Viver ecologicamente correto
Matheus Scaglia Mainardi (1)
(1) Acadêmico do quinto nível do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Passo
Fundo, Brasil. E-mail: [email protected]
Resumo: Este artigo discute a questão da sustentabilidade em edificações de interesse social,
considerada por alguns uma utopia e por outros uma realidade necessária. Para tanto, visa alcançar
uma compreensão palpável acerca da aplicação de estratégias que proporcionem adequação das
habitações de interesse social às questões sustentáveis de modo a torná-las mais independentes dos
recursos naturais, já que os efeitos do uso descontrolado da natureza estão podendo ser sentidos, como o
aumento dos níveis dos mares e da temperatura continental, escassez de água potável pela irregularidade
das precipitações. Daí a necessidade da mudança no modo como se pensa a questão ambiental,
principalmente no que concerne a maneira como os prédios são projetados e executados no Brasil.
Entretanto, para que ocorram mudanças, é preciso que os arquitetos e engenheiros estejam cientes das
técnicas básicas que devem ser utilizadas para permitir maior autonomia da habitação social das fontes
provindas da natureza, de modo a saber como conciliar as alternativas que levam à eficiência energética
e pluvial a um baixo custo de instalação e manutenção, promovendo assim o conforto térmico, lumínico e
sonoro por meio da adoção de estratégias passivas que não consumam os produtos naturais. A partir
dessa premissa, o artigo analisa a situação dos edifícios destinados a famílias de baixa renda, defende o
pensamento socioambiental nas decisões arquitetônicas e adverte sobre as alterações que devem ser
feitas no cenário da construção civil no país a fim de que se obtenha um desenvolvimento sustentável.
Palavras-chave: Sustentabilidade. Habitações de interesse social. Recursos naturais. Eficiência
energética.
Abstract: This article discusses the issue of sustainability in buildings of social interest, that are
considered by some an utopia and by others a necessary reality. Therefore, aims to reach an
understanding on the implementation of tangible strategies that let the social interest buildings adequate
to sustainable issues in order to make them more independent of natural resources, since the effects of
uncontrolled use of nature already can be felt, as the rising of sea levels and continental temperature,
drinking water shortages due to the irregularity of rainfall. Hence the need for change in how we think
about environmental issues, particularly regarding the way buildings are designed and implemented in
Brazil. However, for change to occur, it is necessary that architects and engineers be aware about the
basic techniques that should be used to allow the social interest building to have a greater autonomy
from the nature, to know how to reconcile the alternatives that lead to energy and water efficiency at a
low cost of installation and maintenance thereby promoting thermal, luminic and sound comfort, through
the adoption of passive strategies that do not consume the sources of nature. From this premise, the
article analyses the situation of the housing for low-income families, it advocates the social and
environmental issues in architectural decisions and it warns about the changes that must be made on the
stage of construction in the country in order to obtain a sustainable development
Keywords: Sustainability. Buildings of social interest. Natural resources. Energy efficiency.
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1. INTRODUÇÃO
O Brasil, desde o período colonial, enfrenta problemas de moradia que atingem a parcela mais
socialmente desfavorecida da população. Atualmente pode-se considerar a habitação irregular uma das
questões mais urgentes a serem resolvidas pelo poder público. As favelas nasceram com as cidades
coloniais, no período correspondente ao fim da escravidão. Após alforriados, os escravos não tiveram
para onde ir, se não para a periferia dos centros urbanos que ainda não haviam sofrido o processo de
urbanização, já que não foi lhes dado condições de crescimento dentro da sociedade escravagista. Daí
surgiram os conglomerados de habitações precárias, construídos em locais muitas vezes inapropriados, os
quais não contam com a regularidade do abastecimento dos serviços públicos, fato que marginaliza a área
e seus moradores.
Na busca pela regularização da habitação no país, observa-se o crescente investimento tanto do
setor público quanto do privado em programas de construção de moradias de interesse social destinadas a
famílias de baixa renda, que vivem em áreas sem infraestrutura básica ou que não possuem moradia
própria. A iniciativa representa um avanço urbanístico importante, porém há ainda pontos que devem ser
revistos a fim de que realmente se dê condições dignas de moradia às pessoas. Fala-se aqui do descuido
quanto a questões básicas de conforto e sustentabilidade pelo qual a maioria dos projetos são acometidos,
em busca do incessante corte de custos da obra.
Cabanas primitivas já não podem ser aceitas como modelo de residência. Por isso da importância
da aceitação da relevância das questões socioambientais no projeto. Ações referentes à adequação da
edificação no clima da região onde será instalada assim como a preocupação ambiental no que concerne
ao uso racional dos materiais de construção e posteriormente dos sistemas prediais são fundamentais para
a produção de uma edificação que proporcione condições de habitabilidade com o menor consumo
possível dos recursos naturais, através da conscientização quanto a sua interferência no ambiente
circundante.
Para tanto, deve-se adotar alternativas que visem maior autonomia da residência dos recursos
energéticos e pluviais, a fim de se obter não somente a preservação da natureza, mas também que todas as
estratégias ecológicas se revertam em economia aos usuários da obra. Assim, serão tratadas a seguir as
possibilidades que podem ser utilizadas com o intuito de melhorar a eficiência construtiva, relacionandoas com a melhora na qualidade de vida dos moradores.
2. JUSTIFICATIVA
É sabido da escassez dos recursos naturais que são utilizados cotidianamente, como a água e as
fontes de energia. A partir dessa premissa, o seguinte artigo trata da relevância do uso de técnicas e
estratégias que possibilitam às construções menor impacto ambiental e maior economia de uso e
manutenção dos sistemas prediais, por meio de decisões arquitetônicas conscientes e responsáveis quanto
às questões socioambientais. Em relação às habitações de interesse social, que são o foco do trabalho, tal
responsabilidade aumenta, pois tais projetos visam atender famílias de baixa renda. Daí o acréscimo da
importância do uso de alternativas que proporcionem as condições básicas de habitabilidade por meio de
ações que não causem interferência financeira às famílias e que não gerem danos ao meio ambiente.
3. MÉTODO EMPREGADO
O artigo encontra-se no plano teórico e utiliza de autores engajados com a questão da
sustentabilidade e eficiência energética para embasar as assertivas feitas.
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4. RESULTADOS OBTIDOS
4.1. Introdução à sustentabilidade
A arquitetura objetiva a organização funcional dos espaços, a fim de dar condições de vivência
adequadas aos futuros habitantes. Porém, a sociedade pós-moderna na qual se vive exige mais do que esse
conceito racional modernista. É fato que as características locais devem ser analisadas e levadas em
consideração na concepção projetual, tanto no que diz respeito às questões socioculturais quanto às
climáticas e topográficas do loco, chegando a soluções específicas que atendam as necessidades da
população.
Dito que um projeto não deve cair de paraquedas no terreno, e sim que aquele deve se adequar a
este, cabe a indagação do porquê ainda há a produção de edificações que renegam as questões
socioambientais como se a obra fosse isolada no tempo e no espaço. No caso específico das habitações de
interesse social, as quais estão sendo amplamente produzidas no panorama atual, é gritante a
despreocupação em relação às condições de vivência das pessoas e o descuido com o meio ambiente em
detrimento de uma falsa economia construtiva, já que se produzem edificações com materiais barateados,
porém que se alimentam ferozmente dos sistemas de abastecimento de luz e água a fim de que se possa
viver com conforto, o que encarece o custo de vida da faixa da população mais carente de recursos
financeiros.
Segundo Mascaró (2010, p. 15), o conceito de projeto sustentável ou ecoprojeto - entendível
como uma forma atual e particular de projeto redefinido por critérios de sustentabilidade – permite
identificar alternativas conceituais e metodológicas para adaptar os processos de transformação
construtiva e desenvolvimento urbano aos novos imperativos da sustentabilidade, internalizando questões
relativamente inéditas como a crise na disponibilidade infinita de energia e matéria ou como as restrições
de produtos e serviços que a dinâmica pura de mercado não oferce às camadas muito amplas da
sociedade.
Porém, o cenário da construção civil é embasado em uma errônea ideia sobre sustentabilidade.
Pensa-se que é algo utópico e utilizável apenas em edificações conceituais, não sendo aplicável, portanto,
em edificações de interesse social. A arguição em parte é verdadeira, pois alguns produtos com
certificação sustentável têm preços mais elevados que os comuns. Porém esquece-se que existem opções
economicamente viáveis, que podem até baratear os custos, provenientes da produção de um projeto
inteligente e saudável (CUNHA, 2006, p 22).
4.1. Vida longa ao reciclado
A construção civil gera excedentes de consideráveis proporções, resultado da má administração
dos operários e por erros de cálculos de consumo. Porém, o problema não deve ser focalizado apenas na
sobra de material, mas especialmente na destinação dada a ele após o descarte. Segundo dados do
Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), no Brasil são gerados cerca de 70 milhões de
toneladas de resíduos provindos da construção civil e da demolição por ano, e segundo a análise, apenas
20% deste volume é de fato reciclado, o que demonstra a falta de iniciativa no reaproveitamento dos
materiais.
A pegada ecológica deixada por uma construção não é amenizada apenas por estratégias
projetuais engajadas na questão ecológica. O processo construtivo pelo qual a edificação passou assim
como os materiais nela empregados geram impactos na natureza e consequentemente aos seres humanos.
Daí a necessidade de diminuir tal interferência através do reaproveitamento dos resíduos construtivos,
principalmente em edificações de grandes áreas como os condomínios de interesse social.
As construções de interesse social requerem altas verbas, por isso da utilização dos materiais
reciclados, que garantem economia na obra, já que têm como matéria prima detritos. Atualmente é
possível a substituição dos principais componentes da construção civil por produtos obtidos pelo
beneficiamento dos resíduos. É o caso do concreto, que pode ser obtido pelo uso de cinza reciclada de
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chaminés industriais; da madeira, que pode ser substituída por material a base de garrafas recicladas,
assim como o bambu e a cortiça, os quais podem substitui-la em pisos e acabamentos; e solas de borracha
que podem ser utilizas em piso de quadras esportivas.
Outro material que deve ser popularizado é o tijolo ecológico. Ao invés de utilizar barro
vermelho, o tijolo ecológico toma partido da areia, resíduos de usinas siderúrgicas e petroquímicas,
cimento e água, gerando peças padronizadas e altamente resistentes. E além do reaproveitamento de
resíduos industriais, tal produto não causa dano ambiental, não só por conta de não haver a extração da
matéria prima da natureza, mas também pelo preparo, que dispensa cozimento em fornos, o que se traduz
em não desmatamento das florestas para a obtenção da lenha, que é utilizada como combustível, e
consequentemente gerando menos poluição atmosférica. Ainda deve-se citar a economia na utilização, já
que não necessitam de massa de assentamento, facilitam a colocação da estrutura e ainda apresenta
execução mais rápida comparada a feita com tijolos convencionais.
Portanto, além da destinação correta dos resíduos, que contribui na não contaminação da natureza
pelos processos de fabricação de novos produtos, a reciclagem age de maneira positiva no orçamento da
obra, fato que pode ser revertido em melhorias na infraestrura da edificação, para o usufruto dos
moradores.
4.2. Efeitos do estudo preliminar
Em termos de organização dos espaços, inúmeras são as alternativas que devem ser analisadas e
infiltradas na elaboração dos desenhos. O resultado do investimento projetual são soluções mais eficazes,
que tentem a se adequar ao clima e a outras características da região. Fala-se aqui da questão da
orientação solar e dos ventos predominantes que atuam sobre a área de intervenção, que permitem
iluminação e ventilação natural, como explica Cunha (2006, p. 37):
[...] simplismente através do próprio desenho arquitetônico, sem outras considerações
além das que dizem respeito ao lugar, ao clima, às orientações, à insolação, podem ser
melhoradas as condições do habitat antes de se recorrer a técnicas ou sistemas
tecnológicos. Bastaria levar em consideração onde o sol nasce, onde ele se oculta e com
quais inclinações incide em cada época do ano para afirmar que se está fazendo
“arquitetura bioclimática”.
Na implantação de um estudo projetivo, a insolação é algo decisivo para a distribuição dos
cômodos. É ela quem determinara as áreas de maior e de menor permanência, possibilitando que todas
recebam quantidades suficientes de luz e calor. A fachada leste e norte, por exemplo, recebem insolação
nos períodos do dia que apresentam temperaturas mais amenas, sendo assim ideais para cômodos que
precisem de radiação direta, como os quartos e outros espaços de vivência prolongada como a cozinha e a
sala. Logo, deve-se garantir a permeabilidade ao sol nestas localizações, a fim de proporcionar conforto
térmico e lumínico dos espaços. Caso contrário ocorre nas faces oeste e sul, as quais necessitam de
ressalvas. A fachada oeste recebe insolação no período correspondente à tarde, recebendo raios mais
quentes e inclinados, que geram desconforto ao usuário no verão. Porém no inverno a radiação é bemvinda no aquecimento dos cômodos, por isso da proteção dessa orientação com vegetação caducifólia,
que barre a radiação no verão e que a possibilite no inverno. Já a fachada sul pode ser destinada aos
cômodos que não necessitem de radiação direta e que sejam de pouca permanência, por possuir radiação
no período mais quente do dia no verão e não a ter no inverno, o que cria espaços mais gélidos e pouco
iluminados.
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Como complemento da análise da radiação solar, tem-se a verificação dos ventos predominantes.
Se considerados, é possível criar circulações de ar, através da ventilação cruzada, por zênites ou ainda por
dutos, que propiciem conforto térmico e melhor qualidade respiratória, pelo fato de poderem ser
eliminados fungos e outros agentes alergênicos dos locais. No caso de Passo Fundo, por exemplo, os
ventos predominantes vem da direção nordeste. Com a brisa natural, elimina-se a necessidade do uso de
aparelhos elétricos para amenizar as altas temperaturas do verão, o que resulta em economia de energia
para as famílias que moram nas edificações que contam com tal sistema.
Englobando ambas as questões, deve-se destacar as esquadrias, São elas que transformam os
edifícios em estruturas porosas [...], permeáveis à passagem do ar e da luz (CUNHA, 2006, p 22). Por isso
as mesmas precisam ser estanques e se possível contarem com sistema integrado de ventilação de
conforto, que contempla a circulação do ar ao nível do usuário e higiênica, que permite a circulação do ar
acima da altura do ocupante. Porém, segundo Cunha (2006, p.63), para que a renovação do ar interior seja
eficiente, as diferenças de pressão devem ser garantidas a partir de aberturas de entrada e saída do ar.
Ainda deve-se utilizar janelas grandes, que possibilitem a passagem da luz, fazendo desnecessária a
utilização de iluminação artificial durante o dia, e venezianas, que barrem a entrada dos raios solares
quando necessário, sem interromper a ventilação dos cômodos.
4.3. Ações energéticas
As edificações de interesse social atendem as famílias de baixa renda, logo se destaca a
necessidade de proporcionar a elas uma moradia que apresente maior independência dos serviços das
concessionárias de abastecimento público. Por isso da adoção de medidas que utilizem de meios naturais
e não poluentes para sanar questões de conforto térmico, que exigiriam a ação de aparelhos consumidores
de energia, o que representa um dano ao bolso do consumidor e ao meio ambiente, já que, segundo
Mascaró (2010, p. 17) o petróleo, carvão, gás e energia nuclear são as principais fontes de energia das
cidades, as quais são esgotáveis e contaminantes. Esgotáveis porque é parte de uma poupança de que o
planeta fez durante milênios e, que está sendo consumidaa uma velocidade cada vez maior. Contaminante
porque sua queima deixa resíduos e, o que é pior, consome o recurso mais importante para a vida: o ar.
Houve um crescimento quase linear no consumo de energia nos países em desenvolvimento e, de
acordo com Mascaró (2010, p. 17), o uso de tecnologias para o conforto humano com consumo de energia
em quantidades cada vez maiores criou desequilíbrios climáticos crescentes até serem hoje insustentáveis.
Então, para que a situação não colpase,
[...] Um novo paradigma para o uso final urbano da energia é essencial. A energia não
deve ser vista como um fim em si mesma ou como um serviço, mas como um meio de
fornecer serviços. São os serviços, e não a energia, que diretamente satisfazem às
necessidades da população(apud REDDY; GOLDEMBERG, 1998). [...] A extensão à
qual os serviços de energia são acessíveis é um bom indicador do verdadeiro nível de
desenvolvimento. O desenvolvimento, consequentemente, precisa de maior aumento do
nível per capita de serviços de energia. Esses serviços retornaram como dispositivos de
uso final (estufas, luminárias, por exemplo) que convertem a energia em usos.
Aparelhos e forma urbana mais eficientes podem conservar a energia, fornecendo os
mesmos serviços com menor consumo de energia, ou mais serviços com a mesma
energia. (CUNHA, 2006, p 14).
Em razão da busca de novos meios energéticos, pode ser citada a energia solar como exemplo que
não gera agentes poluentes e que tranquilamente pode ser utilizada em habitações de interesse social.
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Pode-se destacar o preço das placas solares como empecilho, porém aparelhos alternativos já são
encontrados em sua substituição, como painéis feitos com garrafas PET e tubos de PVC. Tal energia
limpa pode servir como complemento à energia elétrica, atuando de maneira conjunta. Havendo boa
insolação, consome-se energia limpa, quando não, recorre-se a convencional.
Como citado anteriormente, a ventilação é uma aliada ao resfriamento dos ambientes, mas
também o ar pode ser utilizado em técnicas de aquecimento, juntamente com a radiação solar. É o caso
das paredes duplas e a chamada Trombe. As paredes duplas consistem em duas camadas de blocos ou
tijolos cerâmicos dispostos à cutelo que possuem entre eles uma camada de ar que funciona como
isolante, possibilitando maior inércia térmica do fechamento, ou seja, a carga térmica recebida pela
parede custa mais a passar ao interior, criando um microclima ameno. Em substituição da camada de ar,
pode-se ainda utilizar mantas térmicas como as de lã de rocha e de vibra de vidro, as quais possuem igual
objetivo.
Já a parede trombe consiste em um sistema composto por termoacumuladores de calor, os quais
são caracterizados por estruturas em alumínio com pele de vidro, formados também por protetores
horizontais, dimensionados para impedir o ganho de calor em períodos quentes, e duas venezianas
metálicas, que objetivam a entrada do ar aquecido no termoacumulador para o compartimento com
ligação com o dispositivo (CUNHA, 2006, p 115). O ar presente entre o painel de vidro e a parede é
aquecido pelos raios solares por convecção e é mandado para dentro do compartimento pela superfície
superior, enquanto o ar frio é reposto pela inferior, ocorrendo assim um ciclo de troca de calor.
Deve-se destacar também o uso de cores claras, em especial o branco, para o revestimento dos
fechamentos, criando uma superfície mais reflexiva aos raios solares. Ambas as técnicas possuem
potencialidade de serem aplicadas em edificações de interesse social, em conjunto com a ventilação
natural, fazendo assim com que seja proporcionado condições ideais de conforto térmico apenas com
estratégias passivas, evitando-se o uso de energia para tal finalidade.
4.4. Água: o ouro líquido
Não se pode falar de desenvolvimento sustentável sem citar a problemática da água. Muitos
estados brasileiros sofrem com a seca devido à falta de chuvas e ausência de recursos hídricos. Segundo
dados de Mascaró (2010, p. 18), apenas 1% de toda a água da Terra é doce, o restante 99% é salgada,
sendo que já está em uso pelo menos a metade dessa água doce dispónivel, com 50% da população
morando nas cidades. Estima-se que com a tecnologia atual de consumo em 30 ou 40 anos não haverá no
mundo água doce suficiente para seus habitantes. Portanto, para que uma edificação seja de fato
sustentável, esta deve apresentar uso consciente desse recurso fundamental e escasso para a sobrevivência
humana.
A quantidade de água que se consome nos domicílios é variável, conforme clima, costumes e,
inclusive, renda “per capita” das famílias (MASCARÓ, 2010, p. 59), sendo crescente em relação ao
aumento do poder aquisitivo. Dai pode-se pensar que não se faz necessária a utilização de estratégias que
possibilitem o melhor aproveitamento desse recurso em habitações de interesse social, onde vivem
famílias que possuem baixos ganhos, e ai está o engano. A adoção, por exemplo, de um sistema de
captação da água das chuvas em cisternas e ainda o reuso da água do chuveiro, das pias e das máquinas de
lavar para fins que não necessitem de água totalmente potável, de acordo com Mascaró (2010, p. 62), é
interessante não só porque permite importantes economias nos volumes d’água a abastecer, mas também
porque diminuem a necessidade de despejar águas servidas com seus conhecidos problemas, o que se
traduz em economia aos moradores.
Do ponto de vista da qualidade da água que se precisa, na realidade, só de 10 a 20% deve ser
totalmente potabilizada (inodora, incolora, insípida e esterilizada); os outros 80 a 90% restantes podem
ser de qualidade inferior (MASCARÓ, 2010, p. 59). Isso quer dizer que a água recuperada e obtida das
chuvas não só pode como deve ser empregada para fins menos nobres, como a descarga das bacias
sanitárias, lavagem de calçadas e automóveis e cuidados com ajardinamento.
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Outro ponto que deve ser analisado é a destinação do esgoto produzido pelos moradores. Ele deve
ser devidamente tratado e destinado a locais próprios, a fim de que não haja a contaminação do solo e do
lençol freático. Levando em consideração que 50% do custo de um sistema de esgoto domiciliar está
associado às tubulações, é interessante buscar soluções que permitam diminuí-lo (MASCARÓ, 2010, p.
108), a fim de tornar mais acessível a instalação da rede coletora. Com o intuito de diminuir custos, já é
possível, conforme Mascaró (2010, p. 108), a fabricação de tubulação através de uma mistura de 10 a
20% de cimento e capim com solo. Alternativa ecologicamente correta já que utiliza meios naturais e
abundantes para a fabricação dos dutos.
4.5. Microclima ameno
O desempenho do espaço interior está intimamente ligado à configuração do espaço exterior de
uma edificação (CUNHA, p. 62). Nesse sentido, a vegetação, se devidamente trabalhada, atua de forma
conjunta com as estratégias passivas de conforto térmico e sustentabilidade do projeto. Através dela,
pode-se criar um microclima ideal que possibilita a melhora da habitabilidade dos moradores, propiciando
o convívio social e ainda estimulando a preservação ambiental.
A circulação dos ventos e a sua respectiva temperatura e umidade podem ser alteradas com a
presença de árvores e arbustos. Se estrategicamente locados, eles podem direcionar as correntes de ar
induzindo-as a permear na edificação; ainda quando há o contato dos ventos com a vegetação, esta
proporciona diminuição da temperatura e aumento da umidade relativa do ar, deixando-o mais fresco e
agradável, e por consequência, proporcionando clima mais ameno, como retrata Cunha (2006, p. 37):
O ar exterior que entra na edificação, prorveniente das diferenças de pressão causadas
pela ação dos ventos ou, até mesmo, pelas diferenças de temperatura, deve estar com a
menor temperatura possível. No verão, caso o espaço aberto possua áreas verdes e
sombreadas, estará contribuindo de forma positiva para o ambiente interior através da
climatização natural da vegetação existente nos espaços abertos [...]. No período de
inverno, os espaços antes sombreados no verão deverão receber insolção, o que será
possível com a adoção de vegetação de folhagem caducifólia.
Todavia, a escolha do tipo de vegetação que será utilizada em habitações de interesse social não
deve ser aleatória. As questões climáticas e a periodicidade das precipitações devem ser levadas em
consideração, a fim de que as plantas se adequem aos espaços determinados. A partir da análise, deve-se
dar preferência às espécies que exijam pouca manutenção. Por isso da escolha preferencialmente de
árvores originárias do local, já que além de se ter a certeza da sua adaptação, incentiva-se a recuperação
das matas nativas que tanto tem sido degradas ao longo das décadas pelo homem em prol da urbanização
e do cultivo de alimentos e animais.
Ainda torna-se interessante a produção de canteiros comunitários, os quais poderiam contar com
vegetais e hortaliças destiandos ao consumo dos moradores. Constitui-se em uma boa alternativa para a
destinação do lixo úmido, que pode ser beneficiado e transformado em adubo orgânico para a plantação.
É uma ação socioambiental que além de propiciar a destinação correta dos detritos, leva mais saúde aos
moradores, que consumirão produtos livres de agrotóxicos.
Outra característica importante sobre as áreas verdes é o processo de fotossíntese que fazem por
meio da absorção dos raios solares, o que as deixa na posição de filtro solar natural. Por isso da adoção de
áreas gramadas em detrimento às áreas calçadas em demasia, as quais refletem a radiação causando o
aumento da temperatura local. E em relação às áreas pavimentadas, deve-se tomar cuidado com a
permeabilidade do solo. Quando uma área se urbaniza o solo é progressivamente impermeabilizado,
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parte pelas edificações, parte pelos pavimentos que lhe dão acesso (MASCARÓ, 2010, p. 47). Então
adota-se em áreas planas ou que apresentem pouca declividade, peças intertravadas que permitam a
penetração da água no solo, evitando sua erosão e o alagamento de áreas mais baixas. Há no mercado
peças que possuem certificado ambiental, compostos por pneus reciclados na ordem de 80% juntamente
com concreto.
5. CONCLUSÃO
Este artigo pretendeu promover a discussão sobre a importância de ações sustentáveis e
socialmente responsáveis nas edificações de interesse social, com o propósito de suscitar o
desenvolvimento urbano de forma racional e consciente quanto ao uso dos recursos naturais. Por meio do
entendimento que toda construção comporta um deslocamento espacial do ecossistema, ambiente e
condições de energia e materiais novos para o lugar da edificação (MASCARÓ, 2010, p. 25), reforça-se a
necessidade do emprego de materiais provenientes da reciclagem e de técnicas construtivas que interagem
com as questões ambientais do entorno, para a produção de edificações responsáveis quanto à questão
ecológica e eficientes em relação às condições de conforto proporcionadas ao usuário.
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CUNHA, Eduardo Grala da. Elementos de arquitetura de climatização natural. 2ª edição.
Masquatro Editora, 2006.
MASCARÓ, Juan Luis. Sustentabilidade em urbanizações de pequeno porte. Masquatro Editora,
2010.
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