Caracterização da Variabilidade de Temperatura da Região Norte do Brasil W. L. F. Correia Filho, C. M. Santos e Silva, M. V. M. Mata, N. J. C. Barreto, A. B. Lopo, B. K. N. Silva, C. E. A. Valadão, D. M. Schmidt, P. T. Oliveira, R. Andrade, P. S. Lucio, M. H. C. Spyrides Programa de Pós-Graduação em Ciências Climáticas – UFRN – Campus Universitário Lagoa Seca – Natal – RN - Brasil, email: [email protected]; [email protected] RESUMO: Neste trabalho são discutidos os resultados obtidos de sete estações meteorológicas localizadas na Região Norte do Brasil, nas quais há observações diárias de temperatura do ar mínimas (TN) e máximas (TX) - através das quais se calcula a amplitude térmica (AT) - para o período de 1970-2005. Os dados passaram pelo controle de consistência baseado nos percentis de 5% e 95%. Após o controle aplicou-se o método de regressão linear e o método de mínimos quadrados considerando a significância estatística com base no teste tstudent ao nível de significância ( α ) de 5%. Constatou-se que em Belém, Macapá e Palmas identificaram significância estatística e persistência no sinal da tendência, dos quais Palmas apresentou 3 dos 9 índices (média da temperatura máxima e mínima e máxima da temperatura máxima) Palavras-chave: Regressão linear simples, Teste t-student, Tendência 1 – INTRODUÇÃO A temperatura do ar não apenas influencia nos processos da natureza, mas também em diferentes atividades econômicas. A temperatura extremamente alta, associada às ondas de calor prolongadas prejudica a produção agrícola, aumentando a quantidade de energia e consumo de água, afetando prejudicialmente a saúde humana (Karl & Easterling, 1999; Kunkel et al., 1999; Easterling et al., 2000). Marengo & Camargo (2009) investigaram a tendência das temperaturas mínima e máxima, amplitude térmica diurna, e os índices derivados da temperatura extrema do período de 1960-2002 para a região sul do Brasil. Os autores observaram que as estações meteorológicas mostraram um aumento na temperatura mínima e máxima, e constataram valores negativos da amplitude térmica anual e sazonal nos últimos 40 anos. Os autores baseados nos índices de percentis de temperaturas máximas e mínimas para os dias mais quentes e frios identificaram que a freqüência de dias quentes aumentou durante o inverno e verão, especialmente nas duas últimas décadas, e verificaram também que a ocorrência de eventos extremos de frios e condições de resfriamento ocorridas em 1975, 1994 e 2000 aumentou a frequência de dias mais quentes. O objetivo deste trabalho será de analisar e identificar alterações na temperatura e verificar se há tendência significativa nas séries de dados. 2 - MATERIAL E MÉTODOS Neste artigo utilizaram-se observações diárias de temperaturas máximas (TX), temperaturas mínimas (TN) e amplitude térmica (AT), obtidos pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) das sete capitais da Região Norte do Brasil, do período de 1970-2005 (Tabela 1). Estes dados foram submetidos a um controle de qualidade baseados nos índices de percentis que eliminou das séries temporais valores inferiores ao 5° percentil e superiores ao 95° percentil, por apresentarem valores extremamente discrepantes, relacionados a erros de observação ou de equipamento defeituoso. Em seguida, obtiveram-se os valores máximos, mínimos e médios para cada uma das três variáveis estudadas, e com a aplicação do método de regressão linear nestes valores obtiveram-se valores de tendência temporal, e aplicando o método de mínimos quadrados considerando a significância estatística com base no teste tstudent ao nível de significância de 5%. Tabela 1: Localização das estações meteorológicas da Região Norte do Brasil. Localidade Latitude (S) Longitude (W) Altitude (m) Período de dados ausentes Rio Branco - AC 9º58’ 67º05’ 160 1991-1992 Palmas - TO 10º11’ 48º18’ 280 1986-1987-1988-1992 Porto Velho - RO 8º46’ 63º55’ 95 1984 a 1994 Macapá - AM 0°03’ 51º07’ 14 - Manaus - AM 3°07’ 59º57’ 67 - Belém - PA 1°27’ 48°28’ 10 - Boa Vista - RR 2º49’ 60º39’ 90 1990 a 1992 3 – RESULTADOS E DISCUSSÃO A Figura 1 mostra os “boxplots” da temperatura mínima e máxima das sete capitais da Região Norte do Brasil, e se verifica uma forte variabilidade na temperatura mínima em Porto Velho, Palmas e Rio Branco, variando entre 15 a 25°C, com valores médios próximos dos 22°C, e nas demais cidades (Belém, Manaus, Macapá e Boa Vista) constataram-se uma variabilidade menor, com valores oscilando entre 20ºC e 25ºC. Este comportamento está associado ao fenômeno de friagem, que induz a redução das temperaturas de forma brusca em algumas localidades da Amazônia, influenciando em Porto Velho, Palmas e Rio Branco (Figura 1a). Temperatura Mínima 10 20 15 25 T e m p e r a tu r a º C 20 T e m p e r a tu r a º C 30 35 25 40 30 Temperatura Máxima Palmas B.Vista Macapa Manaus Capitais (a) Belem P.Velho R.Branco Palmas B.Vista Macapa Manaus Belem P.Velho R.Branco Capitais (b) Figura 1: Boxplot das temperaturas mínimas (1a) e máximas (1b) (ºC) para as sete capitais da Região Norte do Brasil do período 1970-2005. As temperaturas máximas (Figura 1b) apresentaram semelhanças em relação a temperatura mínima em todas as capitais, entretanto, com menor intensidade, a média da temperatura máxima oscila em torno de 32ºC, apresentando comportamento mais uniforme do que a temperatura mínima e amplitude térmica. Os valores máximos da temperatura máxima aproximam-se dos 40ºC, entretanto, os valores mínimos são próximos dos 25ºC em boa parte das capitais. Belém é a única com valores mínimos de temperatura máxima em cerca de 28ºC. A Tabela 2 mostra os valores de incremento de temperatura, tendência, teste t e valor p para a temperatura máxima para a Região Norte do Brasil para o período de 1970-2005. Observa-se que nos valores médios indicaram o incremento positivo de temperatura acima de 1°C em Macapá, Boa Vista e Palmas, com o valor máximo de 2,02 °C nesta última. Quanto ao grau de significância descrito pelo valor p e coeficiente de determinação, somente em Palmas e Macapá possuem tendências muito significativas e com sinal persistente, em relação aos valores médios de TX. Tabela 2: Valores do incremento de temperatura (°C) para o período estudado, tendência (T), teste t-student e valor p para as TX (ºC) para a Região Norte do Brasil do período de 1970-2005. Os valores em negrito de p(<0.05) indicam que há evidência estatística de tendência linear. Temperatura Máxima – TX (°C) Máxima Média Mínima IT T Teste Valor IT T Teste Valor IT T Teste Valor (ºC) t p (ºC) t p (ºC) t p 0.87 0.390 2.03 0.058 5.97 -0.002 -0.30 0.760 PAL 0.35 0.010 0.000 -0.07 2.85 3.61 0.01 0.000 0.08 0.940 BOV 0.71 0.020 0.007 0.98 0.028 0.000 3.86 8.87 0.25 0.007 2.39 MAC 0.38 0.011 0.000 1.43 0.041 0.000 0.023 0.54 0.589 0.77 0.022 3.76 0.13 0.004 1.21 0.230 MAN 0.14 0.004 0.000 1.65 0.110 0.63 0.018 2.31 -0.006 -1.24 0.220 BEL 0.31 0.009 0.027 -0.21 0.69 0.490 0.25 0.007 0.86 0.400 -0.03 -0.001 -0.25 0.810 POV 0.21 0.006 0.84 0.410 1.40 0.004 0.66 0.516 0.60 0.017 0.69 0.490 RIB 0.28 0.008 PAL – Palmas, BOV – Boa Vista, MAC – Macapá, MAN – Manaus, BEL – Belém, POV – Porto Velho, RIB – Rio Branco. A Tabela 3 mostra os valores de incremento de temperatura, tendência, teste t e valor p para a temperatura mínima para a Região Norte do Brasil para o período de 1970-2005. Verificou-se que em Palmas apresentou os maiores valores de incremento positivo de temperatura (ºC), com valores acima de 2ºC e registrando significância estatística nos valores máximos, mínimos e médios. Quanto ao grau de significância descrito pelo valor p e do coeficiente de determinação, observa-se somente nas estações de Palmas, Macapá e Belém possuem tendências muito significativas e com sinal persistente, em relação aos valores médios de TN. Tabela 3: Valores do incremento de temperatura (IC) (°C), de tendência (T), teste t-student e valor p para as TN (ºC) para a Região Norte do Brasil do período de 1970-2005. Os valores em negrito de p(<0.05) indicam que há evidência estatística de tendência linear. Temperatura Mínima – TN (°C) Máxima Média Mínima IT T Teste Valor IT T Teste Valor IT T Teste Valor (ºC) t p (ºC) t p (ºC) t p 7,95 2.81 0.000 PAL -0.07 -0.002 0.000 2.45 0.070 6.44 0.008 2.35 0.066 0.000 2,56 0.015 1.19 0.034 4.63 0.270 0.24 0.007 1.11 0.000 BOV 0.00 0.007 3,59 0.757 0.04 0.001 0.31 0.000 MAC 0.24 0.001 0.91 0.026 6.51 0.004 -0,20 0.845 0.04 0.001 0.19 0.730 0.11 0.003 0.35 0.850 MAN 0.14 4,23 4.53 0.000 BEL -0.21 -0.006 0.000 1.44 0.041 7.15 0.000 0.81 0.023 4,07 0.710 0.21 0.006 0.37 0.000 POV -0.03 -0.001 0.000 0.94 0.027 4.63 0.59 0.017 2,93 0.160 0.74 0.021 1.44 0.013 RIB 0.006 1.23 0.035 2.62 PAL – Palmas, BOV – Boa Vista, MAC – Macapá, MAN – Manaus, BEL – Belém, POV – Porto Velho, RIB – Rio Branco. A Tabela 4 mostra os valores de incremento de temperatura, tendência, teste t e valor p para as amplitudes térmicas para a Região Norte do Brasil para o período de 1970-2005. Observa-se que foram observados valores acima de 1ºC em Palmas no valor máximo de AT, Rio Branco para o valor médio e Boa Vista para o valor mínimo de AT. Quanto ao grau de significância descrito pelo valor p e coeficiente de determinação, apenas em Belém houve tendência muito significativa e com sinal persistente nos valor mínimo de AT. Tabela 4: Valores do incremento de temperatura (IC) (°C), de tendência (T), do teste t-student e valor p para as AT (ºC) para a Região Norte do Brasil do período de 1970-2005. Os valores em negrito de p(<0.05) indicam que há evidência estatística de tendência linear. Amplitude Térmica – AT (°C) Máxima Média Mínima IT (ºC) T Teste T Valor p IT (ºC) T Teste t Val IT T Teste Valor or (ºC) t p p -0.42 -0.012 -0.87 0.01 0.39 -0.25 -0.007 -1.86 0.07 PAL -1.75 -0.036 -1.71 -0.18 -0.005 0.57 -0.59 0.56 -0.32 -0.009 -1.38 0.18 BOV -0.14 -0.004 -0.58 0.53 0.015 0.17 0.87 3.53 0.16 0.005 1.82 0.08 MAC 0.01 0.000 0.00 0.81 0.023 1.80 0.08 3.09 0.28 0.008 1.57 0.12 MAN 0.35 0.010 0.00 -0.77 -0.022 -2.37 0.19 -0.46 -0.013 -2.37 BEL -0.32 -0.089 -1.34 0.02 0.02 -0.74 -0.021 0.84 -2.82 0.01 -0.21 -0.006 -1.73 0.09 POV -0.35 -0.004 -0.20 -1.12 -0.032 -2.09 0.12 0.07 0.002 0.19 0.85 RIB -0.70 -0.020 1.61 0.04 PAL – Palmas, BOV – Boa Vista, MAC – Macapá, MAN – Manaus, BEL – Belém, POV – Porto Velho, RIB – Rio Branco. 4 – DISCUSSÕES FINAIS Neste trabalho foram identificadas a maior significância estatística e persistência no sinal de tendência em Belém, Macapá e Palmas nos valores médios de temperatura, com exceção da amplitude térmica em Belém, apresentando coeficiente de determinação acima de 0,50. Apesar dos resultados apresentarem consistência estatístíca em Palmas, esta capital possui o maior período de dados ausentes (6 anos ausentes), enquanto Macapá representou os menores valores na variação de temperatura (°C), e esta juntamente com Belém possuem as melhores séries de dados. AGRADECIMENTOS Paulo S. Lucio é Bolsista de Produtividade em Pesquisa (PQ2) do CNPq (Proc.302493/20077). Os dados das estações climatológicas foram gentilmente cedidos pelo INMET. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GONSAL, B.R., ZHANG, X., VINCENT, L.A., HOGG, W.D., 2001. Characteristics of daily extreme temperatures over Canada. Journal of Climate 14, 1959–1976. EASTERLING, D.R., EVANS, J.L., GROISMAN, P.Ya., KARL, T.R., KUNKEL, K.E., AMBENJE, P., 2000. Observed variability and trends in extreme climate events. Bulletin of American Meteorological Society 81,417–425. KARL, T.R., EASTERLING, D.R., 1999. Climate extremes: selected review and future research directions. Climatic Change 42, 309–325. KUNKEL, K.E., PRISTKE, R.A., CHANGNON, S.A., 1999. Temporal fluctuation in weather and climate extremes that cause economic and human health impacts—a review. Bulletin of American Meteorological Society, 80, 1077–1098. MARENGO, J.A. & CAMARGO, C. C., 2008. Surface air temperature trends in Southern Brazil for 1960–2002.Int. J. of Climat., 28, 893-904.