ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA
Comitê Dança e(m) Política – Julho/2012
PESQUISA ARTÍSTICA NA UNIVERSIDADE: IMPLICAÇÕES EPISTEMOLÓGICAS,
POLÍTICAS E INSTITUCIONAIS
Jussara Sobreira Setenta (UFBA)
Jussara Sobreira Setenta, professora dos cursos de Graduação e Pós-Graduação em Dança da
Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia. Pesquisadora Co-Lider do Grupo de Pesquisa
Laboratório Co-Adaptativo (LabZat)/CNPQ. Autora do livro “O Fazer-Dizer do Corpo: dança e
performatividade”- EDUFBA(2008). Organizadora do “Catálogo de Pesquisas em Dança”, EDUFBA
(2010). Doutora em Comunicação e Semiótica (PUC/SP); Mestre em Artes Cênicas (UFBA/PPGAC);
Especialista em Coreografia (UFBA/Escola de Dança); Graduada em Licenciatura em Dança
(UFBA/Dança). E-mail: [email protected]
Resumo
Este artigo dá continuidade a discussão acerca da articulação entre pesquisa
acadêmica e pesquisa artística em dança desencadeada no projeto PIPA – projeto de
investigação em pesquisa acadêmica artística, do grupo de pesquisa Laboratório CoAdaptativo, na Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia. Nesta oportunidade,
apresenta reflexões provenientes do exercício articulatório entre tais ambientes de
pesquisa – acadêmico e artístico, no contexto universitário dos cursos de dança da
UFBA, com vistas a apontar as implicações políticas que colaboram para a organização
dos modos de fazer pesquisa num espaço institucional que promove a formação
superior em dança.
Palavras-chave: Dança, Pesquisa Acadêmica, Pesquisa Artística.
ART RESEARCH AT UNIVERSITY: EPISTEMOLOGICAL IMPLICATIONS,
POLITICAL AND INSTITUTIONAL
Abstract
This article continues the discussion about the link between academic research and
artistic research in dance triggered the PIPA project - research project in academic art,
the research group Adaptive Co-Laboratory, School of Dance at the Federal University
of Bahia. This opportunity presents reflections from the exercise of articulation between
such research environments - academic and artistic, in the context of the university
dance courses of the university, in order to point out the political implications that
contribute to the organization of the ways of doing research in an institutional space that
promotes a degree in dance.
Keywords: Dance, Academic Research, Artistic Research.
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O espaço de elucidação das relações entre o “fazer” e o “saber”
artísticos é a Universidade. (Julio Plaza, 1997)
A palavra Universidade vincula-se a informações que indicam produção de
conhecimento científico e humanístico, formação profissional, orientação sócio-cultural,
ensino superior e produção de pesquisas. Tais vínculos se organizaram enquanto
exigências da sociedade e, ao longo de seu percurso de existência no ocidente se
impuseram pressões e desafios atrelados ao seu regime de funcionamento. Neste
sentido, cabe especificar o caráter público da Universidade considerando tal
característica àquela condizente com o contexto da Universidade Federal da Bahia,
onde as reflexões para este artigo se produzem.
Assim, uma instituição universitária pública submetida à tais exigências para
permanecer existindo sucumbe às intempéries de responder, tanto a sociedade quanto
ao Estado que subsidia seu funcionamento. Daí as extremas dificuldades em driblar
restrições e sobreviver às políticas de financiamento que, de certo modo, inibem
transformações conjunturais e estruturais gerando crise na autonomia científica e
pedagógica comprometendo o programa político pedagógico de seus cursos.
De acordo com Santos (2005), a relação Estado-Sociedade-Universidade
debilitou primordialmente aquelas de natureza pública, que entraram em crise
principalmente por conta da dependência financeira. Esta dependência, por sua vez
configurou-se como fator definitivo da crise, a partir da decisão do Estado em reduzir
seu comprometimento político com a educação superior pública promovendo uma
“secagem financeira” (SANTOS, 2005, p.13), que culminou na redução da autonomia
da universidade e promoveu, então
[...] à eliminação da produção e divulgação livre de conhecimento critico;
e a de por a universidade ao serviço de projectos modernizadores [...]
obrigando a universidade pública a competir em condições de
concorrência desleal no emergente mercado de serviços universitários.”
(SANTOS, 2005, p.13-14).
Estes aspectos introdutórios se fazem importantes tendo em vista o contexto
universitário onde se produz pesquisa acadêmica e pesquisa artística. Entretanto, vale
destacar que, se a crise se instaurou e fragilizou os modos de fazer próprios da
instância científica – esta consideravelmente propulsora e dominante na produção e
divulgação de pesquisas, o que podemos pensar quanto a instância artística que, não
só existe em menor número nas universidades públicas, como tem espaços nanicos de
divulgação e reflexão critica da produção de saberes e fazeres. Tal condição mínima
alcança em cheio a inserção da formação universitária artística em Dança.
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Portanto, importa destacar a responsabilidade política do então Reitor da UFBA
– Professor Edgard Santos, que instaurou os cursos de Artes ( Belas Artes, Musica,
Teatro e Dança), no projeto pedagógico de formação superior para o estado da Bahia.
Por conta deste comprometimento torna-se possível compartilhar questões e reflexões
provenientes do contexto acadêmico da Escola de Dança da UFBA. Há mais de
cinquenta anos, a Escola promove a formação de profissionais em nível superior –
Graduação e, desde 2006 forma Mestres em Dança a partir do primeiro curso de PósGraduação em Dança no país. Existe aqui a exposição de corresponsabilidades que
indicam condições de funcionamento da UFBA de modo geral, e da Escola de Dança
de modo particular.
Se a crise institucional por qual passa instituições públicas de ensino superior,
atinge o consistente campo científico historicamente contemplado pelos financiamentos
e reconhecimentos, com a área artística – principalmente no campo da dança- há ainda
muito o que fazer para divulgação de saberes e fazeres pertinentes ao seus modos de
organização. Esta condição também é perceptível na instância que nos interessa, ou
seja, a instância da pesquisa.
Apesar da epígrafe que inicia este artigo, a realidade que se impõe na reflexão
sobre o fazer artístico na universidade está em franco processo de construção e
compreensão de como este fazer, apesar de existir institucionalmente requer reflexões
críticas e levantamento de questões quanto às maneiras de proceder, tratar e cuidar
daquilo que é urdido no contexto universitário de formação em dança.
Neste sentido é importante diferenciar os espaços da graduação e da pósgraduação, uma vez que, apesar de estarem submetidos à restrições institucionais e à
condições de possibilidade para organização de processos artísticos, estas se dão a
partir do atendimento a regras e normas previstas em regulamentação diretamente
relacionadas a regimes de funcionamento do Estado, a saber: MEC nas Diretrizes e
Parâmetros Curriculares Nacionais e CAPES – funcionamento e manutenção de cursos
de pós-graduação. Esta vinculação institucional confirma o problema da articulação
entre pesquisa acadêmica e pesquisa artística na universidade e em instituições de
fomento à pesquisa.
Conforme nos apresenta Zamboni (2001), já havia a difícil condição de realizar
pesquisa em Arte, desde 1994, momento em que encontrava-se inserido em espaço
de financiamento e buscava caracterizar a pesquisa em Arte. Este espaço era o CNPQ
e a questão fora instituir à Arte o estatuto de área oficial e estruturada visando recursos
financeiros para viabilização de pesquisas no campo artístico. Desde lá, já havia o
problema em caracterizar o que seria pesquisa em Arte. Esta problemática parece
pertinente e atual, no tocante a ampliação de cursos superiores em Arte em
universidades públicas - recentemente viabilizada pelo programa REUNI, o que
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demonstra-se também efetivo no campo da dança (aproximadamente nos últimos dez
anos o número de cursos de graduação em dança passou de 10 para 26 na
atualidade).
Esta constatação redefine a demanda de profissionais em contato com o
mercado, não excluindo-se deste, o espaço da universidade pública. O acesso a
saberes promovido pelo ensino superior apresenta aos graduandos o campo da
pesquisa via programas de iniciação científica, extensionista e docência e, ainda,
aponta para a continuidade de estudos em propostas de pesquisa stricto-sensu
(Mestrado e Doutorado). Entretanto, seja na graduação, seja na pós-graduação faz-se
recorrente a discussão sobre a denominação “pesquisa artística” implicada em o que
é?, para quê ? e como se faz?.
Há indicações de que estas indagações já não são pertinentes, porém este
trabalho revolve estas respostas dadas e desconfia de que elas já sejam suficientes
para indicar “ o caminho das pedras” do assunto pesquisa artística na universidade,
seja numa relação direta, seja numa relação indireta com esta.Para ilustrar
considerações dadas, e constatações já tornadas públicas traz-se aqui o que se segue:
[...] pesquisa em artes, termo hoje já bastante difundido nos meios
acadêmicos e artísticos [...] pesquisa em arte é qualquer pesquisa que
se desenvolva no campo das artes [...] a expressão pesquisa em artes
[refere-se] ao trabalho de pesquisa em criação artística, empreendido
por artistas que objetivam obter como produto final a obra de arte [...] ou
seja, quando o artista também se assume como pesquisador e busca,
com essa dupla face, obter trabalhos artísticos como resultado de suas
pesquisas [...] ainda persistem muitas dúvidas em relação à pesquisa
em arte, questiona-se até mesmo a sua própria existência como tal”;
“muitos artistas e mesmo alguns teóricos [...] entendem que não há
sentido em se falar de pesquisa em arte, pois segundo eles, toda arte
por sua própria natureza, é pesquisa [...]. (ZAMBONI, 2001, p. 5-7).
As considerações acima apresentadas, partem de um estudo de doutorado que
se reorganizou em formato de livro e que objetivou contribuir para a caracterização da
pesquisa em artes. Também lá, já se encontra aspectos contraditórios na maneira
como as constatações são expressadas. O que reforça a preocupação em compartilhar
reflexões realizadas na atualidade, para questões aparentemente resolvidas. Será
possível acompanhar sem discussão, tais considerações feitas a onze anos atrás?
Será que estas considerações necessitam ser contraditas? Será preciso definir o que é
pesquisa em arte para formular pesquisa artística?
O intuito deste trabalho é apontar a condição discutível da noção de pesquisa
artística, e o compromisso que o contexto acadêmico de ensino superior em dança tem
em por a discussão, no dia-a-dia da organização de planos de trabalhos, uma vez que
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assim fazendo, torna inevitável a indagação, a instalação da dúvida curiosa por outras
perguntas, a possibilidade de fortalecimento na organização de questões e indicativo
de respostas. Enfim, de promoção de dinâmicas de trabalho que atualizem a
problemática de como tratar pesquisa num contexto universitário onde se ensina
arte/dança.
Deste modo, a presente proposta delimita o campo reflexivo ao ensino da
graduação em dança na Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia,
considerando este contexto enquanto fomentador de formulações e discussões acerca
dos modos como se trata o aspecto artístico na formação de graduandos. Isto porque,
a convivência com saberes científicos e artísticos no conjunto formativo universitário
requer a realização de exercício cuidadoso para compreender como se dá tal
convivência e como se organizam, se descrevem e se constroem estes saberes nos
ambientes da pesquisa acadêmica e artística.
Vale então reforçar a compreensão na qual tais pesquisas, são ambientes
dinâmicos que coevoluem e se contaminam, entretanto organizam-se de maneira
distinta e implicadas politicamente, conceitualmente e epistemologicamente. Desta
maneira codependem do contexto onde se desenvolvem e se inserem modificando e
sendo modificadas continuamente. A Universidade enquanto contexto propiciador para
existência de pesquisas nestas instâncias tem a responsabilidade de provocar a
discussão quanto a constituição e produção destas pesquisas e, ainda, de fomentar a
reflexão e produção crítica destes fazeres.
Investigar como é possível concretizar no contexto acadêmico universitário a
importante imbricação entre pesquisa acadêmica e pesquisa artística vai ao encontro
do interesse pelos modos de fazer pesquisa e do investimento no querer – saber – do –
fazer (PLAZZA, 1997), já encaminhado no procedimento de trabalho do GP de
pesquisa LabZat que incorpora professores/pesquisadores, estudantes de graduação e
pós-graduação vinculados aos cursos de graduação e pós-graduação em dança na
UFBA e que desenvolvem propostas de estudo de iniciação científica, iniciação
extensionista , especialização e mestrado.
Estes estudos vêm problematizando a articulação entre pesquisa acadêmica e
artística na Universidade e visam subsidiar a compreensão das implicações
epistemológicas, políticas e institucionais presentes nesta articulação considerando as
singularidades destas pesquisas no processo de construção relacional, que não ignora
a diferença em seus modos de formular, mas aposta na busca de conexões que
promovam a coerência dos procedimentos e atividades particulares de cada pesquisa o
que possibilitará a emergência de modos alternativos de proposições, formulações e
operações acadêmicas artísticas.
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Nesta direção, a proposta de trabalho em andamento no grupo de pesquisa, nas
salas de aula de graduação e pós-graduação em dança se organiza para reforçar a
coexistência destas instâncias de pesquisa e suas condições de existência, ou seja, a
atenção para a diferença no modo de formular saberes e a especificidade na
elaboração de resultantes. Também importa salientar que há o propósito de entender
que os distintos processos de organização e construção destas pesquisas produzem e
promovem o conhecimento em dança.
Faz-se importante, ainda chamar atenção para que tal propósito busca a
compreensão das possibilidades de compartilhamento do processo de produção de
conhecimento entre fazeres artísticos na e fora do contexto universitário a partir das
características específicas condizentes com cada atividade, e para tanto respeitando os
campos de operação (mercado e universidade, respectivamente), o que permitirá o
entendimento de seus regimes próprios de organização e funcionamento enquanto
sistemas correlatos e identificando neles suas porosidades interativas.
O interesse em problematizar a possibilidade de articular ambas pesquisas –
artística e acadêmica, se amplia na pretensão de discutir e refletir acerca da
necessidade de incorporar a prática artística no desenvolvimento da pesquisa
acadêmica, sem submeter uma à outra. Sem reduzi-la a uma metodologia ou produto
resultante do processo investigativo acadêmico, mas organizá-la por meio de
procedimentos de articulação entre suas especificidades epistemológicas embasadas
pela cooperação não-hierárquica de ambas.
Há então, a percepção de que da maneira até aqui descrita seja possível
organizar modos de fazer que prezem pela permanente formulação de perguntas,
concomitantemente a busca pela problematização das mesmas agregando-se à
práticas artísticas acadêmicas relacionadas, porém não homogeneizadas. A distinção
nos modos de fazer, longe de promover modos em oposição promove e instiga a
reflexão critica tão necessária num contexto universitário e deveras pertinente nas
instâncias das pesquisas que almejam reverter seus estudos em conhecimento para a
área que se vincula. Por isso,
Produzir conhecimentos é transformar informações complexas
(científicas ou tecnológicas, sensíveis e técnicas), em resultados de
trabalho. Trata-se, pois, de uma intervenção intelectual sobre objetos
simbólicos (intuições,observações,representações) e não de uma
transformação da própria realidade observada, já que o “Real” somente
é acessível pelo signo, pois “o máximo grau de realidade só é atingido
pelos signos”, como disse Peirce. (Plaza,1997, p.23)
Diante dos apontamentos anteriores e do compartilhamento de discussões sobre
a articulação dos ambientes acadêmico e artístico de pesquisa, cabe apresentar a idéia
em processo que observa a instância artística de pesquisa na universidade como
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possível numa condição exploratória característica de uma ZAT - Zona Autônoma
Temporária. Esta observação ressalta o dar-se conta da necessidade em intensificar o
problema da organização da pesquisa artística na universidade sugerindo a idéia de
ZAT como potencial para atualização da discussão sobre o problema desta articulação.
Como um “forjar” de uma realidade diferente que não prescinde da compreensão de
que no contexto universitário – e não apenas neste existem relações em constante
transformação.
A informação ZAT é uma tradução da proposta TAZ – Temporary Autonomous
Zone que vem irrigada por ideias anarquistas e pelo comportamento de piratas que no
século XVIII driblavam o sistema instituído – com suas regras e leis gerais, constituindo
leis próprias de sobrevivência e de convivência apostando em “experiências
comunitárias descentralizadas” (BEY, 2004, p.12). Interessante pensar que a
sistemática organizada pelos piratas para experimentar autonomia coloque em
discussão a liberdade “total” para execução e efetivação de ações contundentes que
indiquem a organização autônoma de fazeres desincompatibilizados de qualquer
elemento de imposição e restrição.
De fato, a liberdade incomensurável e transformadora, capaz de propiciar toda e
qualquer experiência a toda e qualquer proposta de experimento pode ser considerada
sob abordagem ficcional. Até porque, a compreensão daquilo que se deve livrar-se já
organiza enquanto possibilidade perceptiva a emergência de brechas, frestas e fissuras
que emergem no “fechamento”. Daí, o que se torna proeminente, relevante é a
possibilidade de desviar-se dos empecilhos e obstáculos impositivos. Esta ação de
escapar daquilo que lhe impede seguir pode ser considerada enquanto ação
construtiva de autonomia e de continuidade às possibilidades. Isto porque, “apenas o
autônomo pode planejar a autonomia, organizar-se para criá-la. É uma ação conduzida
por esforço próprio [...] a constatação de que a [ZAT] começa com um simples ato de
percepção”. (BEY, 2004, p.19).
Nesta orientação perceptiva e no conjunto de discussões compartilhadas a partir
da articulação entre pesquisa acadêmica e pesquisa artística e, apesar da restrição
institucional presente no fazer universitário, fica possível pensar a pesquisa artística na
graduação em dança numa perspectiva organizativa da ZAT. Explico: o regime de
funcionamento universitário conduz a atividade artística a um emparedamento espaçotemporal pré-definido em seu calendário acadêmico (início e final de semestre), número
de avaliações, notas (abaixo, na média ou acima da média) e, todos estes aspectos
promovem uma percepção imediata de encarceramento e impedimento “criativo”,
artístico.
Nestas condições pareceria impossível dar-se conta de que aspectos
perceptivos colaboram para a organização de uma idéia artística;de quais escolhas
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preponderam em meio a tantas direções previamente definidas em planos de
trabalho;de como propiciar o encontro de idéias ações. Na graduação em dança na
UFBA, a estrutura curricular recente preocupa-se com o investimento artístico ao
indicar componentes curriculares em formato de laboratórios, onde os projetos
artísticos podem desenvolver-se a partir de interesses próprios de cada estudante.
Apesar desta possibilidade, os estudantes necessitam responder aos limites
institucionais de nota e finalização de processo semestral e isto, de certo modo culmina
na frágil percepção de como se dá o processo de encontro de variadas informações
teóricas e práticas contribuindo para a investigação e confluindo na composição
artística.O desvio inevitável se aproxima da investida pirata: organização de “ilhas
livres”, fora do sistema institucional e propiciadoras do exercício da autonomia artística.
Entretanto ao “livrar-se” do sistema institucional universitário e experienciar a
“liberdade artística”, os graduandos envolvem-se no plano da ficção e são seduzidos
por proposta de experimento fornecida pelo mercado que, como a instituição
universitária, pré-define suas condições, mas entoa o “canto afinado” e embevecedor
do subsídio financeiro que induz a uma falsa percepção de liberdade e autonomia
artística.
O trato com os limites e restrições; o dar-se conta da existência destes e a
experiência perceptiva de encontrar os desvios aparece como mais trabalhosa, porém
propiciadora de autonomia. Afinal, não se perde o que nunca se teve. Não será a
condição restritiva que restringirá a organização de propostas artísticas e
encadeamento de processos compartilhados. Não será a diferença perceptiva e a
consideração particularizada que impedirá o compartilhamento de opiniões e sugestões.
Não será a ignorância que “perderá” para o conhecimento, pois este é tão
circunstancial quanto a ignorância dele. Assim, “o mapa está fechado, mas a zona
autônoma está aberta.Metaforicamente ela se desdobra por dentro das dimensões
fractais invisíveis à cartografia do Controle”. (BEY, 2004, p.22).
A articulação entre pesquisa artística e pesquisa acadêmica na universidade
pode organizar-se enquanto ZAT entendida enquanto zona autônoma temporária e
zona de articulação temporária. Até porque se entendermos que a continuidade
necessita de ações comuns que promovam este tipo de ação importará perceber o
movimento dinâmico da ZAT, o dentro e fora do “sistema”, nele e com ele para que seja
possível empreender ações criticas e reflexivas acerca dos fazeres ali produzidos e que
transbordam os impedimentos e movimentam-se construindo outras ações.
[...] a única solução para a “supressão e realização” da arte está na
emergência da [ZAT]. Rejeito veementemente a critica que diz que a
própria [ZAT] não é “nada alem” de uma obra de arte, muito embora ela
possa vestir alguns de seus enfeites. Eu sugiro que a [ZAT] é o único
“lugar” e “tempo” possível para a arte acontecer pelo mero prazer do
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jogo criativo, e como uma contribuição real para as forças que permitem
que a [ZAT] se forme e se manifeste. (BEY, 2004, p.68-69)
Neste momento o LabZat reúne diferenças para produzir interferências
institucionais universitárias acadêmicas e artísticas. A potência está na percepção das
brechas e frestas que implicitamente a instituição apresenta. O resultante de tal
percepção pode organizar configurações de extrema diferença, mas o importante será
a disposição para tomar conta daquilo que se deu conta de sua existência. Assim, o
trabalho em ZAT “deve combinar informações e desejos para realizar sua aventura
(seu “acontecimento”), para preencher-se até as bordas de seu destino, para
intensificar-se com sua própria emergência”. (BEY, 2004, p. 41).
Tratar a ZAT como localização espaço-temporal de existência do artístico na
universidade taticamente parece possibilitar entendê-la como possibilidade de
convivência dos assuntos acadêmicos e artísticos; como frestas para investimentos
investigativos; como possibilidade de questionamento estrutural; como possibilidade
propositiva de modos de fazer acadêmico artístico; como possibilidade de organizar
teorias de dança; como escapadas do formalismo engessador que indicam caminhos e
sobrepõem mapas; como drible ao poder formal sem entrar em combate com este.
Valer-se da diferença na organização dos processos de existência artística, das
zonas e espaços de liberdade que somem e aparecem, que são circunstanciais em
existência, mas que promovem mudanças incorporam-se a idéia de ZAT considerando
que esta zona, como nos apresenta Bey (2004) “é um lugar físico, no qual estamos ou
não estamos. Todos os sentidos estão, necessariamente, presentes. (BEY, 2004,
p.72).Por conta disto, cabe por em discussão o modo como se dá a feitura de pesquisa
artística acadêmica na Universidade.
A especificidade tanto da pesquisa artística, quanto da pesquisa acadêmica
deve ser respeitada e tratada com responsabilidade por quem investe no trabalho
universitário. A pressuposição de que estas pesquisas existem como ambientes que se
distinguem sem o vetor dicotômico, e organizam seus processos em atenção aos
acordos gerados na feitura processual explicita a condição propiciadora que o contexto
universitário dispõe para promover o trabalho concomitantemente aos processos e
produções numa “contínua revolução de todo o dia”. (BEY, 2004, p. 64).
Neste sentido, a preocupação em entender como se concretiza a necessária
imbricação destas pesquisas na Universidade parece inadiável constitutiva dos
pressupostos universitários que prezam pelo questionamento, pela reflexão crítica, pela
constatação da contínua transformação dos processos formativos, pela consideração
da Arte como conhecimento e, no acompanhamento a entendimentos aqui
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expressados, a pontuação de que a arte seja “[...] uma condição de vida”. (BEY, 2004,
p. 69).
A responsabilidade do fazer está em fazer acontecer. Seja onde for que
aconteça, há que se observar as frestas e compartilhar da percepção do vento fresco
abalroando-se ao corpo e desviando-se deste, seguindo seu caminho e, então
reiniciamos o processo de compor a autonomia acadêmica e artística de tantos saberes
e fazeres.
Referências
BEY, H. TAZ: zona autônoma temporária. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2004.
PLAZA, J. Arte, Ciência, Pesquisa: relações IN: Trilhas. Campinas, 1977
SANTOS, B. de S. Pela Mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. São
Paulo: Cortez, 2006.
______________. A Universidade no Século XXI: para uma reforma democrática e
emancipatória da Universidade.
ZAMBONI, S. A Pesquisa em Arte: um paralelo entre Arte e Ciência. Campinas, SP:
Editora Autores Associados, 2001.
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