O ESPELHO E A MASCARA – UMA REFLEXÃO SOBRE OS PARADIGMAS DA IMAGEM E A FOTOGRÁFIA Marco Antônio STRUVE1 Deivi Edurado OLIARI2 RESUMO: Este trabalho centra-se na análise dos processos evolutivos de produção da imagem proposto por Santaella e Nöth: os paradigmas pré-fotográfico, fotográfico e pós-fotográfico. Partindo dos conceitos de imagem descritos por vários teóricos, tentamos mostrar que o ser humano é, por natureza, um ser criativo e a interação com o mundo exterior possibilita criar, interpretar e significar as experiências indefinidamente, ou seja, “ver” não diz respeito somente à questão física do olho, mas antes de tudo, de perceber o objeto em suas relações com o sistema simbólico que lhe dá significado em um determinado contexto sociocultural. A cada novo “diálogo” entre o indivíduo e a imagem existe uma rede de signos e significados se articulando e sendo partilhada com cada nova pessoa que se relaciona com ela. Concentramos o estudo de maneira mais detalhada na imagem fotográfica, buscando entender a sua natureza indicial como testemunho da aparência, a sua natureza icônica como prova irrefutável da realidade e a sua natureza simbólica como testemunha potencial da verdade, ou sua capacidade de mentir. PALAVRAS-CHAVE: Imagem. Fotografia. Semiótica. Paradigmas da imagem. 1 – Um mundo mergulhado em imagens Imagem – Imaginar – Imaginação. Somos, por natureza, seres ligados ao imaginário. A imaginação é a essência do homem e ela é tão importante para o domínio da arte quanto da própria natureza. Criar, desde o momento em que homem se tornou homem, sempre foi, antes de tudo, uma necessidade vital: algo como respirar. O homem sonha com um trabalho mágico de transformação, sonha com a capacidade de mudar os objetos e dar-lhes novas formas e sentidos por meios mágicos, se apoderar da natureza transformando-a. Criar um instrumento mágico capaz de produzir sonhos e ser o mediador entre as trevas do verbo e a evidência concreta das imagens visuais, das figuras conhecíveis. Quando olhamos a nossa volta fazemos uma constatação óbvia: vivemos em um mundo repleto de imagens – entre elas fotografias – e também marcado pelo crescimento da quantidade de pessoas que produzem ou interagem com manifestações visuais diariamente. O mundo hoje está condicionado, irresistivelmente, a visualizar. A imagem quase substituiu a palavra como meio de comunicação. A maioria absoluta das informações que o individuo recebe nos dias atuais vem por imagens tornando-o um ser predominantemente visual. As imagens que antes ficavam guardadas dentro de um relicário familiar íntimo hoje são expostas diariamente a milhões de pessoas no mundo pelas redes sociais. O homem moderno adquiriu o hábito de tomar a fotografia como substituto do real e não como fotografia; como obra fotográfica; como construção imaginária e estética. Novas tecnologias geradas pelas novas demandas desse momento histórico disponibilizam “máquinas fotográficas” cada vez mais “inteligentes” reforçando a ilusão de que o ato fotográfico é simples. É possível fazer uma foto, retoca-la e publica-la em poucos instantes esquecendo que a imagem, em especial a 1 Especialista em Fotografia: processo criativo, comunicação e linguagem visual (Pós-graduação UNIASSELVI); Graduado em Odontologia (UFSC) E-mail: [email protected]. 2 Doutorando e Mestre em Ciências da Linguagem - Tecnologia da Informação (UNISUL); Especialista em Propaganda e Marketing (UNIVALI); Graduado em Comunicação Social (UNIVALI); Coordenador e Docente do Curso de Comunicação Social – UNIASSELVI; Docente da Pós-Graduação UNIASSELVI. E-mail: [email protected] 1 imagem fotográfica, é uma linguagem; um sistema de códigos verbais ou visuais; um instrumento de comunicação. A primeira função de toda a linguagem é “significar”, a segunda é “afirmar o eu” e a terceira é “comunicar”. Com a subjetividade que lhe é própria qualquer imagem, em especial a fotográfica, pode mentir, provocar, chocar, gerar cumplicidade, evocar sensações de prazer ou de dor, proporcionar prazer estético, e, também, manipular em favor dos interesses do produtor da imagem, o artista, o fotografo, o programador, ou de seus respectivos “clientes”. Cabe ao observador interpretar a imagem e acrescentar a ela seu repertório de vivências e sentimentos. Vivemos em um mundo audiovisual, mas sabemos lidar com as imagens nas nossas vidas? Será que a sociedade audiovisual sabe lidar com as imagens que produz? Para aprender a lidar com as imagens, é necessário refletir, mas antes é preciso conhecer e reconhecer a fotografia como um código visual que como diz Susan Sontag (2010), modifica e amplia nossas ideias sobre o que vale a pena olhar e sobre o que temos direito de observar. 2. A Imagem: Imaginação e imagem. “A essência da imagem é estar toda fora, sem intimidade e, no entanto mais inacessível e misteriosa do que o pensamento de foro íntimo; sem significação, mas invocando a profundidade de todo o sentido possível; irrevelada e, todavia manifesta, tendo essa presença-ausência que faz a atração e o fascínio das sereias” afirma André Kertész. (Apud NAVES, 2008, p. 52-53). Mas o que é imagem? Numa síntese de definições a imagem (do latim Imago) é uma representação visual, construída pelo homem, dos mais diversos tipos de objetos, seres e conceitos. Pode estar no campo do concreto, quando se manifesta por meio de suportes físicos palpáveis e visíveis, no campo do abstrato, por meio das imagens mentais dos indivíduos ou no campo virtual por meio de emulações matemáticas. Enquanto Barthes (1984) diz que a imagem não é o real; mas o seu analogon. Flusser (1985, p.7) vai definir imagens como “superfícies que pretendem representar algo” se transformando em “mediações entre homem e mundo”. Para Sartre inicialmente “a imagem é uma coisa, tanto quanto a coisa da qual é a imagem” (SARTRE, 2009, p. 8), mas “a imagem também é um certo tipo de consciência. A imagem é um ato e não uma coisa. A imagem é consciência de alguma coisa” (SARTRE, 2009, p.137). “A imaginação ou conhecimento da imagem vem do entendimento: é o entendimento, aplicado à impressão material produzida no cérebro, que nos dá uma consciência da imagem” (SARTRE, 2009, p.13) ou seja, a imagem, tornando-se uma estrutura intencional, passa do estado de conteúdo inerte de consciência ao de consciência em relação com um objeto transcendente. Para Husserl (2006) toda consciência é consciência de alguma coisa, e não pode ser isenta de intencionalidade, como se fosse uma consciência pura. A própria concepção de intencionalidade está destinada a renovar a noção de imagem. A intencionalidade é uma estrutura essencial de toda consciência, o que distingue radicalmente consciência e aquilo de que se tem consciência, em suma, de todas as qualidades da coisa: a imagem também é imagem de alguma coisa. A imagem deixa de ser um conteúdo psíquico, não se achando na consciência como elemento constituinte, mas na consciência de uma coisa em imagem. Husserl, distingue uma intenção imaginante (consciência de uma coisa em imagem) e uma matéria subjetiva (imagem) que a intenção vem “animar”. Mas ao mesmo tempo o objeto da imagem, situa-se fora da consciência como alguma coisa radicalmente diferente, percebida, na intencionalidade, isto é, pelo ato noético, e não pela matéria. 2 Flusser apresenta a ideia de que a imagem atravessou três grandes movimentos desde os primórdios da humanidade. O homem circula num ambiente de quatro dimensões espaçotemporais: altura, largura, profundidade e tempo. A partir do momento em que desenvolvesse a capacidade de fazer imagens, desenvolve também a sua imaginação, que Flusser define como a capacidade codificar fenômenos de quatro dimensões em símbolos planos e decodificar as mensagens assim codificadas (FLUSSER, 1985). Contando apenas com as dimensões do plano, tempo e espaço passam a ser codificados pelo homem, numa operação imaginativa que tem certas regras - naturais ou artificiais – e permite um posterior deciframento da imagem pelo seu receptor. Este, num primeiro momento, tem acesso a um significado superficial da imagem, que está no plano, mas com algum esforço, poderá reconstituir as dimensões perdidas de tempo (que é “circular” nas imagens) e de profundidade (que é “representada” no plano bidimensional). Neste momento primitivo das imagens tem caráter mágico e função bem específica: mediar o acesso do homem ao mundo. Com o passar do tempo o homem passa a viver em função da imagem. A imagem não é mais a representação do real, ela passa a ser o real. Surge a idolatria. A escrita irá surgir para resignificar o mundo transcodificando “o tempo circular em linear, traduzindo cenas em processos” (FLUSSER, 1985, p. 10). Ao inventar a escrita, o homem adquire consciência histórica, que vai se sobrepujar ao caráter mágico das imagens. A escrita, portanto, abstrai todas as demais dimensões restando apenas a reta, sob a forma de conceituação, que permite codificar textos e decifra-los. A escrita é meta-código da imagem. Os conceitos não significam fenômenos, significam ideias. Decifrar textos é descobrir as imagens significadas pelos conceitos. A função dos textos é explicar as imagens, a dos conceitos é analisar cenas. Os textos, num determinado momento, interpõem-se entre o homem e as imagens, que, por sua vez, já mediavam o acesso do homem ao mundo. O reinado do texto, “textolatria”, caracteriza-se por uma progressiva incapacidade do homem em servir-se dos textos, passando a ser escravizado por eles, tanto nas ideologias, como nas ciências. Ao inventar a escrita, o homem se afastou ainda mais do mundo concreto quando, efetivamente, pretendia dele se aproximar. A escrita tornava o mundo cada vez mais difícil de ser decifrado e cada vez mais inimaginável. Embora textos expliquem imagens a fim de substitui-las e torna-las desnecessárias ao homem, as imagens são capazes de ilustrar o texto, com a finalidade de tornar visível o “conhecimento científico”, ou seja, reduzir o distanciamento entre a ciência e o mundo cotidiano, ao permitir a visualização de estruturas temporais mais complexas, assim como também tornam visível a magia subliminar (SOUZA E SILVA, 2007). É neste mundo, histórico e mediado pelo texto, na primeira metade do século 19, o momento em que surge a fotografia que busca ultrapassar a “crise dos textos”, para Flusser (1985). Imagens técnicas são frutos de textos científicos aplicados, afirma Flusser, e a fotografia inaugurou tal possibilidade. Toda a tecnologia que se materializa nos aparelhos que permitem a produção de imagens é proveniente dos séculos de aprimoramento da escrita e, consequentemente, dos textos e conceitos. “Imagens tradicionais precedem os textos por milhares de anos” (como as pinturas rupestres), e “as imagens técnicas sucedem aos textos altamente evoluídos” (ciências exatas). “Ontologicamente, as imagens imaginam o mundo e as imagens técnicas imaginam textos que imaginam o mundo” (FLUSSER, 1985, p. 19). As imagens técnicas assumem, portanto, posições ontológicas muito diferentes das imagens primitivas: enquanto estas são abstrações de primeiro grau (retiram duas dimensões do fenômeno concreto), as imagens técnicas são abstrações de terceiro grau (apesar de sua suposta “semelhança” com o mundo), 3 pois primeiro abstraíram uma das dimensões da imagem tradicional, transformando-a em texto, para depois reconstituir a dimensão abstraída, a fim de resultar novamente em imagem. Isso faz com que as imagens técnicas sejam paradoxais: aparentemente, não precisam ser decifradas, e esta suposta facilidade de acesso impede que elas sejam realmente compreendidas. Em outras palavras, qualquer pessoa acha que é capaz de decifrar as imagens técnicas (fotografias), porque considera aquelas imagens como reais, como simples janelas para o mundo real, em vez de debruçar-se sobre elas como os signos complexos que são. O caráter simbólico das imagens técnicas está escondido, porque “quem vê a imagem técnica parece ver seu significado” (FLUSSER, 1985, p. 25). Para compreender, verdadeiramente, uma imagem técnica, é preciso reconstituir os textos que deram origem às imagens, ou seja, decifrar as cadeias de significação – inclusive históricas - que estão por trás dos procedimentos básicos de quem cria estas imagens e dos equipamentos utilizados. Este esforço não é usual. Pelo contrário: cada vez mais, os homens estão “imersos” nesse meta-mundo de imagens técnicas, e imersos de tal modo que não conseguem mais distinguir entre o que é real e o que é resultado da manipulação de imagens por aparelhos. O grande erro, talvez seja acreditar que as imagens técnicas criam um novo imaginário, independente do texto, quando elas dependem totalmente das cadeias de significação estabelecidas historicamente por séculos de representação “textual”. Um ambiente a ser “decodificado”, e não simplesmente “percebido”. Considerando-se que a imagem eletro-óptica nada mais é do que uma série de impulsos codificados, dos quais não é possível imaginar a configuração, Paul Virilio (1994) afirma que a palavra “imagem” demonstra ser insuficiente, posto que a interpretação da máquina se diferencia da visão habitual. A simulação numérica, de fato, engendra uma nova dimensão do real, que Edmond Couchot (1999) denomina “um analogon purificado e transformado pelo cálculo”, por ser diferente da cópia, da representação e da duplicação. Esse analogon tem um modo de existência paradoxal: apresenta uma aparência perceptível, faz parte do real, mas é totalmente constituído por cálculos, distinguindo-se por isso do real. O universo da imagem numérica comporta duas maneiras distintas de configuração visual. O objeto pode ser descrito matematicamente ao computador que o visualiza na tela. É também possível partir do real, ou seja, de um desenho, de uma pintura, de uma fotografia, decompostos em pixels. A imagem transforma-se, desse modo, em imagem-matriz, o que lhe confere uma qualidade particular. Seu controle morfogenético não se baseia nem no plano – como na pintura e na fotografia –, nem na linha – como no texto –, e sim no ponto. A estrutura matricial da imagem permite ter acesso direto a cada um de seus elementos e agir sobre eles. Mesmo nesse caso, a imagem que aparece na tela não possui tecnicamente nenhuma relação com qualquer realidade preexistente. Trata-se de números expressos de maneira binária na memória e nos circuitos do computador, que preexistem à imagem e a engendram. A imagem numérica não é o mais o registro de um vestígio deixado por um objeto pertencente ao mundo real. É resultado de um processo, em que o cálculo se substitui à luz, e o tratamento da informação toma o lugar da matéria e da energia. A lógica figurativa da representação óptica é substituída pela lógica da simulação, caracterizada por um espaço sem lugar determinado, sem substrato material, totalmente liberto do real. 4 3. A construção do olhar. O ato de olhar significa um dirigir a mente para um “ato de intencionalidade” em busca de informações e significações, um ato de significação que define a essência dos atos humanos (HUSSERL, 2006), mas só conseguimos ver aquilo que nos é significativo, isto é, aquilo que relaciona nossas experiências e o que estamos vendo. As imagens que formam nosso mundo são símbolos, sinais, alegorias, ou apenas presenças vazias que completamos com nossos desejos, experiências, questionamentos e remorsos. (MANGUEL, 2001). O olhar de cada um possui diferenças, e estas estão ligadas a suas vivências anteriores, aquilo que Ansel Adams (2012) ressaltava ao afirmar que “não fazemos uma foto apenas com uma câmera; ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos.” Assim, podemos dizer que cada individuo, em especial, cada fotógrafo, lança um olhar sobre as coisas do mundo com uma maneira própria de pensamento, no qual a técnica está a serviço da interpretação. Completa a leitura com seu próprio sentido, retira as coisas do mundo, codifica-as em seu interior de acordo com tudo que o constitui como ser único e as devolve de onde as tirou, multiplicando nela mesma os seus significados (GATTO, 2004). Ou seja, “ver” não diz respeito somente à questão física do olho, mas antes de tudo, de perceber o objeto em suas relações com o sistema simbólico que lhe dá significado em um determinado contexto sociocultural (BARBOSA, 2002). “Imagens se tornam símbolos quando o significado de seus elementos só pode ser entendido com a ajuda do código de uma convenção cultural” (SANTAELLA, NÖTH, 2010, p. 150). Ver é ler, e ler imagens é aplicar todos os códigos (conscientes ou não) que aprendemos ao longo da vida. (VALLE, 2012). No mundo antigo os gregos e os romanos helenizados pensavam o olhar a partir de duas dimensões primordiais: o olhar receptivo, ou seja, como um ato involuntário no qual os olhos recebem, com prazer ou não, grande quantidade de figuras, formas e cores, desde que estejam abertos e haja luz. E o olhar ativo, ou seja, aquele que se move à procura de alguma coisa, que o sujeito irá distinguir, conhecer ou reconhecer, recortar do contínuo das imagens, medir, definir, caracterizar, interpretar, em suma, pensar. Visão e entendimento estão aqui em estreita relação: o olho faz a mediação do homem com mundo, mas olhar não é apenas dirigir os olhos para perceber o “real” fora de nós, é muitas vezes, sinônimo de cuidar, zelar, guardar, ações que trazem o outro para a esfera dos cuidados do sujeito (BOSI, 1988). Imagens, em especial, as fotografias, são manifestações do mundo, testemunhos, pontos de vista, despertam desejos, vendem sonhos, fazem parte dos ritos familiares, preservam e constroem a memória, enfim, o ser humano é por natureza um ser criativo e “a interação com o mundo exterior possibilita criar, interpretar e significar as experiências indefinidamente” (GATTO, 2004, p. 107). Quando projetamos e criamos imagens dentro de nós, podemos simular situações, sonhar, lembrar, mas no ato de ver, tentamos interpretar o mundo a nossa volta aplicando significações a ele e, nesse interpretar e significar, já começamos a criar. Não existe um momento de compreensão que não seja ao mesmo tempo criação. Isto se traduz na linguagem artística de uma maneira extraordinariamente simples, embora os conteúdos sejam complexos. (OSTROWER, 1988). 3.1 – Ler imagens Ler imagens é interpretá-las, tentar decifrá-las, reconhecer seus signos, se deixar viajar no universo que ela permite, participando da mágica que é criar e reconhecer uma imagem. Uma imagem só passa de materiais, cores e formas dispostas sobre uma superfície, porque, nós a reconhecemos como imagem (VALLE, 2012). Se a “arte” nos engana pela sua 5 referencialidade, este é o seu atrativo e seu encanto: não passa de matéria simbolizada em imagem a qual aplicaremos significações. E como repetidamente salienta Santaella (2008, p. 10) “tudo é signo”, ou seja, "é uma coisa que representa outra coisa: seu objeto. Ele só pode funcionar como signo se carregar esse poder de representar, substituir, uma outra coisa diferente dele." (SANTAELLA, 1983, p.58). O “artista” nada mais é do que um primeiro interprete da imagem que ele mesmo produz, mesmo antes de ela existir. E camadas e camadas de leituras simbólicas se somam e se subtraem a ela. A cada novo “diálogo” entre o individuo e a imagem existe uma rede de signos e significados se articulando e sendo partilhada, com cada nova pessoa que se relaciona com ela procurando as suas angústias, buscas, expectativas, dúvidas e certezas. Antes de continuarmos nosso caminho é preciso deixar claro o que entenderemos como imagem deste ponto em diante. “Não há imagens como representações visuais que não tenham surgido na mente daqueles que as produziram, do mesmo modo que não há imagens mentais que não tenham alguma origem no mundo concreto dos objetos visuais” (SANTAELLA, NOTH, 2010, p. 15). A imagem, segundo Jacques Aumont (2001), é uma pluralidade na qual a sua forma visível é uma modalidade particular, assim sem ignorarmos essa multiplicidade de sentidos, consideraremos apenas uma variedade de imagens, as que possuem forma visível, as imagens visuais. 4 . Os Paradigmas da Imagem. Para Lúcia Santaella há três paradigmas no processo evolutivo de produção da imagem: o paradigma pré-fotográfico, o fotográfico e o pós-fotográfico (SANTAELLA, NÖTH, 2010). Convém lembrar, entretanto, que esta proposta de classificação das imagens visuais não é única. Paul Virilio em “La machine de vision” (1988) apresenta três regimes da máquina de visão: Era da lógica formal da imagem (pintura, gravura, arquitetura). Era da lógica dialética (foto, cinema, vídeo). Era da lógica paradoxal (infografia, videografia, holografia). Já Edmond Couchot (2003, 1999, 1993) divide a evolução das técnicas e das artes da figuração em dois grandes momentos: O da representação, que a partir do quattrocento começa uma pesquisa obsessiva que visava a automatizar cada vez mais os procedimentos de criação e reprodução da imagem até o surgimento das técnicas fotográficas, fotomecânicas, cinematográficas e televisuais. O da simulação, inaugurado pelas imagens sintéticas, a partir da numerização da imagem, que “permite figurar não apenas o visível, mas o que é modelizável pela via real da matemática” (COUCHOT, 2003, p. 46) permitindo agir sobre o próprio modelo, e em decorrência disso sobre a realidade virtual por ele simulada (COUCHOT, 2003). Sem deixar de concordar com as teses de Virilio e Couchot a divisão proposta por Santaella e Nöth (2010) nos pareceu revelar maior poder analítico e abrangência. 4.1 – Pré-fotográfico O paradigma pré-fotográfico consiste no que chamamos comumente de “artes plásticas”, ou seja, a manipulação de materiais para a criação de imagens pela mão do “artista” através de um processo artesanal único, resultado da interpretação do mundo através do olhar do sujeito produtor da imagem que busca figurar o visível, passando da imaginação para a figuração por imitação, espelho ou cópia da natureza. Por sua própria característica de “objeto de arte” é único, perecível e que deve ser conservado e contemplado pelo próprio observador que deve se deslocar a estes em locais especiais em que a imagem é de certa 6 maneira sacralizada conservando uma aura nostálgica. Resultado da fusão sujeito, objeto e fonte é uma imagem inacabada e incompleta que se confunde com o próprio suporte. A imagem aqui é uma metáfora, uma janela para o mundo ideal baseado em um modelo imaginário e icônico, evocativo, ou seja, símbolo. (SANTAELLA, NÖTH, 2010). O paradigma pré-fotográfico é o universo do perene, da duração, repouso e espessura do tempo. MEIOS DE PRODUÇÃO Expressão da visão via mão Processos artesanais de criação da imagem Suporte matérico Instrumentos Extensões da mão MEIOS DE ARMAZENA MENTO Suporte único Perecível PAPEL DO AGENTE PRODUTOR Imaginação para a figuração Gesto idílico NATUREZ A DA IMAGEM Figurar o visível e o invisível Figuração por imitação Olhar do sujeito Sujeito criador Demiurgo Imagem espelho Cópia de uma aparência imaginarizad a Processo monádico Fusão: sujeito, objeto e fonte Imagem incompleta, Inacabada (SANTAELLA, NÖTH, 2010, p. 168) IMAGEM E MUNDO Aparência e miragem MEIOS DE TRANSMISS ÃO Único PAPEL DE RECEPTOR Contemplação Metáfora Templos, museus, galerias. Nostalgia Janela para o mundo Ideal de simetria Transporte do receptor Aura (SANTAELL A, NÖTH, 2010, p. 174) (SANTAELL A, NÖTH, 2010, p. 175) Modelo imaginário e icônico Evocativa Símbolo (SANTAELL A, NÖTH, 2010, p. 170) (SANTAELL A, NÖTH, 2010, p. 171) (SANTAELL A, NÖTH, 2010, p. 172) (SANTAELL A, NÖTH, 2010, p. 173) Adaptação dos autores 4.2 – Fotográfico “A grande modificação que se dá na passagem do paradigma pré-fotográfico ao fotográfico está no advento de um processo de produção eminentemente diádico que a fotografia inaugurou” (SANTAELLA, NÖTH, 2010, p. 164), ou seja, a captação da imagem se dá por processos automáticos via próteses ópticas, sem a interferência do autor no processo de “formação” da imagem. O suporte é um fenômeno químico ou eletromagnético preparado para reagir ao estímulo da luz. “O negativo, captação da luz é, paradoxalmente, pura sombra, rastro escuro à espera da luz que só será restituída na revelação. A imagem revelada, por seu turno, é sempre um duplo, emanação direta e física do objeto, seu traço, fragmento e vestígio do real, sua marca e prova, mas o que ela revela, sobretudo, é a diferença, o hiato, a separação irredutível entre o real, reservatório infinito e inesgotável de todas as coisas, e o seu duplo, pedaço eternizado de um acontecimento que, ao ser fixado, indiciará sua própria morte. No instante mesmo em que é feita a tomada, o objeto desaparece para sempre.” (SANTAELLA, NÖTH, 2010, p. 165). 7 No paradigma fotográfico a imagem passa a ganhar eternidade, pois um negativo pode ser reproduzido a qualquer momento. As imagens no paradigma fotográfico, menos do que representações, são reproduções por captação e reflexo, uma espécie de rapto, roubo do real e nesse tipo de imagem o ícone reina soberano. (SANTAELLA, NÖTH, 2010). O fotográfico é o universo do instantâneo, do lapso e interrupção no fluxo do tempo. MEIOS DE PRODUÇÃO Autonomia da visão via próteses óticas Processos automáticos de captação da imagem Suporte químico ou eletromagnétic o Técnicas óticas de formação da imagem Processo diádico Colisão ótica Imagem corte, fixada para sempre (SANTAELL A, NÖTH, 2010, p. 168) MEIOS DE ARMAZENA MENTO Negativo e fitas magnéticas Reprodutível PAPEL DO AGENTE PRODUTOR Percepção e prontidão NATUREZA DA IMAGEM Registrar o visível IMAGEM E MUNDO Rapto Capturar por conexão Metonímia Olhar da câmera e ponto de vista do sujeito Sujeito pulsional Movente Imagem documento Biunívoca Registro do confronto entre sujeito e mundo Ideal de conexão Duplo e emanação MEIOS DE TRANSMISS ÃO Reprodutível PAPEL DE RECEPTOR Observação Jornais, revistas, outdoors, telas. Era da comunicação de massa Reconhecimen to (SANTAELL A, NÖTH, 2010, p. 174) (SANTAELL A, NÖTH, 2010, p. 175) Identificação Modelo físico Sombra Índice (SANTAELL A, NÖTH, 2010, p. 170) (SANTAELL A, NÖTH, 2010, p. 171) (SANTAELL A, NÖTH, 2010, p. 172) (SANTAELL A, NÖTH, 2010, p. 173) Adaptação dos autores 4.3 – Pós-fotográfico No paradigma pós-fotográfico o processo de produção é eminentemente triádico. Resulta do casamento entre um computador, uma máquina especial que age sobre um substrato simbólico: a informação, e uma tela de vídeo, mediados ambos por uma série de operações abstratas, modelos, programas, cálculos. (SANTAELLA, NÖTH, 2010) “O agente da produção não é mais um artista, nem é um sujeito que age sobre o real, mas um programador cuja inteligência visual se realiza na interação e complementaridade com os poderes da inteligência artificial.” (SANTAELLA, NÖTH, 2010, p. 166). “Embora as imagens que a tela permite visualizar sejam altamente icônicas tudo que se passa por trás da tela é radicalmente abstrato” (SANTAELLA, NÖTH, 2010, p. 167), uma vez que antes de ser uma imagem visualizável, a imagem infográfica é uma realidade numérica que oscila entre a imagem que se atualiza no vídeo e a imagem virtual ou conjunto infinito de imagens potenciais calculáveis pelo computador. (SANTAELLA, NÖTH, 2010, p. 166) O ponto de partida da imagem sintética é uma abstração, não existindo a presença do real empírico em nenhum momento do processo. “As duas palavras de ordem das imagens sintéticas são assim as palavras modelo e simulação.” (SANTAELLA, NÖTH, 2010, p. 167). No paradigma pósfotográfico o modelo é uma representação formal – e, como tal, passível de ser manipulado, transformado e recomposto em combinações infinitas – que visa funcionar como a réplica 8 computacional da estrutura, do comportamento ou das propriedades de um fenômeno real ou imaginário. A simulação, por sua vez, consiste basicamente numa ‘experimentação simbólica’ do modelo. (SANTAELLA, NÖTH, 2010). O paradigma pós-fotográfico funciona sob o signo das metamorfoses, porta de entrada para um mundo virtual e embora circule inteiramente dentro das abstrações simbólicas, a imagem sintética, visualizável nas telas de vídeo, produz um efeito icônico (SANTAELLA, NÖTH, 2010, p. 172-3). O modo de distribuição da imagem pós-fotográfica, desloca essa imagem da esfera da comunicação para a esfera da comutação (Couchot, 2003) e ao se afastar da lógica das mídias de massa, essa imagem faz sentido por contato, por contaminação, em lugar de projeção. (SANTAELLA, NÖTH, 2010, p. 174). O pós-fotográfico é o universo evanescente, em devir, universo do tempo puro, manipulável, reversível, reiniciável em qualquer tempo. MEIOS DE MEIOS DE PAPEL DO PRODUÇÃO ARMAZENAM AGENTE ENTO PRODUTOR Derivação da visão via matriz numérica Memória do computador Cálculo e modelização NATUREZA DA IMAGEM Visualizar o modelizável IMAGEM E MUNDO MEIOS DE PAPEL DE TRANSMISSÃO RECEPTOR Simulação Disponível Interação Processos Disponível matemáticos de geração da imagem Agir sobre o real Simular por variações de parâmetro Metamorfose Redes: individuais Imersão e planetárias Computador e vídeo Modelos, programas Olhar de todos e Imagem matriz de ninguém Virtual Era da comutação Navegação Números e pixels Sujeito manipulador Ubíquo Ideal de autonomia Substrato simbólico e experimento Processo triádico Modelo simbólico Modelos e instruções Modelos de visualização Pixels na tela Ascética Virtualidade e simulação Ícone (SANTAELLA (SANTAELLA, (SANTAELLA, (SANTAELLA, (SANTAELLA, (SANTAELLA, (SANTAELLA , NÖTH, 2010, NÖTH, 2010, p. NÖTH, 2010, p. NÖTH, 2010, p. NÖTH, 2010, p. NÖTH, 2010, p. , NÖTH, 2010, p. 168) 170) 171) 172) 173) 174) p. 175) Adaptação dos autores 9 5. Fotografia, memória e verdade. “Fotografia é memória e com ela se confunde” (KOSSOY, 2002). A fotografia é um recorte de tempo e espaço. Inicialmente podemos destacar uma conclusão recorrente: a de que o lugar do referente fotográfico é sempre o passado. Poderíamos dizer, então, que o tempo da fotografia é o pretérito, porque é nessa direção que vai o olhar que busca reencontrar o referente, o objeto fotografado. (BARTHES, 1984) Esse referencial ao passado não é, porém, suficiente para dar à fotografia a capacidade de representar o tempo. Ela aponta para um determinado momento, mas o faz, como também sugere Barthes (1984), mortificando-o, como um ídolo que se oferece à contemplação, estático, para fazer lembrar daquilo que não está presente, mas não é um objeto morto. Compreendida dessa maneira, a fotografia apenas fixa o instante a ser lembrado. A fotografia é estática, mas se insere na dinâmica de um olhar que segue na direção não apenas do passado, mas de uma transcendência. Barthes (1984, p. 37) acrescenta: “Nesse deserto lúgubre, me surge, de repente, tal foto; ela me anima e eu a animo. Portanto, é assim que devo nomear a atração que a faz existir: uma animação". Toda fotografia reconstrói seus lugares e personagens com base em códigos estabelecidos por alguma tradição. Ser fotografado é, portanto, ser apreendido por categorias estéticas e epistemológicas. Não obstante podermos lembrar que há ali uma história singular, a interpretação efetiva da imagem não nos conduz a alguém, mas a um papel ou um modelo de comportamento, de sensualidade, de poder, de subversão. A imagem parte de um lugar sempre situado no passado, mas aponta também na direção de uma virtualidade, isto é, constitui uma encenação quase atemporal dentro da qual um vasto universo de atores pode ser inserido. A fotografia em seus primórdios, em decorrência de suas limitações técnicas, adotava estratégias idealizadoras para passar do mundo em movimento à imagem estática: a seleção de momentos exemplares e simbólicos para cada objeto e personagem que juntos davam à imagem certo efeito retórico, evidenciando o papel desempenhado por cada um desses elementos traduzidos pela pose e pelos arranjos cenográficos. Admiramos um movimento congelado porque ele nos permite ver em detalhes a posição do sujeito, sua anatomia, sua relação com outros objetos e com o espaço, fazendo tudo isso sem destruir o sentido do movimento. O desenvolvimento técnico da fotografia representou exatamente a possibilidade de romper com a pose para construir a linguagem do “flagrante”, do instantâneo, que refere-se ao fato de que o olho não é efetivamente capaz de perceber o deslocamento do objeto dentro das frações de segundo com as quais a fotografia é capaz de operar. O instante continua sendo um instante exemplar, expressivo, um instante-síntese do movimento que não o poderá esconder totalmente, mesmo que não o contenha. A origem técnica da fotografia tende, porém, a caracterizar seu processo de criação como um exercício de precisão. E não é rara a comparação entre o trabalho do fotógrafo e o do caçador (FLUSSER,1985): a eficiência dessas artes está claramente associada à capacidade de acertar o alvo com uma economia de recursos, de preferência, em um único disparo. A fotografia tende a anular o fluxo do tempo em suas representações, mas também no próprio ato de criação da imagem. Durante mais de um século afirmamos que a fotografia era um tipo particular de imagem operando com a imobilização de um momento no tempo, retratando objetos, pessoas e lugares na forma como eles aparecem no visor da câmera. Se voltarmos o nosso olhar para o instantâneo fotográfico, para o álbum de família, estaremos diante de um processo fundamental de autoconhecimento e representação que consolidava e perpetuava mitos e 10 histórias das famílias e seus amigos. A fotografia funcionava como uma lembrança autobiográfica e terminava, quase sempre, em algum álbum ou caixa de sapatos. (BOURDIEU & BOURDIEU, 2006) A função da fotografia como instrumento para a formação da identidade e como meio de comunicação era reconhecida, mas sempre como algo secundário em relação a sua função primordial: a memória. Pierre Bourdieu (1990) situa a prática da fotografia no âmbito mais amplo das práticas sociais de formação de identidade coletiva e descreve a construção de álbuns fotográficos como um “ritual de integração” que cumpre uma “função normalização” com a mesma clareza de uma lápide tumular. Ele argumenta que os instantâneos familiares podem ser tirados com qualquer tipo de câmera e o que os caracteriza é a sua função determinada pela rede de relacionamentos sociais e não sua qualidade “artística”. Vivemos hoje em um mundo diferente daquele que Bourdieu descreveu em 1965. Os laços tradicionais da família foram desfeitos, papéis convencionais de gêneros foram questionados e os antigos alinhamentos de classe perderam sua clareza. As imagens que nos cercam transformam não só nosso mundo e as nossas identidades, mas têm um papel cada vez mais importante na construção da nossa realidade social. A fotografia é a mídia dominante que tem retratado a família. A produção de instantâneos e de álbuns familiares se insere no domínio da atividade social e pode, de fato, ser tratada como construção de um mundo simbólico. Esse mundo de representações reflete e promove um modo particular de visualidade – uma versão preferencial da vida que pode sobreviver a todos nós. A facilidade do processo fez dele o meio ideal para explorar as maneiras pelas quais, memória, autoimagem e família, são retratadas e estruturadas por conceitos como classe, gênero e corpo. Atualmente, as distinções entre mídias começam a se desvanecer, e o instantâneo fotográfico se encontra na interseção de vários processos e tecnologias: desde o novo jornalismo realizado por pessoas comuns, utilizando a câmera de seus celulares para registrar – e veicular – acontecimentos bem antes da grande mídia institucional, até o registro do cotidiano familiar, transformado agora num grande banco de dados – diferente das fotos de momentos esparsos dos álbuns do passado – ou disponibilizado na rede mundial através das redes de relacionamento sociais, criando novas conexões entre a imagem fotográfica e a rotina diária (VASQUEZ, 2012). Com a fotografia integrada à arte contemporânea é possível perceber, de uma forma ainda mais clara, como a cena mudou. É óbvio que ainda existem distinções fundamentais entre artistas trabalhando com imagens familiares e a fotografia de massa. Julian Stalabrass (1996), por exemplo, argumenta que o resultado dessas fotografias familiares transformadas em arte é nada mais do que um equívoco alçado ao domínio artístico, ilustrando o sistemático e contraditório relativismo da prática na área. É necessário, no entanto, ter em mente que uma foto não se transforma em arte, simplesmente, pelo ato fotográfico e a materialidade do objeto ao ser percebido; ela tem que ser associada a um conceito, uma poética, que pode ser tácita, ou um processo, coisas com que o mundo artístico concorde sem a necessidade de muito ser dito. Embora, o aprofundamento conceitual dessas questões continue a tomar forma de textos. Na realidade, as escolhas feitas pelos participantes do cenário artístico dão sentido à afirmação de que os “mundos” da arte estabelecem o caminho, não os artistas, mesmo que o crédito seja dado a eles. (BECKER, 1982) A produção de sentidos nas artes visuais é tanto um aspecto da maneira pela qual representamos a nossa cultura como um todo, quanto à forma como ela é representada para nós. Se para Flusser (1985) o homem criou com as imagens técnicas o mais poderoso sistema de embuste já criado, pois parece ser uma “janela para o mundo” e, na verdade, é um 11 complexo sistema de cadeias de significação que afasta o homem do mundo. Bourdieu constata que a importância da fotografia é determinada, não por suas qualidades intrínsecas, mas pelo fato de ter se tornado uma prática social de massa, enquanto para Zygmunt Bauman (2007) a chave da modernidade líquida é criação e destruição, a desesperada batalha por atenção e a falta de direção da marcha do tempo. Uma sequência incessante de novos começos, mas cada novo início também contém as sementes de sua própria destruição e desaparecimento. “A imagem é fluída e móvel, menos um espetáculo ou dado do que um elemento numa cadeia de ações; uma realocação de imagens”. (BAUMAN, 2007, pg. 125) Para Heidegger (1997), nosso problema não é mais discutir como são as imagens do mundo. Se elas estão sendo manipuladas para nos enganar, se as representações do mundo são “verdadeiras” ou “falsas”. O problema é conseguir constatar que o mundo virou imagem, e o homem virou objeto da técnica. O que sustenta a imagem não é mais a noção de verdade, mas o domínio da memória, que não é nem tão definitiva quanto a gravidade e nem tão efêmera quanto um fato televisivo. As memórias mais intensas não almejam a verdade. Elas estão aí para serem vividas em sua incompletude, repetidamente, e aquilo que lhes falta é exatamente o que permite a elas tocar o presente. Uma narrativa que não se torna mítica por ser verdadeira ou falsa, mas por ser o modo mais efetivo de fazer o passado atuar na busca de um sentido para o presente. É impossível hoje imaginar a civilização sem a presença indiscreta da câmera fotográfica. A fotografia tornou-se cotidiana e indispensável para o nosso imaginário, comprovando e ratificando a nossa identidade. Se a fotografia digital perdeu sua aura de magia e mistério em compensação, manteve intacto seu poder de sedução. 6. Considerações finais. A quais considerações podemos chegar a partir desta “coletânea de argumentos”? À maneira pela qual reunimos aqui materiais diversos nos levam antes a uma tentativa de iniciar o debate do que a dar alguma resposta a qualquer questão que possa ser colocada sobre uma filosofia ou sociologia da fotografia. Na realidade, o que percebemos é que a história da fotografia é uma história de tensões. A revolução digital, com seu ritmo veloz e suas opções de produção da imagem, está levando a fotografia a questões cada vez mais complexas. Podemos argumentar que as análises das fotografias seguem dois caminhos. Um deles é a preocupação com as estruturas internas do trabalho, a natureza dos seus elementos constituintes e suas inter-relações, a procura por padrões de harmonia, tensão, que são interessantes e emocionalmente envolventes. Outro caminho explora questões relacionadas à sua importância filosófica. Muitas vezes, ambos são utilizados. Isto é, a maneira pela qual os elementos formais de um trabalho levam o usuário, leitor, consumidor, a vivenciar importantes verdades filosóficas que são tão intelectuais quanto emocionais. Este trabalho aborda numerosos pontos relacionados a fotografia que o leitor poderá, e deverá, aprofundar, no entanto a imagem técnica, longe de ser um flagelo contemporâneo ameaçador, é um meio de expressão e de comunicação que nos liga, representa a nossa cultura, mantém em nós uma memória, ao mesmo tempo que pode ser um “objeto” autônomo, um agente ativo no contexto da comunicação, da historicidade da sua interpretação e suas especificidades culturais. Seja como for, interessar-se pela imagem fotográfica é também interessar-se por toda a nossa história, que é, de certo modo, a história da humanidade. 12 Referências ADAMS, Ansel. Ansel Adams Museum Grafics in http://www.anseladams.org/info.html acessado em 24 de maio de 2012. AUMONT, Jacques. A Imagem. Campinas, SP: Papirus, 2001. BARBOSA, Ana Mae. A Imagem no Ensino da Arte. São Paulo: Perspectiva, 2002. BARTHES, R. A câmara clara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. 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