TRABALHO VENCEDOR NA
9º EDIÇÃO DO PRÊMIO SINOG DE ODONTOLOGIA 2010
CATEGORIA ESTUDANTE DE ODONTOLOGIA
Sarah Christina Rodrigues Meira, Camilla Aparecida Silva de Oliveira e
Iara Junia Marques Ramos
Professora Orientadora: Santuza Maria Souza de Mendonça
Curso de Odontologia do Centro Universitário Newton Paiva,
de Belo Horizonte/MG
A IMPORTÂNCIA DA PARTICIPAÇÃO DO CIRURGIÃO-DENTISTA NA
EQUIPE MULTIPROFISSIONAL HOSPITALAR
Sarah Christina Rodrigues Meira
Camilla Aparecida Silva de Oliveira
Iara Junia Marques Ramos
SANTA LUZIA
2010
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A IMPORTÂNCIA DA PARTICIPAÇÃO DO CIRURGIÃO-DENTISTA NA
EQUIPE MULTIPROFISSIONAL HOSPITALAR
THE IMPORTANCE OF THE PARTICIPATION OF THE DENTIST IN THE
HOSPITAL MULTIPROFESSIONAL TEAM
RESUMO
O paciente hospitalizado, freqüentemente, apresenta saúde debilitada,
demandando
cuidados
especiais.
Sua
recuperação
está
diretamente
relacionada à atuação de uma equipe multiprofissional capaz de atendê-lo de
forma integral, respeitando suas especificidades. A atuação da equipe
hospitalar
multiprofissional,
composta
por
médicos,
enfermeiros,
fisioterapeutas, dentistas, psicólogos, dentre outros, visa oferecer ao paciente
internado uma assistência completa, evitando que ocorram agravos do quadro
clinico inicial, impedindo a propagação de infecções para outros órgãos e
sistemas. Entretanto, nem todas as equipes hospitalares dispõem de cirurgião
dentista, embora a literatura comprove que doenças bucais podem gerar
alterações sistêmicas e vice-versa. O objetivo desse trabalho é, através de uma
revisão de literatura, apontar as diversas possibilidades de atuação do dentista
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em ambiente hospitalar, reforçando sua contribuição na atenção integral do
paciente. Concluiu-se que é de extrema importância a inclusão do dentista na
equipe multiprofissional hospitalar, visto que se trata de um profissional apto a
atuar em várias frentes de atenção hospitalar. Faz-se necessário a
conscientização da classe médica sobre os
benefícios advindos
da
incorporação deste profissional à equipe hospitalar.
PALAVRAS CHAVE: Odontologia hospitalar, cirurgião dentista, hospital,
atenção integral, equipe multiprofissional, paciente hospitalizado.
ABSTRACT
The hospitalized patient often presents weakened health that demands some
special cares. His recuperation is directly related to the performance of a
multiprofessional team capable of assisting him in an integral way, respecting
his peculiarities. The hospital multiprofessional team performance is composed
by doctors, nurses, physiotherapists, dentists, psychologists among others,
seeking to offer to the interned patient a complete assistance, avoiding the
occurrence of some offences from the initial clinic condition, impeding the
propagation of infections to the other areas and systems. However, nor all the
hospital teams dispose of a dentist surgeon although the literature proves that
the buccal diseases can generate systemic alterations and vice and versa. The
goal of this paper is, through a literature review, to appoint the several
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possibilities of the dentist’s performance in the hospital environment, reinforcing
his performance contribution in the patient's integral attendance. It can be
concluded that is extremely important the inclusion of the dentist in the hospital
multiprofessional team since it is a professional capable of acting on several
modalities of hospital care. It is necessary the understanding of the medical
class about the benefits from the incorporation of this professional to the
hospital team.
KEY WORDS: Hospital dentistry, surgeon dentist, hospital, integral assistance,
multiprofessional team, hospitalized patient.
1. INTRODUÇÃO
De acordo com o Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de
Saúde (SIH/SUS), no mês de janeiro/2010, foram realizadas, no Brasil, 890.933
internações, com média de permanência hospitalar de 5,9 dias e cerca de
33.000 óbitos (3,7%).1-2 Esses dados instigam uma reflexão sobre a qualidade
da assistência hospitalar brasileira. Será esta uma assistência integral
sedimentada no trabalho sincronizado de diversos profissionais, focados na
prevenção, promoção, proteção e reabilitação da saúde?
A boca é parte integrante do corpo e interfere, decisivamente, no aparecimento
e disseminação de um rol de patologias. Na cavidade bucal existem mais de
300 espécies bacterianas responsáveis por patologias bucais como a cárie e
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doença periodontal e/ou patogênicas quando atingem sítios como coração,
pulmões, articulações e sistema vascular periférico. 3-4
A infecção hospitalar é um grande dificultador no restabelecimento do paciente
internado. Seu difícil controle reside na rápida transmissão e disseminação de
agentes patológicos em organismos susceptíveis.5-6 A maioria dos pacientes
hospitalizados apresenta defesa diminuída, devido às múltiplas doenças
subjacentes ou terapêuticas depressoras do sistema imune.5-6 A debilidade
geral, associada ou não a intervenções cirúrgicas, quimioterapia, cateterismo
ou uso indiscriminado de antibióticos, favorece o aparecimento de mutantes
resistentes que contribuem para aumento da incidência de infecção
hospitalar.7-8
Assim, percebe-se a importância do cuidado bucal na abordagem integral dos
indivíduos, em especial dos que se encontram hospitalizados. O objetivo desse
trabalho é, através de uma revisão de literatura, apontar as diversas
possibilidades de atuação do dentista dentro do ambiente hospitalar,
reforçando sua contribuição na assistência integral do paciente hospitalizado.
Realizou-se
busca
ativa
de
artigos
científicos
nas
principais
bases
bibliográficas (Medline, Bireme, Lilacs e Scielo). As palavras chave utilizadas
foram Odontologia Hospitalar, cirurgião dentista, hospital, atenção integral,
equipe multiprofissional e paciente hospitalizado.
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2. REVISÃO DE LITERATURA
2.1 Atuação Multiprofissional em Ambiente Hospitalar
SAÚDE é o estado do mais completo bem estar físico, mental, social e não
apenas ausência de enfermidade.9
A palavra saúde tem raízes na língua
grega, com o significado de intacto, inteiro e integral, sugerindo uma
abordagem holística do sujeito (FIG.1).10 Desta forma, quando um indivíduo
apresenta problemas em uma ou mais vertentes da saúde, produz-se uma
desarmonia, favorecendo o aparecimento de enfermidades. Muitas vezes, o
próprio indivíduo não consegue resolver suas dificuldades, necessitando de
auxílio multiprofissional.11
Biológico
Psicológico
Social
Espiritual
Figura 1: Abordagem integral do indivíduo
Pacientes hospitalizados, freqüentemente, apresentam saúde debilitada,
demandando maior dedicação da equipe profissional e cuidados especiais que
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vão desde a utilização de tecnologias capazes de melhorar ou prolongar a vida,
até a criação de ambientes mais confortáveis e seguros.12 A diversidade de
situações clínicas apresentadas por pessoas hospitalizadas exige condutas
imediatas por parte da equipe multiprofissional, sob pena de colocar em risco a
vida do doente. 13-14
Tendo em vista a complexidade do ser humano, em especial a do indivíduo
hospitalizado, verifica-se que um único profissional não consegue fazer de
forma concisa e segura nem o diagnóstico nem o tratamento de um paciente
hospitalizado,
indicando
que
nenhuma
categoria
profissional
detém,
isoladamente, o saber necessário para atender às demandas desse
indivíduo.13-14
Dessa forma, para que a assistência esteja livre de riscos, torna-se
fundamental a integração entre as diferentes categorias profissionais e os
vários ramos do conhecimento. Dentro desse pressuposto, os hospitais
deveriam dispor de equipe multiprofissional capaz de atuar de forma articulada
em um mesmo ambiente de trabalho.13-14
A persistência do modelo biomédico produz uma abordagem fragmentada do
paciente focada no ato médico e em suas especialidades, o que desvaloriza a
integração de outros profissionais à assistência à saúde.14 O trabalho em
equipe vem sendo veiculado como estratégia visando o enfrentamento do
intenso processo de especialização em saúde, no entanto, muitas vezes, é
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adaptado para uma organização de trabalho que induz à competição entre
especialidades gerando conflitos.13,15
De acordo com a Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar (SBPH), uma
equipe de saúde hospitalar é composta por profissionais que mantêm contato
direto com o paciente (médicos, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas,
fisioterapeutas e assistentes sociais) e por profissionais que atuam de forma
indireta (equipe de higienização, técnicos em radiologia, anestesistas, dentre
outros).16
A incorporação do cirurgião dentista à equipe hospitalar contribui para o bem
estar e dignidade do paciente, prevenindo infecções, diminuindo o tempo de
internação e uso de medicamentos. No entanto, sua inclusão às equipes
multidisciplinares hospitalares, principalmente dentro das Unidades de Terapia
Intensiva (UTIs), ainda não é uma realidade, sendo negligenciada pela maioria
dos hospitais brasileiros.17
Em estudo, conduzido no estado do Rio de Janeiro, com o objetivo de verificar
a adoção de medidas de controle de infecção bucal, antes de procedimentos
cirúrgicos, foi constatado que somente 32% dos hospitais realizavam tal
procedimento. Destes, apenas 15% faziam o monitoramento do acúmulo de
placa dentária.23
2.2 Odontologia Hospitalar - Breve Histórico
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O conceito de atendimento odontológico hospitalar surgiu em 1901 quando o
Comitê de Serviço Dentário da Associação Dentária Americana criou o 1º
Departamento de Odontologia dentro do Hospital Geral da Philadelfia.18 A
primeira proposta de criação de um serviço de Odontologia Hospitalar foi da
Associação Americana Odontológica no ano de 1922.
No entanto, sua
aprovação pelo Comitê de Serviço Hospitalar ocorreu somente após 1948.19
No Brasil, a Odontologia Hospitalar foi legitimada em 2004 com a criação da
Associação Brasileira de Odontologia Hospitalar (ABRAOH).20 No ano de 2008,
foi apresentado à Câmara dos Deputados do Rio de Janeiro o Projeto de Lei nº
2776/2008 que estabelece como obrigatória a presença do dentista nas
equipes multiprofissionais hospitalares, atuando inclusive dentro das UTIs.18
2.3 Atuação do Cirurgião Dentista em Ambiente Hospitalar
O código de ética odontológico assegura ao cirurgião dentista o direito de
internar e assistir pacientes em hospitais públicos e privados, com e sem
caráter filantrópico, desde que sejam respeitadas as normas técnicas
administrativas das instituições. Informa que as atividades odontológicas
exercidas em hospitais devem obedecer às normas do Conselho Federal de
Odontologia e que, mesmo em ambiente hospitalar, não é permitido ao dentista
executar intervenção cirúrgica fora do âmbito da Odontologia.21
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Dentro deste contexto, o cirurgião dentista está apto a atuar como consultor de
saúde bucal e/ou como prestador de serviços, tanto em nível ambulatorial
quanto em regime de internação. Este profissional encontra-se preparado para
executar ações no âmbito da atenção primária e complexa, realizando
prevenção e tratamento de doenças bucais, capacitando pacientes e
profissionais para execução de adequada higiene bucal, provendo cuidados
bucais à pacientes especiais e executando procedimentos cirúrgicos de alta
complexidade dentro de sua área de atuação.8,22
O simples exame da cavidade bucal é capaz de detectar doenças bucais préexistentes, possibilitando tratamento precoce. Conseqüentemente, elevada
porcentagem de pacientes com doença bucal poderiam ser tratados em
ambiente hospitalar, diminuindo a incidência de infecções e desconforto.19
O tratamento odontológico contribui para o restabelecimento da função dentária
necessária à adequada mastigação dos alimentos, indispensável para uma boa
nutrição. A equipe odontológica também está apta para ofertar tratamento
dentário curativo e preventivo aos pacientes em situações especiais como
aqueles que estão ou serão submetidos à radioterapia na região de cabeça e
pescoço, cirurgias cardíacas; que têm ou tiveram histórico de febre reumática
ou doenças congênitas do coração; aos transplantados renais ou sobre
hemodiálise.19
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A atenção odontológica contribui para aumento da auto-estima do indivíduo,
na medida em que melhora sua estética, favorecendo as relações sociais e o
aparecimento do sorriso.19 Em estudo científico conduzido por HALLET (1984),
pacientes relatam que uma cavidade bucal limpa propicia sensação de bemestar, facilitando as relações sociais.22
Simultaneamente, a equipe de saúde bucal capacita pacientes e profissionais
da saúde para a execução de adequada higiene bucal, prevenindo o
aparecimento ou agravo de doenças bucais comuns que podem levar à piora
do quadro clínico do paciente.8 Sabe-se que uma condição bucal precária
altera a evolução e resposta do paciente ao tratamento médico e que
determinados tipos de tratamentos ou interações medicamentosas podem
comprometer a saúde bucal.22
2.3.1 Atendimento de Urgência e Atenção Bucomaxilofacial
O termo Odontologia Hospitalar é fortemente associado a serviços de urgência
odontológica e traumatologia bucomaxilofacial. Mundialmente, os traumatismos
faciais são destaque entre os atendimentos de emergência hospitalar, tendo os
mais variados fatores etiológicos que vão desde acidentes automobilísticos até
agressões físicas.24 No entanto, os atendimentos odontológicos hospitalares
não devem se restringir apenas à traumatologia bucomaxilofacial, uma vez que
a população hospitalar tem necessidades de tratamentos resultantes da
doença cárie e de seus agravos, como a dor de dente e abscessos dentários.24
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2.3.2 O Dentista nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs)
As UTIs foram criadas com objetivo de atender pacientes em estado crítico que
necessitam de assistência e observação contínuas de médicos e enfermeiros,
como também maior concentração de recursos materiais.25
Os pacientes das UTIs apresentam higiene bucal comprometida que,
associada à internação prolongada, contribui para aumento da quantidade e
complexidade da placa dental, favorecendo a interação entre bactérias
indígenas da placa e patógenos respiratórios.22,25-26 Tais microrganismos, em
especial os respiratórios, podem ser fonte de infecção nosocomial, conceituada
como toda infecção adquirida após a admissão hospitalar do paciente que se
manifesta durante sua internação ou após alta. Pacientes de UTIs são,
freqüentemente, acometidos por esse tipo de infecção, visto que, na grande
maioria dos casos, apresentam alteração do nível de consciência, favorecendo
aspiração de secreção bucal. As bactérias presentes nestas secreções,
principalmente
as
envolvidas
na
doença
periodontal,
podem
causar
pneumonias de aspiração.22,25-27
Os pacientes submetidos à intubação orotraqueal, comumente, apresentam a
orofaringe colonizada por microrganismos Gram-negativos nas primeiras 48 a
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72 horas de UTI. Tais bactérias alcançam os pulmões através das secreções
bucais que “vazam” pelos lados dos balonetes do tubo traqueal.26 A intubação
impede o fechamento da boca, favorecendo seu ressecamento e elevando o
nível de colonização no biofilme.25,27 Pacientes intubados podem apresentar
alterações bucais como xerostomia, lesões nos lábios, língua e mucosas. O
uso do ventilador mecânico dificulta a higienização bucal devido ao fato do tubo
e de seu material de suporte impedirem a visualização completa do interior da
boca. Sendo assim, é de grande importância que a equipe de enfermagem
auxilie o dentista durante a assepsia bucal, manipulando cuidadosamente este
artefato indispensável à manutenção da respiração.26
Alguns recursos, como saliva artificial, escovas dentais elétricas, raspadores de
língua, sugadores e anti-sépticos bucais, podem ser utilizados no cuidado bucal
destes pacientes. Dentre os antissépticos, a solução de gluconato de
clorexidina (0,12%) é a que apresenta melhores resultados no controle da
colonização bacteriana ao longo do trato respiratório, devendo ser utilizada
diariamente para limpeza da cavidade bucal de pacientes intubados.22
O conhecimento das técnicas de higienização e do arsenal disponível para
melhora da condição bucal de pacientes internados em UTIs é de domínio de
toda a classe odontológica, devendo, portanto, estar sob responsabilidade de
um dentista. A falta deste profissional na equipe intensivista faz com que tais
cuidados fiquem a cargo de outros profissionais que, muitas vezes, não tiveram
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acesso a informações e treinamentos específicos, o que pode comprometer a
qualidade da assistência ofertada.26
O cirurgião-dentista enfrenta muitos obstáculos na tentativa de participar de
equipes multidisciplinares em UTIs, já que a prioridade do procedimento
odontológico é baixa, diante dos numerosos problemas apresentados pelo
paciente. Em contrapartida, trabalhos científicos demonstram redução (60%) na
incidência de pneumonia e de taxas de mortalidade em grupos de pacientes
que recebem
cuidados
odontológicos,
quando comparados
a grupos
controle.22,25
2.3.3 Pacientes Oncológicos
A dor orofacial pode ser um sintoma inicial do câncer, o que faz com que
muitos pacientes busquem, em primeira instância, o auxílio do dentista o qual
deve estar preparado para fazer o diagnóstico diferencial.28
Pacientes portadores de leucemia aguda apresentam com freqüência
alterações bucais como hiperplasia gengival, petéquias, hemorragias e
ulcerações na mucosa. Crianças com leucemia podem apresentar alterações
de desenvolvimento das criptas dentárias, destruição da lâmina dura,
deslocamentos dentários e alterações na densidade óssea. Sendo assim, o
dentista pode colaborar para o diagnóstico precoce desta moléstia.28-29
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Métodos tradicionais de tratamento oncológico incluem procedimentos
cirúrgicos, radioterapia e quimioterapia.30-31 Tanto a radioterapia quanto a
quimioterapia podem gerar efeitos colaterais na cavidade bucal como
xerostomtia, gengivite, candidíase, trismo, lesões cariosas, osteorradionecrose,
celulite, mucosite e disfagia.31-32
As complicações associadas ao tratamento anti neoplásico podem provocar
desconforto, dor severa, nutrição deficiente, alterações do protocolo de
tratamento, aumento do tempo de internação e septicemia, ameaçando a vida
do paciente.28-29,30,32 Por isso, recomenda-se que pacientes oncológicos sejam
avaliados pelo cirurgião dentista antes da radio ou quimioterapias para que
todas necessidades odontológicas sejam sanadas, evitando-se que reações
advindas do tratamento oncológico potencializem problemas bucais pré
existentes.32
O planejamento integral odontológico de pacientes oncológicos deve priorizar
atividades de educação em saúde bucal, visando prevenir e controlar as
doenças cárie e periodontal. Na fase de adequação do meio bucal, deve-se
eliminar as fontes de traumas como aparelhos ortodônticos, restaurações e
dentes fraturados, restos radiculares e outros focos de infecção. As lesões de
cárie cavitadas devem ser escavadas e seladas provisoriamente. No caso de
lesões com comprometimento pulpar, realiza-se o tratamento endodôntico,
desde que o paciente apresente boas condições sistêmicas. Na presença de
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infecção, deve-se optar pela antibióticoterapia. Caso não haja remição dos
sinais e sintomas de infecção, o dentista precisa executar a exodontia do dente
comprometido. Dentes com mobilidade grau I, com bolsas periodontais com
profundidade maior que 4 mm, parcialmente impactados e próximos a tumores
devem
ser
removidos
antes
do
tratamento
radioterápico.
Todas
as
restaurações devem ser polidas e as defeituosas substituídas, sendo contraindicado o uso de amálgama em pacientes que irão se submeter à radioterapia,
devido à emissão de radiação secundária.29-31.
Medidas de educação em saúde bucal com pais e/ou responsáveis de
pacientes oncológicos infantis devem ser enfatizadas, visto que diminuem o
risco de complicações bucais decorrentes do tratamento. Orientações sobre
dieta também são de grande importância, já que muitas crianças voltam a
tomar mamadeira devido à dificuldade de deglutição ou por regressões
emocionais.29,32
O cirurgião dentista desempenha papel fundamental no manejo do paciente
oncológico, contribuindo para melhora da qualidade de vida antes e após
terapias antineoplásicas. Esses profissionais fazem intervenções próprias de
suas áreas de atuação, assegurando uma boca mais saudável, livre de
infecções e dor.28-29
2.3.4 - Pacientes Gestantes
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As alterações hormonais/imunológicas, comuns ao período de gestação,
associadas a mudanças nos padrões alimentares e descuido para com a
higiene bucal favorecem o aparecimento da gengivite gravídica e lesões
cariosas. Consequentemente, gestantes precisam ser esclarecidas sobre a
importância da higiene bucal e da ingestão racional de alimentos.33-37 Uma vez
que há forte relação entre diabetes mellitus e gengivite, gestantes diabéticas ou
que
desenvolveram
diabetes
gestacional
precisam
de
monitoramento
odontológico freqüente, sendo essencial a manutenção da glicemia em níveis
satisfatórios.36 Pesquisas
científicas
comprovam
relação
entre
doença
periodontal, ocorrência de parto prematuro e nascimento de bebês com baixo
peso, reforçando a importância da educação em saúde bucal e controle de
placa junto às gestantes.33-35 Todo tratamento odontológico essencial pode e
deve ser executado durante a gravidez desde que seja realizado de forma
multiprofissional
após
avaliação
risco/benefício.
É
imprescindível
a
comunicação entre dentistas e médicos, com vistas ao melhor planejamento
odontológico.36-37
2.3.5 Pacientes Diabéticos
Pacientes diabéticos apresentam alta prevalência de problemas bucais como
candidíase, xerostomia, halitose, cáries e periodontopatias. Durante a
hospitalização desses pacientes é fundamental a implementação de cuidados
bucais para evitar o surgimento de doenças locais e/ou sistêmicas decorrentes
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do acúmulo do biofilme dentário, visto que algumas doenças bucais dificultam o
processo de compensação do paciente diabético. 33
2.3.6 Pacientes Portadores de Distúrbios Neuropsicomotores
Os pacientes portadores de distúrbios neuropsicomotores apresentam desvios
dos padrões de normalidade e necessitam de atenção especial por um período
de sua vida ou indefinidamente.39 Apresentam alto índice de cárie, gengivite e
periodontopatia devido à higienização deficiente e falta de conscientização dos
responsáveis sobre a importância dos cuidados bucais.40
O tratamento odontológico desses pacientes deve ser feito em ambiente
hospitalar, em nível ambulatorial, somente em situações específicas como
presença de problemas sistêmicos e/ou alta complexidade do procedimento a
ser executado.41 O uso da anestesia geral é indicado apenas para pacientes
com dificuldade intelectual severa, problemas sistêmicos graves, anomalias
congênitas e alergias ao anestésico local, devendo ser realizado sob
monitoramento de um médico anestesiologista, visando maior segurança.40-42.
2.3.7 Pacientes Idosos
Em 2001 o SIH-SUS registrou 12.227.465 internações hospitalares. Nesta
época, os idosos, que representavam 8,5% da população brasileira,
responderam por 18,3% das hospitalizações. A maior utilização dos serviços
hospitalares pela população idosa vem em decorrência de uma maior
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incidência de doenças e condições crônicas nessa fase da vida, muitas vezes
em maior intensidade e gravidade.43 Assim sendo, o trabalho com a terceira
idade exige a formação de uma ampla rede de conhecimentos.44 Os idosos
requerem uma atenção diferenciada com o envolvimento de uma equipe
multidisciplinar, com o propósito de melhorar a qualidade de vida desses
indivíduos, proporcionando-lhes um envelhecimento saudável.45
O envelhecimento causa modificações fisiológicas na cavidade bucal do idoso.
Dentre elas podemos citar a diminuição da espessura do epitélio e maior lisura
da mucosa bucal, o que ocasiona sensação de ardor, quando o idoso ingere
alimentos quentes ou frios, interferindo diretamente na preferência por
determinados tipos de alimentação.46
Na terceira idade a saúde bucal ancora-se na possibilidade da manutenção de
uma dentição saudável, essencial para adequada fonação, mastigação e
estética. Hábitos prejudiciais e higienização deficiente, aliados às mudanças
fisiológicas inerentes aos idosos, causam alterações bucais que podem
dificultar seu tratamento.45
Um grande problema que afeta os pacientes idosos é o edentulismo. As
principais causas de ausência de dentes e de uso de próteses totais na terceira
idade são decorrentes de cáries não tratadas e periodontites.45-47 Existe
também uma preocupação com a higienização das próteses e cuidados com a
detecção de lesões de mucosa que, em alguns casos, podem sugerir presença
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de câncer bucal. O dentista pode orientar os pacientes geriátricos e seus
cuidadores a realizarem adequada higiene bucal, incluindo orientações sobre
limpeza de próteses dentárias. Tem papel fundamental no tratamento de
alterações bucais decorrentes de interações medicamentosas e na detecção
precoce do câncer bucal.47
2.3.8 Pacientes Transplantados
Pacientes submetidos a transplante de órgãos podem apresentar várias lesões
bucais decorrentes da imunossupressão induzida por medicamentos. Essas
lesões incluem leucoplasia pilosa, candidíase, infecções virais por herpes vírus
simples ou citomegalovírus, neoplasias malignas (linfomas, Sarcoma de
Kaposi, câncer de pele e lábios), hiperplasia gengival causada por uso
prolongado de ciclosporina e problemas periodontais. O cirurgião dentista deve
intervir a favor do bem estar do paciente, indicando medicação e tratamentos
que visem melhorar a qualidade de vida do paciente transplantado48-51.
2.3.9 Pacientes com Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS)
Os pacientes portadores da AIDS apresentam deficiência do sistema
imunológico, determinando o aparecimento de manifestações bucais, como:
candidíase,
leucoplasia
pilosa,
gengivite
úlcero
necrosante
aguda,
periodontites, infecções por vírus e neoplasias como o sarcoma de Kaposi. O
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dentista
tem
papel
fundamental
no
tratamento
sintomático
dessas
alterações.33,52
2.3.10 Pacientes com Distúrbios Cardiovasculares
Existe forte associação entre doença periodontal e doenças cardiovasculares,
visto que pesquisas científicas identificaram material genético de bactérias
periodontais em placas de ateroma. Acredita-se que a presença de infecção
periodontal crônica na cavidade bucal seja responsável pela liberação de
produtos
bacterianos
na
corrente
sanguínea,
estimulando
o
sistema
imunológico a produzir citocinas inflamatórias, favorecendo a formação dos
ateromas.33,35,54 Além disso, pacientes com periodontite em fase aguda têm o
aumento dos níveis sanguíneos da Proteína C Reativa e de fibrinogênio o que
aumenta o risco para doenças cardiovasculares.35 A bacteremia de
microrganismos da cavidade bucal pode favorecer a infecção de órgãos
importantes como o coração (válvulas cardíacas), provocando a endocardite
bacteriana.35
2.4 Ação de Medicamentos na Cavidade Bucal
O tratamento de doenças sistêmicas pode provocar efeitos indesejáveis na
cavidade bucal. Existem medicamentos que causam alteração do fluxo salivar
como os anti-histamínicos, hipotônicos, antidepressivos, tranqüilizantes,
anticolinérgicos, neurolépticos, reguladores de apetite, antiparkinsonianos, anti-
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hipertensivos e os diuréticos. Outros como os laxativos, anitoxígenos e tônicos
apresentam, em sua composição, a sacarose, aumentando o risco de
desenvolvimento de lesões cariosas.2 O dentista tem condições de alertar
pacientes e equipe de saúde hospitalar sobre a ação de medicamentos na
cavidade bucal, contribuindo para a prevenção de enfermidades bucais.
2.5 Equipe Auxiliar
A saúde bucal é um importante fator para a manutenção do bem estar geral,
visto que existem diversas associações entre doenças bucais e doenças
sistêmicas, como alterações cardiovasculares e respiratórias. Em pacientes
hospitalizados estas associações são ainda mais relevantes, tendo em vista
quadros de debilidade sistêmica, co-morbidades, redução do fluxo salivar e
higienização bucal dificultada.54 É essencial a manutenção de uma higiene
bucal satisfatória durante todo o período de internação do paciente, visando
seu pronto restabelecimento.
55
As complicações decorrentes da falta ou
inadequação do procedimento de higiene bucal podem aumentar o tempo de
internação do paciente de 6,8 a 30 dias. Diante do exposto há necessidade de
medidas adjuntas ao controle mecânico da placa bacteriana (escovação e uso
de fio ou fita dental) como, por exemplo, o uso de substâncias químicas.56
No ambiente hospitalar os cuidados diários de higiene geral e bucal são
atribuições da equipe de enfermagem. O cirurgião dentista tem importante
papel na capacitação da equipe auxiliar hospitalar para realização de uma
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higiene bucal eficaz e adequada às particularidades apresentadas por cada
paciente. Cabe também ao dentista o monitoramento e avaliação das medidas
preventivas instituídas como rotina hospitalar.53-54
3- CONCLUSÃO
Um atendimento hospitalar de qualidade demanda a participação de uma
equipe multiprofissional capaz de oferecer assistência integral ao indivíduo
hospitalizado. Grande parte dos hospitais brasileiros ainda não conta com a
participação de um cirurgião dentista em seu corpo clínico, o que é lamentável,
visto que o dentista pode atuar em várias frentes dentro do ambiente hospitalar,
contribuindo para o bem estar e dignidade do paciente, prevenindo infecções e
diminuindo o tempo de internação. Faz-se necessário a conscientização da
classe médica sobre os benefícios advindos da incorporação deste profissional
à equipe hospitalar.
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