ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança e(m) Política – Julho/2012 PESQUISA ARTÍSTICA NA UNIVERSIDADE: IMPLICAÇÕES EPISTEMOLÓGICAS, POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS Jussara Sobreira Setenta (UFBA) Jussara Sobreira Setenta, professora dos cursos de Graduação e Pós-Graduação em Dança da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia. Pesquisadora Co-Lider do Grupo de Pesquisa Laboratório Co-Adaptativo (LabZat)/CNPQ. Autora do livro “O Fazer-Dizer do Corpo: dança e performatividade”- EDUFBA(2008). Organizadora do “Catálogo de Pesquisas em Dança”, EDUFBA (2010). Doutora em Comunicação e Semiótica (PUC/SP); Mestre em Artes Cênicas (UFBA/PPGAC); Especialista em Coreografia (UFBA/Escola de Dança); Graduada em Licenciatura em Dança (UFBA/Dança). E-mail: [email protected] Resumo Este artigo dá continuidade a discussão acerca da articulação entre pesquisa acadêmica e pesquisa artística em dança desencadeada no projeto PIPA – projeto de investigação em pesquisa acadêmica artística, do grupo de pesquisa Laboratório CoAdaptativo, na Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia. Nesta oportunidade, apresenta reflexões provenientes do exercício articulatório entre tais ambientes de pesquisa – acadêmico e artístico, no contexto universitário dos cursos de dança da UFBA, com vistas a apontar as implicações políticas que colaboram para a organização dos modos de fazer pesquisa num espaço institucional que promove a formação superior em dança. Palavras-chave: Dança, Pesquisa Acadêmica, Pesquisa Artística. ART RESEARCH AT UNIVERSITY: EPISTEMOLOGICAL IMPLICATIONS, POLITICAL AND INSTITUTIONAL Abstract This article continues the discussion about the link between academic research and artistic research in dance triggered the PIPA project - research project in academic art, the research group Adaptive Co-Laboratory, School of Dance at the Federal University of Bahia. This opportunity presents reflections from the exercise of articulation between such research environments - academic and artistic, in the context of the university dance courses of the university, in order to point out the political implications that contribute to the organization of the ways of doing research in an institutional space that promotes a degree in dance. Keywords: Dance, Academic Research, Artistic Research. http://portalanda.org.br/index.php/anais 1 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança e(m) Política – Julho/2012 O espaço de elucidação das relações entre o “fazer” e o “saber” artísticos é a Universidade. (Julio Plaza, 1997) A palavra Universidade vincula-se a informações que indicam produção de conhecimento científico e humanístico, formação profissional, orientação sócio-cultural, ensino superior e produção de pesquisas. Tais vínculos se organizaram enquanto exigências da sociedade e, ao longo de seu percurso de existência no ocidente se impuseram pressões e desafios atrelados ao seu regime de funcionamento. Neste sentido, cabe especificar o caráter público da Universidade considerando tal característica àquela condizente com o contexto da Universidade Federal da Bahia, onde as reflexões para este artigo se produzem. Assim, uma instituição universitária pública submetida à tais exigências para permanecer existindo sucumbe às intempéries de responder, tanto a sociedade quanto ao Estado que subsidia seu funcionamento. Daí as extremas dificuldades em driblar restrições e sobreviver às políticas de financiamento que, de certo modo, inibem transformações conjunturais e estruturais gerando crise na autonomia científica e pedagógica comprometendo o programa político pedagógico de seus cursos. De acordo com Santos (2005), a relação Estado-Sociedade-Universidade debilitou primordialmente aquelas de natureza pública, que entraram em crise principalmente por conta da dependência financeira. Esta dependência, por sua vez configurou-se como fator definitivo da crise, a partir da decisão do Estado em reduzir seu comprometimento político com a educação superior pública promovendo uma “secagem financeira” (SANTOS, 2005, p.13), que culminou na redução da autonomia da universidade e promoveu, então [...] à eliminação da produção e divulgação livre de conhecimento critico; e a de por a universidade ao serviço de projectos modernizadores [...] obrigando a universidade pública a competir em condições de concorrência desleal no emergente mercado de serviços universitários.” (SANTOS, 2005, p.13-14). Estes aspectos introdutórios se fazem importantes tendo em vista o contexto universitário onde se produz pesquisa acadêmica e pesquisa artística. Entretanto, vale destacar que, se a crise se instaurou e fragilizou os modos de fazer próprios da instância científica – esta consideravelmente propulsora e dominante na produção e divulgação de pesquisas, o que podemos pensar quanto a instância artística que, não só existe em menor número nas universidades públicas, como tem espaços nanicos de divulgação e reflexão critica da produção de saberes e fazeres. Tal condição mínima alcança em cheio a inserção da formação universitária artística em Dança. http://portalanda.org.br/index.php/anais 2 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança e(m) Política – Julho/2012 Portanto, importa destacar a responsabilidade política do então Reitor da UFBA – Professor Edgard Santos, que instaurou os cursos de Artes ( Belas Artes, Musica, Teatro e Dança), no projeto pedagógico de formação superior para o estado da Bahia. Por conta deste comprometimento torna-se possível compartilhar questões e reflexões provenientes do contexto acadêmico da Escola de Dança da UFBA. Há mais de cinquenta anos, a Escola promove a formação de profissionais em nível superior – Graduação e, desde 2006 forma Mestres em Dança a partir do primeiro curso de PósGraduação em Dança no país. Existe aqui a exposição de corresponsabilidades que indicam condições de funcionamento da UFBA de modo geral, e da Escola de Dança de modo particular. Se a crise institucional por qual passa instituições públicas de ensino superior, atinge o consistente campo científico historicamente contemplado pelos financiamentos e reconhecimentos, com a área artística – principalmente no campo da dança- há ainda muito o que fazer para divulgação de saberes e fazeres pertinentes ao seus modos de organização. Esta condição também é perceptível na instância que nos interessa, ou seja, a instância da pesquisa. Apesar da epígrafe que inicia este artigo, a realidade que se impõe na reflexão sobre o fazer artístico na universidade está em franco processo de construção e compreensão de como este fazer, apesar de existir institucionalmente requer reflexões críticas e levantamento de questões quanto às maneiras de proceder, tratar e cuidar daquilo que é urdido no contexto universitário de formação em dança. Neste sentido é importante diferenciar os espaços da graduação e da pósgraduação, uma vez que, apesar de estarem submetidos à restrições institucionais e à condições de possibilidade para organização de processos artísticos, estas se dão a partir do atendimento a regras e normas previstas em regulamentação diretamente relacionadas a regimes de funcionamento do Estado, a saber: MEC nas Diretrizes e Parâmetros Curriculares Nacionais e CAPES – funcionamento e manutenção de cursos de pós-graduação. Esta vinculação institucional confirma o problema da articulação entre pesquisa acadêmica e pesquisa artística na universidade e em instituições de fomento à pesquisa. Conforme nos apresenta Zamboni (2001), já havia a difícil condição de realizar pesquisa em Arte, desde 1994, momento em que encontrava-se inserido em espaço de financiamento e buscava caracterizar a pesquisa em Arte. Este espaço era o CNPQ e a questão fora instituir à Arte o estatuto de área oficial e estruturada visando recursos financeiros para viabilização de pesquisas no campo artístico. Desde lá, já havia o problema em caracterizar o que seria pesquisa em Arte. Esta problemática parece pertinente e atual, no tocante a ampliação de cursos superiores em Arte em universidades públicas - recentemente viabilizada pelo programa REUNI, o que http://portalanda.org.br/index.php/anais 3 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança e(m) Política – Julho/2012 demonstra-se também efetivo no campo da dança (aproximadamente nos últimos dez anos o número de cursos de graduação em dança passou de 10 para 26 na atualidade). Esta constatação redefine a demanda de profissionais em contato com o mercado, não excluindo-se deste, o espaço da universidade pública. O acesso a saberes promovido pelo ensino superior apresenta aos graduandos o campo da pesquisa via programas de iniciação científica, extensionista e docência e, ainda, aponta para a continuidade de estudos em propostas de pesquisa stricto-sensu (Mestrado e Doutorado). Entretanto, seja na graduação, seja na pós-graduação faz-se recorrente a discussão sobre a denominação “pesquisa artística” implicada em o que é?, para quê ? e como se faz?. Há indicações de que estas indagações já não são pertinentes, porém este trabalho revolve estas respostas dadas e desconfia de que elas já sejam suficientes para indicar “ o caminho das pedras” do assunto pesquisa artística na universidade, seja numa relação direta, seja numa relação indireta com esta.Para ilustrar considerações dadas, e constatações já tornadas públicas traz-se aqui o que se segue: [...] pesquisa em artes, termo hoje já bastante difundido nos meios acadêmicos e artísticos [...] pesquisa em arte é qualquer pesquisa que se desenvolva no campo das artes [...] a expressão pesquisa em artes [refere-se] ao trabalho de pesquisa em criação artística, empreendido por artistas que objetivam obter como produto final a obra de arte [...] ou seja, quando o artista também se assume como pesquisador e busca, com essa dupla face, obter trabalhos artísticos como resultado de suas pesquisas [...] ainda persistem muitas dúvidas em relação à pesquisa em arte, questiona-se até mesmo a sua própria existência como tal”; “muitos artistas e mesmo alguns teóricos [...] entendem que não há sentido em se falar de pesquisa em arte, pois segundo eles, toda arte por sua própria natureza, é pesquisa [...]. (ZAMBONI, 2001, p. 5-7). As considerações acima apresentadas, partem de um estudo de doutorado que se reorganizou em formato de livro e que objetivou contribuir para a caracterização da pesquisa em artes. Também lá, já se encontra aspectos contraditórios na maneira como as constatações são expressadas. O que reforça a preocupação em compartilhar reflexões realizadas na atualidade, para questões aparentemente resolvidas. Será possível acompanhar sem discussão, tais considerações feitas a onze anos atrás? Será que estas considerações necessitam ser contraditas? Será preciso definir o que é pesquisa em arte para formular pesquisa artística? O intuito deste trabalho é apontar a condição discutível da noção de pesquisa artística, e o compromisso que o contexto acadêmico de ensino superior em dança tem em por a discussão, no dia-a-dia da organização de planos de trabalhos, uma vez que http://portalanda.org.br/index.php/anais 4 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança e(m) Política – Julho/2012 assim fazendo, torna inevitável a indagação, a instalação da dúvida curiosa por outras perguntas, a possibilidade de fortalecimento na organização de questões e indicativo de respostas. Enfim, de promoção de dinâmicas de trabalho que atualizem a problemática de como tratar pesquisa num contexto universitário onde se ensina arte/dança. Deste modo, a presente proposta delimita o campo reflexivo ao ensino da graduação em dança na Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia, considerando este contexto enquanto fomentador de formulações e discussões acerca dos modos como se trata o aspecto artístico na formação de graduandos. Isto porque, a convivência com saberes científicos e artísticos no conjunto formativo universitário requer a realização de exercício cuidadoso para compreender como se dá tal convivência e como se organizam, se descrevem e se constroem estes saberes nos ambientes da pesquisa acadêmica e artística. Vale então reforçar a compreensão na qual tais pesquisas, são ambientes dinâmicos que coevoluem e se contaminam, entretanto organizam-se de maneira distinta e implicadas politicamente, conceitualmente e epistemologicamente. Desta maneira codependem do contexto onde se desenvolvem e se inserem modificando e sendo modificadas continuamente. A Universidade enquanto contexto propiciador para existência de pesquisas nestas instâncias tem a responsabilidade de provocar a discussão quanto a constituição e produção destas pesquisas e, ainda, de fomentar a reflexão e produção crítica destes fazeres. Investigar como é possível concretizar no contexto acadêmico universitário a importante imbricação entre pesquisa acadêmica e pesquisa artística vai ao encontro do interesse pelos modos de fazer pesquisa e do investimento no querer – saber – do – fazer (PLAZZA, 1997), já encaminhado no procedimento de trabalho do GP de pesquisa LabZat que incorpora professores/pesquisadores, estudantes de graduação e pós-graduação vinculados aos cursos de graduação e pós-graduação em dança na UFBA e que desenvolvem propostas de estudo de iniciação científica, iniciação extensionista , especialização e mestrado. Estes estudos vêm problematizando a articulação entre pesquisa acadêmica e artística na Universidade e visam subsidiar a compreensão das implicações epistemológicas, políticas e institucionais presentes nesta articulação considerando as singularidades destas pesquisas no processo de construção relacional, que não ignora a diferença em seus modos de formular, mas aposta na busca de conexões que promovam a coerência dos procedimentos e atividades particulares de cada pesquisa o que possibilitará a emergência de modos alternativos de proposições, formulações e operações acadêmicas artísticas. http://portalanda.org.br/index.php/anais 5 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança e(m) Política – Julho/2012 Nesta direção, a proposta de trabalho em andamento no grupo de pesquisa, nas salas de aula de graduação e pós-graduação em dança se organiza para reforçar a coexistência destas instâncias de pesquisa e suas condições de existência, ou seja, a atenção para a diferença no modo de formular saberes e a especificidade na elaboração de resultantes. Também importa salientar que há o propósito de entender que os distintos processos de organização e construção destas pesquisas produzem e promovem o conhecimento em dança. Faz-se importante, ainda chamar atenção para que tal propósito busca a compreensão das possibilidades de compartilhamento do processo de produção de conhecimento entre fazeres artísticos na e fora do contexto universitário a partir das características específicas condizentes com cada atividade, e para tanto respeitando os campos de operação (mercado e universidade, respectivamente), o que permitirá o entendimento de seus regimes próprios de organização e funcionamento enquanto sistemas correlatos e identificando neles suas porosidades interativas. O interesse em problematizar a possibilidade de articular ambas pesquisas – artística e acadêmica, se amplia na pretensão de discutir e refletir acerca da necessidade de incorporar a prática artística no desenvolvimento da pesquisa acadêmica, sem submeter uma à outra. Sem reduzi-la a uma metodologia ou produto resultante do processo investigativo acadêmico, mas organizá-la por meio de procedimentos de articulação entre suas especificidades epistemológicas embasadas pela cooperação não-hierárquica de ambas. Há então, a percepção de que da maneira até aqui descrita seja possível organizar modos de fazer que prezem pela permanente formulação de perguntas, concomitantemente a busca pela problematização das mesmas agregando-se à práticas artísticas acadêmicas relacionadas, porém não homogeneizadas. A distinção nos modos de fazer, longe de promover modos em oposição promove e instiga a reflexão critica tão necessária num contexto universitário e deveras pertinente nas instâncias das pesquisas que almejam reverter seus estudos em conhecimento para a área que se vincula. Por isso, Produzir conhecimentos é transformar informações complexas (científicas ou tecnológicas, sensíveis e técnicas), em resultados de trabalho. Trata-se, pois, de uma intervenção intelectual sobre objetos simbólicos (intuições,observações,representações) e não de uma transformação da própria realidade observada, já que o “Real” somente é acessível pelo signo, pois “o máximo grau de realidade só é atingido pelos signos”, como disse Peirce. (Plaza,1997, p.23) Diante dos apontamentos anteriores e do compartilhamento de discussões sobre a articulação dos ambientes acadêmico e artístico de pesquisa, cabe apresentar a idéia em processo que observa a instância artística de pesquisa na universidade como http://portalanda.org.br/index.php/anais 6 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança e(m) Política – Julho/2012 possível numa condição exploratória característica de uma ZAT - Zona Autônoma Temporária. Esta observação ressalta o dar-se conta da necessidade em intensificar o problema da organização da pesquisa artística na universidade sugerindo a idéia de ZAT como potencial para atualização da discussão sobre o problema desta articulação. Como um “forjar” de uma realidade diferente que não prescinde da compreensão de que no contexto universitário – e não apenas neste existem relações em constante transformação. A informação ZAT é uma tradução da proposta TAZ – Temporary Autonomous Zone que vem irrigada por ideias anarquistas e pelo comportamento de piratas que no século XVIII driblavam o sistema instituído – com suas regras e leis gerais, constituindo leis próprias de sobrevivência e de convivência apostando em “experiências comunitárias descentralizadas” (BEY, 2004, p.12). Interessante pensar que a sistemática organizada pelos piratas para experimentar autonomia coloque em discussão a liberdade “total” para execução e efetivação de ações contundentes que indiquem a organização autônoma de fazeres desincompatibilizados de qualquer elemento de imposição e restrição. De fato, a liberdade incomensurável e transformadora, capaz de propiciar toda e qualquer experiência a toda e qualquer proposta de experimento pode ser considerada sob abordagem ficcional. Até porque, a compreensão daquilo que se deve livrar-se já organiza enquanto possibilidade perceptiva a emergência de brechas, frestas e fissuras que emergem no “fechamento”. Daí, o que se torna proeminente, relevante é a possibilidade de desviar-se dos empecilhos e obstáculos impositivos. Esta ação de escapar daquilo que lhe impede seguir pode ser considerada enquanto ação construtiva de autonomia e de continuidade às possibilidades. Isto porque, “apenas o autônomo pode planejar a autonomia, organizar-se para criá-la. É uma ação conduzida por esforço próprio [...] a constatação de que a [ZAT] começa com um simples ato de percepção”. (BEY, 2004, p.19). Nesta orientação perceptiva e no conjunto de discussões compartilhadas a partir da articulação entre pesquisa acadêmica e pesquisa artística e, apesar da restrição institucional presente no fazer universitário, fica possível pensar a pesquisa artística na graduação em dança numa perspectiva organizativa da ZAT. Explico: o regime de funcionamento universitário conduz a atividade artística a um emparedamento espaçotemporal pré-definido em seu calendário acadêmico (início e final de semestre), número de avaliações, notas (abaixo, na média ou acima da média) e, todos estes aspectos promovem uma percepção imediata de encarceramento e impedimento “criativo”, artístico. Nestas condições pareceria impossível dar-se conta de que aspectos perceptivos colaboram para a organização de uma idéia artística;de quais escolhas http://portalanda.org.br/index.php/anais 7 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança e(m) Política – Julho/2012 preponderam em meio a tantas direções previamente definidas em planos de trabalho;de como propiciar o encontro de idéias ações. Na graduação em dança na UFBA, a estrutura curricular recente preocupa-se com o investimento artístico ao indicar componentes curriculares em formato de laboratórios, onde os projetos artísticos podem desenvolver-se a partir de interesses próprios de cada estudante. Apesar desta possibilidade, os estudantes necessitam responder aos limites institucionais de nota e finalização de processo semestral e isto, de certo modo culmina na frágil percepção de como se dá o processo de encontro de variadas informações teóricas e práticas contribuindo para a investigação e confluindo na composição artística.O desvio inevitável se aproxima da investida pirata: organização de “ilhas livres”, fora do sistema institucional e propiciadoras do exercício da autonomia artística. Entretanto ao “livrar-se” do sistema institucional universitário e experienciar a “liberdade artística”, os graduandos envolvem-se no plano da ficção e são seduzidos por proposta de experimento fornecida pelo mercado que, como a instituição universitária, pré-define suas condições, mas entoa o “canto afinado” e embevecedor do subsídio financeiro que induz a uma falsa percepção de liberdade e autonomia artística. O trato com os limites e restrições; o dar-se conta da existência destes e a experiência perceptiva de encontrar os desvios aparece como mais trabalhosa, porém propiciadora de autonomia. Afinal, não se perde o que nunca se teve. Não será a condição restritiva que restringirá a organização de propostas artísticas e encadeamento de processos compartilhados. Não será a diferença perceptiva e a consideração particularizada que impedirá o compartilhamento de opiniões e sugestões. Não será a ignorância que “perderá” para o conhecimento, pois este é tão circunstancial quanto a ignorância dele. Assim, “o mapa está fechado, mas a zona autônoma está aberta.Metaforicamente ela se desdobra por dentro das dimensões fractais invisíveis à cartografia do Controle”. (BEY, 2004, p.22). A articulação entre pesquisa artística e pesquisa acadêmica na universidade pode organizar-se enquanto ZAT entendida enquanto zona autônoma temporária e zona de articulação temporária. Até porque se entendermos que a continuidade necessita de ações comuns que promovam este tipo de ação importará perceber o movimento dinâmico da ZAT, o dentro e fora do “sistema”, nele e com ele para que seja possível empreender ações criticas e reflexivas acerca dos fazeres ali produzidos e que transbordam os impedimentos e movimentam-se construindo outras ações. [...] a única solução para a “supressão e realização” da arte está na emergência da [ZAT]. Rejeito veementemente a critica que diz que a própria [ZAT] não é “nada alem” de uma obra de arte, muito embora ela possa vestir alguns de seus enfeites. Eu sugiro que a [ZAT] é o único “lugar” e “tempo” possível para a arte acontecer pelo mero prazer do http://portalanda.org.br/index.php/anais 8 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança e(m) Política – Julho/2012 jogo criativo, e como uma contribuição real para as forças que permitem que a [ZAT] se forme e se manifeste. (BEY, 2004, p.68-69) Neste momento o LabZat reúne diferenças para produzir interferências institucionais universitárias acadêmicas e artísticas. A potência está na percepção das brechas e frestas que implicitamente a instituição apresenta. O resultante de tal percepção pode organizar configurações de extrema diferença, mas o importante será a disposição para tomar conta daquilo que se deu conta de sua existência. Assim, o trabalho em ZAT “deve combinar informações e desejos para realizar sua aventura (seu “acontecimento”), para preencher-se até as bordas de seu destino, para intensificar-se com sua própria emergência”. (BEY, 2004, p. 41). Tratar a ZAT como localização espaço-temporal de existência do artístico na universidade taticamente parece possibilitar entendê-la como possibilidade de convivência dos assuntos acadêmicos e artísticos; como frestas para investimentos investigativos; como possibilidade de questionamento estrutural; como possibilidade propositiva de modos de fazer acadêmico artístico; como possibilidade de organizar teorias de dança; como escapadas do formalismo engessador que indicam caminhos e sobrepõem mapas; como drible ao poder formal sem entrar em combate com este. Valer-se da diferença na organização dos processos de existência artística, das zonas e espaços de liberdade que somem e aparecem, que são circunstanciais em existência, mas que promovem mudanças incorporam-se a idéia de ZAT considerando que esta zona, como nos apresenta Bey (2004) “é um lugar físico, no qual estamos ou não estamos. Todos os sentidos estão, necessariamente, presentes. (BEY, 2004, p.72).Por conta disto, cabe por em discussão o modo como se dá a feitura de pesquisa artística acadêmica na Universidade. A especificidade tanto da pesquisa artística, quanto da pesquisa acadêmica deve ser respeitada e tratada com responsabilidade por quem investe no trabalho universitário. A pressuposição de que estas pesquisas existem como ambientes que se distinguem sem o vetor dicotômico, e organizam seus processos em atenção aos acordos gerados na feitura processual explicita a condição propiciadora que o contexto universitário dispõe para promover o trabalho concomitantemente aos processos e produções numa “contínua revolução de todo o dia”. (BEY, 2004, p. 64). Neste sentido, a preocupação em entender como se concretiza a necessária imbricação destas pesquisas na Universidade parece inadiável constitutiva dos pressupostos universitários que prezam pelo questionamento, pela reflexão crítica, pela constatação da contínua transformação dos processos formativos, pela consideração da Arte como conhecimento e, no acompanhamento a entendimentos aqui http://portalanda.org.br/index.php/anais 9 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança e(m) Política – Julho/2012 expressados, a pontuação de que a arte seja “[...] uma condição de vida”. (BEY, 2004, p. 69). A responsabilidade do fazer está em fazer acontecer. Seja onde for que aconteça, há que se observar as frestas e compartilhar da percepção do vento fresco abalroando-se ao corpo e desviando-se deste, seguindo seu caminho e, então reiniciamos o processo de compor a autonomia acadêmica e artística de tantos saberes e fazeres. Referências BEY, H. TAZ: zona autônoma temporária. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2004. PLAZA, J. Arte, Ciência, Pesquisa: relações IN: Trilhas. Campinas, 1977 SANTOS, B. de S. Pela Mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. São Paulo: Cortez, 2006. ______________. A Universidade no Século XXI: para uma reforma democrática e emancipatória da Universidade. ZAMBONI, S. A Pesquisa em Arte: um paralelo entre Arte e Ciência. Campinas, SP: Editora Autores Associados, 2001. http://portalanda.org.br/index.php/anais 10