∗ Por um teatro participativo: tocar em vez de bolinar Felix Ruckert Tradução: Fabio M. Said Hoje em dia, a relação entre atores e receptores na dança lembra a falta de carinho presente nas cenas de um clube de swingers. Uma mecânica do encontro medrosa e às vezes ridícula que abraça a ilusão de liberdade. Uma máquina de brinquedo sem fim que pretende substituir a falta de criatividade. Uma emoção incipiente logo relativizada pelo humor. O indivíduo se deixa levar fisicamente, sem acovardar-se diante da imundície, da dor ou dos berros, mas seu coração não pode e nem quer estar ali. O que será isso? Nos palcos contemporâneos, há muito sexo e muito consumismo, mas pouco amor e doação. As teorias da comunicação abafam o estranhamento e a estupefação. Aliás, falando de consumismo: o produto-dança, quando bem-sucedido, permite a maior projeção possível. Ele diz muito e, no entanto, não pretende significar nada. Simula uma transformação da percepção em vez de transformar de fato. Dá-nos a chance de escolha entre irrelevâncias. Vendenos variação em vez de inovação. Como acontece, afinal, com todos os demais produtos de consumo supérfluos, o produto-dança só faz gerar renovação e transformação ilusórias, em vez de transformação real. Assim como todo tipo de impulso criativo, a força crua, subversiva e terapêutica da dança também está sendo destruída pelo mercado. Um sistema de academias e festivais, aliança entre meios de comunicação, teóricos e organizadores de eventos, filtra o desejo arcaico de movimento, destilando assim artefatos estéreis a fim de satisfazer as necessidades de uma elite caprichosa de espectadores da dança. É a sociedade do consumo. Contudo, por mais que apreciemos a ludicidade, irracionalidade e transitoriedade de nosso trabalho, nós, dançarinos, também tentamos fabricar produtos comercializáveis e vendê-los pelo preço mais caro possível! Nós também somos inclinados a acreditar que a compatibilidade com as massas e os índices de venda são indicadores de qualidade e acabamos nos entregando às exigências do olhar coletivo. Nosso produto é entregue com a qualidade e cor que o freguês desejar. Teatros são não-espaços, negros e sem luz, criados para focar uma percepção diferenciada do cotidiano. São noites artificiais, nas quais tentamos direcionar o olhar para elementos essenciais por meio de complexos equipamentos cenográficos. Igual desespero dá-se no trabalho da astronáutica e da física avançada, que contam com o auxílio de tecnologia dispendiosa para tornar compreensíveis a imensidão do espaço ou a relatividade do tempo. Se fosse gasta a mesma quantidade de dinheiro para pesquisar o inconsciente, a capacidade perceptiva humana, nosso “software proprietário”, os resultados poderiam ser muito mais satisfatórios. Mas somente enquanto não houver incentivo à incerteza e à provocação, mas sim às idéias e ao consenso... Há mais de cem anos, a famosa locomotiva avançou a todo vapor sobre o primeiro público de cinema, que saiu correndo da sala aos berros. Apesar da rudimentariedade técnica das imagens e da evidente ilusão, os espectadores não foram capazes de confiar em sua percepção, nem reprimir sua reação física imediata. E à medida que os equipamentos cinematográficos se aperfeiçoavam, mais matizada se tornava nossa sensibilidade. Hoje, já conseguimos distinguir muito bem entre realidade e ilusão e nos expor com maior prazer no cinema a sentimentos amargos como medo, repulsa, compaixão ou luto. Nossa sensibilidade aprimorada de receptores tem nisso uma importância decisiva. Se tivermos confiança em nossos próprios sentimentos, seremos capazes de fazer essa distinção. Se estivermos acostumados a expressar esses sentimentos, estaremos também mais receptivos para a autenticidade. ∗ A reprodução deste artigo foi gentilmente autorizada pela editora transcript Verlag; publicado originalmente em: Sabine Gehm/Pirrko Husemann/Katharina von Wilcke (orgs.): Wissen in Bewegung. Perspektiven der künstlerischen und wissenschaftlichen Forschung im Tanz. Bielefeld: transcript, 2007. 1 O sucesso do cinema, mas também seu ponto fraco, reside na imaterialidade das imagens: tudo se resume à luz. Ao se excluir de antemão toda espécie de experiência cinestésica, bloqueia-se o mais sentimental de nossos canais de percepção. Se não fosse assim, nós, dançarinos, poderíamos ficar ricos com a venda do movimento em si, que é nossa competência principal. Porém, até hoje não foi inventada uma mídia que conserve a experiência cinemática. Como seria se fosse possível reproduzir no Walkman a sensação de uma pirueta tripla ou de um relaxamento no solo? O cinema permite aos cineastas encenar suas mais terríveis e irrefreáveis fantasias, sem oferecer sério risco à segurança emocional de seus espectadores. Hoje em dia, nosso modo matizado de ver só permite que as imagens penetrem em nosso corpo quando tomamos a decisão consciente de não refletir. Mas essa decisão tem como obstáculo o controle geral exercido pelas emoções. Assim, enquanto nosso olho recebe um excesso de estímulos e se torna resistente, nossa sensibilidade corporal, nossa pele, é supersensível à dor. Quando se trata de presença corporal, proximidade, intimidade, somos em grande parte despreparados e aprendemos apenas na improvisação individual. Experiências físicas intensas como a fome, o frio, a dor ou o medo da morte não são óbvias: é preciso produzi-las de modo consciente a fim de nos aproximarmos delas. Isso abriu para os destemidos um novo mercado: o dos esportes radicais e do turismo de aventura. A nós, cautelosos, que achamos o cinema insípido demais e o bungee jumping perigoso demais, resta-nos a dança como campo de ação da corporeidade emocional. O público da dança de palco, que são os espectadores de nossas atividades, são hoje uma espécie muito especial e felizmente bastante rara. Ele busca a proximidade da corporeidade, a fisicalidade dos dançarinos, mas prefere manter ocultas suas emoções. Bolinadores, voyeurs na escuridão: indivíduos que querem tirar proveito sem se envolver. Embora empedernidos na aparência e rapidamente enfadados, eles logo são tomados pela insegurança ou até se sentem traídos, seja diante da possibilidade do constrangimento, do vexame da experiência autêntica ou dos buracos negros da sensibilidade real. Clientes difíceis. O coreógrafo contemporâneo deve produzir medo sem amedrontar, vergonha sem envergonhar. O dançarino deve mostrar domínio das emoções, mas não as emoções em si. Esse malabarismo entre a desejável adrenalina e o necessário conforto gera muita hipocrisia. Muitas vezes, restam apenas duas possibilidades: os chamados dançarinos conceituais apostam na sedução pela recusa. O “dançarino pós-moderno” tem extraordinária formação, mas dança de modo desleixado. É bem apessoado, mas se veste mal. É sexy, mas nunca sexual. A nudez sempre é permitida, mas deve ser conceitualmente atenuada. Os “verdadeiros dançarinos” confiam mais na boa e velha fórmula da dor heroicizada, da autoflagelação, da virtuosidade atormentada, do sofrimento de estar preso à forma: emoção acumulada que se transforma explosivamente em presença no palco. Heroísmo e abnegação são mercadoria confiável. Isso vale sobretudo para as companhias poderosas. Estas podem oferecer a seus dançarinos fama suficiente e segurança financeira como compensação pelo auto-abuso a que eles se submetem. É bonito de ver. E o público aplaude, com ligeira vergonha. Nessa orgia de simulação, ou simulação de orgia, alguns teatros se tornam mais barulhentos e mais cínicos. Tenta-se evitar cair na irrelevância à medida que o público vai deixando a sala ─ e isso o público faz não decepcionado e batendo a porta, mas silenciosamente e com a convicção de que ali não é lugar para experiências emocionantes. Nas subculturas do trabalho corporal e do jogo de corpo florescem modelos voltados para o fim das divisões: a dança se mistura à terapia, o espetáculo fomenta o psicodrama, as artes marciais se transformam em meditação, o carinho físico se transforma em festa. Círculos tântricos planejam orgias, clubes de fetiche brincam carnaval o tempo todo. A comunidade de gays e lésbicas inventa múltiplas identidades sexuais que vão além das categorias homem e mulher. São diversas as possibilidades de contato. É um onipresente e simultâneo exercício de experimentar e observar. Participação em vez de recepção. Mesmo na cultura mainstream, multiplicam-se as dúvidas sobre a satisfação que se pode obter com o consumo passivo. A internet enquanto mídia participativa e comunicativa está tomando o espaço da televisão. As quadras de esporte e clubes estão cheios. O indivíduo quer ter uma atuação ativa. Tango, salsa, hip-hop e contact improvisation passam a ser novas espécies de danças folclóricas e rituais pós-expediente. Por estar sendo em grande parte substituído como meio de produção pela força da máquina e pela tecnologia, é como meio de expressão que o corpo acaba ganhando importância. Nessa nova orientação, ele desempenha o papel principal, transformando-se em manifesto, em projeto. A depender do gosto, bolso, socialização e grau de neurose, ele é embelezado e produzido, sintonizado e decorado, treinado e formado, sobrecarregado e testado, analisado e refletido, 2 cuidado e curado. Naturalmente, também é moldado para ser um produto, isto é, um instrumento de venda e publicidade. Na verdade, porém, está em jogo mais que isso. Os clientes dos prósperos espaços de dança, academias, palácios de yoga, salões de tatuagem, ilhas de bem-estar, clínicas de Botox, salões de beleza e outros “espaços de diversão” têm algo em comum: o desejo de beleza, bem-estar e companheirismo, isto é, o desejo de sentir a si mesmo e aos outros. Já faz mais de dez anos que tento oferecer a meu público o sabor, o cheiro, o tato da dança. Com a participação de dançarinos solo, provoquei insegurança nos membros da platéia (HAUTNAH, 1995), estimulei-os a dançar por conta própria (SCHWARTZ, 1997) e fiz com que eles se beijassem e se bolinassem uns aos outros de forma organizada (RING, 1999). Fiz massagens públicas na platéia (DELUXE JOY PILOT, 2000), acorrentei-a e chicoteei-a (SECRET SERVICE, 2002) e a seduzi a fazer uma demonstração coletiva de carinho físico (LOVE ZOO, 2003). Consegui atraí-la para oficinas de sexo e tantra (XPLORE, 2004) e embrulhá-la em plástico e ferro (PLACEBO TREATMENT, 2005). E por fim, fiz com ela se despisse, se limpasse, se arrumasse, recebesse comandos e transformasse um governante megalomaníaco (interpretado por mim mesmo!) em seu súdito (UNITED KINGDOM, 2006)1. #abb# Abb40 #abbe# Todos esses projetos, em parte imponentes, em parte ridículos, são culpa do próprio público, que mostrou uma súbita disposição de entrega e um espantoso prazer nesse tipo de devoção. Em troca da perspectiva de poder ter uma nova experiência, ele foi capaz de transpor os limites da vergonha e se despir de seus medos. Todas as monstruosidades acima ─ até então inimagináveis no contexto teatral ─ surgiram de colaborações casuais (isto é, de uma confluência de acasos, não de colaborações produzidas ao acaso), com envolvimento dos participantes mais destemidos e mais curiosos de meus experimentos e métodos de ensaio. Na reflexão sobre todos esses eventos extraordinários, surgem sempre três conceitos: presença, predisposição, transformação. Se o filósofo francês Jean Baudrillard estiver correto quando diz que a arte substituiu a religião (todos a praticam, mas ninguém acredita nela!), então esses conceitos são a santíssima trindade. Mas esses fenômenos, assim como os bons e velhos milagres, precisam ser vivenciados para serem compreendidos. E se as pesquisas neurológicas também estiverem corretas, a negociação ─ falando de modo simplificado – é requisito para a percepção. Começamos a agir. As fortes reações me inspiraram a desenvolver estruturas lúdicas e ferramentas de composição para poder responder de modo mais flexível aos desafios do imprevisto. Esse conhecimento pôde ser brilhantemente aplicado também em palcos convencionais. Comecei a me infiltrar no mundo do balé, que de repente se mostrou receptivo a formas menos tradicionais da dança de palco (TOOLS AND TRICKS, 2003; VENUS IN HANOI, 2004; TOKYO-TOOLS, 2005). A virtuosidade técnica da dança e a inteligente forma de lidar com o espaço e o tempo, aperfeiçoadas por mim nesses projetos, confirmaram sua eficácia também na interação física direta com o público. Isto é, as estratégias de dança demonstraram ser bem-sucedidas mesmo em situações em que o corpo do espectador era usado como mídia. #abb# Abb42 #abbe# Aparentemente, conseguimos produzir as liminalidades postuladas pela teatróloga Erika FischerLichte em sua obra ÄSTHETIK DES PERFORMATIVEN [ESTÉTICA DO PERFORMATIVO]2. Elas conseguiram transformar não apenas nosso público, como também os dançarinos, que começaram a 1 UNITED KINGDOM é um projeto teatral interativo com diversos estágios de participação. Partindo da idéia da criação de uma sociedade utópica, é criada uma série de leis e regras. Os participantes ganham oportunidade de vivenciar diversos estágios de dominação e submissão em um reino de faz de conta. O objetivo principal desse reino é a elaboração de estruturas lúdicas que possibilitem a experiência autêntica de sentimentos como medo, dor, cólera, agressão, luto e fraqueza, mas também de confiança, força, bondade, alegria, contato e devoção. Essas estruturas lúdicas podem ser na forma de coreografia, enredo, dramatização, ritual ou teatro. <http:\\www.unitedkingdomberlin.de>. Acesso em 12 de maio de 2007. 2 Erika Fischer-Lichte: Ästhetik des Performativen, Frankfurt/Main: Suhrkamp, 2004. 3 desenvolver competências empáticas, psicológicas e terapêuticas. Mas isso não foi nada planejado, mas sim algo que germinou organicamente: foi mais uma mutação do que uma construção, mais uma avalanche do que um canhão de neve. Cada novo projeto surgiu a partir da pergunta lançada pelo projeto anterior. Cada novo risco assumido ao lidar com o público foi este mesmo que introduziu, exigiu e até provocou. Dessa forma, já na concepção de novos projetos dissolviam-se os limites entre agentes e reagentes. O poder de influência do princípio da participação lentamente começava a se tornar claro para nós. A quinta parede estava caindo. Essa dinâmica própria de meus projetos muitas vezes me sobrecarregavam. E eu também passei por uma transformação. Sempre parece ser mais difícil manter a divisão entre arte e vida, trabalho e lazer, privado e público. Será este o tão esperado reencantamento do mundo ou é apenas uma suave loucura? O teatro participativo deixa para trás todas as questões sobre sentido ou conteúdo. Ele não tem mensagens ocultas: simplesmente age. É puro movimento. É a coreografia do instante e da atopia. É simultâneo e onipresente, pois dissolve o espaço e o tempo. Consiste de séries de impulsos. E prospera. Também é conhecido por nomes como flow, êxtase, meditação, communitas, liminalidade. Assim como todos esses fenômenos, o teatro participativo pode ser muito mais que entretenimento: ele transforma vidas. Não conhece espectadores, apenas participantes. Existe quando os participantes têm vontade e disposição e deixa de existir quando eles relaxam a atenção. Não pode ser forçado, mas apenas praticado. A participação é muito mais que uma mera forma especial e marginal de teatro, uma zona proibida e mal falada do meio teatral. É uma exigência social. O fim das divisões, a abolição dos opostos e a aceitação de conflitos são partes de um processo histórico de emancipação individual, democratização e desierarquização. A participação é a estratégia fundamental na busca de renovação, transformação e contato. 4