Ciência Animal, 22(1): 7-19, 2012 – Edição Especial A ÉTICA NA UTILIZAÇÃO DE ANIMAIS SILVESTRES EM EXPERIMENTAÇÃO CIENTÍFICA Diego Corrêa FURTADO1, Iêrêcê Amaral CORÔA2, Stefano Juliano Tavares ANDRADE2, Sheyla Farhayldes Souza DOMINGUES2,3 1 Programa de Pós-Graduação em Agriculturas Amazônicas, Universidade Federal do Pará. 2 Faculdade de Medicina Veterinária, Universidade Federal do Pará. 3 Programa de Pós-graduação em Ciência Animal, Universidade Federal do Pará. Email: [email protected] RESUMO Buscamos, nesse trabalho, discutir sobre a ética na utilização de animais silvestres na experimentação científica. Percebendo que a ética é frequentemente confundida com representações de bondade/maldade, decidimos assumir uma posição conceitual que desvencilha a ética de demais sistemas de pensamento (emotivos, legais, religiosos), a fim de construirmos um debate com a clareza esperada. Através do caso do macacoprego e dos problemas envolvidos com sua classificação taxonômica, ilustramos o perigo a que estão expostas as espécies biológicas quando seu manejo é tratado a partir de perspectivas superficiais, sem verificações científicas que subsidiem tais pontos de vista. Desse modo, chegamos à conclusão de que a experimentação científica com animais silvestres pode ser considerada uma prática ética, quando voltada à obtenção de informações e desenvolvimento de tecnologias de suporte à conservação dessas espécies. Igualmente, reconhecemos a necessidade de que os espécimes utilizados nas pesquisas sejam tratados respeitosamente, considerando a sensibilidade inerente à vida. Palavras-chave: Ética. Experimentação em animais. Fauna silvestre. ABSTRACT We discuss, in this paper, the ethics of using wild animals in scientific experimentation. Aware that ethics is often confused with representations of goodness/ badness, we decided to take a conceptual position that disengages the ethics from other systems of thought (emotional, legal, religious), in order to build a debate with the expected clarity. Ciência Animal, 22(1), 2012 Palestra apresentada no VI Congresso Norte Nordeste de Reprodução Animal, Fortaleza, CE, Brasil, 27 a 29 de junho de 2012. 7 Ciência Animal, 22(1): 7-19, 2012 – Edição Especial Through the case of capuchin monkey and the problems involved with their taxonomic classification, we illustrate the danger to which biological species are exposed when its management is handled from a superficial perspective, without scientific verification that support such views. Thus, we concluded that scientific experimentation with wild animals can be considered an ethical practice, when focused on obtaining information and developing technologies to support the conservation of these species. Equally, we recognize the need that the specimens used in research be treated respectfully, considering the sensitivity inherent to life. Keywords: Ethics. Animal experimentation. Wildlife. INTRODUÇÃO Muito se questiona, por parte da opinião pública, acerca da utilização de animais silvestres, retirados de seus habitats, em pesquisas científicas, como “cobaias em experimentos desumanos”, como colocado pelas vozes mais dramáticas do ativismo ambiental. Em alguns meios acadêmicos, igualmente, a atenção parece se voltar às questões relacionadas aos animais silvestres, especialmente àqueles ameaçados de extinção. Tanto no meio ativista, com suas faixas, bandeiras e movimentos, como no meio científico, com os mais diversos tipos de pesquisas sendo desenvolvidas, no entanto, por várias vezes se utiliza a palavra “ética”, como um meio de se por em xeque as virtudes humanitárias daqueles que utilizam animais silvestres em experimentos científicos. A partir desta situação-problema, buscou-se estabelecer uma discussão sobre as implicações éticas envolvidas na utilização de animais silvestres para experimentação científica. Tal debate foi pautado, inicialmente, em considerações acerca da natureza filosófica da ética, evitando, portanto, predefinições nebulosas desse conceito. Destacamos a importância deste texto, ao apontar os riscos decorrentes do populismo teórico construído em torno da preservação da fauna silvestre, que nem sempre gera trabalhos com o rigor metodológico esperado, e pode dar bases a discursos bemintencionados, embora sem fundamentos concretos. Utilizou-se, como ilustração da reflexão aqui sugerida, o macaco-prego (Sapajus apella), a quem nos reportaremos de modo aprofundado mais adiante. Ciência Animal, 22(1), 2012 Palestra apresentada no VI Congresso Norte Nordeste de Reprodução Animal, Fortaleza, CE, Brasil, 27 a 29 de junho de 2012. 8 Ciência Animal, 22(1): 7-19, 2012 – Edição Especial Estabelecendo parâmetros: Princípios para um conceito de ética O termo ‘ética’ foi cunhado e estudado ostensivamente por uma série de filósofos no decorrer da trajetória intelectual humana. Apesar disso (e, também, devido a isso), a multiplicidade de entendimentos formulados em torno deste conceito ilustra sua polissemia. Como, ao escrevermos sobre ética no uso de animais silvestres em experimentação animal, não quisemos expor o presente texto a interpretações incompatíveis com a concepção de ética aqui adotada, tornou-se necessário realizar este investimento prévio, no esclarecimento acerca da noção de ética ora assumida. Esta precaução se deve à própria natureza deste trabalho, o qual pretende conjugar uma realidade rotineira às ciências biológicas – a experimentação animal – com um campo de pensamento forjado na filosofia – a ética. Partindo deste princípio, qualquer conceituação apriorística de ética, possivelmente considerada óbvia por alguns pesquisadores pragmáticos e experimentados das ciências biológicas, pode ser perigosa, por considerar pouco interessante uma definição mais precisa deste termo. Por isso, sem adentrar nas nuances mais profundas dessa discussão, porém tecendo as devidas considerações, no intuito de viabilizar uma argumentação fundamentada, buscou-se apontar o quadro conceitual onde se insere a perspectiva teórica que parece mais adequada. A mera imposição de uma definição para ética, no entanto, pareceu ser insuficiente para demonstrar a dimensão da compreensão que se pretende construir. Portanto, ao invés de informar o que entendemos por ética, preferiuse contribuir para que o leitor possa, por si, formar (ou reformar) uma imagem mental coerente sobre esta simples palavra. A primeira consideração relevante para as observações aqui levantadas diz respeito à associação automática, feita por um número surpreendente de pessoas, entre ética e direito. Embora a ética, de fato, sirva como base para vários princípios jurídicos, ela, em si, não se constitui enquanto lei. Por aspectos práticos, no cotidiano da pesquisa científica, o pesquisador pode satisfazer suas responsabilidades éticas ao deter suas atenções às normas legais e institucionais referentes à utilização de animais em experimentos científicos. O que não deveria ocorrer, entretanto, é a cristalização da ideia segundo a qual ética e legislação sobre ética são equivalentes (COMPARATO, Ciência Animal, 22(1), 2012 Palestra apresentada no VI Congresso Norte Nordeste de Reprodução Animal, Fortaleza, CE, Brasil, 27 a 29 de junho de 2012. 9 Ciência Animal, 22(1): 7-19, 2012 – Edição Especial 2006). Por exemplo, caso a visão legalista prevalecesse em uma discussão sobre a ética no uso de animais para experimentação, nada mais ocorreria, que não a mera repetição e reafirmação das leis já existentes. Além da necessidade de que a ética seja compreendida à parte do direito (embora, certamente, não desconexa), também se verifica a urgência de que seja desassociada dos pontos de vista religiosos. As religiões, como construtos culturais, foram, e ainda o são, formuladas pelos seres humanos, que comunitariamente as praticam, a partir de cosmologias compartilhadas, afins, estruturadas a partir de determinadas experiências de vida, representações e simbologias (BERGER; LUCKMAN, 1973). A filosofia, por sua vez, parte de uma lógica universalizada, na qual, não importando em qual cultura estejam imersas, as pessoas continuam sendo pessoas, seres humanos, com mais características humanas que as aproximam do que características sociais que as distanciem (LINTON, 1962). Portanto, religião e filosofia (que engloba a ética, deve-se frisar) provêm de origens diferentes: uma nasce da elaboração coletiva de símbolos fundamentados na espiritualidade, e a outra é construída a partir do exercício intelectual, pautado na observação e na reflexão, e de natureza iminentemente individual. Ao misturar as duas visões, o debate acadêmico pode ser enfraquecido, ideologizado, pondo em risco o avanço da ciência e ignorando os verdadeiros princípios éticos que devem regê-lo. Apesar dessas observações, percebem-se, em alguns artigos, posicionamentos pretensamente baseados na ética, que partem de esquemas legalistas ou religiosos para atribuir valores à conduta científica na experimentação com animais, ignorando a natureza essencialmente filosófica desse conceito. Aristóteles, Immanuel Kant, Jürgen Habermas e outros teóricos da ética, cada qual a seu tempo, trataram a ética como um sistema de pensamento particular (assim como o direito, cada religião e os costumes de cada sociedade também o são, porém de naturezas distintas, como já colocado). Este sistema capacitaria os seres humanos a exercer a crítica sobre os comportamentos adotados, atribuindo-lhes valores, geralmente tendo, como referência (mas não determinante), o sistema moral (dos costumes, tradições) do lugar onde o indivíduo mora (ARANHA; MARTINS, 1997). Embora divirjam em vários pontos, os filósofos da ética enfatizam a importância das atitudes críticas, como meios pelos quais qualquer forma de violência deve ser Ciência Animal, 22(1), 2012 Palestra apresentada no VI Congresso Norte Nordeste de Reprodução Animal, Fortaleza, CE, Brasil, 27 a 29 de junho de 2012. 10 Ciência Animal, 22(1): 7-19, 2012 – Edição Especial combatida, com o objetivo de se chegar à felicidade e ao bem comum. Longe das imposições legais e dos dogmas religiosos, a ética estaria preocupada, mais exatamente, com a reflexão, com a fundamentação da ação humana e sua relevância para o bem comum (e não apenas para o bem dos seres humanos, ou somente para o bem dos financiadores das pesquisas). Esses princípios devem ser levados em consideração em qualquer discussão séria que pretenda abranger os aspectos éticos da pesquisa científica. Retornaremos a eles tão logo apresentemos o caso do macaco-prego. O caso concreto do macaco-prego O macaco-prego (Sapajus apella), conhecido por alguns, de forma pejorativa, como “macaco-praga”, pode parecer, a princípio, um fraco candidato ao posto de objeto de estudos em biotecnologia de reprodução com fins conservacionistas, devido ao tamanho supostamente grande de sua população. A desconstrução dessa crença se desenrolou na cidade de Belém do Pará, que, congregando expressivo número de primatologistas, figurou como palco de uma surpreendente revelação. Uma das pesquisadoras – porventura a ministrante desta comunicação – que se dignou a trabalhar em biotecnologia de reprodução da espécie até aquele momento conhecida como Cebus apella (tornando-se uma das principais referências no tema), em 15 anos de práticas científicas, nunca havia trabalhado nem mesmo com um único espécime do gênero Cebus. Esta pesquisadora em seu curso de graduação em medicina veterinária, aprendeu, com base nos livros de taxonomia de primatas, que os animais do gênero Cebus eram divididos em macacos com tufo e sem tufo, mas todos seriam do gênero Cebus. No entanto, após uma detalhada revisão de caracteres anatômicos, estudos citogenéticos e de distribuição geográfica, realizados pelo Dr. José de Sousa e Silva Júnior (Cazuza), pesquisador do Museu Paraense Emílio Goedi, e que lhe renderam sua tese de doutorado, foi comprovado que os macacos do gênero Cebus, antes classificados como macacos-prego com tufo e sem tufo (tufted and untufted capuchin monkey), na realidade, seriam espécies de gêneros diferentes. Os macacos com tufo, bem como a espécie erroneamente denominada de Cebus apella, na realidade pertencem ao gênero Sapajus, enquanto os macacos sem tufo são os Ciência Animal, 22(1), 2012 Palestra apresentada no VI Congresso Norte Nordeste de Reprodução Animal, Fortaleza, CE, Brasil, 27 a 29 de junho de 2012. 11 Ciência Animal, 22(1): 7-19, 2012 – Edição Especial verdadeiros detentores do gênero Cebus. Além disso, dentro da espécie Sapajus apella¸ até pouco tempo atrás ainda denominada de Cebus (Sapajus) apella, eram listadas doze subespécies, hoje alçadas ao status de espécies. Consequentemente, nos mais diversos zoológicos e criatórios conservacionistas e de pesquisa espalhados pelo Brasil, pode haver uma grande quantidade de “macacos-pragas”, mas não há certeza sobre sua verdadeira classificação. Dentre estes animais, deve haver um considerável número de híbridos, devido à formação de grupos de reprodução mistos, com a presença de várias espécies, que outrora se pensava serem apenas uma. Até hoje considerados como pragas em alguns lugares, onde os macacos-prego ainda não conseguiram ser visualizados como um conjunto de espécies, estes animais não recebem atenções especiais, compatíveis com a possibilidade de que os equívocos em seu manejo estejam causando o comprometimento da viabilidade reprodutiva dos representantes de cada espécie associada ao mesmo nome vulgar. Esse exemplo provavelmente acontece com outras espécies que ainda não tiveram sua taxonomia revisada por um pesquisador obstinado, como no caso dos nossos “macacos-praga”, e todas elas estão sendo extintas geneticamente em cativeiro (ex situ), por acasalamentos que geram híbridos, e in situ, pela destruição de seus habitats. O hoje reconhecido Sapajus apella (ALFARO et al., 2012), embora envolvida em todo este novelo taxonômico, até então não foi listada pelo governo brasileiro (IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – e ICMBIO – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), nem por órgãos de grande conceituação internacional, como a IUCN (International Union for Conservation of Nature), como uma espécie ameaçada de extinção. A dicotomia ética nas experimentações com animais silvestres: dinâmicas em reconfiguração De posse do conhecimento sobre os princípios da ética e a par da situação concreta das espécies reconhecidas como macacos-prego, é válido, neste ponto, realizarmos um exercício de imaginação. Imaginemos, primeiramente, um cenário em que o meio ambiente natural exibisse poucos sinais de degradação. Ao longo de muitos anos, mesmo com a existência de civilizações humanas avançadas, a natureza manteve- Ciência Animal, 22(1), 2012 Palestra apresentada no VI Congresso Norte Nordeste de Reprodução Animal, Fortaleza, CE, Brasil, 27 a 29 de junho de 2012. 12 Ciência Animal, 22(1): 7-19, 2012 – Edição Especial se, em grande parte, não intocada, mas ainda íntegra. Naqueles tempos, adentrar na mata para caçar ou pescar era considerada uma atividade relacionada à subsistência de populações humanas. O nível de retirada dos recursos naturais era baixo, combatível com a estabilidade dos ecossistemas (STEFFEN et al., 2007). A utilização de animais silvestres em experimentação científica seria, nesse contexto, fonte de questionamentos acerca dos objetivos de tais pesquisas. De fato, pesquisas com animais, com procedimentos como a vivissecção, têm um histórico longo, e muito demorou para que surgissem os primeiros questionamentos referentes ao bem-estar dos animais junto à comunidade científica. Na atualidade, porém, quando refletimos sobre o passado da ciência ocidental (da qual temos maior acesso aos registros), parece inacreditável o quanto os pioneiros da ciência recorreram a procedimentos que, hoje, consideramos cruéis, desumanos (CAPRA, 1982). Com o avanço da ciência e a consolidação do sistema capitalista, o mundo se tornou um laboratório, em que as novas tecnologias passaram a ser empregadas em larga escala, com vistas ao incremento nos lucros dos empresários. A natureza foi uma das principais vítimas da ambição humana, sendo devastada, poluída, vista como inimiga do progresso. Os impactos ambientais também passaram a ocorrer em escala ampliada, e um número expressivo de espécies vegetais e animais ficou seriamente ameaçado. O cenário, antes equilibrado, se transformou em uma cena caótica, sem solução aparente (STEFFEN et al., 2007). Mas logo surgiram sugestões, especialmente vindas do campo científico. Conscientes de que pouco poderia ser feito no intuito de frear a degradação ambiental, o objetivo de vários pesquisadores passou a ser a conservação das espécies, para que este patrimônio biológico não fosse perdido. Esta nova configuração não somente permite, mas requer a presença de pesquisadores em campo e nos laboratórios, estudando as espécies mais vulneráveis, propondo sugestões para que tais espécies continuem existindo. Aquilo que era feito no passado, tão criticado até hoje, caso seja feito hoje, pode representar algo diametralmente diferente. Se, antes, a intervenção (e o modo como ela se dava) junto aos animais poderia ser considerada contra a ética, nos dias atuais, o que iria contra a ética seria, sim, o imobilismo frente às condições de devastação ambiental e extinção de espécies. Ciência Animal, 22(1), 2012 Palestra apresentada no VI Congresso Norte Nordeste de Reprodução Animal, Fortaleza, CE, Brasil, 27 a 29 de junho de 2012. 13 Ciência Animal, 22(1): 7-19, 2012 – Edição Especial Voltando ao caso do macaco-prego, pensava-se ser, ele, um “macaco-praga”, mas a pesquisa apurada permitiu demonstrar que sua classificação taxonômica estava equivocada, e, de praga, veio a ser um potencial alvo de extinção. O balançar bandeiras, os gritos pela defesa dos animais, por si, não seriam suficientes para os macacos-prego. Neste sentido, ética também não pode ser confundida com emotividade. A discussão ética relacionada à utilização de, por exemplo, macacos-prego em experimentos científicos de biotecnologia de reprodução, perpassa pelo objetivo de encontrar meios de proteger a continuidade dessa espécie que, de modo singular, ilustra a necessidade de que a consciência ambiental esteja, sim, amparada em dados concretos, em critérios realistas, e não apenas na emoção. A discussão ética relacionada à utilização de animais silvestres em experimentos científicos se complementa justamente naquilo em que os pioneiros da ciência mais nos chocaram: os métodos de pesquisa e a preocupação com o estresse dos animais. O bem-estar do animal em cativeiro como possibilidade Estudos sobre o repertório comportamental e a história natural são importantes para entender a biologia e a ecologia de uma sociedade de organismos (KREBS; DAVIES, 1993). Os vertebrados em geral têm mecanismos elaborados através dos quais lidam com seu ambiente. Isso inclui aspectos do sistema nervoso autônomo, do sistema imunológico, dos sistemas comportamental e emocional, como também do sistema neuroendócrino, como o eixo hipotalâmico pituitário. Tais sistemas, que respondem ou preparam o organismo para responder às mudanças ambientais, podem ser identificados como sistemas de enfrentamento. Os meios pelos quais mantemos e usamos animais em cativeiro têm influências bastante significativas sobre seu comportamento, fisiologia e respostas imunológicas, e trazem consequências para suas experiências subjetivas, saúde física e capacidade reprodutiva (YAMAMOTO; VOLPATO, 2007). A complexidade do ambiente físico depende bastante do tamanho do animal e, criticamente, das adaptações das diferentes espécies. Macacos-prego (Sapajus apella), por exemplo, podem passar um tempo no chão, mas eles são predominantemente arbóreos, têm a cauda preênsil e se locomovem acima do chão. Consequentemente, as gaiolas devem ser planejadas com essas adaptações em mente. As gaiolas também Ciência Animal, 22(1), 2012 Palestra apresentada no VI Congresso Norte Nordeste de Reprodução Animal, Fortaleza, CE, Brasil, 27 a 29 de junho de 2012. 14 Ciência Animal, 22(1): 7-19, 2012 – Edição Especial devem permitir todo o repertório locomotor de pular, correr, escalar, sentar e se segurar pela cauda. Enfatiza-se a importância da convivência social, posto que a ausência aguda ou crônica de coespecíficos e a instituição de ambientes sociais inapropriados podem influenciar a responsividade comportamental e fisiológica dos indivíduos (VISALBERGHI; ANDERSON, 1999). Vários estudos mostram que animais sociais de diferentes espécies, quando abrigados sozinhos, desenvolvem altas frequências de comportamento anormal e infecções (LEWIS, 2000). O conhecimento adequado do comportamento social e desenvolvimento em condições naturais e vida livre é claramente importante para o controle de todas as espécies sociais. O alojamento deve levar em conta as interações sociais, considerando variáveis como o espaço disponível, familiaridade dos membros do grupo, idade e sexo dos animais alojados juntos (YAMAMOTO; VOLPATO, 2007). Há evidências para várias espécies de que o suporte social não apenas influencia a habilidade do indivíduo em superar as dificuldades de seu ambiente, mas também promove a saúde e a capacidade reprodutiva (NEWBERRY, 1995; YAMAMOTO; VOLPATO, 2007). Segundo Reinhardt (1990), a provisão de um parceiro social é mais eficaz para melhorar o bem-estar do que estímulos inanimados, e, para animais, tais como os primatas, o alojamento em grupos é o meio mais natural e confiável de promover o bem-estar, mesmo quando o estímulo é apenas um outro animal. Há uma escala muito maior de reações possíveis aos estímulos sociais do que aos estímulos inanimados, pois aqueles requerem monitoramento de variações de humor e de contexto social. Segundo Yamamoto e Volpato (2007), os animais que são mantidos em cativeiro por períodos longos e especialmente aqueles que são criados em cativeiro por gerações, sofrendo processo de domesticação, podem apresentar respostas comportamentais e fisiológicas aos desafios ambientais, tal como a novidade, bastante diferentes do esperado. As “cinco liberdades”, um termo proposto por Webster (1985), reconhece necessidades comportamentais e físicas e, embora às vezes elas possam ser contraditórias, são frequentemente consideradas como um ponto inicial para o bem-estar animal. São elas: 1. Estar livre da fome e da sede por acesso livre à água fresca e a uma dieta que mantenha a saúde e o vigor. Ciência Animal, 22(1), 2012 Palestra apresentada no VI Congresso Norte Nordeste de Reprodução Animal, Fortaleza, CE, Brasil, 27 a 29 de junho de 2012. 15 Ciência Animal, 22(1): 7-19, 2012 – Edição Especial 2. Estar livre de desconforto pela promoção de um ambiente apropriado, incluindo abrigo e um lugar confortável para descansar. 3. Estar livre de dor, maus-tratos ou doença, pela prevenção ou diagnóstico rápido e tratamento. 4. Estar livre para expressar o comportamento normal através de espaço suficiente, situações propícias e companhia de animais da sua espécie. 5. Estar livre de medo e sofrimento através de condições e tratamentos que evitam o sofrimento mental. Porém, Yamamoto e Volpato (2007) afirmam que o bem-estar de qualidade não deve ser considerado como uma vida livre de estresse. Sendo assim, lidar com desafios ambientais, fisiológicos e imunológicos também facilita o bem-estar e orienta as respostas dos animais aos parâmetros de normalidade. Nesse sentido, os estressores leves são benéficos para o enfrentamento, e realistas quanto à validade dos resultados experimentais. Mesmo que os indivíduos em cativeiro apresentem muitos hábitos comuns aos animais em liberdade, pode-se melhorar sua qualidade de vida através do enriquecimento ambiental da área, para que o recinto assemelhe-se mais ao habitat natural desses animais. Trabalhos recentes têm demonstrado a influência do comportamento e da organização social sobre os processos fisiológicos e celulares. Algumas variações no ambiente social podem inibir ou estimular a ovulação, produzir sincronia menstrual ou induzir abortos (DEL-CLARO, 2004). A qualidade do ambiente social também tem efeito direto sobre o funcionamento do sistema imunológico. Pesquisadores em fisiologia e imunologia necessitam ser orientados sobre estas influências comportamentais e sociais para garantir um controle adequado de seus próprios estudos (SNOWDON, 1999). A conservação de espécies ameaçadas de extinção também requer que nós tenhamos bastante conhecimento sobre o comportamento natural dessas espécies (padrões migratórios, tamanho de território, interações com outros grupos, demandas de forrageio, comportamento reprodutivo, comunicação, entre outros), para serem criadas medidas efetivas de proteção. A relocação ou reintrodução de animais não é possível Ciência Animal, 22(1), 2012 Palestra apresentada no VI Congresso Norte Nordeste de Reprodução Animal, Fortaleza, CE, Brasil, 27 a 29 de junho de 2012. 16 Ciência Animal, 22(1): 7-19, 2012 – Edição Especial sem um conhecimento detalhado da história natural da espécie (KREBS; DAVIES, 1996). Estudos básicos sobre o comportamento reprodutivo levaram ao aperfeiçoamento de técnicas de criação e reprodução em cativeiro de mico-leãodourados (Leontopithecus rosalia) e muitas outras espécies ameaçadas de extinção. Criadouros que ignoram o comportamento reprodutivo natural da espécie são geralmente malsucedidos (LORENZ, 1995). Somente os seres humanos interferem na ordem, no equilíbrio e na evolução natural dos ecossistemas. Então, é somente a eles que cabe minimizar os efeitos de suas ações. CONCLUSÃO Após a argumentação elaborada, conclui-se ser necessário aprofundar as discussões sobre a ética na utilização de animais silvestres em experimentos científicos, pois, embora seja constantemente mobilizada atualmente, a palavra ética ainda é mal empregada em uma série de discursos pretensamente ambientalistas e até em alguns trabalhos acadêmicos e científicos. Percebemos, também, que os projetos que visem ao conservacionismo e à proteção da biodiversidade precisam se apoiar em estudos sólidos, fundamentados nas ciências biológicas de base, para que as boas intenções não se diluam em meio à ausência de rigor técnico e metodológico. Por fim, foi possível notar que, sendo eticamente aceitável a utilização de animais silvestres em experimentos, o trato dos animais em cativeiro também pode seguir preceitos éticos, relacionados à atenção às condições de vida e bem-estar dos espécimes. REFERÊNCIAS ALFARO, Jessica W. Lynch; SILVA JÚNIOR, José de Sousa e; RYLANDS, Anthony B. How different are Robust and Gracile capuchin monkeys? An argument for the use of Sapajus and Cebus. American Journal of Primatology, v. 74, n. 4, p. 273-286, 2012. ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de filosofia. São Paulo: Moderna, 1992. Ciência Animal, 22(1), 2012 Palestra apresentada no VI Congresso Norte Nordeste de Reprodução Animal, Fortaleza, CE, Brasil, 27 a 29 de junho de 2012. 17 Ciência Animal, 22(1): 7-19, 2012 – Edição Especial BERGER, Peter; LUCKMANN, Thomas. A sociedade como realidade objetiva. In: A construção social da realidade. Petrópolis: Editora Vozes, 1973. p. 69-172. CAPRA, Fritjof. 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