Movimento
ISSN: 0104-754X
[email protected]
Escola de Educação Física
Brasil
Kunz, Elenor
Esporte: uma abordagem com a fenomenologia
Movimento, vol. VI, núm. 12, 2000, pp. I-XIII
Escola de Educação Física
Rio Grande do Sul, Brasil
Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=115318167009
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Elenor Kunz*
Atendendo a um interesse polêmico, quero responINTRODUTÓRIOS
der sim à pergunta acima e tenPara escrever um texto tar, apenas à guisa de reflexão,
nesta prestigiada revista - para este texto e a partir de um
teóriMovimento - na seção, tal- determinado referencial
1
co,
lançar
um
olhar
sobre
alvez, mais importante dela, teguns
aspectos
do
esporte
que
mas polêmicos, e sobre um
assunto que por si só já se considero extremamente releconstitui num objeto de gran- vantes e pouco abordados na
des conflitos e discussões, no literatura da área.
caso, o esporte, precisei muiO referencial teórico a
to tempo para refletir. A intenção inicial era de não es- que me refiro decorre de leicrever sobre assuntos já tão turas do pensamento filosófirepetidos, embora, entre estes, co de origem fenomenológica,
sempre possam emergir novas e as temáticas teóricas aboridéias, como as diferentes for- dadas a partir destas e refletimas de apresentação do espor- das sobre e para uma realidate no contexto social, de ren- de concreta, no caso o espordimento, de lazer, da escola te, são: Percepção, Sensibilietc, ou ainda, sua história ou dade e Intuição.
sua transformação em mercaEstes assuntos não são
doria e os problemas decornovos.
As ciências humanas,
rentes deste fato e assim por
diante. Aspectos polêmicos especialmente a psicologia e
existem, e muitos, em relação a filosofia, já os exploraram
às abordagens sobre o espor- sob muitos ângulos. Também
te na atualidade. Porém seria no campo da Educação Físipossível fazer uma abordagem ca, em especial nos estudos da
teórica, ou pelo menos envol- dança, do lazer e nas teorias
ver o esporte numa aborda- sobre o movimento humano,
gem teórica, em que se ressal- há algumas abordagens.
te tanto a crítica a ele como a
Inicio, portanto, a disintrodução de novos olhares
cussão/abordagem
pretendida,
que possibilitem, também, um
com
um
pequeno
levantamenmelhor desenvolvimento prático deste fenômeno sociocul- to de problemas teóricos que
vejo no campo da prática dos
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ESCLARECIMENTOS
............................
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Esporte: uma abordagem com a
fenomenologia
Especial . Temas Polêmicos
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amília.
Movimento - Ano VI - Nº 12 - 2000/1
esportes. As possíveis soluções
para estes problemas devem,
então, contribuir com um melhor desenvolvimento de atividades práticas do esporte, em
especial, o que se considera
como esporte da escola.
ANÁLISE DE ALGUMAS
PERSPECTIVAS TEMÁTICAS
SOBRE O ESPORTE
O esporte constitui-se
hoje, sem dúvida nenhuma,
num dos mais importantes
objetos de análise, não apenas
das ciências do esporte, mas
de múltiplas abordagens literárias.
O esporte como fenômeno sociocultural complexo
é visto, nestas abordagens,
embora nem sempre explícitos, em três níveis de análises,
conforme as estruturas representativas de seu desenvolvimento. Ou seja, nos níveis da:
1. representação práti
ca, quer dizer, de sua efetiva
realização em diferentes con
textos, formas e participantes;
2. representação da
imagem midiática, isto é, da
formação de significados e
parâmetros de agir no e pelo
I
Movimento - Ano VI - Nº 12 - 2000/1
esporte a partir da imagem
fornecida pela mídia;
3. representação simbólica, com a construção de uma
simbologia da realidade esportiva a partir de conceitos teóricos especialmente desenvolvidos pelas ciências do esporte.
Através destas análises
distingue-se, hoje, dois grandes campos de atuação do esporte. Em primeiríssimo lugar, o esporte do chamado leque olímpico que, mesmo praticado por não atletas, como
prática de lazer ou na escola,
tem seus princípios de desenvolvimento fundados sobre
valores físicos como força,
velocidade, resistência, coordenação e flexibilidade entre
outros. Na efetivação prática
deste esporte, qualquer que
seja a modalidade ou disciplina, estes valores devem ser
avaliados, medidos e calculados para serem expressos em
números que permitem a comparação. Este esporte tem,
como regras básicas, a sobrepujança e a comparação
objetiva2. A partir destas regras derivam-se medidas para
atender a otimização de rendimentos e a maximização de
resultados, como a especialização, na contemplação de
apenas uma modalidade ou
disciplina esportiva; o selecionamento, pela eliminação dos que não conseguem
se ajustar aos princípios e regras e a instrumentalização,
pelos ajustes corporais que
ocorre, especialmente, a partir de condicionamentos específicos e, também, pelo próprio vestuário.
II
Para o desenvolvimento deste esporte, o profissional
da área, notadamente o professor de Educação Física, encontra a sua disposição amplo suporte teórico e tecnológico que
permite tanto avaliações sistemáticas, como desenvolver
avanços e aperfeiçoamentos no
desempenho esportivo.
Refiro-me a este esporte e faço esta pequena análise
acima, apenas para dizer que
Sensibilidade, Percepção e Intuição são partes inerentes em
todas as fases de realização de
movimentos e condutas deste
esporte. Ou seja, elas são decisivas na qualidade da execução
de diferentes movimentos. A
sensibilidade que conhecemos
quando a bola "cola" no pé de
um jogador de futebol. A percepção de tempo e espaço de
um modo diferente, por exemplo, das grandezas físicas e
mensuráveis destas, que se conhece em jogos coletivos. E, a
Intuição como na situação de
"ver" antecipadamente o êxito
ou o fracasso, de um lance no
jogo. São exemplos, entre muitos, em que estes aspectos do
Ser e Agir Humanos se apresentam no esporte. É obvio que
não de forma isolada ou independente, como veremos mais
adiante. Isto só é possível para
efeito de análise teórica e ao
destaque que se pretende dar a
cada um nas diferentes manifestações no esporte.
O que considero problemático para o esporte e em
especial para todo e qualquer
praticante, é que estas manifestações humanas sejam, de
certo modo, "intelectualiza-
das" pelos profissionais, pela
ciência e pelos próprios praticantes do esporte.
Esta "intelectualização"
que acontece, da mesma forma, em outras esferas da vida,
com outras manifestações humanas como interesses, desejos e necessidades, permite
uma melhor dominação, adestramento e exploração da natureza humana. Parece que este
fato é muito melhor vislumbrado no campo esportivo, mas,
sendo assim, acredito que a superação ou pelo menos a busca de alternativas seja, também, mais viável.
De uma forma não conduzida, ou seja, ao natural - se
é que isto ainda pode acontecer - existem inúmeras experiências, denominadas também
de práticas esportivas, como os
esportes radicais que, além de
se desenvolverem em espaços
e tempos menos rígidos e fixados como os anteriores, têm
a emoção, o risco e a aventura como bases para a sua prática. Portanto têm, estes esportes, uma atenção mais acentuada sobre as manifestações
humanas da Sensibilidade, da
Percepção e da Intuição, como
aqui pretendo abordar.
Antes, porém, de seguir nesta análise do esporte
a partir da Sensibilidade, da
Percepção e da Intuição, um
pequeno esboço sobre minha
opção teórica.
A FENOMENOLOGÍA
Não é fácil, num pe-
não conural - se
aconteexperiambém
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espaços
os e fires, têm
aventusua prás esporacentustações
ade, da
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ção, um
e minha
m pe-
Ele sabe de uma ou outra
forma das coisas, porém
determinado por uma perspectiva específica do contexto em que vive e guiado
pelos fins úteis que persegue.
Este conhecimento limitado
pelas circunstâncias e pelos
interesses momentâneos é
"opinião (doxa)". A filosofia,
não como uma teoria, mas
como uma forma de vida,
começa
quando
o
pensamento atenta para suas
limitações,
pelas
circunstâncias, e se abre para
uma investigação imparcial
daquilo que aparece (fenômeno) (Gruel, 1996:15).
Esta idéia de resgate de
uma verdadeira filosofia nas-
ce de Husserl, pelo sentimento de crise da cultura que dominava suas preocupações teóricas. Isto porque, do apogeu
dos pensamentos de Hegel, já
haviam passado mais de quarenta anos, e Marx, Freud e
Nietzsche ainda não haviam
se tornado conhecidos em círculos teóricos maiores. Então,
era a ciência no seu modelo
positivista que preenchia os
espaços pela ausência de um
pensamento filosófico mais
rigoroso. Logo, os primeiros
escritos de Husserl já eram
dominados por uma crítica às
ciências formais que se interessavam unicamente pela
busca de conhecimentos objetivos transformados em leis
pela experimentação comprovada de sua verdade. Sobre a
crítica deste modelo de produção de conhecimentos é que
Husserl se revolta e faz a afirmação que perdura como categoria central da fenomenologia: "temos de voltar às
coisas mesmas", que quer dizer, segundo Merleau-Ponty
(1976: 4), "retornar a este
mundo anterior ao conhecimento do qual o conhecimento sempre fala, e em relação
ao qual toda determinação científica é abstrata, signitiva e
dependente, como a geografia em relação à paisagem primeiramente nós aprendemos o que é uma floresta, um
prado ou um riacho". Merleau-Ponty ainda retoma esta
crítica às ciências, afirmando:
eu não sou o resultado ou o
entrecruzamento de múltiplas causalidades que determinam meu corpo ou meu
"psiquismo ", eu não posso
pensar-me como uma parte
do mundo, como o simples
objeto da biologia, da psicologia e da sociologia, nem
fechar sobre mim o universo
da ciência. Tudo que sei do
mundo, mesmo por ciência,
eu o sei a partir de uma
visão minha ou de uma
experiência do mundo sem a
qual os símbolos da ciência
não poderiam dizer nada.
(3)
A fenomenologia é,
muitas vezes, conhecida como
filosofia das essências, o que
não é bem verdade. Talvez
seria melhor dizer o "estudo
das aparências", uma vez que
o próprio Husserl afirmava
que seria absurdo acreditar na
existência de um fato real e
verdadeiro que se esconda
atrás das aparências. O ser de
cada fenômeno é sua aparência. O problema para a fenomenologia é, no entanto, que
o que aparece, a facticidade do
real, é sempre mais rico do
que dele podemos apreender
pela nossa percepção. Nós
nunca podemos apreender o
todo, pois sempre possuímos
apenas aspectos do todo. Assim, a aparência não esconde
a essência, mas ela a revela:
ela é a essência. Não se pode
entender Homem e Mundo
sem penetrar em sua facticidade que é histórica, social
e subjetiva. É na aparência,
portanto, que começa a investigação fenomenológica, a
qual, mais adiante iremos ver,
se distingue de uma investigação no sentido usado nas
ciências ou mesmo na filosofia tradicional. O problema
central de Husserl, até aqui, é
responder à pergunta: Como
podemos alcançar conhecimentos radicalmente livres de
pré-julgamentos ou "pré-conceitos"? Ou, em outras pala-
III
............................
lização"
ma forda vida,
ões hus, desepermite
o, adesda naque este
lumbrao, mas,
ue a sus a busa, tam-
queno espaço, falar de fenomenología. O que pretendo,
em verdade, é procurar mostrar alguns aspectos da fenomenologia que são menos conhecidos ou que possam mostrar o que a fenomenologia
não é. A fenomenologia, portanto, a que me refiro, tem sua
origem em Edmund Husserl
(1859-1938). Acompanharam
e fizeram evoluir, em muitos
aspectos pelo menos, as idéias de Husserl o filósofo Alemão Martin Heidegger e o filósofo francês Mauricie Merleau-Ponty. Husserl inaugurou o que ficou conhecido
como "movimento fenomenológico", com sua primeira
obra, "As Investigações Lógicas" (1900/01). Tratava-se de
resgatar o significado original
e puro da filosofia que, desde
a filosofia grega, discutia a
dicotomia entre opinião (doxa) e verdade (episteme). O
ser humano possui conhecimentos que são anteriores à
tomada de consciência filosófica de mundo.
Especial . Temas Polêmicos
is, pela
os prati-
Movimento - Ano VI - Nº 12 - 2000/1
Movimento - Ano VI - Nº 12 - 2000/1
vras, como chego "às coisas
mesmas"? Esta é a questão
que a fenomenología se coloca. Trata-se de chegar ao conhecimento do conhecimento.
Isto significa retornar ao que
é verdadeiramente vivido, o
que se apresenta a nós em nossa consciência. Mas não são
os fatos, objetos ou as idéias
que estão na consciência
como sua residência oficial.
Se assim fosse, a fenomenología cairia num psicologismo que Husserl condenava. Husserl, para resolver esta
questão, criou a categoria da
intencionalidade, fundamental no entendimento da fenomenología, para esclarecer
que "consciência é sempre
consciência de alguma coisa"
ou, como menciona Dartigues
(1973), consciência só é consciência, "estando dirigida para
um objeto (sentido de intentio). Por sua vez, o objeto só
pode ser definido em sua relação com a consciência, ele
é sempre objeto-para-um-sujeito" (24). Assim, para a
pergunta fundamental da fenomenología, "o que é, o que
é?", e, a partir desta, chegar à
essência, relacionando-a à
questão da consciência, podese perguntar: " o que se quer
dizer?" Significa dizer, mais
uma vez, conforme Dartigues
(1973), que as "essências não
tem existência alguma fora do
ato de consciência que as visa
e do modo sob o qual ela os
apreende na intuição" (25).
Até aqui se pôde perceber que
a consciência a que se refere
a fenomenología, diferentemente do que em outras teorias, é uma consciência que,
em síntese, nada é se não for
IV
em relação ao mundo. O dado
da consciência é sempre a
intencionalidade. A intencionalidade também deve então ser entendida, diferentemente como comumentemente é, como atenção sobre
algo, mas como meio, como
vinculação entre consciência
e mundo, não pertencendo
nem ao sujeito nem ao objeto.
em elucidar a essência desta
relação que é, na verdade, correlação. Esta não se estende a
um ou outro objeto, mas ao
mundo inteiro. Esta correlação
depende, então, de uma intuição originária das vivências e
experiências da consciência. A
partir disto, os dados da consciência, os quais interessam à
fenomenologia, só podem ser
descritos. O objetivo da fenoQuando um objeto do menologia é "chegar às coisas
conhecimento se me apresen- mesmas" pela descrição não
ta de modo original, o que pela análise nem pelo esclarequer dizer, se me coloco aber- cimento. Portanto, não são os
to ao mesmo, então posso, objetos dos quais a ciência se
pela forma como se apresenta ocupa que preocupa a feno( a forma como os dados do menologia, mas os objetos do
objeto se apresentam a minha conhecimento anterior a qualconsciência), alcançar a for- quer formulação científica,
ma original do objeto. Husserl cultural ou tradicional. A
utiliza o conceito de original fenomenologia interessa-se,
para se referir a um vínculo assim, pelo mundo das expeprofundo com o âmbito da riências, que é um mundo deminha experiência, vivência e senvolvido pelas minhas permodo de pensar na constitui- cepções e que se apresenta
ção do objeto de conhecimen- como um horizonte de possito na consciência. É nesta si- bilidades. Para este mundo,
tuação das "aparências origi- conforme Müller /Trebels
nais" que tomo relação com (1996), os conhecimentos da
os objetos. Estes aparecem a ciência são abstratos, sigmim como algo a ser experi- nitivos e secundários. Eles são
mentado, vivenciado ou co- secundários porque ficam connhecido no palco do mundo. dicionados ao meu mundo das
Assim, já para Husserl, e re- experiências como dados pritomado com mais intensida- meiros ou anteriores. Assim,
de em Merleau-Ponty, esta concluem
Müller/Trebels
"aparência original" é sempre (1996), "um naturalismo ciencorporal.
tificista como uma filosofia da
consciência, de concepção críNas afirmações "cons- tica, tem suas limitações na
ciência é sempre consciência busca de conhecimentos. A
de alguma coisa" e "objeto é fenomenologia ocupa-se, funsempre objeto para uma cons- damentalmente, com um terciência", se estabelece uma re- ceiro plano, ou seja, não o plalação interminável, pois se não no da existência como coisa e
houvesse uma não haveria ou- nem mesmo o da existência
tra. Logo, o campo de análise como consciência. Trata-se de
da fenomenologia se debruça trazer à luz aquele conheci-
A fenomenologia, assim, não é um método, não é
uma investigação sistemática
e ordenada dos objetos do
mundo objetivo, social ou cultural, mas é uma forma de
"ver" a realidade de Ser-Mundo ou, como diz Valentini
(1984), ela é
uma atitude que se define aos
poucos em sua realização e
que devemos sempre redefinir. Ela não se liga a nenhuma teoria acabada (...) A
idéia é algo que no fim não
carece de motivações porque
motiva-se a si mesma. A idéia
é como uma luz. A luz clareia
por si mesma, motiva-se por
si mesma. (35)
Desta forma, pretende
a fenomenologia abranger e
compreender o mundo em seu
"status nascendi". Situa-se
ela, então, no início de toda a
reflexão ou, como M.Ponty,
no ponto onde "a vida individual principia a refletir sobre
si mesma".
preciso aprender a unir
conceito que estamos habituados a opor: a fenomenologia é uma filosofia da
intuição criadora. A visão
intelectual cria realmente
seu objeto, não o simulacro,
a cópia, a imagem do objeto,
mas o próprio objeto. É a
evidência, essa forma acabada da intencionalidade,
que é constituidora. " (Berger, G., 1941)" (30)
............................
mento de mundo anterior a
qualquer reflexão". (122). Isto
não significa que se vá abandonar as certezas do senso comum ou da atitude natural,
conforme M.Ponty, mas porque, como pressupostos de
todo pensamento, "elas são
evidentes, passam despercebidas e porque, para despertá-las
e fazê-las aparecer, precisamos
abster-nos delas por um instante. Para isto Husserl desenvolveu e M. Ponty continuou a
usar e aprimorar o que foi e é
muito questionado na fenomenología: a redução fenomenológica. A melhor definição
para a redução, conforme o
próprio M. Ponty, foi usada por
Eugen Fink, qual seja, a de
"admiração" frente ao mundo.
E diz M. Ponty: "A reflexão
não se retira do mundo em direção à unidade da consciência enquanto fundamento do
mundo; ela toma distância para
ver brotar as transcendências,
ela distende os fios intencionais que nos ligam ao mundo
para fazê-los aparecer, ela só é
consciência do mundo porque
o revela como estranho e paradoxal." (10).
Especial . Temas Polêmicos
a desta
de, cortende a
mas ao
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a intuiências e
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Movimento - Ano VI - Nº 12 - 2000/1
Portanto, o que se constitui na consciência é o pré-reflexivo, que não pode ser analisado nem interpretado, soA fenomenologia é um mente descrito. É a descrição
campo aberto de investigação. do nosso ser-no-mundo vivo.
Ela nos ensina como redes- E por trás disto encontra-se,
cobrir as coisas encobertas então, um horizonte fantástico
pela teorização excessiva e em que outras áreas do conheabstrata. O que penso ser pos- cimento, por intermédio de sua
sível a partir de algumas ma- metodologia fechada e esclanifestações no esporte.
recimentos causais, jamais
conseguirão esclarecer. Por
Para concluir esta pe- isto, em especial a partir de M.
quena introdução ao pensa- Ponty, diz-se que, no centro da
mento fenomenológico, apre- fenomenologia, encontra-se,
sentarei ainda algumas con- na verdade, a Percepção, a qual
siderações sobre temas que pretendo esclarecer melhor a
envolvem categorias centrais seguir.
e interessam para o que pretendo mostrar com a percepÉ imprescindível falar
ção, a sensibilidade e a intui- ainda, para terminar, algo
ção, a seguir.
mais sobre a redução fenomenológica. Para descobrir o
A fenomenologia inte- ser fundamental, a essência de
ressa-se pelos dados imedia- fenômenos como Percepção,
tos da consciência, ou melhor, Sensibilidade e Intuição entre
da constituição de mundo na outros, utiliza-se a fenomeconsciência, onde, conforme nologia, da, assim denominaDartigues (1973),
da, redução fenomenológica
ou eidética. Para realizar a reConstituir não quer dizer dução, por um ato de esforço
criar, no sentido em que mental, deve-se "colocar enDeus criou o mundo, mas
remontar pela intuição até a tre parênteses" (Einklamorigem na consciência do merung) a atitude natural de
sentido de tudo que é, ori- mundo, ou seja, os conhecigem absoluta já que nenhuma outra origem que tenha mentos da ciência, da cultura
um sentido pode anteceder a ou da tradição. Por isto esta
origem do sentido: "E
redução através do "pôr entre
V
Movimento - Ano VI - Nº 12 - 2000/1
parênteses" se expressa sobre
duas dimensões: a existencial
e a histórica. Esta redução,
para chegar "às coisas mesmas", pode, assim, ser interpretada como uma limitação
e uma libertação, ao mesmo
tempo, das amarras de um
pensamento objetivista. Em
"Meditações Cartesianas",
segundo Thiele (1990), Husserl asseverava: "temos de,
inicialmente, pela redução,
perder o mundo para retomálo pelo sentido da auto-reflexão universal". Por isto, já se
pode perceber que o sentido
da redução fenomenológica
não tem nada a ver com uma
"metodologia de investigação
científica", como muitas vezes é interpretada.
PERCEPÇÃO, SENSIBILIDADE
E INTUIÇÃO NO ESPORTE
o mundo fenomenológico é
não o ser puro, mas o sentido
que transparece na interseção
de minhas experiências, e na
interseção de minhas experiências com aquelas do
outro, pela engrenagem de
uma nas outras; ele é, portanto, inseparável da subjetividade e da inter subjetividade
que formam sua unidade pela
retomada de minhas experiências passadas em minhas
experiências presentes, experiência do outro na minha. (18)
Já foi mencionado que,
especialmente para MerleauPonty, a Percepção Humana
constitui-se o centro da fenomenologia. Este autor dedicou
uma obra imensa sobre este
tema: a "fenomenologia da
percepção". A percepção é
um tema extremamente abrangente e, também, campo de
investigação de muitas áreas
do conhecimento. Em especial, foi a psicologia que mais
se ocupou com a percepção
humana e foi responsável,
também, pela entrada deste
tema para o esporte, apesar
dos raros estudos existentes.
Na psicologia, o primeiro cientista a se interessar e estudar intensamente o assunto,
foi o alemão Wilhelm Wundt
que, em 1879, fundou o primeiro laboratório experimental em psicologia, onde estudou e realizou inúmeras experiências com a percepção humana (verTiedemann/Simões
1985).
A fenomenologia nos
ensina uma nova maneira de
"ver o mundo" e, conforme
Portanto, para a psicologia, embora existam algumas diferenças fundamentais
A redução é um ato
sempre interminável, inesgotável, porque se refere a
facticidade do mundo, não o
mundo que eu penso, mas o
mundo que eu vivo: "eu estou aberto ao mundo, comunico-me indubitavelmente
com ele, mas não o possuo, ele
é inesgotável". Assim,
VI
pretendi desde o início, tentarei, a seguir, "ver" algumas
expressões e manifestações
simples, mas significativas
que ocorrem na vida comum
de todo mundo, porém no esporte ganha importância muito grande, tanto para o prazer
de praticar como para melhorias na qualidade dos movimentos e, com isto, no próprio rendimento.
entre as múltiplas concepções,
como no caso dos pesquisadores da Gesltaltkreistheorie
(Teoria da Forma), que já vêm
discutindo há tempos o tema
da percepção numa ótica muito semelhante à fenomenologia, ela permanece como
uma função fisiológica e apenas atributo dos cinco sentidos físicos. Ela é analisada
como uma porta de entrada
para estímulos externos que
provocam reações internas e,
uma vez processadas neste
interior, ocorre uma resposta
pelo sujeito da percepção.
As teorias da chamada
antropologia médica e da
"Gestaltkreismodel" (teorias
da forma), das quais um dos
seus maiores representantes é
Viktor von Weizsácker (1968),
fazem severas críticas às fundamentações sensualistas encontradas em muitas teorias
psicológicas sobre a percepção humana. Esta idéia sensualista podemos encontrar
também em algumas teorias
do esporte inspiradas em modelos teóricos da psicologia.
Nestas, a percepção relacionase com o movimento num vínculo causal, separando o sensorial (órgãos analisadores)
do motor (centros efetores do
movimento).
Neste curto espaço, não
vou me ocupar tanto na abordagem fenomenológica da
percepção humana, uma vez
que já elaborei estudo mais
extenso sobre este tema e, espero, em breve estará publicado e à disposição dos interessados. Nessa abordagem,
defendo a tese da simultanei-
aço, não
na aborica da
ma vez
do mais
ma e, esá publios intedagem,
ultanei-
Antes de tratar o tema
no esporte, abordarei, algumas
considerações, de qualquer
modo, da fenomenologia sobre
a percepção. Em MerleauPonty pode-se entender que a
percepção, muito além de uma
função orgânica e funcional,
constitui o nosso ser-no-mundo. Nossa percepção, enquanto ainda não constituída como
objeto de conhecimento e sendo apenas uma intenção do
nosso ser total, deve ser considerada como uma "modalidade de uma visão pré-objetiva
que é aquilo que chamamos de
ser no mundo"(119).
Interessante, ainda na
fenomenologia é que, para a
compreensão da percepção e
diferentemente da psicologia,
passa a ser importante não o
instrumento material que canaliza os estímulos da percepção, mas a maneira pela qual
os estímulos se organizam espontaneamente entre si, "e
essa organização é fator decisivo no plano das 'qualidades'
sensíveis, assim como na qualidade da percepção." (113)
Merleau-Ponty (1976) ainda
cita um interessante exemplo:
Se por diversas vezes se excita, com um cabelo, uma
dada região da pele, têm-se
primeiramente
sensações
pontuais, claramente distinguidas e a cada vez localizadas no mesmo ponto. A
medida que a excitação se
repete, a localização se torna menos precisa, a percepção se desdobra no espaço,
ao mesmo tempo em que a
sensação deixa de ser específica: não é mais um contato, é uma queimadura, ora
pelo frio, ora pelo calor.
Mais tarde ainda, o paciente
acredita que o excitante se
move e traça um círculo em
sua pele. Finalmente, nada
mais é sentido. Isto significa
que a "qualidade sensível",
as determinações espaciais
do percebido e até mesmo a
presença ou a ausência de
uma percepção não são
efeitos da situação de fato
fora do organismo, mas
representam a maneira pela
qual ele vai ao encontro dos
estímulos e pela qual se
refere a eles. (113-14)
Acredito que este exemplo de Merleau-Ponty é
significativo para o fenômeno da percepção no campo esportivo. Quer dizer, também,
que um sujeito reage, na verdade, muito mais ao significado que tem para ele um estímulo e à maneira como é
feita a abordagem sobre o
contexto externo (objetos), do
que o estímulo pode representar em geral na sua manifestação externa. Para o esporte
isto pode significar que minha
percepção é determinada pelos movimentos que realizo e
os movimentos realizados
são, ao mesmo tempo, determinados pela percepção. E os
órgãos dos sentidos são apenas canais de comunicação
entre ambos. Assim, as atitudes que tomo, como resposta
a minha forma de abordagem
e os significados daí derivados, são sempre de caráter
pessoal-situacional. Trebels
(1993), em apoio a Christian,
confirma que o critério para
uma constituição do movimento, no sentido pessoalsituacional, é a percepção individual de "acerto" na exe-
cução do movimento, ou seja,
de sentir o movimento sendo
corretamente realizado. Isto
se concretiza por uma "consciência de valor no fazer". No
esporte, eu consigo um maior
número de êxitos quando chutar uma bola ao gol ou arremessar à cesta, não quando eu
seguir apenas corretamente as
indicações técnicas externas
na efetivação do movimento
padrão, mas quando eu começar a sentir que o movimento
foi corretamente realizado. É
a sensação do "acertei!".
Quer dizer, vou tomando
consciência de um valor para
mim nas diferentes formas de
realização da atividade. Será
que os excessivos comandos
externos, na assim chamada
"correta" execução de um
movimento no esporte, não
elimina esta consciência de
valor? Não dessensibiliza,
como veremos mais adiante,
o praticante para as qualidades do perceber e se movimentar?
Existem muitos temas
relacionados à percepção e
merecem ser discutidos no
esporte. Mas não gostaria de
deixar passar a oportunidade
de incluir mais um tema nesta
discussão, por achar que pode
ser, no momento, o mais importante. Trata-se da questão
da percepção do espaço e tempo no esporte.
No esporte, o espaço
percebido não tem o significado de um espaço geométrico tridimensional. O que se
percebe espacialmente é determinado pelo tipo de ação
envolvida. Assim, o espaço
VII
............................
hamada
e da
(teorias
um dos
tantes é
(1968),
às funstas enteorias
percepéia senncontrar
teorias
em mocologia.
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Especial . Temas Polêmicos
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Movimento - Ano VI - Nº 12 - 2000/1
Movimento - Ano VI - Nº 12 - 2000/1
que se constitui para alguém
num campo de jogo de futebol, não é o campo retangular
com suas divisões internas,
mas ele se constitui num espaço para "um passe de bola",
para "um chute a gol" etc.
Trebels (1993) afirma que tais
percepções de espaço, na verdade, irão estruturar o espaço
de ação de quem joga, no
caso, e que elas estão sempre
na dependência de experiências prévias e do conhecimento que o praticante tem do esporte. Para o futebol, ainda,
Leist (1982) nos oferece outro interessante exemplo sobre
o espaço percebido: "o futebolista não percebe o campo
de jogo como um objeto no
sistema do espaço absoluto
neuwtoniano, ou ainda, no das
mensurações métricas Euclidianas. Este é o espaço que
o funcionário do clube percorre quando pinta as linhas do
campo. O campo é, para quem
joga, muito mais atual (mais
presente) do que, em suma,
podem ser suas intenções práticas (...) E nesta percepção
direta estão 'ele (o jogador) e
o campo', inseparavelmente
unidos, de tal forma que ele,
por exemplo, pode perceber
direta e simultaneamente a
'direção ao gol' e a 'horizontalidade de seu próprio corpo'.
Quer dizer ele pode intuir isto!
O que se poderia definir, na
forma física, como distância
entre dois jogadores, é percebido, na dinâmica do campo
de jogo, como uma 'brecha na
cobertura'. O espaço fenomenal é um espaço funcional e
não um espaço geométrico,
muito menos no sentido euclidiano" (85).
VIII
Buytendijk, conforme
Trebels (1993), fala, por isto,
num espaço vital como também do tempo vital, quando
se tratam das ações do movimento no esporte.
Com o fator tempo ocorre praticamente o mesmo
que com o espaço. No caso do
esporte, existem muitas instâncias em que o tempo, como
o conhecemos pelas medidas
do relógio ou do cronômetro,
não significa nada. É conhecida no esporte a palavra
"Timing", o que quer dizer,
perceber o 'tempo' certo de
controlar uma bola, efetuar
um passe, arremessar uma
bola à cesta etc. Como saber
qual é o melhor momento
(tempo) para penetrar na área
adversária, para receber o passe e concluir a gol? Vale aí o
tempo vital, ou seja, de como
em diferentes situações, com
diferentes objetos (incluindo,
também, pessoas) e sempre
na perspectiva de uma intenção objetivada no tempo e no
espaço, tem o significado de
uma ação, de um "para algo"
e deve se considerar, ainda,
que esta realização se dá a
partir de uma base individual
com relação a um saber consciente, do "eu posso".
passe, um chute, um arremesso etc? Isto depende desta capacidade de antecipar-se aos
acontecimentos e ao próprio
tempo. Com isto, abre-se um
horizonte de possibilidades
para um agir no esporte. E estas possibilidades desenvolvem-se, também, pela sensibilidade dos atores no esporte em
relação às possibilidades perceptíveis do campo de ação.
O fenômeno da sensibilidade no esporte, geralmente, também é tratado apenas sob o ponto de vista psicológico, ou seja, no sentido
das emoções que envolvem
atletas ou jogadores no campo do esporte. Sensibilidade
no contexto das emoções é
analisada, então, a partir de
temáticas como as da ansiedade, da insegurança, do poder ou das expectativas e alegrias decorrentes do envolvimento no esporte. Para isto,
a psicologia provavelmente
trouxe importantes contribuições. Mas como, por exemplo, explicar e entender a diferença de sensibilidade que
alguns jogadores têm com relação a algumas ações no
campo do esporte: a bola que
"gruda" no pé de um jogador
de futebol ou na mão de um
jogador de basquete e de
Enfim, vale também handebol. Assim é a sensibiafirmar, com relação ao tem- lidade que atletas e jogadores
po no esporte, que o fator fun- precisam ter quanto ao ritmo,
damental não é a medida, sua precisão, elasticidade, fluenmensuração a partir do relógio, cia, harmonia, enfim, em remas o futuro, ou seja, o relaci- lação a um estilo próprio, que
onamento com o tempo na define a "qualidade dos moperspectiva do antecipar-se. vimentos" realizados no camQuanto tempo eu gasto na re- po de jogo. Na linguagem esalização de uma jogada ou na pecialmente futebolística, isto
se chama a "categoria" inditomada de posição para um
As ciências do esporte
não tratam desta questão.
Apenas a consideram um
"produto colateral" do treino
ou da capacidade inata, do talento esportivo dos atletas.
Pelo desenvolvimento
da sensibilidade para nas ações
envolvidas no esporte, pode-se
aperfeiçoar o sentimento de
unidade que os praticantes podem ter com relação aos materiais e o campo, o mundo do
movimento no esporte. Isto
permite uma maior confiabilidade nas ações a serem
executadas e um maior controle emocional de seu envolvimento em ações que requerem precisão e técnica mais refinadas, o que, em última análise, implica um maior conhecimento sobre si mesmo.
Todas estas questões
até aqui tratadas estão, de certo modo, presentes nos estudos que pertencem ao campo
da Educação Física e dos Esportes. Porém sempre de uma
forma excessivamente racionalizada, ou melhor dizendo,
quando se procura medidas
interventoras para agir sobre
estas - que chamo aqui de manifestações humanas - elas
buscam a sua racionalização
objetiva. Isto não implica que
devam ser tratadas de um
modo irracional. Precisamos
ainda de muitos gastos de
energia racional para entendêlas, mas, no modo prático de
sua realização - na efetivação
prática -, é provável que sua
racionalização (agir com relação a fins preestabelecidos)
impeça que estas manifestações se expressem numa qualidade melhor e possam, por
isto, também, ser melhor apreendidas pela consciência. Para
os efeitos práticos desta apreensão consciente, é preciso
entender algo mais sobre o conhecimento intuitivo e suas
manifestações no campo do
esporte.
quer contato racional com o
objeto. Aquilo que sei o que é
antes mesmo de pensar sobre
algo. É um conhecimento
imanente que tem presença
direta ou espontânea em nós
e do qual não temos dúvida.
É, também, um conhecimento a priori, sob o qual se desenvolve nossa percepção de
mundo. Sei que o verde é verde e diferente do vermelho
sem intelectualizar isto, quer
dizer, sem pensar. Assim,
muitas coisas do mundo objetivo, incluindo como Kant
queria, inclusive o Tempo e
Espaço, se nos oferecem
como conhecimento intuitivo.
Se conhecer significa a apreensão pelo espírito (consciência/intelecto) de um objeto,
este ato não pode ser algo
muito simples.
............................
sensigeraldo apeta psisentido
volvem
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ritmo,
fluenem reio, que
os moo camem esca, isto
indi-
vidual de um jogador. Esta
qualidade me parece de extrema importância para ser estudada e entendida mais uma
vez, não apenas para atletas,
mas especialmente para o ensino e a aprendizagem do esporte na escola. Considero a
vivência de sucesso, do êxito
na realização de uma atividade no esporte, de máxima importância para qualquer participante. E isto depende muito da "qualidade do movimento" que se realiza. O que não
significa, apenas, eficiência
técnica no sentido como estas
são treinadas, como as destrezas técnicas que envolvem
força, velocidade, flexibilidade, resistência etc. Estas, sem
dúvida, podem também se tornar importantes, mas o desenvolvimento de uma maior sensibilidade para com os fatores
acima descritos, tenho a certeza que, não apenas o rendimento pode ser favorecido
como, principalmente a vivência do êxito, do sentimento de realização bem sucedida nas atividades do esporte.
Especial . Temas Polêmicos
remesesta ca-se aos
próprio
-se um
idades
e. E esenvolsensibiorte em
es peração.
Movimento - Ano VI - Nº 12 - 2000/1
É provável que pela razão como a utilizamos hoje,
não seja possível conhecer o
conhecimento. Uma das formas de conhecer é, portanto,
sem dúvida, alcançada pelo
nosso discurso interno, pelas
operações mentais. Chamo-o,
para este momento, de conhecimento ou pensamento discursivo. É um conhecimento
mediato, ou seja, mediado
pelas nossas operações racionais. Como base para que este
conhecimento possa ser possível, no entanto, existe um
outro que chamo de conhecimento ou pensamento intuitiA intuição é, também, vo. Neste conhecimento o obum tema sobre o qual muitas jeto é, como num ato de viáreas do conhecimento já de- são, diretamente, ou melhor,
dicaram inúmeros estudos. imediatamente apreendido. Se
Em princípio, podemos dizer este conhecimento é base para
que é aquele conhecimento o conhecimento racional, enque possuímos antes de qual- tão, é de natureza corporal-
IX
Movimento - Ano VI - Nº 12 - 2000/1
sensível e não mágico. Digo
isto, porque, a princípio, costuma-se entender e aplicar o
conceito de intuição apenas a
esta dimensão mágica. Significa um conhecimento que se
apresenta espontaneamente na
consciência e antecipa um
acontecimento, ou seja, um
saber anterior à própria ocorrência de algo. Isto de fato
existe e é, também, de grande importância para o esporte. Por isto podemos falar de
uma intuição formal-sensível,
de base para o intelecto, e uma
intuição supra-sensível, de
registros na consciência de
dados imediatos que podem
ou não ser confirmados a
posteriori. Para discutir bem
a primeira, precisar-se-ia de
uma retomada teórica das teorias do conhecimento. Isto
implicaria numa discussão
muito longa para este texto.
Como me interesso muito
também pelo segundo caso, o
da intuição supra-sensível e
que vejo acontecer a todo o
instante no esporte, passo a
me ocupar um pouco deste
tipo de intuição.
Duvido que alguém
acostumado com alguma prática esportiva não tenha ainda
percebido, como uma sensação de certeza antecipada, ou
seja, a do exato momento em
que uma bola deixa as suas
mãos ao ser arremessada a
uma cesta, ou deixa seu pé no
chute a gol, que aquela "bola
vai entrar". Em quantos momentos outros, no esporte, não
temos esta certeza antecipada
de um acontecimento? Nem
sempre positivos, é óbvio.
Tenho uma convicção de que
X
isto se evidencia mais no esporte que em outras situações
da vida, embora haja racionalização pelo treino e a intelectualização pela sistemática
de repetição de tudo que ocorre ou possa ocorrer no esporte. Sim, porque o fenômeno
da intuição se desenvolve no
corpo, na corporeidade
(Leib)3 e não no intelecto e de
forma abstrata. Ele deve ser
entendido como algo natural
no homem.
Somos seres que agem,
pensam e sentem e, embora
não se deva fragmentar estas
dimensões humanas, no sentido de que elas possam existir independentemente, é certo que estas dimensões se concentram mais em uma ou outra, dependendo do envolvimento do homem no seu "serestar no mundo". Portanto,
somos seres de ação, quando
estamos numa intervenção
concreta de uma atividade esportiva; somos seres de reflexão, quando pensamos sobre
um determinado problema e
somos seres de emoção, quando sentimos intensa alegria ou
tristeza por algum acontecimento. A intuição se faz presente nestas três dimensões
humanas e por isto pode-se
falar, também, das intuições
racional, emocional e volitiva.
Para Hessen (1999), o mesmo
pode ser dito quando partimos
da estrutura do objeto. "Todo
objeto possui três aspectos ou
elementos: o ser-assim (essentia), o ser-aí (existentia) e
o ter valor. Correspondentemente, podemos falar numa
intuição do ser-assim, do seraí e do valor. A primeira co-
incide com a intuição racional, a segunda com a volitiva,
a terceira com a emocional"
(99).
Por isto, o intelecto, o
racional, não é a única capacidade para a apreensão de
mundo. Para a fenomenología, ele é incapaz de penetrar na essência das coisas.
Para ela, ainda, o intelecto
apreende, quando muito, o
ser-aí, a existência das coisas.
Porém, "ir às coisas mesmas"
é ir as suas essências, ao seu
ser-assim, colocando o ser-aí,
"entre parênteses". O ser-assim só pode ser apreendido
pela intuição, a intuição das
essências. Conhecer o mundo
desta forma não é buscar o que
ele é em idéia, uma vez que o
tenhamos reduzido a tema de
discurso, diz Merleau-Ponty,
mas é buscar aquilo que ele é
de fato para nós antes de qualquer tematização. E, repetindo: "o mundo não é aquilo que
penso, mas aquilo que vivo".
Mais uma vez isto tudo
não significa um abandono da
razão, talvez quando muito, o
que se pretende é não dar sempre a ela a última palavra. Vivemos hoje num mundo da
servidão intelectual e falamos
intelectualizadamente sobre a
retomada do "ser total". Talvez
nós tivéssemos que "ver e viver" melhor os acontecimentos esportivos, em especial,
aqueles que ainda não foram
intelectualizados e permitem
que ações, emoções e pensamentos se expressem intuitivamente (em crianças, por exemplo). E que esta expressão alcance nossa consciência para
sto tudo
dono da
muito, o
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pensantuitivar exemssão alia para
CONCLUSÕES, OU ENTÃO, O
QUE ISTO TUDO TEM MESMO A
VER COM O ESPORTE
Concluindo esta reflexão, farei ainda algumas considerações sobre alguns pontos em que o paradigma racional-quantitativo do esporte,
pode em vez de auxiliar na
busca de melhores resultados
ou de uma qualidade de realização esportiva e de vida melhor, impedir esta busca. Além
de exemplificar algumas situações concretas do acima exposto e com isto, se não for
possível jogar mais luz sobre
o esporte pela fenomenologia,
talvez, conseguir jogar mais
luz sobre a fenomenologia
pelo esporte.
1) A prática esportiva
é sempre aconselhada para
manter ou melhorar a saúde,
a vitalidade, a capacidade de
rendimento, a alegria de viver,
assim por diante. Porém, a
busca desta prática, mesmo
que seja através de 15 minutos de caminhada diária com
o objetivo único de sentir resultados efetivos sobre estes
fatores, pode incorrer num
auto-engano. As pessoas que
realizam exercícios físicos, no
caso, atividades esportivas, na
busca única de resultados sobre seu corpo, são pessoas
que, por conta própria ou por
indicação de alguém - geralmente médicos -, racionalizaram esta necessidade. Racionalidade do tipo: ou eu me
exercito ou morro mais cedo.
Ou, ainda, pratico esportes ou
não serei admirado. E assim
por diante. Muitas destas pessoas, para os não profissionais
do esporte, "precisam" ou são
mandadas fazer estas atividades durante ou no final de uma
agenda cheia de outras obrigações do cotidiano. Para resumir: o mundo moderno, é o
mundo do stress, e o stress é
decorrente da pressão ao rendimento e do acumulo de obrigações para atender as exigências de um sistema de concorrência e produtividade material. Uma atividade a mais
nestas obrigações, quando não
for por absolutos apelos inconseqüentes e de prazer,
pode acarretar mais stress.
Por isto, imprescindível, para
quem pratica movimentos,
esportes e jogos4, é o abandono da idéia de efeitos sobre
seu corpo substancial5 e passar a entendê-los, em primeiro lugar, como a satisfação de
uma necessidade vital, depois
como meio de auto-conhecimento e de atividades de prazer. Movimentar-se é uma inerente necessidade do ser humano. Pela excessiva racionalização dos efeitos sobre o
rendimento, a estética e a saúde, perdemos a percepção desta necessidade e passamos a
imitar movimentos, gestos e
atitudes padronizadas e consideradas, por especialistas,
como as que atuam de forma
melhor sobre os objetivos pretendidos e, também, racionalizados por outros. Forma-se,
como na fenomenologia, uma
ambigüidade do saber sobre o
corpo. Somos corpo, mas nos
comportamos como se nosso
corpo fosse formado por duas
camadas, a do corpo habitual
e a do corpo atual. Pela excessiva racionalização e imitação de ações no esporte
constitui-se o corpo habitual,
no qual desaparecem as possibilidades espontâneas e intuitivas de um corpo atual,
constituído pela vivência e
experiência de ações não apenas padronizadas e para serem
copiadas.
............................
lecto, o
a capansão de
omenoe penecoisas.
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-Ponty,
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de qualrepetinuilo que
vivo".
ser apreendida, do contrário
nada serviria. Portanto, tomar
consciência das intuições racional, volitiva e emocional é
uma prática fenomenológica, é
um processo de auto-conhecimento e é, como na redução
fenomenológica, um processo
interminável, pois nos leva ao
conhecimento da humanidade,
ou ao conhecimento da relação
originária e primordial de Homem-Mundo.
Especial . Temas Polêmicos
o raciovolitiva,
cional"
Movimento - Ano VI - Nº 12 - 2000/1
2) Nossas capacidades
sensíveis, que se utilizam dos
nossos cinco sentidos físicos,
foram bastante bloqueadas
pela exagerada concentração
em atividades racionalizadas
para o acompanhamento da
evolução cultural do mundo.
Nossa visão se concentra melhor sobre estímulos visuais
que se repetem e que, muitas
vezes, são alterados artificialmente para provocar este movimento de concentração visual. Fator que a televisão, em
especial, mais trabalha atualmente. E isto acontece também com nossos outros sentidos. Exageradamente poderíamos dizer que nossa visão,
audição, nosso paladar, tato e
olfato estão abertos para o
mundo, mas sentem e passam
à consciência apenas o que
são constante e insistentemente instigados a sentir. Os mo-
XI
Movimento - Ano VI - Nº 12 - 2000/1
vimentos, esportes e jogos
podem ter um papel fundamental para restituir aos nosso cinco sentidos suas capacidades inatas. Basta, pensoeu, prestar mais atenção no
que ocorre com eles quando
atuamos no esporte. Dialogar
consigo mesmo sobre suas
qualidades perceptivas e perceptíveis e, à medida que o
auto-conhecimento melhora
sobre estas qualidades, também dialogar com outros sobre este tema. Numa aula de
Educação Física, isto deveria
ser assunto constante de ensino. Assim, se inicia um trabalho de abrir as portas da percepção para o mundo e para
nós mesmos. E isto pode, de
fato, melhorar a SENSIBILIDADE com o trato dos objetos, das pessoas e conosco
mesmos, quando estamos no
esporte, ou a PERCEPÇÃO
do movimentar-se no tempo e
no espaço com vista a uma
melhor qualidade nos movimentos desenvolvidos, ou ainda, a INTUIÇÃO de sentir
com antecipação o resultado
final de uma ação no esporte
além da nossa presença corporal na atividade.
3) Na realização disto,
passamos a entender, também,
fenomenología. Pois ela, apesar de sua objetivação formal
ser bastante racionalista, intenta a busca do irrefletido,
portanto anterior ao racional.
Ela se concentra sobre o
"Lebenswelt" (mundo vivido)
que se refere ao pré-predicativo, ao não-reflexivo, não
conceituai, de onde justamente surgem nossas capacidades
de conceituar e entender raci-
XII
onalmente o mundo, os outros
e a nós mesmos. Veja-se um
exemplo simples do esporte.
O que significa uma corrida
de velocidade? Quando não
for uma fuga de algo perigoso, um cachorro raivoso, por
exemplo, constitui-se numa
cultura de movimentos em
que a atividade se realiza por
um objetivo externo: o correr
contra um cronômetro, um adversário, atrás de uma bola
etc. O objetivo externo foi racionalizado e pertence ao
campo da ciência, da cultura
ou da tradição. Mesmo os casos de fuga podem, muitas
vezes, ser enquadrados num
destes campos. Poderia citar
um exemplo simples, de correr na máxima velocidade
possível em um espaço bastante aberto para esta possibilidade (campo de futebol, por
ex.) e, simplesmente, sem objetivo externo nenhum, verificar em si mesmo - concentrando-se nas percepções internas e externas do eu-mundo - o que se percebe nesta
vivência. Pode-se descobrir
um mundo de manifestações
emocionais antes desconhecidas. É o mundo vivido (o anterior à formulação de qualquer conceito racional) se
manifestando. É uma descoberta de emoções e necessidades vitais da humanidade e,
fundamentalmente, uma descoberta de si mesmo. Esta
simples experiência não é inventada para ilustrar com o
esporte uma fundamentação
teórica da fenomenología. Ela
realmente aconteceu com um
grupo de acadêmicos e foi
uma experiência relevante,
em especial, sobre possibili-
dades de se abrir novos caminhos para o esporte.
4) Somente nos compreendemos como seres com
capacidade reflexiva quando
entendemos nosso mundo
pré-reflexivo o irrefletivo e,
referindo-nos a ele, transformamos a estrutura de nossa
existência. Não importa, portanto, apenas esclarecer um
campo rigidamente delimitado e fixo, no caso o esporte
ou os praticantes desta atividade, mas penetrar nas nuanças da existência humana e
suas particularidades expressivas quando age, pensa e sente. Para isto um campo específico passa ser de validade,
no caso o esporte. "O mundo
fenomenológico não é a explicitação de um ser prévio,
mas a fundação do ser; a filosofia não é o reflexo de uma
verdade prévia, mas, assim
como a arte, é a realização de
uma verdade" (Merleau-Ponty, 1976, 19).
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NOTAS
'Vou mostrar, durante o desenvolvimento do próprio texto,
porque uso a expressão "olhar ou
visão" sobre o esporte e não analisar, interpretar etc, pois decorre
do próprio referencial teórico
usado.
2
Ver em Kunz (1991 e 1994)
3
Leib, ouc corpo vivo, corpo-sujeito para a literatur alemã.
4
Uso esta expressão com base em
Ehni, et alli (1985), significando; especialmente, "o mundo de
movimentos" na infância.
5
Ver Kunz (1991), onde com
base nas tipologias de corpo de
Tamboer (1985) desenvolvo os
conceitos de "corpo substancial"
, corpo-objeto para M. Ponty e
"corpo relacional", corpo-sujeito em M. Ponty.
*Elenor Kunz é Doutor em Ciência do Esporte pela Universidade de Hannover (Alemanha).
Professor da UFSC.
O que é
Rio de
1973.
iel ima
XIII
............................
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ação de
au-Pon-
Sport mit Kindern. Rororo,
Reinbek bei Hamburg, 1985
Especial . Temas Polêmicos
s cami-
Movimento - Ano VI - Nº 12 - 2000/1
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Redalyc.Esporte: uma abordagem com a fenomenologia