Anais do 5º Encontro do Celsul, Curitiba-PR, 2003 (1305-1313)
PROGRESSÃO TEMÁTICA EM PROGRAMAS DE ENTREVISTAS DE TELEVISÃO:
UMA ANÁLISE EM FUNÇÃO DA TEORIA DA RELEVÂNCIA
Ruth de Farias CORAL (PG UNISUL)
ABSTRACT: The traditional notion of the thematic progression claims that there are thematic bounds in
the discourse articulation. The Relevance Theory proposes a model in which fulfils these thematic bounds
when it adds the explicature and implicature notion.
KEYWORDS: logical forms; explicatures; implicatures; theme; rhema
0. Introdução
Este trabalho visa analisar a progressão temática em uma entrevista de talk show a partir das
noções de forma lógica, explicatura e implicatura de Sperber e Wilson (1995) e Carston (1988).
Os estudos pragmáticos revelam que entre o dito e o compreendido há hiatos. Um modelo que
procura dar conta desses fenômenos foi elaborado por Grice (1975), ao perceber que os usuários da língua
organizam suas interações verbais seguindo certos princípios gerais. Para o autor, o processo de
interpretação não se dá somente por decodificação, mas por inferências.
Reconhecendo o mérito de Grice referente ao Princípio Cooperativo e a suas máximas
conversacionais, Sperber e Wilson (1995) fazem seus estudos, reinterpretando cognitivamente o modelo
griceano e propõem a tese da Relevância que tem como foco explicar o modo de funcionamento da
comunicação humana. Os autores, assim como Carston (1988), acrescentam ao modelo de Grice a noção
de explicatura, descrevendo e explicando que os níveis de compreensão de um enunciado vão desde o que
estes autores denominaram de forma lógica até a forma proposicional da implicatura. Desse modo,
Sperber e Wilson (1995) e Carston (1988) apresentam a proposta de interpretação pragmática em três
níveis: o nível da forma lógica, o nível da explicatura e o nível da implicatura.
Essa teoria pode servir para explicar a textualidade, em especial a questão da progressão temática
proposta Koch (1997) e a rediscussão da textualidade estudada por Blass (1990), baseada na Teoria da
Relevância de Spereber e Wilson.
1. Talk Show
Talk show é um modelo de programa de entrevistas, onde se busca, intencionalmente, a
combinação de entretenimento, diversão e espetáculo. Conforme Bauer, Dotro e Moiana (2002), “este
género se constituye como ‘el show’ de la palabra, en donde ‘el contar’ constituye el atractivo”.
Para Andrade (2002), os talk shows mais comuns são estruturados em dois gêneros: os baseados
no gênero coloquial ou debate e os baseados fundamentalmente em entrevistas. Este trabalho está
fundamentado no segundo gênero (entrevistas), porque ele instala uma interação verbal face a face com
duas pessoas. É a progressão temática dessa interação entre os interlocutores que propus-me a descrever.
Esta pesquisa baseia-se em uma entrevista em profundidade, face a face e de caráter informativo.
Como a característica do programa é a de perguntas e respostas, a análise dos enunciados da interação,
destacando os três níveis representacionais – forma lógica, explicatura e implicatura, a partir de Sperber e
Wilson (1995) e Carston (1988), permitiu a explicação da progressão temática, justamente porque
extrapola a dimensão da linearidade lingüística
2. Teoria da Relevância
Tradicionalmente, os modelos de análise das relações desse tipo baseiam-se apenas em processos
de codificação/decodificação. Um exemplo desse tipo de abordagem é o modelo de código, que de acordo
com Ready (apud SILVEIRA e FELTES, 2000, p. 18), baseia-se na metáfora do canal ou modelo de
código. A base dessa metáfora é que a mente é um recipiente de idéias. Quando o falante toma a palavra,
ele transmite por um canal essas idéias num processo de codificação. Cabe ao ouvinte, desempacotar
essas idéias, num mero processo de decodificação.
O modelo de código negligencia o papel fundamental do contexto, como se pode ver nos
exemplos, a seguir:
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DA TEORIA DA RELEVÂNCIA
1. Em um feriado prolongado, o filho pede o carro ao pai para viajar com os amigos. Preocupado
com o movimento nas estradas, o pai diz:
– Não exagera.
Neste caso, não há uma tomada de ação com respostas “sim” ou “não”, mas uma atitude que
requer uma resposta como:
a) dirigirei com cuidado;
b) não exagerarei em bebida durante o passeio.
2. O filho pede o carro ao pai para estudar em casa de um amigo e a resposta é a mesma do
enunciado 1:
“Não exagera”.
Espera-se duas ou mais tomadas de ação:
a) não estou mentindo;
b) ficarei o necessário e voltarei logo;
c) estudarei o suficiente.
Diante de mensagens como essas, percebe-se que não adianta ao interlocutor a mera codificação e
decodificação de palavras, é preciso que a mensagem seja compreendida no todo. Nesta linha de ação,
Grice (1967, 1975) propôs uma nova abordagem do processo comunicacional através da noção de
implicaturas.
Como observa Guimarães (1995, p. 33), para Grice, o ouvinte procura um sentido para o
enunciado que responda ao Princípio de Cooperação e que esteja de acordo com as máximas. Mas
raramente os interlocutores obedecem às máximas griceanas, como no exemplo:
A – Como está Francine?
B – Quebrou o pai.
O verbo quebrar, em seu significado real, convencional, equivale a partir em pedaços. Já em
sentido metafórico - em nossa cultura - é levar à falência. Possivelmente, o ouvinte tomará a segunda
opção como verdadeira, mas a resposta “quebrou o pai” não dá essa garantia de certeza, pois pode referirse à primeira opção.
Vejamos:
A – Francine estava dirigindo em companhia de seu pai. Por um descuido, bate o carro e seu pai
quebra as pernas.
Ou
B – Francine escorrega no piso da cozinha, choca-se ao pai, derrubando-o. Esse cai de mau jeito e
quebra o braço.
Ou
C –Francine, em atitude de revolta, bate no pai com violência e quebra-lhe o nariz e o braço.
Em qualquer alternativa das citadas acima, percebe-se a quebra das máximas griceanas. A máxima
de quantidade foi violada, pois a resposta de B não corresponde adequadamente à pergunta esperada. A
máxima de relação também não foi respeitada, visto que a resposta não contribui para o objetivo central
da mensagem. A máxima de maneira também não se faz presente por apresentar mais de uma
interpretação.
Segundo Sperber e Wilson (1995), há falhas nesse mecanismo, pois Grice não explica “a natureza
e a origem do princípio de Cooperação e das máximas”. Para esses autores, esse modelo não se justifica e
desenvolvem uma teoria voltada para o raciocínio inferencial humano, partindo da noção que a
implicatura desdobra-se em premissas e conclusões implicadas, que não estão necessariamente no dito.
As premissas implicadas são recuperadas de várias fontes (da memória enciclopédica, do conhecimento
de mundo) e são necessárias como parte de um cálculo dedutivo para se chegar a uma conclusão.
A - Você aceita uma bala?
B - Sou diabético.
As respostas, quando não são diretas, podem ser acrescidas de muitas outras suposições
manifestadas pelo conhecimento enciclopédico. Quando B responde que é diabético, A aciona seu
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conhecimento de mundo, necessário como parte de um cálculo dedutivo para que este chegue a
conclusão.
Percebe-se que a resposta de caráter indireto permite que o enunciado seja acrescido de uma série
de informações, o que não aconteceria se a resposta fosse direta
A – Diabéticos não ingerem açúcar. (premissa implicada)
B – B não ingere açúcar. (conclusão implicada)
Através dessas reflexões, é possível compreender melhor o mecanismo interpretativo dedutivo
proposto por Sperber e Wilson (1995).
Silveira e Feltes (1999, p. 32), com base em Sperber e Wilson, dizem que “os conceitos, são por
hipótese, uma espécie de rótulo ou endereço”, e esse rótulo ou endereço, quando processado, torna
possível o acesso a informações que são classificadas como entrada: a) entrada lógica – trata-se de um
conjunto finito, pequeno e constante de regras dedutivas que se aplica às formas lógicas das quais são
constituintes. São informações de caráter computacional; b) entrada enciclopédica – consiste de
informações sobre a extensão ou denotação do conceito (objetos, eventos e/ou propriedades que a
instanciam). Essas informações, de caráter representacional, variam ao longo do tempo e de indivíduo
para indivíduo; c) entrada lexical – consiste de informações lingüísticas sobre o contraparte em linguagem
natural do conceito – informação sintática e fonológica. São informações de caráter representacional.
A distinção entre a entrada lógica e enciclopédica, como afirmam as autoras, reflete
simultaneamente a distinção formal entre processos de computação e de representação. Os processos
computacionais são dirigidos pelas regras dedutivas, e as representações são definidas por variadas
formas de categorização gramatical.
Sperber e Wilson (1995), na tentativa de substituir o modelo inferencial de Grice (1975),
acrescentam a parte cognitiva e partem de um princípio geral que falante e ouvinte prestam mais atenção
nos fenômenos que lhes parecem relevantes. O termo “relevância”, para os autores, diz respeito a um
conceito teórico para explicar a compreensão dos processos mentais na comunicação e como os
indivíduos interpretam as informações nos contextos comunicativos.
Para Sperber e Wilson, todo ato de ostensão vem acompanhado de uma garantia implícita de
relevância; por isso o “Princípio de Relevância”. Para esses autores, “every act of ostensive
communication communicates a presumption of its own optimal relevance”. (1995, p. 158)
Como nem todo enunciado merece atenção, segundo os autores, a produção de um enunciado–
estímulo torna-se mutuamente manifesto. Para ao autores, duas condições são necessárias para que o
princípio de relevância seja aplicado: a) uma suposição é relevante em um dado contexto na medida em
que seus efeitos contextuais nesse contexto são grandes; e b) uma suposição é relevante em um dado
contexto na medida que o esforço necessário para processá–la nesse contexto é pequeno.
Para que haja uma interpretação do enunciado, falante e ouvinte precisam estar engajados na
mesma atividade mental. Como expõem Sperber e Wilson, a busca pela Relevância no processamento de
informações será ótima quando o interpretante usar o mínimo de suposições para a compreensão de um
enunciado.
A – Há quantos anos você é casado?
B – Uns vinte anos
O processamento de informações é bem menor. Mas, se a resposta fosse: Casei em maio de 1982,
A precisaria fazer um esforço maior de processamento para chegar à resposta desejada.
Fazendo analogia com as “implicaturas” de Grice, Sperber e Wilson usam o termo “explicaturas”
em que os autores enquadram a compreensão lingüística num nível pragmático entre decodificação
lingüística e implicação contextual.
No nível da explicatura, ocorrem várias operações pragmáticas envolvendo atribuição de
referência, desambiguação, resolução de indeterminâncias, interpretação da linguagem metafórica,
enriquecimentos devido a elipses, para citar algumas delas (Silveira e Feltes – 1999, p. 54).
No nível da explicatura, são necessários os traços relevantes para a interpretação pragmática.
Sperber e Wilson pretendem descrever e explicar os níveis de compreensão associando à forma lógica,
lexical, gramatical e à forma proposicional da implicatura através do processo pragmático inferencial.
Segundo os autores (1995, p. 72): “A logical form is a well-formed formula, a structured set of
constituents, which undergoes formal logical operations determined by its structure.”
Três níveis representacionais são hipotetizados nesse processo: (i) o nível da forma lógica, na
dependência da decodificação lingüística; (ii) o nível da explicatura, em que a forma lógica é
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DA TEORIA DA RELEVÂNCIA
desenvolvida através de processos inferenciais de natureza pragmática; e (iii) o nível da implicatura, que
parte da explicatura para a construção de inferências pragmáticas.
Portanto, uma explicatura é uma combinação de traços lingüísticos decodificados e de traços
conceituais incluídos no contexto. A forma lógica, diferente da lógica tradicional, não se constrói através
de regras de boa–formação de sentença. Para Sperber e Wilson, a forma é a base para construir a
representação proposicional completa que se alcança através do processo dedutivo, envolvendo
informação contextual. Vejamos um exemplo.
Interação lingüística (1):
Rita: Daniel passou no exame vestibular?
Ana: Ele fez um curso pré–vestibular e conseguiu a vaga.
No nível da forma lógica (2):
Fez (ele, curso pré–vestibular) ^ conseguiu (∅, vaga); ou
[S[S’[SN Pro] [SV fez] [SN curso pré–vestibular]] e S’’[SN ∅] [SV conseguiu [SN a vaga]]]].
No nível da explicatura (3):
Elei [Danieli] fez um curso pré–vestibular [de preparaçãoi] e [então] [Danieli] conseguiu [através
do curso pré–vestibular] uma vagai [por meio do exame vestibular].
No nível da implicatura (4):
Daniel < possivelmente > passou no vestibular.
Seguindo a hipótese dos três níveis representacionais:
a forma (2) não é proposicional, porque é semanticamente incompleta;
a forma (3) é proposicional, porque é semanticamente completa, podendo ser a ela atribuída um
valor de verdade e
a forma (4) é uma proposição que, possivelmente, é a representação da interpretação última
pretendida por Ana.
Chega-se às estruturas proposicionais (3) e (4) pelos mecanismos envolvidos nos níveis da
explicatura e da implicatura.
Temos em (3):
a)
b)
c)
d)
e)
f)
Ele [Daniel] fez um curso pré–vestibular: - atribuição de referência pelo discurso anterior de Rita;
Ele [Daniel] fez um curso [de preparação]: - enriquecimento da forma lógica através de
uma suposição advinda da memória enciclopédica de que quem faz um curso de preparação pré–vestibular tem mais chance de ser aprovado no vestibular;
[Daniel] conseguiu a vaga: - preenchimento de material elíptico, pelas relações de Relevância entre as ações do agente [Daniel fez / ’Daniel’ sendo agente sintático de ‘fez’;
[Daniel] conseguiu [através do curso pré–vestibular] uma vaga; - enriquecimento da
forma lógica através de uma suposição advinda da memória enciclopédica de que Cursos preparam alunos para o vestibular;
[Daniel] conseguiu [através do curso pré–vestibular] a vaga [por meio do exame vestibular]: - enriquecimento da forma lógica a partir de uma suposição advinda da memória
enciclopédica e de parte do enunciado, conforme a seguir – S1 cursos de preparação
pré–vestibular servem para aprovar aluno no vestibular, S2 Se Daniel fez curso pré–
vestibular, ele conseguiu a vaga, S3 Daniel fez um curso pré–vestibular, S4 Daniel conseguiu a vaga por meio do exame vestibular.
Ele [Daniel] fez um curso pré–vestibular [de preparação] e [então] [Daniel] conseguiu
[através do curso pré–vestibular] a vaga [por meio do exame vestibular]: - enriquecimento do contexto através da construção temporal de sucessividade/causalidade das
ações.
Portanto, em (3), existe uma ligação entre as propriedades lingüísticas do enunciado (Ana) e a
proposição que ele recupera através da informação contextual, mas não ocorre entre (Ana) e (4). A
estrutura, Daniel <possivelmente> passou no vestibular, é uma derivação feita do enunciado (Ana) pelo
ouvinte, cuja a forma proposicional completa foi obtida pela explicatura (3), mais a contribuição de uma
suposição contextual (premissa implicada) sem dependência direta da ligação com as propriedades
lingüísticas de (Ana), já que nesta resposta não está explicitamente dito que Daniel <possivelmente>
passou no vestibular.
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Através da organização enciclopédica de habilidades perceptuais e outras habilidades, as
suposições contextuais são restringidas, obtendo-se assim a forma (5):
Se Daniel fez um curso pré–vestibular e conseguiu a vaga, então, possivelmente passou no exame
vestibular.
Essa suposição, processada no contexto da resposta (Ana) faz o ouvinte derivar (4) uma conclusão
implicada.
Sperber e Wilson observam que o principal aspecto problemático encontrado na abordagem de
Grice sobre a distinção entre o dito e a implicatura está relacionado ao modo como ele caracteriza o
explícito. Grice não considera o enriquecimento da forma lógica, o que é essencial para fazer a
interpretação do enunciado. A maioria de seus seguidores considera que qualquer aspecto,
pragmaticamente determinado, da interpretação do enunciado é uma implicatura.
3. Progressão Temática
Num talk show, a entrevista deve progredir. Ora, isso se dá por mecanismos de progressão
temática. Tradicionalmente, a progressão temática é o processo pelo qual o texto se constrói. Essa
construção se dá através de relações de acréscimo de informações, a partir da ambientação de
informações já apresentadas no texto. Se formos defender a metáfora do canal, a informação nova
conecta-se unicamente com a informação velha explicitada na linearidade do texto. Todavia, se
consideramos que o contexto cognitivo se constrói na interação, não podemos ficar restritos ao texto,
entendido, na seção anterior, como forma lógica. Precisamos contar com a progressão por inferências, tal
como as implicaturas de Grice (1975), ou, melhor ainda, por explicaturas e implicaturas, como o modelo
de Sperber e Wilson (1995) e Carston (1988).
4. Dicotomia tema/rema
Lingüistas da Escola Funcionalista de Praga desenvolveram a dicotomia tema/rema para uma
melhor compreensão da progressão dos enunciados. Em uma unidade lingüística, as concepções de tema e
rema são semelhantes às concepções lógicas de sujeito e predicado. O tema é o constituinte de que se diz
algo e o rema é o elemento novo que se acrescenta ao tema.
A teoria da articulação tema/rema é o que dá conta do mecanismo de construção dos arranjos
discursivos encontrados no texto. Considerando tema como ponto de partida, o texto progride a partir do
enunciado central. O rema, como predicado, expande a ação comunicativa, fazendo com que o texto
avance em uma seqüência coerente. Num texto bem elaborado, os usuários da língua compreendem a
ação comunicativa e são capazes de apontar o tema e entender a sua progressão.
Na análise da progressão temática, para Koch (1997, p. 58), os textos estão esquematizados através
de estratégia de construção textual. A organização semântica de um texto está na dicotomia tema e rema a
partir da qual ela propõe a perspectiva oracional – “tema aquilo que se toma como a base da
comunicação” e rema “aquilo que se diz sobre o tema” - e a perspectiva contextual – “tema” como
informação dedutível e “rema”, não dedutível. O tema é a idéia dedutível da qual se parte, é o fato
principal de que se quer falar, enquanto rema é não dedutível, pois é o elemento novo que vai sendo
acrescido ao tema.
A autora, baseando-se na operação de tradução das orações feitas por Danes, divide a progressão
temática em cinco tipos:
a)
progressão temática linear – O Brasil é um país sul-americano. Todo sul-americano
conhece bem seus problemas. Os maiores problemas enfrentados são o desemprego e a
miséria. O desemprego e a miséria só serão resolvidos quando os países desenvolvidos
ajudarem os subdesenvolvidos – A B, B C, C D – O rema de uma sentença se
converte em tema de uma outra sentença sucessivamente nesta estrutura;
b)
progressão temática com um tema constante – Macunaíma era o herói sem nenhum caráter. Ele era preguiçoso, malicioso e individualista. Macunaíma teve um único e sincero amor, Ci, Mãe do Mato. ∅ Sofreu muito com a morte do único filho – A B,
A C, A D, A E – O tema de uma sentença será sempre constante, e a ele serão acrescentados novos dados;
c)
progressão com tema derivado – A Chevrolet fabrica uma variedade de tipos de carros. O Omega ocupa um lugar de destaque na firma por ser o mais luxuoso. A Blaizer
está entre as melhores caminhonetes que já surgiu. O Celta é sua maior renda, por ser
popula. - A B, A1 C, A2 D, A3 E – Um tema geral divide-se em temas parciais;
d)
progressão por desenvolvimento de um rema subdividido – Uma árvore divide-se em
várias partes A raiz absorve água e sais minerais. O tronco serve de sustentação das
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DA TEORIA DA RELEVÂNCIA
folhas e dos frutos. As folhas realizam fotossíntese, respiração, transpiração e gutação
– A B (= B1+B2+B3 ...), B1 C, B2 D, B3 E – O rema de uma sentença dada divide-se em remas ordenados;
progressão com salto temático – “Toda epopéia contém elementos convencionais. Um
desse elementos é o herói. ≠≠ representantes dos ideais de uma nacionalidade, passa
por uma série de peripécias e acaba sendo glorificado” – A B, B C, ----, D E
e)
Num segundo momento, Koch (2000) estuda as diferentes possibilidades de estruturação de uma
sentença, uma delas é a de deslocamentos do constituinte em que o falante opta pela utilização de
estratégias de tematização e rematização. Ora o falante emprega uma estrutura sintaticamente ordenada
(sujeito/predicado) como desloca os termos da sentença em posições possíveis, usando variedades de
formas para expressar seu pensamento.
A autora examina as seqüências tema/rema nos graus de integração sintática em que destaca os
casos: 1 Exemplos de alguns casos:
a)
b)
construção com tematização marcada – são introduzidas por exemplos do tipo quanto
a..., no tocante a..., no que diz respeito a.., com referência a... etc, que são comuns as
modalidades orais e escritas – “então... sobre o problema do primário... essa reforma
do primário e ginásio eu não estou a par não, né? (NURC/SSA – DID 231: 17 –
19).Essas construções são aplicadas mais na comunicação formal;
construções com deslocamento para o final de um elemento do enunciado – que no interior deste, é introduzido apenas por meio de um pronome ou de uma categoria vazia,
as quais têm recebido a denominação de deslocamento à direita e construções de antitópico. Trata-se de um procedimento bastante produtivo, em que o SN deslocado convalida, precisando–o melhor, ou chamando a atenção sobre, o referente da forma pronominal ou da categoria vazia, desambigüizando a mensagem e facilitando a compreensão – “L1 e... depois volto para casa mas chego já apronto o outro para ir para a escola... menorzinho... e fico naqueles lides domésticas... (NURC/SP – D2 333:1057 –
1062).
4. Relevância e textualidade
Blass (1993) discute sobre as noções tradicionais de coesão e coerência e propõe uma nova
abordagem da textualidade. Para a autora as relações de relevância estão subjacentes aos julgamentos de
boa formação do texto, e os mecanismos de coesão e de coerência não dão conta de explicar um
enunciado. Para ela, qualquer conectividade textual percebida é apenas um subproduto de algo mais
profundo: relações de Relevância entre texto e contexto, que qualquer ouvinte, incluindo o analista do
discurso, automaticamente procura (apud SILVEIRA e FELTES, 1999, p. 63).
A autora critica o papel que os autores creditam aos mecanismos coesivos na textualidade.
Segundo Blass, tais mecanismos podem ser melhor analisados como restrições semânticas sobre
Relevância.
Para uma nova visão sobre a textualidade, Blass faz um retorno a noção tradicional de coerência e
coesão, e não encontra, nessas abordagens, um modelo que explique de modo claro às alternativas
interpretativas possíveis. Mostra que os teóricos tradicionais não trabalham o contexto sócio-cultural. A
base da teoria apresentada por eles está somente no dito, não levam em conta o conhecimento prévio do
falante.
Blass (apud SILVEIRA e FELTES, 1999) critica a proposta tradicionalista e encontra solução na
Teoria da Relevância, por atuar na construção das suposições e do contexto e na interpretação pretendida
pelos autores.
5. Reinterpretando a textualidade
Para Blass (apud SILVEIRA e FELTES, 1999), a coesão é responsável, parcialmente, pela
construção de sentido de um texto, não sendo necessária nem suficiente para uma perfeita construção
textual e a coerência não precisa levar em conta a coesão para se estabelecer, pois os fatores pragmáticos
e cognitivos desempenham papel fundamental no estabelecimento das conexões entre as proposições.
1
Esta descrição ressalta pelo menos um exemplo de cada tipo de integração sintática, elencado em Koch
(2000, p. 74-79). Os dados remetem ao Projeto NURC – Norma Urbana Culta.
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Nem a coesão nem a coerência, de acordo com Blass, revelam uma abordagem adequada de
textualidade, embora seja possível apresentar textos que tenham os mecanismos de coerência e coesão,
mas, mesmo assim, não sendo um ato genuíno de comunicação.
Mesmo que os modelos tradicionais tenham sido ricos em descrever os diferentes fenômenos, estes
não atingiram a adequação explanatória que permita ler a riqueza de adequação descritiva. A descrição
deve ser justificada pela adequação explanatória
A interpretação de um discurso não é independente do contexto, existe uma recuperação adequada
através de processos inferenciais, da intenção pretendida do falante. O contexto, num nível de
representação mental, é tomado como o conhecimento de mundo que os interlocutores possuem.
É através do princípio de relevância que se seleciona e se restringe o conjunto de suposições a
serem utilizadas pelo leitor quando esse lê e interpreta um texto.
Veja-se a seguinte situação. Daniel, em uma roda de amigos, com um copo de cerveja na mão,
pergunta a um deles se está preparado para o vestibular. O amigo em vez de responder, aponta para o
copo e Daniel percebe que há uma mosca dentro. Esse tipo de enunciado não lingüístico é problemático
numa abordagem de análise do discurso baseado no mecanismo tradicional de coerência e coesão.
Seguramente, numa relação face a face dentro de um contexto de televisão, muitos dos
questionamentos de Blass (1990) se farão presentes na análise da progressão temática. Se os mecanismos
de codificação e de decodificação são insuficientes para explicar a textualidade, também o são para
explicar a progressão dos temas. A teoria da relevância, em especial a consideração dos três níveis
representacionais – forma lógica, explicatura e implicatura -, deve, portanto, ser testada em uma interação
real. Para tanto, analisarei uma entrevista política em um programa de Talk Show.
6. Análise
“No seu plano de governo, o senhor fala sobre a aposentadoria. Como o senhor pensa em resolver
a questão previdenciária?”
Resposta dada a Boris Casoy, pelo candidato presidenciável Garotinho, quando da pergunta sobre
plano de aposentadoria
Eu penso que nós devemos ter uma aposentadoria que dê direito iguais a todos.
Forma lógica. (1)
Semântica
penso (eu, (devemos ter (∅, aposentadoria (dar (∅, direitos iguais, todos)))))
Sintática
[S[SN eu] [SV penso [SN que [S [SN ∅] [SV devemos ter [SN uma aposentadoria que [S [SN ∅]
[SV dê [SN direitos iguais [SP a todos]]]]]]]]]]
Nível explicatura (2)
Eu [Garotinho] penso que nós [Garotinho, Boris e o povo] devemos ter uma aposentadoria que ∅
[a aposentadoria] dê direito iguais a todos [os aposentados] [através de uma reforma previdenciária].
Nível da implicatura (3)
S1: O regime atual de aposentadoria não dá direitos iguais a todos os aposentados
S2: Garotinho fará uma reforma previdenciária
I1: A reforma previdenciária de Garotinho equiparará os direitos (celetistas e servidores públicos)
2. Repare-se aqui que eu sou celetista, isso é bom, mas se sou servidor, isso é mau.
Nos três níveis representacionais, a compreensão do enunciado não se dá no nível da forma lógica
por ficar somente na dependência da decodificação. No nível da explicatura, as suposições são ativadas
pelo conhecimento de mundo, então, há uma proposição que é a interpretação final que se dá no nível da
implicatura. Portanto, se Garotinho é candidato à presidência da república e pensa em uma reforma
previdenciária, infere-se que, se eleito, fará a reforma, beneficiando os aposentados com melhores
salários.
Chega-se às estruturas proposicionais (3) e (4) pelos mecanismos envolvidos nos níveis da
explicatura e da implicatura.
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DA TEORIA DA RELEVÂNCIA
Como se pode ver, a Teoria da Relevância não se fundamenta em códigos, mas procura explicar os
fenômenos conversacionais. Através dessa teoria pode-se explicar a progressão temática e mostrar que os
saltos temáticos, apontados pelos tradicionais, podem perfeitamente ser explicados por meio da
explicatura e implicatura.
A fala humana não respeita esquemas quando articulada. Sujeito e predicado não aparecem sempre
em ordem progressiva e os saltos temáticos, propostos pela escola de Praga, e também por Koch, não se
fundamentam quando aplicados à compreensão pelo nível da explicatura e implicatura conforme o corpus
analisado.
Pelo fato do trabalho ainda não estar concluído, os exemplos aqui analisados não apresentam as
falas originais da entrevista proposta para a dissertação. No entanto é possível compreender como se dá
em um Talk Show a progressão tema e rema e os saltos temáticos pelos níveis representacionais da
explicatura e implicatura.
Boris: Como o senhor (tema) resolverá a questão da aposentadoria? (rema)
Garotinho: Eu (tema) penso que nós devemos ter uma aposentadoria que dê direitos iguais a todos (rema).
Nessa pergunta e resposta, observa-se que o enunciado textual está construído na dicotomia tema e
rema, como proposto pela escola tradicional. Há uma progressão remática na resposta, pois “... devemos
ter uma aposentadoria...” continua sendo rema conforme a pergunta. Mas partindo das inferências feitas
pelo nível da explicatura, Boris poderia perguntar:
Boris: O senhor (tema) fará uma reforma previdenciária já no primeiro ano de mandato? (rema)
Pela noção tradicional, há um salto temático pela não sequenciação tema/rema. Através das
suposições ativadas pela memória enciclopédica, a seqüência tema e rema está presente. No nível da
explicatura, tem-se a suposição de que para “dar direitos iguais a todos” é necessário fazer uma reforma
previdenciária, há, portanto, uma progressão remática.
Mas Boris poderia fazer a seguinte pergunta, partindo do rema “direitos iguais a todos”:
Boris: O senhor (tema) não comprará uma briga com os servidores públicos? (rema)
Pelas suposições ativadas na memória enciclopédica, o rema se faz presente por meio da
implicatura, justifica-se assim a não existência de salto temático.
Para a compreensão de enunciados, a Teoria da Relevância é o modelo que melhor consegue
explicar a textualidade. Necessariamente a coesão e coerência não precisam estar presentes no enunciado
para uma boa compreensão. A progressão temática, através dos três níveis representacionais: forma
lógica, explicatura e implicatura, progridem pelas inferências que o ouvinte faz quando aciona a memória
enciclopédica. Tema e rema encontram-se presentes de variadas formas, sem ter que obedecer a uma
lógica.
RESUMO: A noção tradicional de progressão temática afirma existir saltos temáticos na articulação de
enunciados. A Teoria da Relevância propõe um modelo que dá conta de preencher esses saltos, quando
acrescenta a noção de explicatura e implicatura.
PALAVRAS-CHAVE: forma lógica; explicatura; implicatura; tema; rema.
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Progressão temática em programas de entrevistas de televisão