TECNOLOGIA
EMANCIPATÓRIA:
UMA
PERSPECTIVA
TRANSFORMAÇÃO DA PRÁXIS DE ENFERMAGEM*
DE
Elisabeta Albertina Nietsche 1
Michele Raddatz 2
Maria Celeste Landerdahl3
Celso Leonel Silveira 4
Atualmente, constata-se, que muitas vezes a práxis de enfermagem vem
encontrando diversas dificuldades como: o fato de estar presa às normas e
rotinas dos serviços, o cumprimento de tarefas sem questionamentos, a falta
de participação em decisões das instituições, atuação de forma fragmentada
ou seja, sem um prévio planejamento, o fortalecimento da divisão do trabalho,
a crença de que prestam o cuidado integral aos seres humanos, a realização
meramente de técnicas bem como a falta de criatividade que tem tornado o
seu trabalho sem soluções e demasiadamente cansativo e estressante. Para
contrapor este cenário, é que se buscam alternativas que possam levar à
construção de profissionais de enfermagem conscientes de sua práxis e que
venham ‘romper’ com fatores
causadores
de submissão
e demasiada
objetivação do seu processo de trabalho, para a formação de profissionais
com uma consciência crítica, que exerçam a condição de sujeitos, numa
perspectiva
democrática
e
emancipatória,
que
acreditam
e
possuam
compromisso com a construção de uma sociedade que tenha por base a
afirmação da vida e da dignidade de todo o ser humano. Portanto, este estudo
reflexivo tem como objetivo apresentar a tecnologia emancipatória como meio
de
*Estudo de Reflexão
1 Autora/orientadora. Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professor Associado do Departamento de Enfermagem da
UFSM. Membro do GEPES/UFSM.
2 Autora/relatora. Acadêmica do 5º semestre do Curso de Enfermagem da UFSM. Membro do GEPES/UFSM. Bolsista
BIC/FAPERGS 2007-2008. E-mail: [email protected]. End.: Av. Roraima s/nº, Casa do Estudante
Universitário II (CEU II), AP.: 4511, Campus da Universidade Federal de Santa Maria, Bairro Camobi, Santa Maria.
CEP: 97105-970, Tel.: (55) 99611778.
3 Autora. Enfermeira. Mestre em Enfermagem. Professora Adjunto do Departamento de Enfermagem da UFSM.
Membro do GEPES/UFSM.
4 Autor. Acadêmico do 6º semestre do Curso de Enfermagem da UFSM. Membro do GEPES/UFSM.
transformar o trabalho de saúde, em especial o de enfermagem desenvolvido a
partir de leitura específica acerca da temática, aliada a constatação apreendida
no que concerne o trabalho de enfermagem, de modo como é exercido
atualmente e o impacto do mesmo
sobre as pessoas. Para Nietsche (2000, p. 164), a tecnologia emancipatória é
“concebida e entendida como a apreensão e a aplicação de um conjunto de
conhecimentos e pressupostos que, ao serem articulados técnica e eticamente,
possibilitam aos indivíduos
pensar, refletir, agir, tornando-os sujeitos do seu próprio processo existencial,
numa perspectiva de exercício de consciência crítica e da cidadania, tendo
como condição a possibilidade de experenciar
liberdade, autonomia,
integralidade e estética, na tentativa de buscar qualidade de vida, de modo que
os envolvidos possam encontrar a sua auto-realização.” Para a mesma autora,
ao
fazer
parte
da construção de processos
de emancipação
surgem
estímulos que auxiliam na contínua superação de obstáculos e na vontade de
vencer, pois, segundo ela, não é importante
“ter ou parecer”, mas “ser e
realizar, construir e desenvolver.” Leopardi (1994), contribui com esta proposta
quando evidencia que deve existir uma reconstrução do trabalho para a
valorização do trabalhador, para que o mesmo possa encontra um novo
aspecto no que concerne o trabalho humano, procurando não colocá-lo nem
como centralidade da vida nem como marginalidade, mas, buscar novas
experiências de encontrar um sentido mais humano para o trabalho,
produzindo satisfação e riquezas e não como muitas vezes o desprazer, a falta
de vitalidade, de ética, de estética e de liberdade. Esta mesma autora, ainda
destaca que deve-se ver o homem frente ao trabalho como um ser múltiplo,
de várias faces e não apenas como um mero trabalhador, e que a partir
desta idéia é que pode-se chegar à transformação do trabalho. Portanto, a
tecnologia emancipatória é um processo de busca da emancipação do sujeito
com o intuito, também, de proporcionar uma maior participação na vida e em
decisões que lhe dizem respeito. É neste sentido, que torna-se imprescindível a
reflexão e ação na formação crítica e consciente da realidade, uma vez que
sem esta caberá apenas aceitar as suas conseqüências. Para a busca desta
tecnologia, Nietsche (2000, p. 164), defende ser preciso tomar consciência de
que tanto o cliente quanto o profissional ao tomarem juntamente decisões,
perpassam pelo exercício da autonomia, o que suscita uma nova postura, “[...]
no que tange à relação com a clientela, com os outros profissionais, entre si,
enfim, na relação com o outro.” É neste campo de compartilhamento que surge
o processo do cuidado, segundo a mesma autora, como atitude emancipatória,
viabilizada pelo saber como
tecnologia, porém, não apenas como
“estruturação de um fazer” uma vez que a tecnologia emancipatória é produto
histórico retratando as contradições sociais, contestatória ao proporcionar a
conquista do espaço próprio de autodeterminação com direito a igualdade de
oportunidades, ético quando propicia a vivência dos princípios morais e político
quando concerne a libertação do estado de sujeição tornando o ser humano
um ser ator criativo e ativo. Tem como característica ainda, a estética que
possibilita a busca de harmonia do eu e, competência, que
criação de
consideração
possibilita
a
novas possibilidades tecnológicas para a vida, levando em
o
contexto
sociopolítico-
características, portanto, fazem parte
econômico
e
cultural.
Estas
do espaço de uma vida consciente,
importante na busca de qualidade da mesma. Neste sentido, para que possa
ser feita a utilização da tecnologia emancipatória como ferramenta da
transformação da práxis em enfermagem, é necessário que os profissionais,
tenham consciência de suas ações e, partindo da reflexão desejem transformála. Para que isto efetivamente venha a ocorrer é preciso que se unam e lutem
pelo que acreditam, buscando em contrapartida, sensibilizar as demais
pessoas inseridas no contexto. Acredita-se que iniciar a transformação pelo
local de trabalho é um meio de alcançar o auto-desenvolvimento e autorealização tanto do profissional quanto
da clientela desencadeando o
desenvolvimento de formas de tecnologia emancipatória do microespaço em
que se atua, como frisa Nietsche (2000), para refletir no macro-espaço sócio-
político-econômico e cultural. Para que seja efetiva a construção deste tipo de
tecnologia é preciso que se desenvolvam
os elementos essenciais já na
graduação, como alerta Souza (1998), quando refere que é importante
desenvolver nos profissionais, referentes aos pacientes,
capacidades de
diagnosticar
subjetivas, bem
as diversas necessidades, principalmente as
como revisar técnicas de assistência e cuidado, ajustar as novas construções
do conhecimento e possibilidades tecnológicas,
conhecimentos, desenvolver novas pesquisas
humano além de estimular
voltada
procurar construir novos
e potencialidades do ser
a prática cotidiana da leitura e reflexão crítica
a busca de uma teoria própria de enfermagem. Enfim, as pessoas
que desejam, expressando uma consciência crítica e ética, utilizar essas
proposições tecnológicas emancipatórias em sua práxis, necessariamente
passarão por um processo de reflexão sobre seu lugar no mundo, sua própria
história, sua própria condição, enquanto profissional e cidadão, para que elas
não transformem a sua identidade, mas, sim, se constituam em meios para
envolverem-se efetivamente na construção de sua utopia social, estética e
espiritual.
Palavras- chave: trabalho, tecnologia, emancipação, enfermagem, práxis
Download

TECNOLOGIA EMANCIPATÓRIA: UMA PERSPECTIVA DE