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Original
VISITA MUSICAL COMO UMA TECNOLOGIA LEVE DE CUIDADO1
Leila Brito Bergold2, Neide Aparecida Titonelli Alvim3
Texto elaborado a partir da dissertação “A visita musical como estratégia terapêutica no contexto hospitalar e seus nexos com
a enfermagem fundamental”. Programa de Pós-Graduação da Escola de Enfermagem Anna Nery (EEAN) da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), 2005.
2
Doutoranda em Enfermagem pelo Programa de Pós-Graduação da EEAN/UFRJ. Chefe do Setor de Musicoterapia do Hospital
Central do Exército. Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: [email protected].
3
Doutora em Enfermagem. Professor Associado do Departamento de Enfermagem Fundamental da EEAN/UFRJ. Orientadora
da dissertação. Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: [email protected].
1
RESUMO: Esse estudo teve por objetivo descrever as concepções de clientes hospitalizados sobre as visitas musicais e analisar a
importância dessas visitas no contexto hospitalar. Utilizou como bases teóricas a teoria humanística do cuidado de enfermagem de Jean
Watson e as contribuições de Even Ruud sobre música e contexto cultural. O estudo foi realizado com abordagem qualitativa, e para
produção de dados utilizou o Método Criativo e Sensível através de três dinâmicas denominadas Corpo-Musical. Os sujeitos foram
14 clientes internados em um hospital militar da cidade do Rio de Janeiro. A análise dos dados foi baseada na análise de discurso. Os
resultados indicam que as visitas musicais promovem conforto, bem-estar, expressão de emoções, autonomia e estimulam a criação
de recursos próprios aos clientes hospitalizados. Estes também apontam a influência benéfica das visitas para o ambiente hospitalar
ao promover a comunicação e integração dos seus participantes.
DESCRITORES: Enfermagem. Musicoterapia. Tecnologia.
MUSIC VISITATION AS A LIGHT TECHNOLOGY OF CARE
ABSTRACT: This study had as purpose to describe hospitalized client’s conceptions on musical visitations and to analyze the importance
of these visitations in the hospital context. The theoretical basis used on this study was Jean Watson’s humanistic theory of nursing
care and the contributions of Even Ruud related music and cultural context. A qualitative approach was used, and Sensitive-Creative
Methodology was used for the data production through three dynamics called Body-Musical. The subjects were 14 clients admitted at a
military hospital in Rio de Janeiro, Brazil. Data were analyzed by discourse analysis. The results indicate that musical visitations promote
comfort, well-being, expression of emotions, autonomy and stimulate the creation of self resources for the hospitalizated clients. These
also point the positive influence of visits to promote communication and the integration of participants at the hospital environment.
DESCRIPTORS: Nursing. Music therapy. Technology.
LA VISITA MUSICAL COMO UNA TECNOLOGÍA LEVE DEL CUIDADO
RESUMEN: Este estudio tuvo el objetivo de describir las concepciones de los pacientes hospitalizados acerca de las visitas musicales y
analizar la importancia de esas visitas en el contexto hospitalario. La base teórica utilizada en este estudio fue la teoría humanística del
cuidado de enfermería de Jean Watson y las contribuciones de Even Ruud acerca de la música y del contexto cultural. Los datos de la
investigación fueron producidos por medio del método creativo-sensible a través de tres dinámicas denominadas cuerpo musical. Los
sujetos fueron 14 pacientes internados en un hospital militar de la ciudad de Rio de Janeiro. Para el análisis de los datos fue utilizado
el análisis del discurso. Los resultados indican que las visitas musicales producen confort, bienestar, expresión de las emociones,
autonomía y estimulan la creación de recursos propios a los pacientes hospitalizados. Los sujetos también señalan el beneficio de las
visitas para el ambiente hospitalario al promover la comunicación e integración de los participantes
DESCRIPTORES: Enfermería. Musicoterapia. Tecnología.
Texto Contexto Enferm, Florianópolis, 2009 Jul-Set; 18(3): 532-41.
Visita musical como uma tecnologia leve de cuidado
INTRODUÇÃO
Tecnologia é um conjunto de conhecimentos,
especialmente princípios científicos que se aplicam
a determinado ramo de atividade. Não está ligada
somente a equipamentos tecnológicos, mas também ao saber-fazer.1 Nessa perspectiva, este estudo
abordou uma tecnologia em saúde denominada
visita musical, que consiste em apresentações
musicais ao vivo em enfermarias de um hospital
geral, realizadas por uma equipe de funcionários
que cantam e tocam música, coordenados por uma
enfermeira que também é musicoterapeuta. Tem
por objetivo promover a humanização hospitalar
junto a clientes internados, reduzindo assim, as
possíveis repercussões negativas da hospitalização relacionadas ao afastamento de seu cotidiano
e inserção em um ambiente desconhecido que se
torna frequentemente ameaçador.2
Dessa forma, é importante que novas tecnologias sejam desenvolvidas para sustentar uma
assistência à saúde mais humanizada no ambiente
hospitalar. Com esse intuito, foi realizado um
estudo junto a clientes internados que participaram das visitas musicais, buscando aprofundar
o conhecimento sobre sua influência no contexto
hospitalar e refletir sobre os princípios que as
fundamentam.
As tecnologias envolvidas no trabalho em
saúde são classificadas como: dura, leve-dura e
leve. As duras são relacionadas aos equipamentos
tecnológicos, normas, rotinas e estruturas organizacionais. As leve-duras são os saberes bem
estruturados no processo de saúde e as tecnologias
leves estão vinculadas à produção de relações, de
vínculos, autonomização e acolhimento.3 Assim,
pode-se considerar a visita musical uma tecnologia
leve, pois os resultados da pesquisa apontaram
que ela se vincula ao estabelecimento de relações e
autonomização. Observa-se também uma estreita
relação entre a visita musical e os pressupostos de
teóricas da enfermagem sobre o cuidado, visto que
produzir relações e estabelecer vínculos é condição
fundamental no cuidado.1
A utilização da música como um recurso
para o cuidado de enfermagem em nosso país tem
ocorrido de forma mais estruturada recentemente.
No entanto, como possibilidade terapêutica, a música já é cogitada desde o início da organização da
enfermagem como profissão, quando Nightingale
se referiu aos seus benefícios. Apesar de não explicitar esses efeitos, ela citava a voz, os instrumentos
de sopro e de cordas como benéficos pelo seu som
contínuo. Essas afirmações apontam uma percepTexto Contexto Enferm, Florianópolis, 2009 Jul-Set; 18(3): 532-41.
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ção das possibilidades da utilização terapêutica
da música no hospital, à sua época. Contudo, ela
concluiu que o seu uso generalizado estaria fora
de questão devido ao alto custo financeiro que
isso acarretaria.4
Atualmente, o desenvolvimento tecnológico
facilita o acesso à música, possibilitando a sua
presença no ambiente hospitalar. Entretanto, o
que mais parece contribuir para a sua utilização
hoje é a evolução da concepção do cuidar em enfermagem. Os questionamentos, ora feitos pelos
profissionais de enfermagem acerca de sua práxis
prioritariamente sustentada em tecnologias duras
e leve-duras, resultaram na ampliação de suas
possibilidades de atuação, aproximando-os mais
do cuidado humanizado.
A mudança de paradigma da Enfermagem
para além da pós-modernidade se estrutura sobre
o cuidar baseada em uma ontologia, uma ética
de relacionamento, de ligação e consciência. Essa
consciência está relacionada à mudança de visão
de si e do outro, em uma procura de mudança
ontológica no modelo de cuidar.5
A Enfermagem, ao mudar seus parâmetros
acerca do cuidado, procura atender o homem em
sua integralidade, e para isso, busca em outras disciplinas recursos que possam ampliar sua prática.
Uma dessas disciplinas com as quais a Enfermagem encontra afinidade é a musicoterapia, pois
esta também busca uma visão holística do homem
para atendê-lo de forma abrangente. Cabe ressaltar que a própria musicoterapia é híbrida, pois se
baseia tanto na arte, por meio da música, quanto
na ciência, com os fundamentos terapêuticos da
utilização desta.6
Na atualidade, com a mudança da concepção do que é o cuidado de enfermagem, alguns
enfermeiros brasileiros desenvolveram atividades
musicais na prática ou investigaram a utilização
da música como um recurso para a assistência
dentro de uma visão holística do ser humano.
Há publicações que relatam experiências práticas ou descrevem relatos de pesquisas voltadas
para: reduzir a dor crônica; promover a interação
enfermeira-cliente ou da própria equipe; promover
o bem-estar ou prevenir o estresse no ambiente
hospitalar; servir como facilitadora no processo de
ensino-aprendizagem voltado tanto para clientes
quanto para enfermeiros.7-13
Uma das pesquisas que abordaram a música
como recurso para o tratamento da dor crônica
apontou que as músicas lentas e suaves, no caso,
do estilo New Age, reduzem mais a dor do que as
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Bergold LB, Alvim NAT
de ritmo acentuado; enquanto outra apontou uma
relação entre a redução da dor e imagens mentais
decorrentes de músicas clássicas, em especial as
músicas com estruturas bem definidas.8
Alguns outros estudos focaram a música
como facilitadora de relacionamentos, tanto na
relação enfermeiro-cliente quanto na equipe de enfermagem entre si. No primeiro estudo, os sujeitos
eram clientes em tratamento psiquiátrico que passaram por um relaxamento induzido por música
clássica e que relataram experimentar sensação de
bem-estar, prazer e liberdade além de recordaremse de fases da vida e do cotidiano.9 O segundo
estudo baseou-se na prática do canto coral para
promover a integração da equipe e apontou que
essa atividade, além de integrar a equipe de enfermagem e multiprofissional, desenvolveu o espírito
de ajuda e a percepção da importância do trabalho
em equipe como um todo indivisível.10
Outro estudo se originou de uma investigação sobre a música como instrumento para
influenciar as relações de trabalho entre a equipe multidisciplinar dentro de uma Unidade de
Terapia Intensiva. Essa proposta se estendeu
para os clientes com a finalidade de diminuir o
estresse, tendo êxito no sentido de proporcionar
relaxamento e conforto espiritual a estes. Quanto
à equipe, além de auxiliar na prevenção do desgaste psicológico, a música promoveu um maior
comprometimento com as atividades profissionais
e estimulou a integração social.11
Acerca de seu uso voltado para o processo
de ensino e aprendizagem, um estudo abordou o
aprendizado de temas relacionados ao autocuidado na gravidez através da criação de paródias. Essa
atividade lúdica produziu prazer e proporcionou
a expressão dos sentimentos das gestantes, assim
como dos conhecimentos adquiridos sobre o período de gestação.12 Outro estudo se voltou para
a sensibilização de enfermeiros utilizando a música como um recurso terapêutico voltado para a
prática e o ensino de enfermagem. Os enfermeiros
apontaram que a música influencia o indivíduo
de forma global, estando suas reações vinculadas
às suas vivências e ao seu contexto cultural. Destacaram também seu potencial para promover o
auto-conhecimento, reflexão e percepção do outro,
sendo ainda um recurso usado pelos enfermeiros
para relaxar, estudar e estimular a criatividade.13
É importante destacar que a música envolve reações sensoriais, hormonais, fisiomotoras e
psicológicas, não havendo fragmentação entre os
seus efeitos, como foi apontado em algumas dessas
7
pesquisas que, ao focalizarem algum efeito específico da música, perceberam que a sua influência era
mais abrangente, não podendo ser reduzida a um
aspecto somente. Assim, sua utilização terapêutica
deve ser vista de forma holística de modo a atender
o ser humano como um todo, respeitando o seu
potencial e a sua forma de ser.2
A despeito dos efeitos benéficos da música
já relatados, a necessidade de desenvolver novas
formas de abordagem no cuidado, pautadas pela
observância dos princípios ético-morais na convivência entre enfermeiros e clientes, implica em
investigar amplamente essas novas práticas para
ampliar o conhecimento e fornecer parâmetros
eficazes para a consolidação dessas experiências.
Frente a essas reflexões, buscou-se pesquisar as
visitas musicais na ótica do cliente hospitalizado
e suas interfaces com a enfermagem fundamental,
tendo por objetivos: descrever as concepções de
clientes hospitalizados sobre as visitas musicais,
analisar a importância dessas visitas como estratégia terapêutica no contexto do cuidado hospitalar
e discutir as interfaces das visitas musicais com a
enfermagem fundamental.
Princípios que fundamentam a tecnologia
visita musical
As visitas musicais vêm sendo desenvolvidas desde o ano de 2000 no Hospital Central do
Exército (HCE), na cidade do Rio de Janeiro. O
saber-fazer que as sustentam, fundamenta-se na
experiência prática e em princípios da Musicoterapia e da Enfermagem.
O cuidar na atualidade requer uma epistemologia em expansão e integra todas as formas de
conhecimento. Essa integração dos conhecimentos
aponta a importância da música na saúde, pois
esta atua como catalisadora no sentido de facilitar
e aumentar nossas próprias capacidades interiores
de cura e auto-cura.2
Sendo tecnologia uma ação intencional sobre
a realidade na busca de bens/produtos fundamentados em um conjunto de conhecimentos, neste
estudo buscou-se evidenciar a visita musical como
uma tecnologia leve voltada para a produção de
acolhimento, vínculo e autonomização.1 Assim, na
seqüência, passaremos a descrever os procedimentos e os princípios da enfermagem e musicoterapia
que norteiam esta tecnologia.
A equipe musical canta e toca instrumentos
como flauta, cavaquinho e violão, sendo que as
músicas podem ser somente instrumentais, ou
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Visita musical como uma tecnologia leve de cuidado
cantadas e acompanhadas pelos instrumentos
descritos. Nessas visitas, o cliente internado é
convidado a escolher as músicas que o agradem,
sendo respeitado o seu desejo de escutá-las ou
não, de cantar ou tocar junto, de se movimentar,
ou seja, de se expressar livremente a partir da
audição musical.
As visitas musicais iniciaram-se na Clínica de
Reabilitação e em seguida na Clínica Ortopédica
do HCE, locais em que os efeitos da hospitalização
se faziam mais presentes devido à longa permanência dos clientes nessas clínicas. Posteriormente
foram estendidas a outros setores de internação
que solicitaram as visitas, como o Centro de Terapia Intensiva (CTI), Unidade Renal, Coronária
e enfermarias de clínica médica, e se estruturaram
em função dos dias e horários mais adequados
aos diversos setores. Assim, além da longa permanência de internação dos clientes, a solicitação
dos próprios setores também foi adotada como
critério de inclusão na rotina das visitas, visto
que cada setor conhece sua demanda que, muitas
vezes, não diz respeito somente ao cliente, mas à
própria equipe.
Constatamos também a necessidade de que
fossem realizadas por mais de um integrante da
equipe, para facilitar o transporte e manejo dos
instrumentos e pastas criadas como arquivos para
oferecer a possibilidade de escolha de diferentes
estilos musicais: música popular brasileira, samba,
sertanejo, rock, seresta, música gospel e outros.
Um procedimento importante é o cuidado
que a equipe tem para evitar propagar infecção
hospitalar, havendo encontros para reciclar as
informações fornecidas pela Comissão de Infecção Hospitalar. Todo o material necessário é
transportado em um carrinho adaptado para esse
fim, evitando-se assim utilizar qualquer parte da
enfermaria para apoiar pastas ou instrumentos.
Há recomendações constantes para a higienização
das mãos e materiais.
Quanto à escolha dos participantes, todos
os clientes dos setores agendados são visitados,
à exceção de quando há um número elevado de
clientes hospitalizados. Neste caso, é solicitada à
equipe de enfermagem que proceda a indicação
destes, considerando como critérios a longa permanência, o isolamento da família e a alteração
do humor.
No contexto dessas visitas, empregamos o
termo música terapêutica para designar a utilização da música por outros profissionais com uma
intenção voltada para relaxar, reduzir o estresse
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ou manejar a dor, diferenciando do termo musicoterapia que designa uma atividade profissional,
desenvolvida por um musicoterapeuta que maneja
técnicas terapêuticas específicas.14
Quanto aos princípios que norteiam a visita
musical, um dos mais importantes é a postura ética
que guia o profissional de enfermagem quanto ao
respeito à autonomia do cliente no sentido de escolher e participar ativamente de seu cuidado. Um
dos pressupostos básicos para a ciência do cuidar
em enfermagem, aponta para o ambiente de cuidado como sendo aquele que oferece o desenvolvimento do potencial e permite que a pessoa escolha
a melhor ação para si mesma em um determinado
momento.15 Isso evidencia que a possibilidade
de escolha no momento da visita musical faz do
cliente co-partícipe do cuidado, o que o auxilia no
desenvolvimento do seu potencial.
Outro princípio das visitas musicais se baseia
em um dos fundamentos da musicoterapia, qual
seja, o de que através da escolha musical, o cliente
tem a possibilidade de expressar sua subjetividade, embora essa opção não esteja relacionada somente ao valor estético, e sim às suas preferências
influenciadas pela cultura na qual está imerso.16
A escolha musical de uma pessoa reflete a
sua própria identidade, ou seja, é uma maneira de
representar o sentido de si mesma, de sua singularidade, e está relacionada ao fato de a música,
estando presente no cotidiano, criar memória
de sentimentos ligados aos eventos importantes
da vida, dando origem a uma biografia musical
vinculada à biografia de cada pessoa. Assim,
em qualquer atividade terapêutica que envolva
manifestações musicais, é importante respeitar
as singulares representações da música e não
impor uma nova linguagem ou modelo para o
cliente reescrever suas experiências. Agir a partir
do repertório musical do cliente é um princípio
importante da visita musical, pois está de acordo
com o respeito básico à sua identidade musical, à
sua dignidade e aos direitos humanos.17
Com essa visão, as visitas musicais foram
desenvolvidas para reduzir os efeitos negativos da
hospitalização, pois o cliente é submetido a regras,
normas e rotinas do hospital, o que transforma a
sua condição de doente em paciente. Nesse momento, muitas vezes, ele perde a autonomia sobre
o seu corpo, passando de sujeito a objeto dos cuidados, situação que pode promover um processo
de despersonalização.18 Dessa forma, essas visitas
promovem a humanização do ambiente hospitalar
trazendo ao cliente internado um sentimento de
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familiaridade através das músicas escolhidas por
ele, e que fazem parte do seu cotidiano.2
Observou-se também, que as visitas musicais
promovem um verdadeiro encontro entre clientes,
familiares, membros da equipe de enfermagem ou
multidisciplinar e os integrantes da equipe musical, pois a música estimula a participação de todos.
Enquanto estratégia terapêutica junto ao cliente
hospitalizado, as visitas musicais se aproximam
do que Watson considera o momento de cuidado,
ponto focal no espaço e no tempo que envolve ação
e escolha entre os sujeitos do cuidado, criando
uma conexão entre ambos.19 Este é outro princípio
da visita musical, fundamentado na importância
da presença e atitude da enfermeira para que se
desenvolva esse momento de cuidado.
A arte de cuidar é compartilhada e gera condições de identidade e de parentesco relacional. Ao
mesmo tempo, pode produzir rupturas com o rigor
e a rigidez da disciplina e lançar clientes e enfermeiros na vivência prazerosa das relações humanas. A
arte da enfermagem pode adquirir variedade, som
e movimento transformando o sofrimento em riso,
graça e leveza, tornando o trabalho mais interessante e prazeroso,20 sendo este considerado também
mais um princípio que fundamenta a tecnologia
visita musical, tendo em conta que a equipe deve
tentar criar um ambiente lúdico, leve e prazeroso
que facilite a comunicação e interação entre os
participantes. Nesse contexto, a visita musical pode
ser considerada uma tecnologia leve baseada em
procedimentos e princípios voltados para o bem
estar e a interação de seus participantes.
METODOLOGIA
Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de
Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem Anna
Nery/Hospital Escola São Francisco de Assis, sob
o Protocolo Nº 006/05, tendo sido respeitados os
princípios éticos previstos na Resolução Nº 196/96,
do Conselho Nacional de Saúde.
A necessidade de aprofundar aspectos relacionados à subjetividade dos sujeitos da pesquisa
direcionou a escolha metodológica para um estudo
do tipo qualitativo e pela utilização do Método
Criativo e Sensível (MCS), que valoriza a criatividade e a sensibilidade na produção dos dados
evitando a dicotomia entre razão e emoção.21
O MCS valoriza a dimensão social e coletiva do conhecimento assim como a linguagem
artística e a sensibilidade, aspectos constitutivos
das Dinâmicas de Criatividade e Sensibilidade
Bergold LB, Alvim NAT
(DCS) que são a base desse método. Nessas dinâmicas foram empregados materiais e atividades
que estimularam a criatividade dos participantes
através da arte, levando-os, pela discussão grupal, à reflexão crítica de sua realidade. A DCS Corpo-Musical utilizada nessa pesquisa focalizou
a influência da música no corpo para auxiliar a
expressão da subjetividade dos participantes das
visitas musicais. Tendo-se a perspectiva de que
existência e corpo formam uma só realidade, o
objetivo principal dessa dinâmica foi resgatar as
experiências vivenciadas pelos participantes no
ambiente hospitalar, relacionadas à lembrança de
seu contexto histórico, cultural e social estimulada
pelas visitas musicais.
A pesquisa teve como cenário o local onde
se desenvolvem as visitas musicais, o HCE. A
unidade de internação escolhida para a pesquisa
foi a Clínica Ortopédica, por manter períodos mais
longos de internação, em torno de um a seis meses,
pela característica do próprio tratamento.
Para a produção dos dados, foram desenvolvidas três dinâmicas iguais, denominadas
Corpo-Musical, no período de março a maio de
2005. Cada dinâmica contou com a participação
de quatro a cinco clientes, totalizando 14 sujeitos
com idades entre 19 a 45 anos, dos 50 clientes
internados à época na Clínica Ortopédica. Houve participação de apenas uma mulher entre os
sujeitos, pois a maioria dos clientes nesta clínica
eram homens que sofreram acidentes relacionados
ao trabalho ou ao lazer. Foram identificados com
cognomes próprios, escolhidos por cada um deles.
Os critérios de inclusão foram: participação em ao
menos uma visita musical não havendo limite de
participações, aquiescência em colaborar com a
pesquisa, além de apresentarem condições mentais
e físicas adequadas para poderem se expressar com
clareza e se deslocarem até o local da pesquisa. O
intervalo entre as participações dos sujeitos nas
visitas musicais e a produção dos dados para a
pesquisa, através do desenvolvimento da dinâmica Corpo-Musical foi de no mínimo um dia e
no máximo 10 dias.
As três dinâmicas realizadas seguiram cinco
etapas, iniciando com a apresentação dos clientes
participantes e da equipe de pesquisa, composta
pelo coordenador, observador e apoiador logístico.
Nessa etapa foram também explicados coletivamente os objetivos da pesquisa e os procedimentos
que seriam realizados no decorrer da dinâmica,
sendo em seguida apresentado e assinado o Termo
de Consentimento Livre e Esclarecido. Na segunTexto Contexto Enferm, Florianópolis, 2009 Jul-Set; 18(3): 532-41.
Visita musical como uma tecnologia leve de cuidado
da etapa, houve o enunciado da temática a visita
musical sendo solicitado aos participantes que se
concentrassem nela, e, em seguida, o relaxamento
induzido por uma música clássica denominada
Cânon de Pachelbel, de andamento lento e com
duração de três minutos, adequada ao objetivo de
focalizar a atenção no tema proposto.13 Na terceira
etapa foram enunciadas as questões geradoras de
debate − Que efeitos a visita musical causou no
seu corpo? Como vocês se sentiram? Em seguida,
foi solicitado que os participantes escrevessem em
papéis adesivos o que haviam sentido durante as
visitas musicais. Estes deveriam ser colados pelos
sujeitos em alguma parte da silhueta de um corpo
desenhada em cartolina e que havia sido colocada
sobre uma mesa no meio de um círculo no qual
eles estavam sentados. Na quarta etapa cada participante produziu somente um papel adesivo no
qual codificou a sua percepção da visita musical
e escolheu um local no corpo para colá-lo, apesar
do esclarecimento de que poderiam utilizar mais
de um papel e colar em outras partes da silhueta
desenhada. Logo a seguir, na última etapa, os
sujeitos apresentaram sua produção individual,
no processo de descodificação que promoveu a
discussão crítica-reflexiva que veio a seguir, muito
intensa devido ao envolvimento emocional dos
participantes. Ao final da discussão foi realizada a
recodificação, quando os sujeitos refletiram sobre
as questões surgidas na dinâmica, validando os
temas desenvolvidos pelos participantes.21
A produção dos dados foi gravada em fita
magnética e transcrita em seguida. Para análise
dos dados foram utilizadas algumas ferramentas da análise de discurso: o dito e o não dito;
o interdiscurso; os processos parafrásticos e as
metáforas.22
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Influências das visitas musicais sobre o cliente hospitalizado
Os sujeitos da pesquisa durante a dinâmica
Corpo-Musical apontaram as diferentes influências
da visita musical sobre os seus corpos, escrevendoas nos papéis colados na silhueta desenhada
previamente. Apontaram predominantemente as
regiões da cabeça e do peito, e um participante
apontou a região do umbigo, explicando em seguida, que havia situado o centro do corpo para
destacar a influência sobre todo o corpo.
A cabeça foi apontada como a região do corpo que mais sofreu influência das visitas musicais,
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o que está em consonância com outra pesquisa que
utilizou a dinâmica Corpo-Musical na produção
de dados. Nela, os sujeitos também apontaram
uma influência maior na cabeça por ser a parte
do corpo que capta e percebe primeiro a música.
As diferentes percepções da música podem ser
relacionadas ao fato de que esta influencia cada
pessoa de forma singular devido às suas implicações individuais, havendo diferenças na percepção
e sentimentos de cada um.13
Um dos participantes se referiu à propriedade da música em despertar lembranças relacionadas a vivências pessoais, que fazem parte da
biografia musical de cada um.17 A música, ela efetua
a cabeça, porque nela faz lembrar dos nossos passados em
matéria de amor antigo, que você já passou (Renato).
Para outro, ela desloca o foco da atenção dos
problemas relacionados à internação ou à própria
doença, inserindo os sujeitos em uma perspectiva
de saúde: senti um grande alívio, como se todos os meus
problemas tivessem acabado. Como se tudo estivesse
ótimo; como se existisse só eu no local (Leandro).
O música promove relaxamento, o que foi
constatado no âmbito das visitas por um dos
sujeitos, ratificando o resultado de outras pesquisas.8,11,13 Foi uma forma relaxante, em que a mente esvazia todas as tensões exercidas sobre ela, em que o corpo
se moderniza em pensamentos melhores (Ricardo).
A relação feita por este sujeito entre o relaxamento e os pensamentos melhores aponta uma
outra influência da visita musical, o estímulo à reflexão, o que foi corroborado por outro participante: boa prá cabeça, prá parar e pensar mais (Jader).
Nas discussões grupais, os participantes
apontaram que a alteração do foco perceptual
no âmbito das visitas musicais não era somente
um mecanismo de esquecimento ou fuga, mas
um momento de contato do cliente com sua subjetividade e/ou um momento de reflexão sobre
os acontecimentos que influenciavam sua vida
naquele momento. As canções que sublinham e
destacam as vivências estão carregadas de características subjetivas, ou seja, de seus sentidos. Assim,
a própria canção permite compreender as emoções
provenientes das vivências, sendo possível por
meio delas experimentar informações acerca da
realidade vivida.2
Outro participante apontou um aspecto
importante relacionado às visitas musicais: o
aumento da auto-estima. A atenção dispensada
aos clientes internados durante a visita aumenta
a auto-estima que fica abalada quando ocorre um
período longo de internação em que as visitas dos
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amigos ou familiares começam a escassear, como
ocorreu com o sujeito que escreveu: me senti lembrado, ou seja, uma pessoa muito importante; melhorou
bastante a minha cabeça (Joaquim).
Outro participante apontou o prazer que
obteve ao participar das visitas musicais: alegria.
Felicidade (Vilmar).
Essa constatação também foi feita por outro
sujeito que, além disso, apontou outros sentimentos que se modificavam na presença da visita,
conforme explicou no momento da discussão grupal: alegria. O tempo passava mais rápido. Saudades.
Solidão (Charles).
O prazer proporcionado pela música exige
que o ouvinte participe, gerando um fluxo de
antecipações musicais, ou seja, exige uma participação ativa, e não passiva da audição musical.
Mas a emoção positiva só surge se a música ouvida
corresponder ao universo sonoro e/ou aos padrões
estéticos do ouvinte, porque apenas desse modo
é possível fazer a antecipação do movimento
musical esperado, obtendo-se assim prazer com
a expectativa confirmada.16
Os participantes que indicaram a região
do peito no momento da produção artística, expressaram o senso comum de que esta é a parte
relacionada ao coração ligado simbolicamente
às emoções. Os sujeitos também se referiram ao
alívio da tensão, agonia e tristeza, ressaltando
que estas se transformaram também em alegria.
Contudo, ao se expressarem através da escrita,
o fizeram de uma forma muito mais intensa do
que os participantes que apontaram a região da
cabeça, expressando toda a mobilização emocional
promovida pelas visitas musicais.
Pelo motivo de estar internado, a música alivia
um pouco a tensão e agonia de estar apenas deitado. A
saudade dos meus filhos, e resumindo, a dor no peito de
estar enfermo. Te traz mais alegria quando há música
na enfermaria (Fernando).
Estava horrível, triste, chorei. Depois da música,
senti uma felicidade e melhorei (Elisa).
Uma grande emoção e alegria. Muito gratificante
(Geraldo).
A expressão de sentimentos, positivos ou
negativos, é considerada como um fator de cuidado, pois melhora o nível pessoal de percepção
além de facilitar a compreensão do comportamento que é gerado a partir desses sentimentos.
A expressão destes e a consequente compreensão
podem facilitar a comunicação e interação entre
o cliente e a enfermagem.19
Bergold LB, Alvim NAT
A intensidade com que expressaram seus
sentimentos estava também relacionada à lembrança de pessoas muito próximas afetivamente
dos sujeitos.
Emoção; lembrança da mãe; vontade de ficar
curado do braço (Paulo).
Esta música me fez lembrar da minha avó,
que faleceu no ano passado. Minha avó não gostava
de nenhum estilo de música, ela só gostava do estilo
clássico. Me fez lembrar de tudo o que ela fez por mim
(Denis).
Outra questão importante se refere à possibilidade da música de produzir uma sensação de
transcendência e de conexão com uma instância
superior, ligada ou não a aspectos religiosos.17
Algo que nos faz esquecer de tudo. Como fosse lá
do fundo da alma (Zito).
Durante as visitas musicais, alguns participantes solicitaram músicas religiosas, e relataram no
momento da discussão grupal que estas lhes trouxeram alívio, força e esperança. Outra pesquisa sobre
os efeitos da música no processo de humanização
em um CTI constatou que a música pode trazer relaxamento e conforto espiritual, sendo um importante
subsídio na busca de alternativas que contemplem
a pessoa na sua integridade.11 A dimensão religiosa
inclui experiências em que a vida pode ser percebida
como parte de alguma ordem maior, como se o corpo e a mente estivessem cheios de energia e poder,
podendo ter um efeito terapêutico em situações em
que a pessoa se sente fragilizada.17
O sujeito que colou seu adesivo no centro
do corpo quis demonstrar que todo o corpo havia sido influenciado pela música, ratificando os
resultados de outra pesquisa.13 A música em si, ela
traz um conforto,alegria, harmonia. Enfim, a mim ela
traz tranqüilidade para o corpo todo (Marcos).
Relacionamos também as visitas musicais
aos elementos promotores de conforto encontradas nos discursos dos sujeitos e apontada por
este participante: liberdade, integração, melhora,
segurança, cuidado e comodidade.23
É importante destacar que a escolha da música pelo cliente nas visitas musicais estimulou a
expressão da sua subjetividade, garantindo sua
autonomia e sua participação ativa nessa estratégia de cuidado. Para alguns participantes, estimulou ainda a criação de recursos próprios com
a finalidade de alterar a sua realidade através da
gravação da música tocada na visita e reproduzida posteriormente com o objetivo de diminuir o
medo do cliente; da execução nas enfermarias de
Texto Contexto Enferm, Florianópolis, 2009 Jul-Set; 18(3): 532-41.
Visita musical como uma tecnologia leve de cuidado
seus próprios instrumentos musicais trazidos de
casa, diminuindo a ociosidade; da descoberta do
prazer de partilhar o canto ou iniciar/reiniciar o
estudo de música com o auxílio dos integrantes
da equipe de música.
Dessa forma, a visita musical ampliou o
auto-conhecimento, fazendo-os descobrir ou
redescobrir o seu próprio potencial. Esses recursos desenvolvidos pelos participantes vêm ao
encontro de outro pressuposto básico, que afirma
que o cuidado efetivo promove a saúde e o crescimento individual e familiar, demonstrado pela
busca de alternativas saudáveis de convivência
no ambiente hospitalar.15
Influência da visita musical sobre o ambiente
do cuidado
Durante a discussão crítico-reflexiva, no
momento da decodificação da produção artística,
a maioria dos participantes apontou sofrimentos
causados pela hospitalização: solidão, afastamento
familiar e suspensão de suas funções sociais. O
hospital é um ambiente promotor de ansiedade
pela ruptura do cotidiano do cliente e pela imposição de rotinas estranhas a ele.
Contudo, se por um lado fazemos parte
dessa rotina, também podemos desenvolver intervenções terapêuticas no sentido de minimizar
esses efeitos negativos da hospitalização. No nascimento da enfermagem moderna, Nightingale
defendia a idéia de que o ambiente ideal seria
aquele capaz de manter o organismo em condições
para não adoecer ou para se recuperar de doenças,
destacando também o lado humano da assistência de enfermagem.4 Nesse contexto, se a música
tocada durante as visitas musicais fizer parte do
cotidiano e da biografia musical do cliente, ele
pode reconhecer-se nela e estender esse reconhecimento ao ambiente da internação, que poderá
assim tornar-se menos ameaçador, promovendo
o acolhimento nesse ambiente.
Os participantes também discutiram que as
visitas musicais vão além da influência sobre seus
corpos. Elas potencializam seus efeitos e ampliam
seus objetivos, na medida em que promovem a participação de seus integrantes clientes, familiares, equipe de música e de enfermagem. O espaço das visitas
é, portanto, relacional e integrador promovendo
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mudanças no ambiente hospitalar, tornando-o mais
favorável à recuperação do cliente internado.
É importante destacar que a enfermagem
não faz apenas parte do ambiente hospitalar.
Ela pode ser considerada o próprio ambiente,
já que é responsável por grande parte de sua
organização. Assim, se a enfermagem é parte
do ambiente é necessário que se focalize nele,
assumindo que sua atitude pode fazer diferença
e buscando alternativas para construir um ambiente mais saudável, promovendo dessa forma
a recuperação do cliente.*
Entre as modificações ocorridas no ambiente, os sujeitos apontaram que as visitas musicais
favorecem a ludicidade, contribuindo para diminuir a inatividade. A inatividade aliada à rotina
hospitalar cria uma sensação de monotonia que
agrava a angústia do cliente hospitalizado. Nesse
sentido, as próprias atividades concebidas para o
lazer, como escutar rádio ou ver televisão, foram
consideradas monótonas por alguns participantes
por não terem variedade.
É importante proporcionar variedade no
ambiente hospitalar, pois a ansiedade é intensificada nas pessoas que não podem variar de
atividades. Nightingale apontava a importância
da variedade para a mudança do foco do pensamento do cliente, para diminuir seu sofrimento.4
Dessa forma, as visitas musicais facilitaram o
rompimento da rotina e foram apontadas pelos
sujeitos como um momento lúdico que distrai
e conduz à sensação de bem-estar, conforto, alívio, alegria e relaxamento. O lúdico no cuidado
configura-se como possibilidade restauradora
da saúde do cliente, na medida em que facilita a
interação, promovendo o processo de socialização
e comunicação no ambiente hospitalar.24
Outro problema apontado pelos participantes relaciona-se aos conflitos que ocorrem
derivados da convivência forçada entre pessoas
que não têm nenhum vínculo entre si, necessitando partilhar o ambiente com outros clientes e
também com seus acompanhantes. A internação
prolongada tende a desenvolver um processo
de estresse que acaba afetando a todos, clientes,
familiares ou acompanhantes e a equipe de enfermagem. Contudo, os sujeitos também apontaram
que as visitas musicais reduziram esse estresse,
contagiando o ambiente da enfermaria.
* Trecho extraído de anotações da conferência “Cuidar em enfermagem além da pós-modernidade” proferida por Jean Watson no Intercâmbio Internacional: Bases Teórico-Filosóficas da Prática do Cuidar em
Enfermagem em novembro de 2003 na cidade do Rio de Janeiro.
Texto Contexto Enferm, Florianópolis, 2009 Jul-Set; 18(3): 532-41.
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As visitas musicais resultaram em uma integração entre os clientes e destes com os profissionais de saúde, pois ao promoverem o momento
lúdico de encontro minimizaram conseqüentemente os conflitos. Os participantes destacaram
também essas visitas como uma estratégia para
reduzir o estresse da equipe de saúde, o que aponta
a importância de refletir sobre as diferentes maneiras de as enfermeiras cuidarem de si seja com
estratégias musicais ou com outras atividades
expressivas que promovam relaxamento e maior
percepção de si mesmo e do outro. A dimensão
humana do cuidado requer que este também seja
voltado para os profissionais como pré-condição
para se desenvolver uma atitude de compromisso
e cuidado para com os clientes.25
Outro fator que ampliava a angústia dos
sujeitos da pesquisa relacionava-se à solidão e
ao afastamento do convívio familiar, que gerava
saudade e preocupação com o bem-estar dos
familiares. Contudo, durante a discussão grupal,
os participantes falaram que as visitas musicais
resultaram em diminuição da solidão ao promoveram a integração no ambiente de internação. É
importante destacar que a necessidade de integração foi um tema amplamente discutido, devendo
ser considerado na construção de um ambiente
de cuidado, pois os sujeitos reivindicaram mais
atividades musicais coletivas para minimizar o
impacto negativo da internação hospitalar.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esse estudo apontou, a partir da ótica de
clientes internados, que no contexto hospitalar as
visitas musicais se constituíram como uma tecnologia leve, pois promoveram acolhimento e auxiliaram a reduzir a sensação de despersonalização
aumentando a auto-estima dos participantes. Ao
mesmo tempo, proporcionaram conforto e bemestar e promoveram a produção de relações e vínculos dos clientes entre si e com a equipe de saúde,
especialmente, de enfermagem. É importante
destacar também a relação entre essas visitas e a
autonomização do cliente hospitalizado, estimulada a partir da sua escolha musical no momento
das visitas e ampliada pelo desenvolvimento de
recursos próprios incentivados pelos vínculos
criados a partir das mesmas.
A música promove diversas reações e os seus
efeitos não podem ser separados, e sim, vistos de
forma global e complexa. Nesse sentido, as visitas
musicais produziram relaxamento físico e mental,
pois reduziram o stress, a tensão e a ansiedade.
Bergold LB, Alvim NAT
Produziram também efeito estimulante ao promoverem contato com o ambiente, aumentando
o nível de energia, estimulando atividade motora
e elevando o humor. Assim, as visitas musicais
constituíram-se como tecnologia de cuidado, pois
promoveram a sensação de integralidade devido
a sua natureza holística, através da qual se pode
promover a melhora na condição de saúde do
cliente internado.
A ruptura com a rotina e a rigidez do ambiente hospitalar aponta essas visitas como um
recurso tecnológico que expressa a arte de enfermagem ao unir clientes e equipe de enfermagem
na vivência prazerosa das relações humanas,
transformando o sofrimento em graça, leveza e
prazer. Considera-se assim que as visitas musicais, como uma tecnologia leve, têm interfaces
com os cuidados fundamentais de enfermagem
ao promoverem conforto e bem-estar aos clientes
internados e alterarem positivamente o ambiente
hospitalar através do estabelecimento de relações e
vínculos voltado para uma concepção humanizada
do cuidado de enfermagem.
Destaca-se, entretanto, que os efeitos benéficos das visitas não estão ligados restrita ou propriamente à música em si, mas à possibilidade de
encontro que estas proporcionam. Nesse enfoque,
ao se planejar a utilização da música como um
recurso para humanizar o ambiente hospitalar,
mesmo que essa não seja executada ao vivo, mas
veiculada através de equipamento de som, devese levar em conta a presença e a participação da
equipe de enfermagem, em uma genuína atitude
de atenção e cuidado.
É importante discutir que nem todos os
profissionais de enfermagem possuem habilidades musicais, e que essa habilidade não faz parte
da formação profissional. Contudo, mesmo sem
tocar um instrumento musical, é possível cantar
ou mesmo utilizar equipamento de som para promover alterações positivas no ambiente hospitalar.
No entanto, ao considerar que a música oferece
múltiplas possibilidades terapêuticas, deve-se
pensar também que sua utilização requer novas
pesquisas voltadas para o desenvolvimento de
tecnologias que possam ampliar a humanização
da assistência em saúde.
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Correspondência: Leila Brito Bergold
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Recebido em: 15 de dezembro de 2008
Aprovação final: 10 de agosto de 2009
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