Antecedentes e criação da turma bilingue Português – Cabo-verdiano
1.
Antecedentes
O ILTEC desenvolveu, entre 2003 e 2007, um projecto sobre a Diversidade Linguística
na Escola Portuguesa que começou com o levantamento das línguas faladas nos dois
primeiros ciclos das escolas situadas na área da Grande Lisboa. Tendo-se verificado
que os alunos afirmavam falar 58 línguas diferentes em casa (37 na escola), a equipa
do projecto decidiu estudar produções escritas de alunos de quatro línguas diferentes,
do 4º e do 6º anos, num total de 50 alunos do 4º e 50 alunos do 6º (10 de cada uma
das línguas a que se adicionou o Português para permitir uma comparação). Foram as
seguintes as línguas escolhidas em função de factores como o número de falantes ou
as dificuldades de comunicação: Cabo-verdiano, Mandarim, Guzerate e Ucraniano.
Estas quatro línguas foram estudadas quanto às suas características gramaticais e
sociolinguísticas para se poder verificar, entre outros aspectos, se as produções dos
alunos mostravam influência das respectivas línguas maternas.
As produções escritas dos alunos foram recolhidas a partir de estímulos de diferente
natureza: imagens correspondentes a palavras isoladas, imagens que descrevem
acções ou ocorrências, uma história em imagens para servir de base a uma
narrativa…. As produções escritas foram analisadas de vários pontos de vista:
ortografia, morfossintaxe, vocabulário, actos ilocutórios de pedido e ordem, texto
narrativo.
Todo o desenvolvimento do projecto – apresentação das línguas escolhidas, análises
linguísticas das produções dos alunos, exercícios adequados às dificuldades
observadas e alguns textos formativos – está incluído nos CD-ROM que se podem
consultar a partir do sítio do ILTEC (www.iltec.pt) e no livro com o nome do projecto,
publicado pela Fundação Gulbenkian em 2008. Neste último foram incluídas ainda
algumas recomendações ao Ministério da Educação, resultantes da investigação
desenvolvida no âmbito do projecto.
As recomendações mencionadas chamam a atenção do Ministério da Educação para
questões relacionadas com o ensino do Português como língua segunda, que tornam
urgente e indispensável:
•
A criação, testagem e implementação de uma ficha sociolinguística que se
institua como modelo e que possa ser utilizada a nível nacional
•
A entrega aos professores de uma matriz com os parâmetros exigidos para
uma avaliação diagnóstica de proficiência linguística dos alunos.
•
A preparação de cursos sobre a aquisição do Português como língua não
materna e formação de professores nesta área.
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•
A constituição de um dossier contendo sinopses das características
gramaticais e sociolinguísticas de muitas línguas presentes hoje na escola
portuguesa.
2.
Fundamentos do novo projecto
Para além destas recomendações (algumas das quais têm sido trabalhadas pela
equipa como a proposta de uma ficha sociolinguística e a elaboração de testes de
diagnóstico), foi posta em relevo a seguinte recomendação:
→ Criação de um espaço na escola para o ensino das línguas maternas dos
alunos.
Trata-se de uma recomendação que vem ao encontro de directivas da Unesco,
segundo as quais a utilização das línguas maternas dos alunos no ensino:
•
Contribui para o seu desenvolvimento cognitivo e para o reforço da sua
identidade cultural.
•
Melhora a qualidade da educação.
•
Põe em prática o exercício da cidadania e de aceitação e apropriação
construtiva da diferença.
É hoje convicção aceite por pedagogos, psicólogos e sociólogos escolares que
•
a inclusão no currículo escolar de áreas de desenvolvimento do bilinguismo,
levando à aprendizagem de mais do que uma língua, prepara os alunos para
atingirem um nível superior das suas capacidades linguísticas e para
adquirirem novas línguas e novas culturas e, ainda, para reconhecerem a
importância de dominar várias línguas;
em relação às crianças das minorias imigrantes,
•
pode verificar-se um nível superior de desenvolvimento psico e sócio-linguístico
se a escola integrar o ensino das suas línguas maternas;
•
as crianças cuja língua materna é a do país de acolhimento podem também
colher benefícios linguísticos e sócio-culturais do ensino bilingue.
3.
O ensino na turma bilingue
Foi durante a realização do projecto sobre a diversidade linguística que a equipa
responsável tomou contacto com uma experiência em curso na Alemanha que
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responde às recomendações feitas ao Ministério e às directivas da Unesco acima
referidas.
Nas cidades de Hamburgo e Berlim existem escolas públicas que constituíram turmas
com número igual de alunos alemães e de outra língua materna. O Português é uma
dessas línguas (tal como o Espanhol, o Italiano, o Turco) e o Ministério da Educação
português estabeleceu, em 2000, um Acordo de Colaboração com o Departamento
para Assuntos Escolares de Hamburgo para que fosse ministrado o ensino de
Português – Alemão, no âmbito de uma experiência pedagógica a iniciar no ano lectivo
de 2000-2001. Essa experiência já chegou ao nono ano e os alunos são bilingues e
trabalham com proficiência nas duas línguas. Entretanto, o modelo foi adoptado em
anos seguintes e em outras escolas alemãs.
Foram estes vários aspectos (vantagens do ensino bilingue para o desenvolvimento
dos alunos, conhecimento de uma experiência de ensino bilingue com êxito, interesse
em prestigiar a língua cabo-verdiana trazendo para a escola o seu ensino) que
estiveram na origem da criação de uma turma de educação bilingue, prevista no
projecto Bilinguismo, aprendizagem do Português L2 e sucesso educativo na Escola
Portuguesa apresentado à Fundação Gulbenkian.
A experiência de ensino bilingue teve início em Setembro de 2008 e tem os
pressupostos psicolinguísticos e sociolinguísticos acima referidos.
A experiência de ensino bilingue, estende-se do primeiro ao quarto ano do primeiro
ciclo do Ensino Básico. A língua escolhida para ser “parceira” do Português é o Caboverdiano (de acordo com os dados do projecto Diversidade Linguística, é a língua
falada pelo maior número de alunos que não têm o Português como língua materna).
A par desta turma em que se aplica a educação bilingue, formou-se outra turma nas
mesmas circunstâncias sócio-linguísticas com ensino monolingue (em Português) para
que se possa comparar o desenvolvimento dos alunos nas duas turmas e a respectiva
aquisição do Português ao longo dos 4 anos.
Para levar a efeito esta experiência foi escolhida a EB1 n.º 1 do Vale da Amoreira por
vários motivos: numerosos alunos cabo-verdianos, possibilidade de formar a turma
nas condições requeridas em consequência da sua situação dentro do Agrupamento,
aceitação, por parte das professoras e da Direcção da escola, da realização do
projecto, existência de uma professora da escola que é falante bilingue de Português e
Cabo-verdiano.
Como objectivos gerais, a experiência de ensino bilingue pretende:
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•
Desenvolver um bom nível de bilinguismo e de biliteracia nas crianças, dando
importância à oralidade, à leitura e à escrita em ambas as línguas.
•
Contribuir para o sucesso escolar das crianças de origem cabo-verdiana e,
portanto, colaborar na sua integração na comunidade portuguesa, melhorando
o desempenho escolar e o desenvolvimento linguístico, cognitivo, social e
cultural, não só dessas crianças, mas também das crianças cuja língua
materna é o Português.
•
Tornar evidente que a língua cabo-verdiana é tão importante como qualquer
outra língua. Não existem línguas que valham mais do que outras por razões
linguísticas. O diferente estatuto que se atribui às línguas decorre de aspectos
de carácter económico e político. O estudo do Crioulo Cabo-verdiano a par do
Português é, assim, uma forma de prestigiar uma língua que é materna para
muitos alunos da escola e justifica, por isso, um investimento no seu estudo.
Para atingir os objectivos referidos, decidiu-se:
•
Criar uma turma para ensino bilingue com um número equilibrado de alunos de
ambas as línguas, Português e Cabo-verdiano.
•
Seleccionar uma professora falante nativo de Cabo-verdiano para trabalhar a
par da professora titular, de língua materna portuguesa.
•
Usar ambas as línguas como veículo de instrução.
•
Separar as línguas de instrução e atribuir a cada uma a transmissão de
conteúdos escolares específicos
•
Adoptar o mesmo currículo académico do programa de Português.
•
Garantir às crianças oportunidades de uso (a nível da fala, da compreensão, da
leitura e da escrita) de ambas as línguas.
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