EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR NO ENSINO FUNDAMENTAL: A PERCEPÇÃO
DE UMA TURMA DE ALUNOS DE UMA ESCOLA PÚBLICA DE CUIABÁ-MT
Prof. Ms. Marcos R. Godoi – FEF-UFMT
Acadêmicos do 8º semestre – FEF-UFMT:
Cacilda de M. França
Carlos Eduardo M. Gonçalves
Flávia Luzia de S. N. Caixeta
Hugo S. Okabe
Juliana G. Costa
Marília Gabriela D. Monteiro
Paulo Vitor M. Lima.
Resumo: O objetivo desta pesquisa foi compreender a opinião dos alunos de uma turma
de 7ª série do Ensino Fundamental sobre as aulas de Educação Física. O instrumento de
coleta de dados foi um questionário com 13 questões. A partir da análise dos dados
pudemos concluir que: para 27,5% dos alunos a disciplina que mais gostam é Educação
Física, mas apenas 6% a consideram importante. Para os alunos a aula é considerada
como uma "obrigação e diversão". Os conteúdos que mais gostam e menos gostam são os
esportivos, contraditoriamente. Entendem como benefícios da Educação Física o
desempenho físico e a saúde.
Palavras-chave: Educação Física Escolar, Ensino Fundamental, percepção dos alunos.
Introdução
A motivação inicial para desenvolver esta pesquisa originou-se durante a prática
pedagógica na disciplina de Estágio Supervisionado no Ensino Fundamental II (5ª a 8ª
série), com acadêmicos do 7º semestre 2008/1, da Faculdade de Educação Física da
UFMT.
O estágio foi realizado em duas escolas públicas, sendo uma municipal e outra
estadual, em uma fomos nas terças-feiras e na outra nas quintas-feiras. Esta situação
acabou se mostrando favorável, pois pudemos conhecer melhor, um pouco da realidade da
Educação Física em duas escolas públicas, comparar a forma em que são organizadas,
vivenciadas, os problemas, as dificuldades e as possibilidades de trabalho.
Na escola municipal, os estagiários tiveram a oportunidade de lecionar para duas
turmas “muito boas” segundo a própria professora de Educação Física da escola, sendo
uma turma de 7ª série (8º ano) e outra de 8ª série (9º ano). Realmente, com o passar do
tempo, pudemos perceber como os alunos participavam das aulas, era evidente a alegria,
felicidade e envolvimento de todos, ou quase todos, poucos não participavam das aulas.
Pelo que pudemos perceber a professora trabalhava mais com os conteúdos esportivos.
Mas isto não foi impeditivo ou uma forma de resistência por parte dos alunos na
assimilação de outros conteúdos/atividades como, por exemplo, jogos cooperativos,
expressão corporal, criação e modificação de regras das modalidades oficiais, lutas
(técnicas de defesa pessoal), dentre outros.
Já na escola estadual, os alunos eram um tanto indisciplinados, chegando a
desrespeitar o professor, os estagiários e alguns eram até mesmo mal educados. Tinham
muita resistência com os conteúdos novos, queriam impor as suas regras e decidir o que
1
seria trabalhado, quase sempre querendo futebol e voleibol no formato do jogo oficial.
Além disto, muitos alunos não participavam de forma efetiva das aulas, se reuniam em
grupos e ficavam conversando, ou entravam e saiam da aula no momento que achavam
melhor. Outros preferiam realizar outras atividades além daquelas oferecidas pelos
estagiários.
Esta parece ser a concepção de EFE desenvolvida naquela escola, os alunos podem
optar por participar da aula oferecida pelo professor, mas pode também escolher jogar tênis
de mesa (ping-pong), jogos de mesa (xadrez, bozó, dominó), espirobol, fazer outra coisa
qualquer, ou não fazer nada, como se fosse um momento de lazer, de descontração, de
diversão ou mesmo de descompromisso.
O professor sempre se queixava do comportamento dos alunos, fato agravado pela
redução da carga horária da EFE para uma aula por semana, pois assim, eles pareciam
muito mais eufóricos e descontrolados em sua forma de participação nas aulas. Este é um
aspecto bastante polêmico naquela escola, ou seja, a redução da carga horária, segundo o
professor, esta foi uma decisão da direção/coordenação da escola de forma antidemocrática, prejudicando os professores que tiveram que pegar mais aulas em outras
escolas e os próprios alunos, que também se queixavam da redução das aulas.
As dificuldades encontradas nesta escola fizeram com que refletíssemos sobre o
que poderia ser feito para melhorar a realidade da EFE naquela instituição de ensino.
Sabíamos que nosso trabalho era limitado, uma vez que estaríamos ali somente no período
do estágio, mas quisemos dar nossa contribuição. Foi assim que surgiu a idéia de fazermos
uma pesquisa com os alunos, procurando saber e entender melhor a opinião dos mesmos
sobre a EFE e ao mesmo tempo “ouvir” suas críticas, sugestões, justificativas.
Sendo assim, levantamos a seguinte problemática de pesquisa: Que importância os
alunos atribuem à Educação Física em relação às outras disciplinas? Quais são as atitudes e
motivações dos alunos diante da Educação Física? Que benefícios percebem como
provenientes da participação em aulas de Educação Física? Como vêem a questão da
obrigatoriedade das aulas? Quais são as preferências e rejeições em relação aos conteúdos
desenvolvidos? Quais são as dificuldades em participar das aulas de EFE e as suas
sugestões de mudanças?
Objetivos e Justificativa
Geral: Compreender a percepção dos alunos de uma turma de 7ª série do Ensino
Fundamental sobre as aulas de Educação Física Escolar.
Específicos:
a) Investigar as disciplinas consideradas mais e menos importantes no currículo
escolar, bem como as disciplinas que eles mais gostam e menos gostam;
b) Verificar sobre as motivações e atitudes dos alunos diante da EFE, bem como o
entendimento dos mesmos sobre os benefícios da EFE;
c) Inquirir sobre as dificuldades em participar da EFE e as sugestões de mudança para
esta disciplina;
Esta pesquisa justifica-se porque no processo de ensino-aprendizagem o professor
deve levar em consideração a opinião dos alunos. De acordo com Betti, citado por Betti e
Liz (2003), o professor deve considerar o ponto de vista dos alunos, os significados e
valores que eles vinculam às várias atividades do ensino, uma vez que a alteridade é um
2
dos princípios pedagógicos que deve orientar a Educação Física. De acordo com Ricouer
(apud. BETTI e LIZ, 2003), a alteridade implica numa dialética entre o “si” e o “diverso de
si”, ou seja, o outro é constitutivo do si mesmo e vice-versa. Dito de outra forma, o
professor constitui-se em função do aluno de forma mutua. Em síntese, o professor deve
respeitar seus alunos, ouvi-los, conhecê-los.
No que diz respeito à atratividade das aulas de EFE, Wintertein citado por Stavisky
e Cruz (2008) afirmam que a EFE possui uma “atração natural” nas séries iniciais do
Ensino Fundamental, mas esta tende a diminuir a partir da 5ª e 6ª séries. De modo geral, o
desinteresse é presente em ambos os sexos. Contudo, é muito difícil que na escola as aulas
de EF acabem por desagradar a todos ou mesmo desaparecer do currículo. A tendência é
existir aqueles que gostam de participar das aulas e os que preferem não participar. Estes
dois lados que o professor vivencia geram muitas reflexões e preocupações por parte
professores e pesquisadores interessados em conquistar uma participação plena dos alunos
nas aulas. Alguns esforços já foram feitos no sentido de descobrir o que leva os alunos a
participarem mais das aulas, porém, neste complexo fenômeno, há muito ainda por
descobrir. Daí a necessidade de continuarmos pesquisando o assunto.
Metodologia
Esta pesquisa caracteriza-se por seu um estudo de campo. Segundo Gil (2002, p.
53):
“Tipicamente, o estudo de campo focaliza uma comunidade, que não é
necessariamente geográfica, já que pode ser uma comunidade de trabalho,
de estudo, de lazer ou voltada para qualquer outra atividade humana.
Basicamente a pesquisa é desenvolvida por meio de observação direta das
atividades do grupo estudado e de entrevistas com informantes para
captar suas explicações e interpretações do que ocorre no grupo”. (...).
Em relação à amostra, ou seja, os sujeitos pesquisados, esta foi composta por 29
alunos, sendo 12 do sexo feminino e 17 do sexo masculino, com idades entre 12 e 15 anos,
todos alunos da 7ª série do Ensino Fundamental de uma Escola Estadual no município de
Cuiabá-MT.
O instrumento de coleta de dados foi um questionário construído pelos autores da
pesquisa, baseado nas pesquisas de Betti e Liz (2003) e Staviski e Cruz (2008), contendo 7
questões fechadas e 6 questões abertas, porém, nem todas serão analisadas neste trabalho.
A coleta de dados foi realizada no dia 27 de maio de 2008, na sala de aula dos alunos.
Outro procedimento de pesquisa utilizado foi a observação assistemática da realidade da
Educação Física naquela turma. As observações serão complementares ao processo de
análise dos dados.
Após a análise dos dados, os pesquisadores montaram um painel e socializaram os
resultados com o professor de Educação Física da escola e com os alunos da turma
pesquisada, buscando conscientizá-los sobre a realidade da disciplina naquela turma e
sobre as necessidades de mudança.
Sobre o referencial teórico para análise dos dados, nos baseamos em estudos
realizados anteriormente sobre o tema, em especial nos estudos de Betti e Liz (2003), Frey
(2007), Marzinek e Feres Neto (2007), Stavisky e Cruz (2008).
3
Resultados e Discussão
Perguntados sobre quais disciplinas mais gostam, em questão “aberta”, na qual os
alunos podiam listar tantas disciplinas quantas quisessem, Matemática e Educação Física
apareceram empatadas em primeiro lugar. Geografia e História, com números iguais de
indicações, aparecem em segundo lugar. As demais disciplinas tiveram baixa incidência de
escolha.
Tabela 1. As cinco disciplinas que os alunos mais gostam.
DISCIPLINAS
Nº
%
Matemática
Educação Física
Geografia
História
Português
8
8
3
3
2
27,5
27,5
10,3
10,3
6,8
Com relação às disciplinas que os alunos gostam menos, Matemática e Inglês,
foram as disciplinas mais citadas, seguidas de Português, História e Educação Artística.
Observe-se que a Matemática está, simultaneamente, entre as disciplinas das quais os
alunos mais gostam e que menos gostam (ver Tabelas 1 e 2).
Tabela 2. As cinco disciplinas que os alunos menos gostam.
DISCIPLINAS
Nº
Matemática
Inglês
Português
História
Educação Artística
9
6
5
4
2
%
31,0
20,6
17,2
13,7
6,8
Para os alunos, Português é a disciplina mais importante, com mais de 50% das
escolhas, em seguida aparece Matemática com mais de 40% da preferência por parte dos
alunos. (ver Tabela 3). A Educação Física ocupa o quinto lugar na ordem de importância
para os alunos, apesar de estar entre as que mais gostam.
Tabela 3. As cinco disciplinas que os alunos consideram mais importantes.
DISCIPLINAS
Nº
%
Português
Matemática
Geografia
Inglês
Educação Física
16
12
3
3
1
55,1
41,3
10,3
10,3
3,4
Os dados encontrados com relação às disciplinas preferidas e as consideradas mais
importantes são semelhantes aos de Betti e Liz (2003) e Frey (2007). A Educação Física
4
aparece em segundo lugar nas disciplinas mais apreciadas, entretanto cai para quinto lugar
entre as disciplinas consideradas mais importantes, do mesmo modo que Matemática e
Português ocupam os primeiros lugares na ordem de importância atribuída pelos alunos em
ambos os estudos.
Quando questionamos os escolares sobre as disciplinas de menor importância no
currículo, a resposta mais votada foi Educação Artística com mais de 60% dos votos,
Ensino Religioso aparece com pouco mais de 10% das respostas, Educação Física,
Ciências e Inglês também foram citadas, mas com menor incidência de resposta (ver
Tabela 4).
Tabela 4. As três disciplinas que os alunos consideram menos importantes.
DISCIPLINAS
Nº
%
Educação Artística
Ensino Religioso
Educação Física
Ciências
Inglês
18
3
2
2
2
62,0
10,3
6,8
6,8
6,8
Botelho e Oliveira (2005), citados por Frey (2007), afirmam que as disciplinas
Educação Física, Educação Artística e Educação Religiosa são, historicamente,
posicionadas de forma desigual. Para as autoras as outras disciplinas do currículo escolar
se sobrepõem, pois consideram que a exigência intelectual seja mais marcante.
No que se refere à percepção das aulas como obrigação e/ou diversão, quase dois
terços dos escolares encaram a Educação Física como “obrigação” e “diversão”,
evidenciamos aqui, tal qual na pesquisa de Betti e Liz (2003), como a Educação Física lida
com princípios contraditórios: trabalho “versus” lazer. Ela é obrigatória e ao mesmo tempo
traz satisfação pessoal. Poucos alunos vêem a Educação Física apenas como obrigação, já
como diversão, o percentual de respostas aumenta, mas não chega a um terço da amostra.
Tabela 5. Como os alunos percebem as aulas de Educação Física.
PERCEPÇÃO
Nº
%
Obrigação
Diversão
Obrigação e diversão
2
8
19
6,9
27,6
65,5
Sobre o sentimento em relação às aulas de Educação Física, cerca de 79% dos
alunos declararam que gostam ou gostam muito da Educação Física. É interessante
observar o quanto às aulas proporcionam um sentimento de satisfação para os alunos (ver
Tabela 6).
Tabela 6. Sentimento em relação às aulas de Educação Física.
SENTIMENTO
Nº
%
Gosto muito
Gosto
Gosto mais ou menos
Não respondeu
14
9
5
1
48,2
31,0
17,2
3,6
5
Com relação aos benefícios percebidos decorrentes das aulas de Educação Física,
“melhorar o desempenho físico”, “ter mais saúde”, “praticar esportes” e “aprender a
competir e respeitar regras”, foram as alternativas mais assinaladas (ver Tabela 7). Dados
parecidos com esses podem ser encontrados no estudo de Frey (2007).
Os resultados evidenciam três núcleos de valorização: o "esportivo" (ligado ao
condicionamento físico, saúde e disciplina), o "corporal" (ter mais saúde, ficar com o corpo
mais bonito) e o “social” (espaço de socialização, fazer amigos e desinibir), os dois
primeiros superaram amplamente os valores ligados à sociabilização propriamente dita.
Isto evidencia o paradigma da aptidão física e esportiva utilizado nas aulas, seria
interessante o professor trabalhar mais com jogos cooperativos, buscando desenvolver
também outros valores que não os da competição e performance esportiva.
Tabela 7. Benefícios percebidos.
BENEFÍCIOS
Nº
%
Melhorar o desempenho físico
Ter mais saúde
Praticar esportes
Aprender a competir e respeitar regras
Espaço de socialização; fazer amizades
Ficar mais descontraído
Ficar com o corpo mais bonito
20
16
11
11
4
4
4
28,6
22,9
15,7
15,7
5,7
5,7
5,7
Indagados sobre o que mais gostam e dá prazer nas aulas de Educação Física, os
alunos listaram alguns conteúdos. Dentre as atividades que informaram mais gostar estão,
em primeiro lugar, algumas modalidades esportivas (futebol/futsal, voleibol, handebol)
vindo “ping-pong” logo a seguir, dentre outros conteúdos (ver Tabela 8).
Tabela 8. O que os alunos mais gostam e dá prazer nas aulas de Educação Física.
CONTEÚDOS
Nº
%
Futebol/Futsal
Voleibol
Handebol
Ping-Pong
Outros
17
10
8
5
8
35,5
20,8
16,6
10,5
16,6
Conforme Gueriero e Araújo (2004), historicamente a Educação Física não
apresenta uma variação de conteúdos, levando a uma identificação da aula com a prática
esportiva. Assim, se questionarmos qual a atividade que os alunos gostariam de
desenvolver, a grande maioria será a favor de alguma modalidade esportiva coletiva.
Ainda segundo estes autores:
“Podemos perceber que alguns profissionais se acomodam no discurso de
que é difícil mudar esta característica esportivizada das aulas, alegando
que os alunos não permitem, e não querem esta mudança. O professor
deve estar ciente da sua capacidade de transformação social, de sua
intensa participação na formação de valores para o caráter de seus alunos
(...)”. (p. 7).
6
Em uma aparente contradição, são também modalidades esportivas as que os alunos
declararam gostar menos e são desprazerosas nas aulas de Educação Física (ver tabela 9 a
seguir).
Tabela 9. O que os alunos menos gostam e dá desprazer nas aulas de Educação Física.
CONTEÚDOS
Nº
%
Futebol/Futsal
Voleibol
Brincadeiras de correr/pega-pega
Basquete
Aulas Teóricas
Outros
7
6
4
3
3
6
23,4
20,1
14,4
11,0
11,0
20,1
De acordo com Soares et. al., citados por Satavisky e Cruz (2008), para os alunos
considerados menos capazes ou não aptos, a ênfase no desempenho e na competição
podem transformar a EFE numa atividade desestimulante, segregadora e até aterrorizante
para estes alunos.
Cabe aqui esclarecer que não se trata de negar o conteúdo esporte:
“os esportes não são elementos negativos, eles fazem parte dos conteúdos
da EF e possuem destacadas valências que podem ser trabalhadas quando
é realizada a transformação didático-pedagógica, ou seja, utilizar os
esportes como ferramentas de emancipação, libertação, esclarecimento e
não apenas restrigindo-se a uma de suas possibilidades: o
desenvolvimento técnico-motor” (KUNZ, apud. STAVISKY e CRUZ,
2008, p. 7).
Aparece também com destaque as aulas teóricas como fonte de desprazer, isto
talvez decorra do fato de professores e alunos perceberem a aula teórica como a aula dada
em sala de aula, nos moldes tradicionais, porém existem várias metodologias diferenciadas
e atrativas para se trabalhar conteúdos teóricos, como por exemplo tempestade de idéias,
debates, leitura de imagens, leitura e discussão de textos em pequenos grupos, exposição
de sínteses em cartazes, dramatização sobre o assunto etc. Outro ponto a ser considerado
sobre este item, é que a compreensão da teoria precisa ser alargada, ela pode acontecer na
quadra, quando o professor explica e contextualiza os conteúdos, nos momentos de
reflexão sobre a prática.
Sobre a diversificação de conteúdos, Facco citado por Marzinek e Feres Neto
(2007), salienta que apesar de o desporto ser o conteúdo mais desenvolvido na EFE e o
preferido dos alunos, desde a 5ª série do Ensino Fundamental até a 1ª série do Ensino
Médio, os alunos deveriam experimentar um pouco de outros conteúdos, ou seja, é preciso
diversificar as possibilidades de acesso aos outros conteúdos da cultura corporal de
movimento.
Quando questionados sobre as principais dificuldades para realizar as aulas de
Educação Física, em primeiro lugar aparece a alternativa fazer o que não gosta, com 22,8%
das respostas. Em segundo lugar, ficou a alternativa “alguns colegas querem demonstrar
7
que são melhores do que os outros”, com 15,1% das respostas. “Não conseguir realizar
bem as atividades” apareceu em terceiro, com quase 9% das respostas.
Tabela 10. Principais dificuldades encontradas pelos alunos para realizar as aulas de Educação Física
DIFICULDADES
Nº
%
Fazer o que não gosta
Alguns colegas querem demonstrar que são melhores do que os outros
Não conseguir realizar bem as atividades
Vergonha dos colegas
Não gostar dos conteúdos e atividades desenvolvidas
Horário das aulas no mesmo horário das outras disciplinas
Machucar-se, cair, levar boladas, quebrar alguma parte do corpo
Brigas com os colegas
Outros
18
12
7
5
5
4
4
4
20
22,8
15,1
8,9
6,3
6,3
5,1
5,1
5,1
25,3
Conforme Stavisky e Cruz (2008, p. 4), “é freqüente observar alunos que só
participam das aulas se o conteúdo for algo que lhe agrade”. Diferentemente das outras
disciplinas, nas quais o aprendizado dos conteúdos é muito mais exigido, até porque o
desempenho dos alunos é avaliado por testes e provas. Alguns professores têm cobrado a
participação nas aulas como uma forma de avaliação, mas nem sempre encontram
instrumentos eficazes para mensurar esta participação.
As três alternativas que vem na seqüência, ou seja, “alguns querem demonstrar que
são melhores do que os outros, não conseguir realizar bem as atividades e vergonha dos
colegas”, parecem evidenciar a ênfase no caráter competitivo, com base nos resultados, na
comparação, nas relações de poder e de dominação de uns sobre outros. Fica evidente, a
necessidade de mudar o foco de trabalho, os objetivos da EFE, desenvolvendo mais jogos
cooperativos e problematizando as posturas excessivamente competitivistas.
Neste sentido, Stavisky e Cruz esclarecem que:
“conteúdos repetitivos” e “falta de compreensão dos alunos com os
próprios colegas e professores” é um dos principais motivos que afastam
os alunos das aulas, principalmente, os menos “habilidosos”; fato que
pode ser mais bem compreendido, observando a necessidade de uma
maior compreensão quanto aos diferentes níveis de desempenho motor
apresentada pela parcela de alunos que declara não gostar das aulas de
Educação Física”.
Darido e Rangel (2005) defendem que nas aulas de Educação Física os professores
devem encontrar alternativas para não exclusão, devendo repensar sua própria pratica
pedagógica, a fim de tornar acessível a todos, pois encontram uma variedade de alunos
com motivos, interesses e necessidades diferentes, caso não levem em consideração a
individualidade dos mesmos, isto acabará repercutindo na falta de interesse pela disciplina.
Conforme destacam Henrique e Januário (apud. FREY, 2007, p. 2), “é essencial
que, para um bom planejamento e desenvolvimento das aulas, se considere o pensamento
do aluno”. Nesse sentido perguntamos, quais seriam suas sugestões para as aulas de
Educação Física (ver Tabela 12). É interessante observar que a primeira mudança seria
aumentar o tempo e quantidade de aulas por semana (23,1%), percebe-se aqui a
insatisfação dos alunos em relação à quantidade de aulas por semana, que os mesmos
consideram insuficientes (1 vez por semana). Um aspecto motivacional “aulas mais
8
divertidas” (16,8%) aparece como a segunda alternativa mais citada pelos alunos. Um
aspecto social “envolvimento de toda turma” vem logo em seguida com 9,4% da
preferência. Outras mudanças como participação dos alunos na escolha de conteúdos,
acréscimo de outros conteúdos, aulas teóricas com temas interessantes, uso de TV, vídeos,
dvd, etc., são itens também elencados pelos alunos, mas com pouca expressividade.
Tabela 11. Sugestões dos alunos para mudança nas aulas de Educação Física.
SUGESTÕES
Nº
%
Tempo maior de aula, mais de uma aula por semana
Aulas mais divertidas
Maior participação da turma
Uso de uniforme adequado
Participação dos alunos na escolha dos conteúdos
Acréscimos de outros conteúdos
Aulas teóricas com temas interessantes
Compreensão dos colegas quanto à diferença de habilidades
Uso de materiais como TV, vídeo, DVD, textos de revistas e jornais
Outros
22
16
15
8
7
7
5
5
3
8
23,0
16,8
15,7
8,4
7,3
7,3
5,2
5,2
3,1
8,4
Observa-se que todas as alternativas sugeridas pelos alunos não são inatingíveis ou
impossíveis de serem executadas. Porém dependem do esforço conjunto da escola (direção
e coordenação), do professor e dos alunos. Depende da escola, porque o aumento da carga
horária da disciplina passa pela definição do Projeto Político Pedagógico da escola, da
definição do currículo escolar, das disciplinas que são consideradas mais e menos
relevantes e da carga horária das mesmas. Muitas escolas dão prioridade para as disciplinas
Português, Matemática e outras, visando à preparação para o vestibular e para o mercado
de trabalho. Com certeza, se nossas escolas fossem de tempo integral, não teríamos essas
disputas de espaço e tempo entre as disciplinas escolares, todas teriam o devido tempo para
desenvolver todas as potencialidades dos alunos. Logo, está é uma bandeira de luta
importante em busca da melhoria da qualidade do ensino.
Depende do professor, porque os alunos querem aulas mais divertidas, que o
professor acrescente novos conteúdos, que eles sejam interessantes e que use novas
metodologias (aulas teóricas, uso de recursos audiovisuais). Ressalta-se aqui a necessidade
de cursos de formação continuada, buscando o aperfeiçoamento constante dos professores,
não só em termos técnicos/didáticos, mas também desenvolvendo a criatividade e a
motivação do professor.
Depende dos alunos, porque é preciso que os mesmo se conscientizem de que
precisam participar mais, ter envolvimento de toda a turma, que usem uniforme adequado,
que participem na escolha dos conteúdos e compreendam e respeitem às diferenças de
desempenho dos colegas.
Considerações Finais
Com base na análise e discussão dos dados pudemos concluir que a EFE está entre
as disciplinas que os alunos mais gostam na escola, porém não a consideram tão
importante. Grande parte dos alunos gosta ou gosta muito da Educação Física e a
consideram simultaneamente como obrigação e diversão. Os alunos e alunas participantes
do estudo reconhecem como benefícios da Educação Física melhorar o desempenho físico,
ter mais saúde, praticar esportes e aprender a competir e respeitar as regras do jogo. Os
9
conteúdos que mais gostam e o que menos gostam são os esportivos, contraditoriamente,
provocando atração e rejeição das aulas. As principais sugestões de mudanças dependem
do esforço da escola em aumentar a carga horária, do professor em desenvolver aulas mais
divertidas, com novos conteúdos e novas metodologias de ensino, e também dos alunos, no
sentido de participar mais das aulas, usar roupas adequadas para prática da EFE, ajudar a
escolher os conteúdos e respeitar mais os diferentes desempenho dos colegas.
A educação não é uma ciência exata, é um fenômeno complexo das dimensões
sociais e humanas. A maior participação e o melhor desempenho dos alunos nas aulas
dependem de vários fatores. Não queremos reduzi-lo a simples opinião dos alunos,
dependem também da concepção e prática dos professores, dos dirigentes escolares, dos
administradores do sistema de ensino, da política educacional. Existem fatores externos e
internos, alguns ao alcance dos professores, outros mais distantes. Nossa intenção com este
estudo foi dar nossa contribuição para o debate, mais do que buscar soluções mágicas e
fáceis. Entendemos que refletir sobre os problemas pedagógicos já é início para a tomada
de consciência, mas não é tudo, é preciso vontade e compromisso com a transformação de
nossas práticas e aperfeiçoamento da Educação Física escolar.
Referências Bibliográficas
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Fundamental. Motriz, Rio Claro, v.9, n.3, p. 135-142, set./dez. 2003.
DARIDO, S. C; RANGEL, I. C. A. Educação Física na Escola: Implicações para Pratica
Pedagógica, Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. 2005
FREY,M .C. A Educação Física no Ensino Médio. A Opinião dos Alunos Sobre as Aulas.
Revista Digital EF Deportes, Buenos Aires, Ano 12, n. 113, outubro 2007.
GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4 ed. São Paulo: Atlas, 2008.
STAVISKI, G.; CRUZ, W. M. da. Aspectos Motivadores e Desmotivadores e a
Atratividade das Aulas de Educação Física na Percepção de Alunos e Alunas. Revista
Digital EF Deportes, Buenos Aires, Ano 13, n. 119, abril 2008.
MARZINEK, A; FERES NETO, A. A Motivação de Adolescentes nas Aulas de Educação
Física - Revista Digital EF Deportes, Buenos Aires - Ano 11 - N° 105 - Fevereiro de
2007.
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