Planejamento e Gestão em Saúde da Mulher Brasília-DF. Elaboração Ana Silvia Moccellin Fabio Alexandre Casarin Pastor Juliana Rodrigues Prada Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração SUMÁRIO APRESENTAÇÃO...................................................................................................................................... 4 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA.................................................................................. 5 Introdução.......................................................................................................................................... 7 unidade única PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER.......................................................................................... 9 capítulo 1 SUS e política de saúde nacional............................................................................................ 11 Capítulo 2 Características da assistência ao parto no Brasil.................................................................. 24 Capítulo 3 Preparo da mulher e da família para o parto, nascimento e amamentação................................ 33 Capítulo 4 Planejamento familiar e orientação anticoncepcional........................................................... 42 Capítulo 5 Violência à mulher................................................................................................................. 46 Capítulo 6 DST e AIDS em mulheres.......................................................................................................... 60 Capítulo 7 Aspectos éticos e legais da saúde da mulher......................................................................... 82 referências ...................................................................................................................................... 93 3 APRESENTAÇÃO Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 4 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam a tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta, para aprofundar os estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Pensamentos inseridos no Caderno, para provocar a reflexão sobre a prática da disciplina. Para refletir Questões inseridas para estimulá-lo a pensar a respeito do assunto proposto. Registre sua visão sem se preocupar com o conteúdo do texto. O importante é verificar seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. É fundamental que você reflita sobre as questões propostas. Elas são o ponto de partida de nosso trabalho. Textos para leitura complementar Novos textos, trechos de textos referenciais, conceitos de dicionários, exemplos e sugestões, para lhe apresentar novas visões sobre o tema abordado no texto básico. Sintetizando e enriquecendo nossas informações abc Espaço para você, aluno, fazer uma síntese dos textos e enriquecê-los com sua contribuição pessoal. 5 Sugestão de leituras, filmes, sites e pesquisas Aprofundamento das discussões. Praticando Atividades sugeridas, no decorrer das leituras, com o objetivo pedagógico de fortalecer o processo de aprendizagem. Para (não) finalizar Texto, ao final do Caderno, com a intenção de instigá-lo a prosseguir com a reflexão. Referências Bibliografia consultada na elaboração do Caderno. 6 Introdução O presente Caderno de Estudos e Pesquisa foi elaborado com o objetivo de propiciar conhecimentos acerca do contexto das ações de planejamento e gestão em saúde da mulher. A cada capítulo, pensamos nas horas que você dedica ao trabalho destinado às atividades educativas, bem como às práticas desenvolvidas no cotidiano de um ambiente universitário. Lembrando sempre de que você é protagonista da história que estamos construindo a partir de agora. Esta apostila lhes fornecerá uma visão integrada das ações em saúde da mulher, desde as políticas nacionais voltadas a este grupo até a intervenção e o planejamento de ações por uma equipe de saúde. Essas informações são essenciais para o profissional que deseja atuar, de forma integral, com a saúde da mulher. Bons estudos! Objetivos »» Fornecer conhecimento sobre os principais aspectos que envolvem a saúde da mulher nas diversas fases de sua vida. »» Apresentar os programas de atenção à saúde da mulher nos serviços básicos e discutir a situação atual dessa população no Brasil. »» Capacitar o aluno a refletir sobre as políticas públicas voltadas para a mulher em nosso país. »» Buscar a adequada inserção da mulher na comunidade. 7 unidade PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER única capítulo 1 SUS e política de saúde nacional . O que é Saúde? Podemos dizer que, em geral, as pessoas têm um determinado conceito de saúde. Esse conceito varia de indivíduo para indivíduo. Alguns vão defini-la em oposição à doença, dizendo que ter saúde é não estar doente. Outros vão relacioná-la a ter condições de trabalhar e ganhar o sustento ou desempenhar suas atividades cotidianas. Há, também, quem a associe a estar ou não feliz e, ainda, encontra-se quem associe a sua manutenção ou perda a fatores místicos ou até ao acaso. Esse conceito, portanto, é plural e varia conforme as variadas concepções de mundo e de como da percepção do nosso corpo em sua relação com o meio em que se vive e com os outros seres. Claro que os profissionais da área, devido à sua formação, conhecem o conceito da Organização Mundial de Saúde (OMS), que define saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de afecção ou doença”. Esse conceito, embora reflita avanços ao incorporar dimensões para além do corpo biológico, encerra, em si, impossibilidades, já que esse estado de completo equilíbrio é inalcançável na dinâmica da vida. Ele é, antes de tudo, uma meta a ser perseguida, por meio da qual se deve valorizar o processo da permanente busca de bem-estar na vida íntima e na sociedade à qual se pertence. A Organização Mundial de Saúde (OMS) foi fundada em 1948. É subordinada à Organização das Nações Unidas (ONU) com sede na Suíça e tem como meta ambiciosa “a obtenção, por todos os povos, do nível de saúde mais alto possível”. Sua principal área de atuação é a prevenção de doenças, em especial, nos países mais pobres e nos casos de ameaças de pandemias. Para se informar melhor sobre o trabalho da OMS, visite o site <http://www.who.int/en/>. Será abordado o conceito ampliado de saúde, encarando-a como resultante da forma de viver de um indivíduo, de um grupo ou de uma sociedade. É importante salientar que saúde e doença integram um processo dinâmico e que se inscrevem no corpo biológico e no corpo social. Saúde, portanto, é uma construção histórica e social e varia no tempo e no espaço em que se vive. Quando se pensa a saúde dessa forma, percebe-se que o grau de saúde será o somatório de fatores em um dado momento da vida e que esse somatório incluirá as condições de habitação, nutrição, educação, saneamento básico, transportes, trabalho, renda, acesso ao lazer e aos serviços de saúde. A saúde, também, está relacionada à autoestima, ao respeito pessoal e ao prazer. 11 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER Assim, pode-se afirmar que o grau de saúde de uma pessoa ou de uma sociedade é um indicador do grau de cidadania conquistado e que adoecer é mais do que a manifestação no corpo físico do indivíduo de um conjunto de fatores genéticos ou de reações imunológicas. É, também, um fenômeno que se manifesta no corpo social condicionado pelo modo de produção, apropriação e de divisão das riquezas em determinada sociedade. Foi dito acima que a ideia de saúde é uma construção histórica e que, como tal, varia no tempo e reflete as conquistas das sociedades. Como exemplo, tem-se o fato de que, apenas em 1966, a saúde passou a ser reconhecida como um direito humano por meio da declaração da Convenção das Nações Unidas para os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, integrante da Carta Internacional de Direitos Humanos. A elevação da saúde ao patamar dos Direitos Humanos faz com que ela assuma condição de bem indissociável da humanidade, bastando, para ser portador deste direito, estar incluído entre os seres humanos. Em decorrência, houve a legitimação da busca pelo seu exercício pleno, o que tornou as agressões ao bem-estar dos indivíduos uma violação do seu direito à saúde. Respeitando esse princípio, a Constituição Brasileira de 1988 aponta, em seu artigo 196, que “a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”. Esse preceito constitucional se traduzirá na criação do nosso Sistema Único de Saúde (SUS), no qual se tem a concepção de saúde como um bem público, ou seja, como um conjunto de ações governamentais para beneficiar a todos, sem privilégios individuais ou de segmentos. O SUS foi instituído no País em 1990 baseado, como já foi visto, no princípio constitucional saúde direito de todos, dever do Estado. A saúde como direito é uma constante construção e, para melhor ser entendida como tal, é preciso conhecer um pouco da história da saúde formal no Brasil. A Lei no 8.080/1990 está disponível no site do Ministério da Saúde: <http://portal. saude.gov.br/portal/saude/gestor/>. A primeira forma conhecida de assistência pública à saúde caracterizava-se como um ato de caridade ofertado, principalmente, pelas Santas Casas de Misericórdia, instituições ligadas à igreja Católica que socorriam os doentes em seus hospitais. As políticas sociais brasileiras evoluíram para uma atenção à saúde baseada nas “campanhas” de saúde pública voltadas para a vacinação da população. Buscava-se o controle das epidemias e endemias (febre amarela, tuberculose, varíola etc.) visando a sanear, principalmente, os centros urbanos nos quais estavam localizados os portos (em apoio ao modelo econômico agroexportador da época). Na Era Vargas, décadas de 1930 e 1940, houve o fortalecimento da assistência em saúde mediada pela vinculação previdenciária. Foi o período dos Institutos de Aposentadorias e Pensões (IAPS), que atendiam aos trabalhadores formais e às suas famílias. Para ser detentor do direito à atenção formal em saúde, era necessário ser um trabalhador com a carteira profissional assinada, o que o vincularia, 12 PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única conforme sua categoria profissional, a um determinado instituto que lhe garantiria previdência social e atenção à saúde. Esse sistema criava “castas” entre os trabalhadores formais e informais, entre os rurais e os urbanos, entre os sindicalizados e os não sindicalizados e mesmo entre os sindicalizados, já que, conforme a força de cada corporação, o trabalhador teria mais ou menos benefícios. Na década de 1950, com a crescente urbanização do País, pode ser observada a transição desse modelo para o médico-assistencial, no qual se buscava a manutenção da capacidade laboral da classe trabalhadora. Nos anos 1960, houve a hegemonia do modelo hospitalocêntrico curativo, que avançou durante a ditadura militar de 1964. Nesse período, as políticas sociais, entre elas a de saúde, foram subordinadas à lógica econômica. Assim, a assistência em saúde ficou condicionada à capacidade de compra desses bens pela população. Em meados da década de 1970, cresceu a insatisfação da sociedade e a pressão por direitos sociais não subordinados à contribuição previdenciária e/ou às prioridades econômicas de crescimento e de desenvolvimento impostas pelo governo ditatorial. Esse pano de fundo favoreceu, já na década de 1980, o fortalecimento do Movimento pela Reforma Sanitária, que tinha, entre suas bandeiras, a universalização do direito à saúde. Foi um período de efervescência, o qual contou com a organização de vários segmentos da sociedade na luta pela redemocratização do país. Os princípios do SUS abrangem: »» universalidade do acesso gratuito ao sistema – basta ser brasileiro para ser detentor do direito à promoção, prevenção e ao tratamento, em todos os graus de complexidade disponíveis, conforme as necessidades do(a) usuário(a); »» equidade de oportunidade e de atendimento, independentemente da condição social do(a) usuário(a) do sistema; »» integralidade da assistência, garantindo ações preventivas, curativas e de reabilitação em qualquer nível de complexidade de atendimento; »» hierarquização, ou seja, atenção referenciada e contrarreferenciada com nível de complexidade crescente, conforme a necessidade do(a) cliente; »» descentralização, que prevê que a gestão do sistema local cabe aos municípios. Essa forma de estruturação torna as ações mais eficazes por meio do conhecimento da realidade pelos gestores e contribui para o exercício do controle social pelos usuários, embora as três esferas de governo sejam responsáveis por ofertar as ações e os serviços de saúde à população, conforme as competências estabelecidas no SUS. O SUS, como Política Pública de Saúde, influencia e sofre influência da sociedade. Apresenta, portanto, uma história em constante construção. Na atualidade, podem ser observadas a justa pressão da população pela melhoria da qualidade da atenção que lhe é devida e a reivindicação dos profissionais por salários adequados em um período de precarização das relações de trabalho em saúde. Soma-se a isso a pressão 13 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER de grupos econômicos por um modelo de saúde empresarial regido pelas leis do mercado, que coloca a saúde na lógica do Direito do Consumidor e não do Direito Humano. Dessa forma, cabe aos defensores do SUS resistir na defesa de seus princípios e repensar os modelos de atenção e de gestão das práticas de saúde, bem como as formas de financiamento do setor para permitir um SUS mais acolhedor e resolutivo para seus usuários. Você sabia que o SUS tem 63 mil unidades ambulatoriais, 27 mil equipes de Saúde da Família, cerca de 6 mil unidades hospitalares com mais de 440 mil leitos e que produz, a cada ano, aproximadamente 12 milhões de internações hospitalares, 1 bilhão de procedimentos de atenção primária à saúde, 150 milhões de consultas médicas, 2 milhões de partos, 300 milhões de exames laboratoriais, 132 milhões de atendimentos de alta complexidade e 14 mil transplantes de órgãos? Por isso, lembre-se de que você está ajudando a escrever esse capítulo da história do SUS! Revisar o conceito de SUS, sua história, desafios/obstáculos e avanços. Programa de Saúde Materno-Infantil (PSMI) – 1974 Esse programa constituiu a primeira política pública voltada para a mulher e tinha compromisso com as demandas relativas à gravidez, ao parto e ao puerpério. Assim, a mulher era apenas o sujeito da reprodução e continuava vinculada à saúde infantil, além de não possuir vínculos com outros programas de saúde. Na década de 1970, segundo o Censo do IBGE, a parcela materno-infantil (composta por lactentes, préescolares, escolares, adolescentes até 19 anos e mulheres em idade fértil de 15 a 49 anos) correspondia a 70,98% da população brasileira. O coeficiente de mortalidade geral previsto era da ordem de nove óbitos por mil habitantes, enquanto o de natalidade era de cerca de trinta e seis nascidos vivos por habitante. Nesse Censo, foram evidenciados dois fatos importantes para o desenvolvimento do programa de saúde. O primeiro foi a migração da área rural para a área urbana e o segundo foi o aumento da mortalidade materna principalmente nas regiões do Nordeste. As principais causas dessa mortalidade foram as toxemias, as hemorragias, as infecções e o aborto. 14 A partir daí, um grupo de 15 técnicos do Ministério da Saúde (coordenados pela pediatra Drª. Dalva Coutinho Sayeg) e a assessoria da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) elaboraram dois documentos base para a definição do Programa Materno-Infantil. O primeiro documento foi denominado Subsídios para Programas de Proteção Materno-Infantil (1972) e o segundo, Programa de Saúde MaternoInfantil (PSMI – 1973). O objetivo do programa era, principalmente, reduzir a morbimortalidade materno-infantil, incluindo as seguintes atividades: assistência materna (gestação, parto, puerpério); assistência à criança e ao adolescente; expansão da assistência materno-infantil; capacitação de recursos humanos; assistência no preconcepcional e pré-nupcial. PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única O programa tinha como meta atingir as seguintes coberturas em todo país: assistência materna (50% da população de gestantes, 50% de assistência técnica ao parto e 20% de assistência ao puerpério) e assistência infantil (60% dos menores de 1 ano e 50% das crianças de 1 a 4anos). Ele foi implantado em 1974 e implementado em 1975. Fortaleceu-se, por coincidência, com a declaração da ONU do “Ano Internacional da Mulher”, margeado pelas ideias e pelo movimento feminista, que conquistou repercussão nacional. Ainda, foi um período politicamente propício para a obtenção de recursos financeiros e, principalmente, internacionais. Após o ano de 1975, aumentaram as preocupações com a saúde materno-infantil e foi dada uma maior ênfase à saúde da mulher. Com esse advento, aumentaram as pesquisas sobre a saúde da mulher e o debate sobre essa temática, o que se configurou na problemática de como o Estado atuaria na implementação de programas de saúde com base na realidade nacional. Todas as pesquisas realizadas depois desse período enfocavam as relações sociais que regulam a relação da mulher com sua saúde e com seu corpo. Depois de dois anos (1977), o Ministério da Saúde designou um grupo técnico materno-infantil para traçar as diretrizes de atuação conjunta que deveriam ser seguidas no desenvolvimento das programações de saúde materno-infantil no País. Essas diretrizes seriam aplicadas tanto no Ministério da Saúde quanto no Ministério da Previdência e Assistência Social. Programa de Saúde Materno-Infantil (PSMI – 1974) »» Objetivos: reduzir os altos índices de morbimortalidade maternoinfantil; incluir as atividades de assistência materna (gestação, parto, puerpério) e assistência à criança e ao adolescente; expansão da assistência materno-infantil; capacitação de recursos humanos; assistência no preconcepcional e pré-nupcial. »» Compromisso: com as demandas relativas à gravidez e ao parto. »» Mulher é o objeto da reprodução. »» Sem vínculo com outros programas de saúde. Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PAISM) – 1983 No inicio da década de 1980, foi realizado, no Brasil, o censo demográfico. Observou-se que óbitos causados por hipertensão na gravidez, complicações no trabalho de parto, infecção puerperal, hemorragias obstétricas e aborto eram muito frequentes, apesar de serem facilmente evitáveis. Também, foram evidenciados os óbitos por neoplasias malignas. Nesse momento, três forças agiam nas questões relacionadas à saúde da mulher. A primeira força constituía-se pelas pressões internacionais para que os países em desenvolvimento controlassem o crescimento populacional. A segunda relacionava-se às pressões internas dos movimentos sociais por mudanças na política de saúde. A terceira representava a pressão dos movimentos de mulheres 15 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER reivindicando que fossem tratadas como cidadãs na plenitude de seus direitos, o que incluía a atenção à saúde como um todo e não apenas nas questões da maternidade. A partir disso, em 1983, o Ministério da Saúde reuniu sanitaristas, psicólogas, sociólogas, representantes de grupos de mulheres, demógrafos e pesquisadores de universidades e elaborou o Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PAISM), o qual foi anunciado como um programa com abordagem diferenciada na saúde da mulher. Baseado no conceito de Assistência Integral à Saúde da Mulher, o programa incluía ações de saúde dirigidas para o atendimento global das necessidades prioritárias desse grupo populacional e tinha aplicação ampla no sistema básico de assistência à saúde. Esse conceito implicou o rompimento com a visão tradicional acerca desse tema, sobretudo no âmbito da Medicina, que centralizava o atendimento às mulheres nas questões relativas à reprodução. Em 1984, o Ministério da Saúde estabeleceu a Base de Ação Programática para a Assistência Integral à Saúde da Mulher. Os objetivos incluíam ações educativas, preventivas, de diagnóstico e o tratamento e recuperação. Englobava a assistência à mulher em clínica ginecológica para o pré-natal, parto e puerpério, climatério, planejamento familiar, DST, câncer de colo de útero e de mama, além de outras necessidades identificadas a partir do perfil populacional das mulheres. Com essa ação, o Estado brasileiro, pela primeira vez, propôs, oficialmente, um programa que incluía o planejamento familiar dentre suas ações, além de contemplar a saúde da mulher em várias etapas do ciclo vital. A mulher era o sujeito da reprodução. Você sabia que o Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PAISM) foi pioneiro, também, pois incorporou, como princípios e diretrizes, as propostas de descentralização, hierarquização e regionalização dos serviços, bem como a integralidade e a equidade da atenção, num período em que, paralelamente, no âmbito do Movimento Sanitário, concebia-se o alicerce conceitual que embasaria a formulação do Sistema Único de Saúde (SUS)? Vale ressaltar que, na época de implantação do PAISM, o Brasil passava por um intenso período de ebulição com uma grande atuação de movimentos sociais, dentre eles o movimento das mulheres e da sociedade civil lutando pelo restabelecimento da democracia. Esses movimentos, como visto anteriormente, influenciavam o Estado na definição de metas sociais adequadas aos interesses femininos e no desenvolvimento de políticas sociais que garantissem a equidade de gênero. Com a implantação do PAISM, houve reações favoráveis, principalmente, do grupo organizado de mulheres que lutavam por uma atenção à saúde da mulher não centralizada no cuidado materno-infantil e, especialmente, desvinculada da reprodução. Na imprensa escrita, enfatizavam-se aspectos políticos em relação à viabilização e à implantação efetiva do programa. Havia um consenso de que se tratava de uma proposta inovadora, abrangente e voltada a assistir as precárias condições de saúde das mulheres no Brasil, independentemente de estarem ou não no ciclo reprodutivo. 16 Porém, ainda nesse período, trabalhou-se na perspectiva de resolução de problemas com priorização da saúde reprodutiva e, em particular, das ações para redução da mortalidade materna (pré-natal, assistência ao parto e anticoncepção). Embora tenha se mantido como objetivo principal a atenção integral à saúde da mulher, essa definição de prioridades dificultou a atuação em outras áreas estratégicas do ponto de vista da agenda ampla de saúde da mulher. Essa perspectiva de atuação também comprometeu a transversalidade PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única de gênero e raça, apesar de se perceber um avanço no sentido da integralidade e uma ruptura com as ações verticalizadas do passado, uma vez que os problemas não foram tratados de forma isolada. Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PAISM – 1983) »» Objetivos: ações educativas, preventivas, de diagnóstico, tratamento e recuperação, englobando a assistência à mulher em clínica ginecológica no pré-natal, parto e puerpério, no climatério, para o planejamento familiar, DST, câncer de colo de útero e de mama, além de outras necessidades identificadas a partir do perfil populacional das mulheres. »» Compromisso: com as ações educativas, preventivas, de diagnóstico e tratamento. »» Mulher é o sujeito da reprodução. »» Incorpora, como princípios e diretrizes, as propostas de descentralização, hierarquização e regionalização dos serviços, bem como a integralidade e a equidade da atenção à saúde. . Será que o Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PAISM) superou todas as lacunas existentes no Programa de Saúde Materno-Infantil (atenção ao climatério/ menopausa, queixas ginecológicas, infertilidade e reprodução assistida, saúde da mulher na adolescência, doenças crônico-degenerativas, saúde ocupacional, saúde mental, doenças infectocontagiosas e a inclusão da perspectiva de gênero e raça nas ações a serem desenvolvidas)? Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PNAISM) – 2004 Política de saúde é a resposta social (ação ou omissão) de uma organização (como o Estado) diante das condições de saúde dos indivíduos e das populações e seus determinantes, bem como em relação à produção, distribuição, gestão e regulação de bens e serviços que afetam a saúde humana e o ambiente. Política de saúde abrange questões relativas ao poder em saúde (politics), bem como as que se referem ao estabelecimento de diretrizes, planos e programas de saúde (policy). Ela também envolve estudos sobre o papel do Estado, a relação entre Estado e sociedade, as reações às condições de saúde da população e aos seus determinantes. Atua por meio de propostas e prioridades para a ação pública e inclui, ainda, estudo de sua relação com políticas econômicas e sociais, controle social, economia da saúde e financiamento. É mediante políticas públicas que o Estado adquire legitimidade para agir sobre um grupo de indivíduos ou sobre um dado segmento da sociedade na tentativa de praticar intervenções que atuem positivamente nas condições de vida desses indivíduos ou segmentos sociais. A formulação de políticas públicas pode ser vista como um processo que se constrói a partir de um diálogo entre o Estado, por meio de seus diversos poderes – executivo, 17 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER legislativo, judiciário – e os grupos de interesse e de pressão representados por partidos políticos, sindicatos, grupos autônomos, organizações não governamentais, cidadãos e cidadãs. (FERREIRA, 1999) Até aqui, foi visto que, desde a origem da saúde da mulher no Brasil, foram criados alguns programas de saúde. O PAISM funcionou como Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher desde sua implantação até 28 de maio de 2004, quando o ministro da Saúde, Humberto Costa, lançou a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PNAISM – Princípios e Diretrizes), elaborada a partir da proposição do SUS com respeito às características da nova política de saúde. Essa nova política, proposta pelo Ministério da Saúde, é pautada nos princípios da humanização e qualidade da atenção em saúde. Essas são condições essenciais para que as ações de saúde se traduzam na resolução dos problemas identificados, na satisfação das usuárias, no fortalecimento da capacidade das mulheres frente à identificação de suas demandas, no reconhecimento e na reivindicação de seus direitos e na promoção do autocuidado. Dessa forma, a mulher passou a ser vista como sujeito da sua cidadania. As diretrizes dessa política no Brasil (2004) são: »» o Sistema Único de Saúde deve estar orientado e capacitado para a atenção integral à saúde da mulher numa perspectiva que contemple a promoção da saúde, as necessidades de saúde da população feminina, o controle de patologias mais prevalentes nesse grupo e a garantia do direito à saúde; »» a Política de Atenção à Saúde da Mulher deverá atingir as mulheres em todos os ciclos de vida, resguardadas as especificidades das diferentes faixas etárias e dos distintos grupos populacionais (mulheres negras, indígenas, residentes em áreas urbanas e rurais, residentes em locais de difícil acesso, em situação de risco, presidiárias, de orientação homossexual, com deficiência, entre outras); »» a elaboração, a execução e a avaliação das políticas de saúde da mulher deverão nortear-se pela perspectiva de gênero, de raça e de etnia e pela ampliação do enfoque, rompendo-se as fronteiras da saúde sexual e da saúde reprodutiva para alcançar todos os aspectos da saúde da mulher; »» a gestão da Política de Atenção à Saúde deverá estabelecer uma dinâmica inclusiva para atender às demandas emergentes ou demandas antigas em todos os níveis assistenciais; »» as políticas de saúde da mulher deverão ser compreendidas em sua dimensão mais ampla e com o objetivo de criação e ampliação das condições necessárias ao exercício dos direitos da mulher, seja no âmbito do SUS, seja na atuação em parceria do setor saúde com outros setores governamentais, com destaque para a segurança, a justiça, o trabalho, a previdência social e a educação; »» a atenção integral à saúde da mulher refere-se ao conjunto de ações de promoção, proteção, assistência e recuperação da saúde executadas nos diferentes níveis de atenção à saúde (da básica à de alta complexidade); 18 PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única »» o SUS deverá garantir o acesso das mulheres a todos os níveis de atenção à saúde no contexto da descentralização, hierarquização e integração das ações e serviços. É responsabilidade dos três níveis gestores, de acordo com as competências de cada um, garantir as condições para a execução da Política de Atenção à Saúde da Mulher; »» a atenção integral à saúde da mulher compreende o atendimento à mulher a partir de uma percepção ampliada de seu contexto de vida desde o momento em que apresenta determinada demanda, assim como de sua singularidade e de suas condições enquanto sujeito capaz e responsável por suas escolhas; »» a atenção integral à saúde da mulher implica, para os prestadores de serviço, o estabelecimento de relações com pessoas singulares, seja por razões econômicas, culturais, religiosas, raciais, de diferentes orientações sexuais etc. O atendimento deverá nortear-se pelo respeito a todas as diferenças, sem discriminação de qualquer espécie e sem imposição de valores e crenças pessoais. Esse enfoque deverá ser incorporado aos processos de sensibilização e capacitação para humanização das práticas em saúde; »» as práticas em saúde deverão nortear-se pelo princípio da humanização, aqui compreendido como atitudes e comportamentos do profissional de saúde que contribuam para reforçar o caráter da atenção à saúde como direito; que melhorem o grau de informação das mulheres em relação ao seu corpo e a suas condições de saúde, ampliando sua capacidade de fazer escolhas adequadas ao seu contexto e ao momento de vida; que promovam o acolhimento das demandas conhecidas ou não pelas equipes de saúde; que busquem o uso de tecnologia apropriada a cada caso; e que demonstrem o interesse em resolver problemas e diminuir o sofrimento associado ao processo de adoecimento e morte da clientela e seus familiares; »» no processo de elaboração, execução e avaliação da Política de Atenção à Saúde da Mulher, deverá ser estimulada e apoiada a participação da sociedade civil organizada, em particular, do movimento de mulheres. Deve ser reconhecida a sua contribuição técnica e política no campo dos direitos e da saúde da mulher; »» compreende-se que a participação da sociedade civil na implementação das ações de saúde da mulher no âmbito federal, estadual e municipal requer – cabendo, portanto, às instâncias gestoras – melhorar e qualificar os mecanismos de repasse de informações sobre as políticas de saúde da mulher e sobre os instrumentos de gestão e regulação do SUS; »» no âmbito do setor saúde, a execução de ações será pactuada entre todos os níveis hierárquicos, visando a uma atuação mais abrangente e horizontal, além de permitir o ajuste às diferentes realidades regionais; »» as ações voltadas à melhoria das condições de vida e saúde das mulheres deverão ser executadas de forma articulada com setores governamentais e não governamentais. Essa é a condição básica para a configuração de redes integradas de atenção à saúde e para a obtenção dos resultados esperados. 19 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER O PNAISM, como política pública, tem como objetivos gerais: »» promover a melhoria das condições de vida e saúde das mulheres brasileiras, mediante a garantia de direitos legalmente constituídos e ampliação do acesso aos meios e serviços de promoção, prevenção, assistência e recuperação da saúde em todo território brasileiro; »» contribuir para a redução da morbidade e mortalidade feminina no Brasil, especialmente por causas evitáveis em todos os ciclos de vida e nos diversos grupos populacionais, sem discriminação de qualquer espécie; »» ampliar, qualificar e humanizar a atenção integral à saúde da mulher no Sistema Único de Saúde. E como objetivos específicos: »» ampliar e qualificar a atenção clínico-ginecológica, inclusive para as portadoras da infecção pelo HIV e outras DST; »» estimular a implantação e a implementação da assistência em planejamento familiar para homens e mulheres, adultos e adolescentes, no âmbito da atenção integral à saúde; »» promover a atenção obstétrica e neonatal qualificada e humanizada, incluindo a assistência ao abortamento em condições inseguras para mulheres e adolescentes; »» promover a atenção às mulheres e adolescentes em situação de violência doméstica e sexual; »» implantar um modelo de atenção à saúde mental das mulheres sob enfoque de gênero; »» implantar e implementar a atenção à saúde da mulher no climatério; »» promover a atenção à saúde da mulher na terceira idade; »» promover a atenção à saúde da mulher negra; »» promover a atenção à saúde das trabalhadoras do campo e da cidade; »» promover a atenção à saúde da mulher indígena; »» promover a atenção à saúde das mulheres em situação de prisão, incluindo a promoção das ações de prevenção e controle de doenças sexualmente transmissíveis e da infecção pelo HIV/Aids nessa população; »» fortalecer a participação e o controle social na definição e na implementação das políticas de atenção integral à saúde das mulheres. Juntamente com esses princípios e diretrizes, o Ministério lançou um plano de ação para que a política fosse implantada em todo o território nacional, respeitando suas especificidades epidemiológicas e culturais e sua inserção nos diversos níveis de gestão definidos pela Norma Operacional de Assistência à Saúde (NOAS). 20 PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única Esse plano de ação reconhece a necessidade de que ações intersetoriais sejam pactuadas e implementadas na perspectiva de uma abordagem ampliada das questões de saúde. Por isso, ele tem várias interfaces com diversas áreas do Ministério da Saúde que têm afinidades com a saúde da mulher, fazendo com que haja uma transversalidade com outras políticas. No âmbito da Secretaria de Atenção à Saúde, há abordagem intersetorial nas áreas de saúde do idoso, pessoa com deficiência, saúde do adolescente e do jovem, saúde do trabalhador, saúde da população presidiária, saúde da criança, acidentes e violência, saúde mental, atenção básica, média e alta complexidade. No âmbito das Secretarias, pode-se mencionar a Secretaria-Executiva, de Gestão Participativa; Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos e Vigilância em Saúde (Programa Nacional de DST/AIDS, Diretoria de Informações). Outras instâncias: Grupo da Terra, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Sangue e Hemoderivados), Fundação Nacional de Saúde (Departamento de Saúde Indígena e Programa Nacional de Imunização). Além dessas, o Instituto Nacional de Câncer, o Datasus e as áreas do Gabinete do Ministro – assessorias de comunicação e de imprensa. Cabe salientar que esse plano de ação deve ser implementado pelas Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde com apoio técnico e financeiro do Ministério da Saúde e em parceria com outros órgãos governamentais e instituições não governamentais. Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PNAISM) – 2004 »» Objetivos: promover a melhoria das condições de vida e saúde das mulheres brasileiras, mediante a garantia de direitos legalmente constituídos e ampliação do acesso aos meios e serviços de promoção, prevenção, assistência e recuperação da saúde em todo território brasileiro. Contribuir para a redução da morbidade e mortalidade feminina no Brasil, especialmente por causas evitáveis em todos os ciclos de vida e nos diversos grupos populacionais, sem discriminação de qualquer espécie. Ampliar, qualificar e humanizar a atenção integral à saúde da mulher no Sistema Único de Saúde. »» Compromisso: com a implantação de ações de saúde que contribuam para a garantia dos direitos humanos das mulheres e, reduzam a morbimortalidade. »» Mulher como sujeito da cidadania. ›› Incorpora, como princípios, a humanização e a qualidade da atenção em saúde, dá ênfase à Política de Atenção Básica à Saúde, além de enfocar na transversalidade dos programas de saúde. Para ter acesso aos princípios e diretrizes do PNAISM, bem como ao plano de ação, basta acessar o site da editora do Ministério da Saúde: <http://dtr2001.saude.gov. br/editora/produtos/livros/genero/livros.htm>. Busque a leitura de outros manuais sobre as políticas de saúde do Ministério da Saúde no site fornecido acima, pois ajudarão em seus estudos. 21 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER Sistemas de informação na saúde da mulher O sistema de informação deve possibilitar o gerenciamento da atenção à saúde por meio do monitoramento do atendimento da mulher e da criança ao longo de toda a rede e, também, mediante a retroalimentação das equipes de saúde, que resulta de um processo dinâmico de comunicação. Para viabilizar o monitoramento, é de fundamental importância que, durante o pré-natal, parto e puerpério, o profissional preencha adequadamente os formulários de informação. »» O Sistema de Informação da Atenção Básica (SIAB) fornece o número e o percentual de gestantes cadastradas no serviço que são acompanhadas pelo agente de saúde, que estão com consulta (médica ou de enfermagem) em dia, que iniciaram o pré-natal no 1º trimestre; que se encontram abaixo dos 20 anos e que apresentam vacinação antitetânica em dia. »» O Sistema Nacional de Nascidos Vivos (SINASC) disponibiliza o número e o percentual de gestantes por número de consultas realizadas, de parturientes por faixa etária, de parturientes por número de filhos, de partos por local do parto, de partos por tipo de parto, nascidos vivos e de nascidos vivos de baixo peso (< 2.500 g). »» O SISPRENATAL é um sistema que possibilita a análise de indicadores de processo e resultado. Indicadores de processo »» Percentual de gestantes que se inscreveram no programa e que realizaram a primeira consulta até o quarto mês. »» Percentual de gestantes inscritas que realizaram seis consultas de pré-natal. »» Percentual de gestantes inscritas que realizaram seis consultas de pré-natal e a consulta de puerpério. »» Percentual de gestantes inscritas que realizaram seis consultas de pré-natal e todos os exames básicos. »» Percentual de gestantes inscritas que realizaram seis consultas de pré-natal, a consulta de puerpério e todos os exames básicos. »» Percentual de gestantes inscritas que receberam dose imunizante da vacina antitetânica – mínimo de duas doses durante o pré-natal. »» Percentual de gestantes inscritas que realizaram seis consultas de pré-natal, a consulta de puerpério, todos os exames básicos, o teste anti-HIV e a dose imunizante da vacina antitetânica. 22 PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única Indicadores de resultado »» Percentual de recém-nascidos com diagnóstico de sífilis congênita em relação ao total de recém-nascidos vivos do município. »» Percentual de recém-nascidos com tétano neonatal em relação ao total de recém- nascidos vivos do município. Por meio do cruzamento dos dados, podem-se obter indicadores que medem o impacto das ações realizadas. São eles: ›› ›› ›› ›› ›› ›› ›› coeficiente de incidência de sífilis congênita no município em comparação com o ano anterior; coeficiente de incidência de tétano neonatal no município em comparação com o ano anterior; razão de mortalidade materna no município em comparação com o ano anterior; coeficiente de mortalidade neonatal precoce no município em comparação com o ano anterior; coeficiente de mortalidade neonatal tardia no município em comparação com o ano anterior; coeficiente de mortalidade neonatal total no município em comparação com o ano anterior. AIH – a Autorização para Internamento Hospitalar disponibiliza o número de partos normais, o número de cesarianas o tempo de permanência e o valor médio do procedimento. O cruzamento de dados permite analisar a mortalidade hospitalar, a taxa de infecção hospitalar, o perfil das maternidades, a morbidade hospitalar e a internação por condição sensível de atenção ambulatorial. Para acessar, em tempo real, as referidas informações, segue a lista de alguns endereços eletrônicos que contêm dados sobre a saúde da mulher. »» IBGE: <http://www.ibge.gov.br>. »» Datasus: <http://www.datasus.gov.br>. »» Ministério da Saúde: <http://www.saude.gov.br>. »» FEBRASGO: <http://www.febrasgo.org.br>. 23 Capítulo 2 Características da assistência ao parto no Brasil . Você sabia que a mortalidade materna (MM) é uma das mais graves violações dos direitos humanos das mulheres, pois pode ser evitável em 92% dos casos? A OMS define morte materna como: A morte de uma mulher durante a gestação ou dentro de um período de 42 dias após o término da gestação, independente da duração ou localização da gravidez, devida a qualquer causa relacionada ou agravada pela gravidez ou por medidas tomadas em relação a ela, porém não devida a causas acidentais ou incidentais. O coeficiente de mortalidade materna, assim como a taxa de mortalidade infantil, é um importante indicador da qualidade de vida de uma população, embora não tenha o mesmo destaque que se dá ao último. As taxas de mortalidade materna refletem – para além da qualidade da assistência prestada no prénatal, durante o parto e no puerpério – o desrespeito aos direitos humanos das mulheres ao expressarem o cerceamento do direito à vida. A morte materna é um gravíssimo problema de saúde pública, mas é, também, um problema político e social. Além da tragédia humana da perda da vida de mulheres, traz, como consequência, a desestruturação familiar. Pelo papel social que desempenham, a falta da mãe, em geral, é seguida pela separação dos filhos deixados, os quais costumam ser repartidos entre outros núcleos familiares o que constitui, inclusive, fator de risco para o óbito desses órfãos. Na história da humanidade, pode-se falar em naturalização da morte materna com a sua ocorrência associada à fatalidade. Hoje, sabemos que a morte de mulheres por causas relacionadas à gravidez e ao parto traduz a falta de acesso a serviços de saúde de qualidade, as desigualdades de gênero e as desigualdades sociais e étnico-raciais. É observado que o óbito materno atinge, mais significativamente, as mulheres pobres, as com menor número de anos de escolaridade e as negras. Dizendo de outra forma, a morte materna tem cor e classe social. A taxa de mortalidade materna em mulheres negras foi 2,3 vezes maior do que a taxa no grupo de mulheres brancas. A taxa de mortalidade materna específica por escolaridade é seis vezes maior no grupo de mulheres sem instrução do que naquele em que as mulheres possuem 12 anos ou mais de estudo. 24 PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única Segundo o Ministério da Saúde (MS), os fatores de risco para MM associados ao histórico das mulheres são a alta paridade, as idades extremas, o baixo peso e baixa estatura, história de complicações em gestações anteriores, doenças preexistentes – principalmente o diabetes e a hipertensão –, as más condições de vida e a baixa escolaridade. Esses fatores estão associados à falta de acesso aos serviços de saúde. No entanto, as principais causas de MM são a hipertensão arterial, as hemorragias, a infecção pós-parto e o aborto. Mais de 90% das mortes maternas poderiam ser evitadas, já que os fatores de risco podem ser detectados, evitados ou neutralizados por assistência adequada durante o pré-natal, o parto e o puerpério. Outros fatores que predispõem ao óbito materno são a falta de acesso ou o uso inadequado de métodos anticoncepcionais e a violência sexual e/ou doméstica. Esses fatores têm levado à ocorrência de gestações indesejadas, à realização de abortos clandestinos – realizados sem as condições adequadas – e à recorrência de gravidez de alto risco em mulheres que não poderiam engravidar. Segundo a OMS, a maior parte das mortes maternas decorrentes de complicações durante a gravidez é atribuída à falta de assistência por profissional qualificado – principalmente nas áreas rurais –, ao demasiado tempo para diagnosticar complicações, à demora para chegar a uma Unidade de Saúde e ao atraso na prestação de cuidados de saúde de qualidade. No Brasil, segundo o Sistema de Informação de Nascidos Vivos (SINASC), mais de 90% dos partos ocorrem em hospitais – portanto, com assistência profissional – e a cobertura pré-natal é satisfatória do ponto de vista quantitativo. Mesmo assim, nossas taxas de mortalidade materna permanecem elevadas. Para cada morte materna, estima-se que haja, pelo menos, 20 mulheres com lesões/ sequelas secundárias ao parto e, grande parte, com consequências a longo prazo. Para a avaliação da magnitude das mortes maternas, é recomendado o exame de alguns dados do Brasil e do mundo. »» A OMS estima que aconteçam, no mundo, 529.000 mortes maternas por ano ou 1.400 por dia, sendo 95% na África e Ásia, 4% na América Latina e Caribe e 1% nos países mais desenvolvidos. »» O maior número de mortes maternas é encontrado na Índia (136.000 por ano), seguida pela Nigéria (37.000 por ano). »» O risco que uma mulher corre de morrer durante o ciclo gravídicopuerperal na África Subsaariana é de 1:16, no mundo industrializado é de 1:2.800 e nos EUA é de 1:3.700. »» A razão de morte materna (RMM) mundial é de 400 mortes de mulheres/100.000 bebês nascidos vivos (NV). Na África é de 830/100.000, na América Latina e Caribe de 190/100.000 e nos países industrializados de 20/100.000. 25 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER »» Treze países em desenvolvimento registram 70% de todas as mortes maternas. »» Canadá e EUA apresentam valores inferiores a nove óbitos maternos para cada 100.000 NV. A Bolívia e o Peru chegam a mais de 200 óbitos e o Haiti tem cerca de 670 óbitos/100.000 NV. Chile, Cuba, Costa Rica e Uruguai apresentam menos de 40/ 100.000 NV. »» No Brasil o índice é de 77 mortes de mulheres para cada 100.000 crianças nascidas vivas. Em busca da redução desses vergonhosos números de MM em todo o mundo, a ONU incluiu entre os objetivos do milênio a redução em 75% da mortalidade materna entre 1990 e 2015. Para honrar este compromisso, o MS instituiu a Política Nacional de Redução da MM e, em 2004, o Governo Federal lançou o Pacto Pela Redução da Mortalidade Materna com fortes investimentos na melhoria da atenção obstétrica. O pacto recebeu a adesão dos 27 entes federados, além de órgãos científicos e de classe e de organizações da sociedade civil. Não obstante essa determinação política, nossa taxa de MM, apesar da tendência declinante, permanece elevada. Segundo o MS, em 2006, a razão de mortalidade materna obtida a partir de óbitos declarados foi de 55 óbitos maternos por 100.000 NV. Aplicando-se o fator de correção, que visa neutralizar as subnotificações, chegamos a 77 por 100.000 NV, que corresponde a 1.623 óbitos maternos. Essas mortes estão mais concentradas nas regiões norte e nordeste do país, enquanto a região sudeste apresenta taxas abaixo da média nacional. Como exemplo, pode ser citado o coeficiente de MM da cidade do Rio de Janeiro que, no mesmo ano, foi de 50/100.000 NV. No Sistema Único de Saúde, a assistência institucional ao parto é realizada, atualmente, mediante uma rede com cerca de 4.757 unidades que atuam em diferentes níveis de complexidade. O parto normal foi o procedimento de maior frequência no ano de 1999 e o segundo procedimento de maior impacto financeiro. No Brasil, a assistência à mulher no momento do parto é, em grande parte, hospitalar e apresenta diferentes percentuais para cada região. Atenção humanizada ao parto e ao nascimento Já foi vista a dimensão e a gravidade dos índices de morte materna e, também, que o pré-natal é uma importante ação de saúde para reduzi-la. No entanto, além de um pré-natal de qualidade, é preciso que, no momento do parto, as mulheres sejam devidamente assistidas por profissionais qualificados e que essa assistência se dê de forma humanizada e com respeito à fisiologia feminina e à autonomia e capacidade da mulher de parir seus filhos. 26 Segundo a OMS, o parto normal é um processo natural e fisiológico que, salvo nos casos em que haja absoluta necessidade, não deve sofrer interferências no seu curso. O que se faz necessário é atitude vigilante e o suporte contínuo dos profissionais de saúde – parteiras, médicos/as, enfermeiras/os e obstetras – à mulher durante o trabalho de parto e o parto propriamente dito. PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única Na década de 1990, ao constatar o excesso de intervenções na assistência aos partos e a verdadeira epidemia de cesarianas no Brasil, o Ministério da Saúde promoveu uma série de iniciativas para melhorar a qualidade da assistência obstétrica e aumentar o índice de partos normais. Foram publicadas diversas resoluções e portarias para regulamentar ações que visavam desestimular a prática de cesarianas sem indicações precisas e incentivar as práticas de humanização da assistência ao parto e ao nascimento. Ao mesmo tempo em que o Ministério da Saúde implantava serviços especializados na assistência às gestantes de alto risco, incentivava a assistência ao parto de baixo risco por enfermeiras e por obstetras.A prevalência de cesárea no Brasil varia entre 41% no setor público e 80% no setor privado. Cabe ressaltar que a OMS recomenda a incidência de cesárea com índice menor do que 15% e o Ministério da Saúde preconiza a taxa de 30%. Hoje, no Brasil, a assistência ao parto sofre influências de fatores históricos de gênero, poder e capital. O modelo vigente de atenção à saúde está centrado na hospitalização e nas ações de intervenção. Para Moura (2007), no Brasil, a assistência à mulher no período gravídico-puerperal ainda está focada no modelo biomédico que fragmenta o ser humano. Essa forma de assistência tem contribuído para a permanência e/ou aumento do número de procedimentos invasivos e intervencionistas durante o trabalho de parto e parto, os quais têm sido realizados, muitas vezes, de forma desnecessária e sem a participação da mulher e/ou da família. Riesco (1999) e Sakae, Freitas e Orsi (2009) apontam que a crescente hospitalização do parto foi fomentada pela relação entre a tecnologia e a segurança. Houve um favorecimento do modelo de parto como evento cirúrgico distante do processo fisiológico, revestido de risco, centrado na figura hegemônica do médico e no uso de intervenções. Assim, foi gerado um aumento das taxas de cesariana. O alto índice de cesáreas tem proporcionado aumento de complicações clínicas, comportamentais e psicológicas, elevação do custo da assistência ao parto, aumento do risco de morbimortalidade materna e perinatal e maiores riscos de infecção puerperal e de prematuridade. A recuperaçõa materna torna-se mais difícil, o que, juntamente com o período maior de separação entre mãe e filho, influencia no processo da amamentação. Passadas mais de duas décadas, podem ser destacados avanços nas políticas públicas voltadas para o parto e para o nascimento. »» Garantia do direito a um/a acompanhante, escolhido pela mulher, durante o trabalho de parto e parto. Segundo a OMS e o MS, a presença do acompanhante, por tranquilizar e aumentar a segurança da mulher, permite a liberação de ocitocina e endorfinas que irão acelerar o trabalho de parto e diminuir a incidência de distócias. »» Orientação para que o pai não seja considerado visita nas maternidades, pelos mesmos motivos citados acima, e, também para favorecer o estabelecimento de vínculo entre pai e filho. Há trabalhos que apontam a presença precoce dos pais junto aos seus filhos/as como um fator de prevenção da violência doméstica contra mulheres e crianças. »» Incentivo aos profissionais de saúde para a adoção de práticas que favoreçam a autonomia e o protagonismo da mulher no momento do parto, como o incentivo à livre deambulação durante o trabalho de parto, liberdade para assumir as posições 27 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER que desejar durante o trabalho de parto e parto e a utilização de técnicas de relaxamento e de respiração que diminuam a sensação dolorosa. »» Recomendação de não utilização de práticas como a tricotomia e a enterócolise e a não realização de episiotomias como procedimento de rotina. Sem sombra de dúvida, esses avanços devem ser comemorados. No entanto, ao mesmo tempo, deve ser lamentado que essas ações não sejam hegemônicas e estejam implantadas em um número ainda pequeno de unidades do SUS. A expansão dessas ações está na dependência do compromisso de gestores e de profissionais de saúde com as boas práticas em obstetrícia e com os direitos humanos das mulheres. Portaria MS/GM 2.815, de 29 de maio de 1998: essa portaria inclui, na tabela do Sistema de Informações Hospitalares do SUS, o procedimento parto normal sem distócia realizado por enfermeiro obstetra” e tem, como finalidade principal, reconhecer a assistência prestada por essa categoria profissional no contexto de humanização do parto. Atualmente, o número de enfermeiros obstetras atuando no país ainda é muito baixo, embora se estime que o número de partos realizado seja bem superior àquele registrado no SUS. Por essa razão, o Ministério da Saúde está fomentando, técnica e financeiramente, a realização de cursos de especialização em enfermagem obstétrica. Estão sendo apoiados 55 cursos que deverão formar especialistas em todo país. A magnitude dessa ação programática está representada pela capacitação de 854 enfermeiras obstetras para a rede do SUS, cerca de 50% do número de profissionais formadas nos últimos 20 anos pelas instituições de ensino superior brasileiras. Portarias MS/GM 3.016, de 19 de junho de 1998; MS/GM 3.482, de 20 de agosto de 1998; MS/GM 3.477, de 20 agosto de 1998: considerando a importância da atenção obstétrica e perinatal e a necessidade de organização dessa assistência, as portarias mencionadas normatizam a implantação de programas estaduais de referência hospitalar para atendimento à gestação de alto risco. Constitui-se em medida indispensável e tem, como principal objetivo, garantir melhor qualidade à gestação de alto risco e reduzir o índice de morbimortalidade materna e neonatal. Em decorrência dos recursos aplicados, o processo de adequação das maternidades para o atendimento às gestantes de alto risco vem, gradativamente, desenvolvendose em todos os estados brasileiros, com a capacitação de profissionais de saúde, reestruturação de área física, aquisição de equipamentos e disponibilização de mais leitos obstétricos para atenção a essas gestantes. Portarias MS/GM 2.816, de 29 de maio de 1998; MS/GM 865, de 03 de julho de 1999; MS/GM 466, de 14 de junho de 2000; MS/GM 426, de 04 de abril de 2001: essas portarias determinam o pagamento de um percentual máximo de cesarianas em relação ao número total de partos de cada hospital. A introdução, em 1998, desses limites percentuais para o pagamento de cesarianas realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) tem sido responsável, em uma primeira análise, pela redução do número de mulheres submetidas a riscos 28 PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única cirúrgicos desnecessários. As taxas de cesarianas apresentadas ao Sistema Único de Saúde declinaram de 32%, em 1997, para 28%, em 1998, 25%, em 1999, e 24%, em 2000. Mesmo considerando a possibilidade de incorreções decorrentes da notificação de uma cesariana como parto normal ou, ainda, a não apresentação ao SUS das contas referentes ao excesso de cesarianas realizadas pela instituição, a redução da frequência de partos cirúrgicos no Sistema Único de Saúde parece ter sido significativa, a ponto de fazer declinar, pela primeira vez nos últimos vinte anos, o número total de cesarianas realizadas no Brasil. Esses limites foram estabelecidos para serem cumpridos de forma gradual, considerando o processo de adaptação da rede hospitalar aos novos padrões e a responsabilidade das secretarias estaduais e municipais em divulgar e assessorar os prestadores de serviços para implementar medidas que visem a redução dessas taxas. Ao considerar as dificuldades para a redução real das taxas de cesárea, a Portaria 466 estabelece que os hospitais que estão sob a coordenação estadual poderão ter diferentes limites para o parto cirúrgico, contemplando a complexidade de cada serviço obstétrico a fim de atender às mulheres com segurança. Essa medida representa uma tentativa de corrigir distorções geradas com as portarias anteriores, Possibilita que instituições de nível terciário que atendem gestações e partos de risco possamter, de fato, uma porcentagem maior de cesarianas. Além disso, contempla a sobrecarga de cesarianas que as maternidades públicas e universitárias experimentaram, após a implementação das portarias, por terem absorvido o excedente de potencias cesarianas recusadas pelo setor conveniado. A última portaria, de abril de 2001, estabelece os limites de cesárea para este ano, por hospital, nos estados que não aderiram ao pacto de controle estadual estabelecido pela portaria anterior. Portarias MS/GM 569, de 01 de junho de 2000; MS/GM 570, de 01 de junho de 2000; MS/GM 571, de 01 de junho de 2000; MS/GM 572, de 01 de junho de 2000: Esse conjunto de portarias institui o Programa de Humanização no Pré-Natal e Nascimento com seus diferentes componentes de incentivo à assistência pré-natal, com a organização, regulação e novos investimentos na assistência obstétrica e estabelece uma nova sistemática de pagamento da assistência ao parto. O referido programa apresenta duas características marcantes: o olhar para a integralidade da assistência obstétrica e a afirmação dos direitos da mulher incorporados como diretrizes institucionais. O objetivo principal é reorganizar a assistência, vincular, formalmente, o pré-natal ao parto e puerpério, ampliar o acesso das mulheres e garantir a qualidade com a realização de um conjunto mínimo de procedimentos. No âmbito do programa, o Ministério da Saúde revisou os manuais técnicos de assistência pré-natal e gestação de alto risco e, em parceria com a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), elaborou um manual destinado ao atendimento das urgências e emergências maternas. Os manuais foram distribuídos para as redes de unidades básicas e hospitalares e para todos os profissionais filiados à FEBRASGO. O Ministério da Saúde também distribuiu, em parceria com a Organização 29 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER Pan-Americana da Saúde (OPAS), o guia prático para assistência ao parto normal. Os serviços de saúde também receberam cartões da gestante e instrumental técnico para a realização do pré-natal, que compunham o kit obstétrico juntamente com o estetoscópio de Pinard, fita obstétrica, disco de idade gestacional e tabela de peso/ altura. Para estimular a participação das mulheres, foram distribuídas dois milhões de agendas com informações sobre a gestação, o parto e os cuidados com os recém-nascidos. O conjunto dessas medidas tornar-se-á efetivo quando, somados a elas, os profissionais de saúde transformarem suas práticas em uma relação mais humanizada e segura. É nessa perspectiva que o manual foi elaborado. O parto precisa ser resgatado como o momento do nascimento e devem ser respeitados todos os seus significados. À mulher deve ser devolvido o direito de ser mãe com humanidade e segurança. Aborto Como sabemos, a prática do abortamento é considerada crime na legislação brasileira. O fato de ser um ato ilegal não impede, no entanto, a sua prática, o que acarreta graves consequências para a saúde física e mental das mulheres, além de levar um grande número delas ao óbito. Há algumas exceções admitidas no Código Penal. De acordo com o artigo 128 do Código Penal, “não se pune o aborto praticado por médico: I – se não há outro meio de salvar a vida da gestante; II – se a gravidez resulta de estupro, e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal”. A interrupção de gravidez nos casos de malformação fetal com inviabilidade de vida extrauterina tem sido autorizada pelo Judiciário. Abortamento é a interrupção de forma espontânea ou provocada, até a 20ª/22ª semana gestacional, com o feto pesando menos que 500g. Aborto é o produto da concepção eliminado no abortamento. Para se informar melhor sobre o tema, visite o site do Ministério da Saúde. <http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/ pdf/aborto_e_saude_publica_vs_preliminar.pdf>. Está sendo abordado, portanto, um grave problema de saúde pública, já que o aborto provocado está entre as principais causas de mortalidade materna no Brasil. O procedimento técnico para realização do aborto exige técnica cirúrgica relativamente simples e está associado a baixos índices de letalidade. No entanto, ao ser realizado por clínicas clandestinas sem as condições ideais de assepsia, torna-se um grande risco para a saúde e a vida das mulheres. Muitas mulheres, ao procurarem os serviços públicos de saúde com abortos incompletos provocados, sofrem violência institucional por meio de censura e julgamentos. Chegam, inclusive, a serem denunciadas pelos profissionais de saúde às autoridades policiais. Essa atitude, que desrespeita os Códigos de Ética dos profissionais, faz com que as mulheres tenham receio de ir aos hospitais e, assim, retardam a procura por assistência, fato que pode levar a graves complicações ou até mesmo à morte. 30 PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única . Você sabia que, nos casos de abortamento espontâneo ou provocado, os profissionais de saúde NÃO podem comunicar o ocorrido à autoridade policial ou judicial? Segundo o Código Penal, “é crime revelar a alguém, sem justa causa, segredo de que tem ciência em razão da função, ministério, ofício ou profissão, e cuja revelação possa produzir dano a outrem”. Nesses casos, mesmo envolvendo adolescentes, o profissional deve aplicar o princípio da beneficência (obrigação ética de se maximizar o benefício e minimizar o dano). Foi preocupado com este contexto e em respeito aos compromissos assumidos pelo Brasil em Cairo e Beijin – de oferecer atenção de qualidade às mulheres para que possam exercer seus direitos sexuais e reprodutivos–, que o MS editou, em 2005, a Norma Técnica (NT) de Atenção Humanizada ao Abortamento. Nesse documento, fica clara a necessidade prevista no PAISM de atuar em saúde da mulher na perspectiva da integralidade da assistência. Ao ser abordada a morte materna, foi visto que uma de suas causas é o aborto provocado. Muitas mulheres recorrem à interrupção da gravidez por não terem tido acesso às ações e métodos de planejamento reprodutivo. Na maior parte das vezes, ao serem atendidas após um aborto provocado, as mulheres não são orientadas quanto à adoção imediata de um método contraceptivo e voltam, com frequência, a recorrer ao aborto num ciclo perverso de desassistência. A Norma Técnica (NT) reconhece que a discussão sobre o aborto, para além da área da saúde, envolve aspectos legais, morais, religiosos, sociais e culturais. No entanto, alerta os profissionais de saúde que seus valores e concepções sobre o tema não devem interferir na sua prática a fim de assegurar um atendimento humanizado. Quando foi falado, anteriormente, de assistência ao parto e ao nascimento, definiu-se como um fenômeno físico, emocional, cultural e social. Da mesma forma, a experiência do aborto acontece em todas essas dimensões da vida da mulher. Se, ao ser recebida em uma unidade de saúde, ela se sentir acolhida e respeitada, poderá sentir-se encorajada a expressar para a equipe mais do que as suas dores físicas e, assim, facilitará a relação profissional/usuária, indispensável em uma assistência de qualidade e resolutiva. Está sendo falado em abortos provocados. Você sabe quem são as mulheres que abortam em nosso país? Segundo o MS, são, predominantemente, mulheres entre 20 e 29 anos, em união estável, com até oito anos de estudo, trabalhadoras, católicas, com pelo menos um filho, usuárias de métodos contraceptivos e que utilizam misoprostol (© Cytotec) para abortar. Pode ser acrescentado a esse perfil o fato de serem mulheres que vivem em uma sociedade que valoriza a maternidade e condena a opção por não ter filhos; que criminaliza a prática do abortamento, mas omite-se na discussão do papel dos homens na reprodução; que reprova o aborto no âmbito público, mas tem grande tolerância no âmbito privado, principalmente, quando envolve pessoas do seu núcleo familiar ou social; e que pune as mulheres pobres, que são a maioria das que praticam o aborto inseguro por falta de acesso às clínicas de bom padrão, mesmo que ilegais do ponto de vista jurídico. É preciso salientar que o uso do misoprostol vem substituindo a utilização de venenos, líquidos cáusticos e as manipulações uterinas com objetos perfurantes, o que 31 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER diminui a morbidade e a mortalidade por abortamento provocado, bem como o tempo e o custo das internações no SUS. Ao mesmo tempo, a aquisição ilegal desse fármaco – feita, em geral, pelos homens – os expõe ao risco de aproximação com o tráfico ilegal de drogas. Nos últimos anos, tem-se observado uma redução no número de internações no SUS por abortamento. Em 1992, houve 344.956 internações e, em 2005, tivemos 250.447 segundo o Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH-SUS). Esse decréscimo, segundo os estudiosos do tema, deve-se ao aumento da atenção em contracepção e ao uso do misoprostol, que favorecem os abortamentos completos sem que haja necessidade de internação. Apesar dessa evolução, é preciso avançar no debate do aborto como questão de saúde pública e não de polícia ou de dogma religioso. Para tal, deve-se levar em conta a experiência de países nos quais o aborto não é criminalizado. Veja o que disse a OMS em 2004. »» Nos países em que o aborto é legalizado, houve de 0,2 a 1,2 óbito de mulheres para cada 100.000 abortos. »» Nos países nos quais o aborto é crime, essa taxa é de 330 para cada 100.000. »» Nos abortos seguros, a possibilidade de morte da mulher é de uma a cada 100.000 procedimentos. A legalização do aborto não pode ser pensada descolada das demais ações de saúde e direitos reprodutivos. A meta é que as mulheres possam exercer sua sexualidade amparadas por políticas e ações públicas que, de fato, lhes permitam o acesso a todos os métodos de regulação da fecundidade e, se for preciso, que possam recorrer ao abortamento e que o faça em condições seguras. 32 Capítulo 3 Preparo da mulher e da família para o parto, nascimento e amamentação Antes do PAISM, as políticas de atenção à saúde da mulher estavam voltadas, exclusivamente, para o ciclo gravídico-puerperal e eram denominadas de Programas de Saúde Materno-Infantil. Como a formulação de políticas de saúde deve levar em conta, dentre outros fatores, os indicadores epidemiológicos e a vulnerabilidade de determinados grupos populacionais específicos, a prioridade dada pelos gestores da época ao chamado grupo materno-infantil explica-se pela prevalência e alta incidência de mortalidade materna e infantil em nosso país. Somava-se a esses fatores técnicos a desigualdade de gênero que destinava às mulheres o papel social de reprodutoras da espécie. O cuidado das crianças ficava sob sua exclusiva responsabilidade. A partir de 1984, com o PAISM, as políticas de saúde passaram a buscar atender integralmente as necessidades e especificidades das mulheres no seu ciclo vital, deixaram de restringir-se aos momentos da gravidez, do parto e do puerpério e dissociaram-se da atenção à saúde infantil, que passou a merecer políticas próprias. É com base no PAISM que abordaremos, portanto, os temas relacionados à gravidez, parto e nascimento, que devem ser entendidos não apenas como acontecimentos biológicos, mas sim como fenômenos da vida com dimensões emocionais e que se inscrevem, também, no corpo social. Atenção pré-natal A assistência pré-natal, como conhecida hoje, iniciou-se no começo do século XX nos países industrializados que, não obstante o crescimento econômico, continuavam a apresentar altas taxas de mortalidade materna e infantil e, assim, obrigaram os governos a pensarem em ações de saúde voltadas para as gestantes. Passado um século, não há mais dúvidas sobre os impactos positivos da assistência pré-natal à saúde da gestante e do recém-nato. Além disso, o pré-natal é uma assistência de baixo custo por não exigir recursos tecnológicos sofisticados, o que facilita sua implementação, mesmo em países em desenvolvimento. Ao pensar o pré-natal de qualidade como uma das estratégias de redução de morte materna, o MS lançou, em 2000, o Programa de Humanização do Parto e Nascimento (PHPN), o qual tem, entre seus objetivos, a melhoria do acesso, da cobertura e da qualidade do acompanhamento pré-natal e da assistência ao parto e ao puerpério. 33 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER Você sabia que cerca de 56% das mães dos nascidos vivos no Brasil realizaram sete ou mais consultas de pré-natal? São inegáveis os avanços na assistência pré-natal. No entanto, devido às disparidades regionais, ainda é preciso pensar formas de ampliação da cobertura, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, e maneiras de tornar as consultas mais resolutivas em todo o país, já que, boa parte das gestantes brasileiras, atinge o número mínimo de consultas preconizadas pelo MS (seis) sem que essa expansão da cobertura se traduza em redução das mortes maternas. A assistência pré-natal visa assegurar que cada gestação culmine no parto de um recém-nascido saudável, sem prejuízos à saúde da mãe. Consiste, em resumo, em uma tríade: 1. Prevenir, identificar e/ou corrigir as anormalidades maternas ou fetais que afetam adversamente a gravidez com a inclusão dos fatores sócioeconômicos e emocionais, bem como dos médicos e/ou obstétricos; 2. Instruir a paciente no que diz respeito à gravidez, ao trabalho de parto, parto e atendimento ao recém-nascido, bem como no que se refere aos meios que ela pode se valer para melhorar sua saúde; 3. Promover um suporte psicológico adequado por parte do seu companheiro, sua família e daqueles que a tem sob seu cuidado, especialmente, na primeira gravidez, de forma que ela possa ser bem sucedida na sua adaptação à gravidez e diante dos desafios que enfrentará ao criar uma família. O atendimento pré-natal deve ser organizado para atender às reais necessidades de toda a população de gestantes da sua área de atuação por meio da utilização de conhecimentos técnico-científicos e dos meios e recursos adequados e disponíveis. Além disso, deve proporcionar facilidade e continuidade do acompanhamento pré-natal e respostas positivas das ações de saúde sobre a saúde materna e perinatal. O início do pré-natal deve ocorrer no primeiro trimestre gestacional para permitir que ações preventivas e terapêuticas sejam oportunamente introduzidas. O envolvimento da comunidade e dos profissionais de saúde é essencial para que a captação precoce das grávidas ocorra. Esse processo pode ser facilitado pela utilização dos meios de comunicação, por meio de visitas domiciliares e de atividades que visem a educação, especialmente coletiva (da comunidade). Ao iniciar o pré-natal, a grávida deve perceber que os profissionais são adequadamente treinados e preparados para seu atendimento com uma visão de assistência integral à saúde da mulher. A organização do serviço deve proporcionar rapidez e eficiência no atendimento. A captação das pacientes somente será mantida se a qualidade dos serviços ofertados corresponder às expectativas. Dentre as atribuições de uma equipe de saúde da família nos cuidados básicos para o pré-natal e puerpério, podem ser citadas: »» Captação para o pré-natal: realizar a inscrição da gestante pelo médico ou enfermeira; abrir o prontuário da gestante; preencher o cartão da gestante; preencher a ficha de cadastramento da gestante; agendar a consulta de pré-natal; orientar sobre a maternidade na qual, possivelmente, ocorrerá o parto; solicitar exames laboratoriais. »» Consultas médicas: realizar anamnese, exame clínico e obstétrico; analisar o resultado 34 dos exames laboratoriais; avaliar o risco gestacional; anotar idade gestacional, exames PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única laboratoriais, PA, peso, estatura, altura uterina (AU), situação e apresentação fetal e ausculta dos batimentos fetais; preencher gráfico da AU, cartão, prontuário; orientar o preparo das mamas e incentivar o aleitamento materno; avaliar e orientar quanto à imunização antitetânica. »» Consulta de enfermagem: realizar anamnese, exame clínico e obstétrico; anotar idade gestacional, exames laboratoriais, pressão arterial (PA), peso, estatura, AU, situação e apresentação fetal, ausculta dos batimentos fetais; preencher gráfico da AU, cartão, prontuário; orientar o preparo das mamas e incentivar o aleitamento materno; avaliar e orientar quanto à imunização antitetânica. »» Atendimento de enfermagem: aplicar a vacina antitetânica; coletar os exames laboratoriais; realizar os procedimentos solicitados na consulta médica ou de enfermagem; realizar as ações educativas; acompanhar as gestantes na visita à maternidade; realizar a busca ativa das gestantes faltosas; preencher os registros necessários. »» Atendimento pelo agente comunitário de saúde: captar precocemente as gestantes para o pré-natal; realizar visita domiciliar para monitoramento das gestantes; realizar as ações educativas; realizar a busca ativa das faltosas. »» Encaminhamento ao serviço de referência: encaminhar as gestantes à consulta especializada caso apresentem intercorrências; encaminhar a gestante de alto risco para o serviço de referência; encaminhar as gestantes em situação de emergência como sangramento, ruptura da bolsa amniótica, trabalho de parto prematuro, hipertensão grave, entre outras; orientar as gestantes a levarem o cartão nas consultas especializadas ou internamento. »» Atendimento em saúde bucal: realizar ações educativas em saúde bucal; realizar atendimento clínico odontológico de acordo com a necessidade da gestante; realizar o atendimento às urgências/emergências em odontologia. »» Consulta puerperal: realizar duas consultas puerperais – a primeira consulta até 10 dias após parto e a segunda até 40 dias após parto; detectar e tratar, nas consultas, as complicações puerperais, incentivar o aleitamento materno, avaliar o risco reprodutivo, inscrever as mulheres com risco reprodutivo no planejamento familiar e reforçar as orientações sobre o aleitamento materno. A coordenação da equipe de saúde da família deve garantir as seguintes atividades: reuniões semanais com a equipe para avaliar avanços, dificuldades e encaminhamentos em geral; treinamento e acompanhamento das ações desenvolvidas pelas auxiliares de enfermagem; treinamento e acompanhamento das ações desenvolvidas pelos agentes comunitários de saúde; fechamento do Sistema de Informação da Atenção Básica (SIAB); participação em reuniões com a Secretária Municipal de Saúde e/ou com a Coordenação Municipal do PACS/PSF; promover oportunidades de capacitação da equipe de PSF e estimular o estudo de caso e a troca de experiências; manter a logística de medicamentos e outros insumos necessários ao funcionamento da equipe; promover avaliação periódica do impacto das ações do PSF em relação à qualidade de vida e saúde da população adscrita. 35 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER A estrutura física da instituição precisa ser adequada, funcional e propiciar condições favoráveis de trabalho aos profissionais e condições agradáveis às pacientes. Além disso, todos os equipamentos e instrumentos necessários ao atendimento obstétrico e ginecológico devem estar disponíveis. A estrutura da unidade precisa, ainda, permitir o acesso aos exames laboratoriais obrigatórios, aos exames especializados – quando pertinentes – e oferecer, gratuitamente, medicamentos básicos às gestantes. Para que o acompanhamento da paciente se faça de forma adequada, tornam-se necessários mecanismos que permitam o registro das grávidas e métodos estatísticos que avaliem as ações de saúde prestadas pela instituição. Com isso, torna-se possível o acompanhamento sistematizado da gravidez, do parto e do puerpério por meio da coleta e da análise dos dados obtidos em cada consulta. Os materiais utilizados para registro das pacientes, atendimento e acompanhamento estatístico são: a. ficha de atendimento perinatal: registro individual e, de preferência numerado, (prontuário) dos dados de acompanhamento médico da gestação, do parto, do puerpério e do recém-nascido; b. cartão da gestante: registro dos principais dados do acompanhamento pré-natal que devem permanecer em poder da gestante e que são essenciais quando há necessidade de referência e contrarreferência da grávida. c. Mapa de registro diário: registro de todas as ações prestadas diariamente na instituição. Por fim, há necessidade de um serviço efetivo de referência e contrarreferência que proporcione à clientela, quando necessário, acesso aos diversos níveis de complexidade do sistema de saúde. Ao ser encaminhada, a paciente necessita levar consigo uma referência formal na qual conste o motivo do encaminhamento, os dados clínicos de interesse e seu cartão da gestante. Na contrarreferência, deverão constar os dados relativos ao atendimento, principalmente os relacionados aos exames realizados, aos diagnósticos propostos, aos tratamentos realizados e às recomendações sugeridas. Após o parto, é preciso assegurar-se do retorno da puérpera e do recém-nascido ao serviço de saúde de origem de posse de toda a informação necessária ao seguimento e notificação da equipe de saúde. Os métodos estatísticos utilizados devem avaliar a qualidade da assistência pré-natal e identificar os problemas da instituição e da própria população O objetivo é a adoção de estratégias que permitam melhorar a assistência pré-natal. Parto e nascimento É fundamental, para a humanização do parto, o adequado preparo da gestante para o momento do nascimento. O preparo deve ser iniciado precocemente durante o pré-natal, o que requer um esforço muito grande. No entanto, é plenamente viável no sentido de sensibilizar e motivar os profissionais de saúde da rede básica e fornecer-lhes instrumentos para o trabalho com as gestantes. Além dos aspectos técnicos propriamente ditos, o preparo para o parto envolve, também, uma abordagem de acolhimento da mulher e do seu companheiro no serviço de saúde, o que incluio fornecimento de informações de onde e como o nascimento deverá ocorrer, o preparo físico e psíquico da mulher, a permissão de uma visita à maternidade para conhecer suas instalações físicas, o pessoal e os procedimentos rotineiros, entre outros. 36 PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única O preparo da gestante para o parto abrange a incorporação de um conjunto de cuidados, medidas e atividades que têm como objetivo oferecer à mulher a possibilidade de vivenciar a experiência do trabalho de parto e do parto como processos fisiológicos e fazer com que se sinta protagonista do processo. É importante ressaltar que esse atendimento, quando possível, deve ser oferecido à gestante e ao acompanhante, que poderá estar ao seu lado durante o pré-natal e no decorrer do trabalho de parto e parto, vivenciando, junto à mulher, a experiência do nascimento. O profissional de saúde desempenha um papel relevante como facilitador para o desenvolvimento dessa atenção como parte dos serviços de pré-natal. Também, participa das orientações, aconselhamentos específicos e atividades de preparo da mulher e do seu acompanhante para o parto. É importante considerar, nesse processo, os desejos e valores da mulher, adotar uma postura sensível e ética, respeitá-la como cidadã e eliminar as violências verbais e não verbais. Os serviços de pré-natal e os profissionais envolvidos devem adotar as seguintes medidas educativas de prevenção e controle da ansiedade: »» manter o diálogo com a mulher e seu acompanhante durante qualquer procedimento realizado na consulta pré-natal, incentivá-los, orientá-los e esclarecer-lhes as dúvidas e seus temores em relação à gestação, ao trabalho de parto, ao parto e ao puerpério; »» informar sobre as rotinas e procedimentos a serem desenvolvidos no momento do trabalho de parto e do parto a fim de obter colaboração por parte da parturiente e de seu acompanhante; »» promover visitas das gestantes e acompanhantes às unidades de referência para o parto no sentido de desmistificar e minimizar o estresse do processo de internação no momento do parto; »» informar as etapas de todo o processo do trabalho de parto e do parto e esclarer sobre as possíveis alterações; »» adotar medidas para o estabelecimento do vínculo afetivo entre mãe e filho e relativas ao início do aleitamento materno logo após o nascimento; »» dar à gestante e a seu acompanhante o direito de participar das decisões sobre o nascimento, desde que não coloque em risco a evolução do trabalho de parto e a segurança da mulher e do recém-nascido. Uma série de dificuldades práticas podem surgir durante a reorganização dos serviços de saúde para propiciar à gestante/parturiente uma assistência mais humanizada. Para contorná-las, alguns serviços têm proposto a criação de grupos de apoio. A implementação desses grupos com a participação de diferentes profissionais da equipe de saúde, como enfermeira/o, psicóloga/o e assistente social, são fundamentais para garantir uma abordagem integral, e, ao mesmo tempo, específica para atender às necessidades das mulheres e de seus parceiros e familiares durante a gravidez. Assim, o principal objetivo de um grupo de apoio como esse seria o de ajudar a mulher a lidar com as vivências, cuidar de si durante sua gravidez, bem como prepará-la para o parto e a maternidade. 37 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER O grupo de apoio é realizado de maneira informal, aborda os aspectos cognitivos e oferece informações importantes e objetivas de acordo com o interesse das gestantes. Ainda, propicia a troca de experiências por contar sempre com a participação de uma equipe multiprofissional. Alguns temas podem ser trabalhados e desenvolvidos nesses grupos educativos. São eles: importância do pré-natal, aleitamento materno (vantagens e manejo da amamentação, posicionamento e pega correta, duração das mamadas, tipos de leite, ordenha manual, banco de leite humano, direitos da mãe que amamenta, aconselhamento em aleitamento materno), mudanças corporais e emocionais durante a gravidez, relaxamento e exercícios físicos, trabalho de parto, parto e puerpério, cuidados com o recém-nascido e planejamento familiar. O objetivo dessas atividades é o de complementar o atendimento realizado nas consultas, melhorar a aderência por parte das mulheres às indicações médicas, diminuir as ansiedades e medos em relação à gravidez, parto e puerpério – sem ignorar as vivências e necessidades da mãe e do recém-nascido, o aleitamento materno e a contracepção. Ao mesmo tempo, as atividades realizam um trabalho corporal de relaxamento e respiração para melhorar a adequação corporal ao trabalho de parto e ao parto para que se favoreça o parto normal. Além das medidas educativas que devem ser introduzidas nos programas de pré-natal, durante a gravidez, a preparação da mulher para o nascimento compreende, principalmente, a adoção de medidas referentes ao trabalho corporal. O objetivo da implementação dessas medidas é oferecer à mulher um melhor conhecimento da percepção corporal, bem como do relaxamento e da respiração para um melhor controle do trabalho de parto e do parto. Para isso, é necessário trabalhar a gestante com exercícios próprios para cada etapa da gravidez, que incluem o relaxamento e os exercícios respiratórios. Os exercícios de relaxamento têm como objetivo permitir que as mulheres reconheçam as partes do corpo, suas sensações, as diferenças entre relaxamento e contração, assim como as melhores posições para relaxar e a utilização durante o trabalho de parto. Os exercícios respiratórios têm por objetivo auxiliar as mulheres no controle das sensações das contrações durante o trabalho de parto. Embora realizados ainda durante o pré-natal, são dirigidos à utilização durante o trabalho de parto e o parto. O ambiente acolhedor, confortável e o mais silencioso possível conduz ao relaxamento psicofísico da mulher, do acompanhante e da equipe de profissionais e indica qualidade da assistência. Os recursos da música e das cores representam formas alternativas de abordagem que buscam desenvolver potenciais e/ ou restaurar funções corporais da parturiente, do acompanhante e da equipe profissional. A utilização de roupas confortáveis também é uma medida importante para favorecer o relaxamento. A associação de algumas medidas não farmacológicas como exercícios respiratórios, técnicas de relaxamento e a deambulação auxiliam no alívio da dor durante o trabalho de parto. Estudos recentes demonstram vantagens para a mulher que deambula ou que adota outras posições que não a deitada durante o trabalho de parto. Outros estudos ainda sugerem que as contrações uterinas são mais intensas e eficientes para a dilatação do colo de acordo com a mudança da posição da parturiente. Outras medidas que podem ser utilizadas com frequência são o banho de chuveiro ou de imersão e massagens feitas por acompanhante ou profissional de saúde. O banho pode ser utilizado no início da fase ativa do parto, ou seja, quando as contrações começam a ficar mais intensas. As medidas e/ou técnicas como o uso de calor e frio superficiais, acupuntura, musicoterapia, cromoterapia, imersão na água, ervas e aromaterapia com óleos perfumados ainda não possuem estudos controlados para estabelecer sua efetividade. 38 PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única Por fim, a maternidade também possui um papel importante na assistência à gestante. Ela deve acolher a gestante quando apresentar qualquer intercorrência e no momento do parto; deve avaliar o grau de risco gestacional mediante a análise dos dados do cartão gestante e do exame clínico-obstétrico; solicitar os exames necessários, conforme o estabelecido no protocolo; permitir a presença de acompanhante para a parturiente durante o trabalho de parto; monitorar a evolução do trabalho de parto e realizar os registros no partograma; adotar as recomendações para o parto humanizado, evitar os procedimentos desnecessários que tragam desconforto ou redução da autonomia da parturiente e respeitar os direitos da paciente; garantir a presença de pediatra na sala de parto; viabilizar o alojamento conjunto; realizar os cuidados necessários tanto para a mãe, quanto para o bebê; realizar as ações de educação em saúde com ênfase no aleitamento materno e nos cuidados com o bebê; realizar os registros necessários no prontuário, no cartão da gestante, entre outros. O objetivo principal do preparo da mulher e do seu acompanhante é favorecer que o trabalho de parto e o parto sejam vivenciados com mais tranquilidade e participação e, assim, resgatar o nascimento como um momento da família. Aleitamento materno O aleitamento materno é a primeira intervenção nutricional voltada para a manutenção e saúde da prole e executada pela própria mãe assim que ocorre o nascimento. Infelizmente, esse costume entrou em declínio durante várias décadas e foi julgado, inclusive, como costume ultrapassado. Essa postura causou sérias consequências aos recém-nascidos de todo o mundo e, principalmente, àqueles de baixa condição socioeconômica. Os fatores que concorreram para essa catástrofe foram inúmeros, mas citaremos aqui apenas os mais importantes: »» atuação das empresas multinacionais do leite em pó, marketing intenso que comparava fotografias de crianças obesas com de outras que amamentavam no seio e estavam abaixo da curva de crescimento; »» falta de atenção das Faculdades de Medicina preocupadas, apenas, em mostrar as patologias da mama sem chamar atenção a respeito da importância da fisiologia normal para a produção do leite; »» criação de berçários que isolam o recém-nascido das mães, que usam horários fixos para a amamentação e favorecem, assim, o desmame precoce. É consenso que o leite materno é o melhor alimento para o bebê tanto do ponto de vista nutritivo, quanto para a prevenção de doenças como, por exemplo, do trato respiratório, digestivo e alergias. A amamentação é importante, também, no estabelecimento do vínculo afetivo entre a mãe e o bebê, o que favorece o desenvolvimento global da criança. Para a mãe, a amamentação favorece a recuperação pós-parto, ajuda a prolongar o tempo entre uma gravidez e outra e diminui o risco de câncer de mama e de ovário. No Brasil, estudos têm verificado que a tendência da amamentação teve um incremento entre 1975 e 1989, quando a mediana da amamentação passou de 2,5 meses para 5,5 meses. No entanto, esse aumento foi 39 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER mais acentuado para a área urbana e para a região Centro-Oeste e Sudeste. Atualmente, estudos mostram que, apesar da maioria dos bebês (96,4%) ser amamentada quando sai da maternidade, somente 40% deles recebem aleitamento materno exclusivo aos 4 meses de idade. Em 1981, foi criado no Brasil, pelo Ministério da Saúde, o Programa Nacional de Incentivo ao Aleitamento Materno com a finalidade de convocar os serviços de saúde e a sociedade em geral para reverter o hábito do desmame precoce e de contornar sua consequência direta, que é a contribuição para a mortalidade perinatal na população brasileira. A OMS (2001) e o Brasil (2002) recomendam que todos os bebês devem ser amamentados exclusivamente com o leite materno até seis meses de idade e, após esse período, as crianças devem continuar sendo amamentadas no peito, juntamente com os alimentos complementares, até dois anos ou mais. De acordo com a II Pesquisa de Prevalência do Aleitamento Materno nas Capitais Brasileiras e Distrito Federal, identificou-se que a prevalência do aleitamento materno exclusivo (AME) em menores de 6 meses foi de 41,0% no conjunto das capitais brasileiras e no DF. Esse índice ainda está longe das metas recomendadas pela OMS. Nem sempre é fácil para as mães cumprirem essas recomendações e a amamentação acaba interrompida e ocasiona o desmame precoce. Segundo Nakano e Mamede (1999), a amamentação é um processo complicado que demanda aprendizado. O desmame precoce expõe as crianças a riscos de desnutrição, afetam seu crescimento e desenvolvimento, causam aumento no índice de internação hospitalar por infecções respiratórias e gastrointestinais, além de constituir um dos fatores responsáveis pela alta morbimortalidade no primeiro ano de vida. As dúvidas e dificuldades das mães em relação à amamentação, quando não resolvidas no momento oportuno, contribuem para aumentar a frequência do desmame precoce. É importante ressaltar que a mãe, quando não está confiante na sua capacidade de fornecer uma alimentação adequada para seu bebê, introduz a mamadeira. Assim, a produção de leite materno começa a diminuir paulatinamente até o desmame total. Albernaz e Victora (2003) sugerem que é necessário que haja uma estrutura para fornecer soluções para os problemas concretos que a mãe venha a encontrar durante a amamentação, com aconselhamento individual que complemente os esforços dos profissionais de saúde na promoção do aleitamento exclusivo. Para ter sucesso no aleitamento materno, a mulher precisa querer amamentar, estar segura e acreditar que é capaz de realizar a tarefa. Esse é um momento propício para que ocorram as atividades educativas, pois a gestante está aberta a receber informações para compreender melhor as mudanças que ocorrerão em seu corpo nesse período. Orientada, preparada e estimulada, a mulher torna-se mais tranquila para realizar, junto com seu filho, o processo da lactação. Apesar dos benefícios do aleitamento, deve-se aceitar a escolha, informada e consciente, da mãe pela não amamentação. Entretanto, o direito da mulher amamentar deve ser apoiado, especialmente quando ela tem um trabalho remunerado. Ela precisa conhecer a legislação trabalhista que protege a maternidade. 40 Neste sentido, a equipe de saúde tem papel fundamental em ajudar as mães a amamentar, já que muitas necessitam de orientações específicas tanto no estabelecimento da lactação, quanto durante o período da amamentação e para a sua manutenção. Para que a equipe possa cumprir esse papel, é de vital importância que esteja atualizada na temática de forma a sistematizar ações e condutas a serem realizadas. PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única Cabe aos profissionais de saúde, principalmente ao obstetra, uma atuação direta nessa luta a fim de provocar mudanças de mentalidade. Devem participar de ações junto às gestantes e auxíliar o resgate do hábito de amamentar. Assim, a equipe de saúde, seja da maternidade ou da unidade de saúde na qual foi realizado o pré-natal, deve direcionar sua linguagem sempre no sentido de ressaltar a importância do aleitamento materno. Qualquer expressão que contrarie esse direcionamento pode influir no ânimo da gestante quanto à amamentação. A orientação normalmente inclui os seguintes componentes, os quais devem ser considerados separadamente: informações sobre as vantagens do aleitamento materno para motivar mulheres a amamentar; educação sobre a técnica de amamentação para aquisição de habilidades e autoconfiança; e exame físico das mamas e preparação dos mamilos. É importante o uso de materiais educativos nesses grupos e a inclusão do parceiro, mãe e amiga nas atividades educativas. Finalmente, a equipe de saúde deverá estar atenta, coordenar todas estas ações e ficar de sobreaviso para resolver qualquer intercorrência ou dúvida que possa interferir no processo de amamentar. 41 Capítulo 4 Planejamento familiar e orientação anticoncepcional . Você sabe qual a diferença entre planejamento familiar e controle da natalidade? É comum encontrar as expressões planejamento familiar e controle da natalidade utilizadas como se fossem sinônimas uma da outra. Quando é falado de controle da natalidade, está sendo referido a políticas de Estado ou de governos, nas quais a autonomia do indivíduo em definir o tamanho ideal de sua prole está suprimida e fica subordinada a interesses demográficos e econômicos. O controle da natalidade é exercido por meio de ações ou práticas sistemáticas que visam o cerceamento da fecundidade ou da capacidade reprodutiva humana. O termo planejamento familiar, por sua vez, está associado à regulação da fecundidade mediante práticas exercidas por iniciativa dos próprios indivíduos ou casais e visam o controle de suas capacidades reprodutivas com auxílio ou não de outras pessoas. Utiliza-se também a denominação regulação da fecundidade, que consiste na possibilidade de homens e mulheres de decidir, de forma autônoma, sobre o exercício da sua capacidade reprodutiva, independentemente de sua situação conjugal ou arranjo familiar. É fundamental a compreensão da diferença entre planejamento familiar e controle da natalidade, já que não se trata apenas de uma questão semântica, mas, também, de uma questão político ideológica. Na população em geral e entre alguns profissionais de saúde, persiste a associação causal entre fecundidade, pobreza e violência urbana. A regulação da fecundidade é vista, ainda, como a solução para as questões sociais e econômicas. Não pode ser esquecido que, historicamente, a pobreza em nosso país está mais presente entre as mulheres e os negros e que, portanto, ao associar pobreza, violência e redução da natalidade, corre-se o risco de enxergar que a solução de problemas sociais, decorrentes da má-distribuição de renda, esteja no controle da fecundidade de mulheres negras. Apesar da drástica redução da fecundidade da mulher brasileira nas últimas décadas, muitas questões sociais não foram resolvidas, o que nos mostra que a queda da fecundidade não é remédio para as iniquidades sociais. 42 A atual taxa média de fecundidade brasileira está em 1,8 filho por mulher, o que fica abaixo do patamar de reposição da população, que seria de 2,1 filhos por mulher. O nível de fecundidade passou de 91 filhos nascidos vivos a cada mil mulheres para 63, em 2009, e houve redução no número de adolescentes grávidas. PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única Histórico da atenção em planejamento familiar no Brasil A assistência à saúde das mulheres passou a ser feita como política governamental no começo do século XX. As ações, no entanto, eram voltadas, basicamente, para a assistência às mulheres no período gravídico-puerperal. Na década de 1960, diversas entidades internacionais privadas passaram a atuar no país com vistas à redução do crescimento populacional embasadas em teorias Malthusianas. Os governos militares não tinham uma política oficial voltada para a regulação da fecundidade da população. Esse vazio institucional foi ocupado por organismos internacionais apoiados por fundações, em geral dos Estados Unidos, com atuação preponderante na América Latina e na África. Você sabe quem foi Malthus e o que ele escreveu sobre a explosão demográfica? As respostas para estas questões estão disponíveis em <http://www.geomundo.com. br/geografia-30186.htm>. A atuação dessas entidades era descolada de preocupações com a saúde das mulheres. Havia a distribuição de pílulas anticoncepcionais sem o devido acompanhamento médico e a realização de laqueaduras tubárias de forma indiscriminada, principalmente entre a população mais carente economicamente, sem alertar sobre a quase absoluta irreversibilidade do método, quase sempre sem a oferta de outras opções contraceptivas e sem o consentimento informado da mulher. Além disso, realizavam pesquisas envolvendo a utilização de métodos no corpo das mulheres sem atender aos princípios éticos e a padrões internacionais de pesquisas em seres humanos. A política controladora dessas instituições foi sempre denunciada e combatida pelo movimento feminista, pelo movimento negro, pelo meio acadêmico e por profissionais de saúde. No entanto, como vivíamos em um período de exceção, as opiniões da sociedade civil organizada e dos técnicos não eram ouvidas. No ano de 1984, já no período de distensão da ditadura, o MS, com intensa contribuição daqueles atores sociais, elaborou então o Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM), que, conforme descrito anteriormente, estimulou uma visão revolucionária para a época de que a saúde da mulher deveria ser vista para além do momento reprodutivo com enfoque integral em todas as fases da sua vida e com equidade e universalidade de acesso. O PAISM, ao incluir entre as suas ações programáticas a atenção em planejamento familiar, a tornou uma política pública de saúde e estabeleceu, portanto, um marco histórico na saúde das mulheres. Cabe ressaltar que, apesar dos avanços conceituais contidos no texto do PAISM, havia um descompasso na legislação vigente. Até o ano de 1979, era proibido o anúncio de qualquer substância contraceptiva no país e a esterilização voluntária era considerada lesão corporal grave pelo Conselho Federal de Medicina (Resolução 1.154 de 1984). Apenas em 1996, ocorreu a edição de uma lei sobre o planejamento familiar no país. Trata-se da Lei nº 9.263/1996, que incorporou princípios estabelecidos nas Conferências do Cairo e de Pequim, definiu a obrigação do SUS no oferecimento de informações e de acesso aos meios e técnicas de regulação da fecundidade, além de regulamentar a realização de esterilizações cirúrgicas em homens e mulheres. 43 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER Hoje, a política brasileira de assistência em planejamento familiar faz parte de uma política maior de assistência integral à saúde, fundada no princípio do bem-estar, da qualidade de vida e nos direitos de cidadania. O planejamento familiar é entendido como direito do cidadão e obrigação do Estado. Essa política é baseada na perspectiva dos direitos humanos, fundada no princípio da dignidade humana, da autonomia decisória e da integridade corporal, em obediência ao texto legal que define o planejamento familiar como o “conjunto de ações de regulação da fecundidade que garanta direitos iguais de constituição, limitação ou aumento da prole pela mulher, pelo homem ou pelo casal”. No entanto, ainda há uma distância entre as normas e legislação em planejamento familiar e a realidade dos serviços oferecidos à população. Não obstante os avanços conquistados, ainda há baixa cobertura da população alvo, descontinuidade na oferta regular de métodos anticoncepcionais, dificuldade de acesso para a realização da esterilização voluntária e a quase total falta de assistência a casais inférteis ou estéreis com desejo de reproduzir-se. Sugere-se, para a melhor compreensão do tema apresentado, a leitura da Lei nº 9.263/1996, conhecida como Lei do Planejamento Familiar, que está disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9263.htm>. Orientação anticoncepcional Para que possam exercer uma escolha consciente sobre a forma que melhor lhes convém e para que possam exercer o direito de controle da fecundidade e separar, se assim o desejarem, o exercício da sexualidade da função reprodutiva, as pessoas precisam conhecer as técnicas e métodos de concepção e contracepção e tê-los disponíveis no SUS. Os métodos reversíveis são: »» comportamentais: tabelinha, temperatura basal corporal, coito interrompido e LAM (método da amenorreia da lactação); »» hormonais de uso regular: pílulas combinadas, pílula de progestogênio e injetáveis mensais ou trimestrais; »» hormonais de uso emergencial: pílula anticoncepcional de emergência (indicada nas situações de falha de métodos anticoncepcionais, como rompimento da camisinha, esquecimento de tomar pílulas ou de injetar, deslocamento do diafragma ou do DIU, uso incorreto dos métodos comportamentais, violência sexual e relação sexual sem uso de método anticoncepcional); »» de barreira: condom ou preservativo masculino, preservativo ou camisinha feminina, diafragma e espermaticidas; »» DIU. 44 PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única Os métodos de difícil reversão são: »» laqueadura tubária e vasectomia: para se submeter à esterilização, é preciso ter capacidade civil plena (18 anos) e, pelo menos, dois filhos vivos ou ser maior de 25 anos de idade com ou sem filhos vivos. O prazo mínimo, nesses casos, é de 60 dias entre a manifestação da vontade da pessoa e de seu cônjuge e o ato cirúrgico. A pessoa interessada deve, ainda, participar de ação educativa realizada por equipe multidisciplinar que visa desencorajar a esterilização precoce e informar a respeito dos riscos da cirurgia. A laqueadura e a vasectomia podem ser realizadas, em qualquer idade ou situação pessoal, nos casos de risco à saúde da mulher. Excetuando-se os preservativos, os demais métodos e técnicas de contracepção não protegem contra as infecções sexualmente transmissíveis. Assim, cabe ao profissional de saúde orientar os usuários sobre o conceito de dupla proteção contra a gravidez não planejada e contra as infecções de transmissão sexual. Para maiores informações sobre cada um dos métodos e técnicas, consulte o Manual do Planejamento Familiar do Ministério da Saúde, disponível em <http:// bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/0102assistencia2.pdf>. Dados da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde de 2006 apontam que 76,7% das mulheres em idade fértil fazem uso de algum método anticoncepcional. Dessas, 40,1% foram submetidas à laqueadura tubária. Nesse mesmo ano, segundo o MS, os anticoncepcionais passaram a ser o primeiro método de planejamento familiar. Em 1996, a laqueadura era o primeiro método. É grande a responsabilidade dos profissionais de saúde em garantir que o texto da Lei do Planejamento Familiar torne-se realidade no dia a dia das pessoas, já que são eles que, de fato, transmitirão as informações sobre os métodos e as técnicas de regulação da fecundidade à população. No entanto, para além das informações sobre métodos e técnicas de planejamento familiar, há que se estar atento para aspectos como a abordagem positiva da sexualidade humana, a prática do sexo seguro, orientações sobre o funcionamento dos corpos dos homens e das mulheres, a relação mais igualitária entre os sexos, respeito mútuo nas relações sexuais e o papel dos homens na prevenção de gestações não desejadas e das infecções sexualmente transmissíveis (HIV/AIDS), bem como na paternidade responsável. Fica claro que, para trabalhar em planejamento familiar em uma perspectiva de integralidade da assistência e dos Direitos Sexuais e Reprodutivos, os profissionais de saúde precisam se despir de ideias preconcebidas e aceitar a variedade de formas de vivência da sexualidade humana. Dessa forma, será possível uma efetiva troca de informações e experiências de vida que enriquecerá os usuários e os próprios profissionais. 45 Capítulo 5 Violência à mulher . Você sabe a definição de violência contra a mulher? É toda ação ou conduta, baseada no gênero e que cause morte, dano físico, sexual ou psicológico tanto no âmbito público, quanto no privado. A violência contra as mulheres e, em especial, a violência sexual é um fenômeno que espelha a desigualdade das relações de gênero em um dado grupo social. A violência contra a mulher perpassa toda a sociedade, independentemente de classe, raça ou grupo étnico, cultura, nível educacional, idade ou religião e afeta não só as mulheres, mas todo o tecido social. As relações assimétricas de gênero, ou melhor, as desigualdades sociais, econômicas e políticas entre os sexos e a atribuição de papéis sociais hierarquizados para homens e mulheres estão na origem e manutenção da violência contra as mulheres. Essa desigualdade e a consequente violência a que estão submetidas têm sido um obstáculo para que as mulheres exerçam os seus direitos sexuais e reprodutivos. Violência sexual (VS) As estatísticas sobre violência contra a mulher revelam elevada incidência e prevalência do problema. Estima-se que a violência sexual acometa 12 milhões de pessoas a cada ano em todo o mundo. Nos EUA e no Canadá, cerca de 25% das mulheres experimentaram algum tipo de contato sexual não consentido. O agressor, frequentemente, é próximo e conhecido da mulher. No Japão, 75% das mulheres foram submetidas a alguma forma de violência física, psicológica ou sexual por parte de seu companheiro. Taxas igualmente expressivas foram reportadas em Porto Rico (58%), Nicarágua (52%), Bolívia (46%), Quênia (42%), Colômbia (40%), Brasil (38%), Canadá (29%), Chile (26%) e Nova Zelândia (20%). Embora a violência sexual seja comum a todas as sociedades humanas, o que vai fazer a diferença é a maneira como cada sociedade repudia, busca prevenir, atende às vítimas e pune os praticantes desse crime. Na Convenção promovida pela ONU em Belém do Pará, tivemos o reconhecimento pelos países signatários, incluindo o Brasil, da violência contra a mulher como violação dos direitos humanos e o compromisso de atuarem para prevenir, punir e erradicar a violência contra as mulheres. Apesar de ser uma importante causa de morbimortalidade, só no final dos anos 1990 foi reconhecida no Brasil como uma questão de saúde pública com o lançamento, pelo Ministério da Saúde, da Norma Técnica (NT) Prevenção e Tratamento dos Agravos Resultantes da Violência Sexual contra Mulheres e Adolescentes, que contém orientações para o atendimento em saúde às vítimas dessa 46 PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única violência. Trata-se de um ato normativo do gestor federal do SUS que vincula gestores estaduais e municipais ao seu cumprimento. A Norma dispõe que cabe a esses gestores a responsabilidade de definir as unidades de referência, capacitar equipes para prestar o atendimento adequado – conforme diretrizes e procedimentos estabelecidos – e avaliar as ações desenvolvidas. A equipe recomendada é multiprofissional e dá ênfase ao acompanhamento psicológico e social da pessoa atendida. No entanto, a maior parte dos casos de violência contra a mulher ainda não é notificada ou registrada por diferentes motivos, o que acaba por esconder o problema. Diversas propostas de intervenção vêm sendo implantadas nos últimos anos com a finalidade de reconhecer e manejar a questão. Uma delas é perguntar diretamente a todas as usuárias dos serviços de saúde se enfrentam ou sofreram algum tipo de violência. A OMS relaciona essa violência a diversos agravos à saúde física, como o abuso de drogas ilícitas e de álcool, os distúrbios gastrointestinais, as inflamações pélvicas crônicas, a ansiedade, a depressão, os distúrbios psíquicos, as tentativas de suicídio, além do trauma físico direto. A violência contra a mulher constitui uma das mais antigas e amargas expressões da violência de gênero e representa inaceitável violação de direitos humanos, sexuais e reprodutivos. Porém, é igualmente necessário entendê-la como grave problema de saúde pública. Dados do Banco Mundial revelam que a violência contra a mulher encontra-se entre as principais causas de anos de vida perdidos por incapacidade e superam os efeitos das guerras contemporâneas ou dos acidentes de trânsito. Os técnicos não são formados para dar conta dessa questão e é frequente que, diante do despreparo, fujam do problema e digam que o seu enfrentamento compete apenas a outras esferas. Porém, com o advento da NT, o papel moral, ético e profissional do técnico ficou claramente definido e o não atendimento às vítimas passou a ser considerado omissão. Um aspecto ético e legal relevante da NT é a garantia do direito das mulheres e meninas a serem informadas sobre todos os procedimentos que devem ser realizados em cada etapa do atendimento e sobre a importância de cada conduta. Deve ser respeitada a sua opinião em relação a algum procedimento, mesmo quando a vítima for menor de idade e necessitar de representação de seus pais ou responsáveis legais. A principal diretriz ética é buscar sempre realizar os procedimentos com o consentimento da pessoa, preservando sua autonomia. Dentre os procedimentos a serem oferecidos nos serviços, destacam-se: »» coleta de material para identificação do agressor por meio de exame do DNA, que deverá ficar arquivado no serviço, em condições adequadas, à disposição da Justiça; »» exames laboratoriais para auxiliar no diagnóstico e no rastreamento de doenças sexualmente transmissíveis, inclusive sorologia para o HIV; »» anticoncepção de emergência para os casos de estupro (em até 72 horas do ocorrido); »» prevenção profilática de DST (doenças sexualmente transmissíveis), inclusive para o HIV, que causa a Aids, e para hepatites virais; »» interrupção da gravidez até 20 semanas de idade gestacional. A interrupção acima de 20 semanas de idade gestacional não é recomendada. 47 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER Entretanto, atender a vítimas de violência sexual vai além de instituição de medidas profiláticas e terapêuticas previstas na NT. É preciso que os profissionais de saúde sejam sensibilizados ao tema. Mas o que deve-se entender por sensibilização? Ao ser proposto aos profissionais de saúde sensibilizações que os ajudem a atender às vítimas de violência sexual, na verdade, o que se propõe é que olhem para uma questão que antes não viam e que se permitam ter um novo olhar sobre o mesmo fato. Portanto, está sendo falado de mudanças, de reconstruções de verdades tidas como absolutas em verdades, pelo menos, relativas. Para atingir esse objetivo, será preciso trabalhar com a representação simbólica que o profissional tem do estupro, da mulher, da igualdade ou não entre os sexos e entre as classes sociais. Sabemos que, na área da saúde, 70% da força de trabalho é feminina e com uma grande concentração de profissionais de nível médio oriundas das classes menos favorecidas. Em contrapartida, a profissão hegemônica, a medicina, apesar da crescente feminilização e proletarização, caracteriza-se por suas origens de classe em segmentos médios tradicionais e por um modelo masculino de formação e atuação. Podemos, portanto, deduzir que teremos representações distintas para fenômenos como estupro, aborto, relações de gênero, entre outros, em uma mesma equipe de saúde. Cabe aos gestores e a cada profissional conhecer essas representações e as normas de comportamento que lhe são consequentes para que seja possível gerar transformações individuais e na equipe que possam influenciar a prática de atenção às mulheres vítimas de violência sexual. Violência contra a mulher durante a gravidez Ao contrário do que se espera, a violência contra a mulher não diminui, necessariamente, durante a gravidez. É fato que cerca de 13% das mulheres relatam aumento da frequência ou severidade da violência durante esse período. A prevalência de violência física e sexual durante a gravidez oscila entre 1% e 20%, com índices igualmente altos nos primeiros seis meses após o parto, e atinge 25% das mulheres. Adolescentes grávidas são particularmente mais vulneráveis à violência e apresentam risco duas vezes maior de serem estupradas, se comparado ao risco das grávidas adultas. Há indicadores de que as grávidas que sofrem violência sexual não realizam o pré-natal, apresentam maior risco relativo de infecções vaginais e cervicais, de ganho de peso insuficiente, de trabalho de parto prematuro, de baixo peso ao nascer e de infecção do trato urinário. Além disso, a grávida maltratada desenvolve quadro de estresse emocional constante, o qual se associa com a baixa estima, isolamento e suicídio, uso excessivo ou abusivo de cigarro, álcool ou drogas. As consequências psicológicas, embora mais difíceis de mensurar, produzem danos intensos, devastadores e, muitas vezes, irreparáveis. A violência exerce grande impacto para a saúde da gestante, com consequências que podem, também, comprometer a gestação e o recém-nascido. 48 De toda forma, a violência pode ser mais comum para a gestante do que a pré-eclâmpsia, o diabetes gestacional ou a placenta prévia e, lamentavelmente, pode-se afirmar que o ciclo gravídico-puerperal não confere proteção para a mulher. No entanto, a assistência pré-natal é o momento privilegiado para identificar as mulheres que sofrem violência e, muitas vezes, a única oportunidade de interromper o seu ciclo. PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única O atendimento apropriado para grávidas que sofrem violência física, sexual ou psicológica representa apenas uma de muitas medidas a serem adotadas para enfrentar o fenômeno da violência. Entretanto, a oferta de serviços permite acesso imediato a cuidados de saúde que podem mudar dramaticamente o destino dessas mulheres. Interrupção da gravidez resultante de estupro De acordo com o artigo 128, inciso II, do Código Penal, o abortamento é permitido quando a gravidez resulta de estupro. Constitui direito da mulher, que tem garantido pela Constituição Federal e pelas Normas e Tratados Internacionais de Direitos Humanos o direito à integral assistência médica e à plena garantia de sua saúde sexual e reprodutiva. Esse direito, durante muito tempo, foi inatingível para as usuárias da rede pública de serviços de saúde e, até hoje, o número de serviços oferecidos às mulheres é escasso em face das dimensões do país e da magnitude do problema. Convencidas a interromper a gestação, grande parte recorre aos serviços clandestinos – muitas vezes em condições inseguras – e se sujeita a desastrosas consequências que podem culminar na própria morte. Na eventual identificação desses casos durante a assistência pré-natal, é necessário que a mulher seja esclarecida sobre seus direitos e suas opções. Deve ser informada das possibilidades de manter a gestação, de proceder com a doação da criança após o nascimento ou de interromper a gestação de até 20 semanas de idade gestacional. Para cada opção, os serviços de saúde devem estar capacitados para atender a mulher em suas necessidades ou referenciá-la a serviços especializados. Segundo o Código Civil, a partir dos 18 anos, a mulher é capaz de consentir sozinha a realização do abortamento. Entre 16 e 18 anos, a adolescente deve ser assistida pelos pais ou pelo representante legal que se manifestam com ela. As menores de 16 anos devem ser representadas pelos pais ou representante legal. Para a realização da interrupção da gravidez no SUS, o MS, por meio da Portaria 1.508/2005, dispõe sobre o procedimento de justificação e autorização da interrupção da gravidez e determina que conste no prontuário da mulher: »» relato circunstanciado do evento; »» parecer técnico; »» termo de aprovação de procedimento; »» termo de responsabilidade; »» termo de consentimento livre e esclarecido. Além dessas exigências, o MS recomenda que a interrupção da gravidez deva ser feita até a 20ª semana de idade gestacional. Acima de 20 semanas, o serviço deve oferecer o acompanhamento pré-natal e psicológico, procurando facilitar os mecanismos de adoção da criança se a mulher assim desejar. 49 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER Além disso, é facultado ao médico alegar objeção de consciência para a não realização de abortamentos. No entanto, segundo o MS, não cabe esta alegação nos seguintes casos: a. em caso de necessidade de abortamento por risco de vida para a mulher; b. em qualquer situação de abortamento juridicamente permitido, na ausência de outro médico que o faça, e quando houver risco da mulher sofrer danos ou agravos à saúde em razão da omissão do médico; c. no atendimento de complicações derivadas de abortamento inseguro, por se tratar de caso de urgência. Para mais informações, recomenda-se consultar a Norma Técnica Prevenção e Tratamento de Agravos Resultantes da Violência Sexual contra Mulheres e Adolescentes, disponível em <http://www.campanhapontofinal.com.br/download/ informativo_01.pdf>. Protocolo de atendimento à mulher vítima de violência O atendimento a vítimas de VS inicia-se pelo acolhimento, entendido aqui não como uma ação de porta de entrada, mas como uma ação terapêutica que perpassa todo o contato da mulher com os profissionais e a instituição. Acolhimento implica respeito, solidariedade e dar crédito à palavra da mulher (escuta ativa de sua história e de suas queixas). Sempre que possível, deverá ser oferecida atenção psicológica desde o primeiro atendimento e pelo tempo que se fizer necessário. Além disso, é importante que a mulher receba informações sobre seus direitos legais e trabalhistas, como, por exemplo, a importância do registro policial da ocorrência e a orientação sobre a realização do CAT (Comunicado de Acidente de Trabalho) nos casos em que a violência sexual ocorreu no percurso ou no seu local de emprego. Outras ações a serem realizadas durante o atendimento incluem: »» colher e registrar história da violência sofrida; »» realizar exame físico e ginecológico e fazer relato minucioso das lesões encontradas; »» coletar amostras para diagnóstico de infecções genitais; »» coletar, sempre que possível, material para identificação do agressor; »» avaliar necessidade de profilaxia do tétano; »» oferecer anticoncepção de emergência; »» instituir profilaxia das DST não virais; 50 »» realizar imunoprofilaxia das hepatites virais; PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única »» realizar profilaxia da infecção pelo HIV; »» avaliar a necessidade de prescrição de antieméticos; »» traçar plano terapêutico de acompanhamento individual, de acordo com as necessidades apresentadas; »» agendar retornos ou encaminhamentos para o seguimento até, pelo menos, o sexto mês após a violência; »» prestar informações claras, precisas e completas sobre os efeitos da violência na sua saúde e a importância de aderir às prescrições; »» orientar quanto ao direito à interrupção da gestação, caso engravide em decorrência do estupro; »» realizar as notificações cabíveis (Lei nº 10.778, de 24 de novembro de 2003: estabelece a notificação compulsória, no território nacional, dos casos de violência contra a mulher atendida em serviços públicos e privados de saúde. Conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente, a suspeita ou confirmação de abuso sexual em menores de idade deve, obrigatoriamente, ser comunicada ao Conselho Tutelar ou à Vara da Infância e da Juventude). Durante o acompanhamento da vítima, a equipe de saúde deve estar atenta às consequências que a violência sexual pode acarretar na saúde da mulher. São elas: »» depressão, angústia, baixa autoestima; »» falta de concentração; »» isolamento social; »» tentativa ou ideias suicidas persistentes; »» uso de calmantes; »» abuso de álcool, fumo ou outras drogas; »» frigidez; »» ansiedade; »» agressividade com filhos; »» menores cuidados com a saúde sexual e reprodutiva; »» comportamento sexual mais vulnerável e menos protegido; »» maior risco de DST/AIDS; »» maior frequência de gestações indesejadas e de abortamento; »» maior risco de revitimização na vida adulta. 51 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER Há a necessidade da criação de mais serviços de atendimento a vítimas de violência sexual. No entanto, também é preciso implantar formas de avaliação desses serviços quanto à aplicação do protocolo estabelecido, à adequação de fluxos e ao grau de satisfação das usuárias quanto à atenção prestada. Precisa-se, ainda, investir na formação dos futuros profissionais de saúde e na educação continuada dos profissionais, visando a qualificação e o aprimoramento da assistência prestada. Outra necessidade é a de implantação e unificação de sistemas de registro e análise dos dados de atendimento, ferramentas indispensáveis aos gerentes de nível local e/ou central na tarefa de avaliação dos indicadores e dos processos de trabalho. Por fim, é preciso que gestores e profissionais da área da saúde estejam atentos para o fato de que esse atendimento, com a inclusão da realização do aborto previsto em lei, é parte integrante dos direitos das mulheres. Ter esse convencimento é um passo importante para o fortalecimento de uma política pública que procura enfrentar os efeitos devastadores da violência sexual sobre a saúde psíquica e física de suas vítimas. Psicologia e saúde mental da mulher “A mulher é um ser frágil, instável emocionalmente e sujeito a variações de humor provocadas pelo ciclo hormonal”. “Em comparação com o homem, ela tem maior possibilidade de adoecimento psíquico”. Essas frases expressam um mito corrente no Brasil e em outros países. Essa imagem indica uma visão baseada na ideia de que os corpos das mulheres e dos homens obedecem somente a uma natureza inata, o que significa determinação biológica sobre os comportamentos masculinos e femininos. Geralmente, o campo da saúde opera com essa concepção biológica. Os fenômenos psicológicos e as situações sociais têm origem e determinação predominantemente biológicas. Entretanto, os saberes que guiam as práticas da assistência em saúde, como a fisiologia, a biologia, entre outros, não são os únicos encarregados de compreender o funcionamento e os comportamentos do ser humano. A história, a filosofia e as ciências sociais buscam um entendimento da realidade humana. Estudam a influência de processos sociais, culturais e históricos na construção dos saberes e práticas de intervenção por eles orientadas. Esse ponto de vista é nomeado construtivista, com a suposição de que só é possível compreender a realidade humana (atitudes, ações e reações, sentimentos e interações) quando os valores e normas vigentes em cada contexto são entendidos. Nesse sentido, é possível observar a existência de diferentes formas de conceituação das doenças e do tratamento para elas. De acordo com a região do Brasil, existem variadas maneiras de classificar a influência dos alimentos sobre certos distúrbios. Por exemplo, em algumas áreas do país, a mãe que está amamentando não deve comer refeições apimentadas ou gordurosas, o que poderia fazer mal ao bebê. Até poucas décadas atrás, mães e avós proibiam as filhas e netas, quando menstruadas, de lavar a cabeça ou andar descalças em assoalho frio. O perigo era a possibilidade de o sangue subir à cabeça. A atribuição de causas aos transtornos físicos ou mentais varia de acordo com o momento histórico e com as concepções dominantes em cada contexto. Produção de diferenças entre corpos de homens e mulheres 52 A ideia de que homens e mulheres são radicalmente diferentes em sua anatomia, biologia e fisiologia tende a ser hegemônica na atualidade, mas nem sempre tal concepção foi dominante. A comparação entre PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única diferentes sociedades indica que a atribuição de características aos homens e às mulheres é efetuada de modos variados. Nesse panorama, encontram-se representações sociais profundamente entranhadas na forma de idealizar a sociedade, seus membros e os papéis que eles devem desempenhar. A abordagem de que homens e mulheres são distintos em sua anatomia baseia-se em duas premissas da antropologia. De acordo com a primeira, a natureza, ser homem ou ser mulher, tem fraca determinação na definição dos comportamentos sociais, pois a espécie humana depende da socialização. A frase de Simone de Beauvoir (1949) “ninguém nasce mulher, torna-se mulher e nenhum destino biológico, psíquico, econômico, define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade” expressa a existência de um processo de aprendizado sobre as atitudes avaliadas como adequadas para homens e mulheres. A segunda premissa antropológica é denominada relativismo. Significa que, para compreender qualquer realidade, é preciso apreender o contexto no qual ela se insere. Assim, é necessário conhecer as ideias, conceitos, regras, normas e práticas vigentes em cada sociedade. A distinção percebida entre homens e mulheres integra os temas centrais a partir dos quais cada sociedade se pensa, propõe e estrutura sua organização social. Assim, sexualidade e corpo devem ser relativizados, por serem histórica e culturalmente produzidos. A sexualidade é uma invenção do século XVIII. Um novo olhar médico é produzido sobre os corpos, sobretudo em torno da diferença entre os corpos de homens e mulheres. As concepções sobre a diferença sexual não abolem a diferenciação nos corpos. Como qualquer outra identidade (étnica, racial, profissional, religiosa ou política), as identidades sexuais são historicamente construídas. No senso comum, as condutas de homens e mulheres são concebidas a partir da dimensão natural inscrita em seus corpos. Um exemplo são as convicções sobre a correlação inata entre sexo e personalidade. Na cultura ocidental contemporânea, imagina-se que o masculino é mais dotado de agressividade, enquanto o feminino possuiria maior suavidade e delicadeza. O sexo é uma criação recente. Antes do século XVIII, havia apenas um sexo, o masculino. A noção de sexo para a medicina estava subordinada à ideia de perfeição do corpo masculino. A mulher era o representante inferior desse sexo. Não possuía calor vital suficiente para atingir a perfeição do macho. A natureza não lhe havia fornecido o mesmo calor vital do homem para que pudesse abrigar o esperma e os óvulos fecundados sem destruí-los. Quando seu calor aumentava, surgiam distúrbios em seus humores, que fermentavam, subiam à cabeça e produziam sintomas e doenças. A mulher era descrita como um homem invertido: tudo nela era para dentro. Os órgãos femininos não possuíam, então, uma nomenclatura específica. A denominação era única: a masculina. O mais importante não era uma realidade corporal, mas manter claros os limites sociais das categorias de gênero. Gênero é um conceito das ciências sociais. Refere-se à construção social do sexo, o que significa que a palavra sexo designa somente a caracterização anatomofisiológica dos seres humanos e a atividade sexual propriamente dita. O conceito de gênero existe para efetuar uma distinção entre as dimensões biológica e social. 53 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER No final do século XVIII, tais crenças se modificam. O corpo da mulher ganhou importância. Surge a ideia de diferenciação de sexos e é estabelecida uma distinção radical entre homens e mulheres. Essa mudança foi possível em um novo contexto político: os ideais igualitários da revolução democrático-burguesa necessitavam justificar a desigualdade entre homens e mulheres. A igualdade de todos os cidadãos não abarcava homens e mulheres. Foi preciso produzir uma não igualdade natural entre eles. A medicina e a biologia se encarregaram de formular essas diferenças. O corpo feminino, por sua importância na reprodução e nos cuidados com a prole, passou a ter crescente importância. O controle exercido no interior da família burguesa enfocava a sexualidade, a criança e a mulher. A partir de então, observou-se a construção de um ideal feminino dirigido à maternidade, seu destino por natureza. Assim, a interação com o meio e os hábitos sociais, como dietas, atividades de lazer, de trabalho e intelectuais, poderiam causar mudanças anatômicas e fisiológicas no corpo feminino. Para o saber médico dominante até fins do século XVIII, a mulher era um ser instável. Ela devia evitar o esforço intelectual para manter seu equilíbrio. Desde a puberdade, fase de formação dos órgãos reprodutores, não era aconselhado que ela se envolvesse em tarefas fora de casa, sob risco de causar danos a esses órgãos. Nos séculos XVIII e XIX, os cuidados com o corpo feminino passaram à competência exclusiva dos médicos. A capacidade reprodutora da mulher era crucial para a geração de uma prole saudável. Regras higiênicas na educação das meninas eram rígidas, para conter qualquer desvio de energia para outros órgãos que não os reprodutores. A história da apropriação do corpo feminino pelo saber médico foi marcada por conhecimentos centrados no parto, o que deu origem à ginecologia. A saúde tornou-se fundamental para a reprodução social. No século XIX, essa preocupação com a mulher destacou-se no campo da medicina com aperfeiçoamentos na ginecologia e obstetrícia, na assepsia do parto e nas técnicas anestésicas. Essas mudanças propiciaram o estabelecimento de um lugar específico para a mulher nos hospitais: as maternidades e o atendimento ginecológico. Nesse período, observa-se a relevância dos órgãos reprodutores femininos (útero e ovários) não apenas pela capacidade de geração de novas vidas, mas pela probabilidade de produção de patologias. Dessa forma, a mulher era definida como um ser instável, por sua natureza e constituição corporal. Por sua biologia, ela seria menos racional, mais sujeita ao descontrole, demandando supervisão constante dos médicos e da sociedade. Um exemplo prático dessa ideia era a retirada cirúrgica do útero para cura da histeria. A medicina e a ginecologia passaram a cuidar do corpo e da formação moral da mulher. Cabe lembrar que, nesse período, não havia qualquer especialidade médica dirigida especialmente ao homem. Para a medicina de séculos passados, doenças como clorose, histeria, loucura e ninfomania surgiam por desequilíbrios no organismo feminino. O ideário social, validado pela medicina da época, associava a beleza feminina ao período fértil. Na menopausa, a mulher não possuía atrativos, ideia que se mantém até a atualidade. A gravidez e o parto também eram tidos como fatores que desencadeavam perturbações físicas e mentais na mulher. O pós-parto demandava cuidados e dietas para evitar a loucura puerperal. O consenso médico afirmava que a gravidez afetava a memória e o juízo e tornava a mulher passível de realizar atos de crueldade. Diferentes transtornos eram atribuídos à puberdade ou à menopausa. 54 Ao término do século XIX e início do XX, observou-se uma mudança no referencial feminino. Os ovários tornaram-se o órgão determinante da natureza feminina. Uma nova causa era, então, atribuída às doenças femininas: a redução ou ausência de secreções internas produzidas pelos ovários. A descoberta PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única da preeminência dos hormônios na fisiologia feminina favoreceu a influência da biologia na atribuição dos papéis de gênero. Em diversas culturas, como em grupos indígenas americanos, africanos, balineses, indianos ou na sociedade japonesa, o climatério é avaliado como importante momento na vida feminina, quando a mulher passa a ter acesso a atividades até então proibidas. Nesses grupos, não há relatos de adoecimento físico ou psíquico atribuídos à menopausa, nem menção a certos sintomas, como os fogachos. As fases femininas relacionadas aos eventos reprodutivos não carreiam os mesmos significados em distintos contextos. Atualmente, recursos são oferecidos, por médicos e pela indústria farmacêutica, para tratar a TPM. Certas verdades científicas sobre a mulher, vigentes nos séculos XIX e XX, estão centradas no determinismo biológico e, ainda, se mantêm em pleno século XXI. No planejamento de ações na Saúde Pública, no qual a complexidade dos casos impõe novos desafios, é de suma importância que seja considerada a multiplicidade de fatores etiológicos. Não se trata aqui de ignorar a condição corporal, mas é fundamental levar em conta a produção de sentidos sobre os corpos pelas diferentes sociedades. Não se deve ignorar a circulação, em diferentes proporções, dos hormônios nos corpos de mulheres e de homens com funções distintas. Uma atitude crítica, que permita uma análise criteriosa, é fundamental para uma reflexão sobre as diferenças. Adoecimento psíquico da mulher As questões referentes ao gênero devem ser incorporadas à análise das experiências de sofrimento psíquico. Um olhar mais atento revela diferenças nos modos como mulheres e homens vivenciam o sofrimento mental. O ambiente sociocultural propicia à mulher suscetibilidades específicas e diversas em comparação com o homem. A categoria gênero, que é constitutiva do ser mulher ou homem, é fator relevante nas interações sociais. Para melhor entendimento do acometimento psíquico, é preciso que as interpretações sobre essa forma de adoecimento sejam referidas à questão do gênero. Na sociedade ocidental moderna, observa-se uma ampliação crescente da delegação de responsabilidades à mulher. Tais encargos atualizam-se nas funções de esposa e mãe e de provedora de seus familiares (pais, filhos e companheiros). Também, espera-se que ela que atenda aos padrões estéticos vigentes. Muitas mulheres vivenciam estresse crônico, baixa autoestima, frustrações, dificuldades de expressar emoções, indiferença de familiares e/ou companheiros. Isso não pode ser ignorado. A multiplicidade de papéis atribuídos à mulher a posiciona em um lugar de grande suscetibilidade e aumenta a possibilidade de sofrimento psíquico – desde os transtornos difusos até os de ansiedade, afetivos, dissociativos e psicoses. A violência doméstica, sexual e social é um tema transversal na vida de muitas mulheres e homens, em especial nas grandes cidades. A mulher de camadas populares ou de segmentos médios urbanos é submetida a variadas formas de violência, de modo frequente e silencioso e com graves consequências para sua saúde física e mental. No Brasil, pesquisas recentes revelam que mulheres e homens estabelecem diferentes modos de vivenciar o sofrimento psíquico. O adoecimento psíquico feminino contém aspectos de repressão sexual. Em diversos contextos, o exercício das sexualidades femininas é alvo de controle e preconceito. A vivência do adoecimento psíquico não impede que a mulher desempenhe prescrições tradicionais 55 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER de gênero, como tarefas domésticas e o cuidado com a família. Mesmo enfermas, elas seguem com estes encargos. O adoecimento mental feminino guarda estreita relação com a violência. As equipes de saúde devem estar atentas aos sinais não verbais, que indicam as violências às quais as mulheres são submetidas. Estudos epidemiológicos apontam traços distintivos relevantes de gênero na incidência, prevalência e curso dos transtornos mentais. Há maior taxa de prevalência feminina para transtornos de ansiedade, afetivos, dissociativos e alimentares (bulimia e anorexia). As comorbidades se apresentam com frequência nas mulheres como depressão e transtornos de ansiedade (pânico e fobias), como uso prejudicial de álcool e outras drogas. Essa situação tem sido cada vez mais observada em serviços de saúde no município do Rio de Janeiro. Merece destaque a queixa cotidiana de transtornos difusos em serviços de saúde. Essa forma de sofrimento, apresentada majoritariamente pela população feminina, é expressa pelos sintomas: dores, cansaço, tristeza, insônia, taquicardia, irritabilidade, entre outros. São sintomas vagos, referidos, muitas vezes, pelas mulheres como nervoso que afeta o corpo e a cabeça. Esse quadro é tratado com ansiolíticos e apresenta baixa resolutividade. O uso continuado dessas medicações pode produzir dependência. É preciso dialogar com outros campos do saber, além dos saberes da psiquiatria e psicologia, para melhor compreensão da complexa sintomatologia que configura esse quadro. A contribuição das ciências sociais é uma ferramenta relevante, não só para o entendimento destes processos, como para a proposição de formas de acolhimento e cuidado. O nervoso se refere a um conjunto de manifestações físicas e de representações sobre o corpo (esferas mental e moral). Abrange um universo que inclui experiências, sentimentos e questões relativas ao contexto social. Com o nervoso, emergem conflitos sociais, papéis associados ao gênero, ao desvio e aos saberes médicos. É uma representação que expressa dor física e psíquica. O sofrimento dos nervos é, muitas vezes, utilizado pela mulher como uma forma de explicar os acontecimentos da vida cotidiana. O nervoso também pode ser compreendido como metáfora de descontentamento, embora não constitua atributo exclusivamente feminino, pois ocorre também em homens. Os homens contam com válvulas de escape socialmente permitidas, como, por exemplo, acesso a espaços públicos e convívio com amigos. Para as mulheres, isso só passou a acontecer mais recentemente. É provável, também, que a expressão do sofrimento seja mais aceita socialmente para as mulheres do para os homens. O nervoso não deve ser analisado como evento meramente biológico, mas como um fenômeno que expressa uma conjuntura pessoal, social ou política adversa, que pode ser aplicado ao universo feminino. 56 Na prática clínica cotidiana da saúde mental, deve-se adotar uma postura que não naturalize os fatos. Uma posição que busque a compreensão do sofrimento sem bases apenas em explicações biológicas. A tendência da medicina de atribuir causas reducionistas ao sofrimento mental deve ser questionada, pois os campos da saúde e da saúde mental não são monolíticos, eles são fluidos e em processo de construção. PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única Esta perspectiva deve nortear a postura de profissionais de saúde diante do sofrimento. Abdicar de uma abordagem que reconheça a amplitude de todos os elementos constituintes do adoecimento psíquico dos sujeitos, em especial das mulheres, implica o risco de que o cuidado só se baseie na supressão de sintomas pela prescrição de medicamentos psicotrópicos e/ou hormonais. Já no escopo de leis, diretrizes e recomendações que embasam o acolhimento e o cuidado para pessoas com transtorno mental, as Conferências de Saúde consistem em espaços de discussão e elaboração de propostas para marcar deslocamentos no curso de vida destes sujeitos e na promoção de linhas de vida que considerem suas singularidades. A IV Conferência Nacional de Saúde Mental Intersetorial (IV CNSMI), com o tema Saúde Mental, Direito e Compromisso de todos: consolidar avanços e enfrentar desafios, que ocorreu em Brasília de 27/06/2010 a 01/07/2010, foi um diferencial na articulação com outros setores da sociedade e convocou não só aqueles diretamente envolvidos com as políticas públicas, bem como todos interessados no tema da saúde mental. A convocação da intersetorialidade representou um avanço em relação às conferências anteriores e atendeu às exigências reais que a mudança do modelo de atenção acarretou para todos. A IV CNSMI destacou-se no enfrentamento das desigualdades de raça/etnia, gênero, orientação sexual, identidade de gênero, grupos geracionais, população em situação de rua, em privação de liberdade e outros condicionantes sociais na determinação da saúde mental. Reafirmou a centralidade de assegurar os princípios da integralidade, acessibilidade, intersetorialidade, do respeito à identidade cultural e da garantia de acesso universal aos cuidados em saúde mental. Assegurou meios para implementação de estratégias eficazes para acolher questões de gênero, de raça/cor e etnia, de discriminação e outros processos macroestruturais de exclusão social. O relatório final do encontro enfatizou a necessidade de implantação de estratégias de atenção, sob o enfoque de gênero, à saúde mental das mulheres para: »» melhorar a informação sobre as mulheres com sofrimento psíquico; »» qualificar a atenção à saúde mental das mulheres; »» incluir o enfoque de gênero no planejamento e execução das ações. Além disso, postulou a integração com outros setores da sociedade civil para que esses pudessem participar de definições de políticas de acolhimento e cuidado. Propôs a defesa da descriminalização do aborto no país e que os serviços de saúde viabilizassem este procedimento. Destacou-se também a demanda pelo planejamento de ações conjuntas com o programa de saúde reprodutiva. Tais ações devem assegurar o acesso das mulheres aos métodos contraceptivos e garantir a disponibilização do DIU (Dispositivo Intrauterino). Acolhimento e saúde mental da mulher As ações preconizadas pela Coordenação Nacional de Saúde Mental e Álcool e outras Drogas do Ministério da Saúde, inseridas na proposta da clínica ampliada, realizam-se em diferentes dispositivos, como os CAPS, ambulatórios ampliados, serviços residenciais terapêuticos e consultórios de rua. Há cinco tipos de CAPS de acordo com as clientelas diferenciadas (adultos, crianças/adolescentes e usuários 57 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER de álcool e drogas), com o contingente populacional (pequeno, médio e grande porte) e com o período de funcionamento (12 ou 24 horas). »» CAPS I: serviços para cidades de pequeno porte e atendimento, durante o dia, de toda clientela com transtornos mentais severos (adultos, crianças, adolescentes e pessoas com problemas de uso de álcool e outras drogas). »» CAPS II: serviços para cidades de médio porte que atendem clientela adulta durante o dia. »» CAPS III: serviços 24h e geralmente disponíveis em grandes cidades para clientela adulta. »» CAPSi: serviços para crianças e adolescentes em cidades de médio e grande porte e que funcionam durante o dia; »» CAPS ad: serviços para pessoas com problemas decorrentes do uso de álcool ou outras drogas e, geralmente, disponíveis em cidades de médio e grande porte durante o dia. Todos os tipos de CAPS são compostos por equipes multiprofissionais com presença obrigatória de psiquiatra, enfermeiro, psicólogo e assistente social, aos quais se somam outros profissionais do campo da saúde. A estrutura física dos CAPS deve ser compatível com o acolhimento e desenvolvimento de atividades coletivas e individuais e com a realização de oficinas de reabilitação e outras atividades necessárias a cada caso em particular. Os consultórios de rua são uma modalidade de atendimento extramuros para usuários de drogas que vivem em condições de maior vulnerabilidade social, distanciados da rede de serviços de saúde e intersetorial. São dispositivos clínico-comunitários que oferecem cuidados em saúde aos usuários em seus próprios contextos de vida e são adaptados às especificidades de uma população complexa. Promovem a acessibilidade a serviços da rede institucionalizada, assistência integral e promoção de laços sociais para usuários em situação de exclusão social e possibilita um espaço concreto do exercício de direitos e da cidadania. No atendimento à mulher em sofrimento psíquico, a construção do projeto terapêutico deve considerar as inflexões de gênero. No relato, é preciso entender o contexto do ser mulher, mãe, filha e trabalhadora. Além da avaliação orgânica, é necessário compreender o pano de fundo e rever o lugar da mulher em sua família, nas relações com o território e o que isso significa e acarreta para ela. Essa abordagem ampliada permite que a equipe apreenda o grau de suscetibilidade da mulher em atendimento. Os dispositivos grupais possibilitam trocas de experiências e são espaços importantes para discussão da demanda e sua desconstrução. A fala e a escuta compartilhadas produzem um continente capaz de efetuar deslocamentos importantes e viabiliza a repactuação das trocas com a família e com o território. O dispositivo grupal é um recurso potencialmente resolutivo no que tange à desmedicalização por dependência de benzodiazepínicos, tão frequente nos serviços de saúde. Os dispositivos grupais também consistem em suporte para o enfrentamento de situações de violência vivenciadas por grande número de mulheres atendidas nos serviços de saúde. Por vezes, tais situações 58 PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única são silenciadas pelo medo, pelo isolamento e solidão nos quais essas mulheres estão inseridas e que as impedem de viabilizar novas formas de conduzir suas vidas como sujeito de direitos. O grupo é um facilitador para a formação de redes de solidariedade, que oferecem proteção e cuidado. A proposta de uma clínica em saúde mental que inclua a perspectiva de gênero não deve ser percebida como mais uma tarefa a ser cumprida pelas equipes. Essa disposição implica que as equipes se alinhem à ideia da reforma, que é dar voz a quem está silenciado e fragilizado. Não basta que o campo da saúde mental dedique-se somente às questões tradicionalmente tidas como femininas e associadas ao ciclo reprodutivo, sob risco de adoção de uma concepção reducionista e biológica. A escuta ampliada e, na medida do possível, desarticulada de saberes preconcebidos é o primeiro passo na direção de uma clínica inclusiva para a parcela feminina da população. 59 Capítulo 6 DST e AIDS em mulheres Os agentes etiológicos das referidas patologias incluem os vírus, as bactérias, os fungos, além de protozoários e ectoparasitas. Se considerarmos as doenças sexualmente transmissíveis (DST) em conjunto, elas representariam uma das complicações médicas mais comuns das gestações. Pelas repercussões maternas e fetais, serão abordadas as consideradas de maior importância. São elas: »» sífilis; »» cancroide; »» gonorreia; »» clamídia; »» vulvovaginites; »» herpes genital »» papilomavírus humano (HPV); »» hepatite B; »» AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida). É imperativo na rotina pré-natal o rastreamento das DST, particularmente da sífilis, gonorreia, clamídia, HPV, hepatite B e AIDS. DST e gravidez Sífilis É uma doença infecciosa sistêmica causada pela bactéria espiroqueta treponema pallidum. Tem como principais modosde transmissão as vias sexual e materno/fetal e produzem as formas adquirida e congênita da doença, respectivamente. Há associação com uso abusivo de drogas, particularmente da cocaína e do crack, além da falta de assistência pré-natal. Após período de incubação médio de três semanas a partir da relação sexual contagiante, o diagnóstico pode ser feito diretamente pelo surgimento do cancro duro – lesão ulcerativa, indolor, de bordas duras e 60 PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única fundo limpo, que incide com maior frequência nos pequenos lábios, paredes vaginais e colo uterino e que é acompanhada de adenopatia inguinal não supurativa. A instalação frequente da lesão no colo uterino leva ao não diagnóstico da sífilis nesta fase dita primária, não só por passar desapercebida pela paciente, mas, também, pelo início tardio do pré-natal e exame não cuidadoso do obstetra na busca dessas ulcerações. Após o período de latência de seis a oito semanas, caso não diagnosticada na fase primária, ocorre o secundarismo da sífilis, caracterizado por micropoliadenopatia generalizada, adinamia, mal estar geral, febre, cefaleia, artralgias e manifestações tegumentares – máculas (roséola), pápulas hipertróficas (condiloma plano) com predileção por tronco, raiz dos membros superiores, palmas e plantas, além de descamação. Nas mucosas, podem aparecer placas e erosões. É possível o surgimento de alopécia, principalmente de couro cabeludo, sobrancelhas e cílios. A sífilis primária, a latente e a secundária, com menos de um ano de evolução receberam, em conjunto, a denominação de sífilis recente e, com mais de um ano, sífilis adquirida tardia. A tardia, com comprometimento neurológico, constitui a neurosífilis. O exame para diagnóstico deve ser solicitado, compulsoriamente, para todas as gestantes na primeira consulta pré-natal e, quando negativo, deve ser repetido a cada trimestre. A positividade do VDRL costuma ocorrer na fase primária da sífilis, mas pode ser negativa. Na secundária, o resultado é positivo em praticamente todas as pacientes. Quando positivo, deve ser repetido mensalmente, durante toda a gravidez, para controle do tratamento. Cancro mole Cancro mole ou cancroide é uma doença de transmissão exclusivamente sexual ocasionada pelo bacilo gram-negativo haemophilus ducreyi. Após período de incubação de dois a cinco dias, surgem úlceras múltiplas com bordas irregulares, dolorosas, com fundo recoberto por exsudato purulento e fétido, devido às infecções secundárias. Acometem, habitualmente, a genitália e podem estender-se à região perianal. Ocasionam comprometimento dos linfonodos inguinocrurais e podeocorrer fistulização espontânea. Na gestação, o cancroide não costuma apresentar riscos para o feto ou para o recém-nascido, salvo pelas infecções secundárias ou concomitância com sífilis. Gonorreia Doença sexualmente transmissível que se manifesta sindromicamente como cervicite mucopurulenta. É ocasionada por um diplococo gram-negativo intracelular, a neisseria gonorrhoeae, transmitido pelo contato sexual. O risco de transmissão do homem infectado para a mulher não infectada é de 50 a 60%. O período de incubação da doença é de dois a quatro dias e os sintomas e sinais iniciais da infecção gonocócica costumam ser o corrimento vaginal discreto ou abundante, purulento e amarelo-esverdeado, acompanhado, habitualmente, de disúria pelo comprometimento uretral e irritação da vulva e vagina com dor e dispareunia. O gonococo pode assestar-se nas glândulas de Bartholin e parauretrais de Skene, que se mostram dolorosas e com saída de secreção purulenta. 61 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER Em geral, limitada ao trato genital baixo, a infecção gonocócica pode, excepcionalmente, disseminar-se e ocasionar petéquias, lesões de pele, artralgias, tenosinovite e, mais raramente, endocardite e meningite gonocócica. A incidência da gonorreia na gestação pode atingir até 7%, dependendo do risco da população estudada. Como fatores de risco podem ser considerados: adolescência, baixo nível socioeconômico, uso de drogas, prostituição, outras doenças sexualmente transmissíveis, além da falta de assistência pré-natal. A concomitância com a infecção por clamídia pode ser da ordem de 40%. Na gestação, a cervicite gonocócica pode estar associada a abortamento séptico espontâneo ou a infecção após abortamento provocado. Associa-se, ainda, com corioamnionite, prematuridade e rotura prematura das membranas, além de infecção pós-parto. Se presente no momento do parto, o microrganismo pode ocasionar oftalmia gonocócica no recém-nascido, o que pode levá-lo à cegueira e, menos frequentemente, à infecção gonocócica disseminada. Chlamydia trachomatis Clamídias são agentes intracelulares obrigatórios com vários sorotipos, incluindo os que ocasionam linfogranuloma venéreo. Entretanto, as formas mais comuns são as que acometem as regiões revestidas por epitélio colunar e ocasionam, à semelhança do gonococo, quadro de cervicite mucopurulenta, uretrite, bartolinite e dispareunia. Embora, na maioria das vezes, a infecção seja assintomática ou subclínica, é a mais comum das doenças sexualmente transmissíveis por bactérias nos Estados Unidos. Na gestação, a infecção por clamídia parece estar associada com maior incidência de corioamnionite, prematuridade e rotura prematura das membranas. A infecção neonatal está representada, principalmente, pela conjuntivite e pela pneumonite. Vulvovaginites Consideramos como vulvovaginites todos os processos inflamatórios ou infecciosos do trato genital inferior (vulva, vagina e ectocérvice) e que podem se manifestar clinicamente por corrimento vaginal, prurido e irritação vulvar e vaginal, disúria e dispareunia. Podem ser ocasionadas por bactérias, fungos ou protozoários. »» Vaginose bacteriana: em geral, ocasionada pela proliferação intensa de flora mista e desaparecimento dos lactobacilos acidófilos. O agente etiológico mais frequente é a gardnerella vaginalis, mas pode ser ocasionada, também, pelo mycoplasma, mobiluncus sp. e bacteroides sp. Clinicamente, manifesta-se por corrimento vaginal acinzentado ou esverdeado, às vezes bolhoso, de odor fétido, com pouco prurido e que piora após a menstruação ou relações sexuais. »» Candidíase vulvovaginal: infecção da vulva e vagina ocasionada por um fungo, a cândida. A albicans é a mais prevalente, mas também pode ser determinada pela 62 PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única tropicalis, glabrata e parapsilosis. Encontra-se na flora endógena de mais de 50% das mulheres assintomáticas e tem sua proliferação predisposta pela gravidez, diabetes mellitus, imunodeficiência, obesidade e antibioticoterapia sistêmica. Ocorre sob a forma de esporos e pseudo-hifas. Clinicamente, manifesta-se como corrimento vaginal branco com placas semelhantes à nata de leite e sem odor que ocasiona intenso prurido vulvar e vaginal, além de hiperemia, edema da vulva, fissuras da pele, ardor à micção, dispareunia e, ao exame especular, vagina e colo recobertos por placas brancas aderidas à mucosa. »» Tricomoníase genital: infecção ocasionada pelo trichomonas vaginallis, protozoário flagelado e de transmissão sexual que se assesta, preferencialmente, na vagina e uretra. Manifesta-se clinicamente como corrimento vaginal amarelado ou amareloesverdeado, bolhoso, com mau cheiro e que ocasiona intenso prurido, com irritação vulvar e vaginal, disúria e dispareunia. Agride, também, o colo do útero e leva à característica colpitis macularis, ou melhor, colo em framboesa. Herpes genital Doença de transmissão predominantemente sexual causada, habitualmente, pelo herpes vírus simples tipo II e, ocasionalmente, pelo tipo I. O primeiro episódio da infecção herpética, denominado primoinfecção ou herpes genital primário, determina manifestações clínicas muito mais exuberantes e graves que o herpes genital recorrente. Na primoinfecção herpética, após período de incubação de três a seis dias, os pródromos da doença são representados por ardor, nevralgia ou hiperestesia na região genital, na qual, posteriormente, surgem pequenas pápulas que transformam-se em vesículas agrupadas que se rompem e, depois, em úlceras extremamente dolorosas, localizadas, habitualmente, nos pequenos e grandes lábios, clitóris, fúrcula vulvar e colo uterino. Mal estar geral, febre, adenopatia inguinal dolorosa, disúria e retenção urinária podem ocorrer. Menos frequentemente, a viremia pode ocasionar pneumonia, hepatite e encefalite. O tempo médio para desaparecimento dos sintomas é de duas a quatro semanas. A ocorrência da forma primária na gestação, embora rara, pode determinar abortamento espontâneo, restrição de crescimento intrauterino e trabalho de parto prematuro. O modo de transmissão perinatal mais comum do vírus se dá quando ocorre a passagem do feto pelo canal do parto. O risco de contaminação fetal é de 50% para o herpes genital primário e de 1 a 5% para o recorrente. Recomenda-se o parto cesáreo quando a primeira infecção ocorre no final da gestação e toda vez que houver lesões herpéticas ativas, mesmo nas formas assintomáticas e recorrentes. Nos casos de rotura das membranas com mais de quatro horas, a cesárea não traz benefícios. Papilomavírus humano (HPV) Infecção de transmissão frequentemente sexual ocasionada pelo papilomavírus humano, que já apresenta mais de 70 sorotipos conhecidos e classificados como de alto, médio ou baixo risco de acordo com o potencial oncogênico. 63 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER Pode apresentar-se, clinicamente, sob forma de lesões verrucosas vegetantes macroscopicamente visíveis, denominados condilomas acuminados, e que aumentam muito em número e tamanho durante a gestação, provavelmente, pelo grande aumento da vascularização da genitália na gravidez. São observados na região vulvar, perineal e perianal, além da vagina e do colo do útero. Muitas vezes, não são observadas lesões condilomatosas e o diagnóstico é feito pelas alterações citológicas sugestivas da presença do vírus confirmadas pela vulvoscopia, colposcopia e biópsia. Em outras situações, o diagnóstico é feito pelas técnicas de captura híbrida e PCR. Após o parto, a tendência das lesões é diminuir em número e tamanho. Podem ficar indetectáveis à macroscopia. Entretanto, essas pacientes devem ser acompanhadas de forma clínica, citológica e colposcópica. Hepatite B Endêmica em algumas regiões do mundo como Ásia e África, é a infecção aguda mais comum do fígado, bem como a responsável pela sua sequela mais séria – a hepatite crônica –, que pode evoluir para cirrose e para o carcinoma hepatocelular. Dos adultos infectados, aproximadamente 90% evoluem para a cura completa e 5 a 10% para a infecção crônica. Já dos recém-nascidos infectados, 70 a 90% tornam-se infectados cronicamente. Esses números tornaram praticamente obrigatório o rastreamento sorológico pré-natal para a hepatite B. O contato com sangue contaminado é a forma mais comum de contágio e acomete, com maior frequência, pacientes que receberam transfusão de sangue e derivados, usuários de drogas endovenosas e profissionais da saúde. O vírus é também encontrado na saliva, secreções vaginais e sêmen. Portanto, é uma doença sexualmente transmissível, sendo esta a outra forma mais frequente de contaminação. A transmissão neonatal ocorre pela aspiração e pelo contato do feto, no momento do parto, com secreções cervicais, vaginais, sangue e líquido amniótico e pelo contato do recém-nascido com o leite materno. A transmissão transplacentária é rara. A grávida não é mais susceptível à hepatite que a não grávida e a evolução da doença não é modificada pela gestação. Nas gestantes HbsAg e HbeAg positivas, o risco de transmissão vertical é de 95%. A maioria dos recém-nascidos com vírus da hepatite B são assintomáticos. Muitos se tornam portadores crônicos do vírus com alto risco de desenvolver cirrose ou câncer primário do fígado. Outros desenvolvem a doença, que pode evoluir para cirrose e morte. Feminização da AIDS . A feminização da AIDS tem trazido consequências graves para a saúde e a condição social feminina. A expansão do HIV/AIDS entre as mulheres nas últimas décadas expressa, fortemente, as persistentes vulnerabilidades femininas com novas demandas e necessidades e também exige a adoção de uma perspectiva de gênero nos programas de HIV/AIDS. 64 PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única O surgimento da AIDS – nos anos 1980 – como uma nova doença transmissível sexualmente e incurável envolveu representações sociais negativas sobre a sexualidade. Foi dada ênfase aos comportamentos considerados excessivos, desviantes e promíscuos de determinados grupos, além de se observar o medo do contágio, da decadência social e da morte. Os gays e os usuários de drogas passaram a ser considerados os vilões da epidemia de HIV/AIDS. Porém, o ambiente político, social e ético dos anos 1980 favorecia a discussão sobre as questões que envolviam a sexualidade e a saúde. Assim, a chegada do HIV/AIDS serviu para trazer à tona as graves deficiências institucionais e os limites das intervenções social, médica, legal e moral até então utilizadas para o controle de doenças sexualmente transmissíveis. O movimento feminista reivindicava a igualdade de direitos entre os gêneros, o movimento homossexual exigia direitos de liberdade e respeito à diversidade de orientação sexual e o movimento sanitarista buscava a consolidação da noção de saúde como um completo bem estar e como um direito de cidadania universal e integral. Assim, os rápidos avanços técnicos e científicos sobre o novo vírus HIV e a dinâmica da Aids igualmente favoreceram e foram decisivos para a reformulação dos modelos de atenção à saúde, com ênfase no respeito aos direitos e liberdades das pessoas, legitimando muitas das reivindicações dos movimentos sociais. O fenômeno mais recente da feminização do HIV/AIDS pode ser visto como um tipo de resistência e dificuldade de mudança de perspectiva na atenção à saúde e sexualidade das mulheres. Aponta-se que a imagem simbólica da AIDS e da sexualidade, pautada no modelo masculino, reforçou o padrão dominante de exclusão e inclusão das mulheres e reproduziu a ideia de uma doença, preferencialmente, masculina. Nesse sentido, até o final dos anos 1990, os programas de AIDS atribuíam importância subsidiária às mulheres e as ações de saúde eram restritas às companheiras de homens soropositivos ou considerado de risco ao HIV/AIDS. O tempo se encarregou de comprovar que a transmissão do vírus não estava restrita aos grupos de riscos e nem tampouco ao segmento masculino de gays, usuários de drogas e suas companheiras. A expansão crescente do HIV/AIDS entre mulheres e adolescentes por meio de relações heterossexuais se impôs rapidamente como realidade epidemiológica a ser enfrentada. Riscos são quantificações de perigos e ameaças que só podem ser realmente conhecidos quando submetidos ao crivo dos condicionantes socioculturais. Os avanços dos últimos 30 anos no Brasil em relação à atenção à saúde e ao HIV/AIDS são notórios. Programas compreensivos de prevenção, acesso universal a medicamentos e outras iniciativas positivas mobilizam a população em nível local e mundial. Os programas e as ações de saúde da mulher no Brasil vêm incorporando, nas últimas décadas, um olhar positivo em relação ao exercício da sexualidade feminina. Desde então, registram-se esforços e avanços no sentido da ampliação das ações de saúde da mulher não restritas às questões reprodutivas. Contudo, em relação ao HIV/AIDS associado à saúde da mulher, constata-se um atraso significativo na adoção de ações dirigidas especificamente a esse segmento no Sistema Único de Saúde (SUS). Algumas ações 65 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER foram iniciadas somente na última década e ainda apresentam muitas dificuldades e desafios para a real efetivação. Nesse sentido, a feminização da AIDS merece atenção especial e destacada na abordagem da saúde das mulheres. Aspectos epidemiológicos do HIV/AIDS no Brasil De acordo com o Boletim Epidemiológico AIDS de 2010, o número de casos de AIDS (doença já manifesta) acumulados no Brasil desde 1980 até junho de 2010 é de 592.914 casos. Esse número contabiliza todos os casos notificados ao Ministério da Saúde (MS) e não desconta os óbitos. Estima-se que existam hoje, no Brasil, 630 mil pessoas que vivem com HIV/AIDS entre 15 e 49 anos. A epidemia continua estável. A taxa de incidência oscila em torno de 20 casos de AIDS por 100 mil habitantes. Em 2009, foram notificados 38.538 casos da doença. Dentre o total de casos, os homens respondem por 65% e as mulheres por 35%, mas a proporção de mulheres vem aumentando, conforme será discutido mais adiante. A faixa etária em que a AIDS é mais incidente, em ambos os sexos, é a de 20 a 59 anos de idade. É digna de nota a análise da razão relativa aos sexos atingidos (número de casos em homens dividido pelo número de casos em mulheres) em jovens de 13 a 19 anos. Essa é a única faixa etária em que o número de casos de AIDS é maior entre as mulheres. A inversão apresenta-se desde 1998, com oito casos em meninos para cada dez casos em meninas. Em relação à forma de transmissão, entre os maiores de 13 anos de idade prevalece a sexual. Nas mulheres, 94,9% dos casos registrados em 2009 decorreram de relações heterossexuais com pessoas infectadas pelo HIV. Entre os homens, 42,9% foram por relações heterossexuais, 19,7% por relações homossexuais e 7,8% por relações bissexuais. O restante dos casos foi por transmissão sanguínea e vertical. Apesar de o número de casos no sexo masculino ainda ser maior entre heterossexuais, a epidemia no país é dita concentrada. Isso significa que a prevalência da infecção na população de 15 a 49 anos é menor que 1%. No entanto, é maior do que 5% nos subgrupos de maior risco para a infecção pelo HIV, como homens que fazem sexo com homens, usuários de drogas injetáveis e profissionais do sexo. Embora seja uma epidemia concentrada, a AIDS hoje atinge mulheres e homens de diferentes idades e classes sociais. Incidência e prevalência são conceitos fundamentais para a compreensão da epidemiologia. Incidência é a frequência de casos novos de uma determinada doença ou agravo à saúde, oriundos de uma população sob o risco de adoecimento, ao longo de um determinado período de tempo. Prevalência é a frequência de casos existentes de uma determinada doença ou agravo, em uma determinada população e em um dado momento. Observando-se a epidemia por região em um período de 10 anos (1999 a 2009), a taxa de incidência no Sudeste caiu (de 24,9 para 20,4 casos por 100 mil habitantes). Contudo, cresceu nas outras regiões, principalmente no Sul (a taxa passou de 22,6 para 32,4 casos por 100 mil habitantes). Vale lembrar que o maior número de casos acumulados está concentrado na região Sudeste (58%). 66 PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única Um aspecto positivo no panorama epidemiológico no país diz respeito ao aumento da sobrevida de pessoas vivendo com HIV/AIDS após o diagnóstico. Estudos recentes mostram que a sobrevida passou de 58 meses, em 1995, para 108 meses em 2007. O coeficiente de mortalidade vem se mantendo estável no país desde 1998 (em torno de 6 óbitos por 100 mil habitantes). Ter HIV não é a mesma coisa do que ter a AIDS. Há muitos soropositivos que vivem anos sem apresentar sintomas e sem desenvolver a doença. Porém, podem transmitir o vírus a outros pelas relações sexuais desprotegidas, pelo compartilhamento de seringas contaminadas ou de mãe para filho durante a gravidez e a amamentação. A questão da mulher na epidemiologia da AIDS Atualmente, ainda há mais casos da doença entre os homens do que entre as mulheres, mas essa diferença vem diminuindo bastante ao longo dos anos. Em 2009, a razão de sexos chegou a 1,6 caso em homens para cada um caso em mulheres. Como comparação, em 1986, a razão relativa aos sexos era de cerca de 20 casos de AIDS no sexo masculino para cada um caso no sexo feminino. Como mencionado anteriormente, a situação das jovens na faixa etária de 13 a 19 anos é a única na qual o número de casos em mulheres excede o de homens. Ademais, a principal forma de transmissão entre as mulheres é heterossexual, o que põe em relevo a questão da desigualdade de gênero como componente da vulnerabilidade feminina. Assim, o avanço da epidemia de AIDS na população de mulheres tem sido tão expressivo que vem sendo denominado como “feminização” da epidemia. Outro processo é visível quando se examina a epidemia de AIDS em termos nacionais é a interiorização expressa pelo aumento do número de municípios com pelo menos um caso de AIDS desde 1980. Esse processo apresenta-se de forma mais acentuada em algumas regiões do que em outras e está relacionado com a mobilidade sazonal e permanente nas zonas de expansão das atividades agropecuária e de mineração. Evidencia-se que os processos de feminização e interiorização caminham juntos, o que pode ser notado pelo aumento do número de municípios com pelo menos um caso de AIDS em mulheres. Uma das consequências da feminização é o potencial de transmissão do HIV da mulher gestante para o bebê. Nesse aspecto, os dados epidemiológicos trazem notícias animadoras, pois tem ocorrido uma queda expressiva na incidência de casos de AIDS em crianças menores de cinco anos. A incidência, quando avaliada nessa faixa etária, é expressa, justamente, como resultado da transmissão do HIV da mãe para o bebê, a chamada transmissão vertical, que pode ocorrer durante a gravidez, o parto ou a amamentação. Comparando-se os anos de 1999 e 2009, a redução chegou a 44,4%. Entretanto, desde o início da epidemia até junho de 2009, 14.184 casos de AIDS em menores de 13 anos de idade foram registrados no Brasil, dos quais 12.209 (ou 86%) resultaram de infecção por transmissão vertical. É importante saber que, quando todas as medidas preventivas são adotadas, a chance de transmissão vertical cai para menos de 1%. Características gerais da epidemia da AIDS no Brasil quanto ao perfil epidemiológico »» Estabilização: incidência decrescente nos grandes municípios. 67 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER »» Interiorização: incidência crescente nos municípios pequenos e médios. »» Maiores taxas de incidência em pessoas de 30 a 40 anos. »» Aumento da sobrevida (60% vivos após nove anos de diagnóstico). »» Heterossexualização. »» Feminização. Adotar uma perspectiva de gênero nas respostas ao HIV/AIDS exige reconhecer que as necessidades e os problemas das mulheres e dos homens no campo da saúde são diferenciados. Devem ser identificadas as vulnerabilidades femininas em face dos distintos fatores biológicos, socioeconômicos, psicossociais e culturais. Um exemplo é a preocupação em se oferecer cuidados especiais às funções reprodutivas das mulheres, ao HIV/AIDS e em reconhecer um maior risco para as mulheres no que tange às doenças sexualmente transmissíveis, em especial, quando a mulher vive em situação de pobreza e tem história de violência familiar. Todas as especificidades das diversas fases da vida da mulher e suas práticas sexuais devem ser consideradas no momento da intervenção de saúde. Aqui no Brasil e em muitos países, muitas meninas adolescentes e mulheres adultas não têm acesso à informação e aos serviços necessários para assegurar a saúde sexual. As diferenças socioeconômicas, em geral, são traduzidas em relações de poder desiguais entre mulheres e homens na vida privada e na vida pública. Essas relações podem sujeitar as mulheres a diferentes formas de violência que são praticadas, sobretudo, no espaço doméstico. As estatísticas públicas registram que meninas e adolescentes são, frequentemente, vulneráveis a abusos sexuais praticados por homens mais velhos e familiares. Assim, são colocadas em risco e podem sofrer danos físicos e psicológicos, gestações indesejadas e prematuras e exposição ao HIV/AIDS. Nos últimos anos, as estratégias desenvolvidas pelo Brasil têm enfatizado ações de aconselhamento (individual e coletivo) nos serviços de saúde que prestam atendimento à mulher, notadamente nos serviços que oferecem ações de planejamento familiar, pré-natal, atendimento ginecológico, centros de testagem e aconselhamento para o HIV e AIDS e aconselhamento em maternidades. No ano de 2007, foi formulado um Plano Integrado de Enfrentamento da Feminização da Epidemia de AIDS e outras DST, o qual consolidou uma política intersetorial para o enfrentamento da epidemia entre as mulheres. Esse Plano buscou atingir aspectos específicos da vulnerabilidade feminina e reforçou as ações de saúde que já vinham sendo desenvolvidas e traçou os seguintes objetivos: 1. promover o acesso universal à atenção integral em DST/AIDS para as mulheres; 2. reduzir a morbidade das mulheres relacionada às DST; 3. reduzir os índices de violência sexual e doméstica contra as mulheres; 4. reduzir a transmissão vertical do HIV e da sífilis; 68 5. promover a qualidade de vida das mulheres que vivem com HIV/AIDS no âmbito dos direitos humanos, direitos sexuais e direitos reprodutivos. PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única O Plano ainda destaca alguns fatores e contextos específicos de vulnerabilidade que devem ser superados. a. Doenças sexualmente transmissíveis (DST) As DST estão entre as principais causas relacionadas com abortos espontâneos, infecções, infertilidade, câncer, entre outros. A prevalência de sífilis em gestantes no Brasil também é significativa, apesar da sífilis poder ser evitada por medidas simples. A maioria das mulheres com DST são assintomáticas, o que dificulta o rápido diagnóstico e tratamento. As DST assumiram uma importância ainda maior com o avanço do HIV/AIDS, pois podem aumentar, em até 18 vezes, o risco de transmissão do HIV. A vulnerabilidade feminina às DST pode ser reduzida na atenção básica quando a mulher é abordada sobre sua vida sexual e a possibilidade de DST. b. Drogas O uso de drogas injetáveis caracteriza-se como uma grande vulnerabilidade para as mulheres usuárias em razão do compartilhamento de seringas e agulhas e também para as mulheres não usuárias que deixam de utilizar preservativos nas relações sexuais com companheiros usuários de drogas injetáveis. O uso de outras drogas como mecanismo de desbloqueio nas relações sexuais, mesmo as lícitas como o álcool, pode aumentar a vulnerabilidade ao HIV/AIDS e tem sido uma preocupação das campanhas públicas de prevenção e do plano de enfrentamento instituído. c. Violências A violência sexual constitui um grave problema de segurança e saúde pública. Esse tipo de violência pode levar à gravidez indesejada, a doenças sexualmente transmissíveis – entre elas o HIV/AIDS –, além de acarretar lesões físicas e psicológicas graves. As estatísticas confirmam que, majoritariamente, as mulheres e as meninas em idade reprodutiva são as mais vulneráveis às relações sexuais forçadas, agressões, estupro, assédio e abuso sexual, exploração sexual ou comercialização forçada do sexo. Também, as violências domésticas são significativamente maiores do que as cometidas por desconhecidos. O enfrentamento da violência sexual contra a mulher mostra-se particularmente mais difícil em razão da cultura histórica e socialmente construída, a qual naturaliza a desigualdade da mulher em relação ao homem e a sua submissão sexual. Esse tipo de violação de direitos humanos constitui um importante determinante social da morbidade e mortalidade feminina em todo o mundo. O sistema de saúde e seus profissionais têm atribuições e funções muito relevantes e estratégicas na identificação/diagnóstico, abordagem, prevenção e tratamento dos agravos resultantes da violência sexual. Grande parte das pessoas omite as violências sofridas por vergonha, receio de denunciar ou em decorrência dos obstáculos para obtenção de assistência e proteção. Como o setor saúde é responsável pela assistência médica individual, uma adequada organização dos serviços e uma abordagem acolhedora e atenta de seus profissionais podem encorajar a pessoa assistida a revelar sua situação e buscar garantir seus direitos à saúde e à segurança, coibindo, assim, novas violações. Nesse sentido, tem sido estimulada a construção e o fortalecimento de redes de atenção integral constituídas 69 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER por serviços de vários setores (saúde, educação, segurança pública, assistência social) e composta por ações intrasetoriais e intersetoriais governamentais e entre o governo e a sociedade civil. d. Raça e etnia Mais uma vez, as estatísticas apontam que há uma diferença maior de violência contra mulheres de determinados grupos distinguidos por cor da pele e etnia. Esses dados demonstram que a violência sexual possui aspectos relacionados à discriminação de gênero e racial que interagem e se reforçam mutuamente. O sistema de saúde deve inibir atitudes discriminatórias dos profissionais e incluir ações estratégias de acolhimento de mulheres negras e de outras etnias que estimulem a autoestima, o cuidado com a saúde e que busque identificar e responder às demandas e necessidades específicas desse grupo. e. Juventude Uma das maiores preocupações em relação à saúde da população jovem está relacionada ao HIV/AIDS e às doenças sexualmente transmissíveis. Há uma preocupação especial com as jovens que possuem menos acesso à informação e aos serviços necessários para assegurar sua saúde sexual e que, frequentemente, não estão em condições de recusar ter relações sexuais ou de exigir práticas seguras. A discriminação de jovens com HIV/AIDS no sistema educacional também tem sido objeto de preocupação e recomendação específica aos governos, no sentido de garantir o acesso à educação sexual e aos serviços adequados às necessidades sexuais e reprodutivas das jovens. Para redução da vulnerabilidade das jovens, a principal estratégia tem sido intersetorial (saúde e educação) com a proposta de educação integral em sexualidade, promoção da saúde sexual, e ampliação da cobertura de serviços de saúde para atender apropriadamente jovens e adolescentes em suas necessidades de saúde sexual e reprodutiva. f. Pobreza A situação de pobreza entre as mulheres agrava, em geral, as condições da saúde. A vulnerabilidade feminina, nesse contexto de pobreza, aumenta no sentido em que às mulheres é atribuída uma maior carga social relativa aos cuidados com os membros da família que adoecem. A principal estratégia de redução desse tipo de vulnerabilidade tem sido a criação de programas sociais que beneficiem as mulheres e que as mobilizem para a melhoria de sua situação socioeconômica para que aumentem seu poder no cenário social e nas relações familiares e conjugais. A relação constatada entre a garantia de direitos e a saúde das pessoas, ou seja, a violação de direitos como um tipo de vulnerabilidade, estimulou propostas de uso do instrumental de direitos humanos como estratégia de redução das vulnerabilidades ao adoecimento. Abordaremos a questão dos direitos humanos, sexuais e reprodutivos no último capítulo desta Unidade. 70 PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única Atenção integral em DST e AIDS para as mulheres O programa brasileiro de doenças sexualmente transmissíveis e da AIDS foi criado em 1986, mas, somente no ano de 1994, iniciaram-se as primeiras discussões associadas às mulheres em geral e não apenas aos pontos que diziam respeito àquelas consideradas integrantes dos grupos de risco. Tais medidas seriam determinantes já em 1990, quando o perfil epidemiológico mostrava um aumento dos casos cuja via da transmissão era heterossexual e que acaretava, consequentemente, a expansão do HIV entre as mulheres. Esses aspectos trouxeram à tona demandas e necessidades específicas para a saúde reprodutiva das pessoas que vivem com HIV e com AIDS, como o direito ao acesso à reprodução assistida (para evitar a transmissão vertical do HIV) e cuidados especiais com as gestantes. A articulação com a área técnica de saúde da mulher, em nível central, e com os níveis estaduais e municipais, ampliou as ações de DST/AIDS em vários sentidos. »» Nos serviços de atenção integral à saúde da mulher. »» No Programa de Humanização no Pré-Natal e Nascimento com ações de prevenção da transmissão vertical e com esquema de tratamento antiretroviral, o que provocou uma redução no crescimento da infecção por essa via a partir de 1995. »» Por meio de profilaxia para o HIV em situação de violência sexual. »» Por meio de investimento em insumos de prevenção, tais como o preservativo masculino e feminino, compatibilizados entre os níveis federal, estadual e municipal. Em 2009, o Programa de Controle de Hepatites Virais se integrou ao Programa Nacional de DST e AIDS e passaram a constituir o Departamento de Doenças Sexualmente Transmissíveis, AIDS e Hepatites Virais. Nos últimos anos, foi considerado um programa exemplar pelos organismos internacionais. As mudanças do perfil da epidemia no Brasil levaram o Ministério da Saúde a idealizar campanhas focalizadas nas mulheres. O tema do Dia Mundial de Luta contra a Aids, em 2004, foi “Mulher, sua história é você quem faz”. A campanha de carnaval de 2009, dirigida à população feminina com mais de 50 anos (“Sexo não tem idade para acabar. Proteção também não”), foi uma resposta à tendência de crescimento da epidemia na população com essa faixa etária, além de incentivar a mulher a negociar com o parceiro o uso do preservativo, já que muitas mulheres nessa faixa etária têm pouco poder de decisão em relação ao uso de preservativos. Já a campanha de carnaval de 2011 (“Sexo, só se for com camisinha. Senão não dá”) foi direcionada às mulheres na faixa etária de 15 a 24 anos. Como já visto, a faixa etária de 13 a 19 anos é a única na qual há maior número de casos em meninas do que em meninos. A campanha exalta a participação da mulher na negociação do uso do preservativo. Entretanto, persistem muitas dificuldades quanto à consolidação plena dos princípios e diretrizes do SUS e quanto à pactuação e distribuição de competências nas ações no nível federal, estadual e municipal. A política de saúde brasileira passou por mudanças profundas nos últimos vinte anos relacionadas às alterações na estrutura e no papel do Estado e relativas à implementação do SUS. Na década de 1980, a 71 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER associação entre a democracia e a descentralização de políticas ganhou força e se traduziu na Constituição de 1988, que redesenhou a estrutura de Estado em uma lógica de federação descentralizada que conta com participação das três esferas governamentais na operacionalização da política com ênfase no papel dos municípios. É importante destacar que a descentralização, na concepção do SUS, representa, também, uma orientação de democratização da saúde. Indubitavelmente, a descentralização trouxe muitos avanços. Por exemplo, abriram-se possibilidades de transformação da relação entre Estado e sociedade, ampliou-se o acesso à saúde, foram incorporadas práticas inovadoras no campo da gestão e da assistência à saúde e foram incluídos novos atores que deram sustentabilidade política e financeira ao setor. Todavia, persistem problemas relativos à iniquidade na oferta e no acesso, à intensa fragmentação e à desorganização de serviços em decorrência da existência de milhares de sistemas locais isolados. No caso da Aids, um exemplo concreto da corresponsabilidade entre os níveis federal, estadual e municipal é a política de acesso aos medicamentos para o tratamento da AIDS. A esfera federal faz a compra de medicamentos antirretrovirais de forma centralizada. Estados e municípios são responsáveis pela compra de medicamentos para infecções oportunistas e DST, respectivamente. Se por um lado têm sido raras as interrupções na distribuição dos medicamentos antirretrovirais, por outro, o acesso aos demais medicamentos ainda é irregular e insuficiente na maioria dos estados e municípios brasileiros. Em sua terceira década, a prevenção continua sendo a principal estratégia de enfrentamento da epidemia de AIDS. Todavia, lacunas importantes afetam a população feminina. Uma das causas do aumento da doença nessa população está relacionada ao uso do preservativo. É fato que homens usam mais o preservativo do que mulheres. Além disso, estão mais habituados a levar consigo a camisinha e a tê-la disponível na hora da relação sexual do que as mulheres. Nas relações sexuais com parceiros casuais no último ano, 51% dos homens e apenas 34,6% das mulheres usaram camisinha. A desigualdade de gênero propicia a submissão da mulher em relação ao homem e dificulta a negociação sobre o uso do preservativo. Como já citado anteriormente, é um fator de vulnerabilidade feminina que as expõe ao maior risco de infecção pelo HIV. Uma boa notícia evidenciada pelas pesquisas é a de que quem já pegou camisinha de graça usa duas vezes mais o preservativo do que aqueles que nunca pegaram. O conhecimento sobre esse fato pode auxiliar os gestores a fortalecer a distribuição de preservativos em unidades de atendimento às mulheres. A prevenção é justamente um componente fundamental na resposta à epidemia. É preciso que suas formulações acompanhem as novas configurações e dinâmicas da epidemia. Estas impõem novos desafios e requerem alternativas que tornem os programas de prevenção mais efetivos. Permanecem centrais os conhecimentos e as formas de se prevenir a infecção pelo HIV para as pessoas que não tem o vírus. Justificadamente, esta tem sido a ênfase dos programas de DST e AIDS em todo o país. Informações sobre o tema têm sido difundidas entre os profissionais de saúde e o acesso a elas é facilitado por meio de várias publicações, folhetos, entre outros. O site do Departamento de DST, AIDS e Hepatites Virais <httt:// www.aids. gov.br> é uma ótima fonte de informação atualizada sobre essas doenças. É possível obter muitas informações sobre a epidemiologia, os locais onde realizar 72 PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única o teste, as formas de transmissão, prevenção, tratamento e sobre os serviços de assistência especializada. Um dos fatores que tem introduzido mudanças importantes no cenário da epidemia é o acesso universal à terapia combinada antirretroviral. O aumento do contingente de pessoas soropositivas e a emergência de novas necessidades exigem que a prevenção para as pessoas que vivem com HIV/AIDS alcance um patamar mais elevado nas prioridades do sistema de saúde, o que vem acontecendo de maneira lenta. Os profissionais de saúde precisam estar atentos às complexidades envolvidas e o esclarecimento e a discussão sobre esses aspectos deve fazer parte da assistência tanto do ponto de vista clínico, como psicossocial. Do ponto de vista clínico, alguns tópicos merecem especial atenção. »» Proteção contra reinfecção e infecções por outros agentes, como os causadores de outras DST. »» Prevenção e diagnóstico precoce das neoplasias mais frequentes entre as pessoas que vivem com HIV. »» Prevenção da tuberculose, pois pessoas que vivem com HIV apresentam alto risco de desenvolver quadros de tuberculose ativa após a infecção pelo bacilo da tuberculose. »» Prevenção e tratamento dos efeitos adversos do uso dos antirretrovirais (dislipidemias, síndrome lipostrófica e doença cardiovascular). »» Prevenção e tratamento das complicações osteoarticulares. »» Discussão sobre saúde sexual e reprodutiva. As mulheres com HIV/AIDS podem apresentar infecções vaginais, doença inflamatória pélvica e câncer de colo do útero com mais frequência e severidade que as mulheres soronegativas. No que concerne aos aspectos psicossociais, mesmo após as noções de grupo de risco terem caído em desuso, ainda são muito visíveis a estigmatização e a discriminação das pessoas vivendo com HIV/AIDS, especialmente das mulheres. Embora muito já se tenha avançado no conhecimento e manejo da doença, viver com HIV e AIDS ainda pode significar medo do abandono e do afastamento de pessoas queridas, preocupação sobre a revelação do status sorológico no meio social, isolamento e inibição na vida familiar e sexual e muitos outros sentimentos e sensações que necessitam escuta, atenção e acolhimento por parte do profissional de saúde. Ainda são poucos os serviços em cuja organização prevalece a compreensão da vivência da AIDS de forma contextualizada e integrada, como busca fazer a concepção dos níveis de vulnerabilidade. Com relação ao tratamento da AIDS, o acesso universal à terapia antirretroviral, embora não seja a única, é a faceta mais evidente. Na verdade, sua viabilização requer extensa rede assistencial e uma rede laboratorial preparada para a realização de exames caros e específicos. A seguir, serão ressaltados alguns aspectos da política brasileira de acesso aos medicamentos antirretrovirais. Em 2010, cerca de 190 mil pessoas recebiam o tratamento antirretroviral no país. O país distribui, atualmente, 20 medicamentos antirretrovirais, sendo nove nacionais e onze importados (com mais de 73 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER 30 apresentações diferentes). Apesar de seu alto custo (800 milhões de Reais em 2009), essa política tem demonstrado valer a pena. Desde 1996, resultou na queda do numero de óbitos, na diminuição das internações relacionadas à AIDS, no aumento da sobrevida e na melhora da qualidade de vida das pessoas vivendo com AIDS. O Ministério da Saúde elabora recomendações para o uso da terapia antirretroviral em adultos, gestantes, crianças e adolescentes infectados pelo HIV. Essas recomendações são permanentemente atualizadas por meio de suplementos e notas técnicas. Em 2011, houve uma atualização completa do conjunto de recomendações para adultos. É importante lembrar que o acompanhamento por parte da equipe de saúde é necessário não apenas para quem já tem a doença AIDS e se trata com medicamentos antirretrovirais. O acompanhamento da infecção pelo HIV é essencial mesmo para aqueles que não apresentam sintomas e não tomam os antirretrovirais. Os atendimentos para avaliação da evolução clínica e oara a solicitação de exames devem ser regulares. No atendimento inicial, são solicitados os seguintes exames: sangue (hemograma completo), fezes, hepatites B e C, tuberculose, sífilis, dosagem de açúcar e gorduras (glicemia, colesterol e triglicerídeos), avaliação do funcionamento do fígado e rins, além de raios X do tórax. A adesão ao tratamento antirretroviral é determinante para o seu sucesso. Ademais, a má adesão ao tratamento acelera o processo de resistência do vírus aos medicamentos. Qualquer decisão sobre a interrupção ou troca de medicamentos deve ser tomada com o consentimento do médico que faz o acompanhamento da pessoa soropositiva. Efeitos adversos são frequentes, em especial, no início do tratamento e, em sua maioria, são temporários. Vários desses efeito negativos podem ser manejados por meio do estabelecimento de horários adequados e ingestão concomitante com alimentos. Os mais comuns são enjôo, vômito, diarreia, insônia, dor de cabeça e mal-estar. Entretanto, não apenas as reações adversas são causas para dificuldades de adesão. A necessidade de idas regulares ao serviço de saúde e a ingestão de uma quantidade significativa de comprimidos pode ser difícil. Especialmente no caso das mulheres, cujos limites de autonomia já foram bastante apontados neste capítulo, a manutenção dessa rotina pode encontrar obstáculos se elas não contarem com o apoio das pessoas próximas. Isso implica revelar sua condição para filhos, companheiros ou companheiras e para parentes próximos. A falta de privacidade em ambientes de trabalho – como no caso de empregadas domésticas, funcionárias em serviços de limpeza, recepcionistas, dentre outras – também pode gerar obstáculos. Além disso, alguns medicamentos são melhor digeridos e metabolizados se adotados alguns cuidados na alimentação. Isso pode ser pouco prático para mulheres que trabalham em horários irregulares ou que estão submetidas a situações de pobreza e, portanto, com menor acesso a alimentos saudáveis e variados. Ainda, a lipodistrofia pode ter particular impacto sobre as mulheres, uma vez que altera a distribuição da gordura corporal e pode mudar substantivamente as feições e a estrutura corporal da paciente e gerar, assim, efeitos negativos em sua autoimagem e autoestima. Por fim, vale lembrar que a equipe de saúde é de grande valia para o manejo dessas dificuldades, seja ao prestar informações, reforçar os aspectos positivos do tratamento, auxiliar a buscar soluções, respeitar os limites do paciente e ao oferecer às pacientes uma escuta atenta e sensível. Alguns serviços, inclusive, organizam grupos de pacientes para a discussão sobre adesão ao tratamento. 74 PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única Sexualidade Muitas mulheres que vivem com HIV/AIDS declaram sentir alterações no desejo sexual e dificuldades em ter relações sexuais. Isso pode estar relacionado a fatores de naturezas diversas. O primeiro deles pode ser a terapia antirretroviral, visto que alguns medicamentos podem reduzir o desejo sexual. Eles podem, também, causar cansaço, alterações no sono e dor de cabeça, sintomas que podem levar à diminuição do apetite sexual. A falta de interesse por sexo, muitas vezes, é transitória, mas o profissional de saúde deve ser informado. Algumas mulheres informam ressecamento vaginal, que pode ser um efeito do HIV ou da medicação e pode, também, transformar-se em um obstáculo para o sexo. Nesses casos, o uso de gel lubrificante é uma medida simples e efetiva. Uma segunda ordem de fatores está ligada à esfera emocional, pela conexão entre sexo e o HIV. A inibição sexual pode estar relacionada ao medo de transmitir a infecção ou de se reinfectar, a sentimentos de culpa, raiva e a muitos outros relacionados à soropositividade. Em quaisquer das situações acima, a equipe de saúde pode ajudar promovendo um ambiente de confiança, no qual a mulher se sinta confortável para expressar seus questionamentos e sentimentos. É importante que o profissional de saúde, independentemente de suas preferências ou convicções pessoais, esteja disponível para apoiar as pacientes a encontrar alternativas prazerosas e seguras na vida com AIDS, na qual a sexualidade possa ser fonte de satisfação e prazer. Conjugalidades As ações de prevenção do HIV/AIDS, muito frequentemente, exploram a prevenção para as pessoas que não tem HIV e nas relações heterossexuais. Algumas situações específicas permanecem pouco exploradas pelos profissionais nos serviços de saúde, o que evidencia um descompasso entre as ações de prevenção e a realidade social das pessoas. Duas dessas situações serão examinadas abaixo e dizem respeito aos casais sorodiscordantes e aos casais de mulheres. Antes de discorrer especificamente sobre o assunto, cabem algumas palavras sobre prevenção em geral. É preciso lembrar que a lógica das práticas cotidianas não resulta da incorporação racional, direta e integral das informações e recursos preventivos oferecidos. Em outras palavras, os esforços empreendidos para a transformação das práticas e comportamentos dos indivíduos necessitam considerar a sua dimensão simbólica em seus contextos sociais e históricos. Especialmente, campos como os das práticas sexuais são, em grande medida, modelados social e culturalmente e o resultado dessa ressignificação pode não coincidir com as lógicas racionais e biomédicas de prevenção. Estudos antropológicos brasileiros indicam a importância do referencial da conjugalidade, formalizada ou não, na identidade das pessoas, especialmente, nas camadas populares. Mostram ainda que o estabelecimento de vínculos conjugais pode gerar sentimentos de proteção e confiança entre os parceiros que os impedem de se sentirem suscetíveis à transmissão do HIV no âmbito da relação conjugal. Dessa forma, os serviços necessitam realizar a delicada tarefa de identificar a lógica do outro e os limites e possibilidades dos programas na área da saúde sem que essas diferenças sociais e culturais transformem-se em obstáculo para a prevenção ou tratamento do HIV/AIDS. As experiências de profissionais com casais sorodiscordantes mostram algumas situações às quais a equipe de saúde necessita estar atenta. Em primeiro lugar, a atuação dos profissionais de saúde pode ser 75 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER percebida pelo casal como invasiva em um campo da vida que pertence à intimidade. Isso pode gerar para os pacientes uma situação paradoxal: ter dúvidas, mas experimentar dificuldades em explicitá-las completamente para a equipe de saúde. Ter ciência dessa possibilidade não deve inibir os profissionais, mas sim alertá-los para a busca de estratégias que possam tornar a situação clara e que lhes possibilitem enfrentá-la juntamente com seus pacientes. É importante conhecer elementos que permitam situar os casais no contexto social, para que se possa trabalhar melhor as maneiras de lidar com a questão. Por exemplo, deve-se saber se a revelação diagnóstica se deu quando a relação já estava estabelecida, se a relação é posterior ao diagnóstico, qual o tipo de vínculo em questão (casamento, namoro ou outro) e que importância os sujeitos dão à questão. O fato do casal ser heterossexual ou homossexual também é relevante para se examinar o contexto social da relação. O momento da revelação pode ser crucial, uma vez que pode representar a ruptura de um relacionamento existente e a emergência de atributos vistos socialmente como desviantes, como o de ser traidor, infiel, homossexual, usuário de drogas ou profissional do sexo. Sentimentos de culpa, medo de discriminação, abandono e o medo de infectar o parceiro podem estar presentes, assim como a preocupação com a pressão de familiares e amigos. Após a descoberta da soropositividade, pode haver um período de diminuição ou mesmo suspensão de carícias, contatos íntimos e atividade sexual, que pode denotar um processo de adaptação ao risco da doença. O processo pode ser intenso em emoções e questionamentos e requerer acompanhamento atento da equipe de saúde. Para algumas pessoas, o risco do HIV pode ser menos importante frente a outros, que tampouco são exclusivos dos membros de um casal sorodiscordante, como o medo de ficar sozinho, de não ter filho e de não ter alguém com quem compartilhar a vida. As experiências também mostram que várias unidades fornecem informações insuficientes, especialmente para o parceiro soronegativo. Enfatizam-se, a propósito, os relatos da falta de lugar para o atendimento da pessoa soronegativa do casal, uma vez que o serviço se dedica ao parceiro positivo e não ao negativo. Com frequência, o casal nunca é atendido no serviço e vale mencionar que o trabalho exigiria, muitas vezes, inclusive o envolvimento dos filhos e dos parentes próximos. É importante destacar que, na situação do casal sorodiscordante, um aspecto subjetivo positivo do risco nunca é abordado: o de que uma pessoa com HIV pode ser desejada, amada e importante para o seu parceiro. Convém ressaltar que as relações de gênero permeiam o gerenciamento da sorodiscordância do casal, especialmente nos casais heterossexuais. Nas experiências relatadas, as mulheres têm mais facilidade em reconhecer e aceitar o diagnóstico do que os homens. As mulheres costumam assumir o papel de cuidadora, enquanto o homem, o de ser cuidado, mesmo em situações em que a mulher é soropositiva. Também, são as mulheres (de ambos os status sorológicos) as que mais relatam temer a contaminação e a possibilidade de transmitir o HIV ao seu parceiro, o que reafirma o atributo feminino de ser responsável pelo cuidado. Crenças como as de que o homem não pega AIDS da mulher, que expressam atributos de gênero tipicamente femininos (de limpeza e pureza), são igualmente frequentes. Outro ponto que ainda tem pouca dedicação nos serviços de atenção à saúde é o realativo a casais homossexuais femininos, sorodiscordantes ou não. Pela relativa escassez de informações precisas a esse respeito, vale recordar aqui alguns conteúdos da prevenção nesse caso. Como se sabe, pode haver transmissão do HIV em relações sexuais desprotegidas entre mulheres. É indicado o uso de camisinha feminina ou barreiras. Essas barreiras podem ser feitas com uma camisinha, luva ou com um pedaço de PVC (material plástico que se usa para envolver alimentos). Caso não seja usada uma barreira de proteção, 76 PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única deve-se evitar contato com o sangramento menstrual, com as secreções vaginais, com os pequenos sangramentos durante o sexo oral (boca-vagina ou boca-ânus) e durante a penetração com os dedos, mãos ou brinquedos sexuais. O sexo oral sem proteção é arriscado se a parceira estiver menstruada ou com uma infecção vaginal. Os brinquedos sexuais não devem ser compartilhados sem o uso da barreira protetora e o uso de lubrificante à base de água é recomendado. Também, para a prática de se esfregar genitália com genitália, é recomendado o uso de uma barreira de proteção. O uso de luvas de látex é uma prática comum durante a penetração vaginal ou anal. Deve-se lembrar a usuária do serviço de sempre trocar as luvas ao passar da vagina para o ânus, ou vice-versa, para evitar infecções bacterianas e de não compartilhar as luvas com a sua parceira. Planejamento reprodutivo: maternidade e amamentação A gravidez de uma mulher com HIV/AIDS é recebida pelos serviços de saúde como um evento inesperado e problemático. Apesar do reconhecimento da autonomia das pessoas com HIV/AIDS em relação às suas escolhas reprodutivas, é essencial a formulação de estratégias de cuidados à saúde e de prevenção do risco de transmissão. As necessidades dos indivíduos com HIV e AIDS não são tratadas de forma adequada nos serviços de planejamento familiar. No contexto brasileiro, a gravidez de mulheres que vivem com HIV reveste-se de dupla discriminação: social e legal. Essa mulher não pode optar pela interrupção da gravidez, uma vez que a legislação não permite, e é considerada irresponsável pela sociedade por gerar um bebê que poderá ser infectado, ainda que o acesso universal e gratuito à terapia antiretroviral seja responsável por um aumento considerável na expectativa de vida dessas pessoas. Vale mencionar que, no Brasil, o acesso a essa terapia encontra-se em apmliação. A maioria das mulheres com HIV/AIDS está em idade reprodutiva e tem o diagnóstico de infecção por HIV durante o pré-natal ou quando seus filhos adoecem. Por vezes, a testagem ocorre sem o prévio aconselhamento ou consentimento informado e esclarecido e é justificado, pela equipe de saúde, como medida preventiva para o bebê. No entanto, desconsidera-se que a mãe também merece cuidado e orientação adequada, não só médica, mas psicológica, social e jurídica, já que um dos problemas mais visíveis tem sido a orfandade decorrente da morte das mães. Outro aspecto importante e bastante negligenciado é o valor atribuído à maternidade pelas mulheres. Em algumas circunstâncias e contextos sociais, a maternidade e paternidade tornam-se um determinante da identidade social, de tal forma que as decisões a respeito de ter ou não filhos se relacionam diretamente à grande importância dada à família nessas comunidades e não à sua condição sorológica. Além disso, a maternidade, para mulheres com AIDS, pode ter a capacidade de resgatar sua identidade social, posta em questão pela infecção pelo HIV. Pesquisadores brasileiros registram as falas de mulheres com HIV que relacionam o desejo de ter filhos à sua realização como mulher, somada ao medo e à angústia de que o filho seja HIV positivo. Contudo, o estigma social imposto às pessoas que vivem com AIDS, somado ao baixo poder de decisão da mulher e à carência de serviços de qualidade com profissionais habilitados, tornam mais difícil a construção ou mesmo a manutenção de um ambiente favorável que acolha e que responda adequadamente à decisão dessas mulheres em ter ou não filhos. 77 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER As medidas de saúde preconizadas como adequadas devem oferecer aconselhamento para as mulheres e homens, HIV positivos ou não, abordar as alternativas mais seguras de engravidar, os cuidados durante a gravidez para a sua proteção e a do feto e, também, caso a lei local permita – e se for de sua escolha – devem apontar as alternativas mais seguras para interromper a gravidez. Entre as alternativas mais seguras para que as mulheres e homens que vivem com HIV procriem, está a possibilidade de utilizar as técnicas de reprodução assistida e, assim, evitar os riscos de transmissão do vírus para o parceiro soronegativo. No caso do casal em que a mulher é negativa para o HIV e o parceiro soropositivo, o casal deve ser orientado sobre a possibilidade da inseminação artificial por meio do processo de purificação do sêmen, que evita a transmissão para mulher e para o bebê. Quando a mulher é positiva para o HIV e o parceiro não, ou ainda no caso de casais em que ambos são portadores do HIV/AIDS, a situação torna-se menos consensual entre os profissionais no que diz respeito às implicações éticas relacionadas ao uso da inseminação, pois há possibilidade de transmissão do HIV da gestante para o bebê, além de outros agravos resultantes dos efeitos do tratamento com antirretrovirais que podem implicar o agravamento do estado de saúde da gestante e do bebê. No tocante às estratégias de redução de risco de transmissão sexual do HIV no planejamento da reprodução e no que tange a profilaxia pós-exposição sexual (PEP sexual), em outubro de 2010, o Departamento de DST, AIDS e Hepatites Virais publicou o suplemento III das Recomendações para Terapia Antirretroviral em Adultos Infectados pelo HIV, sobre Profilaxia (pós-exposição sexual, ocupacional e pós-violência sexual) e Planejamento da Reprodução. O referido suplemento encontra-se disponível em: <http://www.aids.gov.br/pagina/dadose-pesquisas>. De forma breve, as principais estratégias sugeridas para que se alcance o cumprimento das novas recomendações são: 1. capacitar profissionais para o atendimento às recomendações do suplemento e reforçar o caráter complementar e a abordagem equilibrada entre práticas sexuais seguras e o emprego de antirretrovirais; 2. articular uma rede que garanta o fluxo de atendimento, sendo que os municípios precisarão encontrar soluções próprias para articular suas redes; 3. Incluir o Programa de Saúde da Família e as Unidades de Pronto Atendimento (UPA) no fluxo de atendimento de acordo com a realidade de cada município e estabelecer as atribuições de cada um e sua articulação com os Serviços de Atenção Especializada; 4. definir casos elegíveis e estabelecer protocolos de atendimento. Denomina-se transmissão vertical do HIV a situação em que a criança é infectada pelo vírus da AIDS durante a gestação, no parto ou na amamentação. No entanto, a criança filha de mãe portadora do HIV tem a oportunidade de não se infectar pelo vírus. Quanto mais precoce o diagnóstico da infecção pelo HIV na gestante, 78 PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única maiores são as chances de evitar a transmissão do vírus para o bebê. O risco de transmissão pode cair a menos de 1% com medidas eficazes, tais como: »» no pré-natal, se a gestante recebe o diagnóstico positivo de HIV, ela passa a ser acompanhada em um Serviço de Atenção Especializada (SAE); »» no momento do parto, é encaminhada a uma maternidade de referência do Sistema Único de Saúde (SUS) capacitada a atendê-la; »» no caso de gestantes que tiveram resultado negativo no teste no pré-natal ou que não fizeram o exame, o teste rápido é realizado no momento do parto; »» todas as mulheres soropositivas recebem AZT (azidotimidina) injetável no momento do nascimento do bebê, além disso, são aconselhadas a não amamentar. O bebê recebe a fórmula infantil e é tratado até os 18 meses, quando faz o exame de HIV para que se possa saber se foi infectado ou não. Aborto e a gravidez indesejada O Código Penal Brasileiro só permite o aborto nos casos de gravidez resultante de estupro (artigo 128, inciso II) ou por razões terapêuticas, quando é o único meio de proteger a vida da gestante (artigo 128, inciso I). Portanto, não inclui o aborto em razão do agravamento do estado de saúde da gestante, mas, apenas, quando há o risco de morte. No caso da mulher com AIDS, torna-se essencial comprovar o risco para que se possa realizar o aborto terapêutico. No entanto, é importante destacar que, nos países em que a lei permite a interrupção voluntária da gravidez, o direito da mulher portadora do HIV de decidir sobre o aborto pode transformar-se em um tipo de terapêutica prescrita pelos profissionais de saúde que se fundamentam em crenças próprias e não na indicação terapêutica. Considera-se o estigma da gravidez de mulheres com HIV e outras vulnerabilidades femininas. Outro aspecto ético bastante questionado em relação ao aborto é o direito à confidencialidade das informações prestadas pelas mulheres aos profissionais de saúde no que se refere à realização do aborto de forma clandestina. Na discussão jurídica e sanitária brasileira, o que se discute é se os profissionais de saúde devem, ou não, denunciar a realização de aborto não permitido em lei. A resposta é não. A lei brasileira assegura o direito à confidencialidade nesses casos para proteção da mulher que necessita de cuidados. Assim, o sigilo profissional no exercício de funções que, por sua natureza, dependem da revelação de fatos íntimos da vida das pessoas – como os assistentes sociais, psicólogos, médicos, enfermeiros, advogados, dentre outros – é plenamente garantido. O profissional deve receber a informação e orientar a mulher a adotar os cuidados necessários para sua saúde sexual e reprodutiva pós-aborto, orientar sobre as formas de se evitar a gravidez e o HIV/AIDS e encaminhar a mulher ao serviço de planejamento familiar para acompanhamento. 79 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER Ciclo gravídico-puerperal e HIV/AIDS As gestantes com sorologia positiva (+) para o HIV devem ser acompanhadas por equipe multiprofissional que visa cobrir as diferentes necessidades do ciclo gravídico-puerperal, inclusive as de origem social, familiar e emocional. É importante que o enfoque seja de forma holística e inclua o aspecto humano e não só médico-científico, com participação de infectologista, ginecologista/obstetra, pediatra, enfermeiro, psicólogo, nutricionista e assistente social. O atendimento pré-natal oferecido dessa maneira resultará em maior adesão da grávida com HIV positivo e, consequentemente, em melhor saúde para o concepto e para a mãe. As consultas de rotina são feitas mensalmente, até a 32ª semana, quinzenalmente, entre a 32ª e 36ª semana, e semanalmente, após a 36ª semana. Frente a qualquer intercorrência, devem ser agendadas outras consultas. Dois objetivos são primordiais na assistência pré-natal: manter a saúde materna nas melhores condições possíveis e reduzir a taxa de transmissão vertical. O acompanhamento obstétrico deve ser cuidadoso e não deve esquecer das influências recíprocas entre a infecção pelo HIV, principalmente em estágio mais avançado, e o ciclo gravídico-puerperal. A avaliação deve incluir ultrassom (precoce e seriado, com estudo morfológico e de desenvolvimento fetal detalhados, principalmente pelo uso frequente de drogas durante a gestação), provas de vitalidade e de maturidade fetal. Procedimentos invasivos devem ser sempre evitados. Com relação ao parto, ainda existem controvérsias sobre qual a melhor via de parto para a gestante com HIV positivo. Vários trabalhos na literatura mostram menor taxa de transmissão vertical em RN de cesárea, quando comparada às taxas do parto vaginal. No entanto, sem serem avaliadas adequadamente as demais variáveis, como o estadiamento clínico materno. O aleitamento materno, durante o puerpério, é uma das formas de transmissão vertical do HIV. Esse risco, de aproximadamente 14%, é maior se a infecção materna for aguda e recente (por exemplo, por transfusão de sangue no parto), é maior na presença de fissuras, de viremia materna e no estágio clínico avançado. A orientação para as puerpéras com HIV positivo é de não amamentar. No entanto, deve estar disponível esquema de nutrição adequada para o bebê, como, por exemplo, leite de vaca modificado e leite humano pasteurizado. Em situações excepcionais (desnutrição, diarreia) em que a mortalidade infantil com aleitamento artificial é maior do que o risco de contaminação pelo HIV transmitido pelo leite materno, pode-se manter a amamentação natural. Para diminuir o risco de transmissão vertical no período pós-parto, além de ser contraindicado o aleitamento materno, preconiza-se a remoção imediata de sangue e secreções em contato com a pele e mucosas do recém-nascido. A importância do planejamento familiar deve ser sempre enfatizada às mulheres com HIV positivo. É recomendado que engravidem somente quando desejado e em condições adequadas, tanto do ponto de vista clínico, quanto do familiar e social. Dessa forma, minimizam-se os problemas relacionados à AIDS e ocorre uma importante redução na incidência de AIDS pediátrica. 80 PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única Por fim, a recente história da epidemia de HIV/AIDS não deixa dúvida de que o processo de adoecimento humano atinge, de forma diferenciada, camadas e segmentos populacionais com menos poder na sociedade e aponta as desigualdades sociais e pessoais existentes. Essa situação corrobora a mudança ocorrida na noção contemporânea que passou a encarar a saúde como um estado de bem estar diretamente relacionado com o desenvolvimento socioeconômico, cultural e ético de uma sociedade e, também, relacionado com o grau de liberdade e igualdade com que se vive nessa sociedade. As críticas sociais e científicas relacionadas aos modelos de atenção à saúde que se baseavam na noção de risco e de responsabilidade individual descontextualizada serviram para ampliar a discussão sobre novos modelos de saúde, sobre o HIV/AIDS e sobre as DST. A noção de vulnerabilidades passa a orientar os programas de HIV/AIDS em todo mundo. Afastar o estigma e a discriminação torna-se um pressuposto necessário para o avanço no controle da epidemia. A linguagem e o instrumental dos direitos humanos nas respostas ao HIV/AIDS no âmbito da saúde tornam-se igualmente fundamentais na formulação das ações de saúde e nas práticas dos profissionais. 81 Capítulo 7 Aspectos éticos e legais da saúde da mulher A saúde não deve se restringir ao tradicional conceito de prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação. Deve ser abordada, também, no contexto cultural, histórico e antropológico nos quais estão os indivíduos que querem ser saudáveis e livres de doenças. Essa abordagem é fundamental ao se analisar a questão da saúde da mulher brasileira, em especial daquela de menor renda, pois apresenta evidentes carências das chamadas necessidades básicas, as quais interferem na sua saúde e no bem-estar. Essa mulher carece, frequentemente, de alimentação, moradia, trabalho digno e adequadamente remunerado, educação, cultura, lazer, dentre outros. Evidentemente, essa doença social, que acomete um número expressivo de mulheres, determina ou agrava condições biológicas e psicológicas que põem em risco sua vida, sua saúde e seu bem-estar. É com essa abrangência conceitual que será possível identificar estratégias e programas de saúde que possam reduzir a distância entre os vastos e importantes conhecimentos científicos e tecnológicos adquiridos neste século e, também, minimizar sua limitada aplicação por meio de uma visão humanística na promoção da saúde das pessoas. Não se pode aguardar que as medidas estruturais necessárias à correção dos graves problemas econômicos e sociais do país sejam adotadas em sua plenitude e surtam os efeitos desejados para que o setor de saúde se mobilize na correção de seus problemas específicos. Mas, por outro lado, é importante que, no desenvolvimento de programas de combate a esses problemas específicos de saúde de determinados grupos populacionais, não se perca a dimensão da real profundidade da interferência dessas questões político-econômicas e sociais no estado de saúde de cada cidadã e de cada cidadão brasileiros. No caso da mulher, acresce-se à problemática já explicitada as questões, também complexas, relacionadas às relações de gênero, de não tão simples resolução, por refletirem padrões culturais dominantes na sociedade. A definição de identidade sexual como fator eminentemente biológico – em que as características anatômicas, fisiológicas e hormonais definem macho e fêmea – é por demais estreita para abarcar a totalidade dos universos masculino e feminino. A identidade cultural de gênero é construída no tempo e no espaço e cria estereótipos de papéis diferenciados, marcados pelos interesses imediatos das sociedades nos diferentes momentos históricos. Ao longo dos séculos, construiu-se um modelo social predominante que vem impedindo a mulher de ser sujeito pleno de sua própria historia. Esse modelo predetermina formas de conhecimento e ação, na área da saúde inclusive, que evidenciam seu caráter patriarcal. Esses determinantes históricos e sociais vêm se refletindo, ao longo dos tempos, na atuação médica nas questões relacionadas à saúde da mulher. A exaltação da maternidade (discurso dominante a partir do século XIX) trouxe no seu bojo não a proteção da mulher em face às vulnerabilidades a que está exposta no processo de manutenção da espécie, mas a perpetuação das relações de poder entre os sexos. 82 PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única Ainda no século XIX, quando emergiam e se consolidavam esses conceitos, iniciou-se a interferência do Estado com um processo de expansão da assistência médica no Brasil, a qual antes era exercida quase exclusivamente na forma liberal ou filantrópica. Alguns programas de saúde dirigidos a grupos populacionais específicos começaram a ser desenvolvidos, entre eles a assistência pré-natal. Essa assistência, associada à institucionalização do parto, teve, por objetivo, desenvolver um recém-nascido saudável e reduzir as elevadas taxas de mortalidade infantil que existiam no final do século passado e na primeira metade deste. A assistência pré-natal não surgiu como proteção à mulher, mas sim como um processo de “puericultura intrauterina” e como uma preocupação social com a demografia e com a qualidade das crianças nascidas. O primeiro Congresso Brasileiro de Proteção à Infância (1922) culpou, indiretamente, as “mulheres desnutridas, sifilíticas e alcoólatras” pelas elevadas taxas de mortalidade infantil vigentes na época e recomendou a intervenção do Estado mediante a abertura de maternidades e creches e mediante severa vigilância ao aleitamento materno. Assim, tornou-se possível mais uma forma de responsabilizar as mulheres pelas mazelas da sociedade e de justificar um acirramento do controle social sobre seus corpos e suas vidas. Cumpre recordar que, nessa época, às mulheres era negado ou dificultado o acesso à educação formal. Foi com base nesses conceitos, muitas vezes equivocados, que se expandiu, no Brasil, a assistência pré-natal. Ademais, essa centralização do atendimento à saúde da mulher na esfera exclusiva do ciclo grávido-puerperal perpetuou-se até muito recentemente. A ampliação da oferta de serviços de atenção à mulher, a partir do final dos anos 1960, ainda não tinha por objetivo o atendimento abrangente de suas necessidades de saúde. Foi o crescimento populacional que ocorreu nos países subdesenvolvidos o motivador de investimentos internacionais que disponibilizaram métodos e técnicas modernos de contracepção dirigidos às populações pobres. Avanços na legislação referente à saúde materno infantil. Alojamento Conjunto »» 1982: a Portaria 18 do Inamps/Ministério da Saúde estabeleceu a obrigatoriedade do alojamento conjunto. »» 1986: a Portaria do Ministério da Educação (MEC) tornou obrigatório o alojamento conjunto nos hospitais universitários. »» 1992: por meio da Portaria GM/MS nº 1.016, o Ministério da Saúde obrigou hospitais e maternidades vinculados ao SUS, próprios e conveniados, a implantarem alojamento conjunto (mãe e filho juntos, no mesmo quarto, 24 horas por dia). Norma de Comercialização »» 1988: aprovação, pelo Conselho Nacional de Saúde, da Norma Brasileira para Comercialização de Alimentos para Lactentes (Resolução nº 5), elaborada com base no Código Internacional para Comercialização de Substitutos do Leite Materno. 83 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER »» 1990: aprovação do Código de Defesa do Consumidor, o qual reforçou vários artigos da Norma de Comercialização de Alimentos para Lactentes. »» 1992: aprovação, pelo Conselho Nacional de Saúde, do novo texto da Norma Brasileira para Comercialização de Alimentos para Lactentes (Resolução nº 31), que inclui item específico sobre o uso de bicos e mamadeiras. »» 1992: acordo mundial entre o UNICEF, a OMS e a Associação Internacional de Fabricantes de Alimentos para cessar o fornecimento – gratuito ou a baixo custo – de leites artificiais às maternidades e hospitais. »» 1994: publicação Parecer nº 62/1994 da Consultoria Jurídica do Ministério da Saúde que redefiniu as penalidades para as infrações à norma. Constituição Nacional »» 1988: promulgação da Constituição Federal, a qual assegura a licença-paternidade de cinco dias, a proteção ao trabalho da mulher e o direito das presidiárias de permanecer com os filhos durante o período de amamentação. Estatuto »» 1990: aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei nº 8.069/1990 –, que assegura à gestante, pelo Sistema Único de Saúde, o atendimento antes e após o parto. Também, trata da obrigatoriedade do alojamento conjunto. Hospital Amigo da Criança »» 1994: a Portaria nº 1.113 do Ministério da Saúde assegura pagamento de 10% a mais sobre a assistência do parto a Hospitais Amigos da Criança vinculados ao Sistema Único de Saúde. »» 1994: a Portaria nº 155 da Secretaria de Assistência à Saúde estabelece os critérios para o credenciamento dos hospitais como Amigos da Criança. Entretanto, apesar dessas importantes conquistas, observa-se hoje que a quase totalidade das iniciativas relacionadas à saúde das mulheres tem se caracterizado por manipular seus corpos e suas vidas com vistas a objetivos outros que não seu bem-estar. As elevadas taxas de mortalidade materna e perinatal, o uso abusivo da cesárea e a alta prevalência de mulheres esterilizadas ou usando métodos anticoncepcionais inadequados são exemplos claros dessas distorções. Mulheres trabalhadoras 84 A amamentação, como foi visto no capítulo 4, é importante para o desenvolvimento do recém-nascido, pois atua na prevenção de doenças do trato respiratório, digestivo e alergias, além de ser um importante PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única fator no estabelecimento do vínculo afetivo entre a mãe e o bebê. Para a mãe, a amamentação favorece a recuperação pós-parto, ajuda a prolongar o tempo entre uma gravidez e outra e diminui o risco de câncer de mama e de ovário. Dessa forma, a Constituição Brasileira e a Consolidação das Leis Trabalhistas garantem uma série de direitos às mães que trabalham fora, tais como: »» licença-maternidade (artigo 7º, inciso XVIII, da Constituição Federal de 1988): 180 dias de ausência do trabalho para a mãe a partir do 8º mês de gestação ou após o parto; »» licença-paternidade (artigo 7º, inciso XIX, da Constituição Federal de 1988 das Disposições Transitórias): 15 dias de ausência do trabalho para o pai, após o parto; »» direito a amamentar durante a jornada de trabalho (seção V, artigo 396, da CLT): até os seis meses de idade do filho, a mulher tem direito, durante a jornada de trabalho, a dois descansos especiais de meia hora cada um; »» garantia de emprego à gestante (artigos 391 a 400, da CLT): desde a confirmação da gravidez até o fim da licença-maternidade; »» Garantia de creche para o bebê (artigos 389, 397 e 400, da CLT): até os seis anos de vida. Direitos sexuais e direitos reprodutivos (DS e DR) Foi visto, anteriormente, que o conceito de saúde varia conforme a cultura, o tempo em que se vive e que, portanto, é uma construção histórica. Também, foi visto que ela pode ser conceituada como resultante das condições de vida de um indivíduo ou de um grupo e que, só a partir de 1988, foi incluída no rol dos direitos de cidadania e dentre as obrigações do Estado brasileiro. Ao se perceber a saúde de uma forma ampliada, para além da ausência de doenças, pode-se inferir que a saúde sexual e a saúde reprodutiva serão, também, condicionadas pela forma de vida que se leva e que serão influenciadas por fatores como as discriminações de gênero, de raça/etnia, de religião e de orientação sexual. Da mesma forma, a saúde sexual e a saúde reprodutiva também são construções históricas e, só recentemente, foram incluídas no rol dos direitos dos cidadãos e cidadãs de todo o mundo. Os organismos internacionais que constituem a ONU convocam, de tempos em tempos, os países membros para conferências nas quais são discutidos determinados temas. Dessas Conferências, resultam declarações que, ao serem assinadas pelos representantes dos Estados, passam a ter força de lei nos países signatários. Em 1994, a ONU convocou a IV Conferência Mundial sobre População e Desenvolvimento, que aconteceu na cidade do Cairo. No ano seguinte, realizou-se em Pequim a IV Conferência Mundial sobre a Mulher. As declarações resultantes dessas conferências, e que foram assinadas pelo Brasil, consolidaram as noções de saúde sexual e de saúde reprodutiva no marco dos direitos humanos, superando visões puramente demográficas sobre o tema população. 85 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER As plataformas de ação das conferências do Cairo e de Pequim também chamaram a atenção para a importância de se superar as desigualdades sociais entre os sexos e apontaram para a necessidade de envolver os homens nas questões relacionadas à saúde sexual e à saúde reprodutiva, já que, em muitas sociedades, inclusive na nossa, a responsabilidade pela anticoncepção recai quase que exclusivamente sobre as mulheres. Da mesma forma, ficou clara a responsabilidade dos governos de proporcionar, aos adolescentes de ambos os sexos, as informações e os serviços adequados que permitam a atenção à saúde sexual e à saúde reprodutiva dos jovens, em consonância com o princípio de que a sexualidade é parte integrante de todas as fases da vida humana. Ao referendar essas Declarações, o país assume que os brasileiros são sujeitos portadores de direitos sexuais e de direitos reprodutivos, ao invés de simples objetos das políticas estatais ou meros portadores de necessidades a serem atendidas, ou não, pelo Estado, conforme suas convicções morais ou ideológicas. O Estado brasileiro assume, para si, a responsabilidade pelo cumprimento dessas obrigações legais de forma universal e equânime, visando atender às necessidades dos cidadãos. Os direitos reprodutivos abrangem certos direitos humanos. Esses direitos ancoram-se no reconhecimento do direito básico de todo casal e de todo indivíduo de decidir livre e responsavelmente sobre a quantidade, o espaçamento e a oportunidade de ter filhos, assim como no direito de ter a informação e os meios de assim o fazer, além do direito de gozar do mais elevado padrão de saúde sexual e reprodutiva. Incluem também o direito de tomar decisões sobre a reprodução, livre de discriminação, coerção ou violência. Como você acredita que a equipe de saúde possa se organizar para garantir ao casal a plenitude destes direitos? Portanto, pode-se afirmar que o Brasil reconhece os direitos sexuais e os direitos reprodutivos como integrantes dos direitos humanos fundamentais, reconhecidos nas leis internacionais e nacionais. Esse reconhecimento, obrigatoriamente, precisa se traduzir na adoção de políticas e programas que respeitem os documentos assinados. Veja alguns destes direitos. »» Direito de escolher o parceiro sexual. »» Direito a desfrutar de uma vida sexual satisfatória. »» Direito de escolher se quer ou não ter relação sexual. »» Direito de escolher em que momento ter relação sexual. »» Direito de ter relação sexual independente da reprodução. »» Direito ao sexo seguro para prevenção da gravidez indesejada e de infecções sexualmente transmissíveis, incluindo a AIDS (DST/HIV/AIDS). »» Direito a serviços de saúde que garantam privacidade, sigilo e atendimento de qualidade e sem discriminação. »» Direito à autonomia e autodeterminação reprodutiva: direito de decidir, de forma livre, 86 se quer ou não ter filhos, quantos filhos deseja ter e em que momento de sua vida. PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única »» Direito de exercer a sexualidade e a reprodução livre de discriminação, imposição e violência. »» Direito de ter acesso à informação e aos meios para decidir e gozar de saúde sexual e reprodutiva. »» Direito de expressar livremente sua orientação sexual: heterossexualidade, homossexualidade, bissexualidade, entre outras. »» Direito de viver a sexualidade independentemente de estado civil, idade ou condição física. É preciso lembrar que os homens, historicamente afastados das responsabilidades sobre a saúde sexual e reprodutiva, precisam ser incluídos em todas as ações de saúde que visem a prevenção de gestações não desejadas ou de alto risco, a prevenção das infecções sexualmente transmissíveis (incluindo o HIV/ AIDS) e a valorização da paternidade, o que reforça a necessidade de que assumam, juntamente com as mulheres, as responsabilidades pelos filhos gerados. Direitos humanos nas respostas ao HIV/AIDS O significado dos direitos humanos transcende a ideia de direitos legais e sua aplicação pode gerar novas leis e políticas públicas em nível internacional e nacional. A aplicação dos direitos humanos deve se realizar de forma dinâmica e mediante ações efetivas e oportunas em situações concretas de violação, independentemente desses direitos estarem, ou não, reconhecidos em leis nacionais. Isso se dá em decorrência do caráter humanitário e da existência de um sistema de proteção internacional desses direitos. Assim, é possível se reivindicar a suspensão da pena de morte de uma mulher mulçumana por adultério mesmo que a lei local determine a aplicação desse tipo de pena. Nesse sentido, há um relativo consenso sobre a importância dos direitos humanos para os avanços políticos e para a melhoria das condições pessoais e sociais, em especial de grupos historicamente discriminados e vulneráveis às violações de direitos básicos (negros, mulheres, crianças, entre outros). Também, enfatiza-se a importância das leis e políticas públicas nacionais incorporarem os princípios e normas de direitos humanos para que seja favorecida a efetivação desses direitos internamente. A Constituição Federal Brasileira incorporou todos os princípios e normas de direitos humanos e muitas leis nacionais favorecem sua aplicação. As respostas ao HIV/AIDS exigem sistemas de saúde bem estruturados para a atenção à saúde e, também, uma atuação forte de outros sistemas, como o de justiça e o de segurança, devidamente articulados com o setor da saúde para a superação das vulnerabilidades. O uso dos direitos humanos nas reivindicações e na formulação de respostas ao HIV/AIDS representa um marco importante na relação entre a saúde pública e o direito, que operou na defesa de grupos e indivíduos discriminados e estigmatizados. Esse uso também vem servindo para ampliar o acesso à saúde a um número cada vez maior de pessoas e para reformular os modelos de atenção à saúde. As intervenções iniciais baseadas nos direitos humanos e relativas ao HIV/AIDS buscaram evitar a clandestinidade, que dificultava a prevenção de novas infecções e o cuidado das pessoas atingidas. O 87 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER princípio da não discriminação se firmou e passou a coibir a testagem compulsória e medidas sanitárias restritivas, como o afastamento de indivíduos sob suspeita de infecção ou daqueles sabidamente infectados. Há muitos direitos humanos que, isolados ou em combinação com outros, são aplicáveis para a melhoria das condições de vida das pessoas com HIV/AIDS. Leis, políticas e decisões judiciais garantem benefícios previdenciários, trabalhistas e de assistência social e o acesso universal e gratuito a tratamentos médicos. Outras medidas asseguram o respeito à vida privada, como o direito ao sigilo das informações prestadas aos profissionais, o direito de frequentar a escola, de não ser demitido do trabalho, de ter filhos ou casar-se. Os governos podem utilizar os direitos humanos como fundamento para formulação de políticas públicas relativas aos direitos à educação, à cultura, ao trabalho e ao usufruto dos benefícios do progresso científico, entre outros. Essa forma de utilização dos direitos humanos pode ser observada, por exemplo, na prevenção do HIV/AIDS, incluindo a educação sexual; no acesso aos medicamentos quando é determinando o licenciamento compulsório de determinado medicamento patenteado para reduzir o custo do tratamento; no acesso ao trabalho com a proibição da demissão,em razão de sua sorologia, de empregado com HIV/AIDS; e na punição de discriminações em razão da orientação ou da condição sexual, do sexo e de violências de gênero e familiar. Sobre o direito humano à saúde é importante destacar alguns aspectos. O direito à saúde deve ser garantido pelos Estados aos seus cidadãos por meio de políticas públicas que permitam o acesso de todos aos meios adequados para o seu bem-estar. Esse direito está garantindo na Constituição Federal Brasileira e nas leis nacionais. Um dos aspectos do direito à saúde é a atenção integral à saúde, que deve se realizar por meio de prestações positivas estatais com a disponibilização de serviços e insumos de atenção à saúde. O direito à assistência à saúde no Brasil tem a natureza de um direito social e comporta uma dimensão individual e outra coletiva em sua realização. A dimensão individual do direito à saúde pode ser descrita como aquela que visa garantir o direito de agir ou não agir sem constrangimento, exigindo que o Estado não promova ações, leis ou políticas que invadam ou limitem, de forma injustificada, a autonomia pessoal e que garanta a não violação, dispondo de mecanismos legais que coíbam seu descumprimento. Um exemplo ilustrativo é a discussão se o teste compulsório para o HIV constitui uma limitação justa e razoável à autonomia pessoal, considerando-se as implicações para a saúde pública. O entendimento foi firmado no sentido de que o teste compulsório constitui uma violação de direitos, pois não é eficaz e absolutamente necessário para a prevenção e promoção da saúde individual ou coletiva, em razão das características de transmissão do HIV/AIDS. A obrigatoriedade do teste é justificada, tão somente, em algumas situações, como nas doações de sangue ou de órgãos, realizadas de forma voluntária. O principal argumento é que as restrições à autonomia pessoal e as medidas compulsórias afastam as pessoas dos serviços de saúde por receio de constrangimentos à sua liberdade e discriminação, o que dificulta prevenção, promoção e recuperação da saúde. A dimensão social do direito à saúde é aquela operacionalizada coletivamente e deve garantir as condições necessárias para o alcance da saúde, como a política pública de acesso universal a medicamentos, distribuição de preservativos e outros insumos para prevenção do HIV/AIDS, ações educativas e campanhas publicitárias de prevenção. 88 As respostas ao HIV/AIDS têm incorporado estratégias e ações programáticas baseadas nos direitos humanos e têm buscado integrar medidas de reconhecimento de identidades (mulheres, homossexuais, PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única transexuais) e de redistribuição equitativa de recursos sociais (pobreza, trabalhadores) tanto na saúde, quanto em outros campos, como na educação, no trabalho, na vida familiar, entre outros. Quadro 1. Principais leis federais que buscam respaldar as respostas ao HIV/AIDS Título Nº Data EMENTA Decreto Presidencial 6.108 04/05/2007 Concede licenciamento compulsório, por interesse publico, de patentes referentes ao efavirenz para fins de uso publico não comercial. Lei Federal 10.449 09/05/2003 Dispõe sobre a comercialização de preservativos masculinos de látex de borracha em qualquer estabelecimento comercial, desde que atendam às exigências sanitárias. Lei Federal 10.237 11/06/2001 Dispõe sobre a inserção, nas fitas de vídeo destinadas à venda ou ao aluguel no país, da seguinte mensagem: “Faça sexo seguro. Use camisinha”. Lei Federal 9.313 13/11/1996 Dispõe sobre a distribuição gratuita de medicamentos aos portadores do HIV e aos doentes de AIDS. Lei Federal 9.263 12/01/1996 A lei do planejamento familiar, no item IV do parágrafo único do artigo 3º, prevê ações preventivas às DST e à AIDS. Lei Federal 7.713 22/12/1988 Isenta – em seu artigo 6o, inciso XIV – o portador do HIV de pagar imposto de renda sobre seus proventos de aposentaria. Lei Federal 7.670 08/09/1988 Estende, aos portadores da AIDS, benefícios referentes à licença para tratamento de saúde, à aposentadoria, à reforma militar, ao FGTS, entre outros. Lei Federal 7.649 25/01/1988 Obriga o cadastramento dos doadores e a realização de exames laboratoriais de sangue para detectar, inclusive, o HIV. Nos anos 1990, as respostas ao HIV/AIDS e a outras doenças sexualmente transmissíveis passam a ser articuladas a partir do referencial de saúde e direitos sexuais e reprodutivos como direitos humanos, o que ampliou, ainda mais, a relação entre igualdade, liberdade e justiça social na realização do direito à saúde e na vivência da sexualidade. A especial posição das mulheres e meninas em diversos planos de ação desenvolvidos nessa década e sob essa perspectiva, enfatiza não só o crescimento do HIV/AIDS entre as mulheres, mas, sobretudo, as vulnerabilidades femininas para o adoecimento e o papel central das mulheres nas ações de cuidado, educação, prevenção e promoção da saúde das famílias. Em 1994, o Plano do Cairo, resultante da Conferência de População e Desenvolvimento, reconheceu a sexualidade como algo positivo na vida das pessoas e afirmou o dever dos Estados na promoção da saúde sexual como integrante do direito à saúde e ao desenvolvimento sadio. Definiu o que denominou de direitos reprodutivos como um conjunto de direitos humanos que garantem o exercício da sexualidade e a reprodução humana livre de coerção, sem sofrer discriminação, violência ou restrição de qualquer natureza. Em seguida, a Plataforma da IV Conferência Mundial sobre a Mulher, realizada em 1995, avançou no sentido de se considerar, de forma específica, um conjunto de direitos humanos que garante o exercício da sexualidade – os denominados direitos sexuais. A afirmação dos direitos sexuais na Conferência sobre a Mulher reivindicou a promoção de igualdade entre os gêneros no âmbito da sexualidade, ou seja, que as mulheres deixem de ser vistas apenas como esposas, companheiras e mães. Essa visão sexista do exercício da sexualidade feminina constitui um dos maiores obstáculos para o desenvolvimento de ações específicas para as mulheres nas respostas ao HIV/AIDS. 89 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER Ética e DST/AIDS Às mulheres com DST/Aids é garantido o acesso gratuito aos exames, medicamentos e a todo tratamento que preserve sua saúde e evite a transmissão do HIV para o bebê. Os exames de pré-natal devem incluir exames de urina, hemograma, tipagem sanguínea, exame parasitológico, exame de sífilis e anti-HIV, dentre outros. A mulher deve ser esclarecida e dar o seu consentimento para todos os exames e/ou para qualquer outra intervenção médica. A assistência da mulher com HIV e AIDS foi ampliada, em 2007, no Plano Integrado de Enfrentamento da Feminização da Epidemia de AIDS e outras DST. Com o advento do tratamento antiretroviral e o aumento considerável na expectativa e qualidade de vida das pessoas com HIV/AIDS, surgem demandas reprodutivas específicas relativas ao direito de procriação para o exercício da maternidade e da paternidade. Algumas questões éticas e de saúde são abordadas no planejamento reprodutivo quando presente o risco de infecção do parceiro e do futuro bebê. Como exemplo, é discutida a possibilidade e o direito do parceiro soronegativo de se expor ou não ao HIV durante a relação sexual e a possibilidade da futura criança contrair HIV/AIDS. A questão ética central enfrentada pelos serviços de planejamento familiar é se as pessoas com HIV/AIDS têm a liberdade de decidir se, quando, com quem e como procriar. O direito à privacidade e à confidencialidade das informações prestadas aos profissionais de saúde é elemento central para a efetividade das ações de saúde e a sua não garantia constitui uma violação dos direitos humanos. No Brasil, a violação de sigilo profissional configura crime contra a liberdade individual, conforme disposto no Código Penal, e constitui uma violência institucional. Cabe à vítima a reparação pelos danos morais e materiais causados pela revelação. O Código de Ética Médica, dos Assistentes Sociais, do Enfermeiro e dos Psicólogos reiteram o disposto na lei penal e civil e consideram que, para a prática profissional, a revelação de aspectos e fatos da vida do usuário para outras pessoas pode acarretar consequências danosas para sua saúde e prejudicar a relação de confiança com a equipe de saúde. Mesmo nos casos de usuário criança ou adolescente, desde que se verifique que o assistido tem capacidade de avaliar o problema e de conduzir-se por seus próprios meios para solucioná-lo, o sigilo deve ser garantido. A quebra do sigilo profissional só é permitida no caso de risco para a saúde de outras pessoas e/ou para proteção do próprio assistido, no caso de incapacidade para decidir sobre seus atos. Por exemplo, no caso de pessoas que vivem com HIV e AIDS e que se negam a informar ao parceiro sexual sua condição sorológica ou que mantêm relação sexual desprotegida. Nesses casos, a equipe de saúde está autorizada a revelar, somente à pessoa que se encontra em risco, as informações indispensáveis para sua prevenção e cuidado. Você sabe o que são os Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA)? São serviços de saúde que realizam ações de diagnóstico e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Nesses serviços, é possível realizar, gratuitamente, testes para HIV, sífilis e hepatites B e C. Ao procurar um CTA, o usuário desse serviço tem direito a passar por uma sessão de aconselhamento, que pode ser individual ou coletiva, a depender do serviço. O atendimento nesses centros é inteiramente sigiloso. Quando os resultados são positivos, os profissionais do CTA são responsáveis por encaminhar as pessoas para tratamento nos serviços de referência. 90 PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER | UNIDADE única Violência contra a mulher e aspectos éticos A violência contra a mulher é condição intersetorial, interdisciplinar e apresenta importante interface com questões policiais e judiciais. Dessa forma, algumas informações são críticas para os profissionais de saúde que atendem as gestantes em situação de violência física e sexual. »» A Lei nº 10.778, de 24 de novembro de 2003, estabelece a notificação compulsória, no território nacional, dos casos de violência contra a mulher que forem atendidos em serviços de saúde. O cumprimento dessa medida é fundamental para o dimensionamento do problema e de suas consequências e contribui para a implantação de políticas públicas de intervenção e prevenção do problema. »» Em crianças e adolescentes menores de 18 anos de idade, a suspeita ou confirmação de maus-tratos ou de abuso sexual deve, obrigatoriamente, ser comunicada ao Conselho Tutelar ou à Vara da Infância e da Juventude, sem prejuízo de outras medidas legais conforme o artigo 13 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Essa medida é de extremo valor para oferecer a necessária e apropriada proteção às crianças e aos adolescentes, incluindo as gestantes com idade inferior a 18 anos. »» A palavra da gestante que busca os serviços de saúde e afirma ter sofrido violência deve ter credibilidade, ética e legal, e deve ser recebida como presunção de veracidade. O objetivo do serviço de saúde é garantir o exercício do direito à saúde e não se deve confundir seus procedimentos com aqueles reservados à polícia ou à Justiça. »» O boletim de ocorrência (BO) registra a violência para o conhecimento da autoridade policial, que determina a instauração do inquérito e investigação. O laudo do Instituto Médico Legal (IML) é documento elaborado para fazer prova criminal. A exigência de apresentação desses documentos para atendimento nos serviços de saúde é incorreta e ilegal. Embora sejam de indiscutível importância, a assistência à saúde da gestante é prioritária. Não há impedimento legal ou ético para que o profissional de saúde preste a assistência que avaliar como necessária. »» Após o atendimento médico, se a mulher tiver condições, poderá ir à delegacia para lavrar o BO, prestar depoimento ou submeter-se a exame pelos peritos do IML. Se por alguma razão não for mais possível a realização dos exames periciais diretamente pelo IML, os peritos podem fazer o exame de forma indireta, com base no prontuário médico. Assim, os dados sobre a violência sofrida e suas circunstâncias, bem como os achados do exame físico e as medidas instituídas, devem ser cuidadosamente descritos e registrados em prontuário médico. A grávida em situação de violência que recorre aos serviços de saúde encontra-se, geralmente, fragilizada e vulnerável. É comum que manifeste sentimentos de humilhação, vergonha, culpa, medo, desestruturação psíquica ou depressão. Existe forte necessidade de acolhimento e o profissional de saúde deve ter postura cuidadosa e sensível, lembrando a importância de estabelecer bom vínculo. Não se deve, em 91 UNIDADE única | PLANEJAMENTO E GESTÃO EM SAÚDE DA MULHER nenhum momento, colocar a veracidade da sua história ou as circunstâncias em que tenha acontecido em questão, por mais incomuns que possam parecer. Deve-se manter postura o mais neutra possível e evitar julgamentos e manifestações de valores pessoais. Além disso, é necessário respeitar as limitações emocionais e a fragilidade de cada mulher, especialmente no momento do exame clínico. Os profissionais de saúde devem estar preparados para o manejo clínico e psicológico das gestantes em situação de violência. Negligenciar esses aspectos, particularmente os emocionais, pode resultar na revitimização da mulher, lamentavelmente produzida pelos serviços de saúde. 92 referências ALBERNAZ, E.; VICTORA, C.G. Impacto do aconselhamento face a face sobre a duração do aleitamento exclusivo. Rev Panam Salud Publica, v. 14, n. 1, p. 17-24, 2003. ÁVILA, M.B. Direitos sexuais e reprodutivos: desafios para as políticas de saúde. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 19, 2003. BEAUVOIR, S. O Segundo Sexo: Vol. I. Os factos e os mitos. 4. ed. Lisboa: Livraria Bertrand, 1975. BEAUVOIR, S. O Segundo Sexo: Vol. II. A experiência vivida. 2. ed. 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