O LAZER E A CORPOREIDADE NO SESC: TEMPO/ESPAÇO DE
DESENVOLVIMENTO INTEGRAL1
REGIANE CRISITINA GALANTE – SESC ARARAQUARA/SP
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RESUMO
O lazer e a corporeidade, áreas de estudo em grande desenvolvimento nos últimos tempos,
são os temas centrais deste trabalho, que buscou estudar as inter-relações existentes entre
eles, sobretudo no Serviço Social do Comércio – SESC – entidade cujo principal objetivo é
realizar atividades que visam o bem estar e a melhoria da qualidade de vida dos
trabalhadores do comércio e seus dependentes, através da promoção da cultura, esporte e
lazer. Para tanto, foi realizada uma pesquisa bibliográfica – na qual buscou-se analisar
obras de autores brasileiros da atualidade que estudam a problemática do lazer e da
corporeidade, e pesquisa documental em publicações da entidade SESC que tratam de tais
temáticas. Verificou-se um distanciamento entre a teoria e a prática no trabalho da entidade
pois, apesar de realizar atividades voltadas ao desenvolvimento integral do indivíduo,
possui seu embasamento teórico nas teorias funcionalistas do lazer. Além disso, vivências
corporais lúdicas foram destacadas como possibilidade de desenvolvimento do indivíduo e
o preenchimento de lacunas deixadas na dicotomia teoria X prática nos trabalhos do SESC
continua como desafio a ser transposto, através da busca de um tempo/espaço para
desenvolvimento de um lazer crítico e criativo.
1
Referência: GALANTE, Regiane C. O lazer e a corporeidade no SESC: tempo/espaço de desenvolvimento
integral. In: XIII ENCONTRO NACIONAL DE RECREAÇÃO E LAZER, 2001, Natal. Anais... Natal: 2001.
1) INTRODUÇÃO
No Brasil, o lazer vem sendo uma das áreas de estudo de maior crescimento nos últimos
tempos, principalmente após a grande industrialização e o desenvolvimento do capitalismo.
O lazer dos operários tem sido uma das preocupações dos pesquisadores da área, uma vez
que vem sendo constatada a necessidade, cada vez maior, de permitir que o trabalhador
possua um tempo para si mesmo, livre das obrigações formais do trabalho, das obrigações
sociais, políticas e familiares (MARCELLINO, 1999).
Uma das maiores preocupações dos estudiosos do lazer na atualidade é eliminar o mito de
que o lazer seria apenas uma “recompensa” às frustrações impostas pelo dia-a-dia.
Segundo categorização realizada por DUMAZEDIER (1974), o lazer teria, basicamente,
três funções: descanso, divertimento e desenvolvimento.
Tal categorização fundamentou a maioria dos estudos do lazer realizados até então. Porém,
alguns pontos da reflexão do referido autor têm sido repensados. Vários autores estão
desenvolvendo tais conceitos e explorando as possibilidades de o indivíduo desenvolver-se
integralmente durante suas experiências de lazer.
Segundo MARCELLINO (1999), durante o tempo destinado ao lazer, seria ideal:
“(...) que cada pessoa praticasse atividades que abrangessem os vários grupos de interesses,
procurando, dessa forma, exercitar, no tempo disponível, o corpo, a imaginação, o
raciocínio, a habilidade manual, o relacionamento social, o intercâmbio cultural e a quebra
da rotina...” (MARCELLINO, 1999, p.16).
Baseado em tais questões este estudo, desenvolvido para a conclusão do IV Curso de
Especialização em Lazer, na Universidade Federal de Minas Gerais, caminha no sentido de
repensar a temática do lazer e levantar discussões sobre o Serviço Social do Comércio
(SESC) enquanto possível espaço de desenvolvimento da corporeidade do indivíduo,
sobretudo através de vivências lúdico-corporais, uma vez que acredito ser possível ao ser
humano desenvolver-se integralmente, como ser único e indivisível, durante a realização
das experiências de lazer, principalmente através de tais atividades (MOREIRA, 1995).
Nesta pesquisa, busquei referenciais e autores que discutem as questões do lazer e da
corporeidade, procurando entender as inter-relações existentes entre eles, bem como
identificar as concepções do SESC a respeito de tais temas, por meio da pesquisa
documental. Dessa forma, foi realizada uma revisão bibliográfica de obras literárias sobre
lazer e corporeidade, combinada à análise de documentos e publicações da entidade SESC.
O interesse pelo tema surgiu, sobretudo, após meu ingresso como profissional no SESC, na
área de dança e em atividades de lazer. Senti necessidade de ampliar meus conhecimentos
em torno dessa temática e estudar as inter-relações entre o lazer e a corporeidade, buscando
fundamentar minha atuação pedagógica.
O SESC, enquanto prestador de serviços a trabalhadores do comércio, é uma entidade
assistencial que lida, diretamente, com o suprimento das necessidades de lazer e
entretenimento da classe trabalhadora e suas famílias, além de possuir um objetivo
educativo e de desenvolvimento cultural daqueles que o freqüentam. A entidade realiza
diversos projetos visando o desenvolvimento da cultura, do lazer e da arte em geral,
utilizando-se de parcerias com órgãos públicos e privados.
Conhecendo e participando das preocupações e dos trabalhos do SESC no que diz respeito
às questões do lazer e do desenvolvimento sociocultural e esportivo de seus freqüentadores,
tal estudo pode ser mais um impulso para a melhoria dos serviços prestados pela entidade à
comunidade. Além disso, a melhoria no oferecimento das atividades ali desenvolvidas pode
resultar em melhorias nas atividades e projetos de outras instituições que se espelham nos
seus trabalhos.
Neste sentido, espero contribuir para a ampliação dos estudos nas áreas em questão, além
de possibilitar uma melhora no atendimento à população freqüentadora dos projetos do
SESC, especialmente à categoria dos trabalhadores do comércio.
2) DESENVOLVIMENTO
Os estudos que buscam compreender as atividades corporais, o corpo e todas as suas
possibilidades têm impulsionado várias pesquisas no campo da Educação Física e áreas
afins, ocasionando modificações nas “tendências tradicionais” do pensamento cartesiano e
da Educação Física utilizados até então.
Segundo SANTIN (1990), o pensamento cartesiano fragmentava o homem em corpo e
intelecto, e a tendência tradicional da Educação Física concebia o corpo enquanto massa
bruta e material, trazendo para si a função de torná-lo útil e dócil às atividades da vida
humana.
Hoje, com o desenvolvimento dos estudos sobre a corporeidade e a busca da nãodicotomização do homem em corpo e intelecto, passamos a conceber uma cultura corporal,
entendida como conhecimento que visa o aprendizado da expressão corporal como
linguagem. O homem passa a desenvolver um sentido pessoal que “exprime sua
subjetividade e relaciona as significações objetivas com a realidade da sua própria vida, de
seu mundo e das suas motivações” (SOARES et. al., 1992, p.62).
Esta pesquisa foi desenvolvida levando em consideração as observações de SEVERINO
(1996), que compreende que nos trabalhos de pesquisa, após delimitar o tema, realizar
problematizações e o levantamento da bibliografia pertinente, devemos passar pelo
momento da “leitura e documentação”. Nesta etapa, o pesquisador estrutura o seu trabalho
a partir de idéias centrais referentes ao estudo. Além disso, analisa o material literário
existente, buscando elementos capazes de reforçar, justificar e apoiar as idéias iniciais. A
seguir, ele parte para a documentação desses elementos, ou seja, toma nota de
apontamentos que servirão de matéria prima para o trabalho.
Assim, foram realizados o levantamento, a leitura e a sistematização de dados que
orientaram a discussão sobre as inter-relações entre lazer e corporeidade e a entidade SESC,
além do estudo dos documentos e publicações da entidade referentes à sua contextualização
histórica, às modificações dos eixos norteadores de suas atividades e suas concepções de
lazer e corporeidade.
Vários estudiosos têm se dedicado ao estudo do lazer na sociedade atual, mas não há, ainda,
um consenso quanto ao “conceito de lazer”, ou seja, quando questionados a respeito do que
é lazer, cada um exprime sua concepção sem, no entanto, definir o lazer.
A maioria, no entanto, concorda que a vivência do lúdico, ou seja, a realização de
experiências lúdicas e prazerosas, seja o eixo principal das experiências de lazer.
WERNECK, (2000), procurou “expressar uma concepção de lazer, que passa a ser
redimensionado em duas perspectivas inter-relacionadas: como um direito social e como
uma possibilidade de produção de cultura” (p.17).
Quero demostrar, por meio dessas discussões, não uma definição completa do que seja
lazer mas sim algumas visões de autores de destaque na atualidade brasileira que tratam de
tais questões, sobretudo aqueles que concordam que experiências pessoais de lazer são
espaços propícios para o desenvolvimento do indivíduo, da sua criatividade e prazer,
possuindo, como eixo principal, a ludicidade.
Dessa forma, vejo o lazer, enquanto tempo/espaço de vivências lúdicas, de expressão do
indivíduo, de realização de vontades, enfim, de ser humano que idealiza, constrói e se
desenvolve social, cultural e corporalmente.
Gostaria de salientar que o termo corporalmente deve compreender o tão discutido binômio
“corpo e mente”, que infelizmente ainda é utilizado para explicar que um indivíduo não
pode ser dividido em corpo e mente, mas que é sim um ser único, possuidor de
características individuais, vontades e limitações próprias.
Sob o ponto de vista fenomenológico, a corporeidade corresponde a uma imagem que
criamos em nossa mente, através da qual passamos a ver nossos corpos e, sobretudo,
compreendê-los. Assim, o conceito de corporeidade está intimamente ligado ao corpo e
deveria começar pela criação de uma imagem unitária de homem.
Ora, se através do movimento corporal o homem se comunica com o meio em que vive,
nada mais justo do que conceituar o corpo enquanto fenômeno, buscando sua essência, isto
é, um corpo que se manifesta, que possui vontades e limitações, que faz parte do indivíduo
– ou melhor – que é indivíduo.
Segundo MOREIRA (1992), há diferença entre um corpo “coisificado”, desligado da
própria natureza humana e que segue um padrão anátomo-fisiológico, e um corpo
“múltiplo”, entendido como fonte de experiências significantes e como veículo de
comunicação com o mundo.
O corpo não é um objeto, ou algo dado, mas um organismo em construção. Segundo
MERLEAU-PONTY (1994) não há outra forma de conhecer o corpo senão vivê-lo. O
corpo humano é um processo, uma organização em constante mutação e transformação, um
movimento que precisa ser acompanhado de dentro e não comandado de fora.
Assim como o corpo encontra-se em constante construção, a corporeidade também não
pode ser vista como a essência do corpóreo, mas como um processo de construção que
acontece ao longo da existência. Para SANTIN (1990), corporeidade é história, é existência
e, construí-la, significa viver, a partir das nossas capacidades inventivas e criativas. Neste
sentido, aponta o autor que:
“não existe uma corporeidade homogênea e universal transferível de um corpo particular ao
outro, mas cada corpo tem sua própria corporeidade, o que lhe garante sua identidade
biológica” (p.138).
A corporeidade apresenta-se como a forma mais autêntica do corpo humano ser
representado no mundo vivido. O corpo é todo movimento por ele exercido (CARMO JR.,
1995).
Assim, torna-se fundamental recuperar, no ato educativo, o valor humano no homem.
Respeitar o corpo e lembrar que o acesso a uma concepção global de homem se dará por
meio do corpo e de suas relações consigo e com o outro. Faz-se necessário possibilitar aos
educandos refletirem sobre seus corpos, suas relações com outros corpos, enfim, favorecer
o desenvolvimento de uma cultura corporal (MOREIRA, 1995).
Desse modo, a corporeidade passa a ser representada:
“como fenômeno corpo-em-movimento. Algo absolutamente incalculável (...). Age nos
lugares humanos onde o homem ainda não pode agir por si mesmo, brinca com o
inconsciente e acrescenta o todo em cada uma das partes; pré-visto como coreografia tanto
bela quanto lúdica. Bela porque eleva uma necessidade física a uma necessidade estética,
faz vibrar, emociona. Lúdica porque é livre, espontânea, incômoda a toda coerção e
privação” (CARMO JR., 1995, p.18).
Não é mais possível conceber os indivíduos como corpos que executam movimentos. É
preciso pensar o indivíduo como um fenômeno que vivencia suas experiências graças a seu
corpo, ou seja, sua corporeidade.
Após iniciadas as reflexões sobre as questões referentes ao lazer e à corporeidade, trarei a
seguir algumas reflexões sobre os referidos temas no SESC.
Desde a década de 30 já era possível visualizar os problemas da crescente industrialização,
uma vez que as pessoas migravam do campo para as cidades em busca de trabalho nas
indústrias. Porém, esses trabalhadores não possuíam qualquer qualificação profissional para
executar trabalhos por eles desconhecidos. Além disso, as cidades não possuíam infraestrutura suficiente para suportar um crescimento tão rápido, ficando a população
prejudicada no acesso às necessidades básicas como moradia, educação e saúde (SESCGRH, 2000, p.01).
Em 1946, o então presidente da República Eurico Gaspar Dutra, assinou o decreto lei n.º
9853, cujo artigo primeiro atribuía à Confederação Nacional do Comércio, presidida por
João Daudt D’Oliveira, “...o encargo de criar o Serviço Social do Comércio (SESC), com a
finalidade de planejar e executar medidas que contribuam para o bem estar e melhoria do
padrão de vida dos comerciários e suas famílias e, bem assim para o aperfeiçoamento moral
e cívico da coletividade” (Revista E, 1996, p.12) .
Prestar assistência ao comerciário era o objetivo do SESC, principalmente nos setores
médico, odontológico, sanitário e hospitalar. Reconhecia-se também a necessidade de se
construir “uma obra duradoura e de vulto que possa aproveitar também as gerações futuras”
(Revista E, 1996, p.13), já pensando na necessidade de atuação em outros tipos de
assistência.
Segundo artigo da Revista E (1996), os centros sociais foram-se ampliando e os trabalhos
que inicialmente eram voltados inteiramente para as necessidades da área de saúde foram se
diversificando, abrangendo áreas de interesses mais amplos. Em 1950 faziam sucesso nos
centros sociais do SESC os cursos de inglês, português, corte e costura e balé infantil. Nos
anos que se seguiram floresceram os grupos de teatro, música, dança, cinema, fotografia,
artes plásticas e os grêmios e clubes de funcionários e empresas comerciais.
Todo esse processo levou a reflexões teóricas e técnicas quanto ao tipo de serviço social a
ser desenvolvido pela entidade. No final da década de 60 a discussão sobre a questão do
lazer como instrumento e oportunidade de trabalho social volta à tona e o tempo de lazer é
redescoberto como fonte de um grande potencial educativo aplicável ao desenvolvimento
pessoal. A grande meta a ser alcançada pelo trabalho do SESC continuou sendo a educação
social, a ênfase, contudo, passou a ser o lazer do comerciário, isto é, começou a utilizar o
“lazer como roteiro” (Revista E, 1996, p.18).
Sendo favorável às idéias de Jofre Dumazedier o SESC assume, nas suas atividades, o lazer
enquanto vivência ligada ao tempo livre, que é limitado pelo tempo de trabalho
profissional, pela duração do tempo consagrado a outras atividades improdutivas, pelo
tempo destinado às obrigações domésticas e familiares.
A proposta de atuação e o espaço físico do SESC são priorizados enquanto promotores de
descanso, divertimento e recreação e, sobretudo, do desenvolvimento social, cognitivo e
motor.
No campo do lazer, a ação da entidade implica sempre no aproveitamento das horas livres
da clientela, com atividades que possuam fins educacionais. Como indica no documento
Diretrizes Gerais de Ação (1983, p.8), o SESC “aproveitará o tempo livre e a disposição
psicológica do indivíduo para motivá-lo à autopromoção social, através do incentivo ao
aprimoramento de sua formação e do estímulo à sua atualização em face das mudanças”.
Para além do descanso, o lazer no SESC é visto como um espaço de divertimento e
recreação orientados e, até mesmo, a utilização do tempo de lazer para desenvolver
atividades intelectuais visando o desenvolvimento e crescimento cultural e social.
Talvez as considerações acima sejam referências de uma visão ainda funcionalista do lazer,
mas poderíamos falar de “educação pelo lazer”, valendo-nos do pressuposto de que “o lazer
educativo amplia a imaginação criadora, estimula o aprimoramento do indivíduo e o
desperta para a importância de sua participação e colaboração para o progresso social”
(DIRETRIZES GERAIS, 1983, p.8).
Hoje em dia, no SESC, o tempo livre do comerciário tem sido considerado como um tempo
para ser dedicado a si próprio, com qualquer atividade que satisfaça seus desejos, mesmo
que sejam consideradas futilidades. Segundo Dante Silvestre Neto, sociólogo e gerente de
Estudos e Desenvolvimento do SESC São Paulo, o tempo livre é “um tempo que libera de
pensar e agir por delegação da necessidade, e que permite pensar por conta própria, sem
compromisso com nada sério a não ser com a descoberta do sentido profundo das coisas”
(SILVESTRE NETO, 2000, p.37).
Com o desenvolvimento dos conceitos que trazem o lazer como fonte de potencial
educativo aplicável ao desenvolvimento pessoal, o corpo passa a ser compreendido como
veículo primeiro da expressão do indivíduo, ganhando um novo significado no trabalho e
nas atividades do SESC. Exemplo disso é o projeto Ginasticasesc, implantado em 1979
que, por meio da atividade física, buscava o desenvolvimento de hábitos saudáveis, a
afirmação da individualidade, a autonomia e a expressão pessoal. O corpo passa a ser
tratado a partir de outras dimensões.
Entretanto, esta proposta ainda reproduzia os conceitos biologicistas que privilegiavam o
condicionamento físico, a aptidão física, na busca do corpo saudável mas, também,
utilitário, isto é, como instrumento, do ser humano em particular e da sociedade em geral.
Diante deste quadro, no início dos anos 90, surgiu o mais importante projeto do SESC, a
Ginástica Voluntária (GV). Este programa propunha o espírito da inovação e da
criatividade para atender às novas condições socioculturais em que viviam as pessoas.
A GV busca ressaltar o caráter lúdico da atividade física e a autonomia do corpo,
associadas à melhoria das condições físicas de seus participantes.
O Programa Ginástica Voluntária se desenvolve a partir da prática cotidiana de atividades
físicas junto às necessidades de um “corpo que não é só do trabalhador, mas que é de um
cidadão que tem diferentes atuações na sociedade” (MIRANDA in BERTAZZO, 1996,
p.9).
Assim, o corpo passa a ser entendido como fonte de experiências significantes, como
veículo de comunicação com o mundo e, principalmente, como expressão do indivíduo.
Fugindo de modismos, o indivíduo percebe que a busca constante pelo desenvolvimento de
sua corporeidade é essencial para sua vida.
Hoje em dia, o que vemos nos trabalhos do SESC é uma busca cada vez maior de
apresentar à clientela atividades e profissionais que seguem tais linhas de pensamento.
Pessoas que têm se destacado em seus estudos a respeito das novas concepções de corpo e
corporeidade. Vale aqui citar como exemplo o coreógrafo Ivaldo Bertazzo, que tem trazido
em seus trabalhos um pouco dos resultados dos estudos realizados no campo do movimento
humano, individual e autônomo, a partir do cidadão não dissociado em músculos e
intelecto.
Apesar desta visível preocupação, ainda é grande a lacuna entre o que tem sido aplicado nas
atividades propostas e a fundamentação teórica a respeito da corporeidade e do
desenvolvimento do indivíduo integral.
3) CONCLUSÕES
Diante das reflexões apresentadas anteriormente acerca de como temáticas do lazer e da
corporeidade são tratadas no SESC, é possível identificar um distanciamento entre teoria e
prática, ou seja, a fundamentação teórica e a realização das atividades na entidade.
Embora a programação diária do SESC ofereça aos comerciários atividades que buscam
desenvolver o indivíduo integralmente, através da valorização de sua corporeidade,
trazendo profissionais e estudiosos da atualidade que trabalham com tais temáticas, a visão
funcionalista de lazer proposta por Dumazedier ainda embasa seus trabalhos.
Vale aqui ressaltar a inegável contribuição de Joffre Dumazedier para todos os estudos a
respeito do lazer conhecidos até então. Além disso, também já é conhecida a preocupação
do SESC em buscar novos horizontes para orientar seus trabalhos, como por exemplo a
realização do seminário com o sociólogo Edgar Morin.
A principal contribuição de Morin diz respeito à necessidade permanente de atuar na
perspectiva da unidade teoria e prática. Este foi o eixo central do encontro realizado
recentemente pelo SESC São Paulo como parte de um treinamento realizado com os
técnicos que programam as atividades do SESC.
Mesmo assim estes esforços ainda não são capazes de preencher as lacunas deixadas pelo
não acompanhamento das novas tendências assumidas pelo lazer depois de Dumazedier.
Ora, o mundo atual - e seu modo de produção - adotou um tempo cronológico, no qual
todas as atitudes humanas estão pautadas e, mais ainda, definidas por ele. Assim, o tempo
do não-trabalho deve, nesta visão de mundo, ser utilizado da melhor forma possível, e mais
produtível. Desta forma, a visão funcionalista do lazer – atividade vivenciada no tempo do
não trabalho – tem sido propagada e assumida por todos, sem maiores questionamentos,
inclusive no SESC.
Ao mesmo tempo em que a entidade tem preocupado-se em apresentar à clientela
comerciária todas as novas tendências que buscam tratar o ser-humano como indivíduo
integral, capaz de exercer com dignidade sua cidadania e, melhor ainda, desenvolver-se
crítica e criativamente, é possível perceber, ao lado oposto, todo um embasamento teórico
que trata o indivíduo como massa a-crítica, que precisa “fazer alguma coisa no seu tempo
de lazer” que compense suas frustrações no trabalho.
Talvez minhas inquietações a respeito do lazer e da corporeidade ainda estejam só
começando. Muitas vezes observo, em meu próprio trabalho, a velha visão funcionalista de
lazer, como o desenvolvimento de atividades com alguma finalidade. Mas acredito que
possamos nos beneficiar deste “funcionalismo” para, num futuro próximo, conseguirmos a
autonomia e o prazer tão difundidos nas vivências de lazer.
Através das atividades lúdico-corporais realizadas no âmbito do lazer, podemos trazer à
tona as reflexões acerca do que somos, qual nosso papel de indivíduos, socialmente
inseridos, capazes de reivindicar direitos e construir um novo “modo de produção”, uma
vida mais justa, digna e prazerosa.
Neste momento trago as palavras de WERNECK, que ressalta que os “tempos
‘institucionalizados’ não garantem uma vivência realmente gratificante e qualitativa de
lazer” (2000, p.130). E a autora ainda completa que “o fato de associar as conquistas
históricas e sociais à dimensão institucionalizada do tempo não descarta a possibilidade de
que outros ‘tempos’ possam constituir momentos fecundos para o lazer” (idem).
Assim, o que pretendo aqui registrar é que devemos permanecer na busca por outros
“tempos”, através de novas vivências, de novas experiências.
É dessa forma que acredito que, através de nossas vivências de lazer podemos desenvolver
nossa corporeidade e, desenvolvendo-a, poderemos buscar novos momentos de lazer,
crítica e criativamente.
4) REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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MARCELLINO, N. C. Lazer e ação comunitária. Apostila IV Curso de Especialização em
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MOREIRA, W. W. (org) O corpo pressente. Campinas: Papirus, 1995.
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SILVESTRE NETO, D. Um tempo de desfrute e resistência. Revista E, São Paulo, ano 6,
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SOARES, C. L., et. al. Metodologia do ensino de educação física. São Paulo: Cortez
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WERNECK, C. Lazer, trabalho e educação: relações históricas, questões contemporâneas.
Belo Horizonte: Ed. UFMG; CELAR-DEF/UFMG, 2000.
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