UMA CRIANÇA CEGA DESCOBRE-SE NO DESENHO Ana Inez Mottim Justino Profa. Dra. Ana Luiza Ruschel Nunes Profa. Ms. Marinê Fecci Batistão Leite RESUMO Considerando o desenho como uma das mais antigas formas de comunicação e linguagem do ser humano, este trabalho tem como objetivo aplicar e adaptar metodologias de ensino de desenho com pessoas cegas, já estudadas pela Profª Drª Maria Lúcia Batezat Duarte, buscando com a utilização de materiais simples, iniciar a criança cega no desenho infantil. Para tanto fizemos uma revisão de literatura e utilizamos uma metodologia de caráter qualitativo, descritivo e exploratório, em um estudo de caso de uma criança com cegueira congênita, dentro do contexto da APADEVI (Associação de Pais e Amigos de Deficientes Visuais) em Ponta Grossa, Pr. Os resultados mostraram a relevância do papel da arte na educação especial e inclusão educacional do cego vindo a contribuir para a formação integral do aluno. Palavras-chave: Cegueira, desenho infantil, inclusão educacional. ABSTRAT Considering that drawing is one of the oldest forms of human language and communications, this study has the objective of applying and adapting drawing teaching techniques for blind people, as already studied by Prof. Dr Maria Lúcia Batezat Duarte. with use of simple materials start the blind child in children´s. For that we conducted a literature review and applied a qualitative, descriptive and exploratory methodology in a case study a child with congenital blindness from APADEVI (Parents and Friends of Visual Deficit Association) in Ponta Grossa, Pr. The results showed the relevance of art in the special education and the inclusion of the blind student contributing to his development. Key-words: blindness, childish draw, educational inclusion. 106 VII Encontro do Grupo de Pesquisa “Educação, Arte e Inclusão” Florianópolis/SC - 03 e 04 de novembro de 2011 Tema: Educação, Cultura e Sociedade Introdução Conhecedores dos trabalhos que estão sendo realizados visando à inclusão educacional das pessoas com necessidades especiais e vivenciando o grande momento que passa a arte na educação, evidenciando-se a leitura de imagens, cultura visual, o conhecer, fruir e fazer arte, percebemos durante uma disciplina de estágio do curso de graduação de Licenciatura em Artes Visuais a dificuldade do professor do ensino regular em trabalhar arte com uma criança com necessidades educacionais especiais, inserida numa classe de educação infantil do ensino regular. Com isso, pensamos no desenho como uma das mais antigas formas de linguagem, comunicação e expressão e surgiram assim questionamentos de: como se desenvolve o desenho de uma criança cega? Como a arte poderia contribuir para a inclusão e de uma criança cega nas artes visuais? Através de pesquisas, conhecemos as metodologias de ensino de desenho com pessoas cegas que estão sendo estudadas pela Profª Drª Maria Lúcia Batezat Duarte(1)(2001, 2003, 2004) Em seus estudos a autora refere-se à representação de mundo por meio do desenho, vendoo como meio de comunicação e de expressão. Aborda a relação entre imagem mental e esquemas gráficos infantis, trabalhando com uma seqüência pedagógica experimental para o ensino de desenho a crianças cegas. Duarte (2004b) se baseia em estudos de Freud, Antônio Damásio e Bernard Darras em relação a formação de imagens provenientes das modalidades sensoriais da audição, visão, olfato, tato, gustação e somatossensorial. 107 VII Encontro do Grupo de Pesquisa “Educação, Arte e Inclusão” Florianópolis/SC - 03 e 04 de novembro de 2011 Tema: Educação, Cultura e Sociedade Assim, tomamos como objetivo neste nosso trabalho aplicar e adaptar estas metodologias, buscando com a utilização de materiais simples, descobrir como auxiliar o aluno cego no seu desenvolvimento, incluindo-o no universo das artes visuais, buscando levá-lo a um enriquecimento de expressão, pensamento artístico e estético, através do desenho. Arte e Educação Especial Segundo Ferraz e Fusari (1999, p.16), desde o início da civilização a arte ocupa uma função indispensável na vida das pessoas e na sociedade, e é “um dos fatores essenciais de humanização. [...] a arte se constitui [...] manifestação de atividade criativa dos seres humanos ao interagirem com o mundo em que vivem, ao se conhecerem e ao conhecê-lo.” Percebemos assim, que a arte é inerente ao ser humano, faz parte de seu crescimento e desenvolvimento. A arte aproxima as pessoas, se tornando universal. Azevedo (2003) relata que a arte e a educação especial no Brasil tiveram seu grande marco através das idéias da educadora russa Helena Antipoff que no ano de “1929, [...] veio ao Brasil integrar-se a um grupo que estava em Minas Gerais reorganizando a Educação daquele estado exatamente no momento da Reforma Francisco de Campos, inspirada nos ideais do Movimento Escola Nova.”(AZEVEDO, 2003, p. 100). Entres seus feitos registramos a criação da Sociedade Pestalozzi de Minas Gerais (1932) e da Sociedade Pestalozzi do Brasil no Rio de Janeiro (1945). O autor completa que outro fator que contribuiu para a educação especial e para a arte foi a criação das Escolinhas de Arte do 108 VII Encontro do Grupo de Pesquisa “Educação, Arte e Inclusão” Florianópolis/SC - 03 e 04 de novembro de 2011 Tema: Educação, Cultura e Sociedade Brasil, criado em 1948 no Rio de Janeiro, pelo artista plástico pernambucano Augusto Rodrigues, auxiliado pela professora de arte gaúcha Lúcia Valentin e pela artista plástica norte-americana, Margaret Spencer. Difundiu-se assim o Movimento das Escolinhas de Arte (MEA). Tendo como princípio básico a livre expressão criadora e a renovação dos métodos de educação da criança brasileira, nestas escolinhas tiveram espaço os alunos com necessidades educacionais especiais, a partir do trabalho da arte-educadora Noemia do Araújo Varela, que “criou na Escola de Educação Especial Ulisses Pernambucano um ateliê de Arte voltado para o atendimento às crianças portadoras de necessidades especiais”.(AZEVEDO, 2003, p.101-102). Até 1973 as escolinhas de arte eram os únicos espaços para o ensino de artes no Brasil, já que nas escolas a prática artística se restringia ás áreas de iniciação técnica. (PARANÀ, 1988, p.118). Com a Lei 5.692/71, no seu artigo 7, a Educação Artística tornou-se obrigatória nas escolas, e envolvia, segundo Oliveira (2005, p. 14), “as artes plásticas, cênicas e música, porém era considerada como uma atividade educativa em sala de aula e não vista como uma disciplina a ser explorada e vivenciada pelos alunos”. Finalmente, em 1996, com a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei n° 9.394/96, no art. 26, § 2º, encontramos que “O ensino de arte constituirá componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos”.(BRASIL, 1996 apud CEDCA, 2001, p. 185). 109 VII Encontro do Grupo de Pesquisa “Educação, Arte e Inclusão” Florianópolis/SC - 03 e 04 de novembro de 2011 Tema: Educação, Cultura e Sociedade O ensino da arte é organizado e sistematizado no Brasil, a partir dos anos 90, sendo ensinado de acordo com Rizzi (2003) através da “Proposta Triangular do Ensino da Arte” organizada por Ana Mae Barbosa em torno dos três eixos fundamentais de aprendizagem: a integração do fazer artístico, apreciação da obra de arte e sua contextualização histórico-cultural. Nos Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs (ARTE), encontramos que.”[...] aprender arte envolve não apenas uma atividade de produção artística pelos alunos, mas também compreender o que fazem e o que os outros fazem [...] É importante que os alunos compreendam o sentido do fazer artístico”. (BRASIL, 1998, p.43). Isto significa que, as atividades artísticas podem auxiliar as pessoas a modificarem sua maneira de enxergar a si mesmo, aos outros e ao mundo. Compreendemos que esta história humana, também, é a história de cada um, com respeito às suas diferenças, habilidades, dificuldades, seu próprio contexto histórico-cultural, variações que enriquecem a nossa cultura. Entendendo que a arte auxilia na formação de todas as pessoas, foi realizado no Brasil em 1999, através da Secretaria de Educação Especial do Ministério da Educação (SEESP/ MEC), o Encontro de Pirenópolis, onde firmou-se o “compromisso político com a inclusão da arte como componente curricular para alunos com necessidades educacionais especiais”. Este Encontro de Educação Especial: “Uma Escola de Qualidade para Todos Respeita a Diversidade”, veio reafirmar o princípio filosófico “Educação Para Todos” e garantir, entre outras resoluções “a 110 VII Encontro do Grupo de Pesquisa “Educação, Arte e Inclusão” Florianópolis/SC - 03 e 04 de novembro de 2011 Tema: Educação, Cultura e Sociedade presença da arte-educação no projeto político pedagógico das escolas, [...] da arte como "vetor de inclusão". (BRASIL, 2002, p.11, grifo nosso). Sabemos que “a linguagem visual envolve um universo amplo de modos de expressão, desde as [...] categorias da pintura, escultura, desenho e gravura, incluindo a fotografia, o cinema, o vídeo, as instalações e as imagens tecnológicas”. Nestas linguagens reconhecemos entre outros elementos: “a forma, a cor, [...] equilíbrio, o plano, as relações entre luz e sombra [...]”.(BRASIL, 2002, p.17). Arnheim (2004, p.153) acrescenta que “[...] Uma das grandes vantagens educacionais do trabalho artístico é que um mínimo de técnica basta para dar aos estudantes os instrumentos necessários ao desenvolvimento independente de seus próprios recursos mentais”. Aqui colocamos, também, além dos recursos mentais, os recursos físicos, porque através de simples adaptações podemos incluir o aluno com algum déficit nas atividades. Mas, para que estas atividades tenham um bom desenvolvimento e instiguem os alunos, não devem ser impostas uniformemente a um grupo, mas sim respeitando suas diferenças e dificuldades, valorizando suas habilidades. Devemos chamar a atenção para o fato de que a arte não deve ser trabalhada, apenas como meio de liberar as emoções, ou simplesmente um passatempo, ela tem objetivos muito mais amplos, a importância da arte no desenvolvimento cultural e pessoal do aluno, reconhecendo seu lugar no mundo como cidadão crítico e criativo. 111 VII Encontro do Grupo de Pesquisa “Educação, Arte e Inclusão” Florianópolis/SC - 03 e 04 de novembro de 2011 Tema: Educação, Cultura e Sociedade Desenvolvimento visual e déficit visual O desenvolvimento evolutivo visual da criança, com visão normal, ocorre de forma espontânea. Para Mena (2003) a criança inicia sua percepção do mundo visual através da focalização do rosto da mãe, e partindo das situações naturais de sua vida como: alimentação, troca de fraldas, etc. Nesta fase, a criança aprende a focalizar, localizar e procurar. Ela enxerga a uma distância de aproximadamente 20 centímetros que é à distância do rosto da mãe com o Aranha (2005) caracteriza a cegueira por uma “perda total da visão, até ausência de projeção de luz. O processo de aprendizagem se fará através dos sentidos remanescentes (tato, audição, olfato, paladar)”.Do ponto de vista educacional podemos considerar dois grupos distintos de cegueira: os cegos congênitos e os cegos com cegueira adquirida. A importância desta diferenciação está em relação à visualização presente na vida das pessoas que adquiriram a cegueira facilitando a educação e reabilitação destes sujeitos. (AMIRALIAN, 1985 apud AMIRALIAN, 1997) É chamada de cegueira congênita quando atinge crianças até os cinco anos de idade. A autora, ainda, nos explica que depois da fase de desenvolvimento da criança o efeito da cegueira é muito menos traumático. Depende, muito mais, das atitudes que os pais adotam de super proteção, ou de excessiva pressão para que a criança se desenvolva e funcione “normalmente”. (AMIRALIAN, 1997, p. 68). O tato é um sentido pelo qual percebemos várias sensações como: o frio, quente, macio, duro, áspero, liso, seco, molhado. Pelo 112 VII Encontro do Grupo de Pesquisa “Educação, Arte e Inclusão” Florianópolis/SC - 03 e 04 de novembro de 2011 Tema: Educação, Cultura e Sociedade treinamento tátil a criança ou a pessoa deve explorar e conhecer a maior variedade de texturas, fazer reconhecimento tátil de diferentes objetos, observando sua temperatura, formas, material, peso. Mas ele só percebe a totalidade do objeto que cabe na palma de sua mão. Isto nos explica porque o cego percebe as coisas por partes, fragmentadas. Cobo, Rodrígues e Bueno (2004, p.110) lembram também que o tato “está distribuído [...] por toda a superfície da pele [...]”, não reside apenas nas mãos. Apesar de desempenhar um papel extraordinário para o cego proporciona uma capacitação limitada de informações. Através do tato podemos identificar formas e tentar passá-las para uma representação gráfica bidimensional, mesmo não tendo o sentido da visão. Para Gardner (1994, p.135) a inteligência espacial é a observação que a pessoa faz do mundo visual, “[...] é a capacidade de perceber uma forma ou um objeto”. As imagens mentais, provavelmente surgem na forma visual, mas também podem ser criadas por um “[...] indivíduo cego e que, portanto, não possui acesso direto ao mundo visual”. Metodologia da pesquisa Em relação à natureza dos dados, esta pesquisa se configura como sendo qualitativa, é uma pesquisa exploratória, descritiva e Interpretativa, cuja metodologia abrange, além de referencial teórico, a coleta de dados através de entrevistas com profissionais que atuam na área, observação e a intervenção direta em um estudo com uma criança 113 VII Encontro do Grupo de Pesquisa “Educação, Arte e Inclusão” Florianópolis/SC - 03 e 04 de novembro de 2011 Tema: Educação, Cultura e Sociedade que apresenta cegueira congênita. Estas observações foram filmadas e as entrevistas foram gravadas e transcritas. O local escolhido para a pesquisa de campo foi a APADEVI ASSOCIAÇÃO DE PAIS E AMIGOS DO DEFICIENTE VISUAL, uma ONG mantenedora do Centro de Atendimento Especializado para o Deficiente Visual. Mantém convênio de amparo técnico com a Prefeitura Municipal de Ponta Grossa, Secretaria de Estado da Educação (SEED), Fundação Pró - Amor e Fundação de Amparo à Pessoa Idosa (FAPI). Foi fundada no dia 22 de Junho de 1985 no bairro de Oficinas em Ponta Grossa, Paraná. Escolhido o local, foram feitas entrevistas informais com os professores, pais e aluno, uma análise documental dos históricos e atividades do pesquisado na instituição com informações de avaliação médica e educacional. O aluno selecionado para a pesquisa foi indicado pela própria direção da APADEVI.. O sujeito de nossa pesquisa é um menino de nove anos, com diagnóstico médico de cegueira total congênita, Doença de Norrie(2), que em 2006 estudava na 4ª série do Ensino Fundamental de uma escola particular de ensino regular e participava das atividades da APADEVI desde os três meses de idade. Pela manhã, no contra turno da escola, realiza suas atividades na APADEVI. Faz fisioterapia, participa de seções com uma psicóloga, sala de apoio (português, matemática) orientação e mobilidade, sorobã, alfabetização em braille, atividades da vida diária, música, educação física, informática adaptada, equoterapia, natação, jogos adaptados e coral. 114 VII Encontro do Grupo de Pesquisa “Educação, Arte e Inclusão” Florianópolis/SC - 03 e 04 de novembro de 2011 Tema: Educação, Cultura e Sociedade As observações e intervenções foram desenvolvidas na própria sala onde o aluno faz suas atividades de braille e sorobã. O aluno é um menino muito alegre e comunicativo e muito conversador e mostrou grande interesse em desenhar, pois nunca tinha feito um desenho. Para as intervenções fizemos adaptações baseadas nos trabalhos da Profª Drª Maria Lúcia Batezat Duarte sobre metodologias de ensino de desenho para pessoas com cegueira e déficit visual, onde "Acredita-se que esquemas gráficos desenhados em relevo realizados com materiais e métodos adequados, podem permitir às crianças cegas um meio de comunicação que, estabelecendo-se de modo tátil e visual”. (DUARTE, 2004b) Assim, a autora elaborou uma série de exercícios, visando desenvolver o raciocínio das crianças cegas. Entre os exercícios propostos por Duarte (2004a, p.139) citamos os seguintes: - reconhecimento tátil de sólidos geométricos com diferentes materiais; - perceber o elemento definidor das “bordas de contorno”, percorrendo com o dedo indicador as bordas de superfície e contorno do objeto; - sentir a figura planificada e suas bordas de contorno. As bordas de contorno propõem, assim, ser mais claramente identificadas como “linha de contorno”, esta linha de contorno tátil é também sentida em um desenho previamente realizado em relevo sobre o papel; - desenhar o objeto traduzido pela observação tátil em forma geométrica, reler e identificar tátilmente o seu próprio desenho. 115 VII Encontro do Grupo de Pesquisa “Educação, Arte e Inclusão” Florianópolis/SC - 03 e 04 de novembro de 2011 Tema: Educação, Cultura e Sociedade - realizar representações de novos objetos. As intervenções ocorreram durante o ano de 2006 num total de 10 sessões, uma vez por semana, com duração de 90 minutos cada. Durante as atividades, sentimos também a necessidade de usar outros tipos de atividades e materiais com o objetivo de propiciar aos encontros uma maior diversidade e compreensão dos exercícios. Nossos procedimentos se basearam na realização de desenho livre; reconhecimento de objetos variados usando os sentidos remanescentes; desenho e reconhecimento de linhas e bordas de contorno de figuras geométricas; desenhos em relevo com massa de modelar; giz de cera sobre papel e lixa grossa; desenhos-história; figura humana, corpo e face, objetivos estes que o aluno mostrou interesse em alcançar. Os materiais utilizados foram: lixa grossa, papel de diferentes texturas, massa de modelar, sólidos geométricos, figuras geométricas planificadas em isopor e EVA, desenhos de linhas em relevo com cola quente e placas de madeira com linhas vazadas para reconhecimento de “linhas de contorno”. No primeiro encontro trabalhamos o desenho livre para verificarmos em que processo se encontrava o desenho do aluno. Fazendo reconhecimento tátil através de um bicho de pelúcia o aluno desenhou um coelhinho. Mostrou que não tem intimidade com o lápis. Seu desenho se baseia em movimentos automáticos, rápidos e em ziguezague e tem mais relação com a fala, desenha o que fala. Apresentou dificuldades em fazer linhas. Seu desenho é fragmentado, uma 116 VII Encontro do Grupo de Pesquisa “Educação, Arte e Inclusão” Florianópolis/SC - 03 e 04 de novembro de 2011 Tema: Educação, Cultura e Sociedade característica de pessoa cega, mas está disposto numa certa ordem e seqüência significativa para ele. Nosso próximo objetivo foi estimular a percepção tátil e observar como o aluno responde a este reconhecimento, para isto utilizamos sólidos geométricos e objetos do cotidiano de diferentes materiais, texturas e tamanhos. Fizemos também o reconhecimento em duas dimensões usando material plástico E.V.A., verificamos a “linha de contorno” que dão uma idéia melhor, tanto para o sentido da visão como do tato, dos limites do objeto a ser desenhado. Trabalhando com desenho-história pudemos fazer várias atividades. O próprio aluno criou uma história sobre um rodeio e conforme ele ia contando, trabalhávamos com massinha e desenho. Pillar (1987, p. 35) explica que “[...] o desenho com história é a organização do espaço relacionada com a seqüência temporal. [...] o espaço e o tempo são fundamentais para a representação que possibilita a aquisição da linguagem.” Os personagens desta história foram o cavalo, o narrador e a cantora do rodeio. Em cada tema que foi trabalhado fizemos um reconhecimento bem detalhado de leitura de objetos sólidos como uma boneca, reconhecendo as partes do corpo, verificando diversas posições diferentes, e um cavalo de brinquedo, sendo este o estímulo para ir fazendo o desenho do cavalo, mas sempre verbalizando sua ação e mostrando consciência do que estava fazendo. Notamos que com a observação através do tato de um objeto imitando o real, mas de tamanho reduzido, o desenho começa a se estruturar melhor. Já podemos 117 VII Encontro do Grupo de Pesquisa “Educação, Arte e Inclusão” Florianópolis/SC - 03 e 04 de novembro de 2011 Tema: Educação, Cultura e Sociedade perceber que ele está conseguindo reunir as partes que ele conhece para totalizar a estrutura da figura. (Figuras de 1 a 5) Fig 1. Fita cassete com massa de modelar Fonte: acervo portfólio de pesquisa da autora Fig 2. Fita cassete desenho com lápis Fonte: acervo portfólio de pesquisa da autora 118 VII Encontro do Grupo de Pesquisa “Educação, Arte e Inclusão” Florianópolis/SC - 03 e 04 de novembro de 2011 Tema: Educação, Cultura e Sociedade Fig 3. Fita cassete desenho do som Fonte: acervo portfólio de pesquisa da autora Estes exercícios possibilitaram ao aluno a organizar seus pensamentos, e sua linguagem na construção de significados de seus desenhos, sendo o cavalode brinquedo (fig.4) a sua preferência para o desenho. Fig 4. Cavalo de brinquedo Fonte: acervo portfólio de pesquisa da autora 119 VII Encontro do Grupo de Pesquisa “Educação, Arte e Inclusão” Florianópolis/SC - 03 e 04 de novembro de 2011 Tema: Educação, Cultura e Sociedade Fig 5. Desenho do cavalo Fonte: acervo portfólio de pesquisa da autora Quando trabalhávamos com a massinha, o aluno falava em desenhar as cordas vocais da cantora ou do narrador ou mesmo o “buraco da cabeça para pensar” lembramos do que diz Lowenfeld (1961, p. 507, tradução nossa) em seus estudos sobre a arte de crianças cegas, em que fala que “[...] as experiências dos cegos vem principalmente das formas que observam tatilmente e sentem em si mesmos [...]”(3). A referência que nós videntes fazemos de situações visuais, não apresenta um significado real para o cego que utiliza os outros sentidos. Devemos ter cuidado em não utilizar conceitos abstratos, sem experiência direta. O desenho é uma forma de comunicação e o nosso diálogo durante as atividades possibilitou uma grande troca de informações enriquecendo o desenvolvimento cognitivo desse aluno, e favoreceu ao Fabinho a aquisição de novas imagens mentais. Nas nossas intervenções, além das adaptações das propostas de Duarte (2004), trabalhamos com o aluno outros tipos de experiências multissensoriais; auditiva, tátil, olfativa, e gustativa,. No reconhecimento 120 VII Encontro do Grupo de Pesquisa “Educação, Arte e Inclusão” Florianópolis/SC - 03 e 04 de novembro de 2011 Tema: Educação, Cultura e Sociedade tátil, fizemos uso de representações simbólicas de objetos,como foi o caso do cavalo de brinquedo, mas sempre deixando claro ao aluno que era uma imitação, um brinquedo e falando sobre as características reais do objeto. Procuramos buscar novas alternativas e diferentes propostas de conhecer objetos e temas de desenho-história que tinham algum significado para o aluno, tornando-se assim a experiência mais atraente e lúdica como desenhar um cavalo, um narrador de rodeio ou uma cantora de axé, fita cassete, cd, e outros objetos de seu cotidiano, relacionando diversos tamanhos, materiais e texturas, temperaturas, odores, cores e formas. No desenho da figura humana, pudemos através da expressão corporal, e pelo tato, fazer reconhecimento das partes de seu próprio corpo, movimento, tamanho, funções, lateralidade. Verificamos também o interesse do aluno pela partes internas do corpo humano que lhe dão significado como as cordas vocais e a língua. Acreditamos que as dificuldades do aluno, além da falta de visão que não permite que a criança tenha experiências visuais e perceba as formas, também ocorre pela falta de estimulação precoce, pois conforme depoimento da mãe ele nunca havia desenhado antes e quando recebia tarefa para casa, de pintar mapas, ou algum outro desenho, esta atividade era dada sem adaptações e indicações de como fazer. A mãe não sabendo como proceder falava para ele rabiscar o desenho como ele faz hoje. 121 VII Encontro do Grupo de Pesquisa “Educação, Arte e Inclusão” Florianópolis/SC - 03 e 04 de novembro de 2011 Tema: Educação, Cultura e Sociedade Notamos que com o tempo, o aluno mostrou-se mais confiante em relação a sua expressão gráfica dizendo como queria fazer o desenho deixando aflorar a sua capacidade artística, com um detalhe muito interessante que fazia questão de colocar em seus desenhos, a expressão oral, dando vida às suas representações gráficas. Conclusão A proposta sugerida no espaço da APADEVI, objetivou auxiliar o aluno cego congênito no seu desenvolvimento, incluindo-o no universo das artes visuais, levando-o a um enriquecimento de expressão, pensamento artístico e estético através do desenho. Priorizou-se aspectos artísticos e pedagógicos procurando conhecer e desenvolver o desenho do aluno, com atividades o mais próximo possível de uma proposta que possa ser oferecida no ensino regular voltado para sua formação global. Através dos resultados, vimos a alegria do aluno em participar das aulas de arte, compartilhando da convivência com outras pessoas, aprendemos muito e notamos que há muito mais coisa para se aprender, para se aplicar, para se fazer. Percebemos que o cego quer e pode mostrar aos outros o que ele carrega em sua memória, suas imagens mentais e seus sentimentos. Concordando com Duarte (2004a), sentimos a necessidade do uso de “esquemas gráficos” no ensino de desenho para crianças cegas, possibilitando uma melhor compreensão do mundo, facilitando a sua comunicação, pois como já vimos o cego só consegue reconhecer como 122 VII Encontro do Grupo de Pesquisa “Educação, Arte e Inclusão” Florianópolis/SC - 03 e 04 de novembro de 2011 Tema: Educação, Cultura e Sociedade totalidade os objetos que cabem na palma de sua mão. Mas deixando claro que o uso destes modelos seria apenas como uma maneira do aluno “ver” e “conhecer” o objeto em questão e não para fazer cópias. Pelos resultados obtidos através dos desenhos, percebemos que o cego, apesar da falta de visão consegue fazer representações gráficas a partir dos outros sentidos. Concordando com Sacks (1995 apud DUARTE, 2004) nos dizendo que os cegos “[...] constroem seus mundos a partir de seqüências [temporais] de impressões (táteis, auditivas, olfativas) não sendo capazes, como as pessoas com visão, de uma percepção visual simultânea, de conceber uma cena visual instantânea.” Trabalhamos cada desenho parte a parte. Para isso, os educadores devem fazer uso de adaptações de diferentes materiais e metodologias, respeitando as necessidades educacionais observadas em cada aluno e buscando alternativas que permitam o mínimo de interferência do professor na sua produção. No caso dos alunos cegos e com déficit visual, envolver para isso o desenvolvimento dos seus sentidos remanescentes como a audição, paladar, olfato, cinestesia, tato e a fala, muito importantes para aquisição de novas imagens mentais. Pudemos perceber também a importância da família da criança cega em apoiar e participar do seu desenvolvimento e como elas são motivadas a se envolverem como membros ativos desta instituição de apoio às pessoas com déficit visual. Constatamos a relevância do papel da arte na educação especial vindo contribuir para a formação integral do aluno, nos aspectos 123 VII Encontro do Grupo de Pesquisa “Educação, Arte e Inclusão” Florianópolis/SC - 03 e 04 de novembro de 2011 Tema: Educação, Cultura e Sociedade culturais, criativos, perceptivos, cognitivos, na afetividade e conhecimento entre outros, tornando a aprendizagem mais prazerosa e enriquecedora fazendo relações com sua vivência. Percebemos que a arte como “um vetor de inclusão”, pela sua importância e abrangência, deve participar mais ativamente deste processo. Podemos concluir dizendo que, esta metodologia trouxe ao aluno momentos de lazer, de criatividade e de comunicação para uma criança que tem mundos a desvendar, o seu mundo, da cegueira e o mundo dos videntes. Acreditamos que a criança descobriu-se no desenho. Notas (1)Docente do Curso de Graduação e Pós Graduação em Artes Plásticas da Universidade Estadual de Santa Catarina – UDESC (2)Doença recessiva em que há cegueira congênita (pseudotumor retiniano) (3)La experiencia de los ciegos totales deriva, principalmente, de las formas que observan y sienten en sí mismos[...] (LOWENFELD, 1961, p.507) 124 VII Encontro do Grupo de Pesquisa “Educação, Arte e Inclusão” Florianópolis/SC - 03 e 04 de novembro de 2011 Tema: Educação, Cultura e Sociedade REFERÊNCIAS AMIRALIAN, M. L. T. M. Compreendendo o cego: uma visão psicanalítica da cegueira por meio de desenhos-estórias. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997. ARANHA, M. S. F. Saberes e práticas da inclusão. Desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais de alunos cegos e de alunos com baixa visão. Brasília: SEESP/MEC, 2005, p. 16-17. ARNHEIM, R. Intuição e intelecto na arte. Tradução de Jefferson Luiz Camargo. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004. AZEVEDO, F. A. G. de. Multipluralidade e um fragmento da história da Arte/ Educação Especial. In: BARBOSA, A. M. (Org.), Inquietações e mudanças no ensino da arte. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2003. cap.8, p. 95-104. BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: arte. Brasília: MEC/ SEF, 1998. BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Secretaria de Educação Especial. Estratégias e orientações sobre artes. Respondendo com artes as necessidades especiais. Brasília, dez. 2002. Disponível em: <http://www.funarte,gov.br/vsa/ download/estratégias 2.PDF>Acesso em:10 jul. 2006. COBO, A. D.; RODRIGUES, M. G., BUENO, S. T. Desenvolvimento cognitivo e deficiência visual. In: MARTIN, M.B, BUENO, S.T. (Coord.). Deficiência visual: aspectos psicoevolutivos e educativos. São Paulo: Ed. Santos, 2003. cap. VI, p. 97-115. DUARTE, M. L. B.. Esquemas gráficos: o pensamento, a comunicação, o ensino da arte. 2001. Disponível em: <http://ceart.udesc.br/Pesquisa/blind/ texto_potugues_1.htm> Acesso em: 28 set. 2005 ______. Pedras e água – um estudo sobre desenho e cognição. Na travessia das artes. Anais do XI Encontro da ANPAP. São Paulo: FAAP, 2001. Disponível em: <http://ceart.udesc.br/Pesquisa/blind/texto_potugues_2.htm> Acesso em: 28 set. 2005. ______.Sobre o funcionamento cerebral e a importância do desenho para cegos. 2003. Disponível em: <http://ceart.udesc.br/Pesquisa/blind/ texto_potugues_3.htm>Acesso em: 28 set. 2005. ______. Imagens mentais e esquemas gráficos: ensinando desenho a uma criança cega. In: MEDEIROS, M. B. de (Org.). Arte em pesquisa: 125 VII Encontro do Grupo de Pesquisa “Educação, Arte e Inclusão” Florianópolis/SC - 03 e 04 de novembro de 2011 Tema: Educação, Cultura e Sociedade especificidades. Ensino e aprendizagem da arte; linguagens visuais, Brasília, v. 2, p. 2004a. ______. O desenho como elemento de cognição e comunicação ensinando crianças cegas. 2004b. Disponível em: <http://ceart.udesc.br/Pesquisa/blind/ texto_potugues_4.htm> Acesso em: 28 set . 2005 FERRAZ, M. H. C. de T.; FUSARI, M. F.de R. e. Metodologia do ensino de arte. 2.ed. São Paulo: Cortez, 1999. GARDNER, H. Estruturas da mente: a teoria das inteligências múltiplas. Tradução de Sandra Costa. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1994. LOWENFELD, V. Desarrollo de la capacidad creadora. Buenos Aires: Kapelusz, 1961. v. 2. MENA, N. R. Funcionamento Visual. In: MARTIN, M.B, BUENO, S.T. (Coord.). Deficiência visual: aspectos psicoevolutivos e educativos. São Paulo: Santos Editora, 2003. cap. IV. p.67-75. OLIVEIRA, H. K. de. A Importância da arte no processo ensinoaprendizagem dos alunos com necessidades educacionais especiais. 2005. 89 f. Monografia (Especialização em Educação Especial). Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa, 2005. PARANÁ, Secretaria de Estado da Educação. Proposta Preliminar de Educação Artística 2ºGrau. 1988. RIZZI, M. C. de S. Caminhos metodológicos. In: BARBOSA, A. M. (Org.) Inquietações e mudanças no ensino da arte. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2003. cap.5. p.63-70. 126 VII Encontro do Grupo de Pesquisa “Educação, Arte e Inclusão” Florianópolis/SC - 03 e 04 de novembro de 2011 Tema: Educação, Cultura e Sociedade Ana Inez Mottim Justino Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da UEPG.(2011-2012). Especialista em Inclusão Educacional, 2006, UEPG. Licenciada em Artes Visuais, 2006, UEPG. Professora de Artes Visuais, (2006-2009) APADEVI. Atualmente professora de Artes Visuais, (2009) Universidade Aberta da Terceira Idade, UATI, UEPG. Profa Dra. Ana Luiza Ruschel Nunes Professora Programa de Pós Graduação de Educação da UEPG Professora Curso de Artes Visuais UEPG Orientadora Profa Ms. Marinê Fecci Batistão Leite Professora em Educação - UEPG 127 VII Encontro do Grupo de Pesquisa “Educação, Arte e Inclusão” Florianópolis/SC - 03 e 04 de novembro de 2011 Tema: Educação, Cultura e Sociedade