DISCURSO DE DESPEDIDA DESEMBARGADOR BRANDÃO TEIXEIRA PROFERIDO EM 9/7/2012 “Como a criança que vagueia o canto ante o mistério da amplidão suspensa”, verso de Vinícius, meu pensamento vagueava quando comecei a levar em conta o tempo que me competiria exercer a Presidência este Egrégio Tribunal. Lembrei-me de outubro de 1958, de meus treze anos, ocasião em que o Cardeal Primaz de Veneza, Dom Angelo Roncalli, foi eleito Papa, aos 77 anos de idade e com a saúde fragilizada. Referiam-se a ele como um mero “Papa de transição”, acreditando que não lhe restaria tempo necessário para as realizações que comumente se esperam de um líder de tal porte. Seu pontificado durou apenas quatro anos e, no entanto, João XXIII, protagonizou a maior revolução que a igreja Católica registrou em tempos mais modernos. O tempo é algo misterioso. Foge às limitadas considerações humanas. Não se mede pelo simples passar dos dias e das noites, mas pelo conteúdo que nele se agrega. O mistério do tempo pertence apenas a Deus. Os cinco meses que me cabiam na Presidência deste Egrégio Tribunal, confesso, chegaram a me preocupar. O tempo me parecia curto para os muitos projetos que eu 1 havia ideado no período de um ano e sete meses em que, como Vice-Presidente, ocupei também a o cargo de Corregedor deste Regional. Atender a todas aquelas situações de forma a justificar uma foto na respeitável Galeria de ex-Presidentes, foi meu primeiro desafio. No entanto, o tempo parecia escasso para muitas realizações e, diante disso, considerei até mesmo a hipótese de não aceitar a Presidência. As reflexões sobre essa hipótese levaram-me a conjecturar que se a mim a Instituição havia concedido a oportunidade de adquirir tantos conhecimentos e a experiência necessária durante minha gestão na Corregedoria Eleitoral, ela me havia preparado também para buscar a solução deles. Restava-me apenas eleger soluções factíveis no tempo que me fôra concedido. Sem mais me questionar, debrucei-me com a razão e com o coração sobre o mais emergente de todos os problemas – adequação dos recursos humanos para realização das eleições que se aproximavam. Em ano de eleições, os Tribunais Regionais Eleitorais se voltam para tudo que viabiliza o cumprimento do Calendário Eleitoral. No entanto, a experiência mostrava que, na Corregedoria Eleitoral, embora os mecanismos estruturais físicos e 2 jurisdicionais estivessem em ordem, os atores principais desse contexto não pareciam devidamente ajustados. Havia certo distanciamento e faltava o diálogo necessário entre juízes, promotores e chefes de cartório. Com o precioso apoio de magistrados, membros do Ministério Público e servidores deste Tribunal, idealizamos e executamos o “Projeto Mário Demétrio Barra”, cujo objetivo de integrar juízes eleitorais, promotores e chefes de cartório superou todas as nossas expectativas em relação à participação e ao resultado final. Foi fascinante, para mim, perceber como, de repente, a partir do diálogo e de dinâmicas ousadas e inovadoras, juízes, promotores e chefes de cartório descobriam-se tão mais próximos do que supunham ser, unidos que estavam – e estão – ao objetivo comum a todos de realizar eleições limpas, éticas, legítimas e com justa transparência. Também na área de Pessoal, o Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais passava por um momento crítico, que bem pode comprovar Diretora-Geral, a nossa Doutora competente Elizabeth e responsável Rezende Barra. Pressionado pelo Tribunal de Contas e pelo Conselho Nacional de Justiça, o TRE ficaria impedido, este ano, de efetuar as contratações extras para as eleições, decisão essa de altíssimo impacto na gestão de pessoal, sobretudo 3 para os cartórios eleitorais, que já contam com um quadro de servidores bastante reduzido. A partir de delicadas negociações, conseguimos flexibilizar essas determinações, por meio da Resolução 878/2012, permitindo aos Juízes Eleitorais de todo o Estado solicitarem, apenas para o período eleitoral, a cessão de servidores de outros órgãos públicos federais, estaduais e municipais, com o fim de minimizar a alta carência de servidores nos cartórios eleitorais do Estado. Por outro lado, e com o mesmo objetivo de restaurar a defasagem de servidores na Secretaria e cartórios eleitorais, tivemos de tomar decisões difíceis, porém firmes, quanto ao retorno de servidores do quadro do Tribunal que se encontravam no exercício de funções comissionadas em outros órgãos públicos e até mesmo neste próprio Tribunal. O interesse público havia de prevalecer sobre interesses e vontades particulares interesses. e até mesmo Convencera-me sobre de os que, meus no próprios exercício da Presidência, não seria próprio manifestar quereres, mas cumprir deveres. Nas questões afetas aos serviços desta Justiça Especializada, não medimos esforços para prestigiar e suprir recursos necessários ao treinamento de pessoal com vistas às eleições. Contando sempre com o empenho e a boa organização da Escola Judiciária Eleitoral Ministro 4 Sálvio de Figueiredo, sob a superintendência do excelentíssimo Desembargador Antônio Carlos Cruvinel e do competente Juiz Alexandre Quintino Santiago, o Tribunal realizou cursos presenciais e à distância, abrangendo servidores e magistrados em todo o Estado de Minas Gerais. O valor e a competência dos servidores da Justiça Eleitoral pode ser medido pelo cumprimento, no primeiro semestre deste ano, da Meta 12 do Conselho Nacional de Justiça para o ano de 2012, qual seja a de “realizar pesquisa de opinião sobre a qualidade da prestação dos serviços e sobre a satisfação do cidadão em todos os tribunais eleitorais”. As justas reivindicações salariais dos servidores da Justiça Eleitoral mereceram solicitação ao Tribunal Superior Eleitoral, aos senhores líderes partidários e, inclusive, visita pessoal, em companhia do Desembargador Antônio Carlos Cruvinel, ao Senador Eduardo Braga, Líder do Governo no Senado, e ao Presidente deste, Senador José Sarney, com vistas à aprovação de uma nova política remuneratória para os servidores do quadro deste Tribunal. Também na esteira de um comprometimento maior da Justiça Eleitoral recentemente, em para com Uberlândia, a sociedade, a segunda lançamos, edição da Campanha “Sujeira não é Legal”, viabilizada a partir de 5 parcerias com a Cemig, Polícia Militar e Corpo de Bombeiros. Neste ano, o projeto teve seus objetivos iniciais ampliados: além de estimular uma campanha eleitoral limpa, segura e tranquila nas ruas, também pretende que ela seja limpa, segura e transparente na prestação de contas dos candidatos. Em minha breve atuação na Presidência desta Casa, coubeme a honra de conduzir, com muita satisfação e reverência, os eventos comemorativos dos 80 anos de criação da Justiça Eleitoral em nosso País e da instalação do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais. Coube-me receber, em nome da Justiça Eleitoral de nosso Estado, digna homenagem da Assembléia Legislativa de Minas Gerais e, presidir a Sessão Solene, realizada neste Tribunal Regional Eleitoral, bem como as homenagens a representantes de vários segmentos que em muito colaboraram para a construção dessa importante Instituição. Ainda dentro de uma visão histórica – que, paradoxalmente, também pode ser considerada como uma visão de futuro – efetivamos a criação do Centro de Memória do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais, passo importante no trabalho de resgate e de preservação da história da Justiça Eleitoral em nosso Estado. Preservar a história de uma Instituição, através de documentos, fotografias e objetos, mais 6 que um dever, é um compromisso de consciência dos servidores que nela atuam, para que seja garantido o precioso direito de todos os cidadãos à Memória de seu País, e que, em última análise, fala também de sua própria história. Voltamos ao tempo. Todas as coisas chegam e partem. E hora da partida. Já sofro com a saudade do trabalho pessoalmente tão compensador e de conviver com pessoas tão especiais: a Diretora-Geral Elizabeth Barra, viúva do meu grande amigo e colega Mário Demétrio Alberto Barra; o Rogério Tavares, assessor de Comunicação; a Berenice Vieira, assessora de Cerimonial; a Patrícia Montenegro, assessora Administrativa da Presidência; a Carminha Lustosa, chefe do Gabinete da Presidência, e sua equipe; Adriana Rezende e Regina Tinôco, preciosas assessoras jurídicas da Presidência. Adriano Denardi, secretário de Controle Interno; e ainda de Cristiana de Pinho Aguiar Guimarães, assessora-chefe da Corregedoria, que não faltou com sua colaboração à Presidência, quando solicitada. Já sinto saudades das conversas com o Desembargador Antônio Cruvinel, com quem dividi as realizações da Presidência desta Casa, Se já nos sentíamos irmanados pelo espírito de servir, agora mais próximo me sinto dele, 7 irmanado na gratidão a Deus de poder tê-lo como VicePresidente e Corregedor durante minha gestão. Saudades também sinto desta Egrégia Corte Eleitoral e de seus honrados integrantes, que sempre me dispensaram, além da afabilidade do respeito, tratamento gentil e fidalgo, que procurei retribuir na medida das minhas forças. Registro a alegria de aqui poder reencontrar a excelentíssima juíza Maria Edna Fagundes Velloso, que advogava também em Porteirinha, quando ali comecei minha carreira de juiz. Neste Egrégio Tribunal Eleitoral presenciei, por parte dos membros do Ministério Público Federal e da classe dos Advogados, vivas lições de profissionalismo e civilidade, que facilitaram as soluções de questões difíceis, complexas e conflituosas com critério, sensatez e respeito à dignidade humana. O empenho heróico dos servidores da Justiça Eleitoral em cada eleição de que participei renova e vivifica minha esperança no futuro deste País. Encerro minhas atividades neste Tribunal mais edificado. Recebi, aqui, muito mais do que dei, e me sinto agradecido a todos pelos dias em que aqui exerci meu ministério. 8 Levo comigo um único orgulho – o de não ter administrado para os meus propósitos, mas o propósito de ter administrado o que era necessário. Ao partir, vou-me sem qualquer outra expectativa senão a de que a Eternidade é um constante vir a ser e que, à perplexidade diante de uma encruzilhada, a única certeza que se tem é que outras encruzilhadas virão. Muito obrigado! 9