O AUTOCUIDADO DO PROFISSIONAL DE ENFERMAGEM COMO
PROPOSTA PARA RESGATAR O RELATIVISMO1
Maitan C P 2
Almeida D N 3
Resumo
Introdução: Alguns profissionais da saúde constantemente buscam medidas alternativas
para suportar o cotidiano considerado extenuante diante das responsabilidades pessoais e
profissionais que comprometem suas condições físicas e mentais necessárias para
desempenhar com êxito suas atividades, satisfazer as exigências do trabalho e de si
próprio. Objetivo: Frente a esta situação, o presente estudo objetiva identificar os fatores
que contribuem para o déficit do autocuidado do profissional de enfermagem e propor o
autocuidado para resgatar as relações da enfermagem com sua equipe e/ou com o paciente,
possibilitando a integralidade do cuidado. Metodologia: Trata-se de um estudo
exploratório com delineamento descritivo, sendo os dados colhidos por meio de pesquisa
bibliográfica através da leitura em livros, artigos científicos impressos e eletrônicos.
Resultados e Discussão: São apresentados e discutidos os resultados do estudo realizado,
onde a adaptação do profissional de enfermagem a essas rotinas de trabalho,
inconscientemente, subestima-se os possíveis problemas mediante soluções paliativas para
atender à extensa jornada de serviço, em decorrência da multiplicidade de empregos e das
condições de trabalho que vem prejudicando a saúde e o desempenho de cuidador destes
profissionais. Conclusão: O profissional de enfermagem deve compreender a necessidade
do autocuidado para haver um equilíbrio ao cuidar do outro e ao interagir com a equipe,
evitando desgastes e propiciando o relativismo em torno da integralidade do cuidado.
Unitermos: Enfermagem; Relativismo; Autocuidado.
Introdução
Sabe-se que a enfermagem enquanto prática se estabeleceu como profissão desde
meados do século XX, a partir da atuação de Florence Nightingale (enfermeira inglesa
nascida na cidade italiana de Florença, que com seu trabalho lançou as bases dos modernos
serviços de enfermagem, ganhando fama, portanto, como fundadora da profissão de
enfermeira, como reformadora do sistema de saúde, como pioneira no tratamento a feridos
de guerra e no campo da Estatística), na Inglaterra. Desde então seus seguidores buscam
pela valorização profissional e oferta de melhores condições de trabalho.
(...) a prática do cuidado pelo profissional de enfermagem,
objetiva, prioritamente cuidar do outro direcionando a atividade
cuidativa para o ser que está sob seus cuidados. O cuidado de si
é compreendido como suprimento das atividades individuais de
1
Pesquisa bibliográfica realizada para apresentação ao 12º CBCENF.
Caroline Perin Maitan, autora e relatora desta pesquisa e acadêmica de Enfermagem do Centro
Universitário São Camilo-ES. E-mail: [email protected]
3
Denise Nunes de Almeida, enfermeira, autora desta pesquisa e docente do Centro Universitário São
Camilo-ES. E-mail: [email protected]
2
sono, descanso, lazer, atividades físicas (...). (BAGGIO &
FORMAGGIO, 2007, p. 240).
Os autores supracitados apontam também que a remuneração em enfermagem causa
desprazer, resultando em insatisfação e descuido de si. Então, reconhece-se a busca dos
profissionais da enfermagem por terapias de automedicação, como por exemplo,
fitoterápicos, fármacos e psicofármacos.
No entanto, a saúde não é mais vista como somente ausência de doenças, mas um
completo bem-estar físico, mental, espiritual e social.
Com base neste conceito, o profissional da saúde, especialmente da enfermagem,
necessita estar, de fato, saudável. A partir de então, o cuidado possivelmente se torna
humanizado e inerente ao profissional de enfermagem.
Diante disto, é necessário analisar a importância de resgatar a prática do
autocuidado do profissional de enfermagem para o exercício e realização plena da
profissão, principalmente com o intuito de qualificar o cuidado holístico no âmbito da
relação entre o paciente e o profissional de enfermagem.
Objetivo
Esta pesquisa objetivou-se identificar os fatores que contribuem para o déficit do
autocuidado do profissional de enfermagem e propor o autocuidado para resgatar as
relações da enfermagem com sua equipe e/ou com o paciente, possibilitando a
integralidade do cuidado.
Metodologia
Trata-se de um estudo exploratório com delineamento descritivo, sendo os dados
colhidos por meio de pesquisa bibliográfica através da leitura em livros, artigos científicos
impressos e eletrônicos.
Consiste em estudo de pesquisa bibliográfica, com coleta de dados secundários por
meio de busca em acervos e sites científicos na web, como o google acadêmico.
Os dados obtidos foram analisados por meio da consolidação destes, propiciando
subsídios para atingir o objetivo do estudo.
Resultados e Discussão
Conforme Vieira, Alves e Kamada (2007) “(...) a enfermagem tem um papel
importante, já que para cuidar do outro, é necessário que seja autêntica e sincera na
realização de seu próprio cuidado”. A adaptação a essas rotinas inconscientemente,
subestima-se que o fácil acesso a medicações pode tornar o profissional da saúde
vulnerável a automedicação como solução de tentar reverter ou minimizar o burnout
(síndrome de desgaste profissional), para dar conta da extensa jornada de serviço, com a
multiplicidade de empregos e as condições de trabalho que estão adoecendo estes
profissionais.
Vivemos em um mundo globalizado, onde as drogas, lícitas e/ou
ilícitas, permeiam o dia-dia das pessoas em geral e dos profissionais
de saúde especificamente. O enfermeiro, como profissional do
cuidado, ao estar imerso neste mundo, deve ocupar-se não apenas
com o cuidado do outro, mas também com o cuidar de si.
(ZEFERINO et al, 2006, p. 605).
O autor supracitado ainda afirma que:
(...) com o passar dos dias, esse profissional tende a aumentar o
consumo, visando satisfazer suas necessidades, chegando a doses
elevadas, ou seja, ao uso excessivo, por acreditar que o uso destas
substâncias pode facilitar o cotidiano de suas vidas.
De fato, o profissional de enfermagem encontra-se próximo aos medicamentos e
isto pode desencadear a automedicação, seja pela facilidade como pela necessidade em
suportar os agentes estressores em sua profissão. Além disto, segundo Vilarino et al (1998,
p. 53), “(...) o acúmulo de conhecimento, quer adquirido na escola (maior escolaridade),
quer ao longo da vida (maior idade), torna o indivíduo mais confiante para se
automedicar.”
Com intuito de demonstrar as necessidades do cuidado por parte destes
profissionais, como riscos inerentes ao desenvolver determinadas atividades, visando
buscar a responsabilidades quanto a sua própria saúde, os autores Mendes, Bulhões, Alves,
Marziale & Rozestraten, Alexandre & Angerami, Machado & Gomes, Lopes et al, Lacaz,
Siqueira et al e Robazzi et al, apud Oliveira & Murofuse (2001), relatam:
Serviço de enfermagem: contato com substâncias, compostos ou
produtos químicos em geral, risco biológico permanente, esforço
físico, levantamento e transporte manual de peso, postura
inadequada, trabalho noturno, situações causadoras de estresse
psíquico, na maioria das vezes arranjo físico inadequado, materiais
inadequados ou defeituosos, iluminação inadequada;
Os referidos riscos em que os profissionais da enfermagem estão expostos podem
não somente motivar a automedicação, como prejudicar as relações entre a equipe de
trabalho. O indivíduo em cansaço excessivo quando diante de más condições salariais,
iluminação inadequada, trabalho noturno, entre outros, apresenta atenuação do estresse
profissional e, consequentemente, gera conflitos entre a equipe. Tais conflitos dificultam a
comunicação entre os colegas, interferindo diretamente no cuidado prestado ao paciente.
Vale ressaltar que em situações conflitantes as expressões corporais do profissional
podem demonstrar para o paciente e familiar certo descaso com sua assistência,
desinteresse e irritação. É necessário atentar-se para a comunicação não-verbal a fim de
não transmitir ao outro algo que pode prejudicar sua saúde, seja ela física, mental, social ou
espiritual.
Outro aspecto necessário consiste em englobar as medicações conhecidas como
“naturais”, que são os fitoterápicos, os quais também causam dependência, interações
medicamentosas, toxicidade, reações extrínsecas e reações indesejadas. “Cabe mencionar a
importância da conscientização dos profissionais da área da saúde na redução da prática de
automedicação (...)” (DAMASCENO et al, 2007, p.51). É um conceito equivocado
entender os fitoterápicos apenas como um extrato vegetal, só por não se apresentarem
industrializados não significa que estão livres de qualquer insumo químico, e totalmente
livre de contra-indicação. “Os fitoterápicos são utilizados por automedicação ou por
prescrição médica e a maior parte não tem o seu perfil tóxico bem conhecido”.
(SILVEIRA, BANDEIRA e ARRAIS, 2008, p. 618). Sendo assim, estudos apontam que o
efeito da droga altera o comportamento, raciocínio lógico, a tomada de decisões e a
execução de procedimentos especializados, colocando em risco a vida das pessoas sob seus
cuidados e comprometendo a sua própria saúde. (ZEFERINO et al, 2006, p.5990).
A automedicação por fitoterápicos é pouco discutida, uma vez que os usuários
desconhecem seus efeitos colaterais. Este estudo não objetiva se aprofundar neste assunto,
mas com base neste panorama, pode-se perceber que o profissional de enfermagem requer
cada vez mais a interação com a equipe de trabalho, incluindo todos os profissionais da
saúde como, por exemplo, médicos, nutricionistas e farmacêuticos. Uma equipe
multiprofissional possibilita visualizar o mesmo assunto com diferentes olhares e, então,
reconhecer a integralidade do cuidar, levando em consideração o paciente e o meio em que
este e o próprio profissional de enfermagem estão inseridos.
Conclusão
A extensa jornada de trabalho entre a equipe de enfermagem tem sido cada vez
mais presente e desgastante no cotidiano destes profissionais da área da saúde. A
intensidade do estresse pode ser variável em relação ao afeto que se tem com o trabalho. O
desgaste a que as pessoas são submetidas é fator dos mais significativos na determinação
de doenças, as quais são conseqüências do estresse. A competitividade em que o homem
está sujeito culturalmente torna-o menos sensível para perceber o exagero da demanda, a
queda na qualidade de vida e as diferentes formas de alerta demonstradas por seu
organismo. Com isto, o homem torna-se um ser doente social e físico.
Através da metodologia bibliográfica realizada, os objetivos desta pesquisa foram
alcançados, permitindo identificar os fatores que contribuem para o déficit do autocuidado
e que interferem no processo de cuidar de si e do outro.
É imprescindível compreender a necessidade do autocuidado pessoal pelo
profissional de enfermagem, para haver um equilíbrio ao cuidar do outro e ao interagir com
a equipe, evitando desgastes, propiciando o relativismo em torno da integralidade do
cuidado.
Face ao exposto, percebe-se a importância de implementar ações que promovam o
relativismo na enfermagem no sentido de qualificar a assistência prestada aos pacientes.
Referências
Baggio M A, Formaggio F M. Profissional de enfermagem: compreendendo o autocuidado.
Rev. Gaúcha de Enf. 2007; 28 (2): 233-41.
Damasceno D D, et al. Automedicação entre graduandos de farmácia e
odontologia da Universidade Federal de Alfenas. Rev. Min. de Enf. 2007 janmar.; 15 (1): 48-52.
Oliveira B R G, Murofuse N T. Acidentes de trabalho e doença ocupacional:
estudo sobre o conhecimento do trabalhador hospitalar dos riscos à saúde de seu
trabalho. Rev. Latino-Am. Enf. 2001; 9 (1): 22-36.
Silveira P F, Bandeira M A M, Arrais P S D. Farmacovigilância e reações adversas às
plantas medicinais e fitoterápicos: uma realidade. Rev. bras. Farmacognosia 2008 out-dez.;
18 (1): 604-619.
Vieira A B D, Alves E D, Kamada I. Cuidando do cuidador: percepções e
concepções de auxiliares de enfermagem acerca do cuidado de si. Texto contexto
enf. 2007; 16 (1): 17-25.
Vilarino J F, et al. Perfil da automedicação em município do Sul do Brasil. Rev.
Saúde Pública 1998; 32 (1): 43-49.
Zeferino M T, et al. Enfermeiros e uso abusivo de drogas: comprometendo o cuidado de si
e do outro. Rev. enf. UERJ 2006; 14 (4): 599-605.
Download

Baixar trabalho completo - Conselho Federal de Enfermagem