ENQUALAB-2008 – Congresso da Qualidade em Metrologia Rede Metrológica do Estado de São Paulo - REMESP 09 a 12 de junho de 2008, São Paulo, Brasil COMPARAÇÃO METODOLÓGICA ENTRE MUFLA CONVENCIONAL E AUTOMÁTICA PARA ANÁLISE DE UMIDADE E CINZAS EM BAGAÇO DE CANA Ossamu Hojo1 , Vivian Ap. R. T. Ernesto 1, Clóvis A. Ribeiro 1, Patrícia Fiscarelli2, Fernando L. Fertonani3 1 UNESP – Instituto de Química, Araraquara, Brasil, [email protected], [email protected], [email protected] 2 PENSALAB, São Paulo, SP, Brasil, patrí[email protected] 3 UNESP - Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas, São José do Rio Preto, Brasil, [email protected] Resumo: A produção de biocombustíveis no mundo como uma alternativa para a substituição de parte do petróleo tem um grande interesse mundial e da mídia. Deve-se levar em consideração ainda que os biocombustíveis permite a obtenção de créditos de carbono. Dentro desse interesse, a produção de etanol a partir da cana tem sido vista como uma das alternativas possíveis, uma vez que o balanço de energia é extremamente favorável devido à obtenção do bagaço de cana como subproduto e este pode ser aplicado à produção de energia elétrica como combustível em caldeiras das usinas de açúcar e destilarias de álcool. Devido à essa importância, o controle avaliação da umidade do bagaço e o resíduo da queima devem ter metodologias confiáveis e comparáveis as atuais para não acarretar desequilíbrios entre os fornecedores de cana e as usinas. Este estudo propõe comparar os resultados dos ensaios empregando a metodologia convencional (uso de mufla) e de sistema automatizado (análise termogravimétrica) a fim de avaliar as precisão e a exatidão entre os dois métodos. Comparando os resultados percentuais obtidos para o processo convencional empregando mufla e estufa, realizados em conformidade com as normas ASTM, com os dados obtidos empregandose análise térmica, curva TG isotérmica, observou-se que os resultados de ambos os equipamentos são comparáveis e considerados iguais com 95% de confiança e 5 % de significância. Palavras chave: bagaço de cana-de-açúcar, mufla convencional, mufla automática, análise gravimétrica, incerteza na medição. 1. INTRODUÇÃO A biomassa é a matéria de origem orgânica, animal ou vegetal, capaz de ser aproveitada para gerar eletricidade, com a vantagem de ser uma fonte renovável. É utilizada como combustível nas termelétricas, sendo que a sua produção pode ocorrer pelo aproveitamento de lixo residencial e comercial ou resíduo de processos industriais, como serragem, bagaço de cana e cascas de árvores ou de arroz. Souza [1] ressalta que a energia gerada nas usinas sucroalcooleiras tem sido capaz de suprir não somente o consumo de eletricidade no processo industrial, como também seu excedente tem sido comercializado em distribuidoras locais de energia elétrica. O autor destaca ainda que a entrada dessa energia co-gerada no sistema elétrico coincide com o aumento do índice pluviométrico (estação de seca), quando os reservatórios das usinas hidrelétricas apresentam baixos níveis de armazenamento de água. A posição geográfica das usinas e o período de pico são pontos positivos que reforçam a viabilidade dos investimentos em co-geração. As usinas estão localizadas na área de maior consumo do país e o período de safra coincide com a seca, poupando os reservatórios das hidrelétricas. Um dos maiores problemas é quantificar e qualificar a produção de energia elétrica alternativa a partir do bagaço, visando um uso mais racional, levando em consideração o seu valor de mercado, seu custo econômico, contábil, ambiental e para o desenvolvimento de novas tecnologias, fontes ou formas de energia [2]. Uma das características fundamentais do bagaço é o seu poder calorífico, o qual é função do grau de umidade (50%) e do teor de açúcar residual. Como o teor de açúcar é normalmente baixo, tem-se a umidade como principal fator limitante do poder calorífico [3]. A umidade do bagaço interfere diretamente no rendimento da combustão, o que se constata pela temperatura de ignição do bagaço, que está entre 500ºC e 600ºC com 50% de umidade, caindo para 300ºC a 400ºC quando a umidade está em torno de 35% a 40%. Com baixo teor de umidade, a etapa de secagem na fornalha se dá em tempo menor, representando uma maior velocidade de queima. A temperatura da chama também é sensível ao nível de umidade, ficando entre 850ºC e 920ºC com 50% de umidade, mas chegando acima de 1.100ºC com 35% de umidade, aumentando consideravelmente a transmissão de calor por radiação, condução e convecção nos tubos e recuperadores que compõem uma caldeira. Apesar de o bagaço apresentar um alto teor de umidade, é responsável pela boa ignição do resíduo por possuir um alto teor de voláteis, da ordem de 87% em base seca. Os voláteis do bagaço representam 78% do poder calorífico e consomem 74% do ar de combustão [4]. Atualmente os laboratórios das usinas sucroalcooleiras determinam o teor de umidade e cinzas em muflas convencionais, levando a um longo tempo para obterem-se os resultados desejados além do custo energético das muflas em operação. Para otimizar a análise, é possível utilizar-se mufla automática que oferece medições com maior exatidão e precisão, aprimorando as análises e reduzindo o tempo de trabalho. 2.3. Determinação Termogravimétrica de umidade e cinzas empregando analisador térmico PrepASH® 129 2. MATERIAIS E MÉTODOS As amostras das diferentes variedades, devidamente preparadas, num total de 20 amostras, de massa 5 g (medidas ao dmg) foram adicionadas aos respectivos cadinhos, previamente tarados, para a obtenção das curvas TG na condição de isoterma para as temperaturas de 105 ºC (determinação da umidade) e 900 ºC (determinação de cinzas). Foram empregadas para este ensaio amostras de cana-de-açúcar desfibrilada e úmida. Como este equipamento permite a determinação simultânea de até 20 amostras, permitiu em apenas uma etapa proceder ao ensaio de repetitividade (cinco repetições, n=5) para cada variedade de cana-de-açúcar. 2.1. Amostragem e Coleta da Amostra Para a escolha das variedades de cana-de-açúcar foram avaliados fatores como variedade de solo, abundância, características físico-químicas e quantidade de açúcar total recuperável, os quais influenciam na qualidade da cana e conseqüentemente no bagaço que será aplicado para a geração de energia. Neste estudo, os critérios utilizados para a escolha das variedades de cana foram à abundância das mesmas na região e características diferentes. As amostras do bagaço foram coletadas na Usina Santa Cruz, localizada na região de Araraquara, durante todo o período de safra (maio a nov. de 2007). Foram utilizadas amostras originais, extraídas diretamente da produção. As amostras foram coletadas por uma sonda horizontal conforme norma N-025 (CONSECANA, 2003), desintegradas e logo após a moagem, condicionadas em sacos plásticos devidamente identificados e armazenadas em geladeira para posteriores análises. A Tabela 1 apresenta as variedades de cana utilizadas. Tabela 1. Variedades e características da cana-de-açúcar. Amostra Variedade característica 1 2 3 SP81-3250 RB855113 RB72454 Rica e Produtiva Porte e Fechamento Produtiva 2.2. Determinação de umidade e cinzas em estufa e mufla Para a determinação de umidade das diferentes variedades de cana, foram utilizados cinco cadinhos de porcelana, devidamente calcinados e tarados, em mufla a 800 ºC durante 1 hora. As determinações de umidade e cinzas foram realizadas na empresa PENSALAB, em São Paulo, capital, no laboratório de Desenvolvimento de Metodologia de Análise; laboratório certificado com base na norma de gestão ISO 9000:2000, empregando o sistema analisador térmico “prepASH®” 129. O programa de controle de temperaturas permitiu a execução do seguinte programa de aquecimento: 1- primeira etapa: etapa de aquecimento das amostras até a temperatura de 105 ºC; 2 - segunda etapa, etapa isotérmica, manutenção da temperatura constante em 105 ºC por um período de 240 min, até massa constante; 3- terceira etapa, etapa de aquecimento da amostra até a temperatura de 900 ºC; 4quarta etapa, etapa isotérmica, manutenção da temperatura constante em 900 ºC por um período de 90 min, até massa constante. 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO 3.1. Ensaio para determinação termogravimétrica As análises termogravimétricas foram realizadas, empregando o bagaço de cana desfibrilado e úmido. A Figura 1 apresenta as curvas termogravimétricas (TG) obtidas para as diferentes variedades de cana-de-açúcar. Observa-se a partir da avaliação das curvas TG, apresentadas na Figura 1, um comportamento análogo para todas as amostras de bagaço de cana-de-açúcar, independente da variedade empregada no ensaio. Amostras de 5 g (medidas ao dmg) tiveram suas massas determinadas em cadinhos de porcelana e colocadas em mufla convencional a temperatura de 105 ºC, e mantidas nesta temperatura durante 1 hora. Após resfriamento, em dessecador, os cadinhos tiveram suas massas determinadas; o procedimento foi repetido até a obtenção de massa constante (ASTM – E 1756). Para a determinação de cinzas, as amostras previamente secas a 105 oC foram transferidas para mufla a 600 ºC, e mantidas a esta temperatura por um período de 3 horas. Após resfriamento em dessecador, as massas dos cadinhos foram determinadas e posteriormente, levadas novamente a mufla, repetidas vezes, até que a massa final permanecesse constante (ASTM - E 1755). Fig. 1. Determinação termogravimétrica de umidade e cinzas. Para a isoterma obtida a 105 °C observa-se uma perda de massa, como função do tempo de isoterma, da ordem de 68 a 72 % em massa, correspondente à perda da umidade da amostra. Para a segunda isoterma observa-se uma perda de massa da ordem de 27 a 32 % em massa, correspondendo à degradação térmica da matéria orgânica presente na amostra. A massa de resíduo varia no intervalo de 2,0 a 3,6 %, em massa, e corresponde a uma mistura de óxidos de Fe(III), de silício, e de metais alcalinos e alcalinos terrosos. Na Tabela 2 estão representados os parâmetros estatísticos (média= X ) e (desvio padrão= s), expressos em percentagem, dos valores de umidade e cinzas para as diferentes variedades de cana-de-açúcar. Tabela 2. Teores de umidade e cinzas (%) obtidos empregando a termogravimetria “prepASH®” 129. s s % X% Umidade Cinza Umidade Cinza SP813250 71,3828 1,2697 0,5643 0,0700 Variedade RB855113 RB72454 X 71,6966 70,4117 0,7287 0,7190 0,3330 0,3087 0,0320 0,0414 Analisando os resultados dos ensaios para umidade, expresso em percentuais, apresentados na Tabela 2, foi possível verificar, para uma primeira abordagem, que as amostras da variedade SP81-3250 e RB855113 apresentam uma maior retenção de umidade, variando entre 71,38 e 72,00 %, em massa. Os valores percentuais de cinzas foram calculados com relação à massa úmida e a massa residual seca para todas as variedades ensaiadas. Para se ter uma variável de controle para as variedades diferentes e ter uma variável de controle que levasse em conta a as diferentes pesagens de massa, foi escolhida a decomposição térmica como esse parâmetro. Os resultados da decomposição térmica em mufla automática ou no equipamento de termogravimetria, são apresentadas na Tabela 3. Tabela 3. Resultados da decomposição térmica das variedades de cana obtidos empregando a termogravimetria “prepASH®” 129, onde o valor media corresponde á decomposição térmica e o desvio padrão é aquele obtido para esse parâmetro. código 1 2 3 variedade RB855113 RB72454 SP81-3250 media 0,993 0,993 0,987 desvio padrão 0,00032 0,00041 0,00070 Os resultados da Tabela 3 serão analisados e avaliados conjuntamente com os resultados obtidos com a queima de bagaço de cana em muflas convencionais. 3.2. Ensaio para determinação de umidade e cinzas empregando mufla e estufa Os resultados dos ensaios para a determinação de umidade e cinza empregando equipamentos convencionais associados às normas ASTM - E 1756 e ASTM - E 1755, para a determinação de umidade e cinzas, para a posterior comparação com a determinação termogravimétrica, estão apresentados na Tabela 4. Tabela 4. Parâmetros estatísticos dos teores de umidade e cinzas (%) obtidos em mufla e estufa. s s X X Umidade Cinza Umidade Cinza SP813250 77,1576 3,5499 0,4629 0,1578 Variedade RB855113 RB72454 77,2417 77,3153 1,2537 1,0829 0,5236 0,8693 Os resultados da decomposição térmica convencional são apresentadas na Tabela 5. 0,0785 0,0544 em mufla Tabela 5. Resultados da decomposição térmica das variedades de cana obtidos empregando mufla convencional, onde o valor media corresponde á decomposição térmica e o desvio padrão é aquele obtido para esse parâmetro. código 1 2 3 variedade RB855113 RB72454 SP81-3250 media 0,987 0,991 0,965 desvio padrão 0,00079 0,00142 0,00158 Utilizando os resultados das Tabelas 3 e 5, foram realizados os testes de comparação de variância (F) e de média (T) cujos resultados são apresentados na Tabela 6. Tabela 6.Resultados da comparação de variância (teste F) e de média ( teste T). código 1 2 3 variedade RB855113 RB72454 SP81-3250 teste F 2,46 3,42 2,25 teste T 0,35 0,09 1,07 Considerando que foram realizadas 5 queimas com cada variedade em cada equipamento, temos que valor de Fcalculado foi sempre menor que o o Ftabelado = 7,146. O valor de T da tabela é 2,57. Em ambos os casos foram considerados 95% de confiança e 5% de significância. Usando os mesmos valores tabelados, foram calculados os valores do teste F e T para diferentes variedades, sendo que todos foram menores que os valores tabelados. Esses valores são apresentados na Tabela 7. Tabela 7. Valores de teste T e F entre as diferentes variedades de cana. Os teste cruzados foram feitos usando os valores código das Tabelas 3 e 5. 1e2 1e3 2e3 teste F entre variedades 1,81 2,01 1,11 teste T entre variedades 0,17 1,06 0,38 Logo, pode se concluir que os diferentes métodos de queima apresentam os mesmos resultados com 95% de confiança e as diferentes variedades embora apresentem valores de umidade e cinzas diferentes, podem ser considerados estatisticamente iguais. 4. DISCUSSÃO E CONCLUSÕES Comparando os resultados percentuais obtidos para o processo convencional empregando mufla e estufa, realizados em conformidade com as normas ASTM, com os dados obtidos empregando-se análise térmica, curva TG isotérmica, observou-se à existência de uma significativa diferença entre os teores de umidade e os teores de cinzas, para todas as variedades de cana. No caso das cinzas, a variedade SP81-3250 apresentou elevado percentual quando realizada na mufla, porém apresentou um desvio maior do que as demais, podendo essa diferença ser considerada como conseqüência das temperaturas empregadas para a execução dos ensaios (TG 900 ºC e mufla 600 ºC). A diferença no teor de umidade, observada para os diferentes métodos de ensaio, pode ser devido à variação da umidade ambiente, durante o preparo das amostras, uma vez que estas foram manipuladas em épocas distintas e a época de colheita ser diferente. Os diferentes métodos apresentam resultados que podem ser considerados iguais com 95% de confiança se utilizar a decomposição térmica como variável de controle. Ainda utilizando esse parâmetro decomposição térmica, não existem diferenças significativas entre as variedades. AGRADECIMENTOS Agradecemos à empresa PENSALAB, São Paulo, SP, pela possibilidade em realizar as medidas de umidade e cinzas, no laboratório de Desenvolvimento de Metodologia de Análise; laboratório certificado com base na norma de gestão ISO 9000:2000. REFERÊNCIAS [1] Z. J. Souza, Evolução e considerações sobre a co-geração de energia no setor sucroalcooleiro, São Paulo: Atlas, 2002. 367p. cap.10, p.214-240. [2] I. C. Macedo, A energia da cana-de-açúcar: doze estudos sobre a agroindústria da cana-de-açúcar no Brasil e na sua sustentabilidade. São Paulo: ÚNICA, 2005. 237p. cap.1, p. 51-64. [3] ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica. Matriz de Energia Elétrica. 2006. Disponível em: <http://www.aneel.gov.br/aplicacoes/capacidadebrasil/Op eracao CapacidadeBrasil.asp>. Acesso em: 16 março 2007. [4] M. C. Pellegrini, Inserção de Centrais Co-geradoras a Bagaço de Cana no Parque Energético do Estado de São Paulo: Exemplo de Aplicação de Metodologia para Análise dos Aspectos Locacionais e de Integração Energética. Dissertação (Mestrado) – São Paulo. 2002. 187p.