Oficinas Inclusivas em Belo Horizonte
David Oliveira
Oficineiro da Inclusão
As Oficinas Inclusivas realizadas em Belo Horizonte nos dias 22, 23 e 24 de agosto de 2007,
transcorreram de forma natural, nos aspectos de receptividade por parte dos(as) parceiros (escolas e
Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte), e muito angustiante para os(as) jovens
participantes.
As Oficinas para jovens respeitaram a faixa etária de 14 a 17 anos, sendo realizadas em seu próprio
ambiente escolar, ou seja, nas suas próprias salas de aula, em turmas únicas, com uma média de 25
a 30 participantes.
A seguir, um comentário sobre cada uma das Oficinas Inclusivas que realizei com a Oficineira da
Inclusão Sabrina Trica e a coordenadora do projeto pela Escola de Gente, Rosane Lowenthal.
PRIMEIRA OFICINA
Havia apenas uma aluna com deficiência (síndrome de Down). Um aspecto observado foi a extrema
atenção dos(as) alunos(as) com esta colega de turma, de forma que quando ela dava seu depoimento
eles(as) batiam palmas, mesmo que fosse uma coisa corriqueira. Além disso, quando ela demorava a
ter uma conclusão de seu depoimento ou mesmo que eles(as) não tivessem entendido, batiam
palmas da mesma forma. Fizemos uma abordagem de que isso era uma forma de integração e que a
opinião desta colega não estava sendo respeitada e, ainda, ela estava sendo discriminada por
eles(as).
Perguntamos o motivo dos aplausos e eles(as) confirmaram que isto era uma forma de evitar um
prolongamento da fala da adolescente com síndrome de Down, que era “chata”. Era também uma
forma de gerar uma certa “satisfação” na colega, enaltecendo sua fala e a deixando alegre. Fizemos
um contraponto à fala deles(as), dizendo que nem sempre estariam perto dela e que este gesto era
até louvável, mas eles(as) deveriam entender que em algum momento de sua vida ela não terá este
mesmo reconhecimento e isso fará mal à ela, o que ela poderá não compreender e será ainda mais
discriminada e segregada.
SEGUNDA OFICINA
Nesta Oficina Inclusiva, não tivemos a presença de jovens com deficiência. Encontrarmos um clima
tenso pelo fato da escola estar localizada em uma região de muita atribulação e “guerra” de
traficantes. A participação dos(as) jovens foi bem aproveitada, eles(as) responderam muito bem as
provocações e foi interessante até por termos sido abordados(as) no intervalo e no final pelos(as)
professores(as), que queriam saber o que estávamos falando, que eles(as) estavam bem agitados(as).
Outra situação interessante aconteceu ao final desta Oficina Inclusiva, na dinâmica da Partilha dos
Sonhos, em que a maioria dos(as) participantes sonhava com o fim da guerra na comunidade.
TERCEIRA OFICINA
Esta foi minha primeira Oficina para professores(as). Não tinha participante com deficiência, mas
foi muito interresante, apesar de ter havido um atraso muito grande, pelo fato destes(as)
profissionais de educação virem direto de seus trabalhos, localizado bem distante da sede da
Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte.
QUARTA OFICINA
Esta, em particular, foi a melhor Oficina Inclusiva desta série, apesar de não ter a participação de
jovens com deficiência. Aparentemente, tinha um jovem homossexual na turma e, de contraponto,
um aluno extremamente preconceituoso e homofóbico, contagiando assim aos(às) outros(as)
amigos(as) da sala, que a todo o momento vinha com uma incitação pejorativa.
Esta Oficina Inclusiva não teve a reciprocidade esperada, um momento mais particular de
envolvimento dos(as) jovens e, ao final, na dinâmica Partilha dos Sonhos, a maioria não quis
compartilhar e falar sobre seus sonhos.
Vejo, neste momento, como a melhor Oficina Inclusiva, porque aprendi que tínhamos que tornar a
atividade algo prazeroso para todos(as) e, de certa forma, atraente para o público-alvo, ainda mais
quando se trata de um público extremamente estigmatizado. Sinto que ficar muito atrelado ao
roteiro das Oficinas não resolve para atrair a atenção dos(as) participantes. Confesso que me senti
extremamente decepcionado e frustrado ao final desta Oficina, mas sinto que isto e também uma
inspiração para o futuro da minha atuação como Oficineiro da Inclusão.
QUINTA OFICINA
Esta Oficina Inclusiva foi muito interessante, por ter sido realizada para professores(as), apesar de
não ter pessoas com deficiência. Eles(as) se mostraram muito preocupados(as) com questões
inclusivas em suas atitudes e nos seus ambientes profissionais. As dinâmicas foram muito bem
aproveitadas e os(as) participantes responderam as provocações.
SEXTA OFICINA
Esta Oficina Inclusiva foi uma das mais cansativas por ter sido em uma turma grande (a maior que
tivemos). Nela tinha um aluno com deficiência mental que parecia estar incluído, mas por ser uma
turma numerosa, a dificuldade de atenção foi muito grande.
Tive algumas falhas graves neste dia. Estava com pouca paciência e num certo momento em que se
aproximava o horário de intervalo, acabei falando que se eles(as) não ficassem quietos(as), ficariam
sem intervalo. Fui, então, indagado por Rosane e Sabrina sobre esta situação e disse que “não
consegui segurar a onda”, mas entendo que esta falha não condiz com meus pensamentos reais
sobre escola, já que esta atitude não é inclusiva. Mas, como nas Oficinas Inclusivas estamos
suscetíveis a errar e aprendemos juntos(as), reconheci o que fiz.
A turma, mesmo extremamente agitada, correspondeu à Oficina Inclusiva e às provocações.
SÉTIMA OFICINA
Nesta nossa última Oficina Inclusiva, prevaleceu a “perfeição”, tanto pelo número tanto pela
presença da diversidade. Tivemos seis participantes com deficiência (surdos/as), negros(as),
brancos(as), pardos(as), magros(as), gordos(as), homens, mulheres etc.
Mesmo já arrasados(as) e cansados(as), esta Oficina Inclusiva me emociona muito quando eu
lembro, pois, previamente, fomos avisados(as) pela direção da escola que seria uma turma muito
difícil e que tinham relatos de discriminações raciais e de gênero entre eles(as), e mais, que
alguns(as) deles(as) eram tachados(as) como “alunos(as) problema”.
Assim, vivenciei nesta Oficina Inclusiva mais um marco, como aconteceu na quarta, onde
adaptamos as dinâmicas para torná-las mais excitantes e desafiadoras aos(às) participantes.
Propostas foram lançadas e levantadas pelos(as) alunos(as) participantes desta Oficina, que teve a
marca do desabafo do movimento inclusivo. Ela foi gostosa de conduzir, pois me senti participante
e não apenas facilitador dela.
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Leia relatório do Oficineiro da Inclusão David