quanto à presença Os dados referentes à cobertura usada no tratamento tópico das feridas cirúrgicas complexas estão apresentados no GRÁF. 2. GRÁFICO 2 – Coberturas usadas no tratamento das feridas cirúrgicas dos pacientes atendidos no Setor de Estomaterapia. Belo Horizonte – 2008 28 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 25-33, jan./mar., 2011 O tratamento tópico consistiu de limpeza com solução salina morna em jato e o uso de coberturas interativas. Em determinada fase do tratamento, a cobertura de alginato de cálcio foi usada em 21 (95,5%) feridas, a placa de hidrocoloide em 16 (72,7%) e a placa de carvão e prata em 5 (40,9%). Em outras lesões foram usadas coberturas de colágeno e alginato (31,8%) e hidropolímero (22,7%). O tempo que os pacientes permaneceram em tratamento no setor de Estomaterapia está descrito na TAB. 3. Tabela 3 – Distribuição dos pacientes segundo evolução da ferida com o tratamento no Setor de Estomatrapia. Belo Horizonte – 2008 Tempo de tratamento (mês) PACIENTES N % 1-3 11 50,0 4-6 10 45,5 7 - 10 1 4,5 Total 22 100,0 Com o processo natural de envelhecimento, surgem alterações em todas as células do corpo, incluindo as da pele, estruturais, numéricas e funcionais, nos componentes das três camadas. A espessura da epiderme é reduzida, o número de fibroblastos diminui, modificam-se as fibras colágenas, elásticas e reticulares, a quantidade de mucossacarídeos, a água, os pelos e melanócitos, o número e a luz dos vasos sanguíneos e das terminações nervosas. Esses acontecimentos são mais acentuados após 60 anos, o que resulta em lentidão nas respostas inflamatórias iniciais, na vascularização e na perda da elasticidade, retardando a cicatrização e predispondo as feridas cirúrgicas a complicações. 3 O fator idade estava presente na amostra do estudo, sendo que 31,8% eram idosos e tinham 60 anos ou mais, apresentando maior risco de complicações. Os resultados mostraram que 72,7% dos pacientes eram do sexo feminino. Esse dado é compatível com a clientela submetida a grande parte dos procedimentos cirúrgicos como histerectomia (18,2%), parto cesárea (13,6%) e hernioplastia incisional (22,7%). Os pacientes permaneceram em tratamento no setor de Estomaterapia em um período que variou de 1 a 10 meses (média de 3 meses e 21 dias). A metade dos pacientes foi tratada durante 1 a 3 meses e apenas 1 (4,5%) paciente se manteve em tratamento durante 10 meses. Do total de pacientes atendidos, 15 (68,2%) receberam alta com a ferida epitelizada e demandaram de 1 a 6 meses para a cura (média de 3 meses e 10 dias). O demais pacientes (7-31,8%) obtiveram redução da lesão (parcialmente epitelizada). Destaque-se que 3 (42,8%) pediram alta para continuar o tratamento no serviço de saúde da cidade de origem, uma vez que não residiam na capital; um paciente foi transferido para a Unidade Básica de Saúde próxima à residência, dada a dificuldade de se locomover até o setor de Estomaterapia para a continuidade do tratamento; e 3 (42,8%) foram submetidos a procedimentos cirúrgicos, 2 em decorrência da recidiva do câncer e 1 para a retirada da tela de Marlex e sutura da ferida. DISCUSSÃO Quando há interferência no desenvolvimento da cicatrização relacionada ao tipo de afecção cirúrgica, às condições gerais do paciente e ao procedimento técnico adotado, surgem complicações locais que necessitam de cuidados específicos. Dentre as complicações mais frequentes que comprometem a ferida cirúrgica de médio a grande portes podem ser citadas: seroma, hematoma, deiscência, infecção e infecção necrotizante de partes moles.1 O processo de cicatrização é influenciado pelo estado nutricional. O reparo e a remodelação requerem suplemento suficiente de precursores e cofatores e fonte de energia. O índice de massa corporal (kg/m2) e a taxa de albumina sérica são parâmetros nutricionais simples que, se verificados no momento certo, podem prevenir complicações pós-operatórias. Pacientes com perda de 20% ou mais do peso corporal apresentam taxa de mortalidade de 33% no pós-operatório, se comparada com 3,5% daqueles que não perderam peso.4,5 Alguns estudos indicam que valores baixos de albumina sérica (menor que 3,5 g/dL) ou transferrina sérica (menor que 150 mg/dL) e baixo peso corporal têm associações significativas com morbidades cirúrgicas em geral, atraso na cicatrização ou surgimento de infecção em feridas.4 O índice de massa corporal alterado é um dos fatores a ser considerado neste estudo, uma vez que 77,4% dos pacientes estavam fora do padrão de normalidade, 13,7% com baixo peso e 63,7% com sobrepeso ou obesidade. A obesidade é considerada fator de risco para complicações na ferida cirúrgica. A taxa de infecção de ferida cirúrgica está significativamente relacionada a esse fator, por isso a obesidade deveria ser acompanhada como medida de resultado, e uma das sugestões é a aferição do índice de massa corporal.5 Um estudo para determinar o efeito da espessura do tecido subcutâneo no desenvolvimento de infecção de ferida cirúrgica após parto cesárea confirmou que somente a espessura do tecido subcutâneo é fator de risco significante para infecção de ferida. Não houve diferenças significantes entre mulheres que desenvolveram infecção e aquelas sem infecção em relação às condições demográficas, duração da ruptura da membrana, número de exames vaginais, tipo de incisão na pele ou duração da cirurgia. Concluiu-se que a espessura do tecido subcutâneo parece ser o único fator de risco com significante associação com infecção de ferida após parto cesárea.6 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 25-33, jan./mar., 2011 29 Tratamento ambulatorial de pacientes com ferida cirúrgica abdominal e pélvica Em outro estudo prospectivo realizado com mulheres submetidas a histerectomia abdominal, sem uso de antibiótico profilático, para determinar o efeito da profundidade do tecido subcutâneo na infecção da ferida cirúrgica abdominal, constatou-se infecção em 11,3% das mulheres. Foram identificados os seguintes fatores de risco considerados significantemente associados com a infecção de ferida: profundidade do tecido subcutâneo, albumina sérica pré-operatória, peso e índice de massa corporal. Foi confirmado que a espessura do tecido era o único fator de risco significante para a infecção de ferida, e nenhum paciente com profundidade de tecido subcutâneo menor que 3,0 cm apresentou infecção.7 O seroma, complicação frequente na ferida cirúrgica abdominal, é uma coleção de fluidos linfáticos levemente ácidos, claros, amarelados, com baixa concentração de oxigênio (O2) encontrados na camada subcutânea. Esse tipo de complicação é de etiologia incerta, consequência de algumas cirurgias, principalmente abdominais, que envolvem elevação de retalhos cutâneos e transecção de canais linfáticos. Atrasam a cicatrização e aumentam o risco de infecção. O tratamento é a abertura da incisão e fechamento da ferida por segunda intenção.1 O hematoma é uma coleção anormal de sangue ou coágulos na incisão ou na camada subcutânea. É uma das complicações mais comuns e preocupantes, por ser potencialmente um meio adequado para o crescimento de microrganismos. As principais causas são a hemostasia imperfeita, técnicas agressivas durante o procedimento cirúrgico e uso de anticoagulantes. O sangue extravasado infiltra-se nos planos de menor resistência e, quando se forma o coágulo, este obstrui os canalículos linfáticos e os capilares, diminuindo a resistência à infecção, além de levar ao afastamento das bordas e impedir sua aposição, predispondo a formação de deiscência. Na maioria dos casos, pequenos hematomas formados no período de até duas semanas de pós-operatório podem ser tratados com medidas conservadoras. O tratamento consiste na maioria dos casos em evacuação dos coágulos em condições estéreis, oclusão dos vasos sangrantes e fechamento da lesão.1 A deiscência de ferida é a ruptura parcial ou total da camada fascial precocemente no curso do pósoperatório. Ocorre em 1% a 3% dos procedimentos cirúrgicos abdominais, mais frequentemente entre o período do 5° ao 21° dia do pós-operatório e está associada a uma taxa de mortalidade de 15% a 20%.8,9 Complicações locais, como seroma e infecção, podem predispor à deiscência. A alta pressão intra-abdominal (distensão abdominal, obesidade, ascite, tosse, vômito, espirro) e fechamento inadequado das camadas fasciais possibilitam o rompimento dos tecidos previamente suturados. Para preveni-la, é importante a adequação do fechamento. Isso inclui realizar uma incisão precisa, evitar desvitalização das bordas fasciais, colocar os pontos de sutura e apertá-los corretamente, bem como selecionar o material apropriado.10,11 Em 1998, foi publicado um estudo realizado para identificar os fatores de risco para deiscência de ferida e determinar 30 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 25-33, jan./mar., 2011 os fatores que poderiam ser previsíveis. O resultado confirmou que hipoproteinemia, náuseas e vômitos, febre, infecção da ferida, distensão abdominal, tipo de material da sutura, presença de dois ou mais drenos abdominais e experiência do cirurgião são fatores associados à deiscência de ferida. Neste estudo, houve aumento do número de pacientes com deiscência, juntamente com o aumento de fatores de risco, alcançando 100% dos pacientes com oito fatores de risco.10 Destaque-se que a ocorrência de deiscência aumenta com a idade. Comprovou-se que, no grupo de pacientes com menos de 45 anos, a incidência de deiscência foi de 1,3% e no grupo de pacientes com mais de 45 anos ela aumentou para 5,4%.9 No estudo apresentado, dos pacientes com deiscência, 50% tinham mais de 45 anos, 31,8% tinham idade acima de 60 anos e 36,4% foram submetidos a laparotomia para a realização de diversos procedimentos. Grande parte desses fatores atua alterando a microcirculação e, consequentemente, a perfusão sanguínea. Os dados de mortalidade após deiscências são de 9,4% a 43,8%, com uma media de 18,1%. A morte não é causada pela deficiência em si, mas pelas complicações que, certamente, contribuem para esses dados.10 Os portadores de câncer representavam 36,4% da amostra. Constatou-se que doenças consuptivas reduzem significantemente a capacidade de síntese de colágeno. O câncer consome nutrientes e oxigênio, predispondo o seu portador à anemia e à desnutrição, tornando-se fator de risco para complicações como deiscência e infecção da ferida cirúrgica. A técnica cirúrgica como fator predisponente à deiscência foi analisada em estudo de metanálise realizado para definir o papel da sutura no fechamento do espaço morto no subcutâneo, na prevenção de complicações após parto cesário. Concluiu-se que a sutura do subcutâneo gorduroso durante o parto cesárea resulta em uma redução de 34% no risco de deiscência em mulheres com espessura de gordura maior que 2 cm.12 Destaque-se que todos os pacientes deste estudo apresentaram deiscência na ferida e muitos dos fatores de risco descritos na literatura foram identificados na amostra, tais como idade acima de 45 anos (50,0%), obesidade (50,0%), submetidos a parto cesário (18,2%) e infecção na ferida (63,6%). Pode-se considerar como infecção cirúrgica todo processo inflamatório da ferida ou cavidade operatória que drene secreção purulenta, com ou sem cultura positiva. Pode ser circunscrita à incisão ou envolver estruturas adjacentes à ferida, ou seja, tecidos outros que foram expostos ou manipulados durante a cirurgia.13 A infecção da ferida cirúrgica é a causa mais frequente de morbidade em pacientes hospitalizados.14 A infecção ainda é um significante problema na era da cirurgia moderna, apesar dos avanços da anestesia, antibióticos, instrumentos, técnica e vigilância operatórias e diagnóstico precoce. A infecção na ferida ainda ocorre e acomete pessoas de todas as classes sociais e raças. Surge mais comumente entre o 5° e o 6° dia do pós-operatório. Possui custo elevado e ocasionalmente provoca mortalidade.15 95,5% apresentavam tecido necrótico que comprometia de 10% a 100% da extensão; e 22,7% apresentavam sinais clínicos de infecção. Dos 14 pacientes que apresentaram a infecção como complicação na ferida cirúrgica, 5 (37,5%) foram admitidos no setor de Estomaterapia ainda mantendo os sinais clínicos locais, como edema, calor, hiperemia e queixa de dor. A sintomatologia persistia mesmo com o uso de antibioticoterapia sistêmica. É imprescindível que a indicação da cobertura seja criteriosa, bem como a avaliação da resposta do organismo no processo cicatricial. De acordo com as características apresentadas pela ferida, a cobertura pode ter as seguintes finalidades, não necessariamente todas: promover um ambiente úmido; ser de fácil aplicação e remoção, além de proteger contra traumas mecânicos; absorver excesso de exsudato; ser impermeável a bactérias, protegendo a ferida de infecções cruzadas, bem como impermeável à água e a outros fluidos; ser atóxica e hipoalergênica; proporcionar conforto e segurança; acompanhar o contorno do corpo e limitar o movimento dos tecidos adjacentes; prevenir espaço morto e auxiliar na hemostasia.23,24 Os pacientes submetidos a intervenção cirúrgica apresentam um risco de infecção de 1%. Essa taxa aumenta quando o procedimento é realizado em pacientes com as seguintes características: idade superior a 50 anos, portadores de diabetes mellitus, obesidade, tempo de internação acima de 10 dias e que apresentam infecção em local distante, desnutrição, ou em casos de cirurgia de urgência.16-18 Nas cirurgias abdominais, a espessura do tecido subcutâneo é considerada o fator de risco mais importante para o desenvolvimento de infecção.17 Outros fatores predisponentes de infecção e associados com a cirurgia são: inadequada preparação do paciente durante o pré-operatório, não profilaxia com antibióticos quando recomendada, longa duração das cirurgias, contaminação dos instrumentos, quebra da técnica asséptica, isquemia ou desvitalização do tecido e presença de corpos estranhos na ferida.15,19 Para as feridas cirúrgicas com cicatrização por segunda intenção, como aquelas em que há perda considerável de tecido e de pele, deiscência, processo infeccioso que precisa manter sua drenagem por mais tempo, ou quando, embora superficial, tenham uma área extensa, são indicadas as coberturas oclusivas para absorver o excesso de exsudato, preservar o leito da ferida com a umidade fisiológica, além de não aderir ou provocar trauma no momento de ser retirada.24 Pode-se utilizar a cobertura de alginato de cálcio na forma de placa ou cordão, hidrocoloide, cobertura absorvente não aderente, espumas e placas de carvão. Todas estão disponíveis com ou sem prata. A escolha da cobertura é respaldada pelas características da ferida e pelo volume do exsudato.25 A tela de Marlex estava presente em 22,7% dos pacientes, dada a característica do tipo de cirurgia realizada na maioria dos pacientes estudados. Essa tela é um tipo de prótese de prolipropileno feita de cortes de monofilamentos de fibras plásticas. Está indicada na reparação de variadas hérnias abdominais por ser largamente utilizada em cirurgias, pois é um recurso acessível, dado seu baixo custo e fácil manuseio durante o procedimento cirúrgico. É flexível, pode ser cortada e facilmente moldada, produz pouca rejeição ao paciente, já que a tela é totalmente recoberta pelo tecido de granulação.20,21 As feridas cirúrgicas com cicatrização por terceira intenção, geralmente, estão comprometidas com infecção e requerem que o espaço morto seja preenchido, o excesso de exsudato absorvido, o tecido de granulação preservado ou o tecido necrótico desbridado pelo método autolítico e a quantidade de microrganismos reduzida.26 Nesses casos, são recomendadas as coberturas que propiciem tais ações, como o alginato de cálcio, o carvão ou as espumas. A primeira escolha deve ser uma dessas coberturas com prata e a seguir, após a regressão da infecção, as coberturas sem prata. As complicações decorrentes do uso da tela são mínimas e, geralmente, por ser corpo estranho, é passível de ocorrer rejeição, uma vez que não possui as mesmas características fisiológicas e anatômicas da parede abdominal. Não pode entrar em contato com as alças intestinais para evitar aderência e obstruções intestinais. Também poderá ocorrer erosão da tela intra-abdominal e infecção da prótese. Se mal inserida nas fáscias, pode deslocar-se do local adequado.22 O tempo demandado para a troca do curativo vai depender do material utilizado, da característica e localização da ferida, da presença ou não de infecção e do volume do exsudato. Dos pacientes estudados, 3 (13,7%) apresentavam índice de massa corporal abaixo da normalidade, mas 12 (63,7%) estavam com sobrepeso ou obesidade. As feridas cirúrgicas devem ser avaliadas quanto à presença de edema na linha de incisão, hiperemia ao redor da incisão, calor localizado, drenagem de exsudato serosanguinolento e purulento. À avaliação inicial, as feridas apresentavam áreas que variavam de 1,4 cm2 a 376,11cm2 e média de 48 cm2, profundidade de 0,1 cm a 6,8 cm e média de 2,63 cm; As recomendações sobre o uso das coberturas foram seguidas para a indicação do tratamento tópico das feridas cirúrgicas acompanhadas no setor de Estomaterapia. Em determinada fase do tratamento, o alginato de cálcio foi usado em 22 pacientes, o hidrocoloide em 16 e o carvão em 9, com sucesso, uma vez que 68,2% dos pacientes receberam alta com a ferida curada por cicatrização por segunda intenção e demandaram, em média, 3 meses e 10 dias para o fechamento. As coberturas interativas são amplamente utilizadas, pois mantêm um microambiente úmido e ainda permitem remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 25-33, jan./mar., 2011 31 Tratamento ambulatorial de pacientes com ferida cirúrgica abdominal e pélvica absorção de exsudato e retenção de bactérias presentes no leito da ferida em suas fibras e propiciam temperatura ideal para a mitose celular, além de estimularem o desbridamento autolítico. Todas as funções citadas favorecem a cicatrização em menor tempo. CONCLUSÃO Diante dos objetivos propostos, conclui-se que, em relação aos pacientes com ferida cirúrgica abdominal e pélvica atendidos no setor de Estomaterapia de um serviço ambulatorial de um hospital em Belo Horizonte, houve o predomínio de mulheres com idade variando de 22 a 79 anos, sendo a distribuição equitativa com ponto de corte aos 45 anos, com predomínio de sobrepeso ou obesidade. A maioria dos pacientes foi submetida ao procedimento cirúrgico devido a agravo benigno. Todos os pacientes foram admitidos no serviço com deiscência na ferida cirúrgica e, destes, 63,6% apresentaram infecção associada, mais da metade das lesões apresentou área superior a 20 cm 2 e a profundidade variou de 0,1 cm a 6,8 cm. O tratamento tópico consistiu do uso de coberturas interativas. Em determinada fase do tratamento das feridas, o alginato de cálcio, o hidrocoloide e o carvão foram usados como cobertura interativa. A maioria dos pacientes recebeu alta com a ferida curada, em média, após 3 meses e 10 dias de acompanhamento no setor de Estomaterapia. Como descrito na literatura, os resultados obtidos confirmaram que o sobrepeso e a obesidade são fatores que contribuem para o desenvolvimento de infecção. Destaque-se, também, que a infecção e a deiscência foram os principais fatores que caracterizaram a ferida cirúrgica complexa. Este estudo apresenta algumas limitações, como a ausência de investigação da espessura do tecido subcutâneo abdominal, o estado nutricional dos pacientes, o tabagismo, resultados de exames laboratoriais (glicose, albumina sérica, transferrina sérica, hemoglobina e hematócrito), dados referentes ao ato anestésico-cirúrgico como tempo de duração, técnica cirúrgica, tipo de sutura e fios utilizados. REFERÊNCIAS 1. Merril TD. Surgical complications. In: Townsend CM, Beauchamp RD, Evers BM, Mattox KL. Sabiston Textbook of surgery: the biological basis of modern surgical practice. 17ª ed. Saunders; 2004. 2. Silva PS, Borges EL, Lima MP. Fatores de risco para complicações das feridas cirúrgicas abdominais: uma revisão sistemática da literatura. REME - Rev Min Enferm. 2008; 12(4):539-46. 3. Pagnano PMG. Envelhecimento da pele e consequências. J Bras Psiquiatr. 1990; 39(1):37-41. 4. Greene KA, Wilde AH, Stulberg BN. Preoperative nutritional status of total joint patients. 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Enferm.;15(1): 25-33, jan./mar., 2011 33 HIPOTERMIA COMO FATOR DE RISCO PARA INFECÇÃO DE SÍTIO CIRÚRGICO: CONHECIMENTO DOS PROFISSIONAIS DE ENFERMAGEM DE NÍVEL MÉDIO HYPOTHERMIA AS A RISK FACTOR FOR SURGICAL WOUND INFECTION: THE NURSE ASSISTANT’S KNOWLEDGE HIPOTERMIA COMO FACTOR DE RIESGO PARA INFECCIÓN DE SITIO QUIRÚRGICO: CONOCIMIENTO DE LOS AUXILIARES DE ENFERMERÍA Djenane Roberta Ribeiro1 Alessandra Renata Targa Longo2 RESUMO A equipe de enfermagem tem papel fundamental na prevenção da hipotermia no cliente cirúrgico para o controle e a prevenção de complicações, sendo a principal a infecção de sítio cirúrgico, que diminui custos para a instituição e melhora a qualidade da assistência para o cliente. O objetivo com esta pesquisa foi analisar o conhecimento do profissional de enfermagem de nível médio sobre a relação do controle da hipotermia para a prevenção da infecção de sítio cirúrgico. Realizou-se um estudo descritivo de caráter exploratório no centro cirúrgico de um hospital filantrópico no interior de São Paulo, do qual participaram 21 colaboradores de ambos os sexos, profissionais de enfermagem. Para a coleta de dados, foi utilizado um formulário de questões como instrumento norteador. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Paulista. No estudo, evidenciou-se que 85,7% demonstraram não ter conhecimento de que a hipotermia é um fator de risco para infecção de sítio cirúrgico, mostrando a necessidade de o profissional de enfermagem possuir amplo conhecimento na área em que atua, já que os avanços da tecnologia, descobertas científicas são constantes e a reciclagem e a atualização tornam-se imprescindíveis. São fundamentais ações estratégicas para transformar a organização das práticas de saúde e práticas pedagógicas, o que implica um trabalho articulado entre o sistema de saúde e as instituições formadoras para a construção do conhecimento, no qual a teoria e a prática se fundem, proporcionando segurança e qualidade para a assistência ao cliente cirúrgico. Para isso o profissional enfermeiro deve atuar efetivamente como supervisor e líder, repassando novos conhecimentos e informações relevantes a toda sua equipe. Palavras-chave: Hipotermia; Infecção na Ferida Operatória; Conhecimento, Atitudes e Práticas em Saúde; Centro Cirúrgico Hospitalar. ABSTRACT The nursing team plays a fundamental role in preventing and controlling hypothermia in a surgical patient. Such control is essential to avoid complications, such as the surgical wound infection. It helps to reduce costs and improve the quality in patient care. This study aims to analyze the nursing assistants’ knowledge about the relationship between the control of hypothermia and the surgical site infection prevention. We conducted a descriptive exploratory study in the surgical center of a philanthropic hospital in the State of São Paulo. 21 nursing professionals of both sexes participated in the survey. A questionnaire was used as data collection method. The study was approved by the Research Ethics Committee of the Universidade Paulista. The results indicated that 85.7% of the nursing assistants were not aware that hypothermia is a risk factor for surgical wound infection what stresses the need for the nursing professionals to possess an extensive knowledge in the area. Advances in technology and scientific discoveries are constant and refreshment and update courses become indispensable. In this context strategic actions are fundamental to transform healthcare organization and teaching practices. Their implementation would require an articulated work between the health system and the nursing training schools, where theory and practice could merge to provide safety and quality to the surgical patient. For this the professional nurse has to act effectively as a supervisor and leader, transmitting knowledge and relevant information to his/her team. Keywords: Hypothermia; Surgical Wound Infection; Healthcare Knowledge, Attitudes and Practice; Surgery Department, Hospital 1 2 Graduanda pela Universidade Paulista. Profª MSDª do Instituto e Ciências da Saúde da Universidade Paulista. Endereço para correspondência: Rua Capitão Joaquim Felix 118, Centro, Bonfim Paulista SP. CEP: 14110-000. E-mail: [email protected]. 34 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 34-41, jan./mar., 2011 RESUMEN El equipo de enfermería tiene un papel fundamental en la prevención de la hipotermia del cliente quirúrgico para control y prevención de complicaciones, principalmente de la infección de sitio quirúrgico. Esto ayuda a disminuir costos y mejorar la calidad de la atención al cliente. La presente investigación fue realizada con la finalidad de evaluar el conocimiento de los auxiliares de enfermería sobre la relación enre el control de la hipotermia y la prevención para infección de sitio quirúrgico. Se trata de un estudio descriptivo exploratorio llevado a cabo en el centro quirúrgico de un hospital filantrópico del interior de São Paulo. Participaron 21 profesionales de enfermería de ambos sexos. Para la recogida de datos fue utilizado un cuestionario estructurado. El estudio fue aprobado por el Comité de Ética en Investigación de la Universidad Paulista. Los resultados señalan que el 85,7% de los auxiliares de enfermería no sabe que la hipotermia es un factor de riesgo para infección de sitio quirúrgico lo cual refuerza la necesidad de que dichos profesionales adquieran amplio conocimiento sobre su área de actuación. Los avances tecnológicos y los descubrimientos científicos son algo constante y, por ello, es indispensable que los profesionales se reciclen y estén actualizados permanentemente. Las acciones estratégicas son fundamentales para transformar la organización de las prácticas de salud y las prácticas pedagógicas, lo cual significa que el sistema de salud trabaje de forma articulada con las instituciones a cargo de la construcción del conocimiento. Es así como teoría y práctica se funden para proporcionar seguridad y calidad de atención al cliente quirúrgico. Para ello, el enfermero profesional debe actuar efectivamente como supervisor y jefe, trasmitiendo conocimiento e información relevante a su equipo. Palabras clave: Hipotermia; Infección de Herida Operatoria; Conocimiento, Actitudes y Prácticas en Salud; Centro quirúrgico hospitalario. INTRODUÇÃO Segundo Guyton,1 a temperatura corporal é regulada pelo equilíbrio entre a perda e produção de calor. A maior parte do calor no corpo humano é produzida em órgãos profundos. Depois disso, o calor é transferido para a pele e, posteriormente, é perdido no meio ambiente. A temperatura corporal é controlada por mecanismos e sinais gerados em receptores periféricos que são transmitidos por meio de termorreceptores cutâneos.1 Quando a temperatura corporal fica abaixo dos 35°C, o organismo não é capaz de gerar calor necessário para garantir a manutenção adequada das funções fisiológicas. Essa situação define-se como "estado de hipotermia", que pode ser considerado leve (32°C a 35°C), moderada (28°C a 32°C) e grave (menor que 28°C).2 A hipotermia no cliente cirúrgico pode decorrer da baixa temperatura na sala de cirurgia, da infusão de líquidos frios, da inalação de gases frios, das cavidades ou feridas abertas, da atividade muscular diminuída, da idade avançada ou dos agentes farmacológicos utilizados (ex: vasodilatadores, fenotiazínicos, anestésicos gerais).2 A hipotermia também pode ser intencionalmente induzida em determinados procedimentos cirúrgicos (como as cirurgias cardíacas, que exigem by-pass cardiopulmonar) para reduzir a taxa metabólica do paciente.2 Prevenir a hipotermia acidental é uma meta muito importante, e o objetivo da intervenção consiste em reverter ou minimizar esse processo fisiológico no cliente.2 A hipotermia é evento comum e acomete acima de 70% dos pacientes submetidos ao procedimento anestésico-cirúrgico, podendo acarretar complicações relevantes, como por exemplo, a infecção.3 A infecção, processo que ocorre a interação de um hospedeiro com microrganismos, caracteriza-se pela invasão e colonização de tecidos íntegros. Normalmente, a resposta do hospedeiro é a inflamação.4 Os sinais e sintomas mais comuns são: dor, calor, hiperemia, febre e calafrios. A leucocitose, o aumento de proteína C-reativa (PCR) quantitativa e a velocidade de hemossedimentação (VHS) podem sugerir infecção, porém são inespecíficos.5 Os grandes hospitais possuem, atualmente, comissões permanentes de controle das infecções com vista à sua prevenção – são as chamadas Comissões de Controle de Infecção Hospitalar (CCIHs), que cuidam do planejamento e normatização das ações, hoje em dia conhecidas, em alguns hospitais, como Serviço de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH).4 A infecção que acontece na incisão cirúrgica ou em tecidos manipulados durante a cirurgia é definida como infecção de sítio cirúrgico (ISC) e pode ser diagnosticada até trinta dias após a data do procedimento cirúrgico.6 Os cuidados da profilaxia de infecção de sítio cirúrgico começam antes da internação, quando são cirurgias eletivas e se prolongam ao pós-operatório. As mais importantes medidas para o controle de infecção em cirurgia são as que precisam ser aplicadas durante o período que o paciente está no centro cirúrgico.7 O paciente deve ser higienizado antes de ser conduzido ao centro cirúrgico. É necessário observar se ele possui ferimentos e proceder aos cuidados indispensáveis para o preparo da pele na área da cirurgia. O preparo da equipe envolvida no procedimento cirúrgico e anestésico é de extrema importância. A antisssepsia das mãos deve ser rigorosa de acordo com as normas, e a paramentação deve ser completa (capote cirúrgico, luvas, máscara, gorro, propés e protetores). O material deve estar adequadamente limpo e estéril, sem erros nas técnicas de empacotamento, o que pode possibilitar a contaminação. Campos e aventais molhados devem ser considerados contaminados.4 A hipotermia tem relação direta com a incidência de infecção de ferida operatória, pois ocorre diminuição de oxigênio subcutâneo e vasoconstrição periférica, remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 34-41, jan./mar., 2011 35 Hipotermia como fator de risco para infecção de sítio cirúrgico: conhecimento dos profissionais de enfermagem de nível médio interferindo diretamente na capacidade fagocítica dos leucócitos, neutrófilos e alteração do metabolismo de proteínas, possuindo efeito direto sobre a imunidade celular e humoral.8 A diminuição de 1,9 ºC na temperatura central triplica a incidência de infecção no local da operação, aumentando a probabilidade da ISC em torno de 64%.9 Principalmente na cirurgia demorada, a hipotermia ocorre por causa da exposição do paciente a baixa temperatura da sala de cirurgia (18°C a 23°C) por grande período de tempo. Pode ocorrer, também, alteração enzimática na cascata de coagulação e disfunção plaquetária, o que ocasiona perda de sangue no ato cirúrgico, aumentando o tempo de hospitalização e, consequentemente, a infecção no sítio cirúrgico.3 O tipo e a dosagem de anestesia também são fatores relacionados à infecção e à hipotermia – por exemplo, em anestesia geral, que leva o organismo a uma redução metabólica em torno de 40%, tornando o cliente mais susceptível à ISC.10 A equipe de enfermagem, nesse cenário, é muito importante, por ser esse um processo realizado numa fase muito específica da atenção ao paciente, diante do procedimento anestésico-cirúrgico, no sistema normativo e organizativo do centro cirúrgico.11 A equipe de enfermagem tem papel fundamental na prevenção ou tratamento da hipotermia no perioperatório. A manutenção da normotermia pode diminuir custos para a instituição e para o paciente, sendo a redução de risco de complicações, como a infecção, o aspecto mais relevante. A implementação de métodos que protejam o paciente da hipotermia pode ter profundo efeito na sua segurança, e o profissional enfermeiro deve ser o líder de todos os membros da equipe cirúrgica para amenizar complicações ao paciente.12 Estratégias de aquecimento ativo ou passivo devem ser utilizadas. O aquecimento passivo é um método de baixo custo e eficaz. Consiste em cobrir e aquecer, durante o intraoperatório, toda a superfície cutânea possível com o emprego de lençóis, cobertores ou mantas, que reduzem a perda de calor em 30%.13 Entretanto, em pacientes submetidos a cirurgia de grande porte, raramente o aquecimento passivo, isoladamente, é suficiente para manter a normotermia,14 sendo necessário intervir com o aquecimento ativo, que, além de ser o método mais efetivo, pode reverter a hipotermia já instalada. A área total a ser coberta é crucial. O aquecimento da região anterior é mais efetivo que o da parte em contato com a mesa de operação, uma vez que pouco calor é perdido aí. Cobertores ou colchões com circulação de água são benéficos apenas quando situados sobre o paciente. Cobertores elétricos também podem ser utilizados.13 O aquecimento cutâneo é eficaz quando a vasoconstrição termorreguladora foi desencadeada.15 O aquecimento de líquidos utilizados na hidratação durante a cirurgia, isoladamente, pode não manter o paciente em normotermia, embora reduza a queda da temperatura central, quando empregado e associado com outros métodos preventivos.14 36 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 34-41, jan./mar., 2011 Segundo Smeltzer e Bare,2 a atuação da enfermagem no período perioperatório deve ser baseada em um processo sistemático e planejado com uma série de passos integrados. Assim, o conceito de prática perioperatória traz tanto as atividades desenvolvidas durante a assistência pré-operatória, intraoperatória e pós-operatória, que são tradicionais da enfermagem, quanto as mais avançadas, como educação para o paciente, aconselhamento, levantamento de dados, planejamento e avaliação.2 Para a área da saúde, a formação não apenas gera profissionais que podem ser absorvidos pelos postos de trabalho do setor, uma vez que o trabalho em saúde é de escuta e a interação entre profissional de saúde e usuário é determinante da qualidade da assistência prestada. A área da saúde requer educação permanente.16 O papel da equipe de enfermagem é fundamental na prevenção da hipotermia no cliente cirúrgico para o controle da ISC. Então, diante da percepção da necessidade de buscar o conhecimento que essa equipe possui sobre o tema, este estudo foi focado no profissional de nível médio que trabalha no centro cirúrgico de um hospital filantrópico no interior de São Paulo. Questão norteadora Qual é o conhecimento da equipe de enfermagem de nível médio em relação ao controle da hipotermia para a prevenção da infecção de sítio cirúrgico? JUSTIFICATIVA A infecção de sítio cirúrgico é assunto de grande relevância em todas as unidades hospitalares, uma vez que prejudica o cliente e gera grandes preocupações para as instituições e para as equipes envolvidas nesse cenário. A hipotermia é fator fundamental no controle da ISC e acomete grande parte dos pacientes submetidos ao procedimento anestésico-cirúrgico, podendo acarretar complicações relevantes. Assim, este trabalho pode contribuir para a orientação das equipes multiprofissionais e, principalmente, para a equipe de enfermagem, melhorando a qualidade da assistência e prevenindo a infecção no cliente cirúrgico. OBJETIVO O objetivo com este trabalho é analisar o conhecimento do profissional de enfermagem de nível médio sobre a relação do controle da hipotermia para a prevenção da infecção de sítio cirúrgico. METODOLOGIA Tipo de estudo e local da pesquisa Trata-se de um estudo quantitativo de caráter descritivo e exploratório. Nesse tipo de estudo, indica-se utilizar instrumentos quantitativos para a coleta e análise dos dados, sendo que o objetivo principal da pesquisa descritiva é relatar as características de determinada população ou fenômeno. O método quantitativo representa a intenção de garantir a precisão dos resultados, evitar distorções de análise e interpretação, possibilitando uma margem de segurança quanto às inferências.17,18 A coleta dos dados foi realizada no mês de março de 2010, no centro cirúrgico de um hospital filantrópico no interior de São Paulo, que mantém seis salas cirúrgicas climatizadas, onde são realizadas cirurgias de pequeno, médio e grande portes. Possui um fluxo de 15 a 18 cirurgias diárias sem faixa etária específica, sendo que as cirurgias pediátricas ocorrem em menor proporção. O setor atua 24 horas, mas após as 19 horas realiza somente cirurgias de urgência e emergência. O quadro de funcionários do setor é composto por 30 colaboradores na área da enfermagem. Participaram da pesquisa 21 colaboradores de ambos os sexos, profissionais de enfermagem de nível médio (auxiliares e técnicos de enfermagem), que fazem parte do quadro de funcionários do centro cirúrgico e que se disponibilizaram a participar do projeto de pesquisa, sem prejuízo às suas atividades. Foram excluídos da pesquisa os colaboradores que não se disponibilizaram a fazer parte da pesquisa, os que não eram fixos do setor, os que estavam afastados por motivo de doença, licença-maternidade, férias e aqueles com desvio de função, ou que não prestavam assistência direta ao paciente. Assim, um colaborador não fazia mais parte do quadro de funcionários do setor, dois colaboradores estavam de férias e os outros seis faziam parte do Arsenal (almoxarifado) e Transporte, e não participaram da pesquisa. Aspectos éticos e legais A Resolução nº 196/96, do Conselho Nacional de Saúde, aprova diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Esta pesquisa se classifica como sem riscos.17,18 Foram respeitados os aspectos éticos, legais e os princípios que retratam: beneficência, que estabelece a proteção do indivíduo contra danos físicos e psicológicos; respeito à dignidade e à privacidade humana, mantendo ao participante o direito ao sigilo de sua identificação e da instituição; a liberdade de participar ou não da pesquisa, podendo desistir em qualquer etapa do processo da pesquisa.17,18 As seguintes etapas foram cumpridas: • autorização da instituição; • análise e aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP); • obtenção do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido pelos participantes. (Apêndice A). Assim, os participantes tiveram o direito de retirar seu consentimento a qualquer momento, deixando de participar da pesquisa sem prejuízo ou penalidade alguma, conforme está descrito no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Instrumento para a coleta de dados Para a coleta de dados, foi utilizado um instrumento norteador, elaborado pelo pesquisador – um formulário (Apêndice A) –, por meio do qual o próprio pesquisador realizou uma entrevista, preenchendo-o com as respectivas respostas obtidas. Logo após, foi realizada a observação no próprio local, analisando as ações praticadas pela equipe de enfermagem e comparando com as respostas dos formulários. Procedimento para coleta de dados Os colaboradores foram abordados individualmente por meio de entrevista, após terem conhecimento do projeto de pesquisa; do tipo de estudo e dos aspectos éticos e legais, mantendo ao participante o direito ao sigilo de sua identificação e da instituição; da liberdade de participar ou não da pesquisa, podendo desistir em qualquer etapa do processo; dos critérios para a inclusão dos participantes e do instrumento para coleta de dados (formulário de questões), Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. O pesquisador ficou responsável pelo custo financeiro da pesquisa. Após assinarem o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, foram realizadas as entrevistas com os funcionários de todos os plantões (manhã: das 6h30 às 12h30; tarde: das 12h30 às 18h30; e noturno: das 18h30 às 6h30), conforme a disponibilidade de cada um, sem prejuízo às suas atividades. Em seguida, respostas foram transcritas nos questionários. Para a realização da segunda etapa, que consiste em observar a prática da assistência perioperatória e compará-la com as respostas, o pesquisador acompanhou cada funcionário em sala cirúrgica e, em seguida, preencheu o questionário. Posteriormente à obtenção dos dados, foi elaborada a fase de análise. Fase de análise Após a coleta das informações e preenchimento do instrumento referente a cada entrevista, foi realizada a análise das respostas obtidas nos formulários, comparando-as com os dados colhidos na observação. Os dados foram categorizados e organizados em tabelas, para fácil visualização dos resultados, e, depois, analisados criticamente de acordo com o conhecimento técnicocientífico buscado em literatura, para o fornecimento de respostas ao problema proposto para o estudo. RESULTADOS E DISCUSSÃO Identificamos com este estudo o conhecimento do profissional de enfermagem de nível médio relacionado remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 34-41, jan./mar., 2011 37 Hipotermia como fator de risco para infecção de sítio cirúrgico: conhecimento dos profissionais de enfermagem de nível médio ao controle da hipotermia para a prevenção de infecção no cliente cirúrgico. Na época de minha formação profissional, não aprendi nada a respeito. (Nº 3) Caracterização da amostragem Eu já ouvi falar mesmo, mas nunca entendi o porquê. (Nº 8) A amostragem foi de 21 colaboradores (profissionais de enfermagem de nível médio). Às vezes eu escuto alguns médicos comentando sobre isso, mas nunca procurei saber a respeito. (Nº 10) Não tenho acesso aos meios para realizar pesquisas e me atualizar. A instituição também não nos disponibiliza nem nos incentiva quanto a isso. (Nº 12) TABELA 1 – Distribuição dos colaboradores pesquisados de um hospital filantrópico do interior de São Paulo, segundo suas características: sexo e categoria profissional. Ribeirão Preto – 2010 Características O conhecimento que tenho na área de centro cirúrgico foi o que aprendi na minha formação, e experiência profissional, porque a instituição não me forneceu treinamento, palestra nem nada. (Nº 13) N % Feminino 17 80,9 Eu não sabia que a hipotermia é um fator de risco para infecção de sítio cirúrgico. (Nº 19) Masculino 04 19,1 Desde que trabalho aqui, nunca ouvi falar nisso. (Nº 21) Sei que está relacionado, mas não sei explicar. (Nº 18) Sexo Categoria profissional Auxiliar de enfermagem 10 47,6 Técnico de enfermagem 11 52,4 Total 21 100 Como demonstrado na TAB. 1, dos 21 funcionários envolvidos na pesquisa, 17 são do sexo feminino, 4 do sexo masculino, 10 auxiliares de enfermagem e 11 técnicos de enfermagem, sendo que o gênero ou a categoria profissional não interfere no resultado dos dados obtidos. O formulário de questões (Apêndice A) continha, dentre outras, a seguinte pergunta Você sabe explicar por que a hipotermia é um fator de risco para a infecção no sítio cirúrgico? (TAB. 2): TABELA 2 – Distribuição dos colaboradores pesquisados de um hospital filantrópico do interior de São Paulo, segundo as respostas sobre o conhecimento de hipotermia como fator de risco para infecção de sítio cirúrgico. Ribeirão Preto – 2010 Resposta dos colaboradores N % SIM 07 33,3 NÃO 14 66,7 Total 21 100 Desses 21 sujeitos, 14, ou seja, 66,7 %, responderam que não e 7 (33,3%) responderam que sim. Encontramos argumentações diversas para as respostas, tais como: 38 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 34-41, jan./mar., 2011 Para os que responderam “Sim”, pediu-se que explicassem por que a hipotermia é um fator de risco para a infecção no sítio cirúrgico. TABELA 3 – Distribuição dos colaboradores que responderam ter conhecimento da hipotermia como fator de risco para infecção de sítio cirúrgico, segundo os resultados das explicações diante da pergunta: Por que a hipotermia é um fator de risco para a infecção no sítio cirúrgico? Ribeirão Preto – 2010 Resultados das explicações N % Explica com facilidade 03 42,85 Explica sem coerência com a realidade 03 42,85 Responde sim, mas não sabe explicar 01 14,30 Total 07 100 Note-se que mesmo os 7 que responderam que sabiam apenas 3 explicaram com coerência e facilidade. Foi observada, também, resposta como: Eu sei que a hipotermia é fator de risco para a infecção de sitio cirúrgico, mas não sei como te explicar. (Nº 9) Os que responderam sem coerência com a realidade, afirmaram: Eu me confundi mesmo. (Nº 4) Então me explicaram errado. (Nº 11) Pensando bem, o que eu falei não tem muito a ver mesmo. (Nº 20) Assim, dos 21 (100%) participantes, 18 (85,7%) demonstraram que não tinham conhecimento de que a hipotermia é um fator de risco para a infecção de sítio cirúrgico. Todos eram funcionários fixos desse setor, trabalhando em tempo integral apenas com assistência específica ao cliente perioperatório. Note-se que o processo de ensino, diante das tendências decorrentes do constante desenvolvimento, as descobertas científicas e o avanço da tecnologia impõem a necessidade de rumos definidos de formação que conduzam à competência, em formas diferenciadas de preparo dos profissionais para o ingresso na área do trabalho.11 O atual modelo de ensino tem pouco contribuído para a formação do profissional crítico, criativo, reflexivo e competente. A assistência de enfermagem no perioperatório, voltada para a satisfação das necessidades dos indivíduos na fase específica anestésico-cirúrgica, carece de uma abordagem reflexiva quanto ao seu processo de ensino.11 A formação profissional, principalmente na área da saúde, exige continuidade. A educação permanente tem amplo foco, é progressiva e transdisciplinar, propiciando a democratização institucional, o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, da capacidade de docência e de enfrentamento criativo das situações de saúde, do trabalho em equipes matriciais e da melhoria permanentemente a qualidade do cuidado à saúde, bem como possibilita práticas técnicas críticas, éticas e humanísticas.16 Sendo a formação profissional uma tarefa socialmente necessária, ela deve guardar para com a sociedade compromisso ético-político, não podendo ficar atrelada aos valores tradicionais, mas, sim, ao movimento de transformações na sociedade, atendendo, assim, aos interesses coletivos e à construção de novidade em saberes e em práticas.16 Ações estratégicas para transformar a organização dos serviços e dos processos formativos, as práticas de saúde e as práticas pedagógicas implicam trabalho articulado entre o sistema de saúde (em suas várias esferas de gestão) e as instituições formadoras, ou seja, colocam em evidência a formação para a área da saúde como construção da educação em serviço/educação permanente em saúde.16 Os processos de qualificação do pessoal da saúde deveriam ser estruturados com base na problematização do seu processo de trabalho. Seu objetivo deve ser a transformação das práticas profissionais e da própria organização do trabalho, tomando como referência as necessidades de saúde das pessoas e das populações, da gestão setorial, do controle social em saúde, sempre acompanhando a modernização e evolução/descobertas científicas.16 Desse modo, transformar a formação e a gestão do trabalho em saúde não pode ser considerada uma questão simplesmente técnica, já que envolve mudança nas relações, nos processos, nos atos de saúde e, principalmente, nas pessoas. É uma questão tecnopolítica e implica a articulação de ações para dentro e para fora das instituições de saúde, na perspectiva de ampliação da qualidade e do aperfeiçoamento da assistência à saúde.16 Sabemos que o cuidado de enfermagem, principalmente em instituição hospitalar, muitas vezes ocorre de forma estressante, pela existência de inúmeras dificuldades: estruturais, financeiras, de recursos humanos, políticos e técnico-científicos.19 A Lei nº 7.498/1986, que trata do Exercício Profissional da Enfermagem (COFEN, 1987), estabelece que “cabe ao enfermeiro planejar as atribuições da equipe de enfermagem e delegar ações aos profissionais de nível técnico e médio”. Para que isso ocorra de maneira satisfatória, exige-se do enfermeiro conhecimentos das inúmeras tecnologias que surgem e das já existentes na área da saúde, bem como a atualização em relação a assuntos ainda em pesquisa.19 Os profissionais do cuidado necessitam de conhecimentos científicos, habilidades técnicas, atitudes e posturas éticas, intuição, interação, sensibilidade, constante reciclagem e busca de melhorias para uma atuação adequada.19 Como afirma Pires,19 o profissional enfermeiro precisa ter uma visão ampla e abrangente da área da saúde, buscar novos conhecimentos e agir como um ser politizado, consciente de suas atribuições e responsabilidades. Na busca de uma postura crítica, os enfermeiros devem agir de modo solidário, para o alcance de uma autonomia crescente e consubstanciada no processo de construção do conhecimento que reúne a troca de saberes, as experiências vivenciadas.19 Isso significa que é fundamental para o profissional enfermeiro nortear sua equipe e ser o elo do conhecimento técnico-científico para melhorar a qualidade da assistência. Mas essa não é a realidade em muitos hospitais de nosso país. Para que isso aconteça, é preciso que toda a equipe multiprofissional tenha a consciência da constante construção do aprendizado e do conhecimento. A formação profissional é uma tarefa socialmente necessária, devendo guardar para com a sociedade compromissos ético-políticos, estar em movimentação articulada com mutações na sociedade e ter a capacidade de escutar valores em transformações, atendendo, assim, a interesses coletivos e à construção de novidade em saberes e em práticas.16 CONCLUSÃO Evidenciou-se, neste estudo, que 85,7% dos profissionais de nível médio da instituição em questão não têm conhecimento da relação do controle da hipotermia para a prevenção da infecção de sítio cirúrgico. As respostas dos entrevistados mostram que a deficiência constatada pode ter sido acarretada por diversos motivos, isolados ou em conjunto, como o déficit na formação profissional, a falta de liderança do profissional enfermeiro, não buscar novos conhecimentos, não remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 34-41, jan./mar., 2011 39 Hipotermia como fator de risco para infecção de sítio cirúrgico: conhecimento dos profissionais de enfermagem de nível médio acompanhar o avanço tecnológico e novas descobertas na área da saúde. A busca para sanar essas deficiências pode ser encontrada na sintonia da orquestra entre o conhecimento teórico-prático e científico, na supervisão contínua das ações de enfermagem e em outros fatores de acordo com as condições reais de cada instituição. Há necessidade de que o profissional enfermeiro adquira amplo conhecimento na área em que atua, buscando os avanços da tecnologia e descobertas científicas, atuando efetivamente como supervisor e líder, bem como repassando novos conhecimentos e informações relevantes a toda sua equipe. Compete-lhe, pois, buscar estratégias que possibilitem sua capacitação e a utilização de pesquisas na prática. As instituições prestadoras de serviços de saúde devem proporcionar suporte organizacional, como fornecer recursos humanos, materiais e financeiros, para que esse profissional fundamente suas ações em conhecimento. Assim, ações estratégicas devem ser elaboradas para transformar a organização das práticas de saúde e as práticas pedagógicas, o que implica um trabalho articulado entre o sistema de saúde e as instituições formadoras, para a construção do conhecimento, no qual a teoria e a prática se fundem, proporcionado segurança e qualidade para a assistência do cliente cirúrgico. Esta pesquisa nos alerta sobre a importância de buscarmos sempre o conhecimento relacionado ao cenário em que estamos inseridos. Outros estudos voltados para questão da relação entre hipotermia e infecção de sítio cirúrgico devem ser realizados, uma vez que essa relação tem grande importância para a área da saúde. REFERÊNCIAS 1. Guyton AC, Hall JE. Temperatura corporal, regulação térmica e febre. 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( ) Sim ( ) Não Se sim, explique. ______________________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________________ Entrevistador escuta e compara com o que a literatura traz. ( ) Explica com facilidade e clareza. ( ) Explicação sem coerência com a realidade. ( ) Responde sim, porém não sabe explicar. Comentário: ____________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________________ 2. Quais são as medidas utilizadas para prevenir a hipotermia no cliente cirúrgico? ( ( ( ( ( ( ) Cobertores. ) Meias. ) Faixas crepes. ) Manta térmica ) Algodão ortopédico. ) Lençóis. 3. A instituição oferece: ( ( ( ( ( ( ) Aparelho de aquecimento artificial. ) Capuz/Touca. ) Exposição limitada da pele. ) Solução intravenosa aquecida. ) Controle da temperatura da sala. ) Outros _________________________________________. ( ) Treinamento. ( ) Orientação. ( ) Protocolo. ( ) Avaliação de desempenho. ( ) Nenhum tipo de orientação. 4. Observação do pesquisador a respeito de quais medidas de prevenção estão sendo utilizadas para a prevenção da hipotermia no cliente cirúrgico: ( ( ( ( ( ( ) Cobertor. ) Aparelho de aquecimento artificial. ) Capuz/Touca. ) Faixa crepe. ) Manta térmica ) Algodão ortopédico. ( ( ( ( ( ( ) Meia. ) Lençol. ) Exposição limitada da pele. ) Solução intravenosa aquecida. ) Controle da temperatura da sala. ) Outros ________________ ( ) Demonstrou conhecimento, porém não colocou em prática. Parcial. ( ) Demonstrou conhecimento, porém não colocou em prática. Total. ( ) A Instituição não disponibiliza de recursos materiais suficientes. * Após a entrevista, o pesquisador mostra ao entrevistado o que a literatura diz a respeito. remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 34-41, jan./mar., 2011 41 ASPECTOS CLÍNICOS E EPIDEMIOLÓGICOS DOS CLIENTES SUBMETIDOS À CINEANGIOCORONARIOGRAFIA CLINICAL AND EPIDEMIOLOGICAL ASPECTS OF PATIENTS WHO UNDERWENT CORONARY ANGIOGRAPHY ASPECTOS CLÍNICOS Y EPIDEMIOLÓGICOS DE LOS CLIENTES SOMETIDOS A CINEANGIOCORONARIOGRAFIA Maria Helena Barbosa1 Jordânia Lumênia Tavares2 Érica Vieira de Andrade3 Quenia Cristina Gonçalves da Silva3 Marina Aleixo Diniz4 Luiz Antônio Pertili Rodrigues de Resende5 Gabriela Lucas Cardoso6 RESUMO As doenças cardiovasculares representam a principal causa de morbimortalidade e estão associadas a vários fatores de risco. Trata-se de um estudo observacional, transversal, que teve como objetivos caracterizar os clientes submetidos à cineangiocoronariografia, segundo as variáveis socioeconômicas, clínicas e epidemiológicas, identificar os fatores de risco para coronariopatias e o conhecimento prévio sobre o procedimento. Foram entrevistados 107 clientes na Unidade de Hemodinâmica de um hospital de ensino de grande porte de Minas Gerais. Os dados foram analisados segundo estatística descritiva. A média de idade foi de 60,13 anos; 51,4% eram do sexo masculino; 75,7% afirmaram que tinham hipertensão arterial; 37,4%, que tinham história pregressa de infarto agudo do miocárdio; 46,7%, dislipidemia; 58,9% eram tabagistas; 25,2% etilistas; 70,1% sedentários; 35,5% tinham sobrepeso; 19,6% eram obesos; e 28,9% tinham diabetes mellitus. A maioria relatou que conhecia o procedimento e já o tinha realizado. Esses achados apontam para a necessidade de implementação de novos programas de prevenção de doença coronariana, tendo em vista os aspectos epidemiológicos identificados nessa população. Palavras-chave: Cateterismo Cardíaco; Fatores de Risco; Epidemiologia; Enfermagem. ABSTRACT Cardiovascular diseases are the leading cause of morbidity and mortality. These diseases are associated with multiple risk factors. This is an observational study that aimed to characterize patients who underwent coronary angiography, according to the socio, clinical and epidemiological variable and to identify the coronary heart disease risk factors and the patients’ previous knowledge about the procedure. We interviewed 107 clients in the catheterization lab of a large teaching hospital in Minas Gerais. Data were analyzed using descriptive statistics. The average age was 60.13 years, 51.4% were male, 75.7% had hypertension, 37.4% had a history of myocardial infarction, 46.7% had dyslipidemia, 58.9% were smokers, 25.2% consumed alcohol, 70.1% were sedentary, 35.5% were overweight, 19.6% were obese and 28.9% had diabetes mellitus. Most patients reported being familiar with the procedure and had already been submitted to it previously. In view of the epidemiological aspects identified among this population the study findings highlight the need for the implementation of new programs directed to the prevention of coronary disease. Key words: Heart Catheterization; Risk Factors; Epidemiology, Nursing. Resumen Las enfermedades cardiovasculares son la principal causa de morbilidad y mortalidad y están asociadas a múltiples factores de riesgo. Se trata de un estudio observacional con el objetivo de caracterizar los clientes sometidos a una cineangiocoronariografia según las variables socioeconómicas, clínicas y epidemiológicas, identificar los factores de riesgo para coronariocardiopatías y asimismo, los conocimientos sobre el procedimiento precedente. Entrevistamos a 107 clientes de la Unidad de Hemodinámica de un gran hospital escuela del Estado de Minas Gerais. Los datos fueron analizados utilizando la estadística descriptiva. La edad promedio fue de 60,13 años, 51,4% eran varones, 75,7% hipertensos, 37,4% tenía antecedentes de infarto de miocardio, 46,7% dislipemia, 58,9 % era fumadores, 25,2% consumía alcohol, 70,1% era sedentario, 35,5% estaba con sobrepeso, 19,6% era obeso y 28,9% tenía diabetes mellitus. La mayoría informó estar familiarizada con el procedimiento y que ya lo había realizado antes. Estos datos señalan la necesidad de implementar nuevos programas para la prevención de la enfermedad coronaria, teniendo en cuenta los aspectos epidemiológicos identificados en esta población. Palabras clave: Cateterismo Cardíaco; Factores de Riesgo; Epidemiología; Enfermería. 1 2 3 4 5 6 Enfermeira. Doutora em Enfermagem na Saúde do Adulto. Professora adjunta do Curso de Enfermagem da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Enfermeira. Egressa do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Enfermeira. Aluna do Programa Stricto sensu Mestrado em Atenção à Saúde da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Enfermeira. Mestre em Atenção à Saúde. Professora substituta do Curso de Enfermagem da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Médico. Professor assistente do Curso de Medicina da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Enfermeira. Especialista em Enfermagem em Unidades Cardiológicas e Hemodinâmica; Enfermeira do Serviço de Hemodinâmica do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Endereço para correspondência – Praça Manoel Terra, 330, Abadia, Uberaba-MG, Brasil. CEP: 38015-050. Telefone: (34) 3318-5484. E-mail: [email protected]. 42 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 42-46, jan./mar., 2011 INTRODUÇÃO As doenças cardiovasculares representam importante problema de saúde pública, constituindo a principal causa de morbimortalidade, com elevados custos em assistência médica, que acometem indivíduos cada vez mais jovens.1 De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), as doenças cardiovasculares são responsáveis por 16,7 milhões de mortes ao ano no Brasil, com projeções para o ano de 2020 de persistirem como causa principal de mortalidade e incapacitação.2 Segundo dados do DATASUS, em 2009, no Estado de Minas Gerais ocorreram 1.531 óbitos por doenças isquêmicas do coração e 3.888 por outras doenças cardiovasculares.3 Essas doenças estão associadas a fatores de risco (FRs) que podem ser classificados em modificáveis e não modificáveis. Os FRs modificáveis são aqueles em que o paciente e/ou a equipe de saúde podem atuar, como: dislipidemias, hipertensão arterial sistêmica (HAS), tabagismo, diabetes mellitus (DM), sedentarismo, estresse e obesidade. Os FRs não modificáveis são idade, sexo, cor de pele e história familiar de doença aterosclerótica.4,5 Dentre os exames frequentemente utilizados para o diagnóstico de doenças cardíacas, está a cineangiocoronariografia (CAT), utilizada para identificar doenças cardíacas, alterações estruturais e fisiológicas, tais como coronariopatias, disfunções miocárdicas, doenças valvulares e anormalidades congênitas do coração e dos grandes vasos. Além disso, esse exame também permite a realização de intervenções bem menos invasivas e de menor custo se comparado a intervenções cirúrgicas, no caso, quando há indicação de angioplastias transluminal coronariana percutânea imediatamente após o exame realizado.1,6 Embora seja um procedimento invasivo, a CAT pode ser realizada em ambiente ambulatorial, exigindo preparo prévio e um período de observação pós-exame de quatro a oito horas, dependendo da via de acesso radial ou femoral, respectivamente.7 Conhecer o perfil clínico e epidemiológico dos clientes submetidos à CAT poderá fornecer subsídios para a elaboração de protocolos de atendimento, tendo em vista a prevenção da doença arterial coronariana (DAC), assim como melhorar a qualidade da assistência para essa população. Neste estudo, teve-se como objetivos caracterizar os clientes submetidos à CAT, segundo as variáveis socioeconômicas, clínicas e demográficas, identificar os fatores de risco para coronariopatias e ter conhecimento prévio sobre o procedimento. MATERIAL E MÉTODO Realizou-se um estudo observacional, transversal, com abordagem quantitativa dos dados em um hospital público governamental de ensino, que atende pacientes de alta complexidade, localizado no município de Uberaba-MG. Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), sob o Parecer nº 1455/09. A amostra deste estudo foi constituída por 107 pacientes admitidos na unidade de hemodinâmica do hospital, campo deste estudo, que atenderam aos seguintes critérios de inclusão: ser adulto com idade de 18 anos ou mais; ter agendamento para a realização de CAT eletivo ou estar internado para realização do procedimento; aceitar participar da pesquisa e assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Foram excluídos os pacientes enconscientes, intubados e com dificuldade de comunicação oral para responder aos questionamentos inerentes ao estudo. A coleta de dados ocorreu no período de janeiro a fevereiro de 2010. Nesse período, foram realizados 174 procedimentos de CAT. Desses, 14 clientes se recusaram a participar do estudo, 1 se encontrava entubado sob ventilação mecânica, dois apresentavam quadro de confusão mental, 2 não verbalizavam e 48 casos não se encontravam agendados (urgência e emergência). Os dados foram coletados por um dos pesquisadores, no período matutino, considerando que os exames eletivos na unidade eram realizados no período da manhã. Para a obtenção dos dados, adotou-se a entrevista, que foi norteada por um instrumento estruturado contendo questões abordando os aspectos socioeconômicos, clínicos e demográficos (idade, gênero, comorbidades, uso de medicamentos e ocupação); os fatores de risco para a coronariopatia (dislipidemia, HAS, tabagismo, etilismo, DM, sedentarismo, dieta, sobrepeso e obesidade, infarto agudo do miocárdio prévio e história familiar de doença aterosclerótica); e o conhecimento prévio referido sobre o exame (ter ouvido falar sobre o exame ou ter realizado o exame anteriormente). Esses dados foram obtidos antes da realização do exame, após a admissão do paciente na Unidade de Hemodinâmica. Considerou-se sedentário todo indivíduo que referiu não praticar atividade física regularmente; quanto ao tabagismo e ao etilismo, questionou-se sobre o hábito no momento da entrevista e considerou-se FR quando a resposta era afirmativa. Quanto à análise, os dados foram inseridos em uma planilha eletrônica, no programa Excel XP® da Microsoft® e foram analisados segundo estatística descritiva em frequência absoluta, relativa e média, apresentados em gráfico. RESULTADOS Durante o período de coleta, 107 pacientes foram submetidos à cineangiocoronariografia, constituindo a amostra deste estudo. Observou-se que houve o predomínio de clientes na faixa etária entre 60 e 69 anos (32,71%) e a média de idade foi de 60,13 anos (mínima de 29 anos e máxima de 79 anos); 55 (51,40%) eram do sexo masculino e 54 (50,47%) da cor branca. Quanto à ocupação, 43 (40,19%) eram aposentados e 15 (14,02%) donas de casa. Com relação aos fatores de risco para coronariopatia, a maioria 81 (75,70%) referiu HAS (GRÁF. 1). remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 42-46, jan./mar., 2011 43 Aspectos clínicos e epidemiológicos dos clientes submetidos à cineangiocoronariografia GRÁFICO 1 – Gráfico de distribuição da porcentagem dos clientes submetidos à cineangiocoronariografia segundo os fatores de risco para coronariopatia. Uberaba-MG – 2010. DM: diabetes mellitus; HA: hipertensão arterial; IAM: infarto agudo do miocárdio; Hist. familiar de dç aterosc: História familiar de doença aterosclerótica. *Sobrepeso inclui clientes com IMC variando de 25,0 a 29,9 kg/m2. *Obesidade inclui clientes com IMC> 30 kg/m2. Quanto à média do índice de massa corporal (IMC), foi de 27,34 kg/m2 para homens (mínimo de 17,91kg/m2 e máximo de 48,78 kg/m2) e de 26,82 kg/m2 para mulheres (mínimo de 17,78 kg/m2 e máximo de 38,19 kg/m2). confirmando os resultados de outros estudos. 8-10 Entretanto, diverge de outras pesquisas realizadas no Brasil, nas quais foram avaliados fatores de risco para coronariopatias11-13. Quanto à alimentação, 104 (97,20%) disseram que usavam óleo vegetal na dieta; 100 (93,46%) consumiam verduras e legumes; 98 (91,59%) carne vermelha, 31 (28,97%) usavam sal em excesso; 23 (21,50%) tinham outros hábitos alimentares; e 18 (16,82%) usavam gordura animal na dieta. Evidenciou-se que a maioria era do gênero masculino, também demonstrado em outros estudos 8,10,14,15 e divergente de outras pesquisas,9,11,12,14,15 nas quais foram avaliados os fatores de risco para DAC. Observou-se que 98 (91,59%) referiram uso de medicamentos em domicílio. Dentre esses, 78 (72,90%) faziam uso de anti-hipertensivos. Quantoaoconhecimentosobreoprocedimento,75 (70,09%) disseram que conheciam a cineangiocoronariografia e, desses, 48 (44,86%) já haviam sido submetidos ao exame. Ressalte-se, ainda, que 81 (75,70%) dos pacientes disseram que tinham recebido orientações sobre o procedimento no setor de hemodinâmica após a admissão nessa unidade. Evidenciou-se que houve evolução para angioplastia transluminal coronariana percutânea em 30 (28,04%) dos procedimentos, com implante de stent em 100% dos casos. DISCUSSÃO Neste estudo, observou-se a predominância de uma população idosa, com média de idade de 60,13 anos, 44 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 42-46, jan./mar., 2011 Com relação à cor da pele, a maioria era de cor branca, o que se pode observar, também, em estudo realizado com homens em Juiz de Fora-MG16 e em Pelotas-RS,17 em que foram investigados os fatores de risco para DAC. Já em estudo no qual se pesquisou a frequência da hipertensão arterial nas capitais brasileiras predominou a cor morena.13 Neste estudo, evidenciou-se a maioria com sobrepeso, confirmando os resultados de outros estudos.12,13,16-18 De acordo com a Associação Brasileira de Nutrologia,19 considera-se eutrofia o IMC variando de 18,5 a 24,9 kg/m2, e sobrepeso IMC variando de 25,0 a 29,9 kg/ m2. É importante ressaltar que houve pacientes que apresentaram até obesidade grau III, cujo IMC é maior ou igual a 40 kg/m2. Dentre os fatores de risco, o que obteve maior prevalência foi a HA, confirmando estudo realizado em Pelotas-RS.17 A maioria também referiu que era tabagista. Em muitos estudos, percebe-se que o tabagismo ainda está presente na maioria da população jovem e adulta, apesar das campanhas e esforços governamentais ao seu combate.8,17,20,21 Verificou-se, também, que a dislipidemia foi referida por 46,73%, confirmando alguns estudos11,12,14,18 e divergindo de outra pesquisa.8 Neste estudo, a maioria disse que não praticava atividade física regularmente, o que confirma outros estudos.12,17,18,22 Entretanto diverge de estudo realizado em Juiz de ForaMG, onde o sedentarismo foi evidenciado em 28%.16 Nesta pesquisa, evidenciou-se que, embora a maioria dos pacientes tenha referido o uso de óleo vegetal na dieta, além de frutas e legumes, foi confirmado, também, o uso de carne vermelha, uso excessivo de sal e gordura de origem animal, o que é considerado fator de risco para a DAC, principalmente o IAM.23-25 Cabe ressaltar que uma das limitações deste estudo refere-se à obtenção dos dados para análise nutricional, merecendo novas investigações sobre esse aspecto. Observou-se uso de medicamentos em domicílio pela maioria dos clientes, sendo os medicamentos mais utilizados os anti-hipertensivos, antiplaquetários, vasodilatadores, diuréticos e antilipemiantes. Esses resultados confirmam estudo realizado com clientes participantes de um programa de reabilitação cardíaca supervisionada, em que se observou maior frequência no uso de betabloqueadores. 26 Já em estudo em que foram avaliados o perfil lipídico e a intensidade de doença arterial coronariana, foi maior o uso de hipolipemiante e AAS.8 A maioria dos clientes apresentava história familiar de doença aterosclerótica, o que confirma estudo realizado com trabalhadores de uma destilaria em Ribeirão PretoSP27 e estudo realizado em ambulatório de prevenção de DAC do Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul-RS.28 Quanto ao conhecimento do procedimento da CAT, a maioria dos clientes relatou que conhecia o procedimento ao qual seriam submetidos, embora nunca o tivessem realizado, o que também foi observado em estudo realizado em Porto Alegre-RS.29 Quanto aos procedimentos anteriores, 44,86% relataram que já tinham sido submetidos ao procedimento. CONCLUSÃO A maioria dos clientes submetidos à CAT estava na faixa etária de 60 a 69 anos de idade, eram do gênero masculino, brancos e aposentados. Apresentaram os seguintes fatores de risco: sobrepeso, obesidade, tabagismo, etilismo, sedentarismo, hipertensão arterial, dislipidemia, infarto agudo do miocárdio prévio e história familiar de doença aterosclerótica. Quanto ao conhecimento do procedimento da CAT, a maioria já o conhecia, sendo que alguns já haviam realizado o exame. Espera-se que os resultados evidenciados nesta pesquisa possam contribuir para a implementação de novos programas de prevenção da doença coronariana e de medidas de orientação sobre o procedimento de CAT à população. REFERÊNCIAS 1. Padilha RV, Kristensen CH. Estudo exploratório sobre medo e ansiedade em pacientes submetidos ao cateterismo cardíaco. Psico. 2006; 37(3):233-40. 2. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria Executiva. Datasus. Informações de Saúde. Morbidade e informações epidemiológicas. 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Com o objetivo de avaliar a tendência à mortalidade por homicídio nos homens em Belo Horizonte, foi realizado este estudo, em uma série entre 1980 e 2005. Foram utilizados os dados secundários do Sistema de Informação sobre Mortalidade, selecionando-se os subgrupos da nona e da décima revisão, segundo a idade e o ano de ocorrência. O único critério de exclusão adotado foi a ausência de dados referente à idade. Foram calculados a mortalidade proporcional, as taxas específicas de mortalidade, a porcentagem e os incrementos e decrementos. Para a análise de tendência, foram utilizados a técnica estatística de regressão linear simples e os testes de hipótese com um nível de significância α < 0,05. Os resultados mostraram maior percentual de óbitos por homicídios e maiores incrementos desse percentual nos grupos etários entre 10 e 49 e 10 e 19 anos, respectivamente. Observou-se uma tendência de aumento das taxas de mortalidade durante o período de 1980 a 2005 (p<0,05), com maiores coeficientes angulares a partir de 1996. A tendência de aumento dos coeficientes de mortalidade foi maior nos grupos mais jovens. No grupo de 70 anos e mais, observou-se uma tendência de estabilização. Os maiores coeficientes da mortalidade em adultos jovens sugerem a possibilidade de agravamento desse quadro no futuro. Nesse sentido, propõem-se medidas preventivas e políticas intersetoriais para combater à violência. Palavras-chave: Masculino; Mortalidade; Homicídio; Agressão. ABSTRACT In recent decades, an increase in the homicide trend altered the pattern of male mortality mostly amongst young adults. This study aimed to evaluate the homicide trend in Belo Horizonte between 1980 and 2005. It used secondary data from the Mortality Information System. The subgroups from the IX and the X Review were selected according to the age and the year of occurrence. The only exclusion criteria adopted was the absence of data regarding age. The proportional mortality, the specific mortality rates, the percentage and the increments and decrements were calculated. The trend was examined by linear regression statistical analysis and hypothesis testing with a significance level α <0, 05. The results showed higher percentages in mortality from homicide in the age group 10-49 years old and a higher percentual increase in the age group 10-19 years old. It was observed an rise in the mortality trend rates during the period from 1980 to 2005 (p <0, 05), with a higher angular coefficient from 1996. The increase in the mortality coefficient was more significant in the younger age groups; while there was a stabilizing tendency in the age groups equal or above to 70 years of age. The high mortality rate among young adults suggests the aggravation of this problem in the future. In this sense, the study proposes preventive measures and intersectoral policies to combat violence. Key words: Male; Mortality; Homicide; Aggression. RESUMEN En las últimas décadas la tendencia creciente de homicidios ha cambiado el perfil de la mortalidad entre los hombres, principalmente en adultos jóvenes. Este estudio fue realizado con el objetivo de evaluar la tendencia de homicidios en Belo Horizonte, en una serie, entre 1980 y 2005. Se utilizaron datos secundarios del Sistema de Información sobre Mortalidad seleccionándose los subconjuntos de las 9na. y 10ma. revisión, según la edad y el año del acontecimiento. El único criterio de exclusión fue la ausencia de datos correspondientes a la edad. Se calculó la mortalidad proporcional, las tasas específicas de mortalidad, el porcentaje de aumento y disminución. Para el análisis de tendencias, se utilizó la técnica estadística de regresión lineal y pruebas de hipótesis con un nivel de significación α <0,05. Los resultados mostraron un mayor porcentaje de óbitos por homicidios y mayores incrementos de ese porcentaje en los grupos de 10-49 y 10-19 años, respectivamente. Fue observada una tendencia de aumento en las tasas de mortalidad durante el período de 1980 a 2005 (p <0,05), con curvas más altas desde 1996. La tendencia de aumento de los coeficientes de mortalidad fue mayor en grupos mas jóvenes. En el grupo que va desde los 70 años y más se observó una tendencia de estabilización. Las tasas más altas de crecimiento de la mortalidad de los adultos jóvenes sugieren la posibilidad de que este cuadro se agrave en el futuro. En este sentido se proponen medidas preventivas y políticas intersectoriales para combatir la violencia. Palabras clave: Masculino; Mortalidad; Homicidio; Agresión. 1 2 3 Enfermeira. Doutora. Professora adjunta do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da Universidade Federal de Minas Gerais (EE-UFMG). Enfermeira. Doutora. Professora assistente do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da EE-UFMG. Enfermeira. Mestre. Professora assistente do Departamento de Enfermagem Materno- Infantil e Saúde Pública da EE-UFMG. Endereço para correspondência: Lenice de Castro Mendes Villela, Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Enfermagem, Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública, Avenida Professor Alfredo Balena, 190/sala 404, Santa Efigênia – Belo Horizonte – MG, Brasil, CEP 30130-100. Email: <lenice @enf.ufmg.br>. remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 47-53, jan./mar., 2011 47 Estudo dos diferenciais da mortalidade masculina por homicídio, em Belo Horizonte, de 1980 a 2005 INTRODUÇÃO No final do século XX, a violência e os acidentes, aliados às doenças crônicas e degenerativas, acrescidos das doenças emergentes e reemergentes, alteraram o perfil epidemiológico da população brasileira, o que ocasionou uma transposição de agravos. A tendência crescente dos indicadores da violência configura-se como problema de saúde pública e coletiva de grande magnitude e transcendência, pois tem causado forte impacto na mortalidade e na morbidade. Na população, têm ocorrido alterações no comportamento dos indivíduos, causando preocupação a toda a sociedade. Sinais de medo e insegurança, aliados à perda de jovens, são partes desse sentimento, mais perceptível nas grandes metrópoles. A mortalidade por violência determinada pelo homicídio, desde a década de 1960, destacou-se como um dos principais agravos a saúde, pois, desde essa época, vem provocando lesões e óbitos em jovens, com taxas mais elevadas no sexo masculino. Os homicídios, juntamente com os acidentes de transporte, destacamse entre as causas externas, por serem grupos de maior impacto epidemiológico e responsáveis por um significativo número de óbitos, principalmente nas regiões metropolitanas e nas áreas urbanas, onde se concentram 75% da população brasileira.1-3 A década de 1980 foi considerada o marco da transição na mortalidade por causas externas, período em que as respectivas taxas apresentaram aumento progressivo, evoluindo do quarto para o segundo lugar na classificação da mortalidade. Ao final dessa década, as taxas de mortalidade por acidentes de trânsito se destacavam como as principais responsáveis pela mortalidade por causas externas. Concomitantemente, as taxas de mortalidade por homicídio evoluíram de tal forma que se posicionaram em primeiro lugar nas estatísticas de mortalidade por causas externas, especialmente nas grandes capitais brasileiras. Esse fenômeno ocorreu, também, em outros países, como México, Colômbia, Porto Rico e Venezuela e, em menor frequência, nos Estados Unidos, constituindo-se em sério problema de saúde pública e coletiva, especialmente entre a população masculina jovem.4-7 Entre os países da América Latina, no Brasil ocorre as mais altas taxas de mortalidade por homicídio, sobressaindo, pelos elevados coeficientes, as macrorregiões, as regiões Norte, Nordeste, Centro Sul e Sudeste.3,8,9 Souza10 apresentou a mortalidade por homicídios no Brasil, no período de 1980 a 1988, sendo observado um crescimento proporcional em todas as faixas etárias, notadamente no sexo masculino, que representava 90% das vítimas e entre os jovens, na faixa etária entre 10 e 19 anos, que apresentaram coeficientes de maior magnitude. Esse autor detectou um incremento percentual de 93,3% para a faixa etária entre 10 e 14 anos e de 43,6% para a faixa entre 15 e 19 anos. Para Minayo,11 nesses últimos vinte anos, cerca de 70% de todos os homicídios ocorreram com jovens nas faixas etárias 48 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 47-53, jan./mar., 2011 entre 10 e 39 anos. As vítimas eram do sexo masculino (83%) e, em sua maioria, com perfil socioeconômico e cultural semelhantes, residentes nas periferias das grandes cidades. Embora o Estado de Minas Gerais apresente menores taxas de mortalidade por homicídio que outras regiões do Brasil, sua capital classifica-se entre as cinco primeiras na mortalidade por esse grupo de causa.12 Alguns estudos de mortalidade por homicídio, realizados no município de Belo Horizonte, evidenciaram que a ocorrência de óbitos por esse grupo de causa é distinta, segundo suas diferentes regiões geográficas. Ishitani et al.,13 ao considerar o indicador dos “anos potenciais de vida perdidos” (APVP), identificaram maior frequência na mortalidade por homicídios em pessoas jovens e residentes em aglomerados urbanos, sendo responsáveis por 61,5% dos APVPs. Com as alterações no perfil epidemiológico de mortalidade da população masculina, com ênfase na violência, tornou-se oportuno estudar as taxas de mortalidade masculina por homicídio em série histórica e analisar sua tendência no municipio de Belo Horizonte. Neste artigo, discute-se a tendência da mortalidade em homens residentes em Belo Horizonte, com idade igual ou superior a 10 anos, no período de 1980 a 2005. METODOLOGIA Este estudo caracteriza-se como série histórica (1980 a 2005), cujos dados secundários foram colhidos no Sistema de Informação de Mortalidade (SIM), da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (MS), disponibilizados na Base de Dados do DATASUS/Informações de Saúde/Mortalidade.14 Os óbitos no SIM são definidos segundo a causa básica de morte e codificados segundo a Classificação Estatística Internacional de Doenças, Lesões e Causas de Óbito – Nona Revisão15 –, com o código E960-E969: Homicídios e Lesões Provocadas Intencionalmente por Outras Pessoas, para o período de 1980 a 1995; e Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – Décima Revisão16 –, com o código X85-X09: Agressões, para o período entre 1996 e 2005. Foram selecionados os homicídios e as lesões provocadas intencionalmente por outras pessoas e agressões, no sexo masculino, ocorridos na cidade de Belo Horizonte, segundo a faixa etária e o ano da ocorrência. O único critério de exclusão adotado foi a ausência do registro da idade. Para uniformizar a causa básica do óbito, utilizouse o termo “homicídio”. Os dados populacionais necessários para os cálculos dos coeficientes segundo sexo, faixa etária, ano de ocorrência e local de residência foram fornecidos pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (FIBGE), disponibilizados na Base de Dados do DATASUS/ Informações demográficas e socioeconômicos, 17 provenientes dos censos de 1980, 1991 e 2000, bem como da contagem populacional referente ao ano de 1996 e das estimativas para os anos intercensitários, desagregadas por sexo masculino e faixa etária. Os grupos etários de interesse foram agrupados em categorias, com intervalos de 10 anos, nos estratos etários de 10 a 19 anos, 20 a 29 anos, 30 a 39 anos, 40 a 49 anos, 50 a 59 anos, 60 a 69 anos e 70 anos e mais. Embora as informações dos bancos de dados, fornecidas pelo SIM/MS, sejam de domínio público e não apresentem variáveis relacionadas à identificação de indivíduos, o projeto foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (COEP/UFMG). Os coeficientes específicos de mortalidade foram construídos com base no conjunto de óbitos masculino de residentes em Belo Horizonte, por grupos etários, expressos por 100 mil habitantes. RESULTADOS Para o cálculo do indicador de mortalidade proporcional, em cada ano da série histórica utilizou-se como numerador o número de óbitos por faixa etária e como denominador o total de óbitos por homicídios em 1980, 1991, 1996, 2000 e 2005, respectivamente. Para o cálculo dos incrementos e decrementos percentuais dos coeficientes específicos de mortalidade, foram utilizados esses indicadores, que constituem uma medida que resulta de um quociente cujo numerador é a diferença entre o maior e o menor valor, e o denominador é o menor valor da frequência relativa que se quer comparar, obtendo-se o resultado em porcentagem. A análise descritiva incluiu a distribuição da mortalidade proporcional e os coeficientes específicos de mortalidade, classificados segundo o sexo masculino, a faixa etária, o local de residência e os coeficientes entre 1980 e 2005. Para a análise de tendência, utilizou-se a técnica estatística de regressão linear simples não paramétrica de Gordis,18 o que facilitou a visualização da tendência dos coeficientes de mortalidade por homicídio ao longo dos anos e a associação linear entre tempo (anos) e o coeficiente de mortalidade. Os testes de hipótese foram calculados com nível de significância α < 0,05. Para essas análises, utilizou-se o software Excell e o software Statistical Package for Social Sciense (SPSS). A mortalidade proporcional por homicídios, descrita na TAB. 1, apresentou maiores percentuais nas faixas etárias entre 10 e 49 anos, com destaque para a faixa etária entre 20 e 29 anos, pela sua magnitude. No entanto, a faixa etária entre 10 e 19 anos apresentou maior incremento percentual (55%) e, a seguir, o grupo de 20 a 29 anos (10,7%). As faixas etárias entre 30 e 39 anos e 40 e 49 anos demonstraram decrementos, o que pode justificar o deslocamento da mortalidade por homicídios para os homens mais jovens, ou seja, aqueles na faixa etária entre 10 e 19 anos e ou 20 e 29 anos. A partir da faixa etária de 50 anos, observam-se percentuais menores e decrementos nos anos estudados. Em relação à variação percentual dos coeficientes de mortalidade por homicídio no município de Belo Horizonte, verifica-se que, durante algum período do estudo, ocorreram incrementos percentuais em todas as faixas etárias, exceto na faixa etária entre 50 e 59 anos (GRÁF. 1). As faixas etárias entre 10 e 19 anos e de 20 a 29 anos sobressaíram por apresentarem maiores incrementos percentuais, ou seja, uma variação percentual de 430% e 260%, respectivamente. A seguir, as faixas etárias com suas variações percentuais entre 30 e 39 anos (111%), 70 anos e mais (98%), 60 a 69 anos (70%) e 40 a 49 anos (21%), com destaque para a faixa etária entre 50 e 59 anos, que apresentou decrementos (- 16%). TABELA 1 – Distribuição em percentual da mortalidade por homicídios no sexo masculino, por faixa etária, em 1980, 1991, 1996, 2000 e 2005, em Belo Horizonte-MG 1980 1991 1996 2000 2005 Incrementos/ N% N% Decrementos (%) Faixa Etária N% 10 a 19 anos 38 14,9 29 11,6 40 13,6 120 21,2 229 23,1 55,0 20 a 29 anos 107 41,9 107 42,9 118 40,0 258 45,9 461 46,4 10,7 30 a 39 anos 49 19,2 61 24,5 76 25,8 113 20,1 172 17,3 - 9,9 40 a 49 anos 36 14,1 27 10,8 40 13,6 41 7,3 81 8,1 - 42,5 50 a 59 anos 20 7,8 16 6,5 16 5,4 18 3,2 32 3,2 - 58,9 60 a 69 anos 4 1,6 7 2,8 4 1,3 11 1,9 14 1,4 - 12,5 70 e mais 1 0,5 2 0,9 1 0,3 2 0,4 5 0,5 0 Total 255 100,0 N% 249 100,0 N% 295 100,0 563 100,0 994 100,0 Fonte:www.datasus.gov.br 14 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 47-53, jan./mar., 2011 49 Estudo dos diferenciais da mortalidade masculina por homicídio, em Belo Horizonte, de 1980 a 2005 GRÀFICO 1 – Variação percentual dos coeficientes específicos de mortalidade por homicídios de 1980 a 2005, em Belo Horizonte-MG Fonte: www.datasus.gov.br 14 O GRÁF. 2 apresenta uma tendência de ascensão da taxas de mortalidade por homicídios no período de 1980 a 2005, com significância estatística <0,05, quando se observam maiores coeficientes angulares a partir de 1996. GRÁFICO 2 – Tendência dos coeficientes específicos de mortalidade por homicídios, no sexo masculino, de 1980 a 2005, em Belo Horizonte-MG Fonte:www.datasus.gov.br 14 50 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 47-53, jan./mar., 2011 No período estudado, foram observadas curvas ascendentes dos coeficientes específicos de mortalidade na população mais jovem, entre 10 e 39 anos, com destaque para a faixa etária entre 20 e 29 anos, pelo aumento expressivo da mortalidade e maiores coeficientes angulares a partir de 1995. No grupo maior de 40 anos, houve uma tendência de estabilização dos coeficientes com menores coeficientes angulares ao longo do período (GRÁF. 3). GRÁFICO 3 – Tendência dos coeficientes específicos de mortalidade por homicídios, no sexo masculino, de 1980 a 2005, em Belo Horizonte-MG Fonte: www.datasus.gov.br14 DISCUSSÃO Os resultados apresentaram um aumento gradativo da mortalidade por homicídios no sexo masculino – cerca de 400% no período estudado. No entanto, o crescimento percentual da mortalidade não foi linear, apresentando diferenças entre os grupos etários. Entre os mais jovens houve um incremento maior e, apesar de o percentual continuar se elevando, observou-se queda na magnitude desse aumento a partir dos 40 anos. Estudos têm demonstrado que, a partir da década de 1990, o crescimento da mortalidade por homicídio no Brasil se distingue pela sua magnitude das outras capitais do País, com exceção de Salvador e Cuiabá. Nessa década, no Brasil, os homicídios passaram a ocupar o primeiro lugar na mortalidade por causas externas, com destaque para o sexo masculino, que se justifica pelos seus fatores de risco, como o uso de drogas lícitas ou ilícitas e armas de fogo.8 Em Belo Horizonte e na região metropolitana, o crescimento acelerado desse remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 47-53, jan./mar., 2011 51 Estudo dos diferenciais da mortalidade masculina por homicídio, em Belo Horizonte, de 1980 a 2005 coeficiente ocorreu a partir dessa década, em ambos os sexos, com maior incremento para o sexo masculino, sobretudo para a região metropolitana.19 A variação percentual dos coeficientes específicos de mortalidade por homicídios, apresentada no estudo, definiu um perfil que foi compatível com os dados identificados em algumas regiões do mundo. Os homicídios incidiram em homens na faixa etária entre 10 e 39 anos. Essa concentração, com maiores taxas de mortalidade entre os adolescentes, jovens e adultos jovens do sexo masculino, confirma os resultados de outros estudos. No município de Belo Horizonte e na região metropolitana, destaca-se a faixa etária entre 15 e 39 anos.13,19 No Brasil e em suas regiões, destacam-se mortes intencionais e prematuras na faixa etária entre 15 e 39 anos.3,19,20 Estudos do National Violent Deaths Reporting System englobam resultados de 16 Estados e apresentam a taxa global de homicídios de 5,5 mortes por 100 mil habitantes, mais concentrada nas faixas etárias de 20 a 24 anos e de 25 a 29.21 A tendência da mortalidade por homicídios nas faixas etárias mais jovens, nas quais se posicionaram os maiores coeficientes angulares, pode ser justificada pelos fatores comportamentais dos homens jovens, que usualmente se expõem aos perigos dos acidentes e à violência. A discussão atual sobre a relação masculinidade, juventude e violência poderiam explicar as altas taxas de homicídio entre os homens. O modelo hegemônico de identidade masculina, alicerçado na crescente exposição ao risco, na demonstração de coragem e poder, tem como símbolos drogas, armas, carros e esportes radicais. Dessa forma, naturaliza a violência e constitui cenário para a maior vulnerabilidade do homem, seja como autor ou como vítima.22 Além disso, podem ser imputadas a essa situação o crescente processo de ocupação urbana desordenada, desigualdades sociais intraurbanas, difícil acesso a bens e serviços e políticas públicas ineficientes.8 Para Beato Filho, 23 não são somente as condições socioeconômicas isoladas as responsáveis pelos conglomerados dos homicídios, mas também o tráfico de drogas associado à violência presente nessas regiões. Este fato repercute negativamente sobre a economia, haja vista que a mortalidade predomina em jovens em idade produtiva, com aumento dos anos potenciais de vida perdidos, o que onera, também, o sistema de saúde. As situações que não evoluem para o óbito imediato devem, também, ser consideradas, pois as demandas no atendimento de emergências, internações e reabilitação aumentam consideravelmente os custos hospitalares. Além disso, há prejuízos econômicos, decorrentes do absenteísmo ao trabalho e dos agravos mentais e emocionais que provocam nas vítimas e seus familiares. Cabe ao setor saúde contribuir na prevenção da violência, assegurando parcerias entre os vários setores da sociedade e dotação de recursos para as medidas preventivas.24,25 Neste estudo, o ritmo da velocidade de crescimento dos coeficientes de mortalidade reduziu a partir dos 40 anos, quando pode ser evidenciado o fenômeno da 52 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 47-53, jan./mar., 2011 vitimização e menor exposição a situações de violência e criminalidade. Outra justificativa poderia ser o efeito inércia, ou seja, gerações que apresentam baixas taxas de homicídio na juventude tendem a perpetuar o padrão em todo o ciclo da vida. O inverso também poderá ocorrer: se altas taxas na geração jovem são registradas, haverá, no futuro, a manutenção da tendência elevada dos homicídios, também, após os 40 anos.25-27 Um planejamento urbano e regional, que reoriente a melhoria das condições e qualidade de vida nas periferias das aglomerações urbanas, poderia diminuir a delinquência da violência e da criminalidade urbana. Santos et al.,28 ao utilizarem análise espacial de mortes por causas violenta em Porto Alegre, destacam que as vítimas de homicídio concentram-se nas periferias da áreas mais urbanizadas, com baixa condição socioeconômica e grande circulação noturna, o que pode gerar conflitos, brigas e, consequentemente, homicídios. Outras estratégias seriam a melhoria do sistema educacional e a aplicação de recursos para o desenvolvimento de pesquisas, de fundamental importância para adequar os investimentos em programas preventivos, no sentido de minimizar a mortalidade por homicídio. A tendência crescente de homicídios encontrada no período estudado aponta para a necessidade de políticas intersetoriais de combate à violência. As maiores taxas de mortalidade entre adultos jovens sugerem a possibilidade de agravamento desse quadro no futuro, com a persistência do ciclo da violência se estendendo, também, à população adulta e idosa. Dessa forma, a estabilidade das taxas encontradas para as idades de 40 anos e mais pode ser uma situação transitoria. CONCLUSÃO A variação da mortalidade por homicídio por faixa etária aponta para a necessidade de atenção diferenciada. Os maiores coeficientes e incrementos percentuais de mortalidade nas faixas etárias de adultos jovens demonstram a inserção precoce na violência, aumentando os anos potenciais de vida perdidos e comprometendo, no futuro, o desenvolvimento individual e coletivo. A situação apresentada demanda a definição ações intersetoriais e medidas preventivas direcionadas para a formação de jovens. O comprometimento dos gestores na elaboração de políticas públicas de enfrentamento da violência e criminalidade em curto, médio e longo prazos poderia trazer mudanças estruturais, socioeconômicas e culturais capazes de reduzir a mortalidade por homicídio. As estratégias de intervenção voltadas para a redução dos fatores de risco e para o aumento dos fatores de proteção incluem a redução da pobreza, da desigualdade social e o incentivo dos jovens ao mercado de trabalho. Além disso, a permanência na escola, a prevenção do fácil acesso a armas e drogas e o exercício permanente de resolução dos conflitos sem o uso de agressões fatais e não fatais são outros aspectos a considerar. AGRADECIMENTOS À Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (PRPQ/UFMG) e ao Programa de Auxílio para a Pesquisa dos Recém-Doutores, pelo financiamento do projeto. REFERÊNCIAS 1. Barata RB, Ribeiro MCSA, Guedes MBL, Moraes JC. 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Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise de Situação de Saúde; 2004. p.135-217. 13. Ishitani LH, Marislaine LM, Lopes HNRO, Souza DAP, Miranda PSC. Mortalidade por homicídios em bairros e favelas da Região Centro Sul de Belo Horizonte. Rev Med Minas Gerais. 2001; 11:7-10. 14. Brasil. Ministério da Saúde. Fundação Nacional de Saúde. Datasus. Informações de saúde / Mortalidade. Brasília; FUNASA; 2000. [Citado 2007 mar 23]. Disponível em http://tabnet.datasus.gov.br. 15. Organização Mundial da Saúde (OMS). Manual da classificação estatística internacional de doenças, lesões e causas de óbito (CID-9). 9ª ed. São Paulo: USP; 1978. p.559-659. 16. Organização Mundial da Saúde ([OMS). Classificação estatística internacional de doenças e problemas relacionados à saúde, 10ª. Rev. (CID10) São Paulo: USP.1993. p.1013-130. 17. Brasil. Ministério da Saúde. Fundação Nacional de Saúde. Datasus. Informações e saúde, informações demográficas e socioeconômicas. Brasília; FUNASA; 2000. [Citado 2003 mar. 23]. Disponível em <http://www.datasus.gov.br/tabnet/tabnet/htm>. 18. Gordis L. From association to causation: deriving inferences from epidemiology studies. In: Gordis L, editor. From Epidemiology. Philadelphia: W.B. Saunders; 2000. p.184-203. 19. Caiafa WT, Almeida MCM, Oliveira, CDL Friche AAL, Matos SG, Dias MAS, et al. The urban environment from the health perspective: the case of Belo Horizonte, Minas Gerais , Brazil. Cad Saúde Pública. 2005; 21(3):956-67. 20. Laurenti R, Buchala CM, Mello Jorge MHP, Lebrão ML, Gotlieb SLD. Perfil epidemiológico da saúde masculina na região das Américas: uma contribuição para o enfoque de gênero. In: Laurenti R, editor. Perfil epidemiológico da saúde masculina na região das Américas: uma contribuição para o enfoque de gênero. São Paulo: Faculdade de Saúde Pública da USP/FSP; 1998. p. 99-121. 21. Minamisava R, Nouer SS, Morais Neto OL, Melo LK, Andrade ALSS. 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Enferm.;15(1): 47-53, jan./mar., 2011 53 ANEMIA EM CRIANÇAS E FATORES ASSOCIADOS EM REGIÃO URBANA* FACTORS ASSOCIATED TO ANEMIA IN INFANTS RESIDENTS OF AN URBAN REGION FACTORES ASOCIADOS A LA ANEMIA EN NIÑOS DE UNA ZONA URBANA Milene Cristine Pessoa1 Ann Kristine Jansen2 Gustavo Velásquez-Meléndez3 Jose Divino Lopes3 Mark Anthony Beinner³ RESUMO O objetivo com esta pesquisa foi identificar a frequência da anemia em crianças do município de Vespasiano-MG e sua associação com variáveis socioeconômicas, demográficas e biológicas. Foram avaliados 556 bebês e pré-escolares na faixa etária de 6 a 24 meses entre maio e julho de 2007. A hemoglobina sanguínea foi determinada por punção digital, pelo método da cianometahemoglobina. Também foi aplicado um questionário às mães para a obtenção de variáveis biológicas, socioeconômicas e demográficas. Considerou-se anemia a concentração de Hb <11,0g/dL, segundo Organização Mundial da Saúde (OMS). A frequência de anemia na população estudada foi de 37,9%. Foi possível verificar que as variáveis que tiveram associação independente com a anemia foram: baixa escolaridade materna (< 8 anos de estudo) (RP=1,37; 1,11-1,70); esgoto escoado a céu aberto ou em fossa (RP=1,51; 1,21-1,87); criança possuir pelo menos um irmão menor de 5 anos (RP=1,43; 1,16-1,76); faixa etária entre 6 e 12 meses incompletos (RP=1,36; 1,11-1,67); e sexo masculino (RP=1,25; 1,03-1,54). A frequência de anemia encontrada foi caracterizada como problema de saúde pública, agravada nos subgrupos da população de baixos recursos socioeconômicos. Esses resultados alertam para a necessidade de avaliação de políticas de intervenção implementadas. A instituição de mecanismos contínuos de vigilância alimentar e nutricional faz-se urgente no município avaliado, permitindo uma intervenção precoce no problema. Palavras-chave: Anemia Ferropriva; Frequência; Fatores Socioeconômicos; Bebês; Pré-Escolares. ABSTRACT The objective of this study was to investigate the frequency of anemia in children and their association with socioeconomic, demographic and biological variables. Between May and July 2007 mothers of infants and preschoolers aged 6 to 24 months were invited to participate in the study. Hemoglobin (Hb) level was assessed on site by finger prick blood tests using the cyanmethemoglobin method. Additionally, mothers were asked to answer a social economic, biological and demographic questionnaire. The frequency of anemia in the 556 children examined was 37.9%. The results show that anemia was associated with the following variables: mother’s schooling less than 8 years (PR=1.37; CI95% 1.11–1.70), open sewers or cesspit nearby (PR=1.51; 1.21–1.87), the child has at least one sibling younger than five years old (PR=1.43; 1.16–1.76), children from 6 to 12 months of age (PR=1.36; 1.11 – 1.67) and of the male sex (PR=1.25; 1.03–1.54). The frequency of anemia detected in young children represents a public health problem aggravated in low income families. These results highlight the need to re-evaluate the current intervention policy. The implementation of continuous food security mechanisms and nutrition are urgently recommended in the area under study are mechanisms which will enable an early response to the problem of anemia. Key words: Iron Deficiency Anemia; Frequency; Social Economic Factors; Infants; Preschoolers. RESUMEN El objetivo de este estudio fue identificar la frecuencia de anemia en los niños en la ciudad de Vespasiano-MG y su asociación con las variables socioeconómicas, demográficas y biológicas. Se evaluaron 556 bebés y niños entre 6 y 24 meses de mayo a julio de 2007. La hemoglobina de la sangre se determinó mediante punción digital por el método de cianometahemoglobina. También se aplicó una encuesta a las madres para obtener las características biológicas, socioeconómicas y demográficas. La concentración de Hb <11,0 g / dl, según la Organización Mundial de la Salud, está considerada como anemia. La frecuencia de anemia en la población objeto de estudio fue de 37,9%. Las variables asociadas a la anemia fueron: baja educación materna (menos de 8 años de estudio) (PR = 1,37, 1,11 a 1,70), aguas residuales a cielo abierto o en fosa séptica ( PR = 1,51, 1,21 a 1,87), niños con por lo menos un hermano con menos de 5 años (RP = 1,43, 1,16 a 1,76), edades comprendidas entre 6 y 12 meses incompletos ( PR = 1,36, 1,11 a 1,67) y varones (RP = 1,25, 1,03 a 1,54). La frecuencia de tal anemia se considera un problema de salud pública que se agrava en los subgrupos de la población de bajos recursos socioeconómicos. Estos resultados enfatizan la necesidad de evaluar las políticas aplicadas. Se recomienda establecer con urgencia mecanismos contínuos de vigilancia alimentaria y nutricional en la ciudad ojeto de estudio para darle una rápida respuesta al serio problema de la anemia. Palabras clave: Deficiencia de Hierro; Frecuencia; Factores Socioeconómicos; Bebés; Niños de Edad Preescolar. * 1 2 3 Este trabalho foi financiado pela Fapemig – Processo número EDT 3249/06). Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (EEUFMG). Programa de Pós-Graduação em Saúde e Enfermagem. Belo Horizonte-MG, Brasil. Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (EEUFMG). Departamento de Enfermagem Básica. Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (EEUFMG). Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública. Endereço para correspondência: Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais, Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública. Avenida Alfredo Balena, 190, CEP 30130-100. Belo Horizonte-MG, Brasil. E-mail: [email protected] 54 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 54-61, jan./mar., 2011 INTRODUÇÃO MÉTODOS A carência de ferro, considerada um dos maiores problemas de saúde pública em nível mundial, atinge com mais intensidade grupos vulneráveis, sobretudo nos países em desenvolvimento, sendo a principal causa de anemia nutricional em crianças. Nelas, os efeitos adversos da anemia repercutem sobre a capacidade cognitiva, comportamento, crescimento e imunidade celular.¹ Define-se anemia nutricional como a condição na qual o conteúdo de hemoglobina do sangue está abaixo dos valores considerados normais para a idade, o sexo, o estado fisiológico e a altitude, sem considerar a causa da deficiência.² Apesar de outros nutrientes estarem envolvidos na síntese de hemoglobina, acreditase que a maioria dos casos de anemia seja causada por deficiência de ferro.¹ Trata-se de um estudo observacional, de delineamento transversal, realizado em Vespasiano, município da região metropolitana de Belo Horizonte (RMBH)-MG. Mães de crianças entre seis e 24 meses de idade foram convidadas a participar do estudo por meio de panfletos, distribuídos pelos agentes comunitários de saúde (ACSs) nas suas áreas de cobertura, de pôsteres explicativos afixados nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e de carro de som nas áreas não cobertas pelo Programa de Saúde da Família (PSF). Os objetivos com o estudo e a importância da participação das crianças foram explicados às mães e responsáveis que compareceram às UBSs nos dias e horários divulgados com antecedência. É importante ponderar que a prematuridade e o baixo peso ao nascer, além do abandono precoce do aleitamento materno exclusivo e da alta demanda de ferro necessária para crescimento físico, são as causas mais comuns de deficiência de ferro na criança.3,4 Além disso, deve ser considerado o baixo nível socioeconômico, pois o agravamento da carência do micronutriente está atrelado às condições sociais e econômicas, seja em decorrência de uma alimentação quantitativa e qualitativamente inadequada, seja pela precariedade de saneamento ambiental.4,5 Outros indicadores que, de alguma forma, podem contribuir para a elevada prevalência de anemia são: evolução ponderal negativa, presença de infecção, fraco vínculo mãe/filho, baixa idade materna e falta de acesso a serviços de saúde.4,6,7 Embora a anemia ferropriva em lactentes esteja mais associada com a qualidade da dieta do que com a renda ou nível social da família, o risco de anemia para crianças de baixa condição socioeconômica é maior.4,5,8 No Brasil, estudos realizados nos últimos dez anos, em diversas regiões, mostram a prevalência de anemia entre 28,1, e 89,1% em menores de 24 meses. Ressaltese que esses trabalhos foram realizados em creches, visitas domiciliares e Unidades Básicas de Saúde.8-10 Uma pesquisa com amostra de base populacional realizada no Brasil, em 2006 (PNDS), encontrou a prevalência de anemia ferropriva de 24,1% em crianças menores de 24 meses.11 Globalmente, estima-se em 46% a prevalência de anemia ferropriva em pré-escolares nos países em desenvolvimento.1,2 O combate à anemia ferropriva tem sido uma preocupação cada vez mais atual dos técnicos, governos e organismos internacionais. Nesse sentido, as ações de segurança alimentar e nutricional, de erradicação da pobreza, as políticas de incentivo à fortificação de alimentos e distribuição de sulfato ferroso e a instituição de mecanismos de vigilância alimentar e nutricional são imprescindíveis.12,13 Diante do exposto, o objetivo com este trabalho foi determinar a frequência de anemia ferropriva e verificar sua associação com fatores socioeconômicos, demográficos e biológicos em crianças de 6 a 24 meses, do município de Vespasiano-MG. Foram avaliadas 556 crianças de ambos os sexos, que foram levadas às UBSs de cinco bairros, localizados na região periférica do município de Vespasiano, pelos pais ou responsáveis (Nova York, Jardim da Glória, Jardim Encantado, Vila Esportiva e Morro Alto) entre maio e julho de 2007. A amostra foi obtida por demanda espontânea e correspondeu a um valor estimado de 16,1% das 3.460 crianças nessa faixa etária no município, segundo dados do último censo.14 Os procedimentos de coleta de sangue e medidas antropométricas foram realizados dentro de uma sala de consulta da UBS, reservada para o estudo e equipada com mesas, cadeiras, uma maca e pia, isolada do fluxo do movimento dos pacientes. Todos os procedimentos de coleta de dados foram executados por estudantes, previamente treinados, de graduação e pós-graduação em Nutrição e Enfermagem. Além disso, os profissionais de cada uma das UBSs dos cinco bairros auxiliaram, organizando a coleta de dados. Após a obtenção Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) das mães ou responsável pelas crianças, a concentração sérica de hemoglobina (Hb) foi avaliada por punção na polpa do dedo médio ou anular, utilizando-se lancetas descartáveis (AccuCheck, Roche) após assepsia do local, pelo método cianometahemoglobina, empregando o aparelho HemoCue (HemoCue® Angelhom, Suíça). A calibragem do aparelho foi conferida antes do início de cada utilização. Não se exigiu jejum por ocasião da coleta de sangue. Considerou-se anemia a concentração de Hb < 11,0 g/dL, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) para a respectiva faixa etária.¹ Nenhuma das crianças avaliadas possuía quadro crônico de infecção relatado pelo responsável e não apresentava febre no momento da coleta de dados. Para melhor conhecer as condições de vida das crianças, foi aplicado às mães, pelos alunos de pósgraduação, um questionário adaptado do estudo anterior de Beinner et al., 15 contendo questões socioeconômicas, demográficas e biológicas. Esse mesmo questionário foi aplicado à mãe ou responsável logo após o preenchimento do TCLE na UBS, em uma sala de consulta reservada para o estudo e equipada com mesa e cadeiras, isolada do fluxo do movimento remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 54-61, jan./mar., 2011 55 Anemia em crianças e fatores associados em região urbana dos pacientes. A duração média da aplicação do questionário foi de 15 minutos. Quanto às questões biológicas, verificou-se o aleitamento materno, prematuridade (nascimento antes da 37ª semana gestacional relatado pela mãe ou responsável) e peso ao nascer, consultando-se o cartão da criança. Considerando as questões socioeconômicas e demográficas, verificou-se se a criança residia em domicílio atendido pelo PSF, uma estratégia de reorientação do modelo assistencial operacionalizada mediante a implantação de equipes multiprofissionais em unidades básicas de saúde. Além disso, perguntou-se ao responsável se a criança era cadastrada no Programa Bolsa Família (PBF), programa de transferência de renda do governo federal com condicionalidades nas áreas de educação e saúde, que beneficia famílias em situação de pobreza.16 O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), sob o Parecer nº 0238-06, e foi realizado com a autorização do secretário de Saúde da cidade de Vespasiano. As mães, ou responsáveis, foram informadas sobre o resultado do exame capilar de sangue. Todas as crianças com anemia foram encaminhadas para as respectivas Equipes de Saúde da Família (ESFs) para uma avaliação mais detalhada e possível elucidação, diagnóstico e tratamento. As exposições (variáveis independentes) analisadas foram: biológicas (sexo, idade da criança, prematuridade, peso ao nascer, idade da mãe, tempo de amamentação, diarreia [ocorrência de evacuações líquidas em três ou mais episódios em 24 horas, ou uma única semilíquida contendo muco e sangue em 12 horas] 17 nas duas últimas semanas; suplementação com sulfato ferroso e hospitalização no último ano); socioeconômicas e demográficas (escolaridade da mãe, número de irmãos menores de 5 anos, mãe que trabalha fora de casa, estado marital da mãe, número de pessoas que dormem na mesma cama, renda familiar em salários mínimos, rede de esgoto, domicílio atendido pelo PSF e família inscrita no PBF). O desfecho analisado foi a presença ou ausência de anemia. Os dados foram digitados no programa Epi Info, versão 6.04, e analisados por meio do software STATA, versão 9.0. O teste qui-quadrado foi utilizado para comparar diferenças nas frequências das variáveis categóricas, e o teste t-Student foi utilizado para comparar as médias das variáveis contínuas. Foi testada a igualdade das variâncias das variáveis contínuas por meio do teste de Kolmogorov-Smirnov. O valor p ≤ 0,05 foi o nível de significância estatística adotado em todas as análises. Utilizou-se a regressão de Poisson para verificar a associação de anemia com as variáveis independentes e para a construção do modelo, a regressão de Poisson binária. O critério empregado para a inclusão das variáveis no modelo multivariado foi o valor p < 0,20. 56 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 54-61, jan./mar., 2011 Depois de selecionadas, as variáveis entraram, uma a uma, no modelo de regressão, e aquelas que perdiam sua significância foram excluídas. A avaliação da qualidade do modelo final foi feita por meio do teste goodness-of-fit test. Assumiu-se, como nível de significância estatística, o valor p ≤ 0,05 para a definição do modelo final. RESULTADOS Foram avaliadas 556 crianças, sendo 50,0% do sexo feminino. A média de idade foi de 14,6 ± 4,9 meses. Houve predominância de crianças (64,4%) com idade entre 12 e 24 meses. A média dos valores de hemoglobina encontrados para a amostra foi de 11,4 ± 1,4 g/dL, sendo 11,7 ± 1,3 g/dL, no sexo feminino e 11,2 ± 1,5 g/dL, no sexo masculino (p = 0,0022). Na faixa etária entre 6 e 12 meses incompletos, a média de hemoglobina foi 11,2 ± 1,3 g/dL e nas crianças de 12 a 24 meses a média de hemoglobina foi de 11,5 ± 1,4 g/dL (p = 0,0039). A prevalência de anemia entre as crianças estudadas foi de 37,9% (33,9% - 42,1%). Na TAB. 1 mostra-se que houve associação entre anemia e sexo e anemia e faixa etária. Crianças do sexo masculino tiveram a prevalência 27% maior de anemia do que as do sexo feminino. A prevalência de anemia variou inversamente com a idade na faixa etária entre 6 e 12 meses incompletos, comparada com a faixa etária entre 12 e 24 meses. Crianças entre 6 e 12 meses incompletos tiveram 1,29 vez a prevalência de anemia das maiores de 12 meses. Analisando-se as variáveis socioeconômicas e demográficas, mostradas na TAB. 2, observou-se que a anemia esteve significativamente associada à escolaridade materna, ao número de irmãos menores de 5 anos, ao número de indivíduos que dormem na mesma cama, ao tipo de rede de esgoto e à presença de rádio no domicílio; portanto, todas essas variáveis foram incluídas na análise multivariada. Na TAB. 3 é apresentado o modelo final da regressão de Poisson, tendo como variável resposta a anemia. Foi possível verificar que as variáveis que tiveram associação independente com a anemia foram a baixa escolaridade materna (< 8 anos de estudo) (RP=1,37), o esgoto escoado a céu aberto ou em fossa (RP=1,51), a criança possuir pelo menos um irmão menor de 5 anos (RP=1,43), estar na faixa etária entre 6 e 12 meses incompletos (RP=1,36) e ser do sexo masculino (RP=1,25). As variáveis número de pessoas por cama, posse de rádio e domicílio atendido pelo PSF perderam a significância na análise multivariada e por esse motivo não foram mantidas no modelo final. Não houve interações estatisticamente significativas entre as variáveis que permaneceram significantes no modelo final da regressão de Poisson (sexo e escolaridade da mãe; escolaridade da mãe e rede de esgoto; número de irmãos menores de 5 anos e escolaridade da mãe e idade da criança; e rede de esgoto). TABELA 1 – Frequência de anemia e razão de prevalência segundo características biológicas da população de crianças do município de Vespasiano-MG – 2007 N nas categorias Percentual de anemia (%) RP¹ IC 95%² p- valor Sexo da criança Masculino Feminino 278 278 42,4 33,5 1,27 1 1,02 – 1,57 – 0,04 Idade da criança (m) ≥ 6 e < 12 ≥ 12 198 358 44,4 34,4 1,29 1 1,05 – 1,60 – 0,02 Prematuridade Sim Não 75 465 33,3 38,3 0,87 1 0,62 – 1,22 – 0,49 Peso ao nascer (g) <2500 ≥ 2500 64 494 43,5 37,2 1,17 1 0,86 – 1,59 – 0,41 Idade da mãe (a) < 20 ≥ 20 101 455 43,6 36,7 1,19 1 0,92 – 1,53 – 0,24 Tempo de amamentação (m) <6 ≥6 187 344 39,0 38,3 1,02 1 0,81 – 1,28 – 0,94 Diarreia nas duas últimas semanas Sim Não 105 437 34,3 39,1 0,88 1 0,65 – 1,17 – 0,42 Suplementação com sulfato ferroso Sim Não 265 328 38,5 36,9 1,04 1 0,85 – 1,28 – 0,75 Hospitalização no último ano Sim Não 79 471 38,4 37,6 0,92 1 0,67 – 1,26 – Variáveis 0,68 ¹ Razão de prevalência. ² Intervalo de confiança de 95% O N é variável nesta tabela, pois não houve resposta a todos os itens do questionário pelos responsáveis. remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 54-61, jan./mar., 2011 57 Anemia em crianças e fatores associados em região urbana TABELA 2 – Frequência de anemia e razão de prevalência segundo características socioeconômicas e demográficas da população de crianças do município de Vespasiano-MG – 2007 N nas categorias Percentual de anemia (%) RP¹ IC 95%² p- valor Escolaridade da mãe < 8 anos ≥ 8 anos 262 287 45,4 31,4 1,45 1 1,17 – 1,80 – 0,01 Número de irmãos menores de 5 anos ≥1 0 159 387 50,9 33,3 1,53 1 1,24 – 1,88 – 0,01 Mãe trabalha Sim Não 158 435 35,4 38,2 0,93 1 0,73 – 1,18 – 0,61 Estado marital da mãe Com cônjuge Sem cônjuge 357 195 38,4 36,9 1,04 1 0,83 – 1,30 – 0,81 Domicílio possui água encanada Sim Não 548 6 37,6 66,67 0,57 1 0,32 – 1,00 – 0,30 Ingere água filtrada Sim Não 475 79 36,6 45,6 0,80 1 0,62 – 1,05 – 0,16 Domicílio possui fogão a gás Sim Não 541 12 38,1 33,3 1,15 1 0,51 – 2,56 – 0,97 Domicílio possui geladeira Sim Não 535 17 37,2 52,9 0,70 1 0,44 – 1,11 – 0,29 Domicílio possui rádio Sim Não 499 55 36,6 52,7 0,69 1 0,52 – 0,91 – 0,03 Domicílio possui televisão Sim Não 536 18 37,7 44,4 0,85 1 0,50 – 1,44 – 0,74 Número de pessoas por cama ≤2 >2 383 165 34,2 45,5 0,75 1 0,61 – 0,93 – 0,02 Renda familiar (SM) <1 ≥1 117 394 38,5 38,3 1,01 1 0,77 – 1,30 – 0,93 Rede de esgoto Não (fossa ou céu aberto) Sim 90 462 55,6 34,4 1,61 1 1,29 – 2,02 – 0,01 Inscrito no PSF Sim Não 266 253 35,3 42,7 0,83 1 0,67 – 1,03 – 0,10 Inscrito no Bolsa Família Sim Não 153 398 37,9 37,7 1,01 1 0,79 – 1,28 – 0,96 Variáveis ¹ Razão de prevalência. ² Intervalo de confiança de 95% O N é variável nesta tabela, pois não houve resposta a todos os itens do questionário pelos responsáveis. 58 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 54-61, jan./mar., 2011 TABELA 3 – Modelo da regressão de Poisson tendo a anemia como variável resposta. Vespasiano-MG – 2007 Variáveis RP¹ IC 95%² p-valor Idade da criança (m) ≥ 6 e <12 ≥ 12 1,36 1,00 1,11 – 1,67 0,003 Escolaridade da mãe < 8 anos ≥ 8 anos 1,37 1,00 1,11 – 1,70 0,004 Rede de Esgoto Não (fossa ou céu aberto) Sim 1,51 1,00 1,21 – 1,87 Nº de irmãos menores de 5 anos 1 ou mais Nenhum 1,43 1,00 1,16 – 1,76 0,001 Sexo Masculino Feminino 1,25 1,00 1,03 – 1,54 0,034 <0,001 ¹ Razão de prevalência. ² Intervalo de confiança de 95% DISCUSSÃO Neste estudo, foi verificada alta frequência de anemia (38%) nas crianças avaliadas, percentual superior ao encontrado pela PNDS (2006). 11 A OMS considera prevalências de 40% como problema grave de saúde pública.2 Embora elevada, a frequência encontrada é menor do que em outros estudos conduzidos na Região Sudeste do País.18,19 Foi possível observar que a anemia esteve associada a fatores demográficos, biológicos e socioeconômicos, como: o sexo masculino, mais de um infante no domicílio, idade da criança entre 6 e 12 meses, baixa escolaridade materna e ausência de rede pública de esgoto. Esses resultados são compatíveis com os demais estudos de identificação etiológica da anemia que descrevem uma complexa cadeia de causalidade envolvendo fatores socioeconômicos, culturais e de morbidade, presentes na população infantil,20,21 que acabam interferindo nos determinantes proximais da anemia, como a maior velocidade de crescimento, o desmame precoce, a falta de dieta balanceada com alimentos ricos em ferro, a frequência maior de doenças, como diarreias e infecções respiratórias, às quais as crianças estão suscetíveis nos primeiros anos de vida. Neste trabalho, as crianças entre os 6 e 12 meses apresentaram frequências significativamente maiores de anemia quando comparadas com as maiores de 12 meses. Nessa idade, o ferro exógeno passa a ter função primordial, dado o esgotamento das reservas do mineral acumuladas na vida intrauterina. O esgotamento, associado a uma máxima velocidade de crescimento, característica do segundo semestre de vida, eleva a necessidade de ferro para 0,53 mg/dia de ferro absorvido.5 Esse fato é agravado pela baixa oferta e reduzida biodisponibilidade de ferro da dieta, com elevado consumo de leite de vaca e reduzido consumo de alimentos fontes do nutriente, que são introduzidos tardiamente na alimentação infantil. Além disso, o lactente apresenta pouca capacidade estomacal, o que também limita a ingestão de alimentos.22,23 No segundo semestre de vida, a introdução da alimentação complementar pode reduzir em até 80% a biodisponibilidade do ferro na dieta, quando comparada à biodisponibilidade de ferro obtido pelo aleitamento exclusivo.24 Neste estudo, mostrou-se, também, que filhos de mães com menos de oito anos de estudo tiveram maior chance de apresentar anemia. A associação entre escolaridade materna e anemia também foi encontrada no estudo de Male et al.,25 uma coorte prospectiva em que foram avaliadas 488 crianças de 12 meses em 11 áreas europeias. Monteiro et al.,18 do mesmo modo, referem baixa escolaridade materna como importante determinante para a ocorrência de anemia na infância. No caso específico da escolaridade materna, esta é importante na saúde da criança, uma vez que o maior nível de conhecimento formal parece influenciar nas práticas relacionadas aos cuidados com a criança. O menor nível de instrução pode refletir em menor chance de trabalho, gerando, consequentemente, menor renda, o que pode comprometer o acesso aos alimentos e também os cuidados com a saúde da criança.26 A não associação entre anemia e o fato de a família ser ou não beneficiária do PBF sugere que os eventuais ganhos nutricionais promovidos pelo programa não afetam a insuficiência de ferro na dieta. remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 54-61, jan./mar., 2011 59 Anemia em crianças e fatores associados em região urbana Em crianças cujo domicílio possui escoamento do esgoto a céu aberto ou em fossas, houve associação independente com a anemia. Essa associação pode ser explicada pelo fato de a precariedade de saneamento básico estar relacionada com baixa renda e, consequentemente, com a falta de acesso a alimentos e a conhecimento.³ Ainda que neste trabalho não tenha sido verificada associação entre ocorrência de diarreia e anemia, verificou-se que a melhoria do saneamento básico reduz a prevalência dessa patologia, uma vez que diminui os quadros de infecção, que colaboram para a redução das reservas hepáticas de ferro e são comuns em situações precárias de saneamento.27 Considerando as mães que possuíam mais de um filho com idade inferior a 5 anos, observou-se associação independente com a anemia. Em trabalho realizado por Vieira et al.,7 foi demonstrado que as crianças que possuem pelo menos um irmão podem apresentar maior risco para a anemia, pois a presença de grande número de crianças pequenas na família aumenta a demanda por alimentos, o que pode comprometer a disponibilidade deles tanto qualitativa quanto quantitativamente. Além disso, segundo os autores, o maior número de filhos pequenos pode interferir, ainda, nos cuidados de saúde da mãe com as crianças. Neste estudo, mostrou-se que há prevalência maior de anemia em meninos. Em ensaio clínico randomizado, controlado, duplo-cego de suplementação de ferro, durante cinco meses, realizado em Honduras e na Suécia, com crianças de 4 meses, Dömellof et al.28 demonstraram que meninos, quando comparados a meninas, possuem risco significativamente maior de apresentar anemia. Segundo os autores, o fato de os meninos apresentarem maior risco para anemia pode ser atribuído ao nível menor de estoque de ferro a nascer, apesar de o peso dos meninos ser superior. Esse achado é consistente com os de Choi et al.,29 que mostraram níveis maiores dos receptores de transferrina no sangue umbilical dos meninos. Torres et al.,21 que avaliaram 2.992 crianças de 6 a 23 meses de idade em 63 municípios de São Paulo, observaram que em crianças do sexo masculino a prevalência de anemia foi de 63,1% e em crianças do sexo feminino, de 55,2% (p<0,05). Eles justificaram este achado afirmando que a maior prevalência de anemia no sexo masculino pode ser explicada pela maior velocidade de crescimento apresentada pelos meninos, acarretando maior necessidade de ferro pelo organismo, não suprida pela dieta. Ressalte-se que não foi verificada associação entre aleitamento materno e anemia, talvez pela forma como essa variável foi coletada neste estudo, visto não ter sido avaliado aleitamento materno exclusivo, uma de suas limitações. Além disso, não se verificou diferença significativa entre crianças que tomaram sulfato ferroso e as que não recebiam o referido medicamento e a frequência de anemia. Tal fato pode estar relacionado aos efeitos colaterais do sulfato ferroso e interrupção do tratamento. Outra causa comum de descontinuidade na oferta de sulfato ferroso é a baixa motivação do responsável, pois como a criança com anemia ferropriva pode não apresentar sintomas e/ou sinais clínicos específicos, muitas vezes não é considerada uma doença pelo responsável. Alguns autores relacionam essa 60 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 54-61, jan./mar., 2011 questão ao fraco vínculo mãe-filho e outros relatam que bons resultados foram obtidos quando o sulfato ferroso foi oferecido por ACS.6,7 Não foi observada, também, a associação entre renda familiar e a presença de anemia, provavelmente por se tratar de uma população carente, cuja distribuição de renda não difere muito entre as famílias. Em relação à associação encontrada na análise bivariada entre posse de rádio no domicílio e deficiência de ferro, não se observou explicação plausível para esse fato, o que, possivelmente, caracteriza um viés deste trabalho. É importante ressaltar que uma desvantagem da metodologia deste estudo foi a ausência de mais de um parâmetro bioquímico na avaliação da anemia das crianças. O nível de hemoglobina é frequentemente utilizado na detecção da patologia, contudo é considerado um indicador relativamente bruto dos depósitos orgânicos de ferro. Com a avaliação do nível de ferritina sérica no organismo, obtém-se informação mais precisa para a identificação das concentrações dos depósitos de ferro no fígado. Entretanto, por razões conceituais e também de praticidade e de universalidade, a dosagem da concentração de hemoglobina é o exame mais utilizado para o diagnóstico da deficiência de ferro em escala populacional. Apresenta, no entanto, baixa especificidade, sendo impossível discriminar qual o tipo de anemia detectada, mas, como a anemia por deficiência de ferro é a de maior prevalência, muitas vezes se considera a prevalência dessa carência como uma “proxi” da anemia ferropriva.30,31 Outra limitação deste estudo é a não inclusão dos dados de consumo alimentar e do estado nutricional das crianças. CONCLUSÃO A frequência de anemia ferropriva em crianças nessa população foi caracterizada como problema de saúde pública, com subgrupos ainda mais vulneráveis ao desenvolvimento dessa carência nutricional. Nesse sentido, pondera-se que determinantes da anemia ferropriva podem ser adequadamente abordados por meio de ações de vigilância e promoção da saúde. Assim, faz-se necessário melhorar o saneamento básico com a implementação de rede de esgoto para os domicílios que não a possuem e o investimento em políticas de saúde que favoreçam a população avaliada. Além disso, ações educativas com a realização de atividades que abordem a prevenção da anemia e orientação ao planejamento familiar são indispensáveis para o controle e a prevenção da patologia. AGRADECIMENTOS À Prefeitura Municipal de Vespasiano; aos familiares das crianças; aos profissionais de saúde que colaboraram para a realização desta pesquisa; à Larissa Mendes, pela colaboração na análise estatística; e às alunas voluntárias, pela contribuição na fase de coleta de dados. REFERÊNCIAS 1. UNICEF/UNU/WHO. United Nations Children’s Fund/United Nations University/Wold Health Organization. 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Diante dessas considerações, neste artigo, que faz parte de uma dissertação de mestrado, buscou-se compreender os conceitos e práticas a respeito da integralidade formuladas pelos profissionais de saúde do município de Catas Altas-MG. Para isso, como delineamento metodológico, foi utilizado o estudo de caso, fundamentado na Sociologia Compreensiva, e realizadas entrevista, observação livre e análise documental para a elaboração dos resultados. Entre os profissionais, a integralidade é entendida como a visão holística aplicada no cuidado, que permite até ver a necessidade do outro; é a integração dos processos de trabalho individuais, que devem ser articulados, solidários e com objetivo único; é influenciada pela cultura e pelo meio social onde é produzida; é a combinação de ações preventivas e curativas prestadas ao usuário. Entretanto, a visão contínua do cuidado entre os serviços de saúde não foi descrita nem observada nas práticas dos profissionais. Palavras-chave: Assistência Integral à Saúde; Atenção Primária à Saúde; Equipe de Assistência ao Paciente. ABSTRACT Integrality is a concept with many connotations that are complementary when applied to the healthcare sector. It can be understood as the way to organize the professional practices, the healthcare services and the public policies and materializes itself in the relationship between users and health professionals. Considering this the present article, which is part of a master’s degree thesis, sought to understand the concepts and practices conveyed by healthcare professionals in the city of Catas Altas – MG. The methodological outline used was the case study grounded on the Comprehensive Sociology. The results were elaborated via interviews, observations and document analysis. Among specialists integrality is considered as the holistic vision applied to the care that allows to envision other people’s needs; it is the integration of individual work processes, which must be coordinated, solidary and with a single purpose; it is influenced by the culture and the social environment where it is produced; it is a combination of the preventive and the therapeutic actions provided to the user. However, Health Services continuing healthcare was not described or observed in the professional’s practices. Key-words: Comprehensive Health Care; Primary Health Care; Patient Care Team. RESUMEN La integralidad tiene muchos significados que se complementan entre sí cuando se discuten en el sector de la salud. Se puede entender como la forma de organizar las prácticas profesionales, los servicios de salud y las políticas públicas. Sin embargo, se concreta de manera efectiva en la relación entre los usuarios y los profesionales de salud. Teniendo en cuenta estas consideraciones, en este artículo, que forma parte de una tesis de maestría, se tratan de comprender los conceptos y las prácticas realizadas por los profesionales de salud en el municipio de Alta Catas-MG. Para ello se utilizó como estudio de caso el diseño metodológico sobre la base de la sociología comprensiva y se realizaron entrevistas, observación y análisis documental para elaborar los resultados. Los profesionales entienden la integralidad como la visión holística aplicada al cuidado que permite ver la necesidad de los demás. Es la integración de los procesos de trabajo individuales que deben estar coordinados, ser cooperativos y tener un solo objetivo. Está influenciada por la cultura y el medio social en la que se produce; se trata de una combinación de acciones preventivas y curativas previstas para el usuario. A pesar de ello, la visión continua de cuidado entre los servicios de salud no ha sido ni mencionada ni observada en las prácticas profesionales. Palabras clave: Atención integral de salud; Atención primaria de salud; Equipo de atención al paciente. 1 2 Enfermeiro. Mestre em Enfermagem. Coordenador do Curso de Enfermagem do Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Doutora em Filosofia em Enfermagem. Professor adjunto do Departamento Enfermagem. Materno-Infantil e Saúde Pública e do Programa de Pós-Graduação da EEUFMG. Endereço para correspondência: Rua Xavier de Gouveia, 111/301, Grajaú/BH-MG. CEP: 30431-166. E-mail: [email protected]. 62 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 62-69, jan./mar., 2011 INTRODUÇÃO O Sistema Único de Saúde (SUS) tem o atendimento integral como fundamento de suas ações e busca, no cotidiano dos serviços de saúde, integrar tanto os vários níveis de assistência como as práticas profissionais.1 Assim, entende-se por integralidade o modo de organizar as práticas profissionais, os serviços de saúde e as políticas públicas. Considera-se a integralidade como um fio condutor que perpassa essas três dimensões do setor saúde e implica uma recusa ao reducionismo e à objetivação dos sujeitos, além de afirmar a abertura constante para o diálogo.2 A integralidade resulta em uma permanente interação entre os atores na relação entre oferta e demanda de atenção à saúde, o que lhe confere uma noção de movimento, dependente das relações humanas, considerando até mesmo os aspectos subjetivos envolvidos na produção da saúde.3,4 A Organização Mundial de Saúde (OMS) conceitua a integralidade na atenção primária, acrescentando-lhe noções de interação com o meio social e cultural. Diz que as atividades em saúde deveriam estar inter-relacionadas e equilibradas de forma a enfocar os problemas de maior prioridade conforme são mutuamente percebidos pela comunidade e pelos sistemas de saúde.5 Para a organização de um sistema, a integralidade é essencial em todos os níveis, mas assume papel importante na atenção primária, uma vez que é nesse espaço que acontece o primeiro contato dos usuários com os serviços de saúde e posturas integrais devem ser construídas. É necessário acrescentar a importância da acessibilidade, da longitudinalidade e da coordenação de cuidados na atenção primária como facilitadores para que a integralidade aconteça. Considera-se a acessibilidade sócio-organizacional do serviço, dos espaços criados para o acolhimento das demandas e necessidades dos usuários; a longitudinalidade como os cuidados dispensados ao longo do tempo com continuidade e vínculo e a coordenação de cuidados como prática que integra ações e serviços de saúde.6,7 Diante dessas considerações, neste artigo, que faz parte de uma dissertação de mestrado, buscou-se compreender os conceitos e práticas a respeito da integralidade formuladas pelos profissionais de saúde do município de Catas Altas-MG. O PERCURSO METODOLÓGICO Trata-se de um estudo de caso qualitativo, fundamentado na Sociologia Compreensiva, que se apresenta ideal quando se quer responder como um fenômeno varia em circunstâncias diferentes e o porquê dessas mudanças. A abordagem qualitativa conformase melhor à investigação de grupos e segmentos delimitados, de histórias sociais sob a ótica dos atores, de relações e à análise de discursos e documentos, além de oferecer aproximações sucessivas e progressivas até a compreensão do processo em estudo e de sua subjetividade.8,9 A Sociologia Compreensiva privilegia a compreensão e a inteligibilidade como propriedades específicas dos fenômenos sociais, apreendidos por meio da experiência, do coletivo e do vivido cotidiano.10 A construção cotidiana da integralidade pode ser desvelada pela Sociologia Compreensiva por favorecer o intersubjetivo, privilegiar o potencial cognitivo de cada experiência na construção do todo e considerar as diversas posições dos atores envolvidos na definição dos conceitos. As relações apresentam-se em um cenário emocional que se fundamenta em sentimentos comuns na experiência compartilhada, tanto no mundo do trabalho quanto nos das famílias, dando importância a noções tais como o doméstico, o cotidiano, a ecologia, o território e o bairro.11 A saúde na Atenção Básica constróise nesses espaços e nessas relações de proximidade nos quais o emotivo se torna ou não vínculo, tão desejado no cotidiano do trabalho em saúde. No estudo de caso, considera-se o contexto histórico e situacional da realidade a ser estudada, sem desconsiderar-lhe a individualidade e suas particularidades. Por possibilitar a compreensão de relações estruturais e subjetivas, por permitir um exame detalhado das relações e das experiências e, principalmente, por evidenciar o rumo de um processo em andamento e a maneira de interpretá-lo,9,12 o estudo de caso adaptouse às necessidades de compreensão da integralidade no setor saúde de Catas Altas. Para compreender a integralidade em determinado cenário, é importante associar, se possível, um conjunto de dados de fontes diferentes, de forma a possibilitar o seu entendimento por meio de falas, atitudes e registros. O estudo de caso permitiu essa variedade de fontes, bem como o entendimento do todo pela convergência desses dados em uma triangulação. Neste estudo, foram explorados documentos, entrevistas e observação direta. O cenário de estudo foi o setor saúde do Município de Catas Altas, por ser o espaço da produção da saúde local. A cidade está habilitada na condição de Gestão Plena do Sistema Municipal, utiliza a ESF para a organização da Atenção Básica, que possui equipe com médico, enfermeiro, auxiliar de enfermagem e agentes comunitários de saúde. Possui, ainda, atendimento odontológico e profissionais de apoio para a equipe de Saúde da Família. A necessidade de trabalhar com uma clínica ampliada na Atenção Básica foi se configurando de acordo com o crescimento da demanda dos usuários e com a tentativa de melhorar o acesso a algumas especialidades mais solicitadas. Como garantia de acesso a outros níveis de assistência, Catas Altas utiliza o Tratamento fora de Domicílio, o Consórcio Intermunicipal de Saúde, o convênio com unidades particulares no setor secundário e a unidade hospitalar do município vizinho para a realização de algumas cirurgias e do atendimento de urgência, além de se responsabilizar pelas ações da vigilância sanitária remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 62-69, jan./mar., 2011 63 Conceitos e práticas de integralidade no município de Catas Altas-MG e epidemiológica, bem como trabalhar junto com a assistência social. Foram sujeitos desta pesquisa os trabalhadores da Secretaria Municipal de Saúde, tanto da área técnicoassistencial quanto da área administrativa, dentre os quais bioquímico, farmacêutico, enfermeiro, médico, odontólogo, auxiliares de enfermagem, agente comunitário de saúde e agente administrativo, totalizando 15 profissionais, que se encontravam disponíveis no município no período de coleta de dados. Todos trabalham no município há mais de um ano e vivenciam cotidianamente o processo de trabalho. A carga horária de trabalho semanal varia entre 20 e 44 horas semanais, sendo que alguns especialistas atendem esporadicamente no município. Foi considerada informante-chave nesta pesquisa a gestora municipal de Saúde. Como critério de inclusão, estabeleceu-se o exercício da profissão no município durante a fase da aplicação da entrevista semiestruturada. Os informantes foram designados por uma sequência numérica, antecedida pela letra C, de corpus, em referência à análise de discurso, sem especificação de suas áreas de trabalho, para garantia da confidencialidade da autoria das falas. Os profissionais foram abordados no ambiente de trabalho e convidados a participar da pesquisa, quando eram explicados os objetivos do estudo, entregue Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para assinatura daqueles que aceitaram. Conforme a Resolução nº196/90, a pesquisa foi aprovada pelo COEP-UFMG sob o nº ETIC 566/06. A coleta de dados foi realizada por meio de entrevista com base em um roteiro semiestruturado e registrada em gravador digital de voz, que possibilitou o arquivamento dos dados em meio informatizado. O momento das entrevistas foi utilizado para o registro de posturas e gestos de importância para a análise discursiva e também para nortear a observação livre no cotidiano do trabalho dos profissionais. As observações foram registradas em um diário de campo, sendo privilegiados os espaços do cotidiano da produção de saúde em Catas Altas, observando-se as falas e as ações dos profissionais no contato com a população e entre eles mesmos. Utilizou-se, também, a leitura de documentos, tais como registros profissionais em encaminhamentos, relatórios e prontuários ocorridos na semana de permanência no município, Plano Municipal de Saúde, Relatório de Gestão, documentos relativos ao Tratamento fora do Domicílio, ao Consórcio Municipal de Saúde e aos convênios. Para a análise dos dados, foram utilizados elementos da análise de discurso.13 Nesse método consideram-se as condições de produção e apreensão da significação de textos produzidos pela influência de diversos campos que podem exercer influência sobre o sujeito. Foram feitas leituras sistemáticas dos relatos descritos nas entrevistas até que pontos divergentes e convergentes constituíssem unidades de significado. Dessa forma, as transcrições foram transformadas, primeiramente, em texto por meio de recursos de linguagem, evidenciando o dito no contexto observado durante a entrevista, 64 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 62-69, jan./mar., 2011 ordenando-as para uma análise preliminar. Após essa análise, os textos foram transformados em corpus – que são os textos já preparados para a montagem das categorias das entrevistas, associados às impressões das posturas, dos gestos e dos posicionamentos dos entrevistados. A partir desse momento, foram montadas as categorias discursivas. Pela opção de trabalhar com três técnicas de coleta de dados diferentes, considerando a importância dessa diversidade de métodos para o entendimento da integralidade no município de Catas Altas, a análise das categorias foi acrescida das informações obtidas por meio da observação e da pesquisa documental. Utilizouse, para tanto, a triangulação de dados9,14 como dinâmica de investigação que integra a análise das estruturas, dos processos e dos resultados de métodos de coleta de dados diferenciados – fazendo deles um construto único – e que deve ser escolhida quando contribui para aumentar o conhecimento do assunto e atende aos objetivos que se deseja alcançar. Portanto, as categorias que surgiram foram produtos da associação dos resultados obtidos pela análise discursiva, pela observação livre e pela análise de documentos. CONCEITOS E PRÁTICAS DE INTEGRALIDADE A integralidade tem sido descrita com significados distintos e complementares em estudos, constituindo a sua polissemia de sentidos.2,4,15-17 Essas significações, por serem complementares, são essenciais para o próprio entendimento da integralidade. Uma das noções identificadas é descrita por um olhar holístico que desvela até as necessidades do paciente: Integralidade é olhar o indivíduo como um todo. Eu procuro muito me colocar no lugar do paciente. Eu procuro olhar no olho do paciente, ver o que ele precisa. (C2) É a relação que se estabelece com a pessoa capaz de transcender até o lugar do outro, propiciando o entendimento de sua demanda. Nesse sentido, a integralidade se aproxima do conceito de cuidado, que é definido como tratar, respeitar, acolher, atender o ser humano em suas necessidades.18 A necessidade de ser cuidado surge da fragilidade social em que vivem as pessoas. Ainda é o “olhar no olho” que desvenda a necessidade do outro, remetendo à humanização das relações tão almejada nos serviços de saúde, como postura receptiva, pronta para escutar e ajudar. Agregada a esse sentido apresenta-se a importância do meio em que vive o usuário e da sua cultura para a produção desse cuidado integral: A meu ver, a integralidade é você estar recebendo esse usuário, acolhendo o seu problema de saúde não de forma fragmentada, não direcionada a tal órgão, tal sistema do corpo humano, mas vê-lo como um todo. Que ele está inserido em um meio fisiológico, mas também cultural, social, no local que ele vive. Então a pessoa vem aqui com problema ocular, uma coisa nos olhos. Tanto o processo de enfermagem quanto a consulta médica não podem ser direcionadas só para os olhos. O olho não está funcionando bem, mas está inserido no sistema do organismo. É não fragmentar, não dividir o atendimento, não direcionar para aquela parte do organismo. É olhá-lo como um todo. (C12) Na identificação da demanda, considerando sua subjetividade, é necessário que o cotidiano e o caráter informal por detrás desse encontro sejam levados em conta para facilitar a interpretação da necessidade manifestada. Entende-se que o cuidado necessitado é determinado não somente por questões físicas, mas depende do meio social e cultural em que se vive. A concepção dos determinantes sociais na construção da saúde das pessoas revela-se como fator condicionante da qualidade de vida.18,19 Outra definição identificada nas entrevistas é a da integralidade das ações manifestada no trabalho em equipe: Acho que é a forma que os trabalhadores daqui do centro de saúde conseguem ver esse paciente. (C1) O que é cultural faz parte do vivido, e esse entendimento é essencial, junto com outras noções, como a da ecologia e a do doméstico, para entender a socialidade, compreendida, para o profissional, como as relações informais, sem regras sociais, próprias de cada lugar, de cada encontro, que só tem significado naquele momento.10 Nesse contexto, a integralidade é vista como o que o profissional tenta fazer, referindo-se às dificuldades encontradas em relação ao serviço e à cultura das pessoas: Integralidade é o que eu tento fazer, entende? Mas eu sinto muitas dificuldades no serviço e na cultura das pessoas se adequarem a isso. Eu acho complicado. Tudo ainda é muito voltado para queixas, para os problemas, tudo é muito rápido, não tenho muito a visão da pessoa como um todo. A gente que é generalista e quer ver tudo, muitas vezes a gente não tem esse valor. Troquei vários esquemas terapêuticos aqui. Não pode ficar seis meses ou um ano sem ver o médico. Por causa de dor de cabeça eles vêm toda semana, mas para tratar da pressão eles não dão valor. Querem a comodidade de receita pronta, e pronto. (C8) Esse relato remete a um momento pregresso, observacional, no qual o profissional apresentava sua forma de trabalhar, baseada em protocolos. Para ele, aspectos culturais da demanda, fundamentados na queixa e na doença, dificultam sua prática integral. A postura do usuário reflete um modelo assistencial centrado na doença e na busca curativa pontual e fragmentada, que deve ser superado conjuntamente, entre serviços e usuários, para que a integralidade possa acontecer.20 Cabe ressaltar que conseguir identificar a necessidade por detrás da demanda e promover mudanças comportamentais no sujeito levam em conta a capacidade de entender e respeitar esse peso cultural na construção da saúde. A recusa do reducionismo da saúde exige diálogo constante e é a possibilidade de mudança do pensamento fragmentado por parte das pessoas. As demandas manifestadas no cotidiano dos serviços de saúde são repletas de subjetividade, mesmo quando encobertas por uma busca curativa, cuja postura esperada para o profissional é a desconstrução desse pensamento.2 A integralidade também é identificada como a capacidade de interpretar essa demanda: A integralidade é estar vendo a demanda e estar providenciando o que é necessário. (C7) A concepção de cuidado interdisciplinar é remetida para a equipe, saindo do foco do trabalho individual. Para que o usuário seja entendido como um todo, é necessário que sobre ele sejam direcionados os olhares de profissionais diferentes. Cuidado que só é alcançado pela equipe se todos manifestarem um único objetivo: Eu acho assim que é a equipe estar em um sentido único, fazendo o melhor atendimento possível, todo mundo falando a mesma linguagem, não ter duas regras, dando desigualdade. Todo mundo falando a mesma linguagem, trabalhando em equipe. (C3) A igualdade manifesta no relato se refere à padronização de ações da equipe, evitando que condutas diversificadas interfiram na produção do cuidado integral. “Falar a mesma linguagem” propicia que a integralidade seja contemplada. O trabalho em equipe deve ser visto como uma das dimensões que permeiam os outros sentidos da integralidade. Ela só pode ser conceituada como conjunto de práticas individuais, ações e relações entre níveis assistenciais de forma integral se o trabalho em saúde for considerado sua força motriz. Só acontece a integralidade, por exemplo, se existir a ideia, entre os profissionais, de que o cuidado em saúde é longitudinal em uma linha de mão dupla que transpassa o sistema saindo da Atenção Primária em direção ao setor terciário e que retorna.21 O cuidado final produzido para uma pessoa, que deve ser integral, só acontece, de fato, fruto de uma ação interdisciplinar, de interação entre profissionais distintos em momentos específicos da vida das pessoas.22 A integralidade do trabalho em equipe é relatada como essencial para que ela ocorra nos diversos níveis assistenciais e como maneira de garantir a assistência integral individual e coletiva.7 O trabalho em equipe é visto como um desafio para que as práticas integrais ocorram no sistema de saúde, de modo especial na Atenção Básica. Em municípios em que a estratégia escolhida para a organização da Atenção Primária foi a Saúde da Família, o trabalho em equipe deve ser norteado por um projeto comum e que os agentes desenvolvam uma ação de interação entre si e com a comunidade. Essa dimensão do trabalho interativo é percebida, às vezes, na contradição ou na identificação de sua falta nas relações de trabalho: O conceito de integralidade, no caso, seria a integração entre os funcionários. Eu acho, de certa forma, que remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 62-69, jan./mar., 2011 65 Conceitos e práticas de integralidade no município de Catas Altas-MG aqui no posto de saúde há e não há. Há pessoas que se integram melhor, têm responsabilidade. Mas há aqueles que cinco para as quatro horas já estão querendo ir embora, não se integram mesmo, não têm responsabilidade com o serviço. Total não tem, não. Há gente que trabalha só pelo dinheiro, fala que ganha pouco. Mas já que está aqui, tem que ajudar o colega, tem que trabalhar tudo junto para ter uma assistência melhor. Mas nem todo mundo pensa assim, não. É o que vejo aqui dentro. (C9) O relato apresenta, também, a responsabilidade profissional como algo necessário para que a integralidade se suceda, traduzida aqui como o compromisso com a equipe na produção em saúde. Essa integração da equipe deve superar a departamentalização da saúde: Primeiro a integralidade é o trabalho em equipe. Não tem essa coisa que isso aqui é só do PSF, isso aqui é só da recepção, isso aqui é só do laboratório. É estar todo mundo sabendo do que está acontecendo, não é deixar de ter ética, não, não é isso, mas é se um tem um problema que o outro pode estar resolvendo, aí, ajudar. Está faltando mais participação, mais compromisso, administrar melhor as coisas. (C14) Em Catas Altas, várias ações e programas de saúde são desenvolvidos em um mesmo espaço físico. No centro de saúde do município são realizadas as atividades da ESF, o atendimento de especialistas, a assistência social e a vigilância sanitária e a epidemiológica. De acordo com o Plano Municipal de Saúde, a ESF deveria ser a norteadora de todos os processos. A partir dela, as outras ações deveriam ser desencadeadas, coordenadas pela equipe da ESF, na construção do cuidado integral individual e familiar. No relato anterior, o profissional expressa a necessidade de que essas ações caminhem juntas, não se constituindo uma postura aética, pelo contrário, entendendo que a partilha e a ajuda mútua devem ocorrer entre os diversos setores e profissionais. Para diminuir o tempo de espera por consultas especializadas, o município optou por trabalhar com uma clínica básica ampliada, à qual foram agregados especialistas de maior demanda pelo município, como psiquiatra, ginecologista, pediatra, psicólogo, ortopedista e cirurgião ambulatorial. A proposta é otimizar o acesso a esses profissionais por meio da equipe de ESF, mediante referenciamentos responsáveis. Essa interação é revelada no discurso a seguir: Eu acho que a integralidade é ter união. A união, o profissionalismo de todos os profissionais voltados pra aquilo. Às vezes hoje todo mundo quer trabalhar no individualismo, sabe. O ginecologista não tem aquela coisa com o médico do PSF, não dá retorno dos encaminhamentos, e o mesmo acontece com a pediatra. Se ele que é o clínico geral, ele deve saber tudo sobre as pessoas. Então, tem que ser o conjunto de todos os profissionais. Eu dependo de todos os profissionais aqui. Então tem que ter o retorno, tem que ter união. Começando lá da secretária de Saúde até o último que é o faxineiro. (C11) 66 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 62-69, jan./mar., 2011 Indica-se que existe uma coordenação de cuidados por parte do médico da ESF. Quando os profissionais especialistas são acionados, há o contrarreferenciamento para a equipe de ESF. Surge a ideia de união entre profissionais que expressa mais do que interação e o sentido de interdependência do trabalho em saúde. O trabalho individualizado do profissional de saúde só propicia a resolução de situações restritas ao seu saber. Para que o atendimento seja integral, necessita-se da convergência de saberes diversos na construção de planos terapêuticos.23 Nas posturas e gestos durante as entrevistas, é expressa a percepção de fragmentação do trabalho em equipe no município, o que também é evidenciado nos três últimos discursos. A observação realizada nos serviços confirma essa percepção, o que traz grande desconforto entre os trabalhadores, evidenciando processos de trabalho que não se comunicam entre si, com condutas preferencialmente individualizadas. Mesmo assim, também é percebida que a integralidade pode acontecer como fruto de ações individuais que não trabalhem isoladas, mas que, antes, se somem na produção do cuidado integral: A integralidade é isso, da pessoa ter atendimento total de saúde, em todas as áreas, de todos se envolvendo pela causa dessas pessoas, de estar resolvendo esses problemas. Todos os profissionais de forma integral para resolver o problema de saúde da população. Eu acho que a odontologia, assim, que a saúde começa de certa forma pela boca, então quando você esta cuidando da saúde bucal você está cuidando da saúde total. (C15) Como proposta para amenizar esse distanciamento entre os profissionais, afirma-se a importância da instrumentalização das relações entre os trabalhadores: Eu vejo a integralidade como essa interação entre os vários profissionais de saúde, esse contrarreferenciamento que há dos profissionais, dos agentes comunitários de saúde, do próprio médico da equipe. Eu vejo a integralidade como a contrarreferência sempre presente. Então, eu acho que essa é a visão integral de saúde. É a importância da contrarreferência. (C10) O referenciamento e o contrarreferenciamento são atitudes compromissadas com o plano terapêutico proposto para o usuário, a ponto de o profissional significar a integralidade como “a contrarreferência sempre presente”. A referência e a contrarreferência são instrumentos valiosos na coordenação dos cuidados prestados às pessoas. É a maneira oral, escrita ou digital de se comunicar com outro profissional na construção de uma linha de cuidado. Dessa forma, elas se configuram como recursos também para a integralidade. Comunicação e integralidade estão intrinsecamente ligadas, sendo que a primeira propicia a apresentação cognitiva de signos que exprimem a segunda.24 Dessa forma, o referenciamento e o contrarreferenciamento funcionariam como a comunicação de significações das pessoas e de interpretações profissionais na tentativa de oferecer atendimento integral. Portanto, dizer que a integralidade é o contrarreferenciamento constante denota a importância da integração entre profissionais e serviços na produção em saúde. equidade em saúde e equidade em cuidados à saúde, salientando que a segunda garante apenas amenizar as desigualdades sem resolvê-las. A equidade é tarefa para o sistema de saúde como um todo, associado a outras políticas públicas. Todavia, a instrumentalização das relações de trabalho na Atenção Primária é indicada como uma possibilidade de garantia do trabalho em equipe integral, mas isso não é suficiente se não houver o perfil profissional adequado para o trabalho na Atenção Primária.6 Algumas definições de integralidade, mesmo imprecisas, abordam situações fundamentais para ela, como o vínculo entre profissional e usuário25: É o vínculo que eles têm com a gente que é a integralidade. (C4) A associação de ações preventivas e promocionais às curativas também é entendida como condição para a integralidade: O paciente chega aqui, ele não tem nenhum dano estabelecido em sua saúde, mas quer uma orientação. Às vezes o paciente fica sabendo de alguma coisa e ele quer uma orientação, então o paciente quer, na verdade, é prevenir alguma coisa. (C1) Esse relato está associado a um contexto de reformulação de algumas ações, apresentadas pela gestora municipal, na tentativa de privilegiar espaços nos quais a construção de atividades preventivas e promocionais se associe às tradicionalmente curativas. Duas ações citadas foram a criação do acolhimento e a reformulação das atividades grupais. Algumas definições encontradas nos discursos sobre a integralidade conotam a noção de equidade: A integralidade se manifesta em uma rede de conversações entre usuários e profissionais que precisa do vínculo para se estabelecer. Entendemos o vínculo como a relação de confiança estabelecida entre a pessoa e o serviço, seja diretamente ligada a um profissional, seja a uma equipe. O vínculo é que possibilita o estabelecimento de relações de longa duração necessárias para a construção de práticas longitudinais e integradas. O vínculo é garantido mediante a postura acolhedora, que permite ao usuário a segurança de expor seus problemas e quando o trabalho e ações desenvolvidas são centrados no usuário.26,27 O vínculo, por sua vez, possibilita que o usuário também se responsabilize pela produção de sua saúde. Sentindose seguro e confiante, com garantia de continuidade de seus cuidados, é possível que ele assuma mudanças de comportamentos construídas no plano terapêutico. O objetivo final do vínculo seria a criação dessa responsabilização e, consequentemente, da autonomia da pessoa que a coloca no trilho da condução de sua própria vida. A integralidade é você olhar a necessidade de cada um individualmente, porque há aqueles que têm uma necessidade maior a ser suprimida. É você saber separar a necessidade de cada um. Eu acredito que seja isso. (C5) O discurso a seguir direciona a integralidade para essa rede de conversações necessária para a criação do vínculo e ainda acrescenta que essa relação deve ser pautada pelo respeito, considerando o outro como alguém próximo, pertencente a própria família: Nesse relato, reconhece-se que as necessidades são diferenciadas entre as pessoas e que o profissional tem papel importante nessa identificação e interpretação da demanda. A integralidade, também, é associada à ideia de priorizar casos específicos: A integralidade é ser integral na saúde; eu acho que é tratar o outro com mais respeito, como se fosse alguém da sua família. Então é interagir melhor com o outro, escutar o outro, ter respeito pela opinião dos outros. O nosso papel aqui é esse. (C6) Eu acho que a integralidade é assim, cada indivíduo com as suas carências, cada um com suas perdas. Não é porque um está precisando do pediatra, por exemplo, que o outro também precisa. Então temos que dar prioridade ao caso que necessita mais. (C2) A integralidade ainda é vista como uma completude, impossível de ser alcançada: A integralidade é percebida como um olhar que identifica necessidades que são diferentes para cada pessoa e que o profissional deve saber dar a cada um de acordo com a própria necessidade. Dessa forma, ela propicia que a equidade seja contemplada quando entende que as pessoas demandam coisas diferentes e que a oferta também deve ser diferenciada. Todavia, a equidade deveria implicar a oportunidade justa de cada um acessar os serviços de acordo com as suas necessidades, sem que ninguém saia em prejuízo se comparado a outra pessoa. É importante diferenciar Olha, integralidade eu acho que é uma palavra muito completa. Eu acho que a gente deve estar sempre em busca dela [...]. Nunca achar que chegou, que atingiu. Eu acho que a integralidade seria, o ideal seria que ela fosse o grande objetivo. Eu enxergo dessa forma, a vejo como o objetivo que sigo buscando e buscando. (C13) Mesmo assim, a busca pela integralidade deve ser constante, ainda que somente se consiga aproximar sucessivamente do seu ideário, sem jamais atingi-la. É importante para o profissional nunca achar que conseguiu alcançar a integralidade. Torná-la o seu objetivo com a consciência da sua inalcançabilidade é o segredo para uma boa prática profissional. remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 62-69, jan./mar., 2011 67 Conceitos e práticas de integralidade no município de Catas Altas-MG A significação de integralidade como a interação entre os níveis assistenciais não foi abordada nos discursos produzidos pelos profissionais. Nos documentos, porém, pode-se notar a preocupação no estabelecimento de parcerias com outros municípios e com outros serviços para a garantia de assistência integral em todos os momentos e ciclos de vida das pessoas. O amadurecimento dessa ideia junto com os profissionais poderia ajudar na construção de ações integrais mais longitudinais, perpassando níveis assistenciais, até mesmo nos planos terapêuticos propostos. Nas escritas dos profissionais, não ocorre essa postura, tornando as ações muito restritas à Atenção Básica, perdendo a conotação de que a equipe, nesse modelo, é que seria a responsável pela coordenação do cuidado do indivíduo pelo sistema. Em algumas situações, o conceito de integralidade não foi apresentado neste estudo com significações já consagradas. Entretanto, a ausência de definição conceitual da integralidade não significa inexistência de práticas integrais. A produção de cuidados na saúde lida cotidianamente com situações subjetivas quando a integralidade se manifesta mesmo sem ser conceituada. É na dificuldade de formatarmos conceitos claros que se evidencia o problema da complexidade,28 da impossibilidade de construir definições para conceber o mundo e nossa relação com os outros e com nós mesmos. E essa ausência de conceitos não nos torna menores, pelo contrário, torna-nos mais dignos e humanos. Muitos dos conceitos se concebem pela interação entre as pessoas no seu cotidiano. CONSIDERAÇÕES FINAIS Esse reencontro com Catas Altas possibilitou o aprofundamento de questões a respeito da integralidade e de situações intrínsecas à Atenção Primária. Possuir apenas a Atenção Primária em seus limites geográficos, dependendo de articulações para a garantia de assistência secundária e terciária, produz uma maneira de trabalho em saúde peculiar para o município. Se a integralidade é tarefa para toda a rede de um sistema produzir, como, então, conseguir prestar assistência integral às pessoas, dependendo da hierarquização de um sistema de saúde e de investimentos próprios? Os próprios trabalhadores é que respondem por meio de seus discursos e de suas práticas. Para eles, a integralidade é polissêmica e vários conceitos lhe foram atribuídos. Ela é entendida como a visão holística aplicada no cuidado, que permite até ver a necessidade do outro; é a integração dos processos de trabalho individuais, que devem ser articulados, solidários e com objetivo único; é influenciada pela cultura e pelo meio social no qual é produzida; é a combinação de ações preventivas e curativas prestadas ao usuário. A integralidade é apresentada como uma relação estreita com a equidade e com o contrarreferenciamento. Pelo estudo, ela só acontece se a equidade for observada tanto com relação ao próprio cuidado quanto com o contexto da vida da pessoa. O contrarreferenciamento aparece como condição para que a integralidade ocorra, representado na comunicação que perpassa uma rede integrada de cuidados, necessária para a coordenação da assistência aos usuários. Entretanto, também é indefinida e extremamente ampla, tornando-se difícil conceituá-la. Mesmo assim, o cotidiano do trabalho em saúde foi demonstrado com aproximações sucessivas ao ideário da integralidade. Nele, acontecem interações profissionais e trabalho fragmentado, soluções e problemas, alegrias e angústias, avanços e desafios. Somente a riqueza desse universo propiciado pela convivência no cotidiano permite a alteridade necessária para que o município se aproxime do atendimento integral. Uma dimensão da integralidade que não é exposta nos discursos está relacionada aos níveis assistenciais. Não foi abordada nas falas nem observada nas práticas a elaboração conceitual de uma linha de cuidados importante para conferir a integralidade. O fato de o trabalho em saúde ser imerso na Atenção Básica como única fonte produtora de saúde do município restringe a significação da integralidade aos espaços que são próprios de seu cotidiano de trabalho. Ainda assim, os documentos analisados trazem a preocupação de garantir assistência nos outros níveis do sistema, objetivando a acessibilidade dos usuários. São realizadas parcerias com outros municípios para garantir acesso aos setores secundário e terciário, porém são incipientes as ações institucionais que garantam a coordenação dos cuidados dos usuários pelos profissionais de saúde do município, quando esse sai da Atenção Básica. Inexiste a pactuação de contrarreferenciamento responsável e efetivo com os outros níveis do sistema. O pensamento longitudinal acaba não sendo refletido nas práticas dos profissionais. A continuidade da assistência é garantida, porém sem a conotação de que o cuidado deve ser garantido ao longo do tempo de maneira articulada. REFERÊNCIAS 1. Brasil. Lei 8080, de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF; 20 set. 1990. 2. Mattos RA. Os Sentidos da Integralidade: algumas reflexões acerca de valores que merecem ser defendidos. In: Pinheiro R, Mattos RA. Os Sentidos da Integralidade na atenção e no cuidado à saúde. Rio de Janeiro: UERJ, IMS, ABRASCO; 2001. p. 39-64. 3. Pinheiro R. As práticas do cotidiano na relação oferta e demanda dos serviços de saúde: um campo de estudo e construção da integralidade. In: Pinheiro R, Mattos RA. Os Sentidos da Integralidade na atenção e no cuidado à saúde. Rio de Janeiro: UERJ, IMS, ABRASCO; 2001. p. 65-112. 4. Camargo Jr KR. Um ensaio sobre a indefinição de integralidade. In: Pinheiro R, Mattos RA. Construção da Integralidade: cotidiano, saberes e práticas em saúde. Rio de Janeiro: UERJ, IMS, ABRASCO; 2003. p. 35-43. 68 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 62-69, jan./mar., 2011 5. Organização Mundial de Saúde. Atenção Primária à Saúde. Genebra: Word Health Organization; 1978. 6. Starfield B. 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Construção social da demanda: direito à saúde, trabalho em equipe, participação e espaços públicos. Rio de Janeiro: CEPESC/UERJ ABRASCO; 2005. p. 181-93. 28. Morin E. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina; 2005. 120 p. Data de submissão: 30/6/2009 Data de aprovação: 17/12/2010 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 62-69, jan./mar., 2011 69 HISTÓRIA DE VIDA E O ALCOOLISMO: REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE ADOLESCENTES* LIFE HISTORY AND ALCOHOLISM: SOCIAL REPRESENTATIONS OF ADOLESCENTS HISTORIA DE VIDA Y ALCOHOLISMO: REPRESENTACIONES SOCIALES DE LOS ADOLESCENTES Sílvio Éder Dias da Silva1 Maria Itayra Padilha2 RESUMO Neste estudo descritivo-qualitativo, utilizou-se a Teoria das Representações Sociais. Os objetivos foram descrever as representações sociais dos adolescentes sobre o alcoolismo e analisar a inserção do alcoolismo na história de vida dos adolescentes. O contexto do estudo foi uma instituição da Prefeitura de Belém-PA e 40 adolescentes constituíram os sujeitos da pesquisa. Para a coleta de dados, utilizou-se a técnica da história de vida. A técnica de análise foi a de conteúdo temático, que chegou a duas categorias: O alcoolismo na história de vida dos adolescentes e Alcoolismo e alcoolistas e suas representações sociais. A inserção da bebida alcoólica no seio familiar e seu uso de forma abusiva foram relevantes para o primeiro contato dos adolescentes com o álcool e outras drogas. No estudo, mostrou-se a relevância de se desvelar o universo dos adolescentes sobre o alcoolismo para favorecer a compreensão deste como fenômeno psicossocial. Palavras-chave: Alcoolismo; Álcool Etílico; Adolescente; Enfermagem Psiquiátrica. ABSTRACT This descriptive qualitative study employed the Theory of Social Representations. It aims to describe the adolescents’ social representations on alcoholism and to analyze the insertion of alcoholism in their life history. The study context was an institution in the city of Belém, PA and the subjects were 40 adolescents. Data was collected through life history technique. The thematic content analysis established two categories: the alcoholism in the adolescents’ life, alcoholism and alcoholics and their social representations. The insertion of alcoholic beverage within the family and its improper use represented the first contact of the adolescents with alcohol and other drugs. The study revealed the importance of uncovering the adolescents’ universe on alcoholism to promote this problem’s understanding as a psychosocial phenomenon. Key words: Alcoholism; Ethyl Alcohol; Adolescent; Psychiatric Nursing. RESUMEN En el presente estudio descriptivo cualitativo se utilizó la Teoría de las Representaciones Sociales. Su objetivo fue describir las representaciones sociales de los adolescentes sobre el alcoholismo y analizar la inserción del alcoholismo en la historia de vida de los adolescentes. El contexto del estudio fue una institución de la ciudad de Belém y los sujetos 40 adolescentes. Para la recogida de datos se empleó la técnica de la história de vida y para el análisis la técnica de contenido temático que definió dos categorías: El alcoholismo en la historia de vida de los adolescentes y El alcoholismo, los alcohólicos y sus representaciones sociales. La inclusión del alcohol en la familia y su uso de forma abusiva fueron sumamente importantes para el primer contacto de los adolescentes con el alcohol y otras drogas. El estudio mostró la importancia de revelar la relación de los adolescentes con el alcoholismo para ayudar a entenderla como un fenómeno psicosocial. Palabras clave: Alcoholismo; Alcohol etílico; Adolescente; Enfermería psiquiátrica. Artigo original proveniente da tese de doutorado sob o título: Representação social do alcoolismo: história de vida de adolescentes, defendida em 26/7/2010, no Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professor assistente da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal do Pará (UFPa). Doutorando do DINTER/UFPa/UFSC/CAPES. Mestre em Enfermagem pela EEAN/UFRJ. Membro do Grupo de Estudos de História do Conhecimento de Enfermagem e Saúde (GEHCES) e do Grupo de Pesquisa Educação, Políticas e Tecnologia em Enfermagem da Amazônia (EPOTENA). Belém-P) Brasil. E-mail: [email protected]/[email protected] 2 Doutora em Enfermagem. Professora associada do Departamento de Enfermagem e da Pós- Graduação em Enfermagem da UFSC. Pesquisadora do CNPq. Santa Catarina, Brasil. E-mail: [email protected]. Endereço para correspondência – Av. Romulo Maiorana, 1965, ed. Monterrey, Apto. 901-CEP: 66093-005-Bairro do Marco-Belém-Pará. * 1 70 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 70-78, jan./mar., 2011 CONSIDERAÇÕES INICIAIS A palavra “droga” deriva do termo holandês droog, que significa “produtos secos” e servia, nos meados do século XVI ao XVIII, para designar um conjunto de substâncias para a alimentação e a terapêutica de doenças. O termo também foi empregado na tinturaria, significando “substâncias para obter prazer”. No período colonial do Brasil, as drogas representavam um conjunto de riquezas exóticas, produtos de luxo destinados ao consumo e ao uso médico, sendo posteriormente denominadas de especiarias.1 Com o passar do tempo, a fronteira entre esses dois conceitos foi definida e vigiada, sendo que as distinções não são mais naturais, mas um recurso artificial de controle político e jurídico. Dessa forma, as drogas passaram a ser conceituadas como lícitas e ilícitas.1 O álcool é considerado uma droga lícita. Estima-se que existam 2 bilhões de consumidores de bebida alcoólica em todo o mundo e, desses, 76,3 milhões com diagnóstico de transtornos relacionados ao uso de álcool. Os índices de morbidade e mortalidade relacionados a essa realidade são consideráveis. Os acidentes automobilísticos ocupam índice proeminente nas estatísticas, pois, em todo o mundo, entre um quarto e a metade dos acidentes de trânsito com vítimas fatais está associada ao uso do álcool.2 O fenômeno das drogas é altamente complexo e de múltiplas causas, não reconhecendo limites territoriais, sociais ou de idade. Assim, o novo padrão de consumo dos adolescentes mantém prevalência incrementada durante os últimos anos. Essa situação pode dever-se às características evolutivas, como a busca pela identidade e independência, o isolamento dos valores familiares e a ênfase na necessidade de aceitação por seus pares. Portanto, a adolescência se converte em uma etapa de vulnerabilidade e facilitadora para o início de condutas de risco, como é o caso do consumo de álcool e outras drogas.3 Em relação ao índice de consumo de álcool por adolescentes, evidencia-se que 65,8% deles já usaram álcool alguma vez na vida, sendo que 35,2% desses relataram que o consumiram no último mês. Assim, as Pesquisas Nacionais de Adição (PNAs) estimam uma tendência ascendente na prevalência global para o consumo de álcool ao longo dos anos. Durante 1998 e 2002, foi registrada a prevalência de 27,0% e 35% entre homens. Entre as mulheres, a prevalência foi de 18% a 25% durante os mesmos anos. Foram assinaladas, também, diferenças com relação ao nível de escolaridade. Estima-se que 24,4% dos estudantes de 2º Grau consumiram álcool no último mês, sendo que essa proporção dobra no nível do bacharelado (51,7%).4 Percebe-se que o alcoolismo, ao ser inserido no cotidiano do adolescente, começa a fazer parte do seu cognitivo e de suas comunicações com o seu grupo de pertença, passando a doença para uma dimensão psicossocial que poderá influenciar o seu comportamento diante da droga. É necessário desvelar essa experiência vivida pelo adolescente, apreendendo-lhe a história de vida, a fim de compreender seu presente e, assim, organizar uma forma de orientá-lo adiante da problemática do alcoolismo. A história de vida é um método no qual a pessoa relata a sua história pessoal com enfoque no tema que o pesquisador procura analisar e compreender. Esse método permite compreender as formas de consciência popular, assim como a formação das representações e seus respectivos valores sociais, além de propiciar conhecer o desenvolvimento de atitudes nas diversas fases de desenvolvimento do indivíduo pesquisado.5 O núcleo familiar é responsável pela adoção de atitudes que orientam o indivíduo na sua vivência social. Por isso, entender a história de vida de adolescentes que convivem com a inserção da bebida alcoólica no seio familiar é importante para analisar o comportamento que eles desenvolvem diante da alta oferta de bebidas destiladas e fermentadas oferecidas em nossa sociedade. Em razão da posição estratégica que a enfermagem tem no cuidado à saúde, desempenhando uma atenção mais próxima e humanizadora, vê-se a importância das ações do enfermeiro na prevenção e identificação dos fatores de risco associados ao consumo do álcool, em razão de suas implicações para o adolescente e para o meio social. Assim, elas devem ser desenvolvidas com base nos eixos indivíduo, família e comunidade, para que sejam eficazes em seus resultados. A diversidade de enfoques teóricos e metodológicos é uma característica marcante da enfermagem. Dentre eles destaca-se a Teoria das Representações Sociais (TRS), que é muito empregada por ter a função de interpretar a realidade que se almeja pesquisar, possibilitando a compreensão das atitudes e comportamentos de determinado grupo social perante um objeto psicossocial. Considerando que a representação social favorece conhecer a prática de determinado grupo, ela permite à enfermagem estabelecer intervenções que, por respeitarem as características específicas de cada segmento social, serão mais eficientes e eficazes. OBJETIVOS Com base no exposto, foram delimitados como objetivos do estudo: descrever as representações sociais dos adolescentes sobre o alcoolismo e analisar a inserção do alcoolismo na história de vida dos adolescentes. METODOLOGIA Neste estudo descritivo-exploratório, com abordagem qualitativa, utilizou-se o método de história de vida para captar as representações sociais dos sujeitos do estudo sobre o tema em questão. Esse método caracteriza-se como uma vertente da história oral que se compõe como um autêntico e eficiente instrumento de investigação quando o pesquisador atribui um aspecto científico ao seu estudo.6 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 70-78, jan./mar., 2011 71 História de vida e o alcoolismo: representações sociais de adolescentes A história de vida consiste na narrativa contada pelo sujeito, servindo como ponte de interação entre o indivíduo e o meio social, tendo como principal característica a preocupação com o vínculo entre pesquisador e sujeito. Assim, ocorre uma produção de sentido tanto para o pesquisador quanto para o pesquisado. A abordagem qualitativa foi selecionada para investigar o objeto de estudo por meio da apreensão do universo subjetivo de determinado grupo de indivíduos, pelo fato de se acreditar na indissociabilidade entre mundo real e mundo simbólico. Essa modalidade de estudo tem como “fundamento uma relação dinâmica, uma interdependência viva entre o indivíduo e o objeto, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito”.7:79 Assim, por meio da captação dos relatos da população estudada, acessa-se a realidade objetiva que a circunda. O método histórico possibilitará a compreensão do universo do adolescente com base em seu passado com a construção de suas representações sociais sobre o alcoolismo, que serão primordiais para sua tomada de atitude diante da prática social de consumo de bebida alcoólica. O campo de pesquisa foi o projeto Tribos Urbanas, um programa da Prefeitura de Belém-PA, criado há dois anos, com o objetivo de atender jovens e adolescentes que se envolvem com gangues. A iniciativa visa retirá-los das ruas e envolvê-los em atividades socioeducativas.8 Participaram do estudo 40 adolescentes de ambos os sexos, sendo 30 do sexo masculino e 10 do sexo feminino. Os critérios de inclusão na pesquisa foram: estar na faixa etária entre 12 e 20 anos, fazer parte do programa da instituição mencionada e ter a permissão dos adolescentes e de seus responsáveis legais para a participação no estudo. O período da coleta dos dados foi de março a julho de 2009. A técnica de coleta das narrativas dos adolescentes para a produção de fontes orais foi a entrevista semiestruturada, uma técnica fundamental para captação de dados de uma pesquisa, pois a fala que emerge de sua realização é reveladora de categorias estruturais, de princípios de valores, normas e símbolos e, ao mesmo tempo, tem a magia de transmitir, por meio de um porta-voz, as representações de grupos determinados, em condições históricas, socioeconômicas e culturais específicas.9 Nos trabalhos de representações sociais existe a necessidade de trabalhar com um grupo social, pois somente nesse tipo de grupo é elaborado o conhecimento consensual. Por tal motivo, o número de sujeitos da pesquisa tem de ser representativo de um grupo, ou seja, não pode ser um número insignificante. Foi empregada a técnica da saturação de dados, que diz respeito à repetição dos discursos como forma de delimitar a amostragem deste estudo.10 A pesquisa foi orientada pela Portaria nº 196/96, do Conselho Nacional de Saúde, e aprovada pelo Comitê de Ética da Universidade Federal do Pará, recebendo o Protocolo nº 004/08 CEP-ICS/UFPA. Após o término das entrevistas, foi realizada sua transcrição. Para trabalhar as informações, optou-se pela análise temática, a qual consiste na 72 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 70-78, jan./mar., 2011 significação que se desprende do texto, permitindo sua interpretação sob o enfoque da teoria que guia o estudo. Essa técnica de análise propicia conhecer uma realidade por meio das comunicações de indivíduos que tenham vínculos com ela.11 Buscou-se desdobrar a análise temática em três etapas: a primeira foi a pré-análise, que consistiu na seleção e organização do material, quando se realizou a leitura flutuante e a constituição do corpus; a segunda foi a exploração do material; e a terceira, o tratamento dos dados.11 Ao final da análise, chegou-se às seguintes categorias temáticas: O alcoolismo na história de vida dos adolescentes e Alcoolismo, alcoolistas e suas representações sociais. RESULTADOS E DISCUSSÃO São apresentas, a seguir, a análise e a discussão dos resultados encontrados no estudo, que culminaram nas duas categorias centrais. Na primeira, O alcoolismo na história de vida dos adolescentes, demonstrou-se como os sujeitos do estudo se aproximaram da bebida alcoólica por meio da sua história de vida e das suas relações familiares. “Na segunda categoria, Alcoolismo, alcoolistas e suas representações sociais, apresentou-se o cerne das representações sociais na vida dos adolescentes por meio de duas subcategorias: “alcoolismo: doença, não; vício, sim”; e “alcoolismo, uma doença dependente”. O alcoolismo na história de vida dos adolescentes O termo “família” nos remete a uma imagem simbólica de indivíduos, em diversas fases do desenvolvimento humano, que convivem de forma harmoniosa e satisfatória em um ambiente comum. A família é constituída por vários componentes, detentores de valores arraigados sobre a família que merecem ser respeitados. Ela é representada como um grupo de pessoas que, por interagir, influencia a vida uns dos outros, quer compartilhem laços biológicos ou não. A família é a célula social que sofreu diversas alterações na sua conceituação e estrutura, mas permanece como instituição central nas sociedades ocidentais.12 A infância é o período crucial para a elaboração de representações sociais, visto que o infante estrutura sua visão de mundo baseando-se no que lhe é apresentado pelo adulto. A realidade criada pela criança é proveniente das representações que os adultos lhe reapresentam. Assim, apresenta-se, a seguir, o modo como os sujeitos do estudo vivenciaram o uso do álcool em suas famílias: A minha mãe era alcoólatra. Ela começou a beber muito depois que se separou do meu pai, quando começou a trabalhar fora. Nas sextas-feiras, ela saía do emprego para beber com as amigas, depois ela começou a beber em casa; ela bebia até ficar de porre. (E6) O meu pai era alcoólatra, pois ele começava a beber e não parava mais. Ele bebia nos finais de semana e em dias que o time dele, que é o Remo, jogava. Como eu disse, ele não sabia parar; bebia até cair de porre. (E20) A minha mãe era alcoólatra! Quando ela começava a beber, ela não conseguia parar, bebia até ficar de porre. Ela bebia e ficava maluca, ninguém conseguia parar ela; ela bebia muito, tinha vez que ela bebia até dia de semana. (E16) Percebe-se que o familiar alcoolista dos adolescentes era o pai e/ou a mãe, e estes foram responsáveis por apresentar um mundo no qual a bebida alcoólica era permissível e cujo abuso era rotineiro. Na infância é que se representa a realidade, que a criança irá conviver, ou seja, a realidade reapresentada pelo adulto. O mundo apresentado pelo adulto servirá como matéria-prima para o que será construído pela criança. No caso deste estudo, o mundo adulto estrutura o hábito de conviver com o consumo do álcool. A representação é um elemento de grande importância na infância, uma vez que ela floresce como um instrumento de cognição que confere um sentido e valores municiados pelo meio social para as sensações, ações e experiências, principalmente em relações e trocas com o outro. Dessa forma, a representação é, simultaneamente, um instrumento de socialização e de comunicação.13 A criança, estando centrada no seio familiar, vai usar os aspectos culturais deste, por meio da aprendizagem, para estruturar sua interação na realidade social. Nessas situações, as crianças e os adolescentes estão adquirindo as habilidades tradicionais de uma série de condições bastante restritas.14 O modelo de aprendizagem define que existem interesses comuns entre a criança e o adulto, sendo este visto como perito e o infante, como aprendiz. O conflito sobre o valor que deve ser apreendido tem de desaparecer. Assim, o que esse modelo propicia é um fruto para representação de relações sociais existentes em situações que são distinguidas pela assimetria de poder entre o aprendiz e o perito.14 Esse modelo aprendiz e perito tem de ser visto sobre o fator da influência social, pois a criança, como aprendiz, irá seguir as determinações que o perito, ou seja, o adulto, lhe apresenta. Sob esse ponto de vista, percebe-se a importância da carga cultural do adulto que é passada para a criança e posteriormente ao adolescente. Quando nessa carga estão impressos atitudes e comportamento pró-alcool, este será fundamental para a estruturação de representações sociais que tenham a bebida alcoólica como um bem sociável. A representação, por sua vez, irá condicionar atitudes e comportamentos no adolescente que tenham o álcool como centro motivador de interação grupal. Outro aspecto importante nos relatos diz respeito à infância, pois foi nela que ocorreu o primeiro contato desses indivíduos com a bebida alcoólica. Neste estudo, esse primeiro contato destacou-se nas reuniões familiares, como o Natal, Ano-Novo e aniversários, quando os participantes do estudo presenciaram o consumo de bebida alcoólica pelos seus familiares, Esse contato com o álcool, muitas vezes, somente finalizava com a embriaguez, conforme se observa nas falas abaixo. As reuniões mais frequentes em casa são o Natal e o Ano-Novo. A família se reunia, todo mundo comia junto, mas depois debandavam. Eu achava diferentes essas reuniões porque a maioria chegava de porre lá, e, como eu não sabia o que era aquilo, eu achava estranho. Curioso, ficava só olhando e tentando entender. Nessas reuniões participava toda família que a minha avó materna constituiu; eu não tenho muito afeto pela família do meu pai. Em casa, a gente consumia bebida. As mais usadas eram a cerveja, vinho, cachaça e conhaque; a gente bebia tudo que tinha álcool. (E9) Havia festas em casa, sim, era mais de aniversário, participava toda minha família de parte de pai. Só os mais velhos bebiam cerveja. Alguns bebiam demais, como meus tios; às vezes, eles discutiam. (E15) Era consumida bebida no aniversário. Pra você ver como meu pai não era chegado comigo, nos aniversários só tinha o bolo mesmo e bebida para ele. Meu pai, quando bebia, era em excesso; ele ainda bebe até ficar louco e quando ele bebe quebra tudo lá na casa dele. (E23) Os fatores familiares, como inserção da bebida alcoólica no meio familiar e seu uso de forma abusiva, são variáveis para o primeiro contato com o álcool e outras drogas, assim como os hábitos e os conflitos que os jovens percebem podem contribuir para a introdução desse tipo de droga nos seus costumes culturais e práticas sociais. A literatura assinala evidências de que problemas na família são riscos para o uso de drogas lícitas e ilícitas. As famílias que consomem álcool apresentam disfunções na área do afeto, do estabelecimento de limites e de papéis na estrutura familiar. Apesar de alguns adolescentes terem tido o primeiro contato com a bebida alcoólica na infância, a maioria dos sujeitos pesquisados passou a conviver com o álcool apenas na adolescência: Eu comecei a beber com 15 anos mesmo! Eu fui para uma festa no final do ano passado pra me divertir, sabe como é nas festas, se quiser beber, bebe, se não quiser, não bebe, mas eu bebo para não ficar de porre, até porque eu sei que a cerveja deixa a gente de porre até cair. (E22) Eu tinha uns 14 anos; foi em um aniversário de um amigo meu. Eles diziam: ‘Bebe aí, bebe aí’. [...]. Foi a partir daí – eu não gostava – que comecei a ir pra festa, aí, pronto. (E14) Aos 16 anos experimentei bebida alcoólica pela primeira vez. Foi na festa de aniversário de uma amiga. Algumas colegas ofereceram-me cerveja, incentivaram-me a beber, então eu bebi, mas só provei por medo que minha mãe [avó] brigasse comigo. (E33) No que diz respeito ao modo como os adolescentes representam sua infância, eles deram ênfase a duas remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 70-78, jan./mar., 2011 73 História de vida e o alcoolismo: representações sociais de adolescentes classificações: infância boa e infância ruim. Para eles, infância boa foi caracterizada pela presença de liberdade, evidenciada pela permissão dos pais para brincar fora dos limites da residência. Já a infância ruim teve como característica uma liberdade controlada, representada com a restrição do ato de brincar nos limites domiciliares. A liberdade consiste em poder deixar de seguir o juízo do intelecto, porque, se o intelecto reconhecesse com evidência que dois bens são perfeitamente iguais, não poderia decidir por nenhum dos dois. Ela consiste em poder suspender ou impedir o juízo do intelecto, ou seja, a liberdade situa-se entre a liberdade moral, a qual se dá na independência da pessoa perante tudo o que não é ela mesma, e a noção do livre-arbítrio, segundo o qual aquilo que é livre depende de si mesmo, assim como um efeito depende da causa que o determina necessariamente.15 O significado de liberdade, que se discute neste estudo, diz respeito ao desejo da criança em não se submeter à vontade dos pais, que lhe restringiam a convivência ao ambiente domiciliar, ou seja, a palavra “liberdade” significa a condição da criança de não se submeter ao domínio de outro e, por isso, ter pleno poder sobre si mesma e sobre seus atos. A infância ruim, caracterizada pela liberdade controlada, é evidenciada como o ato dos pais de restringir os filhos ao espaço da casa, propiciando um controle maior sobre essas crianças. As falas abaixo exemplificam esses dados: Foi ruim, apesar de ter sido criado pela minha avó, ela me deu todo carinho, foi ótima. A criação da minha avó foi mais assim, educação, eu não saía muito pra rua, ficava mais em casa. (E7) Com meus familiares era muito difícil; com meus amigos era muito legal. A gente saía pra jogar bola, se divertia, porque quando se é criança quer mais aproveitar, e meus familiares me mandavam ficar em casa, e eu não gostava disso, não. Diziam que era pra eu estudar, e, escutando os outros, fiquei três anos em uma série. (E12) Foi mais ou menos, positivo eu não sei explicar; negativo porque minha mãe não deixava nem eu sair pra rua porque tinha medo devido esse negócio do meu irmão, do que ele aprontava, aí a gente corria risco também por causa dele. Eu tinha uns 10 anos quando meu irmão morreu. Ele tinha 17 anos, aí mataram ele porque ele se metia em roubo, aí os caras invadiam lá em casa atrás dele, mas não encontravam, ameaçavam, até que um dia... (E13) A falta de liberdade na infância é tida como algo ruim para os adolescentes, uma vez que lhes restringe comportamentos e atitudes. Embora os sujeitos do estudo sejam todos adolescentes e, portanto, pessoas que podem olhar para o seu passado, não entendiam a decisão dos pais de proteger os filhos do ambiente externo em que viviam, ou seja, um contexto em que o tráfico e a violência estavam presentes. Na adolescência, esses jovens passam a buscar novos grupos, novos 74 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 70-78, jan./mar., 2011 espaços que lhe propiciem um comportamento mais libertador, por isso mais vulneráveis a todo tipo de experiências, incluindo a drogadição. A infância considerada pelos jovens como boa, ao contrário, é percebida como aquela na qual os pais permitiam aos filhos o convívio com a rua, com o ambiente externo a casa, com mais liberdade. Essa sensação de liberdade no brincar favorece o desenvolvimento da criança como ser humano, mas, por outro lado, também possibilita a aproximação com esse ambiente violento, hostil e de tráfico, presente especialmente nos bairros de situação socioeconômica desfavorecida: Minha infância foi maravilhosa. Meus pais deixavamme bastante à vontade para brincar com meus amigos, principalmente de jogar futebol na rua de minha casa. Lembro-me de que chegamos a passar por crises financeiras, mas graças a Deus nunca chegamos a passar fome. (E4) Eu brincava, fazia um monte de coisas, eu era muito brigona também, brigava na rua e até mesmo em casa. Brincava de pira, se esconde, pira alta. Havia uma menina na rua de casa que a gente dizia que ela era nossa mãe e a gente brincava de mãe e filha. Estudava também, mas só a partir dos 9 anos, quando eu comecei a estudar na primeira série. (E29) Na minha infância eu gostava de estudar e de jogar bola na rua da minha casa. Eu jogava bola todos os dias quando chegava da escola. A gente morava numa casinha de madeira lá no Guamá. Então eu fiquei doente e fui internado em um hospital dos 5 aos 6 anos de idade, não lembro qual era a doença, minha mãe não me falou. (E30) Percebe-se, neste estudo, que os adolescentes que tiveram maior liberdade por parte dos pais também tiveram contato mais precoce com a bebida alcoólica, fato que se deu na infância, enquanto os que tinham restrição de liberdade tiveram contato com elas mais tarde. O controle dos pais não é um determinante para que o jovem não tenha contato com o álcool, já que tanto a população que teve controle dos pais quanto os que não tiveram consumiram álcool, porém a presença dele serviu como uma barreira de proteção para o acesso precoce à droga. Como se pode notar, o controle da liberdade da criança é que rege a denominação que o adolescente tem sobre sua infância, podendo ser classificada como boa ou ruim. Lembrando que essa liberdade permitida ou controlada vigora até a adolescência, sendo fundamental para relação do adolescente no seu meio social. Na adolescência, também emergem os grupos sociais que são dotados de normas, critérios, para manter-lhes a integridade, ou seja, compartilhar representações sociais que irão gerar uma prática social necessária para se adquirir uma identidade grupal. É nesse momento que se destaca a questão da bebida alcoólica, que passa a ser agente necessário para a socialização. Saliente-se que o álcool é a primeira droga com a qual o adolescente mantém contato, servindo como uma via de acesso às drogas ilícitas. A precocidade do início do uso de álcool é um dos fatores mais relevantes para problemas futuros. A infância foi uma época crucial para a formulação de representações sociais sobre o alcoolismo, dada sua presença por meio do familiar alcoolista. Por conseguinte, a infância é considerada uma fase boa ou ruim de acordo com controle dos pais. Alcoolismo, alcoolistas e suas representações sociais A Teoria das Representações Sociais propõe um olhar psicossocial sobre a realidade estudada. Significa, portanto, compreender a realidade como produto e produtora de dinâmicas psíquicas e sociais. É pensar um sujeito ativo construtor da realidade social e nela construído. Esse sujeito é ativo no processo de apropriação da realidade objetiva, isto é, ele remodela e categoriza as informações com as quais é confrontado e o faz no contexto de um conjunto de relações com outros indivíduos e, é claro, a respeito de objetos socialmente relevantes para eles.16 Com base nessa relação de convivência, emerge, por meio da comunicação, o universo consensual ou conhecimento do senso comum. O conhecimento do senso comum não se contrapõe ao conhecimento científico, ele se inscreve numa ordem de conhecimento da realidade, é uma forma de saber diferenciado, tanto no que se refere à sua elaboração como à sua função. Enquanto o conhecimento científico é construído de passos formalmente delimitados e tem como função principal conhecer a natureza e dominá-la, o do senso comum é elaborado por meio de processos de objetivação e ancoragem, segue uma lógica natural e tem como funções orientar condutas, possibilitar a comunicação, compreender e explicar a realidade social, justificar, a posteriori, as tomadas de posição e as condutas de um sujeito, e tem uma função identitária que permite definir identidades e salvaguardar as especificidades dos grupos.16 Com base nisso, percebe-se a relevância da compreensão das representações sociais, visto que elas retratam a realidade pesquisada. Tanto é assim que a organização das representações sociais sobre o alcoolismo favoreceu a tomada de comportamentos dos adolescentes diante desse objeto psicossocial. Essa categoria se desdobra em duas subcategorias: a primeira é “alcoolismo: doença, não; vício, sim”, na qual o adolescente representa o alcoolismo não como uma doença, conforme destacado no universo reificado, mas, sim, como um vício, sendo uma realidade presente no universo consensual da doença. Já a segunda, “alcoolismo: uma doença dependente”, observa-se como os adolescentes identificam o principal sintoma do alcoolismo, que é a dependência, e como eles classificam que os alcoolistas tornaram-se dependentes por serem “pessoas fracas”. Alcoolismo: doença, não; vício, sim Nesta subcategoria, evidencia-se que os adolescentes caracterizam o alcoolismo não como uma doença, mas, sim, como um vício. Essa realidade se faz presente quando os depoentes caracterizam o vício como o hábito de consumir bebida alcoólica de forma contínua, mas, mesmo assim, não é considerado uma doença: Eu acho que o alcoolismo não é uma doença, mas, sim, um vício, porque a hora que você quiser parar de beber, você para, se fosse uma doença, muitas pessoas que pararam de beber não conseguiriam. No meu entendimento eu vejo assim. (E16) Não acho, não. Acho que é um vício, porque a primeira vez que eu tomei eu gostei e não parei mais de tomar, acho que ficou gravado na minha mente que tem que tomar. Tenho que me controlar mais porque quando eu vejo a bebida já quero logo beber. (E17) Olha, eu acho que isso não é uma doença, e, sim, um vício. Porque eu não sei totalmente, só sei que as pessoas bebem, assim, e não querem mais parar, e dessa forma começa o problema. (E28) Os depoimentos dos sujeitos do estudo sobre a relação com o álcool se apresentam de um modo até certo ponto ingênuo, uma vez que consideram a doença e o vício como algo diferente. Percebe-se que no universo consensual dos depoentes não existe a relação do vício como uma consequência da doença, mas, sim, que este substitui a doença. Os adolescentes entendem que as pessoas que consomem bebida alcoólica de forma abusiva não são portadoras de uma doença, mas detentoras de um vício. O vício é conhecido no universo reificado como dependência psicológica e é definido como o uso compulsivo de substâncias psicoativas, apesar de trazerem consequências físicas, emocionais e sociais. A impressão que a realidade social imprime ao alcoolista como um viciado encontra-se centrada nas representações sociais dos adolescentes, estruturadas nas impressões presentes no meio social, que serve de matéria-prima para a recriação para gerações futuras. O vício é a característica do dependente químico, pois é o sintoma mais visível dele no meio social, por tal motivo ele se destaca nas representações sociais dos adolescentes em oposição à doença. Quando se reportam ao alcoolista, parece existir uma concepção dominante de que o que falta nesse indivíduo é vontade para interromper o consumo, acreditando que a pessoa pode ter o domínio sobre a ingestão do álcool e que, “se ela quiser”, tem condições de largar o “vício”.17 Pressupõese que sobre a maioria dos alcoolistas ainda parece recair o conceito de um indivíduo que não apresenta a vontade de parar de consumir bebida alcoólica – “ele bebe porque quer, é viciado”: A pessoa é alcoólatra porque quando bebe, ela vai se acostumando com aquilo e já vira um vício e não tem mais como sair, só se ela quiser; mas, mesmo ela remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 70-78, jan./mar., 2011 75 História de vida e o alcoolismo: representações sociais de adolescentes querendo, já está tão acostumada que não vai querer sair. (E29) Acho que deve ser um vício, acho que quando começa a vender tudo já é doença que vicia mesmo, e só Deus pra ajudar. (E27) As pessoas que são viciadas no álcool é muito ruim. Quando os vejo eu digo que é só Deus para ajudar as vidas de vocês. Eles ficam bebendo, esquecem da família porque a bebida é mais forte. Eles são alcoólatras. (E1) Os alcoólatras são pessoas viciadas em beber, é como somente soubessem fazer somente isso. Elas são dependentes da bebida alcoólica. (E28) Neste momento, evidencia-se outro resquício do preconceito, mais precisamente, sua base cognitiva, que é o estereótipo. Este pode ser compreendido como um conjunto de crenças sobre características pessoais de indivíduos ou grupos, ou seja, é um mundo de conhecimento cuja função consiste em opor os semelhantes preferidos aos diferentes menosprezados e de distinguir aqueles que não são como nós, com as consequências que nos são bastante familiares.18 O estereótipo é responsável pela rotulação do dependente químico do álcool como um viciado, um alcoólatra. O preconceito é uma palavra potente e ambígua, como o são igualmente suas relações com a teoria. Esse termo teve papel importante na tradição cartesiana, segundo a qual toda crença é um preconceito sem fundamento. Ele designa toda crença mantida simplesmente porque não refletimos sobre ela.18 O vício, porém, é um fator determinante de que o indivíduo sofre de alcoolismo, mas não substitui a doença, fato que aparece somente nas representações dos adolescentes sobre o alcoolismo. O termo “alcoolista” é muito empregado atualmente como forma de fugir do estigma gerado pela doença. A comunidade científica utiliza esse termo em vez de “alcoólatra”, apesar de constarem como sinônimos, em alguns dicionários, para definir o dependente do álcool. A palavra “alcoólatra” não é indicada, pelo meio científico, uma vez que o sufixo latra significa “adoração”, e o portador do alcoolismo é um enfermo que usa o álcool porque necessita dele, e não por adorá-lo. Portanto, alcoólatra, ainda que de uso consagrado, não faz jus à etiologia da doença.19 As fronteiras entre o alcoolista e o bebedor social são muito tênues e centram-se no consumo de bebida alcoólica, que para o sujeito normal não ultrapassa os limites aceitáveis pelo meio social. O consumo considerado excessivo é aquele que culmina com pessoas bêbadas e ocasiona comportamentos desagradáveis que excedem regras sociais. No contexto cultural, os significados assinalam para o núcleo representado por um contínuo entre o beber “normal”, associado à saúde, e o beber “anormal”, patológico. Esse atributo social favorece a materialização da imagem do alcoolista.19 No meio social, o indivíduo que é dependente químico é tido como uma pessoa diferente, fraca. Esse aspecto é caracterizado pelos adolescentes quando evidenciam 76 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 70-78, jan./mar., 2011 o consumidor de bebida alcoólica como um indivíduo enfraquecido, ou seja, alguém se aproxima do álcool de forma patológica por ser uma “pessoa fraca”: Devem ser fracas, eu também sou fraco. Quando as pessoas veem o álcool, não conseguem resistir e bebem. Comigo aconteceu que o meu colega me teleguiou, fez a minha mente e eu consumi álcool. (E18) Eu acho que a pessoa que bebe muito é uma pessoa fraca, tem que parar de beber, mas é viciado. (E4) Essas pessoas são fracas, são viciadas, não têm opinião própria, são influenciadas. Tenho uma colega que é ‘Maria vai com as outras’. Tudo o que mandam fazer, faz, mas não pode ser assim, temos que ter vontade própria. Agora eu sei disso e falo para ela, dou conselho, mas ela não escuta. (E29) A visão de fraqueza do alcoolista está centrada na representação social de que o indivíduo alcoolista faz uso de forma abusiva da bebida alcoólica porque é uma pessoa fraca. Na verdade, o alcoolista é visto como um fraco no universo consensual, do senso comum, mas no reificado esse é diagnosticado como portador de aspectos biopsicossociais relevantes para a aquisição da dependência alcoólica. A dependência alcoólica pode ser compreendida como um estado psíquico e físico que comporta um desejo compulsivo de forma contínua ou periódica, podendo ocasionar vários tipos de patologias crônicas, com graves distúrbios de comportamento. Pode ser resultante da interação de fatores biológicos, genéticos, psicossociais, ambientais e culturais, sendo evidenciada como uma epidemia social, visto que atinge qualquer classe social.20 O universo consensual estrutura uma forma de saber diferente do saber erudito, mas por ser uma forma de saber prático, que favorece a adoção de comportamentos e atitudes diante de um objeto psicossocial, possui o mesmo valor. Nesta subcategoria, foi possível observar que na comunicação dos adolescentes estes representavam o alcoolista não como um doente, mas como um portador de um vício que é caracterizado como um indivíduo que não consegue parar de beber. Essa realidade existe pelo fato de os adolescentes estruturarem suas representações sociais a partir de representações preexistentes, que rotulam o alcoolista como uma pessoa viciada, e não como um doente, o que é de fato. Alcoolismo: uma doença dependente No universo reificado, o alcoolismo é tido como uma doença que é caracterizada por vários sintomas, dentre os quais se destaca a dependência química. Esse saber erudito serve como matéria-prima para a emergência de um universo consensual que vincula os indivíduos que sofrem da doença como seres dependentes da bebida alcoólica. Nota-se, nesta subcategoria, que o alcoolismo é percebido como uma doença que ocasiona dependência no seu portador. Cabe elucidar que a dependência é o sintoma mais característico de um indivíduo alcoolista. Essa impressão foi percebida nos seguintes depoimentos: Sim, eu acho que o alcoolismo é uma doença que a pessoa fica dependente. Eu acho que é uma doença, porque no caso do meu pai, que ainda bebe até hoje e se não tiver o dinheiro pra beber fica doido, não se controla, dá um jeito de conseguir dinheiro, emprestado. (E37) O alcoolismo é uma doença porque causa uma dependência que a pessoa só quer beber aquilo, ainda mais quando a gente se acostuma com um tipo de bebida, pois quando eu bebia conhaque eu queria beber só aquilo, aí depois que ele já fez mal pra mim eu parei e já fiquei tomando vinho. Depois eu também enjoei do vinho, aí já fui para cachaça pura e depois para cerveja. Hoje eu só tomo vinho mesmo. O alcoolismo não faz bem pra ninguém, porque a pessoa perde a noção de si, não é mais a mesma pessoa. (E2) O alcoolismo é uma doença que deixa a pessoa dependente da bebida alcoólica. Ela só consegue levar a vida se beber. (E33) O alcoolismo é uma doença que a pessoa depende do álcool, a pessoa fica como o meu tio que precisa da bebida alcoólica para levar a vida, pois sem o álcool ela não tem mais sentido. (E9) Essa representação social se estrutura com base no conhecimento reificado que vincula o alcoolista a uma doença que tem como principal sintoma a dependência química, que pode ser compreendida como o desejo incondicional de consumir o álcool, ficando este como o principal motivo da vida do alcoolista. Ressalte-se que a doença possui uma contextualização psicossocial para o indivíduo doente. Faz-se necessário enfatizar que a doença não pode ser entendida unicamente numa visão individualista, mas também sob o aspecto coletivo, pois o adoecimento altera o cotidiano individual e social do doente. O alcoolismo possui uma característica marcante, pois, além do fato de não permitir a execução das atividades laborais do alcoolista, como a maioria das doenças realiza com seus portadores, ainda há um agravante – a visão ainda predominante na sociedade que julga o alcoolista como único responsável pelo seu adoecimento. Esse paradigma inviabiliza a compreensão do alcoolismo como uma doença crônica, pois para o meio social o diabético ou o hipertenso não foram responsáveis pela aquisição de suas patologias, fato que não ocorre com o dependente do álcool, que ainda é tido como um “semmoral”, pois “bebe porque deseja”. Por isso, é importante distinguir e contextualizar os significados dos termos culturais que demarcam as distinções: alcoolização, embriaguez, alcoolismo, bebedor, bêbado, embriagado, alcoólatra, alcoólico, alcoolista, alcoólico ativo, alcoólico passivo, etc. Eles dizem respeito aos graus de tolerância e às atitudes de cada um desses diferentes estados. Em várias sociedades não é o álcool que é condenado, mas o comportamento desviante dos indivíduos. Em consequência, há uma recorrente valorização do homem que sabe beber sem se alcoolizar e sem interferir no desempenho de papéis a ele atribuídos.21 O beber qualificado como excessivo não pode ser compreendido apenas pela perspectiva da doença e do desvio ou tão somente pelo ato individual. Os padrões do uso do álcool, suas funções e significados são consoantes ao contexto cultural em que o ato de beber ocorre, mesmo que outros fatores também devam ser considerados, porque produzem importantes resultados bioquímicos, fisiológicos e farmacológicos.21 Nesta subcategoria, foi possível compreender que o alcoolista é tido como um indivíduo doente portador de uma dependência. Esta representação, por sua vez, emerge a partir do conhecimento reificado que tem o alcoolista como o portador de uma doença crônica, que tem como principal característica a dependência química. CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta pesquisa, foi possível identificar como o encontro do adolescente com o alcoolismo durante sua infância foi primordial para a estruturação de representações sociais, nas quais adotavam a bebida alcoólica para lidar com os problemas emergentes na realidade, sendo destacado que tais representações sociais serão responsáveis pela prática social dos sujeitos do estudo. A infância emerge como um período essencial para o adolescente estruturar suas representações sociais sobre o alcoolismo. Isso ocorreu dada a convivência dele quando criança com familiares alcoolistas, que conceberam um mundo adulto com o hábito de consumir bebida alcoólica. Essa realidade reapresentou representações sociais sobre o alcoolismo que foram incorporadas pelos adolescentes para reestruturar sua realidade social, na qual o consumo de álcool é permitido. Outro ponto mencionado diz respeito à inserção da bebida alcoólica em datas festivas, tais como Natal, Ano Novo e aniversários. Nesses momentos, familiares de reunião, encontrava-se inserido o álcool como um agente socializador, e por tal motivo favoreceu a aprendizagem do hábito de consumir bebida alcoólica em ambientes de socialização. Posteriormente, evidencia-se que o fator liberdade foi o responsável para os adolescentes considerarem sua infância ruim – caso tenham tido liberdade controlada – ou boa, com a presença de liberdade por parte dos pais. Os adolescentes que tiveram maior liberdade durante a infância tiveram contato com a bebida alcoólica de forma mais precoce do que os que tiveram a liberdade restringida. A partir da adolescência, a busca pela liberdade permitida foi intensa, o que se materializou no rompimento com os vínculos familiares que exerciam controle, e a afirmação remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 70-78, jan./mar., 2011 77 História de vida e o alcoolismo: representações sociais de adolescentes com novo grupo de pertença. Neste momento, todos os adolescentes passaram a ter contato com a bebida alcoólica de forma abusiva. conhecimento científico, não familiar, foi familiarizado com o nascimento de um universo consensual que viu o alcoolista como um dependente químico. O alcoolismo foi definido, também, de duas formas: como um vício e como uma doença que ocasiona dependência. A primeira representação social surgiu de representações preexistentes que tinham em sua carga cultural o alcoolista como um viciado. Já a segunda emergiu a partir do conhecimento reificado que tem o alcoolismo como uma doença caracterizada pela dependência química, evidenciando-se que o Neste estudo, mostrou-se a relevância de se desvelar o universo dos adolescentes sobre o alcoolismo por meio da história de vida de cada um, uma vez que favorece a compreensão de um fenômeno tão polêmico como é o caso do consumo abusivo de bebida alcoólica pelos jovens. Ele mostrou a importância da elaboração de uma educação em saúde como forma de prevenção e promoção da saúde dos adolescentes. REFERÊNCIAS 1. Carneiro H. Transformações do significado da palavra droga: das especiarias coloniais ao proibicionismo contemporâneo. In: Venâncio PR, Carneiro H. Álcool e drogas na história do Brasil. São Paulo: Alameda; Belo Horizonte: PUC Minas; 2005. 2. World Health Organization. Global status report on alcohol 2004. Geneva: Department of Mental Health and Substance Abuse; 2004. 3. Fraile DCG, Riquelme PN, Pimenta CA. Consumo de drogas lícitas e ilícitas en escolares y factores de protección y riesgo. Rev Latinoam Enferm. 2004; 12:345-51. 4. García KSL, Costa Junior L. Conduta anti-social e consumo de álcool em adolescentes escolares. Rev Latinoam Enferm. 2008 mar-abr; 16(2):280-90. 5. Thompson P. A voz do passado: história oral. 3ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra; 2002. 6. Bertaux D. Los relatos de vida. Espanha: Edicions Belterra; 2005. 7. Chizzotti A. 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Almeida1 Kleyde Ventura de Souza2 Virgínia Beatriz Maciel3 Juliana Thomé Ribeiro3 Maria Luiza de Medeiros Amaro3 Mariana Julia Pioli da Costa3 Sabrina Strapasson3 RESUMO Estudo qualitativo cujo objetivo foi descrever a percepção e as perspectivas de gestantes sobre o processo de parto. Participaram dez gestantes inscritas na primeira edição de oficinas educativas, inseridas em um programa pioneiro promovido pelo Departamento de Recursos Humanos de uma instituição de ensino superior, situada na capital do Paraná. As oficinas foram realizadas no período de setembro a outubro de 2008 e contaram com a participação de professores e funcionários da instituição, que abordaram temáticas relativas ao ciclo gravídico puerperal. A coleta de dados foi feita por meio de entrevistas individuais, no local de trabalho das participantes, e gravadas com equipamento digital. Utilizou-se um roteiro semiestruturado para coleta de dados. Após a transcrição, os dados foram submetidos à análise temática de conteúdo. Foram identificadas duas categorias temáticas: a) a participação em oficinas educativas possibilitou o compartilhar experiências, fortalecendo a vivência da gestação e b) a (re)significação de experiência em oficinas educativas contribuiu para a ampliação de horizontes e o descortinar de perspectivas sobre o processo de parto. Os resultados mostram que a modalidade educativa sob a forma de oficina possibilita o compartilhar de experiências e pode contribuir para o fortalecimento das mulheres nas suas perceptivas e decisões sobre o parto. Além dos resultados alcançados, a iniciativa de formação do programa mereceu destaque. As oficinas deram visibilidade e demonstraram a importância de ampliar, para além das instituições de saúde, a realização de um tipo de modalidade educativa que envolve gestantes em seu próprio ambiente de trabalho. Palavras-chave: Gestantes; Educação em Saúde; Promoção da Saúde; Parto Normal. ABSTRACT This qualitative study aims to describe the pregnant women’s perceptions on the delivery process. 10 women joined in the educational workshop first edition. The pregnant ladies were participating in a pioneering program sponsored by the Human Resources Department at a university in Curitiba, Paraná. The workshops were held from September to October 2008 with the contribution of the university’s professors and employees and it approached issues related to the pregnancy cycle. Database was collected via individual interviews at the participants’ workplace and recorded by digital equipment. We used a semi structured interview guide for data collection. After the transcription, data was submitted to a thematic content analysis. Two themes have been identified: a) participation in the workshops made possible for the pregnant women to share and strengthen their personal experience; b) the educational workshop contributed to expand the women’s perspective about the childbirth process. The results show that this learning modality allows the sharing of experiences and that it can contribute to the consolidation of the pregnant women’s perceptions and to the strengthening of their decisions about childbirth. Apart from the results achieved it is worth highlighting the initiative of starting up the program. The workshop demonstrated the importance of widening an educational modality that involves pregnant women in their own working environment. Key words: Pregnant Women; Health Education; Health Promotion; Natural Childbirth. 1 2 3 Enfermeira obstetra. Mestre em Enfermagem pela Universidade Federal do Paraná. Professora Assistente da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) da disciplina de Atenção à Saúde da Mulher. E-mail: [email protected]. Enfermeira obstetra. Doutora em Enfermagem pela Escola de Enfermagem Anna Nery, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora adjunta do Departamento Materno-Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (EE/UFMG). E-mail: kleydeventura@uol. com.br. Acadêmica do 8o período do curso de Enfermagem da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Curitiba-PR, Brasil. Endereço para correspondência – Maria Rita de C. B. Almeida: Rua Imaculada Conceição, 1155, Prado Velho, CEP 80242-980, Curitiba, Paraná, Brasil. Endereço eletrônico. remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 79-85, jan./mar., 2011 79 PercepçÃo e perspectivas de gestantes sobre o processo do parto a partir de oficinas educativas RESUMEN Estudio cualitativo realizado con el objetivo de describir la percepción y perspectivas de las mujeres embarazadas sobre el proceso de parto. Participaron diez embarazadas inscritas en la primera edición de talleres educativos de un programa pionero promovido por el departamento de recursos humanos de una institución de enseñanza superior de la capital del Estado de Paraná. Los talleres se llevaron a cabo entre septiembre y octubre de 2008 y contaron con la participación de profesores y empleados de la institución. Se trataron asuntos relativos al ciclo del embarazo. Para la recogida de datos se realizaron entrevistas individuales en el lugar de trabajo de las participantes, grabadas con equipo digital. Se utilizó un cuestionario pré estructurado como instrumento de recogida de datos y, después de su transcripción, se efectuó el análisis temático de contenido. Fueron identificadas dos categorías a) la participación en talleres educativos posibilitó compartir experiencias, fortaleciendo la vivencia del embarazo y b) el (re)significado de la experiencia en dichos talleres contribuyó a ampliar los horizontes y perspectivas sobre el proceso de parto. Los resultados muestran que este tipo de modalidad educativa, además de posibilitar el compartir saberes y experiencias entre los sujetos implicados, puede contribuir a fortalecer a las mujeres en sus perceptivas y decisiones sobre el parto. Además de los resultados obtenidos, la iniciativa de establecer el programa ha merecido mención. Los talleres han dado visibilidad y demostrado la importancia de ampliar este tipo de modalidad educativa, más allá de las instituciones de salud, que involucra embarazadas en su propio ambiente de trabajo. Palabras clave: Embarazadas; Educación en Salud; Promoción de la Salud; Parto Normal. INTRODUÇÃO A gravidez é um momento singular na vida das mulheres, permeado por importantes mudanças físicas e emocionais, as quais, por sua vez, estão intrinsecamente relacionadas aos contextos culturais, socioeconômicos, condições de acesso a serviços, qualificação dos profissionais que as assistem, bem como ao modelo assistencial de saúde.1 Por ser um processo multifacetado, a gravidez demanda um aprendizado contínuo, afiançado na promoção da saúde e voltado para as necessidades dessas mulheres. Nesse sentido, as ações educativas no pré-natal são fundamentais não apenas pela importância de ações voltadas para a preservação da saúde materna e fetal, mas também pela possibilidade da mediação entre a ação cuidativa-educativa e o fazer-pensar das mulheres envolvidas. Dessa forma, as duas partes, os profissionais e as mulheres, se fortalecem, de maneira que as últimas podem vivenciar um processo de gestar e parir seguro e prazeroso. Desse ponto de vista, as ações que denominamos de cuidativo-educativas devem permear todas as etapas do ciclo gravídico-puerperal. É nesse sentido que os profissionais de saúde passam a ter papel relevante e de grande envolvimento, pois auxiliam e podem contribuir com a mulher na busca de sua autoconfiança nos processos de gestação, parto e puerpério.2 As atividades educativas no pré-natal têm sido descritas em vários estudos como uma ação relevante, particularmente por seus resultados positivos e porque possibilita o chamado suporte social. Outro aspecto favorável é seu caráter informativo e de apoio, características capazes de diminuir o estresse e o medo diante do desconhecido, aqui em nosso caso o parto e a própria maternagem/maternidade.3 No âmbito da saúde, destaque-se que essas ações, desenvolvidas individual ou coletivamente, devem ser priorizadas e também organizadas com vista a incluir companheiros e/ou familiares das gestantes.4 80 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 79-85, jan./mar., 2011 Assim, a formação de grupos de gestantes tem se configurado como um meio de preparar a mulher e seu companheiro no transcorrer do processo gravídico, de modo a desvendar mitos e dúvidas, bem como possibilitar a expressão de anseios, problemas e necessidades relativas ao momento gestacional.5 Nessa perspectiva, considerando a importância da formação de grupos de gestantes voltados para a educação em saúde, o Departamento de Recursos Humanos (DRH) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e sua mantenedora, a Associação Paranaense de Cultura (APC), criaram o Programa Ser Mãe em 2008. A iniciativa consiste na realização de um conjunto de Oficinas Educativas com temas relativos ao ciclo gravídico-puerperal e cuidados com o recémnascido. O trabalho tem, também, o propósito de acolher as gestantes trabalhadoras da instituição durante sua jornada de trabalho, possibilitando compartilhar de conhecimentos, vivências e experiências num ambiente aconchegante e harmonioso. Tratou-se de um programa pioneiro na instituição, que contou com a participação de uma equipe de saúde multidisciplinar, formada por professores e profissionais da própria PUCPR na elaboração, organização e desenvolvimento das atividades do programa. Dado seu sucesso, especialmente em relação à repercussão das oficinas entre as participantes, a instituição passou a realizar o programa regularmente. Enfatize-se, aqui, a importância das atividades educativas por meio do processo grupal. Essas práticas dão lugar a um espaço de oportunidades, no qual as mulheres conseguem compartilhar suas histórias, percepções e experiências vivenciadas. Percebe-se, também, a necessidade que elas têm de ser acolhidas por profissionais sensíveis à importância do diálogo, visando à manutenção, ao bem-estar e à promoção da saúde.6,7 A realização de oficinas educativas com gestantes configura-se como uma estratégia de educação em saúde muito profícua, uma vez que a gravidez é um período bastante mobilizador na maioria da vida das mulheres. Assim, as pesquisadoras sentiram-se motivadas a realizar este estudo, cujo objetivo foi descrever a percepção e as perspectivas de gestantes sobre o processo de parto. MATERIAL E MÉTODO Este estudo originou-se da primeira edição do Programa Ser Mãe (DRH/PUCPR/APC), que contou com a realização de quatro oficinas para gestantes trabalhadoras da instituição que o promoveu. Em sua concepção, essas oficinas foram tomadas como uma prática de intervenção psicossocial,8 estruturada sob a forma de grupo. Entenda-se este último como um ambiente micro-organizado no espaço de trabalho das gestantes voltado para a promoção da saúde individual e coletiva das participantes, além de dinâmico, pois mediado pelas interações nele originadas.9 Considerando o propósito deste estudo, optou-se pela pesquisa qualitativa, uma vez que nesse tipo de investigação o foco volta-se para os espaços microssociais, grupos e interações pessoais, privilegiando a compreensão ou a interpretação dos significados que as pessoas estudadas atribuem ao sentido de suas experiências.10 Nesse tipo de pesquisa busca-se, igualmente, apreender a realidade, considerando as situações investigadas e a possibilidade de transformação dessas situações.11 Cada uma das oficinas contou com, pelos menos, dois facilitadores, professores (dentre os quais os autores do estudo) e/ou profissionais de saúde da PUCPR, que delinearam, em conjunto, aspectos relativos a temáticas, abordagens pedagógicas e metodológicas. Buscouse instrumentalizar as participantes para as situações próprias do ciclo gravídico-puerperal. Na Oficina 1, os temas abordados foram: a fisiologia e os aspectos psicoemocionais da gravidez; na Oficina 2, cujo tema central foi o processo de parto e nascimento, foram enfatizadas as evidências científicas que sustentam o resgate do parto como um processo fisiológico e a importância da centralidade da mulher e de sua família nesse processo; na Oficina 3, os temas abrangidos foram o manejo da amamentação e os cuidados no período puerperal; já na Oficina 4, tratou-se da atenção à saúde bucal no ciclo gravídico-puerperal e dos cuidados com o recém-nascido, além de aspectos relativos aos direitos trabalhistas das gestantes. As oficinas foram realizadas nos meses de setembro a outubro de 2008, nas dependências do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde (CCBS), da PUCPR, em encontros quinzenais, previamente agendados, no período vespertino, com cerca de quatro horas de duração. As participantes eram liberadas de suas atividades laborais para participar das oficinas sem qualquer prejuízo do ponto de vista trabalhista. Integraram o estudo 10 das 20 participantes do Programa Ser Mãe que atenderam ao critério de inclusão: participação integral em todas as oficinas e de exclusão: afastamento de suas atividades profissionais durante o período de coleta dos dados. O convite para a participar no estudo foi feito na última oficina, quando as participantes foram informadas sobre os objetivos e procedimentos do estudo. Após a finalização das oficinas, as participantes identificadas como potenciais sujeitos do estudo, com base nos critérios estabelecidos, receberam convite individual feito por contato telefônico. Após sua concordância, outro convite foi enviado por correio eletrônico. Nessa última correspondência, foram constatadas informações sobre os objetivos, procedimentos de coleta de dados – entrevista individual, com base em um roteiro semiestruturado –, bem como os aspectos éticos que envolvem pesquisas com seres humanos, como prevê a Resolução nº 196/96, do Conselho Nacional de Saúde (CNS), explicitados no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), igualmente enviado por e-mail. Após essa etapa, iniciou-se o agendamento das entrevistas (data, horário e local), via correio eletrônico ou contato telefônico, de acordo com a conveniência das participantes. As entrevistadoras atuaram em dupla, no local previamente agendado ao longo dos 30 dias subsequentes à finalização das oficinas. Algumas entrevistadas preferiram o horário de término de sua jornada de trabalho, mas a maioria elegeu o próprio horário de trabalho. É importante salientar que as chefias das mulheres investigadas estavam cientes não somente a respeito da pesquisa, mas que a entrevista poderia ser realizada no horário de trabalho. Essa condição foi acordada com o DRH/PUCPR/APC, para que não houvesse nenhum tipo de dificuldade ou prejuízo para as participantes. As entrevistas, cujo tempo de duração variou de 40 a 50 minutos, foram realizadas em sala reservada, procurando-se resguardar o bom desenvolvimento da entrevista, e gravada com auxílio de equipamento digital para assegurar a fidedignidade do relato. Inicialmente, apresentou-se o objetivo com o estudo e discutiu-se o conteúdo do TCLE. Após a leitura e assinatura desse documento em duas vias (uma para a participante e outra para as pesquisadoras), iniciou-se a entrevista, que foi transcrita, na íntegra, pela dupla de entrevistadores. A transcrição foi realizada o mais rápido possível após a coleta dos dados, e os depoimentos, devidamente organizados, deram origem ao corpus do estudo. O processo de análise e de interpretação do corpus do estudo foi realizado por uma dupla, entre as autoras do estudo, identificadas como as mais experientes para desenvolver esse tipo de atividade. Na fase seguinte, elas apresentaram e discutiram os resultados do processo com as demais autoras. Utilizou-se a análise de conteúdo, na sua modalidade temática. Essa metodologia é definida por Bardin12 como uma ferramenta de estudo e análise de material qualitativo que possibilita buscar a melhor compreensão de uma comunicação ou discurso, extraindo os aspectos mais relevantes. remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 79-85, jan./mar., 2011 81 PercepçÃo e perspectivas de gestantes sobre o processo do parto a partir de oficinas educativas Neste estudo, respeitaram-se os principais aspectos dessa estratégia metodológica, que consiste na pré-análise, seguida da exploração do material e do tratamento final dos dados e sua interpretação. 12 Dessa forma, as informações foram organizadas à luz de critérios de escolha e delimitações orientados pela investigação dos temas relacionados ao objeto do estudo. A organização das informações permitiu a delimitação de duas unidades temáticas, consideradas pelas autoras como as mais relevantes para a consecução dos propósitos do estudo. as gestantes, uma vez que tiveram a oportunidade de manifestar sua experiência, expressar anseios, temores e dúvidas. Dentre os relatos colhidos, destacamos os seguintes: O estudo foi avaliado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisas (CEP) da PUCPR, conforme as diretrizes da Resolução nº 196/96 do CNS, sob o Parecer no 0002257/08. Em conformidade com essas diretrizes, foi solicitada concordância da autoridade institucional para a realização do trabalho. Reiteramos que todas as participantes assinaram o TCLE, elaborado em linguagem acessível. No documento, foram enfatizados a justificativa, os objetivos e os procedimentos do estudo. Da parte das autoras, o texto garantia a prestação de esclarecimentos sobre os procedimentos já referidos, a liberdade da participante de retirar o consentimento a qualquer momento, sem nenhum tipo de penalização, além de sigilo e privacidade. Com certeza foi muito produtivo [...]. Gestante tem muito isso de compartilhar experiências; [...] enriquece bastante. (Gestante 2). RESULTADOS A caracterização das mulheres em relação à idade mostrou que elas tinham entre 24 e 39 anos. Quanto aos anos de estudo, oito delas contavam com mais de 12 anos e duas, com até 10 anos de estudo. A renda familiar variou de dois a sete salários mínimos e todas viviam em união estável. Seis delas eram primigestas e quatro vivenciaram a experiência de outra ou mais de uma gravidez no passado. Quanto ao período gestacional, seis delas estavam no primeiro trimentre de gravidez e quatro, no segundo trimestre. Todas relataram que tinham um plano de saúde e que haviam iniciado as consultas de pré-natal. No entanto, nenhuma delas referiu ter sido convidada a particitipar ou ter participado de atividades educativas em grupo. As depoentes ressaltaram, ainda, que as informações relativas ao cuidado com a saúde eram fornecidas no decorrer da consulta pré-natal ou por folhetos informativos recebidos durante a mesma. Com base no corpus do estudo, as unidades de registro foram agrupadas por semelhança e deram origem a um conjunto de núcleos de sentido que, por sua vez, possibilitaram a delimitação de duas unidades temáticas, elaboradas com o intuito de buscar respostas para apreender os objetivos deste estudo, apresentadas a seguir. A participação em oficinas educativas possibilitou compartilhar experiências, fortalecendo a vivência da gestação A atividade educativa sob a forma de oficinas foi apontada como profícua para compartilhar experiências entre 82 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 79-85, jan./mar., 2011 É nesse ambiente que as gestantes têm a oportunidade de manifestar e expor suas experiências com as outras mães [...] o pessoal que já conviveu [vivenciou o período gestacional] ou que estava na expectativa de viver [a gestação] pela primeira vez, [...] juntar as duas coisas foi bem interessante. (Gestante 1). Além disso, compartilhar experiências, vivências e sentimentos entre as mulheres foi compreendido de forma favorável, pois possibilitou ampliar conhecimentos, proporcionando um aprendizado grupal. Houve muitas trocas no grupo e, para mim, isso facilitou o esclarecimento de algumas dúvidas que eu tinha sobre a gestação. (Gestante 4). Achei interessante participar das oficinas porque muitas mulheres já haviam tido outras gestações, e a gente que nunca vivenciou a primeira gestação pôde compartilhar com pessoas que já tiveram filhos tirando dúvidas. Elas também nos mostraram quais experiências que elas tiveram. (Gestante 7). Para mim, foi ótimo, tirei muitas dúvidas e aprendi muitas coisas; acho que só teve a complementar esse momento [período gestacional]. (Gestante 3). O envolvimento e a interação entre as gestantes, durante o processo grupal, possibilitaram que elas percebessem a semelhança entre suas vivências, suscitando uma sensação de tranquilidade no processo relativo à experiência de gestar. Nesse sentido, destacam-se os trechos que reforçam esta percepção: Gera uma tranquilidade saber que o que estava sentindo era o que elas também sentiam, as dúvidas que eu tinha elas também tinham; isso ajudou bastante. (Gestante 3). Acho que o benefício do grupo é muito bom. Vi que outras pessoas estavam vivendo a mesma coisa que eu. (Gestante 6). Para mim foi muito bom e ajudou bastante. Passar para outras pessoas, outras mães [conhecimento e experiência] e falar, sabe, aquela dúvida que você tinha quando você tava grávida. Então agora eu descobri que é assim! Achei que foi muito válido; todo mundo tem que participar mesmo. (Gestante 9). Aqui, entram em cena os aspectos relacionados à segunda unidade temática, que se refere às perspectivas de gestantes sobre seu processo de parir, baseando-se oficinas educativas. A(res)significação de experiência com base nas oficinas educativas contribuiu para a ampliação de horizontes e o descortinar de perspectivas sobre o processo de parto As experiências sobre o processo de parto foram marcadas por narrativas que evidenciaram as lembranças, que trouxeram à tona sentimentos como medos e também as adversidades que cercam esse momento, reveladas nos seguintes depoimentos: O que eu conheço do parto é o que a minha mãe falava [...]. Na época dela muitas coisas eram diferentes, que com o tempo foram se perdendo [...]. O nenê nascia e já ia para o colo da mãe [...]; ela já amamentava o filho assim que nascia [...]. Agora a gente está sendo mais conscientizada dessa necessidade. (Gestante 2) Você interna, você perde a identidade, você entra lá dentro tiram toda sua roupa, tiram tudo de você, e você vira apenas um número. No pré-parto, a cada hora vinha uma pessoa diferente fazer um toque. A pessoa não se apresentava, chegava, colocava a luva, [...] sabe, como se fosse um animal, digamos assim, que não precisa de atenção nada. Sofri muito. (Gestante 1) Dá pra ver que foi o medo que me fez sofrer; eu não sabia de nada e eu sofri bastante [parto anterior]. (Gestante 8) No entanto, as oficinas educativas ofereceram a possibilidade de as mulheres refletirem sobre as experiências anteriores, lançar novos olhares sobre o processo da parturição e a possibilidade de transmudar: No meu primeiro filho fizeram um monte de coisas erradas comigo [...] e se dessa vez fizerem eu vou falar: ‘Não é bem assim, eu não quero assim, quero que seja desse jeito’ [...]. Não sei se era porque eu era muito nova, ou por não conhecer essas duas coisas juntas. (Gestante 1). Tudo isso fizeram comigo e eu não sabia [...]; você tá lá dentro, acha eu está tudo certo. Se é assim que eles estão fazendo, tá correto; e não é bem assim. A gente aprofunda e vê que podia ser de outra forma. [...] podia ter reclamado. (Gestante 2). As discussões contribuíram para a compreensão mais profunda dos temas relativos ao processo de parto, fortalecendo a autoconfiança, consolidando de forma positiva essa experiência, ajudando, dessa maneira, a superar as experiências adversas. Eu estava com muito medo, por causa da minha primeira gravidez; eu perdi o medo, eu quero ir para o meu parto tranquila, igual eu estou agora, sem medo. (Gestante 3) Certamente a oficina me fez pensar de forma diferente sobre o parto normal, com mais segurança e admiração. (Gestante 4) Eu sempre quis normal, eu espero que seja isso eu já tinha em mente [...]. Eu acho que as oficinas que falaram de parto vieram mesmo a completar. (Gestante 6). Eu tinha muito medo de parto normal [...], mas agora deu pra perder todo esse medo, porque eles explicam muito [...]. Os encontros ajudaram a perder um pouco o medo do parto normal, porque, como eu sofri na primeira, eu tava disposta a pagar uma cesárea [...]; mas agora eu vou deixar correr tudo normal. (Gestante 8). Os relatos confirmam que o grupo é um espaço fértil de possibilidades quando o tema é preparar as gestantes para que reflitam sobre o processo de gestar e parir. A integração entre as participantes foi bastante positiva, pois possibilitou que elas compartilhassem suas experiências. No decurso das oficinas, houve reflexão sobre a possibilidade de tornar diferente a vivência da gestação e do parto, abrindo espaço para nova realidade. Reconhecidamente, é na ação recíproca do encontro, oportunizado pelas oficinas educativas que as mulheres se fortalecem, acreditam em si mesmas e se entregam confiantes ao processo de gestar e parir. DISCUSSÃO Os anseios provenientes da vivência da mulher durante a gestação podem levar a sentimentos como medo, preocupação e incerteza, além de influenciar a maneira de perceber as manifestações e as alterações que ela vivencia nesse momento. 13 Essas impressões estão relacionadas às grandes mudanças que ocorrem no período gestacional. A experiência única de “ser mãe” faz da gestante um ser frágil e vulnerável à nova realidade. Nesse momento, ela precisa iniciar um processo de adaptação e reposicionamento de seu papel. Isso exige da mulher a capacidade de dar sentido a essa vivência. A experiência advinda do processo de gestar e parir é de grande magnitude na vida das mulheres. Sua importância é tamanha que as expectativas transcendem o processo de gestação, continuam sendo referidas após o parto e são lembradas durante toda a sua vida. No entanto, esse processo encontra-se tão enfraquecido pela força dos contextos sociais, culturais e do modelo tecnocrático vigente na maioria dos serviços de saúde que as lembranças dele originadas são diametralmente opostas às suas expectativas. Nesse contexto, a atividade em grupo com gestantes vem a ser uma ferramenta importante no processo de compreensão das modificações e adaptações do período gestacional, bem como na apropriação dessa experiência como algo singular e que, por isso, demandam cuidados individualizados. No tocante às práticas educativas, as necessidades e expectativas, também, devem ser consideradas, de forma que as participantes possam ter acesso a informações e orientações que subsidiem suas escolhas e tomadas de decisão em relação à sua saúde e ao bem-estar. Na atividade grupal em saúde, o indivíduo tem a chance de compreender que outras pessoas podem vivenciar o processo saúde-doença com revelações clínicas semelhantes. Essa interação amplia o nível de conhecimento do indivíduo, uma vez que permite o remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 79-85, jan./mar., 2011 83 PercepçÃo e perspectivas de gestantes sobre o processo do parto a partir de oficinas educativas compartilhamento de experiências e a ampliação e fortalecimento de saberes.14 Assim, a ação educativa consiste em um instrumento eficaz, capaz de facilitar e permitir que a gestante, ao entrar em contato com outras pessoas do grupo, construa seu próprio conhecimento e transforme o seu modo de pensar e agir. As atividades em grupo, a relação com outras gestantes e profissionais qualificados são estratégias eficazes na ação educativa. Essas práticas permitem, também, o desenvolvimento das potencialidades, a transformação e o fortalecimento das futuras mães para as decisões ligadas ao parto. Ressalte-se a importância do trabalho dos profissionais comprometidos com a promoção da saúde da gestante. Eles propiciam, em sua prática, não somente espaços de discussões que envolvem vários componentes afetivos,15 mas cumprem, também, a tarefa de aliar o conhecimento popular ao o saber cientifico.8 Esse suporte gera um clima de sensibilização quanto os aspectos relativos às mudanças do período gestacional. Propicia, ainda, um ambiente que facilita a vivência positiva do ciclo gravídico-puerperal.15 Tudo isso, aliado a um processo elaborativo de autoconhecimento, crescimento e transformação pessoal. Além disso, o grupo educativo possibilita ampliar perspectivas não somente concernentes às mudanças e adaptações do processo gestacional, mas a uma possível transformação da realidade.8 Essa transformação pode acontecer à medida que o grupo educativo evolui e suas integrantes se reconhecem como indivíduos críticos e reflexivos. Assim, conseguem desenvolver uma autocrítica da sua própria ação e se apresentam como pessoas capazes e conhecedoras dos seus direitos, retomando sua autonomia diante do parto. A partir daí, têm maior compreensão de si mesmas, passando a viabilizar mudanças que promovam o agir ativamente no parto e o exercício do papel de protagonistas. Conquistam, dessa forma, uma participação mais segura e respeitosa, de acordo com a própria expectativa,16,17 e consequente empoderamento.18 Destaque-se, portanto, a importância da vivência da mulher nas oficinas educativas, com vista à sua retomada como sujeito do cenário do parto. Uma atitude acolhedora e atenciosa, o compartilhamento de saberes, a informação, a orientação e o reforço dos seus direitos permitem à mulher maior clareza, segurança e tranquilidade. Tais situações propiciam, por meio do diálogo e do encontro, a (re)construção de conhecimentos e a (re)valorização de suas experiências, possibilitando a transformação e a abertura de novos horizontes. A saudável consequência desse processo é o resgate da mulher como agente do próprio parto. CONSIDERAÇÕES FINAIS Com o propósito de conhecer a percepção das gestantes sobre oficinas educativas e descrever suas perspectivas sobre o processo de parto, confirma-se, ao longo deste estudo, que esse processo coloca a mulher em uma situação de fragilidade emocional. Mostrou-se, neste estudo, que compartilhar experiências nos grupos de gestantes é, para as mulheres, um pontochave do processo educativo, possibilitando não somente a apreensão de conhecimentos, mas a elaboração dos sentimentos e expectativas em relação ao processo por elas vivido, que se estende ao parto. Identificou-se, ainda, que as oficinas produziram mudanças quanto à possibilidade de transformação pessoal das participantes, no sentido do desenvolvimento de potencialidades e do fortalecimento das decisões relacionadas ao parto, podendo implicar o reposicionamento dessas mulheres em relação ao processo de gestar e parir. Assim, confirma-se a importância da valorização das subjetividades e das experiências no desenvolvimento de modalidades educativas com gestantes, apesar das limitações identificadas no estudo, como ter sido aplicado apenas em uma das edições do programa e a participação das investigadoras no desenvolvimento das oficinas. Ressalte-se, igualmente, a relevância desse tipo de atividade no ambiente de trabalho das pesquisadas, no qual tiveram flexibilidade de horário em suas atividades laborais, facilitando a participação nos grupos. Portanto, enfatize-se que a educação em saúde, um dos pilares da promoção da saúde, pode ser realizada em espaços diversos dos tradicionalmente constituídos, como os serviços de saúde. Espera-se que os dados produzidos neste estudo motivem o aperfeiçoamento desta proposta, por meio de outras pesquisas, e que contribuam para a (re) criação de espaços e práticas educativas. Enseja-se, igualmente, que sensibilize gestores e profissionais de outras instituições de ensino do campo da saúde para a importância desse tipo de atividade educativa, de forma a contemplar além das mulheres gestantes, seus companheiros, familiares ou pessoas de sua escolha. REFERÊNCIAS 1. Zampieri, MFM. Cuidado humanizado no pré-natal: um olhar para além das divergências e convergências [tese]. Florianópolis, UFSC; 2006. 437p. 2. Rios CTF, Vieira NFC. Ações educativas no pré-natal: reflexão sobre a consulta de enfermagem como um espaço para a educação em saúde. Ciênc Saúde Coletiva. 2007; 12(2): 477-86. 3. 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Enferm.;15(1): 79-85, jan./mar., 2011 85 PARALISIA CEREBRAL: ESTUDO SOBRE O ENFRENTAMENTO FAMILIAR CEREBRAL PALSY: A STUDY ON FAMILY COPING PARÁLISIS CEREBRAL: ESTUDIO SOBRE CÓMO LA FAMILIA LA ENFRENTA Mariana Beserra de Andrade1 Sheila de Souza Vieira2 Giselle Dupas3 RESUMO A paralisia cerebral (PC) caracteriza condições ocasionadas por sequela de agressão encefálica. Por ser uma condição crônica, desafia a família e a criança a conviverem com adaptações e desafios. Objetivamos, com este estudo, compreender a experiência da família na vivência com a situação de paralisia cerebral da criança, identificar as mudanças que essa condição crônica provoca na vida familiar e quais são os mecanismos de enfrentamento utilizados. Sete famílias foram entrevistadas. Adotamos como referencial teórico e metodológico o interacionismo simbólico e a narrativa, respectivamente. A análise de narrativas permitiu identificar sete categorias que demonstram a experiência da família ao conviver com uma criança que tem paralisia cerebral: Vivenciando um impacto; Enfrentando nova situação; Enfrentando dificuldades e preconceito; Vida ganhando outras prioridades; Transpondo desafios; Reconhecendo que é algo bom; e Alimentando expectativas para o futuro. Os resultados evidenciam a complexidade da vivência de famílias que têm um dos membros com PC e o desejo de que sua criança tenha uma vida o mais próximo do normal possível, sem preconceitos e com maior acessibilidade no que diz respeito à saúde, à educação e à vida social, bem como que a inserção do profissional enfermeiro pode apoiá-los nesse processo. Palavras-chave: Doença Crônica; Família; Paralisia Cerebral; Enfermagem. ABSTRACT Cerebral Palsy refers to conditions caused by damage to specific areas of the brain. It is a chronic condition that defies the family and the child to live with adaptations and challenges. This study aims to understand the family’s experience in living with a child with cerebral palsy, to identify the changes in family life and the coping mechanisms used. Seven families were interviewed. We adopted the Symbolic Interactionism as a theoretical perspective and the Narrative as a methodological reference. The narrative analysis identified seven categories that demonstrate the family’s experience in coping with a child who has cerebral palsy: experiencing an impact, facing the new situation, facing difficulties and prejudice, changes in life priorities, overcoming challenges, recognizing that is a good thing, expectations for the future. The results indicate how complex these families’ experience is and emphasize their desire that their child has a life as close to normal as possible, with no prejudice and a better access to health, education and social life. The results also highlight how the presence of the professional nurse can support them in the process. Key words: Chronic Disease; Family; Cerebral Palsy; Nursing. RESUMEN La parálisis cerebral caracteriza condiciones causadas por lesiones en áreas específicas del cerebro. Es una enfermedad crónica que desafía a la familia y al niño a convivir con adaptaciones y retos. El propósito del presente estudio es comprender la experiencia de la familia en la convivencia con el niño con parálisis cerebral, identificar las alteraciones que provoca en la vida familiar y los mecanismos de defensa utilizados. Se realizaron entrevistas a siete familias. Fue adoptado el interaccionismo simbólico como referente teórico y la narrativa como referente metodológico. El análisis de los relatos identificó siete categorías: La experiencia del impacto; Enfrentando la nueva situación; Enfrentando las dificultades y los prejuicios ; Cambiando las prioridades; Superando los desafíos; Reconociendo que es algo bueno; Nutriendo expectativas para el futuro. Los resultados muestran la complejidad de la experiencia de estas familias y subrayan el anhelo de que el hijo tenga una existencia lo más normal posible, sin prejuicios y con mejor acceso a la salud, a la educación y a la vida social. También realzan cómo el profesional de enfermería podría ayudar en este proceso. Palabras clave: Enfermedad Crónica; Familia; Parálisis Cerebral; Enfermería. 1 2 3 Enfermeira. E-mail: [email protected]. Enfermeira. Mestranda em Enfermagem. Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de São Carlos. Membro do Grupo Saúde e Família. Bolsista FAPESP. E-mail: [email protected]. Enfermeira. Doutora. Professora associada 2 do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de São Carlos. Líder e pesquisadora do Grupo Saúde e Família/CNPQ. E-mail: [email protected]. Endereço para correspondência – Av. Dr. Renato de Toledo Porto, 460, Santa Martha, São Carlos, São Paulo, CEP 13.564-190. E-mail: [email protected]. 86 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 86-96, jan./mar., 2011 INTRODUÇÃO Encefalopatia crônica não progressiva da infância, ou paralisia cerebral (PC), refere-se a condições caracterizadas por sequela de agressão encefálica, em que distúrbios dos movimentos, da postura e do tônus muscular surgem ainda na primeira infância. Não são condições progressivas, mas podem exercer influência sobre a maturação neurológica em diversos níveis, como problemas da percepção, deficiências da linguagem e comprometimento intelectual. 1,2 Crianças com PC também podem apresentar problemas específicos de aprendizagem ou emocionais, alterações psicológicas, psiquiátricas e dificuldades sociais, que podem acontecer em decorrência das reações tanto da própria criança diante da situação, dependendo de sua capacidade de compreensão, quanto das sociais e familiares diante da deficiência física da criança. 3 A incidência da PC no mundo é de 2% nos países desenvolvidos e de 2,5% naqueles em desenvolvimento.4 No Brasil, é estimada a ocorrência de 30 a 40 mil casos novos de PC por ano.5 A situação crônica é caracterizada em decorrência de sua longa duração, por provocar modificação no cotidiano, perda de capacidade física, dores e malestares e deixar sequelas que impõem limitações a funções e requerem adaptação. Além disso, acarretam repercussões emocionais no universo familiar, o que pode prejudicar a qualidade de vida de todos os membros, 6 e ocasionar tarefas, responsabilidades e preocupações adicionais para a maioria das famílias.7 Conviver com a criança com PC desafia a família a enfrentar uma condição crônica, em que adaptações e busca de recursos para suprir demandas serão ações rotineiras. Incluir o cuidado centrado na família como parte integrante da prática de enfermagem impõe ao enfermeiro estar aberto e atento às interações e ao impacto das experiências que esse grupo enfrenta. Para oferecer uma assistência que atenda às reais necessidades da criança e de sua família, bem como identificar suas necessidades para propor intervenções individuais e coletivas, o enfermeiro precisa conhecer a dinâmica familiar no convívio com a condição crônica.8 Estudos que tratam da experiência da família ao conviver com uma criança com paralisia cerebral são ainda incipientes em nossa profissão. Desse modo, nesta pesquisa, os objetivos foram compreender a experiência da família na vivência com a situação de PC da criança e, assim, identificar as mudanças que essa condição crônica provoca na vida familiar e quais os mecanismos de enfrentamento que a família utiliza e/ou utilizou. levou-nos a optar pelo interacionismo simbólico (IS) como referencial teórico. O IS procura apreender os significados atribuídos aos diversos objetos sociais com os quais o ser humano interage para compreender as ações nas distintas circunstâncias de vida.9 A narrativa foi o referencial metodológico eleito, um desenho de pesquisa que envolve narrativas individuais e a interpretação de seus significados.10 Sua principal prerrogativa é a compreensão da experiência na perspectiva do próprio sujeito investigado, cabendo ao pesquisador percebê-la e descrevê-la tal como é vivida e narrada pelas pessoas. As narrações de cada entrevista foram analisadas uma a uma, o que permitiu a revelação da interpretação que cada participante faz da sua experiência em ter uma criança com PC. Comparando cada narrativa às demais e verificando o que havia de comum entre elas foi possível perceber que havia semelhança entre as vivências de cada família, embora cada experiência fosse única. Dessa maneira, as narrativas foram agrupadas de acordo com a semelhança de momentos, sentimentos e/ou ações. Para isso, foi necessário um processo sistematizado de análise e interpretação.11 Emergiram, então, subcategorias, que posteriormente constituíram categorias que demonstram a experiência da família que tem uma criança com PC. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) sob o Parecer n° 336/2008. Participaram do estudo 16 pessoas de 7 famílias (QUADRO 1) de crianças com PC da cidade de São Carlos-SP, entrevistadas no período de outubro a novembro de 2008. Parte das famílias participava de um projeto da Universidade Federal de São Carlos, no qual uma das pesquisadoras atuava como voluntária e outras traziam suas crianças para atendimento em uma unidade de saúde, também da Universidade Federal de São Carlos. As famílias eram convidadas para participar desta pesquisa e, de acordo com o aceite e disponibilidade, eram agendados encontros em seus domicílios para realização das entrevistas, que eram realizadas com os membros das famílias que estivessem presentes. Para isso, antes de agendar os encontros, procurou-se acertar com as elas o melhor horário para que o maior número de pessoas estivesse no domicílio. A coleta de dados foi feita por meio de entrevista semiestruturada, após esclarecimento e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido pelos participantes. A questão norteadora utilizada foi: Como é para vocês ter uma criança com paralisia cerebral na família? À medida que esta era resolvida, outras questões foram formuladas para aprofundar o tema e provocar uma conversa livre. MATERIAL E MÉTODO A intenção de descobrir e entender como é para a família conviver com a situação de PC da criança remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 86-96, jan./mar., 2011 87 Paralisia cerebral: estudo sobre o enfrentamento familiar QUADRO 1 – Caracterização das famílias entrevistadas segundo os membros participantes e a idade da criança Participante Membros da família Membros participantes da entrevista Idade da criança com PC Família 1 Mãe, pai, irmão, criança PC Mãe e pai 11 anos Família 2 Mãe, pai, criança PC Mãe e pai 7 anos Família 3 Mãe, pai, irmão, avó, avô, criança PC Mãe, pai, avó e avô 12 anos Família 4 Mãe, pai, irmão, criança PC Mãe e pai 6 anos Família 5 Mãe, pai, irmã, avó, criança PC Mãe e avó 5 anos Família 6 Mãe, pai, 4 irmãos, criança PC Mãe e pai 7 anos Família 7 Mãe, pai, irmã, criança PC Mãe e pai 8 anos RESULTADOS E DISCUSSÃO Com a análise das narrativas, alcançamos a construção de seis categorias que demonstram a experiência da família ao conviver com uma criança com PC: Vivenciando um impacto; Enfrentando nova situação; Enfrentando dificuldades e preconceito; Vida ganhando outras prioridades; Transpondo desafios; Reconhecendo que é algo bom; e Alimentando expectativas para o futuro. Vivenciando um impacto O começo da trajetória é caracterizado por desconhecimentos, dúvidas e sofrimento. No início, pode ser difícil perceber algo diferente na criança, em razão da falta de experiências prévias com crianças e do desconhecimento sobre o que é esperado em cada fase do desenvolvimento infantil, dificultando a percepção de anormalidades motoras como sinal caracterizador da PC. Famílias que já tiveram outras crianças fazem comparações menos tardias, outras percebem a partir do momento que algum profissional de saúde dá indícios de que a criança apresenta algo diferente: Para mim era tudo normal. Ela [fisioterapeuta] falou assim: ‘Eu não sei se você tá reparando, mas a L já tá com 7 meses e não segura a cabeça’ E aí foi onde ela me explicou e para mim era tratada normal, era um bebê, e bebê não faz nada mesmo. Só que eu não via que com 7 meses já era para estar segurando a cabeça, já era para ela estar se sentando [...] Era tudo normal até o dia que eu descobri que ela teve paralisia cerebral. (Mãe 4) Até ele completar seis meses, para nós era uma criança normal... Nós não tínhamos parado para perceber ainda a dificuldade que ele tava tendo. Depois a gente começou a perceber a dificuldade dele, e aí a gente começou a comparar ele com os nossos outros filhos, porque como ele é o quinto filho, a gente via que a cabecinha dele não ficava firme, as mãozinhas, os bracinhos, o corpinho estavam sempre molinhos, sabe? Daí a gente começou a perceber que ele não era normal. (Mãe 6) 88 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 86-96, jan./mar., 2011 O grau de conhecimento sobre o esperado do desenvolvimento infantil normal de uma criança exerce influência sobre o que a família irá esperar conforme ela vai crescendo. Essas crenças afetam as práticas do cuidado. Portanto, o desconhecimento sobre a normalidade do desenvolvimento motor pode fazer com que pais procurem tardiamente um diagnóstico para a condição da criança. Já a comparação com outras crianças é um dos fatores que mais despertam e aumentam a preocupação sobre o desenvolvimento dela.12 A percepção de que há algo de errado com sua criança pode fazer com que a família busque o diagnóstico e enfrente a falta de informação e o despreparo dos profissionais de saúde em fornecer o suporte de que tanto necessita. São idas e vindas a médicos e realização de exames, mas muitas vezes sem resposta. Para ela, falta coragem aos médicos em comunicar e estabelecer o diagnóstico correto e precoce, assim como receio em utilizar a expressão “paralisia cerebral”. Essa demora em receber o diagnóstico e a escassez de informações geram-lhe angústia, ansiedade e inquietação. Por conseguinte, a família vê como saída buscar sozinha algo que lhe traga explicações, recorrendo a livros e a sites da internet, numa busca insaciável: Quando a gente descobriu o que ela tinha, foi difícil descobrir, porque você ia no médico, ninguém tá preparado nem para falar nem para te orientar. E aí a gente percorreu um longo caminho... Ela chegou na pediatra, a pediatra falou: ‘É melhor levar ela na neuropediatra’. A neuropediatra falou: ‘Olha, ela tem um atraso motor, e ficou nesse atraso motor. [...] Quem me explicou, na realidade, o que ela tinha foi uma professora da Federal, da terapia ocupacional [...]. Ela explicou tudo que ela tinha, o que era, quais as possibilidades dela, da evolução dela. Aí nós fomos estudar, eu fui comprar livros, fui pesquisar na internet e fomos vendo quais as possibilidades. [...] Ninguém nos falou... eu que vi na internet. Nem a TO [terapeuta ocupacional] falou para mim que ela tinha paralisia cerebral. Ninguém nem tocou nesse termo, mas ela falou ‘Mãe, ela tem hipertonia, ela tem flutuação de tônus’ aí você vai lá [na internet]: hipertonia, flutuação de tônus... aí vem tudo: paralisia cerebral... (Mãe 2) Quem me explicou, na verdade, eu me lembro, foi o ortopedista. Só que não fechou o diagnóstico. (Pai 2) Ele falou, mas não falou ‘paralisia cerebral’, também não falaram. [...] Sabe o que eles falam para a gente? Qualquer médico fala assim, até lá na Federal, acho que não importa o nome, o diagnóstico da doença, o que é importante é o tratamento. Não precisa conceituar, porque acham que a gente é leigo. De fato é [risos]... (Mãe 2) A família, ao perceber que há algo de errado com a criança, mobiliza-se para descobrir o que está acontecendo. É um momento angustiante, de incertezas e dúvidas, que gera ansiedade e expectativas.13 Neste estudo, percebe-se que, nesse momento, as famílias necessitam de apoio dos profissionais de saúde, mas muitas delas sentemse “desprezadas”, quando esperavam esclarecimentos e suporte. Embora a PC tenha grande repercussão para a criança, a família e a sociedade, as informações a respeito dessa condição crônica são insuficientes, provavelmente por ela ser menos incidente se comparada a agravos comuns na infância.14 A notícia do diagnóstico da PC, muitas vezes, é dada de maneira em que há falta de sensibilidade e estratégias adequadas por parte do profissional. Isso faz a família buscar outros meios de informação. Buscar conhecimentos é o primeiro passo do processo de adaptação da família à condição crônica da criança. Além disso, satisfazer necessidades de informação possibilita à família compreender a situação, averiguar a causa, o diagnóstico, o prognóstico da condição e sua responsabilidade quanto a essa condição.15 Geralmente, a família não se prepara para ter uma criança com alguma condição diferente e não concebe a hipótese de ela nascer ou desenvolver problemas de saúde. Como espera que a criança seja saudável, ao descobrir a PC, sente-se impactada, chateada, desesperada, sem saber o que fazer diante do despreparo para enfrentar essa condição, chegando até a pensar ser um erro não ter cogitado a possibilidade de acontecer algo diferente do que imaginou. A PC é algo que a família ainda não sabe como lidar, como conviver, o que esperar, sendo que tudo isso dificulta o enfrentamento inicial: Para mim acho que o que mais marcou foi o impacto de eu esperar uma criança normal e nascer uma criança com problemas. Porque eu falo assim que as pessoas erram ao pensar que só podem ter filhos normais. Elas nunca se preparam para ter filho diferente. [...] No começo é difícil sabe, a adaptação, as dificuldades [...] Difícil! Muito difícil no começo para ir atrás de tratamento, de recursos, de tudo. (Mãe 3) É ruim mesmo... No começo eu achava que era muito difícil, eu pensava, uma criança assim deficiente como é que faz, achava que era muito difícil! (Avó 3) Diante da notícia de que a criança tem uma condição crônica de saúde, a família demonstra angústia, aflição, choque, abalo e desespero. Ela sofre com o impacto da descoberta, que traz consigo o fim do que foi sonhado: a criança sem deficiências. É ver esse sonho ser transformado e ter de iniciar novos planos, de acordo com a nova situação, como se fosse partir do zero. Porém, não é apenas a surpresa do diagnóstico: a família não está preparada, ainda, para enfrentar a condição crônica da criança.16 Enfrentando nova situação Resignação e resiliência, depois de um tempo, tomam lugar na experiência da família, que passa a vivenciar algo que nunca passou antes. É sentir que não tem o que fazer a não ser aceitar a condição da criança e assumir por que a situação não está sob seu domínio; é por meio dessa introjeção que ela passa a superar a fase de impacto. Mesmo diante do desconhecido, já começam aqui passos importantes que lhe trarão aprendizado para enfrentamentos futuros, pois é pela aceitação que se inicia o processo de incorporação da PC na construção da identidade da criança. Tendo dado esses passos, a família inicia um processo de mudanças, que estará presente durante toda a sua vida: A nossa maior dificuldade foi aceitar no primeiro ano. Foi justamente saber como lidar com ela, porque ela não falava, só chorava, não dormia direito, a gente não sabia como lidar [...], e a primeira coisa que fizemos, a partir do momento que a gente descobriu, foi assumir que ela era deficiente. (Mãe 2) E daí, foi desde pequena, fui colocar selinho no carro, parar em garagem de deficiente e colocar em toda a família essa questão dela ser uma criança portadora de deficiência. Porque se ela aceitar, a partir do momento que você aceita uma coisa, você cria a identidade dela nessa [...] E aí, então, foi assim, aceitar que é, a partir do momento que aceita vai procurar tratamento. (Pai 2) Então, depois do susto veio... aceitar... porque não tinha o que fazer. Ajudar ele e aceitar ele do jeito que ele é. (Mãe 6) As transformações que ocorrem nas famílias de crianças com PC incluem a aceitação e o conformar-se com o que está acontecendo. Logo após o impacto de descobrir a condição crônica, a família tem a primeira tarefa: aceitar a condição da criança.13 Por ainda não saber como proceder, a família tem o impulso de fazer tudo a qualquer custo para a criança. Em razão da falta do saber como lidar com a situação, a família procura estratégias e alternativas e, ao encontrar, gasta dinheiro, tempo e dedicação em qualquer coisa que acredita ser bom para a criança. Busca dar tudo de si e procura suporte social em associações e lugares frequentados por famílias que vivenciam semelhantes situações: O primeiro ano foi ‘gás’, a gente queria fazer tudo. A gente queria fazer tudo, queria comprar tudo, achava que se a gente comprasse as coisas ela ia melhorar, e fazia tudo [...]. Aí fui procurar gente, procurar apoio, aí nós levamos ela para a AACD. Mas tudo foi eu e remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 86-96, jan./mar., 2011 89 Paralisia cerebral: estudo sobre o enfrentamento familiar ele [pai] que fomos procurar, nada de médicos que encaminharam a gente a nada. É que você entra num lugar, você conversa com uma pessoa, conversa com outra. [...] Agora quando você vai para a AACD, aí não tem como, eles já vão tratando, conversando normal com você... ‘Ah, então é paralisia cerebral atetoide?’, como se eu já soubesse. [...] Eu já sabia mesmo... (Mãe 2) Na época, a gente não sabia nada, não sabia de direitos, não sabia de ajuda de nada, então no começo a gente gastou muito dinheiro, fazia tudo independente, não procurava ajuda de governo, de nada. (Mãe 3) Depois que o diagnóstico é estabelecido, inicia-se um período de aumento da preocupação com o futuro da criança. Há o início de uma longa batalha de tentativas de diminuir as consequências da PC e consequente maximização das capacidades da criança. O “querer fazer qualquer coisa pela criança” traduz uma preocupação em resolver as consequências da condição crônica. Estando ainda no começo da trajetória de convivência com a PC, a família quer, de todas as maneiras, resolver a situação. As expectativas de sucesso, até mesmo de cura, são grandes porque, para as mães, o que depender delas tudo será feito pela criança.12 Com o passar do tempo, a família encontra uma saída para “se acalmar” e, assim, começa a se ajustar à nova situação que vivencia. O impacto inicial vai sendo superado, a família vai aprendendo como lidar com a condição crônica, habituando-se e acostumando-se, conforme vai adquirindo experiência com a criança. A gente não sabia como lidar com a situação. Assim, cuidar de uma criança especial. Mas depois, com a convivência, com muita ajuda de médicos, muita conversa, eu já fiquei mais... fui adquirindo experiência aos poucos, até chegar aqui. Fui aprendendo a lidar com ele. [...] Fui dando tempo ao tempo, daí a gente vai aprendendo com o tempo a lidar com a situação dele. [...] É difícil, no começo é difícil. Mas depois que você pega tempo ao tempo, pega experiência, sabe? (Mãe 1) É, é o novo. A gente tem que se habituar ao novo, pois aí, depois que o novo deixa de ser novo e fica velho, já é mais fácil. (Mãe 3) O período inicial da condição crônica serve para o aprendizado e o conhecimento das estratégias de como conviver com ela. Assim, o começo da caminhada com a PC traz aprendizados que farão com que a família se acalme e vá percebendo que é com o tempo que ela vai adquirindo habilidades para lidar com a situação e para ter autonomia do cuidado.17 Tendo dado esse passo, percebe-se que é possível conviver com a condição crônica que a criança apresenta.13 Enfrentando dificuldades e preconceito A família encontra, de maneira geral, dificuldades para encontrar apoio social. Para ela, a medicina salvou a vida de sua criança, mas a sociedade não está preparada 90 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 86-96, jan./mar., 2011 para acolhê-la. No que diz respeito à saúde, não é fácil obter os recursos de que a criança precisa e nem sempre a cidade os oferece, tendo a família de buscar tratamento e acompanhamento fora do município. Algumas famílias mencionaram que faltam médicos especialistas capacitados e atualizados em sua cidade e que os que têm estão despreparados para esse cuidar. Poucos serviços são oferecidos pelo serviço público, precisando pagar um plano de saúde particular ou ficar numa lista de espera grande para conseguir terapêutica mais especializada. Sofre também com a falta de infraestrutura do município, que está muito aquém do desejável, deixando a criança limitada para realizar atividades de cultura e lazer. A família sentese desrespeitada e aprisionada dentro de casa, por saber que várias atividades estão ocorrendo a todo o momento, mas que é privada de participar por causa das dificuldades de acesso e de transporte. O ideal seria eu pagar uma psicopedagoga para ela, e algumas coisas o serviço público oferece e a maioria das coisas o serviço público não oferece [...]. São poucos os lugares adaptados. Então, você acaba frequentando sempre os mesmos lugares. Poucos lugares. Tudo é para o capitalismo: são restaurantes fechadinhos, um entra e sai tudo apertadinho, tudo pequenininho, e o deficiente cadeirante precisa de espaço. Não é nada adaptado, é complicado. O mundo não está preparado, e essas crianças estão aí. Para você ver, o mundo não tá preparado e a medicina tá! Que a medicina salva. [...] As vidas estão salvas, mas a sociedade... as outras áreas não estão preparadas para aceitar. (Mãe 2) O mais é difícil é a parte de governo mesmo, da prefeitura. O investimento deles é muito pouco. Para fazer uma cirurgia, um tratamento, um acompanhamento, a gente fica numa lista de espera que demora uma eternidade. Então, tem que ter um plano de saúde. Já faz o maior tempão que a gente tá tentando a TO e não consegue, tá na fila. Então eu acho que falta profissional, falta empenho do governo. (Mãe 3) Para crianças com paralisia cerebral ou com qualquer outra deficiência ortopédica ou qualquer criança com deficiência, aqui mesmo em São Carlos, o que é difícil mesmo é na parte da saúde. Não tem e muitas vezes os especialistas daqui não estão atualizados, não estão preparados! [...] Aqui ele só faz a fisio. (Mãe 6) Para você ir atrás de um ônibus é duro, difícil [...]. Já pensou sempre estar no médico, sempre estar num tratamento, ela vai pegar mais ônibus e não ser responsável pelo financeiro, aí você vai precisar da prefeitura, do governo, é uma burocracia e, quando consegue, a gente é muito desrespeitado [...]. Tem jovens com deficiência física que deixam de fazer muita coisa na vida porque não preparam as coisas para eles. Ele não pode sair de cadeira de rodas porque a rua não tá apropriada para ele, não tem ônibus que leva [...]. A gente vê tanta gente com deficiência e a gente não vê tanta na rua porque eles não têm condição de ficar saindo, é difícil. (Pai 4) Fica entocado na sua casa sem ter o que fazer, sendo que tem muita coisa que esse mundo pode oferecer para todo mundo. Tem gente que entra em estado vegetativo, mas lá longe ela pensa, ela poderia tá indo assistir a um teatro, podia tá indo num cinema, mas você acha que do jeito que eles são tratados na sociedade, a mãe ou o pai vai querer levar? (Mãe 4) Identifica-se, nas falas das famílias entrevistadas, carência de suporte social, o que dificulta a convivência com a PC, visto que este auxilia no enfrentamento da situação de modo mais tranquilo.18,19 A família sente medo da reação das outras crianças e das outras pessoas para com a sua criança. Receia que ela seja olhada de maneira diferente; quando percebe que isso ocorre, sente-se discriminada e vítima de preconceito, o que lhe traz sofrimento. Também percebe que é excluída de festas de aniversário infantis, por causa das diferenças que a criança tem, bem como o isolamento pelas demais nas brincadeiras da escola, por isso se distancia e tem dificuldade em fazer amizades. A família chega até mesmo a pedir a outras crianças que venham brincar com a dela e expressa o desejo de que essa interação seja de maneira espontânea. A discriminação também está presente, de maneira camuflada, quando as pessoas agem como se a criança fosse incapaz de realizar atividades, mesmo as mais simples, sendo que, na verdade, ela precisa de um tempo maior. De maneira geral, a família vê a sociedade despreparada, preconceituosa, discriminadora e arrogante: Eu pensei que no parquinho ele ia aprender a conviver com outras crianças, mas até então eu tinha medo da reação das outras crianças com ele. Eu não queria que tirasse sarro, eu tinha aquela preocupação de mãe [...]. É claro que a gente vê que as outras pessoas lá fora reparam, alguns tiram sarro [...]. Depois que ele nasceu, a família se afastou um pouco, os amigos se afastaram, muitas pessoas olham com diferença. Então acho que as pessoas até pensam em convidar para algum aniversário, porque vai falar: ‘Ai, já me vem aquela criança daquele jeito’. Então, nesse sentido, muda tudo. As pessoas reparam, ainda têm preconceito [...]. No começo eu sofria um pouco, mas hoje já não ligo. [...] É claro que eu fico um pouco chateada. (Mãe 6) Eu vejo que ela quer brincar com as coleguinhas, e as coleguinhas não estão interessadas em brincar com ela [...]. Então é uma coisa que a gente gostaria que preenchesse, de ter como ela se divertir sem precisar depender de pedir para que alguém venha brincar com ela. Que fosse uma coisa espontânea, mas isso não ocorre. (Mãe 7) Então, a gente vai ver sempre um monte de crianças brincando e ela com uma ou outra talvez [...]. Alguma diferença de relação professor-aluno às vezes me preocupa. (Pai 7) Eu sinto, na convivência familiar, que as pessoas não esperam ela falar. Falam assim: ‘S, que cor é essa?’. Ela vai falar que é vermelho e a pessoa já fala... e ela demora. [...] Eu cheguei numa escolinha que falou pra mim: ‘Eu vou ter que cobrar duas [mensalidades], porque eu vou ter que pôr uma pessoa para ajudar a professora a olhar’ [...]. Não é o convívio com ela que deixa a gente triste. O que entristece, o que deixa a gente chateada, o que dá vontade de brigar mesmo, é a convivência da sociedade. (Mãe 2) O preconceito e a diferenciação para com a criança também fazem a família sentir-se vítima de preconceito e discriminação; é um sofrimento para ambos e pode influenciar no desenvolvimento e na socialização destas, que são rotuladas como diferentes. A família vivencia dificuldades que a criança enfrenta na escola: diferença no aprender e dificuldade motora em escrever. A criança sente-se diferente quando percebe que não consegue fazer as mesmas atividades que as outras fazem, o que a entristece e a angustia: O que tá sendo mais difícil é na escola, por enquanto, porque ele não consegue acompanhar o estudo direito. Tá na quarta série, ele não consegue acompanhar os estudos que nem as outras crianças. Ele é uma criança que guarda muita coisa... mas ler tá sendo bem difícil, porque tem baixa [pouca] visão. Então tem que ser letra grande, separada. Agora que ele tá aprendendo as letras. Para você ver, 8 anos de escola. Desde os 4 aninhos que ele estuda. [...] O trabalho escolar é lento [...]. A cabecinha dele já não é que nem a nossa para evoluir, para aprender, para não esquecer. Então se for uma coisa que você ensina agora e não ensina mais, ele esquece. Você tem que ficar sempre relembrando. (Mãe 1) Ela percebeu agora na escola que ela é diferente [...]. Ela tem esse andador, então ela anda pra lá e pra cá. Ela não percebe. Os outros andam, ela também vai atrás; os outros fazem as coisas, ela também vai atrás; então ela não liga, mas o que pegou foi a aprendizagem. Ela aprende bem, ela sabe muita coisa, mas aí, quando a professora deu letra de mão [...], dava a folha de lição, a gente recortava, colava direitinho tudo, ela falava assim: ‘Mas a minha professora falou que é pra fazer letra de mão’. Ela nunca vai escrever... Nem tentamos pegar na mão dela para escrever, ela não vai conseguir. Ela tem uma dificuldade muito grande nos braços, foi afetada nos braços e na mão. [...] Ela falava: ‘Não, meus amigos todos fazem, todo mundo mãe, todo mundo faz’. [...] Ela começou a chorar, ela não queria ir mais à escola. Eu falava: ‘Quem não vai à escola não aprende’; e ela: ‘Que que tem? Eu não vou escrever mesmo!’ (Mãe 2) Uma condição crônica de saúde pode acarretar prejuízos à vida da criança, especialmente no que diz respeito à escolaridade.6 As crianças com PC podem não atender às expectativas escolares, em decorrência de suas dificuldades motoras que lhes afetam a capacidade participativa nas tarefas, na recreação e nas atividades físicas, bem como na manifestação de seus anseios e interação com as demais. Esses fatores podem gerar frustração e angústia nos familiares e aumento da sobrecarga emocional.19 A maior participação escolar da criança parece estar associada a um menor nível de comprometimento motor.20 Vida ganhando outras prioridades A família passa a dedicar sua vida à criança e, além dos cuidados diários que toda criança demanda, fazse necessária a constante busca de recursos que o acometimento da criança com PC requer. A família vai remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 86-96, jan./mar., 2011 91 Paralisia cerebral: estudo sobre o enfrentamento familiar em busca de profissionais de saúde, equipamentos de suporte para o cuidado diário, terapêuticas, convênios médicos e assuntos relacionados à escola. O olhar familiar volta-se, de modo geral, para ela, que passa a ser o centro da família e é determinante de várias alterações na dinâmica familiar. Todo dia ela faz duas, três terapias por dia. Tem que acompanhar ela na lição de casa, levar para a escola, eu tenho que trabalhar, tem uma porção de coisas [...]. Cada dia é uma coisa nova que tem que comprar, tem que ir atrás de alguém para fazer, tem que procurar [...]. Tem que procurar alguma coisa para ela sentar, então a gente vai ao marceneiro, vai no serralheiro... manda fazer o estofado... Então sua vida é em torno disso. Todo dia, todo dia, todo dia, todo dia! [...]. É pesado o dia a dia [...]; a convivência é difícil, é pesada... Tudo é mais difícil! Eu trabalho, então, eu não consigo buscar ela na escola [...]. Uma fono você paga, um terapeuta você paga a psicóloga, você paga [...] É corrido, viu? Não é fácil, não! (Mãe 2) Eu me dedico muito a ele, eu vivo 24 horas por dia para ele. Eu que cuido dele. Então é banho, é fralda, tudo. [...] Criança com paralisia cerebral tem que ter muita dedicação. [...] De manhã ele levanta, já escovo os dentes dele, eu tenho que escovar os dentinhos dele, porque ele não sabe escovar sozinho. Penteio, troco, coloco ele na cadeira ou no sofá, ele fica quietinho... Na hora do almoço, dar o almoço para ele. (Mãe 1) Por causa do comprometimento motor e de outras complicações que possa apresentar, a criança com PC apresenta limitações para exercer suas atividades de vida diária. Assim, ela demanda cuidados adicionais se comparada às outras crianças, o que aumenta as exigências sobre o responsável ou cuidador principal. A dependência para o autocuidado requer sobrecarga de tarefas à família, bem como responsabilidade e preocupações adicionais.7 A família despende muito tempo e energia física e emocional no cuidado da criança, bem como o custo financeiro da condição crônica onera-lhe as finanças, gerando falta de controle da situação.13 Os cuidados de saúde relacionados com a falta de independência são os que consomem mais tempo das mães.21 As mães desenvolvem uma postura de altruísmo, uma necessidade de dedicação plena e constante, durante as 24 horas do dia.17 A família abre mão de várias coisas, e suas atividades passam a ocorrer de acordo com o que for permitido pela condição da criança, tendo de haver redirecionamento de tempo, de metas pessoais, profissionais e acadêmicas e de recursos financeiros. Ela percebe que, ao colocar a criança como o pivô do lar, acaba deixando os outros filhos e membros em segundo plano, estando menos disponível para estes e até mesmo se apegando mais afetivamente à criança afetada. Diante dessas circunstâncias, ocorre o processo de readaptação na estrutura e no funcionamento familiar. A gente abre mão de algumas coisas em função das outras. Agora o que é mais importante é ela se adaptar, 92 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 86-96, jan./mar., 2011 ela se reabilitar. Mas é corrido. [...] Eu não trabalho o dia inteiro porque não posso! [...] Eu trabalhava. Antes eu estudava. Eu defendi minha dissertação de mestrado, eu não consegui fazer as correções, perdi o mestrado! Ou minha filha ou o mestrado, e minha filha é mais importante [...]. Você abre mão de uma porção de coisas na sua vida. A gente gastava mais, saía mais, passeava mais... Mas depois veio a S, e não podemos ficar fazendo tanta coisa, porque tem que pagar o tratamento. Ela é em primeiro lugar para nós [...]. Tudo é em função dela. (Mãe 2) Minha vida é isto; uns 80% deve ser pensar nele. [...] Se tem que ir para algum lugar, já pensa nele, levar cadeira. (Mãe 3) Ele é pivô. Ele é o centro. (Avô 3) Eu me preocupo muito com ele, eu acho que eu vivo para ele. Ele é em primeiro plano. [...] Eu me apeguei mais a ele, em cuidar dele, e eu acho que eu não ligo muito para os outros. Minha vida mudou. (Avó 5) Cuidar de uma criança com PC aumenta a demanda de recursos para a família, incluindo tempo e dinheiro,22 além de despesas com serviços de saúde e transporte.23 O aspecto financeiro é algo que está entre os itens de maior impacto acarretados pela condição crônica; além dele, o desgaste físico, o estresse emocional, a atividade produtiva e a vida social impactam o indivíduo e sua família.6 A transformação instalada na vida dos pais faz com que sofram mudanças significativas no trabalho, nos anseios e nos sonhos individuais.2 Tudo isso ocorre por causa da canalização de todas as energias e esforços para cuidar da criança doente, o objetivo único da família.17 Transpondo desafios A família se mobiliza para encontrar estratégias para conviver melhor com a condição quando percebe que é possível fazer adaptações. Faz o que estiver ao alcance dela para aproximar a infância de sua criança à das demais, evitando privá-la de atividades e brincadeiras, oferecendo oportunidades, criando estratégias, tudo isso considerando suas possibilidades e limitações. Aprende, também, a racionar seu tempo entre fazer para si e para a criança: A gente tem que adaptar tudo: o banheiro, a casa, a escola; tem que conversar na escola, tem que ter alguém na escola para levar ela para o banheiro, tem que levar a cadeira de rodas para a escola, porque lá a professora não vai poder ficar com ela no colo ou não vai poder ficar carregando para onde precisa [...]. A única coisa é ter que adaptar para ela. (Mãe 4) A gente tenta fazer o K ser uma criança normal. Ele quer brincar com as crianças? Estão andando de skate na rua? Ele também vai andar de skate! As meninas colocam ele no skate e descem com ele no skate. Quando é época de pular corda, ele quer pular corda. A gente pega no colo e pula. Se for pra ajudar, a gente sempre tá ajudando. Ele é tratado como uma criança normal. (Mãe1) Quando a professora deu letra de mão, ela falava assim: ‘Pai procura aí no computador uma letra de mão!’ [risos]. Aí ele achou umas letras de mão em uns programas, mas mesmo assim ela não conseguia [...]. Eu fui atrás desse negócio de computador [teclado adaptado] Agora que chegou esse computador, a felicidade dela chegou, porque agora ela consegue, ela copia, faz tudo com letra de mão, mas no teclado. (Mãe 2) Se a gente divide o tempo, a gente tem tempo para ele e tem tempo para a gente. No começo eu não tinha tempo para mim, era só para o K. Era só cuidar do K. Uma época eu quase entrei em estado depressivo, porque não dava tempo de fazer mais nada para mim. Depois eu fui ao médico, me cuidei, tive orientações também de várias mães, o que me ajudou. Depois eu separei o tempo. Agora eu cuido dele, cuido de mim, cuido da casa, dá para cuidar de tudo. Você tem que dividir o tempo, não pode só ficar em função da criança também. Você tem que ter um tempo para você também. (Mãe 1) Para contornar as limitações impostas pela PC, a família encontra estratégias que lhe possibilitam conviver de maneira mais adaptada, e um dos principais objetivos do crescimento é a aquisição da independência. É necessário dedicar forças para lutar com a criança, para que ela tenha uma vida independente e autônoma no futuro.16 A condição crônica da criança já está incorporada à rotina e à dinâmica familiar, que encara com naturalidade a vida, facilitando-lhe o dia a dia. Nesse processo, procura educar, dar carinho, realizar brincadeiras e atividades como as demais crianças. Também estabelece responsabilidades e limites, e trata as consequências da desobediência do mesmo modo como faz com os outros filhos e crianças da família. A educação é a mesma, a conversa com ela é do mesmo jeito que você conversa com outra criança; se precisar brigar vai brigar com ela como você vai brigar com outra criança. [...] O cuidado é normal de todas as outras crianças! (Mãe 4) É tão normal que a gente brinca com ela que nem brinca com o C. O carinho é o mesmo também; os dois têm ciúmes um do outro. (Pai 4) Um dos fatores mais significativos para o processo de adaptação, tendo como enfoque o bem-estar, é a capacidade de lidar e adaptar-se em relação às características comportamentais da criança.24 Nesse processo de adaptação, a família reconhece que a criança tem força de vontade para aprender e se desenvolver, pois ela se esforça, participa, compreende e sabe de suas dificuldades. Desse modo, a estimulação precoce, constante e contínua torna-se indispensável para o processo de reabilitação da criança. Tendo o papel de principal cuidadora, a família representa aquela que ensina e motiva o desenvolvimento e a superação. Para tanto, procura impulsioná-la e estimula sua inclusão na sociedade, ensinando-lhe que todas as pessoas têm suas deficiências e que é preciso aprender a conviver com suas debilidades e limitações. Motiva-lhe a autoaceitação, luta contra a discriminação a fim de envolvê-la no mundo e conquistar o próprio espaço: Eles têm força de vontade de aprender, é só ensinar! Ter muita paciência com eles. [...] O K é uma criança bem esforçada. Você fala ‘Vai’, ele vai, não tem preguiça de ir. Levanta cedo. Se falar ‘Olha, amanhã tem fisioterapia’, ele diz ‘Então vai acordar cedo, pai?’ Aí ele acorda mesmo. Não precisa nem acordar, ele já acorda. [...]. Para fazer as fisioterapias dele é muito esforçado. (Pai 1. Daí eu ensinei, ele começou a sentar, ele já desce do sofá sozinho, porque eu já fui ensinando ele [...]. Se você pegar pra ensinar, eles aprendem, eles são muito inteligentes. (Mãe 1) Se as mães não tentarem fazer a criança crescer, incentivar a outras coisas, a criança vai passar a vida assim muito... às vezes a mãe quer proteger tanto, isolar do mundo e acaba prejudicando. [...] A gente tenta fazer tudo...Se tem passeio, ela vai. Se tem aniversário de um amigo, ela vai. Algumas obrigações para ela em casa a gente dá, a gente tenta levar uma vida mais normal possível. Eu não gosto que alguém use o termo ‘coitada’; não gosto que algumas pessoas de fora achem que tem que fazer as coisas para a K porque ela não anda. A K não é boba, a K só não anda! [...]. Então, eu acho que não tem que confundir a criança como uma coitada ou fazer as coisas para ela. Eu acho que tem que dar esforços para a criança fazer, sim, e fazer o máximo do possível para que ela se inclua na sociedade como qualquer outra criança. (Mãe 7) A família é o primeiro ambiente social da criança; é onde ela inicia suas relações afetivas, cria vínculos e internaliza valores.24 Assim, a interação no núcleo familiar pode ser facilitadora ou limitadora do desenvolvimento. Por outro lado, o alto investimento parental pode gerar a superproteção, expressa por cuidados excessivos; e proteger demais limita o desenvolvimento.25 Pela força de vontade em se desenvolver, a criança evolui diariamente, e isso é algo marcante para a família, que lembra positivamente a aquisição dos comportamentos e habilidades presentes no desenvolvimento infantil, como falar, sentar, engatinhar e andar. Destes, a conquista da fala é o que traz mais alívio e alegria, porque viabiliza e possibilita a comunicação para o bom relacionamento familiar: O que marca nossa convivência? Acho que é a evolução dele. Nossa... foi uma coisa que marcou muito [...]. Porque... você viu, ele fala, não é uma criança muito comprometida. Então a comunicação com ele fica bem clara. Ele tem uma comunicação muito boa, mas no começo era difícil, não tinha comunicação, ele não falava. Então era difícil você se comunicar com ele. Agora, não, agora é bem claro. (Mãe 1) Um grande ganho foi quando ela começou a falar [...]. A fala dela melhorou a minha convivência com ela 100%. (Mãe 2) Eu vejo o desenvolvimento dia a dia, o que ele não fazia antes e hoje está podendo. Ele se arrastava, hoje ele já remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 86-96, jan./mar., 2011 93 Paralisia cerebral: estudo sobre o enfrentamento familiar não se arrasta. Antes ele não sentava, hoje ele senta. Cada dia você vai se surpreendendo com ele, que vai desenvolvendo. (Pai 6) Perceber diariamente o desenvolvimento da criança com PC e relatar isso demonstra que a família está acompanhando as mudanças, que são significativas para ela. Cada etapa vencida ou superada, cada aprendizado, cada pequena aquisição e cada momento único contribuem para a consolidação dos laços afetivos entre a criança e sua família, além de trazer a sensação de vitória capaz de alavancar um próximo passo.17 Reconhecendo que é algo bom Não é apenas a dificuldade que caminha junto com a família; sentimentos bons e aprendizados preciosos também fazem parte. A família aprende a ser mais tolerante e paciente, a amar o próximo e a ter mais interesse pelos problemas alheios, chegando a minimizar os seus ao compará-los com os dos outros. Por ter uma criança que é dependente, precisa ser mais disponível e aprende a sair do comodismo: Conviver com uma criança especial é maravilhoso. É muito maravilhoso porque você adquire experiência com eles, aprende com eles; eu aprendi muito com esse meu filho, muita coisa ele me ensinou, viu? Amar o próximo cada vez mais, porque eles são amorosos. As crianças que têm paralisia são muito amorosas. (Mãe 1) Você aprende a ser tolerante e aprende que as coisas acontecem, mas tem que esperar. Você aprende a esperar, porque você vê cada evolução que ela tem demora muito, muito tempo. Muito, muito tempo. Então você vai exercitando algumas virtudes [risos]. (Mãe 2) É, tem que ter paciência. (Pai 2) Acho que se a gente não tivesse ele, a gente era menos humano. A gente entenderia menos os problemas, as dificuldades das pessoas. [...] Eu acho que para a gente, ele foi uma escola! (Mãe 3) É uma coisa que tira você do seu comodismo, da sua preguiça, do seu egoísmo mesmo. [...] É um grande aprendizado, porque a gente aprende a não olhar só para as dificuldades da gente. Além da gente ter que ensinar eles, eles ensinam muito para a gente também. Quer dizer, ele me ensinou mais do que eu ensinei para ele. A ter mais paciência, a ter mais tolerância, porque eu detonava também nas outras crianças especiais que tinham por aí. Então hoje eu vejo diferente. Acho que ele me ajudou mais a mim do que eu ajudei a ele, porque o que eu posso fazer por ele é exterior, por fora, mas ele me ensinou muito, me modificou muito por dentro. (Mãe 6) Entre as habilidades e os mecanismos desenvolvidos para enfrentar todas as situações impostas pela condição crônica da criança, a paciência, a coragem e a força interior são notórias. A família que vivencia essa 94 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 86-96, jan./mar., 2011 experiência adquire peculiar aprendizado pessoal que a torna mais humana.17 A condição de dependência da criança traz consigo maior participação conjunta de toda a família, tornando-a mais unida. Há mais diálogo, e a união se faz presente, pois precisam dividir tarefas para cuidar da criança e enfrentar os obstáculos: Só que eu acho que era cada um por si [se não tivessem a criança], não era igual é hoje. Um fica em função do outro, tanto a gente quanto meus irmãos, todo mundo. Se a gente não tivesse ele, eu acho que era diferente, a família era mais dispersa. (Mãe 3) Eu acho que até melhorou, pelo fato da gente conversar mais um com o outro sobre o caso dela, não só dos nossos problemas, mas dos problemas dela, então acabou unindo mais a gente. (Pai 4) A condição crônica interfere nas relações familiares, podendo mexer nos laços afetivos, causando afastamento ou união, de forma que, mesmo diante das dificuldades vivenciadas, mantém a unidade entre seus membros, podendo até mesmo torná-los mais fortes e estabelecer novas prioridades de vida. A preocupação com a situação de saúde dos integrantes familiares e o ambiente alegre também pode ser apreendida nesse contexto.26 Alimentando expectativas para o futuro As expectativas da família da criança com PC estão frequentemente relacionadas ao andar, que por sua vez está ligado à independência para realizar suas atividades de vida diária e ao autocuidado para que ela necessite o mínimo possível de ajuda. A família espera, também, que por meio da educação, da religião e do desenvolvimento de estratégias de competitividade, a criança obtenha sua autonomia. Mas, acima de tudo e em qualquer condição física, que sua criança seja feliz. Ou seja, que ela conviva com suas limitações e que estas não atrapalhem sua felicidade: Que ele ande. Não que ele ande normal, a gente sabe que ele não vai andar normal que nem a gente, mas que ele possa andar sozinho, sem apoio nenhum. É isso que a gente espera dele. Mesmo que ande com aquela moletinha no bracinho, ele vai. Vai ser um bom resultado para gente. (Pai 6) Eu só quero que ele seja feliz do jeito que ele puder. Não importa se ele vai andar, se não vai, se vai ficar continuar segurando na parede ou andando de andador. Eu só quero que ele aprenda a lidar com as dificuldades dele e seja feliz. (Mãe 6) A K só não anda! Que é uma coisa que se Deus quiser mais cedo ou mais tarde vai ser sanada. Ou no andador, ou de muletas, mas vai ser sanada. Nós temos esperança, estamos nos esforçando com a fisioterapia para isso. [...] Que ela seja independente, que ela consiga fazer tudo [...]. Ela vai se adaptar, isso nós temos certeza. Não vou dizer daqui dois anos, três anos, cinco anos, dez anos, mas ela vai ser independente, pois a gente se esforça para isso. (Mãe 7) Uma das coisas que eu mais tenho preocupação é de deixar ela ser autossuficiente e que ela tenha uma boa educação espiritual. Dando educação, estudo, escola, ajudando ela a encarar a vida, sendo mais competitiva também, porque hoje em dia tem que ter um pouco de competitividade; o mundo exige. Então, essa é preocupação com o futuro e que ela tenha as virtudes que são necessárias às pessoas para vencer na vida, tanto materialmente como também espiritual. [...] Mas o que a gente mais tem preocupação é que ela não caia nos vícios, que ela seja boa pessoa, honesta, honrada. (Pai 7) O futuro da criança é uma preocupação para a família, um futuro no qual deseja o alcance de habilidades e maior autonomia, aliada à aquisição de competências físicas, valores morais, sociais e espirituais.12 A família busca para a criança a independência e a autonomia, para que não precise de ninguém para fazer por ela. Para isso, tem como grande luta a estimulação.16 CONCLUSÃO A busca pela compreensão da experiência da família que convive com uma criança com PC revelou aspectos importantes dessa vivência, que se caracterizam por sua complexidade e pelo desejo familiar de que sua criança tenha uma vida o mais próximo do normal possível, sem preconceitos e com maior acessibilidade no que diz respeito à saúde, à educação e à vida social. Identificamos que a PC acarreta mudanças no que diz respeito a prioridades, vida social e expectativas da família. Para isso, a família cria estratégias de enfrentamento, embasadas no amor e na dedicação pela criança. Sinaliza-se para a importância de os profissionais de saúde realizarem o diagnóstico mais precocemente, evitando a intervenção tardia, o sofrimento da família e o atraso no início do processo de reabilitação. A detecção antecipada de anormalidades por ocasião do acompanhamento da criança na puericultura, sobre o esperado no crescimento e no desenvolvimento infantil, são aspectos que necessitam ser revalorizados pela profissão. É importante, também, que o enfermeiro tenha acesso a estudos sobre representações e experiência de crianças com doença, ampliando o exercício da sua prática para situações de vulnerabilidade e risco. Diante do exposto, é fundamental conhecer como é para a família ter uma criança com PC em seu núcleo, para que, assim, elementos teóricos que embasem ações de enfermagem que alcancem as expectativas e necessidades dessa população sejam obtidos. REFERÊNCIAS 1. Miller GM, Clark GD. Paralisias cerebrais: causas, consequências e condutas. Barueri: Manole; 2002. 2. 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Enferm.;15(1): 86-96, jan./mar., 2011 MANIFESTAÇÕES DE EGRESSOS DE UM CURSO DE ENFERMAGEM MANIFESTATIONS OF GRADUATES FROM A NURSING COURSE MANIFESTACIONES DE EGRESADOS DE UM CURSO DE ENFERMERÍA Dulce Maria Nunes1 Gabriela Bottan2 Laura Bianchi e Silva3 RESUMO Nesta investigação qualitativa, fenomenológica, apoiada em Martin Heidegger, trata-se da manifestação de egressos da graduação da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (EEUFRGS), relativa ao referencial do currículo cuidado humano de 1996. Os objetivos foram desvelar e compreender se o modo de desenvolvimento do ensino teórico e do teórico-prático ofereceu embasamento teórico e prático para atuação profissional. O Projeto nº 2005430, aprovado pelo Comitê de Pesquisa e Ética da UFRGS, respeitou aspectos éticos, conforme diretrizes e normas reguladoras da pesquisa envolvendo seres humanos. Participaram da pesquisa oito enfermeiros, graduados entre 2000 e 2005, cujo currículo incluiu cuidado humano como referencial. O material, coletado em entrevista semiestruturada, recebeu análise fenomenológica. Foram obtidas seis essências em relação ao egresso e ao mercado de trabalho, aos enfermeiros assistenciais, ao corpo humano, à competência gerencial e outras. Aspectos constituintes do fenômeno manifestado demonstraram a importância da contribuição do egresso para a instituição de origem, necessitando esse tema, por ser dinâmico, de novos estudos. Palavras-chave: Cuidados de Enfermagem; Ensino; Estudantes de Enfermagem. ABSTRACT This qualitative phenomenological investigation, based on Martin Heidegger, addresses the manifestation of graduates from the Federal University of Rio Grande do Sul Nursing School (EEUFRGS), in relation to the referent 1996 syllabus in human care. The aim was to understand if the development of theoretical and theoretical-practical education provided a theoretical and practical basis for the professional performance. The project no. 2005430 was approved by the UFRGS Research and Ethics Committee, complied with guidelines and regulations for research involving human beings. Eight nurses graduated between 2000 and 2005, whose syllabus included human care as a reference frame took part in the study. The material collected via a semi-structured interview was subjected to a phenomenological analysis. Six essences were obtained in relation to the graduates and the job market, the nurses, the human body, the managerial skill, etc. The aspects constituting the manifest phenomenon demonstrated the importance of former students’ contribution to their original institution, and since this topic is dynamic, further studies are needed. Key words: Nursing Care; Teaching; Students Nursing. RESUMEN Esta investigación cualitativa y fenomenológica basada en Martin Heidegger trata de la manifestación de los egresados de la Escuela Superior de Enfermería (EEnf ) de la Universidad Federal de Rio Grande do Sul (UFRGS), relativa al referente del tema cuidado humano, 1996. Su objetivo fue desvelar y comprender si el modo de desarrollo de la enseñanza teórica y teórico/práctica ofreció base teórica y práctica para el desempeño profesional. El proyecto nº 2005430, aprobado por el Comité de Investigación y Ética de la UFRGS, respetó los aspectos éticos, en conformidad con las directrices y normas reguladoras de investigación que involucra seres humanos. Método: participaron ocho enfermeros, graduados entre 2000 y 2005, cuyos programas de estudio incluyeron el cuidado humano como referente. El material, recogido en entrevistas semiestructuradas, recibió un análisis fenomenológico. Se obtuvieron seis esencias con relación al egresado y al mercado de trabajo, a los enfermeros asistenciales, al cuerpo humano, a la competencia administrativa, entre otras. Los aspectos constituyentes del fenómeno manifestado demostraron la importancia de la contribución del egresado para la institución de origen, y que este tema, por ser dinámico, precisa ser más estudiado. Palabras clave: Atención de Enfermería; Enseñanza; Estudiantes de Enfermería. 1 2 3 Enfermeira associada do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (EEUFRGS). Doutora em Enfermagem pela Universidade Federal de São Paulo (UFSP). Pós-Doutora em Semiótica da Escola de Paris pela Universidade de Limoges, França. Enfermeira formada pela EEUFRGS. Pós-Graduada em Especialização em Urgência e Emergência Adulto/Pediátrico pela EEUFRGS. Enfermeira da Saúde Mental, CAPS 1, da Prefeitura Municipal de Cachoeirinha-RS. Acadêmica de Enfermagem pela EEUFRGS. Endereço para correspondência: Rua Corte Real, 228, ap. 201, CEP 90360-080, bairro Petrópolis, Porto Alegre-RS. E-mail: [email protected]. remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 97-104, jan./mar., 2011 97 Manifestações de egressos de um curso de Enfermagem INTRODUÇÃO Neste estudo, discorre-se sobre a manifestação de egressos do Curso de Graduação em Enfermagem, na Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (EEUFRGS), em relação ao referencial teórico do currículo cuidado humano, implementado em 1996. Trata-se de uma investigação qualitativa, fenomenológica, apoiada na filosofia de Martin Heidegger. Os objetivos foram desvelar e compreender se o ensino teórico e o teórico-prático, de acordo com o modo como foram desenvolvidos durante o curso, ofereceram ao egresso embasamento teórico e prático para atuar como profissional. Essa instituição, EEUFRGS, em seu Projeto PolíticoPedagógico (PPP) 2001, representado pelo currículo, cerne deste projeto, demonstra o percurso organizado do conhecimento a ser desenvolvido para a formação do acadêmico que dela procede.1 Um currículo é constituído por aquilo que é aprendido e ensinado (contexto), pelo modo como é oferecido (métodos de ensino e aprendizado) e avaliado (xx: provas) e pelos recursos humanos e tecnológicos disponíveis. Ele resulta de escolhas que devem levar em conta “o que” e “como” deve ser ensinado, sendo, porém, o mais importante, o porquê de aquele conhecimento ter sido escolhido. Além disso, também estão presentes os interesses nele subentendidos, a importância da construção social da profissão, os tipos de relação (profissionais/de poder/afetivas/cognitivas), dos fenômenos históricos, sociais, políticos e culturais existentes dentro e fora da realidade dos estudantes.2 A formação do egresso da escola de enfermagem, em estudo, está direcionada para o domínio do cuidado humano, por isso, durante essa formação, o acadêmico é orientado, por meio de cenários de ensino teórico e prático, a desenvolver assistência à saúde das pessoas. Esse conjunto tem o propósito de lhe oferecer oportunidades de apreender e compreender sua futura profissão, levando-o a refletir sobre esses fenômenos, sobre os enfoques teóricos neles contidos, bem como sobre o significado e o valor da profissão no contexto social. Essa aprendizagem será, então, um caminho percorrido que refletirá uma síntese do meio social no qual poderá se inserir na forma esperada e autorizada na conclusão do curso. Cuidado humano significa estar presente para o ser humano. O cuidado é uma prática social, “é arte, baseada no potencial sensível dos seres humanos”, e é desenvolvido entre pessoas, como uma condição de vida humana. É a presença de um para o outro e um modo de ser e estar no mundo.3 O que se depreende desse ser humano é que a presença do outro faculta compreender a intenção do cuidador. Assim, é nesse espaço de manifestação não tangível que o acadêmico exercita o cuidado, distinguindo, classificando cada ação em sua vivência, adquirindo condições para fundamentar seu aprendizado. Durante esse exercício, ele aprende a lidar com o que já sabe, 98 integra novos conhecimentos e vai em busca de respostas para aquilo que ainda não sabe e deseja aprender. O cuidado envolve presença e um “sentir-se como o outro”. Presença evoca o processo de constituição ontológica do homem, ser humano e humanidade. É na presença que o homem constrói seu modo de ser, sua existência, sua história.4,5 Diante da preocupação em verificar se o modo como foram desenvolvidos o ensino teórico e o teórico-prático e se a integração de ambos está sendo aplicada na prática profissional do egresso do curso de enfermagem, surgiu uma interrogação: o profissional, egresso dessa escola de enfermagem, aplica os aspectos contidos no referencial teórico do cuidado humano no cuidado que desenvolve após seu ingresso como profissional? Este estudo está embasado na filosofia da existência de Martim Heidegger. Nele, foram enfocados aspectos nos quais o filósofo Heidegger afirma que a “cura” (die sorge) exprime a estrutura ontológica que unifica todos os sentidos constitutivos do “ser-no-mundo”. A “cura” se direciona no sentido de reconduzir o homem de volta à sua essência, tornando esse homem (Homo) humano (Humanus). Humanis significa curar e cuidar para que o homem seja humano e não inumano, o que seria estranho à sua essência.6 A intencionalidade, como essência da consciência para o cuidar, deve ser estimulada na formação dos enfermeiros, expressando o sentido de humanidade. Heidegger pensa o homem na sua humanitas, ou seja, naquilo que ele tem e que é diverso do animal. O homem “desdobra seu ser na sua essência, enquanto recebe o apelo do ser”. É na intimidade desse apelo que ele encontra aquilo no qual mora sua essência, a saber, a linguagem. O homem está prostrado na clareira do ser, e isso é precisamente sua essência, a que Heidegger chama de “ec-sistência”. “A ec-sistência somente deixa-se dizer a partir da essência do homem, isto é, somente a partir do modo humano de ser”. Somente o homem, por ser o único ente capaz de se debruçar sobre si mesmo e perguntar sobre o seu próprio ser, possui esse modo tão particular de ser: a ec-sistência. Mas ela não é entendida como a “existentia”, ou seja, a “existentia” como “atualitas”, como realidade efetiva, mas “estar exposto na verdade do ser”.7 A ontologia fundamental que Heidegger construiu é a analítica do “ser-aí”, ou seja, desse ente que nós mesmos somos.8 “Ser-aí” é aquilo que é característico do homem. Só o homem, na concepção heideggeriana, existe como um “ser-aí”, capaz de revelar-se, sem se esgotar ou identificarse com ele. O homem teria a possibilidade de trazê-lo à luz e apresentar-se enquanto tal, ou seja, como um ser que se mostra no tempo. Por ser dotado de linguagem, o homem tem a condição necessária para manifestar o próprio ser no tempo não como objeto tradicional das ciências e filosofia ocidental, mas na forma de uma remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 97-104, jan./mar., 2011 subjetividade entrelaçada, na qual sujeito e objeto se mesclam em um pensamento originário”9 Do mesmo modo como o mundo do ensino (a escola) forma o acadêmico e o futuro egresso, esse acadêmico, como sujeito desse processo, igualmente se entrelaça com o ensino, objeto da formação. O mundo é um conceito relacionado com nossa experiencia imediata. O mundo é a configuração última para nós e para todas as coisas que experenciamos. O mundo é o concreto e o todo atual de nossa experiência.10 METODOLOGIA A fenomenologia é um método pertinente ao estudo desta temática, uma vez que possibilita ao pesquisador desvelar e compreender, na expressão dos sujeitos, o significado por eles descrito, caracterizando o “como” e não “o quê”. O Projeto nº 2005430, que foi submetido à aprovação do Comitê de Pesquisa e Ética da UFRGS, teve como finalidade apresentar a proposta da pesquisa realizada na EEUFRGS, entre 2006 e 2007. Os aspectos éticos foram respeitados de acordo com as diretrizes e normas que regulamentam a pesquisa envolvendo seres humanos.11 Oito enfermeiros egressos da EEUFRGS, formados entre 2000 e 2005, desde a primeira turma de acadêmicos cujo currículo teve o cuidado humano como referencial teórico, participaram da pesquisa. A escolha desses sujeitos foi intencional, e a inclusão deles levou em conta a questão do acesso a esses profissionais, além de estarem no período de cinco anos após a conclusão do curso. O critério relativo ao total de sujeitos ficou submetido à saturação dos materiais e à representatividade de atuação em assistência hospitalar pública e privada e unidades de saúde pública.12 A coleta dos materiais deu-se por meio de uma entrevista semiestruturada, aplicada individualmente, gravada em fita cassete para ser armazenada por cinco anos e constituída de duas partes: a primeira, relativa à caracterização dos sujeitos; a segunda, relativa às questões pertinentes aos objetivos do estudo. Antes da entrevista, pesquisadores explicaram aos sujeitos como se desenvolveriam os procedimentos éticos e a coleta das informações. Os materiais coletados foram transcritos, obedecendo-se fielmente à fala dos sujeitos. Após esse procedimento, foram submetidos à análise fenomenológica, composta por três passos. “A descrição é o primeiro passo da trajetória fenomenológica”; o segundo é a redução fenomenológica, que consiste num estado de alerta, de suspensão de juízo de valor diante do fenômeno interrogado. O discurso da pessoa que vivencia o fenômeno interrogado é a peça-chave para que o pesquisador possa realizar a análise compreensiva. Esse é o momento a que Husserl chamou de époche, palavra que significa uma maneira comum de olhar e de abandonar os preceitos e crenças em relação ao fenômeno. No terceiro passo da análise, efetua-se a compreensão fenomenológica que sempre envolve uma interpretação. É o momento em que o pesquisador tenta especificar o “significado”, que é essência como forma de investigação da experiência vivida. Ao compreender a essência desse conjunto de significados, compreendese, também, a direção da consciência de mundo do sujeito que está voltada para o fenômeno. “Desocultado o fenômeno, o pesquisador está apto para repensar sua inquietação e refletir sobre ela, dando mobilidade a esse conjunto de significações.”13,14 Da análise fenomenológica originaram-se as essências que revelam o fenômeno, denominadas: O egresso e o mercado de trabalho; Referências teóricas do cuidado; Egressos e enfermeiros assistenciais; Valores profissionais adquiridos na graduação; O egresso e o corpo humano; O egresso e a competência gerencial. O egresso e o mercado de trabalho O mercado de trabalho é o contexto social ao qual os egressos aderem, buscando integração para atuar profissionalmente. A realização dos procedimentos de cuidado, a administração de cuidados, bem como o gerenciamento da assistência de enfermagem, na qual desenvolvem suas atividades profissionais, variam conforme o meio social, que sofre influências históricas, culturais, econômicas, sociais e psicossociais, e desafiam o profissional recém-graduado que não teme a ousadia da proposição de mudanças. Isso acontece porque esse profissional traz uma bagagem de vitalidade acadêmica por vezes idealizada que o torna diferente, no cotidiano, dos outros atores da assistência, por sua vez mais experientes e portadores do conhecimento das evidências de cuidado. Essas evidências possuem várias naturezas às quais os novos conhecimentos, trazidos pelos egressos, precisam se adaptar para responder às demandas das diversas realidades dos meios não acadêmicos. Analisando a declaração dos egressos e a manifestação de autores, percebe-se que os contextos de ensino/ aprendizagem, nos quais os egressos atuaram como acadêmicos, nem sempre retrataram as realidades sociais, os valores e as dinâmicas das situações atualmente vivenciadas por eles. É possível, por exemplo, que a adoção de práticas humanizadas, tais como o cuidado individualizado, o resgate do conjunto familiar e as orientações sobre o autocuidado sejam ações que não aconteçam no cotidiano de todos os hospitais, bem como de todas as instituições de saúde, o que acaba por desestimular a crença na realidade, nos conceitos e nas práticas oriundas da academia: A gente [egresso] tem uma realidade deturpada, muitas vezes, dentro da faculdade; eu entendo que eles [professores] têm que dar uma base teórica de cuidado, formar pessoas que têm esse conhecimento, mas acho que eles têm que dar a base teórica da realidade do que é o mundo lá fora, e não só a realidade de hospitaisescola. (Q2 S7) remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 97-104, jan./mar., 2011 99 Manifestações de egressos de um curso de Enfermagem A realidade no mercado de trabalho é outra: é da pessoa [egresso] lutar pelo material, o que também é assistência. E os professores aqui dentro [da escola], se tu disseres isso, eles vão dizer: ‘Não, não é assistência!’ É, é assistência, sim! É assistência, na medida em que eu estou trabalhando aquilo para poder retornar ao meu paciente. (Q2 S7) Cuidado humanizado foi referido pelos egressos tanto como a base humanista do currículo quanto em relação a conteúdos, oriundos de teorias de enfermagem, que os auxiliaram a compreender em que consiste o cuidado e a reconhecer, por meio deles, os valores desse cuidado: A questão da humanização é a base da faculdade. A humanização do cuidado, o respeito ao ser humano, a questão do indivíduo com as mesmas necessidades que nós temos... (Q3 S3 US3) É importante, para realizar ajustes nos projetos curriculares, saber como os egressos consideram a formação recebida, como os novos profissionais se inserem nos locais em que trabalham e quais as áreas mais solicitadas para que eles atuem. Assim, uma reflexão crítica sobre a formação dos acadêmicos e sua relação com as necessidades do mercado de trabalho faz-se necessária para que essa passagem/transição seja compreendida.15 Acho que o cuidado prestado no meu dia a dia tem fundamento nesta base teórica que a gente teve dentro da universidade. (Q1 S5 US1) A faculdade embasa muito bem esse cuidado humano; é enfatizado durante toda tua formação [...]. É muito forte isso no meu trabalho. (Q1 S6 US1) Os relatos a seguir expressam a preocupação dos egressos com a forma de ensino idealizada, distanciada da realidade: Acho que cuido vendo o paciente como um ‘todo’, não só a parte física, mas também a parte espiritual, parte dos sentimentos e das necessidades desse paciente. (Q1 S4 US1) Durante a graduação a gente aprende uma situação ideal demais, principalmente na aula teórica, que não é o que acontece no dia a dia. (Q4 S5 US3) Nessa base teórica percebe-se a diferença como se pensa, analisam-se as coisas de forma diferente em relação ao paciente. (Q1 S6 US2) Na faculdade, tu aprendes muito a pegar na ‘mãozinha’ do paciente, dizer: ‘Vamos conversar tudo que aconteceu!’. Isso é muito bonito, poético, mas não é a realidade. (Q2 S7) Tem que lembrar que o paciente [usuário] está numa situação de fragilidade, de doença, e que o cuidado tem que ser individualizado. (Q1 S1 US3) O aluno, muitas vezes, aprende de uma maneira e tem dificuldade de adaptar-se; e eu acho que nessa formação da graduação ele tem que saber que muita coisa ele terá que se adaptar no lado lá fora, que vai chegar à unidade e vai ter situações que ele nunca imaginou com os funcionários, e eu não vi isso durante a graduação. (Q4 S5 US3) As asserções acima destacadas tornaram possível compreender que os egressos fazem uso de critérios teóricos para dar suporte ao cuidado que prestam a seus pacientes/usuários. Evidenciaram que o modo como cuidam dos pacientes é precedido de uma reflexão em que se avalia como realizar o procedimento do cuidado. Causa preocupação, dentre outros aspectos, o fato de os estudantes somente verem a relevância da teoria retrospectivamente, sendo isso, no entanto, percebido de forma idealizada e “descontextualizada”. Conclui-se daí que, se o aprendizado tivesse sido efetivo, haveria a percepção do valor do que lhes foi ensinado, o que os tornaria capazes de aplicá-lo “aqui-e-agora.”16 Ouvir o egresso e conhecer a opinião dele depois que se desvinculou da universidade, que esqueceu um pouco os laços afetivos e passou a ter um olhar mais maduro, com certa sabedoria, tendo, então, condições de refletir sobre sua experiência acadêmica, tornou-se fundamental para a instituição formadora.17 Referências teóricas do cuidado Nesta essência, trata-se da base teórica que dá suporte aos cuidados prestados pelos egressos. O referencial teórico, ministrado durante o curso, não foi nominalmente enunciado, porém eles referiram, em suas falas, expressões relativas aos pressupostos teóricos que orientam a grade curricular dessa escola de enfermagem. 100 Os egressos demonstraram ter como referência o entendimento de que o paciente necessita de cuidados para sentir bem-estar físico e espiritual, sendo que o profissional precisa estar apto a perceber o sentido dessas expressões e das necessidades humanas. O acadêmico aprende que o cuidado é a presença do profissional junto da pessoa, decorrendo daí outras ações. Outro aspecto, manifestado pelos egressos, refere-se à formação com base na integralidade do cuidado que desperta no aluno o respeito ao ser humano na saúde e na doença, o que traz como consequência a individualização do cuidado a ser prestado, a qual leva em conta as características do indivíduo, o meio, a cultura e as crenças.18 A enfermagem realiza o cuidado autônomo e, também, colaborativo a pessoas de todas as idades, às famílias, aos grupos e às comunidades, saudáveis ou doentes, em todos os locais. Ela inclui a promoção da saúde, a prevenção de doenças e o cuidado de doentes, de incapacitados e de pessoas que estão para morrer. Defesa, promoção de um ambiente seguro, pesquisa, participação na modelagem de políticas de saúde e na administração de pacientes e de sistemas de saúde, bem como educação, constituem importantes competências da enfermagem.19 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 97-104, jan./mar., 2011 Os referenciais de cuidado humano que permeiam o processo de ensino oferecem aos egressos condições de analisar, fazer e criticar, propiciando-lhes estímulo para revisões teóricas e práticas.20 tais como apatia, indiferenças, descompromisso, irresponsabilidade, relação desumanizada com o cliente, falta de motivação, insatisfação e falta de criatividade, fatores que contribuem para um desenvolvimento profissional não desejado.23 Egressos e enfermeiros assistenciais A apreciação a seguir expressa outro aspecto relevante da vivência do egresso no campo do ensino prático, como consequência da atuação tanto dos docentes da escola quanto dos demais profissionais que compõem a equipe assistencial. Os enfermeiros assistenciais que atuam no campo de ensino têm a responsabilidade de cuidar dos pacientes e, ao mesmo tempo, exemplificar o papel do profissional ao aluno. Eu acho que os enfermeiros da assistência podem trazer uma contribuição para a faculdade e acabam, às vezes, não tendo a oportunidade de participar da aula, porque a escola é muito fechada. (Q5 S2 US1 e US3) O processo de participação de enfermeiros assistenciais no ensino de graduação tem sido objeto de estudos em instituições nas quais o ensino, a assistência e a pesquisa são desenvolvidos mediante a integração docenteassistencial21 (Lei no 5.604, de 2/9/1970). Os egressos revelaram que o enfermeiro assistencial auxilia no processo de formação, pois demonstra domínio da prática, promove a integração dos alunos com a equipe, associa o aprendizado teórico à atividade prática, ressalta a vivência diária, isto é, a rotina do campo e o vínculo com o paciente como importantes para o alcance de melhores resultados na assistência. Além disso, com a participação do enfermeiro assistencial, eles podem integrar mais a realidade dos cuidados, pois estes apresentam condições de compartilhar conhecimentos, comunicar-se, atualizarse e demonstrar habilidades; têm, também, visão real do ensino e desenvolvem modelos diversificados de relacionamentos interpessoais.22 Outros alunos egressos, quando ingressaram nas instituições como profissionais, perceberam enfermeiros assistenciais desmotivados pela rotina porque desenvolviam a atividade de cuidados da mesma forma repetitiva e mecanizada há muitos anos. Eu acho que ainda falta motivação suficiente dos enfermeiros para buscar a base teórica e também estudar, porque muita coisa se mantém, se perpetua pela repetição, e não, necessariamente, por estar entendendo o que está sendo feito. (Q2S5US1) E quando tu consegues que o profissional não seja uma máquina, um robô que faz aquela tarefa do dia a dia por fazer, sem pensar, a gente não está conseguindo um bom profissional de enfermagem, pois um bom profissional não age sem ideias próprias, automaticamente, sem refletir. (Q5 S2 US6) Há profissionais que evidenciam comportamentos que permitem identificar a dificuldades no trabalho, Valores profissionais adquiridos na graduação Nesta essência, examinam-se aspectos sobre os valores profissionais dos egressos, adquiridos durante o curso de enfermagem, e sobre particularidades advindas do modo como eles desenvolvem o cuidado aos pacientes. Tais valores estão inseridos no projeto político-pedagógico (PPP) e podem ser assimilados mais especificamente nas disciplinas da área profissionalizante do curso de graduação. Valor é a crença sobre a importância de alguma coisa, sobre o que é relevante, como uma diretriz para orientar o comportamento de alguém. O indivíduo não nasce com valores; ao contrário, eles são formados durante a vida, por meio de informações do meio, da família e da cultura.24 Os egressos relataram muitos momentos, dentre os vivenciados como profissionais, nos quais lhes ficou clara a aquisição de novos valores, como a oportunidades de cuidado que exigiam reflexão e/ou concessões. Essas novas atitudes foram originadas da aquisição de maior discernimento e competência, proporcionados pelo bom senso no modo de apreciar as circunstâncias em que se encontravam os pacientes. Essa postura de prudência e sensatez refere-se à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do que é melhor ou pior, ou seja, modificada pela aprendizagem e pela experiência profissional que se aprimora à medida que se exercita, conforme se observa nos relatos: É importante que tu penses por que tu precisas cuidar o ‘máximo’ daquela pessoa em determinados momentos, mas isso ‘se perde’, isso não pode ser apenas levado em consideração. É primordial, por exemplo, ter o discernimento de que a relação família e cliente são prioridades em determinados momentos de cuidado. (Q1S7US18) Hoje eu vejo que ensinar uma técnica se ensina em uma semana, um mês no máximo a gente está treinada; agora, os princípios de respeito, de solidariedade, são mais difíceis: aprender a pensar, a criticar, a refletir é mais difícil. (Q3S2US2) Uma perspectiva pouco considerada pelos enfermeiros diz respeito à interação com a pessoa doente, a qual desperta no egresso a consciência quanto à abrangência do cuidado como um conjunto de ações plenas, mas não acabadas, porque, ao atender uma necessidade do paciente, outras vão surgindo. O egresso quer e sabe fazer, mas essa ponderação “se perde” em meio a outros fazeres e, então, emerge somente o “básico”, aquilo que é indispensável, o que reduz as ações a fazeres coletivos, violando princípios do cuidado individualizado. No que se refere a outro elemento do cuidado, enfermeiras cuidadoras relatam a importância do respeito, associado a remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 97-104, jan./mar., 2011 101 Manifestações de egressos de um curso de Enfermagem O enfermeiro é sempre um gerente. Ele sempre gerencia pessoas e comunidades, então o gerenciamento é muito importante. Se tu não fazes um gerenciamento adequado, tu não és um bom gerente, tu não manténs os pacientes, tu perdes espaço para os outros profissionais. Tu acabas sendo uma pessoa manipulada, de fácil manipulação. (Q4S7US6) uma ação cognitiva de compreender e conhecer a pessoa, ou seja, a enfermeira indica que o respeito precisa ancorarse num esquema de sentidos ou de representações préexistentes em seu sistema de referências.25 O egresso e o corpo humano A minha formação foi aqui na UFRGS, então a gente tinha uma base, pelo menos. Ter uma base de administração, planejamento e ação, acho que isso norteia a gente a saber onde se está pisando... Eu trabalho em saúde pública. (Q3S8US9) Durante o curso de graduação, o acadêmico é orientado quanto aos valores humanos. Um dos exemplos mais comuns disso trata da valorização da pessoa em si e de seu corpo, enfatizando o cuidado que lhe deve ser dispensado. Esse aspecto é considerado como valor, sendo um dos alicerces da construção do cuidado humano. Essa concepção é oriunda do modo como o cuidador vê esse corpo e o que o cuidado dele significa, especialmente no que diz respeito ao merecimento de como ele vive e viveu. A descrição do textocorpo mostra ao cuidador que essa é a contribuição indispensável para o aprendizado de quem vai se tornar cuidador: Ter cuidado com o corpo do paciente, com a forma como tu tratas aquele corpo, que não é só um corpo, é um corpo com vivências, é um corpo com crenças, com valores que tu não podes deturpar naquele momento, mesmo sem querer. E isso é o mais triste porque, às vezes, tu fazes sem querer; quando tu fazes comentários do cotidiano, naquele momento desagradável, e isso é do cuidado também. (Q1 S7) O corpo é, inicialmente, a sede da experiência sensível e da relação com o mundo como fenômeno, uma vez que essa experiência pode se prolongar em vivências estéticas, implícitas na fala.26 A noção de corpo sensível, que se compreende, é a de um corpo de experiência, considerado como a caixa de ressonância na qual toda vivência, seja ela perceptiva, afetiva, cognitiva ou imaginária, se efetiva. Esse corpo é capaz de, ao mesmo tempo, receber a experiência e remetê-la ao sujeito que a vive, devolvendo-a palpável e acessível. Além disso, também tem a capacidade de, por vias que vão além das ferramentas cotidianas de atenção para si, desvelar facetas de experiências inatingíveis pela via puramente reflexiva, tais como sutilezas, nuances, estados, significações que não são alcançáveis senão pela relação perceptiva íntima com essa subjetividade corporal e que podem nutrir as representações de significações e de valores renovados.27 O egresso e a competência gerencial Os egressos aludem a fatos que abrangem a prática dos cuidados pela enfermeira. Essa manifestação sugere a compreensão de que se trata de um conjunto de eventos que, vinculados, formam a estrutura da ação cuidado. Essa estrutura é aqui representada pela atitude interativa e pela responsabilidade de coordenar as atividades que preservam aspectos da existência e da experiência da enfermeira, os quais demonstram sua autonomia e presença na execução da assistência: 102 As coisas mudaram muito. A gente vive, fala do cuidado humano de uma forma conceitual, assim: ‘Ah! o cuidado humano tem que ser...’ e eu vejo o cuidado humano em gerenciamento de equipe, gerenciamento estratégico e gerenciamento de uma empresa. Porque eu trabalho num local e não adianta eu querer ser a melhor enfermeira, se eu não vejo a parte estratégica, e isso é cuidado humano, eu estou pensando no meu cliente, que eu preciso manter naquela instituição. (Q2S7US41) A empresa não se mantém do ar, ela se mantém de dinheiro, ela tem custos! E isso é o cuidado humano quando tu pensas que aquilo ali, se eu gastar esse material eu não vou ter mais e eu não vou poder prestar o cuidado adequado para meu cliente, entendeu? (Q2S7US42) Essas falas permitiram compreender a relação entre cuidado humano, gerenciamento de equipe e gerenciamento estratégico da assistência, sustentando que ambos os gerenciamentos são necessários porque visam ao usuário como sujeito de cuidado e à empresa como destinadora, promotora do desenvolvimento dessa prática social de forma humana e científica. Assim, a enfermeira é um dos sujeitos que realiza cuidados e preserva o patrimônio da instituição em que trabalha, tendo a qualidade na assistência ao usuário como estratégia, sua profissão como atividade social e a redução de custos como propiciadora de satisfação a todos. Observa-se uma nova tendência na oferta de serviço, no campo da saúde, em relação ao papel do enfermeiro gerente o qual está se tornando decisivo para o cuidado efetivo e com qualidade ao cliente. Para enfrentar essas crescentes responsabilidades e exigências, ele, como líder, deve conhecer novas dimensões para obter resultados de qualidade na assistência ao cliente, traçando novas metas para alcançar objetivos estratégicos institucionais.28 As competências gerenciais do enfermeiro, na perspectiva de um curso de graduação em enfermagem e do mercado de trabalho, retratam formas diferentes de apreciar tanto as determinantes da dimensão estrutural, entendidas como os valores e interesses sociais que regem as políticas de saúde e de educação, enquanto as da dimensão particular que se revelam no âmbito da dinâmica das instituições concretas, como universidades e serviço de saúde. Exemplificando, os autores comentam que, enquanto a instituição de ensino superior, que serviu para este estudo por meio de seu PPP, pretendia formar enfermeiros prioritariamente para dimensionar a política comunicativa remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 97-104, jan./mar., 2011 e o desenvolvimento da cidadania, o mercado de trabalho de enfermagem, representado pelos discursos dos gerentes de serviços de enfermagem, almejava absorver profissionais com ênfase na competência técnica.29 Percebe-se que o desenvolvimento teórico-prático da disciplina de Administração aplicada à enfermagem se dá no oitavo semestre do curso, podendo isso influenciar na assimilação desse conhecimento. A escola não prevê que os processos de cuidar e administrar sejam distintos, porém isso pode acontecer. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os participantes deste estudo convidam-nos a refletir sobre aspectos que se relacionam ao ensino teóricoprático no curso de graduação em enfermagem, os quais podem se refletir na ação do futuro profissional enfermeiro. O egresso refere que compreendeu vários aspectos do conhecimento adquirido na academia somente após ter atuado como profissional. Com base nessa experiência, sentiu-se habilitado a tecer considerações sobre o aprendizado acadêmico, orientado pelo currículo da instituição em que se formou. Revela, pois, que houve alguns pontos desse currículo que não foram suficientemente desenvolvidos, enquanto outros não foram oferecidos e poderiam ter sido, tendo em vista a qualidade dos cenários de ensino teórico-prático que essa instituição possui, assim como a qualificação de seu corpo docente. Salienta, entretanto, que o que foi apresentado em relação ao referencial cuidado humano constitui ponto relevante de sua formação. Como principais legados dessa formação, o egresso considera a capacitação para reconhecer e identificar as necessidades de assistência dos usuários, conforme suas prioridades, assumindo a responsabilidade de proteger e respeitar os valores inscritos no corpo do ser humano. A academia imprimiu nele convicções no modo de agir em prol do ser humano e o orientou sobre os fundamentos científicos. Esclareceu-lhe, inclusive, que a habilidade prática é adquirida com o fazer continuado, ao passo que os valores e os outros conhecimentos são construídos ao longo do tempo, com o exercício da profissão. O egresso relaciona, também, o gerenciamento e o cuidado como aprendizado concreto e aplicável, pois esse conhecimento lhe assegura compreender as estratégias e condições de como bem assistir o ser humano, de como preservar o espaço profissional e contribuir para a conservação do patrimônio da instituição de trabalho. Entretanto, após conhecer outros contextos assistenciais diferentes daqueles proporcionados pela escola como campo de ensino teórico-prático, ele percebe um distanciamento entre a realidade do que é ensinado e a realidade social, na qual devem ser aplicados os conhecimentos adquiridos. Apoia essa afirmação na percepção de que determinados aspectos da base teórica, difundida na academia, constituem algo mais idealizado do que aplicável, pois lá ele vivenciou atitudes de como tratar o paciente que não são conciliáveis com essa realidade social. Assim, ele sente necessidade de ressignificar alguns conceitos e de criar novas formas de fazer, referindose às dificuldades de adaptação do que foi ensinado/ aprendido em relação ao que é realizável. Defronta-se, também, com o outro, não o paciente, mas que é parte de seu fazer-agir: a equipe. Reconhece, na atuação dos profissionais assistenciais do campo de ensino teórico-prático, que o conhecimento e a experiência desses profissionais são diferentes daqueles ensinados pelo professor e, por isso, eles poderiam – ou talvez deveriam – participar mais ativamente do ensino acadêmico. Identifica, na atuação dos profissionais da assistência, que a passagem do tempo no exercício da profissão, quando este é realizado sem estímulos para atualizações e novas condições de desenvolvimento das habilidades práticas, bem como sem encorajamento para novas buscas, determina a redução na qualidade do cuidado, a automação no desempenho dos profissionais, assim como o empobrecimento dos argumentos e da reflexão do ser profissional. Os aspectos que constituíram o fenômeno manifestado neste estudo demonstraram que o egresso se encontra em condições de contribuir com sua instituição, EEUFRGS. Estando em contato com a diversidade da assistência e com novas tecnologias, ele pode atuar como elo entre as exigências da sociedade e o ensino desenvolvido pela instituição por meio de estudos que venham a preencher lacunas. REFERÊNCIAS 1. Masetto MT. Competência pedagógica do professor universitário. São Paulo: Summus; 2003. 2. Silva TT. 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Enferm.;15(1): 97-104, jan./mar., 2011 AS PRÁTICAS INTEGRATIVAS E COMPLEMENTARES NA ATENÇÃO À SAÚDE DA MULHER: UMA ESTRATÉGIA DE HUMANIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA NO HOSPITAL SOFIA FELDMAN COMPLEMENTARY AND INTEGRATIVE PRACTICES IN WOMEN’S HEALTH CARE: A STRATEGY FOR THE HUMANIZATION OF MEDICAL CARE AT SOFIA FELDMAN HOSPITAL PRACTICAS COMPLEMENTARIAS E INTEGRATIVAS EN LA ATENCIÓN A LA SALUD DE LA MUJER: UNA ESTRATEGIA PARA HUMANIZAR LA ATENCIÓN DEL HOSPITAL SOFIA FELDMAN Maritza Rodrigues Borges1 Lélia Maria Madeira2 Vivian Mara Gonçalves de Oliveira Azevedo3 RESUMO Neste estudo, de caráter retrospectivo, buscou-se caracterizar a população usuária do Núcleo de Terapias Integrativas e Complementares do Hospital Sofia Feldman, em Belo Horizonte-MG, identificar as práticas integrativas e complementares mais utilizadas pelo Núcleo na saúde da mulher e conhecer as impressões das usuárias a respeito de sua aplicação. Utilizouse para o preenchimento do instrumento de coleta de dados o caderno-ata do Núcleo e o cadastro de internação hospitalar das mulheres, de julho a novembro de 2008. Fizeram parte do estudo 105 usuárias, com o predomínio de mulheres entre 19 e 28 anos (60,9%), de cor parda (47,6%), entre 9 e 11 anos de estudos (59,0%), solteiras (55,2%), católicas (75,2%) e originárias da região metropolitana de Belo Horizonte (40,0%). A maioria das mulheres foi internada para tratamento de intercorrências clínicas na gravidez (21,8%) e realização de parto (64,4%). As práticas mais utilizadas foram a musicoterapia (100%), a aromaterapia (100%), a oficina de chás (92,4%) e o escalda-pés (91,4%). As práticas integrativas e complementares promoveram resultados satisfatórios, provocando alívio dos sintomas físicos e psíquicos. Esse fator muito contribui para sua utilização como forma de suporte na assistência obstétrica voltada para a humanização. Palavras-chave: Terapias Complementares; Saúde da Mulher; Humanização da Assistência. ABSTRACT This retrospective study had three objectives: to characterize the population assisted by the Center for Integrative and Complementary Therapies at the Sofia Feldman Hospital. Belo Horizonte-MG; to identify the complementary and integrative practices most commonly used at the Center to promote women’s health; and to learn about the users’ impressions about such practices. The Center’s records and the hospital women’s patients register from July to November 2008 were used as instruments for data collection. The profile and impressions of 105 women were analyzed. Most of them were aged between 19 and 28 years (60.9%), 47.6% were brown skinned and had completed 9 to 11 years of formal education (59.0%), 55,2% were unmarried , 75.2% were Catholic and living in the metropolitan region of Belo Horizonte (40.0%). Most of the women were hospitalized for treatment of clinical problems during pregnancy (21.8%) and for delivery (64.4%). The complementary and integrative therapies most commonly used were music therapy (100%), aromatherapy (100%), a tea workshop (92.4%) and feet hot water treatment (91.4%). These practices produced satisfactory results that led to the relief of physical and psychological symptoms what suggests that their use contributes to support a more humane approach to obstetric assistance. Key words: Complementary Therapies; Women’s Health; Humanization of Assistance. RESUMEN Este estudio retrospectivo tiene tres objetivos: caracterizar la población atendida en el centro de integración y terapias complementarias del hospital Sofia Feldman – Belo Horizonte/MG; identificar la integralidad y complementariedad de las practicas más comunes del centro para promover la salud en la mujer y, asimismo, conocer las impresiones de los usuarios sobre estas prácticas. Para la recogida de datos se utilizaron los registros del centro y el registro de internación hospitalaria de las mujeres de julio a noviembre del 2008. Participaron del estudio 105 mujeres, predominaron aquéllas entre 19 y 28 años de edad (60.9%), de tez morena (47.6%), con entre 9 y 11 años de estudio (59.0%), solteras (55.2%), católicas (75.2%) y de la región metropolitana de Belo Horizonte (40%). La mayoría de las mujeres fue internada para tratamiento clínico de problemas durante el embarazo (21.8%) y para el parto (64.4%). Las terapias complementarias y de integración más utilizadas fueron la musicoterapia (100%), aromaterapia (100%), talleres de té (92,4%) y baños calientes para los pies (91,4%). Los resultados de tales tratamientos fueron satisfactorios y aliviaron los síntomas físicos y psiquicos. Esto sugiere que su utilización contribuye en gran medida a dar apoyo a la atención obstétrica más humana. Palabras clave: Terapias Complementarias; Salud de la Mujer; Humanización de la Asistencia. 1 2 3 Enfermeira. Especialista em Enfermagem Obstétrica pela Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (EEUFMG). Enfermeira da Estratégia de Saúde da Família do município de Uberaba-MG. Enfermeira. Doutora em Enfermagem pela USP. Hospital Sofia Feldman. Rua Antônio Bandeira 1.060, Tupi. Belo Horizonte MG, CEP 31840-130. E-mail: lelia.bhe@ terra.com.br. Fisioterapeuta. Doutoranda em Ciências da Saúde – Saúde da Criança e do Adolescente – pela UFMG. Hospital Sofia Feldman. Rua Antônio Bandeira 1060, Tupi. 31840-130 Belo Horizonte MG. E-mail: [email protected] Endereço para correspondência: Avenida Santa Beatriz da Silva, 1750, apto. 402, bloco C. Bairro Santa Maria. Uberaba-MG. CEP: 38050-000. E-mail: francis. [email protected]. remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 105-113, jan./mar., 2011 105 As práticas integrativas e complementares na atenção à saúde da mulher: uma estratégia de humanização da assistência no Hospital Sofia Feldman INTRODUÇÃO Os métodos terapêuticos não convencionais são práticas milenares utilizadas por diversos povos e culturas no cuidado, manutenção e recuperação da saúde. Com uma fundamentação muitas vezes associada à tradição e aos costumes, o uso dessas práticas populares demonstravam grande aceitação pela resolutividade e efetividade nas suas aplicações.1 Com o crescimento do modelo biomédico, novas técnicas e inovações médicas reforçaram o conceito mecânico reducionista: valorização do conhecimento técnico científico, priorização da atuação intervencionista, da medicalização e da atenção fragmentada do indivíduo dada a formação profissional especializada e voltada para a cura do corpo físico.2 O abuso desse modelo gera sérias implicações no contexto da saúde da mulher, principalmente durante o ciclo grávido-puerperal, que deixa de ser natural, fisiológico e familiar para se tornar, a partir da segunda metade do século XX, um procedimento puramente médico, sob a lógica intervencionista e institucional. Aliado a esses fatores, existem o comprometimento da relação entre médico e cliente e os entraves financeiros e de acesso aos serviços qualificados de atenção à mulher.3 fornecendo normas e orientações técnicas de forma a promover o intercâmbio de informações e a boa utilização da medicina tradicional.9 Contudo, a institucionalização das PICs provoca certa resistência e incômodo no campo da medicina ocidental, sendo algumas terapias desacreditadas e encaradas como ameaça ao modelo biomédico, o que acarreta dificuldades na incorporação dessas práticas na rede pública de saúde. Esse entendimento leva à restrição de acesso da população às PICs e ao seu conhecimento, apesar do crescente interesse e aceitação delas como estratégias terapêuticas.10 Os impasses relativos à inclusão das PICs nas propostas pedagógicas das instituições de ensino também trazem repercussão na implantação efetiva das PICs no SUS, como o déficit na formação de profissionais preparados para aplicação de novo modelo de atenção à saúde da mulher, a limitada produção de estudos científicos referente à efetividade das PICs e baixa inserção de profissionais terapeutas legitimados no mercado de trabalho. Dessa forma, a implantação da legislação das PICs nos serviços de saúde se faz de forma lenta, gradativa e, muitas vezes, sem o devido registro ou diretrizes específicas.4,10 Com estratégias terapêuticas diferenciadas, centradas na visão mais globalizante, valorizando o autocuidado e o uso de recursos mais simples, baratos e seguros, as práticas integrativas e complementares (PICs) se inserem no modelo assistencial holístico, estabelecendo o equilíbrio entre a ciência, tecnologia e a humanização.5 O Projeto do Núcleo de Terapias Integrativas e Complementares do Hospital Sofia Feldman (NTIC/HSF) teve seu início em outubro de 2006, com a finalidade de resgatar e incentivar a aplicação das PICs oriundas do saber popular e respaldadas pelo saber científico no conjunto de práticas na assistência à saúde da mulher, do recém-nascido e dos trabalhadores do HSF. As atividades do Núcleo são desenvolvidas por profissionais enfermeiros, especializandos em enfermagem obstétrica e terapeutas, que disponibilizam algumas PICs, como aromaterapia, musicoterapia, chás, fitoterapia, escaldapés e reflexologia, para aplicação em mulheres no ciclo grávido puerperal, visitantes e trabalhadores da instituição, de acordo com suas necessidades. As práticas integrativas se enquadram na atenção à saúde da mulher ao convergir para as propostas de humanização da assistência ao parto e nascimento. Esse novo enfoque e a forma de intervir baseia-se na participação ativa da mulher no processo, envolvendo o suporte emocional e social das mulheres no exercício da autonomia e cidadania femininas.6 Observa-se que as ações desenvolvidas pelo NTIC não são oficialmente reconhecidas nem regulamentadas por diretrizes específicas, dificultando o financiamento das práticas pelo sistema público de saúde. Além disso, o controle e avaliação das atividades ficam comprometidos por não haver o devido registro delas em bancos de dados sistematizados. A proposta das PICs vem com a ideia de complementação, ampliação de acesso às ações de saúde na perspectiva da integralidade da atenção, que envolve as múltiplas dimensões dos problemas de saúde pública e das pessoas, mediante uma abordagem integral e de boa qualidade.7 Os objetivos com este estudo foram caracterizar a população usuária do NTIC/HSF, conhecer as PICs mais utilizadas na saúde da mulher, bem como as impressões das usuárias a respeito da utilização dessa forma de terapia. Como consequência das limitações da assistência médica convencional à saúde da mulher, cresce a necessidade de busca por outros modelos com enfoque na qualidade das relações entre mulher e profissional, e com a utilização de tecnologia apropriada na visão holística e integrada do ser.4 As PICs foram incorporadas ao Sistema Único de Saúde (SUS) por meio da Portaria no 971, de 3 de maio de 2006, envolvendo a medicina tradicional chinesa – acupuntura, homeopatia, plantas medicinais e fitoterapia, termalismo social –, crenoterapia e medicina antroposófica em sua legislação.8 A Organização Mundial de Saúde (OMS), por meio do documento “Estratégia da OMS sobre Medicina Tradicional 2002-2005”, também apoia e incentiva a incorporação das PICs nos sistemas nacionais de saúde, 106 DESCRIÇÃO METODOLÓGICA Trata-se de um estudo retrospectivo sobre o uso das PICs e sua repercussão em mulheres usuárias dos serviços do Hospital Sofia Feldman. A instituição, cenário do estudo, é uma fundação filantrópica, de direito privado, com atendimento exclusivo ao SUS, prestando assistência integral à saúde remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 105-113, jan./mar., 2011 da mulher e do recém-nascido (RN) em níveis ambulatorial e hospitalar, com uma média, em 2008, de 730 partos/ mês na maternidade e 84 partos/mês no centro de parto normal (CPN).11 O NTIC desenvolve suas atividades grupais com mulheres internadas na Unidade Mãe Canguru do HSF, aquelas com recém-nascido assistido pelo Programa de Internação Domiciliar Neonatal (PID Neo) e mulheres da Casa de Sofias, espaço vizinho ao HSF onde são acolhidas e assistidas mulheres com bebês internados na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) do hospital e onde são realizadas as práticas do Núcleo. Também são utilizados para aplicação das PICs os espaços da UTIN, do CPN e da maternidade do hospital no atendimento individual a profissionais e usuários do HSF, sob livre demanda. As características sociais das mulheres incluídas no estudo estão apresentadas na TAB. 1. TABELA 1 – Características sociais da população usuária das PICs – Hospital Sofia Feldman, Belo Horizonte-MG – julho/novembro de 2008 Características No % 1. Idade (anos) 14 ├ 19 11 10,5 19 ├ 29 64 60,9 29 ├ 39 27 25,7 39 e mais 3 2,8 105 100 Parda 50 47,6 Branca 43 41,0 Preta 9 8,6 Amarela 3 2,9 105 100 Solteira 58 55,2 Casada 33 31,4 União estável 7 6,7 Outro 7 6,7 Total 105 100 Nenhuma 6 5,7 1├ 5 4 3,9 5├ 9 21 20,0 9├ 12 62 59,0 12 e mais 10 9,5 Não informado 2 1.9 105 100 Católica 79 75,2 Evangélica 22 21,0 Testemunha de Jeová 1 1,0 Protestante 1 1,0 Outro 2 1,9 Total 105 100 BH* 34 32,4 RMBH** 42 40,0 Cidades interioranas 27 25,7 Estrangeira 1 0,9 Não informado 1 0,9 105 100 Total Embora as atividades desenvolvidas pelo NTIC sejam voltadas, também, para funcionários, neonatos e visitantes, optou-se por estudar as gestantes, parturientes e puérperas que fizeram uso das PICs no NTIC, a fim de conhecer os efeitos de sua aplicação no ciclo grávidopuerperal. 2. Cor O projeto de pesquisa foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Sofia Feldman (Parecer nº 16/2008). Total Para a obtenção das informações relativas à aplicação das PICs, assim como a impressão das mulheres sobre o seu uso, foi utilizado como fonte o caderno-ata e seu anexo, o qual foi elaborado pelo NTIC destinado à coleta de impressões das usuárias sobre as PICs. Foram consultados, também, o banco de dados de internação do HSF, o caderno de enfermagem da Casa do PID Neo e da Casa de Sofias para complementar a identificação de usuárias e o preenchimento da ficha de coleta de dados, o qual abrange dados de caracterização da mulher, práticas utilizadas e percepção das mulheres sobre o seu uso. Os dados quantitativos coletados foram armazenados em um banco de dados computadorizado, construído com o programa Epi Info versão 3.5.1 e apresentados em distribuição de frequências, sob a forma de tabelas e analisados por meio de análise estatística simplificada. Já os dados abertos, relacionados às impressões das mulheres sobre o uso das PICs, foram organizados em categorias, de acordo com a similaridade das impressões relatadas pelas mulheres. RESULTADOS E DISCUSSÃO Caracterização das usuárias do NTIC 3. Estado civil 4. Escolaridade (anos) Total 5. Religião 6. Origem Durante o período de julho a novembro de 2008, 188 mulheres usaram as PICs realizadas pelo NPIC, entretanto, fizeram parte do estudo apenas 105 mulheres, cujos dados de identificação foram agrupados de acordo com suas características sociais, condições clínicas da mulher e do recém-nascido. As demais (83) mulheres não puderam compor o estudo seja porque o nome estava incompleto no caderno-ata do Núcleo, seja porque não apresentaram informações completas disponíveis no banco de dados de internação do HSF. Total * BH – Belo Horizonte ** RMBH – Região metropolitana de Belo Horizonte remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 105-113, jan./mar., 2011 107 As práticas integrativas e complementares na atenção à saúde da mulher: uma estratégia de humanização da assistência no Hospital Sofia Feldman Foram levantados, também, dados relativos à profissão das usuárias, tendo-se observado que 57 (54,3%) delas eram donas de casa. Em relação às condições clínicas das usuárias, destaque-se a participação de 92 (87,6%) puérperas, 9 (8,6%) parturientes e 4 (3,8%) gestantes nas PICs. O predomínio de puérperas tem relação com a permanência da mulher nas dependências do hospital após a alta hospitalar, na condição de acompanhante do seu filho internado. TABELA 2 – Condições clínicas dos recém-nascidos das usuárias das práticas integrativas e complementares – Hospital Sofia Feldman, Belo Horizonte-MG – julho/ novembro de 2008 Características % UTIN 5 5,2 UCIN 55 57,3 Canguru 23 23,9 PID neo 13 13,5 Total 96 100 Transtorno relacionado com a duração da gestação e crescimento fetal 44 45,8 Transtorno respiratórios e cardiovasculares específicos do período neonatal 28 29,2 Tratamento de infecções de transmissão predominantemente sexual 2 2,1 Tratamento de infecções específica do período perinatal 1 1,0 Tratamento de outras doenças do aparelho respiratório 2 2,1 Tratamento de outras doenças bacterianas 11 11,4 Tratamento de outros transtornos originados no período neonatal 4 4,2 Tratamento de pneumonias ou influenza (gripe) 2 2,1 Tratamento de complicações da hidrocefalia 1 1,0 Tratamento de transtorno respiratório específicos do período neonatal 1 1,0 Total 96 100 1. Local de internação do RN O motivo de internação, tanto das mulheres usuárias do Núcleo quanto do RN, é registrado uma única vez no cadastro de internação, não sendo posteriormente atualizados caso haja transferências ou alterações nas condições clínicas da mulher ou da criança. 2. Motivo de internação do RN Quanto ao motivo de internação, registrado no banco de dados do HSF, conforme o Código Internacional de Doenças (CID), no que se refere às parturientes e puérperas, 65 (64,4%) delas o fizeram para realização de parto (normal e cesariana); 22 (21,8%) internaram-se para tratamento de intercorrências clínicas na gravidez; 10 (9,9%) para tratamento de transtornos hipertensivos na gravidez, parto ou puerpério; e 2% das mulheres sofreram algum outro tipo de complicação que justificasse a internação. Com exceção das quatro gestantes e de uma parturiente que não estavam internadas no momento de realização das PICs, bem como de uma puérpera que não deu à luz no HSF, o tempo médio de internação das mulheres foi de 4,41 ± 5,2 dias. Metade das 52 (51,5%) mulheres internadas por motivo de realização de parto normal permaneceu no HSF durante período superior a 24 horas e 34 (33,7%) mulheres, por motivos de transtornos e intercorrências durante a gravidez e parto, fatores que contribuíram para a elevação do tempo de internação das mulheres estudadas. Para Sarmento e Setúbal, somente a internação já é fonte de ansiedade e de medo, e, tratando-se de gestante de alto risco, esta pode experienciar momentos de fantasias destrutivas, sensação de incapacidade para gestar, além de temer por si e pelo bebê. As mesmas autoras ressaltam a importância de os serviços de saúde atentarem para os aspectos emocionais relacionados à gestação de alto risco, a fim de fornecerem subsídios para que ela possa se adaptar e vivenciar de forma saudável uma realidade diferente daquela desejada. No 12 Todas as 92 puérperas do estudo tiveram os filhos internados no hospital, totalizando 96 RNs, uma vez que 4 mulheres tiveram bebês gemelares. Ao analisar as condições clínicas dos RNs das usuárias do NTIC, observou-se o predomínio de internação de 55 (57,3%) RNs na UCIN, internação motivada essencialmente (45,8%) por transtornos relacionados à duração da gestação e crescimento fetal (TAB. 2). 108 O tempo de internação dos RNs variou de 1 a 137 dias, com média de internação de 30,8 ± 29 dias. Sabe-se que a internação do recém-nascido tem significados expressivos e, muitas vezes, conflituosos para a mulher-mãe. Dittz et al. 13 ressaltam, dentre outras características, a dualidade de sentimentos maternos em relação ao cuidado com o filho internado, a responsabilidade com sua família e a atenção consigo mesma e às suas necessidades. Sintomas clínicos de ansiedade, disforia e/ou depressão também são experimentados pela mãe, como revela estudo de Padovani et al.,14 realizado com mulheres cujos filhos estiveram internados em uma UTIN. Os autores remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 105-113, jan./mar., 2011 verificaram, também, que tais sintomas apresentaram significativa redução após a alta dos recém-nascidos. Considerando-se as condições individuais de cada ser, a instituição que acolhe esse público deve planejar e executar atividades de apoio, visando à prevenção e/ ou à redução de problemas psicossociais mais graves, à reestruturação interna e ao engajamento da mulher em ações que favoreçam seu equilíbrio emocional. PICs utilizadas pelas usuárias do Núcleo A “aromaterapia e a musicoterapia”, de modo geral, são diariamente disponibilizadas para uso pelo Núcleo, o que justifica terem sido as práticas mais utilizadas (162 vezes cada uma) pelas mulheres estudadas. A essência de escolha para a aplicação da aromaterapia foi a lavanda, que tem sido associada à harmonização do ambiente, proporcionando paz, equilíbrio e aconchego, o que facilita a superação de momentos de esgotamento físico e emocional. A musicoterapia foi praticada na ambientação com a utilização de músicas instrumentais e cantadas. A “oficina de chás”, com o total de 154 aplicações, é realizada diariamente em mulheres que participam do NTIC na Casa de Sofias e conta com a participação da maioria das usuárias das PICs. Entretanto, não foi possível quantificar precisamente quantas mulheres fizeram uso da oficina, já que essa prática não é descrita separadamente no caderno-ata do Núcleo. Estima-se que se todas as mulheres que participaram das PICs nos dias especificados tiverem feito uso do chá, a frequência de sua utilização deve ter sido em torno de 92,4%, ou seja, 97 mulheres teriam participado dessa prática. Fizeram uso tanto do “escalda-pés” quanto da “reflexologia” 96 mulheres (91,4%), tendo a referida prática sido aplicada por 138 vezes durante o período estudado. O escalda-pés consiste na imersão dos pés em infusão de água morna, ervas medicinais, sais aromáticos e flores, com posterior realização da reflexologia podálica e calatonia. Todas essas práticas são destinadas à indução do relaxamento, redução das tensões do corpo e combate ao estresse. Com a mesma finalidade, o Qi Gong foi aplicado 39 vezes, sendo utilizado por 33 (31,4%) mulheres atendidas pelo NPIC/HSF. O Qi Gong é uma técnica chinesa que favorece a percepção corporal, concentração e controle da respiração pelos usuários.15 A atividade “memória sensorioperceptiva das plantas medicinais” (MSPPM) foi realizada por 47 (44,8%) participantes do estudo, com 51 aplicações da técnica pelo Núcleo. Essa prática consiste na observação das sensações experimentadas ao se segurar uma planta com efeitos medicinais e no levantamento do conhecimento popular sobre a erva. A aromaterapia, a musicoterapia e a oficina de chás foram as práticas mais usadas, chegando a ser utilizadas por até sete vezes durante o período de estudo (TAB. 3). Esse resultado pode decorrer da realização diária desses recursos no NTIC, independentemente da associação ou não com outra atividade selecionada para a realização no dia. O escalda-pés e a reflexologia tiveram, também, elevada frequência de uso (até seis vezes). Considerando-se que as mulheres usuárias do NTIC têm a liberdade de escolher as práticas, o escalda-pés e a reflexologia, de acordo com os dados coletados, estavam entre as preferências de uso pelas mulheres. Percepção das mulheres usuárias do NTIC sobre as PICs utilizadas Foi realizada a análise de 91 (87,7%) depoimentos registrados de usuárias sobre o uso das PICs. Das demais mulheres (12,3%) não foi possível obter o depoimento, seja pela impossibilidade de encontrá-lo, seja pela ausência de registro de impressão pessoal de algumas, já que essa ação se caracteriza como voluntária. Os depoimentos foram transcritos isoladamente e, depois de analisados, organizados em quatro categorias TABELA 3 – Distribuição das PICs segundo a frequência do uso pelas usuárias do NTIC – Hospital Sofia Feldman, Belo Horizonte – julho/novembro/2008 Frequência PICs 1 vez 2 vezes 3 vezes 4 vezes 5 vezes 6 vezes 7 vezes Total No % No % No % No % No % No % No % No % Aromaterapia e Musicoterapia 80 76,2 12 11,4 5 4,8 2 1,9 3 2,8 1 0,9 2 1,9 105 100 Oficina de chás 72 68,6 12 11,4 5 4,8 2 1,9 3 2,8 1 0,9 2 1,9 97 92,3 Escalda-pés e reflexologia 74 70,5 12 11,4 3 2,8 5 0,9 1 0,9 1 0,9 _ _ 96 91,3 MSPPM* 43 40,9 4 3,8 _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ 47 44,7 Qi Gong 29 27,6 2 1,9 2 1,9 _ _ _ _ _ _ _ _ 33 31,4 * MSPPM – Atividade “memória sensorioperceptiva das plantas medicinais” remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 105-113, jan./mar., 2011 109 As práticas integrativas e complementares na atenção à saúde da mulher: uma estratégia de humanização da assistência no Hospital Sofia Feldman empíricas, de acordo com a semelhança de conteúdos. Com o objetivo de preservar a identidade das depoentes, os nomes delas foram substituídos pela numeração em ordem crescente, feita à medida que os depoimentos foram sendo extraídos do livro de registro. Procedeu-se à caracterização da mulher de acordo com a fase do ciclo gravídico-puerperal, a fim de melhor compreender sua motivação e resposta à participação nas atividades do NTIC. Categoria 2 – As PICs no alívio dos sintomas não físicos As usuárias das PICs referiram que, com a utilização das práticas, experimentaram sensação de desligamento, calmaria, apaziguamento das tensões, descanso da mente e do corpo de forma geral: Através desta massagem, podemos sentir tranquilidade. O corpo, a mente, tudo fica muito mais leve. Posso assim dizer que é uma renovação para o corpo. (49 – puérpera) Categoria 1 – Expressão de satisfação provocada pela terapia O fato de os bebês das mulheres da Casa de Sofias estarem internados na UTIN possibilita a articulação das atividades da mãe, pois ela, nessa condição, não é a principal responsável pelo cuidado direto do filho. O contentamento promovido pela utilização das práticas é o motivo que a mulher apresenta para o novo uso delas. O fragmento do seguinte depoimento apresenta tal desejo: Ao participar a primeira vez, achei maravilhosa a terapia. Enquanto eu estiver na casa, vou participar de todos. (74 – puérpera) Alguns relatos exprimem a valorização da metodologia de trabalho realizado na Casa de Sofias e os agradecimentos à equipe responsável pela aplicação das PICs no NTIC, como neste exemplo: Foi ótimo, fiquei mais calma, tranquila, dá uma paz no corpo e na alma. (27 – puérpera) Estava muito cansada, preocupada mentalmente. Após receber a massagem, fiquei superbem, descansou totalmente minha mente. (44 – puérpera) Esse desligamento revela o momento de tensão experimentado pelas mulheres após vivenciarem situações difíceis com os filhos internados na UTIN, as quais provocam ansiedade, angústia e tristeza e o desejo de vivenciar outra situação na qual possam experimentar as sensações produzidas pelo uso das PICs, como observado nos relatos a seguir: Essa terapia me ajudou muito, pois estou ansiosa pela recuperação do meu bebê, a fim de levá-lo logo para casa. Agora me sinto calma, tranquila [...]. (59 – puérpera) Casa de Sofias, nunca vi lugar algum que tratasse tão bem as mulheres, é uma casa de recuperação em todos os sentidos, recupera tanto o corpo físico quanto a mente, [...]. Todas as funcionárias, parabéns! (42 – puérpera) Quase a totalidade dos depoimentos expressa satisfação da usuária com o uso das PICs, de diversas formas e sob diferentes pontos de vista. Todavia, identificou-se que duas mulheres referiram sensação de tensão e nervosismo durante a realização das PICs, dada a situação de internação do filho. Uma delas registra: A cada dia que passa eu não relaxo nada. (14 – puérpera). Entretanto, ao analisar seus depoimentos nas demais participações no NTIC, duas delas ocorridas antes e uma depois desse relato, fica clara a expressão de relaxamento, de leveza e de bem-estar, ao afirmar ainda que, no momento em que mais apresenta essas sinaléticas, finda-se o tempo de aplicação das PICs: De início fico meio sem posição, mas depois consigo relaxar. Sinto-me leve, mas na hora que fica bom, a ‘Maria’ fala: ‘Acabou’. (14 – puérpera) As categorias empíricas apresentadas a seguir agrupam depoimentos com expressões relacionadas, também, a sensações de satisfação com a(s) prática(s) utilizada(s), contudo revelam outros tipos de percepção que, de acordo com seu contexto, se caracterizam como predominantes. 110 É uma terapia maravilhosa, onde temos oportunidade de, em alguns instantes, esquecer todos os problemas e nos sentir bem, como queríamos que fosse sempre. (72 – puérpera) O momento destinado à aplicação das PICs parece ser encarado pelas usuárias do NTIC como uma ocasião para a reflexão do seu contexto de vida, para o encontro de recursos de enfrentamento da realidade e canalização de forças para lutar pela recuperação de seus filhos: Ajudou também a desligar um pouco de tudo que deixei para trás e a centralizar as forças para enfrentar tudo aqui. (64 – puérpera) Foi ótimo para relaxar e tirar o estresse. Estava precisando muito disso para acalmar. Foi bom para pensar um pouco sobre o que está acontecendo, refletir e ter mais fé. (66 – puérpera) O restabelecimento emocional atribuído pelas mulheres às práticas, assim como o despertar de sensações agradáveis, serve de suporte e apoio para que as mulheres possam se fortalecer e se encorajar a dar continuidade ao enfretamento da situação de internação dos filhos, permitindo-lhes nova condição de interação e envolvimento com eles, como destacado nas frases seguintes: remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 105-113, jan./mar., 2011 Foi uma sensação de tranquilidade; senti-me relaxada, calma, pois estava um pouco tensa. Agora posso transmitir mais segurança ao meu filho e ficar mais serena. (55 – puérpera) a repercussão do uso das PICs no corpo físico da mulher. O escalda-pés é uma terapia muito energizante. Reintegra a alma e nos faz ter força para continuar a luta diária pela saúde de nossos filhos. (11 – puérpera) O puerpério é um período do ciclo gravídico-puerperal no qual ocorrem mudanças locais e sistêmicas para o retorno à situação do estado pré-gravídico, o que deixa a mulher muitas vezes fragilizada e vulnerável.16 Essas alterações se acentuam quando vêm acompanhadas da repercussão física provocada pelo afastamento de seu filho.17 Uma das usuárias expressa: Estava estressada, sem forças e o escalda-pés passoume uma grande tranquilidade que no momento achava que não iria encontrar. Agora estou disposta a lutar pela vida. (65 – puérpera) As mulheres consideram as atividades desenvolvidas pelo NTIC como uma forma de perceber o acolhimento ofertado pelos profissionais envolvidos na assistência direta às usuárias das PICs. Alguns relatos remontam a percepções de conforto e amparo obtidos no envolvimento com as atividades de relaxamento do NTIC: São esses momentos relaxantes que nos mostram que não estamos sozinhas, que sempre há um anjo do nosso lado para nos confortar. (1 – puérpera) Gostei muito do carinho e dedicação, trabalho diferenciado de tudo que já vi. Muita tranquilidade. O profissional que realizou passa calma, serenidade. (88 – parturiente) Ajudou a me acalmar, relaxar, tirar a tensão e, principalmente, trouxe um conforto e um carinho como se fosse um colo de mãe. (64 – puérpera) As gestantes usuárias do NTIC ressaltaram que se sentiram mais preparadas e seguras com as sensações experimentadas pelo uso das PICs, apontando essas atividades como importantes na elaboração de um bom parto: O escalda-pés foi ótimo, acalma, traz bastante tranquilidade para sua mente preparando-a melhor para um parto com sucesso. Adorei! (90 – gestante) A experiência de uso das PICs também possibilitou o conhecimento de outras práticas de cuidado que retratam a assistência oferecida na instituição: A massagem nos pés foi maravilhosa! Relaxou demais e me deu uma sensação de felicidade e paz. Vir aqui só reforçou meu desejo de dar à luz aqui no Sofia. (62 – gestante) O tempo destinado ao uso das práticas também estimula a mulher a se sentir em lugares imaginários ou em sintonia mental com figuras divinas, correlacionando as PICs com sua espiritualidade: A massagem é uma verdadeira terapia espiritual, relaxante, capaz de nos fazer flutuar. Gostei muito, dá vontade de permanecer inteiramente nessa terapia espiritual como se estivéssemos no paraíso juntamente com o Senhor Jesus Cristo. (18 – puérpera) Categoria 3 – As PICs aliviando sintomas físicos Além dos benefícios no aspecto psicológico e emocional observados nas usuárias do NTIC, foi possível identificar Hoje o escalda-pés me aliviou muito, pois estava me sentindo mal, cheia de preocupações e agora estou muito melhor. O escalda-pés aliviou minha dor de cabeça e minha dor nas pernas. Sinto-me nova. (67 – puérpera) O escalda-pés possui muitos efeitos não somente ligado aos pés diretamente. De acordo com Nishi,18 dentre outros efeitos, o escalda-pés é indicado para edemas, sinal muitas vezes apresentado pelas mulheres estudadas. O incômodo e o desconforto gerados pelo inchaço nas pernas e nos pés foram amenizados com o uso dessa terapia em todas as mulheres que apresentaram esse problema, como se pode observar neste exemplo: Senti-me muito bem, relaxei bastante, gostei muito. Estava com as pernas e os pés cansados e doloridos e melhorou bastante. (82 – puérpera) Os problemas de ordem física, tais como esgotamento, cefaleia, tensão nervosa, retenção de líquido, apresentadas nos depoimentos das usuárias do Núcleo, constituem distúrbios passíveis de tratamento por meio de técnicas como a “reflexologia podal”.19 Uma das mulheres relata: Antes de receber a massagem, meu corpo estava muito dolorido, minha cabeça estava pesada. Logo após receber a massagem, juntamente com as técnicas de respiração, minhas dores foram se aliviando. Estou me sentindo bem melhor, mais calma e bem mais leve. (43 – puérpera) Essa impressão vai ao encontro do que ressalta Goosmann-Legger,20 quando afirma que a massagem pode promover na pessoa receptora um estado de relaxamento, induzir alívio emocional, assim como melhorar suas condições gerais. Do mesmo modo, Ferraro15 se refere ao Qi Gong afirmando que é possível atingir o bem-estar físico e psíquico com essa prática. Outra qualidade apontada pelo uso das PICs é sua capacidade de tornar as dores da contração de parto mais suportáveis, uma vez que faz com que as mulheres se concentrem no seu processo de parturição. Esse fator muito contribui para a sua utilização como forma de suporte na assistência obstétrica voltada para a humanização. As parturientes depuseram: Muito bom, excelente, ajuda a relaxar e alivia a dor da contração. (32 – parturiente) remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 105-113, jan./mar., 2011 111 As práticas integrativas e complementares na atenção à saúde da mulher: uma estratégia de humanização da assistência no Hospital Sofia Feldman A massagem nos pés é muito relaxante, ajuda a acalmar e esquecer um pouco as dores da contração. É uma experiência única, acho que deveria ser adotada em todos ou na maioria dos hospitais. (91 – parturiente) Confirma-se que, de maneira geral, os efeitos das PICs decorrentes de seu uso se manifestam em diferentes níveis e intensidades nas mulheres usuárias. Foram observadas variações de sinaléticas nos relatos de mulheres em diferentes fases do ciclo gravídico puerperal, justificadas, obviamente, pelas diferentes situações e repercussão que essas fases envolvem. Observou-se, também, que foram expressas diferentes percepções em mulheres na mesma fase do ciclo. Infere-se que tais diferenças sejam decorrentes da forma como cada uma vivencia sua experiência de gestação, trabalho de parto, puerpério e internação de um filho. Daí a importância do suporte individualizado e holístico prestado a essas mulheres, apoio que se mostra cada vez mais necessário quando se considera a possibilidade de a mulher vivenciar as diversas fases do ciclo grávido puerperal de forma saudável, mesmo que ela não ocorra da forma idealizada pela mulher e sua família. CONSIDERAÇÕES FINAIS A realização deste estudo permitiu identificar traços do perfil das mulheres usuárias do NTIC, bem como analisar as PICs mais utilizadas por elas. Além disso, foi possível constatar o predomínio de impressões positivas sobre o uso das diversas práticas disponibilizadas à clientela do hospital, com repercussão no cuidado integral às mulheres no ciclo grávido puerperal. Confirma-se, por meio das impressões das usuárias do Núcleo, que, de modo geral, as práticas utilizadas promoveram resultados satisfatórios, seja provocando sensação de bem-estar, relaxamento, ajudando a minimizar sintomas físicos, seja no fortalecimento da mulher para o enfrentamento da situação vivenciada. Diante de tais resultados considera-se da maior relevância manter o trabalho do NTIC, bem como integrar novas terapias não convencionais comprovadamente eficazes para a saúde da mulher. Tais resultados indicam, ainda, a necessidade da ampliação da disponibilização das PICs no âmbito intra-hospitalar, como mediante a descentralização de sua aplicação para facilitar o acesso a maior número de parturientes, como recurso não farmacológico de alívio da dor no trabalho de parto. Para que se aprimore o gerenciamento dos serviços disponibilizados pelo NTIC, sugere-se o aperfeiçoamento do registro de suas atividades realizadas diariamente, bem como a criação de um banco de dados informatizado que permita a consulta ágil das informações. Assim, será possível o acompanhamento dos resultados obtidos e a orientação das condutas e mudanças mediante a utilização de metodologias avaliativas. Além disso, recomenda-se a capacitação continuada dos profissionais já envolvidos com a aplicação das práticas e inserção de novos terapeutas nas atividades do Núcleo, além da socialização do conhecimento básico sobre as práticas com os profissionais da saúde que atuam diretamente na assistência à gestante, parturiente e puérpera na instituição. A divulgação das atividades desenvolvidas pelo NTIC para a comunidade de referência do HSF, especialmente nos serviços de pré-natal, poderia ser utilizada como recurso para a ampliação do público-alvo do Núcleo, uma vez que as gestantes poderiam ser informadas sobre as práticas e utilizá-las como método de alívio e conforto dos sintomas comumente apresentados na gestação, no trabalho de parto e no puerpério. A repercussão das PICs na saúde da mulher no ciclo grávido puerperal deve ser considerada no bojo das estratégias de humanização da atenção ao parto e nascimento, pois podem oferecer significativa contribuição para a mudança do modelo assistencial tecnicista, ainda hegemônico no País, resgatando práticas terapêuticas não convencionais, de conhecimento milenar. Desse modo, é fundamental que novos estudos sejam implementados sobre as PICs, abordando a contribuição e a relevância de sua utilização na saúde da mulher no ciclo grávido puerperal. AGRADECIMENTO Ao Programa Incubadora da Integralidade: proposta estruturante para o ensino e a pesquisa no Hospital Sofia Feldman, pelo apoio e incentivo. REFERÊNCIAS 1. Barbosa MA, Siqueira KM, Brasil VV, Bezerra ALQ. Crenças populares e recursos alternativos como práticas de saúde. Rev Enferm UERJ. 2004; 12(1):38-43. 2. Queiroz MS. O itinerário rumo às medicinas alternativas: uma análise em representações sociais de profissionais da saúde. Cad Saúde Pública. 2000; 16(2):363-75. 3. Domingues RMSM. Acompanhantes familiares na assistência ao parto normal: a experiência da Maternidade Leila Diniz [dissertação]. Rio de Janeiro (RJ): Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz; 2002. 4. Barbosa MA et al. Terapias alternativas de saúde x alopatia: tendências entre acadêmicos de medicina. Rev Eletronica Enferm. 2001; 3(2):1-15. [Citado 2008 ago 15]. Disponível em: http://www.revistas.ufg.br/index.php/fen 5. Luz MT. Cultura contemporânea e medicinas alternativas: novos paradigmas em saúde no fim do século XX. Physis. 2005; 15(supl):145-76. 6. Domingues RMSM, Santos EM, Leal MC. Aspectos da satisfação das mulheres com a assistência ao parto: contribuição para o debate. Cad Saúde Pública. 2004; 20(Supl 1):52-62. 112 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 105-113, jan./mar., 2011 7. Tesser CD, Luz MT. Racionalidades médicas e integralidade. Cien Saúde Colet. 2008; 13(1):195-206. 8. Brasil. Ministério da Saúde. Política nacional de medicina natural e práticas complementares 2005. [Citado 2008 ago 15]. Disponível em: http:// bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/pnpic.pdf 9. World Health Organization. Traditional Medicine Strategy 2004. [Citado 2008 ago 15]. Disponível em: http://www.who.int/medicines/areas/ traditional/ definitions/em 10. Fontanella FF, Speck FP, Piovezan AP, Kulkamp IC. 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Enferm.;15(1): 105-113, jan./mar., 2011 113 PERCEPÇÕES DAS MÃES SOBRE OS CUIDADOS À SAÚDE DA CRIANÇA ATÉ 6 ANOS MOTHERS’ PERCEPTIONS ON HEALTHCARE FOR CHILDREN BETWEEN 0 AND 6 YEARS OLD PERCEPCIONES DE LAS MADRES SOBRE LOS CUIDADOS DE LA SALUD DE LOS NIÑOS DE 0 A 6 AÑOS Astrid Eggert Boehs1 Pamela Camila Fernandes Rumor2 Edilza Maria Ribeiro3 Márcia Grisotti4 RESUMO Esta é uma pesquisa qualitativa com os seguintes objetivos: a) levantar o perfil das mães; b) identificar a percepção das mães sobre os cuidados realizados no domicílio para manter a saúde das crianças até 6 anos; c) identificar as fontes de aprendizagem. Foram entrevistadas mães com mais de um filho, em dois bairros do município de Florianópolis. Após agrupar as respostas das perguntas qualitativas, a análise de conteúdo revelou categorias e subcategorias. Os resultados evidenciam que a autoatenção das famílias está presente com forte influência da biomedicina, sendo o médico e o agente comunitário de saúde os profissionais da atenção básica mais lembrados como orientadores do cuidado. Conclui-se que, para promover a saúde e fomentar a autonomia das famílias, há necessidade de conhecer e considerar a autoatenção a eles. Palavras-chave: Cuidado da Criança; Cultura; Saúde da Família. ABSTRACT This qualitative research aimed at the following objectives: a) assess the mothers profile, b) ascertain the mothers perceptions about healthcare provided at home in order to keep in good health children between 0-6 years old, c) identify the mothers learning resources. Mothers with more than one child from two neighborhoods in the municipality of Florianopolis were interviewed. The answers to the qualitative questions were collected and the analysis of their content revealed categories and subcategories. The results show that the child is cared basically by the family which is highly influenced by biomedicine. The doctor and the community healthcare worker are the most recalled healthcare providers. The study concludes that in order to promote health and foster the families autonomy in this area, it is necessary to understand and recognize their ability to cope with a health problem or to improve his/her health. Key words: Child Healthcare; Culture; Family Healthcare. RESUMEN Se trata de una investigación cualitativa con los siguientes objetivos: a) obtener el perfil de las madres; b) identificar la percepción de las madres sobre los cuidados realizados en el hogar para preservar la salud de los niños de 0 a 6 años; c) identificar sus fuentes de aprendizaje. Se realizaron entrevistas a las madres con más de un hijo en dos barrios de la ciudad de Florianópolis. Después de agrupar las respuestas de las preguntas cualitativas el análisis del contenido reveló categorías y subcategorías. Los resultados muestran que la biomedicina influye mucho en el autocuidado de las familias y que el médico y el agente comunitario de salud son los profesionales de atención básica más mencionados como orientadores para el cuidado. Se concluye que para promover la salud y fomentar la autonomía de las familias habría que conocer y considerar la autoatención de las mismas. Palabras clave: Cuidado de los Niños; Cultura, Salud de la Familia. 1 2 3 4 Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Docente do Departamento de Enfermagem e do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PEN) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Líder do Núcleo de Extensão e Pesquisa em Enfermagem e Promoção da Saúde (NEPEPS). E-mail: [email protected]. Enfermeira. Mestranda em Enfermagem do PEN/UFSC. Bolsista do CAPES. Ex-Bolsista PIBIC/CNPq/UFSC 2006-2008. Membro do NEPEPS. E-mail: [email protected]. Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora titular do Departamento de Enfermagem da UFSC. Membro do NEPEPS. E-mail: [email protected]. Socióloga. Doutora em Ciências Sociais. Professora adjunta do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da UFSC. Membro do NEPEPS. E-mail: [email protected]. Endereço para correspondência – Rua Valter de Bonna Castelan 429, Florianópolis/SC. CEP: 88037300. E-mail: [email protected]. 114 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 114-120, jan./mar., 2011 INTRODUÇÃO A ideia de promoção da saúde vem sendo discutida e abordada mais intensamente nos últimos trinta anos como uma proposta internacional para lidar com os múltiplos problemas de saúde. Os inúmeros desafios sociais, políticos e culturais, o esgotamento do paradigma biomédico e a mudança do perfil epidemiológico da população demandam transformações do setor saúde, sendo que a promoção da saúde constitui uma estratégia promissora para o incremento da qualidade de vida. A partir da Carta de Ottawa, tem-se uma nova compreensão a respeito da promoção da saúde como o processo que visa possibilitar que indivíduos e comunidades ampliem o controle sobre os determinantes da saúde e, por conseguinte, obtenham melhoria de sua saúde. Esse processo passa a representar um conceito unificador para quem reconhece a necessidade básica de mudança, tanto nos modos quanto nas condições de vida, visando à promoção da saúde.1 O Ministério da Saúde lançou, em 1994, a Estratégia de Saúde da Família (ESF), que possui nos seus alicerces o ideário da promoção da saúde e, entre seus objetivos, a reorientação do modelo assistencial em saúde pautado pelo princípio da integralidade. Na ESF, é requerido um olhar multiprofissional e a prática multissetorial, a priorização das ações de promoção, a proteção e a recuperação da saúde e mudança no sentido da vigilância à saúde.2 A maior aproximação dos profissionais de saúde dos domicílios e do contexto sociocultural dos moradores de bairros populares, gerada por políticas públicas como a ESF, requer maior aprendizado de conhecimentos advindos das ciências sociais. Estudiosos dessa área acadêmica têm afirmado que os profissionais de saúde estão sendo “lançados numa nova e desconhecida cena social [...]”.3:142 É importante salientar que uma das grandes dificuldades dos profissionais é compreender que há diversos setores de cuidado, sendo que o sistema profissional oficial, mesmo considerado hegemônico e legítimo, é apenas uma parte do que a população lança mão para o cuidado da saúde. De acordo com a literatura,4 a população recorre a diferentes setores: a) à biomedicina, que envolve médicos e demais profissionais tanto da atenção básica como das especialidades; b) ao setor “popular” e “tradicional”, composto por gentes de cura, como xamãs, especialistas em ervas, também figuras religiosas dos mais diversos cultos; c) às práticas alternativas, paralelas, como o new age, incluindo bioenergéticos e curadores de novas religiões; d) a outras tradições de cura, como acupuntura, medicina ayurvédica; e) a práticas centradas na autoajuda, como os Alcoólicos Anônimos (AAs), grupos de pais de crianças com síndrome de Down, de doença celíaca, tendo a característica de serem organizados e orientados por pessoas que padecem de algum problema. Além dessa variedade de setores que a população tem à disposição para manter a saúde e buscar a cura, Menendez4 criou o conceito da autoatenção, que se refere às práticas e às representações relativas ao sujeito e ao grupo para solucionar ou prevenir os processos que afetam a saúde de forma autônoma antes e depois de consultar os demais setores. Divide-se em dois níveis: o primeiro refere-se a todas as formas de autoatenção necessárias para a reprodução biossocial dos indivíduos e grupos em nível de microgrupos, especialmente o grupo doméstico. Nessa perspectiva, inclui a atenção à preparação e distribuição dos alimentos, bem como à obtenção da água e cuidados gerais com o meio ambiente. Segundo ele, tal nível remete à própria cultura produzida pelo grupo. O sentido mais restrito4 concerne, principalmente, às estratégias, científicas e não científicas, de representação de doenças e práticas de curas e cuidados. São as práticas que as pessoas conscientemente realizam para prevenir ou curar suas doenças. Assim, com a progressiva instalação das ESFs no País, a formação e a prática dos profissionais de saúde têm sofrido mudanças no sentido de se aproximar mais do território onde se situam os domicílios das famílias. Entre os profissionais de saúde, destaca-se a enfermeira, que tem liderado os demais integrantes da equipe de enfermagem, bem como as agentes comunitárias de saúde (ACS). A enfermagem e outras áreas da saúde, no Brasil e na América Latina, estão preocupadas com a questão da autoatenção na sua produção de conhecimento recente. Em um levantamento bibliográfico – em espanhol e português, com as seguintes palavras-chave: cuidado da criança, saúde da criança, família, cultura abrangendo o período de 2004 a 2009 – nas bases SciELO, Lilacs, BVS: BDENF, foram identificados nove estudos sobre as percepções/concepções de familiares sobre os cuidados para manter a saúde da criança. Do total de nove artigos selecionados, cinco foram publicados em revistas de enfermagem, três em revistas de saúde pública e um em revista da área de psicologia. Dentre os objetivos com esses estudos, em oito buscou-se conhecer as práticas dos cuidados realizados e ou conhecidos pelas mães e, em dois, estudar como se dá a participação paterna, no cuidado de crianças até 6 anos. De forma geral, os resultados de todos os estudos apontam para a distância dos cuidados e saberes dos profissionais e da clientela.5-13 No município de Florianópolis, a crescente aproximação dos profissionais da saúde dos domicílios e do contexto sociocultural dos moradores de bairros populares ocorreu com a implantação da ESF a partir de 1996 e do programa Capital Criança, em 1997. Este último tem como foco de assistência a gestante e puérpera e a criança até 10 anos. Além disso, existe uma relação entre a Secretaria de Saúde do município com os cursos da área da saúde da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), formalizada na Rede Docente Assistencial (RDA). Ao buscar as respostas para a situação configurada, desenvolveu-se este estudo tendo os seguintes objetivos: a) levantar o perfil das mães; b) identificar remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 114-120, jan./mar., 2011 115 Percepções das mães sobre os cuidados à saúde da criança até 6 anos e analisar a percepção das mães sobre os cuidados realizados no domicílio para manter a saúde das crianças até 6 anos; e c) identificar as fontes de aprendizagem desses cuidados. Pretende-se, com este estudo, contribuir para que o enfermeiro, a equipe de enfermagem e demais profissionais auxiliem nas transformações e intervenções nos serviços de saúde no sentido de promover a integralidade da assistência, resgatando, valorizando e sendo parceiros na autoatenção das famílias. MÉTODO Pesquisa descritiva qualitativa desenvolvida nas áreas de abrangência de dois centros de saúde (CSs): um que integra a RDA e também o Programa da Residência Multiprofissional de Saúde da Família da UFSC, tendo pleno funcionamento da ESF e do programa Capital Criança, designado nesta pesquisa como Bairro A; e o outro, não integrante da RDA (na época da coleta de dados), mas com pleno funcionamento da ESF e do programa Capital Criança, denominado de Bairro B. Participaram da pesquisa 99 mães que utilizam os CSs, com mais de um filho, sendo um deles com idade inferior a 6 anos. A escolha de mães com mais de um filho se justificou pelo fato de realizarem o cuidado com base nas próprias experiências anteriores. Para incluir mães de toda a área de abrangência, seguiu-se o que refere a literatura14: no primeiro momento, o número de famílias foi proporcional à população de cada bairro, procurando-se selecionar mães das quatro áreas da ESF do Bairro A e das duas áreas do Bairro B, sendo que de cada área incluíram-se mães de todas as microáreas. Considerando-se que as mulheres têm, em média, em torno de três filhos, foram selecionadas 20% das crianças do bairro. A coleta de dados nos dois bairros teve duas fases. Na primeira, as mães do bairro foram localizadas e entrevistadas nas creches e ainda nos domicílios, por indicação das agentes comunitárias de saúde (ACSs). No Bairro B, mais distante para o deslocamento dos pesquisadores, foi utilizada a Campanha Nacional de Imunização contra a Poliomielite para realizar a primeira fase das entrevistas. Após a realização de 80% da coleta, fez-se a primeira análise dos dados qualitativos, partindo-se em seguida para a segunda fase, que constou de entrevistas, todas realizadas no domicílio e gravadas. Nessa fase, todas as famílias foram localizadas com o auxílio das ACSs. Foi utilizado um roteiro constituído de dados relativos à identificação das mães e três perguntas-chave: como percebiam os cuidados para manter a saúde das crianças, o que faziam no domicílio quando as crianças ficavam doentes e com quem aprenderam os cuidados. Os dados de identificação das mães foram analisados com o auxílio do programa SPSS®. Para os dados qualitativos foi efetuada a análise de conteúdo.15 Primeiramente, foi feito o agrupamento das respostas das perguntas 116 principais relacionadas aos objetivos. Após a leitura exaustiva desse conteúdo, iniciou-se o agrupamento de elementos por semelhanças e contrastes, reunidos posteriormente em subcategorias e categorias. Na etapa seguinte, as categorias de cada bairro foram confrontadas, realizando-se uma síntese. A pesquisa teve como base a Resolução nº 196/1996, do Ministério da Saúde,16 sendo aprovada pelo Comitê de Ética da UFSC, sob o Protocolo nº 022/06. O anonimato foi resguardado com identificação numérica. Antes da cada entrevista, foi feito o esclarecimento da pesquisa e solicitada a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. RESULTADOS E DISCUSSÃO Perfil das mães No Bairro A, a média da faixa etária das mães foi de 32,10 anos e no Bairro B, de 31,02 anos. Quanto ao grau de escolaridade das mães, o 1º Grau incompleto predominou no Bairro A, com 62,1%. No Bairro B, essa porcentagem foi menor – 34,1%. Em relação ao número de filhos, a maioria das mães de ambos os bairros tinham de dois a três filhos (70,7% no Bairro A e 85,4% no Bairro B), e a religião católica foi representada pelo maior número de mulheres (60,3% e 61%), seguida da evangélica, com 24,1% no Bairro A e 22% no B. No que diz respeito à renda, uma ou duas pessoas no domicílio contribuíam. Quanto à situação de moradia, em ambos os bairros havia maior número de casas próprias. Dentre as mães do Bairro A, 62,1% nasceram e sempre viveram na área urbana e 37,9% nasceram e viveram a infância na área rural e depois migraram para a área urbana. No Bairro B, os dados assemelharamse, sendo 61% das mulheres da área urbana e 34,1% procedentes da área rural. A respeito do tempo de residência no bairro, houve o percentual de 48,3% das mulheres com mais de 10 anos de residência no Bairro A e 34,1% no Bairro B. Para manter a saúde das crianças, o cuidado nas doenças e as fontes de aprendizado Com relação ao que faz no dia a dia para manter a saúde das crianças, emergiu a categoria Cuidar bastante e as subcategorias: “a alimentação como a principal preocupação no cuidado da criança”; “cuidados com o vestuário e higiene”; “cuidados com o ambiente”; “cuidados com o comportamento das crianças”; “cuidados para evitar doenças”. Cuidar bastante é estar em casa sempre perto das crianças para vigiar a alimentação e o ambiente, evitar acidentes, friagem e cuidar da limpeza. As mães que não conseguem ficar perto e vigilantes desqualificam o próprio cuidado, como mostra a declaração: Não consigo segurar muito eles dentro de casa, sempre vão para o quintal, e aí caem e se machucam. (E15 do Bairro A) remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 114-120, jan./mar., 2011 Tais dados estão em consonância com os achados de um estudo, cujo objetivo foi conhecer como se dão os modos de cuidar da saúde das crianças até 6 anos, atendidas pelo Programa de Saúde da Família em um bairro do subúrbio de Salvador, na Bahia.11 As autoras analisaram seus achados no sentido de que existe uma gratificação que os cuidadores obtêm, que está ligada ao que é socialmente valorizado, existindo uma estreita relação entre as fontes de gratificação para homens e mulheres e as expectativas vinculadas à divisão sexual de trabalho. Em consonância com o estudo dessas autoras, nos resultados desta pesquisa, destaca-se que, no cotidiano dos dois bairros, a ideia de que as crianças pequenas precisam de cuidados o tempo todo se entrelaça com o que é próprio de uma “boa” mãe: aquela que está sempre vigilante, perto dos filhos. No tocante à subcategoria “a alimentação como a principal preocupação no cuidado da criança”, as mães disseram que seguem regras como: as crianças devem fazer todas as refeições e fazê-las dentro do horário. Enfatizam o aspecto da qualidade, na qual a alimentação deve ser variada e rica, principalmente em vitaminas. Certos cuidados relacionados à alimentação dos adultos, divulgados pela mídia, são colocados como uma prática saudável para as crianças – por exemplo, usar de “carne grelhada” e evitar gordura e açúcares. A preocupação com a alimentação oferecida na creche é outro aspecto que aparece nos depoimentos, bem como certa imagem positiva em relação ao seu controle: Na escola também tem dieta balanceada. Utilizam certos alimentos como feijão para prevenir a anemia e suco para não contrair gripe. Autores de um estudo na Bahia interpretam a frase dar alimento na hora certa como uma forma velada de dizer que não deve faltar comida para a criança em um contexto em que essa falta é uma realidade presente.11 Quanto à subcategoria “cuidados com a higiene e vestuário”, os dados demonstram que, no cuidado com o corpo, o banho é a necessidade apontada pela ampla maioria das mães, depois da alimentação, como o cuidado mais importante para a criança. O banho precisa ser diário e, para algumas mães, deve ser dado duas vezes ou mais. Somente o frio intenso faz com que o banho diário seja suspenso. Destacamse, também, os cuidados com a friagem, inserindo-se uma série de proibições para evitá-la: evitar banho em dia frio, não andar sem camisa, não andar com roupa molhada, não sair da cama quente e andar descalço em chão frio. Importante observar que, no sistema familiar de cuidado, as causas das doenças são compreendidas tendo múltiplos responsáveis. Assim, tanto a sujeira pode ser causa de doenças como o frio. Sobre a subcategoria “cuidados com o ambiente em que a criança vive”, são mencionados cuidados atrelados à limpeza, à segurança e a outros aspectos mais gerais. A segurança implica evitar perigos que vêm tanto de dentro quanto de fora da casa. Os cuidados para evitar os perigos que vêm de dentro da casa concernem a não deixar facas e produtos de limpeza em cima da mesa e não deixar cabos de panela para fora do fogão. Com maior frequência, foram mencionados os cuidados que devem ser evitados em relação aos perigos que a rua oferece, sendo que a rua é traduzida por aquilo que está fora da casa, principalmente fora dos limites do terreno da residência. No tocante à subcategoria “cuidados com o comportamento das crianças”, as mães entrevistadas percebem os filhos como seres que estão se desenvolvendo, e, para que isso ocorra de forma sadia, a criança precisa ter equilíbrio nas atividades e repouso. Precisa, sobretudo, ter o direito de brincar à vontade, passear, ir à praia, brincar em casa e fora de casa e não ficar muito tempo na frente da televisão, dormir na hora certa. Colocar a criança na creche também é um fator que leva ao seu melhor desenvolvimento. O bom relacionamento familiar, ficar junto o maior tempo possível, oferecer bastante atenção, carinho, conversar e não brigar com a criança também apareceram como importantes cuidados. Incentivar a criança na religião foi argumentado como uma forma de esta encontrar conforto para enfrentar o mundo lá fora. Com relação à subcategoria “cuidados para evitar doenças”, os dados revelam que administram tratamentos como dar “remédios para vermes” de seis em seis meses e xaropes para fortalecer. Utilizam inúmeros tipos de chás para dormir melhor e acalmar. Com relação à busca de cuidados fora do ambiente da casa e da família, as entrevistadas afirmaram que, para manter a criança sadia, é necessário acompanhamento médico e dentário. Em outro estudo,11 também se constatou que a relação com os serviços de saúde é um aspecto-chave no cuidado cotidiano das crianças pequenas. Em pesquisa realizada com mães de filhos até 1 ano de idade, constatou-se que elas percebem e valorizam o acompanhamento do crescimento e o desenvolvimento da criança.5 Quando as mães foram questionadas sobre como cuidam da criança quando elas ficam doentes, as categorias evidenciadas foram: Verificação da doença e de sua gravidade; Classificação dos sinais e sintomas. • Verificação da doença e de sua gravidade – Diante das doenças da criança, primeiramente são tomadas medidas de tratamento emergencial em que o mais comum é dar um chá, um banho e agasalhar: Primeiro dou chá e cuido para não pegar friagem. (E2 do Bairro B). No depoimento a seguir, outra entrevistada afirma que utiliza como primeiras medidas as caseiras e as das “antigas”: Quando meu filho fica doente, dou chá de marcela ou de hortelã; quando vejo que tem febre, faço uma pasta com fermento de pão e coloco na sola dos pés. (E15 do Bairro B) Em seguida, o mais comum é ver se a criança tem febre, e essa verificação se dá de todas as formas: com termômetro, com a mão e observando os sintomas. Das orientações dos profissionais, somadas às experiências já vividas por essas mães, emergem remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 114-120, jan./mar., 2011 117 Percepções das mães sobre os cuidados à saúde da criança até 6 anos alguns cuidados. A maioria das entrevistadas utiliza medicamentos alopáticos para diminuir a febre, dentre os quais paracetamol e dipirona, que já fazem parte da farmácia caseira. São medicamentos distribuídos nos centros de saúde, também facilmente adquiridos nas farmácias sem receita médica. Às vezes, essa medicação é complementada com banho morno e chás. Constatada a febre e efetuada a medicação, as condutas são muito variadas quanto à espera: algumas entrevistadas procuram seguir as orientações feitas pelos profissionais, ou seja, esperar três dias, outras esperam 24 horas, outras ainda administram a medicação para febre uma vez. Se a febre não baixar, buscam o setor profissional de cuidado. Algumas alegam que, em caso de febre, buscam imediatamente o médico: Com febre vou já para o médico, porque aconteceu uma vez que ela estava com febre e, quando fomos ver, já era pneumonia, eu não espero, mesmo sabendo que tem que esperar 3 dias. (E10 do Bairro A) • Classificação dos sinais e sintomas – Os sinais e sintomas são classificados em doenças leves e graves. Por doença leve, entende-se uma gripe sem muita repercussão sobre o estado geral, também chamada “gripezinha”, tosse, febre não elevada ou, como denominada, “febre no início” que dura menos de 24 horas, ou aquela que baixa com remédio. Nos sinais e sintomas do trato respiratório no seu início, quando considerados leves, a tentativa de cura com chás ainda é bastante utilizada, porém associada com medicação alopática. Atualmente, entre as entrevistadas, a nebulização já é um autotratamento rotineiro, sendo que é comum haver nebulizador na casa. Quando não há, pedem emprestado à vizinhança. Essa tendência pode ser verificada nos CSs dos dois bairros nas quais as salas de nebulização se tornaram praticamente vazias nos últimos anos. Nos casos de diarreia considerada leve, a utilização de soro hidratante se faz sem consulta médica. O que se considera grave é muito amplo, não havendo uma linha de demarcação clara entre o leve e grave, já que depende muito das experiências anteriores das entrevistadas e das relações, opiniões e suporte que recebem. Assim, uma entrevistada que costuma esperar quando a criança tem febre, depois de dois dias passa a considerar o caso grave. A febre muito alta e a febre que associam com “dor de garganta” são consideradas graves. O não saber o que é também é considerado grave. Essa classificação que situa os sinais e sintomas em leves e graves coincide com os já referidos em outros estudos.10,17 Como resultados relacionados ao terceiro objetivo do estudo, ou seja, identificar as fontes de aprendizagem dos cuidados de saúde às crianças, surgiram as categorias: dos familiares, aprendi sozinha, minha mãe é das antigas, os profissionais de saúde, os patrões e patroas e outras fontes. Os familiares são apontados como os principais orientadores, com destaque para as mães, depois as 118 irmãs mais velhas, as sogras, as avós, tias e amigas. Esse aprendizado com a mãe e os familiares foi adquirido pela observação e pela necessidade de cuidar de outras crianças da família. No entanto, muitas entrevistadas afirmaram que aprenderam, principalmente, por si mesmas. Nesse contingente estavam as mulheres procedentes da zona rural ou mesmo urbana do interior do Estado, que migraram para Florianópolis. Quando mencionavam que aprenderam sozinhas, significava que utilizaram o instinto, se virando com o que ia surgindo. Tanto as entrevistadas que relataram ter aprendido com os familiares como aquelas que disseram ter aprendido sozinhas lembravam-se dos ensinamentos e experiências familiares. Sobre a alimentação, as entrevistadas consideraram que o mais importante que aprenderam com as mães e familiares, e que procuravam manter no cuidado de seus filhos, é preparar os alimentos em casa, a denominada comida caseira, destacando-se a sopa, quando as crianças ficam doentes. A comida caseira tem, de certa forma, uma ligação com o “saudável” e com origens na “vida da zona rural”. O depoimento a seguir ilustra essa ideia: Eu nasci e me criei no sítio [...]. A mãe sempre criava a gente oferecendo bastante fruta, verdura, nada de bolacha recheada, nada dessas coisinhas assim, que as crianças comem muito hoje em dia, salgadinhos toda hora. (E35 do Bairro B) A concepção de natural – comida caseira e a valorização da vida no campo – também foi assinalada em estudo em vilas populares em Porto Alegre,18 quando vários informantes vincularam a saúde das pessoas ao fato de terem vivido na zona rural, dispondo, dentre outros fatores, de alimentação mais adequada. No que se refere aos cuidados com o corpo, as entrevistadas citaram o aprendizado que tiveram com a família, especialmente aqueles associados para evitar que a criança pegue friagem. Com respeito ao seguimento de normas de comportamento ligadas ao desenvolvimento infantil das crianças, buscam seguir o que aprenderam com os familiares, sobretudo quanto às regras de convivência como: não devem erguer a voz para os mais velhos; não falar alto e não se sentar na mesa sem camisa; seguir horários; e não deixar as crianças fazerem barulho enquanto outras pessoas estão dormindo. No entanto, algumas entrevistadas relataram que não quiseram aprender com a mãe, pois elas são das antigas, porque cuidar da criança hoje é muito diferente do que era antigamente. Tais entrevistadas consideram que sua situação de vida hoje é muito melhor do que a que tiveram na infância, deixando para trás, também, as lembranças e as práticas que já não se adaptam mais à vida atual. O setor profissional de saúde foi enfatizado como fonte de aprendizado, sendo que o profissional mais destacado foi o médico, especialmente o do Centro de Saúde, e, em remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 114-120, jan./mar., 2011 seguida, o ACS. As enfermeiras, auxiliares e técnicos de enfermagem não foram mencionados, apesar de atuarem diretamente com as entrevistadas, realizando consultas de enfermagem à criança, intercaladas com a consulta médica nos dois primeiros anos de vida e consulta à puérpera na primeira semana pós-parto, todas preconizadas pelo programa Capital Criança. Assim, para garantir a participação e autonomia da população, muito se tem insistido na criação de conselhos de saúde locais e municipais. No entanto, é importante que o modelo de autoatenção seja levado em conta quando se pensa na autonomia e no empoderamento, conceitos reiteradamente invocados para o funcionamento do atual modelo de saúde pública brasileiro. Em um dos bairros, as enfermeiras coordenam um grupo de gestantes. Além disso, tanto os enfermeiros quanto os auxiliares e técnicos de enfermagem, como integrantes das equipes da ESF, atuam fazendo visitas domiciliares às crianças consideradas de risco e faltosas no primeiro mês de vida. Ademais, têm contato constante na sala de imunização. As entrevistadas, porém, somente se referiram às enfermeiras da maternidade sobre as orientações da amamentação. As internações do primeiro filho em hospitais também foram destacadas como oportunidades de aprendizado de cuidados adquiridos com a equipe de saúde e de enfermagem, e que depois foi valiosa no cuidado dos demais filhos. Considerando que, na atual situação da progressiva implantação da ESF, o sistema profissional ligado à biomedicina está mais perto da população, entrando no território de abrangência e nos domicílios, é relevante atentar19 para o fato de os profissionais da atenção básica estarem se infiltrando em todas as instâncias da vida das famílias, que correm o risco de ser medicalizadas e receber conselhos segundo as pautas culturais desses profissionais. Portanto, os profissionais de saúde precisam se autoavaliar e reconhecer a existência da autoatenção.4 Os “patrões e as patroas”, ou seja, os empregadores das mães entrevistadas que trabalhavam como domésticas, foram mencionados como fonte de aprendizado. Assim, é possível inferir que o modo de cuidado das famílias de extrato médio influencia o cuidado nas classes populares e que muitas vezes isso passa despercebido aos profissionais de saúde. Outras ainda enfatizaram que tiveram acesso às informações sobre os cuidados pelo fato de terem trabalhado na Pastoral da Saúde, ou pela experiência de trabalhar em creches. Também foi relatada a televisão e, em menor número, livros e revistas. É importante destacar que as mães, nos dois bairros do estudo, na faixa etária média de 30 anos, com dois ou três filhos, com escolaridade predominante de 1º Grau incompleto, mantêm cuidados de autoatenção da saúde de seus filhos, advindos do setor popular, sendo, contudo, cada vez mais influenciadas pelo saber e pelas práticas da biomedicina. Quanto à referência minha mãe é das antigas, a adoção de medicamentos alopáticos como primeira medida de cuidado representa o afastamento do conhecimento e das práticas populares, a valorização e incorporação das orientações advindas da biomedicina tanto de profissionais de saúde da atenção básica como dos outros níveis de atenção. A Carta de Ottawa, com suas cinco estratégias – políticas públicas, ambiente saudável, reforço da ação comunitária, criação de habilidades pessoais e reorientação do serviço de saúde –, foca a promoção da saúde como processo que possibilita a indivíduos e comunidades ampliar o controle sobre os determinantes da saúde.1 Os resultados deste estudo mostram que, para promover tal autonomia, há necessidade também de reconhecer, resgatar e valorizar o sistema da autoatenção das famílias e da população no que tange à saúde infantil. Os profissionais de saúde, bem como os gestores das políticas de saúde, precisam reconhecer que existe autonomia nas ações de promoção da saúde, prevenção e manejo das doenças infantis, sendo realizadas e aprendidas muito além da biomedicina. Dos profissionais de saúde na ESF requer-se um conhecimento técnico generalista, de modo que reconheçam as diferentes especificidades das diversas faixas etárias, como a infantil. Ao mesmo tempo, há necessidade de levar em consideração que na experiência brasileira da implantação do SUS e da ESF, os profissionais de saúde tendem a desconhecer a dinâmica de interação sócio político cultural de espaços intra e extra domiciliares e dos núcleos familiares mantendo um terreno fértil para o etnocentrismo, o autoritarismo e a perpetuação de estranhamento com a clientela.3:144 Com relação às fontes de aprendizado, os resultados deste estudo estão em consonância com outro estudo6 em que os autores concluíram que o saber das cuidadoras de crianças é construído com os saberes dos setores profissional, científico e popular. Com respeito ao que aprendem com os profissionais de saúde, considerando que a enfermagem tem liderado as ações de educação em saúde nos dois bairros onde foi feita a pesquisa, especialmente no Bairro A, somente foi lembrada pelas informações recebidas por profissionais da enfermagem da maternidade e dos hospitais. Tais achados traduzem que, mesmo com a tentativa de um trabalho interdisciplinar empreendido na ESF, as mães entrevistadas continuam lembrando-se, sobretudo, da figura do médico, e agora também do agente comunitário de saúde. Essa invisibilidade da enfermeira já foi destacada em um estudo com puérperas sobre os cuidados com recém-nascidos.12 CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao final deste estudo, foi possível compreender que as mães entrevistadas mantêm a saúde de suas crianças com o cuidar bastante voltado para a vigilância na alimentação, no vestuário, no ambiente, no comportamento e nas doenças infantis. Pôde-se compreender que a autoatenção tem progressiva influência da biomedicina. As categorias Aprender sozinha remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 114-120, jan./mar., 2011 119 Percepções das mães sobre os cuidados à saúde da criança até 6 anos e Minha mãe é das antigas denotam essa mudança, alertando para mais pesquisas em outras realidades. O grande mercado de trabalho da enfermagem no Brasil está sendo a ESF, e as escolas de enfermagem têm se preocupado com a questão da promoção da saúde, mais especificamente com a educação em saúde. Logo, considera-se que foi significativo identificar a invisibilidade da enfermeira e da equipe de enfermagem como fonte de aprendizado das mães, exigindo mais pesquisas para entender o impacto do trabalho do enfermeiro. Na atenção básica na qual os profissionais de saúde prestam assistência longitudinal e, portanto, mantêm contato continuado com seus clientes, a autonomia das famílias deve ser valorizada, prestando atenção nas suas práticas de autoatenção. Dessa forma, os referidos profissionais, bem como os órgãos de formação, estão diante de uma tarefa importante: aliar conhecimentos de outras áreas, em especial da sociologia e da antropologia, com a formação biológica. Finalmente, é importante destacar que este estudo ficou limitado a entrevistas com as mães. Em estudos futuros, a observação participante e entrevistas com outros cuidadores poderão elucidar outras facetas do cuidado à criança. REFERÊNCIAS 1. World Health Organization. The Ottawa Charter for Health Promotion. Ottawa: WHO; 1986. 2. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Assistência à Saúde. Coordenação de Saúde da Comunidade. Saúde da Família: uma estratégia para a reorientação do modelo assistencial. Brasília (DF): MS; 1997. 3. Garnelo L, Langdon J. A antropologia e a reformulação das práticas sanitárias na atenção básica à saúde. In: Minayo MCS, Coimbra Junior C, organizadores. Críticas e atuantes Ciências Sociais e Humanas em Saúde na América Latina. Rios de Janeiro: Ed. Fiocruz; 2005. p.143-56. 4. Menendez E. Modelos de atencion de los padeciemntos: de exclusiones teóricas y articulaciones prácticas. Ciênc Saúde Coletiva. 2003; 8(1):185-208. 5. Castilho SG, Bercini O. Acompanhamento de saúde da criança: concepções das famílias do município de Cambira Paraná. 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Assim, procedeu-se, preliminarmente, a uma busca de referências em base de dados (LILACS, MEDLINE, PUBMED), utilizando como palavras-chave resiliência, saúde ocupacional, resiliência e ocupação, cuidados ao cuidador, resiliência e enfermagem, bem como solicitação online aos grupos de estudos existentes no Brasil. Por meio desse levantamento, foi possível localizar, de 1990 a 2003, 202 artigos sobre resiliência, sendo que a maioria refere-se a crianças em situação de pobreza. Na área da saúde, especificamente, cruzando a saúde do cuidador e resiliência, nenhum artigo foi encontrado. Entretanto, foi possível localizar, de 1993 a 2003, 24 artigos sobre cuidados ao cuidador, dos quais 3 referem-se à saúde do médico, e não do enfermeiro. Com base nessa revisão, podemos apontar algumas contribuições do estudo da resiliência: a compreensão do conceito de resiliência pode constituir uma poderosa ferramenta de transformação, permitindo um alento ao sofrimento humano, por encorajar atitudes mais positivas e adequadas diante das situações desafiadoras e estressantes do cotidiano; Baseando-se nas características propostas por Flach, Polk e Reivich e Shatté, é possível implementar programas preventivos e interventivos de cuidado ao cuidador, focando o desenvolvimento de aspectos pessoais (recursos internos), relacionais e de habilidades de comunicação, assim como os profissionais, na promoção da resiliência e, consequentemente, de saúde. Palavras-chave: Enfermagem; Resiliência; Saúde do Cuidador. ABSTRACT This study aims to build a theoretical framework to understand the relationship between the adversities at the work environment and the possibility of resilience promotion among nursing caregivers. Firstly a reference search on data bases (LILACS, MEDLINE, PUBMED) was conducted by using the key-words resilience, occupational health, resilience and occupation, caregivers care, resilience and nursing, as well as through on-line requests to existing study groups in Brazil. This investigation found 202 articles about resilience written between 1990 and 2003, most of them referring to children in poverty. In the health area by crisscrossing ‘caregiver’s health’ and ‘resilience’ no article was found. However, it was possible to find 24 articles about the caregiver’s care written between 1993 and 2004, in which 3 discussed the doctor’s health but not the nurse’s. From this review, some contributions to the study of resilience could be pinpointed: understanding the concept of resilience constitutes a powerful transformation tool because it allows some respite from human suffering. It encourages more positive and adequate attitudes in the face of challenging and stressful everyday situations. Based on the characteristics proposed by Flach, Polk and Reivich & Shatté, it is possible to implement preventive and intervening care programs addressed to the caregiver, focusing on the development of personal (inner resources) qualities, the relational aspects and the communication skills, as well as the professional aspect in resilience promotion and consequently, health promotion. Key words: Nursing; Resilience; Caregiver’s Health. RESUMEN Este estudio tiene como finalidad buscar subsidios teóricos para comprender la relación entre las adversidades del ambiente de trabajo y la posibilidad de incentivar la resiliencia en cuidadores enfermeros. En primero lugar se procedió a buscar referencias en las bases de datos (lilács, medline, pubmed), utilizándose como palabras clave resiliencia, salud ocupacional, resiliencia y ocupación, cuidados al cuidador, resiliencia y enfermería. También se solicitó dicha información on line a los grupos de estudios existentes en Brasil. De esta investigación se han podido hallar 202 artículos sobre resiliencia entre 1990 y 2003. La mayoría de ellos se refiere a niños en situación de pobreza. Específicamente, ningún artículo ha sido encontrado en el área de la salud que relacione salud del cuidador y resiliencia. Sin embargo, se han encontrado 24 artículos entre 1993 y 2003 sobre cuidados al cuidador de los cuales 3 se refieren a la salud del médico en particular y no a la del enfermero. A partir de esta revisión se han logrado apuntar algunas contribuciones del estudio de la resiliencia: que entender el concepto de resiliencia puede ser una importante herramienta de transformación pues podría aliviar el sufrimiento humano al estimular actitudes más positivas y adecuadas ante retos y situaciones estresantes del cotidiano. A partir de las características propuestas por Flach, Polk y Reivich & Shatté, es posible crear programas de prevención e intervención de cuidado al cuidador, enfocando el desarrollo de aspectos personales (recursos internos), relacionales y de habilidades de comunicación, así como de aspectos profesionales en la promoción de la resiliencia y, por consiguiente, de la salud. Palabras clave: Enfermería; Resiliencia; Salud del Cuidador. * Este artigo reflete parte da tese de doutorado de Maria de Fátima Belancieri, intitulada Promoção do processo de resiliencia em enfermeiras: uma possibilidade? Psicóloga. Doutora em Psicologia Clínica (Psicossomática e Psicologia Hospitalar) pela PUC-SP. Docente na Graduação e na Pós-Graduação na Universidade Sagrado Coração, Bauru-SP. Rua Christiano Pagani, nº 10-49 Apto 64-B Bauru-SP CEP. 17.047-144. Fone: (14) 3281-3518. E-mail: [email protected]. 2 Psicóloga. Doutora em Psicologia-USP-SP. Orientadora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – Núcleo Psicologia Hospitalar e Psicossomática. Rua Monte Alegre, nº 964, Perdizes, São Paulo-SP Fone: (11) 3672-8895. Endereço para correspondência – Rua Christiano Pagani, nº 10-49 Apto 64-B Bauru/SP CEP. 17.047-144. 1 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 121-128, jan./mar., 2011 121 A saúde do cuidador: possibilidades de promoção de resiliência em enfermeiros INTRODUÇÃO Atualmente, temos assistido a uma preocupação crescente com o processo de humanização na área da saúde, reconhecendo a importância de maior sensibilidade diante do sofrimento humano. Assim, os profissionais de saúde precisam assumir um novo modo de pensar e prestar os cuidados, o que ocorre muitas vezes sem preparo adequado, podendo este apresentar dificuldades na tentativa de se adaptar às novas tendências em saúde. Somado a isso, o ambiente de saúde, especialmente as instituições hospitalares, apresenta uma organização e condições de trabalho adversas, podendo comprometer a saúde do cuidador. Esperamos que esses profissionais que prestam cuidados ao outro tenham sempre uma atuação perfeita, a despeito das condições de estresse a que são submetidos no seu cotidiano de trabalho. Assim, a finalidade com este estudo é levantar subsídios para compreender a relação entre o estresse profissional, provocado pelas adversidades do tipo de cuidado prestado e a possibilidade de promover a resiliência nos cuidadores da saúde, especialmente os enfermeiros, visando à promoção da saúde e à qualidade de vida. Ao promover a resiliência naqueles que cuidam da saúde, podemos contribuir para que estes reflitam sobre suas possibilidades e limitações, bem como sobre a lida com as adversidades do trabalho e com a própria existência de modo mais saudável e construtivo. Acreditamos que somente com profissionais resilientes, saudáveis, preparados técnica e emocionalmente, poderemos alcançar a humanização na área de saúde, daí a necessidade de implementação de programas preventivos nas instituições, visando à saúde de quem cuida da saúde. Assim, para levantar tais subsídios, procedemos, preliminarmente, a uma busca de referências em base de dados (LILACS, MEDLINE, PUBMED), utilizando como palavraschave resiliência, saúde ocupacional, resiliência e ocupação, cuidados ao cuidador, resiliência e enfermagem, bem como solicitação online aos grupos de estudos existentes no Brasil (Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo). Por meio desse levantamento, foi possível localizar, de 1990 a 2003, 202 artigos sobre resiliência, sendo que a maioria deles refere-se a crianças em situação de pobreza. Na área da saúde, especificamente, cruzando a saúde do cuidador e resiliência, nenhum artigo foi encontrado. Entretanto, foi possível localizar, de 1993 a 2003, 24 artigos sobre cuidados ao cuidador, dos quais 3 são referentes à saúde do médico, e não do enfermeiro. Como podemos observar, a literatura sobre resiliência e saúde do cuidador em enfermagem é praticamente inexistente, sendo necessário abrir caminhos para que se possa sistematizar estudos sobre a temática possam ser sistematizados. Assim, neste artigo, organizamos os conceitos de saúde, saúde do cuidador, que permearão todo nosso estudo, visando clarificar e compreender a saúde do cuidador em enfermagem, bem como os conceitos de resiliência, 122 verificando a possibilidade de promover a resiliência no referido cuidador. Que benefícios poderiam ser extraídos do desenvolvimento da resiliência em cuidadores da saúde? CONCEITUAÇÕES: SAÚDE E CUIDADOS DE SAÚDE Para que possamos compreender a finalidade deste estudo, é necessário, primeiramente, definir o que se entende por saúde e por cuidados em saúde. O conceito de saúde, proposto em 1948 pela Organização Mundial de Saúde (OMS), revela-se como o completo bem-estar biopsicossocial, e não apenas a ausência da doença. 1 Kahhale² discute esse conceito sob a perspectiva sócio-histórica, ressaltando que, embora esse conceito signifique um avanço para as políticas de saúde, abrindo possibilidades de implementação de práticas preventivas, por outro lado, apresenta limites, ou seja, raramente se consegue alcançar o completo bem-estar o tempo todo em nossa existência. Para a autora, essa definição é utópica, uma vez que o ser humano se constitui socialmente, sendo ao mesmo tempo produto e produtor de sua própria sobrevivência. Assim, a saúde é um processo dinâmico, ativo, de busca de equilíbrio, não sendo possível falar em saúde plena. Será sempre relativa e integrativa das dimensões do humano (física, psíquica e social). Portanto, saúde é a busca constante de equilíbrio do homem como um todo, inserido no tempo e no espaço, produzida socialmente.² Várias são as implicações que uma opção metodológica pode trazer para os conceitos de saúde e cuidado. Se nos reportarmos a um referencial naturalista, positivista, a saúde estaria relacionada à ausência de doença. Dessa forma, a coletividade estaria segmentada em sujeitos doentes e saudáveis, colocando-se em pauta o fenômeno da cura e, consequentemente, da doença como fator primordial para a intervenção, negando-se a condição existencial do homem. Fenomenologicamente, saúde e doença são compreendidas “como manifestações humanas autênticas, esclarecedoras do modo de ser da pessoa naquele momento de sua existência”,³ estando a atenção voltada para o que existe de saudável em cada ser e na coletividade. Nessa perspectiva, o conceito de cura deixa de ser compreendido como livrar-se da doença, conquistando um perfeito equilíbrio orgânico, mental e social, mas com o sentido de cuidar. É na relação com o mundo e com os outros que o ser constrói seu modo de existir, sendo afetado e cuidado nas relações que estabelece com o outro. Nesse sentido, essas ideias se assemelham às de Kahhale,² que compreende o fenômeno saúdedoença como uma condição existencial, em que há possibilidades e limites, tendo o homem de buscar constantemente a superação das contradições que remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 121-128, jan./mar., 2011 fazem parte de sua existência, como a saúde e a doença, a vida e a morte... Para Heidegger,4 a cura pode ser compreendida sob dois sentidos existenciais: o primeiro como um “esforço angustiado” e outro, como “cuidado”. Neste estudo, tomamos o segundo sentido, ou seja, o cuidado, termo que apresenta nove acepções: deriva do latim cogitare (cuidar), que significa “ter cuidado, tratar, cuidar da saúde”; “ter cuidado consigo mesmo, com sua saúde, a sua aparência ou apresentação”. Encontramos, ainda, a palavra cuidador, que deriva de [cuidar + dor], referindose “àquele que cuida”.5 O cuidado, portanto, tem o sentido de tratar, cuidar da saúde, sendo papel daquele que cuida cuidar da dor do outro, acolhendo e sofrendo junto com ele. É uma atitude ética e estética de viver, consistindo no respeito à dignidade humana, sendo sensível ao sofrer do outro.6 Na perspectiva fenomenológica, o cuidado deve atender às expectativas e às necessidades daqueles que são cuidados e de toda equipe de cuidados, sendo que estes devem ter consciência de seus limites e possibilidades, exigindo, portanto, contínua disposição para aprender e melhorar sempre. Esse processo implica aprender a interagir e ajudar o outro a crescer. Para isso, alguns princípios são exigidos, como: “conhecer” o outro, suas características, expectativas, limites e possibilidades; “compreender” a si mesmo; conhecer a forma que dispensa os cuidados, sabendo o momento de avançar ou recuar; “ter paciência e confiança”, respeitando o ritmo e o livre-arbítrio de quem é cuidado; “ter humildade”, aprendendo que o crescimento do outro é o mais importante; “ter esperança e coragem”7, acreditando nas possibilidades... Mas quem pode ser chamado de cuidador? Em saúde podemos dividir os cuidadores em dois grupos: o primeiro está relacionado aos elementos da equipe de saúde e o segundo, aos familiares, amigos, ou seja, aqueles leigos que acolhem e cuidam da dor do outro, sem que tenham uma qualificação específica ou remuneração. Nosso interesse específico recai sobre os enfermeiros, que têm no seu exercício profissional o cuidado como essência. A SAÚDE DO CUIDADOR ENFERMEIRO Os cuidados de enfermagem exigem profissionais preparados, equilibrados e isento de falhas, uma vez que trabalham com vidas humanas. Nesse ambiente de perfeição, eles se deparam com inúmeras limitações, inerentes à própria condição de ser humano, bem como com as condições e organização do trabalho, podendo levar o cuidador a adoecer, em razão do intenso estresse a que é submetido. Essa tese já foi comprovada por diversos autores, como Belancieri,8-10 Krahl e Saupe,11 Stacciarini e Tróccoli,12 Bianchi13 e Ferreira.14 Muitas investigações são encontradas sobre o cuidar do outro, nas diferentes especialidades médicas, porém o autocuidado é pouco investigado. Entretanto, pesquisando sobre o assunto, encontramos o Programa Integrado de Pesquisa Cuidando e Confortando (PIP C&C), criado em 1993, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis-SC, no qual uma das suas linhas de pesquisa se refere aos cuidados ao cuidador, visando produzir subsídios para a implementação de ações e programas destinados ao processo do cuidar daquele que cuida e de quem é cuidado. Com base nesse grupo de estudos, foi possível localizar cinco artigos, que se referem especificamente ao significado da experiência do cuidar e às consequências para a saúde do cuidador. No trabalho desenvolvido com nove elementos da equipe de enfermagem do Setor de Pediatria Oncológica, ressalte-se a necessidade de estratégias de enfrentamento para lidar com a realidade vivida pelas cuidadoras em situações ambíguas que envolvem suas dificuldades e potencialidades diante das relações de trabalho e reações do cuidador diante dos cuidados ao paciente.15 Com os cuidadores de enfermagem da UTI Pediátrica encontramos dois aspectos da experiência do cuidar: a realização pessoal e o sentimento de impotência. O primeiro, quando a assistência apresenta resultados positivos e o segundo, quando, em diversas situações, é impossível a cura dos assistidos. Associados a esse sentimento de impotência estão o descontentamento com atividades para resolução de ordem administrativa, a falta de incentivo para manter a qualidade de seu trabalho e o não atendimento às suas aspirações por melhores condições de trabalho.16 É importante ressaltar que, neste estudo, as cuidadoras enfatizam o cuidado do outro, mas não se reconhecem como objeto de cuidados. Para essas cuidadoras, o cuidado implica refletir sobre sua condição de mulher, encontrar a si mesma e permitir a expressão de sua feminilidade; conviver com as pessoas que ama e que lhe dão prazer e bem-estar, bem como encontrar tempo e espaço para maior conforto, tranquilidade e repouso, evitando preocupações. Em outro estudo, destacam-se algumas medidas simples para evitar o desgaste físico e emocional associado ao trabalho como cuidador de pacientes oncológicos. Ressalte-se que os profissionais devem ser estimulados a refletir sobre sua atuação, estabelecendo uma relação mais criativa e amorosa consigo mesmos e com os outros, no sentido de se fortalecerem. Fortalecer-se significa “despertar o poder que existe em cada ser humano, o qual habilita a funcionar em seus papéis; implica reconhecer, reforçar, fortificar, valorizar e respeitar esta capacitação no ser humano”. E para que isso ocorra é fundamental o autoconhecimento e a autovalorização.17 Ao relatar sua experiência em oficinas de criatividade, sensibilidade e expressividade, Lima18 ressalta que tanto os cuidadores como os usuários dos serviços de saúde são ímpares, complexos, frágeis, sensíveis e finitos. Assim, o cuidado humano da e com a enfermeira é indispensável ao trabalho, pois, para a autora, parece impossível cuidar do outro quando se está desorganizada consigo mesma remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 121-128, jan./mar., 2011 123 A saúde do cuidador: possibilidades de promoção de resiliência em enfermeiros e com o próprio corpo. Costenaro19 complementa revelando a necessidade de assistência psicológica à equipe de enfermagem, visando melhorar as relações interpessoais, bem como amenizar o estresse advindo do ambiente de trabalho. Visando à compreensão das concepções do cuidar do outro e de si mesmo com uma equipe de enfermagem que lida com portadores de HIV, foi revelado que o processo de cuidar e o autocuidado ainda estão centrados num modelo biomédico de atenção e com interferências organizacionais no processo de trabalho. Para os cuidadores, cuidar do outro significa educá-lo para o autocuidado ou para uma relação de dependência. O cuidar de si mesmo ainda é pouco significativo na existência desses cuidadores.20 Diante do exposto, observamos que, na experiência do cuidar, os cuidadores parecem apresentar sentimentos contraditórios: se por um lado expressam realização pessoal, por outro, vivenciam sentimentos de impotência diante dessa tarefa. E, mesmo necessitando de cuidado em razão das inúmeras adversidades que enfrenta no dia a dia de trabalho, o autocuidado é pouco significativo, não sendo, ainda, alvo de preocupação na existência do cuidador. O cuidador da enfermagem é um ser humano com problemas e dificuldades como qualquer outro, portanto, vulnerável como qualquer ser humano, necessitando de cuidados para fortalecer as estratégias de enfrentamento diante das adversidades, sejam elas pessoais, sejam profissionais, de forma positiva e adequada. Acreditamos que uma forma de fortalecer essas estratégias de enfrentamento é promovendo a resiliência. A PROMOÇÃO DA RESILIÊNCIA A origem do termo “resiliência” reside nos estudos da física e engenharia, referindo-se à capacidade que um material tem ao absorver energia sem sofrer deformações permanentes.21 Na medicina, nas ciências do trabalho e na psicologia, esse termo tem sido compreendido como a capacidade de alguém se recuperar, após ter vivenciado circunstâncias adversas e ameaçadoras tais como guerras, morte de pessoas queridas, doenças graves, maus tratos, abandono na infância e desemprego e, apesar de toda a dor e sofrimento, conseguir superar o problema e continuar a vida numa linha de desenvolvimento e bem-estar, consigo mesmo e em sua comunidade.22 Na área de humanas, especificamente na psicologia, um dos precursores no estudo da resiliência foi Michael Rutter, que a definiu como a habilidade de superar as adversidades, estando relacionada às características do indivíduo e do ambiente, sendo, portanto, relativa, ou seja, varia de acordo com as circunstâncias.21, 23 Na psicologia, encontramos uma diversidade de conceituações, ora referindo-se a uma qualidade, ora 124 a uma capacidade da pessoa ou de grupos de pessoas de “resistir a situações adversas sem perderem o equilíbrio inicial, isto é, a capacidade de se acomodarem e reequilibrarem constantemente”.24 Já em outras situações é considerada como um processo que excede o simples superar, revelando uma capacidade para enfrentar, vencer e ser fortalecido ou transformado por experiências de adversidade, podendo ser promovido desde o nascimento.25 Assim, podemos observar que o conceito de resiliência pressupõe uma habilidade ou capacidade do ser humano de resistir a situações ameaçadoras ou estressantes, conseguindo superá-las ou até mesmo sair mais fortalecido da situação vivida. Mas compreender o conceito de resiliência como uma capacidade humana pressupõe um traço herdado? Qual o papel do ambiente? Da cultura? A capacidade de resistência pode impedir o adoecimento? Que fatores contribuem para que uma pessoa seja ou não resiliente? Como desenvolvê-la? Como se pode observar, há muitos pontos de interrogação que precisam ser desvendados. Visando explorar mais detalhadamente o conceito e as principais características do fenômeno em estudo, realizamos um levantamento de investigações para melhor compreensão da temática, iniciando-se, entretanto, com um breve histórico do surgimento do termo. Embora os primeiros estudos envolvendo essa capacidade de sobreviver às adversidades datem da década de 1960, Oliveira22 e Vanistendael26 ressaltam que o termo “resiliência” foi introduzido sistematicamente, em estudos práticos, pela Fundação Bernard Van Leer, em 1991, considerada a primeira organização não governamental (ONG) dos Países Baixos, Lesotho. Em 1992, a Bureau Internacional Catholique de L’Enfance (BICE), em Genebra, adotou, em Assembleia Geral, por unanimidade, a resiliência como tema de trabalho (“Resiliência da criança e da família”). Nessa ocasião, o professor Friedrich Losel discutiu o conceito, teoricamente, pela primeira vez. A BICE, sem dúvida, foi a primeira ONG a levar a resiliência do mundo anglo-saxão ao mundo latino (Uruguai), sendo ainda o organizador do primeiro seminário sobre resiliência, em 1993, em Nova York.26 Com a introdução da resiliência nos trabalhos da BICE, houve grande evolução, e conceitos teóricos-científicos passaram a ter algumas aplicações práticas. No Brasil, os estudos sobre resiliência têm inicio na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo-SP em 1993, por meio do projeto da Organização Panamericana de Saúde e Universidade de Birmingham, que envolveu vários países. O estudo “Promoção de Resiliência em Crianças”, coordenado pela Dra. Edith Grotberg, teve como finalidade “obter dados sobre ações que diferentes culturas utilizavam para estimular a resiliência, isto é, a capacidade de sobrepor-se a situações adversas”.27 Posteriormente, outros grupos foram se interessando e sistematizando estudos sobre a temática, como grupos de estudos da Universidade Federal do Rio remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 121-128, jan./mar., 2011 Grande do Sul, da Universidade Municipal de Taubaté, da Universidade de Maringá-PR e da Universidade Sagrado Coração de Bauru/SP. Nesta última, o Grupo de Estudos e Pesquisa em Psicologia Hospitalar (GEPPH-USC) tem como uma das linhas de pesquisa e intervenção “Estudos sobre o estresse e resiliência em grupos de saúde”. A maioria das investigações sobre resiliência tem como foco a infância, buscando, principalmente, compreender como crianças que se desenvolveram em circunstâncias adversas, em situações de abandono e de privações, conseguem alcançar a idade adulta saudáveis, sem graves desequilíbrios psicológicos.28-34 Esses dados são confirmados por Souza 35 em levantamento realizado em bases de dados da Bireme (MEDLINE, LILACS), no período de 1966 a 2003, e da American Psychological Association (APA), entre 1977 e 2003, encontrando-se nessa base de dados mais de 1.800 artigos publicados sobre o assunto. De acordo com essa autora, os estudos sobre resiliência concentram-se na infância, havendo um aumento significativo entre 1985 e 1993. A partir dessa data, aumentaram as publicações com relação aos adolescentes. A partir de 1999, novas temáticas de estudo surgiram, como o racismo, a religião, a violência familiar, a violência política e a homossexualidade.35 Revela a autora, ainda, que as temáticas mais investigadas referem-se a sobreviventes da guerra e do holocausto, fatores protetores e de risco relacionados à saúde, saúde do cuidador de doentes, violência e etnia, estresse ambiental, fatores relacionados ao desempenho acadêmico, abuso sexual na infância, exposição de afro-americanos à violência familiar, uso de drogas por adolescentes, alcoolismo, estresse familiar, divórcio, estudos com idosos e violência contra a mulher, dentre outros.35 Investigando a resiliência em crianças submetidas a maus tratos e abandono, Rutter,36 pediatra inglês, ressalta a importância de circunstâncias que antecedem ou sucedem eventos estressores ou traumáticos, bem como a capacidade em manter a estabilidade homeostática, em termos gerais, do bem-estar biológico, psicológico e social. Nos estudos iniciais, pensava-se em“crianças invulneráveis”, descritas por Anthony como “bonecas de aço”, ou seja, crianças capazes de suportar pressões extremas.37 Não é a evitação dos riscos, porém, nem a invulnerabilidade que está presente, mas, sim, estratégias ou mecanismos de enfrentamento dos riscos e das adversidades.36 O conceito de invulnerabilidade revelou-se inadequado, uma vez que parecia implicar a resistência absoluta às adversidades, o que parece impossível aos seres humanos, uma vez que a resistência é relativa, estando vinculada ao tempo e às circunstâncias. Há, ainda, segundo Rutter, a importância dos momentos de transição dos indivíduos, bem como a capacidade deles de adaptação a um estilo existencial mais adequado.36 Dessa forma, o conceito denominado, primeiramente, invulnerabilidade, é substituído por um conceito mais apropriado – a resiliência. O autor considera, ainda, em seus estudos, os fatores de risco e os de proteção, cujas origens podem ser externas, quando se referem ao ambiente, ou internas, quando se referem à suscetibilidade ou vulnerabilidade a experiências adversas.36 Os fatores de risco pressupõem “relacionar-se com toda a sorte de eventos negativos de vida, e que, quando presentes, aumentam a probabilidade de o individuo apresentar problemas físicos, sociais ou emocionais”.21 Situações consideradas estressoras durante o desenvolvimento humano podem constituir fatores de risco, como separações conjugais, perdas, abuso sexual ou físico, pobreza, holocausto, desastres e catástrofes naturais, guerras, dentre outros. Há que se considerar, porém, que esses fatores poderão não constituir risco, pois devem ser pensados como processo, e não como uma variável em si. Os fatores de proteção referem-se a “influências que modificam, melhoram ou alteram respostas pessoais a determinados riscos de desadaptação”. Três aspectos devem ser considerados: a) que um fator de proteção não constitui, necessariamente, um acontecimento agradável; b) que os fatores de proteção podem não apresentar efeito algum na ausência de um elemento estressor, uma vez que sua função é modificar respostas a situações adversas; c) que os fatores de proteção não se caracterizam somente por experiências, mas referem-se, também, a qualidades do indivíduo como pessoa.38 O autor revela, ainda, que contribui para o processo de proteção quatro mecanismos: a) reduzir o impacto do risco, alterando a exposição do indivíduo a condições estressantes; b) reduzir as reações negativas que se sucedem à exposição do indivíduo a situações de risco; c) estabelecer e manter a autoestima e a autoeficácia por meio de relações de apego seguras e incondicionais, bem como o cumprimento de tarefas com sucesso; d) criar oportunidades nos “pontos de virada”, ou seja, modificar a trajetória durante o ciclo vital para uma direção mais positiva. Os fatores de proteção, constituídos pelos atributos pessoais, o ambiente familiar e a influência da sociedade podem prover os indivíduos com a resiliência necessária. Os aspectos que auxiliam a proteger as crianças das adversidades residem na “maternagem” competente, que se refere ao atendimento às necessidades da criança, oferecendo-lhe modelos efetivos de comportamento, bem como favorecer o desenvolvimento da criatividade e da expressividade; ter boas relações com as pessoas que lhe prestam os cuidados; boa rede de relações informais, bem como apoio social formal, como a educação; atividades religiosas e ter fé.39 Diante do exposto, cabe uma questão: o que é ser resiliente? Diversos autores buscaram sintetizar as características inerentes às pessoas classificadas como resilientes, revelando seus atributos. Embora acreditemos que os aspectos singulares estejam presentes na resiliência, nós a compreendemos como um processo, construído histórica e socialmente. Portanto, a resiliência remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 121-128, jan./mar., 2011 125 A saúde do cuidador: possibilidades de promoção de resiliência em enfermeiros poderá ser desenvolvida ao longo de nossa existência, considerando-se a forma como pensamos e agimos diante das condições a que somos submetidos. Assim, essas características levantadas pelos autores poderão nos auxiliar como indicadores na elaboração de programas, visando à promoção da saúde, de modo que os sujeitos possam apropriar-se de sua condição de saúde, construindo novos sentidos e ações, buscando a superação e a transformação das condições atuais de saúde a que estão submetidos. Baseado em observações realizadas com amigos e pacientes, Flach39 elaborou o perfil do sujeito resiliente, destacando as seguintes características: ter forte e flexível senso de autoestima; independência de pensamento e ação – não ter medo ou relutância de depender dos outros; habilidade para dar e receber, nas relações interpessoais, e um grupo estável de amigos pessoais; alto nível de disciplina pessoal e de responsabilidade; reconhecimento e desenvolvimento dos próprios talentos; abertura e receptividade a novas ideias; disposição para sonhar; grande variedade de interesses; apurado senso de humor; percepção dos próprios sentimentos e dos sentimentos dos outros, bem como a capacidade de comunicá-los de forma adequada; capacidade de tolerar o sofrimento; concentração e forte compromisso com a vida de modo que as experiências pessoais possam ser interpretadas com significado e esperança, até mesmo nos momentos mais obscuros da existência. O autor enfatiza que a resiliência é uma força que a maioria das pessoas pode desenvolver com perseverança e prática. Esse fenômeno não é apenas psicológico, mas também físico, uma vez que ser resiliente demanda que nossos processos fisiológicos, ativados pelo estresse funcionem efetivamente. Em revisão da literatura sobre resiliência, realizada de 1980 a 1995, Polk40 descreveu as características comuns às pessoas resilientes, classificando-as em padrões disposicionais, relacionais, situacionais e filosóficoreligiosos. Padrões disposicionais referem-se àqueles que a pessoa tem à sua disposição, podendo fazer uso a qualquer tempo, como o histórico de boa saúde física e mental; a competência atlética; o carinhoso e o afetivo; características positivas do temperamento; tranquilidade, flexibilidade; alta capacidade intelectual; competência pessoal; senso de domínio e controle; autoestima; autodisciplina; autovalorização global; senso de autovalorização; crença na própria eficiência; senso de autonomia; esperança; dentre outros. Em relação aos padrões relacionais, o indivíduo deve ter um profundo comprometimento com os relacionamentos; ter um confidente, de modo que os relacionamentos sejam significativos; ter ampla rede social; ser tolerante com as diferenças individuais; ter habilidades de comunicação adequadas; alto nível de atividades, interesses e hobbies variados; alto nível 126 educacional; ter habilidades sociais na interação com a família, amigos e outros; ter responsividade positiva com os outros; habilidade de agir e pensar separadamente dos outros; dentre outros. Os padrões situacionais revelam que o indivíduo deve lutar ativamente, orientado para o problema; deve ser capaz de fazer uma avaliação cognitiva precisa do estresse e de lidar com ele; habilidade de perceber modificações no mundo e de responder a elas; deve ter habilidade de resolver problemas e de negociar soluções, de fazer avaliação realista das situações; ter expectativa realista das consequências de seus atos; estabelecer metas; estabelecer padrões de alto desempenho para si próprio; ser reflexivos ao se defrontar com novas situações; ter curiosidade e ser explorador; ser perseverante e persistente; ter flexibilidade na resolução de problemas; ter habilidade de se adaptar às circunstâncias nas mudanças; ter o desejo de utilizar seus talentos ao máximo; dentre outros. E os padrões filosóficos ou religiosos se referem à reflexão sobre si mesmo e os eventos; à crença de que a vida possui significado; à crença de que é possível se encontrar significados positivos nas experiências; à fé na formação de uma visão mais positiva do mundo; ao forte senso de integridade pessoal; às mudanças ao longo do tempo; dentre outros. Já Reivich e Shatté41 relatam que sete fatores constituem a resiliência. O primeiro fator consiste na regulação das emoções, caracterizado como a capacidade de manter-se calmo diante das adversidades. A autorregulação é fundamental para que vínculos mais positivos na vida pessoal ou no trabalho sejam estabelecidos, bem como para manter a saúde física. O controle de impulsos está associado ao comportamento de agir impulsivamente, comprometendo o ajuste das emoções. O controle de impulsos e a regulação das emoções estão intimamente relacionados. O otimismo como indicador de resiliência implica a crença de que temos a capacidade de lidar com as adversidades presentes e aquelas que poderão surgir futuramente. As pessoas otimistas acreditam que as coisas podem mudar para melhor. Têm esperança no futuro e acreditam que têm o controle e a direção da própria vida. O otimismo e a autoeficácia, geralmente, caminham de mãos dadas, despertando a motivação necessária para a procura de soluções e para continuar se empenhando para melhorar a situação. A análise causal refere-se à capacidade das pessoas de identificar e avaliar com precisão as causas de seus problemas. Apresentam flexibilidade cognitiva e conseguem significar todas as causas de adversidades que enfrentam, sem cair na armadilha de qualquer estilo de explicação específico. São realistas e não culpam reflexivamente outras pessoas por seus erros. Não gastam o tempo ruminando sobre eventos ou circunstâncias que estão fora do controle delas. remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 121-128, jan./mar., 2011 A empatia refere-se à capacidade de perceber os sinais não verbais, relativos a estados emocionais de outras pessoas. A autoeficácia representa o senso de ser eficaz na resolução dos problemas de forma competente e ser bem-sucedido. No trabalho, as pessoas que têm fé em sua capacidade de resolver problemas emergem como líderes. E o sétimo fator, a exposição, é a capacidade de a pessoa de se expor, explorando seus verdadeiros limites, buscando a atenção e o investimento de outras pessoas. De acordo com os autores pesquisados, embora alguns citem que a resiliência possa ser desenvolvida no decorrer da existência humana, a maioria foca nos atributos individuais, como se fosse uma característica natural da pessoa. Reiteramos, entretanto, que, de acordo com a concepção de homem que assumimos, o ser humano não nasce pronto, com todos os atributos necessários à sua sobrevivência, mas é um ser ativo, que se constrói como pessoa, com base nas relações que estabelece com a realidade. Assim, acreditamos que a resiliência possa ser desenvolvida quando o sujeito se apropria de sua realidade e a transforma, transformando a si mesmo, num movimento dialético. As características propostas por Flach,39 Polk40 e, principalmente, Reivich e Shatté 41 poderão nos auxiliar como indicadores na promoção da resiliência, contribuindo para uma prática de saúde compromissada com a realidade social. Embora a maioria das investigações encontradas esteja centrada na fase infantil, principalmente em crianças de rua, acreditamos que outras possibilidades de estudo poderão ser abertas – por exemplo, na área de saúde. Considerando que essa capacidade pode ser aprendida, acreditamos, assim como Jesus et al.,20 que “educar para o autocuidado” é imprescindível para que o cuidador da enfermagem amenize o próprio sofrimento físico e emocional, promovendo, dessa forma, um ambiente de trabalho mais saudável e harmonioso. Enfrentar os desafios, ao longo da vida, de maneira positiva e obter uma resposta de que tais esforços estão funcionando talvez seja o mais importante elemento da resiliência, ou seja, ser capaz de encontrar um significado e um propósito nas adversidades, vislumbrando uma existência mais saudável e com qualidade. CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante do exposto, voltamos à questão inicial: É possível promover resiliência em cuidadores da enfermagem? Que benefícios poderiam ser extraídos do desenvolvimento da resiliência nesses cuidadores? Com base nessa revisão, podemos apontar algumas contribuições do estudo da resiliência: 1. Compreender o conceito de resiliência pode constituir uma poderosa ferramenta de transformação permitindo um alento ao sofrimento humano, por encorajar atitudes mais positivas e adequadas diante das situações desafiadoras e estressantes da existência, mediante um engajamento ativo e a busca de respostas mais saudáveis que possam reconduzir o indivíduo a uma existência mais integrada em suas dimensões biológica, psicológica e social. 2. A importância da investigação da promoção da resiliência em cuidadores da enfermagem reside na possibilidade de implementar programas de cuidados, conscientizando-os sobre a utilização de seus recursos internos para promover uma existência mais sadia e com qualidade. 3. Com base nas características propostas por Flach39, Polk40 e Reivich e Shatté,41 é possível implementar programas preventivos e interventivos de cuidado ao cuidador, focando o desenvolvimento de aspectos pessoais, relacionais e de habilidades de comunicação, assim como os profissionais na promoção da resiliência. Com este artigo, esperamos abrir caminhos para que novos estudos sejam realizados, possibilitando a instrumentalização para maior exploração dos cuidados de si e do outro, bem como o estabelecimento de critérios para a seleção de futuros cuidadores, mais conscientes de seu papel no cuidado do outro e comprometido com a humanização na assistência à saúde. Para finalizar, retomamos o conceito de saúde de Kahhalle,2 pontuando que resiliência e saúde fazem parte de um mesmo processo, ou seja, o homem deve buscar a superação das contradições vividas durante toda a sua existência. Assim, cuidadores da saúde, ou não, se beneficiariam muito de programas de promoção da resiliência, refletindo sobre suas possibilidades e limitações, sendo mais flexíveis diante das adversidades da vida e do trabalho, buscando sempre o significado de tudo o que é vivido. REFERÊNCIAS 1. World Health Organization-WHO. Bulletin of the World Health Organization. Geneva: WHO; 2005 [Citado 2005 maio 30]. Disponível em: http:// www.who.int. 2. Kahhale EMSP. Psicologia da Saúde: em busca de uma leitura crítica e de uma atuação compromissada. In: Bock AMB, organizadora. A perspectiva sócio-histórica na formação em psicologia. Petrópolis, RJ: Vozes; 2003. p. 162-91. 3. Santos DL, Pokladek DD. Fenomenologia e ciência da saúde. In: Castro DSP, Pokladek DD, Ázar FP, Piccino JD, Josgrilberg RS. Existência e Saúde. São Paulo: UMESP; 2002. p. 164-70. 4. Heidegger M. Ser e tempo. Petrópolis: Vozes; 1997. 5. Ferreira ABH. Novo dicionário da língua portuguesa. 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Enferm.;15(1): 121-128, jan./mar., 2011 CURSOS DE ESPECIALIZAÇÃO E RESIDÊNCIA EM SAÚDE DA FAMÍLIA: UMA ANALISE SOBRE OS ENFOQUES DE AVALIAÇÃO SPECIALIZATION COURSES AND RESIDENCY IN FAMILY HEALTH CARE: AN ANALYSIS ON THE EVALUATION APPROACHES CURSOS DE ESPECIALIZACIÓN Y RESIDENCIA EN SALUD DE LA FAMILIA: ANÁLISIS SOBRE LOS ENFOQUES DE EVALUACIÓN Tatiane Aparecida Moreira da Silva1 Lislaine Aparecida Fracolli2 Anna Maria Chiesa3 RESUMO A transformação da assistência a saúde no Brasil passa pela formação de profissionais que podem estar preparados para atuar na Estratégia Saúde da Família (ESF). Trata-se de uma revisão teórica que teve como objetivo analisar como os cursos de Especialização e Residência em Saúde da Família foram avaliados. As análises aqui apresentadas tiveram por base trabalhos publicados na base de dados LILACS, que apresentavam resultados de avaliações relativas aos cursos de formação para a Estratégia Saúde da Família. Como resultado, concluiu-se que as avaliações apresentadas encaixavam-se em quatro categorias. Formação/Capacitação oferecidas aos profissionais, transformações na Prática do profissional, Perfil do profissional que frequenta o curso e Satisfação discente quanto ao curso. Foi possível perceber que, mesmo diante da importância da capacitação dos profissionais, existe uma carência na avaliação desses cursos no que tange o impacto deles para a mudança dos modelos e das práticas assistenciais. Palavras-chave: Saúde da Família; Educação de Pós-Graduação em Enfermagem; Avaliação ABSTRACT Transformation in the Brazilian health assistance model depends on the professional’s education in Family Healthcare Strategy (FHS). This study is a theoretical review aimed to examine how specialization courses and residency in family healthcare were evaluated. The analyses presented here were based on papers published in LILACS that offered evaluation results of the training courses in Family Health Strategy. The results revealed that the evaluations studied fit in four categories: Formation/Qualification offered to the professionals, the transformations in the Professional Practices, Profile of the Professional who attends the course and the Student Satisfaction Rates regarding the course/residency. The results indicated that even though the professional’s qualification is of the utmost importance the courses impact on changing assistance models and practices are not sufficiently evaluated. Key words: Family Health; Post graduation Education in Nursing; Evaluation. RESUMEN La transformación de la atención a la salud en Brasil está vinculada a la educación de los profesionales para actuar en la Estrategia Salud de la Familia (ESF). El presente artículo es una revisión teórica llevada a cabo con el objetivo de analizar la evaluación de los cursos de Especialización y Residencia en Salud de la Familia. El mismo se basa en trabajos publicados en LILACS que muestran los resultados de las evaluaciones de los cursos de formación para la Estrategia Salud de la Familia. Los resultados revelan que las evaluaciones se encuadran en cuatro categorías: Formación/capacitación ofrecida a los profesionales, las transformaciones en la Práctica del Profesional, Perfil del Profesional que asiste el curso y Satisfacción Discente con relación al Curso. Se ha podido percibir que, a pesar de la importancia de la capacitación de los profesionales, el impacto de estos cursos para modificar los modelos y las prácticas profesionales no están siendo correctamente evaluados. Palabras clave: Salud de la Familia, Educación de Posgrado en Enfermería, Evaluación. 1 2 3 Enfermeira. Especialista em Enfermagem em Saúde Coletiva com enfoque no Programa de Saúde da Família. Mestre em Ciências com ênfase em Cuidados em Saúde pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. (21) 8017-8210/ 3437-8115. Avenida Doutor Enéas de Carvalho Aguiar, 149, São Paulo-SP. E-mail: [email protected]. Enfermeira. Professora Doutora do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. (11) 3061-7652. Avenida Doutor Enéas de Carvalho Aguiar, 149, São Paulo- SP. E-mail: [email protected]. Enfermeira. Professora Associada e Chefe de Departamento do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. (11) 3061-7652. Avenida Doutor Enéas de Carvalho Aguiar, 149, São Paulo-SP. E-mail: [email protected]. Endereço para correspondência – Avenida Doutor Enéas de Carvalho Aguiar, 149, São Paulo-SP. remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 129-134, jan./mar., 2011 129 Cursos de especialização e residência em saúde da família: uma analise sobre os enfoques de avaliação INTRODUÇÃO A Estratégia de Saúde da Família (ESF) surgiu no Brasil em 1994, em um cenário de disputas de projetos para a efetiva implantação do Sistema Único de Saúde (SUS). A ESF foi concebida com o objetivo de proceder à organização da prática assistencial em novas bases e critérios, em substituição ao modelo tradicional de assistência (modelo médico-curativista, que se pautava pelo modelo flexneriano).1 De acordo com o Ministério da Saúde (MS), a construção desse novo modelo assistencial pressupõe: a) reconhecimento da saúde como um direito de cidadania; b) eleição da família e de seu espaço social como núcleo básico de abordagem no atendimento à saúde; c) democratização do conhecimento do processo saúde/ doença, da organização dos serviços e da produção de saúde; d) intervenção sobre os fatores de risco aos quais a população está exposta; e) prestação de atenção integral, contínua e de boa qualidade; f ) humanização das práticas de saúde e a busca da satisfação do usuário através do estreito relacionamento da equipe de saúde da comunidade; g) estimulo à organização da comunidade para o efetivo exercício do controle social e h) estabelecimento de parcerias, buscando desenvolver ações intersetoriais. Essa nova estratégia para a saúde muda o foco de atenção do indivíduo para a família, o que provoca a necessidade de um “novo” profissional de saúde, com conhecimentos específicos para atuar nessa intersecção indivíduo/família.1 Assim, um dos obstáculos descritos na literatura para que a ESF se consolide é a falta de profissionais com formação adequada para atuar nesse modelo.2 No Brasil e em significativa parte do mundo, a tradição existente nas universidades é de formação de profissionais da saúde baseada no modelo americano de Flexner, que privilegia a formação de especialidades, reproduzindo o antigo modelo hospitalocêntrico de atuação. Entretanto, o que se é cobrado de médicos e enfermeiros da ESF é uma formação generalista que permita a esses profissionais transitar em áreas dos diferentes ciclos de vida.2 Diante disso, propostas de governos vêm sendo criadas a fim de oferecer formação para os profissionais de saúde que estão atuando na ESF. Uma das propostas foi a criação dos Polos de Formação, Capacitação e Educação Permanente para os profissionais de Saúde da Família, instituídos em meados da década de 1990 em quase todos os Estados brasileiros. O objetivo com os polos é criar espaços de desenvolvimento de parcerias entre o Poder Público e as instituições de ensino para a preparação das equipes de saúde da família,3 estimulando a reforma de cursos de graduação, bem como a implantação de programas de pós-graduação (Especialização, Residência em Saúde da Família) nessa área.4 Os cursos de Especialização em Saúde da Família, assim como os de Residência Multiprofissional em Saúde da Família, foram idealizados pelos polos com o intuito de 130 oferecer suporte teórico e prático àqueles profissionais que já atuavam na ESF, bem como aos egressos de cursos de enfermagem e medicina.5 Atualmente, o MS tem percebido que, mais que investir na especialização dos profissionais já formados, é necessário investir na mudança da formação na graduação, nas universidades. Embora o MS tenha feito investimentos na formação inicial, essa iniciativa não extinguiu o funcionamento dos Polos de Formação, Capacitação e Educação Permanente em Saúde, que na atualidade foram rebatizados de Comissões Permanentes de Integração Ensino-Serviço (CIESs).6 Diante dessa perspectiva do governo federal de redirecionar as ações de formação para a ESF para a graduação das instituições de ensino superior, neste estudo, apoiou-se na hipótese de que, possivelmente, os cursos de especialização e residência em Saúde da Família não vinham obtendo avaliações favoráveis de seus resultados. Diante disso, buscou-se, neste artigo, refletir sobre como as propostas de formação de profissionais para a ESF, na pós-graduação lato sensu, têm sido avaliadas. As bases dessa reflexão foram construídas mediante a análise na literatura existente sobre esta temática, mais especificamente na base de dados LILACS, uma vez que nela predominam a maioria dos artigos referentes a estudos realizados na America Latina e no Brasil. Assim, o objetivo com este estudo foi analisar trabalhos publicados na base de dados LILACS que trazem resultados de pesquisas sobre avaliações de cursos de Especialização e Residência em Saúde da Família. PROCEDIMENTOS METODOLOGICOS QUE NORTEARAM A REVISÂO DA LITERATURA Foi realizada uma busca bibliográfica na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), no mês de maio de 2008, mediante busca por terminologia controlada – descritores em Ciências da Saúde (DeCS) –, trabalhando-se com a base LILACS, sem corte temporal. O resultado dessa busca pode ser visualizado no QUADRO 1. Foram considerados como critérios para a seleção dos trabalhos que seriam objeto deste estudo os artigos que apresentassem uma abordagem avaliativa de Especialização e de Residência em Saúde da Família. Foram encontrados 14 trabalhos que contemplavam esses critérios, sendo importante ressaltar que houve quatro duplicações, trabalhando-se com 9 artigos e 1 tese. Entretanto, um desses artigos não estava disponível. Estes trabalhos estavam distribuídos no LILACS da seguinte maneira: Revista Texto & Contexto Enfermagem (1); Revista Brasileira de Enfermagem (2); Divulgação em Saúde para Debate (1); Dissertação (1); Acta Paulista de Enfermagem (1); Cadernos de Saúde Pública (1); Revista Saúde em Debate (1); Revista Enfermagem UERJ (1). remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 129-134, jan./mar., 2011 QUADRO 1 – Distribuição dos resultados do cruzamento entre os descritores e as palavras-chave e o número de artigos encontrados e selecionados Descritor Palavra-chave Total encontrado Total selecionado Saúde da Família Especialização 14 5 Saúde da Família Residência 18 5 Especialização 6 1 Educação de Pós-Graduação em Enfermagem Avaliação 47 0 Educação de Pós-Graduação em Enfermagem Especialização 33 2 Avaliação Especialização 8 1 Programa Saúde da Família Com base nesses resultados, procedeu-se à leitura e à organização dos artigos, mediante a identificação do título do trabalho, autor, periódico de publicação, local e período de realização do estudo, objetivos, metodologia e resultados, além de um comentário das autoras sobre cada trabalho, os quais foram analisados e apresentados a seguir. RESULTADOS: AS CARACTERÍSTICAS DOS TEXTOS ENCONTRADOS Klock, Heck e Casarim7 realizaram uma pesquisa sobre as dificuldades e as facilidades apresentadas pelos residentes em Saúde da Família e Medicina Preventiva e Social envolvidos com a ESF. Esse estudo foi considerado uma pesquisa de desenvolvimento e possuía a perspectiva de avaliar a qualidade e a quantidade dos esforços empregados no programa de cuidados domiciliares. As autoras utilizaram entrevista coletiva com dois enfermeiros e um médico, por meio de questões relativas aos pacientes atendidos. Como resultados, identificaram algumas dificuldades relativas à implementação e à manutenção de rotinas previstas no cuidado domiciliar, bem como à falta de literatura sobre avaliação desse tipo de cuidado, além da falta de apoio na rede, em especial para exames laboratoriais. Além disso, verificaram que o ACS é fundamental na ação do cuidado domiciliar e que o trabalho com residentes de enfermagem e assistente social facilitou o atendimento no posto. Oliveira et al., em 2000,8 analisou a criação de um curso de Residência em Saúde da Família. Os resultados mostraram que a escolha pela residência deu-se com base na necessidade de treinamento prático em serviço. O projeto do curso de residência foi elaborado por meio de uma parceria entre a Universidade Estadual do Vale do Acaraú e a Secretaria de Saúde e Assistência Social de Sobral, bem como do Polo de Capacitação, Formação e Educação Permanente de Pessoal do Ceará. O objetivo geral deste curso foi capacitar os profissionais de saúde para atuar na ESF. A proposta do curso era de 460 horas/aula teóricas para a obtenção do título de Especialista em Saúde da Família. A proposta apresentava abordagem de temas relacionados aos ciclos de vida, sendo posteriormente ministradas atividades práticas e paralelamente à realização do levantamento das condições de saúde, educação e vida de crianças de 5 a 9 anos da zona urbana de Sobral. Segundo os autores, esse levantamento de condições de vida servirá de base para um banco de dados a ser utilizado pelos residentes para a elaboração de suas monografias de final de curso. Por fim, os autores concluem que existe dificuldade na formação dos profissionais da área da saúde, sendo esta considerada deficiente por ser baseada em um currículo multidisciplinar que apresenta saberes não articulados, ocorrendo dissociação da teoria com a prática. Silva, Bustamante e Carneiro9 analisaram a especialização em saúde da família. Como foco dessa avaliação, os autores apontaram que o objetivo do curso de especialização era proporcionar aperfeiçoamento técnico-científico em temas na área da saúde; despertar o enfermeiro para atuar no modelo assistencial de saúde e suas consequências, apresentando-lhe a ESF; possibilitar qualificação por meio de sistematização das ações de enfermagem em nível familiar; e estimular a construção de conhecimento sobre enfermagem e família por meio de pesquisa e de referenciais teóricos. O curso teve a duração de 14 meses, com aulas teóricopráticas e apresentação de uma monografia ao final do curso. O curso foi baseado, então, em pressupostos da pedagogia de ensino que adota diversas opções metodológicas que interagem, possibilitando maior êxito no processo ensino-aprendizagem. Ao final do trabalho, afirmaram que capacitar o enfermeiro para trabalhar com famílias é uma das maiores necessidades em enfermagem, sendo também a estratégia disponível para a obtenção de melhores resultados na área de saúde. Os autores apontam que, apesar do apoio que o Ministério da Saúde tem oferecido à formação de Polos de Capacitação, a mudança do modelo de assistência deve vir dos dois lados, apostando na formação profissional em nível da graduação. Dessa forma, a implantação de Especialização em Saúde da Família é um avanço, e o desafio é a reunião de um programa multiprofissional e interdisciplinar, a fim de formar profissionais qualificados para um novo modelo. remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 129-134, jan./mar., 2011 131 Cursos de especialização e residência em saúde da família: uma analise sobre os enfoques de avaliação Forte e Pagliuca10 descreveram os padrões de satisfação discente com o curso de especialização com base nos questionamentos individuais dos alunos. Os autores perceberam características pessoais de acordo com as categorias profissionais como: a classe da enfermagem assimila com maior facilidade o contexto cultural dos grupos com utilização de teorias holísticas para o cuidado com a família. Já a classe médica apresentou maior interesse pela prática da cura. Os assistentes sociais acreditavam que o elemento básico para a qualidade de vida em saúde era evidenciado pelas questões sociais, diferentemente dos odontólogos, que apresentavam evidencias de compromisso técnico-científico de interação da saúde bucal com as outras necessidades em saúde. Os autores recomendam que sejam consideradas sugestões como cursos semipresenciais, atendendo à solicitação de Estados vizinhos e que proporcione atendimento à necessidade de expansão, em nível regional, pela internet. Além disso, acreditam que a proposta pedagógica do curso vem atendendo às expectativas para o apoio e a satisfação dos profissionais no mercado de trabalho.11 Em síntese, os autores acreditam que uma formação multidisciplinar pode modificar a forma de agir dos profissionais (de uma postura curativa à inclusão do usuário e da família no envolvimento do processo de assistência). Gil5 apresentou o perfil dos profissionais do primeiro curso de especialização e residência multiprofissional em saúde da família, financiado pelo Projeto de Reforço à Reorganização do SUS (REFORSUS), iniciado em 2001. O estudo, transversal e descritivo, foi realizado em 25 cursos de especialização e residência que foram oferecidos em todo o Brasil, mediante a aplicação de questionário semiestruturado (aberto-fechado) a 16 cursos de especialização e 9 residências, sendo, ao final, analisados 873 questionários. Como resultado, a autora percebeu que o perfil dos egressos da especialização e da residência era composto de jovens com menos de 30 anos, predominantemente do sexo feminino, enfermeiros, com vínculos empregatícios considerados precários. Os dados encontrados remetem a autora à reflexão sobre a efetividade das capacitações para desempenho das funções cotidianas dos profissionais da atenção básica, bem como a uma alternativa para rever os caminhos para a formação dos profissionais na perspectiva de um trabalho mais integrado, em equipe, com troca mais efetiva de saberes e práticas. A autora finaliza expondo sua crença no investimento, aperfeiçoamento e sistematização das avaliações dos cursos para que os avanços alcançados sejam disseminados, sendo o vínculo empregatício (não por carteira assinada) uma influência nesta questão. É possível perceber que a autora acredita, ainda, que existe indefinição quanto às competências e práticas profissionais na atuação da atenção básica. Além disso, ela apresenta suas dúvidas em relação à efetividade da capacitação oferecida por esses cursos aos profissionais para que atuem com melhor desempenho na saúde da 132 família. Por fim, aposta que os cursos de residência, mais do que os cursos de especialização, podem representar maior oportunidade para reflexão sobre alternativas para rever novos caminhos para formação dos profissionais. Turazzi3 caracterizou, descreveu e evidenciou os nexos entre a qualificação de trabalhadores e as atividades que realizam no âmbito do PSF e identificou a percepção dos alunos egressos quanto à articulação entre o curso, a proposta do PSF e a prática de trabalho nessa estratégia. Para tanto, aplicou entrevistas semiestruturadas a profissionais médicos e enfermeiros de equipes de Saúde da Família no município de São Paulo (um médico e um enfermeiro de cada um dos seis cursos de especialização em saúde da família realizados no período de 2002 a 2004). Ao final da pesquisa, a autora concluiu que o PSF favorece a criação de vínculo e a responsabilização dos profissionais para com os pacientes e com a comunidade. Diante disso, ela acredita na necessidade de rever as práticas educativas para que sejam integrados os saberes formais e os saberes operadores das realidades. Para ela, a pedagogia crítica está em construção e é potencial para que essas possibilidades possam acontecer não somente na educação permanente em saúde, como também no processo educativo geral. Para a autora, então, a questão crítica no Programa Saúde da Família (PSF) é de formação dos Recursos Humanos, sendo necessárias revisões das práticas educativas. Para tanto, ela acredita que é fundamental a utilização da pedagogia critica para o processo educativo. Adames et al.5 avaliaram a prática profissional dos 151 egressos dos cursos de especialização realizados na área da Saúde Coletiva, em Mato Grosso do Sul, no período de 1986 a 1998. A avaliação foi realizada mediante três perspectivas: tipo de inserção profissional do egresso, capacidade de gestão de Recursos Humanos, materiais e tempo, e eficiência, eficácia e efetividade da atuação profissional do egresso. Foram enviados questionários aos 151 egressos que estavam exercendo atividades no setor saúde e a 453 subordinados, alunos ou colegas de trabalho. Como resultado, os autores concluíram que em aproximadamente 80% dos casos a prática profissional dos egressos foi percebida como muito boa e ótima. Como fatores que interferiram positivamente na prática profissional, foram considerados a formação recebida, atualizações e reciclagens, bom relacionamento interinstitucional e integração com a equipe de trabalho. Já os fatores que interferiram negativamente para os entrevistados foram a estrutura organizacional inadequada, a desvalorização profissional e o predomínio de ingerências políticas em detrimento de aspectos técnicos. Segundo os autores, a formação recebida permitiu uma visão ampliada em saúde pública e possibilitou análise das necessidades dos serviços. Assim, nesse trabalho, os autores afirmaram que os cursos de especialização interferem positivamente na prática profissional dos egressos, pois eles receberam uma formação considerada ampliada para a saúde pública. Rodrigues, Henriques e Macedo12 visaram apreender as ações do enfermeiro inserido na saúde da família, remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 129-134, jan./mar., 2011 na perspectiva do saber e do fazer do enfermeiro, de modo a contribuir para o trabalho realizado pela equipe multidisciplinar. Para tanto, os autores realizaram estudo com 16 enfermeiros matriculados na disciplina do Curso de Especialização em Enfermagem na Saúde da Família e na Comunidade. Os alunos deveriam responder a questões em quatro momentos: primeiro – descrição das características do saber em enfermagem; segundo – descrição sobre o saber especíifico do enfermeiro; terceiro – características do fazer em enfermagem; quarto – “O que você tem em vista com sua atuação na saúde da família”. Com esse estudo, os autores concluem que a construção do conhecimento deve se dar por meio do processo de intersubjetividade e do respeito ao conhecimento que pode ser construído quando os profissionais envolvidos no curso são ouvidos. Alem disso, o eixo norteador do trabalho para esses profissionais é a promoção à saúde. Por fim, Duarte, Oliveira, Padilha e Baaklini13 relataram a respeito da consolidação da parceria entre a Academia e o Serviço na construção do SUS, explicitando a priorização da ESF para a transformação do cuidado à saúde e a concretização da orientação da formação de profissionais de saúde para o desenvolvimento de competência, com base na reflexão sobre a prática profissional. Para tanto, os autores realizaram avaliação de residentes, preceptores, consultores e tutores de maneira formativa (buscando a melhoria do processo ensino-aprendizagem por meio de autoavaliação) e de maneira somativa (identificando o grau de alcance dos objetivos preestabelecidos para determinada fase de desenvolvimento do programa mediante a análise dos atributos ou capacidades). Como resultados, os autores identificaram a expansão da ESF, a contratação de todos os egressos do primeiro programa; a motivação das equipes; a inserção precoce dos alunos de medicina e enfermagem na comunidade e adesão de residentesmédicos ao programa e ampliação da sua visibilidade em outros espaços que trabalham com educação de profissionais de saúde. ANÁLISES DOS RESULTADOS: A CONSTRUÇÃO DE CATEGORIAS A análise dos trabalhos acima permitiu agrupá-los de acordo com suas temáticas centrais. Assim, eles podem ser classificados nas seguintes categorias: Análise da formação dos profissionais (5); Transformações na pratica do profissional (2); Perfil do profissional que faz um curso de especialização em saúde da família (1); Satisfação discente quanto ao curso (1). A categoria Análise da formação dos profissionais foi a que apresentou o maior número de trabalhos – cinco no total. Os trabalhos nessa categoria tratavam de questões como as deficiências na formação dos profissionais da área da saúde, dado o fato de a formação estar baseada em um currículo multidisciplinar que apresenta saberes não articulados, dissociação teoria/prática;8 a capacitação como uma das maiores necessidades na área da enfermagem e como estratégia para se obter melhores resultados no setor da saúde;9 expansão do PSF e contratação dos profissionais após o curso; motivação das equipes; inserção de alunos na comunidade e adesão de residentes-médicos ao programa;13 revisão de práticas educativas para a integração de saberes teóricos e práticos, considerando-se a pedagogia critica como fundamental para o processo educativo;3 interferência positiva da formação profissional recebida nas atualizações e reciclagens; bom relacionamento interinstitucional e a integração com a equipe de trabalho na prática dos profissionais, que amplia a visão dos profissionais, permitindo-lhes que analisem melhor o serviço; e interferência negativa nessa prática por uma estrutura organizacional inadequada, desvalorização profissional e predomínio de ingerências políticas em detrimento de aspectos técnicos.11 A categoria As transformações na prática do profissional apresentou questões como a ação fundamental do ACS no cuidado domiciliar; a dificuldade na implementação e na manutenção de rotinas previstas no projeto; a facilitação do atendimento domiciliar no posto pelo trabalho com residentes de enfermagem e assistente social; a questão da falta de literatura sobre avaliação do cuidado domiciliar; a ausência de apoio na rede e da contribuição do programa para maior sistematização e humanização na assistência prestada nas UBS;7 e a identificação da intersubjetividade para a construção do conhecimento.12 Na terceira categoria, o Perfil do profissional que faz um curso de especialização em saúde da família, houve apenas um trabalho, no qual foram discutidas questões referentes à idade dos profissionais que participaram do curso (em sua maioria, jovens com menos de 30 anos, do sexo feminino, e enfermeiros com vínculos empregatícios considerados precários). Além disso, refletiu-se sobre a efetividade das capacitações para melhor execução das funções dos profissionais da atenção básica, concluindo-se ser a residência em saúde da família mais eficaz que a especialização para atuação na atenção básica.5 Por fim, na categoria Satisfação discente quanto ao curso, apenas um trabalho foi classificado, no qual se discutia a existência de cursos com opções semipresenciais. Além disso, destacou-se a influencia de características pessoais na atuação no trabalho, de acordo com a categoria profissional.14 Importante ressaltar que os trabalhos incluídos nesta análise não apresentaram metodologia específica para avaliação e formação no e para o trabalho. Ou seja, de forma geral, nos estudos analisados, foram abordadas questões que se referiam tanto aos perfis e à formação de seus alunos quanto à satisfação deles em relação ao curso do qual participaram. Entretanto, as discussões deveriam ser mais focadas nas mudanças que esses cursos produziram nas práticas de trabalho do profissional, da unidade, da equipe e do modelo de assistência (visto que o critério para inclusão desses trabalhos para análise no estudo proposto era que remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 129-134, jan./mar., 2011 133 Cursos de especialização e residência em saúde da família: uma analise sobre os enfoques de avaliação apresentassem avaliações de cursos de especialização e residência em saúde da família). CONSIDERAÇÕES FINAIS Assim como foi identificado nos resultados, um problema da ESF é o da formação de Recursos Humanos para saúde. Apesar da existência de esforços do MS para promover a formação dos profissionais da saúde com perfil adequado para esse novo modelo de assistência, ainda há muito que fazer. metodologias avaliativas que consigam demonstrar o impacto da formação profissional sobre o processo de trabalho em saúde, pois, em último caso, o que se quer impactar com o oferecimento de cursos de especialização e residência em saúde da família é a prática e o modo de se produzir ações de saúde. Dessa forma, para que os processos de trabalho possam ser repensados, as estratégias de Educação Permanente, necessariamente, têm de estar articuladas às estratégias de formação mais gerais e à gerencia da Unidade de Saúde. Percebe-se que a avaliação de cursos de Especialização e Residência em Saúde da Família ainda não é uma temática publicada de forma expressiva na base de dados avaliada. Tal fato demonstra que a prática da avaliação de políticas e ações em saúde ainda é muito incipiente, principalmente no Brasil. Outra medida de impacto nas mudanças epistemológicas dos processos de trabalho refere-se ao fortalecimento da articulação de instâncias governamentais com as universidades, com a finalidade de investir veementemente nos cursos de graduação, buscando o fortalecimento da formação para atuação na ESF. Diante das poucas publicações existentes na avaliação dessas iniciativas de formação para o trabalho em saúde, aposta-se na importância do desenvolvimento de projetos de pesquisa que realizem avaliações numa perspectiva ampliada, ou seja, que trabalhem com as percepções de egressos, docentes e de gestores dessas estratégias de educação e formação no e para o trabalho. Fala-se, ainda, da importância de desenvolver Além disso, a Educação Permanente em Saúde constitui uma importante estratégia para preparar os profissionais já em atuação, pois, dessa forma, o aprender e o ensinar estarão incorporados ao cotidiano das organizações, o que possibilitará a construção de estratégias que promovam o diálogo e permitam a resolução dos problemas de acordo com as singularidades dos lugares e das pessoas. REFERÊNCIAS 1. Teixeira RA. O trabalho da enfermeira na Saúde da Família: Potência de (Re) Construção do modelo assistencial e (re) criação do trabalho da enfermagem? [dissertação]. Ribeirão Preto: Universidade de São Paulo; 2002. 2. Pierantoni CR, Varella TC, França T. Recursos Humanos e gestão do trabalho em saúde: teoria para a prática. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde. Cadernos RH Saúde. 2006; 3 (1): 29-40. 3. Turazzi MC. A especialização em saúde da família e a pedagogia critica [dissertação]. 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Silva JV, Bustamante MR, Carneiro IRLJ. Especialização em Saúde da Família para Enfermeiros. Rev Bras Enferm. 2000; 53 (n. esp): 91-3. 10. Forte BP, Pagliuca LMF. Satisfação discente quanto ao curso de Especialização em Saúde da Família: um enfoque na cultura local. Acta Paul Enferm. 2003; 16 (3): 24-30. 11. Adames LAB, Andrade SMO, Barbieri AR, Tamaki EM. Avaliação da prática profissional de egressos de cursos de especialização em Saúde Coletiva: a experiência do Mato Grosso do Sul. Saúde em Debate. 2004; 28 (68): 265-72. 12. Rodrigues BMRD, Henriques RLM, Macedo MCS. O enfermeiro na Saúde da Família: descobrindo os saberes do seu fazer. Rev Enferm UERJ. 2003; 11 (1): 70-5. 13. Duarte JES, Oliveira MS, Padilha RQ, Baaklini CE. A gestão municipal e a residência multiprofissional em Saúde da Família: a experiência de Marília – SP. Divulg Saúde Debate. 2005; (32): 11-8. 14. Brasil. Conselho Nacional de Secretários da Saúde. Gestão do Trabalho na Saúde. Conselho Nacional de Secretários de Saúde – Brasília: CONASS; 2007. Data de Submissão: 18/10/2008 Data de Aprovação: 17/12/2010 134 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 129-134, jan./mar., 2011 Artigo Reflexivo PRÁTICA EDUCATIVA PARA AUTONOMIA DO CUIDADOR INFORMAL DE IDOSOS* EDUCATIONAL PRACTICE FOR THE AUTONOMY OF THE INFORMAL CAREGIVER OF ELDERLY PEOPLE PRÁCTICA EDUCATIVA PARA LA AUTONOMÍA DEL CUIDADOR INFORMAL DE ANCIANOS Chrystiany Plácido de Brito Vieira1 Emiliana Bezerra Gomes2 Ana Virgínia de Melo Fialho3 Dafne Paiva Rodrigues3 Thereza Maria Magalhães Moreira4 Maria Veraci Oliveira Queiroz5 RESUMO Cuidar de um idoso dependente envolve tarefas complexas permeadas de dificuldades que podem ser agravadas pela falta de preparo e de informações para o cuidador, gerando insegurança e temores, o que pode trazer prejuízos no cuidado do idoso. Essa realidade demonstra a necessidade de ações de enfermagem que melhorem o enfrentamento do cuidador por meio de práticas educativas. Neste estudo, reflete-se sobre as práticas atuais de educação em saúde voltadas para os cuidadores informais de idosos, propondo uma prática educativa emancipatória à luz de Paulo Freire, que valorize respeite os valores culturais e os conhecimentos empíricos. Como proposta de prática educativa, pensada na perspectiva da liberdade do cuidador informal, pode-se desenvolver oficinas com vista a estimular a consciência crítica, ao mesmo tempo em que se oportuniza a troca de experiências e se estimula a autonomia. Palavras-chave: Cuidadores; Idoso; Papel do Profissional de Enfermagem. ABSTRACT Caring for a dependent elderly involves complex and difficult tasks that can be aggravated by the caregiver’s lack of training and information and that generate insecurity and fears. This situation can damage the elderly’s care and it confirms the need for nursing actions that might improve the caregiver’s coping skills, through educational practices. This study contemplates the current practices in health education regarding the elderly informal caregiving and aims to propose an emancipatory educational practice, based on Paulo Freire’s model that values and respects cultural values and empirical knowledge. We propose an educational practice grounded in the perspective of the informal caregiver’s autonomy, for instance the organization of workshops aiming to stimulate critical conscience and the exchanging of experiences. Keywords: Caregivers; Elderly People; Nurse’s Role. RESUMEN Cuidar a un anciano dependiente involucra tareas complejas y difíciles que pueden agravarse por la falta de preparación y de información suministrada al cuidador. Surjen entonces la inseguridad y el temor que pueden resultar en perjuicios para la atención del anciano. Esta realidad señala la necesidad de tomar medidas de enfermería para que el cuidador pueda enfrentar mejor esta situación a través de las prácticas educativas. En este estudio se reflexiona sobre las prácticas actuales de educación en salud destinadas a los cuidadores informales de ancianos con el fin de proponer una práctica educativa emancipatoria a la luz de Paulo Freire, que considere y respete los valores culturales y los conocimientos empíricos. Como propuesta de práctica educativa, pensada desde la perspectiva de la libertad del cuidador informal, podrían desarrollarse talleres para estimular la conciencia crítica y, asimismo, brindar la oportunidad de intercambiar experiencias y estimular la autonomía. Palabras clave: Cuidadores; Anciano; Rol del Enfermero. * 1 2 3 4 5 Trabalho desenvolvido na disciplina Saúde, Enfermagem, Cultura e Práticas, do Mestrado Acadêmico Cuidados Clínicos em Saúde, Centro de Ciências em Saúde, da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Enfermeira. Mestra em Cuidados Clínicos em Saúde do Centro de Ciências da Saúde, Universidade Estadual do Ceará. E-mail: [email protected]. Enfermeira. Aluna do Mestrado Acadêmico Cuidados Clínicos em Saúde do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Estadual do Ceará. Brasil. E-mail: emiliana. [email protected]. Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Docente do Mestrado Acadêmico Cuidados Clínicos em Saúde do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Estadual do Ceará. Brasil. E-mails: [email protected]; [email protected]. Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Docente do Mestrado Acadêmico Cuidados Clínicos em Saúde do Mestrado Acadêmico em Saúde Pública e do Doutorado em Saúde Coletiva com Associação de IES-Ampla UECE-UFC do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Estadual do Ceará. Brasil. E-mail: [email protected]. Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Docente do Mestrado Profissional em Saúde da Criança e do Adolescente e Mestrado Acadêmico Cuidados Clínicos em Saúde da Universidade Estadual do Ceará. Brasil. E-mail: [email protected]. Endereço para correspondência – Rua Miosótis, nº 205, Cond. Fontana Di Trevi, ap. 2101, Jóquey, Teresina, PI, Brasil. CEP. 64049-140. Telefone: (86) 9459-1277. E-mail: [email protected]. remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 135-140, jan./mar., 2011 135 Prática educativa para autonomia do cuidador informal de idosos INTRODUÇÃO A população brasileira passou por transformações na perspectiva demográfica e epidemiológica, das quais resultou no aumento da população com idade de 60 anos ou mais. Esse processo de envelhecimento populacional se deve, basicamente, ao aumento da expectativa de vida, que veio em resposta aos avanços da medicina preventiva, curativa e de reabilitação. No entanto, essas mudanças demográficas aconteceram desvinculadas de um desenvolvimento social, decorrendo mais da importação da tecnologia e dos avanços médicos, bem como da rápida urbanização do País.1 Com o aumento da expectativa de vida, elevaramse, também, os fatores de risco para as doenças não transmissíveis e, consequentemente, o número de idosos dependentes de uma ou mais pessoas para a supressão de necessidades mediante a incapacidade de realização das atividades da vida diária. Nesse contexto, surge o cuidador informal, que presta cuidado não profissional, representado, principalmente, por familiares, podendo ser também amigos e/ou vizinhos. Normalmente, a responsabilidade principal recai sobre uma única pessoa, denominada “cuidador principal”. Embora a designação seja informal, geralmente, obedece a quatro fatores relacionados ao parentesco: ser cônjuge, ser do gênero feminino, já viver com o paciente e ter relação afetiva, principalmente conjugal e de filhos.2 Assim, vale lembrar o ato de cuidar de uma pessoa idosa dependente motiva a sobrecarga de ordem física, emocional e social para o cuidador informal, sendo a saúde deteriorada com a exposição continuada a essas condições relativas ao ato de cuidar.3 Além disso, apesar das mudanças ocorridas no cenário nacional em relação às políticas de proteção ao idoso, o Estado tem responsabilidades reduzidas, atribuindo à família a responsabilidade maior dos cuidados desenvolvidos em casa a um idoso dependente. 4 Constata-se, portanto, a inexistência de políticas mais veementes que propiciem apoio aos idosos e ao cuidador. Outro fato percebido é a ausência de preparo dos cuidadores. Os cuidadores informais recebem escassa orientação por parte dos profissionais de saúde a respeito dos cuidados.5 Contudo, os cuidadores, embora desprovidos de informações, cuidam de seus familiares doentes, mesmo que de forma intuitiva e baseada em crenças, possíveis experiências anteriores e mediante a troca de informações com outras pessoas e/ou grupos de apoio. Agrupam-se em cinco elementos as dificuldades percebidas pelos cuidadores informais de idosos dependentes: ônus físico e financeiro, que tende a aumentar com a dependência do idoso; falta de preparo do cuidador e escassez de oferta de serviços especializados ou de apoio formal; competição de papéis 136 do cuidador; sentimentos pessoais e conflitos familiares de difícil manejo; concentração da responsabilidade do cuidado somente em uma pessoa.6 Cuidar de um idoso dependente envolve tarefas complexas, permeadas de dificuldades de diferentes ordens, que podem ser agravadas pela escassez de preparo e de informações para o cuidador. A carência de informações/orientações pode gerar insegurança e temores, que se configuram em despreparo desse cuidador, gerando prejuízos ao cuidado, além de mais desgaste físico e emocional. Essa realidade demonstra a necessidade de ações de enfermagem que melhorem o enfrentamento do cuidador por meio do ensino sobre saúde e que reforcem a colaboração dele no planejamento dos cuidados. Portanto, a enfermagem deve desenvolver a função de educador em saúde, estabelecendo uma relação de confiança e de parceria com o cuidador informal/familiar.7 No cotidiano de trabalho, contudo, observa-se uma prática educativa centrada em pessoas doentes ou naquelas suscetíveis a alterações no seu estado de saúde, pois o profissional direciona suas ações para indivíduos que buscam os serviços de saúde em detrimento de alguma possível doença. Por isso, nota-se insuficiente preocupação com o cuidador informal do idoso, que não exerce atividade remunerada e/ou profissional indicada para isso. Mas o cuidador leigo também é passível de apresentar desequilíbrio em sua saúde, e uma explicação para essa limitada atenção pode ser atribuída às raízes históricas da profissão. Atualmente, a família e os cuidadores informais tornaram-se, por diversos motivos, presença significante no cotidiano da equipe de enfermagem, tanto acompanhando o doente no hospital como participando, direta ou indiretamente, do cuidado em nível ambulatorial e/ou domiciliar. Além disso, há, no ato de cuidar do idoso, limites filosóficos e éticos. O cuidador informal deve exercer atividades sem anular a existência do idoso cuidado, independentemente do grau de dependência que possa apresentar, visto que esse cuidado se dá no domicílio, espaço de sua existência.8 Por outro lado, o cuidado ao idoso impõe uma realidade ao cuidador, caracterizada por saberes e práticas construídos do não saber, isto é, de experiências determinadas pela situação e influenciadas por fatores socioculturais. A abordagem tradicional de educação baseada em um método transmissor/expositivo marca as relações educativas. Consiste em um método de ensino reprodutivo, produtor de limitações significativas e de modelagem de comportamentos padronizados, sem questionamento das circunstâncias em que as situações-problema acontecem.9 Esses métodos tradicionais reforçam a verticalidade entre o enfermeiro e o cuidador e não auxiliam os cuidadores a desenvolver as habilidades intelectuais de questionamento crítico em relação ao que está sendo ensinado e o que está sendo vivenciado. Entendendo educação em saúde como um processo de ensino-aprendizagem que visa à promoção da saúde, destaque-se a importância de uma prática remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 135-140, jan./mar., 2011 educativa para cuidadores informais que trabalhe com base na realidade e nas expectativas destes, para que se possa priorizar as reais necessidades, valorizando os conhecimentos preexistentes, experiências e expectativas, reconhecendo-os como agentes capazes de contribuir para mudanças. Além disso, educação em saúde é uma prática social, por isso deve ser crítica e transformadora da realidade cotidiana, visando à construção de cidadania e à garantia de autonomia e liberdade, princípios que devem permear a formação do indivíduo.10 Com o intuito de buscar uma prática educativa transformadora e distante das atuais ações da verticalização do saber e da verdade, escolheu-se como referencial teórico Paulo Freire, com a proposta de uma prática educativa progressista, baseada na relação de autonomia do cuidador. Objetiva-se, desse modo, refletir sobre as práticas atuais de educação em saúde voltadas para os cuidadores informais de idosos nessa perspectiva. PAULO FREIRE: UMA PRÁTICA EDUCATIVA LIBERTADORA É sempre importante resgatar, na obra de Paulo Freire, as reflexões a respeito dos elementos pedagógicos, uma vez que elas permitem aprender e concretizar o que ele defendia como a razão de ser da educação: contribuir para ser sujeito histórico, transformando a realidade em que se vive, de tal forma que a torne cada vez mais humanizada e humanizadora, comprometida com os problemas sociais.11 Freire propõe práticas pedagógicas necessárias à educação como forma de construir a autonomia dos educandos, valorizando e respeitando sua cultura e seu acervo de conhecimentos empíricos na sua individualidade.12 Freire, ao construir a teoria do conhecimento, parte de suas próprias experiências, associando afetividade à cognição, em um exercício de interpretação cuidadoso do contexto histórico, social e cultural de seu povo. Nessa construção, ele escuta o outro, sua necessidade, seu sofrimento, sua realidade e, por meio de um diálogo problematizador, promove, de forma sistematizada e crítica, a troca de experiência coletiva.12 É nesse âmbito que ensinar não é transferir conhecimentos, prática típica da educação bancária, mas uma prática de ensino e aprendizagem, aceitando que o formador é o sujeito em relação a quem se direciona a prática, considerando-o objeto por ele formado e sujeito que também forma.13 Ao propor a educação de adultos como prática de liberdade, a educação não pode ser uma prática de depósito de conteúdos apoiada em uma concepção de homens como seres vazios, mas de problematização dos homens em suas relações com o mundo.12 Por isso, a educação problematizadora fundamenta-se na relação dialógica entre educador e educando, que possibilita a ambos aprenderem juntos, por meio de um processo emancipatório. Ensinar exige disponibilidade para o diálogo, visto como uma estratégia de construção cooperativa do pensamento crítico, por isso a importância da reflexão crítica. A reflexão é o movimento realizado entre o fazer e o pensar, entre o pensar e o fazer, ou seja, no “pensar para o fazer” e no “pensar sobre o fazer”. Nessa direção, a reflexão surge da curiosidade, que inicialmente é ingênua, mas com o exercício constante vai se transformando em crítica. Dessa forma, a reflexão crítica permanente deve ser considerada orientação prioritária para a formação continuada dos professores que buscam a transformação pela prática educativa.11 No processo educativo, tomando como ponto de partida as ideias de Freire, procura-se uma prática em que a liberdade do ser educado se assuma eticamente, o que diz respeito aos valores e ao modo de vida, cuja história e cultura devem ser contempladas e a voz ouvida de forma singular e única, considerando-se também o contexto social, bem como, esteticamente, a criatividade e a delicadeza. Trata-se de uma prática educativa progressista, baseada em uma relação de autonomia de quem se educa e que, partindo de sua curiosidade ingênua, chega ao conhecimento crítico, portanto, libertador. Assim, é necessário que o educando assuma o papel de sujeito da produção de sua inteligência do mundo e não apenas o de recebedor do que lhe é transferido pelo professor. O poder e o dever fazer constituem, na perspectiva progressista, o ensino de certo conteúdo, desafiando o educando a perceber-se na e pela própria prática, sujeito capaz de saber.12 A educação é um processo plural, especificamente humano, norteado de atitudes, comunicação, cultura, ética, política, amor, sentimentos e valores que devem ser respeitados, valorizados, bem como estimulados nas práticas educativas como condutores de pensamentos e práticas libertadoras. EDUCANDO CUIDADORES INFORMAIS DE IDOSOS: UMA PROPOSTA POSSÍVEL PARA A ENFERMAGEM Quando o cuidador informal assume o cuidado de idoso dependente, após a alta hospitalar ou sob tratamento ambulatorial, depara-se com uma situação muitas vezes adversa ao seu universo de saber e até mesmo de suas aptidões pessoais. Carrega inseguranças e medos provenientes do desconhecimento sobre a doença e o enfrentamento de outros problemas associados, podendo sentir-se despreparado em vários aspectos, principalmente emocionalmente.6 Determinadas atividades, como administração de medicamentos, cuidados com a colostomia e até mesmo situações de prevenção de complicações, como na mudança de decúbito, dentre outras, confrontam o cuidador com situações que requerem um mínimo de compreensão técnico-científica das ações ante a doença instalada e/ou das vulnerabilidades a que o idoso está exposto para valorização e adesão às atividades de cuidado.14 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 135-140, jan./mar., 2011 137 Prática educativa para autonomia do cuidador informal de idosos Embora seja clara a necessidade de orientações aos cuidadores, especialmente pela demanda crescente por causa do envelhecimento populacional, o que se vê é a escassez de atividades profissionais de orientação/ capacitação dos cuidadores informais, que geralmente se orientam por meio de conhecimentos obtidos de forma isolada em sua prática cotidiana, com base em erros e acertos. 7 Quando se aborda a prática educativa desses cuidadores informais, supõe-se uma prática centrada nas suas necessidades, no entanto o que se observa é o cuidador como mero espectador das orientações do enfermeiro, este detentor do saber científico. Logo, cogita-se uma relação entre pessoas, saberes, experiências, cuja valorização desse sujeito deva ser preservada, sem a anulação desses saberes e vivências. Forjando essa forma de educar, tem-se uma posição politicamente em favor da liberdade e da capacidade de acreditar que o outro tem um saber e um fazer que necessitam ser considerados. Entretanto, se transformações devem ser realizadas, que sejam com segurança, competência profissional e generosidade, pois, em alguns momentos, o sujeito necessita de ajuda para transpor obstáculos, trabalhar dificuldades, transtornos e cristalizações. Para tanto, é fundamental a adequada postura do enfermeiro para o exercício de sua prática, a qual deve ser ética, estética, crítica, afetiva, alegre, curiosa e, antes de tudo, humanizadora. Na prática progressista desse profissional com base em suas análises sobre as práticas desenvolvidas com os cuidadores informais de idosos nos diferentes espaços de cuidado devem ser consideradas a historicidade, o diálogo, a criticidade, a conscientização, o inacabamento do ser humano, a utopia e a libertação como realidades que deverão permear todo o seu trabalho.12 A grande razão de uma proposta é tornar-se realidade. A razão de existir da teoria é interpelar a prática, e viceversa.9 A abordagem crítico-reflexiva de Freire é pertinente, uma vez que discute a ação educativa de forma inovadora, centrada no diálogo entre o educador e o educando, em que sempre há partes de um no outro. Os conceitos presentes nas obras de Freire orientam a busca de elementos capazes de sustentar a perspectiva da educação emancipatória na troca de saberes e práticas de cuidar com os cuidadores informais de idosos. Surgiu, assim, esta proposta como uma das possíveis formas de atuar com cuidadores informais de idosos. A priori as ações aconteceriam em grupo, com a perspectiva de agregação de seus valores e vivências aliadas a atividades individuais, vistas como forma de trabalhar a singularidade desses cuidadores in locus (FIG.1). FIGURA 1 – Proposta educativa para a autonomia do cuidador informal 138 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 135-140, jan./mar., 2011 A proposta se divide em momentos de ação grupal e individuais, realizadas em ambientes comuns para o grupo (podendo ser unidades de saúde, escolas, etc.) e no domicílio, individualmente, permitindo ao profissional “desvendar” o espaço de cuidar desses indivíduos. Os passos descritos a seguir foram concebidos com o intuito de uma ação educativa interativa entre cuidadores e profissionais, com base na autonomia. 1. Sensibilização como construção do conceito de cuidado com o grupo com base em imagens/ situações que considerem o cuidado como essência humana (O que faço?). 2. Momento de construção: uma colcha de retalhos das vivências do cuidador ao cuidar de alguém (Como cuido?). 3. Fundamentação, junto com o cuidador, sobre os conhecimentos ligados à sua prática (Por que faço assim?). 4. Necessidades de aprendizado com desapropriação do profissional como único capaz de cuidar (Como acho que deveria ser feito?). 5. Trabalho com o conjunto das dificuldades apontadas – no grupo. 6. Trabalho com o conjunto das dificuldades apontadas decorrentes de ação participante no ambiente do cuidador – individualmente. 7. Retorno ao grupo para trabalhar os pontos-chave dos momentos individuais in locus. 8. Solidificação do aprendizado, exposição do grupo sobre o que foi interiorizado (simbolização). 9. Sensibilização em todos os momentos sobre a ética de cuidar do ser humano. Essas atividades aproximam o profissional do cuidador e consolidam a relação. Não são ações estanques, e, sim, de continuidade, tornando o cuidador autônomo e apoiado, podendo lançar mão de ajuda profissional ou de outros cuidadores pela rede de apoio formada com o grupo quando necessário. CONSIDERAÇÕES FINAIS As práticas educativas em saúde são pilares para a promoção da saúde e, no contexto atual das condições dos cuidadores informais de idosos, tornam-se uma ferramenta importante para a construção da consciência crítica necessária à autonomia dos cuidadores nas práticas de cuidar, respeitando-se seus conceitos e valores. Sob a ótica da prática educativa emancipatória, percebem-se conceitos e propostas possíveis de aplicação nos diversos contextos de atuação da enfermagem ao cuidado ao idoso e, consequentemente, ao cuidador informal desse idoso, o qual demanda cada vez mais a atenção dos profissionais de saúde, em virtude do crescente processo de envelhecimento populacional. A proposta idealizada neste estudo traz como estratégia de prática educativa o trabalho com os cuidadores individualmente e/ou em grupo, visando a estimular a consciência crítica, ao mesmo tempo em que oportuniza a troca de experiências e estimula a autonomia como sujeitos permeados de valores e saberes, com vista à melhoria da relação entre profissionais de saúde, família, idoso cuidado e cuidador. A sistematização dessa prática promove a integração entre cuidadores e profissionais pelas relações estabelecidas e busca a autonomia e a emancipação dos envolvidos no processo. Os conceitos de enfermagem/ cliente/ambiente presentes no cotidiano da enfermagem são trabalhados na proposta apresentada, constituindo peças fundamentais para sua viabilidade, o que desafia e alavanca a enfermagem na busca da integralidade nos diversos cenários de cuidar. REFERÊNCIAS 1. Ramos TMB, Pedrão LJ, Furegato ARF. A relação de ajuda não-diretiva junto ao cuidador de um idoso incapacitado. Rev. 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O objetivo foi descrever as contribuições dadas pela Reforma Psiquiátrica e a Política Nacional de Saúde Mental aos saberes e práticas existentes, bem como discutir os progressos e impasses evidenciados na articulação dos serviços de saúde e na interdisciplinaridade das ações das equipes multiprofissionais. Constataram-se avanços na construção de novas redes de serviços e na promoção de práticas pautadas pelos preceitos da Reforma. No entanto, deparou-se com entraves de cunho político-administrativo e econômico, pertinentes à formação do corpo de profissionais envolvidos na área. Mesmo diante de várias dissonâncias, o estudo foi direcionado para questões e experiências que corroboram preceitos da Reforma Psiquiátrica brasileira, podendo servir de reflexão quanto à continuidade da (re)construção do saber-fazer em saúde mental. Palavras-chave: Políticas Públicas de Saúde; Reformas dos Serviços de Saúde; Saúde Mental. ABSTRACT This is a reflexive study based on the analysis of 32 papers found in LILACS and MEDLINE databases. It aims to describe the contributions of the Psychiatric Reform and the National Mental Health Policies to the knowledge and existent practices, and to discuss the progresses and impasses evidenced in the articulation of health services and in the interdisciplinarity of the multiprofessional teams’ actions. There were advances in the construction of new services network and in the promotion of practices based on the reform principles. However, such achievements faced political-administrative and economic obstacles as well as others referent to the formation of the body of professionals involved in the area. Even though there are several dissonances, the study was directed to subjects and experiences that corroborate the Brazilian Psychiatric Reform precepts and it may work as an on-going reflection on the (re) construction of knowledge/ practice in mental health. Key words: Public Health Policies; Health Services Reform; Mental Health. RESUMEN Estudio reflexivo realizado mediante el análisis de 32 artículos científicos en las bases de datos LILACS y MEDLINE. Su objetivo fue describir las contribuciones de la Reforma Psiquiátrica y de la Política Nacional de Salud Mental al conocimiento y a las prácticas existentes y discutir los progresos y los obstáculos existentes en la articulación de los servicios de salud y en las acciones interdisciplinarias de los equipos multidisciplinarios. Se han comprobado avances en la construcción de nuevas redes de servicios y en la promoción de prácticas basadas en los preceptos de la Reforma. Sin embargo, los logros enfrentan obstáculos político – administrativos, económicos y pertinentes a la formación del cuerpo de profesionales que participan en el area. Aún ante varias discrepancias, el estudio ha estado orientado hacia cuestiones y experiencias que corroboran los preceptos de la Reforma Psiquiátrica brasileña y puede servir como reflexión acerca de la continuidad de la reconstrucción del saber-hacer en salud mental. Palabras clave: Políticas de Salud Pública; Reforma de los Servicios de Salud; Salud Mental. * 1 2 3 4 Artigo proveniente das atividades desenvolvidas na Disciplina Enfermagem e as Políticas Sociais e de Saúde, do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Ceará (UFC). Enfermeira. Discente do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Ceará (UFC). Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CAPES. Membro do Grupo de Pesquisa de Políticas e Práticas em Saúde (GRUPPS – UFC). Enfermeiro do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Outras Drogas em Caucaia-Ceará. Mestre em Enfermagem. Membro do Grupo de Pesquisa em Políticas e Práticas em Saúde (GRUPPS – UFC). Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Docente do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFC. Membro do Grupo de Pesquisa em Políticas e Práticas em Saúde (GRUPPS – UFC). Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Docente do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFC. Líder do Grupo de Pesquisa em Políticas e Práticas em Saúde (GRUPPS – UFC). Endereço para Correspondência – ua Ildefonso Albano, 262, apto. 1404, bairro Meireles, Fortaleza-CE. CEP: 60115-000. E-mail: [email protected]. remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 141-147, jan./mar., 2011 141 Reflexões acerca da Reforma Psiquiátrica e a (re)construção de políticas públicas INTRODUÇÃO A Reforma Psiquiátrica surgiu no cenário brasileiro no final da década de 1970 e provocou reflexões sobre a forma como os ditos “loucos” eram tratados pela sociedade. Nesse período, a assistência ainda estava centrada nas internações psiquiátricas e a pessoa em sofrimento mental encontrava-se desprovida de direitos sobre o processo saúde-doença. Nesse contexto, o Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental (MSTM) manifestou-se como primeiro e importante fator de renovação no campo da saúde mental, contribuindo para o estabelecimento da Reforma Psiquiátrica no Brasil por meio da inserção da estratégia de desinstitucionalização no âmbito das políticas públicas nacionais, proposta de influência na democracia italiana de Franco Basaglia.1 O início das lutas e debates políticos voltados para as transformações no campo assistencial da saúde mental foram representados pelos Encontros do MTSM e as I e II Conferências Nacionais de Saúde Mental. Com isso houve o incentivo à desmontagem do aparato manicomial e ênfase na implantação de uma rede territorial de atenção à saúde mental substitutiva ao modelo psiquiátrico tradicional, além de outras experiências culturais e sociais.2 Em virtude do impulso proporcionado pelas experiências de criação de Centros de Atenção Psicossocial (CAPSs) e de Núcleos de Atenção Psicossocial (NAPSs), a Região Sudeste se destacou com a criação do primeiro CAPS, como também com a elaboração do Projeto de Lei n° 3.657/89, de autoria do deputado Paulo Delgado. O projeto dispunha sobre a extinção progressiva dos hospitais psiquiátricos e sua substituição por outros recursos assistenciais, regulamentando a internação psiquiátrica compulsória. No início da década de 1990, o Ministério da Saúde, sob a influência desse projeto de lei e das experiências exitosas, elaborou duas portarias: a Portaria nº 189/91, que possibilitou o financiamento de novas estruturas assistenciais do tipo CAPS, NAPS, hospitais-dia e unidades psiquiátricas em hospitais gerais, até então inexistentes; e a Portaria nº 224/92, que estabeleceu as condições de funcionamento dos serviços de saúde mental, dando maior reforço para o fechamento de serviços hospitalares precários.3 Em abril de 2001, foi aprovada a Lei n° 10.216, que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redirecionamento do modelo assistencial em saúde mental, influenciando o fechamento progressivo dos leitos em hospitais psiquiátricos e a consequente substituição por leitos em hospitais gerais e outros dispositivos. Isso contribuiu para progressiva desospitalização de pacientes portadores de transtornos mentais e a inserção deles em novos serviços propostos pelo processo de Reforma.4 Nessa realidade de crescimento dos serviços substitutivos e incentivo às ações integrais em saúde, na qual se conta 142 com vários profissionais de saúde nos CAPSs, NAPSs, hospitais-dia, residências terapêuticas, dentre outros, ressalte-se a importância das articulações com outros serviços situados no campo da saúde com vista a prestar uma atenção de qualidade às pessoas em sofrimento psíquico. Outro aspecto relevante relaciona-se à inserção do componente psíquico na atenção geral da clientela, no intuito de proporcionar cuidados integrais à população. Quanto aos componentes dos cuidados em saúde mental em todos os níveis de atenção, são assim especificados, conforme Costa5: as Unidades Básicas de Saúde (UBASFs), comunidades terapêuticas, grupos de autoajuda e ajuda mútua na comunidade, hospitais gerais e psiquiátricos, hospitais-dia, serviços de emergências, clínicas especializadas no tratamento de dependentes químicos, casas de apoio e convivência e moradias assistidas. Mesmo com a criação de inúmeros serviços, ainda são limitadas as experiências sobre como se dá a articulação da saúde mental com os demais dispositivos de saúde e o modo de incorporação dos princípios da Reforma Psiquiátrica nas práticas. No campo jurídico, é visível a desarticulação na rede de saúde quanto à abordagem da atenção à saúde mental e à persistência de práticas do modelo biomédico. Desse modo, comprometem-se algumas mudanças rumo à integralidade e à humanização da assistência. Em virtude disso, pergunta-se: Até que ponto os princípios propostos pelo movimento de Reforma Psiquiátrica têm contribuído para a construção de novos saberes e práticas em saúde mental? Como vem ocorrendo, atualmente, a articulação entre os serviços de saúde e saúde mental no que diz respeito às metas estabelecidas pela Política Nacional de Saúde Mental? Diante desses questionamentos, desenvolveu-se este estudo, com os seguintes objetivos: refletir sobre as contribuições da Reforma Psiquiátrica e da Política Nacional de Saúde Mental aos saberes e práticas e analisar os progressos e impasses evidenciados na articulação dos serviços de saúde e na interdisciplinaridade das ações das equipes multiprofissionais. CAMINHO METODOLÓGICO Trata-se de estudo reflexivo realizado pelo levantamento nos bancos de dados LILACS e MEDLINE de publicações utilizando os descritores “reformas dos serviços de saúde” e “saúde mental”, mediados pelos indicadores booleanos and. Foram encontradas, neste primeiro momento, 95 produções na LILACS e 30 na MEDLINE. Para o refinamento do material científico encontrado, foram adotados os critérios de inclusão: artigos aos quais se tivesse acesso na íntegra e incluídos entre 2000 e 2008, período mais próximo às conquistas no campo da saúde mental na realidade brasileira. Ao final, foram agrupados 32 artigos na íntegra, que versavam sobre aspectos da Reforma Psiquiátrica brasileira. remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 141-147, jan./mar., 2011 O período de coleta de dados abrangeu os meses de outubro, novembro e dezembro de 2008. Para a análise dos dados foram feitas leituras exploratórias, seletivas, analíticas e interpretativas. Os resultados foram reflexões contemplando aspectos dos preceitos das políticas de saúde e de saúde mental tendo por base o movimento de Reforma Psiquiátrica. REFLETINDO SOBRE O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DA POLÍTICA DE SAÚDE MENTAL: A REFORMA PSIQUIÁTRICA EM FOCO Políticas públicas em saúde mental: o que mudou com o paradigma da Reforma Psiquiátrica? A Reforma Psiquiátrica brasileira foi responsável por modificações significativas na assistência às pessoas portadoras de distúrbios mentais. Com as práticas de desospitalização e a criação de serviços substitutivos ao hospital psiquiátrico, a pessoa em sofrimento psíquico tem como proposta mais autonomia em seus direitos. Assim, gradativamente, assume postura ativa em seu processo de tratamento, no contexto onde vive. Resgata-se, portanto, o aspecto da cidadania das pessoas em sofrimento mental, de forma a garantir a participação dos usuários dos serviços sobre a sua saúde e os demais aspectos de vida. Com isso, esse sujeito passa a engajarse como detentor de contratualidade social, sendo capaz de intervir nas relações presentes nas redes sociais de cuidado como as instituições de saúde, a comunidade, a família, dentre outros.6 Essas conquistas decorreram de lutas e reivindicações dos trabalhadores da saúde mental e grupos sociais organizados, e culminaram na elaboração de declarações, projetos de lei e, mais tarde, na promulgação de leis que viessem garantir atendimento de qualidade a essas pessoas, baseado em uma lógica de reabilitação e reinserção social.7 Em termos de Brasil, esse processo vem acontecendo de forma gradativa, nem sempre com o ritmo e a qualidade desejados. Acompanhando o contexto, o Movimento de Luta Antimanicomial propicia significativas contribuições. Para Luchmann e Rodrigues,8 o Movimento Nacional da Luta Antimanicomial consta como instância política incluída em um processo mais amplo de mudanças sociais para o combate à exclusão do sofrimento mental. Nela se envolvem diferentes atores, dentre eles trabalhadores em saúde mental, usuários, familiares, membros da comunidade e instituições, na busca de transformação das condições, relações e representações acerca da doença mental na sociedade. Destaque-se, sobretudo, o papel de corresponsabilidade de cada agente para o alcance de maior qualidade de assistência às pessoas em sofrimento psíquico, seja por meio de novas práticas, seja mediante serviços de assistência. A experiência pioneira de estruturação de serviços substitutivos iniciou-se no Estado de São Paulo, com a criação do Centro de Atenção Psicossocial Prof. Luiz da Rocha Cerqueira, em 1987. A proposta foi antecedida pela ampliação da rede de assistência extra-hospitalar, com a inclusão de ações em saúde mental nas Unidades Básicas de Saúde e a estruturação de novos ambulatórios. Isso permitiu a hierarquização desse serviço com os demais componentes da rede de atenção em saúde, proporcionando perspectivas para a atenção integral.9 Em seguimento a essas tendências, surgiu o primeiro Núcleo de Atenção Psicossocial na cidade de Santos, em 1989, como resposta à reorganização da assistência em saúde mental, que vinha sendo reestruturada a princípio nos hospitais psiquiátricos com base na humanização das práticas. Com isso, houve necessidade de aproximar os trabalhadores de saúde mental e usuários em novos espaços, proporcionando a abertura para integração da comunidade e dos familiares no processo de atenção a essa clientela. Como explicitam Luzio e L’Abbate, 9 as conquistas alcançadas no campo da assistência em saúde mental nas cidades de São Paulo, Santos e Campinas só foram possíveis em virtude do comprometimento da gestão com projetos que superassem os dispositivos assistenciais do antigo modelo biomédico e proporcionassem a aproximação com os preceitos da Reforma Psiquiátrica. Apesar do progresso conquistado em algumas localidades do País, muitos dos ganhos passam pelo processo de descontinuidade político-administrativa, o que gera retrocessos e distorções. Desse modo, considera-se fundamental o compromisso político dos gestores, das equipes de saúde, dos usuários e da comunidade, no intuito de garantir e legitimar as conquistas e seus impactos na atenção em saúde mental. Paiva e Yamamoto10 destacam os avanços ocorridos na assistência à saúde mental da cidade de Natal, enfatizando os esforços dos trabalhadores em busca de práticas extra-hospitalares humanizadas. Nessa realidade, foi necessário o enfrentamento das oposições advindas da indústria da loucura, representada pelos donos de hospitais psiquiátricos, e a estagnação das práticas recentes, evidenciadas pelo pouco incentivo político dos gestores na área. Assim como a cidade de Natal-RN, a cidade de BarbacenaMG também sofreu modificações significativas no contexto de assistência psiquiátrica, marcadas por fortes práticas hospitalocêntricas e desumanas que, durante muito tempo, motivaram-lhe a denominação de “Cidade dos Loucos”. Diante da situação, o município passou a ser alvo de tentativas de inovações da gestão pública, com a busca da implementação de ações condizentes com os preceitos da Reforma.11 Alvarenga e Novaes11 analisaram a relação de cooperação firmada em Barbacena entre o gestor público e uma instituição de terceiro setor na construção e gestão de residências assistidas. Segundo identificado, essa experiência segue a tendência inovadora na modalidade de gerenciamento do setor saúde, indicando interesse em modificações assistenciais, como preconizam as diretrizes da Reforma Psiquiátrica. remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 141-147, jan./mar., 2011 143 Reflexões acerca da Reforma Psiquiátrica e a (re)construção de políticas públicas Entretanto, apesar de a Reforma Psiquiátrica brasileira representar um processo de transformação do modelo de cuidados psiquiátricos, passando a centrar sua lógica na construção de saberes e práticas em serviços comunitários de saúde mental, alguns impasses podem ser ressaltados no cenário nacional. Mencionam-se, particularmente, a má distribuição da cobertura dos serviços de saúde mental no País e a precariedade na qualidade e na humanização da assistência, sobretudo quando questões específicas são retomadas, como os direitos de pessoas com transtorno mental autoras de delitos.12-14 No Brasil, um exemplo das intervenções oferecidas a essas pessoas estão concentradas no Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico (HCTP), que possui bases no modelo hospitalocêntrico, desvinculado da rede de serviços em saúde mental, contribuindo para a segregação e exclusão dos seus usuários. Parte disso deve-se ao subdesenvolvimento da Psiquiatria Forense nos países latino-americanos, praticada, muitas vezes, por profissionais não especializados na área. 15-17 Percebe-se que o sistema de saúde tem disponibilizado o maior número de modalidades de tratamento, contudo a cobertura dos serviços comunitários ainda é escassa e a reforma da assistência em psiquiatria não está sendo acompanhada pelo adequado investimento público.13 Inegavelmente, a qualidade da assistência, assim como a humanização de práticas nos serviços específicos, está ocupando lugar de destaque no processo de Reforma e no discurso dos profissionais da área, norteando os caminhos por onde deve trilhar a atenção. Apesar disso, alguns dos direcionamentos atuais são contraditórios quando analisados à luz dessas questões. Embora o discurso gire em torno da humanização e da garantia de autonomia aos pacientes, as atitudes de vários profissionais ainda refletem a formação biologicista, centrada na doença e no processo de causa e efeito, sem a devida valorização dos saberes e das habilidades inerentes a cada sujeito em situação de distúrbio ou sofrimento psíquico.12 Distingue-se a priorização de novos modelos aptos a subsidiar a formação de profissionais em saúde, segundo referencial que atenda aos princípios da Reforma Psiquiátrica e do Sistema Único de Saúde (SUS). Aliado a isso, tem-se a necessidade de incorporar novos ambientes para o desenvolvimento de experiências positivas no campo da atenção psicossocial e da clínica ampliada, rompendo com o paradigma biologicista.18-19 Desse modo, segundo se percebe, apesar de haver incentivos, desde a década de 1980, para mudanças nas práticas em saúde mental e na construção da rede de atenção na nova perspectiva, é preciso avançar ainda em alguns aspectos, pois parte significativa dos caminhos a trilhar depende de decisão política dos gestores. Contudo, a participação popular e o controle social se fazem essenciais, pois muitas das conquistas evidenciadas no campo da assistência em saúde mental só foram conseguidas em decorrência dos movimentos que reuniram vários segmentos sociais organizados. 144 A família também passa a ser importante incentivador das práticas humanizadas de saúde, em parceria com os serviços. São necessárias, porém, intervenções que proporcionem aos familiares a execução de seu papel de cuidadores, como também o acolhimento adequado das possíveis demandas surgidas diante da presença do transtorno mental no contexto familiar.20 Para que a Reforma Psiquiátrica avance e ocupe novos espaços, os discursos devem se concretizar em práticas que se configurem de acordo com a nova lógica de superação do modelo anterior, no qual seja posta em foco a existência-sofrimento da pessoa, respeitando-lhe o direito às diferenças e reconhecendo-lhe a cidadania. Nessa perspectiva, a rede de atenção em saúde mental deve ser construída com base na interdisciplinaridade e na existência de um projeto terapêutico individualizado, voltado para a assistência humanizada, com preceitos técnicos e éticos adequados. Novos serviços e as práticas em saúde mental nos dias atuais Desde a década de 1990, observam-se esforços dos gestores e dos trabalhadores de saúde mental em atuar na rede substitutiva. Nesse caso, incorporam-se os serviços extra-hospitalares como os NAPSs, as residências terapêuticas, as associações de usuários, os CAPSs, dentre outros que, como novos espaços de cuidado, refletem os preceitos de reabilitação e reinserção trazidos pelo movimento de Reforma Psiquiátrica. Dentre os vários NAPSs, o da cidade de Santos-SP sobressai como serviço pioneiro, surgido com o movimento de Reforma no Brasil. Koda e Fernandes21 ressaltam características humanizadas desse serviço, tais como o acolhimento, a escuta e a criação de vínculos. Com isso, as intervenções com os usuários se dão de modo eficaz, pois os auxiliam na construção de seus projetos de vida, ao ampliar-lhes a autonomia, a contratualidade social e a qualidade de vida. As residências terapêuticas são descritas como dispositivos criados para a promoção da humanização do espaço asilar, disseminadas gradativamente na sociedade, com vista a garantir espaços de moradia para aquelas pessoas cronificadas pelo transtorno mental e que residem em hospitais psiquiátricos, sem vínculos familiares ou incapazes de se reinserir na família. De acordo com Belini e Hirdes,22 as residências contribuem para o resgate da autonomia dessas pessoas, constituindo uma ferramenta poderosa no processo de reabilitação psicossocial. Contudo, deve-se repensar as práticas desenvolvidas em serviços como esses para evitar a simples reprodução do modelo asilar em um novo espaço instituído.23 Os CAPSs aparecem como serviços estratégicos para a disseminação do ideário de atenção psicossocial baseados nos conceitos de reabilitação, reinserção e integração e em um modelo de cuidado integral. Temse, desse modo, a construção de práticas segundo os princípios da Reforma Psiquiátrica com a ênfase no indivíduo e nas suas necessidades.24,25 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 141-147, jan./mar., 2011 Desde o final da década de 1980, observa-se a implantação progressiva de espaços extra-hospitalares e a efetivação da mudança no modelo assistencial, além da incorporação de outras categorias profissionais na assistência ao portador de transtorno mental. Oficializouse, assim, o papel do CAPS como instituição substitutiva aos hospitais psiquiátricos pela Portaria nº 336/02, por meio da qual foram criadas três modalidades desse serviço (CAPS geral, CAPSi e CAPSad), que passaram a proporcionar assistência à clientela psiquiátrica segundo suas especificidades.3 De acordo com dados do Relatório de Gestão do Ministério da Saúde de 2000 a 2009, houve incentivo aos gestores para a expansão da rede de CAPSs nos municípios de grande porte. Como resultado, atualmente o Brasil conta com 1.541 desses serviços, distribuídos nas seguintes modalidades: 725 CAPSs I, 402 CAPSs II, 46 CAPSs III, 122 CAPSis e 242 CAPSads.26 Nos CAPSs, percebe-se a ênfase no trabalho baseado na interdisciplinaridade, no cuidado comunitário com base nas demandas e no engajamento das redes sociais para o incremento da qualidade da assistência, a abertura e a flexibilização das relações entre técnicos e demais atores envolvidos e o comprometimento sociopolítico. No entanto, persiste o desafio da superação do descompasso entre o preconizado pela teoria e a preponderância de modelo ainda centrado na medicalização da assistência e na continuidade dos estigmas enfocando a periculosidade associada ao adoecimento mental, além de outras questões.27,28 Atualmente, a articulação entre os CAPSs e a Estratégia de Saúde da Família (ESF) tem sido bastante divulgada, e os primeiros serviços são ressaltados como aqueles que devem assumir o papel de promotores de experiências de autonomia responsável, e não de laços de dependência, encontrando na atenção básica oportunidades de reinserção dos indivíduos no contexto comunitário das relações.29,30 Segundo Souza, 29 talvez um dos grandes desafios dessa articulação seja “capacitar” tanto as equipes de saúde da família quanto a dos novos serviços de saúde mental para um pensar e agir voltados para a atenção psicossocial, de modo que isso possa incentivar os usuários desses serviços na busca de sua autonomia e de seus direitos. No entanto, a construção de saberes e práticas nessas instituições torna-se uma tarefa desafiadora, pois existem barreiras a transpor, tais como as prováveis angústias e os desgastes das equipes multiprofissionais, cujos membros divergem na forma de pensar e trabalhar a saúde mental dos usuários nos serviços; a escassez de capacitação dos profissionais da atenção básica para intervir no caso de pessoas em sofrimento mental; e a interferência dos interesses comerciais vinculados ao adoecer mental, mediante a luta ferrenha contra o fechamento dos leitos em hospitais psiquiátricos.25,27,30-33 Nos CAPSs, pode haver também o processo de cronificação e reprodução de lógicas manicomiais, sobretudo em face da pouca importância atribuída por alguns gestores e trabalhadores da área de saúde mental à assistência desenvolvida nessas instituições. Faz-se, pois, necessária a constante avaliação das práticas para que respondam aos propósitos norteados pela Reforma Psiquiátrica.34 Apesar das propostas do movimento de Reforma, a realidade aponta entraves para a efetivação política desses serviços. Evidência disso foi vista no CAPS “Nossa Casa”, referência na rede de serviços de saúde mental do Estado do Rio Grande do Sul, que até 2005 passava por uma série de dificuldades decorrentes do descaso do Poder Público quanto ao repasse de recursos financeiros necessários para a efetivação do funcionamento do serviço.28 Ao se reportarem à articulação dos serviços substitutivos de saúde mental, Alvarenga e Novaes11 mencionaram a cidade de Barbacena-MG como um dos municípios que revolucionaram sua atenção à saúde mental. Justificase a referência, pois essa cidade investiu em serviços voltados para as práticas de desinstitucionalização, tais como: CAPSs, hospitais-dia, prontos-socorros, que incluem o atendimento às emergências psiquiátricas, leitos psiquiátricos em hospitais gerais; centros de convivência, destinados não somente aos usuários de saúde mental, mas a toda comunidade; e, ainda, as residências terapêuticas, que têm sido ferramentas de valioso significado na desospitalização de usuários crônicos e o Programa Saúde da Família (PSF), com destaque para a articulação da equipe de saúde da família com a de saúde mental. Assim, a atenção básica é mencionada como porta de entrada do usuário no sistema e se reconhece a importância da interconexão que deve existir entre as Unidades Básicas de Saúde da Família e os CAPSs. Uma das experiências promissoras é a desenvolvida na cidade de São Paulo, onde ocorre atuação conjunta da equipe de saúde da família e de saúde mental, havendo a troca de experiências baseada em seus saberes e nas práticas com a construção de laços de apoio mútuo diante das demandas específicas em saúde mental na comunidade.29,30 Apesar do apontado, conforme ainda visto em alguns serviços, os trabalhadores de saúde atuantes na atenção básica continuam inseguros para lidar com ações de saúde mental no cotidiano. Diversos fatores contribuem para essa realidade, como a deficiência da capacitação nessa área, a demanda exacerbada, o acúmulo de papéis dos profissionais, dentre outros motivos. Profissionais como os agentes comunitários de saúde (ACSs) enfatizaram o uso da escuta como instrumento utilizado nas visitas domiciliárias aos portadores de distúrbio psíquico, entretanto não o reconheceram como modo de intervenção em saúde mental. Alguns profissionais mostraram, nos discursos, alguma dependência da prática médica, referindo que a busca pelas prescrições ou mesmo pelo próprio médico é a primeira condutas tomada quando se está diante de casos de transtornos mentais.30 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 141-147, jan./mar., 2011 145 Reflexões acerca da Reforma Psiquiátrica e a (re)construção de políticas públicas Os conceitos contemporâneos sobre a saúde mental giram em torno do preconizado pelo movimento de Reforma Psiquiátrica, sobretudo ao enfatizarem a importância de aspectos como a integralidade e a intersetorialidade entre os serviços e as práticas. Contudo, quando se trata da descrição das práticas profissionais, persiste a assistência inadequada, ainda sob influência biologicista, com o predomínio do saber médico e de medidas institucionalizadoras.17,25,32,35,36 Outro fato decisivo é que alguns profissionais, ao serem incentivados a trabalhar de forma interdisciplinar, tendo suas ações para o cuidado em comunidade, apresentam dificuldades em lidar com a adaptação segundo o paradigma vigente, pois isso envolve complexas questões filosóficas e existenciais, que não mudam repentinamente.25,37,38 Apesar de haver lacunas a preencher, é notória a elaboração de políticas públicas significativas que incentivem novas práticas pautadas em paradigmas focados na Reforma Psiquiátrica, na qualidade de vida e na reabilitação psicossocial. Com isso, os profissionais que atuam e militam no campo da saúde mental têm procurado modificar suas ações mediante troca de vivências, de saberes e de práticas, tentando inserir nas discussões os usuários de serviços, seus familiares e pessoas da comunidade. Avanços ainda poderão ser observados quanto à integralidade das ações e à interdisciplinaridade, vislumbrando uma rede de serviços consolidada e articulada, principalmente, no quesito das referências e contrarreferências, as quais, em muitas experiências, ainda se mostram sem a sistematização e deficientes em termos de execução. CONSIDERAÇÕES FINAIS Conforme observado, as percepções e o conhecimento em saúde mental caminham de acordo com o preconizado, em especial por enfatizarem a implantação de novos serviços e a importância do trabalho articulado, objetivando a garantia de assistência integral e hierarquizada ao usuário e sua família, o que proporciona, também, o respeito à cidadania e à autonomia dessas pessoas. A despeito do crescimento progressivo da rede de serviços, apontam-se a localização inadequada das suas instituições componentes e a carência de capacitação adequada dos profissionais nelas atuantes como impasses preocupantes, que dependem da vontade política dos governantes. Além disso, existe falha notória no sistema de referência e contrarreferência. Mesmo assim, os trabalhadores de saúde mental estão cada vez mais conscientes da necessidade de reivindicar melhorias para suas condições de trabalho e de assistência; eles percebem a importância da interdisciplinaridade e do enfoque na reabilitação psicossocial, embora muitas de suas percepções contrastem com suas práticas ainda pautadas por parâmetros do modelo biomédico. Pressupõe-se que a persistência do modelo flexineriano relacione-se com os resquícios de uma formação biologicista, na qual o interesse por práticas humanizadas era escasso ou mesmo inexistente e a assistência extrahospitalar à saúde prestada encontrava-se fora de cogitação. Contudo, notam-se o interesse e o esforço coletivo pela associação teórico-prática, que não envolve somente o interesse individual do trabalhador, mas a ação política e a efetiva participação popular. A existência do novo paradigma de saúde mental faz-se notória nos recentes estudos na área, uma vez que trazem discussões relevantes sobre questões como: promoção da saúde mental; reabilitação e reinserção social; cidadania e direitos dos pacientes com transtornos psíquicos; saberes e práticas atuais de saúde mental; novas tendências do ensino em saúde mental; dentre outras. Com essa finalidade, a despeito da existência de várias dissonâncias, espera-se que este estudo direcione maiores reflexões para questões e experiências aptas a corroborar os preceitos da Reforma Psiquiátrica brasileira, vindo a servir de estímulo para a continuidade da reconstrução do saber-fazer em saúde mental como um processo de ganhos a cada oportunidade proporcionada por práticas profissionais e necessidades da clientela assistida. Agradecimentos à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelo suporte financeiro. REFERÊNCIAS 1. Amarante P. Loucura, cultura e subjetividade: conceitos e estratégias, percursos e atores da reforma psiquiátrica brasileira. In: Fleury S, organizador. Saúde e democracia: a luta do CEBES. São Paulo: Lemos Editorial; 1997. 324 p. 2. Amarante P, coordenador. Loucos pela vida: a trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil. 2ª ed. Rio de Janeiro: Fiocruz; 1998. 136 p. 3. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. 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Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Número de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) por tipo e UF e Indicador CAPS/100.000 habitantes Brasil – em 25 de junho de 2010. [Citado 2010 ago 13]. Disponível em: http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/caps_uf_junho.pdf. 27. Garcia MLP, Jorge MSB. Vivência de trabalhadores de um Centro de Atenção Psicossocial: estudo à luz do pensamento de Martin Heidegger e Hans– Georg Gadamer. Ciênc Saúde Coletiva. 2005; 11(3):765-74. 28. Nunes JAB. Para além dos “muros” da Nossa Casa: a construção de uma história em movimento. Psico (Porto Alegre). 2005; 36(3):293-8. 29. Souza AC. Ampliando o campo da atenção psicossocial: a articulação dos Centros de Atenção Psicossocial com a saúde da família. Esc Anna Nery Rev Enferm. 2006; 10(4):703-10. 30. Nunes M, Jucá VJ, Valentim CPB. Ações de saúde mental no Programa Saúde da Família: confluências e dissonâncias das práticas com os princípios das reformas psiquiátricas e sanitária. Cad Saúde Pública. 2007; 23(10):2375-84. 31. Silva ATMC, Silva CC, Ferreira Filha MO, Nóbrega MML, Barros S, Santos KKG. A saúde mental no PSF e o trabalho de enfermagem. Rev Bras Enferm. 2005; 58(4):411-5. 32. Antunes SM, Queiroz MS. A configuração da Reforma Psiquiátrica em contexto local no Brasil: uma análise qualitativa. Cad Saúde Pública. 2007; 23(1):207-15. 33. Rodrigues J, Brognoli FF, Spricigo JS. Associação dos usuários de um Centro de Atenção Psicossocial: desvelando sua significação. Texto & Contexto Enferm. 2006; 15(2):240-5. 34. Onocko Campos RT, Furtado JP. Entre a saúde coletiva e a saúde mental: um instrumental metodológico para avaliação da rede de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) do Sistema Único de Saúde. Cad Saúde Pública. 2006; 22(5):1053-62. 35. Machado AL. Reforma psiquiátrica e mídia: representações sociais na Folha de S. Paulo. Ciênc Saúde Coletiva. 2004; 9(2):483-91. 36. Prandoni RFS, Padilha MICS, Spricigo JS. A Reforma Psiquiátrica possível e situada. Rev Enferm UERJ. 2006; 14(3):357-65. 37. Ribeiro AM. O lugar do psicanalista em uma clínica das psicoses: algumas reflexões. Psychê. 2005; 9(16):165-82. 38. Freitas FFP. A história da psiquiatria não contada por Foucault. Hist Ciênc Saúde – Manguinhos. 2004; 11(1):75-91. Data de submissão: 7/10/2009 Data de aprovação: 17/12/2010 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 141-147, jan./mar., 2011 147 Normas de publicação REME – REVISTA MINEIRA DE ENFERMAGEM INSTRUÇÕES AOS AUTORES 1 SOBRE A MISSÃO DA REME A REME – Revista Mineira de Enfermagem é uma publicação da Escola de Enfermagem da UFMG em parceria com Faculdades, Escolas e Cursos de Graduação em Enfermagem de Minas Gerais: Escola de Enfermagem Wenceslau Braz; Fundação de Ensino Superior do Vale do Sapucaí; Fundação de Ensino Superior de Passos; Centro Universitário do Leste de Minas Gerais; Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Possui periodicidade trimestral e tem por finalidade contribuir para a produção, divulgação e utilização do conhecimento produzido na enfermagem e áreas correlatas, abrangendo a educação, a pesquisa e a atenção à saúde. 2 SOBRE AS SEÇÕES DA REME Cada fascículo, editado trimestralmente, terá a seguinte estrutura: Editorial: refere-se a temas de relevância do contexto científico, acadêmico e político-social; Pesquisas: incluem artigos com abordagem metodológicas qualitativas e quantitativas, originais e inéditas que contribuem para a construção do conhecimento em enfermagem e áreas correlatas; Revisão teórica: avaliações críticas e ordenadas da literatura em relação a temas de importância para a enfermagem e áreas correlatas; Relatos de experiência: descrições de intervenções e experiências abrangendo a atenção em saúde e educação; Artigos reflexivos: textos de especial relevância que trazem contribuições ao pensamento em Enfermagem e Saúde; Normas de publicação: instruções aos autores referentes à apresentação física dos manuscritos nos idiomas: português, inglês e espanhol. 3 SOBRE O JULGAMENTO DOS MANUSCRITOS Os manuscritos recebidos serão analisados pelo Conselho Editorial da REME, que se reserva o direito de aceitar ou recusar os trabalhos submetidos. O processo de revisão – peer review – consta das etapas a seguir, nas quais os manuscritos serão: a) protocolados, registrados em base de dados para controle; b) avaliados quanto à apresentação física – revisão inicial quanto aos padrões mínimos de exigências da REME (folha de rosto com identificação dos autores e títulos do trabalho) e a documentação; podendo ser devolvido ao autor para adequação às normas antes do encaminhamento aos consultores; c) encaminhados ao Editor-Geral, que indica o Editor Associado, que ficará responsável por indicar dois consultores em conformidade com as áreas de atuação e qualificação; d) remetidos a dois revisores especialistas na área pertinente, mantidos em anonimato, selecionados de um cadastro de revisores, sem identificação dos autores e o local de origem do manuscrito. Os revisores serão sempre de instituições diferentes da instituição de origem do autor do manuscrito. e) Após receber ambos os pareceres, o Editor Associado avalia e emite parecer final, e este é encaminhado ao Editor-Geral, que decide pela aceitação do artigo sem modificações, pela recusa ou pela devolução aos autores com as sugestões de modificações. Cada versão é sempre analisada pelo Editor-Geral, responsável pela aprovação final. 4 SOBRE A APRESENTAÇÃO DOS MANUSCRITOS 4.1 Apresentação gráfica Os manuscritos devem ser encaminhados gravados em disquete ou CD-ROM, utilizando programa "Word for Windows", versão 6.0 ou superior, fonte "Times New Roman", estilo normal, tamanho 12, digitados em espaço 1,5 entre linhas, em duas vias impressas em papel padrão ISO A4 (212 x 297mm), com margens de 2,5 mm, padrão A4, limitando-se a 20 laudas, incluindo as páginas preliminares, texto, agradecimentos, referências e ilustrações. 4.2 As partes dos manuscritos Todo manuscrito deverá ter a seguinte estrutura e ordem, quando pertinente: a) Páginas preliminares: Página 1: Título e subtítulo – nos idiomas: português, inglês, espanhol; Autor(es): nome completo acompanhado da profissão, titulação, cargo, função e instituição, endereço postal e eletrônico do autor responsável para correspondência; Indicação da Categoria do artigo: Pesquisa, Revisão Teórica , Relato de Experiência, Artigo Reflexivo/Ensaio. Página 2: Título do artigo em português; Resumo e palavras-chave; Abstract e Key words; Resumen e Palabras clave. (As Palavraschave (de três a seis), devem ser indicadas de acordo com o DECS – Descritores em Ciências da Saúde/BIREME), disponível em: <http:// decs.bvs.br/>. O resumo deve conter até 250 palavras, com espaçamento simples em fonte com tamanho 10. remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 114-120, jan./mar., 2011 149 Página 3: a partir desta página, apresenta-se o conteúdo do manuscrito precedido pelo título em português, que inclui: b) Texto: – introdução; – desenvolvimento (material e método ou descrição da metodologia, resultados, discussão e/ou comentários); – conclusões ou considerações finais; c) Agradecimentos (opcional); d) Referências como especificado no item 4.3; e) Anexos, se necessário. 4.3 Sobre a normalização dos manuscritos: Para efeito de normalização, serão adotados os Requerimentos do Comitê Internacional de Editores de Revistas Médicas (Norma de Vancouver). Esta norma poderá ser encontrada na íntegra nos endereços: em português: <http://www.bu.ufsc.br/bsccsm/vancouver.html> em espanhol: <http://www.enfermeriaencardiologia.com/formacion/vancouver.htm> em inglês: <http://www.nlm.nih.gov/bsd/uniform_requirements.html> As referências são numeradas consecutivamente, na ordem em que são mencionadas pela primeira vez no texto. As citações no texto devem ser indicadas mediante número arábico, sobrescrito, correspondendo às referências no final do artigo. Os títulos das revistas são abreviados de acordo com o “Journals Database” – Medline/Pubmed, disponível em: <http://www.ncbi. nlm.nih.gov/entrez/ query. fcgi? db=Journals> ou com o CCN – Catálogo Coletivo Nacional, do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), disponível em: <http://www.ibict.br.> As ilustrações devem ser apresentadas em preto & branco imediatamente após a referência a elas, em conformidade com a Norma de apresentação tabular do IBGE, 3ª ed. de 1993 . Em cada categoria deverão ser numeradas seqüencialmente durante o texto. Exemplo: (TAB. 1, FIG. 1, GRÁF 1). Cada ilustração deve ter um título e a fonte de onde foi extraída. Cabeçalhos e legendas devem ser suficientemente claros e compreensíveis sem necessidade de consulta ao texto. As referências às ilustrações no texto deverão ser mencionadas entre parênteses, indicando a categoria e o número da ilustração. Ex. (TAB. 1). As abreviaturas, grandezas, símbolos e unidades devem observar as Normas Internacionais de Publicação. Ao empregar pela primeira vez uma abreviatura, esta deve ser precedida do termo ou expressão completos, salvo quando se tratar de uma unidade de medida comum. As medidas de comprimento, altura, peso e volume devem ser expressas em unidades do sistema métrico decimal (metro, quilo, litro) ou seus múltiplos e submúltiplos. As temperaturas, em graus Celsius. Os valores de pressão arterial, em milímetros de mercúrio. Abreviaturas e símbolos devem obedecer padrões internacionais. Os agradecimentos devem constar de parágrafo à parte, colocado antes das referências. 5 SOBRE O ENCAMINHAMENTO DOS MANUSCRITOS Os manuscritos devem vir acompanhados de ofício de encaminhamento contendo nome do(s) autor(es), endereço para correspondência, e-mail, telefone, fax e declaração de colaboração na realização do trabalho e autorização de transferência dos direitos autorais para a REME. (Modelos disponíveis em www.enf.ufmg.br/reme) Para os manuscritos resultados de pesquisas envolvendo seres humanos, deverá ser encaminhada uma cópia de aprovação emitido pelo Comitê de Ética reconhecido pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), segundo as normas da Resolução do Conselho Nacional de Saúde (CNS/196/96). Para os manuscritos resultados de pesquisas envolvendo apoios financeiros, estes deverão estar claramente identificados no manuscrito e o(s) autor(es) deve(m) declarar, juntamente com a autorização de transferência de autoria, não possuir(em) interesse(s) pessoal, comercial, acadêmico, político ou financeiro no manuscrito. Os manuscritos devem ser enviados para: At/REME – Revista Mineira de Enfermagem Escola de Enfermagem da UFMG Av. Alfredo Balena, 190, sala 104 Bloco Norte CEP.: 30130-100 Belo Horizonte-MG – Brasil – Telefax.: 55(31) 3409-9876 E-mail: [email protected] 6 SOBRE A RESPONSABILIZAÇÃO EDITORIAL Os casos omissos serão resolvidos pelo Conselho Editorial. A REME não se responsabiliza pelas opiniões emitidas nos artigos. (Versão de setembro de 2007) 150 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 114-120, jan./mar., 2011 Publication norms REME – REVISTA MINEIRA DE ENFERMAGEM INSTRUCTIONS TO AUTHORS 1. THE MISSION OF THE MINAS GERAIS NURSING MAGAZINE – REME REME is a journal of the School of Nursing of the Federal University of Minas Gerais in partnership with schools and undergraduate courses in Nursing in the State of Minas Gerais, Brazil: Wenceslau Braz School of Nursing, Higher Education Foundation of Vale do Sapucaí, Higher Education Foundation of Passos, University Center of East Minas Gerais, Nursing College of the Federal University of Juiz de Fora. It is a quarterly publication intended to contribute to the production, dissemination and use of knowledge produced in nursing and similar fields covering education, research and healthcare. 2. REME SECTIONS Each quarterly edition is structured as follows: Editorial: raises relevant issues from the scientific, academic, political and social setting. Research: articles with qualitative and quantitative approaches, original and unpublished, contributing to build knowledge in nursing and associated fields. Review of theory: critical reviews of literature on important issues of nursing and associated fields. Reports of experience: descriptions of interventions and experiences on healthcare and education. Critical reflection: texts with special relevance bringing contributions to nursing and health thinking. Publication norms: instructions to authors on the layout of manuscripts in the languages: Portuguese, English and Spanish. 3. EVALUATION OF MANUSCRIPTS The manuscripts received are reviewed by REME’s Editorial Council, which has the right to accept or refuse papers submitted. The peer review has the following stages: a) protocol, recorded in a database for control b) evaluated as to layout – initial review as to minimal standards required by REME – (cover note with the name of authors and titles of the paper) and documentation. They may be sent back to the author for adaptation to the norms before forwarding to consultants. c) Forwarded to the General Editor who name an Associate Editor who will indicate two consultants according to their spheres of work and qualification. d) Forwarded to two specialist reviewers in the relevant field, anonymously, selected from a list of reviewers, without the name of the authors or origin of the manuscript. The reviewers are always from institutions other than those of the authors. e) After receiving both opinions, the General Editor and the Executive Director evaluate and decide to accept the article without alterations, refuse or return to the authors, suggesting alterations. Each copy is always reviewed by the General Editor or the Executive Director who are responsible for final approval. 4. LAYOUT OF MANUSCRIPTS 4.1 GRAPHICAL LAYOUT Manuscripts are to be submitted on diskette or CD-ROM in Word for Windows, version 6.0 or higher, Times New Roman normal, size 12, space 1.5, printed on standard ISO A4 paper (212 x 297 mm), margins 2.5 mm, limited to 20 pages, including preliminary pages, texts, acknowledgement, references and illustrations. 4.2 PARTS OF THE MANUSCRIPTS Each manuscript should have the following structure and order, whenever relevant: REME – Rev. Min. Enf.; 11(1): 99-107, jan/mar, 2007 – 103 a) Preliminary pages: Page 1: title and subtitle – in Portuguese, English and Spanish. Authors: full name, profession, qualifications, position and institution, postal and electronic address of the author responsible for correspondence. Indication of paper category: Research, Review of Theory, Report of Experience, Critical Reflection/Essay. Page 2: Title of article in Portuguese; Resumo e palavras-chave; Abstract and key-words; Resumen e palavras clave (Key words - 3 to 6 – should agree with the Health Science Descriptors/BIREME, available at http://decs.bvs.br/ . The abstract should have up to 250 words with simple space, font size 10. remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 114-120, jan./mar., 2011 151 Page 3: the content of the paper begins on this page, starting with the title in Portuguese, which includes: b) Text: • Introduction; • Main body (material and method or description of methodology, results, discussion and/or comments); • Conclusions or final comments. c) Acknowledgements (optional); d) References as specified in item 4.3 e) Appendices, if necessary. 4.3 REQUIREMENTS FOR MANUSCRIPTS: The requirements are those of the International Committee of Medical Journal Editors (Vancouver Norm), which can be found in full at the following sites: Portuguese: <http://www.bu.ufsc.br/bsccsm/vancouver.html> Spanish: <http://www.enfermeriaencardiologia.com/formacion/vancouver.htm> English: <http://www.nlm.nih.gov/bsd/uniform_requirements.html> References are numbered in the same order in which they are mentioned for the first time in the text. Quotations in the text should be numbered, in brackets, corresponding to the references at the end of the article. The titles of journals are abbreviated according to “Journals Database” – Medline/Pubmed, available at: <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/ entrez/ query. fcgi? db=Journals> or according to the CCN – National Collective Catalogue of the IBICT- Brazilian Information Institute in Science and Technology, available at: <http://www.ibict.br.> Illustrations should be sent in black and white immediately after the reference in the text, according to the tabular presentation norm of IBGE, 3rd ed. of 1993. Under each category they should be numbered sequentially in the text. (Example: TAB 1, FIG. 1, GRÁF 1). Each illustration should have a title and the source. Headings and titles should be clear and understandable, without the need to consult the text. References to illustrations in the text should be in brackets, indicating the category and number of the illustration. Ex. (TAB. 1). Abbreviations, measurement units, symbols and units should agree with international publication norms. The first time an abbreviation is used, it should be preceded by the complete term or expression, except when it is a common measurement. Length, height, weight and volume measures should be quoted in the metric system (meter, kilogram, liter) or their multiples or sub-multiples. Temperature, in degrees Celsius. Blood pressure, in millimeters of mercury. Abbreviations and symbols must follow international standards. Acknowledgements should be in a separate paragraph, placed before the bibliography. 5. SUBMITTAL OF MANUSCRIPTS Manuscripts must be accompanied by a cover letter containing the names of the authors, address for correspon¬dence, e-mail, telephone and fax numbers, a declaration of collaboration in the work and the transfer of copyright to REME. (Samples are available at: www.enfermagem.ufmg.br/reme) For manuscripts resulting from research involving human beings, there should be a copy of approval by the ethics committee recognized by the National Ethics Committee for Research (CONEP), according to the norms of the National Health Council – CNS/196/96. Manuscripts that recived financial support need to have it clearly identified. The author(s) must sign and send the Responsability Agreement and Copyright Transfer Agreement and also a statement informing that there are no persnonal, comercial, academic, political or financial interests on the manuscript. Manuscripts should be sent to: ATT/REME- Revista Mineira de Enfermagem Escola de Enfermagem da UFMG Av. Alfredo Balena, 190, sala 104 Bloco Norte CEP.: 30130-100 Belo Horizonte - MG – Brasil - Telefax.: 55(31) 3409-9876 – REME – Rev. Min. Enf.; 11(1): 99-107, jan/mar, 2007 104 E-mail: [email protected] 6. EDITORS RESPONSIBILITY Further issues will be decided by the Editorial Council. REME is not responsible for the opinions stated in articles. (September version, 2007) 152 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 114-120, jan./mar., 2011 Normas de publicación REME – REVISTA DE ENFERMERÍA DEL ESTADO DE MINAS GERAIS INSTRUCCIONES A LOS AUTORES 1. SOBRE LA MISIÓN DE LA REVISTA REME REME – Revista de Enfermería de Minas Gerais – es una publicación trimestral de la Escuela de Enfermería de la Universidad Federal de Minas Gerais – UFMG – conjuntamente con Facultades, Escuelas y Cursos de Graduación en Enfermería del Estado de Minas Gerais: Escuela de Enfermería Wenceslao Braz; Fundación de Enseñanza Superior de Passos; Centro Universitario del Este de Minas Gerais; Facultad de Enfermería de la Universidad Federal de Juiz de Fora – UFJF. Su publicación trimestral tiene la finalidad de contribuir a la producción, divulgación y utilización del conocimiento generado en enfermería y áreas correlacionadas, incluyendo también temas de educación, investigación y atención a la salud. 2. SOBRE LAS SECCIONES DE REME Cada fascículo, editado trimestralmente, tiene la siguiente estructura: Editorial: considera temas de relevancia del contexto científico, académico y político social; Investigación: incluye artículos con enfoque metodológico cualitativo y cuantitativo, originales e inéditos que contribuyan a la construcción del conocimiento en enfermería y áreas correlacionadas; Revisión teórica: evaluaciones críticas y ordenadas de la literatura sobre temas de importancia para enfermería y áreas correlacionadas; Relatos de experiencias: descripciones de intervenciones que incluyen atención en salud y educación; Artículos reflexivos: textos de especial relevancia que aportan al pensamiento en Enfermería y Salud; Normas de publicación: instrucciones a los autores sobre la presentación física de los manuscritos en los idiomas portugués, inglés y español. 3. SOBRE CÓMO SE JUZGAN LOS MANUSCRITOS Los manuscritos recibidos son analizados por el Cuerpo Editorial de la REME, que se reserva el derecho de aceptar o rechazar los trabajos sometidos. El proceso de revisión – paper review – consta de las siguientes etapas en las cuales los manuscritos son: a) protocolados, registrados en base de datos para control; b) evaluados según su presentación física – revisión inicial en cuanto a estándares mínimos de exigencias de la R.E.M.E ( cubierta con identificación de los autores y títulos del trabajo) y documentación ; el manuscrito puede devolverse al autor para que lo adapte a las normas antes de enviarlo a los consultores; c) enviados al Editor General que indica el Editor Asociado que será el responsable por designar dos consul¬tores de conformidad con el área. d) remitidos a dos revisores especilistas en el área pertinente, manteniendo el anonimato, seleccionados de una lista de revisores, sin identificación de los autores y del local de origen del manuscrito. Los revisores siempre serán de instituciones diferentes a las de origen del autor del manuscrito. e) después de recibir los dos pareceres, el Editor General y el Director Ejecutivo los evalúan y optan por la aceptación del artículo sin modificaciones, por su rechazo o por su devolución a los autores con sugerencias de modificaciones. El Editor General y/o el Director Ejecutivo, a cargo de la aprobación final, siempre analizan todas las versiones. 4. SOBRE LA PRESENTACIÓN DE LOS MANUSCRITOS 4.1 PRESENTACIÓN GRÁFICA Los manuscritos deberán enviarse grabados en disquete o CD-ROM, programa “Word for Windows”, versión 6.0 ó superior, letra “Times New Roman”, estilo normal, tamaño 12, digitalizados en espacio 1,5 entre líneas, en dos copias impresas en papel estándar ISO A4 (212x 297mm), con márgenes de 25mm, modelo A4, limitándose a 20 carillas incluyendo páginas preliminares, texto, agradecimientos, referencias, tablas, notas e ilustraciones. – REME – Rev. Min. Enf.; 11(1): 99-107, jan/mar, 2007 106 4.2 LAS PARTES DE LOS MANUSCRITOS Los manuscritos deberán tener la siguiente estructura y orden, cuando fuere pertinente: a) páginas preliminares: Página 1: Título y subtítulo en idiomas portugués, inglés y español; Autor(es): nombre completo, profesión, título, cargo, función e institución; dirección postal y electrónica del autor responsable para correspondencia; Indicación de la categoría del artículo: investigación, revisión teórica, relato de experiencia, artículo reflexivo/ensayo. Página 2: Título del artículo en portugués; Resumen y palabras clave. Las palabras clave (de tres a seis) deberán indicarse en conformidad con el DECS – Descriptores en ciencias de la salud /BIREME), disponible en: http://decs.bvs.br/. El resumen deberá constar de hasta 250 palabras, con espacio simple en letra de tamaño 10. remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 114-120, jan./mar., 2011 153 Página 3: a partir de esta página se presentará el contenido del manuscrito precedido del título en portugués que incluye: b) Texto: – introducción; • desarrollo (material y método o descripción de la metodología, resultados, discusión y/o comen¬tarios); • conclusiones o consideraciones finales; c) Agradecimientos (opcional); d) Referencias como se especifica en el punto 4.3; e) Anexos, si fuere necesario. 4.3 SOBRE LA NORMALIZACIÓN DE LOS MANUSCRITOS: Para efectos de normalización se adoptarán los Requisitos del Comité Internacional de Editores de Revistas Médicas (Norma de Vancouver). Esta norma se encuentra de forma integral en las siguientes direcciones: En portugués: http://www.bu.ufsc.br/bsccsm/vancouver.html> En español: http://www.enfermeriaencardiologia.com/formación/vancouver.htm En inglés: http://www.nlm.nih.gov/bsd/uniform_requirements.html > Las referencias deberán enumerarse consecutivamente siguiendo el orden en el que se mencionan por primera vez en el texto. Las citaciones en el texto deberán indicarse con numero arábico, entre paréntesis, sobrescrito, correspondiente a las referencias al final del articulo. Los títulos de las revistas deberán abreviarse de acuerdo al “Journals Database” Medline/Pubmed, disponible en: <http://www.ncbi. nlm.nih.gov/entrez/ query. fcgi? db=Journals> o al CCN – Catálogo Colectivo Nacional, del IBICT- Ins¬tituto Brasileño de Información en Ciencia y Tocología, disponible en: <http://www.ibict.br.> Las ilustraciones deberán presentarse en blanco y negro luego después de su referencia, en conformidad con la norma de presentación tabular del IBGE , 3ª ed. , 1993. Dentro de cada categoría deberán enumerarse en secuencia durante el texto. Por ej.: (TAB.1, FIG.1, GRAF.1). Cada ilustración deberá tener un titulo e indicar la fuente de donde procede. Encabezamientos y leyendas deberán ser lo suficientemente claros y comprensibles a fin de que no haya necesidad de recurrir al texto. Las referencias e ilustraciones en el texto deberán mencionarse entre paréntesis, con indicación de categoría y número de la ilustración. Por ej. (TAB.1). Las abreviaturas, cantidades, símbolos y unidades deberán seguir las Normas Internacionales de Publicación. Al emplear por primera vez una abreviatura ésta debe estar precedida del término o expresión completos, salvo cuando se trate de una unidad de medida común. Las medidas de longitud, altura, peso y volumen deberán expresarse en unidades del sistema métrico decimal (metro, kilo, litro) o sus múltiplos y submúltiplos; las temperaturas en grados Celsius; los valores de presión arterial en milímetros de mercurio. Las abreviaturas y símbolos deberán seguir los estándares internacionales. Los agradecimientos deberán figurar en un párrafo separado, antes de las referencias bibliográficas. 5. SOBRE EL ENVÍO DE LOS MANUSCRITOS Los manuscritos deberán enviarse juntamente con el oficio de envío, nombre de los autores, dirección postal, dirección electrónica y fax así como de la declaración de colaboración en la realización del trabajo y autorización de transferencia de los derechos de autor para la revista REME. (Modelos disponibles en: www.enfermagem.ufmg.br/reme) Para los manuscritos resultados de trabajos de investigación que involucren seres humanos deberá enviarse una copia de aprobación emitida por el Comité de Ética reconocido por la Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) – Comisión Nacional de Ética en Investigación, en conformidad con las normas de la resolución del Consejo Nacional de Salud – CNS/196/96. – REME – Rev. Min. Enf.; 11(1): 99-107, jan/mar, 2007 – 107 Para los manuscritos resultantes de trabajos de investigación que hubieran recibido algún tipo de apoyo financiero, el mismo deberá constar, claramente identificado, en el propio manuscrito. El autor o los autores también deberán declarar, juntamente con la autorización de transferencia del derecho de autor, no tener interés personal, comercial, académico, político o financiero en dicho manuscrito. Los manuscritos deberán enviarse a: At/REME – Revista Mineira de Enfermagem Escola de Enfermagem da UFMG, sala 104 Bloco Norte CEP 30130- 100 Belo Horizonte MG – Brasil – Telefax **55 (31) 3409-9876 Correo electrónico: [email protected] 6. SOBRE LA RESPONSABILIDAD EDITORIAL Los casos omisos serán resueltos por el Consejo Editorial. REME no se hace responsable de las opiniones emitidas en los artículos. (Versión del 12 de septiembre de 2007) 154 remE – Rev. Min. Enferm.;15(1): 114-120, jan./mar., 2011 ! Revista Mineira de Enfermagem Nursing Journal of Minas Gerais remE Revista de Enfermería de Minas Gerais Formulário para Assinatura da REME Assinatura Anual | Annual Subscription | Suscripción anual Periodicidade Trimestral | Every Quarter | Periodicidad Trimestral Nome / Name / Nombre ou Instituição assinante: _______________________________________________________________ Endereço / Adress / Dirección: ________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________________________________ Cidade / City / Ciudad: ____________________________________País / Country / Pais: __________________________________ UF / State / Provincia: ________________________________________ CEP / Zip Code / Código Postal: _____________________ Tel. / Phone / Tel.: _____________________ fax: ______________________ Celular / Cell Phone / Cellular: ___________________ E-mail:____________________________________________________________________________________________________ Categoria Profissional / Occupation / Profesión: _________________________________________________________________ Data / Date / Fecha: _______/_______/_______ Assinatura / Signature / Firma: ______________________________________________________________________________ Encaminhar este Formulário de Assinatura acompanhado do comprovante de depósito bancário, por fax (31 3409-9876) ou e-mail ([email protected]) Send your subscription to: Enviar la inscripción a: Dados para depósito: BANCO DO BRASIL Agência / Branch Number / Sucursal Número: 1615-2 Conta / Bank Account / Cuenta de Banco: 480109-1 Código identificador/ Identification code/ Clave de identificación: 4828011 Valores Anuais: Individual: R$100,00 ( ) US$80,00 ( ) Institucional: R$150,00 ( ) US$100,00 ( ) Escola de Enfermagem – Universidade Federal de Minas Gerais REME – revista Mineira de Enfermagem Av. Alfredo Balena, 190 - sala 104, Bloco Norte Campus Saúde, Bairro Santa Efigênia - CEP: 30130-100 Belo Horizonte - MG - Brasil Telefax/Fax: +55 (31) 3409-9876 Home page: www.enf.ufmg.br/reme.php