III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) 8 a 11 de Novembro de 2011 ISSN 1984-9265 DEZ ANOS DEPOIS: UMA ANÁLISE COMPARADA DA ESTRATÉGIA DE SEGURANÇA NACIONAL NORTE-AMERICANA APÓS O 11 DE SETEMBRO MAGNOTTA, Fernanda. Cursa especialização em Globalização e Cultura pela FESP-SP. Mestranda em Relações Internacionais pelo PPGRI/San Tiago Dantas e professora de Relações Internacionais e Ciências Econômicas da FAAP. LEITE1, Lucas. Mestrando em Relações Internacionais pelo PPGRI/San Tiago Dantas, integrante do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES) e Pesquisador Colaborador no Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais (CEIRI). RESUMO Este estudo pretende realizar uma análise comparada das Estratégias de Segurança Nacional (National Security Strategy) norte-americanas publicadas pelo National Security Council no período pós-11 de Setembro, visando, por meio da apreciação deste conteúdo, identificar mudanças e continuidades no posicionamento retórico e empírico dos EUA ao longo dos últimos dez anos, especialmente no que diz respeito à concepção de ameaças, à caracterização de “inimigos” em potencial e, em uma perspectiva ampla, às prioridades da agenda externa dos EUA. Palavras-Chave: Estados Unidos. National Security Strategy. 11 de Setembro. ABSTRACT This paper seeks to make a comparative analysis of the American National Security Strategies published by the National Security Council in the post September 11th, in order to identify, through this content, changes and continuities in the U.S. rhetorical and empirical positioning during the last ten years, especially in what concerns the concept of threats, the characterization of potential "enemies" and the general perspective of the priorities of American foreign agenda. Keywords: United States. National Security Strategy. September 11th. 1 Fernanda Magnotta Endereço eletrônico: <[email protected]>. Lucas Leite endereço eletrônico: <[email protected]>. Anais do III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.unesp.br/santiagodantassp 1 III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) 8 a 11 de Novembro de 2011 ISSN 1984-9265 INTRODUÇÃO Entre as grandes dúvidas que rodeiam os episódios de 11 de setembro paira, ainda hoje, a discussão quanto à sua própria significação histórica: “em que medida o 11/09 teria inaugurado uma nova era” é mais uma das tantas questões que permanecem em aberto. Ao debruçar-se sobre este fato há dez anos, ainda no calor dos acontecimentos, Barry Buzan (2002) desconfiava das implicações que os atentados ao World Trade Center e ao Pentágono teriam para o estudo das relações internacionais dali por diante. De acordo com a perspectiva deste e de outros autores, tais acontecimentos não representavam uma real ruptura da ordem vigente e estavam despidos do fator transformador que havia se manifestado ao final da Segunda Guerra Mundial, durante as chamadas “revoluções do terceiro mundo” ou mesmo com o fim da Guerra Fria. Pouco mais de uma década depois, ainda que o movimento de inflexão de maior grandeza a afligir o mundo seja a crise da economia global e que, no limite, guarde pouca ou nenhuma relação com os atentados de 2001, é possível considerar, na contramão do ceticismo inicial, que o 11 de setembro gerou impactos que, quando olhados em perspectiva, merecem atenção e estudo. Para além da esfera econômica, não parece exagero considerar as conseqüências provocadas pela resposta dos EUA aos atentados em pelo menos três áreas: no campo da doutrina militar, no plano geopolítico e, acima de tudo, na reorientação da política externa norte-americana. Entre 2001 e 2011 foram trazidas a tona discussões sobre a mudança na forma de fazer a guerra, na mesma medida em que a emergência dos chamados conflitos assimétricos ganhou espaço na agenda internacional. Além disso, iniciou-se uma nova fase de ocupação do Oriente Médio através das invasões do Afeganistão em 2001 e do Iraque em 2003 que, inclusive, reascenderam discussões ainda mais amplas, como a normatividade da própria ONU, que mesmo contrariando a ida ao território iraquiano por parte dos EUA, não foi capaz de impedir a incursão no país. Isso para não falar da chamada “guerra contra o terror” propriamente dita que passou a balizar a inserção internacional dos EUA a partir de então: em meio a conceitos como os de “guerra preemptiva” e “guerra preventiva”, ao combate enfático das armas de destruição em Anais do III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.unesp.br/santiagodantassp 2 III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) 8 a 11 de Novembro de 2011 ISSN 1984-9265 massa, à caçada às redes terroristas e aos seus patrocinadores, à exaltação dos valores e símbolos norte-americanos, os dez anos que sucederam os ataques de 11 de setembro renderam uma infinidade de polêmicas e inauguraram uma era de, no mínimo, novas preocupações em termos de segurança e defesa para o país. Na verdade, desde que foram alçados à categoria de superpotência mundial, os Estados Unidos enfrentam o “desafio da longevidade de sua hegemonia”, como sugeriu Paul Kennedy (1989). Não à toa, o país busca reconfigurar, de tempos em tempos, a “grande estratégia” que norteia seu posicionamento externo, movimento que é ainda mais flagrante diante de ameaças à sua integridade. Este trabalho pretende, portanto, contemplar tais processos e discutir a inserção norteamericana ao longo dos últimos dez anos. Por meio de uma análise comparativa das Estratégias de Segurança Nacional (National Security Strategy) publicadas pelo National Security Council no período pós-11 de Setembro e de sua contraposição às medidas empíricas, pretende-se identificar mudanças e continuidades no posicionamento retórico e prático dos norte-americanos ao longo da última década, especialmente no que diz respeito à concepção de ameaças, à caracterização de determinados Estados como “inimigos” em potencial e as prioridades da agenda externa norte-americana. O NATIONAL SECURITY COUNCIL E A FORMULAÇÃO DA POLÍTICA EXTERNA NORTE-AMERICANA O National Security Council (NSC) compreende o principal órgão responsável pela construção das Estratégias de Segurança Nacionais dos Estados Unidos e ao ter ligação direta com o Poder Executivo, aqui entendido especialmente como o presidente norte-americano, ajuda a definir quais os objetivos e metas do país no que se refere às questões de segurança externa e interna. Trata-se de uma instância criada pelo ex-presidente Harry Truman em resposta ao que se percebia como a necessidade de atualizar as instituições do país às novas ameaças que então surgiam depois da Segunda Guerra Mundial, especialmente o que concernia à expansão da União Soviética. Em 26 de julho de 1947, por meio da assinatura do National Security Anais do III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.unesp.br/santiagodantassp 3 III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) 8 a 11 de Novembro de 2011 ISSN 1984-9265 Act2, que previa ainda outras instituições (inclusive a que viria a se tornar o Departamento de Defesa alguns anos depois), o NSC foi estabelecido com a função de ajudar na formulação da estratégia nacional em relação à segurança e defesa do país – naquele momento algo inseparável da política externa (BROWN, 2008). Desde sua criação, o NSC passou por mudanças e adaptações de acordo com a conjuntura histórica e o perfil do Executivo e do Legislativo norte-americanos, mas mantevese relevante no processo de formulação da política norte-americana. Atualmente, os principais integrantes do National Security Council compreendem o presidente (que lidera as reuniões), o vice-presidente, o secretário de Estado, o secretário de Defesa e o secretário de Energia, além do Conselheiro de Segurança Nacional, e outros que podem ser convocados a participar das reuniões a depender da pauta3. É o caso, por exemplo, dos responsáveis pelos setores de Inteligência e Segurança Interna (especialmente após o 11 de Setembro e a partir da criação do Departamento de Segurança Interna pelo ex-presidente George W. Bush), além de Subsecretários de áreas consideradas “sensíveis”. A estrutura geral do órgão, no entanto, segue a seguinte organização4: 2 Disponível em: <http://intelligence.senate.gov/nsaact1947.pdf> Acesso em 17/10/2011. 3 Listagem retirada do website oficial: <http://www.whitehouse.gov/administration/eop/nsc/> Acesso em 17/10/2011. 4 Retirado de FEITH, 2008: 531. Anais do III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.unesp.br/santiagodantassp 4 III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) 8 a 11 de Novembro de 2011 ISSN 1984-9265 Os problemas relacionados à definição das funções precípuas do órgão, como a confusão entre questões de Defesa e questões de Política Externa, fizeram com que houvesse uma separação dessas áreas nos seus respectivos departamentos, deixando para o NSC a função de se tornar um ambiente anexo de consultoria presidencial. Isso, no entanto, variou bastante ao longo dos anos e de acordo com o perfil de cada presidente (BROWN, 2008). Como exemplo de decisões históricas importantes tomadas no âmbito do National Security Council é possível citar as resoluções NSC-205 e NSC-686, que de acordo com Pecequilo (2005), marcam o contexto da contenção na política externa dos Estados Unidos e “as 5 Disponível em: <http://www.mtholyoke.edu/acad/intrel/coldwar/nsc20-4.htm> Acesso em 17/10/2011. 6 Disponível em: <http://www.mtholyoke.edu/acad/intrel/nsc-68/nsc68-1.htm> Acesso em 17/10/2011. Anais do III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.unesp.br/santiagodantassp 5 III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) 8 a 11 de Novembro de 2011 ISSN 1984-9265 prioridades e ações a ela associadas definem o padrão contemporâneo das relações internacionais norte-americanas” (p.144). Além disso, a preponderância do órgão se dá na medida em que diversos presidentes preferiram ouvir seus conselheiros no NSC na hora de tomar determinadas decisões e formular a estratégia do país do que delegar aos Departamentos de Defesa e Estado separadamente a confecção de documentos. Individualmente, o Conselheiro de Segurança Nacional seria um membro do Executivo que teria poderes de acordo com as delegações de cada presidente Por isso, questões políticas e de personalidade dividiriam o escopo do processo de decisão nos Estados Unidos uma vez que mesmo com a existência de Departamentos exclusivos para a criação de documentos em cada área, ainda assim seria necessário certo “afastamento” do presidente norte-americano para que pudessem operar com a liberdade necessária (FEITH, 2008). Dessa forma, haveria uma tênue linha entre o caráter consultivo do NSC e seu poder de decisão. Feith (2008) afirma que na primeira reunião do NSC após os atentados do 11 de Setembro, Rumsfeld e Wolfowitz7 advogaram por uma resposta norte-americana mais ampla, enquanto integrantes do Departamento de Estado argumentaram pelo contrário, por uma resposta mais específica para o caso em questão e que envolvesse a menos mobilização possível. Surge daí a discussão sobre se o foco da estratégia norte-americana deveria focar apenas na Al Qaeda afegã ou ser empreendida em torno de um esforço contra-terrorista global. Ainda de acordo com Feith (2008), um dos pressupostos de criação das National Security Strategy (NSS) no governo Bush, documentos que passaram a ser publicados periodicamente pelo NSC desde então, é de que teria havido grande influência de um gabinete mais ligado ao Departamento de Defesa, de modo que este teria trabalhado junto ao NSC de forma muito mais assertiva que o Departamento de Estado. “Eles8 queriam que seus colegas do Conselho de Segurança Nacional e o público apreciassem que [o] problema estratégico não poderia ser resolvido simplesmente atacando a Al Qaeda ou derrubando o Talebã” (FEITH, 2008: 20, tradução nossa9). De acordo com esta perspectiva, teriam partido daí explicações 7 Ambos ligados ao Departamento de Defesa. 8 Donald Rumsfeld e Dick Cheney. 9 T.A.: They wanted their National Security Council colleagues and the public to appreciate that this strategic problem could not be solved simply by hitting Al Qaeda or overthrowing the Taliban. Anais do III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.unesp.br/santiagodantassp 6 III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) 8 a 11 de Novembro de 2011 ISSN 1984-9265 em relação ao caráter belicoso e unilateral das Estratégias de Segurança Nacionais de 2002 e 2006 e as discussões entre os ocupantes de cada cargo (especialmente em relação às diferenças entre Donald Rumsfeld e Colin Powell10). Tendo em vista, portanto, a centralidade deste órgão e de suas publicações, duas no governo Bush e uma terceira sob a administração Obama, uma análise cuidadosa desta documentação quando confrontadas com as políticas práticas dos norte-americanos permite trazer a tona nuances interessantes de inserção do país nos últimos anos. NSS 2002 – 2006: A CONFORMAÇÃO DA DOUTRINA BUSH No discurso imediato aos atentados terroristas de 11 de setembro11, o então presidente Bush procurava enaltecer as qualidades de seu povo contrapondo-as a atributos negativos dos terroristas. Naquele contexto, os ataques eram construídos como atos irracionais e cruéis, que visavam contrapor-se aos princípios norte-americanos e confrontar seu “espírito de liberdade” e seu “propósito de civilização”. Pouco mais de um ano após os atentados de 11 de setembro de 2001 foi publicada, em Washington, a primeira Estratégia de Segurança Nacional do governo W. Bush. Tratava-se do amadurecimento daquela se consolidaria como “doutrina Bush”. O documento, trazido ao público pelo National Security Council em 17 de setembro de 2002, contava com uma introdução redigida e assinada pelo então presidente e revelava as preocupações centrais da política de segurança dos EUA naquele momento. Apesar da abrangência do documento, que por vezes se debruça também sobre questões econômicas, ligadas ao regionalismo ou às questões humanitárias, é inevitável notar a preponderância conferida às medidas contentoras das chamadas „novas ameaças‟, então materializadas por meio do combate ao terror. 10 Rumsfeld teria defendido linhas de ações mais ligadas ao pensamento neoconservador, que pregava ações diretas unilaterais dos EUA onde pudesse existir uma “ameaça”, enquanto Powell preferiria uma posição mais realista e defensiva em relação aos interesses norte-americanos, optando pela ação apenas em casos de “real” necessidade ou iminente ameaça. 11 Disponível em: <http://georgewbush-whitehouse.archives.gov/news/releases/2001/09/20010911-16.html> Acesso em 14/10/2011. Anais do III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.unesp.br/santiagodantassp 7 III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) 8 a 11 de Novembro de 2011 ISSN 1984-9265 Neste contexto, reafirma-se que a garantia da estabilidade e da segurança do planeta dependeria dos EUA, pelo seu poderio militar e econômico, que lhe conferiam o “dever” de agir em defesa da ordem global (NSS, 2002, 2006). Os EUA teriam, portanto, a responsabilidade de lidar com a tarefa de serem os defensores dos ideais civilizatórios, representados através da democracia e da liberdade, principalmente. Bush, em muitos de seus discursos, à época, ressalta que o papel norte-americano como defensor desses ideais está conectado com a oportunidade que o “momento” sugere. Isso tem ligação estreita com o pensamento neoconservador de um “novo século americano”, com a manutenção do poderio militar e econômico de sua nação e a necessidade de aproveitar os benefícios de ser a única superpotência no mundo, responsável por disseminar seus valores ao resto do planeta (PECEQUILO, 2005; TEIXEIRA, 2010). Em sua NSS de 2002, portanto, ao exaltarem o modelo político e econômico dos EUA e associarem liberdade, democracia e livre iniciativa aos valores vencedores do século XX, quando o “totalitarismo destrutivo” teria dado espaço para a igualdade (NSS, 2002: 01), o documento deixa claro que, para os americanos, o desenvolvimento e a prosperidade dos países apenas podem ser alcançados a partir destes princípios e que, mais do que isso, o seu desrespeito configura motivo suficiente para diferenciar “aliados” de “inimigos”. A idéia de contraposição a um “inimigo” em si configura-se um ponto central na discussão da política externa e política de segurança e defesa dos EUA ao longo de sua história. Desde que foram alçados à categoria de superpotência mundial, após a Segunda Guerra, os norte-americanos conduziram a conformação da ordem internacional baseando-se em três elementos: capacidades materiais, idéias e instituições (COX, 1986; PECEQUILO, 2005). Se as primeiras, relacionadas aos recursos concretos de poder, já se encontravam asseguradas aos EUA em função das disparidades geradas pela guerra e, as últimas, consideradas o aspecto formal da hegemonia (ARRIGHI, 1996), tornavam-se claras a partir das estruturas multilaterais e regimes internacionais que, sob liderança americana, se estabeleciam a partir de então (RUGGIE, 1992), a necessidade intermediária – ligada ao plano das idéias – sempre fora mais abstrata, já que envolve a criação de um projeto político capaz de consolidar uma visão de mundo e de gerar convencimento. Em 1947, a resposta norte-americana para esta questão veio por meio da elaboração da Doutrina Truman e da conseqüente identificação do comunismo soviético como o novo Anais do III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.unesp.br/santiagodantassp 8 III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) 8 a 11 de Novembro de 2011 ISSN 1984-9265 inimigo a ser combatido. Mais tarde, com o esfacelamento da URSS e o fim da Guerra Fria, a busca por um novo opositor mostrou-se mais difusa e quando todos os indícios apontavam para a emergência da China: em 11 de setembro de 2001, os norte-americanos viram-se constrangidos por outra ameaça, o terrorismo transnacional (LIMA, 2005). Assim, embora o maniqueísmo bem/mal tradicional ainda estivesse presente nos discursos do presidente Bush e nos documentos oficiais de seu governo como forma de afirmação da contraposição, o inimigo havia se diferenciado em muito da perspectiva assumida no passado. Antes, segundo a própria NSS, o combate demandava grandes exércitos e ampla capacidade industrial. No contexto do século XXI, “as redes sombrias de indivíduos”, como eles designaram, somadas às tecnologias modernas, teriam permitido “gerar grande caos por um preço muito inferior ao de um único tanque de guerra”. O inimigo, portando, passava a remeter aqueles que poderiam representar uma ameaça ao “mundo civilizado” e à segurança internacional (HOBSBAWM, 2007). Na mesma medida, conceitos como a „dissuasão‟, empregados durante a Guerra Fria, mostravam-se falhos na luta ao terror, cujos métodos de combate fogem aos convencionais. O objetivo central da conduta norte-americana estava, neste contexto, em destruir organizações terroristas de alcance global e atacar sua liderança, comando, controle, comunicação, suporte material e financeiro, pois essa seria uma forma de afetar sua habilidade de planejar e operar (NSS, 2002: 05). Além disso, em 2002, os EUA formalizaram os conceitos de guerra preventiva e guerra preemptiva, já apregoados pelo presidente em vários de seus discursos anteriores. Tratava-se da opção, por parte dos norte-americanos, de agir unilateralmente quando necessário, mesmo que por meio de intervenções e conflitos diretos, dispondo-se a atuar de forma ofensiva contra os inimigos antes mesmo que estes pudessem atacá-lo, ou ainda dispondo-se a atuar contra os inimigos de quem as ameaças fossem consideradas iminentes, exigindo medidas emergenciais e drásticas (BOIO, 2009; TEIXEIRA, 2007). Tal construção discursiva objetiva criar um fundo de medo, especialmente pela possibilidade de novos ataques – que poderiam ser evitados apenas por uma ação norteamericana mais forte e incisiva (KAUFMANN, 2004). Conforme explicita o documento A estratégia de segurança nacional dos EUA, dado a conhecer pela Casa Branca no mês de setembro de 2002, a contenção e a dissuasão, que nortearam as relações exteriores nas décadas da Guerra Fria, perdem centralidade para a preempção e a prevenção, o que justifica ataques a Estados e organizações suspeitos suspeitas de planejar atos hostis contra o país e seus aliados. (AYERBE, 2006: 38, grifo do autor) Anais do III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.unesp.br/santiagodantassp 9 III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) 8 a 11 de Novembro de 2011 ISSN 1984-9265 Assim, ainda que a própria NSS tenha reconhecido, em 2002, a necessidade de lidar com a ameaça terrorista de forma diferenciada, a resposta dos EUA aos ataques de 11/09 já havia tido início um ano antes com a invasão do Afeganistão, sob a justificativa de que o governo Talibã abusava do seu povo, ameaçava seus vizinhos e era responsável por abrigar e financiar a rede terrorista Al Queada, liderada por Bin Laden. Esta medida, mais do que gerar implicações regionais, levou a consolidação de outro pilar fundamental da Doutrina Bush: o combate aos chamados “rogue states”, que embora já tivessem sido discutidos durante o governo Clinton, ganhavam, neste contexto, um sentido especial. Além da caçada ao “inimigo sem rosto”, os norte-americanas passavam a assumir que estados fracos poderiam funcionar como unidades desestabilizadoras, já que a pobreza, associada às instituições fracas e à corrupção permitem torná-los países vulneráveis à ação de redes terroristas (NASSER & TEIXEIRA, 2010). Neste sentido, o governo Bush, que inicialmente havia reagido apenas contra o Afeganistão, passou a incluir em suas manifestações políticas a preocupação com o Irã, Iraque e Coréia do Norte, referindo-se a eles por meio da expressão “Eixo do Mal” e enfatizando a necessidade de controlar especialmente o seu acesso às chamadas armas de destruição em massa: Hoje, o perigo mais grave na guerra ao terror, o mais grave perigo que afronta a América e o mundo, são os regimes foras da lei que procuram e possuem armas nucleares, químicas e biológicas. Esses regimes poderiam usar essas armas para chantagear, aterrorizar, e praticar assassinatos em massa. Eles ainda poderiam ceder ou vender esses armamentos aos aliados dos terroristas que poderiam usá-las sem a 12 menor hesitação (BUSH, 2003, tradução nossa ). Bush acreditava estar cumprindo a missão que havia anunciado poucos dias após o 11/09, de que “a responsabilidade da América para com a história estava em responder aos ataques e livrar o mundo do mal” (BUSH, 2001). O próprio presidente se colocava, neste contexto, como um dos responsáveis pela mudança de seu tempo e chegou a comparar os seus esforços e os da nação com episódios históricos, de forma a tornar seu argumento mais convincente e mostrar a capacidade da ação sob o pretexto de que se outros foram bemsucedidos no passado, naquele momento também era possível. 12 T.A.: “Today, the gravest danger in the war on terror, the gravest danger facing America and the world, is outlaw regimes that seek and possess nuclear, chemical, and biological weapons. These regimes could use such weapons for blackmail, terror, and mass murder. They could also give or sell those weapons to terrorist allies, who would use them without the least hesitation” (Bush, 2003) Anais do III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.unesp.br/santiagodantassp 10 III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) 8 a 11 de Novembro de 2011 ISSN 1984-9265 Tratava-se da retomada do conceito de “nação indispensável”, perene na construção da identidade norte-americana, e proclamada anos antes por Madeleine Albright13. Nesta medida, a luta contra terroristas e tiranos representava, aos olhos dos EUA, a criação de uma balança de poder que favorecia a “liberdade humana”, na qual prevalecia a necessidade de promover, para o além fronteiras, “a regulação da lei, os limites do poder absoluto do estado, a liberdade de expressão, a liberdade de adoração, a justiça igualitária, o respeito às mulheres, a tolerância religiosa e étnica e o respeito à propriedade privada” (NSS, 2002: XX; 03, tradução nossa). A “ação”, premissa básica da garantia de segurança dos Estados Unidos é justificada então pelo curso dos acontecimentos e o intervencionismo norte-americano passa a ver-se ligado a ações unilaterais. Utilizando-se desta retórica, inclusive, os norte-americanos empreenderam, em 2003, também a invasão do Iraque, que foi seguida da deposição, julgamento e morte do ditador Saddam Hussein. A Estratégia de Segurança Nacional que sucedeu o documento de 2002, lançada quatro anos depois, com a reeleição de Bush, portanto, trouxe, para além das preocupações anteriores, também as apreensões de uma “América em guerra” (NSS, 2006: XX). Quando comparada à sua versão anterior, a NSS de 2006 persiste tratando o combate ao terrorismo como o grande desafio para os EUA e reforça, uma vez mais, o compromisso do governo norte-americano com a disseminação de valores como a liberdade, a democracia e a dignidade humana. A luta contra o Iraque, nesta perspectiva, enfatiza a noção de uma “guerra de idéias” e representa a tentativa de assegurar um país mais unido, estável e democrático que, no limite, possa servir como novo aliado na guerra contra o terror dada sua localização em posição estratégica dentro do Oriente Médio (NSS, 2006: XX; 14). A outra frente de prioridade da agenda, a luta contra a tirania e as armas de destruição em massa, novamente é trazida à tona pelo documento e, no vácuo da própria invasão iraquiana, ganha mais espaço nesta publicação, apresentando quase que um discurso legitimador. Na NSS de 2006 os EUA deixam claro que, no Sistema Internacional do século XXI, o caráter dos regimes políticos é considerado, por eles, tão importante quanto a distribuição de poder entre os países (NSS, 2006: 06). Saddam Hussein é acusado, de acordo com esta perspectiva, de ter desafiado dezesseis resoluções do Conselho de Segurança da ONU por mais de doze anos, além de ter invadido países vizinhos, oferecido apoio a 13 Secretária de Estado durante o governo Clinton. Anais do III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.unesp.br/santiagodantassp 11 III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) 8 a 11 de Novembro de 2011 ISSN 1984-9265 terroristas, oprimido o seu povo e utilizado armas químicas, representando, assim, uma ameaça que não poderia mais ser ignorada (NSS, 2006). A possibilidade intervenção no Iraque não era recente. Para não mencionar o envolvimento histórico com EUA com o país, já durante 2002, decorrido pouco tempo da incursão no Afeganistão, a possibilidade de mais uma investida na Ásia Central começava a ser cogitada. Neste contexto, membros da administração Bush, particularmente o Secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, e o vice-presidente, Dick Cheney, fazendo coro às publicações e think tanks neoconservadores passaram a associar o regime de Saddam à rede terrorista Al Qaeda (KAUFMANN, 2004; TEIXEIRA, 2010). A ligação do regime iraquiano com terroristas, portanto, apareceu como a primeira tentativa de adotar um discurso de construção de Saddam como outro terrorista. No entanto, o governo norte-americano não conseguiu convencer o público dessa ligação e teve que adotar uma mudança no seu discurso, passando a enfatizar que a posse de armas de destruição em massa caracterizaria uma ameaça ainda maior a ser combatida (DAVIDSON et al, 2008). O discurso em prol da expansão da democracia é um dos principais pontos de toda a argumentação em torno da necessidade de intervenção em determinados países. Dessa forma, é esperado que a intervenção nesses países sirva de exemplo e acarrete a mudança de regime nos países vizinhos. A democracia seria o fator desencadeador da liberdade, que resultaria na paz e estabilidade interna e com os vizinhos – se democráticos. Neste sentido, o governo Bush buscou reforçar a contraposição entre o modelo democrático representado pelos EUA e a tirania, em torno da qual a guerra contra o terror se desenvolvia. Indo um pouco além na discussão sobre os “rogue states”, a NSS de 2006 acusa estes Estados de promoverem “alienação política, conspiração, desinformação e a utilização da ideologia como forma de justificar a morte”, colocando como foco da intervenção norteamericana “a participação democrática, o respeito do Direito, a resolução pacífica de conflitos, a liberdade e a preservação dos direitos humanos” (NSS, 2006: 15). Novamente a preocupação com a Coréia do Norte e Irã é reforçada e, no novo contexto, acrescenta-se a menção a países com Síria, Cuba, Bielorrússia, Mianmar e Zimbábue. A causa da democracia seria, portanto, a garantia da paz – em outras palavras, a manutenção do status quo norte-americano. O que se pretende seria uma “paz democrática”, uma vez que os países da região fossem todos democráticos, eles se guiariam por valores comuns da “civilização”, e não buscariam dominar ou agredir seus vizinhos. A ligação entre Anais do III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.unesp.br/santiagodantassp 12 III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) 8 a 11 de Novembro de 2011 ISSN 1984-9265 paz e democracia não é uma novidade do governo Bush, mas o argumento da paz democrática é usado diversas vezes nas suas duas NSS (2002; 2006). Além disso, o documento busca fazer um balanço sobre os avanços obtidos nas operações do Afeganistão e Iraque e demonstra a preocupação dos norte-americanos com o reforço das alianças tradicionais, mencionando os parceiros europeus e a OTAN, as relações hemisféricas com o Canadá e o México, além de Egito e Arábia Saudita na contraposição a Irã e Síria. Ademais, neste contexto, tanto o documento de 2002 quanto a publicação de 2006 refletem as prioridades dos neoconservadores14 no que concerne aos aumentos no orçamento da Defesa e modernização das Forças Armadas. Isso se deve à crença de que para que os Estados Unidos possam continuar a exercer seu poder no cenário internacional, é preciso que tenham, além de uma economia forte, Forças Armadas bem equipadas e prontas para servir em quantas frentes forem necessárias. O discurso da NSS de 2002 já havia ressaltado o investimento na área da Defesa e Inteligência como formas de evitar futuros ataques terroristas e prover as Forças Armadas da melhor maneira. Em 2003, um projeto mais ousado de investimento militar é citado pelo presidente Bush, retomando um antigo discurso do presidente Reagan conhecido como “Guerra nas Estrelas”. Esse projeto teria o objetivo de implantar um escudo antimísseis na Europa a fim de proteger os Estados Unidos e seus aliados. No governo de Reagan, o sentido de seu discurso se baseava na ameaça soviética e na possibilidade de ação desde país em avançar em relação aos europeus, especialmente por causa de seu grande arsenal nuclear (PECEQUILO, 2005). A justificativa de Bush procurava então demonstrar que se armas de destruição em massa caírem nas mãos de grupos terroristas e seus Estados patrocinadores, o risco seria o mesmo, sendo essencial garantir esse tipo de proteção. A inexistência de rupturas marcantes da NSS de 2006 em relação à NSS de 2002 era esperada, uma vez que ambas refletiam as diretrizes de um mesmo governo, cujas variações de cargos de liderança não implicaram grandes transformações na política de segurança dos EUA, a começar pelo próprio Secretário de Defesa que foi inicialmente mantido. A guerra ao 14 Para compreender o fenômeno do neoconservadorismo na política exterior dos Estados Unidos, sugerimos a leitura do seguinte artigo: Teixeira, Carlos Gustavo Poggio. Quatro temas fundamentais do pensamento neoconservador em política externa. Revista Brasileira de Política Internacional. Vol. 50 No. 2, pp.80-96, 2007. Anais do III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.unesp.br/santiagodantassp 13 III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) 8 a 11 de Novembro de 2011 ISSN 1984-9265 terror como plataforma de política externa permaneceu rediviva, bem como o discurso intervencionista em prol da democracia e dos princípios liberais. NSS 2010: OBAMA E A PROMESSA DE MUDANÇA A saída dos Republicados do poder, no entanto, representou a possibilidade de mudança. Lançando mão de um discurso renovador, Barack Obama chegou à presidência dos EUA em 2009 e, em meio ao compromisso de lidar com a economia caótica, prometeu pôr fim às guerras do Afeganistão e Iraque, além do fechamento da polêmica prisão de Guantánamo. Ao ter dado uma guinada unilateral em direção ao realismo em função dos ataques terroristas, o governo norte-americano havia deixado de atuar, do ponto de vista estratégico, de acordo com a dupla barganha liberal-realista que havia marcado a tradição dos EUA desde os anos 1940 (IKENBERRY, 2001). Assim, o desgaste político e econômico gerado pela face militar da administração Bush demandava, do novo presidente, uma nova série de políticas de comprometimento universal para que o país pudesse resgatar parte da legitimidade perdida e, no limite, para que também pudesse conter uma espécie de soft balancing que se manifestava, contra dos EUA, ao redor do mundo (PAPE, 2005). Neste sentido, a administração Obama não representava apenas uma reação à Doutrina Bush, mas um acerto de contas com a história: os EUA poderiam finalmente voltar ao eixo do pós Guerra Fria e articularem-se em favor de uma nova ordem internacional despida dos contornos puramente ligados ao terror. Tamanha expectativa, associada às condições conjunturais e estruturais que assolavam o país, ressoaram, portanto, em uma Estratégia de Segurança Nacional potencialmente diferente daquelas publicadas por seu antecessor. As diferenças, para além da linguagem e da formatação do texto publicado, estavam na busca de um novo tom para o tratamento de velhas questões e, no limite, o documento demonstrava uma sensível mudança de foco. Embora fosse inevitável desenvolver uma discussão que repousasse sobre as guerras empreendidas, a NSS de 2010 trouxe como questão central a necessidade de renovação nacional por parte dos EUA associada à reestruturação de sua liderança global. O governo americano, por meio do que denominou “building our foundation” deixava claro que almejava, a partir de então, uma estratégia que fosse capaz de Anais do III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.unesp.br/santiagodantassp 14 III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) 8 a 11 de Novembro de 2011 ISSN 1984-9265 reconstruir a base da força e da influência dos EUA, ao mesmo tempo em que reconhecia que isso só seria possível, em um primeiro momento, por meio do tratamento de questões domésticas, particularmente no plano econômico. Neste contexto, o terrorismo perde parte de seu protagonismo e os “rogue states” passam a ser denominados “failed states”, sendo colocados pelo documento, por exemplo, na mesma chave que o crime organizado global (NSS, 2010: 16). Ademais, os estados falidos aparecem inseridos como parte da estratégia de liderança dos EUA para criar uma “nova ordem internacional”. É importante ressaltar, no entanto, que a NSS de 2010 repete a lógica já apresentada anteriormente de que a pouca estabilidade política pode ameaçar os EUA, reforçando a necessidade de investir no pós-conflito no Afeganistão e no Iraque, além de acrescentar de forma consideravelmente enfática o Paquistão como ameaça. Os próprios episódios do 11/09 aparecem também relativizados: são tidos como fruto da globalização, como o “lado negro” da interconexão e da mobilidade. Em geral, percebe-se uma ênfase do documento no que tange às características do novo mundo do século XXI: a necessidade de reconhecer atores não estatais, os desafios assimétricos e a questão cibernética, por exemplo, ganham uma dimensão não verificada nos documentos anteriores. Na mesma medida apesar de considerar as forças armadas fundamentais para a segurança dos EUA, a NSS de 2010 considera que elas não são suficientes para garantir a estabilidade internacional, mas que precisam ser complementadas pela atuação da diplomacia, do setor privado e das pessoas. Além disso, o documento enfatiza a consciência, por parte do governo dos EUA de que agir sozinho pode levar ao overextending do poderio americano, de modo que é preciso mobilizar coalizões e investir na ação coletiva desde o fortalecimento das velhas alianças (na Europa, Ásia, América e Oriente Médio) quanto na modernização das mesmas para atender aos novos desafios, especialmente através de uma parceria mais efetiva com os emergentes: China, Índia, Brasil, África do Sul e Indonésia (NSS, 2010: 11). Esta é um ponto de diferenciação importante em relação ao primeiro documento do governo Bush, quando em 2002, a menção a países como China e Rússia vinha acompanhada de certas restrições. Naquela NSS, os EUA reconheciam a emergência destas potências, mas enfatizavam a necessidade de estes países conduzissem políticas e valores compatíveis aos norte-americanos para que de fato fossem considerados aliados. Anais do III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.unesp.br/santiagodantassp 15 III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) 8 a 11 de Novembro de 2011 ISSN 1984-9265 O reforço ao princípio democrático, seguindo o padrão histórico, também se dá na NSS de 2010, bem como a preocupação com a questão das armas nucleares, agora ainda mais ampliada. Neste âmbito chega a mencionar a ratificação de um novo acordo START com a Rússia, o compromisso com o reforço ao acordo de não proliferação nuclear e da contenção enfática de ameaças como Irã e Coréia, o primeiro no sentido de bloquear o acesso às armas e o segundo no sentido de promover sua desnuclearização. Qualquer análise que se limitasse, portanto, ao estudo da prática discursiva e da verificação documental entre as NSS dos governos Bush e Obama facilmente poderia incorrer na conclusão de que ambos, embora compartilhassem interesses ligados a segurança, prosperidade e disseminação dos valores americanos são diametralmente diferentes, especialmente no que concerne o “tratamento do inimigo”, a busca de legitimidade, a aplicação do multilateralismo e o reconhecimento de uma nova ordem internacional mais inclusiva e diversificada, elemento que aparece com força na publicação da administração mais recente. As rupturas, porém, para além da retórica, quando analisadas em perspectiva histórica justificam a frustração de expectativas para com o governo Obama. Entre as demonstrações de continuidade na área de segurança está o fato de que pela primeira vez em sua história, os EUA mantiveram, mesmo diante da transição de presidentes de partidos opostos, seu Secretário de Defesa, cargo então ocupado por Robert Gates e que apenas em julho de 2011 foi substituído por Leon Panetta. Além disso, o governo democrata, assolado por uma crise econômica sem precedentes, apesar de ter capturado e matado Osama Bin Laden, cujo símbolo era central na luta contra o terror, continuou apresentando um futuro incerto para as malfadadas guerras do Afeganistão e Iraque e para outras questões centrais da agenda estabelecida na NSS de 2010. Os EUA não apenas foram incapazes de deixar o Afeganistão dentro dos limites estipulados, como, ao completar seu décimo ano, elevaram-na ao posto de guerra mais longa da história do país. No final de 2009, enquanto, as palavras do discurso de Obama ao receber o prêmio Nobel da Paz ainda ecoavam o conceito de “guerra justa”, 30 mil militares foram enviados como reforço adicional15 e em 2010 o país mantinha três vezes mais soldado no 15 Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/mundo/933863-pressionado-obama-opta-por-acelerarretirada-do-afeganistao.shtml>. Acesso em 08/10/2011. Anais do III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.unesp.br/santiagodantassp 16 III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) 8 a 11 de Novembro de 2011 ISSN 1984-9265 Afeganistão do que quando Obama assumiu16. Em junho de 2011, os EUA ainda mantinham cerca de 100 mil militares em suas operações no país e a retirada completa das tropas está prevista apenas para 2014. Ao mesmo tempo, enquanto Obama anunciava a saída total das tropas americanas do Iraque, em 30 de agosto de 2011, diretamente do Salão Oval da Casa Branca, o país passava pela situação mais violenta dos últimos dois anos: de acordo com números oficiais disponibilizados pelo governo iraquiano naquela ocasião, apenas em julho, tinham sido mortos 396 civis, 50 soldados iraquianos e 89 policiais17. A questão de Guantánamo também se impôs sobre o governo Obama. O prazo de fechamento da prisão, estabelecido pelo próprio presidente em 22 de janeiro de 2010 se encerrou sem que a promessa fosse cumprida e sem novas imposições de datas para tanto18. A continuidade veio também por meio do Ato Patriótico, que criticado durante a campanha presidencial, foi prorrogado por mais quatro anos por Obama em maio de 201119. Ademais, há quem acuse o atual presidente de contradizer o princípio da defesa legal assegurada aos terroristas no sentido de ter se empenhado para garantir a eliminação com mais rapidez dos capturados, uma vez que assim a necessidade de julgamentos também seria suprimida (KAGAN, 2010) e de ter ampliado o número de operações secretas no Oriente Médio20. Para completar, “estender a mão para as nações inimigas”, como o presidente havia sugerido em seu discurso de posse, não rendeu grandes frutos na relação com Coréia do Norte e Irã, levando, no segundo caso, a aplicação de sanções em junho de 2010. Com relação às grandes temáticas internacionais, ligadas especialmente a consolidação de uma nova ordem internacional, a atuação democrata pareceu tímida. Em parte 16 Disponível em: < http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/conforme-trecho-do-discurso-que-havia-sidoadiantado-retirada-sera-no-fim-do-mes>. Acesso em 08/10/2011. 17 Disponível em: < http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/conforme-trecho-do-discurso-que-havia-sidoadiantado-retirada-sera-no-fim-do-mes>. Acesso em 08/10/2011. 18 Disponível em: < http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,vence-prazo-que-obama-estipulou-parafechar-guantanamo,500179,0.htm>. Acesso em 08/10/2011. 19 Disponível em: < http://articles.latimes.com/2011/may/27/nation/la-na-patriot-act-20110527>. Acesso em 08/10/2011. 20 Disponível em: < http://www.nytimes.com/2010/05/25/world/25military.html>. Acesso em 08/10/2011. Anais do III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.unesp.br/santiagodantassp 17 III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) 8 a 11 de Novembro de 2011 ISSN 1984-9265 constrangidos pela situação interna do país, que atravessa um índice de desemprego de 10% e déficits gêmeos, os EUA não conseguiram liderar qualquer reforma nas estruturas de governança global, como a ONU, o FMI ou o Banco Mundial, e, a despeito do pronunciamento de Obama na Cúpula de Copenhague, em dezembro de 2009, os americanos não atingiram o consenso no que se refere ao aquecimento global e a um protocolo substituto a Kyoto. Obama neste sentido, portanto, parece ter inovado menos do que propunha a NSS em 2010. CONSIDERAÇÕES FINAIS Analisar a política externa de um país por meio da observação de pontos de mudança e continuidade tornou-se uma prática metodológica comum, entre outras questões, porque permite mapear o comportamento do Estado e diagnosticar o que se convencionou chamar de sua “grande estratégia” de inserção internacional. Ao considerar o papel histórico desempenhado pelo NSC na formulação de política externa dos EUA e ao analisar os documentos de segurança nacional publicados particularmente após os atentados terroristas de 11 de setembro contrapondo-os às práticas do governo à época e de seu sucessor, os resultados são interessantes. Legitimada pela condição de um “país em guerra”, a doutrina Bush, como ficou conhecida, priorizou o foco de ação em torno do chamado combate ao terror e, na esteira de duas guerras empreendidas, a primeira no Afeganistão (2001) e a segunda no Iraque (2003), inaugurou uma nova agenda para o país, que até então ainda parecia habituar-se à “nova ordem internacional” proclamada com o início dos anos 1990. Entre 2001 e 2009, a administração Bush valorizou tanto no plano discursivo quanto do ponto de vista empírico o resgate do conceito de nação indispensável, atribuindo grande peso à temática dos valores e colocando os EUA como responsáveis por erigir e sustentar uma ordem internacional estável e pacífica, entendida, neste contexto, a partir do combate aos denominados “rogue states” e às armas de destruição em massa, ao mesmo tempo em que se proclamavam as vantagens da democracia e do liberalismo vencedor da guerra fria. Para além das malfadadas investidas militares, que já teriam custado alguns trilhões aos cofres públicos norte-americanos, a conduta unilateral levada a cabo pela administração Anais do III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.unesp.br/santiagodantassp 18 III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) 8 a 11 de Novembro de 2011 ISSN 1984-9265 Bush teriam conduzido a um desgaste da imagem internacional dos EUA e somadas aos efeitos provocados pela crise econômica mundial conduziram, internamente, à busca por um modelo alternativo de abordagem na eleição de 2009. A chegada de Obama ao poder representava neste sentido a materialização de sua promessa de campanha: o começo de uma nova era para os EUA. Tanto os discursos do presidente eleito quanto a NSS em 2010 corroboravam para afirmar esta reordenação: ele prometeu lidar com as mazelas econômicas que assolavam o país, especialmente no que dizia respeito ao desemprego e ao déficit, além de retirar as tropas americanas do Oriente Médio, fechar a prisão de Guantánamo, fortalecer laços com antigos aliados, que, especialmente após a incursão no Iraque, haviam sido abalados, buscar uma nova forma de interagir com os países emergentes e, no limite, retomar a concepção do mundo pós-soviético de que era tempo de reerguer a ordem mundial. Decorrido quase que completamente o mandato de Obama, no entanto, é possível perceber que, se no plano retórico e, quiçá ideológico, sua administração procurou distanciarse de seu antecessor, no campo das ações seu governo representou uma série de continuidades. Apesar de amenizar o tom, as guerras continuaram e a retirada dos militares tem sido mais morosa do que o esperado, isso para não mencionar a renovação do Ato Patriótico, a manutenção da prisão de Guantánamo e a incapacidade, em grande parte fruto das dificuldades internas, de gerir grandes instituições ou regimes internacionais. Assim, se por um lado, parece exagero compartilhar do comentário de Donald Rumsfeld de que “o presidente Obama aceitou a Doutrina Bush”, por outro lado também é forçoso pensar que, decorridos dez anos dos atentados de 11 de setembro, inaugurou-se uma “nova era” nos EUA. Anais do III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.unesp.br/santiagodantassp 19 III Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) 8 a 11 de Novembro de 2011 ISSN 1984-9265 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARRIGHI, G. 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