A Assembleia celebrante reúne-se A primeira realidade litúrgica, da parte humana, é a assembleia. É a primeira coisa que os crentes realizam: reúnem-se. É a primeira coisa que os não crentes observam: que os cristão vão a uma reunião. Na assembleia começa já a realizar-se o mistério da Igreja e da presença de Cristo com o seu Espírito. Por isso a assembleia eucarística – ou seja, o grupo de pessoas que se reuniram para celebrar a Eucaristia, quer seja uma pequena comunidade religiosa, quer uma grande paróquia – é digna de que se lhe dedique uma reflexão: para que, entendendo melhor a sua razão de ser, possamos também na prática torná-la mais expressiva e eficaz. A primeira coisa que fazemos: reunimo-nos com outros cristãos Um dos verbos mais repetidos nos relatos comunitários das primeiras gerações é o de reunir-se. No dia em que escolheram Matias “o número dos reunidos era de uns cento e vinte” (Act 1, 15); no dia do Pentecostes “estavam todos reunidos num mesmo lugar” (Act 2, 1); quando Pedro foi libertado da prisão, dirigiu-se a uma casa, “onde se encontravam reunidos em oração” (Act 12, 12); e, pelo menos, em cada domingo convocava-se a assembleia cristã, como no episódio de Tróade: “no primeiro dia da semana, estando nós reunidos para a fracção do pão”… (Act 20, 7). Estes testemunhos de Lucas repetem-se nos vários documentos que nos chegaram das gerações seguintes. Assim, a Didakê (também do séc. I) estabelece: “reunidos em cada dia do Senhor, parti o pão e dai graças” (c. 14). O bispo Inácio (de Antioquia), um pouco mais tarde do ano 100, valoriza assim a celebração da comunidade reunida: “porque se a oração de um ou dois tem tanta força, quanto mais a do bispo juntamente com toda a comunidade; assim, pois, o que não vem à reunião dos fiéis, esse é já um soberbo e ele mesmo pronuncia a sua própria sentença” (carta aos Efésios, c. 5). “Ponde empenho em reunir-vos com mais frequência para a celebração da Eucaristia de Deus e tributar-lhe glória. Porque quando apertadamente vos congregais em um só, derrubam-se as fortalezas de Satanás e pela concórdia da vossa fé se destrói a ruína que ele vos procura” (ibidem, c. 13). Pelo ano 150 há um belo testemunho de como celebravam a Eucaristia as comunidades cristãs. E, naturalmente, a primeira realidade que aparece no documento, é a reunião: “no dia chamado do sol todos os nossos, os que vivem nas cidades ou no campo, reúnem-se no mesmo lugar”. É interessante a motivação que Hipólito de Roma, cerca do ano 220, faz desta reunião comunitária: “ninguém de vós se mostre com medo em ir à reunião da comunidade, o lugar onde se ensina; todos sejam solícitos em ir à comunidade, lugar onde floresce o Espírito Santo (ire ad ecclesiam, locum ubi Spiritus Santus floret)” (Tradição Apostólica, c. 14). 1 Não se trata de que cada cristão, uma vez por dia ou por semana, tenha que realizar por sua conta um acto de homenagem a Deus, uma oração, um sinal sacramental. A primeira perspectiva é a comunitária: o cristão – por exemplo, ao Domingo – reúnese com outros cristãos. Para quê? Para várias coisas: mas já começa a funcionar o Mistério de comunhão e salvação no próprio facto de se reunir em comunidade: apenas com isso já põe a claro a sua pertença à Igreja e a sua fé na presença de Cristo na comunidade. Um valor re-descoberto pela nossa geração Por isso, na reforma que o Concílio Vaticano II promoveu, não só se afirmou que a “participação plena, consciente e activa nas celebrações litúrgicas exige-a a própria natureza da liturgia”, e que “a ela tem direito e obrigação, em virtude do Baptismo, o povo cristão, como povo sacerdotal” (Sacrosanctum Concilium 14); dizia-se também, já desde o primeiro momento, que “as acções litúrgicas não são acções privadas, mas celebrações da Igreja, que é sacramento de unidade, isto é, povo santo congregado e ordenado sob a direcção dos bispos” (ibidem, 26). Mas esta convicção inicial foi-se clarificando ainda mais à medida que se foram reformando os livros litúrgicos oficiais: neles é onde se vê mais insistentemente sublinhada a assembleia dos reunidos como a primeira realidade de cada celebração, como o sujeito integral da acção. A Introdução Geral ao Missal Romano (=IGMR) começa com esta perspectiva geral da Eucaristia: “Na Missa ou Ceia do Senhor, o povo de Deus é convocado e reunido, sob a presidência do sacerdote que actua na pessoa de Cristo, para celebrar o memorial do Senhor ou sacrifício eucarístico” (IGMR 7). O verbo “celebrar” corresponde a todo o povo congregado. Ao sacerdote toca-lhe um ministério nobilíssimo: o de presidir a essa comunidade celebrante em nome de Jesus Cristo. Seria interessante seguir esta mesma afirmação nos outros livros e nas suas introduções: o número 20 da Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas, quando diz que a celebração mais expressiva desta oração é a do povo cristão, animado e presidido pelos seus ministros; ou a Introdução ao Ritual do Baptismo (nn. 4. 7. 14. 61) que valoriza muito o papel protagonista de toda a assembleia cristã reunida; ou o Ritual da Penitência que afirma que “o fiel celebra junto com o sacerdote a liturgia da Igreja” (n. 11); ou o Ritual das Exéquias (21), que diz: “a celebração das exéquias não é assunto só dos parentes do defunto, mas de toda a comunidade cristã”, e convida a que todos participem activamente na celebração “de modo que apareça com clareza a realidade da comunidade eclesial que celebra o mistério pascal, exprime a sua fé e ora pelo defunto”. Trata-se de uma nova mentalidade que, infelizmente, não passou ainda suficientemente da letra dos novos livros à consciência e à prática das comunidades cristãs. O papel de protagonista na celebração tem-no a assembleia dos cristãos ali congregados. O sacerdote cumpre a missão de representar Cristo-Cabeça dessa 2 comunidade. Mas cumpre essa função a partir de dentro da assembleia celebrante, não como alheio à mesma. É deficiente, portanto, a linguagem que antes se empregava: o sacerdote como o “celebrante”, e o povo como “os assistentes”. Agora os próprios livros litúrgicos chamam “celebrante” ao povo congregado, e nem por isso diminui a importância dos ministros que visibilizam, quase-sacramentalmente, a presença de Cristo na celebração. O mistério da assembleia cristã Pode-se entender em duas direcções que uma assembleia concreta é em si mesma um mistério, um sinal sacramental que aponta para além do que pudesse supor a sua fenomenologia. Antes de mais, uma comunidade cristã reunida – quer seja de religiosos(as), um grupo de crianças ou jovens, quer uma comunidade paroquial – é uma expressão concreta da realidade da Igreja. Não se reúnem só para “fazer” algo (cantar, orar, escutar…), mas que em si mesma, no próprio facto da sua reunião, a assembleia cristã é um misterioso sacramento da Igreja, uma condensação do que é a Igreja inteira. A Igreja local tem aqui os seus momentos mais expressivos. A Igreja universal, dispersa por todo o mundo, torna-se visível nestes fiéis que se congregam para celebrar a Eucaristia. Inclusive a Igreja dos bem-aventurados tem aqui o seu “sinal”, a sua manifestação sacramental. A Igreja, além de “instituição” estável, é também, “acontecimento”: e é-o precisamente quando um grupo de cristãos se congrega para celebrar a doação de Cristo na Eucaristia. Não é estranho que a palavra grega “ekklesía”, tanto signifique a Igreja universal, como a congregação local, como o próprio edifício em que tem lugar esta convocatória litúrgica: porque “igreja” significa precisamente reunião, congregação, convocatória dos crentes. É uma ideia que K. Rahner repete muito nas suas obras: o momento privilegiado em que a Igreja se torna “acontecimento”, ou seja, realidade palpável e expressiva, é quando uma assembleia se reúne para celebrar a Eucaristia. Aí concentra a Igreja com maior intensidade a sua própria natureza: sente-se unida pelo Espírito, sabe e celebra a presença do seu Senhor, Jesus, e, além disso, exprime sacramentalmente a unidade dos fiéis entre si e com Cristo. O próprio facto da assembleia eucarística começa já a “realizar”, a tornar eficaz o mistério da Igreja como comunidade do Espírito de Cristo. A Igreja local – a Eucaristia é sempre celebrada por uma igreja local – não é uma “filial” da universal: é o “próprio acontecimento da Igreja, Esposa de Cristo”: é a sua expressão concentrada, por mais pequeno que seja o número dos reunidos ou por mais pobre que seja a igreja em que se reúnem. Ali funciona um sinal misterioso: toda a Igreja está de algum modo presente. Mas a assembleia reunida, além de ser um sinal visível da Igreja, também o é da presença de Cristo. Cristo é o principal actor da celebração, tanto na proclamação da Palavra, como nos sinais sacramentais. Mas a sua presença começa a ser real, 3 dinâmica e salvadora, já no próprio momento em que se reúne a assembleia: “quando dois ou três de vós vos reunis em meu nome, aí estou Eu” (Mt 18, 20). A assembleia congregada converte-se no primeiro sinal visível da presença operante de Cristo. Depois, ir-se-á gradualmente desenvolvendo esta presença nos outros sinais e acções: na Palavra, no sacramento, na oração. Mas quando os novos documentos da Igreja enumeram estes sinais expressivos da presença de Cristo põem agora sempre em primeiro lugar a própria assembleia: “Cristo está realmente presente: na própria assembleia congregada em seu nome” (IGMR 27). A primeira consequência Se tudo isto é verdade, se a assembleia reunida para a Eucaristia já é em si mesma tão nobre, e como um sacramento vivente da Igreja e de Cristo, deveríamos cuidar muito melhor esses momentos da celebração que se chamam “rito de entrada”, que são precisamente os que constituem uma assembleia e lhe dão a mentalidade celebrante. Bastaria ver na introdução ao Missal, as palavras com que exprime para cada elemento deste rito de entrada a sua razão de ser, a sua finalidade dentro da celebração. Assim, para todo o conjunto do rito de entrada, o Missal afirma que “a sua finalidade é ‒ estabelecer a comunhão entre os fiéis reunidos ‒ e dispô-los para ouvirem devidamente a Palavra de Deus e celebrarem dignamente a Eucaristia” (IGMR 46). Há várias orações e cânticos e gestos neste bloco de entrada, mas tudo isso tem uma finalidade: dar aos reunidos consciência de que são uma comunidade celebrante, e que vão realizar na Eucaristia umas acções comuns importantes. Assim, por exemplo, o cântico de entrada: “a finalidade deste cântico é dar início à celebração, favorecer a união dos fiéis reunidos e introduzi-los no mistério do tempo litúrgico ou da festa” (IGMR 47). É importante o que o Missal diz da saudação. Trata-se de um momento que ultrapassa o que se poderia chamar um gesto de urbanidade e comunicação humana no princípio de uma celebração: tem uma finalidade mais profunda. Se a assembleia é, ao mesmo tempo, sinal da Igreja e de Cristo, a saudação pode e deve ser entendida precisamente nesta chave: o sacerdote “pela saudação, manifesta à comunidade reunida a presença do Senhor. Com esta saudação e a resposta do povo manifesta-se o mistério da Igreja reunida” (IGMR 50). Aos diversos sinais que ao longo da celebração eucarística visibilizam a presença de Cristo (o livro bíblico, o altar, a pessoa do presidente, os dons de pão e vinho…) tem sentido dedicar-lhes o sinal clássico e gesto poético do incenso. Mas ao usar-se, não deveria faltar nunca que também recebesse o incenso o que é o sinal primeiro dessa presença de Cristo: a própria assembleia, a comunidade dos cristãos. 4 Honrar a assembleia, procurar que desde já do início da celebração se sinta motivada na sua qualidade sacerdotal celebrante, situá-la nas melhores condições de proximidade e visibilidade, cuidar de todos os elementos de uma reunião agradável e de fácil participação, não é algo supérfluo ou paternalista. É algo intimamente coerente com a própria natureza da Igreja e da Eucaristia. É, verdadeiramente, um factor importante para a arte de “saber começar bem” a celebração eucarística. (Adaptação do P.e José Manuel Pereira) 5