RELAÇÕES DIALÓGICAS: A INTERTEXTUALIDADE BÍBLICA EM LAMENTAÇÕES
DE CURITIBA, DE DALTON TREVISAN
Bárbara Nayara de Souza (Literatura Brasileira – Especialização - UEL)
Orientador: Profa. Dra. Telma Maciel da Silva
RESUMO
Dalton Trevisan (1925) é considerado um dos maiores contistas vivos da literatura brasileira.
Seus contos caracterizam-se por serem “de costumes”, pois ele lança um olhar para a vida
urbana, retratando-a de forma precisa, buscando sempre uma “unidade de sentido”. A
intertextualidade também pode ser vista como um elemento de grande importância nas obras
de Dalton Trevisan, uma vez que ele dialoga com diversos textos da tradição literária, além de
ser muito recorrente o intertexto bíblico, construindo, desta forma, uma prosa instigante e
inovadora. Este trabalho tem por objetivo analisar o diálogo intertextual entre “Lamentações
de Curitiba”, conto que se assemelha a um relato profético, presente no livro Em busca de
Curitiba perdida (1992) e a Bíblia, partindo do que Mikhail Bakhtin (1981) chama de
dialogismo, “a escrita em que se lê o outro”, e do conceito de intertextualidade segundo Julia
Kristeva (1967), como sendo a noção de que cada texto, consistindo num “mosaico de
citações”, jamais existe isoladamente, pois está sempre dialogando com outros textos num
processo de assimilação e transformação.
Palavras-chave: Lamentações de Curitiba; Intertextualidade; Bíblia.
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Dialogismo e Intertextualidade
Em seu livro Marxismo e filosofia da linguagem (2004), Mikhail Bakhtin
defende o caráter dialógico da linguagem. Para ele, a verdadeira substância da língua é
constituída pelo fenômeno social da interação verbal, no qual toda enunciação é um diálogo,
uma vez que cada enunciado pressupõe aqueles que o antecederam e outros que o sucederam.
O autor não reduz a palavra “diálogo” a uma relação face a face. Seu
conteúdo “diz respeito à teoria da dialogização interna do discurso”. (MUSSALIM, 2001,
p.127). Para Bakhtin, quando o sujeito usa a palavra, encontra-a já habitada por falas de outras
pessoas, o que significa que o discurso é perpassado por outras vozes, resultantes de leituras
anteriores.
Julia Kristeva aprofundou-se na obra bakhtiniana. A partir do conceito de
dialogismo, Kristeva cunhou o termo intertextualidade, que é muito utilizado atualmente. Ela
diz que para Bakhtin, a palavra literária não é um ponto, um sentido fixo, mas um cruzamento
de superfícies textuais, um diálogo de diversas escrituras: a do escritor, a do destinatário, a do
contexto cultural atual ou anterior.
Todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e
transformação e de um outro texto. Em lugar da noção de intersubjetividade, instalase a de intertextualidade e a linguagem poética lê-se pelo menos como dupla.
(KRISTEVA, 1967, p.64).
Jenny (1979) diz que só se apreende o sentido e a estrutura de uma obra
literária relacionando-a com seus arquétipos. Fora de um sistema, a obra é impensável.
Mesmo que nenhuma obra não tenha nenhum traço em comum com as outras já existentes,
não nega seu contexto cultural, mas afirma-o pela própria negação.
De acordo com Fiorin (2011, p.30), a intertextualidade é o processo de
incorporação de um texto em outro, seja para reproduzir o sentido incorporado ou para
transformá-lo. Há três processos de intertextualidade: a citação, a alusão e a estilização.
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O primeiro processo, a citação, pode confirmar ou alterar o sentido do texto
citado. No caso da alusão, não se citam as palavras (todas ou quase todas), mas reproduzemse construções sintáticas em que certas figuras são substituídas por outras.
A estilização é a reprodução do conjunto dos procedimentos do “discurso de
outrem”, ou seja, do “estilo de outrem”. Nesse caso, os estilos devem ser entendidos como o
“conjunto das recorrências formais tanto no plano da expressão quanto no plano do conteúdo
que produzem um sentido de individualização”. (FIORIN, 2011, p.31).
Fiorin (2006) explica que em Bakhtin, a questão do interdiscurso aparece
com o nome dialogismo, e que não se pode dizer que haja dois dialogismos: entre
interlocutores e entre discursos. “O dialogismo é sempre entre discursos. O interlocutor só
existe enquanto discurso”. (FIORIN, 2006, p.166).
A interdiscursividade não implica a intertextualidade, embora o contrário
seja verdadeiro, pois, ao se referir a um texto, o enunciador se refere também ao discurso que
ele manifesta. A intertextualidade não é um fenômeno necessário para a constituição de um
texto. A interdiscursividade ao contrário, é inerente à constituição do discurso:
Dizer que a interdiscursividade é constitutiva é também dizer que um discurso não
nasce, como em geral ele o pretende, de algum retorno às coisas mesmas, mas de um
trabalho sobre outros discursos. O discurso não é único e irrepetível, pois um
discurso discursa outros discursos. Nessa medida, o discurso é social. Na verdade, se
um discurso mantém relações com outro, ele não é concebido como um sistema
fechado sobre si mesmo, mas é visto como um lugar de trocas enunciativas, onde a
história pode inscrever-se, pois ele se transforma, ao mesmo tempo, num espaço
conflitual e heterogêneo e num espaço contratual. (MAINGUENEAU apud FIORIN,
2006, p.35).
Relações dialógicas em “Lamentações de Curitiba”
Em “Lamentações de Curitiba”, presente no livro Em busca de Curitiba
perdida, Dalton Trevisan estabelece um diálogo contínuo com vários livros da Bíblia, em
especial com Lamentações, que foi atribuído ao profeta Jeremias e Apocalipse, as revelações
que o apóstolo João recebeu.
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Trevisan constrói o seu conto a partir de referências a versículos, histórias e
símbolos da Bíblia, o intertexto é constante, de forma que o conto assemelha-se realmente a
uma narrativa bíblica.
Faraco (apud Fiorin, 2006, p.170) nota que um dos significados da palavra
diálogo é o que remete à solução de conflitos, entendimento. No entanto, o dialogismo é tanto
convergência quanto divergência; é tanto acordo quanto desacordo; é tanto adesão quanto
recusa:
O Círculo de Bakhtin entende as relações dialógicas como espaços de tensão entre
os enunciados, pois mesmo a responsividade caracterizada pela adesão incondicional
ao dizer de outrem se faz no ponto de tensão deste dizer com outros dizeres. Isso
significa que, do ponto de vista constitutivo, o dialogismo deve ser entendido como
um espaço de luta entre as vozes sociais. (FARACO apud FIORIN, 2006, p.170).
Na Bíblia, existe o relato da destruição de cidades, e a Curitiba de Trevisan
é devastada de forma semelhante a essas exposições dos textos sagrados. No entanto, há
vários momentos em que se observa divergências notáveis, por exemplo, ao mesmo tempo em
que existe uma aproximação com o que é narrado nas passagens bíblicas, também é possível
reconhecer algumas diferenças na maneira como as circunstâncias do desastre ocorre.
O contexto histórico dos cinco poemas que compõem Lamentações é a
destruição de Jerusalém por Nabucodonosor em 586 a.C. Jerusalém, que antes era uma
grande cidade, é representada como uma mulher que ficou viúva (LAMENTAÇÕES 1.1) e
que vê seus filhos morrerem de fome (LAMENTAÇÕES 2.19,22).
Contudo, Lamentações não se limita apenas a chorar a ruína de Jerusalém.
Em várias ocasiões, Jeremias leva o povo a reconhecer a sua própria responsabilidade e a
confessar sua culpa diante de Deus:
Jerusalém pecou gravemente; por isso se tornou repugnante; todos os que a
honravam a desprezam, porque lhe viram a nudez; ela também geme e se retira
envergonhada. (Lamentações 1.8).
O conto começa com uma expressão muito recorrente nos livros dos
profetas do Antigo Testamento, como em Ezequiel 13.1: “Veio a mim a palavra do Senhor,
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dizendo:” Em Jeremias, capítulo 18, versículo 1 diz: “A palavra do Senhor que veio a
Jeremias, dizendo:”.
Na Bíblia, profeta é quem fala em nome de outro e, na maioria dos casos,
fala em nome de Deus, de quem é porta-voz e representante. No uso atual, o profeta é visto
como alguém que prediz o futuro. No entanto, a pregação das coisas futuras é apenas uma
parte da mensagem. No Antigo Testamento, profeta era chamado de nabi, que significa
"aquele que é chamado e tem o encargo de falar a outros da parte de Deus”. (ARNOLD, 2001,
p. 341).
Em “Lamentações de Curitiba”, o narrador inicia uma fala como e realmente
fosse um profeta e tivesse o encargo de pronunciar uma sentença: “A palavra do Senhor
contra a cidade de Curitiba no dia de sua visitação”. (TREVISAN, 1992, p. 13). Desta forma,
quem irá contar o relato assume uma postura de mensageiro, anunciando aos moradores de
Curitiba o que está por vir.
O proclamador da mensagem continua a “profecia” estabelecendo uma
comparação com Curitiba e Jerusalém, quando esta foi destruída pelo rei Nabucodonosor.
Suave foi o jugo de Nabucodonosor, rei de Babilônia, diante de Curitiba
escarmentada sob a pata dos anjos do Senhor como laranja azeda que não se pode
comer de azeda que é. (TREVISAN, 1992, p.13).
Curitiba sofrerá todos os flagelos que atingiram Jerusalém, mas as
proporções serão ainda maiores. Jerusalém foi destruída por causa da sua infidelidade, porque
não estava atenta às leis de Deus:
Quando disserem: Por que nos fez o Senhor, nosso Deus, todas estas coisas? Então,
lhes responderás: Como vós me deixastes e servistes a deuses estranhos na vossa
terra, assim servireis a estrangeiros em terra que não é vossa. (JEREMIAS 5. 19.).
No livro de Jeremias, o profeta exorta o povo de Israel a mudar de conduta,
denuncia a mentira, a violência, cuja raiz se encontra na infidelidade a Deus, por tê-lo
abandonado para buscar outros deuses:
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Pronunciarei contra os moradores destas as minhas sentenças, por causa de toda a
malícia deles; pois me deixaram a mim, e queimaram incenso a deuses estranhos, e
adoraram as obras das suas próprias mãos. (JEREMIAS 1, 16).
Como consequência da infidelidade à aliança estabelecida por Deus, seria
inevitável a condenação de Israel. Assim, Jeremias anuncia a iminência do desastre e prediz a
destruição do templo de Jerusalém, o que de fato ocorre posteriormente.
Já em “Lamentações de Curitiba” não há referências sobre infidelidade a
deuses, nem qualquer motivo desta ordem, o que há de fato é uma ênfase nas desgraças que
sobrevirão ao povo, cuja causa seria as más ações dos moradores da cidade.
“Ai, ai de Curitiba, o seu lugar não será achado daqui a uma hora”.
(TREVISAN,1992, p. 13).
A ruína da cidade é descrita primeiramente como um processo rápido, que
se realiza em pouco tempo, o que lembra a destruição de outra cidade, que também é relatada
na Bíblia, a Babilônia.
Segundo Rosa (2001), Babilônia é considerada uma cidade de grande
destaque. Sua fama deve-se às obras realizadas pelo rei Nabucodonosor (606-562). Ele
conquistou Jerusalém, destruiu o templo de Salomão e enviou os hebreus para a Babilônia,
onde permaneceram exilados durante setenta anos.
A Babilônia é mencionada na Bíblia como símbolo dos inimigos de Deus e
do seu povo. Há uma oposição entre Babilônia, lugar do paganismo e dos vícios e a Jerusalém
celeste, que representa a paz e a virtude. O aniquilamento breve da Babilônia é relatado no
livro de Apocalipse, escrito por João quando ele estava na ilha de Patmos.
João identifica-se a si mesmo como profeta e denomina de “profecia” a sua
mensagem. O Apocalipse é dirigido, em primeiro lugar, às igrejas concretas contemporâneas
do escritor. É um testemunho registrado em uma linguagem rica em símbolos, imagens e
visões. Essa linguagem corresponde ao gênero apocalíptico. Os profetas do Antigo
Testamento como Isaías, Ezequiel e Daniel também utilizaram esse gênero literário.
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Babilônia é descrita como uma grande meretriz, adornada de ouro, pedras
preciosas e que está embriagada com o “sangue dos santos” (APOCALIPSE 17.3). Depois de
toda a descrição, há o anúncio da queda de Babilônia:
Então, exclamou com potente voz, dizendo: Caiu! Caiu a grande Babilônia e se
tornou moradia de demônios, covil de toda espécie de espirito imundo e esconderijo
de todo gênero de ave imunda e detestável. (APOCALIPSE 18.2).
Há uma aproximação entre Babilônia e Curitiba, que são cidades muito
desenvolvidas em termos econômicos, culturais. Cada uma em seu momento e no contexto
em que estão fundadas tem uma grande importância, mas que não são um exemplo de virtude.
Curitiba é uma cidade que representa os vícios dos homens, cujos
moradores são perversos e estão corrompidos, por isso a cidade será destruída, assim como
Babilônia, por ter se tornado símbolo de tudo o que é detestável, e Jerusalém, pela sua
infidelidade, por ter buscado outros deuses.
Em “Lamentações de Curitiba” há uma anunciação dos tipos de morte que
irão assolar os moradores, são basicamente três: fogo, espada e peste.
O que fugir do fogo não escapara da água, o que escapar da peste não fugira da
espada, mas o que escapar do fogo, da água, da peste e da espada, esse não fugira de
si mesmo e terá morte pior. (TREVISAN, p.14).
Esses tipos de morte constam na Bíblia em momentos diferentes. No caso da
morte por espada, há relatos de vários conflitos entre os povos no Antigo Testamento. A
história de Israel é marcada por uma sucessão de guerras, e além disso, em muitas ocasiões,
Deus incentiva os confrontos:
Assim diz o Senhor dos Exércitos: Castigarei Amaleque pelo que fez a Israel: ter-se
oposto à Israel no caminho, quando este subia do Egito. Vai, pois, agora, e fere
Amaleque, e destrói totalmente a tudo que tiver, e nada lhe poupes; porém matarás
homem e mulher, meninos e crianças de peito, bois e ovelhas, camelos e jumentos.
(I SAMUEL 15. 2-3).
A morte por água remete ao Grande Dilúvio, o qual dizimou quase que a
totalidade da população que havia no mundo, conforme é narrado em Gênesis:
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Assim, foram exterminados todos os seres que havia sobre a face da terra; o homem
e o animal, os répteis e as aves dos céus foram extintos da terra; ficou somente Noé
e os que com ele estavam na arca. (GÊNESIS 7.23).
A morte por peste também aparece no Antigo Testamento. Em uma ocasião
específica, ocorreu no tempo de Moisés, quando os hebreus queriam sair do Egito, mas
estavam sob o domínio de Faraó, que não permitiu que estes partissem. Em decorrência disso,
Deus manda dez pragas que assolaram todo o povo egípcio, sendo que a última, foi a que
efetivamente causou mortes nos seres humanos, pois a maioria das outras pragas atingiram a
natureza.
Aconteceu que, à meia-noite, feriu o Senhor todos os primogênitos na terra do Egito,
desde o primogênito de Faraó, que a assentava no seu trono, até ao primogênito dos
animais. Levantou-se Faraó de noite, ele, todos os seus oficiais e todos os egípcios; e
fez-se grande clamor no Egito, pois não havia casa em que não houvesse morto.
(ÊXODO 12. 29-30).
Lamentações de Jeremias cita apenas uma das mortes que está presente em
“Lamentações de Curitiba”: “Mais felizes foram as vitimas da espada do que as vitimas da
fome; porque estas se definham atingidas mortalmente pela falta do produto dos
campos”. (LAMENTAÇÕES 4.9).
Não há saída para os habitantes de Curitiba, pois quem se salvar de uma
morte, terá outra ainda pior, e no caso da última cidade, o que fugir das três mortes ainda terá
que enfrentar outro inimigo, o seu próprio “eu”, isso mostra que o pior algoz do homem é ele
mesmo.
Antes de Curitiba ser assolada, as pessoas terão inscritas em sua testa a
marca da besta, que é outra referência às revelações do livro de Apocalipse, onde é relatado a
existência de uma besta que emerge da terra, cujos adoradores possuem uma espécie de selo
da mão direita ou na fronte, e que serão condenados no dia do juízo final:
Mas a besta foi aprisionada e com ela o falso profeta que, com os sinais feitos diante
dela, seduziu aqueles que receberam a marca da besta e eram os adoradores da sua
imagem. Os dois foram lançados dentro do lago de fogo que arde com enxofre.
(APOCALIPSE 19.20).
Essa marca, por sua vez, é uma imitação do selo que Deus colocou no seu
povo, os que serão protegidos do tormento no dia do grande juízo, ao contrário dos
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adoradores da besta, que segundo consta em Apocalipse, sofrerão os flagelos que serão
enviados à terra.
Em “Lamentações de Curitiba”, não há ninguém que está livre das aflições,
pois todos tem a marca da besta. Sendo assim, todos sofrerão os flagelos, ninguém será
poupado. O profeta que prediz o que acontecerá em Curitiba diz que Deus entregará a cidade
nas mãos de Baal e dos outros deuses que compartilham de semelhanças com Baal, o que
indica mais um aspecto terrível da destruição.
De acordo com Magalhães (2012), No século IX a.C., a princesa Jezabel
quis instituir o culto a Baal, e proibir o culto a Iavé, a única divindade dos hebreus. Isso fez
com que os israelitas transformassem Baal na representação de todos os falsos deuses. Ao
longo do tempo, Baal tornou-se a personificação do mal, tendo sido comparado a Lúcifer, o
anjo caído do cristianismo.
Em “Lamentações de Curitiba” há um fato que se desvincula propriamente da
destruição da cidade:
Para embainhar minha espada, diz o Senhor, os vinte e três necrófilos da cidade
casarão em comunhão de bens com suas noivas desenterradas e vestidas de branco.
(TREVISAN, 1992, p. 15).
Nesse caso, existem dois elementos carregados de simbolismo: o número 23
e a figura da noiva. Em vários momentos na Bíblia, a Igreja é comparada a uma noiva.
Quanto ao número, consta na Bíblia que Jeremias pregou durante vinte e três anos ao povo de
Israel para que eles se arrependessem dos seus pecados, mas como eles não ouviram o profeta,
foram condenados a setenta anos de cativeiro:
Durante vinte e três anos, desde o décimo terceiro de Josias, filho de Amom, rei de
Judá até hoje, tem vindo a mim a palavra do Senhor, e, começando de madrugada,
eu vo-la tenho anunciado; mas vós não escutastes. (JEREMIAS 25.3).
Apocalipse termina com a visão de uma “nova Jerusalém”. A cidade está
toda enfeitada, como nas bodas de casamento, simbolizando a união definitiva com Cristo:
Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus,
ataviada como noiva adornada para o seu esposo. Então, veio um dos sete anjos que
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têm as sete taças cheias dos últimos sete flagelos e falou comigo, dizendo: Vem,
mostrar-te-ei a noiva, a esposa do Cordeiro. (APOCALIPSE 21. 2,9).
Em “Lamentações de Curitiba”, o enlace dos necrófilos com as noivas é
completamente diferente do que acontece em Apocalipse, considerando que no último caso,
todas as tristezas já passaram, pois eles estão no chamado “novo céu e nova terra”. Já no
conto, ocorre justamente o contrário, a união se estabelece num momento de desespero e
infelicidade.
No conto, há uma profecia que fala sobre o rio Barigui, que banha parte do
estado do Paraná e desagua em um bairro de Curitiba. Uma profecia semelhante ocorre em
Apocalipse:
O terceiro anjo derramou a sua taça nos rios e nas fontes das aguas, e se tornaram
em sangue. Então, ouvi o anjo das águas dizendo: tu és justo, tu que és e que eras, o
Santo, pois julgaste estas coisas; porquanto derramam sangue de santos e de
profetas, também sangue lhes tens dado a beber; são dignos disso. (APOCALIPSE
16. 4-6).
A passagem refere-se ao julgamento das Taças, que é, segundo João, o
último juízo que Deus enviará à Terra durante a tribulação. O versículo fala sobre a 3ª Taça,
que consiste na transformação dos rios em sangue. Os flagelos simbolizados pelas taças
lembram as dez pragas do Egito. Na primeira praga, as águas se convertem em sangue. No
caso de Apocalipse, o sangue representa a morte dos santos e dos profetas que foram vítimas
de perseguições.
O rio de Curitiba também se transforma em sangue, mas diferente do que
ocorre em Apocalipse, esse sangue não é de inocentes, de mártires que foram condenados por
suas crenças, são de pessoas que merecem o castigo que lhes é aplicado, pois suas atitudes
não são consideradas corretas.
Com o castigo de Curitiba, “as filhas vaidosas da sua cidade suspirarão”
(TREVISAN, 1992, p.15). Apesar de toda vaidade e esplendor, essas filhas foram condenadas
ao aniquilamento, pois não há salvação para nenhuma pessoa. O narrador também critica a
soberba dessas mulheres, que mesmo possuindo beleza e outros bens, não poderão fugir do
mal que sobrevirá à cidade, e isso Jeremias também expressa em Lamentações, o profeta fala
das virgens e dos príncipes:
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Os caminhos de Sião estão de luto, porque não há quem venha a reunião solene;
todas as suas portas estão desoladas; os seus sacerdotes gemem; as suas virgens
estão tristes; e ela mesma se acha em amargura. Os seus adversários triunfam, os
seus inimigos prosperam; porque o Senhor a afligiu, por causa da multidão das suas
prevaricações; os seus filhinhos tiveram de ir para o exílio, na frente do adversário.
Da filha de Sião já se passou todo o esplendor, os seus príncipes ficaram sendo
como corços que não acham pasto e caminham exaustos na frente do perseguidor.
(LAMENTAÇÕES 1. 4-6).
As “filhas da cidade” continuam com o seu lamento dizendo: Não existe dor
como a minha dor (TREVISAN, 1992, p.15), frase que está em Lamentações:
Não vos comove isto, a todos vós que passais pelo caminho? Considerai e vede se há
dor igual a minha, que veio sobre mim, com que o Senhor me afligiu no dia do furor
da sua ira. (LAMENTAÇÕES 1.12).
Esse versículo também constitui o canto de Verônica, que faz parte de uma
liturgia da Igreja Católica na procissão da Sexta-feira Santa para lembrar o sofrimento de
Jesus. Isso mostra que as mulheres sentem que o martírio pelo qual estão passando é
comparável ao que Cristo padeceu na cruz.
Em Lamentações, Jerusalém é representada como uma mulher que ficou
viúva, ou seja, há uma personificação da cidade, que lamenta seu desamparo e implora a
compaixão das pessoas.
As mulheres que se encontram em Curitiba, assim como a viúva de
Lamentações, ficam desoladas por estarem numa situação tão precária, expostas à miséria e ao
abandono, sendo que antes elas estavam no auge da sua magnitude, da mesma forma que
Jerusalém, que não era uma cidade qualquer, mas o santuário de Deus.
Dá uivos, ó Rua XV, berra, ó Ponte Preta, uma espiga de milho debulhada é
Curitiba: sabugo estéril. (TREVISAN, 1992, p.15).
Esse trecho traz a imagem de Curitiba como um sabugo estéril, o que
lembra um dos milagres de Jesus, no qual ele amaldiçoa uma figueira por ela não produzir
frutos.
No dia seguinte, quando saíram de Betânia, teve fome. E, vendo de longe uma
figueira com folhas, foi ver se nela, porventura, acharia alguma coisa. Aproximandose dela, nada achou, senão folhas; porque não era tempo de figos. Então lhe disse
Jesus: Nunca jamais coma alguém fruto de ti! E deus discípulos ouviram isto. E,
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passando eles pela manhã, viram que a figueira secara desde a raiz. (MARCOS 11.
12-14, 20).
A parábola é uma metáfora sobre o povo judeu, que devia obedecer aos
mandamentos instituídos por Deus e produzir frutos em todas as ocasiões, mesmo que as
condições do meio não fossem favoráveis, e os frutos a que Jesus se refere são as boas obras.
Embora Curitiba produza frutos, eles não são aprazíveis, por isso a cidade é
amaldiçoada e condenada à destruição:
Maldito o dia em que filho de homem te habitou, o dia em que se disse nasceu uma
cidade não seja lembrado, por que não foste sempre um deserto, e vez de cercada de
muros e outra vez sem um só habitante? (TREVISAN, 1992, p.15).
Considerando as diversas referências que Trevisan faz em relação à Bíblia, é
interessante notar que o autor utiliza alguns procedimentos de incorporação do discurso do
outro de que fala Fiorin. Nesse caso, é notável algumas alusões a versículos bíblicos,
mecanismo que perpassa todo o conto, e também há a estilização.
Em “Lamentações de Curitiba”, o contista baseia-se nos relatos da Bíblia
para tecer outro tipo de juízo final, que acontecerá apenas em Curitiba. O autor faz uso de um
estilo muito peculiar encontrado nos livros dos profetas do Antigo Testamento, e como
também já foi mencionado, de Apocalipse.
A linguagem empregada é característica desse estilo, além a repetição de
alguns símbolos encontrados nas profecias dos referidos livros constroem um relato que
poderia ser encontrado na Bíblia, devido à semelhança de estilo.
Outro aspecto importante relaciona-se a retomada do discurso bíblico, por
exemplo, da cidade que deve ser destruída por causa da sua má conduta, o discurso dos
moradores, que é exposto de uma forma semelhante àquela de Lamentações, onde as pessoas
choram a destruição da cidade e o abando a que estão entregues.
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Conclusão
Em “Lamentações de Curitiba”, Dalton Trevisan lança mão de diversos
artifícios para incorporar o discurso do outro, sendo a estilização e a alusão as mais evidentes.
O contista busca recriar um novo “juízo final” a partir de elementos que constituem os relatos
da Bíblia, o que aproxima o seu texto com os dos profetas do Antigo Testamento, e também é
similar a uma descrição apocalíptica dos fins dos tempos, construindo uma nova Babilônia e
uma nova Jerusalém, cidades que se misturam para formar Curitiba, que da mesma forma que
as outras duas, sofrerá o castigo divino, o qual resultará na sua total destruição.
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784 RELAÇÕES DIALÓGICAS: A INTERTEXTUALIDADE