UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES INSTITUTO SUPERIOR DE EDUCAÇÃO PROJETO A VEZ DO MESTRE A EDUCAÇÃO PSICOMOTORA ATRAVÉS DA DANÇA Hebe Rachel de Oliveira Otto Orientadora: Professora Fabiane Muniz Rio Janeiro/2005 Hebe Rachel de Oliveira Otto A EDUCAÇÃO PSICOMOTORA ATRAVÉS DA DANÇA Monografia apresentada como exigência parcial à conclusão do Curso de Pós-Graduação em Psicomotricidade da Universidade Candido Mendes.Orientadora: Professora Fabiane Muniz. Rio Janeiro/2005 AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus por poder compartilhar do dom a mim dado por Ele. DEDICATÓRIA Dedico este trabalho com muito amor a meus pais, Cecy e Otto. A meus alunos que me fizeram crescer e aos meus amigos que me acompanharam nesta jornada. SUMÁRIO RESUMO................................................................................................................... 5 INTRODUÇÃO.......................................................................................................... 6 I- DANÇA:BREVE HISTÓRICO..................................................................................7 II-O MOVIMENTO DO CORPO ATRAVÉS DA DANÇA/EDUCAÇÃO.......................12 III-A DANÇA/EDUCAÇÃO E OS PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS ....29 CONCLUSÃO...............................................................................................................38 BIBLIOGRAFIA..............................................................................................................40 ATIVIDADES CULTURAIS ...........................................................................................42 FOLHA DE AVALIAÇÃO...............................................................................................44 RESUMO Na Educação Infantil, temos todo um processo dinâmico que se propõe a trabalhar entre outros fatores, a psicomotricidade; desenvolvendo assim a criança em suas potencialidades, através de atividades pedagógicas que devem garantir aprendizagens relacionadas com a linguagem. É importante que todo comportamento dentro da sala de aula, seja observado com bastante cuidado, para que se possa perceber as mudanças de atitudes, estando alerta para sinais que demonstrem que há algum problema e devem receber a atenção especial do educador. Pois quanto mais cedo a dificuldade em alguma das áreas do desenvolvimento for diagnosticada mais eficaz será seu tratamento. Através dos movimentos proporcionados pela dança, desenvolve-se a consciência corporal e todos os aspectos psicomotores podem ser amadurecidos e trabalhados de acordo com a necessidade de cada um, pois a dança promove o diálogo corporal levando a uma projeção de si e do outro em relação ao espaço, tempo (ritmo) aos movimentos e isso traduz-se em psicomotricidade. INTRODUÇÃO Dançar é definido como uma manifestação instintiva do ser humano. Antes de polir a pedra e construir abrigos, os homens já se movimentavam ritmicamente para se aquecer e comunicar. Considerando a mais antiga das artes, a dança é também a única que dispensa materiais e ferramentas. Ela só depende do corpo e da vitalidade humana para cumprir sua função enquanto instrumento de afirmação dos sentimentos e experiências subjetivas do homem. Segundo certas correntes da antropologia, as primeiras danças humanas eram individuais e se relacionavam à conquista amorosa. As danças coletivas também aparecem na origem da civilização e sua função associava-se à adoração das forças superiores ou dos espíritos para obter êxito em expedições guerreiras ou de caça ou ainda para solicitar bom tempo e chuva. O trabalho monográfico irá relatar brevemente a história da dança, e o movimento do corpo através da Dança/Educação, envolvendo a psicomotricidade em todos os seus aspectos. Por fim falaremos da dança à luz dos Parâmetros Curriculares Nacionais. I – DANÇA: BREVE HISTÓRICO O desenvolvimento da sensibilidade artística determinou a configuração da dança como manifestação estética. No antigo Egito, 20 séculos antes da era cristã, já se realizavam as chamadas danças astroteológicas em homenagem ao deus Osíris. O caráter religioso foi comum às danças clássicas dos povos asiáticos. Na Grécia clássica, a dança era freqüentemente vinculada aos jogos, em especial aos olímpicos. Com o Renascimento, a dança teatral, virtualmente extinta em séculos anteriores, reapareceu com força nos cenários cortesãos e palacianos. Uma das danças cortesãs de execução mais complexa foi o minueto, depois foi a valsa, considerada dança cortesã por excelência, e com ela se iniciou a passagem da dança em grupo ao baile de pares. A configuração de um gênero de dança circunscrito ao âmbito teatral determinou o estabelecimento de uma disciplina artística que, em primeira instância, ocasionou o desenvolvimento do ballét e, mais tarde, criou um universo dentro do qual se deu desenvolveram gêneros como os executados no music-hall, como o sapateado e o swing. A divulgação da dança se deu também fora do mundo do espetáculo, principalmente nas tradições populares. Dança, em sentido geral, é a arte de mover o corpo segundo uma certa relação entre tempo e espaço, estabelecida graças a um ritmo e a uma composição coreográfica. Pela primeira vez na história do Brasil a dança faz parte dos parâmetros nacionais da educação. Em nossos dias cada vez mais torna-se consciência da importância da dança como forma de expressão do ser humano. A dança hoje é percebida por seu valor em si, muito mais do que um passatempo, um divertimento ou um ornamento. Na educação, ela deve estar voltada para o desenvolvimento global da criança e do adolescente e vai favorecer todo tipo de aprendizado que eles necessitam. Uma criança que na pré-escola teve a oportunidade de participar de aulas de dança, certamente, terá mais facilidade para ser alfabetizada, por exemplo. A dança educativa revela a alegria de se descobrir através da exploração do próprio corpo e das qualidades de movimento. Este trabalho é dirigido para crianças a partir de três anos de idade e tem como ponto de partida a movimentação natural delas. Uma vez entendido a riqueza das possibilidades de movimento de uma pessoa, ficou impossível reduzir o ensino da dança para a repetição de alguns passos e gestos. Foi preciso um novo enfoque para dar conta das variações quase infinitas deles. Em vez de estudar cada movimento particular, o aluno compreende e pratica seus princípios. Tradicionalmente, a dança é algo para ser “apresentado e visto”. No mundo contemporâneo, entretanto, esta barreira entre o artista e o público está sendo quebrada. O desafio agora é estabelecer um diálogo mais próximo também entre a arte e a educação em uma atividade, isto visa proporcionar vivências de dança que articulem a criação pessoal e coletiva de movimentos, a apreciação e o conhecimento de dança de modo a integrar a razão e o sensível, o individual e o coletivo, a arte e a educação. Através da utilização de uma metodologia específica, busca-se o alcance de qualidades físicas e psíquicas próprias da infância e da adolescência. A dança na vida das crianças é fundamental, tanto para sua formação artística quanto para sua integração social. Tudo porque a dança desenvolve os estímulos; • Tátil – sentir os movimentos e seus benefícios para seu corpo. • Visual – ver os movimentos e transformá-los em atos. • Auditivo – ouvir a música e dominar o seu ritmo. • Afetivo – emoções e sentimentos transpostos na coreografia. • Cognitivo – raciocínio, ritmo, coordenação. • Motor – esquema corporal. As atividades propostas visam o desenvolvimento da coordenação motora, equilíbrio e flexibilidade. São também trabalhados aspectos tais como: criatividade, musicalidade, socialização e conhecimento da dança em si. Na fase da pré-escola, as aulas possuem um caráter lúdico e dinâmico, quando a criança tem oportunidade de trabalhar o conhecimento do corpo, noções de espaço e lateralidade, utilizando-se de seus movimentos naturais. Gradativamente as exigências técnicas vão aumentando, mas respeitando sempre as condições físicas e psíquicas de cada idade, necessidades globais e aspirações dos estudantes. A dança proporciona, na Educação, elementos significativos que favorecem o desenvolvimento do Ser Humano. Existe o enfoque da formação do bailarino profissional e, também, o de formação e valorização humana do aluno que escolhe o aprendizado da dança como uma complementação de sua formação pessoal. Valoriza-se o aprendizado da dança, o dançar como experiência de vida e própria vivência da dança na relação da criança e adolescente, consigo mesmo, com o outro e com seu meio. A importância de permanentemente refazer o caminho da arte reside no fato que nas últimas décadas – e cada vez com mais força – o mundo exterior nos alveja com um bombardeio de imagens que nos impactam através do cinema, da TV, do rádio e da imprensa... essa avalanche de imagens proveniente do mundo exterior bloqueia, desloca, substitui nossas próprias imagens internas, nossos próprios e peculiares conteúdos. Assim a imagem interior não encontra lugar, não emerge, não é estimulada. Desse modo, nesta época tecnificada e massificada, a imaginação se limita e se torna apenas reprodutora. Como poderão as crianças de hoje criar suas próprias imagens? Imagens inclusive da realidade presente? Como imaginam o futuro? Qual futuro imaginam? É justamente aí, que nós educadores atuamos, na educação através da arte e em particular, da dança, integrando alunos, familiares e equipe de forma que todos aprendam, reaprendam e utilizem sua capacidade de expressar – verbalizar ou atuar – conteúdos que afloram da sensibilidade, da percepção do mundo. Daí a razão pela qual adota como ponto central em seu trabalho o estímulo à criatividade, da mais simples à mais complexa, desenvolvendo hábitos saudáveis, atitudes e habilidades. Nosso principal objetivo é difundir o universo da arte sem limites, para que a cultura e o entretenimento façam, cada vez mais, parte da vida de crianças, jovens e adultos, estabelecendo o diálogo entre a dança e a educação formal de modo a subsidiar na teoria e na prática e ensino da dança. Além disso, o professor deve buscar desenvolver no aluno a consciência do corpo e aprimorá-lo enquanto instrumento de expressão; a percepção lúdica bem como a sua capacidade de comunicação e criatividade e cuida, finalmente, de lapidar o dançarino, capacitando-o a se expressar através das diferentes linguagens da dança. II - O MOVIMENTO DO CORPO ATRAVÉS DA DANÇA /EDUCAÇÃO Corpo e movimento são indiscutivelmente inseparáveis. A dança na educação usando como estratégia a inter - disciplinariedade, poderá viabilizar, no processo educacional, condições de facultar às crianças descobertas de suas possibilidades de movimentos com uma necessidade básica e essencial para observação, compreensão e apreensão do mundo. Compreendendo melhor o mundo, a criança se relacionará melhor consigo, com os outros e com o ambiente. As propostas e estratégias da dança na educação longe estão, portanto, das perspectivas da escola tradicional, com movimentos disciplinados, corpos passivos, encolhidos pelo meio. Sua dinâmica se volta para a qualidade e variedade dos elementos corporais como estratégias para a libertação dos desejos, das dificuldades de sair do seu contexto para outro maior ou abrangente, de vencer as barreiras e dificuldades da apreensão dos conhecimentos. É o corpo que sente, percebe, age; por que não ter então seu significado na educação?!... Os movimentos da dança se constituem das características reais e integrais do corpo ou partes do mesmo numa ação espontânea e de concentração a partir de consciência corporal. A consciência corporal básica, da dança na educação, permitiria ao aluno perceber o corpo em sua unidade e as partes em sua diversidade em seus segmentos e partes de segmentos demonstrando que as possibilidades de combinações, seqüências e progressões ao dançar são ilimitadas. Ao perceber estas possibilidades, o educando relacionará tais possibilidades com o outro e também ao grupo, registrando uma exploração de possibilidades e experiências quantitativas e abrangentes do enfoque – movimento e diversidade das formas. No movimento em potencial o campo de força se manifesta fisicamente através da emoção emanada pela energia advinda desta sem causar deslocamento do corpo ou partes deste. É esta energia que confere ao movimento neste estado a sua dinâmica podendo ocorrer com o corpo na unidade ou diversidade da forma. O movimento liberado tem como característica a modificação de formas pelos contornos corporais a partir da unidade do todo para a diversidade das partes ou segmentos das partes. Segundo Sá Earp 1985, dois movimentos modificam a forma: • A “rotação” é o movimento das partes de um corpo em torno do eixo que passa pelo centro da massa deste corpo; • A “translação” é o movimento do centro da massa do corpo em relação a um referencial qualquer. A rotação e translação podem ser executadas separadamente, ou simultaneamente conforme as variedades e combinações de movimentos que podem se processar sucessivamente uma após outra simultaneamente acontecer ao mesmo tempo. Sob o aspecto biomecânico, a percepção dos espaços interiores se estabelecem pela percepção de: • Corpo como um todo; • Partes do corpo; esquema do corpo; • Articulações e ligamentos; • Fluxos energéticos; • Grupos neuro-musculares; • Imagem do corpo. Segundo Viana devemos aguçar a percepção destes espaços e caminhar no processo do auto-conhecimento. “O homem se insere no universo e atua como síntese deste. Ao desvendar meu próprio universo estarei conhecendo a humanidade e sob uma dimensão maior o próprio universo. Quanto mais me perceber, quanto mais estiver presente em mim mais estarei consciente do mundo”. (VIANA, 1990). A Dança/Educação, ao proporcionar às pessoas uma consciência corporal a partir dos espaços internos do próprio corpo (emocional, mental, psicológico), preserva e garante uma boa relação de equilíbrio com o espaço exterior de maneira harmônica pela manifestação da dinâmica corporal. A consciência corporal se divide em quatro estágios: 1º Estágio - Percepção das Partes do Corpo. Nesta primeira fase do trabalho, através de exercícios lúdicos, deve-se trabalhar a observação e a percepção consciente dos movimentos parciais sem obsessiva racionalização. A postura deverá ser trabalhada visando a consciência dos atributos a limites constituídos pois a mesma se elabora pelos padrões que lhe foram impressas por uma imagem moldada pela relação com o mundo exterior. 2º Estágio - Percepção dos grupos musculares, articulações, ligamentos. Técnicas empregadas na observação das tensões e flexibilidade muscular, de articular, das seqüências de movimentos partindo dos básicos para os complexos, permitirão perceber e desvelar a linguagem corporal pela sensibilização e percepção corporal destes aspectos. 3º Estágio – Fluxos energéticos, emanados principalmente do externo e pelo solar. Os teóricos da bionergética sustentam a idéia de que a energia é a base da própria vida. P fluxo energético é algo cuja dimensão transcende a própria materialidade. O processo criativo da Dança/Educação é uma forma efetiva de potencializar e canalizar essa energia. Através da energia vital produzida pela atividade biológica o ser humano se relaciona consigo mesmo, com os outros, com o mundo. 4º Estágio - Concentração, produção, dinâmica do movimento pela ação dos fluxos musculares. Este estágio deverá ser trabalhado no sentido de facilitar a utilização e distribuição da energia pelas diversas partes do corpo de forma fluida e dinâmica, cuja canalização é veiculada pelo sistema neuro-muscular. O conhecimento da consciência corporal através da concentração nos fluxos energéticos, permitirá a produção e dinamização do movimento sem tensão, de forma equilibrada e harmônica. As aptidões perceptivas compreendem todas as formas de atividades sensoriais que auxiliam o indivíduo a interpretar os estímulos e adaptar-se ao meio ambiente através da estruturação e do enriquecimento das experiências motoras. Estas aptidões são segundo Harrow (1983) as capacidades perceptivas, pré-requisitos para aprendizagem em qualquer comportamento motor e efetivamente nas características específicas da Dança/Educação. Parece natural que o professor de dança tenha a preocupação primordial, principalmente os que educam crianças das primeiras séries escolares, orientem suas experiências para um programa organizado das categorias perceptomotoras nas suas diversas divisões. Um roteiro elaborado a partir dos objetivos comportamentais para se conseguir um refinamento das capacidades perceptivas do aluno e, assim, obter um progresso satisfatório em Dança/Educação deverá incluir: • Discriminação sinestésica (exteriores e interiores) • Consciência corporal: esquema corporal, imagem corporal; • Imagem corporal; • Discriminação visual; • Acuidade visual • Acompanhamento visual • Memória visual • Diferencialção figura-fundo • Coerência perceptiva; • Discriminação auditiva: • Acuidade auditiva • Acompanhamento auditivo • Memória auditiva. • Discriminação Sinestésica A discriminação sinestésica envolve a compreensão das superfícies corporais, dos membros; as dimensões direta-esquerda e os julgamentos perceptivos da corporeidade em relação às dimensões espaço-temporal; envolve ainda as inter-relações pertinentes aos objetos que o cercam. Em síntese, consciência corporal é a concretização que o indivíduo tem de seu próprio corpo, de como e em que ritmo ele se movimenta, de sua posição no espaço e seu meioambiente.Enfim, seria percepção do corpo de: • Como se move? • Quando se move? • Por que se move? • Onde se move? A Dança/Educação ao dinamizar estratégias da percepção corporal em relação ao espaço, objetos, estará contribuindo para o processo ensinoaprendizagem da discriminação sinestésica. Consciência corporal é portanto a capacidade que o indivíduo possui para reconhecer e controlar o corpo como um todo e seus componentes pelas partes segmentares e a partir daí alcançar habilidades motoras e possibilidades de explorar o interrelacionamento com o outro, objeto e meio-ambiente em geral pelos conhecimentos práticos da mecânica corporal. A dança pelo seu nível de exigência em relação a “postura corporal” e aperfeiçoamentos dos reflexos posturais dinâmicos, pelo retroalinhamento ou relação à colocação do centro de gravidade, faculta a manutenção do equilíbrio mais constante. O corpo dançante, ao executar movimentos necessita de perceber aspectos ligados às estruturas de uma boa consciência corporal e que sem um bom equilíbrio dividiria sua atenção; disso resultaria dificuldade da percepção dos aspectos bilateralidade, lateralidade e dominância dos segmentos corporais exigidos pelos movimentos. O conceito de imagem corporal sofre transformações de acordo com o amadurecimento do indivíduo e a aquisição das consciências de seu próprio corpo. Ela incide inicialmente sobre os sentimentos que estão em relação à sua estrutura corporal e a realização de comportamentos motores observáveis, necessários à melhor compreensão, previsão e controle do comportamento humano. A imagem corporal, em seu processo de desenvolvimento da consciência, dos mecanismos e bases fisiológicas do próprio corpo, é o conjunto de conhecimentos considerados por Lê Boulch como intuição. Para o autor, imagem corporal é: ...”uma intuição de conjunto ou um conhecimento imediato que temos de nosso corpo em posição estática ou em movimento, na relação de suas diferentes partes entre si e sobre tudo nas relações com o espaço e os objetos que nos circundam”... (LÊ BOULCH, 1983) Estabelecendo paralelismo entre a percepção do esquema corporal dentro de determinada faixa etária e o sentido do espaço existente entre as percepções e ações que delimitam um esquema do nosso corpo, Bonier (1983) citado por Arnaldi (1984) já estabelecia correlação com as negações corporais pelo indivíduo quando apresentava perturbações no esquema e seqüencialmente na imagem corporal. De fato, esse aspecto pode ser considerado pertinente ao domínio afetivo gerando sensações e percepções que o indivíduo tem ao estabelecer a relação do seu espaço corporal e seu espaço circundante, e que podem refletir na sua imagem corporal; estes fatores exerciam influências sobre o caráter da execução de seus movimentos e no grau de profiência do desempenho de habilidades motoras ou de sua performance. “O corpo, com ser-para-si é a minha perspectiva sobre mim mesmo e a perspectiva do outro sobre si mesmo”. (ARNALDI, 1984). Na perspectiva da concepção fenomenológica de Merleau-ponty (1957), o autor faz referência sobre a imagem corporal: ...”A teoria do esquema corporal é já implicitamente uma teoria de percepção. Temos reaprendido o sentir nosso corpo, temos encontrado de novo, por debaixo do saber objetivo e distante do corpo, outro saber que temos, porque sempre está conosco e porque somos corpo”. (ARNALDI, 1984). A importância de organização da imagem corporal para Dança/Educação instala-se nas melhores possibilidades de coordenação de associação gestual e de ação do comportamento motor. Dependente deste estará também o nível de desenvolvimento da língua verbal e desse para a expressão a comunicação corporal. Poderíamos fazer relação com a perspectiva Piagetiana dos estágios de desenvolvimento relacionados a abstração e, portanto à linguagem pela simbolização. Estes aspectos explorados por Piaget reduzem na evolução psicomotora do ser humano ao fazer passagem do estágio sensório-motor para o perceptivo motor, o desenvolvimento da simbolização seguido de possibilidades de abstração (a verbalização passa primeiro pelo corpo conforme constatam os aspectos abordados). Dançar e comunicar-se pela expressão de gesto que movimenta as idéias latentes no inconsciente. As relações entre o corpo e o objeto referem-se à consciência corporal dentro da especificidade dos conceitos direcionais do indivíduo em relação à sua projeção e desenhos (direções e sentidos) descritos no espaço; seja a relação entre o corpo, os objetos e o espaço circundante. Assim sendo, o corpo é enfocado como objeto central e inicial da organização perceptiva em seu espaço interior e exterior. Além disso, a percepção proprioceptora de seu corpo é constante e se opõe portanto, à viabilidade constante das percepções extereoceptivas. A partir dessa estruturação espaço-temporal o indivíduo estará em condições de projetar seu interior nos três planos espaciais exteriores e situar por associação, á seu “eu” corporal, em objetos circundantes. Esta reversibilidade de estruturação lógica permitirá, no plano psicológico, o educando situar-se em relação aos objetos ou em relação ao outro maturando-se. Isto lhe permitirá transpor da sua posição egocêntrica pela descentralização do seu “eu” para o desenvolvimento das condições necessárias à aceitação do outro e do mundo em geral como meio-ambiente. Esta etapa psicológica, de ordem afetiva na existência do ser fará com que o indivíduo seja capaz de organizar racionalmente o mundo que o cerca tendo entretanto com um referencial inconscientemente implícito à sua organização espaço-temporal. A atividade perceptiva inicial de tempo e a noção que se desenvolve no espaço concorrem seqüencialmente para as noções de estruturação de ritmo – nível de abstração e intelectualização mais elevado. A educação do corpo em relação à sua situação espacial e temporal desenvolvidos em Dança/Educação é portanto de fundamental importância para a organização estrutural da personalidade do indivíduo e sua organização mundo “eu” de ordem afetiva e existencial. Programas, graduais e sucessivos a nível evolutivo sob este enfoque contribuem efetivamente para a educação integral do Ser. O ser humano tornou-se homem, na medida que ao descer das árvores, passando do estágio evolutivo, amplia seu campo visual, melhora seus horizontes perceptivos. A discriminação visual é uma sub-categoria das aptidões perceptivas de grande influência na expectativa de comportamento motor a nível de habilidade e conseqüentemente de performance. O desenvolvimento das percepções visuais proporcionam ao indivíduo a habilidade de controle visual em seu campo de ação. A ampliação do campo visual favoreceu ao homem o desempenho dos diferentes níveis de habilidades motoras, constituindo-se um importante fator de acompanhamento e controle do movimento em sua totalidade. A discriminação visual integrando as subcategorias das aptidões perceptivas se subdividem em acuidade visual, acompanhamento visual, memória visual, diferenciação figura-fundo e coerência perceptiva. Acuidade visual é a capacidade que o indivíduo tem, através da percepção, de estabelecer diferença entre os vários objetos e acontecimentos circundantes. A acuidade visual evidencia a capacidade do indivíduo distinguir figuras geométricas simples ou combinadas. Na dança, esta capacidade se transfere para as formações e deslocamentos no solo ao estabelecer direções e sentidos do corpo com as possibilidades espaço-temporais estabelecidas nas coreografias, assim como diferentes formas em diferentes posições. O acompanhamento visual é a capacidade de se seguir imagens ou objetos com os movimentos coordenados dos olhos que na dança se transfere para os outros ou seja, os corpos dos dançarinos em movimento. A memória é a capacidade de relembrar experiências visuais passadas e aplicá-las à experiências imediatas na execução e posição do seu corpo no espaço ou em relação aos outros corpos dançantes. A diferenciação figura-fundo é a capacidade de selecionar figura dominante destacando-a do contexto em que se insere. Identificar o dançarino dominante em movimento e reagir de acordo com sua situação em relação à adequação das relações espaço-temporal exigidos indicam o desenvolvimento evolutivo desta aptidão perceptiva. A coerência perceptiva em nível de capacidade perceptiva e a possibilidade de reconhecer figuras-formas em diferentes situações. Identificar seu corpo às formas corporais em relação a igualdade ou diferença dos corpos dançantes – é um estágio avançado de aptidão perceptiva. A discriminação auditiva é a capacidade do indivíduo interpretar controles acústicos através da diferenciação de intensidade, freqüência e timbre dos sons e seus ritmos. O suporte musical é um fator importante na execução dos movimentos e deslocamentos coreográficos; portanto, aporte afetivo nas atividades de dança. Suas subcategorias acuidade auditiva, acompanhamento auditivo e memória auditiva são suportes afetivos em nível seqüencial e subseqüencial das percepções auditivas. Acuidade auditiva é a capacidade de perceber e estabelecer diferenças entre variedade de sons (intensidade, tons). O acompanhamento auditivo é a capacidade de distinguir e seguir em direção ao som. Memória auditiva envolve a habilidade de reconhecer e reproduzir experiências auditivas passadas. Todas estas características de audição são de extrema importância para a sincronia e harmonia do corpo em movimento e sua relação com o espaço, com outros corpos e outros no espaço coreográfico. Discriminação táctil é uma aptidão perceptiva cuja capacidade táctil está em estabelecer a diferença entre as várias texturas, o calor, superfícies e outros ao estabelecer determinada modalidade táctil, ao contato ou não com o material possibilitando uma qualificação diferencial entre a forma, tamanho, tipo de material; diferenciação entre o leve-pesado, duro-macio, liso-áspero, grandepequeno, redondo-pontudo, comprido-curto, através das coordenações olho/mão, olho/pé, ou em geral. A coordenação geral da adaptação perceptiva envolve como esclarecemos acima duas ou mais capacidades perceptivas e padrões motores e reemplica na capacidade de distinguir a “figura-fundo” e de coordenar visualmente o objetivo percebendo-o com movimentos manipuladores e movimentos não locomotores. A coordenação olho/mão se refere à capacidade de coordenar visualmente objeto com os movimentos manipuladores exigindo como pré-requisito à acuidade visual e controle motor. A coordenação olho/pé corresponde à capacidade de se distinguir e coordenar um objeto percebido visualmente com os movimentos dos membros inferiores. A coordenação táctil evidencia a necessidade de desenvolver na dança habilidades de contrastes e nuances entre as aptidões tácteis em íntima relação com as visuais e de forma secundárias com as adaptativas. A Dança é uma arte que ocorre no espaço e no tempo, sendo ambos igualmente importantes à sua realização. Segundo Barroco & Santos (1978) existem três características fundamentais pertinentes ao elemento espaço: a extensidade, simultaneidade e coexistência. Ao elemento espaço, estão ligados e intensidade, sucessão, substituição e irreversibilidade. Tompakaw e Weil (1980) acrescentam ao tempo e espaço um elemento fundamental – a energia. Assim, um passo tem uma determinada dinâmica que é a energia presente nele – é a intensidade. A dança se realiza portanto, no espaço pelas formas que o corpo humano toma ao dançar e pelas relações entre o corpo e o espaço geral ocupado para elaborar os movimentos coreográficos da dança. No tempo, o movimento se realiza em sucessões de formas com passagens de um para outra dentro do ritmo estabelecido. A dinâmica coreográfica resulta das energias geradas pela tensão presente nos movimentos culmina estes elementos espaciais. Dança, portanto, é harmonia dos movimentos em identificação com o tempo, espaço e as energias fluidas da tensão ou da dinâmica gerada pela coesão dos movimentos. Tudo se estrutura num todo harmônico e coerente pela relação e interação de seus elementos estruturais. A Dança é uma arte tão antiga quanto o homem enquanto forma de linguagem. O corpo tem uma linguagem que lhe é peculiar, predessessora e complementar da linguagem oral. A dança, através dos elementos coreográficos utiliza essa linguagem, ampliando-a e codificando-a para estabelecer uma comunicação e expressão. Na dança as formas e passos são as unidades significativas ou signos corporais. Estes se organizam em seqüências, no tempo, espaço, com certa conotação enfática na expressão do gesto e por um discurso não verbal de valor estético,chamada significativamente de coreografia ou arte de dançar. A coreografia, aporte da dança, procura transmitir um estado de espírito, uma maneira de se ver ou de ver o mundo, enfim, expressar-se e comunicar-se pela linguagem corporal. É a linguagem do corpo, às vezes, mais adequada do que a linguagem verbal para informar sobre as atitudes e emoções de uma pessoa. Por isso, a Dança como uma arte conceitual, além de transmitir os valores estéticos inerentes ao trabalho coreográfico é adequada para transmitir emoções, idéias, sentimentos, princípios filosóficos ou éticos: chaves da linguagem corporal. A coreografia foi, e será sempre contextualizada. Sabemos que todo o comportamento humano expressivo é sempre destituído de significado fora de seu contexto cultural, pois a cultura desempenha um papel importante no dimensionamento humano da comunicação e expressão. A criação da arte coreográfica é portanto, expressão da dimensão humana do artista aliada as influências do contexto sócio-cultural onde este está inserido. Os braços são partes importantes e fundamentais na linguagem do corpo nas coreografias. Podem ser molduras para o rosto; ser o “élan” ou impulso para os saltos; fonte de equilíbrio para os passos ou ser elementos de interrelação entre os personagens da coreografia. Podem expressar uma linha entre a terra, o infinito; asas para os grandes saltos ou círculos de equilíbrio e segurança. Hoje, a postura do corpo – “aplomb” – é o primeiro elemento existente na dança clássica ou postura geral do dançarino. O “aplomb” é a postura ereta e alongada, com a cabeça erguida sem qualquer conotação de esforço; é uma postura harmônica e com características requintadas permeia resquícios de sua origem nobre. O “aplomb” clássico exige postura e equilíbrio poderia ser transportado para o aspecto psicológico das pessoas, como por exemplo a análise da seguinte linguagem do corpo: se houver um equilíbrio entre cabeça, tórax e abdomem, isto poderá denotar equilíbrio de personalidade. Quando uma coreografia aborda em sua temática, um elemento ou personagem perturbado ou negativo, seu corpo entra em desequilíbrio para dar a conotação específica e desejada à interpretação dos aspectos pretendidos. No Ballet Clássico, os braços arredondados são resquícios da origem aristocrática: coroas e molduras, para o rosto. Enquanto que na época romântica eles evoluíram para as formas arredondadas, os braços hoje, se alongam nos trabalhos coreográficos tornando-se não mais um adorno, mas um elemento significativo na comunicação e expressão de conteúdo de uma temática coreográfica. A utilização das mãos na dança é um efetivo recurso expressivo. Passar uma expressão de relaxamento e harmonia, tensão e energia ou completar a forma alongada proposta pelo corpo. O olhar é outro elemento essencial e de forte expressão para os personagens de uma coreografia. Sua direção no palco ou a distância entre o personagem e a platéia é fundamental para completar a comunicação. Naturalmente que ele deve ser vivo e coerente com a emoção do personagem que se está dançando. Tudo isto é completado pela direção da cabeça, posição do corpo e colocação dos braços. Em resumo, o olhar informa sobretudo, a respeito da direção a ser tomada pelo dançarino e cria também uma relação de proximidade ou afastamento entre este e o público. A distribuição espacial dos dançarinos no palco pode informar ao público sobre sentimentos, emoções, idéias. A aproximação entre dois corpos como harmonia que denota amor. O espaço é, portanto, elemento informativo de sentimentos entre duas pessoas. Nos “pás-de-deux” por exemplo, as desavenças amorosas, os jogos de aceitação ou recusas são simbolizados pela mudança da posição do corpo. Afastar-se, virar-se de costas para o outro; caminhar apressado ou correr pelo palco indica desavenças, desarmonia. Em uma temática coreográfica, quando um personagem é obrigado a se afastar do outro sem desejá-lo, ele o fará mantendo de frente para o mesmo. A organização de pessoas em pequenos e grandes grupos é elemento informativo bastante usado para indicar as relações emocionais e também sociais. Assim, as posições dos elementos em colunas no palco indicam uma conotação militar de submissão pelo comando dos elementos de vanguarda. Os desenhos formados pela irregularidade no palco dão a impressão de descontração, alegria e liberdade ou opressão, dúvidas, questionamentos. A retórica do corpo é sem sombra de dúvida um meio de comunicação e expressão onde o coreógrafo e dançarinos expressam em suas danças um discurso como qualquer outra forma de expressão através de seus significantes e significados específicos ao colocar no corpo o código da linguagem de uma ou mais técnicas de dança. O corpo é, portanto, o principal elemento utilizado do conteúdo de sua comunicação para expressar sentimentos e emoções, sendo assim a psicomotricidade é fator predominante ao ato de dançar. O conceito do corpo é o conhecimento intelectual que o indivíduo tem do seu corpo e de cada função dos seus órgãos. O esquema corporal consiste em a criança ser capaz de representar mentalmente seu próprio corpo, seus segmentos (pernas, pés, braços, mãos), suas possibilidades de movimentação e sua idéia de aspecto. Numa palavra, podemos dizer: conhecer o esquema corporal é ter consciência do próprio corpo. A psicomotricidade está associada à afetividade e personalidade, porque o indivíduo utiliza seu corpo para demonstrar o que sente, e uma pessoa com problemas motores passa a ter problemas de expressão. Psicomotricidade é a ciência da educação que educa o movimento, ao mesmo tempo em que põe em jogo as funções da inteligência. A partir desta posição, pode-se ver a relação intrínseca das funções motoras cognitivas e que, também pela afetividade, encaminha o movimento. III – A DANÇA/EDUCAÇÃO E OS PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS Nos últimos anos, a preocupação de educadores e legisladores brasileiros tem sido mencionar a dança em seus trabalhos e programas. A Dança foi incluída nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs, 1997) como linguagem artística, ganhando aceitação nacional como forma de conhecimento a ser trabalhado na escola. Ao mesmo tempo, muitos congressos, simpósios, encontros e cursos de nível universitário têm mostrado preocupação em incluir a dança em currículos de graduação e pós-graduação, visando a formação de professores para esse campo. Entretanto, muitas dúvidas persistem, não só no Brasil como em várias partes do mundo sobre o ensino da dança nas escolas de educação básica. Entre as dúvidas, algumas se sobressaem como a de saber em que disciplina a dança seria ensinada. Arte ou Educação Física? Ou, deveríamos pensar em uma disciplina exclusivamente dedicada à dança? Outra dúvida diz respeito ao significado do ensino da dança nas escolas: uma área do conhecimento, um recurso pedagógico, um exercício físico ou uma terapia? Enfim, que nome seria dado ao ensino da dança na escola? Poderia ser Expressão Corporal,Educação pelo/do/no movimento, Dança Educativa segundo alguns professores? Dentro dessa diversidade de idéias ou propostas, seria interessante olhar de modo mais crítico o ensino da dança na escola. A época que vivemos é caracterizada por uma infinidade de possibilidades educativas geradas pelas exigências de sociedade tecnológicas em permanente e acelerada transformação, obrigando a um novo posicionamento sobre o sentido do que é educação, formação, ensino e aprendizagem. Estamos falando não do fim da escola, mas do fim desta escola, desta educação que ao longo do tempo vem negligenciando o corpo, a arte e, portanto, a dança. A escola é hoje sem dúvida, um lugar privilegiado para se aprender a dança com qualidade, profundidade, compromisso, amplitude e responsabilidade. Entretanto, o pensamento pedagógico brasileiro tem sofrido as conseqüências de posturas racionalistas e dualistas, fundando-se em valores que há séculos têm valorizado o conhecimento analítico, descritivo e linear em prejuízo do conhecimento sistêmico, corporal e intuitivo. Desde que os pesquisadores começaram a estudar e analisar a situação do ensino de Arte no país, a dança é uma desconhecida para a escola. A linguagem da dança exige propostas que trabalhem seus aspectos criativos e transformadores e, por isso mesmo, imprevisíveis e indeterminados, assustando aqueles que aprenderam e são regidos pela didática tradicional. Por isso, os projetos de criação em dança acabam não se encaixando nos modelos tradicionais de educação. O fato de o Brasil ser um país “dançante”, onde a dança é de domínio público, um país vibrante e corporal, tem dificultado e mesmo excluído a dança da escola a possibilidade de estudá-la com profundidade e amplitude. Infelizmente, o ensino da dança ainda está encoberto por uma densa camada de pensamentos preconceituosos em relação à sua “natureza”, o que se pode observar nos nomes que muitos professores lhe dão como “expressão corporal” ou “arte e criação”, entre outros. Os PCNs sugerem/determinam que um dos objetivos do ensino da dança é a compreensão da estrutura e funcionamento do corpo e o estudo do movimento humano, devendo ser articulados com a percepção do espaço, peso e tempo. Sendo a dança uma forma de integração e expressão tanto individual quanto coletiva, ela permite que a criança (ou o jovem) exercite a atenção, a percepção, a colaboração e a solidariedade. O ensino da dança “contribui também para o desenvolvimento do aluno no que se refere à consciência e à construção de sua imagem corporal, aspectos que são fundamentais para seu crescimento individual e sua consciência social” (PCNs, 1997). As atividades lúdicas na escola com a inclusão da dança nos currículos escolares veio permitir a experimentação e a criação exercitando a espontaneidade. Na interação que ocorre nas atividades coletivas, aparecem as oportunidades não só para a criança experimentar sua motricidade e a plasticidade do seu corpo exercitando suas capacidades motoras e expressivas como, também, vir a perceber semelhanças e contrastes, tentando compreendêlas e coordenar suas próprias habilidades e expressões com respeito e cooperação. Para introduzir o aluno na linguagem da dança, a proposta dos PCNs, determina quais são os elementos básicos para a ação do professor: que deve, para bem planejar as suas aulas: • Considerar o desenvolvimento da motricidade dos alunos; • Observar suas habilidades e atitudes físicas; • Estimular a pesquisa dos gestos a fim de amplia-los e capacitar o corpo para o movimento; • Levar o aluno a reconhecer ritmos (corporais e externos); • Estimular o aluno a explorar o espaço e inventar seqüências de movimento; • Levar o aluno a explorar a sua imaginação e sua criatividade, desenvolvendo seu sentido de forma e linha; • Ensinar como se relacionar com os outros alunos na busca de forma e sentido para a pesquisa de movimentos. A atividade física necessária para o desenvolvimento infantil é parte da aprendizagem da criança, atravessada pela sua curiosidade natural e desejo de conhecer. Este é um dos principais motivos para que a criança seja desenvolvida na escola com espírito de investigação: permitir que a criança tome consciência da função dinâmica da sua corporeidade, do gesto e do movimento como expressão da sua pessoa e de sua cultura. Os PCNs enfatizam a observação e apreciação das atividades de dança pelo aluno. “o aluno deve observar e apreciar as atividades de dança realizadas por outros (colegas e adultos), para desenvolver seu olhar, fruição, sensibilidade e capacidade analítica, estabelecendo opiniões próprias. Essa também é uma maneira de o aluno compreender e incorporar a diversidade de expressões, de reconhecer individualidades e qualidades estéticas. Tal fruição enriquecerá sua própria criação em dança”. (PCNs, 1997) O papel do professor para esse aprendizado é de sempre manter uma atitude capaz de criar clima de atenção e concentração, onde se respire alegria. O uso do espaço e o relacionamento devem ter regras para que a aula tenha um bom andamento. Outra atitude importante do professor é favorecer condições para o aluno adquirir confiança na sua capacidade de exploração de movimentos, estimular a sua criatividade e coordenação de seus movimentos com os dos outros colegas. No planejamento das aulas é importante escolher os temas levando em consideração o desenvolvimento dos alunos. Muitas propostas podem ser feitas como orientar pesquisas de movimento, de estímulos rítmicos e, também, a criação de movimentos em parceria com um colega ou grupo de colegas. Outra atividade é criar composições com a área de música. A experimentação é necessária pois permite que os alunos descubram suas capacidades, adquirindo segurança para se movimentarem e para que possam atuar e recriar partindo das suas descobertas e experiências. Por isso, nem sempre a originalidade deve ser exigida em cada aula, pois, não só os alunos apreciam repetir as atividades como sabem que essa repetição lhes é necessária. As aulas podem ou não ser acompanhadas por música ou outros estímulos sonoros. O silêncio também comporta ritmos internos e externos que podem e devem ser explorados. As manifestações populares são valorizadas na proposta curricular devendo estar presentes no repertório dos alunos, constituindo material importante para a aprendizagem. Parte da riqueza cultural dos povos, os jogos populares de movimento, as cirandas, as amarelinhas e muitos outros são importantes como fonte de pesquisa. Assim, do modo como é proposta pela área de Arte dos PCNs, a dança tem como propósito o desenvolvimento integral e harmônico do aluno, ao permitir que ele através da experiência motora, observe e analise as atividades humanas desenvolvendo sua expressividade que é a base da criação estética. Entretanto, essa inclusão da Dança nos Parâmetros Curriculares Nacionais vem suscitando, desde a sua publicação, muitas discussões e debates entre profissionais de diversas áreas do conhecimento e de instituições que trabalham com o ensino e a pesquisa. Por isso mesmo, gostaria de refletir aqui sobre as possibilidades práticas de trabalho com esse documento na área de dança. A proposta de trabalho norteada pelos temas transversais tem implicações diretas em nossas futuras atividades em sala de aula. Algumas reflexões precisam ser feitas sobre possibilidade e abordagens desses temas na área de dança. Em primeiro lugar, a área da dança tem sido, historicamente, marcada pela falta de profissionais qualificados para ensiná-la em nosso país, sendo deixada a cargo de professores com formação em Pedagogia, Educação Física ou Educação Artística, sem experiência e/ou reflexão pedagógica com a dança. Os PCNs são, sobretudo, uma alternativa para que esses professores possam ter alguns subsídios para não comprometer demais a qualidade do trabalho artístico em sala de aula. Obviamente, o documento não pretende formar professores de dança, mas como o próprio nome diz, indicam parâmetros até que país tenha professores licenciados em dança para atender às demandas do seu ensino. O trabalho com os temas transversais na área de dança tem interface com outras disciplinas do currículo que também têm o corpo como eixo principal de articulação e trabalho como a Educação Física, as Ciências Naturais e até, a História e a Geografia. Por isso mesmo, nos limitamos a refletir sobre temas que possam dizer respeito aos aspectos que abordem diretamente a dança em si, ou seja, improvisações e composições coreográficas contextualizadas a partir da história, ciências sociais e estética e repertórios. É importante ressaltar que o trabalho com os Temas Transversais não deve se sobrepor aos conteúdos específicos dessa área do conhecimento, mas sim ampliar sua prática e reflexões para abranger os aspectos sociais, afetivos, culturais e políticos da dança em sociedade. A linguagem da dança é um campo privilegiado para o professor trabalhar, discutir e problematizar a pluralidade cultural em nossa sociedade. Ao propor improvisações, repertórios e apreciação de danças, o professor pode chamar a atenção dos alunos destacando os corpos que dançam e os corpos na dança, através da exploração das diversas escolhas que surgem pelo período histórico, pela localização geográfica, pelas crenças e valores de uma época ou de uma região. A diversidade de biótipos encontrados hoje no Brasil leva à observação de que o corpo em si, já é uma expressão de pluralidade, e que a maneira como esses corpos movimentam torna evidentes os aspectos sócio-políticos-culturais em dança. Também as relações de espaço/tempo contidas nas danças tradicionais rituais ou populares, e, nas produções artísticas teatrais (moderno, clássico, contemporâneo), estão em relação direta com a pluralidade cultural. Isto porque expressam e comunicam conceitos e vivências de diferentes épocas e lugares, contendo, desse modo, muitas possibilidades de através da dança compreendermos, descobrirmos, probletizarmos e transformamos as relações que se estabelecem em nossa sociedade entre etnias, gêneros, idades, classes sociais e religiões. Estudos antropológicos e sociológicos também explicam a relação corpo/dança como uma relação entre corpo, intuição, emoção e conhecimento indireto. Numa sociedade machista como a nossa existem muitos preconceitos em relação à dança, e um dos mais fortes é com relação ao Gênero, ou seja, diz-se que “dançar é coisa de mulher”, “afeminização” e outras expressões mais fortes. Esse preconceito se dá em vários níveis, e de acordo com os pesquisadores, está contido no imaginário social do mundo ocidental. Por exemplo, mesmo nunca tendo assistido a um espetáculo de balé clássico, muitas vezes esse imaginário associa a dança diretamente a ele, e, conseqüentemente, à características como “graça, delicadeza, meiguice, leveza que são tidas como impróprias para o homem. As sugestões contidas nos PCNs sobre o trabalho com Temas Transversais facilitam o estudo da formação desses preconceitos, problematizando essas relações, contextualizando-as histórica e geograficamente, por meio da dança, que elas sejam de equidade e cooperação. Os alunos entenderão que as danças não são “naturais” de etnia alguma, mas essencialmente aprendidas em sociedade o que determina se podemos ou não dançar são os nossos corpos não a cor da pele, formato do nariz ou da boca. O trabalho educativo, portanto, poderá pautar-se na apreciação das diferenças (raça, idade, classe social, gênero, etc.). Sem mistificar nem criar ilusões e/ou gerar conflitos pessoais intransponíveis, podemos perceber que, por meio da dança, os nossos corpos podem conviver com os demais. A dança na escola tem o potencial de desenvolver a consciência crítica em relação aos preconceitos, enfatizando a aceitação das diferenças, a valorização e a crença em que diferentes corpos criam diferentes danças. O conhecimento da dança de outros povos, regiões e épocas diferente permite um trabalho artístico/educativo voltado para o diálogo verbal e corporal com culturas distintas da nossa. Entretanto, para ensiná-las, bem como nossas danças populares, é preciso levar em conta as escolhas pessoais dos alunos. Não se pode obrigá-los a recriar passos de danças com as quais não se identifiquem. Somente uma postura crítica em relação às danças que aprendemos e/ou criamos a partir da tradição dos povos possibilita um outro tipo de olhar, um olhar ingênuo nem complacente frente às contribuições das etnias e culturas formadoras do povo brasileiro. Essa consciência crítica permite, ainda, perceber nos processos de criação, sejam pessoais ou coletivas, as histórias que carregamos, os povos que representamos, e as escolhas que fazemos em relação as nossas vivências e atitudes nesta sociedade global. Ainda nos PCNs, a questão da ética como proposta leva a pergunta “como devo agir perante os outros”? e desencadeia uma série de reflexões que podem ser geradas em sala de aula de dança. Explicando, vivenciando e refletindo os papéis do diretor, coreógrafo e intérpretes no mundo da dança, por exemplo, abrese (metaforicamente) a possibilidade das escolhas sobre o desempenho de papéis e ação junto aos outros. Desse modo, a seleção dos conteúdos de dança ligados a seus processos artísticos pode ser de suma importância para uma educação que trabalhe com base no respeito mútuo, nos princípios de justiça e no diálogo. Assim, dança/gênero, dança/etnia, dança/idade, dança/ética, dança/ecologia, todos os temas transversais podem ser explorados no trabalho da dança na escola. A presença da Arte nos currículos escolares com a publicação dos PCNs em 1997 trouxe, pela primeira vez na história do país, a inclusão da dança como parte integrante da educação em Arte. Porém, a distância entre é proposto e aquilo que é, efetivamente, praticado, já por tradição, no meio educacional levanos a temer que a importância da arte e da dança na educação, se não for seriamente considerada e aplicada, continuará a ser proposta utópica. CONCLUSÃO A dança é a expressão mais pura e sincera de idéias, ação e sentimentos. Podemos observar a dança em todos os seres criados por Deus: as folhas balançando ao vento, grãos de areia passeando e até modificando paisagens, abelhas de flor em flor, pássaros criando coreografias para conquistar sua parceira e homens quando querem expressar alegria, raiva, frustração, calma, paixão, amor... A dança é o elixir para a alma e um exercício completo para o corpo. Podemos desenvolver a psicomotricidade em sua totalidade através da dança. Desenvolvimento dos músculos, equilíbrio, lateralidade, ritmo, coordenação, percepção, são alguns requisitos exigidos a um dançarino. Assim a dança na escola pode tornar a psicomotricidade envolvente, atraente e prazerosa. Através do ensino da dança estaremos ampliando a sua visão de totalidade e interdependência, dando novas oportunidades para a busca do novo e também lhe oferecendo a valorização do sentir, pensar e agir, no momento da prática educativa. Considerando a educação como evolução e transformação do indivíduo, a dança como expressão da corporeidade, o ensino da dança na escola deve proporcionar oportunidades para que eles possam desenvolver todos os seus domínios do comportamento humano. A Dança/Educação precisa ser encarada com seriedade e compromisso para que conquiste seu espaço na escola e obtenha o respeito que merece. Por isso o profissional deve estar capacitado e consciente de seu papel dinamizador, artístico e transformador, desenvolvendo em seus alunos não apenas a psicomotricidade, mas também a afetividade que envolve todo movimento. BIBLIOGRAFIA ALVES, Rubens. A alegria de ensinar. São Paulo, Ars Poética, 1994. BABIN, P. e KOULOUMDJIIAN, M. F. Os novos modos de compreender. São Paulo, Ed. Paulinas, 1989. BARBOSA, A. M. Arte e Educação no Brasil: das origens ao modernismo. São Paulo, Perspectiva, 1978. BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental – Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília, MEC/SEF, 1997/1998. 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ATIVIDADES CULTURAIS UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES INSTITUTO SUPERIOR DE EDUCAÇÃO PROJETO A VEZ DO MESTRE FOLHA DE AVALIAÇÃO CURSO: Pós-Graduação em Psicomotricidade ORIENTADORA: Fabiane Muniz CURSISTA: Hebe Rachel de Oliveira Otto AVALIADO POR:..............................................................GRAU:............... Apreciação crítica do relatório final, recomendações, sugestões: .............................................................................................................. .............................................................................................................. .............................................................................................................. .............................................................................................................. .............................................................................................................. .............................................................................................................. Rio, ............de.............................................de 2005. ............................................................................................................. Assinatura do Supervisor