UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES
INSTITUTO SUPERIOR DE EDUCAÇÃO
PROJETO A VEZ DO MESTRE
A EDUCAÇÃO PSICOMOTORA ATRAVÉS DA DANÇA
Hebe Rachel de Oliveira Otto
Orientadora: Professora Fabiane Muniz
Rio
Janeiro/2005
Hebe Rachel de Oliveira Otto
A EDUCAÇÃO PSICOMOTORA ATRAVÉS DA DANÇA
Monografia apresentada como exigência
parcial à conclusão do Curso de Pós-Graduação
em Psicomotricidade da Universidade Candido
Mendes.Orientadora: Professora Fabiane Muniz.
Rio
Janeiro/2005
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Deus por poder
compartilhar do dom a mim dado por Ele.
DEDICATÓRIA
Dedico
este
trabalho
com
muito amor a meus pais, Cecy e Otto.
A
meus
alunos
que
me
fizeram crescer e aos meus amigos que me
acompanharam nesta jornada.
SUMÁRIO
RESUMO................................................................................................................... 5
INTRODUÇÃO.......................................................................................................... 6
I- DANÇA:BREVE HISTÓRICO..................................................................................7
II-O MOVIMENTO DO CORPO ATRAVÉS DA DANÇA/EDUCAÇÃO.......................12
III-A DANÇA/EDUCAÇÃO E OS PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS ....29
CONCLUSÃO...............................................................................................................38
BIBLIOGRAFIA..............................................................................................................40
ATIVIDADES CULTURAIS ...........................................................................................42
FOLHA DE AVALIAÇÃO...............................................................................................44
RESUMO
Na Educação Infantil, temos todo um processo dinâmico que se propõe a
trabalhar entre outros fatores, a psicomotricidade; desenvolvendo assim a criança
em suas potencialidades, através de atividades pedagógicas que devem garantir
aprendizagens
relacionadas
com
a
linguagem.
É
importante
que
todo
comportamento dentro da sala de aula, seja observado com bastante cuidado,
para que se possa perceber as mudanças de atitudes, estando alerta para sinais
que demonstrem que há algum problema e devem receber a atenção especial do
educador. Pois quanto mais cedo a dificuldade em alguma das áreas do
desenvolvimento for diagnosticada mais eficaz será seu tratamento. Através dos
movimentos proporcionados pela dança, desenvolve-se a consciência corporal e
todos os aspectos psicomotores podem ser amadurecidos e trabalhados de
acordo com a necessidade de cada um, pois a dança promove o diálogo corporal
levando a uma projeção de si e do outro em relação ao espaço, tempo (ritmo) aos
movimentos e isso traduz-se em psicomotricidade.
INTRODUÇÃO
Dançar é definido como uma manifestação instintiva do ser humano. Antes
de polir a pedra e construir abrigos, os homens já se movimentavam ritmicamente
para se aquecer e comunicar.
Considerando a mais antiga das artes, a dança é também a única que
dispensa materiais e ferramentas. Ela só depende do corpo e da vitalidade
humana para cumprir sua função enquanto instrumento de afirmação dos
sentimentos e experiências subjetivas do homem.
Segundo certas correntes da antropologia, as primeiras danças humanas
eram individuais e se relacionavam à conquista amorosa. As danças coletivas
também aparecem na origem da civilização e sua função associava-se à adoração
das forças superiores ou dos espíritos para obter êxito em expedições guerreiras
ou de caça ou ainda para solicitar bom tempo e chuva.
O trabalho monográfico irá relatar brevemente a história da dança, e o
movimento do corpo através da Dança/Educação, envolvendo a psicomotricidade
em todos os seus aspectos. Por fim falaremos da dança à luz dos Parâmetros
Curriculares Nacionais.
I – DANÇA: BREVE HISTÓRICO
O desenvolvimento da sensibilidade artística determinou a configuração da
dança como manifestação estética. No antigo Egito, 20 séculos antes da era
cristã, já se realizavam as chamadas danças astroteológicas em homenagem ao
deus Osíris. O caráter religioso foi comum às danças clássicas dos povos
asiáticos.
Na Grécia clássica, a dança era freqüentemente vinculada aos jogos, em
especial aos olímpicos.
Com o Renascimento, a dança teatral, virtualmente extinta em séculos
anteriores, reapareceu com força nos cenários cortesãos e palacianos. Uma das
danças cortesãs de execução mais complexa foi o minueto, depois foi a valsa,
considerada dança cortesã por excelência, e com ela se iniciou a passagem da
dança em grupo ao baile de pares.
A configuração de um gênero de dança circunscrito ao âmbito teatral
determinou o estabelecimento de uma disciplina artística que, em primeira
instância, ocasionou o desenvolvimento do ballét e, mais tarde, criou um universo
dentro do qual se deu desenvolveram gêneros como os executados no music-hall,
como o sapateado e o swing. A divulgação da dança se deu também fora do
mundo do espetáculo, principalmente nas tradições populares.
Dança, em sentido geral, é a arte de mover o corpo segundo uma certa
relação entre tempo e espaço, estabelecida graças a um ritmo e a uma
composição coreográfica.
Pela primeira vez na história do Brasil a dança faz parte dos parâmetros
nacionais da educação.
Em nossos dias cada vez mais torna-se consciência da importância da
dança como forma de expressão do ser humano. A dança hoje é percebida por
seu valor em si, muito mais do que um passatempo, um divertimento ou um
ornamento. Na educação, ela deve estar voltada para o desenvolvimento global da
criança e do adolescente e vai favorecer todo tipo de aprendizado que eles
necessitam. Uma criança que na pré-escola teve a oportunidade de participar de
aulas de dança, certamente, terá mais facilidade para ser alfabetizada, por
exemplo.
A dança educativa revela a alegria de se descobrir através da exploração
do próprio corpo e das qualidades de movimento. Este trabalho é dirigido para
crianças a partir de três anos de idade e tem como ponto de partida a
movimentação natural delas. Uma vez entendido a riqueza das possibilidades de
movimento de uma pessoa, ficou impossível reduzir o ensino da dança para a
repetição de alguns passos e gestos. Foi preciso um novo enfoque para dar conta
das variações quase infinitas deles.
Em vez de estudar cada movimento particular, o aluno compreende e
pratica seus princípios.
Tradicionalmente, a dança é algo para ser “apresentado e visto”. No mundo
contemporâneo, entretanto, esta barreira entre o artista e o público está sendo
quebrada. O desafio agora é estabelecer um diálogo mais próximo também entre
a arte e a educação em uma atividade, isto visa proporcionar vivências de dança
que articulem a criação pessoal e coletiva de movimentos, a apreciação e o
conhecimento de dança de modo a integrar a razão e o sensível, o individual e o
coletivo, a arte e a educação.
Através da utilização de uma metodologia específica, busca-se o alcance
de qualidades físicas e psíquicas próprias da infância e da adolescência.
A dança na vida das crianças é fundamental, tanto para sua formação
artística quanto para sua integração social. Tudo porque a dança desenvolve os
estímulos;
•
Tátil – sentir os movimentos e seus benefícios para seu corpo.
•
Visual – ver os movimentos e transformá-los em atos.
•
Auditivo – ouvir a música e dominar o seu ritmo.
•
Afetivo – emoções e sentimentos transpostos na coreografia.
•
Cognitivo – raciocínio, ritmo, coordenação.
•
Motor – esquema corporal.
As atividades propostas visam o desenvolvimento da coordenação motora,
equilíbrio e flexibilidade. São também trabalhados aspectos tais como:
criatividade, musicalidade, socialização e conhecimento da dança em si.
Na fase da pré-escola, as aulas possuem um caráter lúdico e dinâmico,
quando a criança tem oportunidade de trabalhar o conhecimento do corpo, noções
de espaço e lateralidade, utilizando-se de seus movimentos naturais.
Gradativamente as exigências técnicas vão aumentando, mas respeitando
sempre as condições físicas e psíquicas de cada idade, necessidades globais e
aspirações dos estudantes.
A dança proporciona, na Educação, elementos significativos que favorecem
o desenvolvimento do Ser Humano.
Existe o enfoque da formação do bailarino profissional e, também, o de
formação e valorização humana do aluno que escolhe o aprendizado da dança
como uma complementação de sua formação pessoal. Valoriza-se o aprendizado
da dança, o dançar como experiência de vida e própria vivência da dança na
relação da criança e adolescente, consigo mesmo, com o outro e com seu meio.
A importância de permanentemente refazer o caminho da arte reside no
fato que nas últimas décadas – e cada vez com mais força – o mundo exterior nos
alveja com um bombardeio de imagens que nos impactam através do cinema, da
TV, do rádio e da imprensa... essa avalanche de imagens proveniente do mundo
exterior bloqueia, desloca, substitui nossas próprias imagens internas, nossos
próprios e peculiares conteúdos. Assim a imagem interior não encontra lugar, não
emerge, não é estimulada. Desse modo, nesta época tecnificada e massificada, a
imaginação se limita e se torna apenas reprodutora. Como poderão as crianças de
hoje criar suas próprias imagens? Imagens inclusive da realidade presente? Como
imaginam o futuro? Qual futuro imaginam?
É justamente aí, que nós educadores atuamos, na educação através da
arte e em particular, da dança, integrando alunos, familiares e equipe de forma
que todos aprendam, reaprendam e utilizem sua capacidade de expressar –
verbalizar ou atuar – conteúdos que afloram da sensibilidade, da percepção do
mundo. Daí a razão pela qual adota como ponto central em seu trabalho o
estímulo à criatividade, da mais simples à mais complexa, desenvolvendo hábitos
saudáveis, atitudes e habilidades.
Nosso principal objetivo é difundir o universo da arte sem limites, para que a
cultura e o entretenimento façam, cada vez mais, parte da vida de crianças, jovens
e adultos, estabelecendo o diálogo entre a dança e a educação formal de modo a
subsidiar na teoria e na prática e ensino da dança. Além disso, o professor deve
buscar desenvolver no aluno a consciência do corpo e aprimorá-lo enquanto
instrumento de expressão; a percepção lúdica bem como a sua capacidade de
comunicação e criatividade e cuida, finalmente, de lapidar o dançarino,
capacitando-o a se expressar através das diferentes linguagens da dança.
II - O MOVIMENTO DO CORPO ATRAVÉS DA
DANÇA /EDUCAÇÃO
Corpo e movimento são indiscutivelmente inseparáveis. A dança na
educação usando como estratégia a inter - disciplinariedade, poderá viabilizar, no
processo educacional, condições de facultar às crianças descobertas de suas
possibilidades de movimentos com uma necessidade básica e essencial para
observação, compreensão e apreensão do mundo.
Compreendendo melhor o
mundo, a criança se relacionará melhor consigo, com os outros e com o ambiente.
As propostas e estratégias da dança na educação longe estão, portanto,
das perspectivas da escola tradicional, com movimentos disciplinados, corpos
passivos, encolhidos pelo meio. Sua dinâmica se volta para a qualidade e
variedade dos elementos corporais como estratégias para a libertação dos
desejos, das dificuldades de sair do seu contexto para outro maior ou abrangente,
de vencer as barreiras e dificuldades da apreensão dos conhecimentos. É o corpo
que sente, percebe, age; por que não ter então seu significado na educação?!...
Os movimentos da dança se constituem das características reais e integrais
do corpo ou partes do mesmo numa ação espontânea e de concentração a partir
de consciência corporal.
A consciência corporal básica, da dança na educação, permitiria ao aluno
perceber o corpo em sua unidade e as partes em sua diversidade em seus
segmentos e partes de segmentos demonstrando que as possibilidades de
combinações, seqüências e progressões ao dançar são ilimitadas. Ao perceber
estas possibilidades, o educando relacionará tais possibilidades com o outro e
também ao grupo, registrando uma exploração de possibilidades e experiências
quantitativas e abrangentes do enfoque – movimento e diversidade das formas.
No movimento em potencial o campo de força se manifesta fisicamente
através da emoção emanada pela energia advinda desta sem causar
deslocamento do corpo ou partes deste. É esta energia que confere ao movimento
neste estado a sua dinâmica podendo ocorrer com o corpo na unidade ou
diversidade da forma.
O movimento liberado tem como característica a modificação de formas
pelos contornos corporais a partir da unidade do todo para a diversidade das
partes ou segmentos das partes.
Segundo Sá Earp 1985, dois movimentos modificam a forma:
•
A “rotação” é o movimento das partes de um corpo em torno do eixo que
passa pelo centro da massa deste corpo;
•
A “translação” é o movimento do centro da massa do corpo em relação a
um referencial qualquer.
A rotação e translação podem ser executadas separadamente, ou
simultaneamente conforme as variedades e combinações de movimentos que
podem se processar sucessivamente uma após outra simultaneamente acontecer
ao mesmo tempo.
Sob o aspecto biomecânico, a percepção dos espaços interiores se
estabelecem pela percepção de:
•
Corpo como um todo;
•
Partes do corpo; esquema do corpo;
•
Articulações e ligamentos;
•
Fluxos energéticos;
•
Grupos neuro-musculares;
•
Imagem do corpo.
Segundo Viana devemos aguçar a percepção destes espaços e caminhar
no processo do auto-conhecimento.
“O homem se insere no universo e atua como síntese deste. Ao desvendar meu
próprio universo estarei conhecendo a humanidade e sob uma dimensão maior o próprio
universo. Quanto mais me perceber, quanto mais estiver presente em mim mais estarei
consciente do mundo”.
(VIANA, 1990).
A Dança/Educação, ao proporcionar às pessoas uma consciência
corporal a partir dos espaços internos do próprio corpo (emocional, mental,
psicológico), preserva e garante uma boa relação de equilíbrio com o espaço
exterior de maneira harmônica pela manifestação da dinâmica corporal.
A consciência corporal se divide em quatro estágios:
1º Estágio - Percepção das Partes do Corpo. Nesta primeira fase do trabalho,
através de exercícios lúdicos, deve-se trabalhar a observação e a percepção
consciente dos movimentos parciais sem obsessiva racionalização. A postura
deverá ser trabalhada visando a consciência dos atributos a limites constituídos
pois a mesma se elabora pelos padrões que lhe foram impressas por uma imagem
moldada pela relação com o mundo exterior.
2º Estágio - Percepção dos grupos musculares, articulações, ligamentos. Técnicas
empregadas na observação das tensões e flexibilidade muscular, de articular, das
seqüências de movimentos partindo dos básicos para os complexos, permitirão
perceber e desvelar a linguagem corporal pela sensibilização e percepção corporal
destes aspectos.
3º Estágio – Fluxos energéticos, emanados principalmente do externo e pelo solar.
Os teóricos da bionergética sustentam a idéia de que a energia é a base da
própria vida. P fluxo energético é algo cuja dimensão transcende a própria
materialidade.
O processo criativo da Dança/Educação é uma forma efetiva de
potencializar e canalizar essa energia. Através da energia vital produzida pela
atividade biológica o ser humano se relaciona consigo mesmo, com os outros,
com o mundo.
4º Estágio - Concentração, produção, dinâmica do movimento pela ação dos
fluxos musculares. Este estágio deverá ser trabalhado no sentido de facilitar a
utilização e distribuição da energia pelas diversas partes do corpo de forma fluida
e dinâmica, cuja canalização é veiculada pelo sistema neuro-muscular.
O conhecimento da consciência corporal através da concentração nos
fluxos energéticos, permitirá a produção e dinamização do movimento sem tensão,
de forma equilibrada e harmônica.
As aptidões perceptivas compreendem todas as formas de atividades
sensoriais que auxiliam o indivíduo a interpretar os estímulos e adaptar-se ao meio
ambiente através da estruturação e do enriquecimento das experiências motoras.
Estas aptidões são segundo Harrow (1983) as capacidades perceptivas,
pré-requisitos
para
aprendizagem
em
qualquer
comportamento
motor
e
efetivamente nas características específicas da Dança/Educação. Parece natural
que o professor de dança tenha a preocupação primordial, principalmente os que
educam crianças das primeiras séries escolares, orientem suas experiências para
um programa organizado das categorias perceptomotoras nas suas diversas
divisões. Um roteiro elaborado a partir dos objetivos comportamentais para se
conseguir um refinamento das capacidades perceptivas do aluno e, assim, obter
um progresso satisfatório em Dança/Educação deverá incluir:
•
Discriminação sinestésica (exteriores e interiores)
•
Consciência corporal: esquema corporal, imagem corporal;
•
Imagem corporal;
•
Discriminação visual;
•
Acuidade visual
•
Acompanhamento visual
•
Memória visual
•
Diferencialção figura-fundo
•
Coerência perceptiva;
•
Discriminação auditiva:
•
Acuidade auditiva
•
Acompanhamento auditivo
•
Memória auditiva.
•
Discriminação Sinestésica
A discriminação sinestésica envolve a compreensão das superfícies
corporais, dos membros; as dimensões direta-esquerda e os julgamentos
perceptivos da corporeidade em relação às dimensões espaço-temporal; envolve
ainda as inter-relações pertinentes aos objetos que o cercam. Em síntese,
consciência corporal é a concretização que o indivíduo tem de seu próprio corpo,
de como e em que ritmo ele se movimenta, de sua posição no espaço e seu meioambiente.Enfim, seria percepção do corpo de:
•
Como se move?
•
Quando se move?
•
Por que se move?
•
Onde se move?
A Dança/Educação ao dinamizar estratégias da percepção corporal em
relação ao espaço, objetos, estará contribuindo para o processo ensinoaprendizagem da discriminação sinestésica.
Consciência corporal é portanto a capacidade que o indivíduo possui para
reconhecer e controlar o corpo como um todo e seus componentes pelas partes
segmentares e a partir daí alcançar habilidades motoras e possibilidades de
explorar o interrelacionamento com o outro, objeto e meio-ambiente em geral
pelos conhecimentos práticos da mecânica corporal.
A dança pelo seu nível de exigência em relação a “postura corporal” e
aperfeiçoamentos dos reflexos posturais dinâmicos, pelo retroalinhamento ou
relação à colocação do centro de gravidade, faculta a manutenção do equilíbrio
mais constante. O corpo dançante, ao executar movimentos necessita de perceber
aspectos ligados às estruturas de uma boa consciência corporal e que sem um
bom equilíbrio dividiria sua atenção; disso resultaria dificuldade da percepção dos
aspectos bilateralidade, lateralidade e dominância dos segmentos corporais
exigidos pelos movimentos.
O conceito de imagem corporal sofre transformações de acordo com o
amadurecimento do indivíduo e a aquisição das consciências de seu próprio
corpo. Ela incide inicialmente sobre os sentimentos que estão em relação à sua
estrutura corporal e a realização de comportamentos motores observáveis,
necessários à melhor compreensão, previsão e controle do comportamento
humano. A imagem corporal, em seu processo de desenvolvimento da
consciência, dos mecanismos e bases fisiológicas do próprio corpo, é o conjunto
de conhecimentos considerados por Lê Boulch como intuição.
Para o autor, imagem corporal é:
...”uma
intuição
de
conjunto
ou
um
conhecimento imediato que temos de nosso corpo em
posição estática ou em movimento, na relação de suas
diferentes partes entre si e sobre tudo nas relações
com o espaço e os objetos que nos circundam”...
(LÊ BOULCH, 1983)
Estabelecendo paralelismo entre a percepção do esquema corporal dentro
de determinada faixa etária e o sentido do espaço existente entre as percepções e
ações que delimitam um esquema do nosso corpo, Bonier (1983) citado por
Arnaldi (1984) já estabelecia correlação com as negações corporais pelo indivíduo
quando apresentava perturbações no esquema e seqüencialmente na imagem
corporal.
De fato, esse aspecto pode ser considerado pertinente ao domínio afetivo
gerando sensações e percepções que o indivíduo tem ao estabelecer a relação do
seu espaço corporal e seu espaço circundante, e que podem refletir na sua
imagem corporal; estes fatores exerciam influências sobre o caráter da execução
de seus movimentos e no grau de profiência do desempenho de habilidades
motoras ou de sua performance.
“O corpo, com ser-para-si é a minha perspectiva sobre mim mesmo e a
perspectiva do outro sobre si mesmo”. (ARNALDI, 1984).
Na perspectiva da concepção fenomenológica de Merleau-ponty (1957), o
autor faz referência sobre a imagem corporal:
...”A teoria do esquema corporal é já
implicitamente uma teoria de percepção. Temos
reaprendido o sentir nosso corpo, temos encontrado de
novo, por debaixo do saber objetivo e distante do
corpo, outro saber que temos, porque sempre está
conosco e porque somos corpo”.
(ARNALDI, 1984).
A importância de organização da imagem corporal para Dança/Educação
instala-se nas melhores possibilidades de coordenação de associação gestual e
de ação do comportamento motor.
Dependente deste estará também o nível de desenvolvimento da língua
verbal e desse para a expressão a comunicação corporal.
Poderíamos fazer relação com a perspectiva Piagetiana dos estágios de
desenvolvimento relacionados a abstração e, portanto à linguagem pela
simbolização. Estes aspectos explorados por Piaget reduzem na evolução
psicomotora do ser humano ao fazer passagem do estágio sensório-motor para o
perceptivo motor, o desenvolvimento da simbolização seguido de possibilidades
de abstração (a verbalização passa primeiro pelo corpo conforme constatam os
aspectos abordados). Dançar e comunicar-se pela expressão de gesto que
movimenta as idéias latentes no inconsciente.
As relações entre o corpo e o objeto referem-se à consciência corporal
dentro da especificidade dos conceitos direcionais do indivíduo em relação à sua
projeção e desenhos (direções e sentidos) descritos no espaço; seja a relação
entre o corpo, os objetos e o espaço circundante.
Assim sendo, o corpo é enfocado como objeto central e inicial da
organização perceptiva em seu espaço interior e exterior. Além disso, a percepção
proprioceptora de seu corpo é constante e se opõe portanto, à viabilidade
constante das percepções extereoceptivas.
A partir dessa estruturação espaço-temporal o indivíduo estará em
condições de projetar seu interior nos três planos espaciais exteriores e situar por
associação, á seu “eu” corporal, em objetos circundantes. Esta reversibilidade de
estruturação lógica permitirá, no plano psicológico, o educando situar-se em
relação aos objetos ou em relação ao outro maturando-se. Isto lhe permitirá
transpor da sua posição egocêntrica pela descentralização do seu “eu” para o
desenvolvimento das condições necessárias à aceitação do outro e do mundo em
geral como meio-ambiente. Esta etapa psicológica, de ordem afetiva na existência
do ser fará com que o indivíduo seja capaz de organizar racionalmente o mundo
que o cerca tendo entretanto com um referencial inconscientemente implícito à
sua organização espaço-temporal.
A atividade perceptiva inicial de tempo e a noção que se desenvolve no
espaço concorrem seqüencialmente para as noções de estruturação de ritmo –
nível de abstração e intelectualização mais elevado.
A educação do corpo em relação à sua situação espacial e temporal
desenvolvidos em Dança/Educação é portanto de fundamental importância para a
organização estrutural da personalidade do indivíduo e sua organização mundo
“eu” de ordem afetiva e existencial.
Programas, graduais e sucessivos a nível evolutivo sob este enfoque
contribuem efetivamente para a educação integral do Ser.
O ser humano tornou-se homem, na medida que ao descer das árvores,
passando do estágio evolutivo, amplia seu campo visual, melhora seus horizontes
perceptivos.
A discriminação visual é uma sub-categoria das aptidões perceptivas de
grande influência na expectativa de comportamento motor a nível de habilidade e
conseqüentemente de performance.
O desenvolvimento das percepções visuais proporcionam ao indivíduo a
habilidade de controle visual em seu campo de ação. A ampliação do campo
visual favoreceu ao homem o desempenho dos diferentes níveis de habilidades
motoras, constituindo-se um importante fator de acompanhamento e controle do
movimento em sua totalidade.
A
discriminação
visual
integrando
as
subcategorias
das
aptidões
perceptivas se subdividem em acuidade visual, acompanhamento visual, memória
visual, diferenciação figura-fundo e coerência perceptiva.
Acuidade visual é a capacidade que o indivíduo tem, através da percepção,
de estabelecer diferença entre os vários objetos e acontecimentos circundantes. A
acuidade visual evidencia a capacidade do indivíduo distinguir figuras geométricas
simples ou combinadas. Na dança, esta capacidade se transfere para as
formações e deslocamentos no solo ao estabelecer direções e sentidos do corpo
com as possibilidades espaço-temporais estabelecidas nas coreografias, assim
como diferentes formas em diferentes posições.
O acompanhamento visual é a capacidade de se seguir imagens ou objetos
com os movimentos coordenados dos olhos que na dança se transfere para os
outros ou seja, os corpos dos dançarinos em movimento.
A memória é a capacidade de relembrar experiências visuais passadas e
aplicá-las à experiências imediatas na execução e posição do seu corpo no
espaço ou em relação aos outros corpos dançantes.
A diferenciação figura-fundo é a capacidade de selecionar figura dominante
destacando-a do contexto em que se insere. Identificar o dançarino dominante em
movimento e reagir de acordo com sua situação em relação à adequação das
relações espaço-temporal exigidos indicam o desenvolvimento evolutivo desta
aptidão perceptiva.
A coerência perceptiva em nível de capacidade perceptiva e a possibilidade
de reconhecer figuras-formas em diferentes situações. Identificar seu corpo às
formas corporais em relação a igualdade ou diferença dos corpos dançantes – é
um estágio avançado de aptidão perceptiva.
A discriminação auditiva é a capacidade do indivíduo interpretar controles
acústicos através da diferenciação de intensidade, freqüência e timbre dos sons e
seus ritmos. O suporte musical é um fator importante na execução dos
movimentos e deslocamentos coreográficos; portanto, aporte afetivo nas
atividades de dança. Suas subcategorias acuidade auditiva, acompanhamento
auditivo e memória auditiva são suportes afetivos em nível seqüencial e
subseqüencial das percepções auditivas.
Acuidade auditiva é a capacidade de perceber e estabelecer diferenças
entre variedade de sons (intensidade, tons).
O acompanhamento auditivo é a capacidade de distinguir e seguir em
direção ao som. Memória auditiva envolve a habilidade de reconhecer e reproduzir
experiências auditivas passadas. Todas estas características de audição são de
extrema importância para a sincronia e harmonia do corpo em movimento e sua
relação com o espaço, com outros corpos e outros no espaço coreográfico.
Discriminação táctil é uma aptidão perceptiva cuja capacidade táctil está em
estabelecer a diferença entre as várias texturas, o calor, superfícies e outros ao
estabelecer determinada modalidade táctil, ao contato ou não com o material
possibilitando uma qualificação diferencial entre a forma, tamanho, tipo de
material; diferenciação entre o leve-pesado, duro-macio, liso-áspero, grandepequeno, redondo-pontudo, comprido-curto, através das coordenações olho/mão,
olho/pé, ou em geral.
A coordenação geral da adaptação perceptiva envolve como esclarecemos
acima duas ou mais capacidades perceptivas e padrões motores e reemplica na
capacidade de distinguir a “figura-fundo” e de coordenar visualmente o objetivo
percebendo-o com movimentos manipuladores e movimentos não locomotores.
A coordenação olho/mão se refere à capacidade de coordenar visualmente
objeto com os movimentos manipuladores exigindo como pré-requisito à acuidade
visual e controle motor.
A coordenação olho/pé corresponde à capacidade de se distinguir e
coordenar um objeto percebido visualmente com os movimentos dos membros
inferiores.
A coordenação táctil evidencia a necessidade de desenvolver na dança
habilidades de contrastes e nuances entre as aptidões tácteis em íntima relação
com as visuais e de forma secundárias com as adaptativas.
A Dança é uma arte que ocorre no espaço e no tempo, sendo ambos
igualmente importantes à sua realização. Segundo Barroco & Santos (1978)
existem três características fundamentais pertinentes ao elemento espaço: a
extensidade, simultaneidade e coexistência.
Ao elemento espaço, estão ligados e intensidade, sucessão, substituição e
irreversibilidade.
Tompakaw e Weil (1980) acrescentam ao tempo e espaço um elemento
fundamental – a energia. Assim, um passo tem uma determinada dinâmica que é
a energia presente nele – é a intensidade.
A dança se realiza portanto, no espaço pelas formas que o corpo humano
toma ao dançar e pelas relações entre o corpo e o espaço geral ocupado para
elaborar os movimentos coreográficos da dança.
No tempo, o movimento se realiza em sucessões de formas com passagens
de um para outra dentro do ritmo estabelecido.
A dinâmica coreográfica resulta das energias geradas pela tensão presente
nos movimentos culmina estes elementos espaciais.
Dança, portanto, é harmonia dos movimentos em identificação com o
tempo, espaço e as energias fluidas da tensão ou da dinâmica gerada pela coesão
dos movimentos. Tudo se estrutura num todo harmônico e coerente pela relação e
interação de seus elementos estruturais.
A Dança é uma arte tão antiga quanto o homem enquanto forma de
linguagem.
O corpo tem uma linguagem que lhe é peculiar, predessessora e
complementar da linguagem oral. A dança, através dos elementos coreográficos
utiliza essa linguagem, ampliando-a e codificando-a para estabelecer uma
comunicação e expressão.
Na dança as formas e passos são as unidades significativas ou signos
corporais. Estes se organizam em seqüências, no tempo, espaço, com certa
conotação enfática na expressão do gesto e por um discurso não verbal de valor
estético,chamada significativamente de coreografia ou arte de dançar.
A coreografia, aporte da dança, procura transmitir um estado de espírito,
uma maneira de se ver ou de ver o mundo, enfim, expressar-se e comunicar-se
pela linguagem corporal.
É a linguagem do corpo, às vezes, mais adequada do que a linguagem
verbal para informar sobre as atitudes e emoções de uma pessoa. Por isso, a
Dança como uma arte conceitual, além de transmitir os valores estéticos inerentes
ao trabalho coreográfico é adequada para transmitir emoções, idéias, sentimentos,
princípios filosóficos ou éticos: chaves da linguagem corporal.
A coreografia foi, e será sempre contextualizada. Sabemos que todo o
comportamento humano expressivo é sempre destituído de significado fora de seu
contexto cultural, pois a cultura desempenha um papel importante no
dimensionamento humano da comunicação e expressão.
A criação da arte coreográfica é portanto, expressão da dimensão humana
do artista aliada as influências do contexto sócio-cultural onde este está inserido.
Os braços são partes importantes e fundamentais na linguagem do corpo
nas coreografias. Podem ser molduras para o rosto; ser o “élan” ou impulso para
os saltos; fonte de equilíbrio para os passos ou ser elementos de interrelação
entre os personagens da coreografia. Podem expressar uma linha entre a terra, o
infinito; asas para os grandes saltos ou círculos de equilíbrio e segurança.
Hoje, a postura do corpo – “aplomb” – é o primeiro elemento existente na
dança clássica ou postura geral do dançarino. O “aplomb” é a postura ereta e
alongada, com a cabeça erguida sem qualquer conotação de esforço; é uma
postura harmônica e com características requintadas permeia resquícios de sua
origem nobre. O “aplomb” clássico exige postura e equilíbrio poderia ser
transportado para o aspecto psicológico das pessoas, como por exemplo a análise
da seguinte linguagem do corpo: se houver um equilíbrio entre cabeça, tórax e
abdomem, isto poderá denotar equilíbrio de personalidade. Quando uma
coreografia aborda em sua temática, um elemento ou personagem perturbado ou
negativo, seu corpo entra em desequilíbrio para dar a conotação específica e
desejada à interpretação dos aspectos pretendidos.
No Ballet Clássico, os braços arredondados são resquícios da origem
aristocrática: coroas e molduras, para o rosto. Enquanto que na época romântica
eles evoluíram para as formas arredondadas, os braços hoje, se alongam nos
trabalhos coreográficos tornando-se não mais um adorno, mas um elemento
significativo na comunicação e expressão de conteúdo de uma temática
coreográfica.
A utilização das mãos na dança é um efetivo recurso expressivo. Passar
uma expressão de relaxamento e harmonia, tensão e energia ou completar a
forma alongada proposta pelo corpo.
O olhar é outro elemento essencial e de forte expressão para os
personagens de uma coreografia. Sua direção no palco ou a distância entre o
personagem e a platéia é fundamental para completar a comunicação.
Naturalmente que ele deve ser vivo e coerente com a emoção do personagem que
se está dançando. Tudo isto é completado pela direção da cabeça, posição do
corpo e colocação dos braços.
Em resumo, o olhar informa sobretudo, a respeito da direção a ser tomada
pelo dançarino e cria também uma relação de proximidade ou afastamento entre
este e o público.
A distribuição espacial dos dançarinos no palco pode informar ao público
sobre sentimentos, emoções, idéias. A aproximação entre dois corpos como
harmonia que denota amor. O espaço é, portanto, elemento informativo de
sentimentos entre duas pessoas.
Nos “pás-de-deux” por exemplo, as desavenças amorosas, os jogos de
aceitação ou recusas são simbolizados pela mudança da posição do corpo.
Afastar-se, virar-se de costas para o outro; caminhar apressado ou correr pelo
palco indica desavenças, desarmonia. Em uma temática coreográfica, quando um
personagem é obrigado a se afastar do outro sem desejá-lo, ele o fará mantendo
de frente para o mesmo.
A organização de pessoas em pequenos e grandes grupos é elemento
informativo bastante usado para indicar as relações emocionais e também sociais.
Assim, as posições dos elementos em colunas no palco indicam uma conotação
militar de submissão pelo comando dos elementos de vanguarda.
Os desenhos formados pela irregularidade no palco dão a impressão de
descontração, alegria e liberdade ou opressão, dúvidas, questionamentos.
A retórica do corpo é sem sombra de dúvida um meio de comunicação e
expressão onde o coreógrafo e dançarinos expressam em suas danças um
discurso como qualquer outra forma de expressão através de seus significantes e
significados específicos ao colocar no corpo o código da linguagem de uma ou
mais técnicas de dança. O corpo é, portanto, o principal elemento utilizado do
conteúdo de sua comunicação para expressar sentimentos e emoções, sendo
assim a psicomotricidade é fator predominante ao ato de dançar.
O conceito do corpo é o conhecimento intelectual que o indivíduo tem do
seu corpo e de cada função dos seus órgãos. O esquema corporal consiste em a
criança ser capaz de representar mentalmente seu próprio corpo, seus segmentos
(pernas, pés, braços, mãos), suas possibilidades de movimentação e sua idéia de
aspecto. Numa palavra, podemos dizer: conhecer o esquema corporal é ter
consciência do próprio corpo.
A psicomotricidade está associada à afetividade e personalidade,
porque o indivíduo utiliza seu corpo para demonstrar o que sente, e uma pessoa
com problemas motores passa a ter problemas de expressão. Psicomotricidade é
a ciência da educação que educa o movimento, ao mesmo tempo em que põe em
jogo as funções da inteligência. A partir desta posição, pode-se ver a relação
intrínseca das funções motoras cognitivas e que, também pela afetividade,
encaminha o movimento.
III – A DANÇA/EDUCAÇÃO E OS PARÂMETROS
CURRICULARES NACIONAIS
Nos últimos anos, a preocupação de educadores e legisladores brasileiros
tem sido mencionar a dança em seus trabalhos e programas.
A Dança foi incluída nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs, 1997)
como linguagem artística, ganhando aceitação nacional como forma de
conhecimento a ser trabalhado na escola. Ao mesmo tempo, muitos congressos,
simpósios, encontros e cursos de nível universitário têm mostrado preocupação
em incluir a dança em currículos de graduação e pós-graduação, visando a
formação de professores para esse campo.
Entretanto, muitas dúvidas persistem, não só no Brasil como em várias
partes do mundo sobre o ensino da dança nas escolas de educação básica. Entre
as dúvidas, algumas se sobressaem como a de saber em que disciplina a dança
seria ensinada. Arte ou Educação Física? Ou, deveríamos pensar em uma
disciplina exclusivamente dedicada à dança? Outra dúvida diz respeito ao
significado do ensino da dança nas escolas: uma área do conhecimento, um
recurso pedagógico, um exercício físico ou uma terapia? Enfim, que nome seria
dado ao ensino da dança na escola? Poderia ser Expressão Corporal,Educação
pelo/do/no movimento, Dança Educativa segundo alguns professores?
Dentro dessa diversidade de idéias ou propostas, seria interessante olhar
de modo mais crítico o ensino da dança na escola. A época que vivemos é
caracterizada por uma infinidade de possibilidades educativas geradas pelas
exigências de sociedade tecnológicas em permanente e acelerada transformação,
obrigando a um novo posicionamento sobre o sentido do que é educação,
formação, ensino e aprendizagem. Estamos falando não do fim da escola, mas do
fim desta escola, desta educação que ao longo do tempo vem negligenciando o
corpo, a arte e, portanto, a dança.
A escola é hoje sem dúvida, um lugar privilegiado para se aprender a dança
com qualidade, profundidade, compromisso, amplitude e responsabilidade.
Entretanto, o pensamento pedagógico brasileiro tem sofrido as conseqüências de
posturas racionalistas e dualistas, fundando-se em valores que há séculos têm
valorizado o conhecimento analítico, descritivo e linear em prejuízo do
conhecimento sistêmico, corporal e intuitivo.
Desde que os pesquisadores começaram a estudar e analisar a situação do
ensino de Arte no país, a dança é uma desconhecida para a escola. A linguagem
da
dança
exige
propostas
que
trabalhem
seus
aspectos
criativos
e
transformadores e, por isso mesmo, imprevisíveis e indeterminados, assustando
aqueles que aprenderam e são regidos pela didática tradicional. Por isso, os
projetos de criação em dança acabam não se encaixando nos modelos
tradicionais de educação.
O fato de o Brasil ser um país “dançante”, onde a dança é de domínio
público, um país vibrante e corporal, tem dificultado e mesmo excluído a dança da
escola a possibilidade de estudá-la com profundidade e amplitude.
Infelizmente, o ensino da dança ainda está encoberto por uma densa
camada de pensamentos preconceituosos em relação à sua “natureza”, o que se
pode observar nos nomes que muitos professores lhe dão como “expressão
corporal” ou “arte e criação”, entre outros.
Os PCNs sugerem/determinam que um dos objetivos do ensino da dança é
a compreensão da estrutura e funcionamento do corpo e o estudo do movimento
humano, devendo ser articulados com a percepção do espaço, peso e tempo.
Sendo a dança uma forma de integração e expressão tanto individual quanto
coletiva, ela permite que a criança (ou o jovem) exercite a atenção, a percepção, a
colaboração e a solidariedade.
O ensino da dança “contribui também para o desenvolvimento do aluno no
que se refere à consciência e à construção de sua imagem corporal, aspectos que
são fundamentais para seu crescimento individual e sua consciência social”
(PCNs, 1997).
As atividades lúdicas na escola com a inclusão da dança nos currículos
escolares
veio
permitir
a
experimentação
e
a
criação
exercitando
a
espontaneidade. Na interação que ocorre nas atividades coletivas, aparecem as
oportunidades não só para a criança experimentar sua motricidade e a
plasticidade do seu corpo exercitando suas capacidades motoras e expressivas
como, também, vir a perceber semelhanças e contrastes, tentando compreendêlas e coordenar suas próprias habilidades e expressões com respeito e
cooperação.
Para introduzir o aluno na linguagem da dança, a proposta dos PCNs,
determina quais são os elementos básicos para a ação do professor: que deve,
para bem planejar as suas aulas:
•
Considerar o desenvolvimento da motricidade dos alunos;
•
Observar suas habilidades e atitudes físicas;
•
Estimular a pesquisa dos gestos a fim de amplia-los e capacitar o
corpo para o movimento;
•
Levar o aluno a reconhecer ritmos (corporais e externos);
•
Estimular o aluno a explorar o espaço e inventar seqüências de
movimento;
•
Levar o aluno a explorar a sua imaginação e sua criatividade,
desenvolvendo seu sentido de forma e linha;
•
Ensinar como se relacionar com os outros alunos na busca de forma
e sentido para a pesquisa de movimentos.
A atividade física necessária para o desenvolvimento infantil é parte da
aprendizagem da criança, atravessada pela sua curiosidade natural e desejo de
conhecer. Este é um dos principais motivos para que a criança seja desenvolvida
na escola com espírito de investigação: permitir que a criança tome consciência da
função dinâmica da sua corporeidade, do gesto e do movimento como expressão
da sua pessoa e de sua cultura.
Os PCNs enfatizam a observação e apreciação das atividades de dança
pelo aluno.
“o aluno deve observar e apreciar as
atividades de dança realizadas por outros (colegas e
adultos), para desenvolver seu olhar, fruição,
sensibilidade e capacidade analítica, estabelecendo
opiniões próprias. Essa também é uma maneira de o
aluno compreender e incorporar a diversidade de
expressões, de reconhecer individualidades e qualidades
estéticas. Tal fruição enriquecerá sua própria criação em
dança”.
(PCNs, 1997)
O papel do professor para esse aprendizado é de sempre manter uma
atitude capaz de criar clima de atenção e concentração, onde se respire alegria. O
uso do espaço e o relacionamento devem ter regras para que a aula tenha um
bom andamento. Outra atitude importante do professor é favorecer condições para
o aluno adquirir confiança na sua capacidade de exploração de movimentos,
estimular a sua criatividade e coordenação de seus movimentos com os dos
outros colegas.
No planejamento das aulas é importante escolher os temas levando em
consideração o desenvolvimento dos alunos. Muitas propostas podem ser feitas
como orientar pesquisas de movimento, de estímulos rítmicos e, também, a
criação de movimentos em parceria com um colega ou grupo de colegas. Outra
atividade é criar composições com a área de música.
A experimentação é necessária pois permite que os alunos descubram suas
capacidades, adquirindo segurança para se movimentarem e para que possam
atuar e recriar partindo das suas descobertas e experiências. Por isso, nem
sempre a originalidade deve ser exigida em cada aula, pois, não só os alunos
apreciam repetir as atividades como sabem que essa repetição lhes é necessária.
As aulas podem ou não ser acompanhadas por música ou outros estímulos
sonoros. O silêncio também comporta ritmos internos e externos que podem e
devem ser explorados.
As manifestações populares são valorizadas na proposta curricular devendo
estar presentes no repertório dos alunos, constituindo material importante para a
aprendizagem. Parte da riqueza cultural dos povos, os jogos populares de
movimento, as cirandas, as amarelinhas e muitos outros são importantes como
fonte de pesquisa.
Assim, do modo como é proposta pela área de Arte dos PCNs, a dança tem
como propósito o desenvolvimento integral e harmônico do aluno, ao permitir que
ele através da experiência motora, observe e analise as atividades humanas
desenvolvendo sua expressividade que é a base da criação estética.
Entretanto, essa inclusão da Dança nos Parâmetros Curriculares Nacionais
vem suscitando, desde a sua publicação, muitas discussões e debates entre
profissionais de diversas áreas do conhecimento e de instituições que trabalham
com o ensino e a pesquisa. Por isso mesmo, gostaria de refletir aqui sobre as
possibilidades práticas de trabalho com esse documento na área de dança.
A proposta de trabalho norteada pelos temas transversais tem implicações
diretas em nossas futuras atividades em sala de aula. Algumas reflexões precisam
ser feitas sobre possibilidade e abordagens desses temas na área de dança.
Em primeiro lugar, a área da dança tem sido, historicamente, marcada pela
falta de profissionais qualificados para ensiná-la em nosso país, sendo deixada a
cargo de professores com formação em Pedagogia, Educação Física ou Educação
Artística, sem experiência e/ou reflexão pedagógica com a dança.
Os PCNs são, sobretudo, uma alternativa para que esses professores
possam ter alguns subsídios para não comprometer demais a qualidade do
trabalho artístico em sala de aula. Obviamente, o documento não pretende formar
professores de dança, mas como o próprio nome diz, indicam parâmetros até que
país tenha professores licenciados em dança para atender às demandas do seu
ensino.
O trabalho com os temas transversais na área de dança tem interface com
outras disciplinas do currículo que também têm o corpo como eixo principal de
articulação e trabalho como a Educação Física, as Ciências Naturais e até, a
História e a Geografia. Por isso mesmo, nos limitamos a refletir sobre temas que
possam dizer respeito aos aspectos que abordem diretamente a dança em si, ou
seja, improvisações e composições coreográficas contextualizadas a partir da
história, ciências sociais e estética e repertórios.
É importante ressaltar que o trabalho com os Temas Transversais não deve
se sobrepor aos conteúdos específicos dessa área do conhecimento, mas sim
ampliar sua prática e reflexões para abranger os aspectos sociais, afetivos,
culturais e políticos da dança em sociedade.
A linguagem da dança é um campo privilegiado para o professor trabalhar,
discutir e problematizar a pluralidade cultural em nossa sociedade.
Ao propor improvisações, repertórios e apreciação de danças, o professor
pode chamar a atenção dos alunos destacando os corpos que dançam e os
corpos na dança, através da exploração das diversas escolhas que surgem pelo
período histórico, pela localização geográfica, pelas crenças e valores de uma
época ou de uma região.
A diversidade de biótipos encontrados hoje no Brasil leva à observação de
que o corpo em si, já é uma expressão de pluralidade, e que a maneira como
esses corpos movimentam torna evidentes os aspectos sócio-políticos-culturais
em dança. Também as relações de espaço/tempo contidas nas danças
tradicionais rituais ou populares, e, nas produções artísticas teatrais (moderno,
clássico, contemporâneo), estão em relação direta com a pluralidade cultural. Isto
porque expressam e comunicam conceitos e vivências de diferentes épocas e
lugares, contendo, desse modo, muitas possibilidades de através da dança
compreendermos, descobrirmos, probletizarmos e transformamos as relações que
se estabelecem em nossa sociedade entre etnias, gêneros, idades, classes
sociais e religiões.
Estudos antropológicos e sociológicos também explicam a relação
corpo/dança como uma relação entre corpo, intuição, emoção e conhecimento
indireto.
Numa sociedade machista como a nossa existem muitos preconceitos em
relação à dança, e um dos mais fortes é com relação ao Gênero, ou seja, diz-se
que “dançar é coisa de mulher”, “afeminização” e outras expressões mais fortes.
Esse preconceito se dá em vários níveis, e de acordo com os pesquisadores, está
contido no imaginário social do mundo ocidental. Por exemplo, mesmo nunca
tendo assistido a um espetáculo de balé clássico, muitas vezes esse imaginário
associa a dança diretamente a ele, e, conseqüentemente, à características como
“graça, delicadeza, meiguice, leveza que são tidas como impróprias para o
homem.
As sugestões contidas nos PCNs sobre o trabalho com Temas Transversais
facilitam o estudo da formação desses preconceitos, problematizando essas
relações, contextualizando-as histórica e geograficamente, por meio da dança,
que elas sejam de equidade e cooperação.
Os alunos entenderão que as danças não são “naturais” de etnia alguma,
mas essencialmente aprendidas em sociedade o que determina se podemos ou
não dançar são os nossos corpos não a cor da pele, formato do nariz ou da boca.
O trabalho educativo, portanto, poderá pautar-se na apreciação das
diferenças (raça, idade, classe social, gênero, etc.). Sem mistificar nem criar
ilusões e/ou gerar conflitos pessoais intransponíveis, podemos perceber que, por
meio da dança, os nossos corpos podem conviver com os demais.
A dança na escola tem o potencial de desenvolver a consciência crítica em
relação aos preconceitos, enfatizando a aceitação das diferenças, a valorização e
a crença em que diferentes corpos criam diferentes danças.
O conhecimento da dança de outros povos, regiões e épocas diferente
permite um trabalho artístico/educativo voltado para o diálogo verbal e corporal
com culturas distintas da nossa. Entretanto, para ensiná-las, bem como nossas
danças populares, é preciso levar em conta as escolhas pessoais dos alunos. Não
se pode obrigá-los a recriar passos de danças com as quais não se identifiquem.
Somente uma postura crítica em relação às danças que aprendemos e/ou criamos
a partir da tradição dos povos possibilita um outro tipo de olhar, um olhar ingênuo
nem complacente frente às contribuições das etnias e culturas formadoras do
povo brasileiro. Essa consciência crítica permite, ainda, perceber nos processos
de criação, sejam pessoais ou coletivas, as histórias que carregamos, os povos
que representamos, e as escolhas que fazemos em relação as nossas vivências e
atitudes nesta sociedade global.
Ainda nos PCNs, a questão da ética como proposta leva a pergunta “como
devo agir perante os outros”? e desencadeia uma série de reflexões que podem
ser geradas em sala de aula de dança. Explicando, vivenciando e refletindo
os
papéis do diretor, coreógrafo e intérpretes no mundo da dança, por exemplo, abrese (metaforicamente) a possibilidade das escolhas sobre o desempenho de papéis
e ação junto aos outros. Desse modo, a seleção dos conteúdos de dança ligados
a seus processos artísticos pode ser de suma importância para uma educação
que trabalhe com base no respeito mútuo, nos princípios de justiça e no diálogo.
Assim,
dança/gênero,
dança/etnia,
dança/idade,
dança/ética,
dança/ecologia, todos os temas transversais podem ser explorados no trabalho da
dança na escola.
A presença da Arte nos currículos escolares com a publicação dos PCNs
em 1997 trouxe, pela primeira vez na história do país, a inclusão da dança como
parte integrante da educação em Arte. Porém, a distância entre é proposto e
aquilo que é, efetivamente, praticado, já por tradição, no meio educacional levanos a temer que a importância da arte e da dança na educação, se não for
seriamente considerada e aplicada, continuará a ser proposta utópica.
CONCLUSÃO
A dança é a expressão mais pura e sincera de idéias, ação e sentimentos.
Podemos observar a dança em todos os seres criados por Deus: as folhas
balançando ao vento, grãos de areia passeando e até modificando paisagens,
abelhas de flor em flor, pássaros criando coreografias para conquistar sua
parceira e homens quando querem expressar alegria, raiva, frustração, calma,
paixão, amor...
A dança é o elixir para a alma e um exercício completo para o corpo.
Podemos desenvolver a psicomotricidade em sua totalidade através da dança.
Desenvolvimento
dos
músculos,
equilíbrio,
lateralidade,
ritmo,
coordenação, percepção, são alguns requisitos exigidos a um dançarino. Assim a
dança na escola pode tornar a psicomotricidade envolvente, atraente e prazerosa.
Através do ensino da dança estaremos ampliando a sua visão de totalidade
e interdependência, dando novas oportunidades para a busca do novo e também
lhe oferecendo a valorização do sentir, pensar e agir, no momento da prática
educativa.
Considerando a educação como evolução e transformação do indivíduo, a
dança como expressão da corporeidade, o ensino da dança na escola deve
proporcionar oportunidades para que eles possam desenvolver todos os seus
domínios do comportamento humano.
A Dança/Educação precisa ser encarada com seriedade e compromisso
para que conquiste seu espaço na escola e obtenha o respeito que merece. Por
isso o profissional deve estar capacitado e consciente de seu papel dinamizador,
artístico e transformador, desenvolvendo em seus alunos não apenas a
psicomotricidade, mas também a afetividade que envolve todo movimento.
BIBLIOGRAFIA
ALVES, Rubens. A alegria de ensinar. São Paulo, Ars Poética, 1994.
BABIN, P. e KOULOUMDJIIAN, M. F. Os novos modos de compreender.
São Paulo, Ed. Paulinas, 1989.
BARBOSA, A. M. Arte e Educação no Brasil: das origens ao modernismo.
São Paulo, Perspectiva, 1978.
BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental – Parâmetros Curriculares
Nacionais. Brasília, MEC/SEF, 1997/1998.
CAMARGO, M. L. M. de Música/movimento: um universo em duas
dimensões. Ed. Vila Rica, BH, MG, 1994.
FREIRE, Paulo – Educação e mudança. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.
FUZARI, M. F & FERRAZ, M. H. A arte na educação escolar.São Paulo,
Cortez, 1993.
GARAUDY, Roger. Dançar a vida. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980.
HASELBACH, Bárbara. Dança, Improvisação e Movimento. Rio de Janeiro,
Ao Livro Técnico, 1989.
LABAN, Rudolf. Domínio do movimento. São Paulo, Summers Editorial,
1978.
MARQUES, Isabel A. Ensino de dança hoje: Textos e Contextos. São Paulo,
Cortez, 1999.
________, Dançando na escola, São Paulo, Cortez, 2003.
OSSONA, Paulina – Educação pela dança. São Paulo, Summus Editorial,
1988.
ATIVIDADES CULTURAIS
UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES
INSTITUTO SUPERIOR DE EDUCAÇÃO
PROJETO A VEZ DO MESTRE
FOLHA DE AVALIAÇÃO
CURSO: Pós-Graduação em Psicomotricidade
ORIENTADORA: Fabiane Muniz
CURSISTA: Hebe Rachel de Oliveira Otto
AVALIADO POR:..............................................................GRAU:...............
Apreciação crítica do relatório final, recomendações, sugestões:
..............................................................................................................
..............................................................................................................
..............................................................................................................
..............................................................................................................
..............................................................................................................
..............................................................................................................
Rio, ............de.............................................de 2005.
.............................................................................................................
Assinatura do Supervisor
Download

dança - AVM Faculdade Integrada